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Milton Santos

Por uma outra


globalização
do pensamento único
ã consciência universal

a
6 EDIÇÃO

E D I T O R A R E C O R D
RIO DE JANEIRO • SÃO PAULO

2001
28452

CIP-Brasil. Catalogaçao-na-fonte
Sumário
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Santos, Milton
S236p Por uma outra globalização: do pensamento único
à
6' ed. consciência universal / Milton Santos. - 6* ed. - Rio
de Janeiro: Record, 2001.
Prefácio 11
ISBN 85-01-05878-5

1. Globalização. 2. Civilização moderna. 3.


Política econômica. 4. Ciência política. I. Título.
I INTRODUÇÃO GERAL 17
CDD - 303.4
00-0220 CDU - 316.42
1. O mundo comofábula, como perversidade e como possibilidade
O mundo tal como nos fazem crer: a globalização como fábula
O m u n d o c o m o é: a globalização c o m o perversidade 19
O mundo c o m o pode ser: uma outra globalização 20
Copyright © 2000 by Milton Santos

II A PRODUÇÃO DA GLOBALIZAÇÃO 23
Capa: Campos Gerais/Washington Lessa

Introdução 2 3

Direitos exclusivos desta edição reservados pela 2. A unicidade técnica 2 4


DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.
Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000

Impresso no Brasil
3. A convergência dos momentos 27

ISBN 8 5 - 0 1 - 0 5 8 7 8 - 5
4. O motor único 2 9
PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL
Caixa Postal 2 3 . 0 5 2
Rio de Janeiro, RJ - 20922-970 EDITORA AFILIADA
6 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO

5. A cognoscibilidade do planeta 3 1 11. Em meio século, três definições da pobreza 6 9


A pobreza "incluída" 70
6. Um período que é uma crise 3 3 A marginalidade 70
A pobreza estrutural globalizada 72
O papel dos intelectuais 74
I H U M A GLOBALIZAÇÃO PERVERSA 37
12. O quefazer com a soberania 7 6
Introdução 3 7

7. A tirania da informação e do dinheiro e o atual sistema ideológico 38 IV O TERRITÓRIO D O DINHEIRO E DA FRAGMENTAÇÃO 79

A violência da informação 38
Fábulas 40 Introdução 7 9
A violência do dinheiro 43
As percepções fragmentadas e o discurso único do "mundo" 44
13. O espaço geográfico: compartimentação efragmentação 8 0
A compartimentação: passado e presente 82
8. Competitividade, consumo, confusão dos espíritos, globalitarismo 4 6 Rapidez, fluidez, fragmentação 83
Competitividade versus solidariedade 85
A competitividade, a ausência de compaixão 46
O consumo e o seu despotismo 48
A informação totalitária e a confusão dos espíritos 50
14. A agricultura científica globalizada e a alienação do território 8 8
D o imperialismo ao mundo de hoje 51 A demanda externa de racionalidade 89
Globalitarismos e totalitarismos 53 A cidade do campo 91

9. A violência estrutural e a perversidade sistêmica 5 5 15. Compartimentação efragmentação do espaço: o caso do Brasil 92
O dinheiro em estado puro 56 O papel das lógicas exógenas 92
A competitividade em estado puro 57 As dialéticas endógenas 94
A potência em estado puro 58
A perversidade sistêmica 58 16. O território do dinheiro 1 1 6
Definições 116
10. Da política dos Estados à política das empresas 6 1
O dinheiro e o território: situações históricas 97
Sistemas técnicos, sistemas filosóficos 62 Metamorfoses das duas categorias ao longo do tempo 98
Tecnociência, globalização e história sem sentido 64 O dinheiro da globalização 100
^~^As empresas globais e a morte da política .67 Situações regionais 102
8 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO

Efeitos do dinheiro global 104 24. Papel dos pobres na produção do presente e dofuturo 1 3 2
Epílogo 104

25. A metamorfose das classes médias 1 3 4


17. Verticalidades e horizontalidades 105
A idade de ouro 135
As verticalidades 105 A escassez chega às classes médias 137
As horizontalidades 108 U m dado novo na política 139
A busca de um sentido 111

18. ^4 esquizofrenia do espaço 112 V I A TRANSIÇÃO EM MARCHA 141


Ser cidadão num lugar 113
O cotidiano e o território 114 Introdução 141
Uma pedagogia da existência 116
26. Cultura popular, período popular 1 4 2
Cultura de massas, cultura popular 143
V LIMITES A GLOBALIZAÇÃO PERVERSA 117 As condições empíricas da mutação 145
A precedência do homem e o período popular 147
Introdução 117
27. A centralidade da periferia 1 4 9
19. A variável ascendente 118
Limites à cooperação 149
O desafio ao Sul 151
20. Os limites da racionalidade dominante 1 2 0

28. A nação ativa, a nação passiva 1 5 4


21. O imaginário da velocidade 121
Ocaso do projeto nacional? 155
Velocidade: técnica e poder 122
Alienação da nação ativa 155
D o relógio despótico às temporalidades divergentes 124
Conscientização e riqueza da nação passiva 157

2 2 . J u s t - i n - t i m e versus o cotidiano 126


29. A globalização atual não é irreversível 159

23. Um emaranhado de técnicas: o reino do artifício e da escassez A dissolução das ideologias 159
A pertinência da utopia 160
D o artifício à escassez 128
Outros usos possíveis para as técnicas atuais 163
Da escassez ao entendimento 130
Geografia e aceleração da história 165
U m novo mundo possível 167
MILTON SANTOS

3 0 . A história apenas começa 1 7 0


A humanidade como um bloco revolucionário
A nova consciência de ser mundo 172
A grande mutação contemporânea 173

Prefácio

Este livro quer ser uma reflexão independente sobre o nosso


tempo, u m pensamento sobre os seus fundamentos materiais e
políticos, uma vontade de explicar os problemas e dores do
m u n d o atual. Mas, apesar das dificuldades da era presente, quer
também ser uma mensagem portadora de razões objetivas para
prosseguir vivendo e lutando.
O trabalho intelectual no qual ele assenta é fruto de nossa
dedicação ao entendimento do que hoje é o espaço geográfico,
mas é também tributário de outras realidades e disciplinas aca-
dêmicas.
Diferentemente de outros livros nossos, o leitor não encon-
trará aqui listagens copiosas de citações. Tais livros enfocavam
questões da sociedade, verdadeiras teses, isto é, demonstrações
sustentadas e ambiciosas, dirigidas sobretudo à seara acadêmi-
ca, levando, por isso, o autor a fazer, ao pequeno m u n d o dos
colegas, a concessão das bibliografias copiosas. Todo m u n d o sabe
que esta se tornou quase uma obrigação de scholarship, já que a
academia gosta muito de citações, quantas vezes ociosas e até
mesmo ridículas. Sem dúvida, este livro também se dirige a es-
tudiosos, mas sobretudo deseja alcançar o vasto m u n d o , o que
12 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 13

dispensa a obrigação cerimonial das referências. N ã o quer isso de Souza, Rosa Ester Rossini e Ana Clara Torres Ribeiro, com
dizer que o autor imagine haver sozinho redescoberto a roda; quem colaboro há cerca de 20 anos.
sua experiência em diferentes momentos do século e em diver- Aos colaboradores gratuitos, encontrados e m inúmeras vi-
sos países e continentes é também a experiência dos outros a agens pelo país ou participantes de conferências, debates e
quem leu ou escutou. Mas a originalidade é a interpretação ou a congressos, sou t a m b é m devedor pelas suas intervenções e
ênfase própria, a forma individual de combinar o que existe e o sugestões. Sou grato à Folha de S. Paulo e ao Correio Braziliense
que é vislumbrado: a própria definição do que constitui uma pela autorização para republicação d e artigos m e u s na sua
idéia. forma original ou modificada. Ainda n o capítulo dos agrade-
Este livro resulta de u m longo trabalho, árduo e agradável. cimentos, u m a palavra especial vai à geógrafa Flávia G r i m m ,
A maioria grande de seus capítulos é inédita em sua forma atual. que teve a paciência de acolher os cansativos ditados de m a -
E é também, de algum modo, uma reescritura de aulas, confe- nuscrito de que resulta este livro. A assistência da geógrafa
rências, artigos de jornais e revistas, entrevistas à mídia, cada qual Paula B o r i n o u t r a vez m o s t r o u - s e valiosa. S o u , t a m b é m ,
oferecendo u m nível de discurso e a respectiva dificuldade. So- m u i t o sensível ao apoio recebido d o C o n s e l h o Nacional de
mos muitíssimo gratos a todos os que colaboraram para esse Desenvolvimento Científico e Tecnológico ( C N P q ) , da F u n -
diálogo e até mesmo àqueles que desconheciam estar participan- dação d e A m p a r o à Pesquisa d o Estado de São P a u l o
do de uma troca. Dentre os primeiros, quero destacar os atuais (FAPESP). Essas agências não contribuíram diretamente para
companheiros do projeto acadêmico ambicioso que, desde 1983, este trabalho, mas a produção intelectual é sempre unitária,
venho conduzindo no Departamento de Geografia da Univer- u m a obra ou pesquisa sendo sempre u m subproduto das d e -
sidade de São Paulo: minha incansável colaboradora, doutora mais. Também, c o m o sempre, o estímulo recebido de m i n h a
Maria Laura Silveira, que leu o conjunto d o manuscrito, e a p r o - mulher, Marie Hélène, foi m u i t o precioso.
fessora doutora Maria Angela Faggin Pereira Leite, assim como Ao contrário de u m autor francês Joêl de Rosnay, que, no
as doutorandas Adriana Bernardes, Cilene Gomes e Mónica prefácio ao seu livro Le Macroscope, sugeriu aos seus leitores co-
Arroyo e os mestrandos Eliza Almeida, Fábio Contei, Flávia meçar a leitura por onde quisessem, devo fazer uma outra ad-
G r i m m , Lídia Antongiovanni, Marcos Xavier, Paula Borin e vertência. Se alguém ler inicialmente ou separadamente os pri-
Soraia Ramos. Ao Departamento de Geografia da Faculdade de meiros capítulos, pode considerar o autor pessimista; e q u e m
Filosofia, Letras e Ciências Humanas que m e acolhe e estimula preferir os últimos, poderá imaginá-lo u m otimista. N a realida-
e particularmente ao Laboratório de Geografia Política e Plane- de, o que buscamos foi, de u m lado, tratar da realidade tal como
jamento Territorial e Ambiental (Laboplan), coordenado por ela é, ainda que se mostre pungente; e, de outro lado, sugerir a
meu velho amigo Armen Mamigonian, vão, também, meus agra- realidade tal como ela pode vir a ser, ainda que para os céticos
decimentos. Estes também incluem os colegas Maria Adélia A nosso vaticínio atual apareça risonho.
14 MILTON SANTOS 15
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO

A ênfase central do livro vem da convicção do papel da ide- O livro é formado de seis partes, das quais a primeira é a
ologia na produção, disseminação, reprodução e manutenção da introdução. A segunda inclui cinco capítulos e busca mostrar
globalização atual. Esse papel é, também, uma novidade do nosso como se deu o processo de produção da globalização. Este tema
tempo. Daí a necessidade de analisar seus princípios fundamen- já havia sido tratado de alguma forma e m outras publicações e
tais, apontando suas linhas de fraqueza e de força. Nossa insis- livros meus. A terceira parte, formada por seis capítulos, busca
tência sobre o papel da ideologia deriva da nossa convicção de explicar por que a globalização atual é perversa, fundada na tira-
que, diante dos mesmos materiais atualmente existentes, tanto nia da informação e do dinheiro, na competitividade, na confu-
é possível continuar a fazer do planeta u m inferno, conforme
são dos espíritos e na violência estrutural, acarretando o
n o Brasil estamos assistindo, como também é viável realizar o
desfalecimento da política feita pelo Estado e a imposição de uma
seu contrário. Daí a relevância da política, isto é, da arte de p e n -
política comandada pelas empresas. A quarta parte mostra as
sar as mudanças e de criar as condições para torná-las efetivas.
relações mantidas entre a economia contemporânea, sobretudo
Aliás, as transformações que a história ultimamente vem m o s -
as finanças, e o território. Esta parte é constituída de seis capítu-
trando permitem entrever a emergência de situações mais p r o -
los, dos quais o último poderia também se incluir na parte se-
missoras. Podem objetar-nos que a nossa crença na mudança do
guinte, pois, por meio da noção de esquizofrenia do território,
homem é injustificada. E se o que estiver mudando for o mundo?
mostramos como o espaço geográfico constitui u m dos limites
Estamos convencidos de que a mudança histórica em pers- a essa globalização perversa. É essa idéia de limite à história atu-
pectiva provirá de u m movimento de baixo para cima, tendo al que se impõe na quinta parte, em que são mostrados ao mes-
como atores principais os países subdesenvolvidos e não os pa- mo tempo os descaminhos da racionalidade dominante, a emer-
íses ricos; os deserdados e os pobres e não os opulentos e outras gência de novas variáveis centrais e o papel dos pobres na
classes obesas; o indivíduo liberado partícipe das novas massas produção do presente e do futuro. A sexta parte, uma espécie de
e não o h o m e m acorrentado; o pensamento livre e não o discur- conclusão, é dedicada ao que imaginamos ser, nesta passagem
so único. de século, a transição em marcha. Aqui, os temas versados real-
C o m o acreditamos na força das idéias — para o bem e para çam as manifestações pouco estudadas do país de baixo, desde a
o mal — nesta fase da história, em filigrana aparecerá como cultura até a política, raciocínio que se aplica também à própria
constante o papel do intelectual no m u n d o de hoje, isto é, o periferia do sistema capitalista mundial, cuja centralidade apre-
papel do pensamento livre. Por isso, nos primeiros projetos de sentamos como um novo fator dinâmico da história. E, exata-
redação havia o intuito de dedicar u m capítulo exclusivo à ati- mente, porque esses atores, eficazes mas ainda pouco estuda-
vidade intelectual genuína. Todavia achei melhor discutir esse dos, são largamente presentes, que acreditamos não ser a
papel em diferentes momentos da redação, sempre que a oca- globalização atual irreversível e estamos convencidos de que a
sião se levantava. história universal apenas começa.
I N T R O D U Ç Ã O GERAL

1. O mundo como fábula, como perversidade e


como possibilidade

Vivemos n u m m u n d o confuso e confusamente percebido.


Haveria nisto u m paradoxo pedindo uma explicação? D e u m
lado, é abusivamente mencionado o extraordinário progresso das
ciências e das técnicas, das quais u m dos frutos são os novos
materiais artificiais que autorizam a precisão e a intencionalidade.
D e outro lado, há, também, referência obrigatória à aceleração
contemporânea e todas as vertigens que cria, a começar pela
própria velocidade. Todos esses, porém, são dados de u m m u n -
do físico fabricado pelo homem, cuja utilização, aliás, permite
que o m u n d o se torne esse m u n d o confuso e confusamente
percebido. Explicações mecanicistas são, todavia, insuficientes.
E a maneira como, sobre essa base material, se produz a história
humana que é a verdadeira responsável pela criação da torre de
babel em que vive a nossa era globalizada. Quando tudo permite
imaginar que se tornou possível a criação de u m m u n d o veraz,
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 19
18 MILTON SANTOS

o que é imposto aos espíritos é u m m u n d o de fabulações, que se i ncnto das distâncias — para aqueles que realmente podem viajar
aproveita do alargamento de todos os contextos (M. Santos, A — também se difunde a noção de tempo e espaço contraídos. É
natureza do espaço, 1996) para consagrar u m discurso único. Seus como se o m u n d o se houvesse tornado, para todos, ao alcance da
fundamentos são a informação e o seu império, que encontram mão. U m mercado avassalador dito global é apresentado como
alicerce na produção de imagens e do imaginário, e se põem ao capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças
serviço do império do dinheiro, fundado este na economização locais são aprofundadas. H á uma busca de uniformidade, ao ser-
e na monetarização da vida social e da vida pessoal. viço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido,
tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente
D e fato, se desejamos escapar à crença de que esse m u n d o
universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado.
assim apresentado é verdadeiro, e não queremos admitir a per-
manência de sua percepção enganosa, devemos considerar a Fala-se, igualmente, com insistência, na morte do Estado,
existência de pelo menos três mundos n u m só. O primeiro se- mas o que estamos vendo é seu fortalecimento para atender aos
ria o m u n d o tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fá- reclamos da finança e de outros grandes interesses internacio-
bula; o segundo seria o m u n d o tal como ele é: a globalização nais, em detrimento dos cuidados com as populações cuja vida
como perversidade; e o terceiro, o m u n d o como ele pode ser: se torna mais difícil. £T' í>bo£ , C^OA ^^t>
uma outra globalização. Esses poucos exemplos, recolhidos numa lista interminável,
permitem indagar se, no lugar do fim da ideologia proclamado
pelos que sustentam a bondade dos presentes processos de
globalização, não estaríamos, de fato, diante da presença de uma
O m u n d o tal como nos fazem crer:
ideologização maciça, segundo a qual a realização do m u n d o atual
a globalização como fábula
exige como condição essencial o exercício de fabulações.

Este m u n d o globalizado, visto como fábula, erige como ver-


dade u m certo número de fantasias, cuja repetição, entretanto,
acaba por se tornar uma base aparentemente sólida de sua inter- O m u n d o como é: a globalização como perversidade
pretação (Maria da Conceição Tavares, Destruição não criadora, 1999).
A máquina ideológica que sustenta as ações preponderantes D e fato, para a grande maior parte da h u m a n i d a d e a
da atualidade é feita de peças que se alimentam mutuamente e globalização está se impondo como uma fábrica de perversidades.
põem em movimento os elementos essenciais à continuidade do O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta
sistema. Damos aqui alguns exemplos. Fala-se, por exemplo, em e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio
aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os
realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurta- continentes. Novas enfermidades como a SIDA se instalam e
20 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 21

velhas doenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno se acrescente, graças aos progressos da informação, a "mistura"
triunfal. A mortalidade infantil permanece, a despeito dos p r o - de filosofias, em detrimento do racionalismo europeu. U m o u -
gressos médicos e da informação. A educação de qualidade é cada tro dado de nossa era, indicativo da possibilidade de mudanças,
vez mais inacessível. Alastram-se e aprofundam-se males espi- 6 a produção de uma população aglomerada em áreas cada vez
rituais e morais, como os egoísmos, os cinismos, a corrupção. menores, o que permite u m ainda maior dinamismo àquela
A perversidade sistêmica que está na raiz dessa evolução mistura entre pessoas e filosofias. As massas, de que falava Ortega
negativa da humanidade tem relação com a adesão desenfreada y Gasset na primeira metade do século (La rebelión de las masas,
aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam 1937), ganham uma nova qualidade e m virtude da sua aglome-
as ações hegemônicas. Todas essas mazelas são direta ou indire- ração exponencial e de sua diversificação. Trata-se da existência
tamente imputáveis ao presente processo de globalização. de uma verdadeira socjodiversidade, historicamente muito mais
significativa que apropria biodiversidade. Junte-se a esses fatos
a emergência de uma cultura popular que se serve dos meios
O mundo como pode ser: uma outra globalização técnicos antes exclusivos da cultura de massas, permitindo-lhe
exercer sobre esta última uma verdadeira revanche ou vingança.
Todavia, podemos pensar na construção de u m outro m u n - É sobre tais alicerces que se edifica o discurso da escassez, afi-
do, mediante uma globalização mais humana. As bases materi- nal descoberta pelas massas. A população aglomerada em poucos
ais do período atual são, entre outras, a unicidade da técnica, a pontos da superfície da Terra constitui uma das bases de recons-
convergência dos momentos e o conhecimento d o planeta. É trução e de sobrevivência das relações locais, abrindo a possibili-
nessas bases técnicas que o grande capital se apoia para construir dade de utilização, ao serviço dos homens, do sistema técnico atual.
a globalização perversa de que falamos acima. Mas, essas m e s - N o plano teórico, o que verificamos é a possibilidade de
mas bases técnicas poderão servir a outros objetivos, se forem produção de u m novo discurso, de uma nova metanarrativa, u m
postas ao serviço de outros fundamentos sociais e políticos. Pa- novo grande relato. Esse novo discurso ganha relevância pelo
rece que as condições históricas do fim d o século XX aponta- fato de que, pela primeira vez na história do homem, se pode
vam para esta última possibilidade. Tais novas condições tanto constatar a existência de uma universalidade empírica. A univer-
se dão no plano empírico quanto no plano teórico. salidade deixa de ser apenas uma elaboração abstrata na mente
Considerando o que atualmente se verifica n o plano dos filósofos para resultar da experiência ordinária de cada
empírico, podemos, em primeiro lugar, reconhecer u m certo homem. D e tal modo, em u m m u n d o datado como o nosso, a
número de fatos novos indicativos da emergência de uma nova explicação do acontecer pode ser feita a partir de categorias de
história. O primeiro desses fenômenos é a enorme mistura de uma história concreta. É isso, também, que permite conhecer
povos, raças, culturas, gostos, em todos os continentes. A isso as possibilidades existentes e escrever uma nova história.
n

A P R O D U Ç Ã O D A GLOBALIZAÇÃO

Introdução

A globalização é, de certa forma, o ápice d o processo de


internacionalização do m u n d o capitalista. Para entendê-la, como,
de resto, a qualquer fase da história, há dois elementos fundamen-
tais a levar em conta: o estado das técnicas e o estado da política.
H á uma tendência a separar uma coisa da outra. Daí muitas
interpretações da história a partir das técnicas. E, por outro lado,
interpretações da história a partir da política. N a realidade, nunca
houve na história humana separação entre as duas coisas. As téc-
nicas são oferecidas como u m sistema e realizadas combina-
damente através do trabalho e das formas de escolha dos m o -
mentos e dos lugares de seu uso. É isso que fez a história.
N o fim do século X X e graças aos avanços da ciência, p r o -
duziu-se u m sistema de técnicas presidido pelas técnicas da in-
formação, que passaram a exercer u m papel de elo entre as de-
mais, unindo-as e assegurando ao novo sistema técnico u m a
presença planetária.
24 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 25

Só que a globalização não é apenas a existência desse novo ser dado com a foice, a enxada, o ancinho, que constituem, n u m
sistema de técnicas. Ela é também o resultado das ações que dado momento, uma família de técnicas.
asseguram a emergência de u m mercado dito global, respon- Essas famílias de técnicas transportam uma história, cada
sável pelo essencial dos processos políticos atualmente efica- sistema técnico representa uma época. E m nossa época, o que é
zes. O s fatores que contribuem para explicar a arquitetura da representativo d o sistema de técnicas atual é a chegada da técni-
globalização atual são: a unicidade da técnica, a convergência ca da informação, por meio da cibernética, da informática, da
dos momentos, a cognoscibilidade do planeta e a existência de eletrônica. Ela vai permitir duas grandes coisas: a primeira é que
u m m o t o r ú n i c o na história, representado pela mais-valia as diversas técnicas existentes passam a se comunicar entre elas.
globalizada. U m mercado global utilizando esse sistema d e A técnica da informação assegura esse comércio, que antes não
técnicas avançadas resulta nessa globalização perversa. Isso era possível. Por outro lado, ela tem u m papel determinante sobre
poderia ser diferente se seu uso político fosse outro. Esse é o o uso do tempo, permitindo, em todos os lugares, a convergên-
debate central, o único que nos permite ter a esperança de uti- cia dos momentos, assegurando a simultaneidade das ações e,
lizar o sistema técnico contemporâneo a partir de outras for- por conseguinte, acelerando o processo histórico.
mas de ação. Pretendemos, aqui, enfrentar essa discussão, ana- Ao surgir uma nova família de técnicas, as outras não desa-
lisando rapidamente alguns dos seus aspectos constitucionais parecem. Continuam existindo, mas o novo conjunto de ins-
mais relevantes. trumentos passa a ser usado pelos novos atores hegemônicos,
enquanto os não hegemônicos continuam utilizando conjuntos
menos atuais e menos poderosos. Quando u m determinado ator
não tem as condições para mobilizar as técnicas consideradas
2. A unicidade técnica mais avançadas, torna-se, por isso mesmo, u m ator de m e n o r
importância n o período atual.
N a história da humanidade é a primeira vez que tal conjunto
O desenvolvimento da história vai de par com o desenvol- de técnicas envolve o planeta como u m todo e faz sentir, instanta-
vimento das técnicas. Kant dizia que a história é u m progresso neamente, sua presença. Isso, aliás, contamina a forma de exis-
sem fim; acrescentemos que é também u m progresso sem fim tência das outras técnicas, mais atrasadas. As técnicas característi-
das técnicas. A cada evolução técnica, uma nova etapa histórica cas d o nosso tempo, presentes que sejam em u m só ponto d o
se torna possível. território, têm uma influência marcante sobre o resto do país, o
As técnicas se dão como famílias. N u n c a , na história d o que é bem diferente das situações anteriores. Por exemplo, a es-
homem, aparece uma técnica isolada; o que se instala são gru- trada de ferro instalada em regiões selecionadas, escolhidas estra-
pos de técnicas, verdadeiros sistemas. U m exemplo banal pode tegicamente, alcançava uma parte do país, mas não tinha uma in-
26 P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 27
MILTON SANTOS

fluência direta determinante sobre o resto do território. Agora não. mando funciona no interior das firmas, mas não há propriamen-
A técnica da informação alcança a totalidade de cada país, direta te uma unidade de comando do mercado global. Cada empresa
ou indiretamente. Cada lugar tem acesso ao acontecer dos outros. comanda as respectivas operações dentro da sua respectiva
O princípio de seletividade se dá também como princípio de hi- topologia, isto é, do conjunto de lugares da sua ação, enquanto a
erarquia, porque todos os outros lugares são avaliados e devem se ação dos Estados e das instituições supranacionais não basta para
referir àqueles dotados das técnicas hegemônicas. Esse é u m fe- impor uma ordem global. Levando ao extremo esse raciocínio,
nômeno novo na história das técnicas e na história dos territóri- poder-se-ia dizer que o mercado global não existe como tal.
os. Antes havia técnicas hegemônicas e não hegemônicas; hoje, as H á uma relação de causa e efeito entre o progresso técnico
técnicas não hegemônicas são hegemonizadas. N a verdade, p o - atual e as demais condições de implantação do atual período
rém, a técnica não pode ser vista como u m dado absoluto, mas histórico. É a partir da unicidade das técnicas, da qual o compu-
como técnica já relativizada, isto é, tal como usada pelo homem. tador é uma peça central, que surge a possibilidade de existir uma
As técnicas apenas se realizam, tornando-se história, com a finança universal, principal responsável pela imposição a todo o
intermediação da política, isto é, da política das empresas e da globo de uma mais-valia mundial. Sem ela, seria também i m -
política dos Estados, conjunta ou separadamente. possível a atual unicidade do tempo, o acontecer local sendo
Por outro lado, o sistema técnico dominante no m u n d o de percebido como u m elo do acontecer mundial. Por outro lado,
hoje tem uma outra característica, isto é, a de ser invasor. Ele sem a mais-valia globalizada e sem essa unicidade do tempo, a
não se contenta em ficar ali onde primeiro se instala e busca es- unicidade da técnica não teria eficácia.
palhar-se, na produção e no território. Pode não o conseguir, mas
é essa sua vocação, que é também fundamento da ação dos atores
hegemônicos, como, por exemplo, as empresas globais. Estas fun-
cionam a partir de uma fragmentação, já que u m pedaço da pro- 3. A convergência dos momentos
dução pode ser feita na Tunísia, outro na Malásia, outro ainda no
Paraguai, mas isto apenas é possível porque a técnica hegemônica
de que falamos é presente ou passível de presença em toda parte. A unicidade do tempo não é apenas o resultado de que, nos mais
Tudo se junta e articula depois mediante a "inteligência" da fir- diversos lugares, a hora do relógio é a mesma. Não é somente isso.
ma. Senão não poderia haver empresa transnacional. Há, pois, uma Se a hora é a mesma, convergem, também, os momentos vividos.
relação estreita entre esse aspecto da economia da globalização e a H á uma confluência dos momentos como resposta àquilo que, do
natureza do fenômeno técnico correspondente a este período his- ponto de vista da física, chama-se de tempo real e, do ponto de vis-
tórico. Se a produção se fragmenta tecnicamente, há, do outro lado, ta histórico, será chamado de interdependência e solidariedade do
uma unidade política de comando. Essa unidade política do co- acontecer. Tomada como fenômeno físico, a percepção do tempo
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MILTON SANTOS

real não só quer dizer que a hora dos relógios é a mesma, mas que C o m o ele é utilizado por u m número reduzido de atores, deve-
podemos usar esses relógios múltiplos de maneira uniforme. Re- mos distinguir entre a noção de fluidez potencial e a noção de flui-
sultado do progresso científico e técnico, cuja busca se acelerou com dez efetiva. Se a técnica cria aparentemente para todos a possibi-
a Segunda Guerra, a operação planetária das grandes empresas glo- lidade da fluidez, quem, todavia, é fluido realmente? Q u e
bais vai revolucionar o mundo das finanças, permitindo ao respec- empresas são realmente fluidas? Q u e pessoas? Q u e m , de fato,
tivo mercado que funcione em diversos lugares durante o dia in- utiliza em seu favor esse tempo real? A quem, realmente, cabe a
teiro. O tempo real também autoriza usar o mesmo momento a mais-valia criada a partir dessa nova possibilidade de utilização do
partir de múltiplos lugares; e todos os lugares a partir de u m só deles. tempo? Q u e m pode e quem não pode? Essa discussão leva-nos a
E, em ambos os casos, de forma concatenada e eficaz. uma outra, na fase atual do capitalismo, ao tomarmos em conta a
C o m essa grande mudança na história, tornamo-nos capazes, emergência de u m novo fator determinante da história, represen-
seja onde for, de ter conhecimento do que é o acontecer do ou- tado pelo que aqui estamos denominando de motor único.
tro. Nunca houve antes essa possibilidade oferecida pela técnica à
nossa geração de ter em mãos o conhecimento instantâneo d o
acontecer do outro. Essa é a grande novidade, o que estamos cha-
mando de unicidade do tempo ou convergência dos momentos. 4. O motor único
A aceleração da história, que o fim do século XX testemunha, vem
em grande parte disto. Mas a informação instantânea e globalizada
por enquanto não é generalizada e veraz porque atualmente Este período dispõe de u m sistema unificado de técnicas,
intermediada pelas grandes empresas da informação. instalado sobre u m planeta informado e permitindo ações igual-
E quem são os atores do tempo real? Somos todos nós? Esta mente globais. Até que ponto podemos falar de uma mais-valia
pergunta é u m imperativo para que possamos melhor compreen- à escala mundial, atuando como u m motor único de tais ações?
der nossa época. A ideologia de u m m u n d o só e da aldeia global Havia, com o imperialismo, diversos motores, cada qual com
considera o tempo real como u m patrimônio coletivo da huma- sua força e alcance próprios: o motor francês, o motor inglês, o
nidade. Mas ainda estamos longe desse ideal, todavia alcançável. motor alemão, o motor português, o belga, o espanhol e t c , que
A história é comandada pelos grandes atores desse tempo real, eram todos motores do capitalismo, mas empurravam as má-
que são, ao mesmo tempo, os donos da velocidade e os autores quinas e os homens segundo ritmos diferentes, modalidades
do discurso ideológico. Os homens não são igualmente atores diferentes, combinações diferentes. Hoje haveria u m m o t o r
desse tempo real. Fisicamente, isto é, potencialmente, ele existe único que é, exatamente, a mencionada mais-valia universal.
para todos. Mas efetivamente, isto é, socialmente, ele é excludente Esta tornou-se possível porque a partir de agora a produção
e assegura exclusividades, ou, pelo menos, privilégios de uso. se dá à escala mundial, por intermédio de empresas mundiais,
30 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 31

que competem entre si segundo uma concorrência extremamen- mente porque deixamos o m u n d o da competição e entramos n o
te feroz, como jamais existiu. As que resistem e sobrevivem são mundo da competitividade. O exercício da competitividade tor-
aquelas que obtêm a mais-valia maior, permitindo-se, assim, na exponencial a briga entre as empresas e as conduz a alimentar
continuar a proceder e a competir. uma demanda diuturna de mais ciência, de mais tecnologia, de
Esse motor único se tornou possível porque nos encontra- melhor organização, para manter-se à frente da corrida.
mos em u m novo patamar da internacionalização, com u m a Quando, na universidade, somos solicitados todos os dias a tra-
verdadeira mundialização do produto, do dinheiro, do crédito, balhar para melhorar a produtividade como se fosse algo abstrato e
da dívida, do c o n s u m o , da informação. Esse conjunto de individual, estamos impelidos a oferecer às grandes empresas pos-
mundializações, uma sustentando e arrastando a outra, impon- sibilidades ainda maiores de aumentar sua mais-valia. Novos labo-
do-se mutuamente, é também u m fato novo. ratórios são chamados a encontrar as novas técnicas, os novos ma-
U m elemento da internacionalização atrai outro, impõe teriais, as novas soluções organizacionais e políticas que permitam
outro, contém e é contido pelo outro. Esse sistema de forças pode às empresas fazer crescer a sua produtividade e o seu lucro. A cada
levar a pensar que o m u n d o se encaminha para algo como u m a
avanço de uma empresa, outra do mesmo ramo solicita inovações
homogeneização, uma vocação a u m padrão único, o que seria
que lhe permitam passar à frente da que antes era a campeã. Por
devido, de u m lado, à mundialização da técnica, de outro, à
isso, tal mais-valia está sempre correndo, quer dizer, fugindo para a
mundialização da mais-valia.
frente. U m corte no tempo é idealmente possível, mas está longe
Tudo isso é realidade, mas também e sobretudo tendência,
de expressar a realidade atual cruelmente instável. Por isso não se
porque em n e n h u m lugar, em n e n h u m país, houve completa
pode, desse modo, medi-la, mas ela existe. Se ela pode parecer abs-
internacionalização. O que há em toda parte é uma vocação às mais
trata, a mais-valia agora universal na verdade se impõe como u m
diversas combinações de vetores e formas de mundialização.
dado empírico, objetivo, quando utilizada no processo da produ-
Pretendemos que a história, agora, seja movida por esse
ção e como resultado da competitividade.
motor único. Cabe, assim, indagar qual seria a sua natureza. Será
ele abstrato? Q u e é essa mais-valia considerada ao nível global?
Ela é fugidia e nos escapa, mas não é abstrata. Ela existe e se impõe
como coisa real, embora não seja propriamente mensurável, j á
que está sempre evoluindo, isto é, mudando. Ela é "mundial" 5. A cognoscibilidade do planeta
porque entretida pelas empresas globais que se valem dos p r o -
gressos científicos e técnicos disponíveis no m u n d o e pedem,
todos os dias, mais progresso científico e técnico. O período histórico atual vai permitir o que n e n h u m outro
A atual competitividade entre as empresas é uma forma de período ofereceu ao homem, isto é, a possibilidade de conhecer
exercício dessa mais-valia universal, que se torna fugidia exata- o planeta extensiva e aprofundadamente. Isto nunca existiu an-
32 MILTON SANTOS
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 33

tes, e deve-se, exatamente, aos progressos da ciência e da técni- C o m a globalização e por meio da empiricização da universa-
ca (melhor ainda, aos progressos da técnica devidos aos progres- lidade que ela possibilitou, estamos mais perto de construir uma
sos da ciência). filosofia das técnicas e das ações correlatas, que seja também uma
Esse período técnico-científico da história permite ao h o - forma de conhecimento concreto do m u n d o tomado como u m
m e m não apenas utilizar o que encontra na natureza: novos todo e das particularidades dos lugares, que incluem condições
materiais são criados nos laboratórios como u m produto da in- físicas, naturais ou artificiais e condições políticas. As empresas,
teligência do homem, e precedem a produção dos objetos. Até a na busca da mais-valia desejada, valorizam diferentemente as lo-
nossa geração, utilizávamos os materiais que estavam à nossa calizações. N ã o é qualquer lugar que interessa a tal ou qual firma.
disposição. Mas a partir de agora podemos conceber os objetos A cognoscibilidade do planeta constitui u m dado essencial à ope-
que desejamos utilizar e então produzimos a matéria-prima in- ração das empresas e à produção do sistema histórico atual.
dispensável à sua fabricação. Sem isso não teria sido possível fazer
os satélites que fotografam o planeta a intervalos regulares, per-
mitindo uma visão mais completa e detalhada da Terra. Por meio
dos satélites, passamos a conhecer todos os lugares e a observar 6. Um período que é uma crise
outros astros. O funcionamento do sistema solar torna-se mais
perceptível, enquanto a Terra é vista em detalhe; pelo fato de que
os satélites repetem suas órbitas, podemos captar m o m e n t o s A história do capitalismo pode ser dividida em períodos,
sucessivos, isto é, não mais apenas retratos momentâneos e fo- pedaços de tempo marcados por certa coerência entre as suas
tografias isoladas do planeta. Isso não quer dizer que tenhamos, variáveis significativas, que evoluem diferentemente, mas den-
assim, os processos históricos que movem o m u n d o , mas fica- tro de u m sistema. U m período sucede a outro, mas não pode-
mos mais perto de identificar momentos dessa evolução. O s mos esquecer que os períodos são, também, antecedidos e su-
objetos retratados nos dão geometrías, não propriamente geo- cedidos por crises, isto é, momentos em que a ordem estabelecida
entre as variáveis, mediante uma organização, é comprometida.
grafias, porque nos chegam como objetos em si, sem a socieda-
Torna-se impossível harmonizá-las quando uma dessas variáveis
de vivendo dentro deles. O sentido que têm as coisas, isto é, seu
ganha expressão maior e introduz u m princípio de desordem.
verdadeiro valor, é o fundamento da correta interpretação de
Essa foi a evolução comum a toda a história do capitalismo,
tudo o que existe. Sem isso, corremos o risco de não ultrapassar
até recentemente. O período atual escapa a essa característica por-
uma interpretação coisicista de algo que é muito mais que uma
que ele é, ao mesmo tempo, u m período e uma crise, isto é, a
simples coisa, como os objetos da história. Estes estão sempre
presente fração do tempo histórico constitui uma verdadeira
mudando de significado, com o movimento das sociedades e por
superposição entre período e crise, revelando características de
intermédio das ações humanas sempre renovadas.
ambas essas situações.
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34 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 35

