P. 1
Bullying escolar perguntas e respostas - Versão sem figuras

Bullying escolar perguntas e respostas - Versão sem figuras

5.0

|Views: 19.316|Likes:
Publicado porapi-26082904

More info:

Published by: api-26082904 on Dec 01, 2009
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

06/26/2015

pdf

text

original

1 REFERÊNCIA: FANTE, Cleo; PEDRA, José Augusto. Bullying escolar: perguntas & respostas. Porto Alegre: Artmed, 2008.

ISBN 978-85-363-1366-5

Cleo Fante: Pedagoga e historiadora. É pioneira nos estudos e nas publicações sobre o tema bullying escolar no Brasil. Autora do programa antibullying Educar para a paz. Vice-presidente do Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar - Cemeobes, Brasília/DF. Consultora educacional, docente e coordenadora de cursos de capacitação e pós-graduação em bullying escolar. José Augusto Pedra: Teólogo e psicólogo clínico. Especialista em inteligência multifocal aplicada à reestruturação da educação. Autor de diversos cursos, dentre eles: A saúde emocional do educador e o gerenciamento do estresse; Otimização de performance de atletas; Preparação de candidatos a concursos; A pedagogia da roda dos sonhos. Presidente do Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar - Cemeobes, Brasília/DF. Docente em cursos de pós-graduação e de capacitação.

APRESENTAÇÃO Sabemos que a maneira pela qual os estudantes se relacionam entre si e com seus professores é decisiva para o desenvolvimento do processo socioeducacional. Durante as aulas e fora delas é comum o surgimento de "zoações" e alguns tipos inusitados de brincadeiras, que tornam o ambiente escolar mais descontraído e atrativo. Segundo os alunos, são “o que há de melhor na escola". Porém, muitas vezes, essas brincadeiras são travestidas de crueldade, prepotência e insensatez, ultrapassando em muito os limites suportáveis, que variam de acordo com o grau de tolerância de cada indivíduo, e se convertendo em atos de violência. Quando repetitivos, intencionais e deliberados, com o intuito de intimidar e causar sofrimento a outro(s), são atos de bullying. O bullying é diferente de uma brincadeira inocente, sem intenção de ferir; não se trata de um ato de violência pontual, de troca de ofensas no calor de uma discussão, mas sim de atitudes hostis, que violam o direito a integridade física e psicológica e à dignidade humana. Ameaça o direito à educação, ao

2 desenvolvimento, a saúde e a sobrevivência de muitas vítimas. As vítimas se sentem indefesas, vulneráveis, com medo e vergonha, o que favorece o rebaixamento de sua auto-estima e a vitimização continuada e crônica. Em todo o mundo milhões de estudantes deixam de comparecer às aulas por medo de sofrer bullying. Somente nos Estados Unidos, 160 mil estudantes não comparecem (página 9) às aulas diariamente por causa do bullying. No Brasil, não temos dados quantitativos que nos possibilitem esse conhecimento, porém sabemos que o índice de absentismo e alto. O bullying interfere no processo de aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo, sensorial e emocional. Favorece o surgimento de um clima escolar de medo e insegurança, tanto para aqueles que são alvos como para os que assistem calados às mais variadas formas de ataques. O baixo nível de aproveitamento, a dificuldade de integração social, o desenvolvimento ou agravamento das síndromes de aprendizagem, os altos índices de reprovação e evasão escolar têm o bullyingcomo uma de suas causas. Essa forma de violência, muitas vezes interpretada como "brincadeiras próprias da idade", traz uma série de prejuízos, que se refletem não apenas no processo de aprendizagem e socialização, mas, sobretudo, na saúde do indivíduo. Diariamente, milhares de estudantes em nosso país procuram atendimento medico apresentando sintomas psicossomáticos - dores de cabeça e de estomago, febre, diarréia, vômitos, alergias, taquicardia -, transtornos do sono e do apetite, estresse, depressão, além de inúmeras doenças, inclusive de ordem psiquiátrica. Muitos daqueles que são vítimas de bullying por um período prolongado de tempo manifestam tendências suicidas ou dão cabo à própria existência. Outros tantos reproduzem a vitimização contra terceiros ou integram-se às gangues com o intuito de revide. Alguns, após anos de sofrimentos, chegam ao limite de suas forças e, não suportando mais as humilhações que lhes são imputadas, entram armados na escola, protagonizando grandes tragédias. Nos Estados Unidos, dos 37 tiroteios que ocorreram em escolas, dois terços dos autores cometeram seus crimes como vingança por causa da vitimização bullying. Columbine e Virgínia Tech são exemplos de instituições onde o bullying levou a conseqüências lamentáveis. Em ambos os casos, os protagonistas eram ridicularizados na escola e excluídos do convívio social. Ao todo, foram 45 mortos e dezenas de feridos, além de inúmeros traumatizados necessitando de acompanhamento psicológico (ver a resposta à pergunta 39, no Capitulo 3). No Brasil, o bullying foi responsável pela tragédia de Taiúva, pacata cidade do interior paulista, onde um jovem obeso foi motivo de chacota durante toda a sua vida acadêmica. Não suportando mais as humilhações, ele abriu fogo contra 50 (página 10) estudantes que estavam no pátio de recreio, feriu seis deles, a vice-diretora da escola e um funcionário, suicidando-se em seguida (ver a resposta à pergunta 40, no Capitulo 3). Também em Remanso, no interior baiano, um jovem matou duas pessoas e feriu três, em decorrência de anos de ridicularizarão. Sua intenção era suicidar-se, porém foi possível desarmá-lo. Muitos bullies (aqueles que praticam bullying), sejam meninos ou meninas, demonstram desde a infância suas habilidades de intimidação. Com o passar do tempo, e sem intervenção, esse comportamento se fortalece e solidifica, comprometendo a aprendizagem de valores humanos, como a tolerância, a solidariedade, o respeito às diferenças, a compaixão. Vários, quando adultos, praticam a violência doméstica e o assédio moral no trabalho. Outros se envolvem em delinqüência, usa de drogas e criminalidade. Alguns fatores propiciam o bullying, sua banalização e legitimização: atitudes

3 culturais, como o desrespeito, a intolerância, a desconsideração ao "diferente"; a hierarquização nas relações de poder estabelecidas em detrimento da fraqueza de outros; o desejo de popularidade e manutenção do status a qualquer preço; a reprodução do comportamento abusivo como uma dinâmica psicossocial expansiva; a falta de habilidades de defesa, a submissão, a passividade, o silêncio e sofrimento das vítimas; a conivência daqueles que assistem e o incentivo às ações cada vez mais cruéis e desumanizantes; a violência doméstica, a ausência de limites, a permissividade familiar, a falta de exemplos positivos; a omissão, o despreparo, a falta de interesse e comprometimento de muitos profissionais e instituições escolares; a impunidade, o descaso e a falta de investimentos e políticas publicas voltadas a educação e a saúde para o tratamento e a prevenção, dentre outros. Como pesquisadores do fenômeno bullying, nosso objetivo é responder neste livro as perguntas que mais comumente são formuladas por pais, alunos, profissionais da educação, jornalistas e todos aqueles que entram em contato com o tema. Sua apresentação, por meio de perguntas e respostas, objetiva facilitar a compreensão, a conscientização, dar esclarecimentos e fornecer orientação para minimizar os efeitos negativos do bullying e desenvolver uma cultura de paz nas escolas. Além de responder as questões ligadas ao fenômeno bullying, o livro procura esclarecer sobre o trote e o (página 11) assédio moral ou mobbing, que são formas de violência que ocorrem em outros ambientes, muitas vezes decorrentes do envolvimento bullying em época escolar. Outro aspecto abordado e o que diz respeito ao encaminhamento correto e seguro dos casos, a partir do qual a comunidade escolar contribuirá preventivamente para o esvaziamento do efeito epidêmico do fenômeno. De forma inovadora, apresentamos na primeira parte do livro uma historia que facilitara o entendimento da dinâmica bullying para crianças, professores e pais. Para as crianças, proporcionará identificação com situações cotidianas facilitando, assim, a compreensão das atitudes norteadoras da cidadania e da convivência pacífica solidária. Aos pais e responsáveis, amantes da educação para a paz, instrumentaliza com esclarecimentos e orientações seguras de ações preventivas nas interações com os filhos. Aos professores, facilitará a introdução do tema em sala de aula, bem como o trabalho de educar para a paz e de incentivar estratégias de convivência pacifica solidária. Nos anexos, disponibilizamos atividades reflexivas relativas ao texto, onde os alunos poderão expressar seus sentimentos e emoções, além de subsidiar os professores na identificação de possíveis envolvimentos em bullying. Nossa parceria há quatro anos resultou na criação do Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobes), com sede em Brasília (DF), entidade pioneira no país, que se dedica exclusivamente ao estudo do fenômeno. O Cemeobes realizou em 2006 o I Fórum Brasileiro sobre o Bullying Escolar, resultando na Carta Aberta de Brasília (www.bullying.pro.br). Esse documento é um marco na luta contra esse mal, que assola desde há muito tempo nossas casas, nossas escolas, nossos locais de trabalho, enfim nossa sociedade. Em abril de 2007 (D.O. 24/04/2007), foi qualificado pela Secretaria Nacional de Justiça, do Ministério da Justiça, como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). A falta de consciência da natureza, extensão e seriedade do problema acabam por legitimar o bullying. Portanto, se quisermos erradicá-lo de nosso convívio, é necessário o estabelecimento de parcerias entre os diversos segmentos

4 sociais, o envolvimento e o compromisso com uma cultura de paz. (página 12).

(Página 13) Os elefantes, os camelos e os pássaros ficaram responsáveis pelo fornecimento de água. (Página 14). Os leões, os rinocerontes, os búfalos e as zebras foram encarregados de fornecer toda a madeira necessária. Já os porcos, os hipopótamos e os jacarés cuidaram da confecção de tijolos. Os castores, os veados e as hienas, com o apoio dos joões-de-barro, se comprometeram em levantar as paredes. (Página 15) Como o trabalho exigia altura e agilidade, as girafas e os macacos se propuseram a construir o telhado. Os camaleões, os pavões e as borboletas cuidaram da pintura e da decoração. (Página 16) Depois da escola pronta, fizeram uma grande festa, para comemorar o resultado dos seus esforços. Descobriram que, graças à solidariedade e à cooperação de todos, poderiam, finalmente, estudar todos juntos. (Página 17) Com o passar do tempo, a bicharada tornou-se esclarecida e consciente da sua realidade e aprendeu, dentre outros conhecimentos, a importância de cada um na sociedade. Os bichos reuniram-se toda semana para discutir vários assuntos e encontrar soluções para a melhoria da qualidade de vida. As boas relações entre as

5 diferentes espécies favoreciam tanto os que ensinavam quanto os que aprendiam. (Página 18) Porém, numa manhã fria de inverno, surgiu na escola um bicho muito estranho. Seu olhar de valentão dava medo, causava até arrepios. Ninguém sabia de onde ele tinha vindo e a que espécie pertencia. (Página 19) Não se parecia com nenhum habitante do planeta. Por suas características e pelo tipo de influencia que provocou em outros bichos, chamaram-no de Bullying. Os animais que com ele tiveram contato mudaram o comportamento e a maneira de agir com os colegas. Tornaram-se agressivos, prepotentes e perversos. Adotaram formas de “brincar” muito diferentes das conhecidas até então. Suas “brincadeiras” geravam sofrimento, chateação, vergonha e constrangimento aos colegas, inibindo o aprendizado e a maneira de ser de cada espécie. (Página 20) Suas atitudes tornaram-se hostis com os mais fracos e indefesos. As diferenças existentes entre eles, que antes eram consideradas normais, passaram a ser motivo de chacotas e ridicularizações. Os que apresentavam dificuldades de aprendizagem eram “zoados” e apelidados. Muitos acabaram desistindo da escola, outros sofriam calados, temendo represálias. (Página 21) A maioria dos bichos presenciava o comportamento dos colegas, mas, por alguma razão, nada faziam. Essas mudanças de comportamento provocaram sérios problemas de convivência na escola e o interesse pelos estudos ficou prejudicado. Assim, o Leão tornou-se o valentão da escola, agindo de maneira dominadora e procurando impor sua autoridade. O urso, vendo que a popularidade do leão crescia a cada dia, passou a usar sua força para intimidar e obter vantagens. A cobra, que até então era amiga e conselheira, começou a espalhar boatos difamando a galinha, dizendo que esta era namoradeira. Como tinha habilidade para desenhar, retratava a galinha em situações constrangedoras e passava para todos os colegas. (Página 22) O cachorro, que antes protegia a todos, também mudou seu comportamento e passou a agir com perversidade rosnando e fazendo ameaças. Coagia a girafa, obrigando-a a destruir os ninhos de passarinhos ao término das aulas. Os passarinhos indignados, reclamaram na escola, mas a perseguição aumentou ainda mais, deixando-os apavorados. A hiena, temendo tornar-se a próxima vítima, ria da maldade que os colegas faziam. Como estratégia, passou a criticar a gralha, responsável pelo sinal da troca de aulas, devido ao seu tom de voz estridente. A gralha, ouvindo constantemente as risadinhas dos colegas e sentindo-se humilhada, foi aos poucos se retraindo, até que desenvolveu uma gagueira e não pode mais tocar o sinal da escola. A anta, cheia de dúvidas, evitava fazer perguntas a professora, pois se sentia envergonhada pela zoação que recebia, prejudicando sua aprendizagem. (Página 23) Com a preguiça algo semelhante aconteceu. Aos poucos foi excluída do grupo. Tão chateada ficou que a motivação para os estudos e suas notas despencaram. Nem o alegre e estudioso pingüim escapou aos maus-tratos. Sofria perseguição porque estava sempre elegante e bem-vestido. Depois de algum tempo tornou-se estressado e mal-humorado. Revoltante mesmo foi o que fizeram com o camelo e o esquilo. Eles não sabiam mais o que fazer, porque eram obrigados a entregar seus lanches todos os dias, para não apanhar na saída da escola. Com o veado, os valentões da escola pegaram pesado: excluíram-no do time de futebol, dizendo que era demasiadamente sensível para os esportes. Situação humilhante enfrentava o coelho. Seus colegas faziam gestos em sua

6 direção e riam, apontando para o tamanho dos seus pés, dentes, orelhas. Com o tucano também foi assim, só que este tornou-se agressivo, por causa das piadinhas que faziam com o seu bico, e durante o recreio procurava os galhos mais altos e afastados para sozinho comer o seu lanche. Já o urubu andava chateado, porque era sempre constrangido devido à sua alimentação. O gambá decidiu abandonar a escola porque implicavam com o seu cheiro. A onça, cansada de receber apelidos por causa das suas pintas, resolveu implicar com o tamanho da boca do jacaré. O jacaré, por sua vez, acabou descontando no sapo, que adoeceu de tanto medo. (Página 24) Estranho foi o que fez a pacífica ovelha: proibia a pata de lanchar com a turma. A pata, não entendendo os motivos, chorava pelos cantos da escola, acreditando que ninguém gostava dela. Aos poucos, sua auto-estima foi baixando, até que perdeu a confiança em si mesma, tornando-se insegura, aflita e temerosa. Até a pacata zebra mudou seu comportamento, depois de muito sofrer “zoações” por causa das suas listras, e passou a dar coices nos colegas. O tatu provocava inúmeras situações embaraçosas e, como não conseguia se defender, se escondia no buraco, mas, quando saía, levava cada safanão... A coruja sofreu tanta “zoação” por causa dos seus olhos grandes que já não queria mais sair de casa. Em conversa com sua mãe, ela contou que sentia muita raiva dos colegas, que não queria voltar para a escola e que pensava em se vingar. (Página 26) O elefante, coitado, ia para escola de casaco, num calor danado, para disfarças sua gordura. Um dia, cansado das chacotas dos colegas, decidiu emagrecer, mas acabou desenvolvendo anorexia (perdeu a vontade de se alimentar) e teve que interromper seus estudos para tratamento. O canguru não agüentava mais: todo dia desaparecia alguma coisa da sua mochila. O macaco, muito bisbilhoteiro, sempre levava a culpa, mesamo sendo inocente. Irritado com as acusações injustas, começou a fazer brincadeiras inconvenientes com o porco por causa dos seus problemas intestinais. (Página 27) Fato curioso aconteceu com o rinoceronte: apanhava todos os dias. De tão amedrontado, quis desistir da escola, mas seus pais não deixaram. Bem que tentava se defender, mas, sozinho, sentia-se impotente para enfrentar o grupo. Para ele, pior do que apanhar dos colegas, apesar do seu tamanho, era mentir para os pais, inventando desculpas para faltar às aulas. Triste mesmo foi o que aconteceu com a raposa. Antes ela era meiga, esperta, excelente aluna, mas de tanto sofrer intimidações, foi perdendo a espontaneidade e a alegria de viver. Dizem que agora é perigosa, entrou para uma gangue e está envolvida com drogas. Com o cavalo também foi assim. Querendo dar um basta nos maus-tratos que sofria, veio armado para escola e acabou sendo expulso. Com a abelha e a formiga não foi diferente. Após sofrerem muitas ofensas por causa do seu tamanho, elas formaram um grupo e planejaram estratégias de ataques contra seus colegas nos banheiros e no pátio do recreio. Interessante percepção foi a mãe coruja. Notando que sua filha chegava da escola agressiva, com ar de superioridade, querendo intimidar seus irmãos mais novos, resolveu ficar atenta. Procurou a direção da escola e contou o que estava acontecendo, querendo saber se lá ela agia assim. Nessa época, vários pais procuraram a escola para tentar entender os problemas apresentados por seus filhos. Outros começavam tirar os filhos da escola. Até os professores não agüentavam mais tanta violência. (Página 28) Após reunir a equipe de professores e analisar os problemas enfrentados, a direção da escola percebeu que toda essa mudança de comportamento foi

7 promovida por aquele bicho estranho, que haviam chamado de Bullying. Assim, a escola resolveu convocar todos seus profissionais, os pai e os alunos para uma grande reflexão. O grupo concluiu que o medo, a insensibilidade, a dificuldade de compreender e se colocar no lugar do outro e a intolerância às diferenças individuais de cada um estavam prejudicando o ensino, a aprendizagem, as relações sociais entre as espécies, e a violência crescia no ambiente escolar. O papai búfalo lembrou a todos que, na construção da escola, cada um contribuiu conforme as suas habilidades e o resultado foi extraordinário. Todos cooperaram com alegria, e a amizade foi fortalecida entre eles. O diretor considerou que a maior dificuldade dos alunos não estava na aprendizagem das disciplinas curriculares, mas sim na convivência, e disse que, doravante, todos na escola se empenhariam em educar os alunos para a paz, a fim de que a escola se tornasse um lugar onde todos pudessem ser incluídos. Por isso, resolveram ensinar sobre a importante participação das diferentes espécies na história da evolução e da manutenção do planeta. (Página 31) Desta forma, os alunos aprenderam que as diferenças sempre existirão, mas são os diferentes que fazem a diferença. (Página 32)

8 1 DEFINIÇÃO DO TERMO BULLYING 1. Muito se tem ouvido falar em bullying, mas, afinal, o que ele significa? Bullying é uma palavra de origem inglesa adotada em muitos países para definir “o desejo consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa e colocá-la sob tensão" (Tatum e Herbert, 1999). É um termo utilizado na literatura psicológica anglo-saxônica, nos estudos sobre o problema da violência escolar, para designar comportamentos agressivos e anti-sociais. O bullying "compreende todas as atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação ao evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro (s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder, tomando possível a intimidação da vítima" (Lopes Neto e Saavedra, 2003). Trata-se de uma dinâmica psicossocial expansiva que envolve um número cada vez maior de crianças e adolescentes, meninos e meninas, a medida que muitas vítimas reproduzem a vitimização contra outro (s). É um problema epidêmico, específico e destrutivo, motivo pelo qual deve ser considerado questão de saúde pública. Portanto, requer esforços, investimentos e ações estratégicas conjuntas, por parte de toda a (página 33) comunidade escolar e das autoridades competentes ligadas à educação, à saúde e à segurança pública, por meio de programas preventivos e assistenciais. 2. Qual a origem da palavra “bullying”? Bully pode ser traduzido como valentão, tirano, brigão. Como verbo, bully, significa tiranizar, amedrontar, brutalizar, oprimir, e o substantivo bullying descreve o conjunto de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (bully) ou grupo de indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo (ou grupo de indivíduos) incapaz de se defender. Todos nós, certamente, já fomos vítimas de um bully em algum momento de nossas vidas. O abuso de poder, a intimidação, a prepotência são algumas das estratégias que o bully adota para impor sua autoridade e manter suas vítimas sob domínio. Na família, os bullies podem ser identificados na figura de genitores, irmãos ou cônjuges autoritários e cruéis, que atormentam a vida de suas vítimas, minando seus esforços e sua auto-estima. Na escola eles aterrorizam, provocam, manipulam e hostilizam os mais fracos e indefesos. No trabalho, suas atitudes são prepotentes, dissimuladas e perversas. Os bullies estão em toda parte, suas atitudes podem ser notadas no trânsito, nos condomínios, nas filas de banco, nos hospitais, nas delegacias, nas forças armadas, nos presídios, nos asilos de idosos, na política, nas igrejas, enfim nos mais diversos contextos sociais. 3. Não há no português uma palavra equivalente para referir-se ao bullying, como por exemplo, intimidação? Na maioria dos países onde o fenômeno é estudado, emprega-se o termo em inglês. Entretanto, existem alguns países que utilizam outros termos de sua língua sem que se perca o significado. São usados, por exemplo, mobbing, na Noruega e na Dinamarca; mobbning, na Suécia e na Finlândia; hercèlement quotidien, na França; prepotenza ou bullismo, na Itália; yjime, no Japão; Agressionen unter (página 34) Shülern na Alemanha; acoso e amenaza entre escolares ou intimidación, na Espanha. Em Portugal, o termo já é utilizado de forma politicamente correta. No Brasil, tivemos dificuldade para encontrar um termo equivalente que expresse o fenômeno com a mesma amplitude do termo inglês. O termo intimidação não

