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00423 - Brasil - 500 Anos de Língua Portuguesa

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA
(Congresso internacional)

Apoio específico para esta publicação CNPQ FAPERJ MINISTÉRIO DA CULTURA

AlphagraficsPinheiro/São Paulo ABF/SBLL/UERJ

EDITORA ÁGORA DA ILHA

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA

Ficha catalográfica
FILHO, Leodegário A. de Azevedo Brasil 500 anos de Língua Portuguesa / Leodegário A. de Azevedo Filho (organizador) 372 páginas - Rio de Janeiro, junho de 2000 Editora Ágora da Ilha - ISBN 86854 Lingüística e Filologia CDD - 410.412

COPYRIGHT: Leodegário A. de Azevedo Filho. TEL.: (0 XX 21) 522-5155

BRASIL 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA Rio de Janeiro, junho de 2000 Magnífico Reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Antônio Celso Alves Pereira Presidente da Academia Brasileira de Filologia e da Sociedade Brasileira de Língua e Literatura Leodegário A. de Azevedo Filho Diretor do Instituto de Letras Cláudio Cezar Henriques COMISSÃO EDITORIAL Álvaro de Sá Amós Coelho da Silva Marina Machado Rodrigues Editor: Paulo França EDITORA ÁGORA DA ILHA TEL.FAX: 0XX 21 - 393-4212 agorailh@ruralrj.com.br

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Sumário
PARTE I CONFERÊNCIAS.......................................................................................13
Língua, poesia e música em Cecília Meireles...................................15 Albano Martins (Universidade Fernando Pessoa, Portugal) Questões de globalização e lusofonia..................................................21 Anna Hatherly (Universidade de Lisboa, Portugal) D. Francisco Manuel de Melo no Teatro da Língua Portuguesa.......33 Evelina Verdelho (Universidade de Coimbra, Portugal) Da construção lingüística da identidade. Um estudo de caso...............61 João Nuno Paixão Corrêa Cardoso (Universidade de Coimbra, Portugal) Sintaxe camoniana: “Na qual quando imagina.”...................................73 Jorge Morais Barbosa (Universidade de Coimbra, Portugal) Os estudos vicentinos: balanço e perspectivas......................................81 José Augusto Cardoso Bernardes (Universidade de Coimbra, Portugal) Em defesa da Língua Portuguesa.........................................................91 Leodegário A. de Azevedo Filho (UERJ e UFRJ) A Lusitania liberata ou A Restauração portuguesa em imagens .....95 Lilian Pestre de Almeida (Universidade Independente, Lisboa) A Língua Espanhola e a sua função na obra catequética no Brasil.....111 Nicolás Extremera Tapia (Universidade de Granada) O primitivismo literário de influência brasileira na poesia de Angola....................................................................................................133 Salvato Trigo (Universidade Fernando Pessoa) O léxico arcaico na história da Língua Portuguesa...........................143 Telmo Verdelho (Universidade de Aveiro, Portugal) Tradução literária e comunicação cultural: o Português do Brasil em Espanha..................................................................................................149 Xosé Manuel Dasilva Fernández (Universidade de Vigo, Espanha)

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PARTE II COMUNICAÇÕES ESPECIAIS...................................167
Análise contrastiva da variedade da Língua Portuguesa no Brasil e em Portugal..........................................................................................169 Alessandra Dias Gervasoni (Universidade de Assis, SP) José de Alencar e a língua nacional....................................................177 Ana Lúcia de Sousa Henriques (UERJ) Duarte Nunes do Lião e a saudade do latim.......................................185 Antônio Martins de Araujo (ABF e UFRJ) Língua e História do Brasil seiscentista em um manuscrito lusitano .................................................................................................................197 Carla da Penha Bernardo (UFRJ) Os utensílios de cozinha: português europeu do séc. XVI em confronto com o português do Brasil no séc. atual..............................................207 Celina Márcia Abbade (UNEB/PPGL - UNBa) É uma Língua Portuguesa, com certeza............................................217 Claúdio Cezar Henriques (ABF e UERJ) Qual é a “língua brasileira” a se aprender na escola?.......................221 Darcília Simões (UERJ) A defesa da fé no púlpito transdisciplinar............................................227 Geysa Silva (UFJF) A indeterminação do sujeito no falar culto do Rio de Janeiro...........235 Hilma Ranauro (ABF e UFF) As linguagens de Fernando Pessoa e Manoel de Barros................251 Isaac Newton Almeida Ramos Edição diplomática de Gregório de Matos Guerra..............................261 José Pereira da Silva (ABF e UERJ) Os sufixos tupi tyba ou tüba identificados com o sufixo português al...267 Luís César Saraiva Feijó (ABF e UERJ) A Língua Portuguesa no Brasil: papel dos gramáticos na sua implantação (participação em mesa-redonda)........................................................271 Manuel Pinto Ribeiro (ABF e UERJ) Clarice Lispector e Maria Gabriela Ilansol: tentativas de descrever sutilezas ou como dobrar a língua........................................................281 Maria de Lourdes Soares (UFRJ) Um olhar sobre O memorial do convento - Saramago, primeiro Prêmio Nobel da Língua Portuguesa................................................................293 Marina Machado Rodrigues (UERJ e ABF) Tupinismos, africanismos, asiaticismos e o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa..............................................................................303 Mauro Vilar (ABF e IAH) Confrontos entre o Tupi antigo e a Língua Portuguesa....................317 Nataniel dos Santos Gomes (UFRJ e SUAM)

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A língua literária do Brasil no século XX e sua formação.................329 Paulo Silva de Araújo (ABF e Unesa) A Língua Portuguesa no Brasil: papel dos gramáticos na sua implantação (participação em mesa-redonda)........................................................341 Walmírio Macedo (ABF e USU) Língua culta e língua literária............................................................347 Walmírio Macedo (ABF e USU)

PARTE III COMUNICAÇÕES LIVRES (Resumos).........................353
Isoglossas do português.......................................................................355 Afrânio da Silva Garcia (UERJ-FFP) O contorno semântico-sintático dos adjetivos em “O coruja” de Aluísio de Azevedo..............................................................................................355 Afrânio da Silva Garcia (UERJ-FFP) Intertextualidade como característica da língua literária machadiana .................................................................................................................355 Alexandre Marcelo Matos (UFJF) A cidade na obra de Lima Barreto e Almada Negreiros.....................356 Ângela Maria Thereza Lopes (UniverCidade – Univers. de Sá) As figuras femininas em A geração da utopia de Pepetela...............356 Assunção Maria Sousa e Silva (UFRJ) O ‘sociolingüista’ Mário de Andrade e o problema da língua brasileira .................................................................................................................357 Carlos Alexandre Victorio Gonçalves (UFRJ) História externa do português do Brasil............................................357 Castelar de Carvalho (ABF e UFRJ) Diálogo entre tradições: uma leitura de “A cartomante” de Machado de Assis.......................................................................................................357 Cecília de Macedo Garcez (UFJF) O fim de Arsênio Goddard de João do Rio: o destino de um voluntarioso Cláudio de Sá Capuano (UFRJ e CMRJ)...............................................358 Os caminhos da memória. Esquecer e lembrar. Uma leitura de Baú de ossos de Pedro Nava...............................................................................358 Cristina Ribeiro Villaça (UFJF) Texturas da narrativa de Autran Dourado...........................................359 Irene Jeanete L. Gilberto (Univers. Católica de Santos) Neologismos formados por empréstimos na Língua Portuguesa escrita contemporânea do Brasil......................................................................359 Isabel Aparecida S. Stamato (PG- FCL – UNESP) O português do Brasil: a língua de Alencar .......................................359 Jorge Marques (UFRJ e CMRJ)

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A trajetória da Língua Portuguesa na Amazônia colonial................360 José Ribamar Bessa (UERJ) A produtividade de alguns processos formadores de palavra na constituição do vocabulário de pescadores artesanais.................................360 Kátia Carlos Alves/ Nelson Carlos Tavares Junior/Vanessa Sant’Anna Tavares (UFRJ) Murilo Mendes e as rasuras na religiosidade....................................361 Mara Conceição Vieira de Oliveira (UFJF) A defesa da Língua Portuguesa e do império lusitano nos primeiros gramáticos e em António Ferreira......................................................361 Márcia Maria de Arruda Franco (UFOP – CNPq) Jeitinho brasileiro. A expressão idiomática no português do Brasil: uma contribuição para o léxico da língua............................................361 Maria Auxiliadora Fonseca Leal (FALE – UFMG) As duas faces da cidade na prosa ficcional de João do Rio................362 Mariângela Monsores Furtado Capuano (UERJ) A reinvenção do infinito: mundos imaginados e imaginários em A idade do serrote, de Murilo Mendes..............................................................363 Maria Perla Araújo Morais (UFMG) A onomástica indígena no português do Brasil: confrontos lingüísticos e interétnicos.........................................................................................363 Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick (USP) A linguagem do poder e o poder da linguagem: Lima Barreto e a Língua Portuguesa.............................................................................................364 Maurício Pedro da Silva (USP) O (não) lugar de Portugal na formação de Murilo Mendes................364 Patrícia Riberto Lopes (UFJF) O duplo destronizado e a devoração simbólica – a antropofagia como revisão canônica em um conto de Rubem Fonseca..............................364 Petra Cristina Augusto (UFJF) Fatores externos na formação do léxico português da América: os elementos indígenas e afro-negros...........................................................365 Ruy Magalhães de Araújo (UERJ- FFP) Entre o segredo da Jurema e a perdida muiraquitã: uma busca da identidade nacional.......................................................................................365 Tatiana Alves Soares (UFRJ) A linguagem literária machadiana e a reescritura da tradição........366 Terezinha Vânia Zimbrão da Silva (UFJF)

PARTE IV MINICURSOS..........................................................................................367
1 - “Edição crítica da lírica de Camões”, com as participações de Álvaro de Sá (ABF); Marina Machado Rodrigues (UERJ) e Xosé Manuel Dasilva Fernández (Universidade de Vigo, Espanha).....................369

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A – O corpus minimum (Xosé Manuel Dasilva Fernández) Lírica de Camões: problemas afetos à autoria e reconstituição textual – Tentativas anteriores de estabelecimento de um corpus lírico camoniano - Metodologia concebida por Emmanuel Pereira Filho – Os critérios empregados por Leodegário A. de Azevedo Filho – A crítica textual: ferramenta fundamental para o estabelecimento crítico dos textos – O corpus minimum camoniano, segundo edição crítica de Leodegário A. de Azevedo Filho. B – O corpus addititium (Marina Machado Rodrigues) Conceito de corpus addititium - Critérios propostos por Leodegário A. de Azevedo Filho – Aplicação dos critérios aos textos excluídos. 2 - “Unidade do português literário no mundo lusofônico de Portugal, Brasil e nações africanas de Língua Portuguesa”, com as participações de Pedro Lyra (UFRJ); Carmen Lúcia Tindó Secco (UFRJ) e Nadiá Paulo Ferreira (UERJ).

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Apresentação
Realizou-se, no período de 26 a 30 de julho de 1999, o Congresso Internacional-Brasil: 500 Anos de Língua Portuguesa, no Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 1 – Participação de professores estrangeiros Participaram do Congresso os seguintes professores vindos do exterior: 1.1 - Prof. Dr. Eugenio Coseriu, da Universidade de Tübingen, Alemanha, que falou sobre “Língua Portuguesa e exemplaridade brasileira”; 1.2 - Prof. Dr. Fernando Alves Cristóvão, da Universidade de Lisboa, Portugal, que falou sobre “Unidade e diversidade da Língua Portuguesa na hora da globalização”; 1.3 - Prof. Dr. Telmo Verdelho, da Universidade de Aveiro, Portugal, que falou sobre “O português quinhentista”; 1.4 - Profª Drª Evelina Verdelho, da Universidade de Coimbra, Portugal, que falou sobre “O português quinhentista”; 1.5 - Prof. Dr. Jorge Morais Barbosa, da Universidade de Coimbra, Portugal, que falou sobre “O português quinhentista”; 1.6 - Prof. Dr. José Carlos Seabra Pereira, da Universidade de Coimbra, que falou sobre “A redescoberta do Brasil pelo imaginário neo-romântico”; 1.7 - Prof. Dr. Nicolás Extremera Tapia, da Universidade de Granada, Espanha, foi debatedor em mesa-redonda que tratou do tema proposto pela conferencista Yonne Leite, do Museu Nacional e da UFRJ, sobre “As línguas indígenas brasileiras” e a Grammatica da lingoa mais falada na costa do Brasil, do Padre José de Anchieta. Em outra sessão, já como conferencista, expôs as suas

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conclusões sobre recente investigação feita em torno da língua dos catecismos usadas no Brasil quinhentista; 1.8 - Prof. Dr. José Augusto Cardoso Bernardes, da Universidade de Coimbra, Portugal, que falou sobre “Os estudos vicentinos: balanço e perspectivas”; 1.9 - Profª Drª Anna Hatterly, da Universidade de Lisboa, que falou sobre “A questão da lusofonia”; 1.10 - Prof. Dr. Xosé Manuel Dasilva Fernández, da Universidade de Vigo, Galiza, que falou sobre “Tradução literária e comunicação cultural: o português do Brasil na Espanha”; 1.11 - Prof. Dr. Albano Martins, da Universidade Fernando Pessoa, Porto, Portugal, que falou sobre a “Língua, poesia e música em Cecília Meireles”; 1.12 - Prof. Dr. Salvato Trigo, da Universidade Fernando Pessoa, Porto, Portugal, que falou sobre “O português em África”; 1.13 - Prof. Dr. João Nuno Paixão Corrêa Cardoso, da Universidade de Coimbra, Portugal, que falou sobre “A construção lingüística da identidade” 2 – Participação de professores brasileiros Em seguida, relacionaremos a participação de professores brasileiros, indicando temas de conferências e mesas-redondas: 2.1 - Conferência sobre a “Língua histórica portuguesa e exemplaridade brasileira”com as participações de Cilene da Cunha Pereira (ABF e UFRJ), Castelar de Carvalho (ABF e UFRJ) e Evanildo Bechara (ABF e UERJ); 2.2 - Conferência sobre “As línguas indígenas brasileiras e a Grammatica da lingoa mais usada na costa do Brasil, do padre José de Anchieta”, de Yonne Leite (do Museu Nacional e da UFRJ), com a participação de Ricardo Cavaliere (ABF e UFF); 2.3 - Mesa-Redonda sobre “A contribuição das línguas indígenas e africanas para o enriquecimento do léxico do português do Brasil” com as participações de Horácio Rolim de Freitas (ABF e UERJ), Luís César Saraiva Feijó (ABF e UERJ) e Mauro Vilar (IAH); 2.4 - Conferências sobre “A Língua Portuguesa no Brasil: papel dos gramáticos na sua implantação” com as participações de Evanildo Bechara (ABF e UERJ), Manuel Pinto Ribeiro (ABF e UERJ) e Walmírio Macedo (ABF e USU);

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2.5 - Mesa-Redonda sobre “A formação da língua literária no Brasil” com as participações de Domício Proença Filho (ABF e UFF), Gilberto Mendonça Teles (ABF e PUC) e Ildásio Tavares (UFBa); 2.6 - Conferência sobre “Tradução literária e comunicação cultural: o português do Brasil na Espanha”, com as participações de Helena Ferreira (UFRJ), Maria Lúcia Aragão (UFRJ), Ivany Lessa Baptista de Oliveira (SBLL) e Maria Leny H.S. de Almeida (UERJ); 2.7 - Mesa-Redonda sobre “O português do Brasil - sua implantação e sua oficialização como língua nacional”, com as participações de Claúdio Cezar Henriques (ABF e UERJ), André Valente (UERJ), José Carlos Azeredo (UERJ) e Darcília Simões (UERJ); 2.8 - Conferência sobre “Palavra de poeta – Cabo Verde e Angola” proferida pela escritora e jornalista Denira Rozário; 2.9 - Conferência sobre “Escrevendo ainda em Latim no séc.XVII e defendendo Portugal por imagem”, proferida por Lílian Pestre de Almeida (Lisboa, Portugal); 2.10 - Conferência sobre “Unidade e diversidade da Língua Portuguesa na hora da globalização”, com as participações de Eneida Monteiro Bonfim (ABF e PUC); Horácio Rolim de Freitas (ABF e UERJ) e Rosalvo do Vale (ABF e UFF); 2.11 - Mesa-Redonda sobre “A língua literária moderna” com as participações de Dalma Nascimento (UFRJ); Marcus Accioly (UFPe) e Pedro Lyra (UFRJ); 2.12 - Conferência sobre “Em defesa da Língua Portuguesa”, por Leodegário A. de Azevedo Filho. Minicursos 1 - “Edição crítica da lírica de Camões”, com as participações de Álvaro de Sá (ABF); Marina Machado Rodrigues (UERJ) e Xosé Manuel Dasilva Fernández (Universidade de Vigo, Espanha); 2 - “Unidade do português literário no mundo lusofônico de Portugal, Brasil e Nações Africanas de Língua Portuguesa”, com as participações de Pedro Lyra (UFRJ); Carmen Lúcia Tindó Secco (UFRJ) e Nadiá Paulo Ferreira (UERJ). Em síntese, o Congresso pôs em discussão, de um lado, o problema do transplante e da implantação do português como língua nacional do Brasil, analisando o uso da língua geral no séc. XVI e o gradativo triunfo da Língua Portuguesa através do bilingüismo

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do séc. XVII e da sua definitiva implantação no séc. XVIII. A partir do séc. XIX, a elite intelectual brasileira assumiu como dela a Língua Portuguesa, surgindo então várias polêmicas entre portugueses e brasileiros. Conclusivamente, a língua é a mesma enquanto sistema, apresentando naturais variações de norma e uso, não apenas entre Portugal e Brasil, mas em todo o mundo lusofônico. De outro lado, o Congresso analisou a formação da língua literária no Brasil, desde o séc. XVI, quando a obra de Anchieta se incluiu dentro dos postulados da estética jesuítica, recebendo os influxos ideológicos do Concílio de Trento, em sua expressão pré-barroca. No séc. XVII, com Gregório de Matos e Vieira, o Barroco atingiu a sua plenitude, estendendo-se ainda pelo séc. XVIII, em que floresceu o Arcadismo com os poetas do grupo mineiro. No séc. XIX, a língua literária do Brasil estava plenamente constituída, como se pode ver nas obras literárias dos românticos, realistas e simbolistas. Afinal, no séc. XX, a partir da Semana de Arte Moderna de 22, a literatura brasileira tornou-se uma das mais expressivas do mundo lusofônico. Com a publicação das Atas do Congresso, que serão enviadas aos órgãos patrocinadores, melhor se poderá avaliar a qualificação científica das conferências proferidas e dos temas discutidos em mesas-redondas e em sessões de Comunicações livres. Em anexo, remetemos ainda a programação das sessões de Comunicações, indicando os nomes dos participantes e os temas das mesmas, com a observação de que também serão selecionadas e inseridas nas Atas, ampliando-se assim os benefícios culturais do Congresso Internacional – Brasil: 500 Anos de Língua Portuguesa. Por fim, de acordo com o Regulamento do Congresso, por todos aprovado, aqui se publicam apenas os textos entregues à Comissão Organizadora, com disquetes, dentro do prazo estabelecido. Leodegário A. de Azevedo Filho Presidente

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Parte I Conferências

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Língua, poesia e música em Cecília Meireles
Albano Martins
.............................. palavras, que estranha potência, a vossa!

Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência Há um poema de Cecília Meireles que me persegue há cinqüenta anos. Vem no seu livro Viagem, de 1939, e os seus quatro primeiros versos dizem assim: Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; - depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar. Porque me persegue ele, o poema? Não sei. Tenho-o no ouvido, onde ressoa em surdina, e sei, isso sim, que lá irá continuar, fazendo companhia a outros que ali um dia também entraram, para não mais sair. Este, por exemplo: Senhora, partem tão tristes meus olhos por vós, meu bem, que nunca tão tristes vistes outros nenhuns por ninguém. Ao seu poema chamou Cecília “Canção”. Este, cujo mote acabo de evocar, é uma “cantiga”, e o seu autor, João Roiz de

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Castelo Branco, um dos poetas recolhidos por Garcia de Resende no seu Cancioneiro Geral, lá por alturas de Quinhentos, quando a Língua Portuguesa atravessava os mares, levada no bojo das naus – dos navios –, como o sonho de Cecília. Mas se a este, por vontade do poeta, o engoliram as “ondas entreabertas” por suas mãos, a língua, essa, aportou aqui triunfante, bebeu o sumo dos frutos tropicais, mergulhou raízes no húmus estuante de seiva, tornou-se “vaga música”, abriu as vogais, suavizou as consoantes, fez-se imperatriz na toada dolente do chorinho, congonha no bule dos dias iguais, vinho anestesiante das noites cálidas do luar sertanejo, grito de Ipiranga, rosa e ametista. É dessa “vaga música”, dessa suavidade, desse vinho perturbante, do perfume dessa rosa e do brilho dessa ametista que é feita a poesia de Cecília, que são feitas as suas “canções” – título de um sem número de poemas avulsos e de um emblemático livro seu. E esta palavra “canção”, a que os tempos da demanda petrarquista haviam de emprestar novas feições, novos ritmos, novos conteúdos e respiração mais dilatada, logo remete para as origens da língua literária, para a jubilosa atmosfera das “flores do verde pino” ou para as “ondas do mar de Vigo”, a que o poeta de Mar Absoluto sempre se manterá ligado pelo ritmo escandido dos seus versos brandos. Canção, e canto, e música interligados num novelo de rimas, de ritmos e de sons, ora vindos do corpo redondo dos alaúdes, ora do afilado perfil das flautas, ora dos cravos e das clarinetas que por ali andam urdindo a sua teia sonora, num compasso de valsa lenta e suavíssimos adágios. É essa a língua primeva de Cecília: a dos Cancioneiros. Os medievais, os das cantigas de amigo e de amor, e o de Garcia de Resende. Mas é também a do romanceiro popular português, como claramente deixam perceber o seu Romanceiro da Inconfidência e alguns romances ou rimances que também escreveu e avulsamente publicou. Volto ao poema. Para dizer que sei, afinal, donde vem o seu fascínio. Vem do ritmo, do seu compasso lento, das cesuras e, também, dos seus timbres vocálicos. Diz Amorim de Carvalho, no seu Tratado de Versificação Portuguesa, que o octossílabo (e octossílabos são os versos do poema de Cecília) “tem uma toada própria lânguida, mole, vagarosa e dolente”; que os seus acentos rítmicos recaem, umas vezes, na 4ª e 8ª sílabas; outras, na 2ª, 4ª, 6ª e 8ª, caso em que o seu andamento se torna mais vagaroso. Não conheceu Amorim de Carvalho o poema de Cecília. Conhecendo-o, teria emendado a

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afirmação, ou tê-la-ia completado, ao menos, acrescentando que a norma por si enunciada pode admitir desvios, aceitar variantes. Repare-se no segundo verso:”e o navio em cima do mar”. Aqui, as tónicas dominantes são a 3ª, 5ª e 8ª sílabas. E há, no mesmo poema, um verso – este: “colore as areias desertas” – em que eles, os acentos rítmicos, recaem na 2ª, na 5ª e na 8ª sílabas. Donde se infere que o maior vagar e dolência do octossílabo podem também resultar da sua maior variedade rítmica. Como naquele verso – nem sáfico nem heróico – de Camilo Pessanha – “aridez de sucessivos desertos” –, cuja acentuação (com as tónicas dominantes na 3ª e 7ª sílabas) se furta visivelmente às normas estabelecidas pelos tratadistas para o verso decassilábico. Veja-se como, com tais acentos, ambos os versos ondulam. O de Cecília: lo co rei ser re ( as a as de (∪ - / ∪ ∪ - / ∪ ∪ - /) ( tas )

O de Pessanha: dez ari de suce (∪∪- / ∪ ssi vos de ser (tos)

∪∪ - / ∪

∪ - /)

No primeiro, o ritmo iâmbico volve-se em dactílico por excelência. E é também dactílico, no essencial, o verso de Camilo Pessanha, onde a introdução do péon IV no segundo pé ( ∪ ∪ ∪ -) parece dilatar ad infinitum a extensão (a aridez) dos “sucessivos desertos”. E esta é a prova – mais uma, e prova bastante – de que, em matéria de poesia, são os poetas quem, em definitivo, estabelece as normas, não os tratadistas. Mas falei dos timbres. É que também eles concorrem decisivamente para a música apetecida que os versos engendram. Aí os temos: a tónica final do primeiro verso, que contém a vogal fechada i (“Pus o meu sonho num navio”) ecoa duas vezes no segundo (“e o navio em cima do mar”) e também no terceiro (“depois, abri o mar com as mãos”). As rimas em i (neste caso, internas) são, como é sabido, uma constante nas cantigas de amigo (“Ai flores, ai flores do verde pino, / se sabedes novas do meu amigo...”; “Ondas do mar de

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Vigo, / se vistes meu amigo...”), onde alternam, como também é sabido e notório, com as rimas em a. Aí as temos, na primeira quadra do poema de Cecília, onde o substantivo mar, do final do segundo verso, entra em consonância com o infinito naufragar, do quarto. E, como se tal não bastasse, o mar do segundo verso é recuperado no terceiro, numa espécie de leixa-pren, e a sua vogal repercute-se, como um eco, na palavra “água”, sempre sabiamente colocada a meio dos versos (“debaixo da água vai morrendo”; “praia lisa, águas ordenadas”), lá onde o tom sobe ou se encrespa, como a crista duma onda, que logo se quebra, desamparada, nas “areias desertas”. E de leixa-pren poderíamos falar ainda a propósito de navio e sonho, que são, juntamente com mar, as palavras-chave da semântica do poema. Navio e sonho que, em repetidas variações sobre o mesmo tema, como leit-motiv ou em jeito de estribilho, reaparecerão em outros, vários, momentos do poema. Antes que o “navio chegue ao fundo” e o “sonho desapareça”. As rimas em i e em a, dizíamos. E são elas que de novo irrompem em pontos fulcrais do poema. As primeiras, nesta quadra, situada a meio: O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio. As segundas, no seu remate: Depois tudo estará perfeito: praia lisa, águas ordenadas, meus olhos secos como pedras e as minhas duas mãos quebradas. Entre parênteses, faria notar que são as rimas em i que dão o timbre mais saliente à “cantiga” de João Roiz de Castelo Branco atrás aludida, e as rimas em a as mais constantes no romanceiro popular português. Quem não se lembra do início da “Nau Catrineta”?: Lá vem a nau catrineta, que tem muito que contar. Ouvi agora, senhores, uma história de pasmar.

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Poesia em mi, em si, em fá e em lá, isto é, poesia e música harmonizadas na escrita rendilhada de Cecília Meireles. Música de clavicórdio, instrumento antigo, e de harpa eólica (“O vento vem vindo de longe, / a noite se curva de frio...” – note-se a explosão das fricativas, a sugerir o continuado sussurro da aragem). Ou, se preferirem, a língua elevada à sua mais alta expressão musical. Terá sido a consciência de tais valores – os valores musicais da língua -, tanto como a da sua irresistível energia comunicativa, que levou Cecília a escrever, no “Romance LIII ou das palavras aéreas”, do seu Romanceiro da Inconfidência: ................................. palavras, que estranha potência a vossa! Todo o sentido da vida principia à vossa porta; o mel do amor cristaliza seu perfume em vossa rosa; sois o sonho e sois a audácia... Palavras. Sonho e rosa. Uma rosa de sílabas “aéreas”, perfumadas. Uma canção. Todo o canto e toda a música no timbre de algumas vogais. Do i, sobretudo. Porque é em i que “ o mel do amor cristaliza”. Porque é lá, no amor, que o “sentido da vida principia”. E eis como, deste modo, a frase do Génesis “Ao princípio era o verbo” ganha novo significado. Este: ao princípio era o i. O i de Cecília. O i de poesia. E, enfim, o i de Brasil.

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Questões de globalização e lusofonia
Ana Hatherly, da Universidade Nova de Lisboa.
Em primeiro lugar, desejo expressar a minha satisfação por me encontrar mais uma vez nesta cidade maravilhosa que sempre me encantou e onde sempre fui tratada com tanto carinho. Agradeço ao meu querido amigo Leodegário de Azevedo Filho e aos organizadores deste Congresso o convite para estar aqui convosco. Apesar de a Lingüística não ser a área da minha especialidade, esta não é a primeira vez que me encontro no meio de mestres da Lingüística: lembro-me bem de ter participado no 1º Congresso de Lingüística que, em 1979, se realizou em João Pessoa, e que foi para mim um Encontro a muitos títulos memorável. Vinte anos depois, aqui estou, novamente num Congresso de Lingüística, mas como sou apenas escritora e professora de literatura, vão-me perdoar se, no meu pequeno texto, eu ficar dentro do meu terreno, tanto mais que a literatura, que é uma das áreas privilegiadas de funcionamento duma língua, me permite abordar a questão da lusofonia, que é aonde eu quero chegar. Recentemente, no passado mês de Junho, estive em Varsóvia, para participar no 66º Congresso do P.E.N. Club Internacional, que este ano se realizou na Polônia. O tema do Congresso era Farewell to the XXth Century – uma despedida do século – mas o sub-tema que mais se debatia era o problema da globalização, que, sendo na origem, de ordem econômica na Europa, mas também em todo o mundo, se projecta duramente na área da cultura. O conceito de global village prenunciado por Marshall Macluhan há mais de duas décadas, começa agora a tomar forma de um modo generalizado. Devo dizer que além de ser membro da direcção do P.E.N.

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Club Português, há muito que também sou membro da direcção do pelouro para os direitos lingüísticos no P.E.N. Club Internacional, e por isso a minha ligação com as questões lingüísticas tem sido uma das áreas do meu interesse. Voltando ao Congresso de Varsóvia, o que preocupava os congressistas do P.E.N Club, europeus, americanos do norte e do sul, africanos e asiáticos, uma vez que se tratava de uma representação de intelectuais de todo o mundo, o que os preocupava estava equacionado nos dois temas que foram propostos para debate e eram os seguintes: 1º - Quais os efeitos da globalização ante a singularidade do escritor? 2º - Qual o papel do escritor no próximo milênio? Estes dois temas já haviam sido discutidos num Encontro Internacional de Escritores do P.E.N. que se realizara em Bled, na Yugoslávia, no mês de Maio. O que se passou em Varsóvia, foi, portanto, um prolongamento desse debate. Eu não estive nesse encontro de Bled, mas li atentamente as Actas e, quando chegou minha vez de entrar no debate em Varsóvia, apresentei um texto de que vos darei aqui uma breve súmula. Assim, voltando à questão inicial da globalização que tanto preocupa os intelectuais, especialmente os de países de línguas minoritárias que, em geral, correspondem a economias deficitárias ou em desenvolvimento, o que se pôde concluir destes debates foi que o processo de globalização, que agora ameaça as erradamente chamadas “pequenas literaturas nacionais”, que representam por vezes, culturas longamente individualizadas, esse processo há muito que tem estado em discussão porque, agora como antes, o que verdadeiramente está em questão é o problema da sobrevivência: sobrevivência duma individualidade, sobrevivência duma ideia de cultura, sobrevivência do todo um mundo de expressão e criatividade própria, num contexto em que o domínio duma força econômica, a que agora chamamos globalização, é uma velha ameaça. O que mudou é que essa ameaça atinge agora mesmo países e culturas secularmente importantes que, hoje em dia, em termos de números de falantes, se encontram de repente no número das línguas minoritárias, como exemplo, a Alemanha. Quanto à necessidade de afirmação de singularidade por parte do escritor, agora mais do que nunca confrontado com o processo de globalização, esse confronto estende-se agudamente às litera-

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turas e às culturas nacionais, e a das em línguas minoritárias, confrontadas com os padrões de consumo das áreas culturalmente dominantes. Perante esta situação que, na Europa e no mundo, diz respeito a um grande número de países com culturas tradicionais com séculos de existência, quesurgiram várias perturbantes perguntas, como por exemplo: 1) - Poderá acaso o romântico conceito de escritor como out-sider, ou a defesa de uma cultura marginal, sobreviver num mundo dominado pelo processo de globalização, a qual, para citar uma definição oferecida pela Internet, que aqui traduzo, “é um meio para se atingir altos níveis de produtividade, eficiência e segurança, penetrando as forças do mercado e os ciclos económicos à escala mundial”? 2) - Poderá acaso o velho conceito de literatura como mercadoria espiritual (ou Ropicapnefma segundo lhe chamou João de Barros no século XVI) poderá acaso esse velho conceito sobreviver num mundo dominado pelos interesses económicos que fazem dos assuntos culturais uma indústria como qualquer outra? 3) - Qual é o lugar do talento individual num contexto que tende a nivelar as diferenças, tantas vezes pelo baixo, submetendo tudo aos padrões ditados pelos valores das sociedades antes dominantes e suas dominantes línguas? A estas prementes questões as tentativas de resposta geraram logo debates, que aqui não tenho tempo de relatar, mas que poderemos aqui re-iniciar, se for vosso desejo.O que posso informar é que, dos importantes debates que ocorreram tanto em Bled como em Varsóvia, uma das principais conclusões a que se chegou foi que, curiosamente, ou talvez significativamente, aquilo a que o processo de globalização em curso tem dado origem, nos países e nas culturas de línguas minoritárias mais atentos, é uma intensificação das diferenças culturais, literárias e lingüísticas que reafirmam – ou pelo menos tentam reafirmar – uma diferenciação, surgindo essa diferenciação como a resposta natural à ameaça da normalização, da standardização, do nivelamento das culturas personalizadas, que põem em perigo a diversidade, que é uma regra natural do processo de sobrevivência. Quando, nesse debate internacional, chegou a minha vez de falar, o exemplo que eu dei, como não podia deixar do ser, foi precisamente o da lusofonia.

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Como todos sabem, sendo a Língua Portuguesa uma língua minoritária na Europa, à escala mundial é uma língua com um importante número de falantes, mas isso só acontece no conjunto da lusofonia, que se caracteriza, precisamente, pela afirmação duma convivência apoiada numa diferenciação harmoniosa. Esse é o prodígio (talvez momentâneo) que se verifica no mundo da Língua Portuguesa, e que evidencia a enorme ductibilidade dum idioma em que diferentes culturas se apoiam para se afirmarem individualmente, constituindo uma experiência multicultural em que as diferenças, até agora, têm sido uma vantagem, e não uma desvantagem. Esse é o prodígio da lusofonia que, perante a ameaça de globalização, consegue manter uma forma de coexistência das diferenças num harmonioso plural, num todo sinfônico, em que o talento individual e as culturas individuais contribuem umas para as outras sem se contradizerem. E se, como já tem sido dito, a literatura surge como o local da plenitude da língua, e não a literatura da lusofonia, explorando na simultaneidade o mundo da diferença, no seu conjunto será uma ilustrativa manifestação do alcance da criatividade individual num conjunto de pluralidades. E então pergunto: 1) Não será acaso tarefa do pensamento criador tentar a exploração do mundo da diferença? 2) A criatividade, a todos os níveis, não será acaso a expressão duma procura da secreta relação que existe entre o homem e o mundo, destinada a promover imaginativamente a compreensão do outro? O exemplo da lusofonia surge, assim, como algo que se atinge através duma compreensão da unidade superior da língua portuguesa, que poderá transformar-se em “uma ponte eterna sobre a corrente dos séculos, como tem sido uma ponte sobre a vastidão do oceano.”1 Dois exemplos recentes da harmoniosa expressão da lusofonia: para além da arreigada competência e dedicação com que no Brasil se estudam os autores portugueses, quero assinalar aqui a recentíssima edição da Antologia da poesia portuguesa contemporânea, organizada por Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, que inclui dezenas de poetas.2 Também recentemente, em Maio, mas em Portugal, realizou-se em Sintra a II Festa da Língua Portuguesa, um encontro de

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poetas da lusofonia, vindos de Angola, Brasil, Cabo Verde, GuinéBissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. 3 Da participação desses poetas surgiu uma Antologia intitulada Vozes poéticas da Lusofonia4 que é uma verdadeira sinfonia de vozes em que as diferenças constituem a sua riqueza, a sua beleza, a sua força individual enriquecida pela convivência. Para ilustrar esta afirmação vou ler alguns dos poemas incluídos nessa Antologia, que merece um estudo atento porque o que ela exemplifica é uma amostragem de talentos individuais que independem da origem dos seus autores. Desta coletânea de talentos e vozes individuais está excluído o folklore, a exploração mais ou menos primária de realidades culturais distintas. O que aí domina é o mundo da língua ao serviço da expressão individual ainda que não esteja isenta de ideologia. O que importa é que cada um se sentiu livre para se exprimir e para utilizar uma língua comum como veículo de afirmação personalizada. Consideremos, portanto, alguns exemplos da criatividade lusofônica numa feliz convivência dentro do âmbito da poesia contemporânea. Homo angolensis Mastiga a própria desgraça com ela improvisa uma farra precisa de uma boa maka como do ar para respirar acha o mundo demasiado pequeno pró seu coração ri à toa fornica por disciplina revolucionária jura que um dia será potência gosta de funje todos os sábados e foge do trabalho na segunda mas fica limão quando lhe querem abusar Angola: João Melo, p.17

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O número quatro O número quatro feito coisa ou a coisa pelo quatro quadrada, seja espaço, quadrúpede, mesa, está racional em suas patas; está plantada, à margem e acima de tudo o que tentar abalá-la, imóvel ao vento, terremotos, no mar maré ou no mar ressaca. Só o tempo que ama o ímpar instável pode contra essa coisa ao passá-la: mas a roda, criatura do tempo, é uma coisa em quatro, desgastada. Brasil: João Cabral de Melo Neto, p. 78 Ser tigre O tigre ignora a liberdade do salto, como se uma mola o compelisse a pular. Entre o cio e a cópula, o tigre não ama. Ele busca a fêmea como quem procura comida. Sem tempo na alma, é no presente que o tigre existe. Nenhuma voz lhe fala da morte. O tigre, já velho, dorme e passa. Cabo Verde: Arménio Vieira, p.116

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Imerecimento Adormeço Na luz dos teus olhos vejo Veneza que não conheço Ondulo num círculo de ondas de levitação Confesso: não mereço a ternura da gôndola acariciando as águas onda a onda Guiné-Bissau: Tony Tcheka, p. 133 O nosso medo Agora a memória vasculha os quatro cantos da cidade e encasacados os ex-amigos rastejam emaranhados nas raízes subterrâneas do seu medo e ágeis as suas mãos embraiam reluzentes besoiros que dilaceram as estradas bebendo sequiosos o sangue dos ventos. Vasculha as ruas de ponta a ponta a memória

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laboriosa como um insecto e se há mais do que eu digo também o meu medo encasacado instiga-me ao segredo. Moçambique: José Craveirinha, p.157 Lá no Água Grande Lá no “Água Grande” a caminho da roça negritas batem que batem co’a roupa na pedra. Batem e cantam modinhas da terra. Cantam e riem em riso de mofa histórias contadas, arrastadas pelo vento. Riem alto de rijo, com a roupa na pedra e põem de branco a roupa lavada. As crianças brincam e a água canta. Brincam na água felizes... Velam no capim um negrito pequenino. E os gemidos cantados das negritas lá do rio ficam mudos lá na hora do regresso... Jazem quedos no regresso para a roça. S. Tomé e Príncipe: Alda do Espírito Santo, p. 239

O sal da língua Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém - mas quem

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é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida a alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar. São três, quatro palavras, pouco mais. Palavras que te quero confiar. Para que não se extinga o seu lume o seu lume breve. Palavras que muito amei, que talvez ame ainda. Elas são a casa, o sal da língua. Portugal: Eugénio de Andrade, p. 195 A fala Sou de uma Europa de periferia na minha língua há o estilo manuelino cada verso é uma outra geografia aqui vai-se a Camões e é um destino. Velas veleiro vento. E o que se ouvia era sempre na fala o mar e o signo. Gramática de sal e maresia na minha língua há um marulhar contínuo. Há nela o som do sul o tom da viagem. O azul. O fogo de Santelmo e a tromba de água. E também sol. E també sombra. Verás na minha língua a outra margem. Os símbolos os ritmos os sinais. E Europa que não mais Mestre não mais. Portugal: Manuel Alegre, p. 209

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Estou aqui Ó Brasil terra maravilhosa onde cresce a fruta mais gostosa Quero comer quero beber água de coco quero provar fruta de cajá caju capuaçú goiaba abacate abacaxi aruças aracás joá cambois mamão mangava macujé mangará maracujá mapurunga mandacarú pitomba pitanga piquiá ananás umbu mandacaru oitituruba genipapo As romãs rubicundas, quando abertas à vista agrados são; à língua ofertas*

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Ah! Há um mundo na língua! *Manoel Botelho de Oliveira, in A ilha da Maré (1705).