C o m o período e como crise, a época atual mostra-se, aliás, O processo da crise é permanente, o que temos são crises
como coisa nova. C o m o período, as suas variáveis características sucessivas. N a verdade, trata-se de uma crise global, cuja evi-
instalam-se em toda parte e a tudo influenciam, direta ou indire- dencia tanto se faz por meio de fenômenos globais como de m a -
tamente. Daí a denominação de globalização. C o m o crise, as nifestações particulares, neste ou naquele país, neste ou naque-
mesmas variáveis construtoras do sistema estão continuamente le momento, mas para produzir o novo estágio de crise. N a d a é
duradouro.
chocando-se e exigindo novas definições e novos arranjos. Trata-
se, porém, de uma crise persistente dentro de u m período com Então, neste período histórico, a crise é estrutural. Por isso,
quando se buscam soluções não estruturais, o resultado é a ge-
características duradouras, mesmo se novos contornos aparecem.
ração de mais crise. O que é considerado solução parte d o ex-
Este período e esta crise são diferentes daqueles do passado,
clusivo interesse dos atores hegemônicos, tendendo a participar
porque os dados motores e os respectivos suportes, que consti-
de sua própria natureza e de suas próprias características.
tuem fatores de mudança, não se instalam gradativamente como
Tirania do dinheiro e tirania da informação são os pilares da
antes, nem tampouco são o privilégio de alguns continentes e
produção da história atual do capitalismo globalizado. Sem o
países, como outrora. Tais fatores dão-se concomitantemente e
controle dos espíritos seria impossível a regulação pelas finanças.
se realizam com muita força em toda parte.
Daí o papel avassalador do sistema financeiro e a permissividade
Defrontamo-nos, agora, com uma subdivisão extrema do tem- do comportamento dos atores hegemônicos, que agem sem
po empírico, cuja documentação tornou-se possível por meio das contrapartida, levando ao aprofundamento da situação, isto é,
técnicas contemporâneas. O computador é o instrumento de da crise.
medida e, ao mesmo tempo, o controlador do uso do tempo. Essa A associação entre a tirania do dinheiro e a tirania da infor-
multiplicação do tempo é, na verdade, potencial, porque, de fato, mação conduz, desse modo, à aceleração dos processos hege-
cada ator—pessoa, empresa, instituição, lugar—utiliza diferen- mônicos, legitimados pelo "pensamento único", enquanto os d e -
temente tais possibilidades e realiza diferentemente a velocidade mais processos acabam por ser deglutidos ou se adaptam passiva
do mundo. Por outro lado, e graças sobretudo aos progressos das ou ativamente, tornando-se hegemonizados. E m outras palavras,
técnicas da informática, os fatores hegemônicos de mudança con- os processos não hegemônicos tendem seja a desaparecer fisica-
tagiam os demais, ainda que a presteza e o alcance desse contágio mente, seja a permanecer, mas de forma subordinada, exceto e m
sejam diferentes segundo as empresas, os grupos sociais, as pes- algumas áreas da vida social e em certas frações do território onde
soas, os lugares. Por intermédio do dinheiro, o contágio das lógi- podem manter-se relativamente autônomos, isto é, capazes de
cas redutoras, típicas do processo de globalização, leva a toda par- uma reprodução própria. Mas tal situação é sempre precária, seja
te u m nexo contábil, que avassala tudo. Os fatores de mudança porque os resultados localmente obtidos são menores, seja por-
acima enumerados são, pela mão dos atores hegemônicos, incon- que os respectivos agentes são permanentemente ameaçados pela
troláveis, cegos, egoisticamente contraditórios. concorrência das atividades mais poderosas.
36 MILTON SANTOS

N o período histórico atual, o estrutural (dito dinâmico) é,


também, crítico. Isso se deve, entre outras razões, ao fato de que
a era presente se caracteriza pelo uso extremado de técnicas e de
normas. O uso extremado das técnicas e a proeminência do pensa-
mento técnico conduzem à necessidade obsessiva de normas. Essa
pletora normativa é indispensável à eficácia da ação. Como, porém,
m
as atividades hegemônicas tendem a uma centralização, consecu-
tiva à concentração da economia, aumenta a inflexibilidade dos
U M A GLOBALIZAÇÃO PERVERSA
comportamentos, acarretando u m mal-estar no corpo social.
A isso se acrescente o fato de que, graças ao casamento entre
as técnicas normativas e a normalização técnica e política da ação
Introdução
correspondente, a própria política acaba por instalar-se em todos
os interstícios do corpo social, seja como necessidade para o exer-
cício das ações dominantes, seja como reação a essas mesmas ações. O s últimos anos d o século XX testemunharam grandes
Mas não é propriamente de política que se trata, mas de simples mudanças em toda a face da Terra. O m u n d o torna-se unificado
acúmulo de normatizações particularistas, conduzidas por atores — em virtude das novas condições técnicas, bases sólidas para
privados que ignoram o interesse social ou que o tratam de modo uma ação humana mundializada. Esta, entretanto, impõe-se à
residual. E uma outra razão pela qual a situação normal é de crise, maior parte da humanidade como uma globalização perversa.
ainda que os famosos equilíbrios macroeconômicos se instalem. Consideramos, em primeiro lugar, a emergência de uma du-
O mesmo sistema ideológico que justifica o processo de pla tirania, a do dinheiro e a da informação, intimamente relacio-
globalização, ajudando a considerá-lo o único caminho históri- nadas. Ambas, juntas, fornecem as bases do sistema ideológico que
co, acaba, também, por impor uma certa visão da crise e a acei- legitima as ações mais características da época e, ao mesmo tem-
tação dos remédios sugeridos. Em virtude disso, todos os paí- po, buscam conformar segundo u m novo ethos as relações sociais
ses, lugares e pessoas passam a se comportar, isto é, a organizar e interpessoais, influenciando o caráter das pessoas. A
sua ação, como se tal "crise" fosse a mesma para todos e como competitividade, sugerida pela produção e pelo consumo, é a fonte
se a receita para afastá-la devesse ser geralmente a mesma. N a de novos totalitarismos, mais facilmente aceitos graças à confu-
verdade, porém, a única crise que os responsáveis desejam afas- são dos espíritos que se instala. Tem as mesmas origens a produ-
tar é a crise financeira e não qualquer outra. Aí está, na verdade, ção, na base mesma da vida social, de uma violência estrutural,
facilmente visível nas formas de agir dos Estados, das empresas e
uma causa para mais aprofundamento da crise real — econômi-
dos indivíduos. A perversidade sistêmica é um dos seus corolários.
ca, social, política, moral — que caracteriza o nosso tempo.
38 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 39

Dentro desse quadro, as pessoas sentem-se desamparadas, o que o habitam e dos homens em sua realidade intrínseca. Todavia,
que também constitui uma incitação a que adotem, em seus com- nas condições atuais, as técnicas da informação são principalmente
portamentos ordinários, práticas que alguns decênios atrás eram utilizadas por u m punhado de atores em função de seus objetivos
moralmente condenadas. H á um verdadeiro retrocesso quanto à particulares. Essas técnicas da informação (por enquanto) são apro-
noção de bem público e de solidariedade, do qual é emblemático priadas por alguns Estados e por algumas empresas, aprofundando
o encolhimento das funções sociais e políticas do Estado com a assim os processos de criação de desigualdades. E desse modo que
ampliação da pobreza e os crescentes agravos à soberania, enquanto a periferia do sistema capitalista acaba se tornando ainda mais peri-
se amplia o papel político das empresas na regulação da vida social. férica, seja porque não dispõe totalmente dos novos meios de pro-
dução, seja porque lhe escapa a possibilidade de controle.
O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma
informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde.
7. A tirania da informação e do dinheiro e o atual Isso tanto é mais grave porque, nas condições atuais da vida eco-
sistema ideológico nômica e social, a informação constitui u m dado essencial e im-
prescindível. Mas na medida em que o que chega às pessoas, como
também às empresas e instituições hegemonizadas, é, já, o resul-
Entre os fatores constitutivos da globalização, em seu caráter tado de uma manipulação, tal informação se apresenta como ideo-
perverso atual, encontram-se a forma como a informação é ofe- logia. O fato de que, n o m u n d o de hoje, o discurso antecede qua-
recida à humanidade e a emergência do dinheiro em estado puro se obrigatoriamente uma parte substancial das ações humanas —
como motor da vida econômica e social. São duas violências cen- sejam elas a técnica, a produção, o consumo, o poder — explica o
trais, alicerces d o sistema ideológico que justifica as ações porquê da presença generalizada do ideológico em todos esses
hegemônicas e leva ao império das fabulações, a percepções frag- pontos. N ã o é de estranhar, pois, que realidade e ideologia se con-
mentadas e ao discurso único do mundo, base dos novos totalita- fundam na apreciação do homem comum, sobretudo porque a
rismos — isto é, dos globalitarismos — a que estamos assistindo. ideologia se insere nos objetos e apresenta-se como coisa.
Estamos diante de u m novo "encantamento do mundo", n o
qual o discurso e a retórica são o princípio e o fim. Esse impera-
A violência da informação tivo e essa onipresença da informação são insidiosos, já que a
informação atual tem dois rostos, u m pelo qual ela busca ins-
U m dos traços marcantes do atual período histórico é, pois, o truir, e u m outro, pelo qual ela busca convencer. Este é o traba-
papel verdadeiramente despótico da informação. Conforme já vi- lho da publicidade. Se a informação tem, hoje, essas duas caras,
mos, as novas condições técnicas deveriam permitir a ampliação do a cara do convencer se torna muito mais presente, na medida
conhecimento do planeta, dos objetos que o formam, das sociedades em que a publicidade se transformou em algo que antecipa a
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 41
40 MILTON SANTOS

produção. Brigando pela sobrevivência e hegemonia, e m fun- saber instantaneamente o que se passa em qualquer lugar, per-
ção da competitividade, as empresas não p o d e m existir sem mitiu que fosse cunhada essa expressão, quando, na verdade, ao
publicidade, que se tornou o nervo d o comércio. contrário do que se dá nas verdadeiras aldeias, é freqüentemente
H á uma relação carnal entre o m u n d o da produção da notí- mais fácil comunicar com quem está longe d o que com o vizi-
cia e o m u n d o da produção das coisas e das normas. A publici- nho. Q u a n d o essa comunicação se faz, na realidade, ela se dá
dade tem, hoje, uma penetração muito grande em todas as ativi- com a intermediação de objetos. A informação sobre o que acon-
dades. Antes, havia uma incompatibilidade ética entre anunciar tece não vem da interação entre as pessoas, mas do que é veicu-
e exercer certas atividades, como na profissão médica, o u na lado pela mídia, uma interpretação interessada, senão interes-
educação. Hoje, propaga-se tudo, e a própria política é, e m gran- seira, dos fatos.
de parte, subordinada às suas regras. U m outro mito é o d o espaço e do tempo contraídos, gra-
As mídias nacionais se globalizam, não apenas pela chatice e ças, outra vez, aos prodígios da velocidade. Só que a velocidade
mesmice das fotografias e dos títulos, mas pelos protagonistas apenas está ao alcance de u m número limitado de pessoas, de tal
mais presentes. Falsificam-se os eventos, já que não é propria- forma que, segundo as possibilidades de cada u m , as distâncias
mente o fato o que a mídia nos dá, mas uma interpretação, isto têm significações e efeitos diversos e o uso do mesmo relógio
é, a notícia. Pierre Nora, em u m bonito texto, cujo título é " O
não permite igual economia do tempo.
retorno do fato" (in História: Novos problemas, 1974), lembra que,
Aldeia global tanto quanto espaço-tempo contraído permi-
na aldeia, o testemunho das pessoas que veiculam o que aconte-
tiriam imaginar a realização do sonho de u m m u n d o só, já que,
ceu pode ser cotejado com o testemunho do vizinho. N u m a so-
pelas mãos do mercado global, coisas, relações, dinheiros, gos-
ciedade complexa como a nossa, somente vamos saber o que
tos largamente se difundem por sobre continentes, raças, lín-
houve na rua ao lado dois dias depois, mediante uma interpre-
guas, religiões, como se as particularidades tecidas ao longo de
tação marcada pelos humores, visões, preconceitos e interesses
séculos houvessem sido todas esgarçadas. Tudo seria conduzido
das agências. O evento j á é entregue maquiado ao leitor, ao
e, ao mesmo tempo, homogeneizado pelo mercado global re-
ouvinte, ao telespectador, e é também por isso que se produzem
no m u n d o de hoje, simultaneamente, fábulas e mitos. gulador. Será, todavia, esse mercado regulador? Será ele global?
O fato é que apenas três praças, Nova Iorque, Londres e T ó -
quio, concentram mais de metade de todas as transações e ações;
as empresas transnacionais são responsáveis pela maior parte do
Fábulas
comércio dito mundial; os 47 países menos avançados represen-
tam juntos apenas 0,3% do comércio mundial, em lugar dos 2,3%
U m a dessas fabulações é a tão repetida idéia de aldeia global
em 1960 (Y. Berthelot, "Globalisation et régionalisation: une
(Octávio Ianni, Teorias da globalização, 1996). O fato de que a
mise en perspective", in L'intégration régionale dans le monde,
comunicação se tornou possível à escala do planeta, deixando
42 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 43

G E M D E V , 1994), e n q u a n t o 40% d o comércio dos Estados Sem essas fábulas e mitos, este período histórico não existiria
Unidos ocorrem no interior das empresas (N. Chomsky, Folha como é. Também não seria possível a violência do dinheiro. Este
de S. Paulo, 25 de abril de 1993). só se torna violento e tirânico porque é servido pela violência da
Fala-se, também, de uma humanidade desterritorializada, uma informação. Esta se prevalece do fato de que, no fim do século
de suas características sendo o desfalecimento das fronteiras como XX, a linguagem ganha autonomia, constituindo sua própria lei.
imperativo da globalização, e a essa idéia dever-se-ia uma outra: a Isso facilita a entronização de u m subsistema ideológico, sem o
qual a globalização, em sua forma atual, não se explicaria.
da existência, já agora, de uma cidadania universal. De fato, as fron-
teiras mudaram de significação, mas nunca estiveram tão vivas,
na medida em que o próprio exercício das atividades globalizadas
não prescinde de uma ação governamental capaz de torná-las efe- A violência do dinheiro
tivas dentro de u m território. A humanidade desterritorializada é
A internacionalização do capital financeiro amplia-se, recen-
apenas u m mito. Por outro lado, o exercício da cidadania, mesmo
temente, por várias razões. N a fase histórica atual, as megafirmas
se avança a noção de moralidade internacional, é, ainda, u m fato
devem, obrigatoriamente, preocupar-se com o uso financeiro do
que depende da presença e da ação dos Estados nacionais.
dinheiro que obtêm. As grandes empresas são, quase que com-
Esse m u n d o como fábula é alimentado por outros ingredi-
pulsoriamente, ladeadas pôr grandes empresas financeiras.
entes, entre os quais a politização das estatísticas, a começar pela
Essas empresas financeiras das multinacionais utilizam em
forma pela qual é feita a comparação da riqueza entre as nações.
grande parte a poupança dos países em que se encontram. Q u a n -
N o fundo, nas condições atuais, o chamado Produto Nacional
do uma firma de qualquer outro país se instala n u m país C ou
Bruto é apenas u m nome fantasia do que poderíamos chamar D , as poupanças internas passam a participar da lógica financei-
de produto global, já que as quantidades que entram nessa con- ra e d o trabalho financeiro dessa multinacional. Q u a n d o
tabilidade são aquelas que se referem às operações que caracte- expatriado, esse dinheiro pode regressar ao país de origem na
rizam a própria globalização. forma de crédito e de dívida, quer dizer, por intermédio das
Afirma-se, também, que a "morte do Estado" melhoraria a vida grandes empresas globais. O que seria poupança interna trans-
dos homens e a saúde das empresas, na medida em que permiti- forma-se em poupança externa, pela qual os países recipiendarios
ria a ampliação da liberdade de produzir, de consumir e de viver. devem pagar juros extorsivos. O que sai do país como royalties,
Tal neoliberalismo seria o fundamento da democracia. Observan- inteligência comprada, pagamento de serviços ou remessa de
do o funcionamento concreto da sociedade econômica e da soci- lucros volta c o m o crédito e dívida. Essa é a lógica atual da
edade civil, não é difícil constatar que são cada vez em m e n o r internacionalização do crédito e da dívida. A aceitação de u m
número as empresas que se beneficiam desse desmaio do Estado, modelo econômico em que o pagamento da dívida é prioritário
enquanto a desigualdade entre os indivíduos aumenta. implica a aceitação da lógica desse dinheiro.
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Nas condições atuais de economia internacional, o financeiro e, de outro, pode estabelecer-se u m discurso único do " m u n -
ganha u m a espécie de autonomia. Por isso, a relação entre a do", com implicações na produção econômica e nas visões da
finança e a produção, entre o que agora se chama economia real história contemporânea, na cultura de massa e n o mercado
e o m u n d o da finança, dá lugar àquilo que Marx chamava de global.
loucura especulativa, fundada n o papel do dinheiro e m estado As bases materiais históricas dessa mitificação estão na rea-
puro. Este se torna o centro do m u n d o . É o dinheiro como, sim- lidade da técnica atual. A técnica apresenta-se ao h o m e m c o m u m
plesmente, dinheiro, recriando seu fetichismo pela ideologia. O como u m mistério e uma banalidade. D e fato, a técnica é mais
sistema financeiro descobre fórmulas imaginosas, inventa sem- aceita do que compreendida. C o m o tudo parece dela depender,
pre novos instrumentos, multiplica o que chama de derivativos, ela se apresenta como uma necessidade universal, uma presen-
que são formas sempre renovadas de oferta dessa mercadoria aos ça indiscutível, dotada de uma força quase divina à qual os h o -
especuladores. O resultado é que a especulação exponencial as- mens acabam se rendendo sem buscar entendê-la. E u m fato
sim redefinida vai se tornar algo indispensável, intrínseco, ao sis- c o m u m no cotidiano de todos, por conseguinte, uma banalida-
tema, graças aos processos técnicos da nossa época. E o tempo de, mas seus fundamentos e seu alcance escapam à percepção
real que vai permitir a rapidez das operações e a volatilidade dos imediata, daí seu mistério. Tais características alimentam seu
asseis. E a finança move a economia e a deforma, levando seus imaginário, alicerçado nas suas relações com a ciência, na sua
tentáculos a todos os aspectos da vida. Por isso, é lícito falar de exigência de racionalidade, no absolutismo com que, ao serviço
tirania do dinheiro. do mercado, conforma os comportamentos; tudo isso fazendo
Se o dinheiro em estado puro se tornou despótico, isso tam- crer na sua inevitabilidade.
b é m se deve ao fato de que t u d o se torna valor de troca. A Q u a n d o o sistema político formado pelos governos e pelas
monetarização da vida cotidiana ganhou, n o m u n d o inteiro, u m empresas utiliza os sistemas técnicos contemporâneos e seu
enorme terreno nos últimos 25 anos. Essa presença do dinheiro imaginário para produzir a atual globalização, aponta-nos para
em toda parte acaba por constituir u m dado ameaçador da nossa formas de relações econômicas implacáveis, que não aceitam
existência cotidiana. discussão e exigem obediência imediata, sem a qual os atores são
expulsos da cena ou permanecem escravos de uma lógica indis-
pensável ao funcionamento do sistema como u m todo.
As percepções fragmentadas e o discurso É uma forma de totalitarismo muito forte e insidiosa, porque
único do "mundo" se baseia em noções que parecem centrais à própria idéia da de-
mocracia — liberdade de opinião, de imprensa, tolerância —,
E a partir dessa generalização e dessa coisificação da ideolo- utilizadas exatamente para suprimir a possibilidade de conheci-
gia que, de u m lado, se multiplicam as percepções fragmentadas mento do que é o m u n d o , e do que são os países e os lugares.
46 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 47

8. Competitividade, consumo, confusão dos espíritos, da competitividade que caracteriza nosso tempo. Ora, é isso tam-
globalitarismo bém que justifica os individualismos arrebatadores e possessi-
vos: individualismos na vida econômica (a maneira como as
empresas batalham umas com as outras); individualismos na
Neste m u n d o globalizado, a competitividade, o consumo, a ordem da política (a maneira como os partidos freqüentemente
confusão dos espíritos constituem baluartes do presente estado abandonam a idéia de política para se tornarem simplesmente
de coisas. A competitividade comanda nossas formas de ação. O eleitoreiros); individualismos na ordem do território (as cida-
consumo comanda nossas formas de inação. E a confusão dos des brigando umas com as outras, as regiões reclamando solu-
espíritos impede o nosso entendimento do m u n d o , do país, do ções particularistas). Também na ordem social e individual são
lugar, da sociedade e de cada u m de nós mesmos. individualismos arrebatadores e possessivos, que acabam por
constituir o outro como coisa. Comportamentos que justificam
todo desrespeito às pessoas são, afinal, uma das bases da socia-
A competitividade, a ausência de compaixão bilidade atual. Aliás, a maneira como as classes médias, no Bra-
sil, se constituíram entroniza a lógica dos instrumentos, em lu-
N o s últimos cinco séculos de desenvolvimento e expansão gar da lógica das finalidades, e convoca os pragmatismos a que
geográfica do capitalismo, a concorrência se estabelece como regra. se tornem triunfantes.
Agora, a competitividade toma o lugar da competição. A concor- Para tudo isso, também contribuiu a perda de influência da
rência atual não é mais a velha concorrência, sobretudo porque filosofia na formulação das ciências sociais, cuja interdisci-
chega eliminando toda forma de compaixão. A competitividade plinaridade acaba por buscar inspiração na economia. Daí o
tem a guerra como norma. Há, a todo custo, que vencer o outro, empobrecimento das ciências humanas e a conseqüente dificul-
esmagando-o, para tomar seu lugar. Os últimos anos do século dade para interpretar o que vai pelo m u n d o , já que a ciência eco-
XXforam emblemáticos, porque neles se realizaram grandes con- nômica se torna, cada vez mais, uma disciplina da administra-
centrações, grandes fusões, tanto na órbita da produção como na ção das coisas ao serviço de u m sistema ideológico. E assim que
das finanças e da informação. Esse movimento marca u m ápice se implantam novas concepções sobre o valor a atribuir a cada
do sistema capitalista, mas é também indicador do seu paroxis- objeto, a cada indivíduo, a cada relação, a cada lugar, legitiman-
mo, já que a identidade dos atores, até então mais ou menos visí- do novas modalidades e novas regras da produção e do consu-
vel, agora finalmente aparece aos olhos de todos. mo. E novas formas financeiras e da contabilidade nacional. Esta,
Essa guerra como norma justifica toda forma de apelo à for- aliás, se reduz a ser, apenas, u m nome fantasia de uma suposta
ça, a que assistimos em diversos países, u m apelo não dissimu- contabilidade global, algo que inexiste de fato, mas é tomado
lado, utilizado para dirimir os conflitos e conseqüência dessa ética como parâmetro. Esta é uma das bases do subsistema ideológico
48 MILTON SANTOS
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 49

que comanda outros subsistemas da vida social, formando uma publicidade + materialidade; publicidade + serviços, e esse é o
constelação que tanto orienta e dirige a produção da economia caso de tantas mercadorias cuja circulação é fundada numa p r o -
como também a produção da vida. Essa nova lei do valor — que paganda insistente e freqüentemente enganosa. H á toda essa
é u m a lei ideológica do valor — é u m a filha dileta da maneira de organizar o consumo para permitir, em seguida, a
competitividade e acaba por ser responsável também pelo aban- organização da produção.
dono da noção e do fato da solidariedade. Daí as fragmentações Tais operações podem tornar-se simultâneas diante do t e m -
resultantes. Daí a ampliação do desemprego. Daí o abandono da po do relógio, mas, do ponto de vista da lógica, é a produção da
educação. Daí o desapreço à saúde como u m bem individual e informação e da publicidade que precede. Desse modo, vive-
social inalienável. Daí todas as novas formas perversas de sociabi- mos cercados, por todos os lados, por esse sistema ideológico
lidade que já existem ou se estão preparando neste país, para fazer tecido ao redor do consumo e da informação ideologizados. Esse
dele — ainda mais — u m país fragmentado, cujas diversas parce- consumo ideologizado e essa informação ideologizada acabam
las, de modo a assegurar sua sobrevivência imediata, serão joga- por ser o motor de ações públicas e privadas. Esse par é, ao mes-
das umas contra as outras e convidadas a uma batalha sem quartel. m o tempo, fortíssimo e fragilíssimo. D e u m lado é muito forte,
pela sua eficácia atual sobre a produção e o consumo. Mas, de
outro lado, ele é muito fraco, muito débil, desde que encontre-
O consumo e o seu despotismo mos a maneira de defini-lo como u m dado de u m sistema mais
amplo. O c o n s u m o é o grande emoliente, p r o d u t o r o u
Também o consumo muda de figura ao longo d o tempo. encorajador de imobilismos. Ele é, também, u m veículo de
Falava-se, antes, de autonomia da produção, para significar que narcisismos, por meio dos seus estímulos estéticos, morais, so-
u m a empresa, ao assegurar uma produção, buscava t a m b é m ciais; e aparece como o grande fundamentalismo do nosso tem-
manipular a opinião pela via da publicidade. Nesse caso, o fato po, porque alcança e envolve toda gente. Por isso, o entendimen-
gerador do consumo seria a produção. Mas, atualmente, as e m - to do que é o mundo passa pelo consumo e pela competitividade,
presas hegemônicas produzem o consumidor antes m e s m o de ambos fundados no mesmo sistema da ideologia.
produzir os produtos. U m dado essencial do entendimento d o Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento
consumo é que a produção do consumidor, hoje, precede à p r o - moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da
dução dos bens e dos serviços. Então, na cadeia causal, a cha- visão do m u n d o , convidando, também, a esquecer a oposição
mada autonomia da produção cede lugar ao despotismo do con- fundamental entre a figura do c o n s u m i d o r e a figura d o
s u m o . Daí, o império da informação e da publicidade. Tal cidadão. É certo que no Brasil tal oposição é menos sentida,
remédio teria 1% de medicina e 99% de publicidade, mas t o - porque em nosso país jamais houve a figura do cidadão. As
das as coisas n o comércio acabam por ter essa composição: classes chamadas superiores, incluindo as classes médias, jamais
50 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 51

quiseram ser cidadãs; os pobres jamais puderam ser cidadãos. presente como realidade, sobretudo por meio dos objetos. O s
As classes médias foram condicionadas a apenas querer privilé- objetos são coisas, são reais. Eles se apresentam diante de nós
gios e não direitos. E isso é u m dado essencial do entendimento não apenas como u m discurso, mas como u m discurso ideoló-
do Brasil: de como os partidos se organizam e funcionam; de gico, que nos convoca, malgrado nós, a uma forma de compor-
como a política se dá, de como a sociedade se move. E aí tam- tamento. E esse império dos objetos tem u m papel relevante na
bém as camadas intelectuais têm responsabilidade, porque tras- produção desse novo h o m e m apequenado que estamos todos
ladaram, sem maior imaginação e originalidade, à condição da ameaçados de ser. Até a Segunda Guerra Mundial, tínhamos em
classe média européia, lutando pela ampliação dos direitos polí- torno de nós alguns objetos, os quais comandávamos. Hoje, meio
ticos, econômicos e sociais, para o caso brasileiro e atribuindo, século depois, o que há em torno é uma multidão de objetos,
assim, por equívoco, à classe média brasileira u m papel de m o - todos ou quase todos querendo nos comandar. U m a das gran-
dernização e de progresso que, pela sua própria constituição, ela des diferenças entre o m u n d o de há cinqüenta anos e o m u n d o
não poderia ter. de agora é esse papel de comando atribuído aos objetos. E são
objetos carregando u m a ideologia que lhes é entregue pelos
homens do marketing e do design ao serviço do mercado.
A informação totalitária e a confusão dos espíritos