9 expressa as diversas e complexas possibilidades de ações empregadas nesta síndrome psicossocial. A intimidação é uma das muitas formas de ataque empregadas por autores de bullying. 4. Qual é a diferença entre os termos mobbing e mobbning? Ambos são empregados para definir uma situação onde um indivíduo age sozinho ou em grupo para ridicularizar outro. A raiz inglesa mob refere-se a um grupo grande e anônimo de pessoas que geralmente se dedica ao assédio. Mesmo não sendo um termo adequado do ponto de vista lingüístico, mobbning, é usado para definir uma situação na qual uma pessoa atormenta, hostiliza ou molesta uma outra (Olweus, 1998). 5. Qual é a diferença entre os termos mobbing e bullying? O termo mobbingé freqüentemente usado para definir o abuso de poder entre adultos em ambientes profissionais, embora alguns países se utilizem do termo bullying. Geralmente o termo Bullying é usado para definir o abuso de poder em ambientes escolares. O termo Mob tem sido empregado para designar a Máfia. Assim, mobbingnos remete à idéia da constituição de grupos com caráter mafioso no ambiente laboral, ou seja, grupos que exercem pressões e ameaças sobre outros trabalhadores. No Brasil, o mobbing édefinido como assédio moral. 6. Onde se iniciaram os estudos sobre bullying e o que provocou tais iniciativas? Os estudos tiveram início na década de 1970 na Suécia e na Dinamarca. Na década de 1980, a Noruega desenvolveu grande pesquisa sobre o tema, expandindo (página 35) os estudos para inúmeros paises europeus. Como reflexo desses estudos, o tema chegou ao Brasil no fim dos anos de 1990 e início de 2000. As iniciativas foram provocadas pelo aumento do número de suicídios entre crianças e adolescentes, especialmente na Europa. Esse fato fez com que os pesquisadores buscassem suas principais causas, encontrando entre elas os maustratos praticados por parte dos companheiros de escola. Esse fato despertou a atenção de profissionais, principalmente da área de psicologia, que passaram a estudar as formas de relacionamento entre os alunos. Constataram em seus estudos a existência de um fenômeno antigo, mas que requeria atenção e tratamento, por comprometer o desenvolvimento psicológico, especialmente daqueles que são vitimizados. (Fante, 2005) 7. Quais são as ações que podem ser compreendidas como atos de bullying? São inúmeras as ações, dentre elas apelidar, ofender, "zoar", "sacanear", humilhar, intimidar, "encarnar", constranger, discriminar, aterrorizar, amedrontar, tiranizar, excluir, isolar, ignorar, perseguir, chantagear, assediar, ameaçar, difamar, insinuar, agredir, bater, chutar, empurrar, derrubar, ferir, esconder, quebrar, furtar e roubar pertences. 8. Quais são os tipos de maus-tratos utilizados pelos autores de bullying e como ocorrem na pratica as condutas bullying"? Nos estudos sobre o bullying, os tipos de maus-tratos encontrados são: físico, verbal, moral, sexual, psicológico, material e virtual. Ocorrem quando um ou mais alunos elegem uma vítima para "bode expiatório" do grupo e contra ela exercem

10 força coerciva, com atitudes agressivas, contra as quais a vítima não consegue se defender. Os autores mobilizam a opinião dos colegas contra a vítima, através de boatos difamatórios ou apelidos que acentuam alguma característica física, psicológica ou trejeito considerado negativo, diferente ou esquisito. (página 36) Outros perseguidos são os estranhos, os nerds, os que têm sotaque, jeito efeminado ou sensível, no caso dos meninos, ou masculinizado e grosseiro, no caso das meninas, ou aqueles que são diferentes da maioria dos alunos. Os agressores normalmente maltratam suas vítimas, constrangendo-as com zombarias, "zoações", "sacanagens" ou valendo-se de gestos, expressões faciais, risadinhas irônicas ou olhares ameaçadores. Na maioria dos casos, a vítima sente-se isolada e excluída do convívio dos colegas, seja por ter o moral rebaixado, seja pela rejeição a ela que os grupos manifestam, uma vez que não querem entre eles alguém “tão fraco ou indefeso" ou temem que, ao apoiá-la, tenham que enfrentar os seus agressores e tomem-se as próximas vítimas. 9. O que diferencia o bullying de outros tipos de violência? A principal diferença é a propriedade de causar traumas irreparáveis ao psiquismo das vitimas, comprometendo sua saúde física e mental e seu desenvolvimento socioeducacional. Ao contrário de outras ações violentas, ocasionais e reativas, o bullying é caracterizado por ações deliberadas e repetitivas, pelo desequilíbrio de poder e pela sutileza com que ocorre, sem que os adultos percebam ou permitindo que estes finjam não perceber. O bullying é uma forma de violência que resulta em sérios prejuízos, não apenas ao ambiente escolar, mas a toda a sociedade, pelas atitudes de seus membros. As relações desestruturadas por meio de condutas abusivas e intimidatórias incidem na formação dos valores e do caráter, o que refletirá na vida do indivíduo, no campo pessoal, profissional, familiar e social. O bullying está diretamente relacionado à formação de gangues, ao usa de drogas e armas, à violência doméstica e sexual, aos crimes contra o patrimônio e, conseqüentemente, à necessidade de altos investimentos governamentais para atender a demanda da Justiça, dos presídios, dos programas sociais e da saúde. (www.diganaoaobullying.com.br). (página 37) 10. Como distinguir uma brincadeira inofensiva dos atos de bullying? As brincadeiras acontecem de maneira natural entre as pessoas. Elas brincam, "zoam", colocam apelidos umas nas outras, dão risadas e se divertem. Porém, quando essas brincadeiras ganham requinte de crueldade, de perversidade e "segundas intenções" e extrapolam os limites suportáveis - que variam de acordo com a história intrapsíquica de cada individuo -, transformam-se em atos de violência. Outro aspecto é que quando se trata de brincadeiras normais e saudáveis todos se divertem. Porém, quando apenas uns poucos se divertem à custa de outros, que sofrem, não se trata mais de uma simples brincadeira, e sim de um ato de violência. Lembremos que é possível notar claramente quando alguém fica constrangido, não se sente à vontade ou não gosta de uma brincadeira. 11. Qual é a diferença entre as práticas de bullying do passado e as atuais? No passado, grupos de alunos se uniam para tomar o lanche, os pertences ou o dinheiro do colega ou, ainda, ameaçá-lo, persegui-lo ou obrigá-lo a fazer tarefas ou incluir seus nomes no grupo de trabalho. Hoje, o bullying ganhou mais requinte, com a utilização das modernas ferramentas disponíveis na internet e nos

11 telefones celulares para espalhar medo, boatos, difamações, humilhações, causando graves transtornos para a vítima e seus familiares. Esta nova modalidade de ataque é denominada ciberbullying ou assédio virtual. (página 38) 2 CRITÉRIOS PARA A IDENTIFICAÇÃO DO BULLYING 12. Quais são os critérios usados pra identificar o comportamento bullying? Existem alguns critérios básicos, que foram estabelecidos pelo pesquisador Dan Olweus, da Universidade de Bergen, na Noruega (1978 a 1993), para identificar as condutas bullying e diferenciá-las de outras formas de violência e das brincadeiras próprias da idade. Os critérios estabelecidos são: ações repetitivas contra a mesma vítima num período prolongado de tempo; desequilíbrio de poder, o que dificulta a defesa da vítima; ausência de motivos que justifiquem os ataques. Acrescentamos ainda que se devem levar em consideração os sentimentos negativos mobilizados e as seqüelas emocionais, vivenciados pelas vítimas de bullying. 13. Como podemos caracteriza os atos repetitivos? De acordo com Olweus (1999), o bullying é compreendido como um subconjunto de comportamentos agressivos, sendo caracterizado por sua natureza repetitiva e por desequilíbrio de poder. Ainda segundo o autor, considera-se que as ações são repetitivas quando os ataques (página 39) são desferidos contra a mesma vítima num período de tempo, podendo variar de duas ou mais vezes no ano letivo. Parece pouco, mas devemos levar em conta a desagradável e aversiva experiência emocional vivenciada pela vítima. Um fator que devemos levar em consideração é o medo, que se toma constante, principalmente de que o ataque volte a acontecer, por isso, a vítima mobiliza, inconscientemente, sentimentos como ansiedade, medo, insegurança, angústia, raiva, além de tensão, constrangimento, receio de fazer uma pergunta ao professor e ser alvo de "zoação", etc. Para a vítima, é preferível calar-se ou isolar-se dos demais na tentativa de minimizar seu sofrimento. Mesmo fora do ambiente escolar a vítima continua lembrando-se dos episódios e somatizando-os, como se de fato estivesse na presença dos seus agressores. Imaginemos uma criança ou adolescente que passa por esse tipo de constrangimento, mobilizando medo, angústia, raiva e desejo de vingança. Após alguns anos, ela provavelmente se encontrará desestruturada, no limiar de suas forças e até mesmo de sua sanidade. 14. Como podemos caracterizar o desequilíbrio de poder entre vítima e agressor? O desequilíbrio de poder é caracterizado pelo fato de que a vítima não consegue defender-se com facilidade independente da sua idade ou estatura física, nem motivar outros para que a defendam. Geralmente, os ataques são produzidos por um grupo de agressores, o que reduz as possibilidades de defesa das vítimas. As estratégias de ataque normalmente são ardilosas e sutis, expondo as vítimas à vergonha e ao constrangimento público. Entre os praticantes de bullying evidenciase a insegurança pessoal, por isso a escolha das vítimas é feita, preferencialmente, contra aqueles que não dispõem de habilidades de defesa. Outro fator que se evidencia é a habilidade de liderança, de influência e de persuasão. Normalmente,

12 os bullies são muito habilidosos em sair-se bem de situações difíceis, especialmente quando indagados sobre seus atos agressivos. (página 40) 15. Como entender a ausência de motivação que justifique os ataques? Os ataques bullying não acontecem em decorrência de uma causa reativa, pois não surgem de uma discussão, conflito ou briga entre dois ou mais indivíduos. Simplesmente, os que praticam bullying elegem um colega que tenha em seu aspecto físico ou psicológico traços que denunciam ser ele uma presa fácil aos ataques. O "bode expiatório" deixa claro em suas atitudes que não revidará, não denunciará e nem conseguirá motivar outros em sua defesa. Portanto, o bullying nasce da recusa a uma diferença, da intolerância, do desrespeito ao outro. 16. Quais são as emoções mais comuns despertados nas vítimas de bullying? Dependendo da estrutura psicológica de cada indivíduo, o bullying poderá mobilizar ansiedade, tensão, medo, raiva reprimida, angústia, tristeza, desgosto, sensação de impotência e rejeição, mágoa, desejo de vingança e pensamento suicida, dentre outros. Porém, devemos pensar nos tipos de construções inconscientes de cadeias de pensamentos que estarão sendo construídas na memória da vítima e suas implicações para o desenvolvimento da auto-estima, da socialização e do aprendizado. A experiência bullying é traumática ao psiquismo das vítimas, pois promove o superdimensionamento do registro em sua memória, por causa da forte carga emocional de constrangimento vivenciada. Daí por diante, seja de fonte extrapsíquica ou intrapsíquica, a cada novo estímulo aversivo, gerado pela presença ou lembrança do agressor, novas construções de cadeias de pensamentos se constroem, aprisionando a mente da vítima a emoções desagradáveis e geradoras de desequilíbrios biopsicossociais. (Cury, 1998) 17. Existe a tendência de se acreditar que todos os atos violentos que acontecem na escola são bullying? Sem dúvida. Muitos pais e profissionais que lidam com a clientela escolar podem considerar bullying algo (página 41) que não o é, em decorrência de sua complexidade. Por isso, é necessário conhecer e reconhecer o fenômeno, a fim de diferenciá-lo das brincadeiras ou atitudes inconseqüentes próprias da idade, além das demais formas de violência. Portanto, é imprescindível, ao analisar uma conduta agressiva, verificar se esta preenche os critérios estabelecidos para a identificação do fenômeno, para depois prosseguir em seu encaminhamento. Atuando dessa forma, a margem de erro é mínima, e as estratégias de atuação se tomam mais efetivas. 18. Sofrer bullying e sofrer discriminação são coisas diferentes? A discriminação é um mal que assola a nossa sociedade e pode ser contra um determinado povo, raça ou grupo, além de outros. A discriminação é uma das ações praticadas contra as vítimas de bullying. Todavia, para que uma situação seja considerada como um caso de bullying, a vítima tem de ser alvo dos ataques de maneira repetitiva durante um prolongado período de tempo, não havendo motivos evidentes que justifiquem os ataques. É necessário haver desequilíbrio de poder, fato que impede sua defesa, além dos sentimentos desagradáveis que são mobilizados. Portanto, sem observar os critérios estabelecidos para a identificação

13 do fenômeno, jamais se deve creditar ao bullying uma ação discriminatória pontual. 21. O que é bullying homofóbico? Porque essa prática ocorre? É a prática das diversas formas de ataque bullying contra os homossexuais. É o ato de submeter homossexuais a chacotas, humilhações, ameaças, perseguições e exclusões sociais, dentro ou fora das escolas. Não sabemos precisar quais são os Índices de bullying homofóbico no ambiente escolar, porém sabemos que muitos alunos que assumem a sua opção sexual, ou aqueles que parecem assumi-la, sofrem terrivelmente o rechaço e a resistência frente à diversidade afetivo-sexual. Essa prática infelicita ainda mais o jovem, que está num momento de descoberta e de auto-afirmação. Infelizmente, a maioria de nós (página 42) tem internalizado a homofobia, disfarçada de moralismo, conservadorismo, preconceito ou machismo exacerbado. Devido à nossa constituição social e religiosa conservadora, o tema sexualidade ainda é um tabu, motivo pelo qual a homossexualidade é tratada de forma preconceituosa e superficial. Dessa forma, os homossexuais são desrespeitados, desvalorizados e ridicularizados nos diversos contextos, inclusive no escolar, trazendo inúmeros prejuízos ao indivíduo em formação. 22. As escolas estão preparadas para discutir a questão da homofobia? A maioria das escolas não está preparada para discutir a questão. Educar para a diversidade é dever de todas as instituições de ensino, porém o despreparo de muitos professores e funcionários acaba por prejudicar ainda mais a questão. Alguns reproduzem o preconceito, fazendo piadinhas, imitações, insinuações e brincadeiras dentro e fora das salas de aula. As conseqüências de um ensino omisso ou homofóbico são inúmeras e graves, uma vez que a escola interfere decisivamente na formação do indivíduo. Se os adultos, na família ou na escola, demonstram preconceito e desferem contra os homossexuais as mais variadas formas de maus-tratos, certamente os jovens adotarão os mesmos procedimentos. Nos Estados Unidos, segundo a revista Time, o número de entidades que auxiliam alunos gaysnas escolas americanas passou de 100 em 1997 para 3 mil em 2005. No Brasil, o tema começa a ser discutido nas escolas, todavia, carece de reflexões profundas e de busca de soluções conjuntas e permanentes. Como educadores, devemos ensinar e aprender o respeito às diferenças individuais de cada ser, bem como que a homofobia é crime previsto em lei. 23. Os professores podem ser alvos de bullying? Muitos professores são assediados sexual e moralmente, humilhados, ameaçados, perseguidos, ridicularizados por seus alunos e até mesmo por seus colegas. É grande o número de profissionais que sofrem (página 43) em seu ambiente de trabalho, sem saber o que fazer e às vezes a quem recorrer. Caso procurem a direção escolar em busca de auxílio, podem ser mal-interpretados e rotulados de incompetentes. Se chamarem os pais dos autores dos maus-tratos para uma conversa, a maioria não comparece. Se reclamarem aos próprios alunos, estes geralmente dizem que são brincadeiras inofensivas e que o professor é sensível demais. Tudo isso causa grande mal-estar aos profissionais, prejudica sua autoestima e o desempenho de suas funções, gerando acentuado estresse, desânimo e fadiga, que se refletirão nas relações familiares e com seus alunos e colegas de trabalho, além de aumentarem a propensão à sÍndrome de Burnout. Uma pesquisa realizada pelo sindicato de professores britânico União Nacional de Professores (NUT) concluiu que é crescente o envolvimento de professores, sobretudo mulheres,

14 em bullying. Os professores são agredidos com palavras abusivas, piadinhas e comentários sexistas em sala de aula. O estudo mostrou que um quinto dos professores do ensino básico e dois terços dos professores do ensino médio, já foram alvos de bullying. Ainda segundo o estudo, um em cada 20 docentes foi agredido pelo menos uma vez por semana. No Brasil, fizemos um levantamento de dados com cerca de 600 professores da rede pública e privada de ensino. Os resultados mostraram que 50% deles se envolveram em bullying quando escolares. A maioria ainda sofre as conseqüências do fenômeno ou são alvos de assédio moraI. (professores-teatchers.blogspot.com/2006_12_03_archive.html) 24. Os professores também praticam bullying contra seus alunos? Isso ocorre bem mais do que supomos. Não somente os professores, mas outros profissionais que trabalham na escola. AIguns estudiosos vêm se dedicando a pesquisar o bullying na relação professor-aluno, dentre eles o norueguês Dan Olweus. Muitos alunos são perseguidos, intimidados, ridicularizados, coagidos e acusados. Esses autores comparam, constrangem, criticam, chamam a atenção publicamente, menosprezam, (página 44) mostram preferência a determinados alunos em detrimento de outros, humilham. Rebaixam a auto-estima e a capacidade cognitiva, agridem verbal e moralmente, fazem comentários depreciativos, preconceituosos e indecorosos. Portanto, a vítima de um professor sofre terrivelmente na escola, pois esse fato gera inúmeros sentimentos negativos, cujos resultados geram sensação de impotência, prejudicando o rendimento escolar e promovendo a desmotivação para os estudos. 25. Quais são as ações bullying que mais comumente se praticam? Na maioria dos países onde o fenômeno é estudado, os maus-tratos verbais, por meio de apelidos depreciativos, são os mais incidentes. Talvez seja por esse motivo que a mídia sempre que aborda o tema enfatiza os apelidos, deixando de evidenciar a gravidade das demais formas de ataques. Porém, os agressores não param por aí: quando a vítima mostra-se ofendida ou pede para ser deixada em paz, acabam utilizando outras formas de maus-tratos, como, por exemplo, intimidações, perseguições, chantagens, ou até mesmo maus-tratos físicos, para que a vítima não denuncie seus atos. 26. Existe um perfil entre as vítimas de bullying? A maioria dos alvos de bullying são aqueles alunos considerados pela turma como diferentes ou "esquisitos". São tímidos, retraídos, passivos, submissos, ansiosos, temerosos, com dificuldades de defesa, de expressão e de relacionamento. Além desses, as diferenças de raça, religião, opção sexual, desenvolvimento acadêmico, sotaque, maneira de ser e de se vestir parecem perfilar o retrato das vítimas. 27. A partir de que faixa etária se pode identificar a ocorrência de bullying? O comportamento bullying pode ser identificado em qualquer faixa etária e nível de escolaridade. Entre (página 45) os 3 e os 4 anos de idade podemos perceber o comportamento abusivo, manipulador, dominador e, por outro lado, passivo, submisso e indefeso. Porém, a maior incidência está entre os alunos do 6° ao 9° ano, período em que, progressivamente, os papéis dos protagonistas se definem com maior clareza. Não raro, encontramos grupos de alunos de séries

15 avançadas submetendo colegas de séries inferiores aos seus ataques ou fazendo com que entreguem dinheiro, lanche ou pertences. Esses alunos promovem ainda o psicoterrorismo, disseminando o medo e o terror dentro e fora da escola por meio de ameaças, intimidações, perseguições ou ainda, dos maus-tratos físicos e verbais. 28. Em que idade se observam os comportamentos agressivos e antisociais? De acordo com o pesquisador italiano Alessandro Costantini, uma pesquisa americana concluiu que a agressividade apresenta um aumento linear dos 3 aos 14 anos e o emprego da agressão física aumenta a partir dos 10 anos. Concluiu também que a violência e as atitudes anti-sociais se incrementam dos 12 anos em diante e que as condenações penais decorrentes dos comportamentos violentos, ocorrem em maior grau dos 18 aos 20 anos, podendo se prolongar por diversos anos em graves comportamentos agressivos (Costantini, 2006). 29. Existem estudos que demonstram a média de idade em que mais ocorre o bullying? O bullying se propaga cada vez mais na educação infantil e no ensino fundamental. A maioria dos casos ocorre nos primeiros anos escolares, porém a sua intensidade e o agravamento dos episódios aumentam conforme aumenta o grau de escolaridade. Estudiosos apontam que nos próximos anos haverá aumento do bullying nas escolas e da violência entre os jovens e na sociedade em geral. Alertam para o aspecto epidêmico do bullying, por se tratar de comportamento psicossocial expansivo, uma vez (página 46) que 80% das vítimas tendem a reproduzir os maustratos sofridos. Na adolescência, diminui a freqüência e o registro de bullying,mas aumentam a gravidade, a intensidade e a qualidade dos ataques. Devido ao grau de maturidade e ampliação das relações interpessoais e enamoramentos, no ensino médio os ataques se transformam em atos de vandalismo e delinqüência. São ataques mais coletivos e genéricos. Em alguns países, pesquisas demonstraram que a média de idade de maior incidência entre os agressores situa-se na casa dos 13 aos 14 anos, enquanto as vítimas possuem em média 11 anos, fato que comprova a teoria de que os papéis dos protagonistas se intensificam conforme aumenta o grau de escolaridade. (Costantini, 2006) 30. O trote universitário pode ser considerado bullying? Culturalmente, o trote universitário não é considerado bullying, e sim um rito de passagem esperado pelo calouro e seus familiares. Hoje em dia é encarado como uma prática inadequada e combatida, por ser geradora de constrangimento e violência, em muitos casos. Trata-se de uma prática antiga, permitida e ainda tolerada pela sociedade. Entretanto, o trote pode dar origem ao bullying na medida em que as ações negativas se tomem persistentes. Temos conhecimento de inúmeros calouros que são subjugados pelos veteranos ao longo do período universitário. São constrangidos, apelidados pejorativamente, ridicularizados, ameaçados, perseguidos, humilhados. Muitos são obrigados a prestar serviços, pagar festas, fotocópias, fazer trabalhos escolares ou servir de diversão para os autores, que, na maioria dos casos, reproduzem suas experiências com o trote. Através de "brincadeiras" e justificativas hierárquicas, demonstram em suas atitudes o desrespeito, o preconceito, a intolerância e a dificuldade de empatia e solidariedade humana.