Notas
1 Cf. Leodegário A. de Azevedo Filho, A língua, portuguesa e a unidade do Brasil, Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Filologia,1999, p.22 2 Esta Antologia foi publicada no Rio do Janeiro, pela Editora Nova Aguilar, em 1999. 3 Infelizmente não foram incluídos poetas da Ásia nem da Oceania, onde se destaca Xanana Gusmão, de Timor, cuja poesia é regularmente de antologias e recitais em Portugal. 4 Organização do Instituto Camões, de Lisboa, Edição da Câmara Municipal de Sintra, Maio de 1999

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D. Francisco Manuel de Melo no Teatro da Língua Portuguesa
Evelina Verdelho, da Universidade de Coimbra.
Entre os numerosos estudos realizados sobre a personalidade e a obra valiosa, vasta e diversificada, em português e espanhol, de D. Francisco Manuel de Melo, contam-se alguns que incidem sobre a sua linguagem, designadamente trabalhos académicos que trouxeram contributos para o conhecimento do seu estilo. Essa constitui, todavia, uma área de investigação ainda muito em aberto, a solicitar novos estudos de vária ordem. Refiro a propósito que na Universidade de Coimbra está a desenvolver-se um projecto de investigação que tem em vista organizar o corpus lexical das obras em Língua Portuguesa do Polígrafo, tanto quanto possível com base em edições fidedignas. Neste ensejo proponho-me focar algumas facetas deste autor manifestadas perante o idioma português, as quais – adoptando expressão modelada pelo universo teatral, à imagem do que se verificou com o próprio D. Francisco Manuel de Melo, nomeadamente no soneto “Mundo he Comedia” (As Musas portuguesas, p. 6), e com outros autores de Seiscentos – poderei etiquetar de espectador, crítico e actor no teatro da Língua Portuguesa. Nas suas obras, quer no discurso de autor, quer nas falas de figuras ou personagens, D. Francisco Manuel de Melo faz não raras referências a aspectos e materiais da Língua Portuguesa. De quando em quando, como que interrompe o fio da narração ou da reflexão, e detém-se em vocábulos, assinalando o significado ou o uso, às vezes apontando o que se verificava no português de épocas anteriores, ou em outras línguas. Entre outros casos, de que um levantamento exaustivo propiciará certamente informações com interesse no âmbito da história da língua, destaco que assim procede com vocábulos que designam categorias sociais, como «dama»,

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«dona», «senhora» e «fidalgo», em A Visita das fontes, em intervenção da Fonte Velha, onde está notado que às «(…) Damas e Senhoras (…) antigamente chamavam Donas» (p. 118), e na Epanáfora política, onde se lê: «Viuia por estes tempos em Lisboa hum dos nobres do Reino, de aquella ordem a quem os Portuguezes chamão: Fidalgos, com mais digna recordação que as outras nasções de Espanha, sendolhes a todas vniuersal este nome, não ha muito trocado ao de Caualleiros» (p. 8) (veja-se no final indicação das obras e edições citadas). Também palavras relativas ao comportamento lhe merecem nota, como «despejo», «compostura», «descompostura», e outras. Na Carta de guia de casados depara-se-nos o seguinte trecho: «Faz grande dano a maldita palavra que se nos pegou de Castela, a que chamam despejo, de que muitas [mulheres] se prezam. E certo que em bom Português, despejo é descompostura» (p. 140). Em A Visita das fontes, pela voz de duas figuras, Apolo e o Soldado, regista-se que ao «saber misturar o despejo e a compostura, dando o seu a seu dono» chamam «bizarria» (p. 59). Em casos como os dos vocábulos acima mencionados, em que as referências extralinguísticas constituíam, no século XVII, matéria sensível, designadamente sob o ponto de vista moral, político e social, as observações metalinguísticas surgem geralmente associadas a observações de outra natureza. Por vezes o escritor apresenta séries mais ou menos extensas de termos e de expressões, da linguagem comum e de linguagens especiais, sendo notório que essa apresentação tem muito que ver com o comprazimento que D. Francisco Manuel de Melo encontrava nos próprios materiais linguísticos reunidos. É o que sucede em Os Relógios falantes, onde aparecem, em fala do Relógio da Aldeia, os seguintes «modos de dizer» em que entra o vocábulo «hora»: «em boa hora», «em má hora», «ide com as horas más», «vinde com as horas boas», «a hora muito fermosa», «nas horas de Deus», «logo nessas horas», «as horas perentórias», «as horas sucessivas», «são horas», «a que horas», «a desoras», «fora de horas»» (p. 27). Em A Visita das fontes, o Polígrafo, em fala da Fonte Velha, expõe não escassos termos relativos à arte militar, que aliás lhe deveriam ser familiares, pois prestou serviço na carreira das armas durante largos anos. Veja-se: «(…) combóis, brechas, aproxes, víveres, avançadas e castrametanções (…), cornas, hornaveques, crubeques, golas, francos, lisieres, barbacãs e falsas-bragas (…) esquadrões, serras, grandes fundos, grandes frontes, quadrados de

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gente e de terreno, dobretes, cruzes, cubos e prolongados (…), arreueres, marechais-da-estala, caporal, corneta, dragão, furriéis, quartéis-mestres, grão-preboste» (p. 58). Muitos destes termos são estrangeirismos, comentando-se, após o seu registo, ainda pela boca da Fonte Velha, que aqueles são proferidos «(…) com milhares de vozes estrangeiras que nossos pecados, além dos costumes estrangeiros, nos trouxeram à terra para sua maior corrução que defesa» (pp. 58-59). Sublinho que uma compilação extraordinária de materiais linguísticos é oferecida pelas Metáforas, ou Feira de anexins. Nessa obra o autor apresenta, através de diálogos, um avultado contingente de metáforas, jogos de palavras, ditos e provérbios. Segundo as palavras de Alexandre Herculano, a Feira de anexins «(…) seria quasi um manual para os escriptores dramaticos, principalmente do genero comico, que quizessem fazer falar as suas personagens com phrase conveniente, e com as graças e toque proprio da nossa lingua portugueza e do verdadeiro estylo dramatico (…)» (apud ob. cit., p.V). Conforme se vê pelo que acima fica relevado, as obras de D. Francisco Manuel de Melo mostram-no como observador minucioso da Língua Portuguesa, sensível a aspectos como a sua riqueza, variedade, mudança e pureza, a convocar o leitor para as particularidades e preciosidades que nela detecta e colecciona, enfim, como um espectador do espectáculo do idioma. O emprego da Língua Portuguesa na escrita cuidada, por parte de poetas e prosadores, que D. Francisco Manuel de Melo menciona, é objecto de alguns comentários no Hospital das letras. Aí encontramos, por exemplo, a seguinte opinião expressa pela voz de Lípsio, a propósito das obras de Francisco Rodrigues Lobo: «As de prosa têm perfeitíssima saúde; não há para que lhes pôr mão, porque foi claro, engenhoso, elegante, grande cortesão e não menor jardineiro da Língua Portuguesa que tosou, poliu e cultivou como bom filho e grato repúblico» (p. 72). Situação semelhante verificase em algumas das missivas que subscreveu, nomeadamente nas que correspondem a solicitações de apreciação de composições poéticas. Nelas está patente que o Polígrafo analisou, a par da satisfação de requisitos específicos da Retórica e Poética, a ortografia, a pontuação e até a letra com que as composições lhe foram apresentadas. Leiam-se, por exemplo, as cartas nº 109 e nº 565 do volume Cartas familiares em que há alguns anos foi reunida e publicada a sua copiosa correspondência. Naquela – «Sentenceando um

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certámen poético» – D. Francisco Manuel de Melo afirma: «De muitas considerações pende a averiguação da preferência entre Poemas contenciosos. Parece-me se podem reducir a quatro circunstâncias. A primeira: que sejam em tudo conformes ao assunto. A segunda: que guardem decoro aos sujeitos propostos. A terceira: que se apropriem ao dialético da língua em que se escrevem. A quarta: que observem boa ortografia» (pp. 143-144). Na carta nº 565 – «Tornando a um amigo poeta um livro de versos que lhe havia dado a ver» – avisa: «Esta noite (e tarde) recebo os quadernos, e poderei logo dar deles alguma razão. A letra é boa mas pouco castigada, e eu proluxíssimo nestas meudezas. Lá se achará V. M. coalhado de pontos e vírgulas» (pp. 539-540). Os comentários metalinguísticos de D. Francisco Manuel de Melo avultam particularmente em torno da realização da Língua Portuguesa na conversação. Aliás, com o Polígrafo o discurso oral é referenciado (e valorizado) como meio privilegiado de recolha e transmissão de certos saberes – saberes tradicionais, de senso comum, de experiências de vida – o que está indiciado nos seus textos, designadamente nos apólogos, por expressões como: «dezia minha avó» (Visita, p. 37), «Dezia um amo» (Visita, p. 37), «disseram os antigos» (Visita, p. 46), «disseram as nossas velhas» (Carta, p. 140). Estas expressões ocorrem tão frequentemente nos escritos do autor que ganham foro de traço característico do seu estilo, tal como, por exemplo, os adágios. Em A Vista das fontes, numa intervenção da Fonte Nova, que de resto suscita o aplauso de outro interlocutor do diálogo, Apolo, preconiza-se que as pessoas se exprimam com simplicidade e naturalidade, e censura-se a fala arrebicada que perde em clareza o que presume em subtilezas e requintes, quando aquela figura diz: «Não há cousa como um falar desabotoado, de sorte que as pessoas digam tudo quanto lhes faz mister sem pedir outras regras que as que lhe dá a Natureza de mão comum com a necessidade, ocasião e compostura, que a todos em seu modo pertence. Mas, andar falando como quem bebe por púcaro penado ou como a história do Calcinha, que não haveis de dizer sim nem não, é um maldito costume» (p. 109; trecho comentado por Giacinto Manuppella, em nota da sua edição do apólogo, pp. 576-577). Aliás, a fala enfatuada, (pseudo)erudita e obscura dos poetas cultos, e a dos gramáticos que se preocupavam com questões pequeninas e irrelevantes, nomeadamente certos pormenores de etimologia, são alvo de crítica em O Fidalgo aprendiz (através da elocução do Mestre das Tro-

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vas e dos comentários que lhe faz D. Gil Cogominho), e, mais desenvolvida e explicitamente, na Visita. Nesta obra lê-se: «Pelo mesmo caso que os gramáticos de contino desentranham os idiomas e fazem a varrela, e muitas varrelas, à linguagem, são de contínuo os que pior falam, escrevem e conversam (…)» (p. 110; cf. também pp. 109 e 111). Em relação à Língua Portuguesa realizada na conversação, são sobremaneira interessantes as observações registadas na Carta e na Visita sobre modos de tratamento, em particular os que se cumprem através das formas pronominais «tu», «vós», «ele», «ela», e de «senhor e «senhora», «dom» (ou) «dona», «mercê», «senhoria » e «excelência». Na primeira obra, D. Francisco Manuel de Melo considera o tratamento entre marido e mulher, aconselhando alguns usos, desaconselhando outros. Veja-se: «O Tu é Castelhano e por mais que eles o achem carinhoso, como lá dizem, é palavra muito de praça e que ao mais não deve de quebrar a menagem da câmara para fora. O Vós é Francês, que com um Vous receberam a mesma Rainha Sabá, se cá tornara. Tenho-o por demasiado vulgar. O Ele e Ela, um Ouve Senhor, Que diz Senhora, é termo bem Português, assaz honesto e bem soante» (Carta, p. 177). E continua, não esquecendo certamente a apropriação abusiva – a despeito de disposições legais que regulavam o seu emprego – das fórmulas que menciona, por pessoas que não tinham elevado estatuto social: «As Senhorias e Excelências, a quem pertencem, gravidade induzem; mas parece um certo modo de esquivança tratar um homem sua mulher como que se o não fora. Fiquem-se para os Príncipes e Reis as Altezas e Majestades (…)» (ibidem). Na segunda obra, pela voz de Apolo, é descrita pormenorizadamente a maneira como, segundo os ditames da galanteria, as damas e os seus servidores se tratavam em três «pontos» ou circunstâncias (que o autor – no seu jeito de se deter em certas palavras – explica serem também chamadas «momentos, partes, ou ocasiões», informando ainda depois que «partes» é usado com outro significado, isto é, ‘inimigos’ (Visita, pp. 122 e 126). Essas circunstâncias são: a conversação «em lugares públicos diante dos Reis»; entre as damas que passeiam em coche e os galantes que se colocam ao lado; na «cabeça de motes», complexa composição poética, entretecida de perguntas e respostas. Além disso, Apolo indica a forma de tratamento entre as damas e os seus noivos, especialmente segundo a «lei do Paço», quando se acordava o casamento (Visita, pp. 122-127). Qualidades e principalmente imperfeições da prática

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conversacional são apontadas por D. Francisco Manuel de Melo na Carta, ao expor orientações para a vida familiar, e na Visita, ao caracterizar e caricaturar alguns tipos da sociedade portuguesa seiscentista, como letrados, militares, fidalgos, gramáticos. Neste apólogo, o autor não desaproveita a oportunidade de deixar um reparo ao «desvario» «da gente vulgar» diante de palavras como «porco» e «asno», que evitavam proferir e que não ouviam sem «nojo e melindre» (p. 42) – considerando de caminho, por meio de Apolo, que «os abusos» – por certo os de linguagem – «estão no vulgo introduzidos e se vão já nele metendo como a unha pela carne. Porque abusos e povo são como unha com carne» (p. 43). Entre as qualidades da elocução advogadas pelo Polígrafo contase, no que concerne as mulheres discretas, falar «(…) o necessário, brando, a tempo, com tom que baste para ser ouvida da pessoa a quem fala e não das outras» (Carta, p. 139). Entre as imperfeições verberadas, ainda em relação às mulheres, inclui-se «falar sempre», e falar alto, nomeadamente nas igrejas (ibidem), e, no caso dos homens, a utilização de certas expressões perifrásticas para fazer referência às esposas. Veja-se: «A cousa com que mais atentado sou é uns que dão em nomearem as mulheres por circunlóquios, chamando-lhes ora a minha velha, a minha companheira, a minha hóspeda, a minha obrigação, a mãe dos meus filhos, e cousas assi que, em qualquer tom que sejam ditas, parecem pouco graves e, a meu juízo, indignas de se acharem na boca de nenhum sisudo. A mulher de que o homem se preza e o homem de que a mulher se honra, por que não hão-de ser por seus nomes nomeados? Digo delas para eles outro tanto» (Carta, pp. 176-177). Por quanto fica salientado, D. Francisco Manuel de Melo diferencia-se do tipo do «gramaticão», ou seja, daqueles gramáticos do seu tempo que, segundo declara na Visita pela voz da Fonte Velha, se enredavam a discutir «Sobre se um tu ou um eu (…) vem de Grécia ou de Palestina, sem que nisso vá ou venha cousa alga» (p. 109). Poderá dizer-se que o Polígrafo se manifesta como um crítico do desempenho da Língua Portuguesa, pois que usa de saber e sensibilidade para apreciar e julgar a prática do idioma, opinando como deve ou não deve realizar-se, especialmente na conversação, em família e entre pessoas de qualidade. Tendo por base uma sólida e ampla formação, adquirida nos livros e apurada nos círculos aristocráticos onde nasceu e se fez espelho de fidalguia e cortesania, com os seus comentários, os seus reparos e as suas orientações, configura uma arte de bem falar, em que não só a correcta e infor-

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mada realização da língua, mas também a urbanidade, as conveniências de ordem social e até a moral, estão implicadas, sendo a boa conversação um dos predicados principais de quem pretendesse atingir o ideal do cortesão discreto (caracterizado pelo Prof. José G. Herculano de Carvalho, com fundamento na análise da Corte na aldeia de Francisco Rodrigues Lobo, no estudo Um Tipo literário e humano do Barroco: o «cortesão discreto», Coimbra, 1963). É de notar que, embora em várias referências e alusões, o modo como se exprimem as pessoas da Corte e de Lisboa apareça encarecido, em A Visita das fontes Apolo pronuncia-se pela superioridade da linguagem falada em Coimbra, ao afirmar: «(…) os Gregos dividiram seu idioma em quatro classes, das quais era mais sublime, regular e concertada a língua dos Áticos, por cair em seu distrito a Universidade de Atenas que lhe deu nome, e ao mundo todo: como se cá, entre vós, disséssemos se falava mais elegante em Coimbra que em outra parte, não mentiríamos, sendo ali o coração e alma das ciências que se ensinam e aprendem» (p. 110). Como é sabido, D. Francisco Manuel de Melo escreveu sobre matérias variadas, em diversos géneros de textos. Relanceando de corrida a sua obra, a tal respeito releva-se que, em Língua Portuguesa, em prosa, registou factos relativos à História em epanáforas e relações (algumas destas concernem o Brasil); que expôs ensinamentos e críticas sobre costumes do tempo, em escritos de pendor pedagógico e moralizante; que tratou de múltiplos negócios pessoais e alheios, em abundante correspondência; que elaborou discursos de circunstância para sessões académicas. Em verso, além de textos de carácter teatral, compôs, entre outras formas poéticas, cartas, églogas, romances, sonetos. O que importa aqui salientar é que D. Francisco Manuel de Melo, em conformidade com os preceitos retóricos e poéticos em que foi instruído, procurou «em todos seus escritos acomodar sempre o estilo com a matéria», como se declara na dedicatória aos leitores da edição de 1651 da Carta de guia de casados (p. 87), assinada pelo impressor Paulo Craesbeeck, a cujo conteúdo porventura não terá sido estranho o Polígrafo. Não faltam de resto referências do escritor a vários estilos em que modalizou a sua expressão. Assim, no Prólogo do Escritório avarento afirma que, requerendo a matéria de que ia tratar «um estilo excelente» da sua «pena já muito alheo», usou «deste nosso modo familiar, amigo e inteligível» (p. 70), e de «comum eloquência» (p. 71). No Hospital das letras , depois de mencionar a Carta de guia de casados

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entre as obras que elaborara, observa que se acha «agora tão bem com estilo corriqueiro», e que faz propósitos «de não tornar ao [estilo] majestoso» (p. 99). Ora, o estilo desse apólogo – «descansado estilo», segundo as palavras da respectiva dedicatória (p. 87) – distingue-se do das Epanáforas, em cuja escrita eloquente se empenhou, como se deduz de vários passos (cf. por exemplo, pp. 354 e 481; veja-se o estudo da Prof.ª Maria Lucília Gonçalves Pires, “Epanáfora trágica: viver e escrever história”, in Xadrez de palavras, Lisboa, 1996, pp. 173-185), e com nenhum deles se identifica o das orações académicas, espessas de elegâncias e ornatos de linguagem. Encontra-se também uma paleta variada de estilos, no volume das suas cartas, em que o familiar se cruza com o solene, o mesmo se podendo dizer de composições em verso que integram as Musas portuguesas, ora graves, ora jocosas. Alguns editores e comentadores da farsa O Fidalgo aprendiz consideraram que a fala da figura nuclear, D. Gil Cogominho, integra formas linguísticas populares, e que com elas D. Francisco Manuel de Melo terá pretendido sublinhar o perfil rústico da figura. Em rigor, a maior parte das formas que foram distinguidas sob tal perspectiva pertencem ao fundo comum linguístico português seiscentista, sendo idênticas a outras que se detectam no próprio discurso do autor, tal como é documentado pelo manuscrito autógrafo de A Visita das fontes, e não são características ou exclusivas da linguagem das pessoas iletradas do povo. Algumas outras, todavia, podem ser classificadas de populares em tal acepção, como, por exemplo, - intés - e - home - ( pp. 59 e 86). Em Os relógios falantes, o Relógio da Cidade apresenta na sua fala depois» (p. 11), enquanto na do seu interlocutor aldeão vemos despois - (ibidem), e - samos - , em vez de - somos - (p.13). Perante estes e outros elementos semelhantes poderá admitir-se que D. Francisco Manuel de Melo teve em vista modalizar a linguagem das figuras ou personagens que tomam voz nas suas obras, em consonância com os estatutos sociais e culturais que lhes atribuiu, mas será necessário, para se avançarem asserções precisas sobre este ponto, dispor-se de estudos minuciosos da linguagem do escritor, que colham fundamentação dos raros autógrafos que dele nos chegaram, onde as formas linguísticas se mostrem tal como saíram da sua mão, e não eventualmente alteradas por interferência de copistas, tipógrafos ou editores. Como quer que seja, pode dizer-se que o Polígrafo, ao pôr em

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cena o nosso idioma sob as máscaras dos vários estilos e, certamente, de vários registos sócio-culturais, perante a Língua Portuguesa, além de procedimentos de espectador e crítico, teve ainda o de actor. Aliás, a metáfora das máscaras serve para aludir ao facto de a linguagem de D. Francisco Manuel de Melo, em muitos passos, e em diversos planos, não se oferecer com transparência à fruição imediata do leitor não filólogo dos nossos dias, em consequência de mudanças que o tempo trouxe ao idioma e às suas referências, e de concepções e técnicas literárias do autor, ao gosto de Seiscentos. Aliás, já em vida, segundo uma vez mais a dedicatória do impressor de 1561 da Carta de guia de casados, foi - reprendido de misterioso (ou talvez de escuro) - (p. 87). Desde logo a (orto)grafia seiscentista, com que os textos foram transmitidos por manuscritos e impressos, motiva dificuldades de interpretação, de que destaco as que concernem o valor fónico de grafemas actualmente desusados, o valor semântico-estilístico das maiúsculas, e as funções da pontuação. O significado preciso de muitos dos vocábulos que ocorrem nas suas obras é hoje de problemática apreensão, havendo numerosos termos que, empregados ou não por outros autores, não recebem esclarecimento de dicionários ou vocabulários antigos, em que não tiveram entrada ou foram insuficientemente tratados. Além disso, interessando-se o Polígrafo por uma arte poética - rara e requintada -, dirigida a leitores não vulgares – como expôs, detida e fundamentadamente, a Prof.ª Maria Lucília Gonçalves Pires, em “As Ideias literárias de D. Francisco Manuel de Melo”, in Xadrez de palavras, Lisboa, 1996, pp. 41-52 – cultivou com assiduidade processos de estilo, como elaboradas metáforas e subtis jogos de palavras, que conferem alguma opacidade à sua expressão. Esperemos que D. Francisco Manuel de Melo, graças à leitura persistente e acurada da sua obra, não venha a ser uma personagem esquecida, a assistir na obscuridade do - vestuário - a - tramóias - do teatro da nossa língua. Até porque, além de se nos apresentar como espectador, crítico e actor do espectáculo do idioma, nele alcançou o estatuto de autoridade. Este, porém, tem de ficar como tema para outra visita às suas letras.

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Notas bibliográficas Obras e edições citadas de D. Francisco Manuel de Melo Carta de guia de casados. Quadros cronológicos, Introdução, bibliografia selectiva, fixação do texto e notas de Pedro Serra. Braga-Coimbra, Angelus Novus, 1996. Cartas familiares. Prefácio e notas de Maria da Conceição Morais Sarmento. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981. Epanáforas de vária história portuguesa (Epanáfora política, Epanáfora trágica, Epanáfora amorosa , Epanáfora bélica, Epanáfora triunfante). Introdução e apêndice documental por Joel Serrão. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, s. d. (reprodução fac-similada da ed. de 1660). Escritório avarento. In Os relógios falantes e Escritório avarento. Edição crítica de Maria Judite Fernandes de Miranda. Coimbra, 1968. Separata da Revista da Universidade de Coimbra, vols. XX-XXI. Ocupa as pp. 69-117. Feira dos anexins. Edição dirigida e revista por Inocêncio Francisco da Silva. Lisboa, Livraria A. M. Pereira, 1875. O Fidalgo aprendiz. Texto estabelecido, introdução e notas de António Corrêa de Oliveira. 2ª edição, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1958. Hospital das letras. In Jean Colomès, Le Dialogue “Hospital das letras” de D. Francisco Manuel de Melo. Texte établi d’ après l’ édition princeps et les manuscrits, variantes et notes par … . Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Cultural Português, 1970. Metáforas, ou Feira de anexins. Ver Feira dos anexins. As Musas portuguesas (ou As Segundas três musas do Melodino). In Obras métricas. Lyon, Horacio Boessat e George Remeus, 1665. Com paginação própria. Os relógios falantes. In Apólogos dialogais, vol. I, Introdução, fixação do texto e notas de Pedro Serra. Braga, Angelus Novus, 1998, pp. 1-31. A visita das fontes. In Apólogos dialogais, vol. I, Introdução, fixação do texto e notas de Pedro Serra. Braga, Angelus Novus, 1998, pp. 33-127. Também reenviamos para nota da edição preparada por Giacinto Manuppella, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1962.

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Diversidade e unidade da língua na hora da globalização
Fernando Alves Cristóvão, da Universidade Clássica de Lisboa.
O tema que me foi proposto, relativo à unidade e diversidade da Língua Portuguesa, aceitei-o de muito bom grado, pois a esta e outras questões afins tenho dedicado boa parte do meu percurso académico. Proponho-me tratá-lo reflectindo sobre a incidência nas línguas, dos fenómenos culturais e sociais que no nosso século condicionaram e condicionam a Língua Portuguesa, nomeadamente o moderníssimo fenómeno da globalização. Todos sabemos como foi necessário no Brasil, desde José de Alencar e Carlos de Laert, em especial, reivindicarem contra Castilho, Pinheiro Chagas e Camilo, a existência de uma norma brasileira, de um estilo próprio. Felizmente que tudo se esclareceu fazendo-se justiça tanto à diversidade como à unidade da língua pois não se tratam de duas dinâmicas alternativas, mas complementares. Na convergência destas duas realidades se tem vivido e continua a viver nos nossos dias, porque a Língua Portuguesa não tem um dono mas vários condóminos que a usam como sua. Lapidarmente afirmou Celso Cunha, a este propósito: “Chega-se assim à evidência de que para a geração actual de brasileiros, de cabo-verdianos, angolanos, etc, o português é uma língua tão própria, exactamente tão própria, como para os portugueses. E em certos pontos, por razões linguísticamente justificáveis, na Românica nova, a língua se manteve mais estável do que na antiga Metrópole”1 . Mas, para se chegar a esta situação de estabilidade tranquila, largo e difícil caminho foi necessário percorrer.

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Inúmeras foram as dificuldades, porque inúmeros foram os perigos e ameaças do exterior, mas todas vencidas, contribuindo até para o seu enriquecimento. E porque a história não para, novos desafios estão a ser enfrentados pela língu portuguesa e pelas culturas que nela se processam, sendo o mais recente o da globalização. Permitam-me, pois, algumas considerações preliminares que mais claramente ponham em evidência como, tanto a diversidade linguístico–cultural, como a unidade são indissociáveis e complementares, ora postulando as diversidades, a importância da unidade, ora exigindo a unidade, a autenticidade das diversidades. O nosso século, agora a chegar ao termo, conheceu quatro grandes dinâmicas no modo de considerar as línguas e de as ensinar e aprender: a dinâmica do romantismo herdada sobretudo de Humboldt e que se intensificou por meio do nacionalismo político, a ponto de chegar até aos nossos dias até aos anos 50, apesar dos progressos da linguística, da doutrinação de Saussure e das novas perspectivas da psicologia e da sociologia;a dinâmica internacionalista e imperialista que conviveu com a mentalidade anterior e chegou até ao fim da década de 60; a dinâmmultilinguística e multicultural que na Europa teve a sua expressão mais significativa quando a restruturação desencadeada pelo plano Marshall, após a 2ª Grande Guerra Mundial, atraiu milhões de emigrantes da Europa do sul e dos países da bacia mediterrânica para os países industrializados; a dinâmica da globalização que se processa em nossos dias e que não só condiciona as comunicações e a economia, mas também interfere na cultura, nas religiões, nos costumes e, também, nas políticas linguísticas. Na etapa nacionalista, em que muitos de nós fomos formados, as línguas eram estudadas como a expressão dos povos, diversificadas como eles, património que era preciso zelosamente defender e enriquecer segundo o lema de Du Bellay. Assim, era necessário combater duas espécies de desvios e erros, os herdados da tradição de séculos anteriores que alatinaram e helenizaram as línguas, sobretudo a ortografia, complicando-a (séculos XV e XVI) ou a vestiram à espanhola e à francesa (séculos XVII e XVIII). A essa tarefa se entregaram os puristas e suas sociedades combatendo por igual os estrangeirismos, então, sobretudo galicismos, e o que julgavam serem “erros” e “corruptelas”.

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Ao mesmo tempo, multiplicavam-se os apelos à leitura dos clássicos como modelos a seguir fielmente. Quanto às relações com as outras línguas, eram entendidas dentro de um quadro de prestígio: o latim e o grego para a erudição, o Direito e a medicina; o francês para a cultura; o alemão para a filosofia etc.. Deste modo, as línguas não se expandiam, mas vigiavamse zelosamente, apenas sendo permitidas algumas liberdades controladas. Nas etapas internacionalistas, os países com colónias ou aspirações a tê-las, impunham em todo o seu espaço de soberania a língua oficial, proibindo que se falassem as línguas étnicas ou, dentro do território metropolitano, combatendo as línguas regionais. Em simultâneo, e com o apoio de grandes meios financeiros, foram criadas instituições destinadas a propagar no estrangeiro, ou trazer até ao país os estrangeiros para dar a conhecer a língua, cultura, instituições etc, não se poupando em oferecimento de livros, revistas, conferências, cursos anuais e de férias etc.. Assim surgiram o British Council, a Alliance Française, o Instituto de Alta Cultura e outros institutos e centros culturais. Percebeu-se então que, por honestas e louváveis razões de diálogo entre culturas, ou por ousada propaganda com objectivos de hegemonia política ou de facilitação comercial, a expansão da língua nas colónias ou no estrangeiro era um veículo privilegiado para coisas tão diversas como o diálogo, a hegemonia, a expansão dominadora, segundo o velho aforismo colonial de que a língua ea a melhor companheira do império. Na etapa do multilinguísmo e multiculturalismo que é aquela em que, desde à algumas décadas vivemos, o ensino e aprendizagem das línguas, de um modo geral, pedeu a sua hybris de domínio e expansão, democratizou-se, passou da propaganda ao diálogo entre iguais, tendo-se as instituições que vinham da etapa anterior, transformado em foruns de diálogo, no melhor sentido da palavra. É que, entretanto, quer nos Estados Unidos quer na Europa, a conjuntura sócio-política alterou-se profundamente: as correntes migratórias procurando trabalho, realizando negócios, promovendo peregrinações, alteraram a composição étnica dos países. Milhões de trabalhadores fixaram residência nos países industrializados e de um dia para o outro esses países monolíngues ou de débil variedade de expressão linguística viram-se multilingues e multiculturais, com as inevitáveis consequências, tanto no plano das

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relações socias como nos da educação, cultura e ensino das línguas. Os governos tiveram de perceber que a unidade nacional não devia ser entendida à maneira napoleónica do centralismo linguístico e cultural, mas que deviam respeitar e fomentar o ensino das línguas dos seus emigrantes e aceitarem as suas culturas em suas variadas expressões: no vestuário, na alimentação, nos costumes, na frequência de sinagogas, mesquitas e outros templos que era urgente construir. Por outras palavras, chegaram à conclusão de que a paz e a harmonia sociais, bem como o rendimento do trabalho, melhor se conseguiriam com o multilinguismo e o multiculturalismo. Que se os trabalhadores estrangeiros vivessem no país de acolhimento como no seu meio cultural, o benefício seria de todos. Também, em consequência, passaram a interrogar-se seramente sobre que sentido tinham agora o centralismo linguístico, o purismo baseado em conceitos de correcção e vernaculidade,os “erros” e “corruptelas” de linguagem, a luta contra os estrangeirismos? Para além disso, e em simultâneo com esta invasão pacífica das multidões de emigrantes, outra explosão comunicativa aconteceu, favorecendo os ignorantes contra os eruditos: a explosão comunicativa da televisão impondo uma linguagem simplificada. Com ela, a escola tradicional passou a sofrer a concorrência daquela que George Friedmann apelidou de “escola paralela”, a televisão. À lentidão da escrita sucedeu o imediatismo e a evidência da imagem, e o saber deixou de ser hierarquizado e segundo valores para se tornar num verdadeiro mosaico de realidades desintegradas, como o multilínguismo, o multiculturalismo ou os quadros de Picasso. Sobre a etapa recente da globalização, diametralmente opostas são as suas interpretações. Para os herdeiros do capitalismo triunfante, ela permitirá resolver alguns problemas de âmbito geral, antes insoluveis. Para os deserdados do marxismo e do arruinado império soviético ela representa a chegada do apocalipse de todas as abominações. Para os que entre ambos os grupos se interrogam sobre o futuro do Homem no milénio que chega e sobre o papel mediador a desempenhar pelas culturas ela é sobretudo, um desafio ambivalente, porque tudo está a ser reformulado. Será a globalização aquilo que o título do estudo de Ignacio

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Ramonet sugere, uma Geopolítica do caos2 ou dela poderá resultar algum cosmos benéfico? Demorei-me algum tempo no esboço deste cenário porque entendê-lo e tê-lo em conta é essencial para se compreender como se põe hoje o problema das políticas linguísticas e culturais relativas à diversidade e unidade da língua. Políticas que não pertence só aos governos actualizar nas relações externas, nos sistemas e programas escolares, mas também às instituições nomeadamente Universidade e aos professores. Porque é óbvio que importa defender agora, ainda mais do que no passado, a diversidade. Diversidade essa que exprime mundividência dos falantes em situações concretas, herdeiros de um património cultural que a língua materna guarda, exprime e transmite como sistema modelizador primário, base de outros sistemas modelizadores que acompanham a vida individual e colectiva, como bem o observou Iuris Lotterman. Diversidade que na Língua Portuguesa começou a esboçarse muito cedo dando origem a variantes, sobretudo na fase da sua expansão intercontinental. Já o nosso primeiro gramático Fernão de Oliveira observa em 1536 variantes no vocabulário, “porque os da Beira têm umas falas e os do Alentejo outras, e os homens da Estremadura são diferentes dos de Entre Douro e Minho, porque assim como os tempos, assim também as terras criam diversas condições e conceitos”3 . Se tal acontecia no interior do país, na fase arcaica da língua, como demonstrou Lindley Cintra, com a aventura dos mares maiores proporções essa diversidade atingiu. Assim aconteceram as grandes variantes de carácter nacional - portuguesa, galega e brasileira -, e previsivelmente poderão acontecer as dos países africanos que foram antigas colónias portuguesas. Daí que defender e enriquecer as diversidades é o mesmo que salvaguardar a própria autenticidade de cada país e da sua cultura, ou das suas culturas, e que no caso do Brasil se compatibiliza em “cerca de 170 línguas indígenas, as línguas brasileiras autóctones identificadoras de mais de 180 regiões indígenas com uma população de 220.000 índios”4 . E, do mesmo modo, os crioulos que resultaram da expansão colonial, desde o século XVI. O reconhecimento destas diferenças chegou mesmo ao pon-

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to de uma especulação excessiva a propósito de uma possível língua brasileira a partir de contributos do tupi e das línguas africanas. Suposições estas cujas ambiguidades vieram a ser desfeitas pela primeira grande geração universitária de linguisticos brasileiros, como o notou objectivamente Paul Teyssier (Mattoso Câmaca, Serafim da Silva Neto, Silvio Elia, Gladstone Chaves de Melo, Celso Cunha, Nelson Rossi). E não só por estes, também por outros antes e depois deles. Associando-me, por isso, à homenagem que este congresso presta a Barbosa Lima Sobrinho, por ocasião dos seus 102 anos, torno aqui presente a sua opinião sobre o assunto, exposta na obra A Língua Portuguesa e a Unidade do Brasil, publicada em 1958 e que dentro em breve o Professor Leodegário de Azevedo Filho analisará com a agudeza e o brilho a que nos habituou. São afirmações do ilustre escritor e académico: “Há que pensar num idioma que não seja monopólio de portugueses e brasileiros (…) o termo idioma, é claro, aqui tem o sentido de língua, que é apenas uma, por força da unidade de todos os seus morfemas gramaticais. Mas, dentro dessa unidade morfológica, existe a diversidade de pronúncia e de sintaxe, além da riqueza também diversificada do léxico. Por isso mesmo, nenhuma nação do mundo lusofónico pode ter a prtensão pueril de querer ditar normas e usos linguísticos às demais. No caso, o que todas as nações devem fazer é proceder ao conhecimento das diferenças sempre em busca de uma unidade superior. Até porque a norma culta da língua comum estará sempre onde houver maior desenvolvimento de cultura e civilização como hoje ninguém ignora. Em outras palavras, todas as nações do mundo lusofónico famal a mesma língua, mas cada um a seu modo” 5 . Segundo o mesmo Paul Teyssier a adopção de métodos científicos conduziu estes e outros filósofos a uma revisão crítica dessas ideias recebidas e não devidamente comprovadas, embora, obviamente, confirmassem as citadas influências. E desse modo, a adoptarem um posicionamento de grande correcção e objectividade científica: “Plus générale les philologues de l´Ecole brésilienne ont adopté sur la “question de la langue” des positions modérés. Ils sont à la fois attachés à lóriginalité linquistique du Brésil et à l´unité de la langue portugaise. Une spécifité brésilienne à l´interieur du portugais, voilà, ensomme ce qu´ils revendiquent”6 . Segundo Jean-Michel Massa, algo de semelhante se poderá dizer do português em África, embora numa situação muito instá-

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vel e de acentuado plurilinguismo. Porque, “En Afrique, depuis l´indépendence, une nouvelle phase est engagée. Les portugais s´ètaient empanés d´une partie de l´Afrique, les Africains se sont emparés du portugais”7 . No Brasil ainda, a situação de ambiguidade relativamente à Língua Portuguesa, quanto à sua designação no sistema escolar que persistiu até aos anos 80, viria a ser completamente eliminada pelo relatório da Comissão formada por António Houaiss, Celso Cunha, Celso Luft, Fábio Lucas, João Vanderley Geraldi, e presidida por Ábgar Renáult, que assim dirimiu a questão: “Podemos adoptar a pespectiva de que no Brasil se pratica uma variedade da Língua Portuguesa, vencida a etapa em que se procurou insinuar o designativo “língua brasileira” ou “brasileiro”, para aquela que serve de meio de comunicação e expressão em nosso país (…) Torna-se consensual que, nos documentos ou textos expositivos quando se empregam “língua nacional”, língua materna”, “língua pátria” ou “língua vernácula”, é à Língua Portuguesa, na sua variedade brasileira, que tais expressões se reportam, salvo entendimento contrário, decorrentedo contexto. (…) Recomendação: Será de toda a conveniência que os diplomas legais que tratam do nosso idioma oficial se refiram expressamente à Língua Portuguesa ou português, fazendo constar essas denominações nos programas de ensino de todos os graus admitidos em nosso sistema educacional” 8 . Se o problema da salvaguarda da diversidade se identificou, em certa época, com a reivindicação da independência, não só política, mas também cultural e, nos nossos dias, atingiu o ponto do equilíbrio entre diversidade e unidade entendendo-as como complementares, com a novíssima globalização, uma nova luta é preciso empreender, a do reforço e da eficácia da unidade. E por duas razões fundamentais: Porque num mundo em que tudo se intercomunica e interactiva, a unidade própria de uma língua de cultura falada e escrita em vários continentes e apta a exprimir tanto o pensamennto abstracto como a expressão poética, como as situações triviais do dia a dia, tem a melhor garantia de eficácia nesse tipo de relacionamento e de resistência. A globalização não seria inevitávelmente um mal, poderá transformar-se num bem, tal como a força do vento que os marinheiros aproveitaram navegando à bulina. E também porque, paradoxalmente, e ao contrário do que aconteceu no passado, será na unidade e força da lusofonia que

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poderá estar a estabilidade e futuro da diversidade. Sem o seu apoio, as várias diversidades ficariam à mercê da poderosa força neo-colonialista globalizante da actual língua franca, o inglês. Em face dela, as línguas de grande expressão internacional poderão representar alternativas de uso e santuários de preservação de valores culturais. Para tanto, precisam de ser unas e sustentadas pelos países que as partilham. Entre elas o português, língua de base da lusofonia, só terá possibilidade de sucesso, se todos os seus integrantes responsáveis o fizerem, pois se situa “entre a quinta, inclusivé, até à sétima posição inclusivé” 9. Obviamente que a unidade da língua se faz enquanto língua de cultura, não sobre a língua oral, mas sobre a escrita, língua de “feição universalista (oferecida) aos seus milhões de usuários, cada um dos quais pode preservar, ao mesmo tempo, usos nacionais, regionais, setoriais, profissionais” 10. António Houais explica essa dimensão cultural da língua comparando-a com uma pirâmide em que ele ocupa o ápice, “pelo quase igual teor de sua culturalização gráfica – se entendeu entre si de um modo quase comum ou mesmo comum: nesse nível, a língua de cultura portuguesa é universal para todos os que a aprenderam como língua de cultura, isto é, transmitida pelo aprendizado escolar: nessa pirâmide, sobe-se de milhares de dialectos locais para um certo tipo de linguagem sem cor local e, de certo modo, sem cor temporal, pois a culturalização acumula o léxico e as regras gramaticais do passado no léxico e regras gramaticais do presente (…) numa fonia, que, nos nosso caso, é a lusofonia” 11. As vantagens em se promover e defender esta unidade lusófona que, obviamente, admite várias normas cultas, que dispensam outros argumentos. Mas não só na actualidade o problema foi encarecido pelos brasileiros. Já no princípio deste século alguns intelectuais tinham chamado a atenção quer para a importância da língua como fronteira cultural, quer para a sua relevância como fronteira política, decisiva para os interesses nacionais. Soube este último aspecto, o seu grande defensor no Brasil foi Silvio Romero que em plena época anti lusista proferiu em, Julho de 1902, uma memorável confência intitulada “O elemento português”.