Tudo isso se deve, em grande parte, ao fato de que o fim do D o imperialismo ao mundo de hoje ^f^sí^ .
~ " — ^ SjP
século XX erigiu como u m dado central do seu funcionamento | i ;

o despotismo da informação, relacionado, em certa medida, com O capitalismo concorrencial buscou a unificação do plane-
o próprio nível alcançado pelo desenvolvimento da técnica atual, ta, mas apenas obteve uma unificação relativa, aprofundada sob
tão necessitada de u m discurso. C o m o as atividades hegemônicas o capitalismo monopolista graças aos progressos técnicos alcan-
são, hoje, todas elas, fundadas nessa técnica, o discurso aparece çados nos últimos dois séculos e possibilitando uma transição
como algo capital na produção da existência de todos. Essa para a situação atual de neoliberalismo. Agora se pode, de algu-
imprescindibilidade de u m discurso que antecede a t u d o — a ma forma, falar numa vontade de unificação absoluta alicerçada
começar pela própria técnica, a produção, o consumo e o poder na tirania do dinheiro e da informação produzindo em toda parte
— abre a porta à ideologia. situações nas quais tudo, isto é, coisas, homens, idéias, compor-
Antes, era corrente discutir-se a respeito da oposição entre tamentos, relações, lugares, é atingido.
o que era real e o que não era; entre o erro e o acerto; o erro e a E m cada u m desses momentos, são diferentes as relações
verdade; a essência e a aparência. Hoje, essa discussão talvez não entre o indivíduo e a sociedade, entre o mercado e a solidarie-
tenha sequer cabimento, porque a ideologia se torna real e está dade. Até recentemente, havia a busca de u m relativo reforço
52 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 53

m ú t u o das idéias e da realidade de autonomia individual (com a tica interior a cada país o u a cada conjunto imperial. C o m a
vontade de produção de indivíduos fortes e de cidadãos) e da globalização, as técnicas se tornam mais eficazes, sua presença
idéia e da realidade de uma sociedade solidária (com o Estado se confunde com o ecúmeno, seu encadeamento praticamente
crescentemente e m p e n h a d o e m exercer u m a regulação espontâneo se reforça e, ao m e s m o t e m p o , o seu uso escapa,
redistributiva). As situações eram diferentes segundo os conti- sob muitos aspectos, ao domínio da política e se torna subor-
nentes e países e, se o quadro acima referido não constituía uma dinado ao mercado.
realidade completa, essa era uma aspiração generalizada.
Ao longo da história passada do capitalismo, paralelamente
à evolução das técnicas, idéias morais e filosóficas se difundem, Globalitarismos e totalitarismos
assim como a sua realização política e jurídica, de modo que os
costumes, as leis, os regulamentos, as instituições jurídicas e C o m o as técnicas hegemônicas atuais são, todas elas, filhas
estatais buscavam realizar, ao mesmo tempo, mais controle so- da ciência, e como sua utilização se dá ao serviço d o mercado,
cial e, também, mais controle sobre ações individuais, limitan- esse amálgama produz u m ideário da técnica e do mercado que
do a ação daqueles vetores que, deixados sozinhos, levariam à é santificado pela ciência, considerada, ela própria, infalível. Essa,
eclosão de egoísmos, ao exercício da força bruta e a desníveis aliás, é uma das fontes do poder do pensamento único. Tudo o
sociais cada vez mais agudos. que é feito pela mão dos vetores fundamentais da globalização
N a fase atual de globalização, o uso das técnicas conhece uma parte de idéias científicas, indispensáveis à produção, aliás ace- .
importante mudança qualitativa e quantitativa. Passamos de u m lerada, de novas realidades, de tal modo que as ações assim cri-
uso "imperialista", que era, também, u m uso desigual e combi- adas se impõem como soluções únicas.
nado, segundo os continentes e lugares, a uma presença obriga- Nas condições atuais, a ideologia é reforçada de uma forma
tória em todos os países dos sistemas técnicos hegemônicos, que seria impossível ainda há u m quarto de século, j á que, pri-
graças ao papel unificador das técnicas de informação. meiro as idéias e, sobretudo, as ideologias se transformam em
O uso imperialista das técnicas permitia, pela via da política, situações, enquanto as situações se tornam em si mesmas "idéi-
uma certa convivência de níveis diferentes de formas técnicas as", "idéias do que fazer", "ideologias" e impregnam, de volta, a
e de formas organizacionais nos diversos impérios. Tal situação ciência (que santifica as ideologias e legitima as ações), uma ci-
permanece praticamente por u m século, sem que as diferen- ência cada vez mais redutora e reduzida, mais distante da busca
ças de poder entre os impérios fosse causa de conflitos durá- da "verdade". Desse conjunto de variáveis decorrem, também,
veis entre eles e dentro deles. O próprio imperialismo era "di- outras condições da vida contemporânea, fundadas na m a t e -
ferencial", tal característica sendo conseqüência da subordinação matização da existência, carregando consigo uma crescente se-
do mercado à política, seja a política internacional, seja a polí- dução pelos números, u m uso mágico das estatísticas.
54 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 55

É também a partir desse quadro que se pode interpretar a das de democracia, opinião pública, cidadania, conceitos que
serialização de que falava J . - P Sartre e m Questions de méthode, necessitam urgente revisão, sobretudo nos lugares onde essas
Critique de la Raison dialectique, 1960. E m tais condições, instalam- categorias nunca foram claramente definidas n e m totalmente
se a competitividade, o salve-se-quem-puder, a volta ao caniba- exercitadas.
lismo, a supressão da solidariedade, acumulando dificuldades Nossa grande tarefa, hoje, é a elaboração de u m novo dis-
para u m convívio social saudável e para o exercício da democra- curso, capaz de desmitificar a competitividade e o consumo e
cia. Enquanto esta é reduzida a uma democracia de mercado e de atenuar, senão desmanchar, a confusão dos espíritos.
amesquinhada como eleitoralismo, isto é, consumo de eleições,
as "pesquisas" perfilam-se como u m aferidor quantitativo da
opinião, da qual acaba por ser uma das formadoras, levando t u d o
isso ao empobrecimento do debate de idéias e à própria morte 9. A violência estrutural e a perversidade sistêmica
da política. N a esfera da sociabilidade, levantam-se utilitarismos
como regra de vida mediante a exacerbação do consumo, dos
narcisismos, d o imediatismo, d o egoísmo, d o abandono da s o - Fala-se, hoje, muito em violência e é geralmente admitido
lidariedade, com a implantação, galopante, de u m a ética prag- que é quase u m estado, uma situação característica do nosso tem-
mática individualista. É dessa forma que a sociedade e os indiví- po. Todavia, dentre as violências de que se fala, a maior parte é
duos aceitam dar adeus à generosidade, à solidariedade e à sobretudo formada de violências funcionais derivadas, enquan-
emoção com a entronização do reino dq cálculo (a partir d o cál- to a atenção é menos voltada para o que preferimos chamar de
culo econômico) e da competitividade.j violência estrutural, que está na base da produção das outras e
São, todas essas, condições para a difusão de u m pensamen- constitui a violência central original. Por isso, acabamos por
to e de uma prática totalitárias. Esses totalitarismos se dão na apenas condenar as violências periféricas particulares.
esfera d o trabalho como, por exemplo, n u m m u n d o agrícola A o nosso ver, a violência estrutural resulta da presença e das
modernizado onde os atores subalternizados convivem, como manifestações conjuntas, nessa era da globalização, do dinheiro
n u m exército, submetidos a uma disciplina militar. O totalita- em estado puro, da competitividade em estado puro e da potên-
rismo não é, porém, limitado à esfera do trabalho, escorrendo cia e m estado p u r o , cuja associação conduz à emergência de
para a esfera da política e das relações interpessoais e invadindo novos totalitarismos e permite pensar que vivemos numa época
o próprio m u n d o da pesquisa e do ensino universitários, m e d i - de globalitarismo muito mais que de globalização. Paralelamente,
ante u m cerco às idéias cada vez menos dissimulado. Cabe-nos, evoluímos de situações e m que a perversidade se manifestava
m e s m o , indagar diante dessas novas realidades sobre a de forma isolada para uma situação na qual se instala u m siste-
pertinência da presente utilização de concepções j á ultrapassa- ma da perversidade, que, ao mesmo tempo, é resultado e causa
56 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 57

da legitimação do dinheiro em estado puro, da competitividade A competitividade em estado puro


em estado puro e da potência em estado puro, consagrando, afi-
nal, o fim da ética e o fim da política. A necessidade de capitalização conduz a adotar como regra
a necessidade de competir em todos os planos. Diz-se que as
nações necessitam competir entre elas — o que, todavia, é duvi-
O dinheiro em estado puro doso — as empresas certamente competem por u m quinhão
e

sempre maior do mercado. Mas a estabilidade de uma empresa


C o m a globalização impõe-se uma nova noção de riqueza, pode depender de uma pequena ação desse mercado. A sobre-
de prosperidade e de equilíbrio macroeconômico, conceitos vivência está sempre por u m fio. N u m m u n d o globalizado, re-
fundados no dinheiro em estado puro e aos quais todas as eco- giões e cidades são chamadas a competir e, diante das regras atuais
nomias nacionais são chamadas a se adaptar. A noção e a reali- da produção e dos imperativos atuais d o c o n s u m o , a
dade da dívida internacional também derivam dessa mesma ide- competitividade se torna também uma regra da convivência entre
ologia. O consumo, tornado u m denominador c o m u m para as pessoas. A necessidade de competir é, aliás, legitimada por uma
todos os indivíduos, atribui u m papel central ao dinheiro nas ideologia largamente aceita e difundida, na medida em que a
suas diferentes manifestações; juntos, o dinheiro e o consumo desobediência às suas regras implica perder posições e, até mes-
aparecem como reguladores da vida individual. O novo dinheiro m o , desaparecer do cenário econômico. Criam-se, desse modo,
torna-se onipresente. Fundado numa ideologia, esse dinheiro novos "valores" em todos os planos, uma nova "ética" pervasiva
sem medida se torna a medida geral, reforçando a vocação para e operacional face aos mecanismos da globalização.
considerar a acumulação como uma meta em si mesma. N a re- Concorrer e competir não são a mesma coisa. A concorrên-
alidade, o resultado dessa busca tanto pode levar à acumulação cia pode até ser saudável sempre que a batalha entre agentes, para
(para alguns) como ao endividamento (para a maioria). Nessas melhor empreender uma tarefa e obter melhores resultados fi-
condições, firma-se u m círculo vicioso dentro do qual o m e d o nais, exige o respeito a certas regras de convivência preesta-
e o desamparo se criam mutuamente e a busca desenfreada do belecidas ou não. Já a competitividade se funda na invenção de
dinheiro tanto é uma causa como uma conseqüência d o desam- novas armas de luta, n u m exercício em que a única regra é a
paro e do medo. conquista da melhor posição. A competitividade é uma espécie
O resultado objetivo é a necessidade, real ou imaginada, de de guerra em que tudo vale e, desse modo, sua prática provoca
buscar mais dinheiro, e, como este, em seu estado puro, é indis- u m afrouxamento dos valores morais e u m convite ao exercício
pensável à existência das pessoas, das empresas e das nações, as da violência.
formas pelas quais ele é obtido, sejam quais forem, j á se encon-
tram antecipadamente justificadas.
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A potência em estado puro uma fábrica de perversidade. A fome deixa d e ser u m fato isola-
d o ou ocasional e passa a ser u m dado generalizado e perma-
Para exercer a competitividade em estado puro e o b t e r o d i - nente. Ela atinge 800 milhões de pessoas espalhadas por todos
nheiro em estado puro, o poder (a potência) deve ser t a m b é m os continentes, sem exceção. Q u a n d o os progressos da medici-
exercido em estado puro. O uso da força acaba se t o r n a n d o u m a na e da informação deviam autorizar u m a redução substancial
necessidade. N ã o há outro tetos, outra finalidade que o p r ó p r i o dos problemas de saúde, sabemos que 14 milhões de pessoas
uso da força, já que ela é indispensável para competir e fazer mais m o r r e m todos os dias, antes do quinto ano de vida.
dinheiro; isso vem acompanhado pela desnecessidade de r e s p o n - Dois bilhões de pessoas sobrevivem sem água potável. N u n -
sabilidade perante o outro, a coletividade próxima e a h u m a n i - ca na história houve u m tão grande número de deslocados e refu-
dade em geral. giados. O fenômeno dos sem-teto, curiosidade na primeira m e -
tade do século XX, hoje é u m fato banal, presente em todas as
Por exemplo, a idéia de que o desemprego é o resultado d e
grandes cidades do mundo. O desemprego é algo tomado comum.
u m jogo simplório entre formas técnicas e decisões m i c r o e -
Ao mesmo tempo, ficou mais difícil do que antes atribuir educa-
conômicas das empresas é uma simplificação, originada dessa
ção de qualidade e, mesmo, acabar com o analfabetismo. A p o -
confusão, como se a nação não devesse solidariedade a cada u m
breza também aumenta. N o fim do século X X havia mais 600
dos seus membros. O abandono da idéia d e solidariedade está
milhões de pobres do que e m 1960; e 1, 4 bilhão de pessoas ga-
por trás desse entendimento da economia e conduz ao desam-
nham menos de u m dólar por dia. Tais números podem ser, na
paro em que vivemos hoje. Jamais houve n a história um p e r í o -
verdade, ampliados porque, ainda aqui, os métodos quantitativos
do em que o medo fosse tão generalizado e alcançasse todas as
da estatística enganam: ser pobre não é apenas ganhar menos do
áreas da nossa vida: medo do desemprego, m e d o da fome, m e d o
que uma soma arbitrariamente fixada; ser pobre é participar de
da violência, medo do outro. Tal medo se espalha e se aprofunda uma situação estrutural, com uma posição relativa inferior den-
a partir de uma violência difusa, mas estrutural, típica do nosso tro da sociedade como u m todo. E essa condição se amplia para
tempo, cujo entendimento é indispensável para compreender, u m número cada vez maior de pessoas. O fato, porém, é que a
de maneira mais adequada, questões como a dívida social e a vi- pobreza tanto quanto o desemprego agora são considerados como
olência funcional, hoje tão presentes no cotidiano de todos. algo "natural", inerente a seu próprio processoTJuntõ ao desem-
prego e à pobreza absoluta, registre-se o empobrecimento relati-
vo de camadas cada vez maiores graças à deterioração do valor do
A perversidade sistêmica trabalho. N o México, a parte de trabalho na renda nacional cai de
36% na década de 1970 para 23% em 1992. Vivemos n u m m u n d o
Seja qual for o ângulo pelo qual se e x a m i n e m as situações de exclusões, agravadas pela desproteção social, apanágio do m o -
características do período atual, a realidade p o d e ser vista como delo neoliberal, que é, também, criador de insegurança.
60 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 61

N a verdade, ajerversidade deixa de se manifestar por fatos menosprezo quanto à liberdade, cujo culto é substituído pela pre-
isolados, atribuídos a distorções da personalidade, para se esta- ocupação com a incolumidade. Esta reacende egoísmos e é u m
belecer como u m sistema. Ao nosso ver, a causa essencial da dos fermentos da quebra da solidariedade entre pessoas, classes e
perversidade sistêmica é a instituição, por lei geral da vida soci- regiões. Incluam-se também, nessa lista dos processos caracterís-
al, da competitividade como regra absoluta, uma competitividade ticos da instalação do sistema da perversidade, a ampliação das de-
que escorre sobre todo o edifício social. O outro, seja ele empre- sigualdades de todo gênero: interpessoais, de classes, regionais,
sa, instituição ou indivíduo, aparece como u m obstáculo à rea- internacionais. Às antigas desigualdades, somam-se novas.
lização dos fins de cada u m e deve ser removido, por isso sendo O s papéis dominantes, legitimados pela ideologia e pela prá-
considerado uma coisa. Decorrem daí a celebração dos egoís- tica da competitividade, são a mentira, com o nome de segredo
mos, o alastramento dos narcisismos, a banalização da guerra de da marca; o engodo, com o nome de marketing; a dissimulação e
todos contra todos, com a utilização de qualquer que seja o meio o cinismo, com os nomes de tática e estratégia. E uma situação
para obter o fim colimado, isto é, competir e, se possível, ven- na qual se produz a glorificação da esperteza, negando a sinceri-
cer. Daí a difusão, também generalizada, de outro subproduto dade, e a glorificação da avareza, negando a generosidade. D e s -
da competitividade, isto é, a corrupção. se modo, o caminho fica aberto ao abandono das solidariedades
Esse sistema da perversidade inclui a morte da Política (com e ao fim da ética, mas, também, da política. Para o triunfo das
u m P maiúsculo), já que a condução do processo político passa novas virtudes pragmáticas, o ideal de democracia plena é subs-
a ser atributo das grandes empresas. Junte-se a isso o processo tituído pela construção de uma democracia de mercado, na qual
de conformação da opinião pelas mídias, u m dado importante a distribuição do poder é tributária da realização dos fins últi-
n o movimento de alienação trazido com a substituição do d e - mos do próprio sistema globalitário. Estas são as razões pelas
bate civilizatório pelo discurso único do mercado. Daí o ensi- quais a vida normal de todos os dias está sujeita a uma violência
namento e o aprendizado de comportamentos dos quais estão estrutural que, aliás, é a mãe de todas as outras violências.
ausentes objetivos finalísticos e éticos.
Assim elaborado, o sistema d a perversidade legitima a pree-
minência de uma ação hegemônica mas sem responsabilidade,
e a instalação sem contrapartida de uma ordem entrópica, com 10. Da política dos Estados à politica das empresas
a produção "natural" da desordem.
Para tudo isso, também contribui o estabelecimento d o i m -
pério do consumo, dentro do qual se instalam consumidores Façamos u m regresso, muito breve, ao começo da história
mais que perfeitos (M. Santos, O espaço do cidadão, 1988), leva- humana, quando o homem em sociedade, relacionando-se di-
dos à negligência em relação à cidadania e seu corolário, isto é, o retamente com a natureza, constrói a história. Nesse começo dos
62 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 63

tempos, os laços entre território, política, economia, cultura e avanço dos sistemas técnicos, até que, n o século XVIII, sur-
linguagem eram transparentes. Nas sociedades que os antropó- gem as técnicas das máquinas, que mais tarde vão se incorpo-
logos europeus e norte-americanos orgulhosamente chamaram rar ao solo como próteses, proporcionando ao h o m e m u m
de primitivas, a relação entre setores da vida social também se m e n o r esforço na produção, n o transporte e nas comunicações,
dava diretamente. N ã o havia praticamente intermediações. m u d a n d o a face da Terra, alterando as relações entre países e
Poder-se-ia considerar que existia uma territorialidade ge- entre sociedades e indivíduos. As técnicas oferecem respostas
nuína. A economia e a cultura dependiam do território, a lin- à vontade de evolução dos homens e, definidas pelas possibili-
guagem era uma emanação do uso do território pela economia dades que criam, são a marca de cada período da história.
e pela cultura, e a política também estava com ele intimamente
Ávida assim realizada por meio dessas técnicas é, pois, cada
relacionada.
vez menos subordinada ao aleatório e cada vez mais exige dos
Havia, por conseguinte, uma territorialidade absoluta, no sen-
homens comportamentos previsíveis. Essa previsibilidade de
tido de que, em todas as manifestações essenciais de sua existên-
comportamento assegura, de alguma maneira, uma visão mais
cia, os moradores pertenciam àquilo que lhes pertencia, isto é, o
racional do m u n d o e também dos lugares e conduz a uma orga-
território. Isso criava um sentido de identidade entre as pessoas e
nização sociotécnica do trabalho, do território e do fenômeno
o seu espaço geográfico, que lhes atribuía, em função da produ-
do poder. Daí o desencantamento progressivo do m u n d o .
ção necessária à sobrevivência do grupo, uma noção particular de
limites, acarretando, paralelamente, uma compartimentação do N o século XVIII, aconteceram dois fenômenos extremamen-
espaço, o que também produzia uma idéia de domínio. Para man- te importantes. U m é a produção das técnicas das máquinas, que
ter a identidade e os limites, era preciso ter clara essa idéia de revalorizam o trabalho e o capital, requalificam os territórios,
domínio, de poder. A política do território tinha as mesmas bases permitem a conquista de novos espaços e abrem horizontes para
que a política da economia, da cultura, da linguagem, formando a humanidade. Esse século marca o reforço do capitalismo e tam-
u m conjunto indissociável. Criava-se, paralelamente, a idéia de b é m a entrada em cena do h o m e m como u m valor a ser consi-
comunidade, u m contexto limitado no espaço. derado. O nascimento da técnica das máquinas, o reforço da
condição técnica na vida social e individual e as novas concep-
* ções sobre o h o m e m se corporificam com as idéias filosóficas
Sistemas técnicos, sistemas filosóficos que se iriam tornar forças da política. Este é u m outro dado
importante.
Toda relação do homem com a natureza é portadora e produto- O século XVIII produziu os enciclopedistas e a revolução
ra de técnicas que se foram enriquecendo, diversificando e avolu- americana e a Revolução Francesa, respostas políticas às idéias
mando ao longo do tempo. Nos últimos séculos, conhecemos u m filosóficas. N u m m o m e n t o em que o capitalismo também se
64 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 65

reforçava, se as técnicas houvessem sido entregues inteiramen- nização da vida n o planeta. Finalmente, quando esse progresso
te às mãos capitalistas sem que, pelo outro lado, surgissem as técnico alcança u m nível superior, a globalização se realiza, mas
idéias filosóficas (que também eram idéias morais), o m u n d o não a serviço da humanidade.
teria se organizado de forma diferente. A globalização mata a noção de solidariedade, devolve o
Se ao lado desses progressos da técnica a serviço da produ- h o m e m à condição primitiva do cada u m por si e, como se vol-
ção e do capitalismo não houvesse a progressão das idéias, terí- tássemos a ser animais da selva, reduz as noções de moralidade
amos tido uma eclosão muito maior do utilitarismo, com uma pública e particular a u m quase nada.
prática mais avassaladora do lucro e da concorrência. A o con- O período atual tem como uma das bases esse casamento
trário, foi estabelecida a possibilidade de enriquecer moralmente entre ciência e técnica, essa tecnociência, cujo uso é condicionado
o indivíduo. A mesma ética glorificava o indivíduo responsável pelo mercado. Por conseguinte, trata-se de uma técnica e de uma
e a coletividade responsável. Ambos eram responsáveis. Indiví- ciência seletivas. C o m o , freqüentemente, a ciência passa a p r o -
d u o e coletividade eram chamados a criar juntos u m enriqueci- duzir aquilo que interessa ao mercado, e não à humanidade em
mento recíproco que iria apontar para a busca da democracia, geral, o progresso técnico e científico não é sempre u m progresso
por intermédio do Estado Nacional, do Estado de Direito e d o moral. Pior, talvez, do que isso: a ausência desse progresso m o -
Estado Social, e para a produção da cidadania plena, reivindica- ral e tudo o que é feito a partir dessa ausência vai pesar forte-
ção que se foi afirmando ao longo desses séculos. Certamente a mente sobre o modelo de construção histórica dominante n o
cidadania nunca chegou a ser plena, mas quase alcançou esse último quartel do século XX.
estágio em certos países, durante os chamados trinta anos glori- Essa globalização tem de ser encarada a partir de dois proces-
osos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. E essa quase sos paralelos. De u m lado, dá-se a produção de uma materialidade,
plenitude era paralela à quase plenitude da democracia. A cida- ou seja, das condições materiais que nos cercam e que são a base
dania plena é u m dique contra o capital pleno. da produção econômica, dos transportes e das comunicações. D e
outro há a produção de novas relações sociais entre países, classes
e pessoas. A nova situação, conformejá acentuamos, vai se alicerçar
Tecnociência, globalização e história sem sentido em duas colunas centrais. U m a tem como base o dinheiro e a outra
se funda na informação. Dentro de cada país, sobretudo entre os
A globalização marca u m momento de ruptura nesse p r o - mais pobres, informação e dinheiro mundializados acabam por
cesso de evolução social e moral que se vinha fazendo nos sécu- se impor como algo autônomo face à sociedade e, mesmo, à eco-
los precedentes. E irônico recordar que o progresso técnico apa- nomia, tornando-se u m elemento fundamental da produção, e ao
recia, desde os séculos anteriores, como u m a condição para mesmo tempo da geopolítica, isto é, das relações entre países e
realizar essa sonhada globalização com a mais completa h u m a - dentro de cada nação.
66 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 67

A informação é centralizada nas mãos de u m n ú m e r o extre- As empresas globais e a morte da política


mamente limitado de firmas. Hoje, o essencial do que n o m u n -
do se lê, tanto em jornais como em livros, é produzido a partir A política agora é feita no mercado. Só que esse mercado glo- \
de meia dúzia de empresas que, na realidade, não transmitem bal não existe como ator, mas como uma ideologia, u m símbolo.
novidades, mas as reescrevem de maneira específica. Apesar de O s atores são as empresas globais, que não t ê m preocupações
as condições técnicas da informação permitirem que toda a h u - éticas, n e m finalísticas. Dir-se-á que, no m u n d o da c o m p e -
manidade conheça tudo o que o m u n d o é, acabamos na realida- titividade, ou se é cada vez mais individualista, ou se desapare-
de por não sabê-lo, por causa dessa intermediação deformante. ce. Então, a própria lógica de sobrevivência da empresa global
O m u n d o se torna fluido, graças à informação, mas também sugere que funcione sem n e n h u m altruísmo. Mas, se o Estado
ao dinheiro. Todos os contextos se intrometem e superpõem, não pode ser solidário e a empresa não pode ser altruísta, a socie-
corporificando u m contexto global, no qual as fronteiras se tor- dade como u m todo não tem quem a valha. Agora se fala muito
nam porosas para o dinheiro e para a informação. Além disso, o n u m terceiro setor, em que as empresas privadas assumiriam u m
território deixa de ter fronteiras rígidas, o que leva ao enfraque- trabalho de assistência social antes deferido ao poder público.
cimento e à mudança de natureza dos Estados nacionais. Caber-lhes-ia, desse modo, escolher quais os beneficiários, pri-
O discurso que ouvimos todos os dias, para nos fazer crer que vilegiando uma parcela da sociedade e deixando a maior parte
deve haver menos Estado, vale-se dessa mencionada porosidade, de fora. Haveria frações do território e da sociedade a serem
mas sua base essencial é o fato de que os condutores da globalização deixadas por conta, desde que não convenham ao cálculo das
necessitam de u m Estado flexível a seus interesses. As privatizações firmas. Essa "política" das empresas equivale à decretação de
são a mostra de que o capital se t o m o u devorante, guloso ao ex- morte da Política.
tremo, exigindo sempre mais, querendo tudo. Além disso, a ins- A política, por definição, é sempre ampla e supõe uma visão
talação desses capitais globalizados supõe que o território se adapte de conjunto. Ela apenas se realiza quando existe a consideração
às suas necessidades de fluidez, investindo pesadamente para al- de todos e de tudo. Q u e m não tem visão de conjunto não chega
terar a geografia das regiões escolhidas. De tal forma, o Estado a ser político. E não há política apenas para os pobres, como não
acaba por ter menos recursos para tudo o que é social, sobretudo há apenas para os ricos. A eliminação da pobreza é u m proble-
no caso das privatizações caricatas, como no modelo brasileiro, ma estrutural. Fora daí o que se pretende é encontrar formas de
que financia as empresas estrangeiras candidatas à compra d o ca- proteção a certos pobres e a certos ricos, escolhidos segundo os
pital social nacional. N ã o é que o Estado se ausente ou se torne interesses dos doadores. Mas a política tem de cuidar do con-
menor. Ele apenas se omite quanto ao interesse das populações e j u n t o de realidades e do conjunto de relações.
se torna mais forte, mais ágil, mais presente, ao serviço da econo- Nas condições atuais, e de um modo geral, estamos assistindo
mia dominante. à não-política, isto é, à política feita pelas empresas, sobretudo
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as maiores. Q u a n d o uma grande empresa se instala, chega com enfraquecidos, com o abandono da noção e da prática da solidarie-
suas normas, quase todas extremamente rígidas. C o m o essas dade, estamos, pelo menos a médio prazo, p r o d u z i n d o as
normas rígidas são associadas ao uso considerado adequado das precondições da fragmentação e da desordem, claramente visíveis
técnicas correspondentes, o m u n d o das normas se adensa por- no país, por meio do comportamento dos territórios, isto é, da
que as técnicas e m si mesmas também são normas. Pelo fato de crise praticamente geral dos estados e dos municípios.
que as técnicas atuais são solidárias, quando uma se impõe cria-
se a necessidade de trazer outras, sem as quais aquela não funcio-
na bem. Cada técnica propõe uma maneira particular de com-
p o r t a m e n t o , envolve suas próprias regulamentações e, p o r 11. Em meio século, três definições da pobreza
conseguinte, traz para os lugares novas formas de relacionamen-
to. O mesmo se dá com as empresas. É assim que também se
alteram as relações sociais dentro de cada comunidade. M u d a a O s países subdesenvolvidos conheceram pelo menos três
estrutura do emprego, assim como as outras relações econômi- formas de pobreza e, paralelamente, três formas de dívida social,
cas, sociais, culturais e morais dentro de cada lugar, afetando n o último meio século. A primeira seria o que ousadamente
igualmente o orçamento público, tanto na rubrica da receita chamaremos de pobreza induída, uma pobreza acidental, às vezes
como n o capítulo da despesa. U m pequeno n ú m e r o de grandes residual ou sazonal, produzida em certos momentos do ano, uma
empresas que se instala acarreta para a sociedade comoTmFíeTto pobreza intersticial e, sobretudo, sem vasos comunicantes.
u m pesado processo de desequilíbrio. Depois chega uma outra, reconhecida e estudada como uma
Todavia, mediante o discurso oficial, tais empresas são apre- doença da civilização. Então chamada de marginalidade, tal p o -
sentadas como salvadoras dos lugares e são apontadas como cre- breza era produzida pelo processo econômico da divisão do tra-
doras de reconhecimento pelos seus aportes de emprego e balho, internacional ou interna. Admitia-se que poderia ser
modernidade. Daí a crença de sua indispensabilidade, fator da corrigida, o que era buscado pelas mãos dos governos.
presente guerra entre lugares e, e m muitos casos, de sua atitude E agora chegamos ao terceiro tipo, a pobreza estrutural, que de
de chantagem frente ao poder público, ameaçando ir embora u m ponto de vista moral e político equivale a uma dívida social.
quando não atendidas e m seus reclamos. Assim, o poder público Ela é estrutural e não mais local, nem mesmo nacional; torna-se
passa a ser subordinado, compelido, arrastado. À medida que se globalizada, presente em toda parte no mundo. H á uma disse-
v impõe esse nexo das grandes empresas, instala-se a semente da minação planetária e uma produção globalizada da pobreza, ainda
ingovernabilidade, já fortemente implantada n o Brasil, ainda que que esteja mais presente nos países já pobres. Mas é também uma
sua dimensão não tenha sido adequadamente avaliada. À medida produção científica, portanto voluntária da dívida social, para a
que os institutos encarregados de cuidar do interesse geral são qual, na maior parte do planeta, não se buscam remédios.
70 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 71

A pobreza "incluída" processo econômico. Agora, o consumo se impõe como u m dado


importante, pois constitui o centro da explicação das diferenças e
Antes, as situações de pobreza podiam ser definidas como da percepção das situações. Dois fatores jogam u m papel funda-
reveladoras de u m a pobreza acidental, residual, estacionai, mental. Ampliam-se, de u m lado, as possibilidades de circulação,
intersticial, vista como desadaptação local aos processos mais e de outro, graças às formas modernas de difusão das inovações, a
gerais de mudança, ou c o m o inadaptação entre condições informação constitui u m dado revolucionário nas relações sociais.
naturais e condições sociais. Era uma pobreza que se produzia O radiotransistor era o grande símbolo. A ampliação do consu-
n u m lugar e não se comunicava a outro lugar. m o ganha, assim, as condições materiais e psicológicas necessá-
Então, nem a cidade, nem o território, nem a própria socie- rias, dando à pobreza novos conteúdos e novas definições. Além
dade eram exclusiva ou majoritariamente movidos por driving da pobreza absoluta, cria-se e recria-se incessantemente uma p o -
forces compreendidas pelo processo de racionalização. A presen- breza relativa, que leva a classificar os indivíduos pela sua capaci-
ça das técnicas, coladas ao território ou inerentes à vida social, dade de consumir, e pela forma como o fazem. O estabelecimen-
era relativamente pouco expressiva, reduzindo, assim, a eficácia
to de "índices" de pobreza e miséria utiliza esses componentes.
dos processos racionalizadores porventura vigentes na vida eco-
Ainda nesse segundo momento, que coincide com a gene-
nômica, cultural, social e política. Desse modo, a racionalidade
ralização e o sucesso da idéia de subdesenvolvimento e das teo-
da existência não constituía u m dado essencial do processo his-
rias destinadas a combatê-lo, os pobres eram chamados de mar-
tórico, limitando-se a alguns aspectos isolados da sociabilidade.
ginais. Para superar tal situação, considerada indesejável,
A produção da pobreza iria buscar suas causas em outros fatores.
torna-se, também, generalizada a preocupação dos governos e
N a situação que estamos descrevendo, as soluções ao p r o -
das sociedades nacionais, por meio de suas elites intelectuais e
blema eram privadas, assistencialistas, locais, e a pobreza era
políticas, com o fenômeno da pobreza, o que leva a uma busca
freqüentemente apresentada como u m acidente natural ou so-
de soluções de Estado para esse problema, considerado grave mas
cial. E m u m m u n d o onde o consumo ainda não estava larga-
mente difundido, e o dinheiro ainda não constituía u m nexo não insolúvel. O êxito d o estado d o bem-estar em tantos países
social obrigatório, a pobreza era menos discriminatória. Daí da Europa ocidental e a notícia das preocupações dos países so-
poder-se falar de pobres incluídos. cialistas para com a população em geral funcionavam como ins-
piração aos países pobres, todos comprometidos, ao menos ideo-
logicamente, com a luta contra a pobreza e suas manifestações,
A marginalidade ainda que não lhes fosse possível alcançar a realização do estado
d e bem-estar. M e s m o e m países como o nosso, o poder público
N u m segundo momento, a pobreza é identificada como uma é forçado a encontrar fórmulas, saídas, arremedos de solução.
doença da civilização, cuja produção acompanha o p r ó p r i o Havia uma certa vergonha de não enfrentar a questão.
72
MILTON SANTOS
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 73