16 31. Existem semelhanças entre bullying, trote e mobbíng? As semelhanças podem ser observadas nos processos competitivos encontrados nas relações interpessoais (página 47) que acontecem em escolas, universidades e no ambiente laboral e no isolamento social e depreciação das vítimas, que se tornam diversão para os autores e seus cúmplices. Valendo-se da desigualdade de poder, os agressores adotam comportamentos preconceituosos, com justificativas hierárquicas. Nos três casos é comum encontrarmos, em meio à "lei do silêncio" entre as vítimas, sofrimentos profundos, estresse acentuado, rebaixamento da auto-estima, com possibilidade de transtornos emocionais, resultando em prejuízos, muitas vezes, irreparáveis. Lembramos que, para o seu enfrentamento, necessitamos de políticas públicas emergenciais. (Almeida e Queda, 2006) (página 48) 3 PANORAMA GERAL DO BULLYING 32. O que as pesquisas revelam sobre o fenômeno bullying no Brasil e no mundo? Dados indicam que os índices mundiais de alunos envolvidos no fenômeno variam de 6 a 40%. Na Noruega, os estudos realizados por Dan Olweus (1991) demonstraram que 1 em cada 7 estudantes estava envolvido em casos de bullying, isto é, 15% do total de alunos matriculados na educação básica seriam vítimas ou agressores. Pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em 21 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre a qualidade de vida das crianças e dos adolescentes demonstra que os Índices de bullying são alarmantes. A maior incidência está em Portugal, na Suíça e na Áustria, que apresentam 40% das vítimas do fenômeno. No Brasil, não existe pesquisa de âmbito nacional que nos forneça indicadores da nossa realidade. Entre 2000 e 2003, realizamos uma pesquisa pioneira, com um universo de 2 mil alunos de escolas públicas e privadas da região de São José do Rio Preto. Os resultados foram surpreendentes: 49% dos participantes (página 49) estavam envolvidos no fenômeno. Desses, 22% eram vítimas, 15% agressores e 12% vítimas agressoras (Fante, 2005). Resultados semelhantes foram encontrados pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia), em 2002, no município do Rio de Janeiro. Em um universo pesquisado de 5.875 alunos, 40,5% estavam envolvidos em casos de bullying. Desses, 17% eram vítimas, 13% agressores e 11% vítimas agressoras (Lopes Neto e Saavedra, 2003). Em novembro de 2006, o Instituto SM para a Educação (ISME), apresentou dados de pesquisas realizadas em cinco países: Argentina, México, Brasil, Espanha e Chile. O resultado foi surpreendente, pois o Brasil foi apontado como campeão em bullying. A pesquisa contou com a participação de 4.025 alunos de escolas públicas e particulares, de 6" e 8" séries do ensino no fundamental e 2° ano do ensino médio. Os índices apontaram que 33% foram insultados ou alvo de comentários maldosos, 20% apanharam e 8% foram assediados sexual, física ou verbalmente na escola (Lemos, 2006). Nos Estados Unidos, as estatísticas mostram dados estarrecedores. Segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, uma a cada quatro crianças americanas sofre bullying na escola no período de um mês. Todos os dias 160 mil alunos americanos faltam às aulas por medo de sofrer bullying. Pesquisa do Center for Disease Control estima que 81% dos estudantes pesquisados admitiram praticar

17 bullying. Estudos evidenciam que dois terços dos protagonistas das 37 tragédias ocorridas em escolas americanas queriam se vingar por causa das constantes perseguições que sofriam por parte dos colegas. Estudos mostram ainda que as idéias suicidas têm como causas a provocação, o bullying e a rejeição (MiddeltonMoz e Zawadski, 2007). 33. A prática bullying vem crescendo ao longo dos anos? O que justifica esse crescimento? Infelizmente, o fenômeno vem crescendo em todo o mundo. Em 2000, os índices apontavam que 7 a 24% (página 50) dos alunos estavam envolvidos. Hoje, os índices evidenciam crescente envolvimento, de 5% a 35%. Dados obtidos pelo Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobes), em 2007, revelam que a média de envolvimento dos estudantes brasileiros é de 45% acima dos índices mundiais. O mais preocupante é que crianças na mais tenra idade escolar já apresentam envolvimento e evidências de prejuízos sofridos. Acreditamos que o aumento dos índices está relacionado à tendência da vítima de reproduzir os maus-tratos sofridos. Por isso, o fenômeno se expande e envolve um número cada vez maior de alunos. Além desse fator, motivos variados impulsionam o aumento das práticas de bullying nas escolas ou a integração das vítimas em grupos que se dedicam ao assédio. Dentre eles podemos citar o estímulo à competitividade e ao individualismo, principalmente em decorrência da pressão exercida pela família e a escola quanto à obtenção de resultados, especialmente nos vestibulares; a banalização da violência e a certeza da impunidade; o desrespeito e a desvalorização do ser humano, evidenciados em diversos contextos, principalmente a mídia; a educação familiar permissiva e a ausência de limites e, sobretudo, a deficiência ou ausência de modelos educativos baseados em valores humanos, orientandos para a convivência pacífica, solidariedade, cooperação, tolerância e respeito às diferenças, que despertam os sentimentos de empatia, afetividade e compaixão. 34. Existe diferença entre o bullying praticado no Brasil e nos EUA? Não existem diferenças entre o bullying praticado no Brasil e nos EUA, ou em qualquer outro lugar do mundo. O que varia são os índices encontrados em cada país. Porém, o que precisamos é saber identificá-lo e diferenciá-lo das brincadeiras que são próprias do processo de amadurecimento das crianças, caso contrário tudo o que acontecer na escola poderá ser atribuído ao bullying. (página 51) No Brasil, por ser ainda pouco difundido entre os profissionais da área de segurança pública, o tema ainda não é levado em consideração nas investigações que envolvem violência e criminalidade entre jovens. Entretanto, inúmeros assassinatos, suicídios e lesões corporais graves já ocorreram dentro e fora das escolas, fazendo muitas vítimas. Devemos lembrar ainda que o bullying acontece num duplo movimento: de dentro para fora da escola e vice-versa. Muitas tragédias que ocorrem nas imediações das escolas, nas ruas ou praças públicas, nas danceterias, em festas, ou até mesmo em cinemas, tiveram causa dentro da escola. Segundo pesquisas, nos últimos dois anos, em mais de 37 episódios violentos ocorridos em escolas americanas, o bullying foi apontado como causa principal em 40% deles. São noticiados casos em que vítimas de bullying, quando adultas, voltam à escola, munidas de armas, matam alunos ou ex-diretores da escola e cometem suicídios ou são mortas pela polícia.

18 35. O bullying sempre existiu ou é um fenômeno novo que surgiu nas escolas? O bullying sempre existiu desde que a escola existe. Porém, somente há pouco mais de três décadas é que se tornou assunto estudado, com parâmetros científicos. Nos diversos países, o despertar para essa realidade se deve ao trabalho de pesquisadores e estudiosos do assunto. Os estudos resultantes muito têm contribuído para a conscientização de pais e profissionais das áreas de educação, saúde e segurança pública, que passaram a se interessar e a estudar o tema, levando em conta principalmente suas conseqüências danosas para os envolvidos. Infelizmente, muitas escolas não admitem a existência do fenômeno. Algumas insistem em afirmar que tais práticas não ocorrem em suas dependências. Talvez temendo tornar-se discriminadas ou perder alunos. Há casos de escolas que afirmam a ausência de bullying como estratégia de marketing. (página 52) Entretanto, a omissão em nada contribui para a redução desse tipo de comportamento; ao contrário, dificulta as possibilidades de ações preventivas e colabora na sua proliferação. Por outro lado, inúmeras são as escolas em nosso país que são conscientes do fenômeno e estão desenvolvendo estratégias de enfrentamento que se mostram eficazes. 36. O bullying acontece com maior freqüência nas escolas públicas ou privadas? O bullying acontece em todas as escolas, independentemente da sua localização, turno ou poder aquisitivo da comunidade escolar. Está presente em 100% das escolas, em todo o mundo, sejam públicas ou privadas. O que varia são os índices encontrados em cada realidade escolar, de acordo com a sua própria peculiaridade. Nesse sentido, citaremos os dados de estudos que realizamos no interior paulista. Nosso primeiro estudo sobre o bullying foi realizado em 2000, em uma cidade de aproximadamente 100 mil habitantes. Com um grupo de 430 alunos de uma escola da rede privada de ensino, o resultado mostrou que 41% estavam envolvidos em bullying. Desses, 18% eram vítimas, 14%, agressores e 9% eram vítimas agressoras. Também realizamos um outro estudo, em 2003, em uma escola da rede pública, em uma cidadezinha de 10 mil habitantes. Os resultados apontaram que, dos 450 alunos, 45% estavam envolvidos em bullying. Desses, 24% eram vítimas, 8% eram agressores, 13%, vítimas agressoras. Portanto, os Índices encontrados demonstram que a incidência de bullying em ambas as realidades era praticamente igual. 37. Quais são os locais onde comumente ocorrem os ataques bullying? São vários os locais onde ocorrem os ataques: pátios de recreio, playgrounds, banheiros, corredores, (página 53) salas de aula, bibliotecas, quadras esportivas, salas de informática, laboratórios e imediações das escolas. Também ocorrem em outros locais fora da escola, mas de convivência comum aos alunos, como condomínios, cibers, shoppings e outros locais onde se reúnem. Na maioria dos países, constatou-se que o pátio de recreio é o lugar de maior incidência dos ataques bullying. Entretanto, no Brasil, as pesquisas apontam para a sala de aula. Isso se justifica pelo fato de ser tema novo de discussão no meio educacional brasileiro, motivo pelo qual a maioria dos professores desconhece a relevância do fenômeno e não sabe como agir ao se deparar com a questão. Muitos agem de acordo com as suas próprias experiências e acreditam ser o bullying necessário para o amadurecimento do indivíduo. Outros não dão importância por acreditarem

19 que são "brincadeiras próprias da idade", sem maiores conseqüências. Há ainda aqueles que pensam que os próprios alunos devem resolver seus problemas, sem intromissão dos adultos. Porém, todo professor, treinado ou não para lidar com o bullying, é capaz de observar as relações interpessoais e perceber os sinais que são emitidos por aqueles que se sentem incomodados ou vitimizados. 38. Como o professor pode ter acesso aos estudos sobre o fenômeno para saber identificá-lo? Em nosso país, a bibliografia sobre o tema é escassa. São poucos os livros disponíveis no mercado nacional, mas existem nos meios de comunicação, principalmente na internet, uma série de artigos e reportagens sobre o tema. Quando os professores são treinados para a identificação, o diagnóstico e o encaminhamento do problema, tornando-se aptos a desenvolver estratégias psicopedagógicas de prevenção, fundamentados nos princípios de educação para a paz, são capazes de intervir de forma adequada em tais circunstâncias. Temos constatado em cursos de capacitação e pós-graduação que um percentual expressivo de professores percebeu o bullying ou esteve envolvido por ele quando era estudante. Vários foram os que disseram que (página 54) ainda sentem os efeitos do bullying exercido por parte dos próprios colegas professores. Por outro aspecto, muitos são os relatos de professores e escolas que têm se empenhado nessa causa e têm conseguido resultados expressivos. Nosso livro Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz tem motivado muitos experimentos e iniciativas pela paz, em nossas escolas. 39. A mídia tem divulgado o tema bullying? A mídia tem divulgado o tema, principalmente após as tragédias ocorridas em inúmeras escolas de diversos países. Essas tragédias são resultantes do sofrimento das vítimas, que, no limite da exaustão emocional, planejam dar cabo à própria vida, procurando antes matar o maior número possível de colegas da escola. Entretanto, a grande maioria das matérias apresentadas está voltada aos apelidos pejorativos, deixando de evidenciar as demais formas de maus-tratos, que tantos prejuízos trazem aos envolvidos no fenômeno. Nos EUA, em 1997, na cidade de West Paducah, Kentucky, um adolescente de 14 anos atirou contra colegas, matando quatro deles e uma professora, além de cinco feridos. Em 1998, em Jonesboro, Arkansas, dois estudantes, de 11 e 13 anos, mataram quatro meninas e uma professora. Ainda em 1998, em Springfield, Oregon, dois adolescentes de 17 e 18 anos mataram dois colegas e feriram outros 20. Em 1999, em Littleton, Colorado, dois estudantes protagonizaram a tragédia de Columbine. Mataram 12 colegas, um professor e deixaram dezenas de feridos, depois se suicidaram. Em abril de 2007, em Blacksburg, Virginia, o estudante Cho Seung-Hui, da Universidade de Virgínia Tech, EUA, foi protagonista do maior massacre em escola do mundo. O jovem atirou contra colegas e professores, deixando 32 mortos e 29 feridos, e depois cometeu suicídio. Colegas de classe do sul-coreano em anos anteriores disseram que ele era muito tímido e, por isso, ridicularizado e intimidado. Na universidade, era alvo de muitas gozações, por causa dos textos que escrevia. O jovem não resistiu às constantes humilhações e resolveu (página 55) se vingar dos colegas, uma vez que se sentia perseguido. Sua intenção era a de se transformar num mártir, servir de exemplo para os futuros garotos frágeis e indefesos iguais a ele. Em novembro de 2007, na cidade de Tuusula, Finlândia, um jovem isolado pelos colegas de escola, após veicular na internet um vídeo

20 intitulado "Massacre na Escola Jokela”, deixou oito mortos e vários feridos. A escola Jokela Hight tinha 400 alunos entre 12 e 18 anos. Outras tragédias também ocorreram no Canadá, no Japão, na Escócia, na Alemanha e na Argentina. 40. No Brasil já ocorreu alguma tragédia em escolas tendo o bullying como causa principal? Em janeiro de 2003, na cidade de Taiúva, no interior paulista, um tímido jovem de 18 anos, depois de concluir o ensino médio, atirou contra 50 pessoas durante o horário de recreio da escola onde estudara. Atingiu oito pessoas e depois se matou com um tiro na cabeça. As vítimas sobreviveram, porém uma delas ficou paraplégica. Esse adolescente era obeso desde a infância e foi motivo de piada para os colegas de escola. Mesmo após emagrecer mais de 30 quilos continuaram zoando ele. Era ofendido, apelidado pejorativamente, humilhado. Em fevereiro de 2004, na cidade de Remanso, interior baiano, outro adolescente de 17 anos, também protagonizou uma tragédia. Após ser constantemente ridicularizado e humilhado na escola, resolveu se vingar. Foi até a casa do seu agressor principal, um garoto de 13 anos, e desferiu um tiro em sua cabeça. Após atirar contra o colega, seguiu para uma escola de informática para tentar matar uma professora de quem não gostava. Uma funcionária tentou impedir sua entrada, mas ele disparou fatalmente contra a cabeça dela e fez mais alguns disparos, ferindo duas pessoas. Sua intenção era a de cometer o suicídio, porém conseguiram desarmá-lo. Em seu bolso foi encontrado um bilhete dizendo que queria matar mais de 100 pessoas e ser conhecido na história de Remanso como o "terrorista suicida brasileiro”. (página 56) 41. A cobertura da imprensa contribui para o combate ao fenômeno? A imprensa contribui em muito na luta contra qualquer forma de violência, seja dentro ou fora da escola. No caso específico da violência bullying, é notório o crescente interesse da imprensa, na medida em que aborda o tema e abre espaços para que estudiosos possam conscientizar, discutir e alertar a sociedade para esse fenômeno psicossocial expansivo, de caráter epidemiológico, que, somado a outras formas de violência, precisa ser contido. A imprensa é uma grande aliada para o despertar das autoridades, especialmente no sentido de se criar políticas públicas emergenciais que visem conter a propagação do fenômeno e encontrar soluções que reduzam sua incidência e minimizem seus efeitos. (página 57) 4 CARACTERIZAÇÃO DOS PROTAGONISTAS 42. Como identificar as vítimas de bullying? As vítimas típicas são aqueles que apresentam pouca habilidade de socialização, são retraídos ou tímidos e não dispõem de recursos, status ou habilidades para reagir ou fazer cessar as condutas agressivas contra si. Geralmente apresentam aspecto físico mais frágil ou algum traço ou característica que as diferencia dos demais. Demonstram insegurança, coordenação motora pouco desenvolvida, extrema sensibilidade, passividade, submissão, baixa auto-estima, dificuldade de auto-afirmação e de auto-expressão, ansiedade, irritação e aspectos depressivos. No entanto, é preciso salientar que o fato de algum aluno apresentar essas características não significa que seja ou venha a ser vítima de bullying. 43. Qual o perfil das vítimas provocadoras? São aqueles alunos que agem impulsivamente, provocando os colegas e

21 atraindo contra si reações agressivas, contra as quais não conseguem lidar com eficiência. Por isso acabam vitimizados. Geralmente, são imaturos, apresentam comportamento dispersivo e dificuldade de (página 59) concentração. Alguns podem ser hiperativos, possuem "gênio ruim", agem de maneira provocadora aos colegas e respondem de maneira ineficaz quando, em contrapartida, são atacados ou insultados. Apresentam comportamento irritadiço, provocador, irrequieto, buliçoso, dispersivo, ofensor, intolerante, de costumes irritantes e quase sempre são responsáveis par causar tensões no ambiente em que se encontram (Olweus, 1998). 44. Quem são as vítimas agressoras? São aqueles alunos que são ou foram vitimizados e que acabam reproduzindo os maus-tratos sofridos. Integram-se a grupos para hostilizar seu agressor ou elegem uma outra vítima como "bode expiatório". Adotam as atitudes de intimidação das quais foram vítimas ou apóiam explicitamente os que assim procedem. Em casos extremos, são aqueles que se munem de armas e explosivos e vão até à escola em busca de justiça. Matam e ferem o maior número possível de pessoas e dão fim à própria existência. 45. Como identificar os agressores? São aqueles que se valem de sua força física ou habilidade psicoemocional para aterrorizar os mais fracos e indefesos. São prepotentes, arrogantes e estão sempre metidos em confusões e desentendimentos. Utilizam várias formas de maustratos para tornar-se populares, dentre elas as "zoações", os apelidos pejorativos, expressões de menosprezo e outras formas de ataques, inclusive os físicos. Podem ser alunos com grande capacidade de liderança e persuasão, que usam de suas habilidades para submeter outro(s) ao seu domínio. Middelton-Moz e Zawadski (2002) dizem que muitos bullies vieram aperfeiçoando a intimidação desde que eram crianças. A ausência de intervenção, os sentimentos e as crenças dos que praticam bullying desde a infância se fortalecem e se enraízam. As práticas bullying durante as brincadeiras com outros amigos são apenas o início de um padrão de atitude que durante a vida culmina em violência doméstica e/ou assédio moral no trabalho. Para continuar com seu comportamento, os bullies necessitam da (página 60) confusão, do medo e da sensação de impotência dos que pretendem transformar em suas vítimas, bem como do silêncio dos que estão ao seu redor. 46. Podemos entender que todos os alunos que possuem as características dos protagonistas estarão envolvidos em bullying? O fato de determinados alunos apresentarem tais características não significa que estarão envolvidos no fenômeno. Aliás, muito nos alegra quando conhecemos jovens dotados de grande habilidade de liderança e persuasão que se engajam em ações solidárias aos colegas que se mostram em necessidade e que se tornam bons exemplos para os demais. Conhecemos vários exemplos de alunos mais aplicados aos estudos que ajudam os que apresentam dificuldades; alunos mais fortes e respeitados que protegem outros mais fracos; outros que são líderes e exercem influência positiva sobre o grupo e não permitem que se caçoe ou ridicularize de alguém; outros tantos que, com talento, com arte e dedicação, têm feito grande diferença para os seus colegas pelos exemplos dados. 47. Quem são os espectadores? Os espectadores representam a maioria dos alunos de uma escola. Eles não

22 sofrem e nem praticam bullying, mas sofrem as suas conseqüências, por presenciarem constantemente as situações de constrangimento vivenciadas pelas vítimas. Muitos espectadores repudiam as ações dos agressores, mas nada fazem para intervir. Outros as apóiam e incentivam dando risadas, consentindo com as agressões. Outros fingem se divertir com o sofrimento das vítimas, como estratégia de defesa. Esse comportamento é adotado como forma de proteção, pois temem tornar-se as próximas vítimas. (página 61) 5 AS FORMAS DE ATAQUES UTILIZADAS NO FENÔMENO 48. Quais são formas de maus-tratos empregadas nos atos de bullying? As formas de maus-tratos são: físico (bater, chutar, beliscar); verbal (apelidar, xingar, zoar); moral (difamar, caluniar, discriminar); sexual (abusar, assediar, insinuar); psicológico (intimidar, ameaçar, perseguir); material (furtar, roubar, destroçar pertences); e virtual (zoar, discriminar, difamar, através da internet e do celular). Constatamos em nossas pesquisas que raramente a vitima recebe apenas um tipo de ataque. Normalmente os ataques são conjugados, utilizando-se para isso várias formas de maus-tratos, inclusive a exclusão social. 49. Com o acesso à internet, assiste-se atualmente a uma ampliação dos métodos de exclusão de jovens de um grupo. Apesar de a motivação parecer continuar a mesma, esse novo ambiente de reverberação deu novo vulto a uma prática tão antiga? Sem dúvida, os ataques pela internet facilitam tanto a ampliação dos métodos empregados pelos autores quanto a disseminação do fenômeno bullying. Os maustratos virtuais são modalidades novas, bem mais requintadas do que as utilizadas no passado. As ferramentas disponíveis (página 63) na internet, especialmente o Orkut, as minicâmeras fotográficas, os celulares com câmeras fotográficas e filmadoras, possibilitam aos praticantes o anonimato, uma vez que sua identidade e imagem não são expostas. 50. Em todo o mundo, o bullying é mais praticado entre meninos ou meninas? Nos países em que o bullying é pesquisado, os índices encontrados entre alvos e autores, revelam que a incidência entre os meninos é maior. No passado, acreditava-se que esse tipo de comportamento era próprio de meninos, porém, com os avanços das pesquisas, constatou-se ser comum também entre as meninas. Enquanto a maioria dos meninos utiliza, comumente, os maus-tratos físicos e verbais, as meninas se valem mais de maledicência, fofoca, difamação, exclusão e manipulação para provocar sofrimento psicológico nas vítimas. Os ataques das meninas, ao contrário dos ataques dos meninos, acontecem dentro de um círculo restrito de amizades, o que torna a agressão mais difícil de identificar, reforçando o dano causado às suas vítimas. Outro fato constatado é que as meninas parecem agir com maior requinte de sutileza e crueldade. Utilizam olhares dissimulados e maliciosos e bilhetes, manipulam silenciosamente, encurralam-se nos corredores, dão as costas para as vítimas, usam o silêncio, conspiram, criticam, cochicham e sorriem, combinam encontros com a vítima, em passeios ou em festas, e não comparecem. Geralmente, a vítima é consumida pelo desespero de perder para sempre a amizade e se submete aos desejos da líder do grupo. O medo do isolamento ou do abandono faz com que algumas meninas permaneçam em maus