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Nela preconizava a intensificação e preferência pela colonização portuguesa moderna como a mais acertada medida não só para obstar às tendências separatistas de alguns núcleos de colonos, nemeadamente em São Paulo e no Rio Grande do Sul, mas também para fortalcer o sentimento da unidade nacional face às cobiças dos vários imperialismos reinantes, nomeadamente da Inglaterra e da Alemanha. Cobiças essas voltadas não só para a África e as regiões centrais da Ásia, mas também para a América Latina, especialmente apetentes do Amazonas, do Madeira, do Purús e do Acre. O que é surpreendente nesta apologia de uma nova colonização portuguesa é a coragem de se demarcar do ambiente dominante anti lusista, e a previsão, de tipo profético, dos acontecimentos que se começariam a realizar cerca de vinte e cinco anos depois,ligando intimamente a colonização lusitana à língua e cultura de Portugal como revitalizadoras do orgulho nacional brasileiro. Chegou mesmo como veremos, a prevêr a organização das potências em blocos de poder aglotinados pela língua comum que usaram, e a união lusófona como uma solução para lhes faze face. Antes de Fernando Pessoa, Silvio Romero foi um dos pimeiros teóricos da construção da lusofonia. Previsões estas que contrastaram com o citado ambiente reinante e triunfante do anti-lusismo. Com efeito, à lembrança das críticas galhofeiras de Ramalho Ortigão e Eça nas Farpas, e de Camilo no Cancioneiro alegre, tinha-se juntado a onda de indignação patriótica contra o acolhimento e imponidade concedida pela força naval portuguesa fundada na baía de Guanabara aos conspiradores derrotados na “Revolta da Armada” de 1894. A indignação foi tão grande que provocou o corte de relações diplomáticas entre Portugal e o Brasil e levava ao auge as sátiras e chacotas de Raul Pompeia na literatura, no teatro e na caricatura. Mesmo depois da intervenção de Sílvio Romero continuou a maré de hostilidade e desentendimentos acompanhada por medidas drásticas contra os monópolios de portugueses na imprensa, nas pescas etc.. Basta ler As Razões da Inconfidência de António Torres, para desde a primeira página, se poder avaliar o nível de degradação das relações luso-brasileiras. Foi no meio deste torvelinho de paixões exacerbadas que a

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voz de Silvio Romero se levantou. Para o notável crítico, sociólogo, folclorista e historiador literário, a língua era um factor decisivo na identidade brasileira: “Bastaria o facto extraordinário, único, inapreciável, transcendente, da língua para marcar ao português o lugar que ele ocupa em nossa vida, em nossas lutas, em nossas aspirações; bastaria a língua para definirmos e extremar-nos de quaisquer concorrentes estranhos que porventura sonhem embaraçar-nos em nossa marcha. Ela só por si na era presente serve para individualizar a nacionalidade”12. Dentro da mesma lógica Romero anteviu que no desenrolar do xadrez mundial jogado pelas nações se caminhava no sentido de se agruparem em grandes blocos de poder e influência levados pelo que então se julgava a maior força social - a raça -, e aglutinados pela força da língua: “Esse movimento unitário e centrípeto das raças, formando grandes todos homogéneos entre si, e diferenciados uns dos outros, é que há-de poupar à humanidade a monotonia asfixiante do cosmopolitismo avassalador, que facilmene triunfaria de pequenos povos isolados. Uma das ideias mais ousadas, atribuídas creio que a Cecil Rhodes, é a de uma imensa federação de gentes que falam a língua inglesa, e é verdadeiramente um pensamento genial. Inglaterra, Escócia, Estados Unidos, tudo isto unido, aliado, federado,vem a ser alguma coisa de inédito, de nunca visto nos anaes do homem.E mais admirável será o quadro se nos lembrarmos que nele deverão entrar a Índia e o Egipto, transformados pelo génio britânico. É de assombrar” 13. Sendo esta a dinâmica prevista e temida da anglofonia, lógica se tornou também a previsão - desejo de que os povos de Língua Portuguesa se organizassem, mesmo num tempo em que as independências africanas em geral e as das colónias portuguesas em particular eram imprevisíveis: “Sim, meus senhores: não é isto uma utopia, nem é um sonho a aliança do Brasil e Portugal, como não será um delírio ver no futuro o império português de África unido ao império português da América, estimulados pelo espírito da pequena terra da Europa que foi o berço de ambos. Só assim, quando estamos a assistir à difusão do elemento anglo - saxónico por todos os continentes, do elemento eslavo por toda a Europa oriental e por toda a Ásia do norte e do centro, e do

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elemento francês nessa última parte do mundo e pelo coração a dentro de África; só assim, quando até o Japão se aparelha para as peripécias do futuro e é de esperar que a China venha a fazer o mesmo; só assim, só pela união, é que se manterá no porvir longínquo a famosa língua de Vieira e Herculano”14. E, em geito de “grand finale” retórico, o também grande orador rematou a sua conferencia com esta exortação entusiástica: “Nós devemos também esforçar-nos para que esta língua, grandíloqua e sonorosa, seja também perpétua, seja eterna em nossas almas, para que nunca mais desapareça das plagas de Guanabara, nem de toda esta imensa e amada terra que vai do Amazonas ao Prata”15. Outro sonhador do futuro de Língua Portuguesa, para me limitar a dois grandes vultos do mundo luso-brasileiro, foi Fernando Pessoa que, por volta, provavelmente de 1931, no Livro do Desassossego deixou expresso: “não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho porém num sentido, um alto sentimento patriótico, minha pátria é a Língua Portuguesa”16. Não pode esta afirmação ser diluída como hiperbólica ou de exaltação simples, mas deve entender-se como definição a um tempo simbólica e literal do seu pensamento sobre a Língua Portuguesa. E por razões que não cessam de lhe confirmar a intenção e o sentido, à medida que foram sendo publicados inéditos seus reforçando afirmações sobre o significado de um quinto império cultural fundado na língua. Em 1934, no prefácio à obra de Augusto Ferreira Gomes, intitulada O Quinto Império explica Pessoa a cronologia dos impérios e como têm sido interpretados, contrapondo-lhes a sua, em que o português se afirma como o Quinto, por vir na ordem de uma sucessão não de impérios materiais mas espirituais. O Quinto Império de Pessoa é, simultâneamente, espiritual e temporal, sendo a Língua Portuguesa a constituinte essencial desse império, antecipando as modernas concepções da lusofonia. Identificando as traves mestras desse edifício imperial, assim as enumera: uma língua apta, rica, gramaticalmente completa e fortemente nacional, e o aparecimento de homens de génio literário escrevendo nessa língua e ilustrando-a. Assim, alguns tópicos avultam nessa construção: a) A capacidade da Língua Portuguesa, pela sua riqueza e plasticidade, servir de pátria comum;

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b) A existência de um património lusófono, como o apelidaríamos hoje, linguístico e cultural capaz de se impor no mundo da cultura e da ciência; c) A capacidade institucional e sócio-política da nossa língua se propagar e impor no estrangeiro; d) Um número considerável de falantes; e) A existência de uma geografia linguística correspondente à de um império17. Porque para Fernando Pessoa “A base da pátria é o idioma, porque o idioma é o pensamento em acção, e o homem é um animal pensante, e a acção é a essêcia da vida. O idioma, por isso mesmo que é uma tradição verdadeiramente viva, concentra em si, indistinta e naturalmente, um conjunto de tradições, de maneiras de ser e pensar uma história e uma lembrança, um passado morto que só nele pode reviver. Não somos irmãos, embora possamos ser amigos, dos que falam uma língua diferente, pois com isso mostram que têm uma alma diferente (…) A base da sociabilidade, e portanto, de relação permanente entre os indivíduos é a língua, e é a língua com tudo quanto traz em si e consigo qe define e forma a Nação”18. É nesta óptica que se explicam e completam os conceitos pessoanos de pátria, quinto império, mensagem, conceitos que preparam e explicam o que entendemos por lusofonia que, como afirmava Agostinho da Silva, não tendo quinto-imperador não contém em si quaisquer ambições de domínio. Porque “outro não é o espírito da lusofonia, descartadas que sejam as vertentes imperialistas, pois ela reclama como objectivos tão somente os de viver e testemunhar uma forma mais humana de ser e de dialogar com as outras fonias e culturas, sem a pretensão de vir a dominá-las”19. Por todas estas razões nos parece uma excelente proposta de interpretação da lusofonia a de Silvio Elia que, partindo de uma analogia com o uso que se fez da palavra “România” no mundo neolatino, apelidou a língua comum de “Lusitânia”, assim denominando os espaços em que ela é ou foi usada: Lusitânia Dispersa a dos emigrantes espalhados pelo mundo20. Deste modo se pode afirmar tanto a diversidade como a unidade da Língua Portuguesa. E nessa unidade não reside simplesmente um modo mais fácil e eficiente de comunicar, mas também, simultâneamente, uma visão da vida individual e colectiva algo diferente da das outras fonias, herdadas do carácter nacional português e enriquecida pelos

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contributos brasileiro e africanos. Já Pessoa notava que “de todos os povos da Europa somos nós aquele em que é menor o ódio a outras raças e a outras nações. É sabido de todos, e de muitos censurado, o pouco que nos afastamos das raças de cor diferente (…) a nossa índole prepara para aquela fraternidade universal”. Atá Charles Boxer, que tão implacavelmente analisou a colonização portuguesa, e que tantas dificuldades teve para entender as suas contradições que escapavam à sua coerência e geometrismo saxónico, não pôde deixar de afirmar, no meio de críticas ao racismo que também foi português, que os portugueses o eram menos que os outros: “can truthfully be said is that, in this respect, they were usually more liberal in pratice than were their Dutch, English and French sucessors”21. Como já foi afirmado a lusofonia dá os seus primeiros passos, e a unidade da língua só lentamente provoca a construção da unidade das nações lusófonas agindo como um bloco. Até porque não é fácil realizá-la, dado que os países lusófonos não estão no número das grandes potências industriais, sendo alguns deles de economia muito débil e vivendo situções de pobreza aguda. Situações estas que os forçam à dependência económica e política em relação a países da anglofonia e Commonwealth e da francofonia. Mas também essas situações serão um dia vencidas como ultrapassadas foram outras conjunturas difíceis, perigos ou ameaças. No passado mais remoto foram as ameaças hegemónicas do expansionismo de Castela sobre a jovem nação portuguesa, renovadas de 1508 a 1640 com a junção das duas coroas ibéricas. Ameaças ao Brasil e às colínias africanas portuguesas que viriam a ser países independentes, por parte das grandes potências imperialistas europeias, a que Sílvio Romero se referiu. Perigos e ameaças na primeira metade do século, não já directamente a uma soberania nacional, mas à própria cultura lusófona, miscigenada, por parte da ideologia ariana branca cujo racismo foi claramente denunciado por Gilberto Freire na famosa conferência de 1940: “Uma cultura ameaçada”. Ameaças provenientes da ideologia marxista que, pregando o materialismo e a luta de classes como motor da História e método dialéctico de evolução, não via com bons olhos a cultura lusófona de base cristã, do diálogo, do entendimento étnico e cultural dos vários tipos de mestiçagem e humanismo da conciliação e concertação.

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Perigos e ameaças ainda decorrentes da mesma perspectiva ideológica e política encarnados por uma forte corrente da negritude radicalmente racista no seu anti-racismo, também anti -cristã, antieuropeia, anti-mestiça ou branca como era proclamada pela “legitime défense”, e nas reuniões e congressos de Manchester, de 1945, e de Bandung, de 1955 22 . Desafio ambivalente da globalização porque, se por um lado se obtém algum ganho na promoção dos valores e direitos humanos, especialmente pela homogeneização das políticas e dos sistemas jurídicos nacionais e também pela proposição - aceitação de modelos para resolver problemas que sempre ultrapassaram as capacidades de um país no âmbito da saúde, do ambiente, do combate à pobreza, por outro lado a grande concentração económico destabiliza e desorganiza a ordem económica, plolítica e cultural dos povos. É que a concentração económica arrasta consigo a reorganização da sociedade, provocando a “desterritorialização” das forças produtivas levando ao esvaziamento das economias nacionais e a uma “concomitante polarização de actividades produtivas, industriais, manufactureiras, de serviços, financeiras, administrativas, gerenciais, decisórias” 23 , com as inevitáveis consequências nas línguas e nas culturas. E como são as nações mais ricas e prósperas o centro motor destas transformações, e os Estados Unidos o centro do centro deste furacão, daí as imposições descaracterizadoras da cultura tecnocrática, e a dominância da língua inglesa e do “american way of life”. Entre as culturas e línguas mais prejudicadas encontram-se as de matriz latina (a hispanofonia, a lusofonia, a francofonia), pelo que uma estratégia de defesa, individual e de grupo se impõe. Por um lado, devemo-nos aliar a espanhóis e franceses contra a expressão anglófona, por outro, impõe-se o reforço da nossa própria coesão. Em relação à francofonia, em especial, a lusofonia devia reivindicar um respeito maior pelo seu espaço e esfera de influência, pois ultimamente se têm sentido demasiadas cobiças de hegemonia, nomeadamente em Cabo Verde e na Guiné. Se nos dividirmos como rivais como fazer frente aos excessos da anglofonia americanizante? É que a influência potencialmente descaracterizadora da globalização não se faz sentir só sobre os países de economias pobres, também se exerce sobre outras culturas de países indus-

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trializados, quer diluíndo-lhes a identidade, quer apropriando-se dos seus valores próprios não já como contributos para a harmonia universal, mas sobretudo coisificando-os como objectos banais de consumo cultural. E não são estes perigos meras suposições teóricas, porque a inevitável unificação do mundo está a verificar-se em movimento uniformemente acelerado. Segundo o último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) publicado neste mês de Julho em que nos encontramos, o movimento cultural contemporâneo está desiquillibrado por ser grande a instabilidade cultural dos países pobres que não dispóem de barreiras de resistência ou selecção, sobretudo nas duas áreas mais sensíveis para a criação ou transformação da mentalidade colectiva: a da informação e a do entretenimento. É cada vez mais universal e avassaladora a audiência da CNN e da BBC que agora emitem 24 horas sobre 24 horas, até porque, em apenas quatro anos, no mundo inteiro passou para o dobro o número de televisores em uso. Quanto à informatização em geral, e ao uso da Internet em particular, elas passaram a ser práticas rotineiras e prestigiadas, possibilitadas por facilidades cada vez maiores que vão até à oferta total por parte das grandes empresas e dos governos. E o mesmo se poderá dizer do showbusiness e do cinema americano em especial. Basta lembrar de que a maior e mais rentável indústria americana não é a da aeronáutica ou do automóvel, mas do audiovisual, e que os filmes de Holliwood triunfam em toda a parte. Concluem os autores do relatório do PNUD que “há necessidade de maior apoio para as culturas indígenas e nacionais, para que elas possam florescer de forma paralela às culturas estrangeiras “porque obviamente não pode ser um idela, o isolacionismo, mas uma saudável competição. Naturalmente que a unidade linguística não é panaceia milagrosa para resolver eficazmente os problemas levantados pela globalização, mas ela está na base de uma conjugação de forças a que chamamos lusofonia. Nela e na lusofonia deverão ser enquadrados os meios para que o necessário e indispensável diálogo com as outras culturas se realize preservndo os nossos valores. Valores que se constelem à volta de concepções e atitudes

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relativas a Deus, ao Homem, à família, à sociedade, realizados sobre um fundo cristão, em diálogo étnico que repele todas as formas de racismo e que elegem a tolerância, a cordialidade, a cocertação, a solidariedade, como formas suas de Humanismo. A lusofonia não é só um problema linguístico de ensino e aprendizagem de uma língua de comunicação internacional, é muito mais do que isso - uma certa forma de estar no mundo e viver em sociedade. Por isso trabalhamos cada vez mais a favor da unidade da língua comum da lusofonia para que enfrente com sucesso os desafios que lhe surgem, e reivindicarmos na União Europeia a mudança na sua política linguística protagonizada pelos programas “Língua” e “Sócrates”. Política essa que pretendendo, certamente com boas intenções, ajudar todas as línguas que, brevemente ultrapassaram as vinte, em vez de favorecer o diálogo entre elas, as vão encher de ruídos e confusão, reeditando a Torre de Babel. Em vez disso será mais eficaz e aconómico apoiar as línguas de basedas grandes fonias mundiais de comunicação, que todas são europeias, independentemente da língua franca, o inglês, ou seja: a hispanofonia, a lusofonia, a francofonia, a germanofonia, pois que apoiando essas línguas de base da comunicação internacional, não são só nem principalmente as línguas de quatro países, mas as línguas de quatro constelações de países espalhados pelo mundo inteiro. Também por isso, reivindicamos como tarefa prioritária a muitas outras, a concretização do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, criado no papel em 1989 e que deveria ser posto a funcionar antes da CPLP (Comuidade de Povos de Língua Portuguesa) que não o substitui de modo algum. Em resumo, só com uma política linguística concertada pelos sete seremos capazes de transformar o desafio da globalização em potenciação de eficácia e não em confissão de derrota.

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Notas 1 Celso Cunha, Uma Política do Idioma, Rio, Liv.S.José, 1964, p.34 2 Ignacio Ramonet, Geopolítica do Caos, Rio, Vozes, 1998 3 Fernão de Oliveira, Gramática 4 Virgínia Mattos e silva, “Diversidade e Unidade – A Aventura Linguística do Português, (2ªparte)”, in Revista Icalp, Lisboa, 1988, p.15 5 Barbosa Lima Sobrinho, A Língua Portuguesa e a Unidade do Brasil, , 1958, p.177 6 Paul Teyssier, Histoire de la Langue Portugaise, Paris, PUF, 1980, p.117 7 Jean-Michell Massa, “La Langue Portugaise en Afrique”, in Lexikan des Romanistischen Linguistik, Tobugen, 1994, p.575 8 Comissão Nacional para o Aperfeiçoamento do Ensino / Aprendizagem da Língua Nacional – Relatório Conclusivo,Ministério da Educação, Janeiro de 1986, p.4 9 António Houais, O Português no Brasil, Rio, Unibrade, 1985, p.141 10 Comissão Nacional para o Aperfeiçoamento…, p.5 e 6 11 António Houais, ibidem, p.15 12 Silvio Romero, O Elemento Português, Lisboa, Tipografia da Companhia Nacional Editora, 1902, p.11 13 ibidem, p.33 14 ibidem, pp 32-33 15 ibidem, p. 49 16 Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Lisboa, Ática, 1982, p. 17 17 Fernando Pessoa, em textos – fragmentos, publicados in Sobre Portugal, dir. de Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1978, p.229 18 Fernando Pessoa, ibidem, p. 121-122 19 Fernando Cristóvão, “Fernando Pessoa e a Lusofonia a haver”, in Letras, Edição especial dedicada a Fernando Pessoa, Santa Maria, Universidade Federal de Santa Maria, 1995, p.91 20 Joel Serrão, ibidem, p.237 21 Charles Boxer, Four Centuries of Portuguese Expansion, 14151825, Succint Survey, 22 Fernando Cristóvão, “As literaturas de Língua Portuguesa em áreas tropicais”, in Notícias e Problemas da Pátria da Língua, Lisboa, Icalp, 1987, p.91 23 Octávio Ianrri, A Era do Globalismo,3ª ed.,Rio,Civilização Brasileireira,1997,p.12

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Da construção lingüística da identidade. Um estudo de caso.

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João Nuno Paixão Corrêa Cardoso, da Universidade de Coimbra 1. Considerações prévias A bibliografia sociolingüística dos últimos anos tem aproximado, com uma premente insistência, três realidades cuja associação o exame teórico de pendor imanentista não deixava considerar com demora. Hoje em dia e independentemente das comunidades estudadas, a língua, a escola e os processos de construção da identidade dos indivíduos e/ou dos grupos constituem um tríptico conceptual em que repousa novo ímpeto da investigação aplicada. Para além de tudo aquilo que o discurso crítico da lingüística nos tem legado acerca do seu objeto formal, é com crescente convicção que os investigadores identificam agora o aproveitamento utilitário das línguas naturais em projectos políticos de planificação educativa, com o fim último de claro nivelamento dos sujeitos falantes, esteja em análise a legitimação de uma norma ou a imposição do ensino de um sistema dominante em salas de aulas multiculturais. Paralelamente à influência inicial do núcleo familiar, a escola, na sua qualidade de instituição ao serviço das ideologias com poder decisório, transformou-se na arena privilegiada do movimento socializador de crianças, de jovens (e até de adultos) que retomam, noutros moldes, a construção da sua identidade - íntima e grupal - de acordo com os parâmetros definidos por instâncias que lhes são igualmente desconhecidas e superiores. O objectivo primordial do traballho de campo realizado entre os filhos de trabalhadores portugueses fixados em território ale-

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mão e cuja primeira língua adquirida foi o português consiste no exame de uma dimensão parcelar das suas titudes lingüísticas para com esse idioma, no âmbito particular da situação de contacto com a língua alemã: a da elaboração do universo íntimo de sobrevivência no país receptor. A par deste leit-motiv considerarei a concepção dos informadores do espaço lusófono e o grau de consciência do espectro sociolingüístico do português nas duas cidades germânicas de Hamburgo e de Harburg e verei das (im)possibilidades definitórias das cumplicidades dos três vectores referidos. 2. Aspectos do terreno abordado O ensino ministrado da L1 procura corresponder às solicitações dos pais e às exigências programáticas do Ministério da Educação português. Estas duas entidades procuram solucionar problemas, a meu ver, concêntricos: que o futuro dos educandos nào fique truncado, na eventualidade de desejarem regressar a Portugal ou, então, de não perderem o sentimento de pertença ao espaço lusófono, se resolverem permanecer na Alemanha para sempre. Se se fizer uma leitura circunstanciada dos textos homologados que, em termos oficiais, orientam o ensino português nos nossos núcleos no estrangeiro, detectamos neles a presença constante da preocupação em satisfazer positivamente ambas as necessidades. Senão, atentemos:
Em 1978, os Objectivos a alcançar através do Programa de Língua e cultura portuguesas eram o de transformar o educando num indivíduo capaz de “(...) intervir oportunamente, tanto no país de origem, como no país onde vive (..)” (p.3). Segundo as notas preliminares, “(..) tal programa deverá proporcionar um conhecimento da realidade social do país de origem, que Ihe facilite uma possível integração futura, sem demasiados sobressaltos e traumatismos e, ao mesmo tempo, lhe abra perspectivas para compreender a sua própria situação de filho de imigrante (...)” porque “(...) essas novas aquisicões não poderão ser desligadas das vivências concretas da criança e do ambiente em que vive (...)” (p. 4)2 Nos Objectivos programáticos do estudo da

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Língua Portuguesa para a obtenção da equivalência ao ensino secundário, são de destacar os que ocupam o 3 e 6 lugares: “Levar o aluno ao domínio progressivo da Língua como meio de expressão do Pensamento e de transmissão de valores individuais e colectivos” e “intensificar o interesse pela língua e pela civilização portuguesas”3 .

Também não se encontram alheadas desta óptica as intenções que presidiram a arquitectura dos programas só de cultura portuguesa.
De facto, logo nos Objectivos gerais do documento que permite a equivalência ao Curso Unificado de Portugal, pode ler-se o seguinte: “O presente programa de cultura portuguesa tem como finalidade ajudar o aluno, filho de emigrantes, que vivendo desligado do contexto cultural da terra de seus pais e da realidade actual do nosso país, a integrar-se na sociedade e na escola portuguesas. Na mesma página, mais à frente, repetese a formulação do desejo institucional de “Permitir ao aluno, filho de emigrantes, que regressa a Portugal uma melhor adaptação à escola que irá frequentar evitando assim desajustamentos, mau aproveitamento escolar com consequente perda de anos lectivos.”4

Na década de 90, registou-se a emissão de novos programas escolares que continuam a acentuar - se bem que com uma maior veemência - a importância da identidade de partida dos alunos (e dos núcleos familiares de que são oriundos) a par, naturalmente, da equacionação de outros problemas do foro psico-pedagógico e didático, levantados pelas realidades - multifacetadas – do ensino – aprendizagem em português no mundo. Por exemplo, nas Finalidades do quadro oficial da difusão linguística e cultural dirigido às crianças dos 6 aos 10 anos de idade, tecem-se as seguintes linhas de acção: “3) Favorecer o desenvolvimento da consciência da identidade linguística e cultural, através do confronto com a língua estrangeira e a(s) cultura(s) por ela veiculada(s). 4) Fomentar um dinamismo cultural que não se confine à escola nem ao tempo presen-

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te(...). 5)Promover a educação para a comunicação enquanto fenómeno de interacção social, como forma de favorecer o respeito pelo(s) outro(s), o sentido da entreajuda e da cooperação, da solidariedade e da cidadania. 6) Proporcionar o contacto com outras línguas e culturas, assegurando o domínio de aquisições e usos linguísticos básicos. 7) Estruturar o conhecimento de si próprio (..), valorizando a sua identidade e raízes. 8) (...) reflectir sobre a sua própria realidade sóciocultural, através do confronto com aspectos da cultura e da civilizacão portuguesas.”( p.s 9-10). Nos contéudos culturais aparecem sublinhadas a identidade nacional, por um lado, e a localização de Portugal face à Europa e ao resto do mundo ou as ligações de Portugal com o mundo, por outro. (p. 31)5 Em meu entender, esta ambivalência programática reflecte, de maneira explícita, o (re)conhecimento que as autoridades educativas possuem dos vários constrangimentos inerentes à acu1turação por que passam estes indivíduos em fases iniciais (e importantes) da formação do Eu (profundo e frágil) e do estabelecimento dos laços com os não-EU. Em ambas as circunstâncias, o que motiva a prática escolar e, no fundo, a intenção de alertar para a anterioridade da herança portuguesa e desenvolver e manter mecanismos identificativos renovados que combatam o enorme peso do factor da extraterritorialidade de que a gradual separação das culturas de partida é a primeira consequência inevitável. 3. O.I.L.H. - 97 O Inquérito Linguístico foi aplicado nas Escolas de Harburg e de Hamburgo, da Missão Católica Portuguesa, pertencentes à zona consular de Hamburgo, em Maio de 1997, e a fase posterior de confirmações realizou-se em Maio de 1997, e a fase posterior de confirmações realizou-se em Fevereiro de 1998. Composto por três Questionários (A, B e C), permitiu a obtenção de dados junto quer do corpo docente, quer da população escolar que frequenta, mais ou menos assiduamente, as aulas de língua e de cultura de origem (da 1 geração). Durante a aplicação do I.LH-97, auscultei igualmente as orientações das vontades políticas e institucionais em matéria educativa e (socio)linguística - a) da Direcção da Escola da Missão Católica Portuguesa em Hamburgo e em Harburg, na pessoa do Padre Dr.Eurico José de Azevedo, b) junto do Dr. José António Fernandes

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Costa, na qualidade de Erziehungsattaché des portugiesischen Generalkonsulats em Hamburgo e c) do Departamento de Coordenação Geral do Ensino, da Embaixada de Portugal em Bona, através da Dra. Maria da Piedade Gralha , aqui ficando publicamente registado, a todos três, o meu reconhecimento. A discussão teórica anunciada pelo título da minha intervenção é suscitada essencialmente pelas respostas abertas, fornecidas às cinco últimas perguntas do Questionário 2. (I.L.H.-97/B): 34) Agora, vou escrever o nome dos países do mundo onde se fala a Língua Portuguesa...; 35) E agora, vou dizer o que sinto quandoouço falar português à minha volta...; 36) Como estou quase a acabar, voudizer o que sinto quando falo a Língua Portuguesa...; 37) Para mim, Portugal é...; 38) E os portugueses são... 4. Apresentação da amostra A selecção dos informadores foi, de início, condicionada pelas seguintesircunstâncias: a) os contactos, em tempos desiguais, com os professores responsáveis pelas turmas6 , b) a difícil articulação entre as actividades escolares previamente calendarizadas e a aplicação do I.L.H.-97 e c) as contingências vividas pelo corpo discente que frequenta, em dias alternados, as Escolas da Missão após o cumprimento de um horário lectivo diario (de tipo diurno e completo) nas escolas oficiais alemãs. Todos estes informadores frequentam o ensino oficial alemão. O dia normal de aulas nas instituições germânicas inicia-se às 8 horas da manhã e termina às 14 horas e trinta da tarde. Os tempos lectivos das escolas portuguesas compreendem-se entre as 15 e as 18 horas, privilegiando-se o estudo da língua, da história e da geografia de Portugal. Entre outros factores, a própria e1aboração do texto do Questionário 2. devia prever, é claro, o cansaço acumulado e/ou o desinteresse dos alunos inquiridos. Hoje apresentarei apenas os elementos fornecidos por três dos cinco grupos de alunos, ainda nascidos em Portugal, que participaram na pesquisa. A Tabela 4.1. disponibiliza as informações essenciais sobre a amostra recolhida:

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Tabela 4.1 (Fonte: I.L.H. – 97)
Ano de escolaridade GØ nero MØ etÆ dia ria _________________________________________________________ 9 raparigas Grupo I 5 classe 12 rapazes 13 raparigas Grupo II 7 classe 11 rapazes 25 raparigas Grupo III 9 classe 10 rapazes 15.3 13.1 11.6

Com um total de 80 informadores, trata-se de uma amostra de proporções equilibradas, tanto quanto a flutuação do universo de partida o permite. De uma forma global7 , o perfil sócio-económico dos inquiridos situa-os num escalão médio. 5. Resultados e seriação das conclusões globais8 A imagem unificada do espaço lusófono resulta de uma visão consensual de todos os grupos entrevistados e permite a delimitação inequívoca de zonas solidárias. De forma repetida, Portugal (às vezes acompanhado pela nomeação de centros urbanos como o de Lisboa e o do Porto) encimou sempre a lista das enumerações, juntamente com os territórios açoreano e madeirense. O mesmo aconteceu com o Bracil que esteve presente em quase todas as escolhas. Não foram esquecidos os países africanos de expressão oficial portuguesa, como Angola, Mucambique, Cabo Verde, Guinea, São Tomê e Principe (incluídos por este ou por aquele informador em designações genéricas do tipo nas costas da Africa ou na Àfrica). Nas selecções de lugares onde vivem grupos residuais de locutores do português, Macau, Timor Leste e Goa aparecem pontualmente. Todos falam, como seria de se esperar, na Alemanha que é o país do quotidiano ou em Hamburg, a cidade que melhor conhecem; mas é o sentimento agudo da condição de portugueses a

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viver no estrangeiro por motivos económicos que ajuda especialmente os informadores mais velhos (Grupos II e III) a encontrar noutras regiões de extensão lingüística portuguesa - e com precisão -, como em França, no Luxemburgo, na Suíssa, na Africa do Sul, no Canadá ou, então, no Mexico e na Amérika do Norte e do Sul o paradeiro de companheiros de infortúnio aí colocados por meio de viagens com escalas (trans)europeias. Poderá surpreeder-nos a minúcia dos contornos e dos pormenores do retrato da grande família lusitana traçado por indivíduos tão jovens e tão distanciados dos meios de (re)produção e de representação ideológicas e simbólicas nucleares da língua e da cultura portuguesas. Ela decorrerá certamente da acção combinada i) do legado transmitido euforicamente pela viva voz da geração dos progenitores – sempre mais renitente nos processos de aculturação -, com responsabilidades na apreciação positiva das origens ibéricas e dos concidadãos, e ii) da insistência com que se trabalham, na escola, determinados conteúdos programáticos, dos quais sublinharia o estudo dos países de língua oficial portuguesa e sua localização ou análise das razões históricas do uso do português por cerca de 200 milhões de falantes, referindo as grandes viagens dos portugueses.8 Assim condicionados pelas intenções confluentes da família e da instituição escolar, eis como os informadores testemunham o teor da sua relação com Portugal, com os portugueses e com a língua de Fernando Pessoa9 : 1 - Para mim, Portugal é um dos países mais lindo que á (2), o melhor país (6), um país onde a muito Sol, e onde eu nasci, onde esta a minha família (9), a terra mais importante que há (23), uma nação que é uma das melhores que conheço (46), um País de Alegria (um paraíso) (48), o País que eu mais gosto e por o que eu sinto mais consideração (57); 2 - E os portugueses são passoas sinpaticas e spetaqular (2), como pais (6), inteligentes (24), bons em Futebol (30), the Best (33), as pessoas mais felizes do mundo (40), porreiros fixes, (52), têm as mulheres mais bonitas do universo (58), freundtich (71); 3 - A Língua Portuguesa é minha língua (Muttersprache) (25). Portugal é o pais de origem, o país de uma vida liberta de

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obrigações (escolares e profissionais), onde os pais lhes dedicam mais atenção. É ainda o reduto dos avós e de familiares que revisitam ano a ano e talvez constitua um eventual futuro destino. Parece estar assegurada a identidade (linguística e psicossocial) de base de uma população escolar afastada do quadro participativo original e que se pode traduzir em enunciados paradigmáticos do tipo Portugal é o meu país e tenho muito orgulho nisso (24), a minha terra (31), O meu país perferido (36), a minha pátria, embora eu viver na Alemanhã (46), os portugueses são os meus amigos (31), o meu Povo são as pessoas que eu tenho mais consideração (49) e quando falo português eu sinto que pertenço a Portugal (46). Estes resultados poderão ser, afinal, animadores, se pensarmos, em primeiro lugar, que, no país receptor, os jovens em causa devem satisfazer necessidades comunicativas e, portanto, corresponder com sucesso a expectativas de usos actualizando um sistema semiótico tipologicamente diferenciado da L1 e, em segundo lugar, se considerarmos o estatuto da utilidade que atribuem ao português como língua minoritária, plasmado que foi nas limitações sociais das práticas discursivas reservadas à L1 com as dimensões dos seguintes segmentos micro-culturais: é a língua que 50.5%. falam em casa com a família e, nesse ambiente, a preferida por 56.9% em relação ao alemão. Por isso e a par da escola, o lar é o local decisivo para a transmissão e a manutenção do português: o idioma aprende-se em casa (83.9%) e na escola (96%), com os professores (92.8%), a família (85.6%) e, mais remotamente, com alguns dos amigos próximos (39.7%). A observação do continuum dos comportamentos subjectivos para com a L1 indica, todavia, uma crescente deterioração da identidade lusa a favor de uma aproximação linguística (e cultural) a situação sociolinguística do país de acolhimento. O poder da assimilação da língua maioritária exercido em todos os domínios da vida comum, ao conduzir os alunos estrangeiros no processo gradual de integração, fá-los passar por uma fase mais ou menos (in)consciente e conflituosa de hierarquização das línguas em contacto, marcada pelo movimento de oposições e adesões aos múltiplos valores veiculados pelo alemão. A passagem da qualidade de othergroup a owngroup members evidencia índices de hesitação flutuantes, muito particularmente quando funcionam os chamados contextos de crispação identitária, isto é, em situações de enunciação concretas em que as fronteiras da(s) diferença(s) ou

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não fazem parte do horizonte de espera - na óptica alemã – ou não podem (nem devem) transparecer. A auscultação dos sentimentos desencadeados quer pela audição do português, quer pela actuação individual nessa mesma língua, no âmbito de um dualismo linguístico cuja tensão é vivida de forma continuada, manifesta os diferentes graus de desafecto de tal idioma. Para uma amostragem das tendêcias, ouçamos participações exemplificativas dos três grupos implicados: GRUPO I Quando ouço falar português à minha volta Sinto o meu coração a rir e penso em portugal (7), Apeteceme falar p’ra as pessoas e falar (13), eu gosto muito disso porque sei que aqui também há portugueses (15). Quando falo a Língua Portuguesa Sintume bem (1), Sinto que estou a falar a língua que a minha mãe e também os professores me ensinaram (18), Sintu-me feliz porque sei falar Português (21). Neste conjunto de entrevistados poucas são as vozes dissonantes. Porém, algumas respostas do Grupo II perdem a vivacidade na aceitação da L1; e apontam, com maior nitidez, o afastamento sentido pelos locutores da comunidade apresentando soluções típicas de um compromisso linguístico: GRUPO II Quando ouço falar português à minha volta não sei o que sinto (24), É bom porquê as pessoas afinal não esqueceram a Língua Portuguesa (32), Eu sintome como sempre normal (38), Sinto muita alegria por terem respeito pela Língua Portuguesa (43). Quando falo a Língua Portuguesa Eu sinto igual como falo Alemão (38), Não tenho a serteza (39). Entre os mais velhos, as evidências empíricas obtidas remetem já para o estatuto de marginalidade do português e para uma esbatida noção de pertença à comunidade de língua: GRUPO III Quando ouço falar português à minha volta não me sinto no meio deles por não falar e perceber bem português (58), sinto normal porque também há pessoas que falam outras línguas (65), Nada. Mas gostava falar tão bem Português como alguns portuguêses (68), Eu acho que tem interesse para aprender (77). Quando falo a Língua Portuguesa eu detesto falar (65), Não sinto nada é uma língua como qualquer outra (79).