A pobreza estrutural globalizada obedece a cânones científicos — por isso a consideramos u m a


divisão do trabalho administrada — e é movida por um m e c a -
O último período, n o qual nos encontramos, revela uma nismo que traz consigo a produção das dívidas sociais e a disse-
pobreza de novo tipo, uma pobreza estrutural globalizada, re- minação da pobreza numa escala global. Saímos de uma p o b r e -
sultante de u m sistema de ação deliberada. Examinado o p r o - za para entrar em outra. Deixa-se de ser pobre em um lugar para
cesso pelo qual o desemprego é gerado e a remuneração d o ser pobre em outro. Nas condições atuais, é uma pobreza quase
emprego se torna cada vez pior, ao mesmo tempo e m que o p o - sem remédio, trazida não apenas pela expansão do desemprego,
der público se retira das tarefas de proteção social, é lícito con- como, também, pela redução do valor do trabalho. É o caso, p o r
siderar que a atual divisão "administrativa" d o trabalho e a au- exemplo, dos Estados Unidos, apresentado como o país que t e m
sência deliberada d o Estado de sua missão social de regulação resolvido u m pouco menos mal a questão do desemprego, mas
estejam contribuindo para uma produção científica, globalizada onde o valor médio do salário caiu. E essa queda do desempre-
e voluntária da pobreza. Agora, ao contrário das duas fases ante- go não atinge igualmente toda a população, porque os negros
riores, trata-se de uma pobreza pervasiva, generalizada, perma- continuam sem emprego, em proporção talvez pior do que an-
nente, global. Pode-se, de algum modo, admitir a existência de tes, e as populações de origem latina se encontram na base da
algo como u m planejamento centralizado da pobreza atual: ain- escala salarial.
da que seus atores sejam muitos, o seu motor essencial é o m e s -
Essa produção maciça da pobreza aparece como um fenômeno
m o dos outros processos definidores de nossa época.
banal. U m a das grandes diferenças do ponto de vista ético é que a
A pobreza atual resulta da convergência de causas que se dão pobreza de agora surge, impõe-se e explica-se como algo natural
em diversos níveis, existindo como vasos comunicantes e como e inevitável. Mas é uma pobreza produzida politicamente pelas
algo racional, u m resultado necessário do presente processo, u m empresas e instituições globais. Estas, de um lado, pagam para criar
fenômeno inevitável, considerado até mesmo u m fato natural.
soluções localizadas, parcializadas, segmentadas, como é o caso
Alcançamos, assim, uma espécie de naturalização da pobre- d o Banco Mundial, que, em diferentes partes do mundo, finan-
za, que seria politicamente produzida pelos atores globais com cia programas de atenção aos pobres, querendo passar a impres-
a colaboração consciente dos governos nacionais e, contraria- são de se interessar pelos desvalidos, quando, estruturalmente, é
mente às situações precedentes, com a conivência de intelectuais o grande produtor da pobreza. Atacam-se, funcionalmente, ma-
contratados — ou apenas contatados — para legitimar essa na-
nifestações da pobreza, enquanto estruturalmente se cria a pobreza
turalização.
ao nível do mundo. E isso se dá com a colaboração passiva ou ati-
Nessa última fase, os pobres não são incluídos n e m margi- va dos governos nacionais.
nais, eles são excluídos. A divisão d o trabalho era, até recente- Vejam, então, a diferença entre o uso da palavra pobreza e
mente, algo mais ou menos espontâneo. Agora não. Hoje, ela da expressão dívida social nesses cinqüenta anos. Os pobres, isto
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MILTON SANTOS

é, aqueles que são o objeto da dívida social, foram já incluídos e, caso brasileiro, é lamentável que políticos e partidos ditos de
depois, marginalizados, e acabam por ser o que hoje são, isto é, esquerda se entreguem a uma política de direita, jogando para
excluídos. Esta exclusão atual, com a produção de dívidas sociais, u m lado a busca de soluções estruturais e limitando-se a propor
obedece a u m processo racional, uma racionalidade sem razão, paliativos, que não são verdadeiramente transformadores da
mas que comanda as ações hegemônicas e arrasta as demais ações. sociedade, porque serão inócuos, no médio e no longo prazos.
O s excluídos são o fruto dessa racionalidade. Por aí se vê que a As chamadas políticas públicas, quando existentes, não podem
questão capital é o entendimento do nosso tempo, sem o qual substituir a política social, considerada u m elenco coerente com
será impossível construir o discurso da liberação. Este, desde que as demais políticas (econômica, territorial e t c ) .
seja simples e veraz, poderá ser a base intelectual da política. E N ã o se trata, pois, de deixar aos níveis inferiores de governo
isso é central no m u n d o de hoje, u m m u n d o no qual nada de — municípios, estados — a busca de políticas compensatórias
importante se faz sem discurso. para aliviar as conseqüências da pobreza, enquanto, ao nível fe-
deral, as ações mais dinâmicas estão orientadas cada vez mais para
a produção de pobreza. O desejável seria que, a partir de uma
O papel dos intelectuais visão de conjunto, houvesse redistribuição dos poderes e de r e -
cursos entre diversas esferas político-administrativas do poder,
O terrível é que, nesse m u n d o de hoje, aumenta o n ú m e r o assim como uma redistribuição das prerrogativas e tarefas entre
de letrados e diminui o de intelectuais. N ã o é este u m dos dra- as diversas escalas territoriais, até mesmo com a reformulação
mas atuais da sociedade brasileira? Tais letrados, equivocadamen- da federação. Mas, para isso, é necessário haver u m projeto na-
te assimilados aos intelectuais, ou não pensam para encontrar a cional, e este não pode ser uma formulação automaticamente
verdade, ou, encontrando a verdade, não a dizem. Nesse caso, derivada d o projeto hegemônico e limitativo da globalização
não se podem encontrar com o futuro, renegando a função prin- atual. Ao contrário, partindo das realidades e das necessidades
cipal da intelectualidade, isto é, o casamento permanente com o de cada nação, deve não só entendê-las, como também consti-
porvir, por meio da busca incansada da verdade. tuir uma promessa de reformulação da própria ordem mundial.
Assim como o território é hoje u m território nacional da N a s condições atuais, u m grande complicador vem d o fato
economia internacional (M. Santos, A natureza do espaço, 1996), de que a globalização é freqüentemente considerada uma fatali-
a pobreza, hoje, é a pobreza nacional da ordem internacional. dade, baseada n u m exagerado encantamento pelas técnicas de
Essa realidade obriga a discutir algumas das soluções propostas ponta e com negligência quanto ao fator nacional, deixando-se
para o problema, como, por exemplo, quando se imagina poder de lado o papel do território utilizado pela sociedade como u m
compensar uma política neoliberal no plano nacional c o m a seu retrato dinâmico. Tal visão do mundo, uma espécie de volta
possibilidade de uma política social no plano subnacional. N o à velha noção de technological ftx (uma única tecnologia eficaz),
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acaba por consagrar a adoção de u m ponto de partida fechado e normas, sem as quais os poderosos fatores externos perdem efi-
por aceitar como indiscutível e inelutável o reino da necessida- cácia. Sem dúvida, a noção de soberania teve de ser revista, face
de, com a morte da esperança e da generosidade. Exclusão e dí- aos sistemas transgressores de âmbito planetário, cujo exercício
vida social aparecem c o m o se fossem algo fixo, imutável, violento acentua a porosidade das fronteiras. Estes, são, sobre-
indeclinável, quando, como qualquer outra ordem, pode ser tudo, a informação e a finança, cuja fluidez se multiplica graças
substituída por uma ordem mais humana. às maravilhas da técnica contemporânea. Mas é u m equívoco
pensar que a informação e a finança exercem sempre sua força
sem encontrar contrapartida interna. Esta depende de uma von-
tade política interior, capaz de evitar que a influência dos ditos
12. O quefazer com a soberania fatores seja absoluta.
Ao contrário do que se repete impunemente, o Estado con-
tinua forte e a prova disso é que nem as empresas transnacionais,
D e que maneira a globalização afeta a soberania das nações, nem as instituições supranacionais dispõem de força normativa
as fronteiras dos países e a governabilidade plena é u m a questão para impor, sozinhas, dentro de cada território, sua vontade
que, volta e meia, ocupa os espíritos, seja teoricamente, seja em política ou econômica. Por intermédio de suas normas de pro-
função de fatos concretos. Nesse terreno, como e m muitos o u - dução, de trabalho, de financiamento e de cooperação com ou-
tros, a produção de meias-verdades é infinita e somos freqüen- tras firmas, as empresas transnacionais arrastam outras empre-
temente convocados a repeti-las sem maior análise d o proble- sas e instituições dos lugares onde se instalam, impondo-lhes
ma. Há, mesmo, quem se arrisque a falar de desterritorialidade, comportamentos compatíveis com seus interesses. Mas a vida
fim das fronteiras, morte do Estado. H á os otimistas e pessimis- de uma empresa vai além do mero processo técnico de produ-
tas, os defensores e os acusadores. ção e alcança todo o entorno, a começar pelo próprio mercado e
Tomemos o caso particular d o Brasil para discutir mais de incluindo também as infra-estruturas geográficas de apoio, sem
perto essa questão, ainda que nossa realidade se aparente à de o que ela não pode ter êxito. É o Estado nacional que, afinal,
muitos outros países do planeta. C o m a globalização, o que t e - regula o m u n d o financeiro e constrói infra-estruturas, atri-
mos é u m território nacional da economia internacional, isto é, buindo, assim, a grandes empresas escolhidas a condição de sua
o território continua existindo, as normas públicas que o regem viabilidade. O mesmo pode ser dito das instituições suprana-
são da alçada nacional, ainda que as forças mais ativas d o seu cionais (FMI, Banco Mundial, Nações Unidas, Organização
dinamismo atual tenham origem externa. E m outras palavras, a Mundial do Comércio) .tujos editos ou recomendações neces-
contradição entre o externo e o interno aumentou. Todavia, é o sitam de decisões internas a cada país para que tenham eficácia.
Estado nacional, em última análise, que detém o monopólio das O Banco Central é, freqüentemente, essa correia de transmissão
78 MILTON SANTOS

(situada acima do Parlamento) entre uma vontade política ex-


terna e uma ausência de vontade interior. Por isso, tornou-se
corriqueiro entregar a direção desses bancos centrais a persona-
gens mais comprometidas com os postulados ideológicos da
finança internacional do que com os interesses concretos das
sociedades nacionais.
Mas a cessão de soberania não é algo natural, inelutável, IV
automático, pois depende da forma como o governo de cada país
decide fazer sua inserção no m u n d o da chamada globalização. O TERRITÓRIO D O DINHEIRO E
O Estado altera suas regras e feições n u m j o g o combinado D A FRAGMENTAÇÃO
de influências externas e realidades internas. Mas não há apenas
u m caminho e este não é obrigatoriamente o da passividade. Por
conseguinte, não é verdade que a globalização impeça a consti- Introdução
tuição de u m projeto nacional. Sem isso, os governos ficam à
mercê de exigências externas, por mais descabidas que sejam.
Este parece ser o caso do Brasil atual. Cremos, todavia, que sem- N o m u n d o da globalização, o espaço geográfico ganha n o -
pre é tempo de corrigir os rumos equivocados e, m e s m o n u m vos contornos, novas características, novas definições. E, tam-
m u n d o globalizado, fazer triunfar os interesses da nação. bém, uma nova importância, porque a eficácia das ações está
estreitamente relacionada com a sua localização. Os atores mais
poderosos se reservam os melhores pedaços do território e dei-
xam o resto para os outros.
N u m a situação de extrema competitividade como esta em
que vivemos, os lugares repercutem os embates entre os diver-
sos atores e o território como u m todo revela os movimentos de
fundo da sociedade. A globalização, com a proeminência dos
sistemas técnicos e da informação, subverte o antigo jogo da
evolução territorial e impõe novas lógicas.
O s territórios tendem a uma compartimentação generalizada,
onde se associam e se chocam o movimento geral da sociedade
planetária e o movimento particular de cada fração, regional ou
80 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO

local, da sociedade nacional. Esses movimentos são paralelos a começo havia ilhas de ocupação devidas à presença de grupos,
u m processo de fragmentação que rouba às coletividades o co- tribos, nações, cujos espaços de vida formariam verdadeiros ar-
mando do seu destino, enquanto os novos atores também não quipélagos. Ao longo do tempo e à medida do aumento das p o -
dispõem de instrumentos de regulação que interessem à socie- pulações e do intercâmbio, essa trama foi se tornando cada vez
dade em seu conjunto. A agricultura moderna, cientifizada e mais densa. Hoje, com a globalização, pode-se dizer que a tota-
mundializada, tal como a assistimos se desenvolver em países lidade da superfície da Terra é compartimentada, não apenas pela
como o Brasil, constitui u m exemplo dessa tendência e u m dado ação direta do homem, mas também pela sua presença política.
essencial ao entendimento do que no país constituem a com- N e n h u m a fração d o planeta escapa a essa influência. Desse
partimentação e a fragmentação atuais do território. modo, a velha noção de ecúmeno perde a antiga definição e ga-
O u t r o fenômeno a levar em conta é o papel das finanças na nha uma nova dimensão; tanto se pode dizer que toda a super-
reestruturação do espaço geográfico. O dinheiro usurpa em seu fície da Terra se tornou ecúmeno quanto se pode afirmar que
favor as perspectivas de fluidez do território, buscando confor- essa palavra já não se aplica apenas ao planeta efetivamente ha-
mar sob seu comando as outras atividades. bitado. C o m a globalização, todo e qualquer pedaço da superfí-
Mas o território não é u m dado neutro nem u m ator passi- cie da Terra se torna funcional às necessidades, usos e apetites
vo. Produz-se uma verdadeira esquizofrenia, já que os lugares de Estados e empresas nesta fase da história.
escolhidos acolhem e beneficiam os vetores da racionalidade Desse modo, a superfície da Terra é inteiramente comparti-
dominante mas também permitem a emergência de outras for- mentada e o respectivo caleidoscópio se apresenta sem solução
mas de vida. Essa esquizofrenia do território e do lugar tem u m de continuidade. Redefinida em função dos característicos de
papel ativo na formação da consciência. O espaço geográfico não uma época, a compartimentação atual distingue-se daquela do
apenas revela o transcurso da história como indica a seus atores passado e freqüentemente se dá como fragmentação. Seu con-
o modo de nela intervir de maneira consciente. teúdo e definição variam através dos tempos, mas sempre reve-
lam u m cotidiano compartido e complementar ainda que tam-
bém conflitivo e hierárquico, u m acontecer solidário identificado
com o meio, ainda que sem excluir relações distantes. Tal soli-
13. O espaço geográfico: compartimentação efragmentação dariedade e tal identificação constituem a garantia de uma pos-
sível regulação interna. Já a fragmentação revela u m cotidiano
e m que há parâmetros exógenos, sem referência ao meio. A
Ao longo da história humana, olhado o planeta como u m assimetria na evolução das diversas partes e a dificuldade ou
todo ou observado através dos continentes e países, o espaço m e s m o a impossibilidade de regulação, tanto interna quanto
geográfico sempre foi objeto de uma compartimentação. N o externa, constituem uma característica marcante.
82 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 83

A compartimentação: passado e presente com o território: u m a economia territorial, u m a cultura ter-


ritorial, regidas por regras, igualmente territorializadas, na for-
Até recentemente, a humanidade vivia o m u n d o da lentidão, ma de leis e de tratados, mas também de costumes.
n o qual a prática de velocidades diferentes não separava os res- Por meio da regulação, a compartimentação dos territórios,
pectivos agentes. Eram ritmos diversos, mas não incompatíveis. na escala nacional e internacional, permite que sejam neutraliza-
Dentro de cada área, os compartimentos eram soldados por re- k das diferenças e mesmo as oposições sejam pacificadas, mediante
gras, ainda que não houvesse contiguidade entre eles. O m e s - i u m processo político que se renova, adaptando-se às realidades
m o pode ser dito em relação ao que se passava na escala interna- emergentes para também renovar, desse m o d o , a solidariedade.
cional. O melhor exemplo, desde o último quartel do século XLX, N o plano internacional, esse processo cumulativo de adap-
é o da constituição dos impérios, fundado cada qual n u m a base tações leva às modificações d o estatuto colonial, aceleradas com
técnica diferente, o que não impedia a sua coexistência, n e m a o fim da Segunda Guerra Mundial. N o plano interno, a busca
possibilidade de cooperação na diferença. Durante u m século de solidariedade conduz ao enriquecimento dos direitos sociais
conviveram impérios como o britânico, portador das técnicas com a instalação de diferentes modalidades de democracia social.
mais avançadas da produção material, dos transportes, das co-
municações e do dinheiro, com impérios desse ponto de vista
menos avançados, por exemplo o império português ou o i m - Rapidez, fluidez, fragmentação
pério espanhol. Pode-se dizer que a política compensava a di-
versidade e a diferenciação do poder técnico ou do poder eco- Hoje, vivemos u m m u n d o da rapidez e da fluidez. Trata-se
nômico, assegurando, ao mesmo tempo, a ordem interna a cada de uma fluidez virtual, possível pela presença dos novos siste-
u m desses impérios e a ordem internacional. Por intermédio da mas técnicos, sobretudo os sistemas da informação, e de uma
política, cada país imperial regulava a produção própria e a das fluidez efetiva, realizada quando essa fluidez potencial é utiliza-
suas colônias, o comércio entre estas e os outros países, o fluxo da n o exercício da ação, pelas empresas e instituições hege-
de produtos, mercadorias e pessoas, o valor d o dinheiro e as mônicas. A fluidez potencial aparece n o imaginário e na ideolo-
formas de governo. O famoso pacto colonial acabava por com- gia como se fosse u m b e m c o m u m , u m a fluidez para todos,
preender todas as manifestações da vida histórica e os equilíbrios quando, na verdade, apenas alguns agentes têm a possibilidade
n o interior de cada império se davam paralelamente ao equilí- de utilizá-la, tornando-se, desse m o d o , os detentores efetivos da
brio entre as nações imperiais. D e algum modo, a ordem inter- velocidade. O exercício desta é, pois, o resultado das disponibi-
nacional era produzida por meio da política dos Estados. Dentro lidades materiais e técnicas existentes e das possibilidades de ação.
de cada país, a compartimentação e a solidariedade presumiam Assim, o m u n d o da rapidez e da fluidez somente se entende a
a presença de certas condições, todas praticamente relacionadas partir de u m processo conjunto no q u a l participam de u m lado
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 85
84 MILTON SANTOS
1
Y* IsfJJAjdtfò ——

as técnicas atuais e, de outro, a política atual, sendo que esta é e de urgência de algumas empresas e m detrimento de outras,
empreendida tanto pelas instituições públicas, nacionais, intra- uma competitividade que agrava as diferenças de força e as dispa-
nacionais e internacionais, como pelas empresas privadas. ridades, enquanto o território, pela sua organização, constitui-
As atuais compartimentações dos territórios ganham esse novo se n u m instrumento do exercício dessas diferenças de poder.
ingrediente. Criam-se, paralelamente, incompatibilidades entre Cada empresa, porém, utiliza o território e m função dos seus
velocidades diversas; e os portadores das velocidades extremas fins próprios e exclusivamente em função desses fins. As e m -
buscam induzir os demais atores a acompanhá-los, procurando presas apenas têm olhos para os seus próprios objetivos e são
disseminar as infra-estruturas necessárias à desejada fluidez nos cegas para tudo o mais. Desse modo, quanto mais racionais forem
lugares que consideram necessários para a sua atividade. Há, t o - as regras de sua ação individual tanto menos tais regras serão
davia, sempre, uma seletividade nessa difusão, separando os es- respeitosas do entorno econômico, social, político, cultural,
paços da pressa daqueles outros propícios à lentidão, e dessa forma moral ou geográfico, funcionando, as mais das vezes, como u m
acrescentando ao processo de compartimentação nexos verticais elemento de perturbação e mesmo de desordem. Nesse movi-
que se superpõem à compartimentação horizontal, característica mento, tudo que existia anteriormente à instalação dessas e m -
da história humana até data recente. O fenômeno é geral, já que, presas hegemônicas é convidado a adaptar-se às suas formas de
conforme vimos antes, tudo hoje está compartimentado; incluindo ser e de agir, mesmo que provoque, n o entorno preexistente,
toda a superfície do planeta. grandes distorções, inclusive a quebra da solidariedade social.
É por meio dessas linhas de menor resistência e, por conse-
guinte, de maior fluidez, que o mercado globalizado procura ins-
talar a sua vocação de expansão, mediante processos que levam Competitividade versus solidariedade
à busca da unificação e não propriamente à busca da união. O
chamado mercado global se impõe como razão principal da cons- Pode-se dizer então q u e , em última análise, a competiti-
tituição desses espaços da fluidez e, logo, da sua utilização, i m - vidade acaba por destroçar as antigas solidariedades, freqüente-
pondo, por meio de tais lugares, u m funcionamento que repro- mente horizontais, e por impor uma solidariedade vertical, cujo
duz as suas próprias bases (John Gray, Falso amanhecer, os equívocos epicentro é a empresa hegemônica, localmente obediente a inte-
do capitalismo, 1999), a começar pela competitividade. A lite- resses globais mais poderosos e, desse modo, indiferente ao e n -
ratura apologética da globalização fala de competitividade entre torno. As solidariedades horizontais preexistentes refaziam-se
Estados, mas, na verdade, trata-se de competitividade entre e m - historicamente a partir de u m debate interno, levando a ajustes
presas, que, às vezes, arrastam o Estado e sua força normativa inspirados na vontade de reconstruir, em novos termos, a própria
na produção de condições favoráveis àquelas dotadas de mais solidariedade horizontal. Já agora, a solidariedade vertical que
poder. E dessa forma que se potencializa a vocação de rapidez se impõe exclui qualquer debate local eficaz, já que as empresas
86 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO S7

hegemônicas têm apenas dois caminhos: permanecer para exer- instala. Desse modo, produz-se u m a verdadeira alienação ter-
cer plenamente seus objetivos individualistas ou retirar-se. ritorial à qual correspondem outras formas de alienação.
C o m o cada empresa hegemônica no objetivo de se manter Dentro de u m mesmo país se criam formas e ritmos dife-
como tal deve realçar tais interesses individuais, sua ação é rara- rentes de evolução, governados pelas metas e destinos específi-
x
mente coordenada com a de outras, ou com o poder público, e cos de cada empresa hegemônica, que arrastam com sua presença
tal descoordenação agrava a desorganização, isto é, reduz as pos- \ outros atores sociais, mediante a aceitação ou m e s m o a elabora-
sibilidades do exercício de uma busca de sentido para a vida local ção de discursos "nacionais-regionais" alienígenas o u alienados.
Cada empresa hegemônica age sobre uma parcela do terri- O u t r a reação conduz à elaboração paralela de discursos
tório. O território como u m todo é objeto da ação de várias reativos dotados de conteúdo específico e destinados a mostrar
empresas, cada qual, conforme já vimos, preocupada com suas inconformidade com as formas vigentes de inserção n o " m u n -
próprias metas e arrastando, a partir dessas metas, o comporta- do". Criam-se, em certos casos, novas soberanias, como, p o r
mento do resto das empresas e instituições. Q u e resta então da exemplo, na antiga Iugoslávia, o u autonomias ampliadas,
nação diante dessa nova realidade? C o m o a nação se exerce diante entronizando o que se poderiam chamar regiões-patses, cujo exem-
da verdadeira fragmentação do território, função das formas con- plo emblemático nos vem da Espanha. C o m o resolver a ques-
temporâneas de ação das empresas hegemônicas? tão de dentro de u m mesmo país, quando o passado não ofere-
A palavra fragmentação impõe-se com toda força porque, nas ceu como herança conjunta a existência de culturas particulares
condições acima descritas, não há regulação possível ou esta solidamente estabelecidas, j u n t o a uma vontade política regio-
apenas consagra alguns atores e estes, enquanto produzem uma nal j á exercida como poder?
ordem em causa própria, criam, paralelamente, desordem para Esse problema se torna mais agudo na medida em que as
tudo o mais. C o m o essa ordem desordeira é global, inerente ao compartimentações atuais do território não são enxergadas como
próprio processo produtivo da globalização atual, ela não tem fragmentação. Isso se dá, geralmente, quando a interpretação do
limites; mas não tem limites porque também não tem finalida- fato nacional é entregue a visões aparentemente totalizantes, mas
des e, desse modo, nenhuma regulação é possível, porque não na realidade particularistas, como certos enfoques da economia
desejada. Esse novo poder das grandes empresas, cegamente e, mesmo, da ciência política, que não se apropriam da noção
exercido, é, por natureza, desagregador, excludente, fragmen- do território considerado como território usado e visto, desse modo,
tador, seqüestrando autonomia ao resto dos atores. como estrutura dotada de u m movimento próprio. E melhor fa-
O s fragmentos resultantes desse processo articulam-se ex- zer a nação por intermédio do seu território, porque nele t u d o
ternamente segundo lógicas duplamente estranhas: por sua sede o que é vida está representado.
distante, longínqua quanto ao espaço da ação, e pela sua incon-
formidade com o sentido preexistente da vida na área e m que se
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14. A agricultura científica globalizada e a alienação e informação, levando ao aumento exponencial das quantidades
do território produzidas em relação às superfícies plantadas. Por sua natureza
global, conduz a uma demanda extrema de comércio. O dinheiro
passa a ser uma "informação" indispensável.
Desde o princípio dos tempos, a agricultura comparece como
uma atividade reveladora das relações profundas entre as socie-
dades humanas e o seu entorno. N o começo da história tais re- A demanda externa de racionalidade
lações eram, a bem dizer, entre os grupos humanos e a nature-
za. O avanço da civilização atribui ao h o m e m , p o r m e i o d o Nas áreas onde essa agricultura científica globalizada se ins-
aprofundamento das técnicas e de sua difusão, u m a capacidade tala, verifica-se uma importante demanda de bens científicos
cada vez mais crescente de alterar os dados naturais quando pos- (sementes, inseticidas, fertilizantes, corretivos) e, também, de
sível, reduzir a importância do seu impacto e, também, por meio assistência técnica. Os produtos são escolhidos segundo u m a
da organização social, de modificar a importância dos seus re- base mercantil, o que também implica uma estrita obediência
sultados. O s últimos séculos marcam, para a atividade agrícola, aos mandamentos científicos e técnicos. São essas condições que
com a humanização e a mecanização do espaço geográfico, uma regem os processos de plantação, colheita, armazenamento,
considerável mudança de qualidade, chegando-se, recentemente, empacotamento, transportes e comercialização, levando à intro-
à constituição de u m meio geográfico a que podemos chamar dução, aprofundamento e difusão de processos de racionaliza-
de meio técnico-científico-informacional, característico não ape- ção que se contagiam mutuamente, propondo a instalação de
nas da vida urbana mas também do m u n d o rural, tanto nos paí- sistemismos, que atravessam o território e a sociedade, levando,
ses avançados como nas regiões mais desenvolvidas dos países com a racionalização das práticas, a uma certa homogeneização.
pobres. E desse modo que se instala uma agricultura propria- Dá-se, na realidade, também, uma certa militarização do tra-
mente científica, responsável por mudanças profundas quanto balho, j á que o critério do sucesso é a obediência às regras
à produção agrícola e quanto à vida de relações. sugeridas pelas atividades hegemônicas, sem cuja utilização os
Podemos agora falar de uma agricultura científica globa- agentes recalcitrantes acabam por ser deslocados. Se entender-
lizada. Q u a n d o a produção agrícola tem uma referência plane- mos o território como u m conjunto de equipamentos, de insti-
tária, ela recebe influência daquelas mesmas leis que regem os tuições, práticas e normas, que conjuntamente movem e são
outros aspectos da produção econômica. Assim, a c o m p e t i - movidas pela sociedade, a agricultura científica, m o d e r n a e
tividade, característica das atividades de caráter planetário, leva globalizada acaba por atribuir aos agricultores modernos a ve-
a u m aprofundamento da tendência à instalação de u m a agricul- lha condição de servos da gleba. É atender a tais imperativos ou
tura científica. Esta, como vimos, é exigente de ciência, técnica cair
90 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 91

