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exemplo de projeto interdisciplinar

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Edição Maio de 1999 Índice

O colégio mineiro Nossa Senhora das Dores mostra como conseguiu unir várias disciplinas sob um mesmo tema. Os alunos adoraram e as aulas nunca mais foram as mesmas
Ricardo Prado
Dr2

as mãos do professor Marco Aurélio Alves está uma prova sobre o ciclo da cana-deaçúcar feita por um aluno da 5a série. A primeira pergunta une interpretação de texto e religião. A seguinte refere-se à sua matéria, História. A terceira mistura elementos de Geografia e Ciências. Todas tendo como base o poema O Açúcar, de Ferreira Gullar. Por trás do formato ousado desta prova existe uma palavra que pode ser tanto mágica quanto geradora de muita confusão, se mal aplicada: interdisciplinaridade, a fórmula em que se misturam conteúdos de várias disciplinas abraçadas por um tema comum.

Por onde passa, ela acaba com os pequenos quintais de cada matéria, abrindo a visão dos alunos ao mostrar que o que eles aprendem em uma disciplina pode ser usado em outra. Quando dá certo, a experiência é eletrizante. "Estamos vivendo uma espécie de ‘revolução’ aqui", comenta Marco Aurélio, Coordenador de Ciências Humanas do Colégio Nossa Senhora das Dores, em Belo Horizonte. Vamos ver, então, como se deu a experiência.

Arquivo pessoal

Do livro ao trabalho de campo: foto de aluno feita no Caraça (acima)

Giovani Pereira

A aluna-mucama em aula sobre o ciclo da cana-deaçucar e o Mosteiro do Caraça, tema do ciclo do ouro

Tudo começou quando a direção do "Das Dores" (como a escola é chamada pelos alunos), depois de uma palestra sobre Pedagogia de Projetos feita pela pedagoga Keyla Matsumura, estimulou os professores a criarem formas de unir várias disciplinas. Marco Pollo Ferreira Alves, que leciona Geografia, lançou a idéia de levar a turma da 5ª série ao Mosteiro do Caraça, que faz parte de um Parque Natural localizado a 120 quilômetros de Belo Horizonte. Como vem escrevendo uma tese sobre excursões interdisciplinares para o Instituto Jose Verona, de Cuba, percebeu que aquela era a oportunidade de unir seu projeto ao da escola. Mal sabia que ali estava a ponta de um iceberg. "Fizemos uma reunião e decidimos adotar o livro Ecologia, da Editora Lê (ao lado) para trabalharmos o tema do meio ambiente em sala de aula. Depois, partiríamos para o trabalho de campo, juntando alguns colegas que se interessassem", explicou Marco Aurélio. Realizando encontros no período da tarde, os professores acertaram o calendário e o que cada um ensinaria antes e depois da excursão. A saída aconteceu em março, de trem — o que, para muitos alunos, foi uma grande novidade. Duas horas depois, a turma chegava ao Mosteiro do Caraça. Anotando, observando detalhes, fotografando e relacionando tudo com o livro paradidático lido, os alunos da 5ª série tiveram um dia bem movimentado.

Baixada a agitação dos alunos com a ida ao Caraça, cada professor procurou sedimentar alguns conceitos. Marco Pollo, de Geografia, distribuiu mapas da região para que os grupos identificassem cada local, descrevendo o relevo e a vegetação. Marco Aurélio e Karina Menezes, professores de História, enfocaram o ciclo do ouro e a visita de D. Pedro II ao lugar. Giovana Dantas e Carlota Álvares, de Ciências, trabalharam a fauna e flora e as lições de ecologia observadas pelos alunos. Nas aulas de Ensino Religioso mostrou-se a relação entre homem e natureza, enquanto Wellington Ade, de Matemática, trabalhou as figuras geométricas do conjunto arquitetônico. Por fim, entraram Andréa Godinho e Letícia Pellegrino, de Português. Mais que corrigir os alunos, elas ensinaram a importância de se refazer o texto em busca do melhor estilo, da palavra ideal. "Por suas características de conteúdo, Ciências, História e Geografia costumam ser os ‘carroschefes’ dos projetos interdisciplinares. E Português é o suporte, pois todo projeto implica em produção de textos. Já matérias como Matemática ou Educação Física são mais difíceis de serem integradas", admite a Supervisora de Ensino Maria Flor de Maio Duarte.

O plano inclinado nasceu na Matemática e foi para a Geografia

Juntar vários professores em um único projeto pode tumultuar a rotina da escola. "O maior risco de se trabalhar com projeto interdisciplinar é ele ficar desatrelado do conteúdo programático. É preciso enriquecer o trabalho dos professores, e não desviá-los do programa", alerta a supervisora Flor. Por isso, ela aponta um atalho seguro para uma primeira experiência: começar com duas ou três matérias casadas. É o que estão fazendo os professores de Geografia e Matemática. Existe uma lei ambiental que proíbe desmatamento em terrenos com inclinação entre 25 e 45 graus, para evitar desabamento de encostas. Os alunos criaram os ângulos com o transferidor e, depois, produziram maquetes para as aulas de Geografia. "O interesse dos alunos foi tal que eles estão estudando ângulos, que é matéria da 6ª série", comentou Wellington, revelando a reação em cadeia que a Pedagogia de Projetos provoca nos alunos.