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A geração de educandos que acabamos de observar é das que, em situações idênticas de transplante geo-linguístico, acabam por ser socializadas através de esquemas, espirituais e materiais, em concorrência assimétrica: uns, os menos fortes, pertencem ao mundo das referências familiares; os outros, diversos e dominantes, são os das coordenadas que conforma(ra)m a sociedade alemã contemporânea. Por outro lado, é também a juventude psico-fisiológica dos seus organismos que surge como potência responsável pelo processo de alteração e/ou mudança (socio)linguística, favorecendo o rápido desenvolvimento da competência comunicativa na língua da comunidade receptora. A prática quotidiana de um excelente bilinguismo, nesta geração de transição, poderá, por conseguinte, conservar-se - na tentativa em defender-se a chamada memória colectiva do grupo- ou conduzir à extinção de um dos sistemas co-existentes, segundo a força do desejo de integração e de aceitação pelos não-Nós. Tudo dependerá da tipologia das atitudes desencadeadas por tais esquemas para com o código semiótico em risco.Outra especificidade do conjunto dos informadores é a íntima aliança criada entre a Língua Portuguesa e a identidade étnica e nacional, reunião essa que os estudos de Psicologia Social nos dizem não ser obrigatória. De facto, quanto mais afastados se sentem da proficiencia em português, mais ácidas são as apreciações sobre a população de Portugal: no Grupo I são generalizados comentários como os portugueses são bons amigos (12), simpaticos e pessoas boas (15), (Aqueles que também falam Português.) bons (18); no Grupo II diminui o grau de solidariedade, com enunciados do género os portugueses sao simpácticos, mas só às vezes (35), fantásticos, burros, inteligênticas, etc. (.37); no Grupo III indiferença impõe-se, com asserções como os portugueses são pessoas normais como todas as outras raças tamben (68) ou como todas as outras pessoas (79). 6. Epílogo A aproximação a esta complexa realidade escolar, em tempo aparente e vivida por uma população não natural, dá-nos a medida exacta do que ocorre no terreno. Durante a adolescência, as crises que lhe são inerentes fazem-se acompanhar, de maneira reforçada, pela instabilidade nos processos pluridimensionais e funcionais das auto e hetero-identificação linguística (e cultural) uma vez que há mais do que um modelo orientador colectivo proposto.

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No sentido de vencer este penoso período afectivo e psíquico das criancas e dos jovens perfeitamente divididos entre dois pólos - de igual modo legítimos - e de, com integridade, se perpetuarem a língua e a cultura portuguesas neste e noutros ambientes adversos, devemos repensar, com toda a seriedade, o nível dos canais que transmitem o discurso da unidade. Só assim se cumprirá, nas palavras de Aníbal Pinto de Castro, a vocação ecuménica de Portugal10 .

Notas 1 Trata-se do primeiro estudo de um conjunto amplo em que desenvolverei outros temas a partir dos dados obtidos por intermédio do I.L.H – 97 ou em que retomarei, para desenvolvimento teórico, pistas que a análise aqui avançada me tenha sugerido ao longo da elaboração do presente texto. À Prof. Doutora Maria Manuela Gouveia Delille, do Instituto de Estudos Alemães da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, quero expressar a minha gratidão por me ter proporcionado ambas as estadias na Alemanha, sem as quais não só o trabalho de campo teria sido impossível, bem como as subsequentes pesquisa, reflexão e sistematização, de que o presente texto é subsidiário. 2 Programa de Língua e cultura portuguesas para 5 e 6 anos de escolaridade, Ministério dos Negócios Estrangeiros - Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Emigração. 3 Programa de Língua Portuguesa, Ministério dos Negócios Estrangeiros Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Emigração, p.3. 4 Programa de cultura portuguesa, Ministério dos Negócios Estrangeiros – Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Emigração, p.3 5 Cf. a título ilustrativo ANTUNES, M. F., SILVA, M. R, TEIXEIRA, M., 1994' Programa de língua e cultura portuguesas, Lisboa, Ministério da Educação - Departamentc da Fducação Básica. 33 A obtenção de todo o material linguístico só foi possível pela acção adjuvante de três professoras cujo elevado profissionalismo e adesão ao projecto me impressionaram ao tornarem possível o meu contacto (imediato e prolongado) com os alunos das suas turmas, como pela disponibilidade e cuidado que revelaram ao responder ao I.L.H.-97/A (Questionário 1.). As Dr.as. Maria Isabel M. Dantas de Brito, Regina Correia e Ana Paula Fonseca Pilzecker deixo lavrado um especial agradecimento. 7 De acordo com as informações prestadas pelas respectivas pro-

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fessoras no I.L.H.-97 (Questionário 1.) Na transcrição dos dados, mantenho a ortografia dos alunos. 8 ANTUNES, M.F., SILVA, M. R., TEIXEIRA, M., Op. cit., p.31. 9 Entre parênteses curvos, indico o número de ordem dos informadores. 10 In Em questão: lusofonia. Apud Discursos. Estudos de língua e cultura portuguesa. 1993, vol..3. Unidade linguística. Diversidade cultural. Coimbra, Universidade Aberta, p.122.

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Sintaxe camoniana: “Na qual quando imagina.”
Jorge Morais Barbosa, da Universidade de Coimbra.
Convidou-me o meu velho amigo Professor Leodegário A. de Azevedo Filho para participar neste congresso sobre “Brasil: Quinhentos Anos de Língua Portuguesa” com uma intervenção dedicada ao português quinhentista. Desde logo aceitei, com entusiasmo, o seu convite, porque vir ao Brasil há muito se tornou para mim uma espécie de vício, hoje enraizado: e de todos os vícios que eu possa ter é este, seguramente, o mais gostoso. É também, felizmente, o mais inofensivo, excepção feita, claro, por quantos, em circunstâncias como esta, padecerem com escutar-me. Mas, aceite o convite, não me foi fácil escolher o tema de minha intervenção. O conhecimento que hoje podemos ter de qualquer estado da língua anterior ao de nossos dias é, como bem se vê, limitado ao que a literatura nos proporciona, e nem sequer o teatro de Gil Vicente, tantas vezes invocado como testemunho de usos considerados arcaizantes, nos permitirá conhecer o que de facto se dizia no Portugal de Quinhentos. Os próprios conhecimentos que na literatura podemos colher, além de eventualmente enganadores que representam, na realidade, muitos dos usos atestados em Camões mais que uma execução singular de potencialidades linguísticas? -, não se encontram nem sistematizados nem suficientemente desenvolvidos. A tendência tem sido, salvo excepções, para se falar da “língua” de um autor por referência ou ao português nosso contemporâneo ou ao que se julga saber de fases a ele pretéritas. Faltamnos, numa palavra, trabalhos como o que Paul Teyssier dedicou a Gil Vicente. Já uma vez tive ocasião de dizer que, fora Camões espanhol, quase nada restaria hoje para investigar a seu respeito: como o não foi, resta quase tudo: bastará reportar-nos à “Biblio-

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grafia Camoniana (1980-95)” organizada por Maria Vitalina Leal de Matos para nos darmos conta do reduzido interesse que Camões tem merecido aos linguistas portugueses, em flagrante contraste com o exemplo que nos dão colegas nossos do Brasil. 1. Ocupei-me em Outubro passado, na Academia Internacional da Cultura Portuguesa, de alguns problemas de sintaxe e topicalização n’ Os lusíadas. Também como homenagem ao Presidente da Academia Brasileira de Filologia e da Sociedade Brasileira de Língua e Literatura e dinamizador deste nosso Congresso, que tanto se vem dedicando ao estudo da obra camoniana, trago hoje aqui outro caso, este de natureza apenas sintáctica, que em particular tem que ver com os bem conhecidos versos da epopéia (I.33) 2. Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente lusitana Por quantas qualidades via nela Da antiga, tão amada sua, romana, Nos fortes corações, na grande estrela Que mostraram na terra tingitana, E na língua, na qual quando imagina Com pouca corrupção crê que é a latina. Epifânio Dias, cuja edição do poema, ainda relativamente acessível graças à reprodução que dela se fez por iniciativa da Comissão Brasileira encarregada das comemorações do IV Centenário da publicação da epopeia, continua sendo, a meu ver, a melhor quanto à interpretação e comentário linguístico do texto, escreveu em nota o seguinte: “A construcção ‘na qual quando imagina...crê que he a latina’ equivale a ‘a qual, quando nella imagina, Venus crê que he a Latina’ [...] (Não deve conseguintemente pôr-se pausa entre ‘na qual’ e ‘quando’).” Não viria esta sábia recomendação a ser atendida pelos editores subsequentes do poema que, preferindo seguir a pontuação das duas edições de 1572, assim leram: E na língua, na qual, quando imagina, [...] Curiosamente, a Carlos Eugénio Corrêa da Silva (Paço d’Arcos), que de tão perto o seguiu, parece ter passado despercebida essa observação do mestre, o que o levou a considerar a construção como representando um caso de “oração simultaneamente relativa e temporal”. Deixando de lado conceitos como este, que em sintaxe se não revestem de qualquer interesse,

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dir-se-á que tal pontuação não sustenta qualquer interpretação aceitável dos versos. Ter-se-ia de considerar, por um lado, o verbo imaginar aqui em uso intransitivo, o que seria possível, já que, conforme se verá, ele ocorre em Camões com este estatuto, mas isso obrigaria, por outro lado, a entender a latina e a qual como os dois termos de uma construção dita equativa, ou seja, onde um deles corresponderia à função “sujeito” de “ser” (é) e o outro a uma determinação deste. Nunca sendo, porém, os functivos de “sujeito” precedidos em português de preposição, teria de ver-se em qual a mencionada determinação de “sujeito” e, consequente-mente, em a latina o functivo deste determinante de “ser”. Ora, com este verbo, também a determinação do “sujeito” nunca ocorre precedida de preposição. Certa estava assim a lição de Epifânio, pois, como reconheceria qualquer leigo em matéria linguística, de outro modo os versos não fariam sentido. Interessará agora atentar em dois pontos relativos aos mesmos versos: respeitam aos usos de imaginar e de qual. 3. Graças aos inestimáveis Índices devidos a A. Geraldo da Cunha e às facilidades de pesquisa proporcionadas pela Biblioteca Virtual dos Autores Portugueses, sabemos que o verbo imaginar ocorre dezasseis vezes n’Os lusíadas e vinte e uma nas Rimas. Daquelas dezasseis ocorrências, duas apresentam o complemento precedido de em: são a já citada de III,21 e a de IX,27, para a qual, aliás, no prosseguimento da nota acima citada, já Epifânio remetera em abono da sua interpretação: 4. E vê do mundo todo os principais Que nenhum no bem púbrico imagina.

Também na lírica está essa regência representada, pelo menos quatro vezes: Ao longo d’ ûa praia deleitosa, vou na minha inimiga imaginando; Ainda eu imagino em ser contente? Que tanto por seu dano se perdeu, que o longo imaginar em seu tormento em desatino Amor lho converteu; Que um contino imaginar naquilo que Amor ordena, é pena que, enfim, por pena se não pode declarar.

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Encontram-se, bem entendido, usos intransitivos e usos transitivos do mesmo verbo. São os primeiros os seguintes: A disciplina militar prestante Não se aprende, Senhor, na fantasia, Sonhando, imaginando ou estudando, Senão vendo, tratando e pelejando; ... este fantasiar que, imaginando, a vida me reserva. Não me deterei, por hoje, em dois casos que podem prestar-se a dúvidas. Um é o de Se tão alto imagino que de vista me perco, peco nisto, desculpa-me o que vejo, que na edição de 1598 se lê como Se tão alto imagino que dé vista me perco, ou pecco nisto, desculpame o que vejo, onde que de vista me perco deve ser “consecutiva” de tão alto e não integrante de imagino, e o outro imaginando sobre o famulento, quanto mais come mais está crecendo, na edição de 1598 Imaginando como o famulento, Que come mais, e a fome vai crecendo. Creio, todavia, tratar-se em ambos os casos de usos intransitivos, embora o segundo coloque um interessante problema de “regência preposicional” que seria deslocado desenvolver aqui. Dos usos transitivos, os mais frequentes tanto na epopeia como na lírica, limitar-me-ei, por economia de espaço, a assinalar serem de variadas formas os functivos correspondentes à função “complemento directo”. Apenas acrescentarei que, a meu ver, nos versos de onde partimos - E na língua, na qual quando imagina / Com pouca corrupção crê que é a latina- , o estatuto sintáctico de a qual equivale ao deste complemento, uma vez que imaginar em X, entendido como verbo sintemático, exclui Y como “comple-

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mento directo” de imaginar. 5. Mereceriam um estudo pormenorizado os usos de qual, como “conjunção”, “adjectivo” ou “pronome” (e entre estes “relativo” ou “interrogativo”), no português quinhentista e particularmente em Camões. Não sendo este o lugar adequado para o fazer, limitar-meei a registar alguns dos seus usos como “relativo”, não sem, no entanto, ressalvar que, por facilidade de exposição, me refiro agora ao termo no sentido mais corrente na terminologia gramatical, que não seria decerto o mais adequado numa exposição de outra natureza e com outros fins. Mencionarei, de passagem, o facto, corrente no português quinhentista, de qual, como anafórico, poder ter por referência não um nome mas um “discurso”, caso onde hoje se diria que ou isso: parece-me ser o que se vê em Pelo qual, admirada a Rainha infernal e comovida, te deu a desejada esposa que, perdida, de tantos dias já tivera a vida. Referirei ainda de passagem que qual ocorre como parte de uma determinação intra-sintagmática e, contrariamente ao que hoje é de regra em semelhantes casos, não apenas de determinação inter-sintagmática: Não há cousa a qual natural seja Que não queira perpétuo seu estado. Mas interessa regressar à posição de qual em Na qual quando imagina. Fazer preceder e seguir este segmento de vírgulas implicará que qual deixe de ser complemento de imagina e passe a sê-lo de crê, o que manifestamente nem se coaduna com a sintaxe portuguesa, onde o “complemento directo” não pode ser precedido de preposição outra que a, nem faria sentido. Documenta-se a mesma ou idêntica posição em outros passos camonianos, como os dois seguintes: Esta é a ditosa pátria minha amada, À qual se o Céu me dá que eu sem perigo

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Torne com esta empresa já acabada, Acabe-se esta luz ali comigo. Nisto ûa parte dela foi passada, na qual se tive algum contentamento breve, imperfeito, tímido, indecente, não foi senão semente de longo e amaríssimo tormento. Conforme se vê, vírgula que se colocasse depois de qual excluiria este “relativo” da oração iniciada por o céu e por tive, respectivamente, e ligada à “principal” pelo conector se, o quer dizer que faria de qual complemento de acabe no primeiro caso e de foi no segundo. Não é pois aceitável tal pontuação, como o não é igualmente em Quando a fermosa Ninfa Com todo ajuntamento venerando Na pura e clara linfa O cristalino corpo está lavando, O qual nas águas vendo Nele, alegre de o ver, se está revendo: nem em Mas vês o fermoso Indo, que daquela altura nace, junto à qual também de outra altura correndo o Gange vem. 6. Embora possa parecer estranha a quem menos familiarizado estiver com a sintaxe, cujo objecto não reside no estudo da ordem das palavras (como já ouvi a alguém que tinha obrigação de não dizer disparates destes), nem sempre importa às relações de determinação sintáctica a posição do “relativo”. Não poderei alongar-me agora neste ponto, mas não deixarei ainda assim de mencionar um exemplo de onde: 7. Veria erguer do sol a roxa face, veria correr sempre a clara fonte, sem imaginar a água donde nace, nem quem a luz esconde no horizonte

no qual, conforme é evidente, a água faz parte do functivo do sujeito de nace (a outra parte está na “3.ª pessoa” amalgamada

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neste sintagma verbal). Sem querer regressar hoje a tais problemas, não deixarei de notar termos aqui um caso de topicalização, de que cito apenas mais um: Peço-vos que me digais as orações que rezastes se são pelos que matastes se por vós, que assi matais. Dizer, como por vezes ainda se ouve, que se trata de liberdades poéticas ou de questões de estilo é esquecer que não há nem liberdades daquelas nem efeitos destes que se situem fora da língua e deixem por isso de ter enquadramento linguístico descritível e explicável. 8. Recordarei, para terminar, que apenas me propus falar hoje de problemas de qual como “relativo” em Camões: foi a esse propósito que, sem sair da obra camoniana, me ocupei de imaginar e imaginar em. Mas muito haverá que estudar acerca do assunto, bem como dos usos do mesmo monema com diverso estatuto sintáctico, no português de Quinhentos e das fases que o precederam e se lhe seguiram. Mesmo hoje, haverá um só monema qual ou mais de um? Haverá “relativos” ou apenas um “relativo” com variantes contextuais? E será, de facto, “relativo” tudo quanto tradicionalmente dá por esse nome? Deixo para outro dia tais problemas. Por hoje é tudo.

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Os estudos vicentinos: balanço e perspectivas
José Augusto Cardoso Bernardes, da Universidade de Coimbra Se exceptuarmos o invulgar estrelato que corresponde a Camões e a voga relativamente recente de Pessoa, poucos autores portugueses terão suscitado mais adesão e inspirado mais estudos do que Gil Vicente. Em alguns casos, estão já razoavelmente inventariados os factores (intrínsecos e extrínsecos) que explicam a fortuna - ainda assim desigual - de alguns desses “escritores maiores”. Mas não em Gil Vicente. Perguntemos pois: Que motivos contribuirão para que continue a sobressair desta forma no cânone da Literatura Portuguesa o poeta lavrante da Rainha D. Leonor? Habituados desde sempre a esta centralidade, quase nunca nos ocorrem formulações deste tipo. A verdade, porém, é que essa indagação pode desde logo conduzir-nos a explicações interessantes (se não mesmo decisivas) a respeito do fluxo e das orientações dos próprios estudos vicentinos. Vejamos pois, sumariamente, que respostas podem encontrar-se para estas questões. Coloco em primeiro lugar um factor de ordem estética: precisamente o que decorre da relativa extensão e variedade do corpus vicentino. São quase cinquenta peças, recobrindo os grandes géneros do teatro medieval europeu, e esta circunstância, que nunca poderia ser ignorada, traduz-se, por si só, num raríssimo valor patrimonial, que abrange a Língua (captada numa impressionante multiplicidade de níveis e registos) e as formas artísticas moldadas a partir dela e a partir de uma tradição de base peninsular e extrapeninsular, que incluía o Lirismo, a Narrativa e as formas dialogadas em geral, sem falar nas inúmeras manifestações não discursivas próprias da convivialidade palaciana; vem depois outra condicionante que, embora sendo de natureza cívica e política, se revela igualmen-

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te poderosa: refiro-me ao próprio estatuto de dramaturgo quinhentista, que Gil Vicente partilha com relativamente poucos escritores de Língua Portuguesa e que se vê reforçada com a aura de testemunha viva desse “memorial eterno da portugalidade” que é o século XVI; e termino este inventário lembrando a absoluta excepcionalidade da Copilaçam no panorama da criação teatral portuguesa, em termos de qualidade (e até de quantidade), considerando não apenas o século de Quinhentos, mas todos os que até hoje se lhe seguiram. Em função dessa excepcionalidade, pode afirmar-se que, para além dos seus méritos próprios, a escrita de Gil Vicente vale também pelo seu desacompanhamento, o mesmo é dizer, que contrasta com os silêncios que o precedem e se lhe seguem na história do teatro português. À primeira vista, são estas as razões principais que fazem de Gil Vicente um autor incontornável da Literatura Portuguesa, ao mesmo tempo que lhe garantem um lugar muito especial no nosso imaginário cultural, como crítico dos desconcertos de uma época onde, como em nenhuma outra, se entrelaçam sem cessar as nossas Grandezas e Misérias. E são também estas as razões que explicam o grande caudal bibliográfico que tem inspirado. Só nos vinte anos que medeiam entre 1975 e 1995, puderam recensear-se 620 contributos, contando edições, traduções e estudos gerais ou localizados1 . A este número haveria ainda que somar os trabalhos publicados desde 95 para cá: tomando por base apenas o ritmo médio das duas últimas décadas, chegamos à apreciável média de trinta e cinco trabalhos por ano. No âmbito de um Congresso comemorativo de 500 anos de Língua Portuguesa no Brasil, pareceu-me justificável delinear uma visão esquemática dos estudos vicentinos tal como eles se configuram hoje, tentando depois captar algumas das tendências que se desenham num futuro mais próximo, em função das muitas tarefas que permanecem por cumprir. A escolha de tal assunto radica evidentemente no meu próprio interesse; mas tenho esperança de que a minha opção possa ser tolerada no temário desta Reunião científica. De facto, se entendermos, com Eugenio Coseriu, que a Literatura corresponde à plenitude da Língua, não há dúvida de que os autos de Gil Vicente consubstanciam uma das mais completas e diversificadas realizações estéticas da Língua Portuguesa de sempre. É nessa perspectiva (lateral) que aqui gostosa e honrosamente me associo à celebração da Língua materna de Gil Vicente, que por insondável fortuna, é ainda a nossa.

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2. Como é sabido, a percepção moderna da obra de Gil Vicente deve-se, em Portugal, ao Romantismo. Há desde logo boas razões para acreditar que tenha sido Almeida Garrett a recomendar a Barreto Feio e Gomes Monteiro (dois judeus de origem portuguesa, radicados em Hamburgo) a reimpressão da Copilaçam, o que estes fizeram a partir de um exemplar da 1ª edição que se encontrava na Biblioteca da Universidade de Göttingen. E foi a partir deste acontecimento (1834) que Gil Vicente se tornou conhecido e estudado por uma plêidade de filólogos dos finais do século passado e princípios deste, de onde é justo destacar Carolina Michaëlis de Vasconcelos e Anselmo Braamcamp Freire2 . Apesar dos esforços de contextualização que foram sendo feitos, a mitologia romântica (que, pelo menos em Portugal conviveu, sem litígios de maior, com o positivismo filológico) depressa se apropriou da figura de Gil Vicente, transformando-o designadamente numa encarnação da vox populi, espécie de génio sem suporte nem explicação racionais (como se sabe, na teogonia romântica, os génios não necessitam de um suporte histórico rigoroso). E não se estranha que essa lendarização (como tantas outras que tiveram por objecto figuras literárias) tenha acabado por exceder, em muito, os limites cronológicos do próprio Romantismo. Nem os trabalhos de António José Saraiva que, um tanto incompreendidamente, em finais de 30, coloca a obra vicentina na senda de uma vasta e rica tradição européia, conseguiram obstar à ideia de que Gil Vicente é uma espécie de meteoro desacompanhado no firmamento político e idiomático da Península. Grande parte do esforço de nomes cimeiros do vicentismo como Paul Teyssier, Luciana Stegagno-Picchio, Stephen Reckert ou Thomas F. Hart (para só citar quatro nomes vivos e activos, cujo labor vem desde, pelo menos, a década de sessenta) pode ainda ser lido como uma tentativa de desromantizar o dramaturgo português. Mas em vão. A avaliar pelo que se vê ainda hoje escrito (inclusivamente entre os meios universitários), não se pode ainda prescindir totalmente desse logotipo, até porque —reconheçamo-lo — ele se enquadra exemplarmente no nosso esquema mítico de pensar e de sentir. 3. Olhando para o índice de nomes com que se encerra o já citado volume da Bibliografia de Stathatos e destacando de entre eles os que são responsáveis pelos contributos de melhor qualidade, verifica-se, em primeiro lugar, que o inventário dos vicentistas

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incontornáveis vai aumentando a bom ritmo e, ao lado dos consagrados nos anos 60 e 70, tornou-se já obrigatório referir um bom punhado de investigadores, dos quais destaco María Luisa Tobar, Armando López Castro, Manuel Calderón Calderón, Stanislav Zimic, Constantine C. Stathatos ou João Nuno Alçada. Como não poderia deixar de ser, por entre os títulos mais recentes, detectam-se muitas duplicações de perspectiva e de resultados obtidos; mas também se vêem claros movimentos de renovação numa área que, aliás, durante muito anos, permaneceu sequestrada pela história literária (em sentido estrito), quase imune, portanto, aos ventos novos que vieram fecundar as metodologias dos estudos literários e teatrais. Continua a predominar, quantitativamente, a tendência para o estudo isolado de um só auto, correspondendo, muitas vezes, a incursões esporádicas e de fôlego menor de estudiosos não reincidentes; mas são já em número significativo os estudos transversais que abrangem os autos ou pelo menos alguns conjuntos de peças, delimitados em termos cronológicos, temáticos ou genológicos: a farsa, a comédia, a representação da Mulher, do Natal, do Amor, a projecção cénico-teatral dos textos, etc. Ainda numa linha estruturante e global, a Lírica vicentina, cuja importância foi desde sempre intuída, vem merecendo uma atenção crescente, consubstanciada em edições antológicas, que não deixam de surpreender quem tem dos autos um conhecimento mais rarefeito e em estudos de sólida fundamentação que religam Gil Vicente à grande tradição da lírica ibérica de Quatrocentos, nas formas e nos temas, ao mesmo tempo que se busca o significado global da Lírica enquanto correlato dialéctico de outras formas de expressão (V. Reckert, Calderón Calderón e López Castro). 4. Perante sinais tão encorajadores, apetece pensar que os estudos vicentinos se encontram a caminho do lugar que lhes compete por direito próprio no âmbito da história literária (portuguesa e peninsular, pelo menos). E assim há-de ser, seguramente. Mas convém não embarcar em contentamentos de suficiência, uma vez que as lacunas são ainda numerosas e de grande monta. Sem pretensões de exaustividade, anotemos apenas cinco: as edições; a Língua; as matrizes estéticas; as coordenadas contextuais e os sentidos. 4.1.Um dos sinais que melhor reflecte o grau de desenvolvi-

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mento de uma determinada área dos estudos literários é, como se sabe, o grau de fiabilidade que merecem os textos diponíveis. E, para o caso de Gil Vicente, o mínimo que se pode dizer é que ele está longe de ser satisfatório. Continuam tímidos os passos dados para se chegar a uma edição crítica. Em 1965 (ano em que se comemorou o quarto centenário do nascimento do autor) chegou a ser nomeada uma Comissão Nacional para trabalhar criticamente os textos vicentinos. Passadas mais de três décadas, os dedos de uma só mão chegam para contar as edições que podem reclamarse de críticas (e creio que, das que existem, nenhuma veio a beneficiar desse fervor comemoracionista). Em contrapartida, cresce quase incontavelmente o número de edições didácticas, em suporte escrito e também já em suporte informático, repetindo, por sistema, os erros de leitura, tão favorecidos, como se sabe, pelas deficiências da própria editio princeps. São as consequências normais da presença de Gil Vicente na Escola de massas, onde aparece inevitavelmente reduzido a meia-dúzia de chavões, que oscilam sobretudo em função das conjunturas cívico-políticas e em resultado do capricho incontrolado dos autores de programas e manuais. Mais inaceitável do que a escassez de edições críticas é, porém, a penúria de edições globais fidedignas. No mercado português encontram-se hoje apenas a edição da Lello & Irmão (que se limita a reproduzir, em aparato de luxo, a que Mendes dos Remédios preparou em 1907 para a colecção Subsídios para a História da Literatura Portuguesa); e encontra-se ainda a edição de Costa Pimpão que, apesar da sua melhor qualidade científica, é “artística”, o que significa dizer que é ainda mais cara, além de pouco prática, pelas suas invulgares dimensões. A edição dos clássicos Sá da Costa (preparada por Marques Brag) cumpriu razoavelmente a sua missão na Escola portuguesa ao longo de trinta anos mas já só se encontra em alfarrabistas; até a que Maria Leonor Buescu preparou para a Imprensa Nacional (com normalização de texto), e que tem alimentado o mercado escolar nos últimos anos, se encontra já fora da vista dos potenciais compradores. O panorama das traduções, por sua vez, também está longe de ser excelente. Para além das Barcas, do Auto da Alma e da Sibila Cassandra (peças muito traduzidas para quase todas as línguas europeias na primeira metade deste século) tem-se verificado uma natural curiosidade pelos autos que reflectem as circunstâncias da expansão, inspirando um número razoável de versões, nomeadamente em Língua Inglesa. Menção muito positiva, a este respeito,

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merecem as traduções francesas coordenadas por Paul Teyssier, que começaram a vir a lume muito recentemente, sob a chancela das Éditions de la Chandeigne. Mas se a este excelente exemplo, quiséssemos contrapor um fenómeno de sinal contrário, não seria difícil: bastaria aludir às edições do teatro exclusivamente castelhano de Gil Vicente (feitas por espanhóis e publicadas em Espanha) e a outras feitas em Portugal, deliberadamente expurgadas dos autos em castelhano ou até dos textos bilingues. As insuficiências de base verificadas nestes dois planos não pode obviamente deixar de condicionar a produção crítica, uma vez que daí resultam dificuldades naturais no acesso aos textos. Deste modo, a necessidade de conjugar esforços para ultrapassar este estado de coisas, num sentido duplo e convergente impõe-se com absoluta urgência: a - elaborar uma edição fiável dos textos, o que significa, para já, cotejar as lições existentes e expurgá-las dos muitos lapsos de fixação que resultam da leitura deficiente da Copilaçam que é, como se sabe, ão patrimonialmente preciosa quanto filologicamente desastrada. É necessário também estabelecer critérios de anotação, que poderão ir desde o esclarecimento vocabular localizado e cotextual (tarefa que, em muitos casos, se revela espinhosa) até ao comentário estético e ideológico, só realizável por equipas numerosas e bem coordenadas. b - depois - ou paralelamente? - deve levar-se por diante a tão almejada edição crítica, muito mais trabalhosa, mas ainda assim perfeitamente exequível e, sobretudo, amplamente justificada em face dos benefícios que promete. 4.2. Na posse destes dois elementos de trabalho seria, em dúvida, muito mais fácil deitar ombros a tarefas de outra índole, enfrentando problemas que desde há muito se encontram suspensos. Era preciso voltar à questão da Língua, em primeiro lugar. Sobre este assunto, Paul Teyssier disse praticamente a primeira e a última palavra. Mas disse-a em 1959. Na mesma perspectiva ou adoptando outros enfoques, impõe-se retomar o estudo da Langue vicentina, em correlação com os vários registos do discurso literário e nãoliterário da mesma época, nos domínios idiomáticos do Castelhano e do Português, através de cruzamentos que os recursos informáticos vieram entretanto facilitar enormemente. 4.3. É também necessário reexaminar a questão das matrizes

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da arte vicentina. Concebido durante muito tempo como uma ave insólita nos céus rarefeitos da dramaturgia portuguesa, Gil Vicente permanece ainda pouco integrado na tradição peninsular e europeia, em geral, tanto em termos de ascendência como em termos de projecção. Questões como a dos géneros teatrais ou a dos próprios esquemas de encenação muito terão a ganhar com este trabalho de inserção que liberte a obra vicentina das fronteiras políticas e até idiomáticas a que tem estado confinada. Neste plano particular, é óbvio que os estudos vicentinos muito têm a ganhar com o grande incremento de publicações de textos dramatúrgicos, inéditos ou reajustados em bases filológicas mais seguras, que se vêm fazendo no espaço francês e espanhol e bem assim dos estudos acerca do teatro tardo-medieval (nomeadamente o de expressão francesa); como podem beneficiar significativamente com os novos quadros de leitura abertos pela semiologia do texto dramático, definitivamente concebido, não já como objecto estritamente linear e passivo mas como objecto poligonal e transversalmente codificado. 4.4. Outro aspecto que carece de atenção reforçada prendese com as coordenadas contextuais que balizam a produção e a recepção dos textos vicentinos. Superados há muito os limites e os excessos do contextualismo determinista que marcou os estudos literários até à primeira metade deste século e preservada a especificidade do fenómeno estético, é incompreensível que se não aproveite o contributo das disciplinas historiográficas (História da Arte, das Mentalidades, dos planos Institucional e Político). Paralelamente ao enraizamento estético, torna-se indispensável esclarecer melhor os parâmetros da convivialidade cortesâ em Portugal, no primeiro terço do século XVI, ajustando, para já, a leitura dos autos ao que de novo se tem vindo a publicar sobre estas matérias. Nos anos mais recentes, têm surgido contributos importantes, nomeadamente no que se refere à figura da Rainha D. Leonor de Lencastre e às linhas de espiritualidade que lhe são próximas e cuja repercussão no teatro vicentino se vai tornando cada dia mais nítida (Carneiro de Sousa); e também se tem progredido no conhecimento do século XVI, em geral, em termos sócio-políticos e mentais, abrindo caminhos para a aferição da importância que em Gil Vicente detem a tradição popular, seja ela vista como um depósito cultural que os palácios não excluíam, seja ela entendida como uma opção estética consequente (Alves das Neves). Durante muitos anos, o teatro vicentino foi assumido como

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ponto de partida para aceder à compreensão do século XVI, funcionando, nessa medida, como fonte quase irreservada da maioria dos historiadores; é chegado o momento de estes enriquecerem os estudos vicentinos com conhecimentos hauridos em fontes diferentes. Só asim será possível discriminar aquilo que em Gil Vicente é manifestamente testemunhal, aferir o grau da transformação estética que a partir daí se operou e derimir, enfim, com senso histórico e hermenêutico, velhas questões dos estudos vicentinos como sejam o realismo, a sátira ou o cómico. 4.5. Efectuadas estas operações prévias, será altura de aprofundar os sentidos da obra vicentina, concebida não apenas como um aglomerado de peças, mas como um macro-texto, ou seja, uma totalidade orgânica apoiada em linhas de coerência temática e ideológica. Existe verdadeiramente um ideário vicentino? Como se projecta ele através do jogo teatral? Quais as componentes estéticas que lhe dão corpo? Que tipos de correlação se estabelecem entre elas? Poderão parecer demasiado gerais estas perguntas. Mas, de facto, se não erro, são elas que hoje melhor ilustram as expectativas dos devotos vicentistas. Daqueles que estudam os textos e daqueles que, pura e simplesmente, mantêm com eles uma relação de curiosidade fruitiva e indagante. Independentemente das respostas que possam vir a encontrar-se para estas questões, talvez se possa reconhecer desde já a utilidade da sua simples formulação, uma vez que ela se revela susceptível de abalar alguns clichés que vêm circulando com trânsito demasiado fácil. Como era inevitável, o lugar central que Gil Vicente ocupa no cânone português contribuiu para uma mineralização excessiva do conhecimento que sobre ele tem sido divulgado. Costuma dizer-se, aliás, que essa é a “defesa” dos clássicos e é também, sem dúvida, o segredo do seu sucesso num determinado modelo de Escola. Resta saber se essa situação se compadece com a Escola que todos afirmamos querer construir: activa e não dormente, criativa, transformativa e não redutoramente patrimonialista. Seja como for, o que não pode aceitar-se é que esta visão pobre possa ser transposta para círculos de maior exigência intelectual, como a própria Universidade. A 7 de Junho de 2002 completar-se-ão 500 anos desde que Gil Vicente, disfarçado de rústico saiaguês irrompeu na câmara da rainha parturiente para pronunciar o famoso “Pardiez” fundador do

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teatro português. Espera-se que essa circunstância venha a ser devidamente assinalada no plano cívico-cultural. Mas epera-se sobretudo que, por essa altura, estejam já supridas algumas das lacunas que aqui apontei, mormente as que respeitam à falta de textos credíveis. Em outras ocasiões se hão-de fazer outros balanços dos estudos vicentinos para apontar outros desígnios, suscitados pelo aparecimento de novos dados e pela emergência de novas expectativas. É verdade que um clássico é “aquele que nunca acaba de dizer o que tem para dizer” (Ítalo Calvino). É plenamente o caso de Gil Vicente: ouvi-lo e inquiri-lo cada vez mais e de ângulos diferentes é um imperativo ético e há-de ser um desafio constante. E não há dúvidas de que ele está mais do que preparado para essa prova.
Referências bibliográficas BERNARDES, José Augusto Cardoso. Sátira e Lirismo. Modelos de síntese no teatro de Gil Vicente. Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, 1996. CALDERÓN CALDERÓN, Manuel. La lírica de tipo tradicional de Gil Vicente. Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade de Barcelona, 1992 (policopiada). DIAS, João José Alves das. Portugal do Renascimento à crise dinástica (Série ‘Nova História de Portugal’, dirigida por Joel Serrão e Oliveira Marques). Lisboa, Editorial Presença, 1998. LÓPEZ CASTRO, Armando. “La lírica de Gil Vicente”. In Actas del III Congreso de la Asociación Hispánica de Literatura Medieval (Salamanca, 3 al 6 octubre de 1989). Ed. María Isabel Toro Pascuala. Vol. I, Salamanca: Biblioteca Española del Siglo XV, Departamento de Literatura Española e Hispanoamaericana, 1994. p.517-524. — “Las cantigas paralelísticas de Gil Vicente”. In Actas do IV Congresso da Associação Hispânica de Literatura Medieval (Lisboa, 1-5 de Outubro de 1991). II: Literatura Medieval. Organização de Aires Nascimento e Cristina Almeida Ribeiro. Lisboa, Cosmos, 1993. p.175-185. RECKERT, Stephen. “A Lírica vicentina: estrutura e estilo”. In Espírito e Letra de Gil Vicente. Lisboa, INCM,1983. p. 135-174. — “Las poesías del Auto Pastoril Castellano. Edición, comentario y notas”. In Homenaje a Eugenio Asensio. Madrid, Gredos, 1988. p.379-389. SOUSA, Ivo Carneiro de. A Rainha da Misericórdia na história da espiritualidade em Portugal na época do Renascimento. Dissertação de Doutoramento em Cultura Portuguesa apresentada à Faculdade de Letras do Porto, 1992 (policopiada).

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Notas 1 Esta contabilidade exacta figura na Bibliografia vicentina que tem vindo a ser publicada por Constantine Stathatos e que conta já dois volumes: A Gil Vicente Bibliography (1940-1975), London, Grant & Cutler Limited, 1980 e A Gil Vicente Bibliography (1975-1995), With a Supllement for 1940-1975, Bethlehem: Leigh University Press/London: Associated University Press,1977. 2 Para uma resenha dos estudos vicentinos do século XIX aos nossos dias veja-se o meu Sátira e Lirismo, p. 10 e s.