N a s áreas onde tal fenômeno se verifica, registra-se u m a A cidade do campo


tendência a u m duplo desemprego: o dos agricultores e outros
empregados e o dos proprietários; por isso, forma-se no m u n d o A agricultura moderna se realiza por meio dos seus belts, spots,
rural em processo de modernização uma nova massa de e m i - áreas, mas a sua relação com o mundo e com as áreas dinâmicas
grantes, que tanto se podem dirigir às cidades quanto participar do país se dá por meio de pontos. E o que explica, por exemplo, o
da produção de novas frentes pioneiras, dentro do próprio país importante relacionamento existente entre cidades regionais e São
ou n o estrangeiro, como é o caso dos brasiguaios. Paulo. Nessas localidades dá-se uma oferta de informação, ime-
As situações assim criadas são variadas e múltiplas, produ- diata e próxima, ligada à atividade agrícola e produzindo uma ati-
zindo uma tipologia de atividades cujos subtipos dependem das vidade urbana de fabricação e de serviços que, fruto da produção
condições fundiárias, técnicas e operacionais preexistentes. regional, é largamente "especializada" e, paralelamente, u m ou-
N u m a mesma área, ainda que as produções predominantes se tro tipo de atividade urbana ligada ao consumo das famílias e da
assemelhem, a heterogeneidade é de regra. Há, na verdade, administração. A cidade é u m pólo indispensável ao comando
heterogeneidade e complementaridade. Desse m o d o , pode-se técnico da produção, a cuja natureza se adapta, e é u m lugar de
falar na existência simultânea de continuidades e descontinui- residência de funcionários da administração pública e das empre-
dades. E dessa maneira que se enriquece o papel da vizinhança sas, mas também de pessoas que trabalham no campo e que, sen-
e, a despeito das diferenças existentes entre os diversos agentes, do agrícolas, são também urbanas, isto é, urbano-residentes. As
eles vivem em c o m u m certas experiências, como, por exemplo, atividades e profissões tradicionais juntam-se novas ocupações e
a subordinação ao mercado distante. às burguesias e classes médias tradicionais juntam-se as moder-
Tal experiência é tanto mais sensível porque decorre de u m a nas, formando uma mescla de formas de vida, atitudes e valores.
demanda "externa" de "racionalidade" e das respectivas dificul- Tal cidade, cujo papel de comando técnico da produção é bastan-
dades de oferecer uma resposta. Resta, como conseqüência, a te amplo, tem também u m papel político frente a essa mesma
tomada de consciência da importância de fatores "externos": u m produção. Mas, na medida em que a produção agrícola tem uma
mercado longínquo, até certo ponto abstrato; uma concorrência vocação global, esse papel político é limitado, incompleto e indi-
de certo modo "invisível"; preços internacionais e nacionais sobre reto. O mundo, confusamente enxergado a partir desses lugares,
os quais não há controle local, improvável, também, para outros é visto como u m parceiro inconstante. Sem dúvida, os diversos
componentes do cotidiano, igualmente elaborados de fora, como atores têm interesses diferentes, às vezes convergentes, certamente
o valor externo da moeda (câmbio), de que depende o valor in- complementares. Trata-se de uma produção local mista, matiza-
terno da produção, o custo do dinheiro e o peso sobre o p r o d u - da, contraditória de idéias. São visões do mundo, do país e do lugar
tor dos lucros auferidos por todos os tipos de intermediação. elaboradas na cooperação e no conflito. Tal processo é criador de
ambigüidades e de perplexidades, mas também de uma certeza
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dada pela emergência da cidade como u m lugar político, cujo papel internas aos setores e às empresas globais que as mobilizam. Daí
é duplo: ela é u m regulador do trabalho agrícola, sequioso de uma se criarem situações de alienação que escapam a regulações lo-
interpretação do movimento do mundo, e é a sede de uma socie- cais ou nacionais, embora arrastando comportamentos locais,
dade local compósita e complexa, cuja diversidade constitui u m regionais, nacionais em todos os domínios da vida, influencian-
permanente convite ao debate. do o comportamento da moeda, do crédito, do gasto público e
do emprego, incidindo sobre o funcionamento da economia
regional e urbana, por intermédio de suas relações determinantes
sobre o comércio, a indústria, os transportes e os serviços. Para-
15. Compartimentação efragmentação do espaço: lelamente, alteram-se os comportamentos políticos e adminis-
ocaso do Brasil trativos e o conteúdo da informação.
Esse processo de adaptação das regiões agrícolas modernas
se dá com grande rapidez, impondo-lhes, n u m pequeno espaço
O exame do caso brasileiro quanto à modernização agrícola de tempo, sistemas de vida cuja relação com o meio é reflexa,
revela a grande vulnerabilidade das regiões agrícolas modernas enquanto as determinações fundamentais vêm de fora.
face à "modernização globalizadora". Examinando o que signi- N u m mundo globalizado, idêntico movimento pode ser tam-
fica na maior parte dos estados do Sul e do Sudeste e nos esta- bém rapidamente implantado em outras áreas, n u m mesmo país
dos de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul, bem como em ou em outro continente. Assim, a noção de competitividade mos-
manchas isoladas de outros estados, verifica-se que o campo tra-se aqui com toda força, politicamente ajudada pelas manipu-
modernizado se tornou praticamente mais aberto à expansão das lações do comércio exterior ou das barreiras alfandegárias. Cabe
formas atuais do capitalismo que as cidades. Desse modo, e n - perguntar, nessas circunstâncias, o que pode acontecer a uma área
quanto o urbano surge, sob muitos aspectos e com diferentes agrícola que, mediante u m desses processos, seja esvaziada do seu
matizes, como o lugar da resistência, as áreas agrícolas se trans- conteúdo econômico. Q u e acontecerá, por exemplo, às novas áreas
formam agora n o lugar da vulnerabilidade. de agricultura globalizada do estado de São Paulo no caso da
mudança internacional da conjuntura da economia da laranja, do
açúcar ou do álcool? E como, diante de tal mudança, poderão reagir
O papel das lógicas exógenas a região, o estado de São Paulo e a nação?
A apreciação das perspectivas abertas a essas áreas moderni-
D e tais áreas pode-se dizer que atualmente funcionam sob zadas, com tendência a particularizações extremas, deve levar em
u m regime obediente a preocupações subordinadas a lógicas dis- conta o fato de que o sentido que é impresso à vida, em todas as
tantes, externas em relação à área da ação; mas essas lógicas são suas dimensões, baseia-se, em maior ou menor grau, em fatores
94 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 95

exógenos. D e u m ponto de vista nacional, redefine-se uma diver- cessos freqüentemente escapam ao controle (e até m e s m o ao
sidade regional que agora não é controlada nem controlável, seja entendimento) dos principais interessados. E isso que leva à
pela sociedade local, seja pela sociedade nacional. É uma diversi- tomada gradativa de consciência pela sociedade local de que
dade regional de novo tipo, em que se agravam as disparidades lhe escapa a palavra final quanto à produção local d o valor.
territoriais (em equipamento, recursos, informação, força econô- Nessas circunstâncias, a cidade ganha uma nova dimensão e
mica e política, características da população, níveis de vida e t c ) . u m novo papel, mediante uma vida de relações também reno-
Ao menos em u m primeiro momento e sob o impulso da vada, cuja densidade inclui as tarefas ligadas à produção glo-
competitividade globalizadora, produzem-se egoísmos locais ou balizada. Por isso, a cidade se torna o lugar onde melhor se es-
regionais exacerbados, justificados pela necessidade de defesa das clarecem as relações das pessoas, das empresas, das atividades
condições de sobrevivência regional, mesmo que isso tenha de e dos "fragmentos" do território com o país e com o "mundo".
se dar à custa da idéia de integridade nacional. Esse caldo de Esse papel de encruzilhada agora atribuído aos centros regio-
cultura pode levar à quebra da solidariedade nacional e condu- nais da produção agrícola modernizada faz deles o lugar da p r o -
zir a uma fragmentação do território e da sociedade. dução ativa de u m discurso (com pretensões a ser unitário) e de
uma política com pretensão a ser mais que u m conjunto de re-
gras particulares. Todavia, tais políticas acabam, n o longo prazo
As dialéticas endógenas e mesmo n o médio prazo, por revelar sua debilidade, sua relati-
vidade, sua ineficácia, sua não-operacionalidade. O que recla-
Há, todavia, uma dialética interna a cada u m dos fragmen- mar d o poder local vistos os limites da sua competência; que
tos resultantes. O produto (ou produtos) com a responsabilida- reivindicar aos estados federados; que solicitar eficazmente aos
de de comando da economia regional inclui atores com dife- agentes econômicos globais, quando se sabe que estes podem
rentes perfis e interesses, cujo índice de satisfação t a m b é m é encontrar satisfação aos seus apetites de ganho simplesmente
diferente. Dentro de cada região, as alianças e acordos e os con- mudando o lugar de sua operação? Para encontrar u m começo
tratos sociais implícitos ou explícitos estão sempre se refazendo de resposta, o primeiro passo é regressar às noções de nação,
e a hegemonia deve ser sempre revista. solidariedade nacional, Estado nacional. D e u m ponto de vista
O processo produtivo reúne aspectos técnicos e aspectos prático, voltaríamos à idéia, já expressa por nós em outra oca-
políticos. Os primeiros têm mais a ver com a produção propria- sião, da constituição de uma federação de lugares, com a recons-
mente dita e sua área de incidência se verifica mormente dentro trução da federação brasileira a partir da célula local, feita de
da própria região. A parcela política do processo produtivo, ao forma a que o território nacional venha a conhecer uma com-
contrário, relacionada com o comércio, os preços, os subsídios, partimentação que não seja também uma fragmentação. Desse
o custo do dinheiro e t c , tem sua sede fora da região e seus p r o - m o d o , a federação seria refeita de baixo para cima, ao contrário
96 MILTON SANTOS 97
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO

da tendência a que agora está sendo arrastada pela subordinação pois, de logo, entender que se está falando e m território usado,
aos processos de globalização. utilizado por uma dada população. U m faz o outro, à maneira
da célebre frase de Churchill: primeiro fazemos nossas casas, de-
pois elas nos fazem... A idéia de tribo, povo, nação e, depois, de
Estado nacional decorre dessa relação tornada profunda.
16. O território do dinheiro O dinheiro é u m a invenção da vida de relações e aparece
como decorrência de uma atividade econômica para cujo inter-
câmbio o simples escambo já não basta. Q u a n d o a complexida-
A queda-de-braço entre governos municipais e estaduais e o de é u m fruto de especializações produtivas e a vida econômica
governo federal é mais que uma discussão técnica para saber quem se torna complexa, o dinheiro acaba sendo indispensável e ter-
deve arcar com o ônus das dificuldades financeiras dos 27 estados mina se impondo como u m equivalente geral de todas as coisas
e dos mais de 5.500 municípios. A questão é a federação e sua que são objeto de comércio. N a verdade, o dinheiro constitui,
inadequação aos tempos da nova história com a emergência da também, u m dado do processo, facilitando seu aprofundamento,
globalização. O que está em jogo é o próprio sistema de relações já que ele se torna representativo do valor atribuído à produção
constituído, de u m lado, pelos novos conteúdos demográfico, e ao trabalho e aos respectivos resultados.
econômico, social de estados e municípios e a manutenção d o
conteúdo normativo do território, agora que face à globalização
se produz u m embate entre u m dinheiro globalizado e as instân- O dinheiro e o território: situações históricas
cias político-administrativas do Estado brasileiro.
N u m primeiro momento trata-se do dinheiro local, expres-
sivo de u m horizonte comercial elementar, abrangente de con-
Definições textos geográficos limitados ou para atender às necessidades de
u m comércio e de uma circulação longínquos, nas mãos de c o -
O território não é apenas o resultado da superposição de merciantes itinerantes, avalistas d o valor das mercadorias. Tal
u m conjunto de sistemas naturais e u m conjunto de sistemas m u n d o é caracterizado por compartimentações muito n u m e r o -
d e coisas criadas pelo h o m e m . O território é o chão e mais a sas, mas u m m u n d o sem movimento, lento, estável e cujos
população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de per- fragmentos quase seriam autocontidos. Tais mônadas, n u m e r o -
tencer àquilo que nos pertence. O território é a base d o traba- sas, existiriam paralelamente, mas sem o princípio geral sugeri-
lho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, d o por Leibniz.
sobre os quais ele influi. Q u a n d o se fala em território deve-se,
98 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 9Ç

Nesse primeiro momento, o funcionamento do território ca do que pelo uso e, desse modo, reclamando u m a medida h o -
deve muito às suas feições naturais, às quais os homens se adap- mogênea e permanente. Assim, o dinheiro aumenta sua indis-
tam, com pequena intermediação técnica. As relações sociais pensabilidade e invade mais numerosos aspectos da vida econô-
presentes são pouco numerosas, simples e pouco densas. O en- mica e social.
torno dos homens acaba por lhe ser conhecido e os seus misté- Paralelamente, o território se apresenta como uma arena de
rios são apenas devidos às forças naturais desconhecidas. Tais movimentos cada vez mais numerosos, fundados sobre u m a lei
condições materiais terminam por se impor sobre o resto da vida do valor que tanto deve ao caráter da produção presente e m cada
social, numa situação na qual o valor de cada pedaço de chão lhe lugar como às possibilidades e realidades da circulação. O dinhei-
é atribuído pelo seu uso. Assim, a existência pode ser interpre- ro é, cada vez mais, u m dado essencial para o uso do território.
tada a partir de relações observadas diretamente entre os homens Mas a lei do valor também se estende aos próprios lugares,
e entre os homens e o meio. O território usado pela sociedade cada qual representando, e m dada circunstância e e m função
do comércio de que participam, u m certo índice de valor que
local rege as manifestações da vida social, inclusive o dinheiro.
é, também, a base dos movimentos que deles partem ou que a
eles chegam.
Quanto mais movimento, maior se torna a complexidade das
Metamorfoses das duas categorias ao longo do tempo
relações internas e externas e aprofunda-se a necessidade de uma
regulação, da qual o dinheiro constitui u m dos elementos, ain-
C o m a ampliação do comércio produz-se u m a i n t e r d e -
da que o seu papel não seja o papel central. Este é atribuído à
pendência crescente entre sociedades até então relativamente iso-
categoria estado, cuja necessidade se levanta como u m impera-
ladas, cresce o número de objetos e valores a trocar, as próprias
tivo, atribuindo-se limites externos (as fronteiras estabelecidas),
trocas estimulam a diversificação e o aumento de volume de uma
limites internos (as subdivisões político-administrativas e m di-
produção destinada a u m consumo longínquo. O dinheiro se
versos níveis) e conteúdos normativos (as leis e costumes), em
instala como condição, tanto desse escambo quanto da p r o d u -
matéria de competências e recursos. É assim que se instalam na
ção de cada grupo, tornando-se instrumental à regulação da vida
história, categorias interdependentes: o Estado territorial, o ter-
econômica e assegurando, assim, o alargamento do seu âmbito
ritório nacional, o Estado nacional. São eles que, em conjunto,
e a freqüência do seu uso.
regem o dinheiro.
N a realidade, o que cresce, se expande e se torna mais c o m - Há, por conseguinte, u m dinheiro nacional que, apesar de
plexo e denso não é apenas o comércio internacional, mas, u m comércio externo crescente, tem a cara do país e é regulado
também, o interno. Assim, cada vez mais coisas tendem a tor- pelo país. Dir-se-ia que esse dinheiro é relativamente coman-
nar-se objeto de intercâmbio, valorizado cada vez mais pela t r o - dado de dentro.
100 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 101

O dinheiro da globalização classificam as economias nacionais, por meio de u m a escolha


arbitrária de variáveis que apenas contempla certa parcela da
C o m a globalização, o uso das técnicas disponíveis permite produção, deixando praticamente de lado o resto da economia.
a instalação de u m dinheiro fluido, relativamente invisível, pra- Por isso, pode-se dizer que, adotado esse critério de avaliação, o
ticamente abstrato. Produto Nacional Bruto apenas constitui u m nome-fantasia para
C o m o equivalente geral, o dinheiro se torna u m equivalen- essa famosa contabilidade global.
te realmente universal, ao mesmo tempo em que ganha uma É por meio desse mecanismo que o dinheiro global auto-
existência praticamente autônoma em relação ao resto da eco- nomizado, e não mais o capital como u m todo, se torna, hoje, o
nomia. Assim autonomizado, pode-se até dizer que esse dinhei- principal regedor do território, tanto o território nacional como
ro, em estado puro, é u m equivalente geral dele próprio. Talvez suas frações.
por isso sua existência concreta e sua eficácia sejam resultado * Antes, o território continha o dinheiro, e m u m a dupla
das normas com as quais se impõe aos outros dinheiros e a t o - acepção: o dinheiro sendo representativo d o território q u e o
dos os países, permitindo-se, desse modo, a elaboração de u m abrigava e sendo, e m parte, regulado pelo território, consi-
discurso, sem o qual sua eficácia seria infinitamente m e n o r e a derado como território usado. Hoje, sob influência do dinhei-
sua força menos evidente. É, aliás, a partir deste caráter ideoló- ro global, o conteúdo do território escapa a toda regulação
gico, equivalente a uma verdadeira falsificação do critério, que interna, objeto q u e ele é de u m a permanente instabilidade,
• dinheiro global é também despótico. da qual os diversos agentes apenas constituem testemunhas
N a s condições atuais, as lógicas do dinheiro impõem-se passivas.
àquelas da vida socioeconómica e política, forçando mimetismos, A ação territorial do dinheiro global em estado puro acaba
adaptações, rendições. Tais lógicas se dão segundo duas verten- por ser uma ação cega, gerando ingovernabilidades, em virtude
tes: uma é a do dinheiro das empresas que, responsáveis por u m dos seus efeitos sobre a vida econômica, mas também, sobre a
setor da produção, são, também, agentes financeiros, mobiliza- vida administrativa.
dos em função da sobrevivência e da expansão de cada firma em N o território, a finança global instala-se como a regra das
particular; mas, há, também, a lógica dos governos financeiros regras, u m conjunto de normas que escorre, imperioso, sobre
globais, Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, ban- a totalidade d o edifício social, ignorando as estruturas vigen-
cos travestidos em regionais como o BID. É por intermédio deles tes, para melhor poder contrariá-las, impondo outras estrutu-
que as finanças se dão como inteligência geral. ras. N o lugar, a finança global se exerce pela existência das
Essa inteligência global é exercida pelo que se chamaria de pessoas, das empresas, das instituições, criando perplexidades
contabilidade global, cuja base é u m conjunto de parâmetros e sugerindo interpretações que podem conduzir à ampliação
segundo os quais aqueles governos globais medem, avaliam e da consciência.
102 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 103

Situações regionais para os signatários do Tratado de Schengen —, seria impossível


pensar n u m a moeda única sem a u m e n t a r as diferenças e
A vontade de homogeneização do dinheiro global é contra- desequilíbrios já existentes.
riada pelas resistências locais à sua expansão. Desse m o d o , seu Completando esse pano de fundo, a unificação monetária é
processo tende a ser diferente, segundo os espaços socioeco- considerada u m fator indispensável ao estabelecimento de u m a
nómicos e políticos. economia européia competitiva ao nível global, mediante u m a
Há, também, uma vontade de adaptação às novas condições divisão do trabalho renovada, segundo a qual alguns países vêem
do dinheiro, j á que a fluidez financeira é considerada u m a n e - reforçadas algumas de suas atividades e devem renunciar a o u -
cessidade para ser competitivo e, conseqüentemente, exitoso n o tras, após uma concertação, às vezes longa e penosa, em Bruxe-
m u n d o globalizado. las. N a verdade, porém, essa unificação e equalização intra-eu-
A constituição do Mercado C o m u m Europeu, isto é, da ropéia acaba por ser mais u m episódio de uma guerra, porque
Comunidade Econômica Européia, a instituição da ASEAN e o destinadas a fortalecer a Europa para competir com os outros
pretendido estabelecimento da ALCA obedecem a esse mesmo membros da Tríade e tirar proveito de suas relações assimétricas
princípio, de m o d o a permitir às respectivas economias, mas com o resto do m u n d o .
sobretudo aos Estados líderes e às empresas neles situadas, que O caso latino-americano e brasileiro é diferente. O próprio
possam participar de modo mais agressivo do comércio mundial, Mercosul mantém, por enquanto, uma prática limitada ao co-
buscando — o que lhes parece necessário — a cobiçada mércio, e seu próprio projeto é menos abrangente quanto às
hegemonia. relações sociais, culturais e políticas. N ã o há uma clara preocu-
A Europa é o subcontinente mais avançado n o que toca a pação de buscar u m desenvolvimento homogêneo e as iniciati-
essa questão. E verdade que o processo de unificação européia vas de investimento têm muito mais a ver com o crescimento
se inicia após a Segunda Guerra Mundial e vem realizando eta- d o produto, isto é, com o florescimento de certo n ú m e r o de
pas sucessivas, sendo a última, em data, a constituição do mer- empresas voltadas para o comércio regional, das quais, aliás, al-
cado c o m u m financeiro, do qual a moeda única, o euro, consti- gumas são igualmente inseridas n o comércio mundial. Por o u -
tui o símbolo. As etapas precedentes constituíram u m a espécie tro lado, diferentemente do caso europeu, as moedas nacionais
de preparação para a unificação financeira e incluíram medidas não são propriamente conversíveis, nem comunicáveis direta-
objetivando a fluidez das mercadorias, dos homens, da m ã o - d e - mente entre elas. Sua relação com o m u n d o é pobre, tanto quan-
obra e do próprio território, inclusive nos países menos desen- titativa como qualitativamente, já que são moedas dependentes,
volvidos, de modo a que a Europa como u m todo se pudesse cujo desvalimento aumenta face à globalização, constituindo u m
tornar u m continente igualmente fluido. Sem isso e sem o re- elemento a mais de agravamento de sua própria dependência.
forço da idéia de cidadania—uma cidadania agora multinacional
104 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 105

Efeitos do dinheiro global servir melhor ao dinheiro ou para atender à população? Agora,
tudo está sendo feito para refazer a federação de m o d o a que seja
Esta é uma das razões pelas quais a decisão de participar passi- instrumental às forças financeiras. São o Banco Central e o M i -
vamente da globalização acaba por ser danosa. Quanto melhor é o nistério da Fazenda, e m combinação com as instituições finan-
exercício do modelo, pior é para o país. Essa situação é ainda mais ceiras internacionais, que orientam as grandes reformas ora e m
grave nos países complexos e grandes, na medida em que a vocação curso. Devemos, então, nos preparar para a nova etapa que, aliás,
homogeneizadora do capital global vai ser exercida sobre uma base j á se anuncia — a da reconstrução d o arcabouço político-
formada por parcelas muito diferentes umas das outras e cujas di- territorial do país ao serviço da sociedade, isto é, da população.
ferenças e desigualdades são ampliadas sob tal ação unitária.
O dinheiro regulador e homogeneizador agrava heteroge-
neidades e aprofunda as dependências. É assim que ele contribui
para quebrar a solidariedade nacional, criando ou aumentando as
17. Verticalidades e horizontalidades
fraturas sociais e territoriais e ameaçando a unidade nacional.
O conteúdo do território como u m todo e de cada u m dos
seus compartimentos muda de forma brusca e, também, rapida-
O tema das verticalidades e das horizontalidades já havia sido
mente perde uma parcela maior ou menor de sua identidade, em
tratado por mim no livrou natureza do espaço. Técnica e tempo. Razão
favor de formas de regulação estranhas ao sentido local da vida.
e emoção (1996), sobretudo no capítulo 12. Vamos agora abordá-
E por esse prisma que deveria ser vista a questão da federa-
lo segundo novos ângulos e ambicionando uma visão prospec-
ção e da governabilidade da nação: na medida em que o gover-
tiva, a partir desses dois recortes superpostos e complementares
no da nação se solidariza com os desígnios das forças externas,
d o espaço geográfico atual.
levantam-se problemas cruciais para estados e municípios.
A questão é estrutural e, desse modo, o problema de estados
e municípios é, no fundo, um só; esse problema é constituído pelas
As verticalidades
formas atuais de compartimentação do território e o seu novo
conteúdo, que inclui as formas de ação do dinheiro internacional.
As verticalidades podem ser definidas, n u m território, como
u m conjunto de pontos formando u m espaço de fluxos. A idéia,
Epílogo de certo m o d o , remonta aos escritos de François Perroux
e
(L'économie du XX siècle, 1961), quando ele descreveu o espaço
A questão que se põe como uma espada de Dâmocles sobre econômico. Tal noção foi recentemente reapropriada por M a -
as nossas cabeças é a seguinte: vamos reconstruir a federação para nuel Castells (A sociedade em rede, 1999). Esse espaço de fluxos
106 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 107

seria, na realidade, u m subsistema dentro da totalidade-espaço, dependente e alienadora, já que as decisões essenciais concer-
já que para os efeitos dos respectivos atores o que conta é, so- nentes aos processos locais são estranhas ao lugar e obedecem a
bretudo, esse conjunto de pontos adequados às tarefas produti- motivações distantes.
vas hegemônicas, características das atividades econômicas que Nessas condições, a tendência é a prevalência dos interesses
comandam este período histórico. corporativos sobre os interesses públicos, quanto à evolução d o
O sistema de produção que se serve desse espaço de fluxos é território, da economia e das sociedades locais. D e n t r o desse
constituído por redes — u m sistema reticular —, exigente de flui- quadro, a política das empresas — isto é, sua policy — aspira e
dez e sequioso de velocidade. São os atores do tempo rápido, que consegue, mediante uma governance, tornar-se política; na ver-
plenamente participam do processo, enquanto os demais raramente dade, uma política cega, pois deixa a construção do destino de
tiram todo proveito da fluidez. Tais espaços de fluxos vivem uma uma área entregue aos interesses privatísticos de u m a empresa
solidariedade do tipo organizacional, isto é, as relações que man- que não tem compromissos com a sociedade local.
têm a agregação e a cooperação entre agentes resultam em u m pro- N a situação acima descrita, instalam-se forças centrífugas
cesso de organização, no qual predominam fatores externos às áreas certamente determinantes, com maior ou menor força, do con-
de incidência dos mencionados agentes. Chamemos macroatores j u n t o dos comportamentos. E, em certos casos, quando conse-
àqueles que de fora da área determinam as modalidades internas guem contagiar o todo ou a maioria do corpo produtivo, tais
de ação. E a esses macroatores que, em última análise, cabe direta forças centrífugas são, ao mesmo tempo, determinantes e d o -
ou indiretamente a tarefa de organizar o trabalho de todos os ou- minantes. Tal dominância é também portadora da racionalidade
tros, os quais de uma forma ou de outra dependem da sua regulação. hegemônica e cujo poder de contágio facilita a busca de u m a
O fato de que cada u m deva adaptar comportamentos locais aos unificação e de uma homogeneização.
interesses globais, que estão sempre mudando, leva o processo As frações do território que constituem esse espaço de flu-
organizacional a se dar com descontinuidades, cujo ritmo depende xos constituem o reino do tempo real, subordinando-se a u m
do número e do poder correspondente a cada macroagente. relógio universal, aferido pela temporalidade globalizada das
Por intermédio dos mencionados pontos do espaço de flu- empresas hegemônicas presentes. Desse m o d o ordenado, o es-
xos, as macroempresas acabam por ganhar um papel de regulação paço de fluxos tem vocação a ser ordenador do espaço total, ta-
do conjunto do espaço. Junte-se a esse controle a ação explícita refa que lhe é facilitada pelo fato de a ele ser superposto.
ou dissimulada do Estado, em todos os seus níveis territoriais. O modelo econômico assim estabelecido tende a reproduzir-
Trata-se de uma regulação freqüentemente subordinada porque, se, ainda que mostrando topologias específicas, ligadas à natureza
e m grande n ú m e r o de casos, destinada a favorecer os atores dos produtos, à força das empresas implicadas e à resistência do
hegemônicos. Tomada em consideração determinada área, o es- espaço preexistente. O modelo hegemônico é planejado para ser,
paço de fluxos tem o papel de integração com níveis econômicos em sua ação individual, indiferente a seu entorno. Mas este de
e espaciais mais abrangentes. Tal integração, todavia, é vertical, algum modo se opõe à plenitude dessa hegemonia. Esta, porém,
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 109
108 MILTON SANTOS

é exercida em sua forma limite, pois a empresa se esforça por es- Esse espaço banal, essa extensão continuada, em que os ato-
gotar as virtualidades e perspectivas de sua ação "racional". O ní- res são considerados na sua contiguidade, são espaços que sus-
vel desse limite define a operação respectiva do ponto de vista de tentam e explicam u m conjunto de produções localizadas,
sua rentabilidade, comparada à de outras empresas e de outros interdependentes, dentro de uma área cujas características cons-
lugares. Se considerada insatisfatória, leva à sua migração. tituem, também, u m fator de produção. Todos os agentes são,
As verticalidades são, pois, portadoras de uma ordem impla- de uma forma ou de outra, implicados, e os respectivos tempos,
cável, cuja convocação incessante a segui-la representa u m convi- mais rápidos ou mais vagarosos, são imbricados. E m tais circuns-
te ao estranhamento. Assim, quanto mais "modernizados" e pe- tâncias pode-se dizer que a partir do espaço geográfico cria-se
netrados por essa lógica, mais os espaços respectivos se tornam uma solidariedade orgânica, o conjunto sendo formado pela
alienados. O elenco das condições de realização das verticalidades existência c o m u m dos agentes exercendo-se sobre u m territó-
mostra que, para sua efetivação, ter u m sentido é desnecessário, rio comum. Tais atividades, não importa o nível, devem sua cria-
enquanto a grande força motora seria aquele instinto animal das ção e alimentação às ofertas do meio geográfico local. Tal con-
empresas mencionado, há decênios, por Stephan Hymer e agora j u n t o indissociável evolui e muda, mas tal movimento pode ser
multiplicado e potencializado a partir da globalização. visto como uma continuidade, exatamente em virtude do papel
central que é jogado pelo mencionado meio geográfico local.
As verticalidades realizam de modo indiscutível aquela idéia
de Jean Gottmann ("The evolution of the concept of territory", Nesse espaço banal, a ação atual do Estado, além de suas
Information sur les Sciences Sociales, 1975) segundo a qual o territó- funções igualmente banais, é limitada. N a verdade, mudadas as
rio pode ser visto como u m recurso, justamente a partir d o uso condições políticas, é nesse espaço banal que o poder público
pragmático que o equipamento modernizado de pontos esco- encontraria as melhores condições para sua intervenção. O fato
lhidos assegura. de que o Estado se preocupe sobretudo com o desempenho das
macroempresas, às quais oferece regras de natureza geral que
desconhecem particularidades criadas a partir do m e i o geográ-
As horizontalidades fico, leva à ampliação das verticalidades e, paralelamente, per-
mite o aprofundamento da personalidade das horizontalidades.
As horizontalidades são zonas da contiguidade que formam Nestas, ainda que estejam presentes empresas com diferentes
extensões contínuas. Valemo-nos, outra vez, d o vocabulário de níveis de técnicas, de capital e de organização, o princípio que
François Perroux quando se referiu à existência de u m "espaço permite a sobrevivência de cada uma é o da busca de certa inte-
banal" em oposição ao espaço econômico. O espaço banal seria gração no processo da ação.
o espaço de todos: empresas, instituições, pessoas; o espaço das Trata-se, aqui, da produção local de uma integração solidária,
vivências. obtida mediante solidariedades horizontais internas, cuja natureza
110 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 111

é tanto econômica, social e cultural como propriamente geográ- A busca de um sentido


fica. A sobrevivência do conjunto, não importa que os diversos
agentes tenham interesses diferentes, depende desse exercício da Ao contrário das verticalidades, regidas por u m relógio ú n i -
solidariedade, indispensável ao trabalho e que gera a visibilidade co, implacável, nas horizontalidades assim particularizadas fun-
do interesse comum. Tal ação comum não é obrigatoriamente o cionam, ao mesmo tempo, vários relógios, realizando-se, para-
resultado de pactos explícitos n e m de políticas claramente lelamente, diversas temporalidades.
estabelecidas. A própria existência, adaptando-se a situações cujo Trata-se de u m espaço à vocação solidária, sustento de uma
comando freqüentemente escapa aos respectivos atores, acaba por organização em segundo nível, enquanto sobre ele se exerce uma
exigir de cada qual u m permanente estado de alerta, no sentido vontade permanente de desorganização, ao serviço dos atores
de apreender as mudanças e descobrir as soluções indispensáveis. hegemônicos. Esse processo dialético impede que o poder,
Pode-se dizer que tal situação assegura a permanência de sempre crescente e cada vez mais invasor, dos atores hegemô-
forças centrípetas. Estas, ainda que não sejam determinantes (já nicos, fundados nos espaços de fluxos, seja capaz de eliminar o
que as horizontalidades recebem influxos das verticalidades) são espaço banal, que é permanentemente reconstituído segundo
dominantes. Tais forças centrípetas garantem sua sobrevivência uma nova definição.
pelo fato de que o âmbito de realização dos atores é limitado, Pode-se dizer que, ao contrário da ordem imposta, nos es-
confundindo-se todos n u m espaço geográfico restrito, que é, ao paços de fluxos, pelos atores hegemônicos e da obediência alie-
mesmo tempo, a base de sua atuação. nada dos atores subalternizados, hegemonizados, nos espaços
As horizontalidades, pois, além das racionalidades típicas das banais se recria a idéia e o fato da Política, cujo exercício se tor-
verticalidades que as atravessam, admitem a presença de outras na indispensável, para providenciar os ajustamentos necessários
racionalidades (chamadas de irracionalidades pelos que deseja- ao funcionamento do conjunto, dentro de uma área específica.
riam ver como única a racionalidade hegemônica). N a verdade, Por meio de encontros e desencontros e do exercício do debate
são contra-racionalidades, isto é, formas de convivência e de e dos acordos, busca-se explícita ou tacitamente a readaptação
regulação criadas a partir do próprio território e que se mantêm às novas formas de existência.
nesse território a despeito da vontade de unificação e h o m o - O processo acima descrito é também aquele pelo qual uma
geneização, características da racionalidade hegemônica típica das sociedade e u m território estão sempre à busca de u m sentido e
verticalidades. A presença dessas verticalidades produz tendên- exercem, por isso, uma vida reflexiva. Neste caso, o território
cias à fragmentação, com a constituição de alvéolos representa- não é apenas o lugar de uma ação pragmática e seu exercício
tivos de formas específicas de ser horizontal a partir das respec- comporta, também, u m aporte da vida, uma parcela de emoção,
tivas particularidades. que permite aos valores representar u m papel. O território se
metamorfoseia em algo mais do que u m simples recurso e, para
112 MILTON SANTOS
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 113

utilizar uma expressão, que é também de Jean Gottmann, cons-


Ser cidadão num lugar ^ ^MÜ)/
titui u m abrigo.
N a realidade, a mesma fração do território pode ser recurso e Nas condições atuais, o cidadão do lugar pretende instalar-
abrigo, pode condicionar as ações mais pragmáticas e, ao mesmo se também como cidadão do m u n d o . A verdade, porém, é que
tempo, permitir vocações generosas. Os dois movimentos são o "mundo" não tem como regular os lugares. E m conseqüên-
concomitantes. Nas condições atuais, o movimento determinante, cia, a expressão cidadão do m u n d o torna-se u m voto, uma p r o -
com tendência a uma difusão avassaladora, é o da criação da or- messa, uma possibilidade distante. C o m o os atores globais efica-
dem da racionalidade pragmática, enquanto a produção do espa- zes são, em última análise, a n t i - h o m e m e anticidadão, a
ço banal é residual. Pode-se, todavia, imaginar outro cenário, no possibilidade de existência de u m cidadão do m u n d o é condicio-
qual o comportamento do espaço de fluxos seja subordinado não nada pelas realidades nacionais. N a verdade, o cidadão só o é
como agora à realização do dinheiro e encontre u m freio a essa (ou não o é) como cidadão de u m país.
forma de manifestação, tomando-se subordinado à realização ple-
Ser "cidadão de u m país", sobretudo quando o território é ex-
na da vida, de modo que os espaços banais aumentem sua capaci-
tenso e a sociedade muito desigual, pode constituir, apenas, uma
dade de servir à plenitude do homem.
perspectiva de cidadania integral, a ser alcançada nas escalas sub-
nacionais, a começar pelo nível local. Esse é o caso brasileiro, em
que a realização da cidadania reclama, nas condições atuais, uma
revalorização dos lugares e uma adequação de seu estatuto político.
18. A esquizofrenia do espaço
A multiplicidade de situações regionais e municipais, trazida
com a globalização, instala uma enorme variedade de quadros
de vida, cuja realidade preside o cotidiano das pessoas e deve ser
C o m o sabemos, o mundo, como u m conjunto de essências
a base para uma vida civilizada em comum. Assim, a possibili-
e de possibilidades, não existe para ele próprio, e apenas o faz
dade de cidadania plena das pessoas depende de soluções a se-
para os outros. É o espaço, isto é, os lugares, que realizam e re-
rem buscadas localmente, desde que, dentro da nação, seja insti-
velam o mundo, tornando-o historicizado e geografizado, isto
tuída u m a federação de lugares, u m a nova estruturação
é, empiricizado.
político-territorial, com a indispensável redistribuição de recur-
O s lugares são, pois, o m u n d o , que eles r e p r o d u z e m de sos, prerrogativas e obrigações. A partir do país como federação
modos específicos, individuais, diversos. Eles são singulares, mas de lugares será possível, n u m segundo momento, construir u m
são também globais, manifestações da totalidade-mundo, da qual m u n d o como federação de países.
são formas particulares.] ^
Trata-se, em ambas as etapas, de uma construção de baixo
para cima cujo ponto central é a existência de individualidades
114 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 115

fortes e das garantias jurídicas correspondentes. A base geográ- heterogêneo, isto é, deixando coexistirem outras racionalidades,
fica dessa construção será o lugar, considerado como espaço de isto é, contra-racionalidades, a que, equivocadamente e do p o n -
exercício da existência plena. Estamos, porém, muito longe da to de vista da racionalidade dominante, se chamam "irracio-
realização desse ideal. C o m o , então, poderemos alcançá-lo? nalidades". Mas a conformidade com a Razão Hegemônica é
limitada, enquanto a produção plural de "irracionalidades" é ili-
mitada. É somente a partir de tais irracionalidades que é possí-
O cotidiano e o território vel a ampliação da consciência.
Se este é u m dado geral, ele se dá com variações segundo as
O território tanto quanto o lugar são esquizofrênicos, porque coletividades e os subespaços. Vejam-se, por exemplo, as dife-
de u m lado acolhem os vetores da globalização, que neles se insta- renças, hoje, entre campo e cidade. N o campo, as racionalidades
lam para impor sua nova ordem, e, de outro lado, neles se produz da globalização se difundem mais extensivamente e mais rapi-
uma contra-ordem, porque há uma produção acelerada de pobres, damente. N a cidade, as irracionalidades se criam mais n u m e r o -
excluídos, marginalizados. Crescentemente reunidas em cidades sa e incessantemente que as racionalidades, sobretudo quando
cada vez mais numerosas e maiores, e experimentando a situação há, paralelamente, produção de pobreza.
de vizinhança (que, segundo Sartre, é reveladora), essas pessoas É este o fundamento da esquizofrenia do lugar. Tal esquizo-
não se subordinam de forma permanente à racionalidade frenia se resolve a partir do fato de que cada pessoa, grupo, fir-
hegemônica e, por isso, com freqüência podem se entregar a ma, instituição realiza o m u n d o à sua maneira. A pessoa, o gru-
manifestações que são a contraface do pragmatismo. Assim, j u n t o po, a firma, a instituição constituem o de dentro do lugar, com o
à busca da sobrevivência, vemos produzir-se, na base da sociedade, qual se comunicam sobretudo pela mediação da técnica e da
u m pragmatismo mesclado com a emoção, a partir dos lugares e produção propriamente dita, enquanto o m u n d o se dá para a
das pessoas juntos. Esse é, também, u m modo de insurreição em pessoa, grupo, firma, instituição como o defora do lugar e por in-
relação à globalização, com a descoberta de que, a despeito de ser- termédio de uma mediação política. A mediação técnica e a pro-
mos o que somos, podemos também desejar ser outra coisa. dução correspondente, local e diretamente experimentadas,
Nisso, o papel do lugar é determinante. Ele não é apenas u m podem não ser inteiramente compreendidas, mas são vividas
quadro de vida, mas u m espaço vivido, isto é, de experiência como u m dado imediato, enquanto a mediação política, fre-
sempre renovada, o que permite, ao mesmo tempo, a reavaliação qüentemente exercida de longe e cujos objetivos nem sempre
das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro. A exis- são evidentes, exige uma interpretação mais filosófica.
tência naquele espaço exerce u m papel revelador sobre o m u n d o . U m a filosofia banal começa por se instalar no espírito das
Globais, os lugares ganham u m quinhão (maior ou menor) pessoas com a descoberta, autorizada pelo cotidiano, da não-
da "racionalidade" do "mundo". Mas esta se propaga de m o d o autonomia das ações e dos seus resultados. Este é u m dado
116 MILTON SANTOS

c o m u m a todas as pessoas, não importa a diferença de suas situa-


ções. Mas outra coisa é ultrapassar a descoberta da diferença e
chegar à sua consciência.