23 relacionamentos. Tais atos são epidêmicos em ambiente de classe média, em que as regras de feminilidade são mais rígidas. No ensino infantil, as meninas impedem que a vítima partilhe do momento do lanche, combinam de evitá-la, ficam de mal, isolam, não convidam para as festinhas, caçoam daquelas de menor poder aquisitivo, que se vestem com mais simplicidade ou que não dispõem dos mesmos materiais escolares. (Simmons, 2004). (página 64) 6. O CIBERBULLYING 51. O que é ciberbullying? Em que se difere do bullying? É a forma virtual de praticar bullying. É uma modalidade que vem preocupando especialistas, pais e educadores em todo o mundo, por seu efeito multiplicador do sofrimento das vítimas. Na sua prática utilizam-se as modernas ferramentas da internet e de outras tecnologias de informação e comunicação, móveis ou fixas, com o intuito de maltratar, humilhar e constranger. É uma forma de ataque perversa, que extrapola em muito os muros da escola, ganhando dimensões incalculáveis. A diferença está nos métodos e nas ferramentas utilizadas pelos praticantes. O bullying ocorre no mundo real, enquanto o ciberbullying ocorre no mundo virtual. Geralmente, nas demais formas de maus-tratos, a vítima conhece seu agressor, sejam os ataques diretos ou indiretos. No ciberbullying, os agressores se motivam pelo "anonimato", valendo-se de nomes falsos, apelidos ou fazendo-se passar por outras pessoas. (página 65) 52. A que se atribui o surgimento do ciberbullying? Ao desenvolvimento e aprimoramento dos recursos tecnológicos de comunicação e informação, especialmente da internet e dos telefones móveis, aliados ao despreparo ético dos usuários em relação ao uso responsável desses recursos, ancorado no anonimato e na certeza da impunidade, o que converteu o fenômeno num problema social. Precisamos lembrar que prática semelhante acontece desde há muito tempo, em brincadeiras de "amigo oculto", ou de "correio elegante". Nas trocas de mensagens algumas pessoas eram alvejadas com textos pejorativos e os autores se escondiam no anonimato, obviamente sem os recursos tecnológicos atuais. A intenção de ferir, de magoar e de ridicularizar é a mesma. 53. Como o ciberbullying acontece e como agem seus praticantes? Acontece através de e-mails, torpedos, blogs, fotoblogs, Orkut, MSN. De forma anônima, o autor insulta, espalha rumores e boatos cruéis sobre os colegas e seus familiares e até mesmo sobre os profissionais da escola. Mensagens instantâneas são disparadas, via internet ou celular, onde o autor se faz passar por outro, adotando nicknames (apelidos) semelhantes, para dizer coisas desagradáveis ou para disseminar intrigas e fofocas. Blogs são criados para azucrinar e o Orkut é utilizado para excluir e expor os colegas de forma vexatória. Fotografias são tiradas, com ou sem o consentimento das vítimas, sendo alteradas, através de montagens constrangedoras, incluindo ofensas, piadinhas, comentários sexistas ou racistas. Muitas vezes, essas imagens são divulgadas em sites, colocadas em newsgroups e até nas redes de serviços, ou divulgadas através de materiais impressos espalhados nos corredores e banheiros ou circulam entre os alunos sem o conhecimento das vítimas. Quando estas descobrem, seu nome e sua imagem já estão em rede mundial, sendo muito difícil sair ilesas da situação. Há casos em que a vítima tem o seu e-mail invadido pelo agressor, que, fazendo-se passar por ela, envia mensagens

24 com conteúdo difamatório, com gravíssimas conseqüências (página 66) para a vítima e seus familiares. A participação em fóruns e livros de visitas também é uma estratégia utilizada pelos praticantes de ciberbullying, que deixam mensagens negativas sobre o assunto em questão ou opinam de maneira inconveniente. Votações são realizadas através de sites para escolher ou eleger colegas com características estereotipadas. 54. Quando e onde foram registrados primeiros casos de ciberbullying? Não dispomos de pesquisas e informações sobre o seu início, mas sabemos que com o surgimento da internet essa prática vem crescendo em todo o mundo, convertendo-se em um fenômeno psicossocial preocupante para usuários da internet e de telefone celular. Em nosso país já existem muitos casos tramitéando na Justiça, com pedidos de indenizações por danos morais e materiais. Deve-se lembrar que é possível rastrear o autor do ciberbullying, com a ajuda de peritos especialistas em informática. 55. Com que freqüência o ciberbullying ocorre? Existe pesquisa que revele sua prevalência? Não podemos precisar a freqüência de sua ocorrência, pois a todo instante, no mundo inteiro, alguém é vítima desse tipo cruel de comportamento. Constantemente tem chegado ao nosso conhecimento o drama de vários alunos que têm sido vítimas dessa forma de ataque. Estudos revelam que, na Inglaterra, 25% das meninas são vítimas de ciberbullying através de celulares. Nos Estados Unidos, um dado surpreendente foi divulgado pela imprensa: 20% dos alunos do ensino fundamental são alvos dessa forma de violência. Um estudo divulgado pela rede social MSN sobre o fenômeno, em 2006, indica que 13% dos adolescentes entrevistados consideram esta prática pior que o bullying físico. A mesma pesquisa mostra que, no Reino Unido, um em cada dez adolescentes é ou já foi vítima de ciberbullying (sol.sapo.pt/PaginaInicial/Tecnologia/Interior.aspx?content_id=34514). No Brasil, não dispomos de pesquisa de âmbito (página 67) nacional que revele os Índices de incidência de ciberbullying. Fizemos um levantamento de dados, no final do ano letivo de 2006, em um grupo de 530 alunos de 1º ano do ensino médio de uma escola da rede privada de ensino do Distrito Federal. Os dados revelaram que 20% foram vítimas de ataques on-line.Desses, 63% eram meninas. De acordo com o relatório da Safernet Brasil, entidade não-governamental que se dedica a promover e defender os direitos humanos na sociedade da informação, a média de denúncias mensais saltou de 286 em 2005, para 3,1 mil entre 2006 e o começo de 2007 (www.safernet.org.br). 56. Quem é alvo de ciberbullying? Qual o perfil da vítima? Qualquer pessoa pode receber conteúdos indesejados, ter seu e-mail invadido ou se deparar com montagens de suas fotos no mundo virtual. Não existe um perfil específico, simplesmente a vítima é escolhida dentre seus iguais, sem motivos que justifiquem a perversidade dos ataques. Essa prática pode ser perigosa para as vítimas. Além dos danos morais e emocionais sofridos, existe ainda o risco de que suas imagens, uma vez divulgadas em rede mundial, atraiam pessoas inescrupulosas e mal-intencionadas do mundo real, que queiram se utilizar delas para fins escusos, como a pedofilia e a pornografia.

25 57. Quem são os maiores praticantes de ciberbullying? É possível traçar um perfil dessas pessoas? Os maiores praticantes, sem dúvida, são os adolescentes. Não é possível traçar um perfil, por se tratar de ataques virtuais, nos quais a imagem e a identidade do agressor não são expostas, e as vítimas, quando os descobrem, raramente os denunciam. Porém, à medida que o conhecimento do tema tem se popularizado e a comunidade escolar tem se conscientizado, medidas legais vêm sendo tomadas por parte das vítimas e seus familiares, bem como das escolas. Temos conhecimento (página 68) de casos em que o autor foi rastreado, identificado pela polícia e encontra-se respondendo a processos por danos morais e materiais. 58. O que leva alguém a praticar ciberbullying? O praticante tem noção da extensão de seu ato ao difundi-lo pela Internet? São inúmeras as causas que colaboram para as práticas do bullying virtual. Dentre elas, podemos citar a ausência de orientação ética e legal na utilização de recursos tecnológicos, a ausência de limites, a insensibilidade, a insensatez, os comportamentos inconseqüentes, a dificuldade de empatia, a certeza da impunidade e do anonimato. Além desses fatores, a falta de denúncia dos casos estimula a ação dos praticantes e impede a ação das autoridades e a aplicação das leis, bem como da elaboração de políticas públicas emergenciais que priorizem a contenção desse grave problema endêmico. Um outro fator importante de análise é o aspecto expansivo desse fenômeno, uma vez que muitas vítimas de bullying, no mundo real ou virtual, se convertem em praticantes, uma forma de revidar os maus-tratos sofridos, "permanecendo no anonimato". Devido à dificuldade de se colocar no lugar do outro, o que gera a insensibilidade entre os jovens, muitos praticantes acreditam que seus atos não são prejudiciais, são apenas "brincadeirinhas" sem maiores conseqüências. Por outro lado, acreditam que, se descobertos, nada lhes ocorrerá, uma vez que são menores de idade e o Estatuto da Criança e do Adolescente os protegerá. Neste caso, ignoram os deveres, as responsabilidades e as penalidades previstas no Estatuto e que poderão ser apenas na forma da lei. Outros não têm a devida noção de que ao repassar a mensagem dolosa se tomam co-autores da agressão e também são passíveis de punição. Há ainda os que são conscientes e têm a devida dimensão dos seus atos e agem assim com intenção dolosa. Relevantes dados que vêm corroborar nossa percepção sobre a insensibilidade gerada entre os jovens foram obtidos pela pesquisa desenvolvida pelo Instituto SM para a Educação entre alunos da 1ª série do ensino médio. Os dados indicaram que 20% acreditam que os culpados pela (página 69) perseguição on-line são as próprias vítimas e 12% afirmam que devem ser humilhados aqueles que dão importância às brincadeiras pela internet (Lemos, 2006). 59. Como interromper os ataques virtuais, já que os meios eletrônicos são difíceis de ser fiscalizados? Há alguma maneira de barrar esse tipo de comportamento? A denúncia é o principal instrumento para a interrupção desses atos. Entretanto, a prevenção é o principal caminho, devendo ser iniciada nas escolas, em parceria com as famílias. Os alunos devem ser conscientizados sobre o tema e conduzidos à reflexão sobre os limites éticos na internet, além das punições judiciais cabíveis na forma da lei. Algumas escolas estão incentivando a elaboração de regras para o uso ético dos recursos tecnológicos. Em uma escola, em São Paulo,

26 foi criada uma disciplina para abordar o tema, denominada "netiqueta". Em outra escola, o próprio Orkut é o antídoto anticiberbullying. Os alunos criaram uma comunidade para discutir o assunto e dar depoimentos de casos vividos (www1. folha.uol.com.br/folha/dimenstein/cbn/capital_300306.htm). Em algumas escolas do Distrito Federal, promovemos discussões e orientamos os alunos, em parceria com o Conselho Tutelar. Os sites de relacionamento Orkut, MySpace e Facebook tornaram-se tão populares entre crianças e adolescentes que estão transformando muitos pais em "espiões virtuais". De acordo com um estudo da London School of Economics, 41% dos pais admitem verificar sigilosamente os sites navegados pelos filhos e 25% deles conferem os e-mails que os filhos recebem. (tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI1631496-EI4802,00.htm1). O uso do computador tem gerado muita irritação e discussões em famílias. A maioria dos pais não consegue delimitar o tempo de permanência no computador e nem estabelecer regras para o seu uso, o que gera o isolamento e o distanciamento entre os membros da família. O ideal é que os pais orientem seus filhos e estabeleçam regras para o uso do computador. Devem estar atentos para (página 70) que o uso do computador não se tome obsessivo. A observação do comportamento dos filhos é muito importante. Como a criança reage quando está no computador e quando sai dele? Está usando a rede para substituir as amizades? 60. Que conseqüências o ciberbullying traz para suas vitimas? Em entrevistas com as vítimas, pudemos perceber o quanto estas sentem-se mal, traiçoeiramente agredidas, constrangidas, humilhadas. Normalmente sua autoestima é rebaixada e têm dúvidas quanto a si mesmas, comprometendo a formação de sua identidade uma vez que o grupo exerce grande influência no processo de identificação e de auto-afirmação. Por outro lado, a socialização fica comprometida, pois os colegas passam a ser vistos como suspeitos. Muitas vítimas se isolam ou faltam às aulas com freqüência na tentativa de cessar os ataques, o que compromete sua vida acadêmica. Outras não resistem às gozações e mudam de escola, carregando consigo a dor emocional e a frustração de ter sua reputação maculada. Em suma, as conseqüências são as mesmas das demais formas de vitimização bullying, porém o sentimento de impotência é ainda maior, por desconhecerem seus algozes. A conseqüência mais grave do ciberbullying foi registrada nos Estados Unidos, em 2003. O adolescente Ryan Patrick Halligan, de 13 anos, foi alvo durante meses de boatos on-line sobre a sua orientação sexual. Após receber constantemente mensagens de colegas acusando-o de ser gay, o jovem suicidou-se. 61. Qual o papel da escola frente- ao ciberbullying? O papel da escola é o de orientar seus alunos para o uso responsável e ético dos recursos tecnológicos e sobre os perigos que podem representar. Igualmente importante é conscientizar os pais dos alunos por meio de textos, cartilhas, palestras, para que possam orientar seus filhos, bem como observar suas ações e reações (página 71) enquanto usuários das modernas ferramentas tecnológicas. É importante que a escola alerte os alunos para não fornecer informações para estranhos, como senhas e fotografias pessoais e familiares, número de conta bancária, cartões de crédito e de telefones, endereço residencial, escolar e do local onde os pais trabalham, mesmo achando que se trata de amigos virtuais. Por outro lado, precisa conscientizá-los sobre os tipos de crimes que são praticados on-line e para o fato de que o "anonimato" e a menoridade não lhes isentarão das punições

27 previstas em lei. Mesmo que a maioria dos casos de ciberbullying não ocorra dentro da escola, os professores precisam estar atentos para as relações interpessoais, pois tudo se inicia com uma piadinha na sala de aula, vai para a comunidade no Orkut e vira assunto no MSN. 62. O que o praticante de ciberbullying precisa saber? Precisa saber que os recursos tecnológicos devem ser usados de forma responsável e que, infringindo os códigos de ética e desrespeitando um bem privado, seu comportamento é passível de punição. Ninguém difama um (a) colega de escola, cria uma comunidade no Orkut para ridicularizar os aspectos negativos do outro ou pega a senha do colega para enviar mensagens intimidadoras sem que tenha a intenção de causar-lhe algum tipo de dano. As ações praticadas no mundo virtual em nada diferem das que são praticadas no mundo real. A escola deve orientar seus alunos a utilizar essas novas ferramentas que contribuem no processo de aprendizagem e na ampliação da rede de relacionamentos, dentre outros benefícios. 63. O que a vítima deve saber? Existem leis contra o ciberbullying? Segundo especialistas da Safernet Brasil, a lei confere somente e exclusivamente à vítima a legitimidade para a propositura de ação penal privada. Dentre os crimes dessa natureza, estão os crimes contra a honra: injúria (art. 140 do Código Penal); calúnia (art. 138 Código Penal) e difamação (art. 139 do Código Penal). Portanto, a vítima de ciberbullying deve reunir todas as provas possíveis. Para isso, deve salvar e imprimir o conteúdo das páginas ou o conteúdo do diálogo dos agressores numa sala de bate-papo. Para ter validade em juízo é necessário ter fé pública. Portanto, é preciso registrar as provas que estejam on-line em cartório e fazer uma declaração de fé pública, para provar que o crime existiu. Pode-se também lavrar uma ata notarial do conteúdo. Esse procedimento deve ser prioritário, uma vez que o autor poderá retirar do ar as informações ou removê-las para outro endereço. Após isso, juntamente com o responsável, a vítima deve procurar a Delegacia Especializada em Crimes Cibernéticos. Caso não disponha dessa Delegacia em sua cidade, deve procurar qualquer delegacia de polícia para fazer uma queixa crime ou procurar diretamente a Promotoria da Infância e Juventude. Outro procedimento importante é notificar o prestador do serviço da internet para remover o conteúdo ilegal ou ofensivo. Em casos onde o grau de sofrimento das vítimas se acentua, sugerimos o acompanhamento psicológico, a fim de minimizar todo e qualquer resíduo traumático devido à experiência vivida. Na Grã-Bretanha, já houve manifestações por parte do governo no sentido de exigir que as empresas fornecedoras de internet assumam a "responsabilidade e a obrigação moral de agir". Em Vermont, nos EUA, onde ocorreu o caso de suicídio do garoto Ryan, as escolas estão obrigadas a afixar políticas contra o fenômeno. Outros estados americanos, como Oregon, Rhode Island e Washington também estão agindo da mesma forma. (sol.sapo.pt/PaginaInicial/Tecnologia/Interior.aspx?content_id=34513). No Brasil, um projeto de lei polêmico prevê que o provedor de internet tenha de "informar, de maneira sigilosa, à autoridade policial competente denúncia da qual tenha tomado conhecimento e que contenha indícios de conduta delituosa na rede de computadores sob sua responsabilidade". No que diz respeito às escolas, desconhecemos qualquer lei que as obrigue a estabelecer políticas contra o fenômeno. (página 73)

28 7 MOBBING OU ASSÉDIO MORAL? 64. O mobbing ou assédio moral é um fenômeno novo? O assédio no trabalho é um fenômeno antigo. Existem inúmeros relatos de trabalhadores que sofreram humilhações e maus-tratos desde que surgiram as primeiras relações de trabalho no mundo. A novidade reside na intensificação, gravidade, amplitude e banalização do fenômeno. Muito mais do que isso, o novo está na abordagem que tenta estabelecer o assédio como conseqüência da organização do trabalho e a não tratá-lo como inerente ao trabalho. Em nosso país, a própria história relata o sofrimento a que eram submetidos os trabalhadores, desde a época da escravidão até o período da industrialização, pela ausência de direitos dos trabalhadores. Infelizmente, nos dias atuais, as organizações continuam a repetir os maus-tratos a seus empregados ou são complacentes e coniventes com a prática de comportamentos humilhantes, realizados por seus dirigentes. Na década de 1980, o pesquisador de origem alemã Heinz Leymann publicou na Suécia seus estudos sobre a hostilidade no universo do trabalho, com uma (página 75) visão organizacional e a introdução do termo mobbing. Atualmente, em decorrência da relevância e dos avanços nas relações trabalhistas, o assédio moral tornou-se tema de estudos em várias áreas do conhecimento humano e em inúmeros países. Dessa forma, sindicatos, médicos do trabalho, organizações e planos de saúde procuram entender o fenômeno e suas conseqüências prejudiciais, que interferem na saúde, no ambiente de trabalho e na produtividade. No Brasil, a discussão sobre o tema conquistou espaço a partir dos estudos realizados pela médica do trabalho Margarida Barreto para sua dissertação de mestrado, publicada em 2000 sob o título Uma jornada de humilhações. Embora a discussão sobre a temática tenha conquistado relevância, a grande maioria dos integrantes da relação laboral ainda desconhece seu significado e suas conseqüências. "Na verdade, em que pesem as diversas leis e projetos de lei tendentes a combater o assédio moral (em especial no âmbito da administração pública), o fenômeno ainda carece da adequada visibilidade jurídica e social" (Silva, 2004). 65. Como é definido o assédio moral? Segundo a psicanalista e vitimóloga francesa Marie-France Hirigoyen, o assédio moral é visto como um conjunto de atitudes perniciosas e quase invisíveis, exercidas no dia-a-dia do trabalho, com o fim de diminuir o outro de forma suave e perversa, como um assassinato psíquico (Hirigoyen, 2001). Ela mostra, passo a passo, como essa violência intencional e insidiosa se processa, em palavras, gestos, ações ou omissões, cuja perversidade e permanência aniquilam e destroem. O assédio moral é toda e qualquer conduta abusiva, manifestando-se, sobretudo, por comportamentos, palavras, atos, gestos, escritos que possam trazer dano à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr em perigo seu emprego ou degradar o ambiente do trabalho (Hirigoyen, 2001). Assediar moralmente é uma exposição prolongada e repetitiva a condições de trabalho que, deliberadamente, vão sendo degradadas. Surge e se propaga em relações hierárquicas assimétricas, desumanas e sem ética, marcada pelo abuso de poder e (página 76) manipulações perversas. Constitui uma violação de direitos que fere a dignidade, a honra e a identidade, podendo devastar vidas. (Barreto, 2000)

29 66. Como ocorre o assédio moral no trabalho? Estudos realizados por Margarida Barreto concluem que o assédio moral se revela de diversas formas, porém o terror psicológico exercido pelo chefe sobre o subordinado é o mais incidente. O autor do assédio utiliza-se de inúmeras estratégias, veladas ou dissimuladas em suas atitudes e gestos, nas expressões fisionômicas, nos olhares e risadinhas, nos comentários racistas e sexistas, nas ridicularizações, através de imitações de gestos, trejeitos, voz, modo de caminhar e de atuar, na mudança para setor ou funções inferiores, nas tarefas e metas impossíveis de ser cumpridas, no menosprezo, nas humilhações e críticas públicas, no controle excessivo de horários de chegada, de saída, de ida ao sanitário, na convocação de horas-extras apenas para assediar sem testemunhas, na desestabilização e zombaria devido às convicções religiosas ou políticas, nas críticas ou brincadeirinhas desagradáveis quanto aos gostos, situação amorosa ou afetiva, no colocar em dúvida a capacidade de julgamento e decisão do trabalhador, na delimitação de horários de trabalho incompatíveis com a vida familiar habitual, na prática de desqualificação externa, por meio do fornecimento de informações desabonadoras sobre a conduta do trabalhador, com desconsiderações e insinuações prejudiciais à sua carreira e ao seu bom nome, nas agressões verbais, na ameaça constante de demissão ou desvio de função para a qual não foi contratado. Todas essas estratégias são fundamentalmente atitudes de desprezo, de perseguição, de desqualificação e desrespeito aos conhecimentos e às capacidades do trabalhador. 67. O assédio moral pode ser confundido com uma administração rigorosa? Pode ser que isso ocorra aos olhos dos espectadores, mas as vítimas sabem diferenciar uma administração (página 77) rigorosa ou exigente de uma forma perversa de administrar. Infelizmente, ao longo dos tempos essa forma tem sido tolerada, sem levar em conta os prejuízos recorrentes, tanto para a saúde das vítimas, quanto para a própria instituição. Em geral, a vítima é vista pela maioria como uma pessoa frágil, insegura, sensível demais, com "mania de perseguição e de reclamação", ou que é merecedora da situação. Raramente se encontra algum colega que a defenda abertamente ou se disponha a testemunhar a seu favor. Esse fato colabora para o silêncio da vítima e aumenta o seu sofrimento. Dentre as razões do silêncio das vítimas estão o medo de represálias, da perpetuação dos ataques e, sobretudo, da demissão. Muitas vezes, a vítima experimenta sentimentos conturbados, como inferioridade, incapacidade e até mesmo culpa, acreditando ser merecedora da situação. A maioria prefere calar-se a ter que enfrentar problemas com os superiores, o que fortalece ainda mais as atitudes autoritárias e dominadoras do assediador. 68. Qual é a classe ou categoria profissional que tem maior inci dência de assédio moral? Segundo Margarida Barreto, são os profissionais da saúde, da educação, de telemarketing, de comunicação e os bancários que mais sofrem assédio moral. Existem dois tipos de violência aos quais estão submetidos os trabalhadores: a institucionalizada, que está ligada à gestão por medo e injúria, e a individualizada, uma das faces da violência institucionalizada que está relacionada ao controle e à forma de disciplina rígida. Ambas constituem meios refinados de controle e domínio que visam quebrar a força e a dobrar a vontade do outro. São atos e ações, na