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Em defesa da Língua Portuguesa
Leodegário A. de Azevedo Filho, da UERJ e UFRJ
A expressão língua literária, por muitos desconhecida, estabelece imediatas relações de intersecção entre dois campos semânticos naturalmente interligados: o da língua e o da literatura. Em tal espaço comum logo se configuram problemas específicos, já que toda e qualquer linguagem literária pressupõe a existência de uma língua. Assim, do ponto de vista da língua, bem sabemos que há duas posições na lingüística moderna: a que vem de Bloomfield e a que vem de Sapir. Para o primeiro, apenas a língua falada devia ser objeto de estudo da lingüística, enquanto o segundo sempre entendeu que, de tal objeto, não se podia excluir a língua escrita. Portanto, de um ponto de vista literário, o que vai importar é o estudo de uma língua a serviço de uma criação estética. Em tal uso, por meio da língua, cada povo vai exprimir a sua própria cultura, de tal forma que o mesmo sistema lingüístico pode servir a diferentes culturas, como no mundo lusofônico, que se constitui de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e, agora, também Timor Leste. São nações irmanadas pela mesma língua, mas culturalmente diversificadas entre si. Pois bem, em função dessa diversidade cultural, os grandes escritores, muitas vezes, se afastam da norma da língua escrita, para a criação de um estilo individual. Sobre o assunto, ouçamos inicialmente o que escreveu Álvaro Lins: “...um escritor tem o direito de violar as regras gramaticais de sua língua, para a criação de um estilo pessoal. Este é um direito legítimo, com o qual as literaturas se enriquecem e as gramáticas também. Mas será preciso, num caso dessa espécie, ter o instinto da língua, a intuição da literatura, o senso da vida artística.” (Jornal de Crítica, 2ª

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série, p.161). Aliás, antes de Álvaro Lins, mas no mesmo sentido, já havia observado Mário de Andrade: “É quase lapalissada afirmar que só tem direito de errar quem conhece o certo. Só então o erro deixa de o ser, pra se tornar um ir além das convenções, tornadas inúteis pelas exigências novas de uma nova expressão.” (O empalhador de passarinho, p.215). E daí se conclui que a língua literária, sem deixar de ser uma modalidade da língua culta ou exemplar, apresenta liberdade de expressão artística, por vezes infringindo-se a norma criadoramente. Em poucas palavras, entende-se por língua literária escrita a língua da literatura, pois esta se sobrepõe à língua falada, embora dela se alimente, para melhor espelhar a cultura de um povo. Assim, a penetração de fatos da língua falada na língua escrita da literatura, com naturais desvios da norma lingüística gramaticalmente institucionalizada, é comum a todas as literaturas, não sendo a nossa nenhuma exceção. Sem conhecimento da norma culta ou exemplar, será sempre admissível que, por ignorância, se fale ou escreva mal. Mas um escritor, conhecendo a norma culta da sua língua, dela pode afastarse estilística e criadoramente. Até porque todos sabemos que há diferenças entre a língua escrita, em suas diferentes modalidades sempre ajustada à norma culta, e a língua falada, em seu curso mais livre e espontâneo. Tudo isso facilmente se verifica quando se cotejam as línguas literárias de Portugal, do Brasil e das Nações Africanas irmanadas pelo mesmo sistema, nelas logo se depreendendo múltiplos fatores de convergência e de divergência. Como é evidente, a linguagem literária brasileira, bem assim a linguagem literária das nações africanas aqui citadas, regionalmente vão exprimir a própria cultura, não sendo exatamente a mesma de Portugal. Lá, na antiga Metrópole, existem falares, como o minhoto, o alentejano ou o algarvio, como aqui temos falares regionais do Norte, Nordeste, Centro e Sul, o mesmo ocorrendo em África. A língua, como sistema, é claro que é a mesma. Mas comporta, tanto em Portugal, como no Brasil e Nações Africanas, natural diversidade de normas e de usos. Conseqüentemente, cai por terra o ideal fantasioso e inútil de uma língua literária intangível ou desligada da realidade cultural dos povos que a falam. Na prática, embora persista o sentimento da língua comum, em face da integridade do sistema com todas as suas estruturas fônicas e mórficas, temos plena consciência da divergência dos fatores culturais. Dito de outro modo, Portugal se insere numa cultura

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européia, enquanto as Nações Africanas pertencem a outro mundo. E o Brasil se integra na América. Mas nada disso autoriza a pensar-se na cisão estrutural da língua comum, nem agora, nem mesmo num futuro próximo ou remoto. No Brasil, estamos mesmo convencidos do contrário, por força da nossa unidade territorial e por força do ensino sistemático da nossa língua nas escolas, numa situação que deve prolongarse, no próprio interesse nacional, indefinidamente. Por isso mesmo, as duas línguas literárias, a de Portugal e a nossa, são variantes cultas do mesmo sistema lingüístico. No caso, seria muita ingenuidade supor que a presença cultural do elemento indígena e do elemento africano em nossa sociedade de pluralismo étnico, que não exclui ainda a importante presença de imigrantes aloglotas, seria muita ingenuidade supor que tudo isso pudesse determinar a mudança, de todo indesejável, da nossa língua comum. Por certo, haverá vários fatores que vão responder pela variedade de normas e de usos, mas não pela diversificação do sistema lingüístico, pois este absorverá, como historicamente o tem feito, todas essas diferenças culturais. Aliás, a grande tendência do mundo moderno é para fortalecer, jamais para desintegrar, os grandes blocos lingüísticos, cujo prestígio universal vai decorrer exatamente da sua unidade na variedade, não se querendo outro destino para o mundo lusofônico. Em suma, temos unidade na variedade, como em todas as grandes línguas de civilização escrita, a exemplo da inglesa, da francesa ou castelhana. E, com tal unidade, por sermos a sexta língua materna mais falada no universo, devemos serenamente encarar o futuro. Em conclusão, o de que todos necessitamos é do fortalecimento, da valorização e do melhor conhecimento da língua nacional. Assim como os Estados Unidos da América assumiram a língua inglesa e os países hispano-americanos a língua castelhana, a nação brasileira só poderia adotar o português como língua nacional. Mas isso, é claro, sem qualquer tutela da antiga Metrópole, pois a língua pertence a todos os seus usuários e será aquilo que todos juntos fizermos dela. Nem se fala aqui, em termos de idioma nacional, nenhuma língua indígena ágrafa, entre centenas que aqui havia durante a colonização. Também não se fala, sempre em termos de idioma nacional, nenhuma língua africana ágrafa, entre as muitas que para cá vieram com os escravos. A propósito, ninguém ignora que o português da América teve o seu vocabulário enriquecido com empréstimos lexicais de procedência indígena, africana e de povos

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aloglotas que para o Brasil imigraram. Mas tais empréstimos tiveram que se adaptar fonomorfologicamente à estrutura do português, para entrar na língua. Nem vai ser qualquer forma ou qualquer tentativa de globalização que nos levarão a marginalizar o que é essencialmente nosso: a língua que bebemos com o leite materno, pois aí estão os nossos grandes escritores, que muito bem souberam enxergar a grandeza e a beleza da língua comum em sua riquíssima variedade, respeitando-se até mesmo o espírito democrático que circula pela flexibilidade de algumas normas, sempre maleáveis, para melhor expressão das particularidades idiomáticas de cada povo luso-falante. Juntos, portanto, entoemos, todos nós, daqui e de além mar, os versos imortais de Antônio Ferreira: “ Floresça, fale, cante, ouça-se e viva/ a portuguesa língua; e, lá onde for,/ senhora vá de si, soberba e altiva.” O que se torna urgente é a preservação carinhosa da língua portuguesa, resguardando-se sempre a sua expressão brasileira, pois ela é nossa e nós somos dela.

Leodegário A. de Azevedo Filho - Professor Titular da UERJ e da UFRJ e Presidente da Academia Brasileira de Filologia.

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A Lusitania liberata ou A Restauração portuguesa em imagens
Análise de algumas das gravuras da obra de António de Sousa de Macedo sobre a Restauração.

Lilian Pestre de Almeida, da Universidade Independente, Lisboa
Em memória de dois latinistas amigos Professor José Correia Pinto e Professor Baltasar Xavier. Para Maria Helena Kopschitz

1. Introdução Num colóquio em que se aborda essencialmente o problema da Língua Portuguesa no universo luso-brasileiro, gostaria de apresentar um texto português do século XVII ainda escrito em latim e que apresenta uma iconografia riquíssima, em grande parte, ainda inédita. Evidentemente, não poderemos aqui analisar todas as imagens. Contentar-nos-emos em apresentar o volume nas suas grandes linhas, mostraremos em slides o conjunto das imagens dentre as quais seleccionaremos apenas duas para leitura mais atenta. Essa exemplificação bastará, cremos, para dar uma ideia do interesse e da riqueza do texto em questão. Em meados do século XVII, é publicado em Londres, num belíssimo volume ilustrado, o texto do Dr. António de Sousa de Macedo intitulado Lusitania liberata. A obra, escrita em latim, defende a causa portuguesa perante o público culto e as cortes estrangeiras. Dois exemplares da obra pertencem a colecções portuguesas: a da Biblioteca Nacional de Lisboa e a do Arquivo da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa.

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O exemplar pertencente à Misericórdia está em muito bom estado e é sobre ele que redigimos o presente texto. No Catálogo das obras impressas no século XVII da Colecção da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa1 , o volume é descrito, sob o nº 369, como se segue: MACEDO, António de Sousa de, 1606 - 1682. Lvsitania liberata ab injusto Castellanorum dominio restitvta, legitimo Principi Serenissimo Ioanni IV. Lusitaniæ, Algarbiorum, Africæ, Arabiæ, Persiæ, Indiæ, Brasiliæ &c. Regi potentissimo; Summo Pontifici, imperio, regibus, rebus-publicis, cæterisq[ue] orbis christiani princibus/ demonstrata per D. Antonium de Sousa de Macedo Lusitanum, aulæ generosum Regij Ordinis Cristo Equitem …; Opvs historice-juridicum, materiarum varietate jacundum; Complectens ultra principale institutum omnes Lusitaniæ notitias (quoad terram, gentem, potentiam & eventus ab orbe condito) notatu digniores nec non plurimas aliarum provincarum; Cum duplici indice altero capitum in principio voluminis altero rerum in fine … - Londini: in officinâ Richardi Heron, 1645. - 3 v. em 1 t.; 2º (30 cm). - Barbosa Machado 1 p. 401, NUC NS 0744931. - V. 1: [3 br.], [27], 467, [1 br.] p. - Na p. [1] o retrato de D. João IV. - Na p. [2] o frontispício alegórico representando o triunfo do dragão da Casa de Bragança sobre o leão de Castela. - Na p. 58 o retrato de D. Afonso Henriques. - Na p. 93 a visão de Ourique. - Na p. 143 o retrato de D. João I. Na p. 165 a árvore genealógica dos descendentes de D. Manuel I. - Grav. John Droeshout. - Notas impr. marginais. - Assin.: [ ]6, A34, A64, A2, B-Z4, Aa-Zz4, Aaa-Nnn4, Ooo2. - V. 2: [2], 540 [i. é 70]p. - Na p. [2] a fénix renascida. - Grav. John Droeshout. - Notas impr. marginais. - Paginação e assin. contínuas; paginado a partir de 471. - Assin.: [ ]2, Ppp-Yyy4, Zzz2. - V. 3: [2], 794 [i. é 252], [22]p. - Na p. [2] gravura alegórica a representar o dragão da Casa de Bragança. - Na p. 560 a sagração de D. João IV. - Na p. 650 o triunfo de D. João IV. - Grav. John Droeshut. - Na p. 708 o dragão e a esfera armilar. - Na p. 764 o escudo das armas reais de Portugal. - Na p. 792 alegoria a D. João IV. - Grav. John Droeshut. - Notas impr. marginais. - Paginação e assin contínuas. paginado a partir de 543. - Assin.: [ ]2, Aaaa-Ssss4, Tttt6, Vvvv-Zzzz4, Aaaaa-Iiiii4, KkkkkNnnnn2. Algumas folhas manchadas e rasgadas e encadernação ras-

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gada e com a pasta posterior solta.- Falta a folha “A2” da primeira sequência.- Pert.: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.- Encadernação portuguesa do século XVIII em pasta de papelão revestida em pele castanha e decorada com dois frisos gravados a seco e lombada decorada com frisos gravados a seco e motivos florais em dourado e o título em dourado.- Cota antiga: Est.13.C.5.L.15.- Documentação iconográfica: estampa 1, 24 e 25. L.A.XVII.0609 1-3 A obra possui importante iconografia, tanto do ponto de vista plástico como histórico, em parte ainda inédita. São 13 gravuras sobre figuras e acontecimentos históricos, antigos e contemporâneos. Das gravuras, apenas 5 foram anteriormente publicadas: as nº 1, nº 3, nº 4, nº 9 e nº 11. A notícia acima, da autoria de Júlio Caio Velloso, faz a listagem não só de toda a série como propõe uma primeira identificação dos temas, sem esgotar-lhes, evidentemente, a significação. Note-se, por um lado, que três gravuras da LL são reproduzidas no próprio Catálogo da Misericórdia de 1994: a estampa 1 com a sagração de D. João IV , a estampa 24 com o triunfo de D. João IV e estampa 25 com a visão de Ourique. Por outro lado, o retrato de D. Afonso Henriques reproduz um modelo iconográfico bastante difundido. A tradição criou um modelo do Fundador : um guerreiro de longas barbas que corresponde, de certa forma, à imagem de Carlos Magno, “l’empereur à la barbe fleurie”, da Chanson de Roland. Enfim, duas outras estampas da LL servem de ilustração ao último número da revista Oceanos com as seguintes legendas: a) na p. 91, D. João coroado pelas figuras alegóricas da Justiça e da Paz (imagem correspondente, no Catálogo da Misericórdia, à sagração de D. João IV) e b) na página 146, os astros auguram bons sucessos ao Portugal restaurado (imagem correspondente, no mesmo Catálogo, à gravura do escudo de Bragança e a esfera armilar). Temos assim cinco gravuras totalmente inéditas e originais. O volume de António de Sousa de Macedo constitui um texto importante no debate sobre a Restauração de Portugal e sustenta a ascensão à coroa do duque de Bragança, apresentado pela propaganda espanhola como um rebelde e usurpador. É materialmente, sem dúvida, o mais belo volume publicado sobre Portugal

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no século XVII. Consideramos aqui as 13 gravuras na ordem do seu aparecimento em confronto com o texto que as acompanham. Assim, em cada gravura buscamos fazer uma leitura articulada da mensagem icónica e linguística. A relação do texto com a imagem é, na maioria das vezes, complementar e ideológica. Diante da polissemia (ou ambiguidade) da imagem, as inscrições em latim ancoram, no espírito do leitor, um determinado significado que se torna, assim, predominante e privilegiado. As inscrições latinas criam uma teia simbólica de significados que buscamos destacar. Observe-se por fim que as gravuras distribuem-se de forma irregular no volume: há seis gravuras no Livro I; uma no Livro II e seis no Livro III. No Livro I, as duas primeiras ligam-se a acontecimentos contemporâneos: o retrato do novo Rei e o frontispício alegórico com a luta dos dois animais simbólicos, o dragão e o leão. Seguem-se os momentos fortes da evolução do reino português até a crise dinástica: Afonso Henriques, Ourique, D. João I, a árvore genealógica de D. Manuel I. No livro II, a imagem da fénix renascida faz a transição entre o passado de Portugal e a Restauração. No livro III, todas as gravuras sem excepção dizem respeito ao novo rei português. 2. A série das gravuras da Lusitania liberata: algumas imagens a título de exemplo. Para dar uma ideia do texto, seleccionamos apenas 4 imagens, as de n° 4, 6, 8 e 11. Gravura nº 4, Livro I, p. 93: Visão de Ourique A gravura, de tamanho menor, representa a visão do primeiro rei de Portugal antes da batalha de Ourique. De todas as gravuras da LL é sem dúvida a mais ingénua do ponto de vista da composição e a mais ideologicamente marcada. Está assinada (Drœshout _culp) no canto inferior esquerdo. Quatro textos a companham: a) o primeiro, no alto da página, glosa de certa forma o título do volume:

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Ad Lusitanima liberatam (à Lusitânia liberada) b) o segundo identifica o personagem ajoelhado no centro e de mãos postas: ALPHONSUS. HENRICVS.I.REX. LVSIT. (Afonso Henriques, 1º Rei da Lusitânia) c) a frase em diagonal estabelece a ligação entre a visão celeste e a cena terrestre, ou seja entre o Cristo crucificado e o Rei de joelhos: uolo in te et in femine tuo imperium mihi stabilire O texto em diagonal corresponde ao discurso divino: é o próprio Cristo que assume o sentido da História de Portugal (quero em ti e na mulher o teu império estabelecer para mim) d) o quarto é o texto da inscrição abaixo da gravura propriamente dita: Quid mea miratur mundus, quid facta meorum: Non ego, non illi, sed, sibi, Christus agit. (Que o mundo admire os meus feitos, quer os feitos dos meus: Não eu, nem eles, mas Cristo age por si mesmo). O último texto corresponde ao discurso atribuído à personagem: o Rei afirma que o que fez e o que fizeram ou farão os seus, foi (e será) por acção divina A passagem retoma e glosa, de certa forma, S. Paulo (II Cor., 4, 4-9): “Por conseguinte, se o nosso evangelho permanece velado, está velado para aqueles que se perdem, para os incrédulos, dos quais o deus deste mundo obscureceu a inteligência, a fim de que não vejam brilhar a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, Senhor”. A imagem é composta por duas cenas: uma visão celeste, no alto à esquerda e uma cena terrestre no primeiro plano à direita. Na visão, o Cristo crucificado surge numa mandorla cercado de nuvens e de onze anjos. Na cena terrestre, o Rei despojado de suas armas (espada e escudo) e de seus ornatos (chapéu de plu-

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mas, “talons rouges” à francesa, gibão de laços), de joelhos e mãos postas, vê a cena divina e ouve a mensagem do Cristo. Observe-se o facto - curioso e deliberado - de o Rei trajar à moda do século XVII: o anacronismo no traje reforça a identidade da figura medieval (D. Afonso Henriques) com o soberano seiscentista. A paisagem, em tonalidade mais apagada, tem cariz simbólico: árvores à direita e ao fundo, à esquerda, um grande monastério. D. Afonso Henriques aparece, em bom número de gravuras, do século XVII e sobretudo do século XVIII, como aquele que manda construir uma igreja em agradecimento ao milagre de Ourique. A visão de Ourique retoma e nacionaliza, de certa forma, a visão de Constantino. A tradição afirma que a Afonso Henriques, antes da batalhe de Ourique, apareceu o Cristo. Não era só a vitória que Cristo prometia ao Rei cristão; era também a protecção do Reino, glórias futuras, a fundação de um império. Desse modo, a independência portuguesa assenta na vontade expressa de Deus e o povo português assume o carácter de povo eleito. No século XIX Herculano refuta o milagre de Ourique a partir das fontes que a ele se referem2 . É no final do século XV, provavelmente através do relato de Vasco Fernandes de Lucena, embaixador de D. João II junto ao papa Inocêncio VIII, que surge a primeira menção directa ao milagre. O aparecimento do Cristo passara a fazer parte integrante da História de Portugal. Depois, no século XVII, com Bernardo de Brito, na Chronica de Cister, a lenda ganha em precisão e prestígio.O monge cisterciense dá-lhe nova importância, conferindo a Portugal e aos seus Reis uma missão divina. Podem, pois, fundamentalmente, considerar-se dois momentos na “história” de Ourique: sua invenção por Fernandes de Lucena e sua reinvenção ao tempo do frade de Alcobaça. Note-se o paralelismo das conjunturas que levaram o seu aparecimento no século XV e sua reinvenção no século XVII. Em ambos os casos, em momento de crise nacional, afirma-se a autonomia de Portugal, o carácter da sua eleição pelo próprio Cristo e a impossibilidade de sujeição do reino lusitano a soberanos estrangeiros. Mas a gravura da LL vai mais além: ela afirma o papel fundamental da mulher no projecto divino. É da mulher, Dona Catarina, esposa do 6º duque de Bragança, que descende o novo Rei. Como se sabe, a duquesa D. Catarina desenvolveu notável actividade no momento da crise dinástica de 1580 para que lhe fosse reconhecido

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o direito ao trono por ser neta de D. Manuel I. Mas só em 1640 seu neto D. João, 8º duque, filho do 7º duque, D. Teodósio, veio a subir ao trono. É esse direito ao trono que defende a LL. A casa de Bragança sobe pois ao trono em 1640 no meio de grande debate jurídico sobre quem é o Rei e quais as suas funções. O Direito exerceu grande influência na defesa da nova dinastia. Impunha-se demonstrar à Europa que, no momento da crise dinástica de 1580, face aos diferentes candidatos ao trono português, a coroa devia, por “benefício da representação”, ter cabido a Dona Catarina, duquesa de Bragança. Como filha do infante D. Duarte, a ela pertencia com justiça o trono de D. Manuel I, levando em conta ainda que a invasão de Filipe II de Espanha, pretendente pelo lado materno, violara os foros autênticos do reino antes da decisão oficial. A partir desta base “ilegal”, o governo dos três Filipes podia ser considerado ilegítimo e não aceite pela consciência dos Portugueses. O oitavo duque de Bragança limitava-se, pois, a exercer o princípio jurídico da pertença à mais antiga casa senhorial do reino. Um grupo de jurisconsultos de 1640, como Francisco Velasco de Gouveia, António Pais Viegas, João Pinto Ribeiro e o nosso António de Sousa de Macedo, defendia assim a tese da “restituição” da coroa a D. João IV. Assim se justificava a designação de Restauração. Uma segunda tese justificaria a Restauração por outro caminho. Baseava-se no princípio da alienação do poder, que permitia aos povos expulsar os soberanos que desrespeitassem o pactum subiectionis acordado com os súbditos. Deste ponto de vista, a soberania não era pertença dos reis, que apenas a exerciam por obra de um pacto natural: detinham assim os Reis o poder in actu, enquanto o povo o recebera in habitu. A doutrina é sustentada pelo jesuíta Francisco Suárez, o célebre Doctor eximius, que ilustra com a sua docência a Universidade de Coimbra. Assim sucedera com os três Reis espanhois, o que tornava legítimo a acção do povo ao sagrar pela força do direito natural a realeza de D. João IV. Como o indica Joaquim Veríssimo Serrão, os diplomatas portugueses tiveram que defender estes princípios nas diferentes missões no estrangeiro. Contra a corrente espanhola que afirmava ter o duque de Bragança cometido um acto de rebeldia e de usurpação, foi preciso sustentar a razão do movimento aclamatório, como a vontade de povos livres que, ao longo de sessenta anos, não haviam perdido o sentimento da sua autonomia. Um tema reiterado impõe-se portanto em Portugal no século

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XVII, que se pode semantizar como profecia, oráculo ou promessa. O tema foi glosado de diferentes modos. Em 1641, António Pais Viegas descreve-o assim:
Este foy aquelle venturoso a quien Cristo baixando del Cielo dio le investidura y corona de um reyno, que dixo escogia para si quando le hablo en la Cruz, honrandole desta manera darle tal Reyno3 .

Resta-nos considerar de mais perto o papel da mulher no projecto divino, tal como aparece na gravura na frase atribuída ao próprio Cristo. Como D. João IV descende de D. Manuel I pelo lado feminino, era necessário exaltar o papel da mulher. A iconografia implica numa paráfrase indirecta ao papel de Maria, como nova Eva, na ordem da Salvação. O mesmo tema reaparecerá, mais tarde, de forma paralela, na oratória de Vieira quando se trata de justificar a substituição de Afonso VI pelo seu irmão D. Pedro e o casamento deste com Dona Maria Francisca Isabel. Essa concepção da História vista como um projecto divino marca todo o século XVII português: ela reaparece de forma transparente na LL nas gravuras sobre os reis que precedem D. João IV. O génio de Fernando Pessoa, em Mensagem, foi, entre outras coisas, dar forma poética a tal acção subterrânea. O facto é facilmente apreendido na apresentação sintética do antepassado do Fundador (ou seja o pai do pai): O conde D. Henrique Todo começo é involuntário. Deus é o agente. O herói a si assiste, vário E inconsciente. À espada em tuas mãos achada Teu olhar desce. “Que farei eu com esta espada?” Ergueste-a, e fez-se. Assim, a força do heroi, instrumento de Deus, nasce do seu abandono confiante à vontade divina. Esta age, apesar do heroi mas também graças ao heroi. O objeto mágico (= a espada) apa-

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rece-lhe nas mãos e o homem aceita ser o instrumento do verdadeiro agente superior. A mesma concepção da acção reaparece em outras gravuras da série. Gravura nº 6, Livro I, p. 165: A árvore genealógica dos descendentes de D. Manuel. Gravura fundamental para se entender as relações dos pretendentes ao trono português no momento da crise de 1580. A representação do Rei português toma de empréstimo o modelo iconográfico da árvore de Jessé, antepassado do Cristo. D. Manuel I, coroa à cabeça e o manto de arminho, apresenta-se deitado por terra. Um braço dobrado sustenta-lhe a cabeça. Do seu baixo ventre ergue-se a árvore dos seus descendentes, todos coroados. Uns levam a coroa ducal, outros a coroa real. Cada descendente leva uma cartela que o identifica: de forma para nós, hoje, talvez paradoxal, os nomes masculinos inscrevemse num círculo e os nomes femininos, num losângulo. A função do texto aqui é particulamente importante, sobretudo didáctica. A legenda abaixo reza: Mascule dum fuerit, seruat me, linea, viuum; Subsidium extinetæ, fœmina, prolis, erit. (Enquanto foi viva a linha masculina serviu-me Extinta, será subsídio meu a feminina) As pequenas legendas, lidas de baixo para cima e da esquerda para a direita, indicam sucessivamente a descendência do Rei: a) na base da árvore: Manuel, 14º Rei da Lusitânia b) na primeira linha: Beatriz, duquesa de Saboia; a Imperatriz Isabel; João III, 15º Rei da Lusitânia; Luís, duque de Beja; o Cardeal D. Henrique, 17º rei da Lusitânia; Eduardo, Duque de Guimarães, todos já mortos; c) na segunda linha, temos: Manuel Filiberto, duque de Saboia (pretendente); Filipe II, rei de Castela (pretendente); D. João, príncipe de Lusitânia (já morto); António, prior do Crato (pretendente); D. Maria, duquesa de Parma (já morta) e D. Catarina, duquesa de Bragança (pretendente); d) no alto: D. Sebastião, 16º rei da Lusitânia (já morto) e Rainunfo, duque de Parma (pretendente). A árvore permite ainda ao leitor atento à sucessão dos reis

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portugueses perceber a sequência que vai do 14º ao 17º soberano: D. Manuel; D. João III; D. Sebastião uma vez que o seu pai, o infante D. João (1537 - 1554), morre antes do seu nascimento; Cardeal D. Henrique. O texto latino retoma uma vez mais a argumentação de exaltação da linha feminina quando se extingue a masculina. O simbolismo aqui confirma a ideia de que uma figura feminina foi (e é) necessária à Salvação. Da mesma forma que, do ponto de vista teológico, Maria é a nova Eva porque permitiu o nascimento do novo Adão, isto é, o Cristo; do ponto de vista político, D. Catarina de Bragança “salvou” Portugal, assegurando o direito da linhagem da terra. Gravura nº 8, Livro III, p. [2]: O dragão de Bragança ao pé da árvore. Talvez a mais bela (e obscura) gravura da série. Ainda não reproduzida em nenhum estudo, ao que sabemos. Sem texto na parte superior, leva apenas a inscrição: In tempus, vigilo, simulans dormire; neg ullum Iam timeo Alcidem, Lysius arma colens. (Até o fim dos tempos, alerta vigio, parecendo dormir; Já não temo Alcides nenhum: Lísio empunha as armas) Ou seja: Como Lísio, em armas, já não temo nenhum Alcides. Vários arquétipos aqui se unem: a lembrança da árvore de Jessé que assegura a permanência da linhagem dos reis portugueses; a árvore do jardim das Hespérides com seus pomos dourados; o dragão ctónico (oriundo da terra) protegendo a promessa de flores e frutos de Portugal. Observe-se que, nessa gravura, o dragão não tem asas e parece um enorme sáurio. O texto refere-se a duas figuras, Alcides e Lisius, como antepassados míticos, respectivamente da Espanha e de Portugal. Como lembra o leitor, Luso aparece várias vezes em Os lusíadas (I, 39; III, 21; VIII, 2): é o filho e/ou companheiro de Baco que, segundo Camões, fixou-se em Portugal. Os eruditos da Renascença relacionavam esse nome com Lusitânia. O geógrafo latino Plínio fala de um filho de Baco chamado Lysias ou Lysa e o y dito grego é transcrito em latim ora como i, ora como u. O pró-

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prio Camões faz alusão à dupla grafia: Esta foi Lusitânia, derivada De Luso ou Lysa, que de Baco antigo Filhos foram, parece, ou companheiros, E nela estão os íncolas primeiros. (Lus., III, 21) Alcides é um dos nomes de Hércules, descendente de Alceu. Camões assim se refere ao herói em diferentes passos do seu poema: III, 137; IV, 49, 80; IX, 57. Os soberanos espanhois se apresentavam como descendentes de Hércules: esse antepassado mítico explica, por exemplo, a série de telas de Zurbarán sobre os feitos de Hércules no grande Salón de los Reinos, criado por Velázquez em 1635. Por temor de Alcides, isto é, da invasão espanhola, Luso identificado com o dragão da casa bragantina, vigia sem dormir, defendendo a árvore da terra. Deitado ao pé da árvore central, como um anel protector, o dragão lembra vagamente um ouroboros (cf. o ouroboros que circunda o retrato do novo rei na gravura 1). A árvore apresenta-se vicejante com folhagem e frutos. À direita, no segundo plano, uma outra árvore esgalhada e seca ergue-se: sugere a linhagem de D. Manuel interrompida ou a morte simbólica da linhagem dos Filipes em terras portuguesas. A enxertia real viceja na nova árvore.A paisagem de terra fértil lembra que o corpo do rei é o corpo da terra. No universo tradicional, a saúde do rei é a saúde da terra e dos produtos da terra. Um mau rei, ou um rei não legítimo, provoca a esterilidade da terra. Por outro lado, a continuidade do sangue real permite compreender a frase “O rei está morto, viva o rei”. A oposição Alcides vs Lísio presente no texto latino reaparece na oposição das árvores seca vs viva. Veja-se sobretudo a importância do arquétipo da árvore nessa gravura. Para a árvore, Mircea Eliade sugere sete interpretações no seu Traité de l’Histoire des religions: elas se articulam todas em torno da ideia do Cosmos vivo em perpétua regenerescência. A árvore põe em contacto os três níveis do cosmos: o subterrâneo pelas raízes que serpenteiam no solo, aprofundando-se; a superfície da terra pelo seu tronco e seus primeiros ramos; as alturas, pelos ramos superiores e o seu cimo que se ergue em direção à luz do sol. Essa árvore teve o seu cimo cortado, símbolo das perdas

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sofridas e a sofrer durante a guerra com Espanha mas o tronco mantém-se forte e verdejante. A árvore do dragão é uma árvore cósmica e de vida, eixo do reino de Portugal. Gravura nº 12, Livro III, Apêndice, p. 764 : O escudo das armas reais de Portugal Duas figuras de anjos ladeiam o escudo português encimado por um capacete militar coroado, tendo por trás o dragão da Casa de Bragança de grandes asas abertas. A legenda latina reza: Lusiadum Regnum cujus vide stemmata Christi, Mittit enim rebus Stemmata quisque suis. (Vê o Reino dos Lusíadas com os estigmas de Cristo Assim leve cada um os estigmas do que é seu) Na página à direita o Capítulo III do Apêndice anuncia: CAPUT III Stemma Lu_itani Scuti declaratur. O texto da inscrição merece certo desenvolvimento. Ele incita o espectador a contemplar o escudo português como objeto sagrado pelas suas marcas (ou estigmas). As armas do rei de Portugal são descritas, do ponto de vista estricto da heráldica, por Anselmo Braamcap Freire da seguinte maneira: De prata, cinco escudetes de azul, postos em cruz e carregados cada um de cinco besantes do campo; bordadura de vermelho carregada de sete castelos de oiro. Coroa de florões fechada de dois meios círculos. Timbre: serpe alada, nascente, de oiro. Não tem letreiro. Vol. I, p. 32) Assim, tecnicamente, na heráldica, não se faz qualquer alusão a estigmas. No entanto, a ideia difundida pelo ensino, até muito recentemente, de que o escudo português carrega as cinco chagas do Cristo vem do facto de que os besantes de campo são vistos como representações das chagas, ideia que sacraliza o país (e o Rei). Essa ideia está já presente na inscrição latina da LL através do emprego reiterado do sintagma “stemmata Christi”. Assim, aconselha a inscrição latina, “leve cada um os estigmas do que é seu”.

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À identidade Portugal=Israel já anteriormente analisada, sobrepõe-se uma outra em que o corpo de Portugal existe simbolicamente à imagem do corpo de Cristo e o povo português torna-se o povo eleito, ungido como o do Cristo e messiânico por excelência no concerto das nações. Mais ainda: como cada uma das quinas (ou escudetes) leva cinco chagas (ou besantes), temos cinco vezes cinco chagas. É o cinco elevado ao quadrado. Graficamente, o cinco se multiplica na disposição dos escudetes em cruz com um ao centro, cada escudete levando, repetimos, cinco besantes. O número cinco tira o seu simbolismo do facto de ser, por um lado, a soma do primeiro número par e do primeiro número ímpar ( 2+3) e, por outro lado, o meio dos nove primeiros números. É signo de união, número nupcial diziam os Pitagóricos; número do centro, da harmonia e do equilíbrio. As cinco chagas do Cristo sacraliza o ensino clássico e o difunde em todo o Ocidente cristão. A harmonia pentagonal dos Pitagóricos deixa a sua marca na arquitectura das catedrais medievais. A estrela de cinco pontas, a flor de cinco pétalas é colocada, no simbolismo hermético, no centro da cruz dos quatro elelemntos: é a quinta-essência. Os dois anjos laterais justificam-se do ponto de vista teológico: eles ladeiam uma representação metafórica do corpo de Cristo que é o corpo de Portugal. A Restauração de 1640 retoma e confirma a disposição do escudo português na charola de Tomar. A recente exposição realizada no Paácio da Ajuda, depois do restauro das escuplturas, sob o nome de “A luz que vem do Norte”, mostra claramente a continuidade da velha tradição portuguesa da sacralidade do escudo nacional. Já em Tomar, no século XVI, o escudo das cinco quinas ergue-se no centro de dois anjos. 3. Conclusão. As gravuras da LL não são obra do Dr. António de Sousa de Macedo: foram encomendadas para ilustrarem a sua argumentação jurídica e muito provavelmente executadas segundo sua orientação e/ou supervisão. Elas fornecem ao leitor uma série de imagens que resumem, anunciam, glosam, difundem ou transfiguram em exemplos que falam à imaginação, figuras e acontecimentos contemporâneos. Por outro lado, as ilustrações criam um eixo diacrónico em que momentos fortes da história de Portugal articulam-se de forma coerente segundo um projeto divino e hu-

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mano. Sobretudo, essas gravuras ajudam a fundar no espírito do público leitor a iconografia do novo rei e da nova casa reinante. Para tal, as imagens lançam mão da retórica característica da época: a Fénix que renasce das cinzas é a imagem do país que renasce da servidão; a vitória das armas portuguesas estava escrita nos astros, etc. Figuras mitológicas como Alcides ou Luso são invocadas para justificar a oposição Espanha vs Portugal. No entanto a própria escolha paradigmática é reveladora. Dos reis de Portugal anteriores a D. João IV são citados apenas três: o fundador do Reino (Afonso Henriques em 2 gravuras), D. João I (o vencedor de Aljubarrota e o iniciador da dinastia de Avis) e D. Manuel com sua numerosa descendência à moda do Jessé bíblico. Observe-se que não há nenhuma imagem de D. Sebastião, nem do Africano, por exemplo, ou de qualquer outro rei português. Várias gravuras implicam uma evidente intertextualidade de cunho religioso: D. Manuel surge como o patriarca Jessé, antepassado do Messias, ou seja, do Esperado. O próprio Cristo dirige-se ao rei fundador estabelecendo uma promessa que passa pela mulher. Esta não é, no texto latino que comenta a gravura, a Virgem Mãe, mas D. Catarina de Bragança, que ganha assim conotações religiosas de nova Eva. A vitória da casa de Bragança reflete a acção divina. Portugal repete o destino de Israel como terra de Deus. O exemplo mais interessante de todos, no caso, é a ideia veiculada pelo texto latino de que Portugal (ao mesmo tempo Rei e Reino) leva, no seu corpo simbólico, os estigmas de Cristo. Por outro lado, os animais míticos, a heráldica e a astrologia fornecem um outro fio de articulação e de leitura, unindo várias ideias: o dragão de Bragança defendeu-se e por ser justa a sua causa, venceu o leão de Castela; a vitória estava escrita no céu e nas estrelas; as armas portuguesas são e serão vitoriosas. Todo o anexo final do volume, consagrado às profecias, reitera o elo entre o fado (que não pode ser revocado porque é promessa divina e Fatum) e o aspecto inquestionável da independência portuguesa. O próprio nome escolhido para o volume - Lusitania liberata e Restauração - implica em saída da servidão e retorno ao estado de direito. Assim a LL fornece a iconografia do novo rei através da sua efígie, sua sagração, seu triunfo sobre o trono móvel (que é o cavalo) e o reconhecimento da sua grandeza pelo monumento final com as trombetas da fama. Os louvores ao novo Rei e à nova casa reinante estão também inscritos de forma imperecível

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nos corações portugueses. Obra de propaganda e de defesa de uma tese, a LL desenvolve a sua argumentação a partir de um determinado universo simbólico ligado ao messianismo português.

Bibliografia: ABREU, Ilda Maria Assunção e Silva Soares de. Simbolismo e ideário político. A educação ideal para o príncipe ideal seiscentista. Dissertação de Mstrado em História Cultural e Política. Universidade Nova de Lisboa, 1997. BUESCU, Ana Isabel. O milagre de Ourique e a História de Portugal de Alexandre Herculano. Lisboa, INIC, 1987. CHEVALIER, Jean et GHEERBRANT, Alain. Dictionnaire des symboles. Édition revue et augmentée. Paris, Laffont, 1982. COLUNGA -TURRADO. Biblia Vulgata. Biblioteca de autores cristianos. Madrid, 1977. ELIADE, Mircea. Traité d’histoire des religions. Paris, Payot, 1964. FREIRE, Anselmo Braamcamp. Brasões da Sala de Sintra. 3 vol. Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1973. GÁLLEGO, Julián. Visión y símbolos en la pintura española del Siglo de Oro. Madrid, Aguilar, 1972. HATHERLY, Ana. A experiência do prodígio. Bases teóricas e antologia de textos-visuais portugueses dos séculos XVII e XVIII. Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1983. HAUCOURT, Geneviève d’ et DURIVAULT, Georges. Le blason. 5e éd. Paris, PUF, 1970. PANOFSKY, Erwin. O significado nas artes visuais. Lisboa, Presença, 1986. SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil (1580 - 1668). Estudos históricos. Lisboa, Ed. Colibri, 1994. SERRÃO, Joel. Dicionário de História de Portugal. Dirigido por. IV tomos. Iniciativas editorias, s/d. VIEGAS, Antonio Pais. Principios del Reyno de portugal. Con vida y hechos de Don Affonso henriques su primero Rey. Lisboa, Off. Paulo Craesbeeck, 1641.

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Notas 1 Catálogo das obras impressas no século XVII. A Colecção da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Lisboa, 1994. Apresentação do Professor Doutor José V. de Pina Martins. Introdução, organização, bibliografia, catalogação e índices por Júlio Caio Velloso. Indicado daqui em diante por LL. 2 Sobre o assunto veja-se BUESCU, Ana Isabel. O milagre de Ourique e a História de Portugal de Alexandre Herculano. Lisboa, INIC, 1987. 3 VIEGAS, Antonio Pais. Principios del Reyno de portugal. Con vida y hechos de Don Affonso henriques su primero Rey. Lisboa, Off. Paulo Craesbeeck, 1641, f. 2vº e 3.

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A Língua Espanhola e a sua função na obra catequética no Brasil
Nicolás Extremera Tapia,da Universidade de Granada
Quando conclui, provisoriamente, as minhas investigações sobre os aspectos da obra de Anchieta que me têm interessado, ficou-me uma interrogação, que quase me atreveria a dizer que são duas: por que razão os jesuítas, començando pelo Padre Anchieta, escrevem parte da sua obra poético-religiosa em espanhol e por que razão os investigadores não exploraram ainda com profundidade esta questão? É possível encontrar uma longa presença da Língua Espanhola nos textos literários jesuíticos desde os primórdios da literatura no Brasil até ao ano de 1698, no qual o P. Luis Vicencio Mamiani, publica o seu? Catecismo da doutrina christãa na lingua brasilica da nação kiriri1 . Para expor o problema nos seus termos mais concretos, darei por boa a relação que Luiz Soares de Lima faz das poesias do manuscrito de Anchieta, o fundador da poesia religiosa no Brasil e mais globalmente da literatura brasileira, “organizadas de acordo com a língua ou as línguas em que foram escritas”.2 a) Composições unilíngües Em Português Em Espanhol Em Tupi Em Latim 12 34 18 2 _ 66

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b) Composições bilíngües Em Português e Espanhol Em Português e Tupi Em Português e Latim 1 2 2 _ 5

c) Composições trilíngües As composições em Português, Espanhol e Tupi são dois autos de catequese, intitulados: “Na Festa de São Lourenço” e “Na Festa do Natal”. Neste corpus poético anchietano podemos observar um elevadíssimo número de composições em espanhol. Cioranescu, sublinha que no “livrinho de várias poesias salta a la vista el peso excepcional de las composiciones en español, casi la mitad del conjunto; son también las mejores y, junto con los párrafos españoles del teatro, las de mejor nivel conceptual”3 . Para sistematizar a nossa exposição distinguiremos primeiro entre teatro e poesia. Dentro desta podemos distinguir também dois sectores relativamente bem diferenciados: a sua produção contrafactística e a sua produção poética plenamente original. Em geral a motivação e a finalidade de toda essa actividade literária são rigorosamente apostólicas. Interessa-me sublinhar a subordinação que, na poesia jesuítica em geral e na de Anchieta em particular, encontramos de qualquer outro elemento de índole formal ou estética a este zelo missionário. A idéia de apostolado, de utilidade para levar a bom fim a sua missão é a predominante em todo o processo de criação poética de Anchieta. Alguma coisa de semelhante acontece em toda a actividade literária dos jesuítas não só no Brasil, em língua tupi, mas também em guaraní e, em geral, em todas as línguas indígenas. O padre Meliá chega mesmo a perguntar-se se não será possível identificar na América “género didáctico” com “género cristão”4 :
Le corpus des écrits en langue guarani du temps des réductions permet de prime abord un jugement sévère à ce sujet; sauf quelques lettres des indiens, tout le reste peut être facilement rangé sous la rubrique du genre didactique; catéchisme, explications du catéchisme,

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sermonnaires, manuels de confession, livres de piété, voire une histoire à intention “édifiante”. Le genre didactique serait-il le genre “chrétien” par excellence?

