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Saúde ccmc
.gbertíì,ra, ac tlPìscc
Sandra Capcnì
ln,trcdüçàc
Hc|e, maìs dc que nunca, tudc parece ncs levar a afìrmar que uma ccmpreensàc
dc ccnceìtc de saúde depende de parámetrcs cìentífìca e claramente estabelecìdcs.
Os recentes estudcs genetìccs parecem estar abrìndc um hcrìzcnte ìlìmìtadc de
pcssìbìlìdades terapéutìcas e de prevençàc de enfermìdades. Pcr trás dc ìmpactc
prcvccadc pcr estudcs ccmc c prc|etc gencma humanc, a saúde perfeìta parece ter
deìxadc de fazer parte da utcpìa para entrar nc hcrìzcnte dc pcssível. O mapeamentc
dcs genes, que predìspcrìam ncssc crganìsmc a determìnadas enfermìdades, e a
pcssìbìlìdade de ìntervìr na prevençàc de certcs rìsccs ncs permìtem ìmagìnar
um futurc prcmìsscr. Nàc scmente as ìntrcmìssòes nc ìnterìcr dc crganìsmc de
cada ìndìvíduc parecem trazer ncvas esperanças, mas tambem multìplìcaram-se cs
ccnhecìmentcs e a ìdentìfìcaçàc dcs rìsccs que ameaçam a saúde das pcpulaçòes.
A bìcestatístìca e a aplìcaçàc da tecnclcgìa de ìnfcrmátìca na açàc sanìtárìa ncs
permìtem mapear cs rìsccs maìs freqüentes nas dìferentes pcpulaçòes e crìar estra-
tegìas de prevençàc das enfermìdades e de prcmcçàc da saúde a partìr de campa'
nuas sanìtárìas bem dìrecìcnadas.
Se, pcr um ladc, pcdemcs defìnìr claramente cs códìgcs genetìccs 'defeìtucscs',
de mcdc a pcder evìtar c aparecìmentc de ancmalìas genetìcas, e se, pcr cutrc, pcdemcs
defìnìr ccndutas e açòes de rìscc para ccntrclar as enfermìdades, e pcrque temcs
muìtc clarc que e ìstc c que deve ser alcançadc ccm estas ìntervençòes. Nc prìmeìrc
casc, trata-se de ncs aprcxìmarmcs dc que serìa um códìgc genetìcc ncrmal; nc segundc,
trata-se de estìmular a prevençàc de atcu e ccndutas vìsandc a garantìr a exìsténcìa
de pcpulaçòes saudáveìs. Pcrem, se ncs ìnterrcgarmcs scbre este códìgc genetìcc
ncrmal cu, de um mcdc maìs amplc, se ncs perguntarmcs qual e c estadc saudável
que se quer alcançar ccm essas açòes, veremcs que, quase ìnevìtavelmente, cs ccnceìtcs
de saúde e de ncrmalìdade tendem a se ccnfundìr ccm c ccnceìtc de 'freqüéncìa'.
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:l)rcmcçàc da Saú&
{)8qwdáwel pe dele pe|abusça de um códìgc genetìcc ncrmal, sem alteraçòes. cu
ancnlalìés, e essa ncrmalìdade Le defìne em termcs de freqüéncìa estatístìca: c quq se
enccntra em maìcr quantìdade na medìa da pcpulaçàc. L entàc que ccmeçam a
aparecer as dìfìculdades dessas tentatìvas de defìnìr em termcs 'cìentífìccs' c ccnceìtc
de saúde. Se ncs restrìngìrmcs acs valcres que devem ser ccnsìderadcs ncrmaìs para
um determìnadc órgàc, veremcs que 'nàc enccntramcs apenas um ìntervalc ncrmal
para cada funçàc de um órgàc: rìgcrcsamente falandc, enccntramcs um númerc
ìnfìnìtc destes ìntervalcs'(Ncrdenfeld, 2000: 60). Se ncs referìrmcs ac códìgc genetìcc
'ncrmal', veremcs que exìstem ìnfìnìtcs exemplcs de varìaçòes e desvìcs, de
ancmalìas' que nàc pcdem ser, em absclutc, ccnsìderadas ccmc de valcr negatìvc cu
patclógìcas. Peccnheceremcs que, assìm ccmc nàc e pcssível ìdentìfìcar ancmalìa
ccm patclcgìa, e ìmpcssível assccìar ncrmalìdade e saúde.
Aìnda hc|e, esta assccìaçàc entre saúde é ncrmalìdade parece ser a base de
sustentaçàc daquela que pcderíamcs ccnsìderar ccmc a defìnìçàc maìs ccrrìqueìra
e, sem dúvìda, a maìs utìlìzada pelcs prcfìssìcnaìs da área de saúde. Pensemcs, pcr
exemplc, na defìnìçàc dc ccnceìtc de saúde enuncìada pcr Chrìstcpher 8ccrse.
referìndc-se a ncrmalìdade nc cumprìmentc das funçòes das dìferentes partes dc
crganìsmc: '0 ncrmal e cb|etìva e prcprìamente defìnìdc ccmc aquele cu|a funçàc
está em accrdc ccm c seu desenhc' (8ccrse, iº75: 57). Nesse casc, c elementc
essencìal para a defìnìçàc de desenhc bìclógìcc e a ncçàc de funçàc natural e
qualquer alteraçàc nesta funçàc pcde trazer cu prcvccar enfermìdade. A saúde e
pensada, entàc, ccmc auséncìa de dcença e, ìnversamente, a dcença se defìne ccmc:
c estadc de um ìndìvíduc que ìnterfere nas funçòes ncrmaìs(cu nc funcìcnamentc
ncrmal) de alguns órgàcs cu sìstema de órgàcs' (iº75: 6i).
Assìm sendc, quandc ncs ìnterrcgamcs scbre a funçàc ncrmal de um órgàc cu
um sìstema de órgàcs, deveremcs ncs referìr necessarìamente a funçàc estatìstìca-
mente representatìva, ìstc e, ac resultadc enccntradc na medìa da pcpulaçàc. Ccmc
vemcs, quandc 8ccrse defìne seu ccnceìtc bìcestatístìcc de saúde-enfermìdade,
nàc exìste nenhum espaçc para scfrìmentcs ìndìvìduaìs. Lxìstem valcres padròes
dessas funçòes ncrmaìs e uma alteraçàc nesses padròes, ìndependentemente de
qualquer vìnculaçàc as capacìdades cu ac scfrìmentc dcs ìndìvíducs, c que ìndìca-
rìa ìnterferéncìa nestas funçòes, subncrmalìdade cu patclcgìa. Quandc falamcs de
mapa genetìcc e de códìgc ncrmal, reprcduzìmcs e amplìamcs esta defìnìçàc
bìcestatístìca dada pcr 8ccrse, e reìteramcs tambem seus lìmìtes e cìrcularìdades: a
freqüéncìa aparece, as vezes, ccmc parámetrc de ncrmalìdade e a ìdentìfìcaçàc
entre saúde e ncrmalìdade se apresenta ccmc ìnquestìcnável.
O presente trabalhc, pretende analìsar cs ccnceìtcs de sìii34ç...dQgpga, ncrmalì-
dade e.p4iç2iQgìa tentandc fugìr de uma mcdalìdade de estudcs que lìmìta a dìscus-
sàc a questòes taìs ccmc freqüéncìa estatístìca, desvìc, ncrmas etc.
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.g .Sa.í.b ccmc .gb«{«ra « ºìsc.
.q tP'rcbZematìzaçàc .3iZcs(Uca da Saúde
Lmbcra a defìnìçàc estatístìca dada pcr 8ccrse se|a pcsterìcr acs estudcs scbre
ncrmalìdade, patclcgìa, saúde e dcença desenvclvìdcs pcr Cecrge Canguìlhem,
quase 30 ancs antes, pcdemcs tentar ccmpreender cs argumentcs explìcìtadcs em
O Ncrma/ e c Patclógìcc (iºº0a) ccmc uma respcsta a defìnìçàc de saúde-
enfermìdade enuncìada pcr 8ccrse.
Para Canguìlhem, nàc e pcssível reduzìr c ccnceìtc de saúde a um termc 'cìen-
tífìcc'. Ccnsìderandc que e ìmpcssível assccìar ncrmalìdade e saúde, cu ancmalìa
e patclcgìa, c recursc as medìdas estatístìcas, acs valcres freqüentes e acs cálculcs
nada ncs esclarece a respeìtc deste ccnceìtc. Nàc e pcssível ìmagìnar que a vìda se
desenvclva na sclìdàc dc crganìsmc ìndìvìdual, nem que pcssamcs alcançar um
ccnhecìmentc dela pela ccmparaçàc entre crganìsmcs. '0 ser vìvc e c meìc nàc
pcdem ser chamadcs de ncrmaìs se fcrem ccnsìderadcs em separadc' (Canguìlhem,
iºº0a: i45); só se pcde afìrmar que um ser vìvc e ncrmal se c vìncularmcs ac seu
meìc, se ccnsìderarmcs as scluçòes mcrfclógìcas, funcìcnaìs, vìtaìs, a partìr das
quaìs ele respcnde as demandas que seu meìc lhe ìmpòe. '0 ncrmal e pcder vìver
em um meìc em que flutuaçòes e ncvcs accntecìmentcs sàc pcssíveìs' (Canguìlhem,
iºº0a: i46). Dìtc de cutrc mcdc, nàc sàc as medìas estatístìcas, nem a fuga dcs
ìntervalcs assìm chamadcs ncrmaìs que ncs ìndìcam c mcmentc em que se ìnìcìa
uma dcença, mas sìm as dìfìculdades que c crganìsmc enccntra para dar respcstas
as demandas que seu meìc lhe ìmpòe. L e |ustamente a ccnsìderaçàc deste scfrìmen-
tc e deste sentìmentc de ìmpcténcìa ìndìvìdual que escapa as medìas estatístìcas; c
que ncs permìte tentar uma defìnìçàc mencs restrìta dc ccnceìtc de saúde.
Dagcgnet (iºº6: iº-20) dìrá, tcmandc ccmc exemplc c dìabetìcc, que
nàc e pcssível ater-se a dcse de açúcar para afìrmar um dìagnóstìcc. Devemcs
renuncìar a uma tecrìa puramente quantìtatìva da dcença. Lscutemcs c dcente,
pcrque a verdadeìra dìabetes ìmplìca um 'ccn|untc' que ultrapassa a pura e
sìmples glìcemìa. Nàc scmente dìz respeìtc ac páncreas, mas tambem afeta a
cìrculaçàc. A dcença sempre se ìrradìa ccmc se c crganìsmc tcdc estìvesse
afetadc, ccmc se ele estìvesse lìmìtadc em suas ìnìcìatìvas. Lstar dcente e, entàc,
perder a lìberdade, e vìver na restrìçàc e na dependéncìa.
Mìrkc Crmek fcrmulará a seguìnte pergunta: 'Quandc c medìcc, c dcente e a
entcmc dc dcente falam de dcença, será que eles se referem verdadeìramente a
mesma realìdade7' (iºº5: i7). L pcr ìssc que, para tratar de dctar c ccnceìtc de
dcença de uma especìfìcìdade maìcr, a lìteratura cìentífìca utìlìza c termc dìsease
para referìr-se a ccnceìtualìzaçàc de enfermìdade/dcença realìzada pelc medìcc; c
termc í//ness para desìgnar a experìéncìa sub|etìva da dcença, a vìvéncìa cu
scfrìmentc ìndìvìdual; e se reserva um terceìrc termc, síckness, para desìgnar a
percepçàc da dcença pelc entcmc nàc medìcc da pessca afetada.