30 maior parte das vezes, sutis e poderosos, na medida em que podem alterar comportamentos, ocasionar transtornos e levar até à morte. Ninguém está blindado contra o assédio moral. Todos os trabalhadores estão expostos a esse risco invisível. (APECF/SP, 2005). (página 78) 69. Como ocorre o assédio moral nas escolas? O assédio moral nas escolas ocorre quando um indivíduo ou um grupo de indivíduos se dedica às pressões, às ameaças e a outras formas de abusos e maustratos contra colegas ou subordinados. Muitos professores adoecem ou apresentam sintomas psicossomáticos, como dores de cabeça e de estômago, diarréia, vômitos, sudorese e taquicardia, antes de reuniões, impossibilitando-os muitas vezes de participar. Os agressores trocam olhares entre si, fazem "caras e bocas", emitem opiniões contrárias, interrompem as exposições de idéias, criticam a didática, ridicularizam as estratégias educativas ou fazem falsos elogios sobre o modo de ser, de vestir, de agir, de falar do colega, especialmente se ele tiver sotaque diferente, incitam a competição. Sua atuação é no sentido de desestabilizar o colega em seu cotidiano, ou até mesmo perante os gestores da escola. Muitos são os que foram perseguidos e tiveram que abandonar a profissão ou pediram remoção do cargo. Outros adoeceram e foram deslocados para outras funções. Infelizmente, inúmeras vítimas de assédio moral continuam suportando caladas, em nossas escolas, todo sofrimento que lhes foi imputado por doentes emocionais, travestidos de educadores. O assédio moral pode ser notado nos comportamentos ofensivos, humilhantes, desqualificantes ou desmoralizantes, praticados de forma repetida e em excesso, nos ataques cruéis, maliciosos e vingativos, que têm por objetivo rebaixar um indivíduo ou grupo de trabalhadores. Não somente o professor, mas qualquer trabalhador vítima de assédio moral experimenta um grande sofrimento, gerado pela situação de perversidade vivida. Dentre as conseqüências, ressaltamos aquelas que incidem na saúde física e mental das vítimas. As mulheres são as que mais sofrem o assédio moral e suas reações são diferentes das dos homens. Os sintomas decorrentes desse mal são fadiga, transtornos no (página 79) sono (insônia ou sonolência excessiva), excesso ou falta de apetite, ansiedade e outros. Sabemos que nem todos esses sintomas aparecem simultaneamente ou em todos os casos de assédio moral, porém costumam ter longa duração e podem afetar órgãos ou sistemas, desencadeando doenças ou agravando as já existentes, como úlcera gástrica, colites, distúrbios da tireóide, hipertensão arterial, doenças de pele, enxaqueca, dores generalizadas e depressão. O constrangimento e a sensação de impotência levam a vítima a degradar sua qualidade de vida e sua condição de trabalho. Pesquisas revelam que, mesmo depois da interrupção do assédio, os sintomas ainda persistem. Isso ocorre por causa das experiências traumáticas, que são marcas difíceis de ser removidas da memória. O trauma é registrado na memória com forte carga emocional, por isso a informação traumática fica disponibilizada na mente da vítima, que passa a construir inconscientemente cadeias de pensamentos geradoras de emoções aversivas e, mesmo não estando na presença do seu agressor, continua ancorada a esses pensamentos e reações, que alteram o seu metabolismo orgânico e comprometem o seu funcionamento. Não é difícil encontrarmos vítimas que se tornam pessoas inseguras e muitas vezes são conduzidas ao ostracismo no ambiente de trabalho, especialmente após a denúncia do ato, por represália do seu assediador (Barreto, 2000).

31 71. O alto índice de estresse identificado entre os professores tem como fonte o assédio moral? O assédio moral é uma das fontes do estresse do profissional docente. Porém, precisamos reconhecer que na escola, assim como nas demais organizações, existe certa carência de canais adequados de comunicação entre os chefes e seus subordinados e entre o corpo docente e o corpo discente. Geralmente, o trabalho do professor é solitário e as interações com os superiores ocorrem de modo formalmente hierárquico e unilateral. Os professores lidam sozinhos com as demandas inerentes à sua profissão, como as pressões internas da (página 80) classe e as pressões externas da própria instituição, sob controle de trabalho muito rígido, dos pais e da sociedade, pois precisam responder às suas expectativas preconcebidas e ainda lidar com os mais diferentes tipos de tratamento recebidos. Tal demanda e ritmo ocupacional, aos poucos, vão submetendo o indivíduo ao desencanto, à desmotivação, à ansiedade, ao estresse e à sÍndrome de Burnout (Fante, 2007). Pesquisas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que 12 milhões de trabalhadores, 8,1% da população economicamente ativa da Europa, são vítimas de assédio moral. Desses, 26% são funcionários públicos (14% trabalham em setores administrativos e 12% na área de serviços) e 13% são trabalhadores de restaurantes e hotéis. Estima-se que entre 10 e 15% dos suicídios na Suécia sejam decorrentes do comportamento abusivo. Relatórios da OIT e da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que as duas próximas décadas serão caracterizadas pelo "mal-estar na globalização", onde predominarão a depressão, a angústia e outros danos psicológicos relacionados com as novas políticas de gestão. Pesquisa realizada pela médica Margarida Barreto com um grupo de 42 mil trabalhadores indicou que 36% dos trabalhadores brasileiros sofrem assédio moral. Seus estudos concluíram que 90% dos casos são provocados pelo terror psicológico do chefe sobre o trabalhador e 8,5%, do grupo ou de um colega profissional. A pesquisadora afirma que 16% dos profissionais que sofreram assédio moral já tentaram o suicídio (Barreto, 2000). Em relação aos trabalhadores da educação, não dispomos de dados que nos forneçam uma visão sobre o assédio moral. 73. O que as vítimas de assédio moral devem fazer? Margarida Barreto (2000) indica quatro providências que o trabalhador deve adotar: (1) não aceitar nenhum (página 81) ato de humilhação, ameaça ou intimidação, pois assim estará aceitando a violação de seus direitos - é preciso romper o silêncio e dar visibilidade social ao problema; (2) questionar o gestor sobre os procedimentos que está adotando, tendo testemunhas, fazendo o questionamento por escrito ou gravando a conversa; (3) procurar um espaço de confiança para falar, que pode ser o sindicato de sua categoria, a Delegacia Regional do Trabalho, comissões de direitos humanos ou o Ministério Público. Caso tenha confiança nos departamentos da empresa, deve fazer uma comunicação por escrito e protocolá-la, ficando com uma cópia. Alguns profissionais recorrem à delegacia de polícia para registrar boletins de ocorrência contra as injúrias e difamações no ambiente de trabalho. Isso mostra o quanto o empregado está sofrendo, pois fazer um boletim de ocorrência é uma das últimas escolhas do trabalhador que cansou de solicitar explicações acerca da conduta do agressor; (4) se o trabalhador adoecer em conseqüência do assédio moral, a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) deve ser emitida. Nesse caso, o médico do trabalho da empresa, do centro de referência ou do sindicato do trabalhador deverá emiti-Ia e

32 encaminhar o empregado para o INSS, que estabelecerá o nexo causal. A especialista afirma, ainda, que quem sofre assédio moral precisa de apoio e compreensão para a sua dor. Porém, a erradicação desse fenômeno do mundo do trabalho requer a ação coletiva de todos os trabalhadores juntamente com o seu sindicato. ''A ação sindical junto aos trabalhadores é fundamental, visando à transformação das condições de trabalho e à humanização das relações laborativas". (APECF/SP, 2005) (página 82) 8 CONSEQÜÊNCIAS DO BULLYING PARA OS ENVOLVIDOS 74. Quais são as conseqüências dos atos de bullying para a saúde das vítimas? Dentre as diferentes e variadas conseqüências encontradas em estudos de casos e atendimentos clínicos, podemos mencionar os altos índices de estresse. Vale lembrar que o estresse é responsável por cerca de 80% das doenças da atualidade, pelo rebaixamento da resistência imunológica e sintomas psicossomáticos diversificados, principalmente próximos ao horário de ir à escola (especialmente no caso das crianças menores), como dores de cabeça, tonturas, náuseas, ânsia de vômito, dor no estômago, diarréia, enurese, sudorese, febre, taquicardia, tensão, dores musculares, excesso de sono ou insônia, pesadelos, perda ou aumento do apetite, dores generalizadas, dentre outras. Podem surgir doenças de causas psicossomáticas, como gastrite, úlcera, colite, bulimia, anorexia, herpes, rinite, alergias, problemas respiratórios, obesidade e comprometimento de órgãos e sistemas. (página 83) 75. E quanto à saúde mental, quais são as conseqüências? Inicialmente, vale mencionar as inúmeras possibilidades de traumas psicológicos que podem ser vivenciados pela vítima, que, depois de prolongado período de tempo sendo exposta aos ataques, poderá ter prejuízos irreparáveis ao seu desenvolvimento cognitivo, emocional e socioeducacionaL Dependendo da estrutura psicológica de cada indivíduo, o bullying pode mobilizar ansiedade, tensão, medo, raiva, irritabilidade, dificuldade de concentração, déficit de atenção, angústia, tristeza, desgosto, apatia, cansaço, insegurança, retraimento, sensação de impotência e rejeição, sentimentos de abandono e de inferioridade, mágoa, oscilações do humor, desejo de vingança e pensamentos suicidas, depressão, fobias e hiperatividade, entre outros. Imaginemos uma criança em desenvolvimento, que passa a vivenciar de forma repetitiva uma mesma experiência aversiva e constrangedora. Ao longo do tempo, sua mente será dominada por pensamentos geradores de emoções desagradáveis e ficará ancorada ao sofrimento e à desesperança. O bullying também está ligado ao desenvolvimento de transtornos psicológicos graves. Dentre eles o mais enfatizado pela mídia mundial, em face das tragédias provocadas, é o caso do aluno vítima, que, depois de prolongado período de tempo sendo alvo de ataques, chega ao limiar da sanidade e resolve dar fim à própria vida, antes, porém, levando com ele quantos puder. Mune-se de armamento, vai à escola, lá alveja quantos pode e depois comete suicídio. 76. Que prejuízos o bullying pode trazer para o desenvolvimento da inteligência e da capacidade de aprendizagem? Explicaremos à luz da teoria da inteligência multifocal, pela simplicidade com que esta se propõe a explicar o funcionamento inconsciente da mente na construção

33 de pensamentos e no desenvolvimento da inteligência. Ao longo da vida, o indivíduo registra automaticamente em sua memória, de forma inconsciente, todas as informações e experiências vivenciadas desde (página 84) a vida intra-uterina. As informações que tiveram maior carga emocional, positiva ou negativa, no momento do registro, serão arquivadas privilegiadamente e, por isso, serão disponibilizadas para ser reutilizadas em novas construções de cadeias de pensamentos geradoras de emoção (Cury, 1998). Seguindo esse processo inconsciente, a pessoa constrói, ao longo dos anos, toda a sua noção de auto-estima, auto-imagem e auto-conceito, habilidades sócio-relacionais e de resolução de conflitos, além de todo repertório comportamental necessário à sobrevivência e à auto-superação na vida. Dependendo da predominância dos tipos de registros acumulados na memória, se traumáticos ou prazerosos, o indivíduo disporá ou não das habilidades de autoafirmação e de auto-expressão necessárias à sua auto-realização. No caso dos envolvidos em bullying, principalmente os que foram vitimizados, sendo expostos a situações intimidatórias e constrangedoras, pode ocorrer a formação de uma estrutura psicológica caracterizada por auto-estima rebaixada e inabilidades relacionais. Eles poderão ter suas mentes dominadas por pensamentos e emoções marcadas por excessiva insegurança, ansiedade, angústia, medo, vergonha, etc., prejudicando sua capacidade de raciocínio e aprendizado, favorecendo o surgimento de um perfil emocional, que, aos olhos do agressor, caracteriza-o como alguém que não oferecerá resistência aos seus ataques. Nesse caso, o indivíduo poderá ter comprometimentos no desenvolvimento da inteligência, da capacidade de criatividade e liderança, bem como sérios problemas no desenvolvimento afetivo, familiar, social e laboral. 77. Quais são os resultados da vitimização para a aprendizagem e como isso ocorre? Entre os alunos por nós atendidos, identificamos como mais comuns o déficit de concentração e de aprendizagem, a dispersão, o desinteresse pelos estudos e pela escola, o absentismo, a queda do rendimento escolar e a evasão. Em decorrência da vitimização, muitas crianças se tornam ainda mais introvertidas, tristes, (página 85) ansiosas ou irritadas. Geralmente, vão se fechando e se isolando das demais, perdendo o contato com seus colegas de classe e o interesse pelos estudos. Suas mentes ficam aprisionadas às construções inconscientes de cadeias de pensamentos, geradoras de emoções aversivas, que mobilizam aflição, tensão e medo de ser atacadas a qualquer momento. Por isso, perdem a concentração e se dispersam em viagens mentais, na expectativa aversiva de um novo ataque ou montando estratégias de defesa, esquiva ou revide. Quando em aula, caso tenham alguma dificuldade de entendimento ou ainda se lhes restarem dúvidas, temem saná-las, pois sabem que se converterão em alvos de "zoações" ou críticas. Como não conseguem acompanhar o rendimento da turma, inventam desculpas para faltar às aulas, uma vez que a escola tornou-se local de infelicidade e insegurança. Por isso, a aprendizagem fica comprometida e a queda do rendimento escolar vai se acentuando, perdendo aos poucos o interesse acadêmico. Por esses motivos, o rendimento escolar acaba sendo prejudicado, gerando ainda mais constrangimento. Assim, muitos alunos não resistem e mudam de escola ou optam pela evasão escolar. Outros ainda desenvolvem fobia escolar, comprometendo suas relações sócio-educacionais e afetivas.

34 78. Porque o bullying compromete a socialização das vítimas? Outra característica por nós identificada é a tendência das vítimas a se recolher e se isolar dos demais. Elas querem ser deixadas em paz, ou mesmo não ser notadas por seus agressores. A vitimização compromete sua auto-estima e, dessa forma, elas vão se fechando para novos relacionamentos, dificultando a integração social. Muitas vítimas não superam essa dificuldade no decorrer do seu desenvolvimento acadêmico e se tornam adultos com probabilidades de comportamentos depressivos ou compulsivos. Tendem, a apresentar dificuldades na vida sentimental, por não confiarem nos parceiros. No local de trabalho, podem apresentar dificuldade para se expressar, (página 86) falar em público e liderar, déficit de concentração, insegurança, dificuldade de resolução de conflitos, de tornada de decisões e iniciativas. Quanto à educação dos filhos, projetam sobre eles seus medos, suas desconfianças e inseguranças, em muitos casos tornando-se pais superprotetores. 79. Porque as vítimas de bullying não conseguem se defender com facilidade? Alguns fatores podem justificar a dificuldade de defesa das vítimas: estar em minoria frente aos agressores; ser de menor estatura ou força física; apresentar pouca habilidade de defesa e de auto-expressão; inabilidade em lidar com as circunstâncias estressantes e desagradáveis; pouca flexibilidade psicológica e baixa resistência à frustração. No entanto, isso ocorre principalmente por sentirem medo de seus agressores. 80. Porque entre as vítimas impera a “lei do silêncio?” Alguns motivos colaboram para que a maioria das vítimas se cale: falta de apoio e compreensão quando se queixam para os adultos; medo de represálias dos agressores; vergonha de se expor perante os colegas como incompetentes e fracotes; temor pelas reações dos familiares; mobilização de raiva voltada contra si mesma, pela incapacidade de defesa ou por concordar com os seus agressores, acreditando ser merecedora dos maus-tratos sofridos. 81. Normalmente as vítimas tentam interromper a cadeia de maus-tratos que sofrem? Sim. Em alguns casos, a vítima desenvolve um mecanismo de defesa, que lhe faculta superar o problema. São aquelas que se dedicam ao extremo aos estudos ou a outras atividades, conseguindo destaque e (página 87) notoriedade. Como exemplo, podemos citar as gozações e a exclusão que sofreu na escola o renomado escritor Rubem Alves. Por ser oriundo do interior, em função das roupas que usava e do sotaque mineiro, estudando numa escola de elite do Rio de Janeiro, ele passou por vários sofrimentos emocionais. No entanto, um grande número de vítimas não consegue resultado satisfatório de auto-superação. Ao contrário, muitas pedem para ser deixadas em paz, mas parece que ninguém as ouve. Algumas conseguem interromper os maus-tratos mediante a violência, como forma de revide. Outras se encorajam e buscam auxílio junto aos adultos, conseguindo ou não resultados positivos. Em casos extremados, algumas vítimas, no limiar do sofrimento, resolvem dar fim à própria vida. Outras se armam, se vingam de colegas e professores, para, em seguida, cometer suicídio. Existem outras que perdem a autoconfiança e desenvolvem tiques nervosos, ansiedade, obsessões, compulsões, fobia escolar e social, bloqueios, dificuldade de manter-se controlada em focos de

35 tensão, além de transtornos psicológicos. 82. As conseqüências da vitimização podem ser evidenciadas no contexto profissional? Sem dúvida. Em estudos de casos que recebemos e atendimentos clínicos, constatamos drásticas conseqüências da vitimização bullying para a vida profissional. Podemos citar o caso de um homem talentoso, competente, que temia assumir cargo de chefia. Também era excelente compositor, com potencial artístico e musical, mas não conseguia se apresentar em público, por ter desenvolvido excessiva timidez, em função dos traumas vivenciados na escola. Segundo Zimerman (1999, p. 113), "esses traumas psicológicos ficam representados no ego da criança, de modo que posteriores acontecimentos, aparentemente banais, podem incidir e evocar essas representações traumáticas, determinando um estado de "desamparo", muitas vezes acompanhado de uma intensa angústia, de um estado de pânico totalmente desproporcional ao manifesto fator desencadeante. Os acontecimentos externos traumáticos costumam ser administrados pelo ego do indivíduo traumatizado por meio de uma lenta elaboração". (página 88) Outros poderiam ir além academicamente, porém sentem-se bloqueados e acabam desistindo. Outros abrem mão de promoções por medo de exercer a liderança. Outros apresentam dificuldades com figuras de autoridade. Outros se mantêm passivos e submissos, preferindo cargos inferiores pelo medo de lidar com situações de conflito ou de tomada de decisões, uma vez que sua auto-estima ficou prejudicada. Outros se tomam muito competentes, mas se isolam no ambiente de trabalho, por não saber se relacionar com os colegas ou temer a relação com o público. Outros se tomam competitivos, individualistas e egoístas, com dificuldades de empatia, de solidariedade e de compartilhamento de idéias. Outros se valem de subterfúgios, como manipulação, fofoca e difamação, para obter vantagens de ascensão. Outros desenvolvem um nível de exigência pessoal muito rígido, com baixa resistência à frustração, elevado nível de estresse e mecanismos compulsores. Outros apresentam dificuldades de trabalho em equipe. Outros se tomam vítimas ou praticantes de assédio moral. Outros se tomam usuários e dependentes de álcool ou de drogas. Outros reproduzem inconscientemente a vitimização sofrida e adotam atitudes autoritárias, agressivas, intolerantes, insinuantes, pouco afetivas, tanto no trabalho como nas relações familiares. 83. A vitimização do bullying pode prejudicar o desempenho de atletas de alto nível? Em nossa experiência de preparação de atletas competitivos, constatamos que em alguns casos a vitimização bullying incidiu diretamente no desempenho esportivo. Muitos são aqueles com talento e habilidades desportivas, mas que apresentam dificuldade de concentração relaxada em foco de tensão. São capazes de grande superação nos treinamentos, mas, à medida que se aproximam do momento da competição, começam a sentir efeitos psicossomáticos indesejáveis e acabam "amarelando" ou sentindo-se travados, prejudicando seu rendimento. Dentre os sintomas apresentados nesses casos, encontramos: ansiedade exacerbada, insegurança, níveis de ativação e agressividade inadequados ao momento da competição, insônia, construções mentais obsessivas de fracasso, inquietação, tensão muscular, tremores, dor no estômago, (página 89) diarréia, vômito, taquicardia e nervosismo, além do medo da opinião pública em caso de fracasso, prejuízos na capacidade de tomada de decisão e de antecipação de

36 movimentos, rigidez no nível de exigência pessoal e baixa resistência à frustração. Com alguns amantes e praticantes do esporte, verificamos que proporcionalmente ao seu crescimento em termos de ranking, houve minimização da sensação de prazer e satisfação pessoal, transformando a prática desportiva em fonte de angústia e sofrimento. Conhecemos casos de atletas que, nos treinamentos, obtinham Índices acima da média, com potencial para se tomar estrelas, mas que de tanto obterem baixos resultados nas competições, acabaram abandonando a prática competitiva. 84. Quais são as conseqüências para os praticantes de bullying no contexto escolar? Os praticantes de bullying comumente apresentam distanciamento dos objetivos escolares, baixo nível acadêmico e dificuldades de adaptação às regras escolares e sociais, devido às suas atitudes indisciplinadas, desafiantes, perturbadoras, resultando em déficit de aprendizagem e desinteresse pelos estudos. Podem tomar-se arrogantes, manipuladores, cruéis, "durões", além de desenvolver liderança negativa. Podem introjetar a noção de que conseguem destaque e notoriedade social por meio de comportamentos autoritários, abusivos e violentos, o que pode conduzi-los ao caminho da delinqüência e da criminalidade. 85. E no contexto social, que conseqüências podem ser observadas? O autor de bullying tem grande probabilidade de adotar comportamentos antisociais ou delinqüentes, devido à falta de limites ou de modelos educativos que direcionem seu comportamento de auto-realização na vida para ações proativas e solidárias. As regras de convívio escolar e social são encaradas com desmotivação, uma vez que ele se sente superior aos demais e aprendeu a conviver sentindo-se mais gratificado com as próprias regras internalizadas, que lhe dão maior notoriedade (página 90) e destaque perante seus iguais. Pela insegurança que sente, resultante da carência de amor e de limites, suas ações são desprovidas de consideração, de empatia e de compaixão pelos colegas, adotando postura desafiadora frente às figuras de autoridade, como pais, professores e policiais, como expressão da necessidade de sentir-se valorizado e respeitado. Por isso, tais atitudes podem ser encaradas como pedido de ajuda e sinalizador de que algo não está bem. O praticante de bullying presenta maior suscetibilidade ao envolvimento em gangues, brigas, tráfico, porte ilegal de armas, abuso de álcool e de drogas. Tende a praticar a violência doméstica e o assédio moral em seu local de trabalho, além de apresentar baixa resistência à frustração. 86. Existem evidências do envolvimento de praticantes de bullying em criminalidade? Estudos demonstram que os agressores têm maior probabilidade de praticar atos delinqüentes e criminosos e violência doméstica. Nesse sentido, o pesquisador Dan Olweus (Fante, 2005) desenvolveu estudos longitudinais com um grupo de adolescentes identificados como autores de bullying com idades entre 12 e 16 anos. Em seus estudos, ele concluiu que, antes de completar 24 anos de idade, 60% dos adolescentes haviam sido apenados com pelo menos uma condenação legal. Nessa mesma linha de pesquisa, estudiosos americanos disseram haver grande probabilidade de esses agressores ainda terem, no mínimo, mais duas condenações legais durante a vida.

