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Resenha: "A Formação das Almas", de José Murilo de Carvalho

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Resenha do Livro "A Formação das Almas", de José Murilo de Carvalho.
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História do Brasil III - Profº Guilherme Nome: Pedro Gabriel Vieira Marques / RA: 2007143873 Resenha: A Formação das Almas

: O Imaginário da República no Brasil, de José Murilo de Carvalho, Companhia das Letras, São Paulo, 1990. José Murilo de Carvalho, nascido em 1939 em Minas Gerais, formou-se doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Standford, eleito em 2004 para a Academia Brasileira de Letras, atualmente é professor titular de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi também pesquisador visitande nas universidades de Oxford, Londres, Califórnia e Leiden, no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e na École dês Hautes Études em Sciences Sociales; autor também de, entre outros títulos, Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a República Que Não Foi. Dono de uma análise lúcida e de um vocabulário bastante acessível, sendo um autor relativamente popular em meio ao público não especializado. Em A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil, o autor propõe, como ele próprio expõe na introdução, "discutir mais a fundo o conteúdo de alguns dos principais símbolos utilizados pelos republicanos brasileiros e, na medida do possível, avaliar sua aceitação ou não pelo público a que se destinava, isto é, sua eficácia em promover a legitimação do novo regime" [p. 13], isso é, a formação dos símbolos da República e a implantação dos mesmos, tarefa que cumpre através de seis capítulos com temáticas bem recortadas, o autor se limita essencialmente aos primeiros anos da República, indo um pouco mais além ou retrocedendo um pouco mais apenas quando se torna necessário algum esclarecimento maior, freqüentemente traçando um paralelo com os movimentos revolucionários da França contemporânea e provido de um acervo iconográfico enriquecedor. No primeiro capítulo o autor introduz o leitor na discussão ideológica existente até hoje sobre a idealização da própria da república, como ela foi construída e como ela foi, e ainda é contestada enquanto idealização; no segundo capítulo, o autor limita-se, dentro dessa mesma problemática, a discutir a proclamação da república, ou seja, o imaginário do 15 de novembro; no terceiro capítulo o autor expõe a idealização feita em torno de Tiradentes e discute as causas que favoreceram o estabelecimento deste personagem como herói nacional, e não outro personagem; no quarto capítulo o autor expõe a idéia de República exposta visualmente na forma de uma mulher, discute sua influência francesa, sua versão brasileira e as dificuldades dessa idealização em se estabelecer; o quinto capítulo gira em torno da temática bandeira e

hino, onde o autor procura esclarecer as origens da bandeira adotada na república e suas versões que não foram consagradas oficiais e os hinos feitos para a república e as dificuldades encontradas em substituir o hino nacional já estabelecido no império, as influências nas idéias positivistas francesas e na marselhesa são particularmente assinaladas diversas vezes; no sexto e último capítulo, o autor faz uma rápida análise da manipulação do imaginário da república feita pelos positivista, no geral, os que mais se empenharam em criar toda uma simbologia para estabelecer uma república como legítima e procurar entusiasmo popular. O primeiro capítulo, intitulado "Utopias Republicanas", foi lançado anteriormente em uma versão modificada no vol. 32 da Revista de Ciências Sociais e trata basicamente do conceito de república, que segundo o autor, já "era ambíguo para os founding fathers da primeira grande república moderna, a dos Estados Unidos da América" [p. 18], assim ele diferencia as diversas repúblicas comparando a república em Esparta (voltada para o coletivo) com o utilitarismo de Hume (voltada para o individual); mas a maior ênfase vai para o modelo francês, de maior influência no Brasil: "Outro modelo óbvio era o francês. [...] Dizer modelo francês é incorreto: havia mais que um modelo francês, em decorrência das vicissitudes por que passara a república naquele país" [p. 19], isso para explicar as divergências em como implantar um república no Brasil: "Havia divergências quanto à maneira de tornar a República um governo" [p. 20], explicando em seguida as divergências dentro do positivismo, que teve papel determinante na formação do imaginário na república no Brasil, ele exemplifica citando um caso francês: "[...] do próprio positivismo, havia os ortodoxos do grupo de Laffitte, que não aceitavam o parlamentarismo [...] O grupo de Littré aceitava o parlamentarismo [...] ortodoxos e heteredoxos, todos se inspiravam politicamente no Appel aux conservateurs que Comte publicara em 1855" [p. 20-21], concluindo sobre os modelos na idealização da república no Brasil, o autor afirma: "[...] assim, pelo menos três modelos de república à disposição dos republicanos brasileiros. Dois deles, o americano e o positivista, embora partindo de premissas totalmente distintas" [p. 22]; em seguida é traçado rapidamente um apanhado da herança imperial para a república e como essa herança iria dificultar a aceitação da república pelas pessoas, assim ele descreve como a república de fato estabeleceu-se, ideologicamente fragmentada: "Substituir um governo e construir uma nação, esta era a tarefa que os republicanos tinham de enfrentar. Eles a enfrentaram de maneira diversificada, de acordo com a visão que cada grupo tinha da solução desejada" [p. 24], dando continuidade na problematização em se formar um Estado de fato: "[...] além de ter surgido em uma sociedade profundamente desigual e hierarquizada, a República brasileira foi proclamada em um momento de intensa especulação financeira" [p. 29].