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:Prcmcçàc da Saú&
Um ccnceìtc cperatìvc de saúde deverá ìntegrar esses aspectcs sem reduzìr-se a
uma defìnìçàc negatìva(auséncìa de desease, í//ness cu síck7zess). Acredìtamcs que,
para ccnstruìr este ccnceìtc, será necessárìc desvìar c clhar, aprcxìmar-se desta questàc
nàc ccm cs ìnstrumentcs dc cìentìsta, mas sìm ccm cs argumentcs dc fìlóscfc.
A prcblematìzaçàc da saúde ccmc uma questàc fìlcsófìca parece ter, ac mencs,
duas |ustìfìcatìvas plausíveìs. A prìmeìra e que a saúde fcì um tema fìlcsófìcc
freqüente na epcca clássìca; dela ccuparam-se, entre cutrcs autcres, Leìbnìz, Dìderct,
Descarnes, Kant e, pcsterìcrmente, Nìetzsche. Pcrem, quandc falamcs de saúde,
parece ter sìdc -Descarnes quem se ccnverteu em referéncìa cbrìgatórìa, e ìstc desde
c mcmentc em que lhe e atrìbuída a 'ìnvençàc de uma ccncepçàc mecanìcìsta das
funçòes crgánìcas' (Canguìlhem: iºº0b: 20). Para ele, e essencìal respeìtar a
dìstìnçàc, entre um mecanìsmc e um ccrpc humanc, ccnfcrme c que se ìndìca na
\l medìtaçàc'; nàc e pcssível estabelecer uma ìdentìdade, pcr exemplc, entre um
relógìc desreguladc' e um 'hcmem hìdrópìcc' (Descartes, iº8i: 73). Lsta dìstìnçàc,
que dìfere daquela que pcdemcs fazer entre um relógìc reguladc e um desreguladc,
ìndìca a dìversìdade exìstente entre a regulagem das máquìnas e as funçòes
crgánìcas de um hcmem.
1al ccmc afìrma Maurìce Merleau-Pcnty (apud Canguìlhem, iºº0b), será
tambem Descartes quem reccnhecerá a exìsténcìa de uma parte dc ccrpc humanc
vìvc, ìnacessível acs cutrcs, que e pura e exclusìvamente 'acessível a seu tìtular
Será |ustamente a partìr desta ìndìcaçàc de Descartes que Canguìlhem ccnstruìrá
sua argumentaçàc referente a saúde ccmc um ccnceìtc vulgar e ccmc uma questàc
fìlcsófìca - aìnda que ìnsìsta na necessìdade de nàc se levar a serìc c mecanìsmc
cartesìanc, pcìs, ccnfcrme dìrá, e ìmpcssível falar de saúde de um mecanìsmc.
A segunda |ustìfìcatìva para a prcblematìzaçàc da saúde ccmc questàc fìlcsófìca
será enuncìada pcr Canguìlhem em La Sanfe: cc zcepf uulgaíre & qzíesfícn pbí/cscp/lìgue
(iºº0b). Neste lìvrc, c autcr ncs lembrará, accmpanhandc Melreau-Pcnty, que 'a
fìlcscfìa e c ccn|untc de questòes cnde aquele que questìcna e, ele próprìc, questìc-
nadc' (Canguìlhem, iºº0b: 36). Na medìda em que tcdcs nós ccmpartìlhamcs
esses fatcs próprìcs da ccndìçàc humana, que sàc c padecìmentc da dcr e dc scfrì-
mentc, e na medìda em que tcdcs vìvemcs sìlencìcsamente este fenómenc ac qual
damcs c ncme de saúde, parece que tcdcs, sendc cu nàc, prcfìssìcnaìs da saúde,
devemcs ncs deparar, ìnevìtavelmente, ccm esta questàc.
Ccmc afìrma Ncrdenfeld(2000), a saúde nàc tem sìdc um fenómenc alheìc a
reflexàc fìlcsófìca, aìnda que muìtas vezes tenha ccupadc um lugar margìnal entre
cutras questòes maìs valcrìzadas pelcs fìlóscfcs, ccmc a etìca cu a pclítìca. De fatc,
nàc fcì só a fìlcscfìa clássìca que se ccupcu da saúde, basta para ìssc que lembremcs
de Nìetzsche, Maurìce Merleau-Pcnty e Cecrges Canguìlhem; eles ccnsìderaram a
saúde ccmc cb|etc de prcblematìzaçàc fìlcsófìca. O prìmeìrc, em suas preccupaçòes
ccm c scfrìmentc ìndìvìdual; c segundc, centralìzandc-se na temátìca da
58
.2 .Saú& ccmc .abertura a. cìscc
ccrpcreìdade, e Canguìlhem, ac ìnterrcgar-se scbre a cpcsìçàc ncrmal-patclógìcc e
scbre a hìstórìa das cìéncìas bìcmedìcas.
1antc na prìmeìra edìçàc de O Ncrma/ e c Pala/ógícc, que data de iº43, ccmc ncs
ensaìcs que depcìs de vìnte ancs daràc lugar a versàc revìsada desta cbra,
Canguìlhem tcmará ccmc pcntc de partìda, para analìsar c ccnceìtc de saúde, a
terceìra parte dc lìvrc Ccmpìta das Faculdades (iº67), de Kant:
Pcdemcs ncs sentìr bem, ìstc quer dìzer, |ulgar segundc ncssa ìmpressàc de bem-
estar vìtal, pcrem nunca pcdemcs saber se estamcs bem. A auséncìa da ìmpressàc
(de estar dcente) nàc permìte ac hcmem expressar que ele está bem senàc
aparentemente, só pcde dìzer que ele está aparenfemezzte bem (Kant apud
Canguìlhem, iºº0b: i3 -- Crìfcs dc autcr).
Kant sugere, nestas lìnhas, que a saúde e um cb|etc alheìc ac campc dc saber
cb|etìvc, e e a partìr deste enuncìadc que Canguìlhem pede sustentar sua tese de
que 'nàc há cìéncìa da saúde'. A saúde, dìrá ele, 'nàc e um ccnceìtc cìentífìcc, e um
ccnceìtc vulgar. lstc nàc quer dìzer trìvìal, mas sìmplesmente ccmum, ac alcance de
tcdcs' (iºº0b: i4). Dìgamcs c mesmc de cutrc mcdc: a saúde nàc pertence a crdem
dcs cálculcs, nàc e c resultadc de tabelas ccmparatìvas, leìs cu medìas estatístìcas
e, pcrtantc, seu estudc nàc e exclusìvc das ìnvestìgaçòes bìcmedìcas, se|am elas
quantìtatìvas cu nàc.
Canguìlhem mcstrará que fìsìclcgìstas e bìólcgcs preferem prescìndìr da
exìgéncìa de enuncìar um ccnceìtc de saúde. Lste e c casc de Starìlìng, fìsìclcgìsta
ìnglés, ìnventcr dc termc 'hcrmònìc', em cu|c tratadc nàc aparece em nenhum
mcmentc ìndexada a palavra/zea/t/z. Claude 8emard, pcr sua vez, parece assccìar
saúde ccm dìvagaçòes metafísìcas, afìrmandc que: 'Scmente exìstem em fìsìclcgìa
ccndìçòes próprìas para cada fenómenc que devemcs determìnar exatamente, sem
ncs perdermcs em dìvagaçòes scbre a vìda, a mcrte, a saúde, a dcença e cutras
entìdades da mesma especìe' (8emard apud Canguìlhem, iºº0b: iº).
Lsta exclusàc explícìta dc ccnceìtc de saúde dc ámbìtc dc dìscursc cìentífìcc
aparece a partìr dc mcmentc em que ncs negamcs a aceìtar esta antìga e arraìgada
assccìaçàc pela qual se veìcula a saúde dc ccrpc ccm a efìcìéncìa de um mecanìsmc.
Se nàc aceìtarmcs a assccìaçàc ccrpc-mecanìsmc e pensarmcs que para uma
máquìna seu estadc de funcìcnamentc nàc e a sua saúde e c seu desarran|c nada
tem a ver ccm a dcença, deveremcs, entàc, excluìr dc ccnceìtc de saúde as exìgéncìas
de cálculc (de ccntabìlìdade) que pcucc a pcucc abscrveram c seu sentìdc ìndìvìdual
e sub|etìvc. A partìr dc mcmentc em que falamcs da saúde ccmc um fenómenc 'nàc
ccntabìlìzadc, nàc ccndìcìcnadc, nàc medìdc pcr aparelhcs', parece que ela deìxa
de ser um cb|etc exclusìvc 'daquele que se dìz cu se ìmagìna especìalìsta em saúde'
(Canguìlhem, iºº0b: 24).
Lembrandc Dagcgnet, Paul Pabìncw (iººº: i27) afìrma que 'Canguìlhem
desmanchcu um ataque frcntal aquele edìfícìc da ncrmalìzaçàc tàc essencìal acs

|Pramaçàc {h Saíí&
prccedìmentcs da cìéncìa e da medìcìna pcsìtìvìstas. L c scfrìmentc, e nàc as medì-
açòes ncrmatìvas cu cs desvìcs-padràc, que estabelece c estadc de dcença'. Quan-
dc falamcs de saúde, nàc pcdemcs evìtar as referéncìas a dcr cu ac prazer e, desse
mcdc, estamcs ìntrcduzìndc, sutìlmente, algc que escapa as medìçòes, algc que
Canguìlhem chamcu de 'ccrpc sub|etìvc'. Se ccnsìderarmcs este elementc, nàc pc-
deremcs deìxar de falar na prìmeìra pessca, alì, cnde c dìscursc medìcc teìma em
falar na terceìra.
A tra|etórìa de Canguìlhem ccmc epìstemclcgìsta e hìstcrìadcr das cìéncìas
ncs ìmpede de pensar que estas afìrmaçòes pretendam defender uma vclta a natu-
reza selvagem cu a um ìndìvìdualìsmc radìcal. Canguìlhem cuìdara de manter
dìstáncìa entre c ccnceìtc de ccrpc sub|etìvc, 'saúde em estadc lìvre', dessas mcda-
lìdades de pensamentc que sàc c naturalìsmc e c anta-racìcnalìsmc. Lle e ccnscìen-
te de que 'a defesa da saúde selvagem, prìvada, pcr desccnsìderaçàc da saúde
cìentìfìcamente ccndìcìcnada adctcu tcdas as fcrmas pcssíveìs, ìnclusìve as maìs
rìdículas'(Canguìlhem, iºº0b: 34).:
O ccrpc sub|etìvc nàc e c cpcstc dc saber cìentífìcc, um nàc representa a
alterìdade radìcal dc cutrc. Pelc ccntrárìc, c ccrpc sub|etìvc precìsa destes saberes
que lhe ìndìcam e sugerem uma serìe de artìfícìcs úteìs a sua sustentaçàc, pcìs
uma ccìsa e preccupar-se ccm c ccrpc sub|etìvc e cutra e pensar que temcs
a cbrìgaçàc de ncs lìberarmcs da tutela, |ulgada repressìva, da medìcìna (...).
O reccnhecìmentc da saúde ccmc verdade dc ccrpc, nc sentìdc cntclógìcc, nàc só
pcde, mas tambem deve admìtìr a presença, ccmc margem e ccmc barreìra da
verdade nc sentìdc lógìcc, cu se|a. da cìénda. Certamente, c ccrpc vìvìdc nàc e um
cb|etc, mas para c hcmem vìver e tambem ccnhecer.(Canguìlhem, iºº0b: 36-37)
Assìm, estes ccnhecìmentcs que ccnsìderam c ccrpc ccmc cb|etc sàc alìadcs e
nàc ìnìmìgcs de uma ccmpreensàc maìs ampla dc ccnceìtc de saúde.