37 87. Podemos considerar que crianças e adolescentes agressivos se tornarão adultos agressivos? O que é preciso para haver mudança? É importante considerar inicialmente o potencial de agressividade que todos temos e que é necessário e inerente à vida. É graças à agressividade que conseguimos (página 91) acordar cedo, ir à escola ou trabalhar o dia todo e ainda nos encontrarmos dispostos à noite. A agressividade é que nos permite a determinação e a auto-superação na vida. Nesse aspecto, a agressividade é muito positiva e faz parte do repertório psíquico de que todos dispomos. Porém, a agressividade deve sempre ser educada e canalizada para projetos que nos realizem e contribuam para a construção de uma sociedade melhor, mais humana e solidária. Outro aspecto é o da agressividade manifestada como mecanismo de defesa. Em crianças que repentinamente se mostram agressivas, isso pode ser um sinalizador de que algo não está bem, de pedido de socorro ou, ainda, uma crise de frustração ou de oposição, uma forma de expressar insatisfação com a vida ou ainda a forma encontrada para conseguir o que quer. Portanto, a agressividade nas crianças precisa ser observada e controlada. É necessário que os adultos intervenham amorosamente e com firmeza, para conter e direcionar o impulso agressivo para ações socialmente gratificantes. 88. O que leva uma criança a introjetar e a manifestar um comportamento agressivo? Segundo Zimerman (1999, p. 103), "o grupo familiar exerce profunda e decisiva importância na estruturação do psiquismo da criança, logo, na formação da personalidade do adulto". Os modelos educativos familiares, introjetados pela criança na primeira infância, resultantes dos tipos de vivências e interações socioemocionais na família, gratificantes ou não, tornar-se-ão matrizes de construções inconscientes de cadeias de pensamentos e emoções. Esses registros nortearão o desenvolvimento da criança, manifesto em atitudes, opiniões, crenças, valores, conceitos, preconceitos, cuidados e hábitos pessoais, comportamento social-afetivo na família, na escola e entre seus pares. A criança aprende principalmente pela imitação do comportamento dos adultos. Ela não vive para si mesma, pois ainda não desenvolveu plenamente a consciência de si mesma. Tudo o que faz só tem sentido se aferido (página 92) pelos pais. Todos os seus sentidos estarão voltados para os pais e para suas reações aos seus atos. Sua memória registrará expressões faciais, corporais, movimentos, trejeitos, posturas e atitudes. Sua audição se especializará em distinguir nuances no tom e no timbre vocal, na modulação, no volume, no andamento da voz e nas palavras que escuta no ambiente familiar, além dos temas tratados, que, aos poucos, farão sentido para ela. Segundo Mussen (1974, p. 311-132), "se os pais permitem ou reforçam abertamente a agressão, é possível que as crianças se comportem agressivamente em casa e, por generalização, em outros lugares em que sintam ser a agressão permitida, esperada ou encorajada. A presença de um adulto permissivo favorece a expressão do comportamento agressivo. As respostas agressivas imitativas adquiridas de um modelo podem generalizar-se para outras situações". Em seu corpo, a criança dispõe de repertório sensitivo extremamente complexo e abrangente, que lhe permitirá diferenciar afetivamente a forma como é locada, mas, acima de tudo, dispõe da faculdade de se emocionar, de transformar tudo o que percebe, capta e processa em emoções e sensações que a mobilizarão constantemente em seu desenvolvimento. A consciência de si mesma é formada

38 como resultante dessas interações ao longo do tempo. Todo o vivido será registrado em sua memória, principalmente em função da carga emocional mobilizada na hora do registro. Por isso, ela precisa ser educada de maneira afetiva, sentindo-se amada, valorizada, com disciplina e limites. No entanto, se foi exposta a um ambiente onde algum cuidador expressava-se de forma autoritária, agressiva ou castradora, poderá manifestar comportamento agressivo no seu desenvolvimento socioeducacional. Há casos em que a criança não manifesta agressividade, mas apatia, bloqueios de aprendizagem e timidez. 89. Quais são as conseqüências para os espectadores do Bullying? Mesmo não sofrendo diretamente as agressões, muitos deles podem se sentir inseguros, incomodados (página 93) e mesmo traumatizados pelo sofrimento do outro. Alguns espectadores reagem negativamente, uma vez que seu direito de aprender em um ambiente seguro e solidário foi violado, o que pode influenciar seu progresso acadêmico e social, além de prejudicar sua saúde física e emocional. 90. Como o espectador pode ter a sua aprendizagem comprometida? O medo de ser alvo de bullying faz com que muitos espectadores se inibam, prejudicando sua participação nas aulas. Não se atrevem a fazer perguntas ao professor para sanar suas dúvidas por temerem "zoações" ou rótulos. Dessa forma, ao longo do tempo, acumulam dúvidas e, na maioria dos casos, os familiares não conseguem ajudá-los, por falta de tempo ou de conhecimento do tema. Preferem faltar às aulas a participar de determinadas atividades em grupo. O excesso de faltas, o acúmulo de dúvidas, a falta de cooperação, a insegurança e a tensão geram déficit na aprendizagem e prejuízos no desempenho escolar. 91. Na questão da socialização, como podemos observar os prejuízos? Muitos espectadores se retraem, se isolam e se tornam quase imperceptíveis, para não ser notados em sala de aula. Como defesa, adotam posturas reativas, como agressividade, passividade ou apatia, o que repercute no desenvolvimento de suas habilidades relacionais de fazer amigos e se integrar aos grupos. Quando adultos, podem apresentar extremo retraimento, timidez exacerbada, dificuldade de falar em público e de ampliar sua rede de relacionamentos. 92. Por que o bullying pode despertar apatia entre os espectadores? Percebemos que a maioria dos espectadores fica engessada ante a violência. São acometidos de certa inércia social e indiferença ao sofrimento do outro, pela banalização da própria violência e até mesmo sua validação. Isso ocorre por vários fatores, dentre eles, o sistema (página 94) de normas socioculturais, que norteiam as crenças e as opiniões das pessoas e sua atitude nas situações de emergência. Outros se calam em razão do temor de se tomar a próxima vítima. Outros se mobilizam internamente, mas não sabem o que fazer nesses casos. É necessário que os alunos sejam orientados sobre como encaminhar uma denúncia, de forma anônima, frente a esse tipo de violência. Para isso é necessário que conheçam as formas seguras de encaminhamento, para não se expor a riscos desnecessários. Sugerimos que os espectadores sejam orientados à inclusão de colegas que apresentam dificuldades de socialização, nos trabalhos em grupo, nas equipes esportivas, na recreação, nos relacionamentos. 93. O silêncio do espectador não é prejudicial a si mesmo?

39 Sem dúvida, mas precisamos antes de tudo entender as causas desse silêncio. Para muitos alunos, o ato de presenciar as situações de bullying gera, a princípio, tensão, medo, raiva, revolta, inconformismo. Com o tempo, as atitudes adotadas pelos intimidadores passam a fazer parte do cotidiano da escola, gerando certa acomodação ou psicoadaptação. Alguns espectadores vêem a agressão sofrida pelo outro como fonte de diversão e prazer. Com isso, reforçam as atitudes maldosas dos agressores ou nelas se inspiram para perseguir a mesma presa ou eleger outra. Porém, encontramos espectadores que se incomodam, se angustiam e se sentem impotentes. Nesse caso, gostariam de ajudar os colegas vitimizados ou denunciar a perversidade dos intimidadores, porém o medo de se transformar em "próxima vítima", associado ao fato de não saberem como fazer uma denúncia com segurança, os impedem. Por outro lado, não fica bem para a sua popularidade, caso alguém os veja em companhia de um "fracote", que não reaja aos ataques. Muito delicada é a situação dos espectadores, pois estes também são tomados por sensações de constrangimento e por emoções desagradáveis. Pior é quando desenvolvem a insensibilidade frente ao sofrimento alheio, o que é muito comum. (página 95) 94. Podemos considerar os espectadores tão culpados quanto os agressores? Quando os espectadores participam dos ataques ao "bode expiatório" ou incentivam a participação de outros, são igualmente responsáveis, por conivência ou omissão. Nesse caso, sua ação resulta indiretamente em sofrimento para as vítimas. O que causa perplexidade em muitos é o fato de que a maioria dos alunos, chamados espectadores, nada faz para ajudar seus colegas. Muitos, por medo de se tornar as próximas vítimas, dão risadas, incentivam, valorizam e reforçam a ação dos agressores, tornando-os cada vez mais populares por suas ações, promovendo, com isso, alienação e banalização do sofrimento alheio. Não estariam assim, inconscientemente, favorecendo o surgimento de uma geração de pessoas insensíveis, omissas, descomprometidas, com dificuldades de empatia e de estabelecer relacionamentos sólidos e duradouros? (página 96) 9 CAUSAS DO BULLYING? 95. É notório o crescente aumento da violência e da agressividade infanto-juvenis em nossa sociedade, sendo este um fato preocupante quanto ao futuro das famílias, das empresas e do Estado. A que se atribui esse fenômeno? São inúmeros os fatores que colaboram para o crescimento da violência e da agressividade infanto-juvenis. Levemos em consideração as mudanças sociais que ocorrem em nosso cotidiano, uma sucessão de causas e conseqüências que influenciam o modo de ser e de viver do indivíduo e do grupo, tomando, muitas vezes, obsoleta ou defasada sua anterior resposta adaptativa para lidar com essas modificações. Podemos constatar tais mudanças na globalização, no apelo ao consumismo, nos padrões de beleza ditados pela mídia, nos fenômenos ligados à emigração, no mal-estar econômico, na crescente desigualdade social, na falta de oportunidades de ascensão social por vias legais e éticas, na integração étnica, religiosa e cultural, dentre outros. Há ainda que levarmos em consideração os modelos educativos familiares, formadores de atitudes (página 97) nos filhos estudantes. Em busca de respostas sobre o quanto essas transformações podem

40 influenciar o comportamento das pessoas, temos que considerar a agressividade do ponto de vista natural. A agressividade é uma faculdade inerente ao ser humano, que o mobiliza a ações de sobrevivência, de enfrentamento e de auto-superação na vida, e, com o auxílio dos limites morais e sociais, pode ser canalizada e orientada para ações auto-realizadoras de manutenção e desenvolvimento da vida. Entretanto, a família passa por transformações nunca antes imaginadas. A dificuldade de estabelecer disciplina e limites para os filhos tem sido decisiva para a expressão da agressividade e da violência infanto-juvenis. Além disso, muitas crianças e jovens aprendem o comportamento agressivo e violento justamente no ambiente familiar, quando precisavam exatamente do oposto, ou seja, de modelos educativos positivos na família para serem imitados. Essa ausência de limites e de modelos de identificação, associada aos outros fatores anteriormente mencionados, pode desencadear comportamentos destrutivos e violentos. Portanto, as mudanças sociais têm grande influência no surgimento desse fenômeno, na medida em que todo esse movimento não consegue transmitir referenciais estáveis, modelos construtivos, valores e ideais que possam ser compartilhados e sentidos como próprios. 96. Em que idade se pode observar a manifestação da agressividade na criança? Quando ela aprende o autocontrole? Podemos observar a agressividade incontrolável e sem limites dos 2 aos 4 anos de idade. É na primeira infância que a criança tenta subjugar os pais às suas próprias necessidades, travando verdadeira luta para a diferenciação da relação simbiótica com a figura materna. Daí a necessidade do estabelecimento de regras que norteiem o comportamento e as formas adequadas de realização dos desejos; de limites que a ajudem a delimitar seu espaço de auto-afirmação e a lidar com a frustração; de diálogo como forma adequada de auto-expressão; (página 98) de hábitos familiares saudáveis quanto à resolução de conflitos e de ocupação do tempo livre; de exemplos de expressões afetivas e solidárias, para que possa desenvolver o senso de empatia; e de participação ativa na vida comum do lar, a fim que desenvolva habilidades de integração, de responsabilidade, de sobrevivência e a noção de utilidade na construção de ideais. Aos poucos, a agressividade tende a se atenuar e reaparece na adolescência, em menor grau e com características de consolidação de autocontrole. Próximo à idade adulta, quando já deveria estar em plenas condições de gerenciá-la com equilíbrio, há um declÍnio (Costantini, 2006). 97. Qual é a origem do comportamento agressivo e intimidatório? Para entendermos a origem desse comportamento, precisamos entender as fases de desenvolvimento das crianças. Na fase do "não", das crises de oposição e das explosões de raiva inesperadas, entre os 2 e os 3 anos, as crianças precisam ter alguém que intervenha a fim de conter adequadamente o impulso e a ânsia que o provoca. Caso isso não aconteça, esse tipo de comportamento passa a fazer parte do seu repertório comportamental. Uma vez adotado esse comportamento, muitas crianças passam a desempenhá-lo em suas relações sociais, através de atitudes intimidatórias, abusivas e agressivas, como forma de manipular e conseguir seus intentos. Há, ainda nessa fase, outras crianças que são reprimidas, ridicularizadas, criticadas, repreendidas ou punidas por adultos impulsivos e às vezes violentos. Nesse caso, as crianças introjetam o comportamento do adulto e passam a imitá-lo, reproduzindo-o em suas relações sociais. Outras, ainda, descobrem sozinhas, muito cedo, o quanto é fácil abusar e intimidar os outros para conseguir o que querem.

41 Geralmente, quando esse tipo de comportamento é descoberto, os argumentos que as crianças mais utilizam são do tipo "a vítima é chata, provocadora, foi ela quem começou" ou "ela é diferente dos outros". Infelizmente, o desconhecimento, as idéias preconcebidas e o (página 99) preconceito em relação ao diferente são transmitidos nos diversos ambientes, os quais fazem parte da vida das crianças, como o familiar, o escolar, o social e, sobretudo, a mídia. Esta oferece modelos de referência onde muitas vezes nos reconhecemos ou nos identificamos. 98. Quais seriam as causas do comportamento bullying? Inúmeros estudos estão sendo desenvolvidos na tentativa de compreender esse fenômeno, sob os mais diversos aspectos, como familiar, social, cultural, afetivo e emocional. As inúmeras correntes filosóficas, psicológicas, antropológicas e pedagógicas tentam explicá-lo, e a maioria aponta para os seguintes aspectos: carência afetiva, ausência de limites, afirmação dos pais sobre os filhos através de maus-tratos e explosões emocionais violentas, excessiva permissividade, exposição prolongada às inúmeras cenas de violência exibidas pela mídia e pelos games, facilidade de acesso às ferramentas oferecidas pelos modernos meios de comunicação e informação. Além desses, existe a alta competitividade, que acaba gerando o individualismo e a dificuldade de empatia, a crise ou ausência de modelos educativos baseados em valores humanos, capazes de alicerçar a vida do indivíduo. 99. Como surgem os principais protagonistas do fenômeno? Durante nossa trajetória como estudiosos do fenômeno e neste último ano, atuando, especialmente, junto ao ensino infantil, pudemos aprofundar nossa compreensão sobre o processo desencadeador do bullying escolar. Percebemos que aqueles que são vulneráveis à vitimização possuem as mesmas características, independentemente da idade. Tanto as crianças quanto os adolescentes e adultos sinalizam que são presas fáceis aos ataques dos agressores. Os indivíduos alvos de bullying possuem sua auto-estima fragilizada. Insegurança, medo e dificuldade de defesa são algumas das características que os tornam alvos dos ataques (página 100) dos agressores. Esses, por sua vez, também sentem insegurança e medo, porém, nas atitudes hostis e intimidadoras que impõem aos mais fracos, escondem sentimentos de mágoa, de revolta, de dor, de vitimização. Entretanto, aos olhos dos adultos, parecem ter auto-estima elevada e, pelo fato de agirem "impiedosamente" com os mais fracos e indefesos, são tidos como "maus". Em atendimento pedagógico e psicológico, concluímos que o praticante de bullying, em algum momento de sua vida, foi alvo de um tirano, de um bully - talvez, de algum adulto, como pais, parentes, vizinhos, professor ou algum colega de escola, que se aproveitou de sua fragilidade e dificuldade de defesa para imputar-lhe sofrimentos. Portanto, o bullying acontece dentro de um ciclo repetitivo de abusos e maustratos, duas faces da mesma moeda em que o indivíduo aparece como vítima e agressor ao mesmo tempo. As crianças não nascem praticando bullying. Algum fator no transcurso de seu desenvolvimento colaborou para o surgimento desse tipo de comportamento. Crianças que são vítimas de alguma forma de abuso na primeira infância, seja sexual, psicológico ou físico, tornam-se inseguras, temerosas, ressentidas. Sua tendência poderá ser a de se colocar como alvo de bullies e/ou de submeter outras crianças ao bullying. Reproduzir a vitimização é um esquema de proteção que adotam para lidar com a dor do trauma, a dor emocional. Portanto, o bully antes de tudo é um indivíduo que sofre, que tem medo e muita raiva represada em seu coração. Submeter o mais fraco ao seu domínio, maltratar o outro, é uma

42 forma de esconder sua fraqueza, é ação prazerosa de fazer com que outros sofram da mesma forma com que ele sofreu. Com o passar do tempo, suas ações negativas se sedimentam, se interiorizam e passam a fazer parte do seu repertório comportamental. Por isso, encontramos muitos adolescentes ou adultos que apresentam comportamentos autodestrutivos ou violentos contra outro(s) e dizem não se arrepender. Para essas pessoas, o sofrimento exacerbado, convertido em atitudes perversas e cruéis, aumentando a intensidade e a gravidade no transcorrer de suas existências, resulta de um esforço desprendido para lidar com suas emoções e seus sentimentos. Não tendo (página 101) introjetado na primeira infância um modelo positivo que lhe sirva de parâmetro para reger suas ações e reações, a criança tem o direito de encontrar esse modelo no meio social imediato à família, ou seja, a escola. Por isso, a figura do professor das séries iniciais é de fundamental importância para que a criança tenha o quanto antes um referencial de confiança, de respeito, de amor, de equilíbrio, de identificação. Se não encontrarem na escola esse referencial positivo, tendem a buscá-lo fora dela. Porém, muitas vezes, encontram-na na figura de anti-heróis ou no envolvimento delinqüente. 100. Em que medida os educadores contribuem para o bullying? Muitos autores apontam que a ação educativa muito branda, permissiva, está no âmago dos problemas dos jovens, o que resulta na falta de respeito às regras e no aumento do nível de transgressão. A educação permissiva colabora para que os jovens não apreendam a noção de limites em suas ações, que vivam de maneira irresponsável, que sintam dificuldade em conter seus impulsos, negociar os conflitos, responsabilizar-se pelas próprias ações, refletir sobre as conseqüências de seus próprios atos, respeitar o outro e saber se colocar no lugar dele. A ausência de modelos positivos também é outra questão a ser considerada. Muitos educadores ou cuidadores apresentam dificuldade em manter relações construtivas, de comunicarse de maneira assertiva e apropriada, de resolver seus conflitos com paciência e bom-humor, respeitando o ambiente e as pessoas envolvidas. Alguns oferecem modelos educativos inadequados, principalmente aqueles em que imperam a violência, o autoritarismo, os maus exemplos, a excessiva proteção, a permissividade, além de omissão, negligência e abandono. 101. Por que alguns jovens sentem prazer em maltratar o outro? O modelo educativo predominante introjetado pela criança na primeira infância é determinante, tanto para a manifestação do comportamento agressivo quanto para a (página 102) produção de "perfis psicológicos" que favorecem a sua expressão. A história intrapsíquica de cada um, armazenada nos arquivos de memória, oriunda das primeiras interações emocionais na psicodinâmica familiar, ao longo do seu desenvolvimento, será decisiva na construção dos seus pensamentos, suas emoções e seus comportamentos. Caso tenha sido exposta constantemente a situações de maus-tratos e humilhações, a criança desenvolve a tendência inconsciente de reproduzir o modelo introjetado contra outras crianças, como forma de auto-afirmação e auto-expressão, na tentativa natural de obtenção de auto-satisfação e auto-realização. Dessa forma, sente inconscientemente certo prazer em maltratar e provocar sofrimento. 102. Como os meios de comunicação podem colaborar para o surgimento do comportamento bullying? O que os pais podem fazer? A violência é constantemente apresentada em filmes, noticiários, jogos de