Para resumir o processo ou os processos que os jesuítas seguiram para exercer o seu apostolado citarei uma tão excelente como breve síntese feita por Alexander Marchant5 . Converter o gentio significava que os índios deviam saber o que era o cristianismo e isso não seria possível sem doutrinação. As dificuldades no caminho de um esforço consciencioso para a conversão eram, no entanto, muito grandes. Os jesuítas e os índios deviam, antes de mais nada, entender-se em sua linguagem, o que significa que os jesuítas tinham de aprender as línguas indígenas ou os índios, o português. Com o contrapeso da dificuldade de linguagem, os jesuítas deviam levar avante a instrução religiosa para preparar os nativos para o batismo. A educação, incluindo o idioma, indispensável à conversão, não podia ser um assunto casual, tratado ao acaso. Nóbrega teve dois caminhos a escolher, indo ao encontro dos índios para educá-los. Um seria ir para as aldeias indígenas e ali instruí-los. Outro, compelir os indígenas da região a se concentrar num determinado ponto onde os jesuítas pudessem ensinar a todos. A espécie de estabelecimento nesse determinado ponto dependia da modalidade da instrução considerada necessária. Para a instrução religiosa geral, usavam casas. Para dar a alguns índios e portugueses uma educação mais completa também sobre outros assuntos, criaram os jesuítas colégios. A mais precisa diferenciação entre casas e colégios está em que casa era para instrução dos não-

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batizados, enquanto o colégio destinavase à educação dos cristãos. Logo depois de desembarcar na Bahia, já Nóbrega reunia numa casa duzentos indígenas, e depois, ao criar o primeiro colégio, mais de vinte submetidos a esse regime de instrução. Os jovens índios eram arrolados nos colégios, destacados dentre os conversos e ali aprendiam ao mesmo tempo o idioma e as idéias - o idioma, para habilitá-los a viver entre os portugueses, as idéias, para prepará-los a ajudar os jesuítas na conversão de outros tantos pagãos. Juntamente com eles estavam alguns jovens portugueses de Portugal e do Brasil, e, dentro de pouco tempo, alguns mestiços. Alguns desses meninos (como eram chamados os jovens dos colégios) obtinham licença para entrar na Companhia. Viviam nos colégios e, estudando verbos com sua Vulgata, devassavam, sob as farfalhantes folhas de palmeira, os intrincados segredos do latim. A ideia de utilidade, de zelo apostólico, reveste-se, por isso, no Brasil, dumas características muito particulares pela natureza peculiar do público, ou melhor, dos públicos, a quem é dirigido o apostolado. Os jesuítas têm além de dois públicos três aulas: a da selva, a das casas, a dos colégios. Para cada uma das aulas escreve-se numa ou em várias línguas Vejamos agora, para tentar definir o papel do espanhol no processo de apostolado, qual é o uso que Anchieta faz de cada uma das línguas em que escreve. No teatro: O uso do tupi exclusivamente nas obras de Anchieta determina o conteúdo, o programa, a forma da instrução. No caso dos Autos, o uso da língua tupi é condicionado por toda uma interrelação com outro código. De aí a sua rebuscada elementaridade. O docere apenas começa a conjugar-se. Entre as composições em Tupi há três autos de catequese, a

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saber: “Dia da Assunção, quando levaram sua imagem à Reritiba”; “Dos mistérios do Rosário de Nossa Senhora” e “Na aldeia de Guaraparim”. “Dia da Assunção, quando levaram sua imagem à Reritiba”, em 103 versos encena uma discussão entre um anjo e um diabo, uma dança e um pequeno discurso dum anjo. Algo maior, com 124 versos e mais complicado é “Dos mistérios do Rosário de Nossa Senhora”. Paula Martins6 descreve-o assim: [...] As meditações do rosário representam alguma cousa de mais abstrato na meditação popular. Instituição existente em várias religiões e baseada num princípio de contagem numérica, verificável , em povos primitivos, na forma de colares de dentes, pedras, sementes, etc., faz parte da Igreja Católica desde 1208 [...]. A intenção principal do rosário era divulgar a saudação angélica simbolizada na “Ave Maria”, repetida e com intervalos, onde um Padre Nosso periodizava a série. Esse tipo de devoção calava no espírito, tanto pela frequência, quanto pelo ritmo da repetição. [...] Os chamados “mistérios” constituíram quadros de valor teatral, com a vantagem de não impressionarem apenas pelo aspecto doloroso da sequência observada na Via Sacra, pois se enriqueceram com mistérios “gozosos” e “gloriosos”, sugestivos e edificantes. As meditações do rosário deviam constituir motivo especialmente aproveitável no teatro catequético, pois ensinavam, através desses quadros, descritivos e objetivos, as virtudes teologais. Num nível sensivelmente superior há que situar “Na aldeia de Guaraparim”. Esta é a mais longa peça do caderno de Anchieta

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escrita exclusivamente em língua tupi 806 versos. “Apresenta uma personagem original para o teatro indígena a Alma- e uma provável cena celestial, indícios de época avançada na catequese. Contém elementos de outras peças, o que sugere arranjo organizado à pressa e fixa a sua composição em data posterior à delas. Fornece dados etnográficos, como o comportamento dos casais, a adoção de muitos nomes, à moda indígena, e indicações geográficas, como a de aldeias não conhecidas na ocumentação da época. Lingüísticamente, revela flexibilidade na linguagem, rapidez no diálogo e vocabulário relativamente mais rico que o das peças tupis anteriores.”7 O uso do tupi e do português As suas composições em Português e Tupi são: “A Dança dos Reis” e “Recebimento, que fizeram os índios de Guaraparim ao Padre Provincial Marçal Beliarte”. A primeira, formal e conceptualmente poderia estar perfeitamente incluída entre as peças mais elementares do grupo anterior: de facto, compõe-se de dez estrofes de cinco versos das quais só uma está en português. É talvez uma das peças mais ingénuas de Anchieta, mais para um público primitivo de índios que não querem ser escravos. A segunda, o “Recebimento, que fizeram os índios de Guaraparim ao Padre Provincial Marçal Beliarte”, é uma peça de 289 versos, cujo conteúdo Martins resume assim “ No porto de Guaraparim o P. Marçal Beliarte é recebido com um discurso de agradecimento pela visita e boas-vindas à aldeia. Na igreja, dois diabos mostram que os habitantes da aldeia são seus adeptos, tornando inútil a visita do Provincial. O Anjo promete guardar o local, expulsa os diabos e um índio quebra-lhes a cabeça. Dançam, em seguida, dez meninos índios.”8 Esta última peça, embora conceptualmente esteja, inclusivemente, a um nível inferior que “Dos mistérios do Rosário de Nossa Senhora” e “Na aldeia de Guaraparim”, representa um passo à frente no processo didáctico, pois dirige-se a um público de índios capaz já de compreender o português.

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O uso do tupi, do português e do espanhol São dois autos de catequese as composições em Português , Espanhol e Tupi, intitulados: “Na Festa de São Lourenço” e “Na Festa do Natal”. A segunda é na realidade uma adaptação reduzida da primeira. “Na Festa de São Lourenço” “é a mais longa e rica peça do caderno de Anchieta. Tanto a extensão do seu texto, quanto o aparato literário e técnico de que se reveste, explicam o êxito a ela atribuído, justificam uma sua adaptação reduzida e atraem, ainda hoje, a atenção dos estudiosos da história e da língua nacional”, entre outras razões porque é “o mais longo documento de tupi da costa até agora conhecido e efetivamente praticado em fins do séc. XVI”.9 O auto começa com uma canção em castelhano. Seguem-se as acostumadas cenas de diálogos entre anjos, santos e demónios em tupi, tupi-português e tupi-castelhano. E no acto 4, por ocasião do enterro de São Lourenço, surgem dois discursos catequéticos, dirigidos sem dúvida a um público já muito instruído na religião cristã. O primeiro em português, em oito estrofes de cinco versos, e o segundo de 278 versos em castelhano, que constituem o núcleo doutrinário desta obra que conclui com uma dança indígena. O uso das línguas peninsulares O uso exclusivo duma, doutra ou de ambas as línguas peninsulares situa-nos já noutro mundo: o mundo do colonizador. Aí habitam os filhos dos colonos bem estabelecidos e os índios selectos aculturados: é a universidade dos colégios do Brasil. Entre as composições em Português há um auto de catequese intitulado “Auto de Santa Ursula” ou, como consta do Caderno, “Quando no Espírito Santo, se recebeu uma relíquia das onze mil Virgens”. Diz o P. Hélio A. Viotti a respeito desta composição: “Da produção dramática anchietana é a peça melhor elaborada. Cheia de vivacidade e bom humor, encerra os ensinamentos de uma longa vida de govêrno e conhecimento dos homens”. “Possui incontestável dramaticidade e reflete bem, não apenas a formação mental e espiritual do autor, mas igualmente o nível intelectualmente mais refinado do auditório, a que foi apresentada, muito diverso do ambiente das aldeias, a que foi destinado, por exemplo, o Auto de S. Lourenço.”10

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Seus atores parecem ter sido estudantes da escola dos Jesuítas e membros da Confraria de S. Mauricio, sediada na igreja de Santiago, em cujo adro se representou a parte principal do auto.”1 (p. 99) Entre as composições em Espanhol há um auto de catequese intitulado “Na Visitação de Santa Isabel”. [...] é a última peça que Anchieta escreveu, toda em castelhano, cerca de um mês antes de sua morte [...] É um auto completamente diferente dos outros, mais próximo dos de Gil Vicente: o diálogo é mais longo e a parte do espetáculo menor. Naturalmente teve em vista o auditório e a conjuntura especial para o qual o escrevia.12 O uso do latim. O uso do latim era um exercício imposto aos eleitos para o apostolado. Diz o Padre António Blazquez, numa carta datada da Bahia em 1564: “O estudo nunca nesta terra andou com tanto fervor (entendendo-se entre os nossos Padres e Irmãos, que a gente de fóra pouco se dá disso). Tem os nossos as suas conclusões nos sabbados á tarde e a ellas se acham presentes o Padre Provincial com outros Padres. No outro sabbado veiu o Bisbo vel-os e tambem argumentar com elles, e, pela bondade do Senhor, para estudantes Brasis fazem-n’o muito bem. São por todos, entre Padres e Irmãos, onze, e porque a todos se désse o tempo necessario para os seus estudos, lê o irmão Luis Carvalho pela manhã uma hora de poesia do livro 2º da Eneida aos mais adiantados, posto que tenha accidentes costumados; mas a caridade e necessidade fazem com que tome em seus hombros esta carga ainda que seja tanto á seu custo e trabalho, esperando que V. Revma., vendo esta falta, se resolva a mandar-nos dessa provincia alguns Irmãos latinos que ajudem aquelles que pouco podem”.13 O uso do latim escapa de momento ao nosso interesse.

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Na Poesia Vou-me limitar dentro da poesia à actividade contrafactística, talvez a mais elucidativa do que pretendemos dizer. Para Anchieta tanto vale a poesia tradicional, como a poesia culta, a poesia marginal, ou as danças; tudo pode ser usado para a sua missão apostólica. Anchieta compõe os seus poemas à margem de qualquer pretensão artística; isso, evidentemente, não quer dizer que os seus poemas não sejam apreciáveis sob uma perspectiva estética, mas a sua beleza não provém duma intencionalidade prévia. Em geral, os poetas divinizadores apropriam-se das composições mais conhecidas do seu tempo. Isto é válido na Europa, mas não o parece tanto entre os índios brasileiros que, naturalmente, não conheciam nenhuma das composições. Em trabalhos anteriores distinguíamos entre as composições que têm como únicos destinatários os índios e as dirigidas aos colonos. No primeiro caso, quando a cantiga é exclusivamente dirigida ao público indígena que não pode em caso nenhum estabelecer relações entre o contrafactum e o seu modelo profano, os jesuítas utilizavam não tanto cantares populares, mas outros pouco conhecidos, embora utilizados nas suas escolas, nos quais o elemento aproveitável e aproveitado é a música. No segundo caso, tratava-se, em geral, de composições em espanhol ou português que têm como origem uma cantiga muito popular na Península porque se dirigem, como dissemos, a um público de colonos ou a um público de colegiais da Companhia, bem filhos de colonos ou índios, que podem estabelecer pontos de contacto emocionais entre o pensamento exposto no poema profano e a significação religiosa do contrafactum.. Isto acontece, como dissemos, naqueles contrafacta de Anchieta cuja origem temos podido determinar. Refiro-me aos poemas intitulados: Cantiga por o Sen Ventura a Nosso Senhor (Tupã ci porãgete) (25), Cantiga por el sin Ventura (yanderubete Iesu) (26), Venid a suspirar con Jesús amado (12v), El que muere en el pecado (18v) cujo original resõa também em alguns fragmentos dos Autos: Na Vila de Vitória e da Visitação, Mira Nero (94), Los que muertos veneramos (95v), cujo metro está presente em outras composições, Já furtarão ao moleiro o pelote domingueiro (158v), Polo Moleiro (Pitãgi morauçubara) (169v).

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Resumindo sucintamente o que já foi exposto: Os poemas podem-se reunir em dois grupos principais: os dirigidos aos índios que não guardam relação com o poema original, que são contrafacções incompletas, e os dirigidos a um público de colonos ou de colegiais, que são contrafacções completas ou quase completas. Entre ambos os grupos situa-se um terceiro no qual o poema original sofre diferentes tratamentos, de acordo com o público ao qual vai dirigido. Ao primeiro grupo (os dirigidos aos índios, que não guardam relação com o poema original e que são contrafacções incompletas) pertencem: Cantiga por o Sen Ventura a Nosso Senhor (Tupã ci porãgete), Cantiga por el sin Ventura (yanderubete Iesu). Ao segundo grupo pertencem os poemas Venid a suspirar, El que muere en el pecado, Mira Nero e Los que muertos veneramos.). Ao terceiro grupo (no qual o poema original sofre diferentes tratamentos segundo o público ao qual vai dirigido) pertencem: Já furtarão ao moleiro o pelote domingueiro, Polo Moleiro (Pitãgi morauçubara); baseados nas glosas ao tema: Já furtaram ao Moleyro Seu Pelote domingueiro obra de três autores, a primeira sem especificar e as seguintes de António Leitão, Luís Brochado e João de Couto respectivamente. Até aqui apresentámos um breve resumo das conclusões que, até agora, à luz dos originais encontrados, nos tem sido possível estabelecer. Mas não quero concluir esta contribuição sem extrapolar estas conclusões a outros poemas cuja origem não conseguimos localizar. Refiro-me, em princípio, àqueles que começam: Do Santíssimo Sacramento (O que pão, o que comida) (9), S. Tomedemira O Dios infinito) (13), Cantiga & querendo o alto Deus (yande canhemira yande rauçupa) (25v), Cantiga polo tom de Quien tiene vida en el cielo (Taçori yande raira) (74v), Sobre el ciego amor (El buen Jesús me prendió) (94v), Outra pola mesma toada. Esta se cantou estando S. Lourenço nas grelhas (Por Jesú mi salvador) (95), Por graci gco gte (Quando la muerte quería) (131), Por graci gco gte (Eua yandeci ipi) (147v). Ao primeiro grupo, (os dirigidos aos índios, que não guardam relação com o poema original e que são contrafacções incomple-

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tas) pertenceriam: Cantiga & querendo o alto Deus (yande canhemira yande rauçupa) (25v), Cantiga polo tom de Quien tiene vida en el cielo (Taçori yande raira) (74v); ambos poemas, em tupi, têm como referentes declarados dois poemas: Querendo o alto Deus e Quien tiene vida en el cielo que têm toda a feição de serem canções religiosas cantadas nos Colégios da Companhia. Não é preciso dizer que não encontramos, e não temos demasiadas esperanças de encontrar os originais. Por graci gco gte (Quando la muerte quería) (131), Por graci gco gte (Eua yandeci ipi) (147v) pertenceriam ao terceiro grupo, no qual o poema original sofre diferentes tratamentos segundo o público ao qual se dirige. Encontramos assim um tão curioso quanto involuntário paralelismo com os poemas baseados no Moleiro, (que também pertencem ao terceiro grupo dos que têm referente conhecido). No segundo grupo, (poemas dirigidos a um público de colonos y colegiales, contrafacções completas ou quase completas) poderiamos incluir: Ó que pão, ó que comida, um precioso hino à Eucaristia, cujo referente provável é um chapirón que Diego Sánchez de Badajoz traduz para o divino14 : Otro cantar para los muchachos cantar y bailar en el mismo día (Corpus) al ritmo del chapirón. Dios del cielo en pan se muestra Oh que divino manjar S. Tomedemira (O Dios infinito) (13), cujo referente talvez seja preciso procurar, (embora não o tenha encontrado) nas canções que cantavam os romeiros que visitavam a igreja de Sto Tomé, perto de Coimbra, nos anos em que Anchieta aí estudava. Sobre el ciego amor (El buen Jesús me prendió) (94v), y Outra pola mesma toada. Esta se cantou estando S. Lourenço nas grelhas (Por Jesú mi salvador) (95), são dois poemas em espanhol, dirigidos também provavelmente a um público de colonos, cujo poema original profano não conseguimos encontrar, embora eu não tenha ainda perdido a esperança. Até aqui, graças aos originais profanos, pudemos estabelecer uma série de hipóteses em volta da intencionalidade dos contrafacta e do seu processo de produção. Essas hipóteses, como no caso do teatro, também polarizam em dois blocos: línguas peninsulares/línguas indígenas as implicações que tem o uso duma determinada

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língua. E contribuem complementarmente com a obra dramática, para definir qual é o papel do espanhol na estratégia evangelizadora da Companhia de Jesus no Brasil nos primeiros séculos da colónia. Observando o conceito de utilitas desde uma outra perspectiva, complementar àquela que até agora deduzimos dos processos de contrafacção de Anchieta, verificamos que dos contrafacta que têm o seu Destino em tupi (6), procedem do espanhol (4) procedem do português (2). Dos quatro que procedem do espanhol, um, incluído no Auto de S. Lorenzo e não recolhido por Cardoso, é um aleluya primitivo e procede duma clara canção religiosa; dois são canções, ou melhor orações em tupí, uma a Jesús e outra a Maria, procedentes duma cancão áulica de tema clássico, de pouca difusão, limitada provavelmente aos seminários da Companhia em Portugal. Só uma, Por graci gco gte., que partilha o seu destino com outro poema em espanhol, parece proceder dum romance laico e popular, talvez pertencente ao ciclo de Los Infantes de Lara. Dos dois que procedem do português, um é uma canção em louvor de Maria procedente de outra, Querendo o alto Deus, provavelmente limitada aos seminários da Companhia em Portugal. A outra, que tem um paralelismo com o caso anterior de Por graci gco gte porque partilha o seu destino com outro poema em português, intitula-se polo Moleiro e procede dum poema laico e popular. Quer dizer que nesse total de 6 poemas com destino em tupi, encontramos dois cujos modelos espanhol e português producem, além do resultado em tupi, outro na língua de origem e curiosamente ambos são de tema e feição populares e laicos. Assim podemos afirmar que todas as canções com destino exclusivo em tupi têm como modelo também exclusivo canções religiosas ou áulico-religiosas conhecidas no ámbito da Companhia. Destino em português (2) procedem do português (2) Um poema com destino em português é polo Moleiro, que acabamos de descrever. É uma alegoria dirigida à comunidade portuguesa entre quem a música devia ser muito popular: Lem-

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bremos que há três versões populares do mesmo tema e a sua frequência de uso levou possivelmente a Anchieta a criar outra versão em tupi para que os índios aproveitassem a música que, sem dúvida, pela sua frequência de uso conheciam. A outra, um canto à Eucaristia, dirigida também à comunidade portuguesa, é mais culta, de origem profana. Refiro-me a “O que pão...” da qual falarei mais tarde. Destino em espanhol Pelo contrário, do resto, as seis que têm a sua origem e o seu destino exclusivamente em espanhol, (repare-se no rotundamente revelador das cifras) são na sua totalidade canções populares de amplíssima difusão na unidade cultural peninsular. Das outras duas, uma tem a sua origem numa canção de romeiros a Sto Tomé de Mira e a outra num romance cavalheiresco, recuperando essa qualidade na versão espanhola, embora a perca na tupi. A conclusão imediata é que, tanto na origem como no destino a maior parte dos contrafacta identificados total ou parcialmente são em espanhol e de origem e conteúdo cultos. Resumindo: Todas as canções com destino exclusivo em tupi (4) têm como modelo também exclusivo canções religiosas ou áulico-religiosas conhecidas no âmbito da Companhia. Todas as canções com destino exclusivo em português (2) são de origem popular dirigidas à comunidade portuguesa onde deviam ser muito populares música e letra. A imensa maioria (7) dos contrafacta identificados total ou parcialmente são em espanhol e de origem e conteúdo cultos. A conclusão mais evidente que podemos tirar da obra lírica de Anchieta, seja esta contrafactística ou não, é que as composições em espanhol predominam em quantidade, em popularidade e em qualidade tanto na origem como no destino. A qualidade destas composições em espanhol em relação ao resto da produção literária de Anchieta seria um elemento distintivo duma finalidade superior no plano didáctico. Esta actividade situar-se-ia no ponto culminante da instrução catequética destinada aos filhos dos colonos e aos índios que teriam merecido aceder a uma formação conducente ao ingresso nos

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colégios da Companhia. Deste modo deveremos entender a carta de Nóbrega ao Padre Mestre Simão datada em 1552: [...] Já tenho escripto por vezes a Vossa Reverendissima como nestas partes pretendiamos criar meninos de Gentio, por ser elle muito, e nós poucos, e sabermoslhe mal fallar em sua lingua, e elles de tantos mil annos criados e habituados em perversos costumes, e por este nos parecer meio tão necessario á conversão do Gentio: trabalhamos por dar principio a casas, que fiquem para emquanto o mundo durar, vendo que na India isso mesmo se pretende, e em outras partes muitos collegios, em que se criem soldados para Christo.15 Dizíamos anteriormente que os jesuítas têm, além de dois públicos, três aulas: a da selva, a das casas, a dos colégios. Para cada uma das aulas escrevem em uma ou várias línguas. Era pois nestes colégios, onde se criavam soldados para Cristo, onde apreendiam juntamente com a doutrina o uso das línguas peninsulares: o português, ensinado também nas casas, e o espanhol, mais limitado aos futuros soldados de Cristo. O espanhol cumpria assim uma função catequética superior e pretendia ampliar as possibilidades de apostolado dos novos irmãos. Uma parte da sua educação, provavelmente a última, antes da latina, complementar das línguas peninsulares, mas com uma finalidade menos prática. A estes estudiosos do latim parece destinada toda a obra latina de Anchieta e especialmente os poemas catequéticos. Poemas catequéticos: Dentro de toda esta actividade literária há um subgénero, amplamente practicado por Anchieta e pela Companhia, que são os chamados poemas catequéticos, que desempenhavam uma função particularmente específica no processo de educação dos futuros sacerdotes. Estes poemas catequéticos de Anchieta tive-

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ram uma larguíssima difusão nos estádios superiores da catequese, ilustrando os temas centrais do dogma cristão e associados logicamente aos catecismos. Os primeiros catecismos que circularam pelo Brasil foram primeiro o fruto dum processo de tradução iniciado já em 1549, ano em que os jesuítas chegaram ao Brasil. Afirma o Padre Meliá: Il est normal que les premières traductions qu’on fait dans une langue étrangère soient à revoir par la suite. Les prières traduites par le Père Navarro furent bientôt améliorées par le Frère Antonio Rodrigues, qui dit-on parlait la langue tupi mieux que les indiens eux-mêmes. Vers 1574, Leonardo do Vale, qui était lecteur de langue tupi au collège de Bahia, avait écrit une “Doutrina na Língua do Brasil”, traduction et adaptation de celle, très fameuse à cette époque lá au Portugal, du Père Marcos Jorge. Auparavant on parle déjà en 1565 d’un catéchisme en forme de dialogue du Père Braz Lourenço, qui servait pour la catéchèse des indiens. Dialogues sur la doctrine chrétienne, chants, explications de l’évangile...étaient la forme ordinaire de cette prèmiere catéchèse en langue brésilienne. De cette période rien n’a été imprimé; le premier catéchisme complet est celui de Araujo, qui est déjà l’aboutissement de longues annés d’efforts et d’essais souvent anonymes.16 Este catecismo de Araújo, publicado em 1618,17 e reeditado em 1686,18 é o resultado dos esforços colectivos para adaptar o catecismo “que nesta lingoa antigamente escreverão alguns padres doctos e bons lingoas” às novas circunstâncias. Inclui, no começo umas Cantigas na lingoa, pera os mininos da Sancta Doctrina. Feitas pello Padre Christouão Valente Theologo, & mestre da lingoa, estão escritas em tupi e dedicadas aos temas principais da lírica catequética anchietana e em geral dos jesuítas. São as tituladas: Do nome santissimo de IESV, Ovtra em louvor da Virgem,

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Ovtra do Anio da Guarda, Ovtra do Santissimo Sacramento. Naturalmente o tema do Santíssimo Sacramento é o assunto fulcral da religião cristã e pode perfeitamente servir de exemplo para aquilo que estamos a dizer. Da sua continuidade no labor catequética dirigida aos colegiais da ideia o facto de que Anchieta utilizou esta canção para contrafaze-la, partindo duma versão a lo divino em espanhol. Refiro-me a Ó que pão, ó que comida citado supra, no grupo dos poemas dirigidos a um público de colonos e de colegiais, (contrafacções completas ou quase completas). O seu referente provável é um chapirón, dança de provável origem portuguesa, redigida em espanhol e que Diego Sánchez de Badajoz traduziu para o divino19 : Otro cantar para los muchachos cantar y bailar en el mismo día (Corpus) al ritmo del chapirón. Dios del cielo en pan se muestra Oh que divino manjar Anchieta, além de o contrafazer para o português, tradu-lo, a partir da sua própria versão, para o latim.20 DIVINUM PANEM Divinum panem, caelestia pocula nobis Sacra reis omni porrigit ara die21 . O seguinte catecismo que se publica no Brasil é obra do Padre P. Luis Vicencio Mamiani: Catecismo / da Doutrina / Christãa / na Lingua Brasilica / da Nação Kiriri, (bilingue português kiriri), publicado em 1698, inclui antes do prólogo umas CANTIGAS NA LINGUA KIRIRI22 para cantarem os Meninos da Doutrina com a versão em versos Castelhanos do mesmo metro.23 São as tituladas: Do nome Santissimo de IESVS, Em louvor da Virgem Santissima Mãy de Deos, Do Santissimo Sacramento da Eucharistiae paralela e curiosamente outra em latim, O Stabat Mater dolorosa, vertido na Lingua Kiriri Sobre nossa Senhora ao pé da Cruz. Isto dá-nos ideia da continuidade do espanhol como língua franca de catequese pois, juntamente com o latim, está em plena vigencia ainda nos finais do século XVII. Tanto o espanhol quanto o português serviram simultaneamente de línguas francas entre os colegiais e padres e irmãos da Companhia na America

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hispana. Não devemos esquecer que a primeira missão dos jesuítas no Paraguay se fez pelos Padres Juan Saloni, catalão, Tomás Field, irlandês, e Manuel Ortega, português. Chegaram a Asunción a 11 de agosto 1583. Quand les Pères Saloni, Field et Ortega sortirent du Brésil en 1586, le travail linguistique que les jésuites de cette province avaient accompli était considérable. Le principe d’après lequel la catéchèse doit être faite dans la langue des indiens y étsit pleinement acquis. Le tupi se présentant comme la lingoa geral, parlée et comprise par la plupart des indiens avec lesquels les jésuites étaient entrés en contact, on porta tous les efforts sur cette langue.24 Sobre esta missão, o padre Meliá revela-nos o seguinte: Un motif dórdre linguistique est à l’origine de cette mission. Le Père Barzana de la province du Pérou était en train d’apprendre aux Pères récemment arrivés du Brésil les langues lule et tonocote, qui devaient les rendre aptes pour les ministères auprès des indiens de la région, quand il tomba malade et ne put poursuivre sa tâche; or ces Pères connaissaient assez bien la langue dite générale du Brésil, c’est-à-dire le tupi, peu différente de la langue guarani parlée par le groupe ethnique le plus nombreux du Paraguay; ici donc la langue ne leur serait pas un obstacle. Pendant quelques années les Pères Ortega et Field surtout, le Père Saloni restant davantage dans la ville de Asunción, parcourront les forêts paraguayennes, et en même temps qu’ils visitent les bourgades des espagnols jusqu’a Ciudad Real et Villarrica, aujourd’hui territoire du Brésil, ils essaient

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de convertir les indiens que habitent ces contrées et instruisent ceux qui, bien que baptisés en hâte par un prêtre de passage, ignorent tout de la religion chrétienne. Il n’y a pas de doute qu’ils employaient la langue indienne pour la prédication et la catéchèse.25 Assim - em palavras de Arno Alvarez Kern26 - “Respectivamente um português, um catalão e um irlandês [...] representam a universalidade de nações que caracterizou à Companhia de Jesus, bem como posteriormente a história das Missões Guaranis.”
Notas 1 Serafim Leite, no tomo V, da sua História da Companhia de Jesus no Brasil, afirma: “A esta Aldeia andam unidas a Gramática e o Catecismo Kiriri, feitos pelo P. João de Barros, mas que nesta Aldeia estudou e preparou para a imprensa o P. Mamiani, sob cujo nome correm mundo”. p. 326. 2 Lima, Luiz Soares de - “Anchieta: o Poliglota, o Gramático e o Escritor nos Nossos Começos”, in VV.AA. - “Estudos universitários de língua e literatura. Homenagem ao Prof. Dr. Leodegário A. de Azevedo Filho. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1993. 267-289 (pp. 268 y 269) 3 Cioranescu, A. José de Anchieta, escritor. La Laguna, Instituto de Estudios Canarios, 1987. p. 13. 4 Vid. Meliá, Bartolomeu, S. J. La création d’un langage chrétien dans les réductions des guarani au Paraguay I Thèse pour le doctorat en sciences religieuses. Université de Strasbourg. Faculté de Théologie, 1969. p. 118. 5 Marchant, Alexander, 1912- Do escambo à escravidão: as relações econômicas de portugueses e índios na colonização do Brasil, 1500-1580. Tradução de Carlos Lacerda.- 2. edição.- São Paulo: Ed. Nacional; [Brasília]: INL, 1980. p. 82 6 José de Anchieta , S.J. Poesias . Manuscrito do séc XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrição, traduções e notas de M. de L. de Paula Martins. São Paulo, 1594. p. 583. 7 Ibidem. p. 603. 8 Ibidem. p. 665. 9 Ibidem. p. 681. 10 Cit pelo P. Armando Cardoso, in P. Joseph de Anchieta S.J. Teatro de Anchieta, Obras Completas 3. volume. Originais acompanhados de tradução versificada, introdução e notas pelo P.....São Paulo, Edições Loyola, 1977. pp. 98-99 11 Vid. P. Joseph de Anchieta S.J. Teatro de Anchieta, Obras Com-

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pletas 3. volume. Originais acompanhados de tradução versificada, introdução e notas pelo P. Armando Cardoso. op. cit. p. 99 12 Ibidem. p. 107. 13 Cartas avulsas. 1550-1568 / Azpilcueta Navarro e outros. Belo Horizonte. Itatiaia. São Paulo. Editora Universidade de São Paulo, 1988. Carta do Padre Antonio Blasquez do Collegio da Bahia de Todos os Santos do Brasil Para Portugal e Escripta a 13 de Setembro de 1564. p. 454. Acrescenta em nota: “Esse irmão Luis Carvalho veiu em 63 com o Pe. Quiricio Caxa e os irmãos Balthazar Alvares e Sebastião de Pina (Carta LI) por doente, e não logrando saude, tornou a Portugal em 65. Era “latino” como diziam os padres (Carta LV) pois que lia, ou era lente, dando aula, de poesia, do 2º. livro da “Eneida”, Vergilio, no Brasil, em 1564.” p. 459 14 Recopilación en metro, 156. 15 Vid. Nóbrega, Manoel da. Cartas do Brasil, 1549-1560. Belo Horizonte, Itatiaia, São Paulo,. Editora da Universidade de São Paulo, 1988. p. 137 16 Vid. Meliá, Bartolomeu, S. J. La création d’un langage chrétien dans les réductions des guarani au Paraguay I. op. cit. p. 39. 17 ARAÚJO, António de - CATECISMO / NA LINGOA / BRASILICA, NO QVAL / SE CONTEM A SVMMA / DA DOCTRINA CHRIS-/ tã. Com tudo o que pertence aos / Mysterios de nossa sancta Fè / & bõs custumes. / Composto a modo de Dialogos por Padres / Doctos, & bons lingoas da Compa- / nhia de IESV. / Agora nouamente concertado, orde- / nado, & acrescentado pello Padre Antonio d’ Araujo Theologo / & lingoa da mesma / Companhia. / [...] / Em Lisboa por Pedro Crasbeeck, ãno 1618, 18 ARAÚJO, António de - CATECISMO / BRASILICO / Da Doutrina Cristãa, / Com o Ceremonial dos Sacramentos, & / mais actos Parochiaes. / COMPOSTO / Por Padres Doutos da Companhia de / JESUS, / Aperfeiçoado & dado a luz / Pelo Padre ANTONIO DE ARAUJO / da mesma Companhia. / Emendado nesta segunda impressão / Pelo P.BERTHOLAMEU DE LEAM / da mesma Companhia. / LISBOA. / Na officina de MIGUEL DESLANDES / M. DC. LXXXVI, 19 Recopilación en metro, 156. 20 Anchieta, Pe Joseph de, S.J. Lírica Portuguesa e Tupi. Obras Completas-. volume-I. Originais em Português e em Tupi Acompanhado de Tradução Versificada, introdução e anotações ao Texto pelo Pe. Armando Cardoso, SJ. São Paulo, Edições Loyola, 1984. p. 102 “[...] A estima que A. lhe votava o levou a traduzir ele próprio esta sua composição em latim culto, parafraseando-a ao lado daqueles hinos (cfr. Poemas Eucarísticos). Particular significativo: é a única poesia portuguesa avulsa que se encontra em autógrafo. [...] Sua estrofe e sistema de rimas são singulares, talvez invenção de A., pois ele os reproduz no Poemeto da Assunção em ritmos medievais latinos (cfr. Poemas Eucarísticos).” 21 Anchieta, P. Joseph de S.J. Poemas Eucarísticos e Outros. De Euca-

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ristia et aliis. Poemata Varia. Obras Completas, 2. Volume. Originais Latinos, Acompanhados de Tradução Portuguesa, Introdução e Notas Pelo Padre Armando Cardoso S.J. São Paulo, Edições Loyola, 1975. (pp. 74-85). 22 Vid. FR. BERNARDO DE NANTES, Capuchinho frances. Missionário Apostólico no Brasil. KATECISMO / INDICO / DA LINGVA KARIRIS, / ACRESCENTADO DE VARIAS / Praticas doutrinaes, & MORAES ADAPTA_ / das ao genio, & capacidade dos / Indios do Brasil, / PELO PADRE / Fr. BERNARDO DE NANTES, / Capuchinho, Prégador, & Missionario / Apostolico; / OFFERECIDO / AO MUY ALTO, E MUY PODEROSO REY / DE PORTUGAL / DOM JOAÕ V. / S.N. QUE DEOS GUARDE, / LISBOA, / Na Officina de VALENTIM DA COSTA / Deslandes, Impressor de Sua Magestade. / M.DCCIX. No prólogo Ao Leytor diz: “Ver o titulo deste katecismo, poderà ser , Amigo Leytor, te pareça logo ser obra inutil à vista de outro katecismo na mesma lingua, qual poucos annos ha sahio a luz, porêm se quizeres tomar o trabalho de combinar hum com o outro, mudaràs logo o parecer; porque veràs que como ha em Europa nações de differentes linguas, com terem o mesmo nome, assim tambem os ha no novo Orbe, como são os Kariris do Rio de S. Francisco no Brasil, chamados Dzubucua, que são estes, cuja lingua he tão differente da dos Kariris chamados Kippea, que são os para quem se compoz o outro Katecismo, como a lingua Portugueza o he da Castelhana...” Este catecismo também traz uma cantiga sobre o Santíssimo Sacramento Pelo Padre Fr. Martinho de Nantes conditor alme syderum. Capuchinho. Iheclite no Padzuârè Martinho Capuchinho. da qual copiamos a primeira estrofe[pp.152-167] Cântico Sobre o Mysterio da Encarnação do Verbo Divino, Igreja, I Cantemos, Christãos, alegres A Deos Filho mil louvores, O qual de Maria Virgem Por nòs nasce, & se fez homem.
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Kamara espiritval tvpam, mo jvviclite nhinho do dse ho mo katsea, mo wo kabamara I Dokamara Christãos han y, Inhûra túpam diwjli o dsého do quemâplea Mo imuddhu Virgem Maria.

Sobre Mamiani escreve Inocéncio: “Segundo uma das interessantes notas que acompanham a descripção das obras d’este auctor na Bibliographia da lingua tupi ou guarani, pelo sr. Valle Cabral 9 p. 14), o padre Luiz Vicencio Mamiani della Rovere pertencia a uma illustre familia

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de Pesaro, nascêra a 20 de janeiro de 1620 e entrára na companhia de Jesus da provincia de Veneza a 11 de abril de 1668. Depois de concluidos os estudos, partira para o Brazil, e ahi se entregára a conversão dos povos selvagens e particularmente dos denominados kiriris. Constava que ainda vivia em Roma por 1725.” 24 Vid. Meliá, Bartolomeu, s. J. La création d’un langage chrétien dans les réductions des guarani au Paraguay I op. cit. p. 38 25 Vid. Meliá, Bartolomeu, s. J. La création d’un langage chrétien dans les réductions des guarani au Paraguay. I pp. cit. pp. 36-37. 26 Vid. Arno Alvarez Kern. Ações evangelizadoras e culturais de missionários portugueses e espanhóis no Rio da Prata. In Actas do Congresso Internacional de História Missionação Portuguesa e Encontro de Culturas. Vol. II. Braga, 1993. p. 476.