Lsta saúde sem 'ìdeìa', 'presente e cpaca' e, de tcdcs cs mcdcs, c que valìda e
dá supcrte as ìntervençòes que c saber medìcc pcde 'sugerìr' ccmc artìfícìcs para
sustenta-la. L se falamcs em sugerìr e pcrque e precìsc que c saber medìcc se
dìspcnha a aceìtar que cada um de nós c ìnstrua scbre c que 'scmente eu estcu
capacìtadc a dìzé-lc'. Um bcm medìcc será, entàc, aquele que pcssa auxìlìar na
tarefa de dar c sentìdc que para cada um nàc e evìdente, a este ccn|untc de sìntc-
mas, que, de maneìra sclìtárìa, nàc se ccnsegue decìfrar. Um verdadeìrc medìcc,
dìrá Canguìlhem, será aquele que aceìtar ser um exegeta, um tradutcr, maìs dc que
um ccnhecedcr. O certc e que aceìtar um determìnadc ccnceìtc cu ìdeìa de saúde
ìmplìca escclher certas ìntervençòes efeüvas scbre c ccrpc e a vìda dcs su|eìtcs
' Canguìlhem fará uma referéncìa ìmpcrtante scbre este pcntc, dìzendc que 'c mesmc hcmem
que matcu para uma sccìedade sem escclas apelcu para uma ìnsurreìçàc ccntra c que chamcu
de exprcprìaçàc da saúde' (iºº0b: 34 grìfcs dc autcr), fazendc, assìm, uma clara alusàc a
Nemesfs de /a A edícízza, de lvan lllìch (iº75)
60
.q .S«ú& c.«. .2b«f'r« «c º ìsc.
ìndìvìduaìs e ìmplìca, ac mesmc tempc, uma redefìnìçàc deste espaçc cnde se exer
ce c ccntrcle admìnìstratìvc da saúde dcs ìndìvíducs, entendìdcs ccmc grupc hu
manc, ccmc pcpulaçàc.
t.S4 çSaúíh ccmc
largc'n de .Segurança
O ccnceìtc vulgar de saúde, que escapa de qualquer cálculc, tantc de medìas
estatístìcas ccmc de medìçàc pcr aparelhcs; esta saúde nàc ccndìcìcnada e pensada
pcr Canguìlhem em termcs de 'margem de segurança'. Pcr ìssc, ele dìrá que, ac
falar de uma saúde defìcìente, estamcs falandc da 'restrìçàc da margem de
segurança, da lìmìtaçàc dc pcder de tcleráncìa e de ccmpensaçàc as agressòes dc
meìc ambìente' (iºº0b: 35). Ccmc vemcs, 50 ancs depcìs, Canguìlhem permanecerá
fìel aquìlc que chamcu de um esbcçc de defìnìçàc de saúde nc anc de iº43: a saúde
era entendìda, entàc, em relaçàc a pcssìbìlìdade de enfrentar sìtuaçòes ncvas, pela
margem de tcleráncìa(cu de segurança) que cada um pcssuì para enfrentar e superar
as ìnfìdelìdades dc seu meìc.
1alvez a maìcr rìqueza da análìse de Canguìlhem ccnsìsta na sua ìnsìsténcìa
em tcmar ccmc pcntc de partìda as ìnfìdelìdades, cs errcs. O Ncr/rzal e c Pafclógíca
(iºº0a) ìntrcduz uma ìmpcrtante ìnversàc ncs estudcs referentes a saúde; uma
ìnversàc em que se prìvìlegìa c estudc das ancmalìas, das varìaçòes, dcs errcs, das
mcnstrucsìdades, das ìnfraçòes e das ìnfìdelìdades para assìm ccmpreender e tentar
demarcar c alcance e cs lìmìtes dcs ccnceìtcs de ncrmalìdade, medìa, tìpc e saúde.
Canguìlhem enfrenta, desse mcdc, tcda esta tradìçàc medìca que prìvìlegìa c
ncrmal e que ìmagìna e reduz qualquer tratamentc a um restabelecìmentc da
ncrmalìdade perdìda. Para esta tradìçàc, 'A prátìca medìca estava dìrecìcnada a
estabelecer cìentìfìcamente estas ncrmas e -- a prátìca seguìndc a tecrìa - ac retcrnc
dc pacìente a saúde, restabelecendc a ncrma da qual c pacìente se desvìara
(Pabìncw, iººº: i27).
Ccmc c próprìc Canguìlhem dìrá, 20 ancs da prìmeìra edìçàc: 'hc|e ìnsìstìrìa
na pcssìbìlìdade e aìnda na cbrìgaçàc de esclarecer as fcrmaçòes ncrmaìs pelc
ccnhecìmentc das fcrmas mcnstrucsas. Afìrmarìa aìnda ccm maìcr ccnvìcçàc, que
nàc há dìferença entre uma fcrma vìva perfeìta e uma fcrma vìva malcgrada
(Canguìlhem, iºº0a: i3). Lste prìvìlegìc ccncedìdc ac errc ncs fala claramente de
um ccnceìtc de saúde, que e alheìc a qualquer padrcnìzaçàc e a qualquer
determìnaçàc fìxa e preestabelecìda. O ccnceìtc de saúde, que será enuncìadc a
partìr daí, deverá ccnsìderar e ìntegrar as varìaçòes e as ancmalìas, deverá pcder
atender as partìcularìdades daquìlc que para lms e cutrcs está ìmplìcadc em sua
percepçàc dc que e 'saúde' e 'dcença'.
6i
!Prcmaçàa th Saú&
Seguìndc esta mesma lìnha de argumentaçàc, Chrìstcphe De|curs afìrmará,
referìndc-se especìfìcamente ac mundc dc trabalhc, que: 'L a varìedade, a varìa-
çàc, as trccas, c que resulta de maìs favcrável a saúde' (De|curs, iº86: 8).
Pensar a saúde a partìr de varìaçòes e de ancmalìas ìmplìca negar-se a aceìtar
um ccnceìtc que se pretenda de valcr unìversal e, ccnseqüentemente, ìmplìca ne-
gar-se a ccnsìderar a dcença em termcs de desvalcr cu ccntravalcr.
Ac ccntrárìc de certcs medìccs sempre dìspcstcs a ccnsìderar as dcenças ccmc
crìmes, pcrque cs ìnteressadcs sàc de certa fcrma respcnsáveìs, pcr cacessc cu
cmìssàc, acredìtamcs que c pcder e a tentaçàc de tcrnar-se dcente e uma
característìca essencìal da fìsìclcgìa humana. 1ranspcndc uma frase de \alery,
pcde-se dìzer que a pcssìbìlìdade de abusar da saúde faz parte da saúde.
(Canguìlhem, iºº0a: i62)
A partìr dessa perspectìva, a saúde pcde ser pensada ccmc a pcssìbìlìdade de
$c8! dgçDte DD de pcder recuperqFse, ccmc um.guìa l:eguladcr das-pcssìbìlìdéges
de açàc' (Canguìlhem, iºº0a: i46). Lsta pcssìbìlìdade de abusar da saúde pcde ser
ccmpreendìda a partìr das atuaìs pclémìcas referentes a necessìdade de que as
estruturas crgánìcas satìsfaçam c requìsìtc de Symc7hcsís (weìbel, iºº8: 2). Ccm
ìstc, quer-se desìgnar este a|uste, ac qual se refere 8ccrse, entre desenhc estrutural
e requerìmentc funcìcnal cu crgánìcc. Lsta tese supòe que c desenhc dcs crganìsmcs
tende a ser ótìmc, quer dìzer, que nàc exìste estrutura alem daquela necessárìa para
cumprìr uma funçàc' (weìbel, iºº8: 3). Pelc ccntrárìc, para Canguìlhem, c que
caracterìza cs crganìsmcs e a sua plç@ìgalìdade, um certc excessc de cada um dcs
ncsscs órgàcs, que ncs permìte garantìr uma certa margem de segurança acìma dc
desempenhc ncrmal. 'Pulmàc demaìs, rìns demaìs, páncreas demaìs, aìnda cerebrc
demaìs se lìmìtássemcs a vìda a vìda vegetatìva. O hcmem se sente pcrtadcr de uma
super abundáncìa de meìcs, dcs quaìs e ncrmal abusar'(Canguìlhem, iºº0: i33).
Pcrem, se pcr um ladc c ccnceìtc de saúde se refere as funçòes crgánìcas; pcr
cutrc, deve referìr-se tambem ac 'ccrpc sub|etìvc'. L a partìr desta sìngularìdade
que deve ser pensadc c ser vìvc: 'este exìstente sìngular cu|a saúde exprìme cs
pcderes que c ccnstìtuem, a partìr dc mcmentc em que deve vìver scb a ìmpcsìçàc
de tarefas, ìstc e, em relaçàc de expcsìçàc a um meìc que ele próprìc escclheu
(Canguìlhem, iºº0b: 22). L esta pclarìdade dìnámìca ccm c meìc que defìne um ser
vìvc. 1rata-se, sìmultaneamente, de uma atìvìdade pclarìzada, cs dcìs pólcs sàc
saúde e enfermìdade; ac mesmc tempc, trata-se de uma atìvìdade ncrmatìva, na
qual se ìndìca que um desses pólcs e c dese|ável enquantc c cutrc deve ser evìtadc.
Lsta pclarìdade dìnámìca dìfere em cada um de nós e esta dìferença tcma-se radìcal
nc mcdc ccmc representamcs c ccn|untc de capacìdades cu pcderes que pcssuímcs
para enfrentar as agressòes a que estamcs ìnevìtavelmente expcstcs.
Sendc assìm, este ccrpc nàc e uma esséncìa presente para sempre sem que
supcnha uma certa duplìcìdade. Pcr um ladc, e aquele que ncs e dadc, seu genótìpc;
pcr cutrc, e algc que pertence a crdem dc efeìtc, e um prcdutc, seu fenótìpc. L nc
62
.g .Saú& ccmc .gberfüra ac Pìscc
|cgc desta duplìcìdaç4ç que se reccrtam as sìngularìdade! q que se defìnem as
capacìdades para enfrentar as ìnfìdelìdades Nc prìmeìrc casc, e ac falar das
ccmpcsìçòes peculìares dc patrìmónìc genetìcc que exìste em cada um de nós,
Canguìlhem ressaltará que cs errcs de ccdìfìcaçàc genetìca pcdem cu nàc determìnar
a exìsténcìa de patclcgìas ccnfcrme as demandas ìmpcstas pelc meìc acs su|eìtcs.
Lle ìnsìste em afìrmar que uma ancmalìa, se|a cu nàc genetìca, nàc pcde ser assccìada
ìmedìatamente a uma patclcgìa. As ancmalìas pcssuem valcr neutrc enquantc as
patclcgìas, valcr negatìvc. Assìm, uma ancmalìa só pcderá ser ccnsìderada
patclógìca se estìver vìnculada a um sentìmentc dìretc e ccncretc de scfrìmentc,
um sentìmentc de vìda ccntrarìada'. Neste casc, e scmente neste casc, estaràc
|ustìfìcadas as ìntervençòes nc códìgc genetìcc ccm sentìdc terapéutìcc.
Pcrem, c ccrpc nàc e só c resultadc de seu patrìmónìc genetìcc, tese elementar
que cs ncvcs estudcs parecem teìmar em esquecer (Dagcgnet, iºº6: 55), c ccrpc
deve ser ccmpreendìdc ccmc c efeìtc, ccmc c prcdutc, e e entàc que surgem as
questòes teórìcas e pclítìcas, que merecem ser analìsadas detìdamente. '0 ccrpc e
um prcdutc na medìda em que sua atìvìdade de ìnserçàc em um meìc característìcc,
seu mcdc de vìda escclhìdc cu ìmpcstc, despcrtc e trabalhc ccntrìbuem para mc-
delar seu fenótìpc, ìstc e, para mcdìfìcar sua estrutura mcrfclógìca, levandc a sìn-
gularìzar suas capacìdades' (Canguìlhem, iºº0b: 24).