43 videogame e de computador. Nos filmes, muitas vezes, os protagonistas utilizam a violência como instrumento de justiça. As telenovelas, em seu enredo, mostram o poder sendo exercido pela força, pela difamação, com chantagens, falcatruas e violência. Nos games, assim como nos filmes, há um apelo à "adrenalina", sob a alegação de que precisam ser emocionantes. Assim, eles estão cada vez mais violentos. Levando em conta a forte carga emocional com que os personagens e as tramas são construídos, estes podem acarretar forte impacto emocional, não apenas no indivíduo, mas em toda coletividade, influenciando o comportamento e os relacionamentos das pessoas. Como a criança ainda não dispõe de parâmetros emocionais para distinguir o real do fictício, acaba validando esses modelos como forma de identificação, a fim de conseguir a tão sonhada auto-realização. Os pais podem selecionar o que as crianças podem ou não assistir, substituir a televisão e/ou jogos de videogame ou internet por brinquedos e, principalmente, pela sua participação, mesmo que por pouco tempo, em sua vida. Lembramos que não é a quantidade, mas a qualidade do tempo investido na relação (página 103) com a criança que certamente fará a diferença positiva em seu desenvolvimento. 103. A imposição de estereótipos pela mídia não incentiva a prática de bullying? Quem foge desses padrões não passa a ser um alvo preferencial? Sem dúvida, a mídia pode influenciar negativamente o comportamento de muitos, o que colabora com o surgimento do bullying. Por exemplo, a estética estabelecida pela mídia cria um padrão de beleza excludente, fazendo com que muitas adolescentes que estão acima do peso ou que não se enquadram no padrão de beleza e vestimenta estabelecido sintam-se envergonhadas e sejam encaradas como "defeituosas" ou "esquisitas" pelos colegas. Muitas são as jovens que vivem preocupadas com dietas, regimes e malhação, procurando manter-se dentro dos "padrões" estabelecidos. Em muitos casos, essa busca para manter-se dentro dos padrões toma-se causa de problemas que prejudicam a auto-estima e a saúde. Dependendo da estrutura psíquica, podem desenvolver bulimia, anorexia, depressão, ou transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Alguns casos de anorexia têm sido veiculados na mídia, expondo a dificuldade do diagnóstico e os estudos que vêm sendo empreendidos para identificar preventivamente as suas causas. Talvez muitos desses casos tenham sua origem no bullying. (página 104) 10 MEDIDAS, PROCEDIMENTOS E ENCAMINHAMENTOS 104. Uma vez que a violência tenha adentrado a escola, o que fazer? Em primeiro lugar, há que se reconhecer que a violência é um problema social. Nesse sentido, a escola tem papel fundamental na sua redução, por meio de ações e programas preventivos, em parceria com as famílias dos alunos e os diversos atores sociais, para garantir a sua eficácia. É fundamental que em cada escola se constitua uma comissão ou equipe que possa articular políticas preventivas e capacitar seus profissionais para atuar de forma segura, sem correr riscos desnecessários. 105. Em relação ao tema bullying, as escolas brasileiras estão preparadas para enfrentá-lo? O bullying sempre existiu nas escolas, porém, há pouco mais de 30 anos é que começou a ser estudado com parâmetros científicos, como fenômeno psicossocial, e recebeu nome específico. No Brasil, o tema começou a ganhar

44 espaço através do trabalho de pesquisa que realizamos e do programa antibullying Educar para a Paz, que iniciamos no interior paulista em 2000. Desde então, vem conquistando visibilidade e (página 105) gerando debate público, especialmente em decorrência das tragédias ocorridas em Taiúva (SP) e Remanso (BA). Em meados de 2006, realizamos o I Fórum Brasileiro sobre o Bullying Escolar, em Brasília-DF, com a participação de diversos segmentos da sociedade. No entanto, a maioria das escolas ainda não está preparada para o seu enfrentamento. Algumas por desconhecimento, outras por omissão, muitas por comodismo e negação do fenômeno. 106. O que as escolas devem fazer para enfrentar o fenômeno? Acreditamos que a prevenção começa pelo conhecimento. É preciso que a escola reconheça a existência do fenômeno e, sobretudo, esteja consciente de seus prejuízos para a personalidade e o desenvolvimento socioeducacional dos estudantes. A escola também precisa capacitar seus profissionais para observação, identificação, diagnóstico, intervenção e encaminhamentos corretos, levar o tema à discussão com toda a comunidade escolar e traçar estratégias preventivas que sejam capazes de fazer frente ao fenômeno. Além do engajamento de todos, é preciso contar com a ajuda de consultores externos, como especialistas no tema, psicólogos e assistentes sociais. É imprescindível o estabelecimento de parcerias com conselhos tutelares, delegacias da Criança e do Adolescente, promotorias públicas, varas da Infância e Juventude, promotorias da Educação, dentre outros. 107. Como a escola deve proceder para detectar os índices de bullying? É necessário que a escola faça uma pesquisa com os alunos, a fim de ouvilos para saber quais são as suas experiências com o bullying e os sentimentos despertados por ele. Em diversos países, o referencial é o questionário desenvolvido pelo norueguês Dan Olweus. Em nossas pesquisas, não é diferente: utilizamos o Questionário sobre Bullying - Modelo TMR (Training and Mobility af Researchers), adaptado por Ortega, Mora-Mérchan, (página 106) Lera, Singer, Pereira e Menesini (1999) do questionário original desenvolvido por Dan Olweus (1989). Aplicamos também uma atividade em forma de redação onde os alunos são estimulados a falar anonimamente sobre a sua vida na escola, ou seja, seu relacionamento com os colegas, uma espécie de autobiografia. Essa atividade ajuda a romper o silêncio e possibilita a expressão de emoções e sentimentos. Desenvolvemos oficinas temáticas com dinâmicas de grupo, que favorecem a compreensão do fenômeno. As discussões têm por objetivo encontrar soluções para as dificuldades nas relações interpessoais. O incentivo ao exercício da solidariedade, da tolerância, do respeito às diferenças individuais é fator motivador de mudanças. Há casos em que alunos praticantes de bullying se convertem em "alunos solidários", passando a auxiliar seus colegas dentro e fora da sala de aula, em especial aqueles que outrora eram suas vítimas. Podemos citar também modificações na postura de alguns professores, após reconhecerem as práticas do bullying decidiram mudar suas atitudes. 108. Além dos instrumentos de pesquisa, como o professor pode identificar o bullying em sala de aula? A observação nas relações interpessoais é o primeiro procedimento que o professor deve adotar. Nas primeiras três semanas de aula o fenômeno já se torna perceptível. Orientamos para que o professor observe e anote na ficha individual do

45 aluno as suas impressões: se o aluno está constantemente isolado dos demais, especialmente no horário de recreio; se nos trabalhos em grupo ou jogos em equipe é sempre o último a ser escolhido; se é alvo de "zoações", caçoadas, apelidos pejorativos em decorrência do seu aspecto físico, psicológico ou cognitivo; se apresenta aspecto triste, deprimido, aflito, ansioso, irritadiço ou agressivo; se no decorrer dos meses há súbita queda no rendimento escolar e desinteresse pelos estudos; se falta às aulas freqüentemente, sem justificativas convincentes; se apresenta arranhões, ferimentos ou danificação de seus materiais escolares constantemente; se é intimidado, perseguido ou maltratado (página 107) fisicamente. Além dessas observações, o professor deve também ater-se às reações da vítima quando atacada, especialmente por meio da resposta que manifesta pela expressão fisionômica. 109. Como diagnosticar um caso de bullying? Em nossas experiências concluímos que não é tão simples diagnosticar um caso de bullying, a não ser em sua superficialidade. Existe grande probabilidade de os pais ou profissionais das diversas áreas creditarem ao bullying todas as situações de violência que ocorrem na escola. Por outro lado, alguns fatores dificultam sua identificação: muitos adultos não reconhecem o problema em decorrência da dificuldade das vítimas em expor a situação vivenciada; a ausência de adultos quando ocorrem os ataques; a convicção de que os conflitos entre alunos devem ser resolvidos por eles mesmos; dificuldades pessoais em lidar com determinação frente aos conflitos entre alunos; crença de que o bullying é "brincadeira própria da idade" e faz parte do processo de amadurecimento do indivíduo. Para o adolescente é mais fácil formular e verbalizar o que se passa, embora seja mais difícil a sua denúncia, pois sente vergonha de se expor perante seus colegas ou adultos. Quanto às crianças, de acordo com a fase evolutiva, precisamos considerar que elas ainda não possuem percepção do grupo e do rechaço, uma vez que na fase egocêntrica as brincadeiras e a socialização acontecem com poucos amigos. Nesse caso, elas ainda não têm maturidade para formular e verbalizar sua situação, embora expressem sentimentos de insatisfação, raiva, medo e vergonha. Muitas crianças pequenas adotam a estratégia de fuga, não querendo mais ir à escola, embora não consigam expressar os motivos. Portanto, para que não haja equívocos no momento do diagnóstico, aconselhamos que se recorra sempre aos critérios de identificação do bullying: ações deliberadas e repetitivas, desequilíbrio de poder, ausência de motivação evidente e sentimentos despertados. É imprescindível que se analise também o grau de (página 108) comprometimento da vitimização, que pode ser considerado leve, moderado e crônico. 110. Como abordar o assunto com os supostos envolvidos? Inicialmente, temos que estar conscientes de que nossos alunos estão sofrendo em um ambiente que deveria ser de harmonia e segurança. Geralmente nossa atenção se volta às vítimas e nossa indignação aos agressores, mas temos que entender que ambos estão em sofrimento e necessitam ser compreendidos e orientados a construir uma auto-imagem positiva, que lhes permita sair da posição de vítima e de agressor. Não queremos com isso dizer que os praticantes de bullying não devam ser responsabilizados por seus atos. Entretanto, precisamos entender que nos bastidores do comportamento de intimidação e provocação constante se encontra alguém amargo, que aprendeu a resolver seus problemas de

46 falta de valorização a si mesmo buscando rebaixar os outros. O bullying esconde também outro problema: o agressor acredita que todos devem atender seus desejos de imediato e não consegue, do ponto de vista psicológico, colocar-se no lugar do outro. É alguém que, para se defender, ataca (Tognetta e Vinha, 2007). Após o processo de observação, tem início o trabalho de entrevistas individuais. O entrevistador deve ouvir inicialmente a vítima e depois o agressor, demonstrando compreensão e disponibilidade para ajudar. Deve proporcionar segurança à vítima para que possa falar dos seus sentimentos e de suas limitações de defesa, evitando críticas, censura ou superproteção. No caso dos alunos suspeitos de praticar intimidação, usar os mesmos procedimentos. Conhecer a imagem que fazem de si mesmos, dos fatores motivacionais de suas atitudes negativas é abrir espaço para o diálogo e mudanças. Entretanto, é necessário ser firme e mostrar as conseqüências do seu comportamento inadequado. Orientamos para que as entrevistas sejam iniciadas com o líder do grupo de agressores, para que se possa desarticular suas ações. Em nossas experiências, o atendimento individualizado e as devidas orientações sobre (página 109) as implicações das atitudes bullying, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, são intervenções, muitas vezes, suficientes para que cessem os ataques. É muito importante que os jovens tenham conhecimento e entendimento da nossa legislação. Somente assim poderão refletir sobre as conseqüências dos seus atos. O monitoramento dos casos é fundamental para que não se abram lacunas à revitimização. 111. Se essa intervenção não surtir efeito, como se deve proceder? Existe uma legislação específica a que se pode recorrer? Existem casos em que a ação dos agressores é mais persistente, arrastandose ao longo dos anos. Portanto, é necessário ir além do diálogo e buscar a ajuda de outros profissionais ou instituições voltadas à proteção integral de crianças e adolescentes. Em nossos trabalhos, buscamos sempre a ajuda de um conselheiro tutelar, que orienta os praticantes e seus familiares. Em nosso país não existe legislação específica sobre o bullying, no entanto, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê medidas protetivas ou socioeducativas às crianças e adolescentes que cometerem atos infracionais. Ao mesmo tempo em que visa garantir os direitos fundamentais básicos das crianças e dos adolescentes, o ECA estabelece normas para responsabilizá-los quando agirem contra as regras de convivência social harmônica. 112. A escola deve denunciar os casos de bullying? Sugerimos que inicialmente os casos sejam resolvidos na escola, por meio de ações pedagógicas. Deve-se orientar o aluno agressor e aplicar a ele a pena prevista pelo regimento interno escolar, além de alertar seus pais ou responsáveis. Dependendo da gravidade do caso, deve-se encaminhá-lo diretamente ao Conselho Tutelar. Se houver lesão corporal, calúnia, injúria ou difamação, o pai ou responsável deve procurar uma (página 110) delegacia de polícia para fazer boletim de ocorrência. Em alguns casos, quando a escola não toma providências, poderá ser responsabilizada por omissão. Existem muitos casos em que a escola ou o governo tiveram que pagar indenizações às vítimas por danos morais e materiais. 113. Qual é a diferença entre ato infracional e ato de indisciplina? É imprescindível que o profissional da educação saiba diferenciar tais atos. De

47 acordo com a cartilha do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios sobre segurança na escola, ato infracional é o ato ilícito praticado por adolescente, descrito na legislação penal como crime ou contravenção penal. Se o ato ilícito for praticado por criança menor de 12 anos, o ECA determina a aplicação de medidas protetivas, como encaminhamento aos pais ou responsáveis; orientação, apoio e acompanhamento temporário; matrícula e freqüência obrigatória em estabelecimentos de ensino; inclusão em programas comunitários ou oficiais de auxílio à família, à criança e ao adolescente; requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial; inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos; abrigo em entidade ou colocação em família substituta. A criança raramente pratica crime contra a pessoa; seus crimes freqüentemente são os furtos e os danos. Os atos ilícitos praticados por adolescentes são mais graves e, portanto, o ECA prevê a aplicação de medidas socioeducativas. Trata-se de atuações mais rigorosas, diretamente dirigidas ao adolescente e a sua família. Tais medidas são: advertência, obrigação de reparação do dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semi-liberdade e internação por tempo indeterminado. Ambas têm caráter pedagógico e educativo, visam à reintegração familiar e comunitária do adolescente infrator. O ato de indisciplina se caracteriza pelo descumprimento das normas fixadas pela escola. Portanto, a solução está restrita ao âmbito escolar e as punições, (página 111) de caráter pedagógico e educativo, estão previstas no regimento interno escolar. 114. A escola deve fazer ocorrência policial quando constatar atos ilícitos em seu interior ou em seu entorno? As investigações criminais e o julgamento de autores de atos ilícitos não são funções da escola. No entanto, é fundamental que se faça ocorrência policial, para que os atos infracionais sejam devidamente apurados pelas autoridades competentes, visando a responsabilização dos culpados. A informação de tais ocorrências ilícitas contribui para que não haja impunidade, pois, caso contrário, terse-á o crescimento da violência e da criminalidade infanto-juvenis. Por outro lado, a não informação dos casos dificulta a ação das diversas instituições, uma vez que a ausência de registros de ocorrências e de encaminhamentos adotados impossibilita a geração de dados, estatísticas e estudos que possam resultar em políticas públicas eficazes. 115. Há casos em que o aluno vítima de bullying, na tentativa de se proteger ou se impor perante seus agressores, comparece às aulas armado. Ante essa situação, o que o professor deve fazer? O professor não deve se expor e nem expor seus alunos a riscos indevidos. Nesse caso, o aluno deverá ser retirado da sala e encaminhado à direção escolar, sem fazer nenhum comentário sobre o fato. Cabe à direção da escola tomar providências no sentido de pedir auxílio - dependendo do caso, de forma anônima ou revistar o aluno, na presença de testemunha e em lugar reservado, e convencê-lo a entregar a arma. É necessário sempre ter o cuidado para não expor crianças e adolescentes a situações constrangedoras no momento da revista pessoal (ECA, art. 232). Se o aluno infrator for menor de 12 anos, é preciso convocar um representante do Conselho Tutelar para dar os encaminhamentos legais. Se for maior de 12 anos, a polícia deve ser acionada para encaminhar o caso à Justiça. Além de fazer os encaminhamentos, a direção (página 112) escolar deve submeter

48 o aluno às medidas disciplinares da escola. Lembramos que, caso o professor não dê o devido encaminhamento, seu ato poderá ser interpretado como omissão, o que fere o cumprimento do seu dever como profissional (Shelb, 2003). 116. Quando um aluno ameaça a escola com explosivos, que procedimentos deve ser adotado? Não somente esta situação, mas todos os casos de ameaça devem ser relatados à direção escolar, preferencialmente por escrito. Sabemos que escolas podem ser alvos de ameaças de explosões promovidas por adolescentes. A facilidade na aquisição de explosivos, as receitas disponíveis na internet, a crença no anonimato e na impunidade facilitam a atuação dos jovens, que são motivados por razões pessoais ou coletivas, como, por exemplo, a intenção de paralisar as aulas, especialmente em dias de provas, a expulsão ou suspensão de um aluno, gerando revolta ou indignação, ou situações de conflitos entre alunos e entre alunos e professores. Às vezes, um aluno vítima de bullying humilhado ou perseguido se revolta contra a escola e, movido por idéias de vingança, resolve explodi-la, como o que ocorreu em Columbine (EUA). O primeiro procedimento adotado pela escola deve ser treinar os profissionais de segurança, recepção e limpeza a identificar objetos e correspondências suspeitas. Muitas vezes, o aluno pode enviar o material explosivo para a escola sem identificação ou deixar o embrulho em algum local, como pátio ou banheiro. Por isso, qualquer material suspeito encontrado não deve ser tocado, o local deve ser isolado e a polícia, acionada. É importante também que os docentes observem se os alunos têm marcas de queimadura ou lesões que evidenciem experiências com explosivos. É imprescindível que as situações suspeitas ou evidentes sejam registradas na instituição e encaminhadas à autoridade policial, que tomará as medidas previstas em lei, assim como a escola submeterá o(s) aluno(s) a medidas disciplinares (www.violenciacriminalidade.com.br) (página 113) 117. E quando há suspeita de furtos, o professor pode revistar o aluno? É comum entre as vítimas de bullying o desaparecimento constante de seus pertences. O professor deve ser muito cauteloso nessa questão para não submeter o aluno a situações constrangedoras. O ideal é que peça aos alunos para verificar em seus pertences se não pegaram "por engano" o objeto desaparecido. Se não aparecer o objeto ou o autor, o professor deve encaminhar o caso à direção escolar, que poderá fazer vistoria nos alunos ou encaminhar às autoridades competentes. 118. A quem o professor deve encaminhar os casos quando estes fugirem de sua alçada? É imprescindível que o profissional tenha absoluto conhecimento dos limites de sua função e da função dos demais profissionais da escola. Dessa forma, compreenderá por que e quando deve encaminhar o caso a outros profissionais e instituições. Por exemplo, os diretores dos estabelecimentos de ensino públicos ou privados são responsáveis pela vigilância de tudo que ocorre no interior de suas dependências. Cabe ao diretor, como autoridade máxima, promover sindicância interna e decidir os procedimentos a ser adotados. Em determinados casos é legítimo que encaminhe o caso para outras instituições, como o Conselho Tutelar ou órgãos de proteção à criança e ao adolescente. Em determinadas situações é necessário o encaminhamento anônimo, o pedido de sigilo e de auxílio da diretoria

49 ou secretaria de educação, visando a sua segurança pessoal, de seus profissionais, dos alunos e da instituição escolar, como um todo. 119. E quando o agressor do estudante é justamente o professor? As escolas são responsáveis pelos atos de seus profissionais. Por isso, devem selecionar profissionais competentes e desenvolver permanente vigilância dos atos (página 114) praticados. Ao profissional cabe proceder de forma que seu comportamento sirva de exemplo para a conduta dos alunos. Portanto, havendo situações que ameacem, constranjam ou coloquem em risco a integridade de um estudante, a direção deve apurar as responsabilidades, podendo aplicar as penas previstas no regimento interno, além dos devidos encaminhamentos externos, se necessário. Alertamos para a importância da apresentação de provas seguras contra o agressor. Caso contrário, a vítima é que poderá ser punida de acordo com o regimento interno escolar e o professor poderá recorrer à Justiça para pedir-lhe reparação pelos danos causados. Como disse Comte-Sponville (1999, p. 7) "se uma virtude pode ser ensinada, é mais pelo exemplo do que pelos livros". É verdade que um professor cujas ações são justas, solidárias e humildes tem muito mais condições de formar igualmente alunos com tais virtudes, não somente porque esses últimos o imitam, mas porque o vêem como sujeito significativo e, portanto, buscam convergir seus próprios valores com os dele. 120. No caso de a escola ser omissa, como a família do estudante agredido deve proceder? Se a escola não proporcionar meios para a reparação dos danos provocados pelo professor, a vítima e seu responsável deverão recorrer ao Judiciário, pedindo indenização por danos morais e ressarcimento de despesas, como as de médico, psicólogo, medicamentos e outras. 121. Por outro lado, se a vítima for o professor, o que deve fazer? O professor tem assegurado o direito à segurança na atividade profissional, com penalização da prática de ofensa corporal ou outra violência sofrida no exercício das suas funções ou por causa destas. Caso o professor seja vítima de ameaças ou de alguma outra forma de maltrato que coloque em risco a sua vida ou a (página 115) sua reputação, deve procurar imediatamente a direção escolar. O diretor é quem tomará as providências adequadas. Caso a escola se omita, o professor deve se dirigir à delegacia de polícia para lavrar boletim de ocorrências. 122. O que a escola deve fazer quando convocar os país dos alunos praticantes de bullying e eles se negarem a comparecer? Sugerimos que todas as vezes que a escola convocar os pais faça-o por escrito e arquive a cópia, com as devidas assinaturas. Caso os pais não compareçam ou enviem terceiros para representá-los, nova convocação deverá ser encaminhada, com o mesmo texto da convocação anterior, porém, acrescentando o seguinte: "O não comparecimento implicará no encaminhamento à Vara da Infância e Juventude, conforme o disposto no art. 249 da Lei n° 8.069/90" (Shelb, 2005, p. 117). 123. Que procedimento deve ser adotado pelo professor ao presenciar a vitimizaçâo? Não somente o professor, mas qualquer agente de segurança pública (médico, policial) deve comunicar à autoridade competente os casos de suspeita ou

50 confirmação de maus-tratos contra criança e adolescente, sob as penas da lei (ECA, art. 245). Por exemplo, um aluno é chamado constantemente por apelidos e "zoado" quando faz perguntas. Nesse caso, o professor deve intervir imediatamente, de forma que cessem os ataques e a situação de risco seja impedida. No entanto, o professor deve ter muito cuidado para não expor o autor a situações de constrangimento (ECA, art. 232), nem superproteger a vítima, impedindo que desenvolva a capacidade de autodefesa. O professor deve agir com discrição na orientação do aluno, respeitando-lhe a personalidade, as limitações e as condições próprias de sua idade e formação. Se os maus-tratos forem graves, o professor deve encaminhar o caso à direção escolar para que esta tome as medidas cabíveis, de acordo com o regimento interno, ou ao Conselho (página 116) Tutelar. É imprescindível que os profissionais da escola estejam capacitados a prevenir a violência e a criminalidade infanto-juvenil e que as medidas adotadas sempre tenham cunho pedagógico. 124. Qual é a responsabilidade do professor numa situação de vitimização? É muito difícil atribuir responsabilidades ao professor quando a maioria desconhece o fenômeno, seus critérios de identificação e suas implicações. É necessária, acima de tudo, a criação de políticas públicas emergenciais que proporcionem às escolas o conhecimento desse tipo de comportamento e as devidas ferramentas de enfrentamento. Entretanto, mesmo não reconhecendo o fenômeno é dever de todo professor zelar pela qualidade da convivência pacífica em sua aula e na escola como um todo. Sabemos que quando os professores atuam com competência profissional e responsabilidade os comportamentos inadequados ficam restritos a poucos alunos, além de ser inibida a ação dos autores de bullying. 125. Em casos de omissão do professor, a que o estudante deve fazer? O estudante vitimizado deve imediatamente procurar a direção escolar em busca de soluções. O profissional deverá ser responsabilizado, pois tem o dever de denunciar às autoridades competentes todos os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra crianças e adolescentes. 126. No cotidiano, como abordar o tema bullying com os alunos? Sugerimos que o tema seja introduzido na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, por meio de histórias ou fábulas que trabalhem o preconceito ou qualquer outra forma de exclusão e discriminação. Neste último ano, desenvolvemos uma experiência muito interessante e os resultados se mostram animadores. Trabalhamos com as crianças a dinâmica do bullying por meio da história que consta no início deste livro. Pudemos sensibilizá-las e incentivar (página 117) o desenvolvimento de ações de cooperação, solidariedade e amizade dentro e fora do ambiente escolar. Nas demais séries, o trabalho deve ser realizado com textos, artigos ou pesquisa, especialmente na internet. Sugerimos ainda que a escola discuta seu regimento interno e o ECA com os alunos, evidenciando os diretos que os protegem, mas também os seus deveres. É importante que os alunos conheçam, sobretudo, as medidas disciplinares estabelecidas pelo ECA. Sugerimos que a escola convide algum profissional de segurança pública ou conselho tutelar para auxiliar nesse trabalho. 127. Corno as escolas podem prevenir os maus-tratos entre os alunos?