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O primitivismo literário de influência brasileira na poesia de Angola
Salvato Trigo, da Universidade Fernando Pessoa
As relações entre Angola e o Brasil começaram por ser pautadas, numa primeira fase, pelo negócio negreiro, especialmente baseado em arimos diversos, discretamente ligados a alguns missionários em sintonia com os movimentos brasileiros de defesa da isenção do índio do trabalho escravo, a que outros missionários aí emprestavam a sua voz. A partir de 15 de agosto de 1648, essas relações passaram a ter uma importante vertente política, militar e religiosa, criando uma considerável dependência de Angola relativamente ao Brasil, pelo menos até ao célebre governo de Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, iniciado em 1764. Na verdade, a intervenção da armada de Salvador Correia de Sá, (da família do famoso Estácio de Sá), vinda do Rio de Janeiro, para libertar Angola dos Holandeses que a dominavam, desde 1641, permitiu que a Fortaleza de S. Miguel de Loanda fosse resgatada, restabelecendo-se, assim, a soberania portuguesa nessa colónia, em 15 de Agosto de 1648. A coroa de Lisboa, enfraquecida aqui pela resistência ao domínio filipino, passou, por assim dizer, para o Brasil a responsabilidade de intervir em Angola e, assim, resolver um problema à época crucial para a já próspera economia brasileira do ciclo do engenho, qual era a necessidade de permanente abastecimento de mão-de-obra escrava. Esse abastecimento, prejudicado pelo domínio holandês, era, sem dúvida, vital para o Brasil e, por extensão, para Portugal. Não vamos, por não estar nos horizontes deste estudo, ocupar-nos destas questões mais históricas do relacionamento de Angola com o Brasil. Para os fins que perseguimos importa-nos sobretudo rastrear a influência política e cultural que o Brasil terá

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exercido sobre Angola a partir desses meados do séc. XVII até ao último quartel do séc. XVIII, a que se seguiu um interregno de quase meio século ate à Lei Áurea. Tal influência política e cultural traduzia-se, designadamente, pela interferência directa do Brasil na nomeação de governadores - gerais e de responsáveis militares, mas também na subordinação de algumas terras de Angola à autoridade religiosa de certas cidades brasileiras. Se, até ao último quartel do séc. XVIII, as relações angolano-brasileiras tinham uma base essencial e exclusivamente económica que, como se disse, o tráfico negreiro sustentava, a partir daí entra-se na fase de um relacionamento também cultural, na mais lata acepção do conceito de cultura. Na realidade, parece ter sido com os exilados da Inconfidência Mineira, expulsos para Angola, que irá dar-se início a um interesse mais cultural pelo Brasil, o que, aliás, Gregório de Matos, o satírico poeta baiano, também ele exilado no séc. XVII, havia tentado sem grande sucesso. Desta feita, porém, ou porque tivessem vindo mais ou porque as condições contextuais fossem melhores, o interesse pela cultura e pela literatura do Brasil crescerão exponencialmente. É que uma boa parte dos inconfidentistas idos para Angola era de intelectuais esclarecidos e letrados que, por força desse estatuto agitaram a morrinha da vida cultural angolana que, nesse tempo, teria como principais protagonistas alguns militares e um que outro funcionário da administração pública. Não obstante, os resultados desse contágio cultural poderem ter sido consideráveis, a verdade é que ele (o contágio) não foi responsável pelo despertar serôdio de uma consciência cultural e política nacional que, no caso de Angola, só emergería no séc. XIX já num contexto mais claro. O governador-geral Sousa Coutinho, dando mostras de visão estratégica sustenta a necessidade de reduzir, se não neutralizar, a pesada influência económica e política que o Brasil exercia em Angola. Conseguiu parcialmente os seus objectivos afirmando uma autoridade praticamente incontestada, na defesa de interesses próprios da colónia, fora da lógica da cooperação com o Brasil. Aliás, este assomo de angolanismo colonial tinha já um precursor em João Fernandes Vieira, o governador “brasileiro” que, modelando a sua administração pela do Brasil, procurou sanear o governo dos “germes deletérios da governação ultramarina” porque sabia que “não poderia manter-se o domínio (português de Angola) sem bases económicas estáveis”. Era, todavia, visto no Brasil como um

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indianista confesso, tendo, por isso mesmo, dado um impulso considerável ao movimento dos “resgatados africanos” que atravessaram em barcos negreiros o Atlântico sul. Destinava-se essa política a obter fortes recursos financeiros para o desenvolvimento local da colónia e, assim, diminuir paulatinamente a sua dependência económica do Brasil. Diga-se, entretanto, que Fernandes Vieira beneficiou, para o efeito, da acção desenvolvida pelo seu antecessor, Luís Martins de Sousa Chichorro, o homem que, em 12 de Outubro de 1656, recebeu a submissão da celebrada Rainha Jinga, da Matamba, personagem que alimentou até aos nossos dias o imaginário poético de muitos dos escritores angolanos. Esta política de afirmação de uma autoridade local própria seguiu-a também um outro governador “brasileiro”, André Vidal de Negreiros, o estratega da defesa de Angola contra os ataques da pirataria que se acentuaram, após a expulsão dos Holandeses, e que punham em causa a estabilidade da vida económica da colónia e a sua ligação comercial ao Brasil. A coroa portuguesa ficava, entretanto, um pouco à margem deste relacionamento económico Angola-Brasil e dos seus efeitos na colónia africana, especialmente aqueles que se sentiram no hinterland centro-sul da região de Benguela, durante a governação de João Fernandes Vieira que, de alguma forma, facilitou o aparecimento de grupos locais fechados muito ligados a congéneres brasileiros e que serviram de semente ao futuro movimento dos Kuribekas benguelenses, nos séc. XVIII e XIX, espécie de extensão local da maçonaria brasileira. A coroa portuguesa despertaria, entretanto, e não da melhor forma, para a administração directa da colónia, quando D.Afonso VI nomeou governador Tristão da Cunha, cuja administração foi catastrófica na relação com os sobados gentios, fontes insubstituíveis de abastecimento de “peças” para a pujante economia brasílica. Dois anos após a sua posse, Tristão da Cunha é obrigado a fugir de Angola devido a uma sedição militar, sendo, então, substituído, em 4 de Novembro de 1668, pelo Conde de Alvor, Francisco de Távora, que aos 22 anos passa a ter responsabilidade de capitão-general e de governador de Angola. Francisco de Távora exerceu um governo extremamente positivo para os interesses da colónia que realinhou de novo com o Brasil. Mereceu bem o cognome de “Menino Prudente” com que os sectores económicos e políticos de Angola o brindaram, testemunhando o equilíbrio com que conduziu a sua administração. A braços com sublevações várias dos nativos, herdadas em grande

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parte do governo do seu antecessor, Francisco de Távora, ele e o governador e capitão-general do Brasil, Afonso Furtado de Castro de Rio e Mendonça, primeiro Visconde de Barbacena, organizaram uma expedição militar, vinda do Rio de Janeiro, durante o ano de 1673, para submeter sobas rebelados contra a estratégia negocial dos negreiros que enxameavam o território angolano, apresando mão-de-obra para as plantações de açúcar. Esta vinculação de Angola com o Brasil e o entretecimento de relações políticas, económicas e militares daí advenientes, seria continuada e aprofundada pelos governadores a vir, normalmente à media de um cada triênio. Refira-se que esse aprofundamento teve, de novo uma boa expressão com Lourenço de Almada, que, em 20 de novembro de 1705, tomou posse do governo de Angola que deixou em 4 de outubro de 1709, para partir para o Brasil para exercer idêntico cargo, a partir de 1710. O sucessor de Lourenço de Almada, que em Angola ficou conhecido como moralizador dos negócios e dos costumes e por isso incómodo para a burguesia das duas margens do Atlântico Sul, foi António de Saldanha de Albuquerque Castro de Mesquita Lobo de Andrade de Ribafria, outro brasileiro que se distinguiu, sobretudo, pela luta contra a pirataria e contra as guerras tribais e do Kuata-Kuata desenfreado. Poderíamos continuar a fazer o inventário destas ligações administrativas de Angola ao Brasil que tiveram em Rodrigo César de Meneses, antes governador de São Paulo, João Jacques Magalhães e António Almeida Soares Portugal Alarcão Eça e Melo, Conde de Lavradio, os últimos três protagonistas, antes que se entrasse no chamado período do fomento pombalino iniciado com António Álvares da Cunha, Conde da Cunha, em 1753. Não valerá, porém, a pena, porque já temos matéria suficiente para contextualizar o ambiente político-cultural angolano-brasileiro que poderia potenciar uma influência no domínio da expressão literária, que, todavia, não existiu naquela colónia de África, se uma influência no domínio da expressão literária, que, todavia, não existiu naquela colónia de África. se não a partir de 1845, pela introdução tardia do prelo pelo Governador Pedro Alexandrino da Cunha. Doutro modo, não se compreenderia por que motivo Gregório de Matos, degredado em Angola nos últimos anos da sua vida, não teve seguidores ou epígonos de uma poesia, como a sua, burlesca e satírica quanto bastava, e cáustica na crítica à política de administração colonial e militar portuguesa. Aliás, Gregório de Matos, estando em Loanda, em 1694, pôde

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testemunhar uma insurreição militar de tropas mal pagas e maltrapilhas com que teve de lidar o governador Henriques Jacques de Magalhães. Esse testemunho serviu-lhe para vergastar com a sua fácil verve poética a degenerescência política e moral da colónia de Angola, por semelhança, aliás, com o que havia feito em diversas ocasiões quanto ao governo da Bahia e do Brasil. Se Gregório de Matos não deixou epígonos, pelo menos conhecidos, em Angola, isso também pode significar que a indigência cultural no seu tempo de degredo, seria muito grande e, por isso, os grupos com alguma capacidade para as musas (militares missionários e um que outro funcionário. Isto é, não haveria em Angola destes finais do sec. XVII condições culturais para a emergência de uma actividade literária por parte dos filhos da terra, o que, aliás, transparece claramente da História Geral das Guerras Angolanas (séc.XVII) de António de Oliveira Cadornega, que, tendo aí vivido por mais de meio século, desde o governo de Pedro César de Meneses (1639) até a administração de D. João de Lencastro (1691), não conseguiu registar dessa actividade mais do que a Décima (1647) do capitão António Dias de Macedo, filho da terra, que não foi além de um hesitante texto crítico-satírico sobre a arrogância de alguns administradores de segunda linha. Uma explicação possível para essa indigência poderá ser também o facto de, então, não existir em Angola ainda uma sociedade de base mulata ou parda como a que existia no Brasil e da qual Gregório de Matos foi, seguramente, o primeiro poeta, pondo em destaque as suas qualidades, designadamente, as intelectuais e de beleza, para exasperação dos europeus: É parda de tal talento, Que a mais branca e a mais bela, Poderá trocar com ela A cor pelo entendimento. Mas, se, por um lado, os promovia poeticamente, por outro lado, também os criticava: Muitos mulatos desavergonhados, Trazidos sob os pés os homens nobres, Posta nas palmas toda a picardia. Era, assim, descrita a Bahia degradada nos costumes políti-

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cos e sociais da época, minados por uma fidalguia que o mesmo Gregório de Matos, aliás, nascido numa abastada família de senhores de escravos, filho de Gregório de Matos, fidalgo da série de Escudeiros em Ponte de Lima, e de D. Maria da Guerra, “matrona da Bahia”, zurziria no célebre soneto “A Fidalguia do Brasil”: Há cousa como ver um Paiaiá Mui prezado de ser caramuru, Descendente do sangue de Tatu, Cujo torpe idioma é cobé pá? (cobessa) A linha feminina é Carimá, Moqueca, pititinga, caruru, Mingau de puba, vinho de caju Pisado num pilão de Pirajá. A masculina é aricobé Cuja filha Cobé um branco Paí Dormeu no promontório de Pacé. O branco era um Marau, que vejo aqui: Ela era uma Índia de Marí: Cobé pá, aricobé, cobé, paí. Regressado a Pernambuco, onde lhe autorizaram ir morrer, não deixou, então, Gregório de Matos verdadeira semente poética em Angola que germinasse antes da primeira metade do século XIX, desta feita já por intermediação de Castro Alves, de quem terá sido verdadeiro precursor. De facto, mulatizada já consideravelmente Angola, sobretudo em Loanda e no hinterland benguelense (o que, aliás, deu a Benguela o epíteto, também poético, de Praia Morena) a plêiade de nativistas contestatários iria inevitavelmente surgir. Isso mesmo se constata, por exemplo, num relatório de Nicolau de Abreu Castelo Branco, governador e capitão-general do reino de Angola, onde se insurge contra “as ideias subversivas dos Demagogos, (que) têm chegado a toda a parte do Mundo, influindo segundo as conveniências aos diferentes indivíduos, que os inspiram”, juntando-se em “clubes muito recônditos”, sendo o maior número de adeptos os mulatos, e onde, então se forjava a revolução na colónia, a fim de se unirem “à causa do Brasil” recônditos”, sendo o maior número de adeptos os mula-

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tos, e onde, então se forjava a revolução na colónia, a fim de se unirem à causa do Brasil”. Era, como vimos atrás, o fenômeno Kuribeka a funcionar ligado estreitamente à maçonaria brasileira, impulsionada, aliás, por uma profunda crise que, desde os finais do século XVIII, tinha tomado conta de Loanda e de Angola, acentuando-se por toda essa primeira metade do séc. XIX. É neste cenário de crise que as influências literárias brasílicas, especialmente as de cariz mais nativista e exótico do que propriamente as de cariz social (estas só emergirão pelo início do século XX, para se manifestarem amadurecidas apenas nos anos 40 e 50), começaram a notar-se mais em Angola. Será José da Silva Maria Ferreira, nascido em 1827 e embarcado para o Brasil em 1834 acompanhado por duas irmãs para seguir estudos, no dizer do historiador angolano Carlos Pacheco, o introdutor na literatura de Angola, por influência do Brasil, do “nativismo como precursor do nacionalismo” que brotaria, a partir da década de 50, com o movimento da Vamos Descobrir Angola. A estada no Rio de Janeiro permitiu a Maia Ferreira o contacto com os meios intelectuais e literários locais, sobretudo através das lojas maçônicas que vieram a originar os tais “clubes recônditos”, valendo-se da experiência e da leitura dos vates brasileiros para escrever um poema a cantar a sua terra com glosa conhecida: Minha terra não tem os cristais Dessas fontes do só Portugal, Minha terra não tem salgueirais, Só tem ondas de branco areal. (...) Não tem vates por Deus inspirados, Que decantem um Gama, um Moniz, Que em seus feitos com loiros ganhados Deram lustre ao nativo país. (...) - Mas que, minha terra Não ten vate por Deus inspirado, Não é pátria do divo Camões Tão poeta, quão bravo soldado. Não é pátria dos vates da América Que em teus cantos, com maga harmonia, Na Tijuca em seu cume sentado Decantaste em tão bela poesia.

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Nada tem a minha terra natal Que extasie e revele primor, Nada tem, a não ser dos desertos A soidão que é tão grata ao cantor. E tu, Poeta bem fadado, Que na gentil Guanabara Tantos cantos tens cantado À tua pátria preclara, Recebe este meu canto De amargor e de pranto, Sem belezas, sem encanto, À minha pátria tão cara. Leitor seguramente de O Uraguay de José Basílio da Gama e outros, Maia Ferreira evidencia em toda a sua poesia uma sintonia com os ideais de liberdade e do liberalismo político de que o Rio de Janeiro era, no seu tempo, autêntico cadinho. Pelo início do século XX, em Angola, em Lourenço do Carmo Ferreira e em Jorge Rosa, encontramos expressão poética desses ideais moldados na poesia brasileira de cariz nacionalista. Mas estas vozes de angolenses nacionalistas seriam eclipsadas por quase meio século, para darem lugar a uma poesia angolana de orientação nitidamente colonial que vai buscar grande parte da sua inspiração em Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu, não pelo que tinham de mensagem, mas pelo exotismo semantico revelado. É assim que o indigenismo das paisagens física e humana do Brasil capta mais a atenção de poetas menores como João Baptista Pereira que, nos anos 40, glosa a célebre “Canção do exílio”: Nos parmêra do Brasil Canta, canta o sabiá; Seja em Março ou em Abril Passa os dias a cantá. Dizem que canta a soidade Coisa triste como o luto – Deste branco da cedade Que não mais voltou ao Puto.

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E os gentes sonha ao ouvil O sabiá do Brasil! Castro Alves, entretanto, irá repercutir na poesia da geração da Mensagem da Literatura Angolana, sendo só expressamente convocado por João Maria Vilanova, um poeta angolano heterónimo mais do que pseudónimo, na sua “Canção do Navio Negreiro”, já na década de 70. Aliás, João Maria Vilanova preferiu o regresso à genuidade romântico-revolucioária de Castro Alves, não seguindo, portanto, os caminhos do Modernismo Brasileiro que Maurício de Almeida Gomes e Geraldo Bessa Victor anunciavam como os mais adequados para modelarem a poesia de Angola, desde Manuel Bandeira e Ribeiro Couto a Jorge de Lima que Viriato da Cruz invocaria. Mário António de Oliveira, esse, preferiu Jorge Amado para inspirar-lhe o poema sobre Jubiabá e António Balduíno, na linha da Terra Nova, lá na Luanda dos muceques.

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O léxico arcaico na história da Língua Portuguesa
Telmo Verdelho, da Universidade de Aveiro
A Língua Portuguesa, esta língua que hoje põe em comunicação quase 200 milhões de falantes é favorecida por uma longa e preenchida memória escrita que se aproxima dos 800 anos. Temos dois textos autênticos do princípio do século XIII, que prolongaram e conservaram, até aos nossos dias, na sua configuração material, esses gestos instituidores que fizeram do romance falado no noroeste da Península Ibérica uma língua escrita. O Testamento de D. Afonso II,1 que se preserva mesmo em duplicado, é de 1214, e a Notícia de Torto,2 não estando embora datada, deve ter sido escrita pela mesma altura. Cerca de trezentos anos depois, foi esta língua escrita pela primeira vez no Brasil, num texto igualmente instituidor e, de algum modo paralelo do Testamento de D. Afonso II, que é a Carta do “achamento desta vossa terra nova”, escrita por Pero Vaz de Caminha.3 500 anos depois, é justamente essa língua, que ainda falamos e escrevemos, que nos reune aqui, como um lugar de encontro, simultaneamente natural e cultivado, língua materna e fraterna, pátria por sobre as pátrias, na qual depositamos as nossas complacências e a esperamça de que a nossa voz chegue longe. Gostaria de propôr uma breve apreciação do ritmo de variação diacrónica, estabelecendo uma comparação entre os primeiros 300 anos de escrita da Língua Portuguesa (desde o Testamento de D. Afonso II até ao séc. XVI), e o percurso histórico correspondente aos últimos 500 anos, desde a Carta do achamento do Brasil, até aos nossos dias. Para um falante do português, hoje, a Carta do séc. XVI oferece uma grande transparência e uma quase total legibilidade. É obviamente muito mais legível do que os dois textos do início do

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séc. XIII. Somos levados a imaginar que seria muito fácil comunicarmos nós actualmente com Pero Vaz de Caminha, se ele pudesse tornar à Terra de Santa Cruz, passados 500 anos, e falar-nos nesta assembleia. O mesmo não aconteceria certamente com el Rei D. Afonso II e com os seu notários, ou com os poetas que naquele tempo cantavam amores. Provavelmente, o próprio Pero Vaz de Caminha teria mais dificuldade em entender o português falado 300 anos antes do que entender esta língua que nós falamos 500 anos depois. Quer dizer, a degradação arcaizante da memória da língua parece atenuar-se ao longo dos últimos séculos, estaremos perante um abrandamento do processo de envelhecimento da língua. A hipótese fundamenta-se sobretudo na observação do ritmo de sedimentação lexical. No séc. XVI, os leitores da língua escrita portuguesa encontrariam mais arcaísmos no texto patrimonial a que tinham acesso, do que nós encontramos hoje no texto produzido durante os cinco séculos subsequentes. Será necessário distinguir, por um lado, a massa lexical arcaica, constituída por um conjunto de formas que poderemos considerar completamente obliteradas como os verbos “filhar”, “leixar”, que perderam qualquer ligação com o vocabulário activo, e por outro lado, as palavras desusadas e todo o conjunto lexical caracterizado por conotações arcaizantes mas que mantêm em relação à língua moderna uma espécie de motivação interna que facilita a sua interpretação. São sobretudo as primeiras, as palavras que perderam qualquer ressonância no sistema lexical do português contemporâneo, que podemos designar de arcaísmos profundos e que marcam a ruptura de intercompreensão no percurso da memória linguística. Ainda neste âmbito são particularmente determinantes as formas que foram de uso mais frequente e especialmente as partículas de ligação ou de significação gramatical como os pronomes, os advérbios, as preposições e as conjunções. No séc. XVI pode marcar-se com uma certa precisão o limite entre um dicionário arcaico e um dicionário do português moderno. Todos os estudiosos da periodização da língua assinalam esta fronteira diacrónica. Logo no século XVII, Jorge Cardoso no Agiológio Lusitano (1657, t.II) e Frei Manuel do Sepulcro, na Refeiçam Espiritual anotam (cito deste último): “E naõ ha duvida que maior mudança fez a lingua Portugueza nos primeiros vinte

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annos do reinado de Dom Manoel, que em cento & sincoenta annos dahi para cà: como o vemos pollos ecrittos, em verso & prosa, de hüs & outros tempos” (Refeiçam Espiritual , parte hiemal, Lisboa, 1669, p.11) Mas já antes, os humanistas tiveram a percepção, uma espécie de consciência metalinguística, dessa substancial mudança da memória lexical. Um primeiro testemunho, certamente entre muitos outros que se perderam, encontra-se no esboço de um Vocabulário de nomes antiguos que se guarda na Biblioteca da Ajuda e que remonta à primeia metade do século XVI,4 trata-se é certo de um vocabulário de nomes de especialidade referentes exclusivamente à actividade administrativa e elaborado certamente por um cronista, mas é nos textos administrativos e tabeliónicos que se guarda a memória linguística mais próxima da vida para o português medieval. Interessante também e mais esclarecedor ainda, é o testemunho de Aquiles Estaço (1524-1581), contemporâneo de Camões que deixou entre os seus manuscritos em Itália (depositados na biblioteca dos Oratorianos, em Roma, actualmente designada Vallicelliana), um brevíssimo apontamento com palavras de Portugues velho explicadas em latim ou em português.5 Anota entre outras: — a palavra “mais” com o equivalente latino “sed”, isto é com o significado da adversativa “mas” — a forma “seente” com o equivalente latino “sedens” e a glosa “seente nüa cadeyra” —”quite de peccado” e a explicação “livre” —”guisa” que traduz por “maneyra” —”esguardamento” que traduz por “conspectus” — e ainda entre várias outras formas, as partículas “pero”, “hy”, “acá”, “de suso”, “entonsce”. Ora é sobretudo pelo abandono destas partículas de ligação ou de significação gramatical e pela obliteração de alguns verbos de grande frequência que se torna sensível essa estranheza de um português velho, de leitura muito mais difícil do que o português pós-camoniano. Vale a pena considerar, ainda que em breve listagem, naturalmente incompleta, algumas dessas partículas obsoletas que tecem o texto arcaico. Por ordem quase alfabética, e sem detenças classificativas, lembrarei: acá, adur, al, ar / er (re), atá, ca (quia), cas (en cas de), chus,

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crás, desi, en, ende, dende, por ende, ensembra, i (ibi - y, hi), guisa, juso / suso, mais (mas), oi, oimais, ormais, ogano, pero, empero, de pram, ren, samicas, tamalavez, toste, u/hu (ubi). Deve notar-se que esta instrumentação gramatical tornou-se muito mais estável ao longo dos últimos quinhentos anos e quase não se encontram mais formas perdidas. Há também um conjunto de verbos que sofreram uma forte obsolescência e, porque muito provavelmente tinham uma elevada frequência no português medieval, a sua presença ou ausência repercute-se de maneira sensível no horizonte lexical destes dois momentos da história da língua. Citarei apenas alguns: acaecer, apartar, cousir, departir, enader, esguardar, filhar, gaançar, guarir, guisar, iguaar, leixar, liar, osmar, nembrar/renembrar, prasmar, quitar, retar, rezoar, saar (sanare), seer, talhar, tolher, traer. Cada um destes verbos têm a sua história e o seu percurso diacrónico. Quase todos eles se apagaram da memória lexical portuguesa activa antes do século XVI. Destacarei entre eles os verbos filhar, leixar e guisar, que no século XV eram verbos de ocorrência bastante frequente. Em Fernão Lopes, na Crónica de D. Fernando, o verbo “filhar” tem 23 ocorrências; “guisar” tem 8 ocorrências e guisa têm 290; “leixar” tem 127 ocorrências e a forma moderna “deixar” não tem nenhuma; “Filhar” e “guisar” obliteraram-se mais cedo e não chegaram a entrar no séc. XVI, mas “leixar” foi substituído pelo meio desse mesmo século. Pero Vaz de Caminha, em 1500, traz ao Brasil ainda e apenas a forma “leixar”. Na primeira edição do Auto da barca do inferno (1518) ocorre sempre o verbo “leixar”, mas na edição da Compilaçam preparada por Luís Vicente, ocorre 3 vezes o verbo “deixar” e 2 “leixar”6 Damião de Góis que viveu entre (1502 - 1572) na Crónica do Príncipe D. João alterna “deixar” e “leixar” com predomínio de “deixar” (21 oc.) sobre “leixar” (12 oc.). Garcia de Resende (1470-1536) em Vida e feitos de D. João II, escrito em 1533 usa “deixar” - 46 vezes e 3 vezes apenas “leixar”.7 André de Resende (1498-1573) que era um fervoroso latinizante, na Vida de Frei Pedro, publicada em 1570, recusou a forma “deixar” e usa apena “leixar”, meticulosamente grafada “lexar”, como quem pretende recuperar o étimo “laxare”. Finalmente Camões que era pelo menos 20 anos mais novo

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do que Damião de Góis e ainda mais do que André de Resende, nunca usa o verbo “leixar” em “Os Lusíadas” e, no conjunto da obra lírica que lhe é atribuída, registam-se duas ocorrências de “leixar” contra 130 de “deixar”. Estas duas ocorrências de “leixar”, únicas em toda a obra atribuída a Camões, encontram-se em dois textos líricos, um soneto e uma glosa sobre uma “cantiga velha” e, muito provavelmente, podem não ser da autoria do poeta. Concluindo, quando a Língua Portuguesa chegou ao Brasil, ou dizendo melhor, quando a língua portuguesa fez a sua trasumância para o Brasil, estava a criar condições para manter uma recursividade lexical interactiva e vivaz. A criação de um importante património textual, a elaboração de dicionários e o alargamento da intercomunicação diacrónica terão sido factores preponderantes para a manutenção da memória disponível das palavras. A língua evolui e envelhece, mas os falantes de todo o tempo podem contribuir para que a língua continue a evoluir, mas que envelheça cada vez menos. Foi isso que fez Pero Vaz de Caminha ao escrever a sua famosa Carta. Contribuíu para que as suas palavras continuassem a ser revitalizadas, e, na verdade, em todo o seu texto, apenas 4 formas não vêm registadas nos dicionários do português moderno, por serem consideradas arcaísmos: “ca, leixar, senhos, tamalavez”. Como quer que seja, nenhuma destas palavras ultrapassou o século XVI, na memória do léxico activo português.

Notas 1 — V.: Avelino de Jesus da Costa, “Os mais antigos documentos escritos em Português”, in Estudos de cronologia, diplomática e histórico-linguísticos, Sociedade Portuguesa de Estudos Medievais, Porto, 1992, p.169-256. 2 — V. Luís F. Lindley Cintra, “Sobre o mais antigo texto não-literário português: A Notícia de Torto (Leitura crítica, data, lugar de redacção e comentário linguístico)”, in Boletim de Filologia, t.XXXI (1986-1987), Lisboa, 1990, p.21-77; e ainda Susana Maria de Figueiredo Tavares Pedro, De noticia de torto, Dissertação de Mestrado de Paleografia e Diplomática, na Faculdade de Letras, Lisboa, 1994. 3 — V. Vocabulário da Carta de Pero Vaz de Caminha (seguido de fac-símil e leitura diplomática do texto), Rio de Janeiro, Instituto Nacional

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do Livro - Ministério da Educação e Cultura, 1964. 4 V. Telmo Verdelho, As origens da gramaticografia e da lexicografia latino-portuguesas, Aveiro, INIC, 1995, p.385 e s. 5 A investigação na biblioteca Vallicelliana foi feita pelo Dr. BelmiroPereira da Fac. de Letras do Porto, que generosamente me facultou o acesso a esta informação. 6 I. S. Révah, Recherches sur les oeuvres de Gil Vicente, Lisboa, 1951, p.95. 7 Evelina P. Silva Verdelho, Livro das Obras de Garcia de Resende, edição e estudo, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994.

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Tradução literária e comunicação cultural: o português do Brasil em Espanha
Xosé Manuel Dasilva, da Universidade de Vigo
Numa recente visita à Galiza, logo de ser laureado com o Prémio Nobel da Literatura, José Saramago manifestava com louvável sinceridade que para optar a um triunfo internacional tão apetecido uma das condições mais vantajosas, um requisito inescusável quase, consiste em dispor de uma obra, além de valiosa em sentido estético, traduzida para o maior número de línguas. Era uma afirmação com certeza irrepreensível no caso do autor de Que farei com este livro?, cujo património literário se estende por todo o mundo através de variados idiomas, mais de trinta, do inglês, o alemão ou o francês até ao russo, o turco ou o chinês, sem esquecer por antecipado o sueco, língua para a que se traduziram quatro romances seus num período de apenas quatro anos antes de receber o Nobel. Saramago falava assim a partir da experiência privilegiada de ver felizmente alargado o espaço da sua lingua original e não se mostrava ignorante, aliás, do amplo significado que a tradução possui para a vontade de projecção de um autor, não em vão ele mesmo viveu sacrificadamente muitos anos, longe ainda da consagração, de verter obras estrangeiras em português. É boa verdade, por suposto, que o facto de um escritor ter muitas versões dos seus livros noutros idiomas não garante a hipótese de qualquer ano alcançar o Prémio Nobel da Literatura. Paulo Coelho, nas redondezas da criação literária, cumpre a condição apontada por Saramago com vinte milhões de livros vendidos em muitos países, os quais permitem, mais do que nada, que ganhe cada mês por direitos de autor à volta de um milhão de dólares. Ora bem, nem por isso admite dúvida que a popularização interna-

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cional desde há pouco tempo do nome de Saramago se tem firmado, em grande medida, num mecanismo da notoriedade tão efectivo como o que constitui a capacidade divulgadora da tradução1 . Perante a realidade desta circunstância, de natureza até esmagadora, mesmo é plausível imaginar que o próprio autor de Memorial do convento criasse os seus romances e ao mesmo tempo estivesse já a pensar na sua imediata translação a outras línguas, o que poderia ter até influência em certas escolhas estilísticas para o texto original. Talvez esta suposição seja exagerada, mas não convém descartá-la desde que uma voz tão esclarecedora como a do editor e narrador português Luiz Pacheco lançasse, nesse sentido, a denúncia destemida de Saramago e também Lobo Antunes utilizarem, com o pensamento posto generosamente nos seus tradutores, uma prosa já não de genuína feição lusitana, mas sobretudo formada por traços idiomáticos acessíveis de fácil adaptação a qualquer âmbito internacional. Inserida num depoimento jornalístico, eis reproduzida na íntegra a citada denúncia de Luiz Pacheco, corajosa verdadeiramente e não isenta de relevo:
Queremos que digas o que quiseres. Há aqui um problema grave, que é assim. O Lobo Antunes e o Saramago não estão a escrever para vocês nem para mim. Estão a escrever uma coisa género standard, que é o romance internacional. Já não é prosa portuguesa. Se eu amanhã estivesse traduzido na China, na Alemanha, na Inglaterra, não podia estar a escrever um texto com requintes poéticos ou termos idiomáticos ou ir buscar palavras esquisitas, porque isso, na tradução, o tradutor não se vai chatear. (...). Como sabem que vão ser traduzidos, têm de fazer uma linguagem o mais corrente possível, mais linear, mais badalhoca. Desculpa, mas quer o Saramago quer o Lobo Antunes não são propriamente escritas assim tão simples. São até barrocas, num certo sentido. Não sei como será em tradução. Ó pá, hoje, um escritor, género Saramago ou Lobo Antunes, está a fazer um livro e a pensar no Prémio Nobel. Não está a pensar em vocês nem em mim. É na tradutora sueca ou alemã. Não está a fazer um romance, está a fazer um produto. tem de escrever a pensar nisso: temas mais ou menos de interesse universal, e depois serve-se aquilo na prata da casa.2

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Numa recente visita ao Brasil, logo da sua estada na Galiza, Saramago propunha, com motivo da IX Bienal do Livro do Rio de Janeiro, a necessidade de uma iniciativa similar luso-brasileira que terminasse com o isolamento entre os escritores e os leitores de ambos os países. Este apelo esperançoso estava destinado a corrigir a dolorosa ignorância recíproca a respeito das duas literaturas, mas cumpriria interpretá-lo, aliás, como medida indispensável com o intuito de favorecer a tradução da literatura que se produz em cada comunidade lusófona. Com efeito, como será possível impulsar o conhecimento internacional das letras portuguesas e brasileiras por meio de versões noutras línguas se a leitura de autores de cada uma destas literaturas simplesmente não existe, com a ressalva da massa universitária, tanto em Portugal como no Brasil? É evidente, por antecipado, a conveniência de um conhecimento mútuo das duas literaturas, e isso porque, em primeiro lugar, contribuiria para fortalecer os elos culturais entre as duas comunidades, mas ainda seria muito útil também a fim de propiciar, por outra parte, um bloco comum na conquista de leitores para lá das fronteiras da lusofonia. É muito ilustrativa, no que diz respeito a esta questão, a experiência que se viveu há dois anos na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, onde Portugal participou com sucesso na qualidade de país-tema. Uma literatura como a portuguesa, periférica nas grandes rotas editoriais, conseguiu então um importante reconhecimento para afirmar-se no mercado internacional, prelúdio do imediato Prémio Nobel que se outorgaria às suas letras. Se antes existiam apenas sessenta e cinco livros de autores portugueses traduzidos para alemão, a Feira do Livro de Frankfurt permitiu que tão-só no período de um ano aparecessem as versões de mais quarenta livros. Este sucesso não atingiu, contudo, do mesmo modo a literatura brasileira nem, além disso, facilitou quando mais não seja que a recepção dos autores de cada um dos dois países se tornasse mais fluída no outro espaço. Foi exequível, pelo contrário, verificar nesse evento a contradição de que a mesma língua, mais do que a diversidade idiomática, possa chegar a ser um obstáculo, ao menos em termos editoriais, na difusão correspondente das literaturas portuguesa e brasileira. Efectivamente, o editor português não comprava na Feira do Livro de Frankfurt os direitos de edição de títulos brasileiros e a mesma era a atitude em sentido inverso, isto é, o editor brasileiro no que diz ao livro português, de maneira que se continuou a perpetuar assim a distribuição das

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literaturas respectivas em ambos os países através de importadores, os quais não raro dificultam mais o trânsito literário entre fronteiras do que os tradutores. Seja como for, é necessário revelar uma certeza incontestável quanto à projecção internacional das letras portuguesas e brasileiras. Está-se a fazer referência à sua dissemelhante expansão, visto que as primeiras alcançaram um grau de conhecimento mais elevado ainda de cada vez, designadamente como consequência do Prémio Nobel concedido a Saramago, que as letras brasileiras não conseguiram, e isso com independência da rica qualidade que oferece tanto uma literatura como a outra, sem nítidas diferenças a este respeito. Se se adopta como ponto de partida o âmbito espanhol, por exemplo, não é comparável o peso da presença portuguesa e da presença brasileira entre os leitores deste país por meio de traduções. Conquanto não se tenha chegado ao limite mais satisfatório, é interessante registar o número de obras de autores portugueses vertidas em Língua Espanhola, enquanto os autores brasileiros se contabilizam ainda em quantidade pouco suficiente. Realmente deve-se dizer que apenas é exequível ler em espanhol a obra de autores assinalados da literatura brasileira, mais uma excepção do que um acontecimento sistemático, graças ao esforço teimoso de alguns tradutores a imporem as suas preferências perante as editoras. Talvez não haja que rejeitar para esta desigualdade ser assim a cercania, tanto em termos geográficos como culturais, de Portugal com relação a Espanha e a distância do Brasil3 . Trata-se de uma explicação aceitável que é adequado matizar, no entanto, com outras notas de índole idiomática sobre a peculiaridade da língua literária brasileira. Há que confessar, antes de mais, que fica longe de qualquer intenção aqui encarecer a diversidade palpável, sempre menor, aliás, do que a unidade, entre a modalidade americana e a modalidade europeia da Língua Portuguesa. Não é difícil compreender sem prejuízos enfadonhos que a larga difusão do português no mundo, a ocupar espaços muito afastados entre si, tivesse como consequência a variedade legítima que o idioma apresenta hoje em dia. Uma análise dos traços particulares de cada modalidade realizada de uma perspectiva restritamente filológica conduz, efectivamente, a fixar a sua natureza comum no conjunto do mesmo sistema linguístico, e isso a despeito da existência de correntes, de forma paradoxal até a surgirem na antiga metrópole, interessadas em traçar diferenças abertas e inconciliáveis entre

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as diversas normas da Língua Portuguesa. Ora bem, esta situação descrita, susceptível de ser examinada com conceitos filológicos transparentes, reclama uma aproximação mais pormenorizada do ponto de vista tradutológico. E é que parece complicado negar em princípio a realidade de uma língua literária brasileira singular, por vezes não ajustada às convenções da língua escrita comum, que encerra repercussões evidentes, nem sempre de fácil abordagem, para a sua desembaraçada circulação exterior por meio da translação a outros idiomas. Como se sabe, cumpre estabelecer a vontade definitiva de criar uma língua literária de signo nacional, após tentativas primigénias no período romântico, especialmente a partir do Modernismo, cuja revolução estética há-de significar o desejo irrefreável de renovar a linguagem no território da criação literária. Para lá de excessos ostensíveis de alguns autores, é por via de regra aceite que a ousadia modernista supôs a vantagem de a literatura brasileira granjear uma língua privativa pouco distante dos seus referentes mais vivos e, aliás, de grande virtualidade artística. Bem certo é que na maior parte dos primeiros modernistas apenas se percebem actos de escrita individuais, arbitrários portanto e sem procurarem a unicidade de uma norma no seio da língua literária, mas isso não evita reconhecer, através das suas experiências tão versáteis, o gérmen possante de um instrumento idiomático tão marcadamente nacional quanto afastado da rigidez lusitana. Embora não seja agora a melhor ocasião para aprofundar neste novo horizonte que o rompimento modernista delineou no panorama literário brasileiro, sirva ao menos como amostra o conhecido testemunho do poeta Raul Bopp, tão revelador como os famosos versos de Manuel Bandeira em idêntico sentido no poema “Evocação de Recife”:
Leis da gravidade do idioma e seus valores incógnitos. A gramática atravessou o oceano e instalou-se na Casa Grande, com as suas fórmulas vernáculas, preocupada com purismos lusos na maneira de dizer. Não ouvia as vozes de lá fora. Mas o Brasil amansou o idioma... a linguagem, nas suas múltiplas relações de cultura, foi-se diferençando das usadas em livros de além-mar.4

Esse processo de nacionalização, por assim dizer, da linguagem inerente às letras brasileiras contemporâneas favoreceu desde então, acima de tudo, a existência de um sistema literário com

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fisionomia inconfundível, sem vínculos estreitos demais com a literatura portuguesa. Mas primeiro o Romantismo e nomeadamente o Modernismo mais tarde propiciaram dessa maneira, além disso, a consolidação de um veículo expressivo que permite identificar um certo pendor da língua literária brasileira. Com efeito, nessa linguagem artística é preciso pôr em lugar de destaque a sua extremada liberdade de sabor invulgar, repleta de flexibilidade e de imaginação verbal. Tudo consistiu em sobrepor formas actuais às raízes já conhecidas com anseio indagador, sem medo a misturar elementos de origem variegada e até afortunados achados, o que determinou a constituição de uma língua literária de complexo tratamento para ser traduzida noutros âmbitos culturais. No mesmo campo da tradução, mas agora no que diz respeito a essa linguagem como ponto receptor e não na qualidade de fonte emissora, é oportuno trazer à baila as experimentações de Augusto e Haroldo de Campos com a obra de diversos nomes da literatura universal —Ezra L. Pound, James Joyce, Mallarmé, Maiakovski, Paul Valéry, Goethe, Lewis Carroll, Keats...— que revolucionaram a língua literária e, por essa razão, deparavam um atraente repto de tradução5 . Não apenas inexistentes em Portugal, mas também desditosamente irrealizáveis, tais experimentações de Augusto e Haroldo de Campos desvendariam uma atitude idiomática de semelhante carácter inovador, a alargarem, neste caso, a dimensão da língua própria graças à influência da língua estrangeira que se traduz. Um experiente tradutor de textos lusófonos no âmbito hispânico expunha, não há muito tempo, a reflexão de a língua literária brasileira, por ele mesmo qualificada significativamente como modelo das línguas do século XXI, ser um instrumento vulcânico de ímpeto essencialmente renovador6. O seu magma seria um conjunto léxico e uma modelação sintáctica de proporções trasbordantes, fruto de uma realidade proteica que é um resumo do mundo e desafia o tradutor com inúmeros segredos. Um universo original, enfim, com uma cultura multiforme em que se torna saliente a sugestiva presença de diferentes tradições, as quais se manifestam no vocabulário através de um património opulento e na sintaxe por meio de uma agilidade irreprimível. Este tradutor citado tem vertido em espanhol várias obras de autores como João Ubaldo Ribeiro, Autran Dourado, Clarice Lispector ou Rubem Fonseca, sempre a preservar o pendor da língua literária brasileira embora por vezes esse esforço apenas merecesse a derrota, como aconteceu com o romance Tebas do meu coração, de Nélida Piñon, cuja tradução abandonou após um