No segundo capítulo, "As Proclamações da República", que teve uma versão resumida publicada anteriormente na revista Ciência Hoje Nº 59, em novembro de 1989, o autor dá continuidade à instituição da república, mas agora não tanto em sua organização, e sim em sua proclamação, questionando-se se houve "afinal, algum momento no dia 15 de novembro em que Deodoro tenha proclamado a República?" [p. 36], traçando a luta ideológica do 15 de novembro, luta travada até hoje para definir quem de fato merece determinado mérito: "Deodoro, Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Floriano Peixoto: a briga persistiu por longo tempo" [p. 37], apresentando ao leitor a versão ideológica da proclamação de Deodoro (e a República Militar), de Benjamin Constant (e a República Sociocrática) e de Quintino Bocaiúva (e a República Liberal), valendo-se também da posterior retratação destes em monumentos e quadros para ilustrar essa batalha ideológica, entre os homens da república, entre civil e militar e as divergências dentro desses grupos: "O mito da origem ficou inconcluso, como inconclusa ficara a República" [p. 54]. No terceiro capítulo, "Tiradentes: Um Herói Para a República", publicado anteriormente numa versão resumida no Jornal do Brasil, em 2 de dezembro de 1989, o autor discuta em torno de Tiradentes, a dificuldade da república em criar um herói símbolo da nação: "A luta em torno do mito de origem da República mostrou a dificuldade de construir um herói para o novo regime" [p. 55], o autor discute as causas dos participantes do 15 de novembro não terem se tornado os heróis nacionais: "[...] foi grande o esforço de transformação dos principais participantes do 15 de novembro em heróis do novo regime" [p. 56], mas conclui que "o esforço de promoção desses candidatos a heróis resultou em muito pouco" [p. 57], chegando assim em Tiradentes: "[...] quem aos poucos se revelou capaz de atender às exigências da mitificação foi Tiradentes" [p. 57], expõe depois sua trajetória como herói da república, sua imagem feita e as controvérsias em sua pessoa que, porém, não impediu que fosse considerado o herói república posteriormente: "O segredo da vitalidade do herói talvez esteja, afinal, nessa ambigüidade, em sua resistência aos continuados esforços de esquartejamento de sua memória" [p. 73]. No capítulo seguinte, chamado "República-Mulher: Entre Maria e Marianne", o autor traça um paralelo entre a retratação da República na forma de uma mulher na França, onde ela é chamada de Marianne e no Brasil, onde ela é comumente chamada de Maria; primeiramente ele descreve a simbologia contida em Marianne e sua inspiração, tendo como base algumas representações feitas por artistas franceses do século XVIII, para depois traçar como essa representação da república-mulher se estabeleceu no Brasil: "O esforço inicial foi feito pelos caricaturistas da imprensa periódica, a grande maioria simpática à República" [p. 79], mas