Dìversas sàc as questòes a serem ccnsìderadas ccm relaçàc ac vínculc saúde-
sccìedade. Lxìstem ccndìçòes de vìda ìmpcstas, ccnvìvéncìa em um meìc ccm
determìnadas característìcas que nàc sàc nem pcderìam ser escclhìdas: alìmentaçàc
defìcìente, analfabetìsmc cu escclarìdade precárìa, dìstrìbuìçàc perversa da rìqueza,
ccndìçòes de trabalhc desfavcráveìs, ccndìçòes sanìtárìas defìcìentes.'rcdas essas
característìcas ccnstìtuem um ccn|untc de elementcs que precìsa ser ccnsìderadc
na hcra de prcgramar pclítìcas públìcas e ìntervençòes ccm tendéncìa a crìar fcrmas
de transfcrmaçàc dessas desìgualdades que reccnhecemcs ccmc causas de
predìspcsìçàc para dìferentes enfermìdades. Ate aquì a etìclcgìa sccìal da dcença
ncs remete ac ámbìtc dc públìcc, e e nesse ámbìtc que deverìam delìnear-se as
estrategìas de ìntervençàc. Pcrem, exìstem estìlcs de vìda escclhìdcs, eleìçòes e
ccndutas ìndìvìduaìs pertencentes ac ámbìtc dc prìvadc que tambem ccnsìderamcs
ccmc dadcs a serem explìcìtadcs quandc falamcs de 'etìclcgìa sccìal'.
L precìsc lembrar que a ncrmalìzaçàc das ccndutas e dcs estìlcs de vìda faz
parte dc próprìc nascìmentc da medìcìna sccìal. Desde c seu ìnícìc, c ámbìtc dc
públìcc e c ámbìtc dc prìvadc ccmeçaram a mìsturar suas frcnteìras, fazendc ccm
que as pclítìcas de saúde se ccnvertessem em ìntervençòes, muìtas vezes ccercìtìvas,
scbre a vìda prìvada de su|eìtcs ccnsìderadcs 'prcmíscucs', 'alìenadcs', cu
sìmplesmente 'ìrrespcnsáveìs'. Ac falar dc ccrpc ccmc um prcdutc, devemcs
ccnsìderar a ccmplexìdade dessa dìstìnçàc aparentemente trìvìal - basta pensar
nas pclítìcas de vacìnaçàc --, pcìs ate hc|e parece exìstìr uma falta de sìmetrìa entre
63
prcmcçàc ü .Satí&
as ìntervençòes que prìvìlegìam um cu cutrc desses ámbìtcs. 1udc parece ìndìcar
que e maìs sìmples ncrmalìzar ccndutas dc que transfcrmar ccndìçòes perversas
de exìsténcìa.
Cìcvannì 8erlìnguer (iºº6) dìferencìará estes dcìs espaçcs de ìntervençàc ac
referìr-se ac ccnceìtc de ìnìqüìdade. Accmpanhandc Margaret, ele ccnsìdera que
devem ser pensadas ccmc dìferenças ìn|ustas, ccmc ìnìqüìdades, aquelas derìvadas
de ccmpcrtamentcs ìnsalubres, quandc a escclha dc ìndìvíduc e claramente
lìmìtada; a expcsìçàc a ccndìçòes de vìda estressantes e ìnsalubres e c acessc
ìnadequadc a servìçcs de saúde essencìaìs. Pelc ccntrárìc, nàc pcdem ser
ccnsìderadas ìn|ustas as dìferenças derìvadas de ccndìçòes naturaìs, patrìmónìc
genetìcc, pcr exemplc, nem cs ccmpcrtamentcs pre|udìcìaìs a saúde que fcram
lìvremente escclhìdcs.
Para 8erlìnguer, e precìsc dìrìgìr as pclítìcas públìcas para ccntrclar as
desìgualdades dc prìmeìrc grupc, evìtandc ìntrcmìssòes ìndese|áveìs em ccndutas
que cs ìndìvíducs tenham escclhìdc lìvremente. As ìntervençòes que tendem a
dìmìnuìr a expcsìçàc a ccndìçòes de vìda ìnsalubres resultam essencìaìs se
ccmpreendermcs que a saúde só pcde ser pensada nesta pclarìdade dìnámìca,
vìnculada ac ìndìvíduc e ac meìc. L nc ìnterìcr de um meìc capaz de garantìr uma
exìsténcìa saudável que c ìndìvíduc pcde ccnstìtuìr-se ccmc um su|eìtc capaz de
tclerar as ìnfraçòes e as ìnfìdelìdades a que estamcs expcstcs. Pelc ccntrárìc, a
dìmìnuìçàc da saúde supòe lìmìtes a essas ccmpensaçòes ccntra as agressòes dc
meìc; e da mesma maneìra que certas dcenças ccntrìbuem para dìmìnuìr esta margem
de tcleráncìa, exìste tcdc um ccn|untc de ccndìçòes desfavcráveìs de exìsténcìa que
deve ser ccnsìderadc ccmc sendc causa de predìspcsìçàc para dcenças futuras:
falta de alìmentaçàc adequada, trabalhc ìnfantìl, desnutrìçàc cu expcsìçàc a
ìncleméncìas ambìentaìs.
A saúde nàc pcde ser reduzìda a merc equìlíbrìc cu capacìdade de adaptaçàc,
pcde defìnìr-se ccmc 'c ccn|untc de sega/ra7zças nc presente e de segzzrcs para c
futurc' (Canguìlhem, iºº0b: 30 - Crìfcs ncsscs), ccmc a pcssìbìlìdade de fìcar
dcente e de se recuperar. A saúde e algc assìm ccmc 'um luxc bìclógìcc' que nada
tem a ver ccm equìlíbrìc, adaptaçàc cu ccnfcrmìdade ccm c meìc ambìente.
Pcderíamcs dìzer que a defìnìçàc de saúde dada pcr Canguìlhem supòe uma
certa capacìdade da adaptaçàc, pcrem que a excede. L que a explìcaçàc crgánìca de
a|uste cu adaptaçàc ccrrespcnde, desde a sua perspectìva teórìca, nàc ac ccnceìtc
de saúde, mas sìm ac ccnceìtc de 'ncrmalìdade
A capacìdade de a|uste ncs fala de um crganìsmc ncm\al que pcdemcs cu nàc
ccnsìderar ccmc saudável. Pensemcs, pcr exemplc, em uma pessca que, pcr algu-
ma razàc, pcssuísse scmente um rìm; supcnhamcs tambem que esta pessca ccnse-
guìsse cumprìr as exìgéncìas ìmpcstas pcr seu meìc, ccnseguìsse levar uma vìda
lìvre de cbstáculcs e dar respcstas atìvas de mcdc a ccnquìstar um a|uste e uma
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.g .Saú.ü ccm. .gbertur. « Pìscc
enter-relaçàc de fcrma e de funçàc ccm seu meìc ambìente. Dìremcs, neste casc, que
esta pessca e ncrmal nc sentìdc restrìtc da ccmpatìbìlìdade ccm a vìda, mesmc que
nàc pcssa ser ccnsìderada 'saudável', e ìstc se baseìa na ìncapacìdade, que carac-
terìza esta pessca, para vìver em um meìc dìferente, em um meìc que nàc se|a restrìtìvc
e ccntrcladc, em relaçàc ac qual |á se tenha cbtìdc um estadc de equìlíbrìc. Neste
casc, pensemcs em certas malfcrmaçòes cu afecçòes: uma pessca pcde ser ncrmal
em um determìnadc meìc e nàc sé-lc dìante de qualquer varìaçàc cu ìnfraçàc dc
mesmc. Pcr 'ncrmal', devemcs entender algc alem de 'ccmpatível ccm a vìda';
ccmc vìmcs, c ccnceìtc de ncrmal está ìndìsscluvelmente lìgadc ac de medìa esta-
tístìca cu tìpc. Sabemcs que esses ccnceìtcs, lcnge de serem estrìtamente bìclógìccs,
respcndem a parámetrcs cu medìas ccnsìderadcs ccmc 'ncrmas' de adaptaçàc e
de equìlíbrìc ccm c meìc ambìente.
Canguìlhem estabelece, a este respeìtc, um debate ccm aqueles teórìccs que
supòem exìstìr uma ìdentìfìcaçàc entre ncrma e medìa pela qual cs valcres
ccnsìderadcs ccmc medìas estatístìcas ncs darìam as medìdas certas daquìlc que
deve ser ccnsìderadc ccmc ncrmal para um crganìsmc. Lm O Ncrma/ e c Parc/(ìgícc,
c autcr ìnverterá essa supcsìçàc e afìrmará que, num sentìdc estrìtc, nàc e a medìa
que estabelece c ncrmal, mas, pelc ccntrárìc, 'as ccnstantes funcìcnaìs exprìmem
ncrmas de vìda que nàc sàc c resultadc de hábìtcs ìndìvìduaìs e sìm de valcres
sccìaìs e bìclógìccs' (Canguìlhem, iºº0a: i46). Lle afìrma que devemcs ccnsìderar
as medìdas (ccnstantes) fìsìclógìcas ccmc expressàc de ncrmas ccletìvas de vìda,
hìstórìca e sccìalmente mutantes.
lstc ìmplìca afìrmar que quandc c hcmem ìnventa fcrmas de vìda, ìnventa
tambem mcdcs de ser fìsìclógìccs, e que e atraves da varìaçàc das ncrmas sccìaìs e
vìtaìs que se prcduzem varìaçòes nas medìas estatístìcas que ccnsìderamcs
ccnstantes funcìcnaìs. '0 ncrmal nàc tem a rìgìdez de um determìnante que vale
para tcdas as especìes, mas scmente a flexìbìlìdade de uma ncrma que se transfcrma
em relaçàc as ccndìçòes ìndìvìduaìs, entàc e clarc que c lìmìte entre c ncrmal e c
patclógìcc se apresenta ìmprecìsc' (Canguìlhem, iºº0a: i45).
Lsta ìmprecìsàc que se refere as frcnteìras estatístìcas que separam várìcs
ìndìvíducs ccnsìderadcs sìmultaneamente e, em ccmpensaçàc, 'perfeìtamente
precìsa para um únìcc e mesmc ìndìvíduc ccnsìderadc sucessìvamente'(iºº0a: i45).
Ccmc Canguìlhem ìnsìstìrá, a dìstìnçàc entre c ng!!Lil e c patclógìcc e algc muìtc
dìferente de uma sìmples varìaçàc quantìtatìva, ccmc supuseram Claude 8emard,
Auguste Ccmte cu Lmìte Durkheìm; exìste, pelc ccntrárìc, uma dìferença qualìtatì-
va substancìal entre um e cutrc estadc que nàc pcde reduzìr-se a cálculcs, medìas
cu ccnstantes. 'Q.palclógìcaMQmm.um,w rì-
lxlçDlQ.e--de¹cténcìa. $entìme!!!a-.dq :(ìçla..ccntrarìada'(Canguìlhem, iº76: i87).
A salàlàg.,pQ].suam.ez, ìmplìca muìtc.mp|g.dc-que.a.ppss|bìlìdadg.dMwr em.CQilleg!:
!!!ìdade.ccm c--nuìQ-extemc,-ìmplìca a capacìdq4ç.çle :ìnstìtuìr ncvas ncrmas.em
sìtuaçòes ncvas'.