Uma pedagogia da existência


V
Isso, todavia, não é tudo. A consciência da diferença pode
conduzir simplesmente à defesa individualista do próprio inte- L I M I T E S À GLOBALIZAÇÃO PERVERSA

resse, sem alcançar a defesa de u m sistema alternativo de idéias e


de vida. D e u m ponto de vista das idéias, a questão central reside
no encontro do caminho que vai do imediatismo às visões fina- Introdução
lísticas; e de u m ponto de vista da ação, o problema é ultrapassar
as soluções imediatistas (por exemplo, eleitoralismos interessei-
ros e apenas provisoriamente eficazes) e alcançar a busca política A análise do fenômeno da globalização ficaria incompleta se,
genuína e constitucional de remédios estruturais e duradouros. após reconhecer os fatores que possibilitaram sua emergência,
Nesse processo, afirma-se, também, segundo novos moldes, apenas nos detivéssemos na apreciação dos seus aspectos atual-
a antiga oposição entre o m u n d o e o lugar. A informação m u n - mente dominantes, de que resultam tantos inconvenientes para
dializada permite a visão, mesmo em jlashes, de ocorrências dis- a maior parte da humanidade.
tantes. O conhecimento de outros lugares, mesmo superficial e Cabe, agora, verificar os limites dessa evolução e reconhe-
incompleto, aguça a curiosidade. Ele é certamente u m subproduto cer a emergência de certo número de sinais indicativos de que
de uma informação geral enviesada, mas, se for ajudado por u m outros processos paralelamente se levantam, autorizando pen-
conhecimento sistêmico do acontecer global, autoriza a visão da sar que vivemos uma verdadeira fase de transição para u m novo
história como uma situação e u m processo, ambos críticos. D e - período.
pois, o problema crucial é: como passar de uma situação crítica a E m primeiro lugar, o denso sistema ideológico que envolve
uma visão crítica—e, em seguida, alcançar uma tomada de cons- e sustenta as ações determinantes parece não resistir à evidência
ciência. Para isso, é fundamental viver a própria existência como dos fatos. A velocidade não é u m bem que permita uma distri-
algo de unitário e verdadeiro, mas também como u m paradoxo: buição generalizada, e as disparidades no seu uso garantem a
obedecer para subsistir e resistir para poder pensar o futuro. E n - exacerbação das desigualdades. Ávida cotidiana também revela
tão a existência é produtora de sua própria pedagogia. a impossibilidade de fruição das vantagens do chamado tempo
118 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 119

real para a maioria da humanidade. A promessa de que as técni- variáveis que perdem vigor, verdadeiras variáveis descendentes,
cas contemporâneas pudessem melhorar a existência de todos e outras que passam a se impor. São as variáveis ascendentes
caem por terra e o que se observa é a expansão acelerada do rei- que revelam a produção de u m novo período, isto é, apontam
n o da escassez, atingindo as classes médias e criando mais pobres. para o futuro.
As populações envolvidas n o processo de exclusão assim O m o m e n t o atual da história do m u n d o parece indicar a
fortalecido acabam por relacionar suas carências e vicissitudes emergência de numerosas variáveis ascendentes cuja existência
ao conjunto de novidades que as atingem. U m a tomada de cons- é sistêmica. Isso, exatamente, permite pensar que se estão p r o -
ciência torna-se possível ali mesmo onde o fenômeno da escas- duzindo as condições de realização de u m a nova história.
sez é mais sensível. Por isso, a compreensão do que se está pas- Por enquanto, renunciamos, aqui, a fornecer uma lista exaus-
sando chega com clareza crescente aos pobres e aos países pobres, tiva dos fenômenos, mas não a apontar alguns fatos que nos
cada vez mais numerosos e carentes. Daí o repúdio às idéias e às parecem bem característicos das mudanças em curso. U m deles
práticas políticas que fundamentam o processo socioeconómico é o crescente desencanto com as técnicas, acompanhado por uma
atual e a demanda, cada vez mais pressurosa, de novas soluções. gradativa recuperação do b o m senso, em oposição ao senso co-
Estas não mais seriam centradas no dinheiro, como na atual fase m u m , isto é, em oposição à pretensa racionalidade sugerida tanto
da globalização, para encontrar no próprio h o m e m a base e o pelas técnicas em si mesmas como pela política do seu uso. O u t r o
motor da construção de u m novo mundo. dado significativo se levanta com a impossibilidade relativamente
crescente de acesso a essas técnicas, em virtude do aumento da
pobreza e m todos os continentes. Junte-se a esse dado o fato de
que, apesar da capacidade invasora das técnicas hegemônicas, so-
19. A variável ascendente brevivem e criam-se novas técnicas não hegemônicas. Pode-se
arriscar u m vaticínio e reconhecer, no conjunto do processo, o
anúncio de u m novo período histórico, substituto do atual pe-
O s fenômenos a que muitos chamam de globalização e o u - ríodo. Estaríamos na aurora de uma nova era, em que a popula-
tros de pós-modernidade (Renato Ortiz, Mundialização e cultu- ção, isto é, as pessoas constituiriam sua principal preocupação,
ra, 1994) na verdade constituem, juntos, u m m o m e n t o bem d e - u m verdadeiro período popular da história, já entremostrado
marcado do processo histórico. Preferimos considerá-lo u m pelas fragmentações e particularizações sensíveis em toda parte
período. C o m o em qualquer outro período histórico, funcio- devidas à cultura e ao território.
nam de forma concertada diversas variáveis cuja visão sistêmica
é indispensável para entender o que se está realizando. Tam-
b é m como em todo período, a partir de certo m o m e n t o há
120 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 121

20. Os limites da racionalidade dominante racionalidades paralelas corriqueiramente chamadas d e


irracionalidades, mas que na realidade constituem outras formas
de racionalidade. Estas são produzidas e mantidas pelos que es-
O Projeto Racional começa a mostrar suas limitações talvez tão "embaixo", sobretudo os pobres, que desse modo conseguem
p o r q u e estejamos atingindo aquele paroxismo previsto por escapar ao totalitarismo da racionalidade dominante. Recorde-
Weber (Economía y sociedad, 1922) para realizar-se quando o p r o - mos o ensinamento de Sartre, para quem a escassez é que torna
cesso de expansão da racionalidade capitalista se tornasse ilimi- a história possível, graças à "unidade negativa da multiplicidade
tado. Tudo indica que estamos atingindo essa fronteira, agora concreta dos homens"^/
que, nos diversos níveis da vida econômica, social, individual, Tal situação é objetivamente esperançosa porque agora as-
vivemos uma racionalidade totalitária que vem acompanhada de sistimos ao fim das expectativas nutridas no após-guerra e, ao
uma perda da razão. O deboche de carências e de escassez que contrário, testemunhamos a ampliação do n ú m e r o de pobres,
atinge uma parcela cada vez maior da sociedade humana permi- assim como o estreitamento das possibilidades e das certezas que
te reconhecer a realidade dessa perdição. as classes médias acalentavam até a década de 1980. O u t r o dado
U m a boa parcela da humanidade, por desinteresse ou inca- objetivo é o fato de que a realização cada vez mais densa do p r o -
pacidade, não é mais capaz de obedecer a leis, normas, regras, man- cesso de globalização enseja o caldeamento, ainda que elemen-
damentos, costumes derivados dessa racionalidade hegemônica. tar, das filosofias produzidas nos diversos continentes, em de-
Daí a proliferação de "ilegais", "irregulares", "informais". trimento do racionalismo europeu, que é o bisavô das idéias de
Essa incapacidade mistura, no processo de vida, práticas e racionalismo tecnocrático hoje dominantes.
teorias herdadas e inovadas, religiões tradicionais e novas con-
vicções. E nesse caldo de cultura que numerosas frações da so-
ciedade passam da situação anterior de conformidade associada
ao conformismo a uma etapa superior da produção da consciên- 2 1 . O imaginário da velocidade
cia, isto é, a conformidade sem o conformismo. Produz-se des-
sa maneira a redescoberta pelos homens da verdadeira razão e
não é espantoso que tal descobrimento se dê exatamente nos N a família dos imaginários da globalização e das técnicas,
espaços sociais, econômicos e geográficos também "não confor- encontra-se a idéia, difundida com exuberância, de que a veloci-
mes" à racionalidade dominante. dade constitui u m dado irreversível na produção da história,
N a esfera da racionalidade hegemônica, pequena margem é sobretudo ao alcançar os paroxismos dos tempos atuais. N a ver-
deixada para a variedade, a criatividade, a espontaneidade. E n - dade, porém, somente algumas pessoas, firmas e instituições são
quanto isso, surgem, nas outras esferas, contra-racionalidades e altamente velozes, e são ainda em menor número as que utilizam
122 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 123

todas as virtualidades técnicas das máquinas. N a verdade, o res- do século XLX ao terceiro do século XX. Os impérios, e m sua
to da humanidade produz, circula e vive de outra maneira. Gra- qualidade de grandes conjuntos políticos e territoriais, viviam e
ças à impostura ideológica, o fato da minoria acaba sendo repre- evoluíam segundo idades técnicas diversas, utilizando, cada qual,
sentativo da totalidade, graças exatamente à força do imaginário. dentro dos seus domínios, conjuntos de avanços técnicos dis-
Essa transformação de uma fluidez potencial numa fluidez paratados e que mostravam níveis diferentes. O império britâ-
efetiva, por meio da velocidade exacerbada, todavia não tem e nico estava à frente dos demais quanto à posse de recursos téc-
nem busca u m sentido. Sem dúvida, ela serve ao exercício de nicos avançados. Mas isso não impedia sua convivência com
uma competitividade desabrida, mas esta é uma coisa que nin- outros impérios. Dentro de cada u m , o uso do conjunto dos
guém sabe para o que realmente serve. recursos técnicos era comandado por u m conjunto de normas
relacionadas ao comércio, à produção e ao consumo, o que per-
mitia a cada bloco uma evolução própria, não perturbada pela
Velocidade: técnica e poder existência em outros impérios de avanços técnicos mais signifi-
cativos. N o fundo, a política comercial aplicada dentro de cada
Pode-se dizer que a velocidade assim utilizada é duplamen- império assegurava a política do conjunto do m u n d o ocidental
te u m dado da política e não da técnica. D e u m lado, trata-se de (M. Santos,/! natureza do espaço, 1996, pp. 36-37 e pp. 152-153).
uma escolha relacionada com o poder dos agentes e, de outro, O exemplo mostra não ser certo que haja u m imperativo técni-
da legitimação dessa escolha, por meio da justificação de u m co. O imperativo é político. Desse modo, não há uma inelu-
modelo de civilização. É nesse sentido que estamos afirmando tabilidade face aos sistemas técnicos, n e m muito menos u m
tratar-se mais de u m dado da política que, propriamente, da téc- determinismo. Aliás, a técnica somente é u m absoluto enquan-
nica, já que esta poderia ser usada diferentemente em função do to irrealizada. Assim, existindo apenas na vitrine, mas historica-
conjunto de escolhas sociais. D e fato, o uso extremo da veloci- mente inexistente, equivaleria a uma abstração. Q u a n d o nos
dade acaba por ser o imperativo das empresas hegemônicas e não referimos à historicização e à geografização das técnicas, estamos
das demais, para as quais o sentido de urgência não é uma cons- cuidando de entender o seu uso pelo homem, sua qualidade de
tante. Mas é a partir desse e de outros comportamentos que a intermediário da ação, isto é, sua relativização.
política das empresas arrasta a política dos Estados e das insti- N o período da globalização, o mercado externo, com suas
tuições supranacionais. exigências de competitividade, obriga a aumentar a velocida-
N o passado, a ordem mundial se construía mediante u m a de. Mas a população em seus diferentes níveis, os pobres e os
combinação política que conduzia à não-obediência aos dita- que vivem longe dos grandes mercados obrigam a combina-
mes da técnica mais moderna. Pensemos, por exemplo, n o sé- ções de formas e níveis de capitalismo. É o mercado interno
culo do imperialismo, nos cem anos que vão do quarto quartel que freia a vontade de velocidade de que já falava M . Sorre
124 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 125

(Annales degéographie, 1948), porque todos os atores dele parti- interessa à maioria da humanidade. Para quê, de fato, serve esse
cipam. Todavia, os dois mercados são i n t e r c o r r e n t e s , relógio despótico do m u n d o atual? As crises atuais são, em últi-
interdependentes. Invadindo a economia e o território com ma análise, uma resultante da aceleração contemporânea, m e -
grande velocidade, o circuito superior busca destruir as for- diante o uso privilegiado, por alguns atores econômicos, das
mas preexistentes. Mas o território resiste, sobretudo na gran- possibilidades atuais de fluidez. C o m o tal exercício não respon-
de cidade, graças, entre outras coisas, à m e n o r fricção da dis- de a u m objetivo moral e, desse modo, é desprovido de sentido,
tância. As pequenas e médias empresas locais t ê m mais acesso o resultado é a instalação de situações em que o movimento
potencial que, por exemplo, u m a grande empresa de Manaus, encontra justificativa em si mesmo — como é o caso do merca-
pois p o d e m alcançar u m a parte significativa da cidade (por do de capitais especulativos —, tal autonomia sendo u m a das
exemplo, os supermercados menores). Contribuirá t a m b é m razões da desordem característica do período atual.
para esse maior acesso potencial o fato de estarem n u m meio Q u a n d o aceitamos pensar a técnica em conjunto com a p o -
que é u m tecido e u m emaranhado de normas concernentes, o lítica e admitimos atribuir-lhe outro uso, ficamos convencidos
q u e torna essas empresas menos dependentes de u m a única de que é possível acreditar em uma outra globalização e em u m
norma para subsistir. Mas, com a globalização e seu imaginá- outro m u n d o . O problema central é o de retomar o curso da
rio c o m u m ao da técnica hegemônica, uma e outra são dadas história, isto é, recolocar o h o m e m no seu lugar central.
como indispensáveis à participação plena no processo histórico. Tal preocupação de mudança inclui uma revisão do signifi-
cado das palavras-chave do nosso período, todas contaminadas
pelo respectivo sistema ideológico. Fiquemos com a questão da
D o relógio despótico às temporalidades divergentes velocidade, que pode ser vista como u m paradigma da época, mas
também como o que ela representa de emblemático. N a verdade,
E fato, também, que, com a interdependência globalizada dos seja qual for o corpo social, a velocidade hegemônica constitui
lugares e a planetarização dos sistemas técnicos dominantes, estes uma das suas características, mas a definição da realidade somente
parecem se impor como invasores, servindo como parâmetro na pode ser obtida considerando-se as diversas velocidades em pre-
avaliação da eficácia de outros lugares e de outros sistemas téc- sença. E, seja como for, a eticácia da velocidade não provém da
nicos. É nesse sentido que o sistema técnico hegemônico apare- técnica subjacente. A eficácia da velocidade hegemônica é de
ce como algo absolutamente indispensável e a velocidade resul- natureza política e depende do sistema socioeconómico político
tante como u m dado desejável a todos que pretendem participar, em ação. Pode-se dizer que, em uma dada situação, tal velocida-
de pleno direito, da modernidade atual. Todavia, a velocidade de hegemônica é uma velocidade imposta ideologicamente.
atual e tudo que vem com ela, e que dela decorre, não é inelutá- C o m o em tudo mais, a interpretação da história não pode
vel n e m imprescindível. N a verdade, ela não beneficia n e m ser deixada ao entendimento imediato do fenômeno técnico
124 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 125

(Annales degéographie, 1948), porque todos os atores dele parti- interessa à maioria da humanidade. Para quê, de fato, serve esse
cipam. Todavia, os dois mercados são i n t e r c o r r e n t e s , relógio despótico do m u n d o atual? As crises atuais são, em últi-
interdependentes. Invadindo a economia e o território com ma análise, uma resultante da aceleração contemporânea, m e -
grande velocidade, o circuito superior busca destruir as for- diante o uso privilegiado, por alguns atores econômicos, das
mas preexistentes. Mas o território resiste, sobretudo na gran- possibilidades atuais de fluidez. C o m o tal exercício não respon-
de cidade, graças, entre outras coisas, à m e n o r fricção da dis- de a u m objetivo moral e, desse modo, é desprovido de sentido,
tância. As pequenas e médias empresas locais t ê m mais acesso o resultado é a instalação de situações e m que o movimento
potencial que, por exemplo, u m a grande empresa de Manaus, encontra justificativa em si mesmo — como é o caso do merca-
pois p o d e m alcançar u m a parte significativa da cidade (por do de capitais especulativos —, tal autonomia sendo uma das
exemplo, os supermercados menores). Contribuirá t a m b é m razões da desordem característica do período atual.
para esse maior acesso potencial o fato de estarem n u m meio Q u a n d o aceitamos pensar a técnica em conjunto com a p o -
que é u m tecido e u m emaranhado de normas concernentes, o lítica e admitimos atribuir-lhe outro uso, ficamos convencidos
que torna essas empresas menos dependentes de u m a única de que é possível acreditar em uma outra globalização e em u m
norma para subsistir. Mas, com a globalização e seu imaginá- outro m u n d o . O problema central é o de retomar o curso da
rio c o m u m ao da técnica hegemônica, u m a e outra são dadas história, isto é, recolocar o h o m e m no seu lugar central.
como indispensáveis à participação plena no processo histórico. Tal preocupação de mudança inclui uma revisão do signifi-
cado das palavras-chave do nosso período, todas contaminadas
pelo respectivo sistema ideológico. Fiquemos com a questão da
D o relógio despótico às temporalidades divergentes velocidade, que pode ser vista como u m paradigma da época, mas
também como o que ela representa de emblemático. N a verdade,
É fato, também, que, com a interdependência globalizada dos seja qual for o corpo social, a velocidade hegemônica constitui
lugares e a planetarização dos sistemas técnicos dominantes, estes uma das suas características, mas a definição da realidade somente
parecem se impor como invasores, servindo como parâmetro na pode ser obtida considerando-se as diversas velocidades em pre-
avaliação da eficácia de outros lugares e de outros sistemas téc- sença. E, seja como for, a eticácia da velocidade não provém da
nicos. É nesse sentido que o sistema técnico hegemônico apare- técnica subjacente. A eficácia da velocidade hegemônica é de
ce como algo absolutamente indispensável e a velocidade resul- natureza política e depende do sistema socioeconómico político
tante como u m dado desejável a todos que pretendem participar, em ação. Pode-se dizer que, em uma dada situação, tal velocida-
de pleno direito, da modernidade atual. Todavia, a velocidade de hegemônica é uma velocidade imposta ideologicamente.
atual e tudo que vem com ela, e que dela decorre, não é inelutá- C o m o em tudo mais, a interpretação da história não pode
vel n e m imprescindível. N a verdade, ela não beneficia n e m ser deixada ao entendimento imediato do fenômeno técnico
126 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 127

exigindo entendei como, nessa mesma situação, se relacionam aliás, tão diversas quanto as áreas consideradas, já que abrigam
a técnica e a política, atribuindo a esta o papel central no enten- todas as modalidades de existência.
dimento das ações que conformam o presente atual e que p o - O funcionamento dos espaços hegemônicos supõe u m a d e -
dem tornar possível u m outro futuro. manda desesperada de regras; quando as circunstâncias m u d a m
e, por isso, as normas reguladoras têm de mudar, n e m por isso
sua demanda deixa de ser desesperada. Tal regulação obedece à
consideração de interesses privatísticos. Já o cotidiano supõe uma
22. J u s t - i n - t i m e versus o cotidiano demanda desesperada de Política, resultado da consideração
conjunta de múltiplos interesses.
N o caso das atividades just-in-time, uma só temporalidade é
O tema das verticalidades e das horizontalidades pode com- considerada: é a fórmula de sobrevivência n o m u n d o da
portar numerosas reinterpretações. U m a delas, refletindo o jogo competitividade à escala planetária. C o m o dado motor, uma só
contraditório entre essas categorias, é a verdadeira oposição exis- existência, a dos agentes hegemônicos, é, ao mesmo tempo, ori-
tente entre a natureza das atividades just-in-time, que trabalham gem e finalidade das ações. A vida cotidiana abrange várias
com u m relógio universal movido pela mais-valia universal, e a temporalidades simultaneamente presentes, o que permite con-
realidade das atividades que, juntas, constituem a vida cotidiana. siderar, paralela e solidariamente, a existência de cada u m e de
N o primeiro caso trata-se da vocação para uma racionalidade todos, como, ao mesmo tempo, sua origem e finalidade.
única, reitora de todas as outras, desejosa de homogeneização e O conjunto das condições acima enunciadas permite dizer
de unificação, pretendendo sempre tomar o lugar das demais, q u e o m u n d o do t e m p o real busca u m a homogeneização
uma racionalidade única, mas racionalidade sem razão, que trans- empobrecedora e limitada, enquanto o universo do cotidiano é
forma a existência daqueles a quem subordina numa perspecti- o m u n d o da heterogeneidade criadora.
va de alienação. Já no cotidiano, a razão, isto é, a razão de viver,
é buscada por meio do que, face a essa racionalidade hegemônica,
é considerado como "irracionalidade", quando na realidade o que
se dá são outras formas de ser racional. 2 3 . Um emaranhado de técnicas: o reino do artifício
O mundo do tempo real, dojust-in-time, é aquele subsistema e da escassez
da realidade total que busca sua lógica nessa mencionada
«racionalidade única, cuja criação é, todavia, limitada, atributo de
u m pequeno número de agentes. O mundo do cotidiano é tam- Sabemos já que as técnicas presentes em uma dada situação
bém o da produção ilimitada de outras racionalidades, que são, não são homogêneas. Enquanto as técnicas hegemônicas se dão
128 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 129

e m redes, além delas outras técnicas se impõem. Mas, em uma A situação contemporânea revela, entre outras coisas, três
dada situação, todas as técnicas presentes acabam p o r ser tendências: 1. uma produção acelerada e artificial de necessida-
inextricáveis. Tal solidariedade não é, propriamente, entre as des; 2. uma incorporação limitada de modos de vida ditos racio-
técnicas, mas o fruto da vida solidária da sociedade. nais; 3. uma produção ilimitada de carência e escassez.
Nessa situação, as técnicas, a velocidade, a potência criam
desigualdades e, paralelamente, necessidades, porque não há
D o artifício à escassez satisfação para todos. N ã o é que a produção necessária seja glo-
balmente impossível. Mas o que é produzido — necessária ou
Hoje, tanto os objetos quanto as ações derivam da técnica. desnecessariamente — é desigualmente distribuído/ Daí a sen-
As técnicas estão, pois, em toda parte: na produção, na circu- sação e, depois, a consciência da escassez: aquilo que falta a mim,
lação, n o território, na política, na cultura. Elas estão também mas que o outro mais bem situado na sociedade possui. A idéia
— e permanentemente — no corpo e no espírito do h o m e m . vem de Sartre, quando registra que "não há bastante para todo o
Vivemos todos n u m emaranhado de técnicas, o que em outras mundo". Por isso o outro consome e não eu. O homem, cada
palavras significa que estamos todos mergulhados n o reino do homem, é afinal definido pela soma dos possíveis que lhe ca-
artifício. N a medida em que as técnicas hegemônicas, funda- bem, mas também pela soma dos seus impossíveis.
das na ciência e obedientes aos imperativos do mercado, são O reino da necessidade existe para todos, mas segundo for-
hoje extremamente dotadas de intencionalidade, há igualmente mas diferentes, as quais simplificamos mediante duas situações-
tendência à hegemonia de uma produção "racional" de coisas tipo: para os "possuidores", para os "não possuidores".
e de necessidades; e desse m o d o uma produção excludente de Quanto aos "possuidores", torna-se viável, mediante possibi-
outras produções, com a multiplicação de objetos técnicos es- lidades reais ou artifícios renovados, a fuga à escassez e a supera-
tritamente programados que abrem espaço para essa orgia de ção ainda que provisória da escassez. C o m o o processo de criação
coisas e necessidades que impõem relações e nos governam. de necessidades é infinito, impõe-se uma readaptação perma-
Cria-se u m verdadeiro totalitarismo tendencial da raciona- nente. Cria-se u m círculo vicioso com a rotina da falta e da sa-
lidade — isto é, dessa racionalidade hegemônica, dominante tisfação. N a realidade, para essa parcela da sociedade a falta já é
— , produzindo-se a partir do respectivo sistema certas coisas, criada como a expectativa e a perspectiva de satisfação. As nego-
serviços, relações e idéias. Esta, aliás, é a base primeira da p r o - ciações para regressar ao status de consumidor satisfeito condu-
dução de carências e de escassez, já que uma parcela conside- zem à repetição de experiências exitosas. Desse modo, a parcela
rável da sociedade não pode ter acesso às coisas, serviços, rela- de consumidores contumazes obtém uma convivência relativa-
ções, idéias que se multiplicam na base da racionalidade mente pacífica com a escassez. Mas a busca permanente de bens
hegemônica. finitos e por isso condenados ao esgotamento (e à substituição
130 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 131

por outros bens finitos) condena os aparentemente vitoriosos à nos é mostrado para provocar o apetite. A noção de escassez se
aceitação da contrafinalidade contida nas coisas e em conseqüên- materializa, se aguça e se reaprende cotidianamente, assim como,
cia ao enfraquecimento da individualidade. já agora, a certeza de que cada dia é dia de uma nova escassez. A
Quanto aos "não-possuidores" sua convivência com a escas- sociedade atual vai dessa maneira, mediante o mercado e a p u -
sez é conflituosa e até pode ser guerreira. Para eles, viver na es- blicidade, criando desejos insatisfeitos, mas também reclaman-
fera do consumo é como querer subir uma escada rolante no do explicações. Dir-se-ia que tal movimento se repete, enrique-
sentido da descida. Cada dia acaba oferecendo uma nova expe- cendo o movimento intelectual.
riência da escassez. Por isso não há lugar para o repouso e a p r ó - A escassez de u m pode se parecer à escassez do outro e a
pria vida acaba por ser u m verdadeiro campo de batalha. N a briga escassez de hoje à escassez de ontem, mas quando não é satisfei-
cotidiana pela sobrevivência, não há negociação possível para eles, ta ela acaba por se impor como diferente da de ontem e da do
e, individualmente, não há força de negociação. A sobrevivên- outro. Alteridade e individualidade se reforçam com a renova-
cia só é assegurada porque as experiências imperativamente se ção da novidade. Quanto mais diferentes são os que convivem
renovam. E como a surpresa se dá como rotina, a riqueza dos n u m espaço limitado, mais idéias do m u n d o aí estarão para ser
"não-possuidores" é a prontidão dos sentidos. É com essa força levantadas, cotejadas e, desse modo, tanto mais rico será o d e -
que eles se eximem da contrafinalidade e ao lado da busca de bate silencioso ou ruidoso que entre as pessoas se estabelece.
bens materiais finitos cultivam a procura de bens infinitos como Nesse sentido, pode-se dizer que a cidade é u m lugar privilegiado
a solidariedade e a liberdade: estes, quanto mais se distribuem, para essa revelação e que, nessa fase da globalização, a acelera-
mais aumentam. ção contemporânea é também aceleração na produção da escas-
sez e na descoberta da sua realidade, já que, multiplicando e
apressando os contatos, exibe a multiplicidade de formas de es-
Da escassez ao entendimento cassez contemporânea, as quais vão mudando mais rapidamen-
te para se tornarem mais numerosas e mais diversas. Para os
A experiência da escassez é a ponte entre o cotidiano vivido pobres, a escassez é u m dado permanente da existência, mas
e o mundo. Por isso, constitui u m instrumento primordial na como sua presença na vida de todos os dias é o resultado de uma
percepção da situação de cada u m e uma possibilidade de co- metamorfose também permanente, o trabalho acaba por ser, para
nhecimento e de tomada de consciência. eles, o lugar de uma descoberta cotidiana e de u m combate co-
O nosso tempo consagra a multiplicação das fontes de es- tidiano, mas também uma ponte entre a necessidade e o enten-
cassez, seja pelo número avassalador dos objetos presentes no dimento (M. Santos.Joraa/ do Brasil, 06.04.1997).
mercado, seja pelo chamado incessante ao consumo. Cada dia,
nessa época de globalização, apresenta-se u m objeto novo, que
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 133
132 MILTON SANTOS

24. Papel dos pobres na produção do presente e do futuro a partir das suas visões do m u n d o e dos lugares. Trata-se de u m a
política de novo tipo, que nada t e m a ver c o m a política
institucional. Esta última se funda na ideologia do crescimento,
O exame do papel atual dos pobres na produção do presen- da globalização etc. e é conduzida pelo cálculo dos partidos e
te e do futuro exige, em primeiro lugar, distinguir entre pobre- das empresas. A política dos pobres é baseada no cotidiano vivi-
za e miséria. A miséria acaba por ser a privação total, com o ani- do por todos, pobres e não pobres, e é alimentada pela simples
quilamento, ou quase, da pessoa. A pobreza é uma situação de necessidade de continuar existindo. N o s lugares, uma e outra
carência, mas também de luta, u m estado vivo, de vida ativa, em se encontram e confundem, daí a presença simultânea de c o m -
que a tomada de consciência é possível. portamentos contraditórios, alimentados pela ideologia d o con-
sumo. Este, ao serviço das forças socioeconómicas hegemônicas,
Miseráveis são os que se confessam derrotados. Mas os p o -
também se entranha na vida dos pobres, suscitando neles expec-
bres não se entregam. Eles descobrem cada dia formas inéditas
tativas e desejos que não podem contentar.
de trabalho e de luta. Assim, eles enfrentam e buscam remédio
para suas dificuldades. Nessa condição de alerta permanente, não N u m m u n d o tão complexo, pode escapar aos pobres o e n -
têm repouso intelectual. A memória seria sua inimiga. A herança tendimento sistêmico do sistema do m u n d o . Este lhes aparece
do passado é temperada pelo sentimento de urgência, essa cons- nebuloso, constituído por causas próximas e remotas, por m o -
ciência do novo que é, também, u m motor do conhecimento. tivações concretas e abstratas, pela confusão entre os discursos e
A socialidade urbana pode escapar aos seus intérpretes, nas as situações, entre a explicação das coisas e a sua propaganda.
faculdades; ou aos seus vigias, nas delegacias de polícia. Mas não Mas há também a desilusão das demandas não satisfeitas, o
aos atores ativos do drama, sobretudo quando, para prosseguir exemplo d o vizinho que prospera, o cotidiano contraditório.
vivendo, são obrigados a lutar todos os dias. Haverá q u e m des- Talvez por aí chegue o despertar. N u m primeiro momento, este
creva o quadro material dessa batalha como se fosse u m teatro, é, apenas, o encontro de uns poucos fragmentos, de algumas
quando, por exemplo, se fala em estratégia de sobrevivência, mas peças do puzzle, mas também a dificuldade para entrar n o labi-
na realidade esse palco, j u n t o com seus atores, constitui a p r ó - rinto: falta-lhes o próprio sistema do mundo, do país e do lugar.
pria vida concreta da maioria das populações. A cidade, pronta a Mas a semente do entendimento já está plantada e o passo se-
enfrentar seu tempo a partir do seu espaço, cria e recria uma guinte é o seu florescimento em atitudes de inconformidade e,
cultura com a cara do seu tempo e do seu espaço e de acordo ou talvez, rebeldia.
em oposição aos "donos do tempo", que são também os donos Sem dúvida, os brotes individuais de insatisfação podem não
do espaço. formar uma corrente. Mas os movimentos de massa nem sem-
É dessa forma que, na convivência com a necessidade e com pre resultam de discursos claros e bem articulados, nem sempre
o outro, se elabora uma política, a política dos de baixo, constituída se dão por meio de organizações conseqüentes e estruturadas.