A sala de Estudos Sociais tornouse um dos lugares preferidos dos alunos

Na época de provas, nova revolução. Os alunos nem acreditavam no que viam. Receberam uma única prova, para ser respondida em duplas, com questões de Ciências, História, Geografia, Língua Portuguesa e Matemática. Para a nova turma de 5ª série, a experiência do Caraça foi aprimorada. Fazendo uma autocrítica do ano passado, os professores perceberam que a ecologia havia ficado muito centrada na defesa do meio ambiente em um lugar distante da realidade urbana dos alunos. "Este ano, pretendemos mostrar que a defesa do meio ambiente passa pela busca da qualidade de vida", planeja Marco Aurélio, revelando o que talvez seja a faceta mais interessante da interdisciplinaridade: ela é viva, pulsa, se agita, sofre mudanças e, portanto, exige constantes correções de rumo. Agora, a 5ª série está trabalhando a "Carta de um Índio Americano", juntamente com uma análise do filme Dança com Lobos, de Kevin Costner, que fala da conquista do Oeste norte-americano e dos conflitos entre brancos e índios. "Assim, trabalharemos a destruição do meio ambiente e a discriminação racial", comenta o professor de História.

O que acontecerá na reedição do Projeto Caraça? Ninguém sabe. Os professores nem imaginam aonde uma aventura do conhecimento como esta vai dar. E este é o melhor dos mundos para quem quer cutucar a curiosidade de seus alunos. Piaget definia a inteligência como a capacidade de estabelecer relações. Quando um projeto interdisciplinar consegue ligar conceitos pescados numa aula aqui, noutra ali, encoraja os alunos a encontrar respostas a partir de suas próprias perguntas. "O grande diferencial de um projeto desta natureza é a mudança de postura do professor", explica a pedagoga Rosamaria Calaes de Andrade, acrescentando que "toda dúvida, desejo ou problema vindo dos alunos pode ser assunto, desde que se faça o recorte adequado à faixa etária e ao programa exigido". Ela exemplifica. "Uma professora de Português da 2ª série de outro colégio de Belo Horizonte aproveitou a falta de um aluno, e o fato de ninguém saber seu telefone nem onde morava, para propor uma Agenda da Classe. Como as crianças precisaram ordenar os nomes em ordem alfabética, foi um jeito criativo de ensinar o abecedário", comenta Rosamaria. O professor de Estudos Sociais fez a classe estudar o bairro a partir do endereço de cada um. O de Matemática mostrou como é feita a numeração das casas nas ruas. Exemplos como este acontecem a todo momento. O que faz a diferença é o professor estar atento às oportunidades. O próprio Marco Aurélio se dá conta da mudança de atitude toda vez que entra em uma livraria. "Antigamente, eu ia para a estante dos livros de História e ficava por lá. Agora, comecei a me interessar por livros de Pedagogia e até de outras matérias", conta o professor, revelando o principal efeito da interdisciplinaridade na vida de quem dá ou recebe aulas: surge uma vontade danada de aprender mais, e mais, e mais.

Planejamento, troca de informações, incentivo ao trabalho de grupo e capacidade de improvisar a partir das necessidades de cada classe determinam o sucesso da Pedagogia de Projetos

Os professores discutem como cada um trabalhará o tema em sua disciplina Qual será o custo do projeto para a escola? Aqui entram palestrantes, guias para trabalhos de campo, transporte etc.

Qual o tema será o fio condutor do projeto: folclore, ecologia, trabalho, higiene pessoal, algum artista plástico ou escritor etc. Definição de porque se quer trabalhar este ou aquele tema O que se pretende alcançar e como o tema se liga ao programa curricular Aqui se define quais matérias estarão envolvidas no projeto interdisciplinar Definição de datas de leitura do livro paradidático, trabalho de campo, provas ou outros métodos de avaliação

Depois de tudo planejado, o professor pode se aproveitar de uma dúvida, desejo, problema ou curiosidade dos alunos para introduzir a idéia do projeto Os grupos de alunos se formam, realizam trabalhos de campo, reuniões e discutem o formato das apresentações São feitas provas, peças de teatro ou produções audiovisuais e trabalhos que devem ser apresentados por grupos de alunos Alunos, professores e supervisores de ensino analisam os pontos positivos e negativos da experiência, sugerindo mudanças e repensando temas, metodologia, provas etc.

Os alunos, porque... aprenderam a trabalhar em grupo, do início ao fim do projeto;

encontraram no Caraça lições práticas de relevo; viveram a experiência de fazer uma prova interdisciplinar em dupla; melhoraram o relacionamento com os colegas. Os professores, porque... se viram forçados, pelos próprios alunos, a ampliar seus conhecimentos de outras áreas, o que melhora a formação; tiveram menos problemas de disciplina do que imaginavam nas aulas fora da sala; espantaram o tédio do planejamento e de sua execução durante o ano letivo; também melhoraram o relacionamento entre colegas. A escola, porque... cumpriu o programa de maneira ágil e eficiente; viu seus alunos comentarem a experiência junto à comunidade; teve menos problemas com disciplina, pois muitos trabalhos em grupo eram feitos durante os intervalos.

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