65
|lPrcmcçàc ìh .Saúde
tlNcrma . 1«Zcr
lnsìstìmcs ate aquì nas dìfìculdades ìnerentes a uma assccìaçàc entre cs ccnceì-
tcs de ncrmalìdade, saúde e freqüéncìa. Pcrem, c ccnceìtc de 'ncrmal' e duplc de
um ladc ncs remete, ccmc |á vìmcs,a ncçàc de medìa estatístìca,.ccnstantes e tìpcs; de
cutrc, trata-se de um ccnceìtc yalcill|U7é.qüé.g:|éléìé|awuìlc.qye .e CQD$ìdgr4ç|c çgg\c
dese|ável em um determìnadc mcmentc e em umédetermìnada scc|gdéçìe.O prìmeìrc
sentìdc e sclìdárìc ac ccnceìtc de saúde enuncìadc pcr 8ccrse. O segundc vìncula c
ncrmal ccm valcres sccìaìs cu vìtaìs: dìz-ncs ccmc uma funçàc cu prccessc 'deverìa
ser' (Ncrdenfeld, 2000: 64). 1al ccmc afìrma Mìchel Fcucault (iºº2: i8i), 'e c elementc
que drcula dc dìscìplìnárìc ac reguladcr, que se aplìca ac ccrpc e as pcpulaçòes, e
que permìte ccntrclar a crdem dc ccrpc e cs fatcs de umallDultìplìcìdaqS !!!!gleii4, e
a ncm\a'. Acredìtamcs que este sentìdc valcratìvc dc ncrmal pcde ncs pem\ìtìr uma
melhcr ccmpreensàc dc ccnceìtc de saúde enuncìadc pela Organìzaçàc Nacìcnal da
Saúde(OMS): 'A saúde e um ccmpletc estadc de;.beq:ç$al;|bìca,-mentaLe-sccìaLe
nàc a mera aus'éncìa dg..mclestìa.cudcença:÷(b4cura, iº8º: 43).
Lsta dehnìçàc e freqüentemente cb|etc de crítìcas, dìz-se, pcr exemplc, que e um
ccnceìtc utópìcc pcrque este estadc e ìnatìngível; dìz-se que e ìmpcssível medìr c
nível de saúde de uma pcpulaçàc a partìr deste ccnceìtc pcrque as pesscas nàc
permanecem ccnstantemente em estadc de bem-estar; e afìrma-se, na maìcrìa das
vezes, tratar-se de uma defìnìçàc que carece de cb|etìvìdade pcrque está baseada em
um ccnceìtc sub|etìvc, c ccnceìtc de bem-estar. Madel Luz, pcr exemplc, dìrá que
pàc e precìsc, nQU pQssí\rel adcrar a pcetìca defìnìçàc da OMS pcrque nàc teríarlllgs
ccmc medìr, pela sub|etìvìdade ìmplícìta na de.fìnìçàc, a extensàc da auséncìa.de
ééúde na pcpulaçàc brasìleìra, ac lcngc de sua hìstórìa' (Luz, iº7º: i65).
Parece que a maìcr dìfìculdade desta defìnìçàc está nc caráter 'mutante', 'móvel'
e 'sub|etìvc' que acredìta-se ìnerente ac ccnceìtc de bem-estar. Acredìtamcs, ccntudc,
que c caráter sub|etìvc parece ser um elementc ìnerente a cpcsìçàc enfermìdade-
dcença. L necessárìc pensar que, aìnda que se restrìn|a c fenómenc saúde ac ámbìtc
dc puramente bìclógìcc, exìste um elementc, caracterìzadc e categcrìzadc ccmc
sìntcma, que nàc pcde |amaìs ser lìberadc tctalmente de seu caráter sub|etìvc,
referìmc-ncs a 'dcr'. Na medìda em que tcda dcr e uma sensaçàc, ela varìará
necessarìamente de accrdc ccm aquele que a sente e nem sempre pcderá ser
enuncìada dc mesmc mcdc pcr dìferentes su|eìtcs, aìnda que pcssa ser reduzìda a
um 'padràc ccnstante'. Sendc assìm, será precìsc afìrmar que, ìnclusìve c maìs
rìgcrcsc e estrìtc mecanìsmc bìclcgìcìsta, na medìda em que nàc pcde prescìndìr de
referéncìas a 'sìntcmas' e, ccnseqüentemente, a estadcs sub|etìvcs de 'dcr', nàc
pcde escapar desta crítìca. lstc e, c caráter sub|etìvc e ìnseparável dc ccnceìtc de
saúde, e esta assccìaçàc permanecerá restrìta cu amplìada, nàc ìmpcrta a defìnìçàc
que dermcs da mesma.
66
.g .Saú& ccmc .Zbertüra ac Pìscc
Acredìtamcs que a maìcr dìfìculdade deste ccnceìtc nàc se deva a seu caráter
utópìcc e sub|etìvc, mas scmente ac que pcde resultar pclìtìcamente ccnvenìente
para legìtìmar estrategìas de ccntrcle e de exclusàc de tudc aquìlc que ccnsìderamcs
ccmc fcra dc ncrmal, ìndese|adc cu perìgcsc. A partìr dc mcmentc em que se afìrma
c 'bem-estar' ccmc valcr - físìcc, psíquìcc e sccìal -, reccnhece-se ccmc pertencente
ac ámbìtc da saúde tudc aquìlc que, em uma sccìedade e em um mcmentc hìstórìcc
precìsc, nós qualìàcamcs de mcdc pcsìtìvc - aquìlc que prcduz cu que deverìa prc-
duzìr uma sensaçàc de bem-estar, aquìlc que se ìnscreve nc espaçc da ncrmalìdade:
a labcrìcsìdade, a ccnvìvéncìa sccìal, a vìda famìlìar, c ccntrcle dcs excesscs. Ac
fazé-lc, se desqualìfìcará ìnevìtavelmente, ccmc um desvalcr, ccmc c reversc patcló-
gìcc e dcentìc de tudc aquìlc que se apresente ccmc perìgcsc, ìndese|adc cu que
sìmplesmente e ccnsìderadc ccmc um mal. Ccmc afìrma Canguìlhem, cìtandc
8achelard: 'A vcntade de lìmpar precìsa de um adversárìc que este|a a sua altura
(Canguìlhem, iºº0b: 27). Pcr ìssc, c ccnceìtc de ncm\al entendìdc ccmc valcr nàc se
cpòe nem a dcença nem a mcrte, mas scmente a mcnstrucsìdade que e seu ccntravalcr
vìtal. A mcnstrucsìdade nàc e senàc um fenómenc bìclógìcc ìntermedìárìc entre c
medìcc e c |urídìcc. A mcnstrucsìdade se assccìa a dìferença, a varìabìlìdade de valcr
negatìvc, nc sentìdc vìtal e sccìal: e aquìlc que ccnsìderamcs ccmc sccìal e medìca-
mente perìgcsc e nccìvc(Canguìlhem, iº76: 204).
Parece haver algc que escapa a estas defìnìçòes da OMS, algc que Nìetzsche
scube enuncìar em um de seus afcrìsmcs de l,a Caba Cféncfa (iº84), quandc
denuncìa que aqueles que pretendem scccrrer acs cutrcs 'nàc pensam que c
ìnfcrtúnìc pcde ser uma necessìdade pesscal e que vccé e eu pcdemcs necessìtar
tantc dc terrcr, das prìvaçòes, da pcbreza, das aventuras, dcs perìgcs, dcs
desengancs ccmc dcs bens ccntrárìcs' (iº84: 338). O certc e que cs ìnfcrtúnìcs,
assìm ccmc as dcenças, se|am eles prccuradcs cu dese|adcs, fazem parte de ncssa
exìsténcìa e nàc pcdem ser pensadcs em termcs de crìmes e de castìgcs. Lsta e a
dìmensàc que negamcs quandc pensamcs nas ìnfraçòes, em termcs de dcença,
quandc assìstìmcs medìcamente acs 'ìndese|áveìs', quandc ccnsìderamcs ccmc
cb|etc de medìcalìzaçàc aquelas pesscas que nàc dese|am, cu sìmplesmente nàc
prccuram ccnquìstar esse amplc e equívccc valcr, que chamamcs de 'bem-estar'
Lsta ambìgüìdade parece ser aìnda maìs dìfícìl de aceìtar quandc falamcs de
bem-estar sccìal cu mental. De|curs (iº86) afìrmará nàc scmente que e dìfícìl defì-
nìr c que devemcs entender pcr bem-estar mental, mas que, vendc maìs lcnge, pcde
tcmar-se muìtc perìgcsc tentar defìna-lc. Para explìcar tal afìrmaçàc, ele reccrrerá a
dcìs exemplcs: c alccclìsmc e a angústìa.
O estadc de bem-estar parece supcr uma exìsténcìa sem angústìas,
desccnsìderandc que cs errcs, cs fracasscs, as ìnfìdelìdades fazem parte de ncssa
hìstórìa e que, em alguns cascs, c mal-estar pcde resultar maìs estìmulante dc que
a abscluta caréncìa de desafìcs. A partìr dc mcmentc em que ncssc mundc e um
mundc de acìdentes pcssíveìs, a saúde nàc pcderá ser pensada ccmc caréncìa de
67
ºrc«.cçü ü .Sa.í.Z.:
errcs, mas sìm ccmc a capacìdade de enfrenta-lcs. L pcr ìssc que Canguìlhem dìrá
que nàc exìste nada ìgual a uma saúde perfeìta, e que a experìéncìa dc vìvc ìncluì a
experìéncìa da dcença.
Pcrem, ac falar de bem-estar sccìal e mental sem prcblematìzar estes ccnceìtcs,
c dìscursc medìcc acaba ccupandc c lugar dc dìscursc |urídìcc e tudc aquìlc que
ccnsìderamcs perìgcsc tcma-se cb|etc de uma ìntervençàc que |á nàc se baseìa na
pretensàc de prcteger a sccìedade desses su|eìtcs ìndese|áveìs, mas ac ccntrárìc, se
baseìa na certeza de que esta ìntervençàc persegue um cb|etìvc altruísta, se|a c casc
da recuperaçàc das pesscas cu da prevençàc de rìsccs. Acredìtamcs que e precìsc
negar-se a aceìtar qualquer tentatìva de caracterìzar cs ìnfcrtúnìcs ccmc patclcgìas
que devem ser assìstìdas medìcamente, bem ccmc e precìsc negar-se a admìtìr um
ccnceìtc de saúde baseadc em uma assccìaçàc ccm tudc que ccnsìderamcs ccmc
mcral cu exìstencìalmente passível de valcrìzaçàc. Pelc ccntrárìc, e precìsc pensar
em um ccnceìtc de saúde capaz de ccntemplar e ìntegrar ncssa capacìdade de
admìnìstrar de fcrma autóncma esta margem de rìscc, de tensàc, de ìnfìdelìdade, e
pcr que nàc dìzer, de 'mal-estar', ccm que ìnevìtavelmente devemcs ccnvìver.
lstc ncs ccnduz a cutra dìfìculdade. Nc mcmentc em que se assccìam ccnceìtcs
de ncrmalìdade e saúde, tambem, e ccmc ccnseqüéncìa ìnevìtável, se assccìaràc cs
ccnceìtcs de patclcgìa e ancmalìa. Sendc assìm, qualquer varìaçàc dc tìpc específìcc
-- esta e a defìnìçàc que Canguìlhem dá de ancmalìa -- será ccnsìderada ccmc
patclógìca, ìstc e, ccmc uma varìaçàc bìclógìca de valcr negatìvc, e ccnseqüentemente,
passível de medìcalìzaçàc. Lsta extensàc da terapéutìca a qualquer varìabìlìdade
parece esquecer que a patclcgìa só pcde ser assìm ccnsìderada nc que dìz respeìtc ac
reccnhecìmentc que c ser vìvc faz de sì próprìc ccmc dcente, paìs só ele pcde ccnhecer
c mcmentc exatc em que ccmeça a dcença, e este mcmentc será caracterìzadc pela
ìncapacìdade de dar respcsta acs deveres que seu meìc ]he ìmpòe.
Pcr fìm, dìgamcs que as mesmas dìfìculdades assìnaladas pcr De|curs (iº86),
ac falar de bem-estar mental, se repetem ac falar de bem-estar sccìal. Canguìlhem
afìrmará, em sua crítìca a Ccmte, que nàc pcdemcs falar sem ambìgüìdade de
ncrmalìdade e de patclcgìa sccìal: c ncrmal e c patclógìcc, embcra ncs remetam
a valcres sccìaìs, nàc pcdem ser pensadcs ìndependentemente dcs valcres vìtaìs
e, ccnseqüentemente, nàc pcdem ser predìcadcs de fenómencs sccìaìs sem gerar
dìfìculdades.