esclarece depois que os "pintores positivistas foram os únicos a levar a sério a tentativa de utilizar a figura feminina como alegoria cívica" [p. 86], pois, como acontecido na França, a figura feminina logo começou a ser usada para ridicularizar a república: "[...] bem depressa os caricaturistas passaram a usar a figura feminina para ridicularizar a República [...] desapontamento refletido na conhecida frase 'Esta não é a república dos meus sonhos' rapidamente invadiu o mundo dos caricaturistas, ao mesmo tempo em que atingia os políticos da propaganda e os escritores" [p. 87], segundo o autor, essa dificuldade em legitimar a mulher como representação da república aconteceu porque a "mulher que os melhores pintores da época representavam não tinha lugar no mundo da política, não tinha lugar fora de casa, a não ser nos salões e nos teatros elegantes, ou nas butiques da rua do Ouvidor" [p. 95], e disserta em cima do fracasso da representação feminina, afirmando que a alegoria feminina da república "falhava dos dois lados - do significado, no qual a República se mostrava longe dos sonhos de seus idealizadores, e do insignificante, no qual inexistia a mulher cívica, tanto na realidade como em sua representação artística" [p. 96]. No último capítulo, "Bandeira e Hino: O Peso da Tradição", o autor discute em torno da batalha em estabelecer uma bandeira e um hino para a república, afirmando que, ao contrário de outras batalhas ideológicas para definir símbolos da república, a bandeira e o hino "tinham de ser estabelecidos por legislação, com data certa. Era batalha decisiva" [p. 109], logo, "a disputa em torno desses dois símbolos tenha sido mais intensa, embora de menor duração" [p. 109], primeiramente o autor trata da bandeira, traçando os conflitos entre estabelecer uma bandeira nos moldes da bandeira dos Estados Unidos da América, ou em adaptar a bandeira do Império, que foi o que, de fato, aconteceu: "O verde-amarelo presidira a quase um século de vida independente do país e fora imortalizado nos versos candentes de um republica como Castro Alves. A bandeira republicana era ainda o 'auriverde pendão', apesar da 'Marca Cometa'" [p. 121] conclui, fazendo referência a semelhança da bandeira com o logotipo de um empresa da época; depois, tratando-se do hino nacional, o autor afirma que "significou uma vitória da tradição, pode-se mesmo dizer uma vitória popular, talvez a única intervenção vitoriosa do povo na implantação do novo regime" [p. 122], pois manteve-se o hino do Império, desbancando as tentativas da república em instauras um hino com fortes influências na Marselhesa (hino francês), que aliás, era o hino dos republicanos quando esses ainda não possuíam um hino, mesmo assim, os símbolos da república, mesmo os oficiais, careciam de apoio popular, que aliás, é o que os legitima: "O articulista apelava ao governo para que se esforçasse mais por despertar o entusiasmo nas almas, por meio desses poderosos instrumentos de propaganda" [p. 128]. No sexto capítulo, "Os Positivistas e a Manipulação do

Imaginário", o autor expõe as ideologias que formaram o imaginário da república, como eles se confrontaram e como elas serviram de instrumento para manipular a opinião pública em relação à república: "Suas armas foram a palavra escrita e os símbolos cívicos" [p. 129], expondo primeiro a ideologia comtista na república e depois dos ortodoxos, o autor segue a linha que trata basicamente da manipulação da opinião pelos símbolos, ou como afirma o autor, "convencê-los da verdade da doutrina, era condição indispensável ao êxito final da tarefa que se impunham" [p. 140], referindo-se aos republicanos, comtistas ou ortodoxos. Por fim, o autor conclui expondo a superficialidade do apoio cívico à república: "[...] na ausência de um civismo republicano, só poderia vir de fora do domínio da política" [p. 142]. O autor, José Murilo de Carvalho, parece escrever para alguém mais além de estudantes, professores e pesquisadores, na verdade, é um livro que poderia muito bem figurar como uma leitura por diversão de qualquer pessoa, sendo assim indicado para qualquer um com tempo livre e o mínimo de curiosidade. Quanto ao objetivo do autor, em discutir não apenas o imaginário da república no Brasil, mas principalmente a manipulação dele, já que segundo ele a "manipulação do imaginário social é particularmente importante em momentos de mudança coletiva e social" [p.11], pode-se dizer que foi um livro excepcionalmente bem-sucedido, não apenas pelo seu discurso lúcido e seu recorte delimitado com certa habilidade, mas também por abranger um público amplo, talvez devido à sua linguagem limpa e objetiva, é certamente uma admirável conquista da historiografia brasileira.

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