'•FACULDADES CURITIBA
BIBLIOTECA
134 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 135

O entendimento sistemático das situações e a correspondente A idade de ouro


sistematicidade das manifestações de inconformidade consti-
tuem, via de regra, u m processo lento. Mas isso não impede que, O chamado milagre econômico brasileiro permite a difusão,
no âmago da sociedade, já se estejam, aqui e ali, levantando vul- à escala do país, do fato da classe média. N a realidade, entre as
cões, mesmo que ainda pareçam silenciosos e dormentes. muitas "explosões" características do período, está esse cresci-
N a realidade, uma coisa são as organizações e os movimen- mento contínuo das classes médias, primeiro nas grandes cida-
tos estruturados e outra coisa é o próprio cotidiano como u m des e depois nas cidades menores e no campo modernizado. Essa
tecido flexível de relações, adaptável às novas circunstâncias, explosão das classes médias acompanha, neste meio século, a
sempre em movimento. A organização é importante, como o explosão demográfica, a explosão urbana e a explosão do consu-
instrumento de agregação e multiplicação de forças afins, mas m o e do crédito. Tal conjunto de fenômenos tem relação estru-
separadas. Ela também pode constituir o meio de negociação tural com o aumento da produção industrial e agrícola, como
necessário a vencer etapas e encontrar u m novo patamar de re- também do comércio, dos transportes, das trocas de todos os
sistência e de luta. Mas a obtenção de resultados, por mais tipos, das obras públicas, da administração e da necessidade de
compensadores que pareçam, não deve estimular a cristalização informação. Há, paralelamente, uma expansão e diversificação
do movimento, nem encorajar a repetição de estratégias e táti- do emprego, com a difusão dos novos terciários e a consolida-
cas. Os movimentos organizados devem imitar o cotidiano das ção, em muitas áreas do país, de uma pequena burguesia operá-
pessoas, cuja flexibilidade e adaptabilidade lhe asseguram u m ria. C o m o a modernização capitalista tende ao esvaziamento do
autêntico pragmatismo existencial e constituem a sua riqueza e campo e é sempre seletiva, uma parcela importante dos que se
fonte principal de veracidade. dirigiram às cidades não pôde participar do circuito superior da
economia, deixando de incluir-se entre os assalariados formais
e só encontrando trabalho n o circuito inferior da economia,
impropriamente chamado de setor "informal".
25. A metamorfose das classes médias Vale realçar que no Brasil do milagre, e até durante boa par-
te da década de 1980, a classe média se expande e se desenvolve
sem que houvesse verdadeira competição dentro dela quanto ao
Cada época cria novos atores e atribui papéis novos aos já uso dos recursos que o mercado ou o Estado lhe ofereciam para
existentes. Este é também o caso das classes médias brasileiras, a melhoria do seu poder aquisitivo e do seu bem-estar material.
desafiadas agora para o desempenho de uma importante tarefa Todos iam subindo juntos, embora para andares diferentes. Mas
histórica, na reconstituição do quadro político nacional. todos das classes médias estavam cônscios de sua ascensão social
e esperançosos de conseguir ainda mais. Daí sua relativa coesão
136 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 137

e o sentimento de se haver tornado u m poderoso estamento. A plicidade, com o regime autoritário. O modelo econômico i m -
competição foi, na realidade, com os pobres, cujo acesso aos bens portava mais que o modelo cívico. Eram essas, aliás, condições
e serviços se torna cada vez mais difícil, à medida que estes se objetivas necessárias a u m crescimento econômico sem d e m o -
multiplicam. Vale a pena lembrar as facilidades para a aquisição cracia. Q u a n d o o regime militar esgota o seu ciclo, a democra-
da casa própria, mediante programas governamentais com que cia se instala incompletamente na década de 1980, guardando
foram privilegiados, enquanto os brasileiros mais pobres ape- todos esses vícios de origem e sustentando u m regime repre-
nas foram incompletamente atendidos nos últimos anos do re- sentativo falsificado pela ausência de partidos políticos conse-
gime autoritário. A classe média é a grande beneficiária do cres- qüentes. Seguindo essa lógica, as próprias esquerdas são levadas
cimento econômico, d o m o d e l o político e dos projetos a dar mais espaço às preocupações eleitorais e menos à pedago-
urbanísticos adotados. gia propriamente política. A gênese e as formas de expansão das
Tal classe média, ao mesmo t e m p o em que se diversifica classes médias brasileiras têm relação direta com a maneira como
profissionalmente, aumenta seu poder aquisitivo e melhora hoje se desempenham os partidos.
qualitativamente, por meio das oportunidades de educação que
lhe são abertas, tudo isso levando à ampliação do seu bem-estar
(o que hoje se chama de qualidade de vida), conduzindo-a a A escassez chega às classes médias
acreditar que a preservação das suas vantagens e perspectivas
estivesse assegurada. Conforme mostraram Amélia Rosa S. Tal situação tende a mudar, quando a classe média começa a
Barreto e Ana Clara T. Ribeiro ("A dúvida da dívida e a classe conhecer a experiência da escassez, o que poderá levá-la a uma
média", Lastro, IPPUR, ano 3, n° 6, abril de 1999) "o acesso ao reinterpretação de sua situação. N o s anos recentes, primeiro de
crédito transforma-se em instrumento para alcançar a estabili- forma lenta ou esporádica e já agora de modo mais sistemático e
dade social". Tudo o que alimenta a classe média dá-lhe, tam- continuado, a classe média conhece dificuldades que lhe apon-
bém, u m sentimento de inclusão n o sistema político e econômi- tam para uma situação existencial bem diferente daquela que
co, e u m sentimento de segurança, estimulado pelas constantes conhecera há poucos anos. Tais dificuldades chegam em u m tro-
medidas do poder público em seu favor. Tratava-se, na realida- pel: a educação dos filhos, o cuidado com a saúde, a aquisição
de, de uma moeda de troca, já que a classe média constituía uma ou o aluguel da moradia, a possibilidade de pagar pelo lazer, a
base de apoio às ações do governo. falta de garantia no emprego, a deterioração dos salários, a p o u -
Forma-se, dessa maneira, uma classe média sequiosa de bens pança negativa e o crescente endividamento estão levando ao
materiais, a começar pela propriedade, e mais apegada ao con- desconforto quanto ao presente e à insegurança quanto ao futu-
sumo que à cidadania, sócia despreocupada do crescimento e do ro, tanto o futuro remoto quanto o imediato. Tais incertezas são
poder, com os quais se confundia. Daí a tolerância, senão a c u m - agravadas pelas novas perspectivas da previdência social e d o
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regime de aposentadorias, da prometida reforma dos seguros pri- profunda, podem alcançar u m nível qualitativo superior, a par-
vados e da legislação do trabalho. A tudo isso se acrescentam, den- tir de u m entendimento mais amplo do processo social e de uma
tro do próprio lar, a apreensão dos filhos em relação ao futuro visão sistêmica de situações aparentemente isoladas. O passo
profissional e as manifestações cotidianas desse desassossego. seguinte pode levar à decisão de participar de u m a luta pela sua
Já que não mais encontram os remédios que lhe eram ofe- transformação, quando o consumidor assume o papel de cida-
recidos pelo mercado ou pelo Estado como solução aos seus dão. N ã o importa que esse movimento de tomada de consciên-
problemas individuais emergentes, as classes médias ganham a cia não seja geral, n e m igual para todas as pessoas. O importante
percepção de que já não mandam, ou de que já não mais partici- é que se instale.
pam da partilha do poder. Acostumadas a atribuir aos políticos a
solução dos seus problemas, proclamam, agora, seu desconten-
tamento, distanciando-se deles. Elas já não se vêem espelhadas U m dado novo na política
nos partidos e por isso se instalam n u m desencanto mais
abrangente quanto à política propriamente dita. Isso é justifica- Seja como for, as classes médias brasileiras, já não mais adu-
do, em parte, pela visão de consumidor desabusado que alimen- ladas, e feridas de morte nos seus interesses materiais e espiri-
tou durante décadas, agravada com a fragmentação pela mídia, tuais, constituem, em sua condição atual, u m dado novo da vida
sobretudo televisiva, da informação e da interpretação do p r o - social e política. Mas seu papel não estará completo enquanto
cesso social. A certeza de não mais influir politicamente é não se identificar com os clamores dos pobres, contribuindo,
fortalecida nas classes médias, levando-as, não raro, a reagir ne- juntos, para o rearranjo e a regeneração dos partidos, inclusive
gativamente, isto é, a desejar menos política e menos participa- os partidos do progresso. Dentro destes, são muitos os que ain-
ção, quando a reação correta poderia e deveria ser exatamente a da aceitam as tentações do triunfalismo oposicionista — sem-
oposta. pre que as ocasiões se apresentam — e se rendem ao oportunis-
A atual experiência de escassez pode não conduzir imedia- m o eleitoreiro, limitando-se às respectivas mobilizações
tamente à desejável expansão da consciência. E quando esta se ocasionais, desgarrando-se, assim, do seu papel de formadores
impõe, não o faz igualmente, segundo as pessoas. Visto esque- não apenas da opinião mas da consciência cívica sem a qual não
maticamente, tal processo pode ter, como primeiro degrau, a pode haver neste país política verdadeira.
preocupação de defender situações individuais ameaçadas e que As classes médias brasileiras, agora mais ilustradas e, tam-
se deseja reconstituir, retomando o consumo e o conforto m a - bém, mais despojadas materialmente, têm, agora, a tareia histó-
terial como o principal motor de uma luta, que, desse m o d o , rica de forçar os partidos a completar, no Brasil, o trabalho, ape-
pode se limitar a novas manifestações de individualismo. É n u m nas começado, de implantação de uma democracia que não seja
segundo momento que tais reivindicações, fruto de reflexão mais apenas eleitoral, mas, também, econômica, política e social. A
140 MILTON SANTOS

experiência da escassez, u m revelador cotidiano da verdadeira si-


tuação de cada pessoa é, desse modo, u m dado fundamental na
aceleração da tomada de consciência. Nas condições brasileiras
atuais, as novas circunstâncias podem levar as classes médias a
forçar uma mudança substancial do ideário e das práticas políti-
cas, que incluam uma maior responsabilidade ideológica e a cor-
respondente representatividade político-eleitoral dos partidos. VI

A TRANSIÇÃO EM MARCHA

Introdução

A gestação do novo, na história, dá-se, freqüentemente, de


m o d o quase imperceptível para os contemporâneos, já que suas
sementes começam a se i m p o r q u a n d o ainda o velho é
quantitativamente dominante. É exatamente por isso que a "qua-
lidade" do novo pode passar despercebida. Mas a história se ca-
racteriza como uma sucessão ininterrupta de épocas. Essa idéia
de movimento e mudança é inerente à evolução da humanidade.
E dessa forma que os períodos nascem, amadurecem e morrem.
N o caso do m u n d o atual, temos a consciência de viver u m
novo período, mas o novo que mais facilmente apreendemos é
a utilização de formidáveis recursos da técnica e da ciência pelas
novas formas do grande capital, apoiado por formas institucionais
igualmente novas. N ã o se pode dizer que a globalização seja se-
melhante às ondas anteriores, nem mesmo uma continuação do
que havia antes, exatamente porque as condições de sua reali-
zação mudaram radicalmente. É somente agora que a h u m a -
142 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 143

nidade está podendo contar com essa nova qualidade da técnica, dade, e o próprio fato de que seja criador de escassez é u m dos
providenciada pelo que se está chamando de técnica informa- motivos da impossibilidade da homogeneização. Osjndivíduos
cional. Chegamos a u m outro século e o homem, por meio dos não são igualmente atingidos por esse fenômeno, cuja difusão
avanços da ciência, produz u m sistema de técnicas presidido pelas encontra obstáculos na diversidade das pessoas e na diversidade
técnicas da informação. Estas passam a exercer u m papel de elo dos lugares. N a realidade, a globalização agrava a heteroge-
entre as demais, unindo-as e assegurando a presença planetária neidade, dando-lhe mesmo u m caráter ainda mais estrutural.
desse novo sistema técnico. U m a das conseqüências de tal evolução é a nova significa-
Todavia, para entender o processo que conduziu à glo- ção da cultura popular, tornada capaz de rivalizar com a cultura
balização atual, é necessário levar em conta dois elementos fun- de massas. O u t r a é a produção das condições necessárias à
damentais: o estado das técnicas e o estado da política. Há, fre- reemergência das próprias massas, apontando para o surgimento
q ü e n t e m e n t e , tendência a separar u m a coisa da outra. Daí de u m novo período histórico, a que chamamos de período
nascem as muitas interpretações da história a partir das técnicas demográfico ou popular (M. Santos, Espaço e sociedade, 1979).
ou da política, exclusivamente. N a verdade, nunca houve, na
história humana, separação entre as duas coisas. A história for-
nece o quadro material e a política molda as condições que per- Cultura de massas, cultura popular
mitem a ação. N a prática social, sistemas técnicos e sistemas de
ação se confundem e é por meio das combinações então possí- U m exemplo é a cultura. U m esquema grosseiro, a partir
veis e da escolha dos momentos e lugares de seu uso que a his- de uma classificação arbitrária, mostraria, e m toda parte, a p r e -
tória e a geografia se fazem e se refazem continuadamente. sença e a influência de u m a cultura de massas b u s c a n d o
homogeneizar e impor-se sobre a cultura popular; mas também,
e paralelamente, as reações desta cultura popular. U m primeiro
movimento é resultado do empenho vertical unificador, h o m o -
26. Cultura popular, período popular geneizador, conduzido por u m mercado cego, indiferente às
heranças e às realidades atuais dos lugares e das sociedades. Sem
dúvida, o mercado vai impondo, com maior ou m e n o r força,
Para a maior parte da humanidade, o processo de globalização aqui e ali, elementos mais ou menos maciços da cultura de mas-
acaba tendo, direta ou indiretamente, influência sobre todos os sa, indispensável, como ela é, ao reino do mercado, e a expansão
aspectos da existência: a vida econômica, a vida cultural, as rela- paralela das formas de globalização econômica, financeira, téc-
ções interpessoais e a própria subjetividade. Ele não se verifica nica e cultural. Essa conquista, mais ou menos eficaz segundo
de modo homogêneo, tanto em extensão quanto em profundi- os lugares e as sociedades, jamais é completa, pois encontra a
144 MILTON SANTOS
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 145

resistência da cultura preexistente.)Constituem-se, assim, for- mento da política dos pobres, que se dá independentemente e aci-
mas mistas sincréticas, dentre as quais, oferecida como espetá- ma dos partidos e das organizações. Tal cultura realiza-se segun-
culo, uma cultura popular domesticada associando u m fundo do níveis mais baixos de técnica, de capital e de organização, daí
genuíno a formas exóticas que incluem novas técnicas. suas formas típicas de criação. Isto seria, aparentemente, uma fra-
Mas há também — e felizmente — a possibilidade, cada vez queza, mas na realidade é uma força, já que se realiza, desse modo,
mais freqüente, de uma revanche da cultura popular sobre a uma integração orgânica com o território dos pobres e o seu con-
cultura de massa, quando, por exemplo, ela se difunde median- teúdo humano^Daí a expressividade dos seus símbolos, manifes-
te o uso dos instrumentos que na origem são próprios da cul- tados na fala, na música e na riqueza das formas de intercurso e
tura de massas. Nesse caso, a cultura popular exerce sua qua- solidariedade entre as pessoas:; E t u d o isso evolui de m o d o
lidade de discurso dos "de baixo", pondo em relevo o cotidiano inseparável, o que assegura a permanência do movimento.
dos pobres, das minorias, dos excluídos, por meio da exaltação A cultura de massas produz certamente símbolos. Mas estes,
da vida de todos os dias. Se aqui os instrumentos da cultura de direta ou indiretamente ao serviço do poder ou do mercado, são, a
massa são reutilizados, o conteúdo não é, todavia, "global", nem cada vez, fixos. Frente ao movimento social e no objetivo de não
a incitação primeira é o chamado mercado global, já que sua base parecerem envelhecidos, são substituídos, mas por uma outra
se encontra n o território e na cultura local e herdada. Tais simbologia também fixa: o que vem de cima está sempre morren-
expressões da cultura popular são tanto mais fortes e capazes de do e pode, por antecipação, já ser visto como cadáver desde o seu
difusão quanto reveladoras daquilo que poderíamos chamar de nascimento. E essa a simbologia ideológica da cultura de massas.
regionalismos universalistas, forma de expressão que associa a Já os símbolos "de baixo", produtos da cultura popular, são
espontaneidade própria à ingenuidade popular à busca de u m portadores da verdade da existência e reveladores d o próprio
discurso universal, que acaba por ser u m alimento da política. movimento da sociedade.
N o fundo, a questão da escassez aparece outra vez como cen-
tral. Os "de baixo" não dispõem de meios (materiais e outros) para
participar plenamente da cultura moderna de massas. Mas sua cul- As condições empíricas da mutação
tura, por ser baseada no território, no trabalho e no cotidiano, ga-
nha a força necessária para deformar, ali mesmo, o impacto da cul- É a partir de premissas como essas que se pode pensar uma
tura de massas. Gente junta cria cultura e, paralelamente, cria uma reemergência das massas. Para isso devem contribuir, a partir
economia territorializada, uma cultura territorializada, u m discur- das migrações políticas ou econômicas, a ampliação da vocação
so territorializado, uma política territorializada. Essa cultura da atual para a mistura intercontinental e intranacional de povos,
vizinhança valoriza, ao mesmo tempo, a experiência da escassez e raças, religiões, gostos, assim como a tendência crescente à aglo-
a experiência da convivência e da solidariedade. E desse modo que, meração da população em alguns lugares, essa urbanização con-
gerada de dentro, essa cultura endógena impõe-se como u m ali- centrada já revelada nos últimos vinte anos.
MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 147
146

Da combinação dessas duas tendências pode-se supor que o maior complexidade, mais riqueza (a riqueza e o movimento dos
processo iniciado há meio século levará a uma verdadeira colorização h o m e n s lentos), mais combinações. Produz-se u m a nova
do Norte, à "informalização" de parte de sua economia e de suas centralidade do social, segundo a fórmula sugerida por Ana Clara
relações sociais e à generalização de certo esquema dual presente Torres Ribeiro, o que constitui, também, uma nova base para a
nos países subdesenvolvidos do Sul e agora ainda mais evidente. afirmação do reino da política.
Tal sociedade e tal economia urbana dual (mas não dualista)
conduzirão a duas formas imbricadas de acumulação, duas for-
mas de divisão do trabalho e duas lógicas urbanas distintas e as- A precedência do h o m e m e o período popular
sociadas, tendo como base de operação u m mesmo lugar. O fe-
nômeno já entrevisto de uma divisão do trabalho por cima e de U m a outra globalização supõe u m a mudança radical das
uma outra por baixo tenderá a se reforçar. A primeira prende-se condições atuais, de m o d o que a centralidade de todas as ações
ao uso obediente das técnicas da racionalidade hegemônica, en- seja localizada no homem. Sem dúvida, essa desejada mudança
quanto a segunda é fundada na redescoberta cotidiana das com- apenas ocorrerá no fim do processo, durante o qual reajustamen-
binações que permitem a vida e, segundo os lugares, operam em tos sucessivos se imporão.
diferentes graus de qualidade e de quantidade. Nas presentes circunstâncias, conforme já vimos, a centra-
Da divisão do trabalho por cima cria-se uma solidariedade ge- lidade é ocupada pelo dinheiro, em suas formas mais agressivas,
rada de fora e dependente de vetores verticais e de relações prag- u m dinheiro em estado puro sustentado por uma informação
máticas freqüentemente longínquas. A racionalidade é mantida à ideológica, com a qual se encontra em simbiose. Daí a brutal
custa de normas férreas, exclusivas, implacáveis, radicais. Sem obe- distorção do sentido da vida em todas as suas dimensões, incluin-
diência cega não há eficácia. Na divisão do trabalho por baixo, o do o trabalho e o lazer, e alcançando a valoração íntima de cada
que se produz é uma solidariedade criada de dentro e dependente pessoa e a própria constituição do espaço geográfico _Corn a
de vetores horizontais cimentados no território e na cultura locais. prevalência do dinheiro em estado puro como motor primeiro
Aqui são as relações de proximidade que avultam, este é o domínio e último das ações, o h o m e m acaba por ser considerado u m ele-
da flexibilidade tropical com a adaptabilidade extrema dos atores, mento residual. Dessa forma, o território, o Estado-nação e a
uma adaptabilidade endógena. A cada movimento novo, há u m novo solidariedade social também se tornam residuais.
reequilíbrio em favor da sociedade local e regulado por ela. A primazia do h o m e m supõe que ele estará colocado n o cen-
A divisão do trabalho por cima é u m campo de maior velo- tro das preocupações do m u n d o , como u m dado filosófico e
cidade. Nela, a rigidez das normas econômicas (privadas e pú- como uma inspiração para as ações. (Dessa forma, estarão asie
blicas) impede a política. Por baixo há maior dinamismo intrín- gurados o império da compaixão nas relações interpessiur. <• 11
seco, maior movimento espontâneo, mais encontros gratuitos, estímulo à solidariedade social,'! a ser exercida entre iudivídui
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P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 149

entre o indivíduo e a sociedade e vice-versa e entre a sociedade -baL Isso, todavia, tem trazido como conseqüência para todos os
e o Estado, reduzindo as fraturas sociais, impondo uma nova países uma baixa de qualidade de vida para a maioria da popula-
ética, e, destarte, assentando bases sólidas para uma nova socie- ção e a ampliação do número de pobres em todos os continen-
dade, uma nova economia, u m novo espaço geográfico. O pon- tes, pois, com a globalização atual, deixaram-se de lado políticas
to de partida para pensar alternativas seria, então, a prática da sociais que amparavam, em passado recente, os menos favore-
vida e a existência de todos. cidos, sob o argumento de que os recursos sociais e os dinhei-
ros públicos devem primeiramente ser utilizados para facilitar a
A nova paisagem social resultaria do abandono e da supera-
incorporação dos países na onda globalitária. Mas, se a preocu-
ção do modelo atual e sua substituição por u m outro, capaz de
pação central é o homem, tal modelo não terá mais razão de ser.
garantir para o maior número a satisfação das necessidades es-
senciais a uma vida humana digna, relegando a uma posição se-
cundária necessidades fabricadas, impostas por meio da publi-
cidade e d o c o n s u m o conspícuo. Assim o interesse social
suplantaria a atual precedência do interesse econômico e tanto 27. A centralidade da periferia
levaria a uma nova agenda de investimentos como a uma nova
hierarquia nos gastos públicos, empresariais e privados. Tal es-
quema conduziria, paralelamente, ao estabelecimento de novas A idéia da irreversibilidade da globalização atual é aparente-
relações internas a cada país e a novas relações internacionais. mente reforçada cada vez que constatamos a inter-relação atual
N u m m u n d o em que fosse abolida a regra da competitividade entre cada país e o que chamamos de "mundo", assim como a
como padrão essencial de relacionamento, a vontade de ser p o - interdependência, hoje indiscutível, entre a história geral e as his-
tência não seria mais u m norte para o comportamento dos esta- tórias particulares. N a verdade, isso também tem a ver com a idéia,
dos, e a idéia de mercado interno será uma preocupação central. também estabelecida, de que a história seria sempre feita a partir
Agora, o que está sendo privilegiado são as relações pontuais dos países centrais, isto é, da Europa e dos Estados Unidos, aos
entre grandes atores, mas falta sentido ao que eles fazem. As- quais, de modo geral, o presente estado de coisas interessa.
sim, a busca de u m futuro diferente tem de passar pelo abando-
n o das lógicas infernais que, dentro dessa racionalidade viciada,
fundamentam e presidem as atuais práticas econômicas e políti- Limites à cooperação
cas hegemônicas.
A atual subordinação ao modo econômico único t e m con- Quando, porém, observamos de perto aspectos mais estru-
duzido a que se dê prioridade às exportações e importações, uma turais da situação atual, verificamos que o centro do sistema busca
das formas com as quais se materializa o chamado mercado glo- impor uma globalização de cima para baixo aos demais países,
150 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 151

enquanto n o seu âmago reina uma disputa entre Europa, Japão dade de intérpretes dos interesses comuns aos Estados Unidos,
e Estados Unidos, que lutam para guardar e ampliar sua parte à Europa e ao Japão. Tais realidades levam a duvidar da vontade
do mercado global e afirmar a hegemonia econômica, política e de cada u m e do conjunto desses atores hegemônicos de cons-
militar sobre as nações que lhes são mais diretamente tributári- truir u m verdadeiro universalismo e permite pensar que, nas
as sem, todavia, abandonar a idéia de ampliar sua própria área condições atuais, essa dupla competição perdurará.
de influência. Então, qualquer fração de mercado, não importa
onde esteja, se torna fundamental à competitividade exitosa das
empresas. Estas põem em ação suas forças e incitam os gover- O desafio ao Sul
nos respectivos a apoiá-las. O limite da cooperação dentro da
Tríade (Estados Unidos, Europa, Japão) é essa mesma competi- O s países subdesenvolvidos, parceiros cada vez mais
ção, de m o d o que cada u m não perca terreno frente ao outro. fragilizados nesse jogo tão desigual, mais cedo ou mais tarde com-
Entretanto, já que nesses países a idéia de cidadania ainda é preenderão que nessa situação a cooperação lhes aumenta a de-
forte, é impossível descuidar do interesse das populações ou pendência. Daí a inutilidade dos esforços de associação depen-
suprimir inteiramente direitos adquiridos mediante lutas secu- dente face aos países centrais, no quadro da globalização atual. Esse
lares. O que permanece como lembrança do Estado de bem-estar m u n d o globalizado produz uma racionalidade determinante, mas
basta para contrariar as pretensões de completa autonomia das q u e vai, pouco a pouco, deixando de ser dominante. É u m a
empresas transnacionais e contribui para a emergência, dentro racionalidade que comanda os grandes negócios cada vez mais
de cada nação, de novas contradições. C o m o as empresas ten- abrangentes e mais concentrados em poucas mãos. Esses grandes
dem a exercer sua vontade de poder no plano global, a luta e n - negócios são de interesse direto de u m número cada vez menor
tre elas se agrava, arrastando os países nessa competição. Trata- de pessoas e empresas. C o m o a maior parte da humanidade é di-
se, na verdade, de uma guerra, protagonizada tanto pelos Estados reta ou indiretamente do interesse deles, pouco a pouco essa rea-
como pelas respectivas empresas globais, da qual participam lidade é desvendada pelas pessoas e pelos países mais pobres.
como parceiros mais frágeis os países subdesenvolvidos. Há, em tudo isso, uma grande contradição. Abandonamos
Agora mesmo, a experiência dos mercados comuns regionais as teorias do subdesenvolvimento, o terceiro-mundismo, que
já mostra aos países chamados "emergentes" que a cooperação eram nossa bandeira nas décadas de 1950-60. Todavia, graças à
da tríade, em conjunto ou separadamente, é mais representativa globalização, está ressurgindo algo muito forte: a história da
do interesse próprio das grandes potências que de u m a vontade maioria da humanidade conduz à consciência da sobrevivência
de efetiva colaboração. Nessa guerra, os organismos internacio- dessa tercermundização (que, de alguma forma inclui, também,
nais capitaneados pelo Fundo Monetário, pelo Banco Mundial, u m a parte da população dos países ricos) (Samuel Pinheiro
pelo BID e t c , exercem u m papel determinante, e m sua quali- Guimarães, Quinhentos anos de periferia, 1999).
152 MILTON SANTOS POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO 153