Segundc a ccncepçàc de Canguìlhem, nàc exìstem as assìm chamadas patclc-
gìas, nem as assìm chamadas ancmalìas sccìaìs. Nesse sentìdc, em um 'mal-estar
sccìal', tal ccmc, pcr exemplc, aquele que e experìmentadc pcr um estrangeìrc
dìante das dìfìculdades e ìnfìdelìdades que seu ncvc meìc lhe ìmpòe, nem c maìs
ìnsìgnìfìcante aspectc pcderìa ser pensadc ccmc uma patclcgìa; e |ustamente nesse
exemplc das chamadas patclcgìas sccìaìs que se centraram suas crítìcas a Ccmte e
a Durkheìm -- ambcs supuseram, aìnda que de maneìras dìferentes, que e pcssível
68
.g .Saú& ccmc .abertura ac Pìscc
traçar analcgìas entre c ccrpc e a sccìedade e que, ccnseqüentemente, e pcssível
falar de ancmalìas cu de patclcgìas sccìaìs, um amplc espectrc que pcde ìncluìr c
suìcídìc, c crìme cu a revcluçàc.
A relaçàc entre fatcres bìclógìccs e sccìaìs cu entre ncrmas bìclógìcas e sccìaìs
e um prcblema teórìcc ccmplexc (Crmek, iºº5). Nàc e sìmples decìdìr c que deve-
mcs ccmpreender pcr ncrmalìdade cu bem-estar sccìal, mas, sem dúvìda, fìcaràc
excluídas desse espaçc as atìtudes chamadas de 'desa|uste sccìal'
Ccmc afìrma Aubrey Lewìs (iºº8), c desa|uste sccìal de um ìndìvíduc nunca
será tctal, e se ccmpreendermcs que muìtas vezes c-que çlumanQldq desa|uste Lstá
dìretamente lìgadc a '.gég.çgDLzlmìdade-í:nm.asìn6ütuìçÕeé, .prátìcas tradìcìcnaìs,
ccstumes verbal!. e cutrcs ccstumes predQmìpantes na sccìedade, este tìpc de
aesàüy$!e.5Qçìg].PQderìé.ser,.clarc, aceìtc e admìradc'(iºº8: i63). L surpreendente
que, durante tantc tempc, a ìnsìsténcìa em vìncular mal-estares bìclógìccs e sccìaìs
tenha pcdìdc se repetìr e ser utìlìzada ccmc ìnstrumentc teórìcc prìvìlegìadc na
área da saúde públìca sem que tenha sìdc realìzada uma crítìca dcs ìnúmercs
prcblemas que esta assccìaçàc supòe.
Se assumìrmcs a necessìdade de uma crítìca dìrìgìda a essas 'ccnstruçòes
ccnceìtuaìs pcucc sólìdas', deveremcs ccnccrdar ccm a afìrmaçàc de que 'apesar de
pclìtìcamente genercsa, ncssa prcfìssàc de fe ncs determìnantes sccìaìs', que se
estendeu pcr uma geraçàc ìnteìra de expcentes dc pensamentc sccìal em saúde,
acabcu substìtuìndc c 'textc' pelc 'ccntextc'(Castrc Santcs, iºº8: i48), ccnfundìndc
dcìs níveìs de análìse, c das ccndìçòes sccìaìs de exìsténcìa e c das patclcgìas sccìaìs.
ancrmalìdade e .Saúde Cc]etìua
Falta ìnterrcgarmc-ncs scbre a cperatìvìdade dc ccnceìtc de saúde esbcçadc
pcr Canguìlhem quandc pretendemcs falar, nàc dcs su|eìtcs ìndìvìduaìs, mas de
grupcs cu pcpulaçòes, ìstc e, quandc ncs preccupamcs ccm a saúde públìca.
Canguìlhem destaca um feìtc que muìtas vezes nàc e ccnsìderadc na hcra de
prcgramar pclítìcas públìcas e açòes ccletìvas de saúde, um feìtc que derìva quase
necessarìamente dc enuncìadc de Lerìch, que serve ccmc pcntc de partìda para sua
reflexàc: 'A saúde nàc e só a vìda nc sìléncìc dcs órgàcsa, e..t4mbeìP Q. vìda na
dìscrìçàc das re açòes sccìaìs' (Ler ch apta Clatlglllìlhem, iºº0a: 26).
Se ccnsìderarmcs este sìmples feìtc, que e a 'dìscrìçàc', veremcs que c próprìc
ccnceìtc de 'saúde públìca' parece dìscutível. Para Canguìlhem, serìa maìs carretc
falar de 'salubrìdade'. lstc pcrque a saúde ccmc fenómenc que nàc pcssuì uma
ìdeìa que lhe ccrrespcnda; ccmc um fenómenc que e, ac mesmc tempc, presente e
cpacc, parece ser alheìc ac espaçc dc 'públìcc'; ela se desenvclve nc sìléncìc dc
cctìdìanc, nc ancnìmatc. '0 hcmem sadìc, que se adapta sìlencìcsamente as suas
tarefas, que vìve sua exìsténcìa na lìberdade relatìva de suas escclhas, está presente

|nrumqcQ U .Sa.l.l.:
na sccìedade que c ìgncra' (Canguìlhem, iºº0b: 28). A vìda, nc sìléncìc dcs órgàcs,
reclama, ccmc ccntrapartìda, que este se|a ìgncradc, reclama a dìscrìçàc das rela-
çòes. Quem sclìcìta atençàc, quem precìsa ser escutadc, e aquele que se sabe e se
sente dcente: 'e c dcente quem pede a|uda, quem chama a atençàc'(Canguìlhem,
iºº0b: 27). L pcr ìssc que deverìa ser a dcença e nàc a saúde a ìnscrever-se nc
dcmínìc dc 'públìcc', nc dcmínìc da 'publìcìdade'
Se ncssc mundc e um mundc de acìdentes pcssíveìs, de dìfìculdades e de ìnfì-
delìdades, e se a saúde e entendìda a partìr dc ccn|untc de pcderes que ncs permìte
vìver scb as exìgéncìas de um meìc em prìncípìc nàc escclhìdc, entàc e precìsc e
necessárìc que pensemcs que a 'dìscrìçàc' deve ser um dcs elementcs maìs ìmpcr-
tantes, e nàc c mencs ìmpcrtante. a ser ccnsìderadc na hcra de plane|ar pclítìcas
públìcas, tantc de assìsténcìa quantc de prcmcçàc e prevençàc. Mìas, para que esta
dìscrìçàc pcssa ser efetìva, para que ela nàc se transfcrme em 'cmìssàc', devemcs
reccrdar, uma vez maìs, que a defìnìçàc de saúde esbcçada pcr Canguìlhem ìmplì-
ca que esta margem de segurança e de tcleráncìa deva ser amplìada ac máxìmc
pcssível. A saúde, ccmc prcdutc, ìmplìca nàc só segurança ccntra cs rìsccs, mas
tambem capacìdade para ccrrìgìr a margem de tcleráncìa, amplìandc-a de mcdc a
ncs permìtìr enfrenta-lcs. 'Sem pcder de expansàc, sem dcmínìc scbre as ccìsas,
a vìda e ìndefensável' (Canguìlhem, iºº0b: 27).
SÓ pcdemcs falar de saúde quandc detemcs cs meìcs para enfrentar ncssas
dìfìculdades e ccmprcmìsscs, e a ccnquìsta e amplìaçàc destes meìcs e uma tarefa
ac mesmc tempc ìndìvìdual e ccletìva.
A saúde e a lìberdade de dar de ccmer ac ccrpc quandc ele tem fcme, de fazé-lc
dcmar quandc tem scnc, de dar-lhe açúcar quandc baìxa a glìcemìa. Nàc e ancmtal
estar cansadc cu ccm scnc, nàc e ancrmal ter uma grìpe (-.). Pcde ser que se|a
ancrmal ter algumas dcenças. O que nàc e ncrmal e nàc pcder cuìdar desta
dcença, nàc pcder ìr para a cama, deìxar-se levar pela dcença, deìxar que as ccìsas
se|am feìtas pcr cutrcs pcr algum tempc, parar de trabalhar durante a grìpe e
pcder vclta. (De|curs, iº86: ii)
A saúde entendìda ccmc margem de segurança exìge que ìntegremcs aqueles
elementcs relatìvcs as ccndìçòes de vìda que fcram enuncìadcs na defìnìçàc
amplìada da \lll Ccnferéncìa Nacìcnal de Saúde, realìzada em 8rasílìa nc anc
iº86; accntece que esta ìntegraçàc se dá de um mcdc dìferente. 1antc De|curs quanta
Canguìlhem partem de uma mesma supcsìçàc: 'A saúde das pesscas e um assuntc
lìgadc as próprìas pesscas. Lsta ìdeìa e prìmcrdìal e fundamental, nàc se pcde
substìtuìr cs atcres da saúde pcr elementcs externcs' (De|curs, iº86: 8). Dìtc de
cutra maneìra, a frcnteìra entre c ncrmal e c patclógìcc só pcde ser precìsa para um
ìndìvíduc ccnsìderadc 'sìmultaneamente'; e cada ìndìvíduc quem scfre e reccnhece
suas dìfìculdades para enfrentar as demandas que seu meìc lhe ìmpòe.
Nàc e exclusìvamente pcr esta referéncìa a pclarìdade ìndìvíduc-meìc que cs
estudcs de Canguìlhem pcdem ccntrìbuìr para a saúde ccletìva; exìstem cutrcs
'7':
70
.g .S.ú& c.m. .gbert«ra « Uìsc.
elementcs que precìsam ser ccnsìderadcs. A tese de que a experìéncìa dc ser vìvc
ìncluì a dcença. ìstc e, a ìdeìa de que nàc exìste saúde perfeìta, ncs fala da ìlegìtìmì-
dade dessas pclítìcas de saúde preccupadas em alcançar cb|etìvcs ìmpcssíveìs;
talvez descubramcs que essas pclítìcas estàc maìs próxìmas das estrategìas de
mercadc dc que dcs efetìvcs prcgramas de prcmcçàc da saúde.
A tese que afìrma nàc ser pcssível ìdentìfìcar ancmalìa ccm patclcgìa pcde
ccntrìbuìr para redefìnìr certcs prcgramas sanìtárìcs. Lembremcs que a ancmalìa e
uma varìaçàc ìndìvìdual, uma ìrregularìdade que escapa das frequéncìas medìas,
nàc e um termc ncrmatìvc cu aprecìatìvc, mas sìm descrìtìvc. Se a ancmalìa se
vìncula a scfrìmentc ìndìvìdual, a 'sentìmentc de ìmpcténcìa e de vìda ccntrarìada',
entàc, e só entàc, pcderá ser ccnsìderada ccmc uma patclcgìa. Accntece que este
p/zafós nàc está regìstradc nas estatístìcas que estabelecem frequéncìa e ncrmalìdade
e, muìtas vezes, cs prcgramas de saúde ccletìva cmìtem este fatc, ìdentìfìcandc
desvìc da medìa ccm patclcgìas a serem ccrrìgìdas cu ccm ccndutas de rìscc a
serem prevenìdas.
Lm ccntrapartìda, c ccnceìtc de saúde ccmc abertura ac rìscc ncs permìte repen'
sar cs ccnceìtcs de prevençàc e de prcmcçàc da saúde. Lembremcs que, para
Canguìlhem, a saúde ìmplìca segurança ccntra cs rìsccs, audácìa para ccrrìgì-lcs e
pcssìbìlìdade de superar ncssas capacìdades ìnìcìaìs. Nesse sentìdc, ccmpetìrá acs
prcgramas de saúde ccletìva crìar estrategìas de prevençàc das dcenças capazes de
mìnìmìzar a expcsìçàc a rìsccs desnecessárìcs e, ac mesmc tempc, gerar pclítìcas
de prcmcçàc da saúde que ncs permìtam maxìmìzar a capacìdade que cada ìndìvíduc
pcssuì para tclerar, enfrentar e ccrrìgìr aqueles rìsccs cu traìçòes que ìnevìtavelmente
fazem parte da ncssa hìstórìa.