51 As escolas devem oferecer ao aluno, além da qualidade de ensino, ambiente seguro para o seu desenvolvimento emocional e socioeducacional. É imprescindível que adotem estratégias de intervenção e prevenção do comportamento agressivo. Devem disponibilizar espaços para que alunos e professores discutam o tema e encontrem soluções para as situações apresentadas pelo grupo-classe. Neste sentido, o programa antibullying Educar para a Paz propõe soluções por meio de um conjunto de estratégias psicopedagógicas que devem ser aplicadas junto aos profissionais de educação, alunos, pais e comunidade onde a escola está inserida. A proposta do programa está alicerçada em tolerância, solidariedade, respeito às diferenças, cooperação, visando à construção de um ambiente de paz na escola (Fante, 2005). As assembléias de classe, os jogos cooperativos, as dinâmicas de clarificação de valores e socioafetivas são estratégias que estamos desenvolvendo e já se mostram eficazes na redução do comportamento bullying. 128. Quando se deve encaminhar os envolvidos em bullying para outros profissionais? Quando as estratégias adotadas não obtiverem êxito ou quando fugirem da alçada do profissional ou da (página 118) instituição escolar - por exemplo, se um aluno demonstra requerer cuidados de outros profissionais, com queixas freqüentes de dores de cabeça ou no estômago, vômitos e desmaios, ou apresenta comportamento agressivo, depressivo ou anti-social, dentre outros. Nesse caso, o professor ou outro profissional que tenha observado ou presenciado os fatos deve levá-los ao conhecimento da direção da escola e esta fará os devidos encaminhamentos. Dentre eles, poderá convocar os pais ou responsáveis para trocas de informações e orientações, poderá notificá-los e encaminhar o caso para as devidas áreas profissionais ou ao Conselho Tutelar, quando não houver o cumprimento da solicitação. Alertamos que todo encaminhamento deve ser formal e impessoal, de preferência realizado pelo dirigente máximo da instituição. Todo o encaminhamento realizado, seja interno ou externo, deverá ser feito por escrito. Arquivar uma cópia do documento, com as devidas assinaturas, é outro requisito indispensável, para segurança de todos. 129. Como a escola pode lidar com uma criança ou adolescente que esteja sendo vítimizado? Em casos crônicos a escola se vê impossibilitada de ir além das estratégias que estão ao seu alcance. Sua função principal é orientar e encaminhar corretamente os casos. Geralmente, sugerimos ouvir as partes envolvidas, por meio de entrevistas individuais, a fim de compreender suas queixas, motivações e sentimentos. Após a análise do caso, a direção escolar deve convocar os pais dos alunos envolvidos para uma reunião, onde estes deverão tomar ciência da real situação. O encaminhamento para multiprofissionais deverá ser por escrito e arquivado no prontuário do aluno. Essa estratégia dá segurança ao profissional no cumprimento de suas funções e à instituição. Nos demais casos, orientamos a prática da reflexão e da interiorização de valores como técnica psicopedagógica para o despertar do amor e de sentimentos de empatia, de tolerância, de respeito às diferenças e de solidariedade. A formação de grupos de "pais solidários", visando o envolvimento e (página 119) o compromisso com a escola, muito contribui para a redução do fenômeno. Grupos de "alunos solidários" são treinados para auxiliar os colegas que apresentam dificuldades de relacionamentos e de aprendizagem. O objetivo é promover a inclusão dos alunos novos na escola ou daqueles que

52 apresentam extrema timidez ou retraimento, dificuldades de expressão e de relacionamentos. 130. O que a escola deve fazer quando o aluno falta às aulas ou desiste da escola por causa da vitimização do bullying? O ideal é que a vitimização seja identificada e interrompida antes de produzir prejuízos dessa proporção. Porém, tais fatos são comuns de acontecer, e muitas vezes a família não tem muito claro o motivo das ausências ou da desistência da escola, urna vez que a vítima silencia. A escola primeiramente deve se informar sobre o motivo das faltas do aluno enviando um mensageiro à casa do estudante para saber o que está acontecendo e convocar uma reunião com os pais. É importante conscientizar os pais ou responsáveis de que a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família (art. 205 da Constituição) e que eles poderão responder perante o juiz da Infância e da Juventude caso mantenham a criança fora da escola, inclusive por abandono intelectual (artigo 246, do Código Penal). Se a escola não tiver sucesso, o caso deve ser encaminhado ao Conselho Tutelar ou ao Ministério Público. 131. O que a escola pode fazer para evitar que o aluno que cumpre medida socioeducativa se envolva em bullying? O ideal é que, ao receber um adolescente que cumpre medida socioeducativa, a escola guarde sigilo, assim como os seus profissionais. Deve orientá-lo quanto ao seu direito de não dizer aos colegas sobre a sua situação e para que, caso se sinta constrangido ou receba qualquer forma de maus-tratos, comunique imediatamente (página 120) ao professor da sala ou à direção escolar. Geralmente, como forma de se impor ou amedrontar colegas e professores, o próprio aluno divulga sua situação e, por isso, se torna discriminado, excluído ou zombado na escola, e também pode praticar o bullying. É importante debater o tema com os alunos, uma vez que as escolas também são responsáveis pelo processo de ressocialização. Assim evita-se o preconceito e estimula-se a inclusão e o respeito. 132. Como o programa educar para a contribui para o enfrentamento do fenômeno? Com esclarecimento e a utilização de práticas psicopedagógicas desenvolvidas no programa antibullying Educar para a Paz, orientamos os envolvidos a se conhecer e ter consciência de seus atos e para as atividades estimulantes, promotoras de ações solidárias, de interesse e ajuda ao próximo. As práticas desportivas, culturais, artísticas, além dos projetos sociais em prol de entidades filantrópicas da comunidade, visam à valorização do ser e à responsabilidade social. Os problemas de agressor e vítima, nos momentos de crise, devem ser tratados com eles, e não com a turma. Quando as crianças aprendem a se conhecer, pela tomada de consciência de suas ações e de seus sentimentos, passam a se gostar e, do ponto de vista moral, a se respeitar, da mesma forma como quando são respeitadas as suas intimidades. É verdade, enfim, que o respeito à dignidade do outro só é conseguido quando se vê dignidade em si mesmo (La Taille, 2006). 133. Quais são os resultados que as estratégias antibullying promovem na escola? Quando os profissionais são capacitados para atuar de forma efetiva e

53 contínua nas estratégias antibullying, os índices reduzem-se significativamente. A escola passa a desfrutar um clima mais harmônico, com relações interpessoais mais saudáveis e pacíficas, facilitando o processo de ensino-aprendizagem. (página 121) 134. Como as exolas podem transformar os espectadores em aliados na luta contra o bullying? A escola pode criar uma rede antibullying transformando os espectadores em "alunos solidários". Estes devem ser treinados a auxiliar seus colegas dentro e fora da escola. No horário de recreio podem percorrer os espaços isolados ou que tenha mais dificuldade de supervisão a fim de fazer companhia aos que são excluídos ou se isolam dos demais por temerem os ataques. Podem desenvolver atividades, como o recreio dirigido, através de brincadeiras, pequenas apresentações teatrais, musicais e corporais, como relaxamento ou alongamento. Na sala de aula, podem ajudar os colegas em suas dificuldades, inclusive de aprendizagem. Em nossas experiências, percebemos que ao converter os espectadores em "alunos solidários" a ação dos agressores passa a ser inaceitável. Portanto, se os agressores perdem os aplausos e o incentivo da platéia, conseqüentemente sua popularidade se reduzirá, bem como a motivação para os ataques. 135. O que a vítima de bullying deve fazer? Deve entender que o silêncio é a pior solução. Por isso, deve buscar ajuda, conversar com os pais, professores, coordenação escolar ou um colega sobre as vivências desagradáveis que tem sofrido na escola ou em qualquer outro ambiente, procurar não ceder às pressões do grupo e nem ficar em lugares isolados dos demais, para não facilitar a intimidação. No trajeto ou no transporte escolar, ficar sempre próximo dos adultos ou de um amigo confiável. 136. O que o intimidador precisa saber? Precisa saber que a escola dispõe de inúmeros profissionais dispostos a ouvilo e entendê-lo, bem como ajudá-lo a canalizar sua agressividade em ações proativas. A escola deve ensiná-lo a superar seus problemas, respeitar e conviver com as diferenças e usar o diálogo como arma de resolução de conflitos. Por outro lado, precisa saber que o seu comportamento não é aceitável e, como tal, é passível de punição, de acordo com o regimento interno escolar e o ECA. (página 122) 137. O que os pais precisam saber para ajudar seus filhos a romper o silêncio? Sabemos que o mundo moderno e suas transformações vêm afetando diversos cenários, dentre eles o das relações interpessoais. As diversas demandas do cotidiano têm comprometido o relacionamento familiar, proporcionando certo distanciamento entre seus integrantes. Porém, é imprescindível encontrar tempo para a convivência saudável, especialmente com os filhos, manter diálogo constante, conversar sobre os diversos aspectos da vida, conhecer o mundo deles e deixar que conheçam o seu. É importante que os filhos encontrem em casa um ambiente de amor e aceitação, favorável a que se expressem, tanto sobre seus triunfos e suas conquistas como sobre seus fracassos e suas dificuldades nos relacionamentos, nos estudos ou em relação a si mesmos. É importante os pais e educadores considerarem que, antes de repreender os filhos ou alunos, é preciso ouvi-los sem animosidades, com disposição de ajuda ao fortalecimento da auto-estima na resolução de seus conflitos. Para isso é necessário

54 que se reforcem (elogiem) os aspectos (página 123) positivos das crianças e seus acertos, para que se sintam seguras e confiantes. Somente assim é possível o rompimento da barreira que impede a vítima de denunciar. 138. Caso a vítima relute em contar, quais são os procedimento que os pais devem adotar? Os pais devem estar sempre atentos aos comportamentos, aos hábitos, às rotinas e às atitudes dos seus filhos. Qualquer mudança pode sinalizar que algo diferente está acontecendo. Dessa forma, a observação e o diálogo são ferramentas indispensáveis no cotidiano. Sugerimos que os pais disponibilizem "espaços" e abertura para que a criança partilhe aquilo que lhe ocorre na escola, denuncie, expresse os sentimentos e as emoções vivenciadas por ela. Alertamos que os pais devem evitar criticar ou duvidar daquilo que a criança está relatando ou responsabilizá-la pelo acontecido. Nesse momento, o anseio da vítima é encontrar segurança e compreensão para falar de seu sofrimento, sem constrangimento ou julgamento. Caso a criança relute em falar, o ideal é que (página 123) os pais procurem a escola e relatem suas observações, para que a escola tome as mesmas providências e sejam encontradas soluções conjuntas de intervenção. 139. É comum encontrar pais que, ao saber da vitimizaçâo, rotulam a criança de “fracote"? Qual seria o procedimento mais adequado? Infelizmente isso acontece em muitas famílias. Não somente os pais, mas outros integrantes da família colocam a vítima numa situação de inferioridade ainda maior. Não são poucos os casos em que ela é exposta perante irmãos e colegas de escola, parentes, amigos da família ou vizinhos. São feitos comentários irônicos e ela é responsabilizada pela falta de competência para lidar com a situação difícil em que se encontra. Sabemos não ser esta a atitude que deve ser adotada. No entanto, a ignorância ou a reprodução de experiências vividas pelos adultos faz com que muitos deles acreditem que, se mexerem com os "brios" da pessoa, ela reagirá positivamente frente a determinadas circunstâncias. É fundamental que os pais compreendam que seus filhos não nasceram prontos e ainda estão no processo básico de formação da personalidade, por isso ainda não adquiriram habilidades para lidar com todos os tipos de situações da vida. Devem evitar repreender, castigar ou reagir com agressividade quando a criança expõe suas dificuldades e "fraquezas". Neste caso ela precisa de acolhimento, carinho, apoio e compreensão, além de ações junto à escola, na tentativa de que providências sejam tomadas para evitar ou interromper a vitimização. 140. É possível encontrar pais que não dão importância à vitimização e até acham engraçado? Essa atitude pode ajudar a vítima a esquecer o problema e tratá-lo forma natural? Muitos acham graça ao saber das piadinhas, "zoações", "sacanagens" ou apelidos que os filhos (página 124) recebem na escola. Com isso desvalorizam seus sentimentos, dizem que são bobagens, brincadeiras da idade ou os incentivam para que façam o mesmo. Para a vítima é difícil acreditar que são brincadeiras, pois inúmeros sentimentos desagradáveis foram vivenciados, como vergonha, raiva e medo. Revidar é praticamente impossível, pois se tivessem habilidades de defesa já as teriam usado. Os pais devem entender que não é fácil para um adolescente confessar que é ridicularizado, perseguido ou que apanha dos colegas. É como se fosse um sinal de fraqueza, de impotência. Talvez, seja preferível apanhar todos os

55 dias a contar em casa o que ocorre na escola. Portanto, se a vítima se encoraja e pede ajuda, deve ser ouvida pronta e atentamente. Não tem a menor graça para ninguém sofrer qualquer forma de violência, de desrespeito e de desconsideração. Se a vítima passa a achar normal a vitimização bullying, isso é preocupante. Ou houve erro de diagnóstico ou conformismo e aceitação. Neste último, as conseqüências poderão ser desastrosas num futuro próximo. 141. Existem pais que ficam com raiva e vão tirar satisfação dos agressores dos filhos? O que este procedimento pode acarretar? É normal que os pais fiquem com raiva, chateados ou aborrecidos ao descobrir que seu filho se converteu em "bode expiatório" e que não está em segurança na escola. Porém, incentivar o revide, tirar satisfação do agressor ou de seus pais em nada ajudará. Ao contrário, pode acarretar problemas maiores para o filho e para si. Não são poucos os pais, principalmente as mães, que adotam atitudes impensadas, na ânsia de interromper a vitimização: intimidam o agressor, pedindo explicações; apertam seu braço e o ameaçam; seguram-no ou encurralamno para o filho revidar; discutem ou mandam irmãos maiores da vítima darem uma "lição" no agressor; exigem da escola providências e não dão o tempo necessário para que as estratégias surtam efeito; pedem transferência da escola, sem resolver a questão, o que acaba resultando em prejuízos para a vítima, uma vez que esta tenderá a enfrentar os mesmos problemas em outra escola. (página 125) O ideal é que os pais, em parceria com a escola, encontrem soluções tanto para os filhos que são alvos, quanto para os autores de maus-tratos. Ambos necessitam de ajuda e, muitas vezes, de encaminhamento a outros profissionais, especialmente da área da saúde. 142. E quando o pai ou mãe é o agressor do próprio filho, o que a escola deve fazer? Muitas crianças e adolescentes são vítimas da violência doméstica e do excesso de correção disciplinar. A escola deve, primeiramente, proteger a criança ou o adolescente e encaminhar o caso ao Conselho Tutelar ou ao Ministério Público. Em hipótese alguma se deve falar aos pais sobre as suspeitas, pois a criança poderá sofrer represálias ou ser retirada da escola. 143. É necessário que a escola tenha provas para denunciar a violência doméstica? A denúncia deve ser feita em caso de suspeita ou confirmação de maustratos. Nesse sentido, o professor tem papel fundamental na observação de mudanças comportamentais, na constatação de alguma "marca" ou lesão corporal e nos sentimentos expressos pelo aluno. Se o diretor se sentir intimidado pelo agressor ou por seu responsável, poderá recorrer à denúncia anônima. Deve fazer registro do fato e pedir sigilo em relatório. Caso a escola se omita, estará cometendo uma infração administrativa grave (ECA, art. 245). 144. Como as famílias com pouca instrução podem perceber o envolvimento dos filhos no fenômeno? Qualquer pai, com ou sem instrução, pode observar mudanças no comportamento dos filhos. O ideal é que seja estabelecido um ambiente familiar com ênfase no diálogo, no respeito e na franqueza, para que os filhos possam se sentir seguros ante as adversidades. Por isso, é fundamental que a escola conscientize os

56 pais sobre o fenômeno e os oriente na observação e (página 126) nos procedimentos que devem adotar, além do estabelecimento de parceria com a escola. É importante que os pais não vejam seus filhos apenas como vítimas, uma vez que muitas crianças adotam comportamentos ambíguos no contexto familiar e escolar, e que atendam às solicitações da escola quando esta se pronunciar. 145. O que os pais devem fazer nos casos de vitimização? Dentre outras atribuições é dever da escola zelar pela proteção das crianças e dos adolescentes que estão sob sua guarda e vigilância. Em casos graves a escola pode ser legalmente responsabilizada. Portanto, os pais devem comunicar imediatamente a direção escolar ao saber da intimidação e exigir que sejam tomadas as devidas providências. Caso a escola se omita, é importante que se busque auxílio junto ao Conselho Tutelar ou outros órgãos de proteção à criança e ao adolescente. Em alguns países, existem centros de apoio jurídico que orientam os pais nas questões de intimidação e auxiliam nas ações judiciais impetradas contra a escola. Há casos noticiados em que as escolas foram responsabilizadas e tiveram que pagar indenizações milionárias às vítimas. O ideal é que todas as escolas tenham em seu projeto político pedagógico programas preventivos contra o bullying. 146. É possível reduzir a ocorrência deste fenômeno? Inúmeras ações e programas antibullying estão sendo desenvolvidos nas mais diversas partes do mundo, com resultados extraordinários. No Brasil, desenvolvemos o programa antibullying Educar para a Paz, composto por um conjunto de estratégias psicopedagógicas que visam a redução do comportamento agressivo e a formação de uma nova geração de paz nas escolas. Devido à facilidade de sua implantação, inúmeras escolas brasileiras o adotaram na íntegra ou em partes. O programa pioneiramente foi implantado em uma escola da rede pública municipal de São José do Rio Preto, durante os anos letivos de 2002 (página 127) a 2004. Na implantação da primeira fase do programa, identificamos que um em cada quatro alunos era vítima de bullying. Após dois anos de trabalho, constatamos uma mudança significativa na realidade escolar: um em cada 25 alunos era vítima de bullying. Ao longo dos anos, o programa vem se inovando, com a inclusão de novas abordagens voltadas à educação para a paz e à qualidade de vida de educandos e educadores. O cuidado com a saúde emocional e o gerenciamento do estresse tem sido trabalhado de maneira prática, objetivando ações preventivas que facultem o autoconhecimento e o desenvolvimento de habilidades de gerenciamento e mediação de conflitos intrapsíquicos e interpessoais. Em agosto de 2007, o Programa Educar para a Paz foi implantado na escola municipal Cardeal Lemos, na cidade de São José do Rio Preto - SP e ao final do ano letivo pode-se constatar redução dos casos de violência. Atualmente no Distrito Federal, com o apoio do Sinepe - DF, o Cemeobes firmou parceria voluntária com a Rede de Santa Maria, na cidade satélite de Santa Maria - DF, para a implantação do Programa Educar para a Paz em duas escolaspiloto daquela Diretoria Regional de Ensino (DRE). A referida Rede é composta por profissionais voluntários das áreas de Educação, Saúde, Segurança Pública, Assistência Social e Conselho Tutelar. 147. Existe uma receita para que pessoas vítimas desse mal possam se livrar dos seus agressores? É possível dar a volta por cima?

57 Não existe receita pronta, pois cada indivíduo é um ser especial, com suas dificuldades e habilidades. Muitas vítimas recorrem aos profissionais de psicologia, que as ajudam na elevação da auto-estima, nas habilidades de assertividade, resolução de conflitos e auto-superação. Algumas são resilientes e encontram suas próprias soluções e, com o tempo, superam seus traumas. Outras carregam consigo os traumas da vitimização, podendo tomar-se adultos inseguros, tensos, depressivos ou agressivos, capazes de reproduzir no futuro o que (página 128) sofreram na escola, na constituição familiar ou no local de trabalho. Existem aquelas que, em decorrência da vitimização, podem desenvolver transtornos psicológicos, tais como: transtornos do humor/afetivos; transtornos neuróticos, relacionados com o estresse e somatoformes; transtornos da personalidade e do comportamento adulto. Ainda há aquelas crianças com transtornos do desenvolvimento psicológico, que podem ter sua situação agravada pelo envolvimento bullying. 148. Qual a saída para a redução desta fenomenologia entre os escolares? A cultura de paz é a saída para este e para todos os tipos de violência. As escolas possuem um grande instrumento para reduzir o bullying e seus efeitos negativos. Os profissionais que atuam junto aos alunos, especialmente os professores, devem disseminar nos corações dos educandos as sementes da paz: a solidariedade, a tolerância, o respeito às diferenças, a justiça, a cooperação, a amizade e o amor. Com isso, as crianças aprendem a respeitar e a valorizar as diferenças individuais, resolver seus conflitos e conviver em harmonia. Vislumbramos um futuro de paz, via educação, desde os primeiros anos de escolarização. As crianças têm grande poder de propagação de idéias, são mutiplicadoras em suas famílias. Elas aprendem na escola e ensinam em casa uma educação em sentido contrário. Para isso, é necessário haver compromisso, envolvimento e engajamento de toda a comunidade escolar, além de políticas públicas que invistam recursos na pessoa humana e na formação do educador. (página 129)

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->