É certo que a tomada de consciência dessa situação estrutural mundista tal como o presidente Nyerere, da Tanzânia, havia
de inferioridade não chegará ao mesmo tempo para todos os países sugerido em seu livro O desafio ao Sul.
subdesenvolvidos e, muito menos, será, neles, sincrónica a vonta- Além dessa tendência verossímil, considerem-se as formas
de de mudança frente a esse tipo de relações. Pode-se, no entanto, de desordem da vida social que já se multiplicam em n u m e r o -
admitir que, mais cedo ou mais tarde, as condições internas a cada sos países e que t e n d e m a aumentar. O Brasil é emblemático
país, provocadas em boa parte pelas suas relações externas, levarão como exemplo, não se sabendo, porém, até quando será possí-
a uma revisão dos pactos que atualmente conformam a globalização. vel manter o modelo econômico globalitário e ao mesmo tem-
Haverá, então, uma vontade de distanciamento e posteriormente po acalmar as populações crescentemente insatisfeitas.
de desengajamento, conforme sugerido por Samir Amin, rompen- As potências centrais (Estados Unidos, Europa, Japão), apesar
do-se, desse modo, a unidade de obediência hoje predominante. das divergências pela competição quanto ao mercado global, têm
Jungidos sob o peso de uma dívida externa que não podem pagar, interesses comuns que as incitarão a buscar adaptar suas regras
os países subdesenvolvidos assistem à criação incessante de carên- de convivência à pretensão de manter a hegemonia. C o m o , t o -
cias e de pobres e começam a reconhecer sua atual situação de davia, a globalização atual é u m período de crise permanente, a
ingovernabilidade, forçados que estão a transferir para o setor eco- renovação do papel hegemônico da Tríade levará a maiores sa-
nômico recursos que deveriam ser destinados à área social. crifícios para o resto da comunidade das nações, incentivando,
N a verdade, já são muito numerosas as manifestações de assim, nestas, a busca de outras soluções.
desconforto com as conseqüências da nova dependência e do A combinação hegemônica de que resultam as formas econô-
novo imperialismo '(Reinaldo Gonçalves, Globalização e desna- micas modernas atinge diferentemente os diversos países, as
cionalização, 1999). Tornam-se evidentes os limites da aceitação diversas culturas, as diferentes áreas dentro de u m mesmo país.
de tal situação. Por diferentes razões e meios diversos, as mani- A diversidade sociogeográfica atual o exemplifica. Sua realidade
festações de irredentismo já são claramente evidentes em países revela u m movimento globalizador seletivo, com a maior parte
como o Irã, o Iraque, o Afeganistão, mas, também, a Malásia, o da população do planeta sendo menos diretamente atingida —
Paquistão, sem contar com as formas particulares de inclusão e em certos casos pouco atingida—pela globalização econômica
da índia e da China na globalização atual, que nada têm de sim- vigente. N a Ásia, na África e mesmo na América Latina, a vida
ples obediência ou conformidade, como a propaganda ociden- local se manifesta ao mesmo tempo como uma resposta e uma
tal quer fazer crer. Países como a China e a índia, com u m terço reação a essa globalização. N ã o podendo essas populações majo-
da população mundial e uma presença internacional cada vez ritárias consumir o Ocidente globalizado em suas formas puras
mais ativa, dificilmente aceitarão, uma ou outra, assim como a (financeira, econômica e cultural), as respectivas áreas acabam
Rússia, jogar o papel passivo de nação-mercado para os blocos por ser os lugares onde a globalização é relativizada ou recusada.
economicamente hegemônicos. U m a reação em cadeia poderá U m a coisa parece certa: as mudanças a serem introduzidas,
ensejar o renascimento de algo como o antigo élan terceiro- n o sentido de alcançarmos uma outra globalização, não virão do
154 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 155

centro do sistema, como em outras fases de ruptura na marcha Ocaso do projeto nacional?
do capitalismo. As mudanças sairão dos países subdesenvolvidos.
E previsível que o sistemismo sobre o qual trabalha a Agora, porém, no m u n d o da globalização, o reconhecimen-
globalização atual erga-se como u m obstáculo e torne difícil a to dessa estrutura é difícil, do mesmo m o d o que a visualização
manifestação da vontade de desengajamento. Mas não impedirá de u m projeto nacional pode tornar-se obscura. Talvez por isso,
que cada país elabore, a partir de características próprias, modelos os projetos das grandes empresas, impostos pela tirania das fi-
alternativos, nem tampouco proibirá que associações de tipo h o - nanças e trombeteados pela mídia, acabam, de u m jeito o u de
rizontal se dêem entre países vizinhos igualmente h e g e m o - outro, guiando a evolução dos países, em acordo ou não com as
nizados, atribuindo uma nova feição aos blocos regionais e ul- instâncias públicas freqüentemente dóceis e subservientes, dei-
trapassando a etapa das relações meramente comerciais para xando de lado o desenho de uma geopolítica própria a cada na-
alcançar u m estágio mais elevado de cooperação. Então, u m a ção e que leve em conta suas características e interesses.
globalização constituída de baixo para cima, em que a busca de Assim, as noções de destino nacional e de projeto nacional
classificação entre potências deixe de ser uma meta, poderá per- cedem freqüentemente a frente da cena a preocupações m e n o -
mitir que preocupações de ordem social, cultural e moral pos- res, pragmáticas, imediatistas, inclusive porque, pelas razões j á
expostas, os partidos políticos nacionais raramente apresentam
sam prevalecer.
plataformas conduzidas por objetivos políticos e sociais claros e
que exprimam visões de conjunto (Cesar Benjamin e outros, A
opção brasileira, 1998). A idéia de história, sentido, destino é ames-
quinhada em nome da obtenção de metas estatísticas, cuja ú n i -
28. A nação ativa, a nação passiva
ca preocupação é o conformismo frente às determinações d o
processo atual de globalização. Daí a produção sem contrapartida
de desequilíbrios e distorções estruturais, acarretando mais frag-
A globalização atual e as formas brutais que adotou para im- mentação e desigualdade, tanto mais graves quanto mais aber-
por mudanças levam à urgente necessidade de rever o que fazer tos e obedientes se mostrem os países.
com as coisas, as idéias e também com as palavras. Qualquer que
seja o debate, hoje, reclama a explicitação clara e coerente dos
seus termos, sem o que se pode facilmente cair n o vazio ou na
Alienação da nação ativa
ambigüidade. E o caso do próprio debate nacional, exigente de
novas definições e vocabulário renovado. C o m o sempre, o país Tomemos o caso do Brasil. E mais que uma simples metá-
deve ser visto como uma situação estrutural em movimento, na fora pensar que uma das formas de abordagem da questão seria
qual cada elemento está intimamente relacionado com os demais. considerar, dentro da nação, a existência, na realidade, de duas
156 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 157

nações. U m a nação passiva e uma nação ativa. D o fato de serem Conscientização e riqueza da nação passiva
as contabilidades nacionais globalizadas — e globalizantes! —L a
grande ironia é que se passa a considerar como nação ativa aquela A nação chamada passiva é constituída pela grossa maior parte
que obedece cegamente ao desígnio globalitário, enquanto o da população e da economia, aqueles que apenas participam de
resto acaba por constituir, desse ponto de vista, a nação passiva^ modo residual do mercado global ou cujas atividades conseguem
A fazer valer tais postulados, a nação ativa seria a daqueles que sobreviver à sua margem, sem, todavia, entrar cabalmente na
aceitam, pregam e conduzem uma modernização que dá pree- contabilidade pública ou nas estatísticas oficiais. O pensamento
minência aos ajustes que interessam ao dinheiro, enquanto a que define e compreende os seus atores é o do intelectual p ú -
nação passiva seria formada por tudo o mais. blico engajado na defesa dos interesses da maioria.
Serão mesmo adequadas essas expressões? O u aquilo a que, As atividades dessa nação passiva são freqüentemente
desse modo, se está chamando de nação ativa seria, na realida- marcadas pela contradição entre a exigência prática da confor-
de, a nação passiva, enquanto a nação chamada passiva seria, de midade, isto é, a necessidade de participar direta ou indiretamen-
fato, a nação ativa? te da racionalidade dominante, e a insatisfação e inconformismo
A chamada nação ativa, isto é, aquela que comparece eficaz- dos atores diante de resultados sempre limitados. Daí o encon-
mente na contabilidade nacional e na contabilidade internacio- tro cotidiano de uma situação de inferiorização, tornada perma-
nal, tem seu modelo conduzido pelas burguesias internacionais nente, o que reforça em seus participantes a noção de escassez e
e pelas burguesias nacionais associadas. É verdade, também, que convoca a uma reinterpretação da própria situação individual
o seu discurso globalizado, para ter eficácia local, necessita de diante do lugar, do país e do mundo.
u m sotaque doméstico e por isso estimula u m pensamento nacio- A "nação passiva" é estatisticamente lenta, colada às rugo-
nal associado produzido por mentes cativas, subvencionadas ou sidades do seu meio geográfico, localmente enraizada e orgânica.
não. A nação chamada ativa alimenta sua ação com a prevalência E também a nação que mantém relações de simbiose com o en-
de u m sistema ideológico que define as idéias de prosperidade e torno imediato, relações cotidianas que criam, espontaneamente
de riqueza e, paralelamente, a produção da conformidade. A e à contracorrente, uma cultura própria, endógena, resistente, que
"nação ativa" aparece como fluida, veloz, externamente articula- também constitui u m alicerce, uma base sólida para a produção
da, internamente desarticuladora, entrópica. Será ela dinâmica? de uma política. Essa nação passiva mora, ali onde vive e evolui,
C o m o essa idéia é muito difundida, cabe lembrar que velocidade enquanto a outra apenas circula, utilizando os lugares como mais
não é dinamismo. Esse movimento não é próprio, mas atribuído, u m recurso a seu serviço, mas sem outro compromisso.
tomado emprestado a u m motor externo; ele não é genuíno, não N u m primeiro momento, desarticulada pela "nação ativa",
tem finalidade, é desprovido de teleologia. Trata-se de u m a agi- a "nação passiva" não pode alcançar u m projeto conjunto. Aliás,
tação cega, u m projeto equivocado, u m dinamismo d o diabo. o império dos interesses imediatos que se manifestam no exer-
158 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 159

cicio pragmático da vida contribui, sem dúvida, para tal desarti- 29. A globalização atual não é irreversível
culação. Mas, n u m segundo momento, a tomada de consciên-
cia trazida pelo seu enraizamento no meio e, sobretudo, pela sua
experiência da escassez, torna possível a produção de u m proje- A globalização atual é muito menos u m produto das idéias
to, cuja viabilidade provém do fato de que a nação chamada pas- atualmente possíveis e, muito mais, o resultado de uma ideologia
siva é formada pela maior parte da população, além de ser dota- restritiva adrede estabelecida. Já vimos que todas as realizações
da de u m dinamismo próprio, autêntico, fundado em sua própria atuais, oriundas de ações hegemônicas, têm como base constru-
existência. Daí, sua veracidade e riqueza. ções intelectuais fabricadas antes mesmo da fabricação das coisas
Podemos desse modo admitir que aquilo que, mediante o jogo e das decisões de agir. A intelectualização da vida social, recente-
de espelhos da globalização, ainda se chama de nação ativa é, na mente alcançada, vem acompanhada de uma forte ideologização.
verdade, a nação passiva, enquanto o que, pelos mesmos parâ-
metros, é considerado a nação passiva, constitui, já no presente,
mas sobretudo na ótica do futuro, a verdadeira nação ativa. Sua A dissolução das ideologias
emergência será tanto mais viável, rápida e eficaz se se reconhe-
cem e revelam a confluência dos modos de existência e de traba- Todavia, o que agora estamos assistindo em toda parte é uma
lho dos respectivos atores e a profunda unidade do seu destino. tendência à dissolução dessas ideologias, no confronto com a
Aqui, o papel dos intelectuais será, talvez, muito mais do que experiência vivida dos povos e dos indivíduos. O próprio credo
promover u m simples combate às formas de ser da "nação ati- financeiro, visto pelas lentes do sistema econômico a que deu
va" — tarefa importante mas insuficiente, nas atuais circunstân- origem, ou examinado isoladamente, e m cada país, aparece
cias —, devendo empenhar-se por mostrar, analiticamente, den- menos aceitável e, a partir de sua contestação, outros elementos
tro do todo nacional, a vida sistêmica da nação passiva e suas da ideologia do pensamento único perdem força.
manifestações de resistência a uma conquista indiscriminada e Além das múltiplas formas com que, no período histórico
totalitária do espaço social pela chamada nação ativa. Tal visão atual, o discurso da globalização serve de alicerce às ações hege-
renovada da realidade contraditória de cada fração do território mônicas dos Estados, das empresas e das instituições internacionais,
deve ser oferecida à reflexão da sociedade em geral, tanto à socie- o papel da ideologia na produção das coisas e o papel ideológico
dade organizada nas associações, sindicatos, igrejas, partidos dos objetos que nos rodeiam contribuem, juntos, para agravar essa
como à sociedade desorganizada, que encontrarão nessa nova sensação de que agora não há outrofuturo senão aquele que nos virá
interpretação os elementos necessários para a postulação e o como u m presente ampliado e não como outra coisa. Daí a pesada onda
exercício de uma outra política, mais condizente com a busca de conformismo e inação que caracteriza nosso tempo, contami-
do interesse social. nando os jovens e, até mesmo, uma densa camada de intelectuais^
160 MILTON SANTOS
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 161

É muito difundida a idéia segundo a qual o processo e a for-


conjunção de dois tipos de valores. D e u m lado, estão os valores
ma atuais da globalização seriam irreversíveis. Isso também tem
fundamentais, essenciais, fundadores do h o m e m , válidos cm
a ver com a força com a qual o fenômeno se revela e instala em
qualquer tempo e lugar, como a liberdade, a dignidade, a felici-
todos os lugares e em todas as esferas da vida, levando a pensar
dade; de outro lado, surgem os valores contingentes, devidos à
que não há alternativas para o presente estado de coisas.
história do presente, isto é, à história atual. A densidade e a
N o entanto, essa visão repetitiva do m u n d o confunde o que
factibilidade histórica do projeto, hoje, dependem da maneira
já foi realizado com as perspectivas de realização. Para exorcizar
como empreendamos sua combinação.
esse risco, devemos considerar que o m u n d o é formado não
Por isso, é lícito dizer que o futuro são muitos; e resultarão
apenas pelo que já existe (aqui, ali, em toda parte), mas pelo que
de arranjos diferentes, segundo nosso grau de consciência, entre
pode efetivamente existir (aqui, ali, em toda parte). O m u n d o
datado de hoje deve ser enxergado como o que na verdade ele o reino das possibilidades e o reino da vontade. E assim que
nos traz, isto é, u m conjunto presente de possibilidades reais, iniciativas serão articuladas e obstáculos serão superados, per
concretas, todas factíveis sob determinadas condições. mitindo contrariar a força das estruturas dominantes, sejam elas
presentes ou herdadas. A identificação das etapas e os ajustamen-
O m u n d o definido pela literatura oficial do pensamento
tos a empreender durante o caminho dependerão da necessária
único é, somente, o conjunto de formas particulares de reali-
clareza do projeto.
zação de apenas certo número dessas possibilidades. N o entan-
Conforme já mencionamos, alguns dados do presente nos
to, u m m u n d o verdadeiro se definirá a partir da lista completa
abrem, desde já, a perspectiva de u m futuro diferente, entre
de possibilidades presentes em certa data e que incluem não só
outros: a tendência à mistura generalizada entre povos; a voca-
o que já existe sobre a face da Terra, como também o que ainda
ção para uma urbanização concentrada; o peso da ideologia nas
não existe, mas é empiricamente factível. Tais possibilidades,
construções históricas atuais; o empobrecimento relativo e ab-
ainda não realizadas, já estão presentes como tendência ou como
soluto das populações e a perda de qualidade de vida das classes
promessa de realização. Por isso, situações como a que agora
médias; o grau de relativa "docilidade" das técnicas contempo-
defrontamos parecem definitivas, mas não são verdades eternas.
râneas; a "politização generalizada" permitida pelo excesso de
normas (Maria Laura Silveira, Um país, uma região. Fim de século e
modernidades na Argentina, 1999); e a realização possível do h o -
A pertinência da utopia
m e m com a grande mutação que desponta.
Lembramos, também, que u m dos elementos, ao m e s m o
É somente a partir dessa constatação, fundada na história
tempo ideológico e empiricamente existencial, da presente for-
real do nosso tempo, que se torna possível retomar, de maneira
ma de globalização é a centralidade do consumo, com a qual
concreta, a idéia de utopia e de projeto. Este será o resultado da
muito têm a ver a vida de todos os dias e suas repercussões sobre
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 163
162 MILTON SANTOS

a produção, as formas presentes de existência e as perspectivas subdesenvolvidos (M. Santos, O espaço dividido, 1978), mas que
das pessoas. Mas as atuais relações instáveis de trabalho, a ex- agora também se verifica no m u n d o chamado desenvolvido.
pansão de desemprego e a baixa d o salário médio constituem Por outro lado, na medida em que as técnicas cada vez mais
u m contraste e m relação à multiplicação dos objetos e serviços, se dão como normas e a vida se desenrola no interior de u m
cuja acessibilidade se torna, desse modo, improvável, ao m e s - oceano de técnicas, acabamos por viver uma politização genera-
m o tempo que até os consumos tradicionais acabam sendo difí- lizada. A rapidez dos processos conduz a uma rapidez nas m u -
ceis ou impossíveis para uma parcela importante da população. danças e, por conseguinte, aprofunda a necessidade de p r o d u -
E como se o feitiço virasse contra o feiticeiro. ção de novos entes organizadores. Isso se dá nos diversos níveis
Essa recriação da necessidade, dentro de u m m u n d o de coi- da vida social. Nada de relevante é feito sem normas. Neste fim
sas e serviços abundantes, atinge cada vez mais as classes médias, do século XX, tudo é política. E, graças às técnicas utilizadas no
cuja definição, agora, se renova, à medida que, como também já período contemporâneo e ao papel centralizador dos agentes
vimos, passam a conhecer a experiência da escassez. Esse é u m hegemônicos, que são planetários, torna-se ubíqua a presença
dado relevante para compreender a mudança na visibilidade da de processos distorcidos e exigentes de reordenamento. Por isso
história que se está processando. D e tal modo, às visões ofereci- a política aparece como u m dado indispensável e onipresente,
das pela propaganda ostensiva ou pela ideologia contida nos abrangendo praticamente a totalidade das ações.
objetos e nos discursos opõem-se as visões propiciadas pela exis- Assistimos, assim, ao império das normas, mas também ao
tência. E por meio desse conjunto de movimentos, que se reco- conflito entre elas, incluindo o papel cada vez mais dominante
nhece uma saturação dos símbolos pré-construídos e que os li- das normas privadas na produção da esfera pública. N ã o é raro
mites da tolerância às ideologias são ultrapassados, o que permite que as regras estabelecidas pelas empresas afetem mais que as
a ampliação do campo da consciência. regras criadas pelo Estado. Tudo isso atinge e desnorteia os in-
Nas condições atuais, essa evolução pode parecer impossí- divíduos, produzindo uma atmosfera de insegurança e até mes-
vel, em vista de que as soluções até agora propostas ainda são m o de medo, mas levando os que não sucumbem inteiramente
prisioneiras daquela visão segundo a qual o único dinamismo ao seu império à busca da consciência quanto ao destino do Pla-
possível é o da grande economia, com base nos reclamos d o sis- neta e, logo, do H o m e m .
tema financeiro. Por exemplo, os esforços para restabelecer o
emprego dirigem-se, sobretudo, quando não exclusivamente, ao
circuito superior da economia. Mas esse não é o único caminho Outros usos possíveis para as técnicas atuais
e outros remédios podem ser buscados, segundo a orientação
político-ideológica dos responsáveis, levando em conta u m a O s sistemas técnicos de que se valem os atuais atores hege-
divisão do trabalho vinda "de baixo", fenômeno típico dos países mônicos estão sendo utilizados para reduzir o escopo da vida
164 MILTON SANTOS
P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO los

humana sobre o planeta. N o entanto, jamais houve na história contemporâneas são mais fáceis de inventar, imitar ou reprodu-
sistemas tão propícios a facilitar a vida e a proporcionar a felici- zir que os modos de fazer que as precederam.
dade dos homens. A materialidade que o m u n d o da globalização As famílias de técnicas emergentes com o fim do século XX
está recriando permite u m uso radicalmente diferente daquele —combinando informática e eletrônica, sobretudo—oferecem
que era o da base material da industrialização e do imperialismo. a possibilidade de superação do imperativo da tecnologia
A técnica das máquinas exigia investimentos maciços, seguin- hegemônica e paralelamente admitem a proliferação de novos
do-se a massividade e a concentração dos capitais e do próprio arranjos, com a retomada da criatividade. Isso, aliás, j á está se
sistema técnico. Daí a inflexibilidade física e moral das operações, dando nas áreas da sociedade em que a divisão do trabalho se
levando a u m uso limitado, direcionado, da inteligência e da cria- produz de baixo para cima. Aqui, a produção do novo e o uso e
tividade. Já o computador, símbolo das técnicas da informação, a difusão do novo deixam de ser monopolizados por u m capital
reclama capitais fixos relativamente pequenos, enquanto seu uso cada vez mais concentrado para pertencer ao domínio do maior
é mais exigente de inteligência. O investimento necessário pode número, possibilitando afinal a emergência de u m verdadeiro
ser fragmentado e torna-se possível sua adaptação aos mais di- m u n d o da inteligência. Desse modo, a técnica pode voltar a ser
versos meios. Pode-se até falar da emergência de u m artesanato o resultado do encontro do engenho humano com u m pedaço
de novo tipo, servido por velozes instrumentos de produção e determinado da natureza — cada vez mais modificada —, per-
de distribuição. mitindo que essa relação seja fundada nas virtualidades do en-
torno geográfico e social, de modo a assegurar a restauração do
Dir-se-á, então, que o computador reduz—tendencialmente
h o m e m em sua essência.
— o efeito da pretensa lei segundo a qual a inovação técnica
conduz paralelamente a uma concentração econômica. O s n o -
vos instrumentos, pela sua própria natureza, abrem possibilida-
des para sua disseminação no corpo social, superando as clivagens Geografia e aceleração da história
socieconômicas preexistentes.
Sob condições políticas favoráveis, a materialidade simboli- A própria geografia parece contribuir para que a história se
zada pelo computador é capaz não só de assegurar a liberação da acelere. N a cidade — sobretudo na grande cidade —, os efeitos
inventividade como torná-la efetiva. A desnecessidade, nas so- de vizinhança parecem impor uma possibilidade maior de iden-
ciedades complexas e socioeconomicamente desiguais, de ado- tificação das situações, graças, também, à melhoria da informa-
tar universalmente computadores de última geração afastará, ção disponível e ao aprofundamento das possibilidades de co-
também, o risco de que distorções e desequilíbrios sejam agra- municação. Dessa maneira, torna-se possível a identificação, na
vados. E a idéia de distância cultural, subjacente à teoria e à prá- vida material como na ordem intelectual, do desamparo a que
tica do imperialismo, atinge, também, seu limite. As técnicas as populações são relegadas, levando, paralelamente, a u m maior
166 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 167

reconhecimento da condição de escassez e a novas possibilida- em todos os países, a mistura de povos, raças, culturas, religiões,
des de ampliação da consciência. gostos etc. A aglomeração das pessoas em espaços reduzidos, com
A partir desses efeitos de vizinhança, o indivíduo refortifi- o fenômeno de urbanização concentrada, típico do último quar-
cado pode, n u m segundo momento, ultrapassar sua busca pelo tel do século XX, e as próprias mutações nas relações de trabalho,
consumo e entregar-se à busca da cidadania. A primeira supõe j u n t o ao desemprego crescente e à depressão dos salários, m o s -
uma visão limitada e unidirecionada, enquanto a segunda inclui tram aspectos que poderão se mostrar positivos em futuro p r ó -
a elaboração de visões abrangentes e sistêmicas. N o primeiro ximo, quando as metamorfoses do trabalho informal serão vivi-
caso, o que é perseguido é a reconstrução das condições materiais das também como expansão do trabalho livre, assegurando a seus
e jurídicas que permitem fortalecer o bem-estar individual (ou portadores novas possibilidades de interpretação do m u n d o , do
familiar) sem, todavia, mostrar preocupação com o fortalecimento lugar e da respectiva posição de cada u m , no m u n d o e n o lugar.
da individualidade, enquanto a busca da cidadania apontará para As condições atuais p e r m i t e m igualmente antever u m a
a reforma das práticas e das instituições políticas. reconversão da mídia sob a pressão das situações locais (produ-
Frente a essa nova realidade, as aglomerações populacionais ção, consumo, cultura). A mídia trabalha com o que ela própria
serão valorizadas como o lugar da densidade humana e, por isso, transforma e m objeto de mercado, isto é, as pessoas. C o m o em
o lugar de uma coabitação dinâmica. Será também aí, visto pela n e n h u m lugar as comunidades são formadas por pessoas h o m o -
mesma ótica, que se observarão a renascença e o peso da cultura gêneas, a mídia deve levar isso em conta. Nesse caso, deixará de
popular. Por outro lado, a precariedade e a pobreza, isto é, a im- representar o senso c o m u m imposto pelo pensamento único.
possibilidade, pela carência de recursos, de participar plenamen- Desde que os processos econômicos, sociais e políticos produ-
te das ofertas materiais da modernidade, poderão, igualmente, zidos de baixo para cima possam desenvolver-se eficazmente,
inspirar soluções que conduzam ao desejado e hoje possível u m a informação veraz poderá dar-se dentro da maioria da p o -
renascimento da técnica, isto é, o uso consciente e imaginativo, pulação e ao serviço de uma comunicação imaginosa e emocio-
em cada lugar, de todo tipo de oferta tecnológica e de toda moda- nada, atribuindo-se, assim, u m papel diametralmente oposto ao
lidade de trabalho. Para isso contribuirá o fato histórico concreto que lhe é hoje conferido n o sistema da mídia.
que é, ao contrário do período histórico anterior, o grau de
"docilidade" das técnicas contemporâneas, que se apresentam mais
propícias à liberação do esforço, ao exercício da inventividade e à U m novo mundo possível
floração e multiplicação das demandas sociais e individuais.
Se a realização da história, a partir dos vetores "de cima", é A partir dessas metamorfoses, pode-se pensar na produção
ainda dominante, a realização de uma outra história a partir dos local de u m entendimento progressivo do mundo e d o lugar,
vetores "de baixo" é tornada possível. E para isso contribuirão, c o m a produção indígena de imagens, discursos, filosofias, j u n t o
168 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 169

à elaboração de u m novo ethos e de novas ideologias e novas dessa apropriação. A descoberta individual é, já, u m considerável
crenças políticas, amparadas na ressurreição da idéia e da prática passo à frente, ainda que possa parecer ao seu portador u m ca-
da solidariedade. minho penoso, à medida das resistências circundantes a esse
O m u n d o de hoje também autoriza uma outra percepção da novo m o d o de pensar. O passo seguinte é a obtenção de uma
história por meio da contemplação da universalidade empírica visão sistêmica, isto é, a possibilidade de enxergar as situações e
constituída com a emergência das novas técnicas planetarizadas as causas atuantes como conjuntos e de localizá-los como u m
e as possibilidades abertas a seu uso. A dialética entre essa univer- t o d o , mostrando sua interdependência. A partir daí, a discussão
salidade empírica e as particularidades encorajará a superação das silenciosa consigo mesmo e o debate mais ou menos público com
práxis invertidas, até agora comandadas pela ideologia dominan- os demais ganham uma nova clareza e densidade, permitindo
te, e a possibilidade de ultrapassar o reino da necessidade, abrindo enxergar as relações de causa e efeito como uma corrente contí-
lugar para a utopia e para a esperança. Nas condições históricas nua, e m q u e cada situação se inclui n u m a rede dinâmica,
do presente, essa nova maneira de enxergar a globalização per- estruturada, à escala do m u n d o e à escala dos lugares.
mitirá distinguir, na totalidade, aquilo que já é dado e existe como E a partir dessa visão sistêmica que se encontram, interpe-
u m fato consumado, e aquilo que é possível, mas ainda não rea- netram e completam as noções de m u n d o e de lugar, permitin-
lizado, vistos u m e outro de forma unitária. Lembremo-nos da d o entender como cada lugar, mas também cada coisa, cada pes-
lição de A. Schmidt (The concept of nature in Marx, 1971) quando soa, cada relação dependem do mundo.
dizia que "a realidade é, além disso, tudo aquilo em que ainda Tais raciocínios autorizam uma visão crítica da história na
não nos tornamos, ou seja, tudo aquilo que a nós mesmos nos qual vivemos, o que inclui uma apreciação filosófica da nossa
projetamos como seres humanos, por intermédio dos mitos, das própria situação frente à comunidade, à nação, ao planeta, j u n -
escolhas, das decisões e das lutas". \ tamente com uma nova apreciação de nosso próprio papel como
A crise por que passa hoje o sistema, em diferentes países e pessoa. É desse modo que, até mesmo a partir da noção d o que
continentes, põe à mostra não apenas a perversidade, mas tam- é ser u m consumidor, poderemos alcançar a idéia de h o m e m
bém a fraqueza da respectiva construção. Isso, conforme vimos, integral e de cidadão. Essa revalorização radical do indivíduo
j á está levando ao descrédito dos discursos dominantes, mesmo contribuirá para a renovação qualitativa da espécie humana, ser-
que outro discurso, de crítica e de proposição, ainda não haja vindo de alicerce a uma nova civilização.
sido elaborado de modo sistêmico. A reconstrução vertical do mundo, tal como a atual globa-
O processo de tomada de consciência — j á o vimos — não é lização perversa está realizando, pretende impor a todos os países
homogêneo, nem segundo os lugares, nem segundo as classes normas comuns de existência e, se possível, ao mesmo tempo e
sociais ou situações profissionais, nem quanto aos indivíduos. rapidamente. Mas isto não é definitivo. A evolução que estamos
A velocidade com que cada pessoa se apropria da verdade contida entrevendo terá sua aceleração em momentos diferentes e em
na história é diferente, tanto quanto a profundidade e coerência países diferentes, e será permitida pelo amadurecimento da crise.
170 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO 171

Esse m u n d o novo anunciado não será uma construção de cima faz sua entrada na cena histórica como u m bloco. É uma entra-
para baixo, como a que estamos hoje assistindo e deplorando, mas da revolucionária, graças à interdependência das economias, dos
uma edificação cuja trajetória vai se dar de baixo para cima. governos, dos lugares. O movimento do m u n d o revela u m a só
As condições acima enumeradas deverão permitir a implan- pulsação, ainda que as condições sejam diversas segundo conti-
tação de u m novo modelo econômico, social e político que, a nentes, países, lugares, valorizados pela sua forma de participa-
partir de uma nova distribuição dos bens e serviços, conduza à ção na produção dessa nova história.
realização de uma vida coletiva solidária e, passando da escala Vivemos em um mundo complexo, marcado na ordem mate-
do lugar à escala do planeta, assegure uma reforma do m u n d o , rial pela multiplicação incessante do n ú m e r o de objetos e na
por intermédio de outra maneira de realizar a globalização. ordem imaterial pela infinidade de relações que aos objetos nos
unem. N o s últimos cinqüenta anos criaram-se mais coisas d o
que nos cinqüenta mil precedentes. Nosso m u n d o é complexo
e confuso ao mesmo tempo, graças à força com a qual a ideolo-
30. A história apenas começa gia penetra objetos e ações. Por isso mesmo, a era da globalização,
mais do que qualquer outra antes dela, é exigente de u m a inter-
pretação sistêmica cuidadosa, de m o d o a permitir que cada coi-
Ao contrário do que tanto se disse, a história não acabou; ela sa, natural ou artificial, seja redefinida em relação com o todo
apenas começa. Antes o que havia era uma história de lugares, planetário. Essa totalidade-mundo se manifesta pela unidade das
regiões, países. As histórias podiam ser, no máximo, continen- técnicas e das ações.
tais, em função dos impérios que se estabeleceram a u m a escala A grande sorte dos que desejam pensar a nossa época é a
mais ampla. O que até então se chamava de história universal existência de uma técnica globalizada, direta ou indiretamente
era a visão pretensiosa de u m país ou continente sobre os o u - presente em todos os lugares, e de uma política planetariamente
tros, considerados bárbaros ou irrelevantes. Chegava-se a dizer exercida, que une e norteia os objetos técnicos. Juntas, elas au-
de tal ou tal povo que ele era sem história... torizam uma leitura, ao mesmo tempo geral e específica, filosó-
fica e prática, de cada ponto da Terra.
Nesse emaranhado de técnicas dentro do qual estamos viven-
A humanidade como um bloco revolucionário do, o h o m e m pouco a pouco descobre suas novas forças. Já que o
meio ambiente é cada vez menos natural, o uso do entorno ime-
O ecúmeno era formado de frações separadas ou escassamen- diato pode ser menos aleatório. As coisas valem pela sua constitui-
te relacionadas do planeta. Somente agora a humanidade pode ção, isto é, pelo que podem oferecer. O s gestos valem pela adequa
identificar-se como u m todo e reconhecer sua unidade, quando ção às coisas a que se dirigem. Ampliam-se e diversificam-se as
172 MILTON SANTOS P O R U M A O U T R A GLOBALIZAÇÃO

escolhas, desde que se possam combinar adequadamente técnica crítica da existência. Assim, o cotidiano de cada u m se enriquece,
e política. Aumentam a previsibilidade e a eficácia das ações. pela experiência própria e pela do vizinho, tanto pelas realizações
U m dado importante de nossa época é a coincidência entre atuais como pelas perspectivas de futuro. As dialéticas da vida nos
a produção dessa história universal e a relativa liberação do h o - lugares, agora mais enriquecidas, são paralelamente o caldo de cul-
m e m em relação à natureza. A denominação de era da inteli- tura necessário à proposição e ao exercício de uma nova política.
gência poderia ter fundamento neste fato concreto: os materiais Funda-se, de fato, u m novo m u n d o . Para sermos ainda mais
hoje responsáveis pelas realizações preponderantes são cada vez precisos, o que, afinal, se cria é o mundo como realidade histórica
mais objetos materiais manufaturados e não mais matérias-pri- unitária, ainda que ele seja extremamente diversificado. Ele é
mas naturais. Pensamos ousadamente as soluções mais fan- datado com uma data substantivamente única, graças aos traços
tasiosas e e m seguida buscamos os instrumentos adequados à comuns de sua constituição técnica e à existência de u m único
sua realização. N a era da ecologia triunfante, é o h o m e m quem motor para as ações hegemônicas, representado pelo lucro à esca-
fabrica a natureza, ou lhe atribui valor e sentido, por meio de la global. É isso, aliás, que, j u n t o à informação generalizada, as-
suas ações já realizadas, em curso ou meramente imaginadas. Por segurará a cada lugar a comunhão universal com todos os outros.
isso, tudo o que existe constitui uma perspectiva de valor. To- Ousamos, desse modo, pensar que a história do h o m e m sobre
dos os lugares fazem parte da história. As pretensões e a cobiça a Terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e intelec-
povoam e valorizam territórios desertos. tuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos téc-
nicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória. Aqui, não se
trata de estabelecer datas, nem de fixar momentos da folhinha,
A nova consciência de ser mundo marcos n u m calendário. C o m o o relógjo, a folhinha e o calendário
são convencionais, repetitivos e historicamente vazios. O que conta
Graças aos progressos fulminantes da informação, o m u n d o mesmo é o tempo das possibilidades efetivamente criadas, o que,
fica mais perto de cada um, não importa onde esteja. O outro, à sua época, cada geração encontra disponível, isso a que chama-
isto é, o resto da humanidade, parece estar próximo. Criam-se, mos tempo empírico, cujas mudanças são marcadas pela irrupção de
para todos, a certeza e, logo depois, a consciência de ser m u n d o e novos objetos, de novas ações e relações e de novas idéias.
de estar no mundo, mesmo se ainda não o alcançamos em plenitu-
de material ou intelectual. O próprio mundo se instala nos lugares,
sobretudo as grandes cidades, pela presença maciça de uma huma- A grande mutação contemporânea
nidade misturada, vinda de todos os quadrantes e trazendo consigo
interpretações variadas e múltiplas, que ao mesmo tempo se cho- Diante do que é o m u n d o atual, como disponibilidade e
cam e colaboram na produção renovada do entendimento e da como possibilidade, acreditamos que as condições materiais já
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estão dadas para que se imponha a desejada grande mutação, mas


seu destino vai depender de como disponibilidades e possibili-
dades serão aproveitadas pela política. N a sua forma material,
unicamente corpórea, as técnicas talvez sejam irreversíveis,
porque aderem ao território e ao cotidiano. De u m ponto de vista
existencial, elas podem obter u m outro uso e uma outra signifi-
cação. A globalização atual não é irreversível.
Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presen-
ça no planeta, pode-se dizer que uma história universal verda-
deiramente humana está, finalmente, começando. A mesma
materialidade, atualmente utilizada para construir u m m u n d o
confuso e perverso, pode vir a ser uma condição da construção
de u m m u n d o mais humano. Basta que se completem as duas
grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a
mutação filosófica da espécie humana.
A grande mutação tecnológica é dada com a emergência das
técnicas da informação, as quais — ao contrário das técnicas das
máquinas — são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e d ó -
ceis, adaptáveis a todos os meios e culturas, ainda que seu uso
perverso atual seja subordinado aos interesses dos grandes capi-
tais. Mas, quando sua utilização for democratizada, essas técni-
cas doces estarão ao serviço do homem.
Cnamofe
Muito falamos hoje nos progressos e nas promessas da en-
genharia genética, que conduziriam a uma mutação do h o m e m
biológico, algo que ainda é do domínio da história da ciência e
da técnica. Pouco, no entanto, se fala das condições, também hoje
presentes, que podem assegurar uma mutação filosófica do h o - Este livro foi c o m p o s t o n a tipologia Aldine e m
mem, capaz de atribuir u m novo sentido à existência de cada corpo 11/15 e impresso e m papel C h a m o i s F i n e
2
8 0 g / m n o Sistema C a m e r o n da Divisão Gráfica da
pessoa e, também, do planeta.
Distribuidora Record.