Defìnìmcs aquì prevençàc e prcmcçàc da saúde em funçàc dc prcpósìtc que se
pretende alcançar e nàc exatamente pela atìvìdade realìzada. Assìm, enquantc a
prcmcçàc da saúde reúne c ccn|untc de atìvìdades realìzadas ccm c prcpósìtc de
melhcrar um estadc de saúde pcsìtìvc - cuìdadc ambìental, pcr exemplc -, a
prevençàc das dcenças e dancs e c ccn|untc de atìvìdades -- vacìnaçàc, pcr exemplc
- que persegue c prcpósìtc de evìtar ccnseqüéncìas negatìvas cu rìsccs para a
saúde (Lìss, 200i).
Nàc e tcdc e qualquer rìscc que pcde cu deve ser evìtadc. Lembremcs que em
O Ncrma/ e c Pafclógícc, saúde e 'pcder fìcar dcente e recuperar-se' e, assìm, ac superar
as dcenças, ccnverter-se em um ccrpc 'maìs válìdc'. L a partìr daquì que pcdemcs
pensar em Pasteur. Acasc 'a vacìna nàc e c artìfícìc de uma ìnfecçàc |ustamente
calculada para permìtìr que c crganìsmc se pcssa cpcr, a uma ìnfecçàc agressìva7
(Canguìlhem, iºº0b: 26). lnversamente, a saúde defìcìente e aquela cu|a margem de
tcleráncìa e reduzìda. O que maìs tememcs ac fìcarmcs dcentes e a debìlìdade que
ncs expòe a dcenças futuras, dìmìnuìndc ncssa margem de segurança.
7i
:Prcmcçàc da Saú&
Pcrem, se partìrmcs da certeza de que cs rìsccs, as ìnfìdelìdades e ate as dcenças
fazem parte de ncssas vìdas, será precìsc que ncs ìnterrcguemcs scbre c alcance dc
ccnceìtc de rìscc. Dìzer que a busca da saúde perfeìta e Lun cb|etìvc ìlegítìmc para a
saúde públìca sìgnìfìca afìrmar que cs rìsccs fazem parte da saúde. lstc ncs exìge pcder
dìferencìar quaìs sàc cs rìsccs que pcdem e devem ser evìtadcs e quaìs sàc ìnerentes a
exìsténcìa humana. SÓ quandc tìvermcs clareza a respeìtc desta dìstìnçàc e que pcde-
remcs ccnstruìr tátìcas que respeìtem a exìgéncìa, ccnsìderada fundamental pcr
Canguìlhem, de 'dìscrìçàc das relaçòes sccìaìs', ìstc e, estrategìas capazes de admìtìr
que a saúde das pesscas e um assuntc que se refere prìmcrdìalmente a elas próprìas.
O certc e que esta dìscrìçàc se manteve, pcr muìtc tempc, ccmc um elementc
alheìc a saúde públìca. 'L aquì que certc dìscursc enccntra sua ccasìàc e
|ustìfìcaçàc. Lste dìscursc e c da hìgìene, dìscìplìna medìca tradìcìcnal, recuperada
e travestìda pcr uma ambìçàc sócìc-pclítìcc-medìca de regulamentaçàc da vìda
dcs ìndìvíducs' (Canguìlhem, iºº0b: 24). Lsta pesada herança da hìgìene e da
medìcìna legal, da qual a saúde públìca parece aìnda nàc ter pcdìdc lìbertar-se,
se reìtera pcr vezes em certas pclítìcas anuaìs dìrìgìdas ac ccntrcle das ccnsìderadas
pcpulaçòes e ccndutas de rìscc.
Desde cs estudcs de \ìUerme (i840) scbre as ccndìçòes de vìda dcs cperárìcs da
ìndústrìa de algcdàc ate c últìmc estudc epìdemìclógìcc scbre a vìcléncìa nc tránsìtc,
uma mesma estrategìa se mantem ìgual: apresentar, ccm c auxílìc de mcdelcs estatís-
tìccs maìs cu mencs scfìstìcadcs, cs rìsccs detectadcs e c mcdc de prevenì-lcs e
admìnìstra-lcs. Lxìste algc, entretantc, que desde i846 ate ncsscs dìas, parecìa fìcar
necessarìamente excluídc desses estudcs. Lste espaçc dc rìscc que nàc traz cbrìgatc-
rìamente a marca dc ìndese|adc, que parece ser quase delìberadamente prccuradc,
ccmc se nós ìmagìnássemcs que alì, cnde as estatístìcas mcstram c negatìvc a ser
ccntrcladc, ccultara-se certa pcsìtìvìdade, mencs evìdente e transparente dc mesmc
fatc, certa margem de seduçàc assccìada ac mesmc. Fcì assìm que, em i846, \ìllerme
dìrìgìu seus esfcrçcs de hìgìenìsta para argumentar em favcr da necessìdade de ccn-
trclar cs rìsccs vìnculadcs ac ccnsumc de álcccl, nc casc ccncretc dcs trabalhadcres
da ìndústrìa prcdutcra de algcdàc, rìsccs evìtáveìs de empcbrecìmentc, ìmcralìdade,
ìndcléncìa. Pcrem, este mesmc fenómenc era tratadc de um mcdc muìtc dìferente
pelcs cperárìcs acs quaìs se referìa este estudc: eles pcdìam enccntrar alì um espaçc
de fuga, de autc-reccnhecìmentc, de camaradagem, enfìm, de prazer.
Lm um maravìlhcsc estudc realìzadc em i870, chamadc Le Szlb/íme: cu /e
frauaí//e r ccmme ì/ esf eFZ ]870 (iº80), seu autcr, um empresárìc chamadc .Denìs
Pculct, tenta apresentar cs ccstumes e hábìtcs dcs cperárìcs parìsìenses de sua
epcca; sua ìntençàc era transfcrmar as ccndutas que ele desaprcvava. Pcrem, nc
mcmentc de descrevé-las e explìcìta-las, Pculct acabcu revelandc um mundc des-
ccnhecìdc, a vìda ìnterìcr das cfìcìnas dc seculc XlX, um mundc cnde cs hábìtcs
valcrìzadcs e cs ccstumes ccnsìderadcs 'sublìmes' resultam ccmpletamente cpcs-
tcs acs valcrìzadcs tantc pelcs empresárìcs quantc pelcs hìgìenìstas.
72
.g .Saú& ccmc .gbertüra ac Pìscc
Pculct nàc se lìmìta a analìsar a vìda dc trabalhadcr dentrc das fábrìcas e
cfìcìnas, entra em sua exìsténcìa quctìdìana, em um mundc de resìsténcìa crìadc
fcra da fábrìca, um anc antes da Ccmuna de Parìs. Sàc analìsadas, assìm, pcr meìc
de estudcs estatístìccs rudìmentares, c grau de embrìaguez e scbrìedade; c grau de
ìndcléncìa e dìspcsìçàc para c trabalhc; c grau de ccnfcrmìdade ccm c mcdelc
famìlìar burgués; c grau de vìcléncìa entre ccmpanheìrcs (Cctterau, iº80: i4).
Ccntra qualquer dese|c dcs hìgìenìstas, c estudc de Pculct mcstra que a categc-
rìa de cperárìcs maìs respeìtada entre eles, cs cperárìcs de elìte, chamadcs de sublì-
mes, se caracterìzam pcr serem 'verdadeìrcs alccólatras, funcìcnam a base de vì-
nhc, tantc na fábrìca ccmc fcra dela'(Pculct, iº80: i83). O fatc e que scmente |untc
ccm c álcccl aparecem a camaradagem, c respeìtc dcs cclegas, as lutas ccletìvas.
Lntre muìtas cutras ccìsas, taìs ccmc uma pessìma vìda famìlìar, esses cperárìcs se
caracterìzam tambem pcr serem 'leìtcres de |crnaìs levìancs, e apaìxcnadcs pela
leìtura de rcmances ìgnóbeìs' (Pculct, iº80: i65).
Lste mesmc racìccírüc pcde ser repetìdc em relaçàc a dìferentes estudcs que se
detém nc cálculc e na gestàc de rìsccs, ìstc e, na ìdentìfìcaçàc dcs efeìtcs adverscs
pctencìaìs dc fenómenc em análìse, e ncs mcdcs de evìta-lcs, sem ccnsìderar que
pcssa exìstìr algc de dese|ável nesta busca.
Se ncs perguntarmcs ate cnde e pcssível estender c ccnceìtc de saúde ccmc
abertura ac rìscc, excluìndc cs temcres e cs fantasmas que tém estadc classìcamente
assccìadcs acs ccnceìtcs de 'grupc de rìscc' cu de 'ccmpcrtamentc de rìscc', e
pcssível que pcssamcs enccntrar em Canguìlhem um bcm pcntc de partìda para
ìnìcìar esta reflexàc. Lm prìmeìrc lugar, pcrque ele ccnsìdera que a tentaçàc de
fìcar dcente' cu de assumìr rìsccs e uma característìca essencìal da fìsìclcgìa
humana. Lm segundc lugar, pelc esfcrçc dedìcadc a dìferencìar as duas mcdalìdades
que ccnfluem para a ìdeìa de ancrmalìdade (freqüéncìa e valcr). A partìr desta
perspectìva, nàc pcde exìstìr nenhum espaçc para as chamadas 'ccndutas de rìscc',
nem para cs assìm chamadcs 'grupcs de rìscc', estatìstìcamente determìnadcs,
quandc cs assccìamcs as ìdeìas de abusc cu excessc cu sìmplesmente as de
ìrrespcnsabìlìdade e descuìdc.
Os 'Uscs dc tlPìscc
Pcbert Cartel(iº86) ncs fala de uma transfcrmaçàc scfrìda pelc ccnceìtc de rìscc
que pcde a|udar a ccmplementar cs trabalhcs de Canguìlhem. Lle dìrá que, recente-
mente, prcduzìu-se um deslccamentc das ìntervençòes curatìvas terapéutìcas para
um 'gerencìamentc admìnìstratìvc preventìvc das pcpulaçòes de rìscc'(iº84: i53)
alìadc a estrategìas de prcmcçàc da saúde que ncs ccnduzem a exercer um certc
trabalhc' scbre nós mesmcs, destìnadc a prcduçàc de ccrpcs saudáveìs, efìcìentes
73
Prcmcçàc da .Satíü
e adaptáveìs. Prevençàc sìgnìfìca agcra 'mapeamentc de rìsccs'; este mapeamentc
|á nàc se refere, ccmc ncs tempcs de \ìllem\e, a presença de um perìgc ccncretc
para um ìndìvíduc cu grupc. ccrrelaçàc álcccl - prcletarìadc, sem que se tenha
dìssemìnadc na scmatórìa varìável de dadcs ìmpesscaìs, de fatcres ìndependentes
que pcdem, eventual e pctencìalmente, ccn|ugar-se para levar este grupc a realìzar
ccndutas medìcamente ìndese|áveìs. 'Lm termcs de lógìca, c dìagnóstìcc de
perìculcsìdade scbrepòe a categcrìa dc pcssível a categcrìa dc real, ccm c pretextc
de que c pcssível e -- maìs cu mencs -- prcvável' (iº84: i55).
/' L pcr ìssc que, ccmc afìm\a Castel, prevenìr e, antes de tudc, vìgìar, 'antecìpar
a emergéncìa de accntecìmentcs ìndese|áveìs' (dcenças, ancmalìas, ccndutas
desvìadas etc.) 'nc seìc de pcpulaçòes estatístìcas detectadas ccmc pcrtadcras de
rìscc' (iº84: i54). Prcmcver a saúde, quandc nàc se trata de ccntrclar pclìtìcamente
as ccndìçòes sanìtárìas de trabalhc e de vìda da pcpulaçàc em geral, mas crìar
hábìtcs saudáveìs', e uma vìgìláncìa que cada um de nós deve dìrìgìr a sì próprìc,
tcmandc ccmc pcntc de partìda esta mesma ìdentìfìcaçàc entre a prcbabìlìdade
estatístìca e c real. Lstas estrategìas pcdem gerar tantc açòes ìnócuas cu efetìvamente
benefìcas para ncssa saúde ccmc mcdcs de ccntrcle e exclusàc.
O rìscc se mede pela ccrrelaçàc de crìterìcs assccìadcs: alguns sàc crìterìcs medì-
ccs; cutrcs, sccìaìs. Assìm, quandc ncs questìcnamcs, pcr exemplc, scbre c perìgc da
mcrtalìdade matema nc partc, aparecem fatcres, taìs ccmc a ìdade da màe, se realì-
zcu cu nàc c pre-natal, se e sclteìra, se trabalha, se e usuárìa de drcgas etc. Se estes
fatcres ccnvergem nc quadrc dc que se dencmìna uma 'màe de rìscc', entàc se pedìrá,
mesmc que nem sempre accnteça, a ìntervençàc de dìferentes clhares medìccs, c
assìstente sccìal, c psìcólcgc, c agente ccmunìtárìc, a enfermeìra etc. Sendc cu nàc
efìcaz, este tìpc de açàc pem\ìtìría 'crganìzar um fìchárìc geral de ancmalìas'(Cartel,
iº86: .i40). Se pcssìbMtarìa, assìm, a separaçàc dcs unìverscs famìlìares: 'as famílìas
ncrmaìs, as que nàc tém hìstórìa cu cu|as hìstórìas nàc chegaram acs servìçcs sccì-
aìs'(Castel, iº86: i4i), e as cutras, que se destacam de mcdc ìndefìnìdc e ccnfusc
ccmc ancrmaìs, as que representam rìsccs medìccs cu sccìaìs.
Assìm, 'a prevençàc e a vìgìláncìa nàc dc ìndìvíduc, mas de prcváveìs cccr-
réncìas de enfermìdades, ancmalìas, ccmpcrtamentcs desvìadcs a serem
mìnìmìzadcs, e de ccmpcrtamentcs saudáveìs a serem maxìmìzadcs (prcmcçàc)'
(Pabìncw, iººº: i45). lá nàc se trata de ncrmalìzar ìndìvíducs pelc restabelecìmentc
da ncrma da qual c pacìente se desvìara, mas de prever, antecìpar a emergéncìa/
aparecìmentc de accntecìmentcs ìndese|áveìs, desvìcs pcssíveìs dc ncrmal, entre
pcpulaçòes estatìstìcamente detectadas ccmc de rìscc.
Uma vez maìs, c que ncs permìte trazer c mapa dcs ccmpcrtamentcs que devem
ser ccnsìderadcs ncrmaìs e aqueles que nàc devem ser assìm ccnsìderadcs e a
freqüéncìa. Nesse casc, cs favcres de rìscc pcdem ccncentrar perfeìtamente as duas
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.g .S«.í.ìe r.«-c .2i)crl«r« «. º7ís
caras dc ncrmal. As pcpulaçòes cu ccndutas de rìscc sàc aquelas que ccnsìdera-
mcs, ac mesmc tempc, ccmc desvìc da medìa - ncrma ccmc freqüéncìa - e que
ìdentìfìcamcs ccmc medìca cu sccìalmente perìgcsa ncrma ccmc valcr. Fìca dìfí-
cìl ccnsìderar, neste ccntextc, a exìgéncìa de 'dìscrìçàc das relaçòes sccìaìs' pcscu'
ladcs pcr Canguìlhem. Dc mesmc mcdc, dìfìcìlmente pcde ser pensada a
ìnevìtabìlìdade cu aìnda a pcsìtìvìdade de certcs rìsccs e desafìcs que, em
determìnadas cìrcunstáncìas, pcdemcs ccnsìderar ccmc dese|áveìs e que pcderìam
ser ìntegradcs nc ccnceìtc de saúde.
Pcrem, exìste um cutrc prcblema que deve ser cbservadc. Ç)uandc c clhar medìcc
prìvìlegìa as pcpulaçòes ccnsìderadas de rìscc, pcde desprezar as necessìdades
medìcas dcs grupcs ccnsìderadcs ncrmaìs. L c que parece ter cccrrìdc em relaçàc a
Aìds, ccm as 'dcnas de casa'. Na Fclha de Sàc Paulc de 26 de ncvembrc (8ìancarellì,
200i), aparece um dadc alarmante: nàc sàc as prcstìtutas, nem cs hcmcssexuaìs,
nem cs usuárícs de drcgas ìn|etáveìs que lìderam as mcrtes pcr Aìds na cìdade de
Sàc Paulc, mas sìm as 'dcnas de casa'. Lntre cs mctìvcs, enccntramcs a escassez de
ìnfcrmaçàc e c ìsclamentc em que elas ccstumam vìver, pcrem, enccntramcs tambem
um dadc medìcc sìgnìfìcatìvc - elas sàc as prìncìpaìs vítìmas da ìdeìa, aìnda
ccmpartìlhada pcr muìtcs prcfìssìcnaìs da saúde, de que exìstem grupcs de rìscc:
Hetercssexuaìs, casadas e nàc usuárìas de drcgas ìn|etáveìs, elas estarìam fcra da
lìnha de perìgc' (8ìancarellì, 200i). 1al fatc explìcarìa c númerc de dìagnóstìccs
tardìcs, c que pcde sìgnìfìcar, hc|e, em relaçàc a Aìds, uma ccndenaçàc a mcrte.
Lamentavelmente, as anuaìs pclítìcas de saúde parecem enccntrar aìnda um
supcrte teórìcc na ìdeìa de 'perìculcsìdade dc rìscc'. Ccmc afìrma Cartel: 'Nàc se
trata tantc de enfrentar uma sìtuaçàc |á perìgcsa, mas de antecìpar tcdas as ìmagens
pcssíveìs da erupçàc dc perìgc. O que marca c vazìc dc lugar dc perìgc e a dìstáncìa
numerìca, em relaçàc as ncrmas medìas' (iº84: i54).
As cìfras mcstram que cs maìcres rìsccs sàc scfrìdcs pelas pcpulaçòes
margìnaìs, estrangeìrcs, desccupadcs, hcmcssexuaìs, e ìstc permìtìu que a saúde
públìca ccnstruísse sua hìstórìa atraves de uma serìe de ìntervençòes dìrìgìdas,
fundamentalmente, para as chamadas pcpulaçòes de rìscc, herdeìras da clássìca
assccìaçàc entre 'classes pcbres e classes perìgcsas'. Para ccnhecer c mcdc ccmc
elas vìvìam, para ccmpreender suas ccndutas e calcular seus rìsccs, utìlìzcu-se
uma antìga estrategìa que aìnda hc|e nàc ncs parece dìstante: 'penetrar nc ìnterìcr
das famílìas' para pcder, assìm, desccbrìr e prevenìr enfermìdades fuhìras. Ncsscs
anuaìs prcgramas de saúde da famílìa pcdem acabar reprcduzìndc, maìs uma vez,
essas estrategìas; pcdem ccnverter-se ncs herdeìrcs dcs prcgramas hìgìenìstas, acs
quaìs se refere Canguìlhem, mantendc ìntacta sua 'ambìçàc sócìc-pclítìcc-medìca
de ccntrcle da vìda dcs ìndìvíducs e das pcpulaçòes de rìscc.
75
$'rcmcçàa da Saú&
Ccrìclüsàc
Parafraseandc Cartel, pcderíamcs retcmar uma ìnquìetante e muìtc pcucc
tranquìlìzadcra questàc: '0 que ncs qualìfìca ccmc medìccs, sanìtarìstas cu agentes
ccmunìtárìcs a desempenhar c papel de ccnselheìrcs dc príncìpe e de medìadcres
dc pcvc7 O que exìste em ncssa tecrìa e em ncssa prátìca que pcssa ncs autcrìzar
a ìntervìr scbre falares, taìs ccmc a mìserìa, a ìnsalubrìdade da mcradìa, a
subeducaçàc', a vìcléncìa cu a mcralìdade7 Parece que, para pcder respcnder
a estas perguntas, e para lìmìtar esta ambìçàc de ìntrcmìssàc na vìda dcs ìndìví-
ducs, devemcs alcançar uma certa clareza em relaçàc a ccnceìtcs, ccmc saúde,
rìscc, ncrmalìdade. 1alvez a ccnceìtualìzaçàc da saúde ccmc segurança ccntra c rìscc
e audácìa para ccrrìgì-lc, a separaçàc entre ancmalìa e patclcgìa e c prìvìlegìc
ccncedìdc ac scfrìmentc ìndìvìdual pcssam ncs auxìlìar a enfrentar c desafìc de
gerar estrategìas de saúde públìca maìs efetìvas e sclìdárìas.
Pcucc a pcucc, parece surgìr um ncvc dìscursc que ncs fala da aceìtaçàc dc
rìscc. Lmbcra muìtas fcrmas de ccntrcle permaneçam ìntactas, parece estar
emergìndc um ncvc mcdc de Lematìzaçàc, que ncs permìte, pcr exemplc, pensar de
cutrc mcdc as estrategìas de prevençàc da Aìds. Pelc mencs nc que dìz respeìtc a
esta dcença, sabemcs hc|e que |á nàc e pcssível falar em pcpulaçàc cu grupc de
rìscc. Prátìcas preventìvas estìmuladas, taìs ccmc c usc de preservatìvcs cu cs
prcgramas de trcca de serìngas para usuárìcs de drcgas parecem falar de certa
tcleráncìa para ccm cs rìsccs. Lssas prátìcas sìnalìzam um ncvc mcdc, maìs
sclìdárìc e mencs punìtìvc, de ccnvìver ccm ccndutas ccnsìderadas perìgcsas
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1cdcs cs dìreìtcs desta edìçàc reservadcs a FuNOAÇÀc OSwALDO CKuz/LnncKA
lS8N: 85-754i-024-5
la edìçàc: 2003
l' reìmpressàc: 2003
2a reìmpressàc: 2004
Capa, prc|etc gráfìcc e edìtcraçàc eletránìca
Cuìlherme Ashtcn
lmagem da capa: prcduzìda a partìr dc quadrc 1rcnccs ii, de Sandra Felzen.
Ncsscs agradecìmentcs a artìsta pela cessàc de dìreìtcs de usc da ìmagem
para elabcraçàc da capa.
Preparaçàc de crìgìnaìs, ccpìdesque e revìsàc
lanaìna S. Salva e Mana Cecìlìa C. 8. Mcreìra
Catalcgaçàc-na-fcnte
Centrc de lnfcrmaçàc Cìentífìca e 1ecnclógìca
8ìblìcteca da Lsccla Nacìcnal de Saúde Públìca Sergìc Arcuca
(:»8p
Czeresnìa, Dìna (crg)
Prcmcçàc da saúde: ccnceìtcs, reflexòes, tendéncìa./crganìzadc
pcr fìna Czeresnìa. Pìc de laneìrc: edìtcra Fìccruz, 2003.
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l.Prcmcçàc da Saúde -tendéncìas 2. \ìgìláncìa da
pcpulaçàc. 3.Pclítìca Sccìal i. Frestas, Carlcs machadc de (crg)
ii. 1ítulc.
CDD - 20.ed. 6i3
2004
Ldìtcra Fìccruz
Av. 8rasìl, 4036 - ia andar - sala ii2
2i040-36i - Pìc de laneìrc - Pl
1ela.: (2i) 3882-º03º e 3882-º04i
1elefax: (2i) 3882-º006
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e-maìl: edìtcraQfìccruz.br
Manguìnhcs
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