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ano de batalhas contra uma sintaxe que rompia premeditadamente qualquer linearidade do pensamento. Tratar-se-ia de um fenómeno expressivo análogo ao que surge na modalidade americana do espanhol, manancial também de novo sangue que se transfunde, a dar uma outra vida, para um idioma que é tão antigo como o português7. É conveniente trazer à colação, a fim de perceber as dificuldades paralelas que suscita a tradução da narrativa hispanoamericana, o seguinte depoimento sobre uma versão alemã da sua obra feito pelo escritor guatemalense Miguel Ángel Asturias, também Prémio Nobel da Literatura:
O tradutor de romances latino-americanos tem que ter uma potência poética. Se ele, no fundo, não é poeta, se ele não sabe traduzir euforicamente os nossos livros, o leitor alemão nunca terá uma impressão remota do que seja a nossa literatura. O nosso espanhol é uma língua que se move numa escala amplíssima, e esta escala que se permuta em estações do sentir, do adivinhar, do pensar exatamente nesta ordem - requer que ela seja traduzida na maneira em que se expressa no original. O tradutor de nossa literatura tem que estar a par do que acontece em nossas terras, ele tem que saber que nossas obras são a resposta a esta realidade viva e em transformação.8

Esse é um pensamento que Meyer-Clason, tradutor para alemão de Guimarães Rosa, põe de relevo de caso pensado com o alvo de patentear a complexidade tradutora da língua literária brasileira e, mais em concreto, os abrolhos que levanta qualquer versão noutro idioma do autor de Grande sertão: veredas. Guimarães Rosa, justamente, pode servir de valiosa ilustração para revelar os efeitos tradutológicos da capacidade verbal dos autores brasileiros, embora seja necessário aceitar, por suposto, que é um escritor de grande singularidade nesse sentido. É verdade que a obra literária de Guimarães Rosa representa, por si só, uma aventura expressiva de génio excepcional no próprio panorama das letras brasileiras, porquanto o seu estilo indefinível significa uma audaz proposição que liberta a linguagem até ao infindo. Não se está aqui, como bem se sabe, perante um instrumento comunicativo de base colectiva, mas antes é um discurso de perfil abstracto, quase de pura ficção, que mistura ingredientes naturais e artificiais para explorar, com fôlego altamente criativo, as próprias possi-

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bilidades do idioma português9. Consoante o seu axioma de que tão-só renovando a língua é que se pode renovar o mundo10 , Guimarães Rosa enriquece a expressão, efectivamente, com critérios intransferíveis que nascem sobretudo da sua subjectividade inacabável. Foi dito quanto a isso, e é uma equação susceptível de ser aceite, que o seu idiolecto dispõe de um alcance vivificador equiparável à fertilidade que o discurso literário brasileiro fornece ao sistema linguístico português11. Esse carácter solitário da experiência estilística de Guimarães Rosa porventura seja a interpretação última que convem dar àqueles versos iniciais do poema “Um chamado João”, de Drummond de Andrade, vindo à luz apenas três dias após o falecimento do escritor: Sertão místico disparando / no exílio da linguagem comum?12 Apesar de o código de Guimarães Rosa ser uma descoberta individual, a mágica revelação da sua linguagem representaria, todavia, uma amostra levada até ao extremo do gosto renovador tão fecundo da língua literária brasileira13. É conhecido que as primeiras experimentações modernistas implicaram mormente a transformação da língua no género poético, enquanto a prosa, por sua vez, opunha mais resistência a qualquer mudança radical. Há-de corresponder a Guimarães Rosa a propagação bem sucedida desse alento vanguardista no campo da ficção, a dar lugar assim a uma prosa de espírito inovador que acrescentava à radicalização vocabular dos modernistas uma sintaxe revolucionária14. A capacidade suprema do autor de Noites do Sertão para criar um estilo original vincular-se-ia, portanto, ao mesmo curso da história das letras nacionais e seria uma prova deslumbrante, para lá da sua natureza privativa, do poder verbal que não raro é traço comum na literatura brasileira. Segundo se pode observar com clareza no seguinte depoimento, Guimarães Rosa era consciente do vasto catálogo de recursos ao dispor do escritor brasileiro, e não do escritor português, para desenvolver uma língua literária de alargado signo criativo:
Deve-se apenas partir do princípio de que há dois componentes de igual importância em minha relação com a língua. Primeiro: considero a língua como meu elemento metafísico, o que sem dúvida tem suas consequências. Depois, existem as ilimitadas singularidades filológicas, digamos, de nossas variantes latino-americanas do português (...). Temos de partir do facto de que nosso português-brasileiro é uma língua mais rica, inclu-

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sive metafisicamente, que o português falado na Europa. E além de tudo, tem a vantagem de que seu desenvolvimento ainda não se deteve; ainda não está saturado. Ainda é uma língua Jenseits Von Gut und Bösel —Além do Bem e do Mal—, e apesar disso, já é incalculável o enriquecimento do português no Brasil, por razões etnológicas e antropológicas. (...). Naturalmente, tudo isto está à nossa disposição, mas não à disposição dos portugueses. Eu, como brasileiro, tenho uma escala de expressões mais vasta que os portugueses, obrigados a pensar utilizando uma língua já saturada.15

Uma outra razão justificaria ainda a escolha de Guimarães Rosa para desvendar as consequências tradutológicas da riqueza expressiva dos autores brasileiros, e é a ampla difusão internacional dos seus livros através de um bom número de versões noutras línguas16. Mesmo não é complicado registar o seu interesse pelo fenómeno da tradução, graças sobretudo a alguns testemunhos entre os quais se tornam especialmente salientes os contactos epistolares com Meyer-Clason, já citado, tradutor para alemão das suas obras, e com Edoardo Bizzarri, responsável de algumas versões italianas17. Esse interesse de Guimarães Rosa cimentava-se, por suposto, na sua multíplice competência linguística, a abranger diferentes idiomas como o espanhol, o francês, o italiano, o inglês, o alemão, o russo, o sueco ou o holandês. Também se firmava, no entanto, numa perspicaz compreensão do processo tradutor no território da literatura, mais ainda no que tem a ver com uma obra de aclimatação tão intricada noutras realidades culturais como era a dele18. Guimarães Rosa revelou, com efeito, uma inteligência total da profícua comunhão entre criador e tradutor, o que é frequente hoje em dia com excelente resultado na maior parte dos casos mas que ainda na altura parecia esquisito19 . Sabe-se que ele acompanhava a tradução das suas obras noutras línguas, a contribuir valiosamente assim para esclarecer dúvidas pontuais, nomeadamente de índole léxica, ou para iluminar passos obscuros de leitura inacessível. Os abrolhos que os seus textos deparavam ao tradutor foram chamados de procustos pelo engenho irónico do próprio escritor, em alusão às conotações lancinantes e tirânicas do leito de ferro em que Procues, assaltante da Ática, torturava os viajantes20. Inclusivamente Guimarães Rosa, além

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desta disposição cordial perante as hesitações dos seus tradutores, era capaz de reconhecer com generosidade a hipótese de uma versão bem aprumada chegar a preencher o sentido da obra original, como se sublinha nestas palavras de afervorada aprovação a respeito das edições italianas feitas por Edoardo Bizzarri:
Sem piada, mas sincero: quem quiser realmente ler e entender Guimarães Rosa, depois, terá de ir às edições italianas.21

A fim de ter em vista o exemplo de Guimarães Rosa com o objecto de demonstrar as particularidades de trasladar a língua literária brasileira caberia aduzir, de resto, uma última motivação não menos interessante. E é que ele responde à verdade de que, em última instância, quase sempre não se traduz uma língua, mas sim um escritor. Conhece-se com bastante pormenor, após demoradas análises já realizadas por diferentes estudiosos22 , a dilatada colecção de procedimentos expressivos que configuram a feição mais revolucionária da prosa de Guimarães Rosa. À margem de indianismos, regionalismos, latinismos, estrangeirismos23 , neologismos ou, noutro plano, para além de recursos gramaticais de notável profusão como o uso de sufixos e prefixos, a abreviação de palavras ou a desarticulação da sintaxe, sem esquecer ainda os valores fónicos da sua escrita24 , há um outro aspecto saliente que é muito significativo no que diz à criatividade da sua linguagem. Trata-se da galecidade léxica que está presente em certas obras através de palavras antigas — amojar, chirimia, sanfona, orvalho, lusco-fusco...— , hoje mortas ou ao menos moribundas no português europeu mais canónico e ainda vivas no fundo vocabular da língua galega25. Todos os procedimentos expressivos referidos, e mais outros que seriam de interminável enumeração, convertem a linguagem de Guimarães Rosa numa amostra elucidativa do zelo que exige verter um texto literário brasileiro noutra língua. É prova disso, por exemplo, o seu livro zenital Grande sertão: veredas, onde o longo monólogo de Riobaldo, mais de quinhentas páginas, supõe um convite tão aliciante como arriscado para qualquer tradutor. O estorvo principal, como nem podia deixar de acontecer, é reproduzir na tradução esse ar estilístico tão sobresselente que está intimamente unido ao modo de dizer de Guimarães Rosa. Com efeito, a tarefa mais árdua consiste em transmitir a mesma sensação de estranhamento que o leitor original, por seu turno, experimenta em face da portentosa utilização da língua que se manifesta ao

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largo da obra. Para isso a melhor estratégia tradutora tem de guardar um cuidadoso equilíbrio entre o respeito às peculiaridades idiomáticas do romance, de um lado, e a procura da sua inteligibilidade por parte de receptores forâneos, de outro. Grande sertão: veredas foi vertida em numerosas línguas desde que veio a lume em 1956, mas nem sempre, verdade digase, esse equilíbrio necessário se conservou na medida mais ajustada26. Como modelo de tradução digno de não ser imitado cumpre citar a versão francesa, cujo título é simplesmente Diadorim27 , visto que o tradutor tende aqui a explicar demais os labirintos da prosa de Guimarães Rosa ao leitor estrangeiro. Os esclarecimentos excessivos conseguem, isso sim, a compreensão da obra, mesmo por vezes com indicações óbvias, embora seja à custa de transformar a língua do escritor num francês coloquial que fica longe da sensação de estranhamento que origina a leitura de Grande sertão: veredas. Uma impressão equivalente suscita a versão inglesa do livro, The Devil to Pay in the Backlands, de novo com o título modificado sem razão aparente28 , onde se regularizam de forma injustificável o vocabulário e a sintaxe da obra com falsas correspondências pertencentes ao registo mais convencional do idioma. No ponto contrário em relação às traduções citadas situar-seia a versão espanhola de Grande sertão: veredas, exemplo modelar daquele equilíbrio antes reivindicado entre a singularidade do texto original e a inteligibilidade do texto traduzido29. O acerto primeiro do seu responsável, um critério essencial do princípio ao fim desta versão, é perceber que a assombrosa linguagem de Guimarães Rosa não se submete aos preceitos concertados da Língua Portuguesa e mesmo possui matizes especiais no conjunto da língua literária brasileira. A partir de aí o tradutor para espanhol tenta manter o ar estilístico de Grande sertão: veredas, a utilizar para isso uma estratégia translativa que se estriba em aplicar à Língua Espanhola o mesmo repertório de efeitos expressivos que estão presentes na obra original30. É um verdadeiro trabalho de recriação idiomática em que o leitor da tradução consegue experimentar a mesma sensação de estranhamento perceptível no romance de Guimarães Rosa e, além disso, sem deixar de entender por inteiro a sua mensagem excepcional. Veja-se a forma espanhola de Grande sertão: veredas neste desfecho do monólogo de Riobaldo:
Cierro. Ya ve usted. Lo he contado todo. Ahora estoy aquí, casi un barranquero. Para la

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA vejez voy, con orden y trabajo. ¿Sé de mí? Cumplo. El Río de San Francisco —que de tan grande se comparece— lo que parece es un árbol grande, en pie, enorme... Amable usted me ha oído, mi idea ha confirmado: que el Diablo no existe. ¿Pues no? Usted es un hombre soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. ¡El diablo no hay! Es lo que yo digo, si hubiese... Lo que existe es el hombre humano. Travesía.31

Pode servir como indício da competência do tradutor a resolução que adopta no atinente ao título da obra, desatinadamente alterado, como se viu, no caso das versões francesa e inglesa. A tradução para espanhol do romance intitula-se Gran sertón: veredas, que transmite assim a partir da sua mesma designação, de elevada transcendência semântica, um dos grandes conceitos do livro da mesma maneira que se tinha feito já na versão alemã, publicada com o título original Grande sertão32. É indubitável que o vocábulo sertão, introduzido como neologismo na Língua Espanhola sob a forma sertón, constitui uma holófrase, quer dizer-se, uma palavra que faz referência a uma noção cultural privativa, sem correspondência exacta noutras línguas. A decisão de traduzir tal holófrase nunca permitirá exprimir o amplo sentido que o vocábulo possui na língua a que pertence de forma original, nem tão sequer por meio de uma pormenorizada explicitação, mas existiria ainda um outro desacerto se se decidir a sua substituição por um termo próprio na língua receptora. Efectivamente, a eliminação da palavra sertão representa, em alguma medida, um gesto de desdém escusado diante de um elemento decisivo na obra de Guimarães Rosa. O tradutor espanhol, com a sua resolução para o título do romance, mostra-se consciente disso e reproduz o vocábulo original, a cumprir desse modo um dos requisitos acima enunciados exigíveis para verter a linguagem de Guimarães Rosa noutra língua. Mas nem por essa razão o tradutor esquece o outro aspecto implicado no equilíbrio que antes se reclamou, isto é, a inteligibilidade da obra, já que comenta o significado de sertão, a par de outros termos igualmente susceptíveis de serem conservados, num glossário que aparece nas páginas finais da edição espanhola. É muito provável que o próprio Guimarães Rosa tivesse autorizado esta estratégia translativa que se move alternadamente do respeito à inteligibilidade, pois é a conclusão que se tira do seguinte trecho que inseriu como “Prefácio” anteposto às traduções de contos húngaros realizadas por Paulo Rónai33 , que ele

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considerou, em sentido inverso, inteligíveis mas pouco respeitosas com a substância dos textos originais:
Saudável é notar-se que ele [Paulo Rónai] não pende para a sua língua natal, não imbui de modosde-afeto seus textos, que nem mostram sedimentos da de lá; não magiariza. Antes, é um abrasileiramento radical, um brasileirismo generalizado, em gama comum, clara, que dá o tom. A mim, confesso-o, talvez um pouquinho, quem sabe, até agradasse também a tratação num arranjo mais temperado à húngara, centrado no seio húngaro, a versão estreitada, de vice-vez, contravernacular, mais metafrásica, luvarmente translatícia, sacudindo em suspensão vestígios exóticos, o especioso de traços hungarianos, hungarinos —o ressaibo e o vinco— como o tókai, que às vezes deixa um sobregosto de asfalto. Mesmo à custa de, ou — franco e melhor falando— mesmo para haver um pouco de fecundante corrupção das nossas fórmulas idiomáticas de escrever.34

O desafio de traduzir Guimarães Rosa, modelo proeminente do espírito tão feraz da língua literária brasileira, é complexo demais, com certeza, mas não conduz inevitavelmente ao fracasso35. É necessário aceitar, de resto, que o amplo número de versões dos seus livros noutras línguas, além da sua incontroversa altura estética, contribuiu definitivamente para fortalecer a extensa projecção internacional do seu nome. O importante é estimular o mesmo sucesso exterior da língua literária brasileira através de traduções a diferentes línguas de mais autores em que se torne patente, a todo o transe, o equilíbrio aqui requerido entre a genuinidade expressiva da obra original e a inteligibilidade leitora da respectiva versão. É difícil, com efeito, mas não impossível conceber que a tradução é, primeiro que tudo, um acto de comunicação cultural e de compreensão mútua, embora se vejam de quando em quando experiências surpreendentes no próprio sistema linguístico português que contradizem esse princípio. Por uma parte, as edições brasileiras das obras de Saramago incluem uma breve advertência destinada a expor a vontade terminante do escritor de que as suas obras se difundam no Brasil com ortografia original36. Por outra parte, ao invés, as edições portuguesas de dois autores tão assinaladamente brasileiristas como José Lins do

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Rego ou Graciliano Ramos apresentam profundas mudanças no seu léxico patrimonial, enquanto um outro escritor como Jô Soares, pertencente à actualidade literária, viu publicado em Portugal o seu romance O Xangô de Baker Street37 , há pouco tempo, com divergências mais do que ortográficas que prejudicam o engenhoso jogo idiomático a respeito da modalidade linguística lusitana relevante na versão brasileira. Apesar de tudo afortunadamente Guimarães Rosa, por sua vez, dizia que traduzir é conviver, uma sentença tão bela como verdadeira.

Notas 1 Vid. Carlos Reis. “José Saramago. Contador dos dias”. Jornal de Letras, Artes e Ideias, 671, 3 Julho 1996. 2 Rodrigues da Silva e Ricardo de Aráujo Pereira. “Luiz Pacheco. A velhice do guerrilheiro da escrita”. Jornal de Letras, Artes e Ideias, 703, 24 de setembro de 1997. 3 Cf. Jacques Thiériot. “La traduction du roman portugais”. em VV.AA., Cinquièmes Assises de la Traduction Littéraire (Arles 1988). Arles, Actes Sud, 1989, pp. 202-221. 4 Raul Bopp. Movimentos modernistas no Brasil. Rio de Janeiro, São José, 1966, pp. 82-83. 5 Vid. Jorge Wanderley. A Tradução do Poema: Notas sobre a experiência da geração de 45 e dos concretos. Rio de Janeiro, PUC, 1985. 6 Sol Fuertes, “La lengua del siglo XXI”. El País, Suplemento Babelia. 4 de Octubre de 1997. 7 Cf. Óscar Lopes. “Guimarães Rosa —intenções de um estilo”, em VV.AA., Guimarães Rosa. Lisboa, Instituto Luso-Brasileiro, 1969, p. 31. 8 Apud Curt Meyer-Clason. “Guimarães Rosa e a língua alemã”. Em VV.AA., Guimarães Rosa. Lisboa, Instituto Luso-Brasileiro, 1969, pp. 51-52. 9 Vid. Leodegário A. de Azevedo Filho. “O discurso de ficção em Guimarães Rosa”. Colóquio-Letras, 15, 1973, p. 28. 10 Vid. Inês Oseki-Dépré. “A tradução francesa das Primeiras Estórias de João Guimarães Rosa”. Colóquio-Letras, 87, 1985, p. 44. 11 Luciana Stegagno Picchio. “Guimarães Rosa: le sponde dell’allegria”. Strumenti Critici, IV, 1, 1970, p. 35. 12 Carlos Drummond de Andrade. “Um chamado João”, Correio da Manhã, 22 de Novembro 1967. 13 Vid. Basilio Losada. “Guimarães Rosa y la experimentación idiomá-

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tica en el Brasil: los linderos de la posmodernidad”, em Joaquim Marco, ed., Actas XXIX Congreso del Instituto Internacional de Literatura Iberoamerica, t. III, Barcelona, PPU, 1994, pp. 377-380. 14 "Quando Guimarães Rosa publica em 1946 seu volume Saragana, o Modernismo, até então carente e incompleto na prosa, reencontra o espírito de vanguarda e se propaga coerentemente no plano da ficção. Em 1956, com a dupla presença rosiana, Corpo de baile e Grande sertão: veredas, o Modernismo brasileiro cria definitivamente sua prosa e projeta todo um novo universo ficcional para a literatura do país” (Sílvio Castro, A Revolução da palavra (Origens e estrutura da literatura brasileira moderna), Petrópolis, Vozes, 1976, pp. 219-220). 15 José Carlos de Vasconcelos. “Gostaria de ser um crocodilo...”. Jornal de Letras, Artes e Ideias, 700, 13 Agosto 1997. 16 Vid. Paulo Rónai. “A Fecunda Babel de Guimaraes Rosa e os seus tradutores”. O Estado de São Paulo, Suplemento Literário, 30 Novembro 1968; “Guimaraes Rosa e os seus tradutores”, O Estado de São Paulo, Suplemento Literário, 10 Outubro 1971; “Itinerario de João Guimarães Rosa”, Revista de Cultura Brasileña, 35, 1973, pp. 21-36. 17 Vid. Paulo Rónai. “Unha correspondencia singular”. Grial, 51, 1976, pp. 109-111. 18 Vid. Stephanie Merrin. “In the wake of the word: Translating Guimarães Rosa”. Dispositio, VII, 1982, pp. 209-215. 19 Cf. Isabelle Vanderschelden. “Authority in literary translation: collaborating with the author”. Translation Review, 56, 1998, pp. 22-31. 20 Paulo Rónai. Escola de tradutores. 5ª ed., Rio de Janeiro, Educom, 1976, p. 23. 21 João Guimarães Rosa. João Guimarães Rosa —Correspondência com o tradutor italiano. São Paulo, Instituto Italo-Brasileiro, 1972, p. 24. Certamente Guimarães Rosa nunca poupou louvores, justificados aliás, no atinente à actividade tradutora de Edoardo Bizzarri: “Que nenhum tradutor até aos dias de hoje foi tão euforicamente elogiado pelo autor que traduziu como o foi Edoardo Bizzarri por Guimarães Rosa, é uma verdade tão firme que sobre ela se pode apostar, sem receio, dobrado contra singelo” (José Alves Pires, João Guimarães Rosa —Uma literatura almada, Braga Lisboa, Editorial A. I. - Edições Brotéria, 1993, p. 162). 22 São interessantes de modo muito especial os seguintes contributos: M. Cavalcanti Proença, Trilha do Grande Sertão, Rio de Janeiro, Serviço de Documentação do M.E.C., 1958; Oswaldino Marques, Ensaios Escolhidos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968; Irlemar Chiampi Cortez, “Narración y metalenguaje en Grande Sertão: Veredas”, Revista Iberoamericana, 43, 1977, pp. 199-224; Julio E. Miranda, “Modos, lenguaje y sentido en Gran sertón: veredas, de João Guimarães Rosa”, Revista de Cultura Brasileña, 21, 1967, pp. 161-170. 23 Cf. por exemplo William M. Davis. “Japanese Elements in Grande sertão: veredas”. Romance Philology. 29, 1976, pp. 409-434.

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24 Vid. Vítor Manuel Aguiar e Silva. “Visão do mundo e estilo em Grande sertão: veredas”, em VV.AA., Guimarães Rosa. Lisboa, Instituto Luso-Brasileiro, 1969, pp. 76-77. 25 Foi Paz-Andrade, polígrafo galego, quem pôs de relevo essa dimensão da linguagem de Guimarães Rosa: “Elementos galegos que perderan vixencia no portugués, maormente no literario, ou que dentro da mesma área da comunidade lingüística viñeran a menos, se non ficaban esmorecidos, recobran a súa plenitude ou a súa pristinidade na obra rosiana. Regroman nos tecidos do idioma con insospeitados valores expresivos, con beleza reconquerida” (Valentín Paz-Andrade, A galecidade na obra de Guimarães Rosa, Sada-A Coruña, Ediciós do Castro, 1978, p. 84). Cf. ainda Salvador Lorenzana, “Un mergullo pasadío na obra de Guimarães Rosa”, Grial, 98, 1987, pp. 433-443; Eduardo Moreiras, “Vivencias galegas nas narracións de Guimarães Rosa”, Grial, 48, 1975, pp. 168-174. 26 Vid. Pilar Gómez Debate. “Notas sobre las versiones y traducciones de Grande sertão: veredas”. Revista de Cultura Brasileña, 21, 1967, pp. 188-208. 27 João Guimarães Rosa. Diadorim. Paris, Editions Albin Michel, 1965. Trad.: Jean-Jacques Villard. 28 João Guimarães Rosa. The Devil to Pay in the Backlands. New York, Alfred A. Knopf Publisher, 1963. Trad.: James L. Taylor e Harriet Onis. 29 João Guimarães Rosa. Gran sertón: veredas. Madrid, Alianza Editorial, 1999. Trad.: Ángel Crespo. A 1ª ed. foi publicada em Barcelona, por Editorial Seix Barral, no ano 1965. Vid. também Ángel Crespo, “Breve antología de Guimarães Rosa”, Revista de Cultura Brasileña, 21, 1967, pp. 107-160. Há ainda mais traduções de Guimarães Rosa para espanhol: Primeras historias, Barcelona, Seix Barral, 1982. Trad.: Virginia Fagnani Wey. A 1ª ed. foi publicada em 1969; Manolón y Miguelín, Madrid, Ediciones Alfaguara, 1981. Trad.: Pilar Gómez Bedate; Noches del sertón, Barcelona, Editorial Seix Barral, 1982. Trad.: Estela dos Santos; Urubuquaquá, Barcelona, Editorial Seix Barral, 1982. Trad.: Estela dos Santos. 30 Ángel Crespo. “Nota del traductor”, em João Guimarães Rosa, Gran sertón: veredas. Madrid, Alianza Editorial, 1999, pp. 15-18. 31 Guimarães Rosa. Gran Sertón:..., p. 605. 32 João Guimarães Rosa. Grande sertão. Colonia, Kiepenheur & Witsch, 1964. Trad.: Curt Meyer-Clason. 33 João Guimarães Rosa. “Prefácio”, em Paulo Rónai, Antologia do conto húngaro. 3ª ed., Rio de Janeiro, Artenova, 1975. 34 Apud Paulo Rónai. A tradução vivida. Rio de Janeiro, Educom, 1976, p. 114. 35 Cf. Haroldo de Campos. “Da tradução como criação e como crítica” e “A linguagem do Iauaretê”, em Metalinguagem & Outras Metas. 4ª ed. revista, São Paulo, Editora Perspectiva, 1992, pp. 31-48 e pp. 57-63. 36 Cf. Levantado do Chão. Lisboa, Editorial Caminho, 1980; São Paulo,

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Difel, 1982. Memorial do convento, Lisboa, Editorial Caminho, 1982; São Paulo, Difel, 1983; Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 7ª ed., 1989; São Paulo, Círculo do Livro, 1987. O ano da morte de Ricardo Reis, Lisboa, Editorial Caminho, 1984; São Paulo, Companhia das Letras, 1989. A jangada de pedra, Lisboa, Editorial Caminho, 1986; São Paulo, Companhia das Letras, 1989. 37 Jô Soares. O Xangô de Baker Street. Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 1997; Lisboa, Editorial Presença, 1997.

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Parte II
Comunicações especiais

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Análise contrastiva da variedade da Língua Portuguesa no Brasil e em Portugal
Alessandra Dias Gervasoni, da Universidade de Assis, SP
Em homenagem ao magnífico lingüista Eugenio Coseriu

Introdução Propõe-se, na presente comunicação, apresentar a Língua Portuguesa ao mesmo tempo na sua unidade e na sua diversidade. Para tanto, aplicar-nos-emos os postulados teóricos básicos do texto “Sistema, Norma e Fala”, de E. Coseriu, ao nosso corpus, constituído por estruturas extraídas da prática cotidiana de comunicação entre os falantes. Existem diferenças entre o português de Portugal e o do Brasil. Essas diferenças abrangem todos os aspectos da língua - fonética, léxico, morfologia e sintaxe. A própria ortografia não está ainda totalmente unificada. Assim, cada uma das duas formas que toma a língua escrita e falada deve ser considerada, no seu domínio geográfico próprio, como a única válida e “correta”. Há portanto duas normas do português, cada uma das quais forma um sistema autônomo e coerente. Apesar de todas essas diferenças, serão analisados somente os níveis morfológico e sintático. 1. Pressupostos Teóricos Segundo Saussure, a língua é uma instituição social, exterior ao indivíduo, a este não cabe nem criá-la nem modificá-la, uma vez que existe como um contrato estabelecido entre os vários membros de uma mesma comunidade. Somente com o auxílio da aprendizagem, e, de maneira lenta, a criança vai aprendendo o

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funcionamento da linguagem. O estudo da linguagem abrange dois aspectos fundamentais: um, tem por objeto a língua, refere-se àquilo que é essencial e que apresenta o caráter social da linguagem, sendo de natureza puramente psíquica. O outro aspecto, por sua vez, já tem por objeto a parte individual, referindo-se à fala, à fonação propriamente dita e psicofísica. Essas duas modalidades da linguagem, denominadas língua e fala, são interdependentes. O lingüista romeno Eugenio Coseriu propôs uma divisão tripartida segundo o modelo abaixo (1979, p.56), por achar insuficiente a bipartição saussuriana: Parole uso langue (norma intermediária) (sistema funcional) A divisão de Coseriu vai do mais concreto (parole) ao mais abstrato (langue), passando por um grau intermediário: a norma. Com a divisão tripartida, ficam melhor esclarecidos os fundamentos dos vários aspectos, tendências e orientações da lingüística. Assim, esta pode dedicar-se à análise do falar – teoria da linguagem – ou ao estudo das línguas – lingüística histórica. Ao considerar a linguagem, pode estudar e valorizar a originalidade expressiva do falante – estética –, pode estudar a norma – história da cultura –, ou o sistema gramática pura. Portanto, a única realidade lingüística é o falar concreto (= linguagem). Nesse falar concreto, nessa atividade lingüística Coseriu distingue gradualmente três conceitos já citados: Fala (ou falar): atos de criação inédita por corresponder a intuições inéditas, mas (são) ao mesmo tempo – dada a condição essencial comunicativa da linguagem – atos de recriação; não são invenções ex novo e totalmente arbitrárias do indivíduo falante, mas estruturam-se sobre modelos precedentes. Norma: o falante utiliza modelos, formas ideais que encontra no que chamamos de ‘língua anterior’ (sistema precedente de atos lingüísticos). Ou seja, o indivíduo cria sua expressão numa língua, fala uma língua, realiza concretamente, na sua fala, moldes, estruturas da língua da comunidade. Num primeiro grau de formalização, essas estruturas são simplesmente normais e tradicionais na comunidade, constituem o que chamamos de norma. Sistema: mas num plano de abstração superior, derivam-se delas mesmas uma série de elementos essenciais e indispensáveis, de oposições funcionais: o que chamamos de sistema.

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2. Análise contrastiva Resumindo, o sistema é um conjunto de oposições funcionais; a norma é a realização “coletiva” do sistema, a qual contém o próprio sistema mais os elementos funcionalmente “não-pertinentes”, mas normais no falar de uma coletividade; o falar é a realização concreta da norma que contém a própria norma (conseqüentemente também o sistema) mais a originalidade expressiva dos falantes. Com respeito especificamente à Língua Portuguesa, o “sistema” é o aspecto de unificação da língua e a “norma”, o aspecto de diversificação da mesma. O estabelecimento de uma norma lingüística parte geralmente da consideração das variedades literárias e socioculturalmente mais prestigiadas da língua em causa. Porque não é possível legislar sobre a evolução lingüística, que se tem de aceitar como um fato com suas conseqüências, torna-se naturalmente inevitável estabelecer a norma portuguesa e a norma brasileira. Segundo Coseriu, “na linguagem é importante o pólo da variedade, que corresponde à expressão individual, mas também o é o da unidade, que corresponde à comunicação inter-individual e é garantia de intercompreensão. A linguagem expressa o indivíduo por seu caráter de criação, mas expressa também o ambiente social e nacional, por seu caráter de repetição, de aceitação de uma norma, que é ao mesmo tempo histórica e sincrônica: existe o falar, porque existem indivíduos que pensam e sentem, e existem ‘línguas’ como entidades históricas e como sistemas e normas ideais, porque a linguagem não é só expressão, finalidade em si mesma, senão também comunicação, finalidade instrumental, expressão para outro, cultura objetivada historicamente e que transcende ao indivíduo” (La geografía linguística). Não menos importante é o objetivo prático, ou seja, o de elaborar um trabalho útil tanto para o professor como para o aluno, um trabalho que possa demonstrar – através de alguns exemplos – as diferenças da Língua Portuguesa de um país para outro, e a praticidade que a teoria funcionalista permite ao seu estudo. Através da análise, quando um exemplar particular, uma palavra, uma forma ou uma grafia pertencem exclusivamente a uma das duas normas, indicamo-lo pelas abreviaturas P ou B, demonstrando a variedade da Língua Portuguesa na Europa e no Brasil. 2.1. Emprego dos pronomes de tratamento da 2ª pessoa O tratamento é o modo pelo qual aquele que fala se dirige ao

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interlocutor (ou aos seus interlocutores). O português tinha originalmente um sistema de tratamento idêntico ao do francês, baseado na oposição de tu e vós. A partir do século XVI um novo sistema veio sobrepor-se a este: o tratamento da 3ª pessoa. Usou-se nessa altura: Vossa Senhoria, Vossa Mercê e outras formas do mesmo tipo. Daqui resultou, na língua moderna, um sistema complexo que, além disso, não é o mesmo em Portugal e no Brasil. Exemplos: Tu foste à Universidade. (P) Tu: muito vivo e geral como tratamento familiar. Vós: sobrevivência literária; fora de uso da língua falada, na maior parte do País. Você foi na Universidade. (B) Tu: já não existe senão no extremo sul e no extremo norte. As formas te, ti, contigo ouvem-se no entanto na linguagem familiar, misturadas com você. Vós: como em Portugal, desapareceu completamente da língua falada. No Brasil, tu e vós continuam evidentemente a pertencer à tradição literária. Segundo a Gramática Brasileira, você é uma forma de tratamento indireto de 2ª pessoa que leva o verbo para a 3ª pessoa. “Em quase todo território brasileiro, foi ele substituído por você como forma de intimidade, como tratamento de igual para igual ou de superior para inferior...” (Celso Cunha & Lindley Cintra, pág. 294). 2.2. Utilização e colocação das formas casuais dos pronomes pessoais Eu vi ele na rua. (B) Eu vi-o na rua. (P) Os pronomes átonos o, a, os, as têm um emprego mais limitado no Brasil do que em Portugal. Mas a maneira mais comum de evitar os pronomes átonos o(s), e a(s) consiste em substituí-los pelas formas tônicas ele(s) e ela(s), como o exemplo citado acima. Embora esta construção tenha raízes antigas no idioma, pois se documenta em escritores portugueses dos séculos XIII e XIV, deve ser hoje evitada. Segundo a Gramática Brasileira, o pronome ele, no português moderno só aparece como objeto direto quando precedido de

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todo ou só (adjetivo) ou se adotado de acentuação enfática, em prosa ou verso: “Só eles conservam o português”. Diz-se e escreve-se assim no Brasil: “Me parece que...” “Se sentou...” Segundo Celso Cunha e Lindley Cintra, a colocação do pronome átono não está incorreta, pois em relação ao verbo, o mesmo pode estar enclítico, proclítico e mesoclítico. Mas, sendo o pronome átono objeto direto ou indireto do verbo, a sua posição lógica normal é ênclise. Eu me calei. (B) 2.3. Funções do pronome se O autor Evanildo Bechara cita três funções sintáticas: 1) sujeito de infinitivo (com auxiliares causativos, mormente deixar): Deixou-se ficar à janela (B e P). 2) objeto direto (com verbo transitivo direto na voz reflexiva): Ele se feriu. (B) Ele feriu-se. (P) 3) objeto indireto (com verbo transitivo indireto na voz reflexiva, ou com verbo acompanhado de dois complementos): Elas se correspondem freqüentemente. (B) Elas correspondem-se freqüentemente. (P) Pode ainda o pronome se juntar-se a verbos que indicam: 1) sentimento: admirar-se, esquecer-se, lembrar-se, queixarse, atrever-se, etc. 2) movimento ou atitudes da pessoa em relação ao seu próprio corpo. Exemplos: João se levantou (B) – movimento João levantou-se (P) – movimento Desta forma, o uso brasileiro está incorreto, pois o pronome se junta-se a um verbo de movimento (levantar). Enfim, o uso característico do português do Brasil, ou seja, o lugar do pronome é constante qualquer que seja a construção da frase. 2.4. Utilização de preposições O na é amálgama de em + a. Só deve ser utilizado no espaço e na noção, por exemplo, “O jantar está na mesa” (B e P). A preposição em amalgama-se com artigo definido (na, no, etc.) e indefinido (num, etc.). Exemplos: Fui na cidade. (B) – De acordo com a Gramática Tradicio-

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nal, está incorreto. Fui à cidade. (P) 2.5. Construção aspectual Ela estava brincando. (B) Ela estava a brincar. (P) . A construção de estar (ou andar) + gerúndio, preferida no Brasil, é a mais antiga no idioma e ainda tem vitalidade em dialetos centro-meridionais de Portugal (principalmente no Alentejo e no Algarve), nos Açores e nos países africanos de Língua Portuguesa. No português padrão e nos dialetos setentrionais de Portugal predomina hoje a construção, de sentido idêntico, formada de estar (ou andar) + preposição a + infinitivo, que aparece, uma vez por outra, na pena de escritores brasileiros. Estar + gerúndio foi o uso corrente em Portugal até séc. XIX. Só a partir de então surge estar + a + infinitivo, porém, os brasileiros não se modernizaram, pois continuam até hoje usando o gerúndio. 2.6. Morfologia do Verbo na linguagem popular do Brasil Na linguagem popular do Brasil a morfologia do verbo sofreu grandes simplificações. Apenas subsistem as primeiras e terceiras pessoas do singular e do plural (o tratamento por você, etc., torna inúteis as segundas pessoas). As desinências foram simplificadas, quer pelo desgaste fonético (queda do r final, por exemplo cantá por cantar), quer pela unificação dos paradigmas (supressão da desinência –mos da primeira pessoa do plural). Por exemplo, a conjugação simplificada do verbo devê (dever) no presente do indicativo e do conjuntivo será: eu devo eu deva ele deve ele deva nós deve nós deva eles deve eles deva (indicativo) (conjuntivo) 3. Conclusão A norma de Portugal é fácil de definir, pois é objeto de um vasto consenso e foi estudada muitas vezes. A do Brasil, pelo contrário, põe um problema específico, pois está longe de ser universalmente reconhecida pelos próprios brasileiros. Enquanto no Brasil não se estabeleceu um consenso como em Portugal, o enunciado da

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norma brasileira será, por vezes, necessariamente vago e impreciso. Com relação ao extensíssimo território brasileiro da Língua Portuguesa, a insuficiência de informações rigorosamente científicas sobre as diferenças de natureza fonética, morfo-sintática e lexical que separam as variedades regionais nele existentes não permite classificá-las em bases semelhantes às que foram adotadas na classificação dos dialetos do português europeu. Estas características, são do nosso ponto de vista, as coordenadas sociais e culturais que não só os justificam, mas também os condicionam. Porque, em verdade, tudo faz crer que estamos no limiar de uma era sociopolítica em que as grandes línguas nacionais tendem a apresentar progressivamente uma coesão mais profunda, uma unidade superior, fruto da disseminação do ensino e, sobretudo, da consciência cada vez mais viva da nacionalidade. Nossas aventuras linguísticas pelo português terminam aqui. Nossa viagem para dentro do túnel definitivamente começou somente quando constatamos que o português, como termo genérico, poderia apresentar ramificações dentro do túnel: ou o português europeu, ou o português que falamos hoje no Brasil. Realizamos, então, resumidamente, um percurso pelo sistema morfológico, sintático, etc., procurando resgatar as principais modificações que o português teria sofrido a partir do latim. Do túnel, entretanto, não poderemos sair. Nossa língua-mãe, o português, dentro dele nos aprisiona e nos cativa; através dela, essa “última flor do Lácio, inculta e bela”, nos expressamos, falando ou escrevendo. E além disso, quão estimulante é a simples constatação de que, em um futuro remoto, nós também seremos visitados por novos aventureiros, mas, como nós, eterno apaixonados pelo funcionamento desse sistema de comunicação. Presos e cativos estamos, sim, mas livres para variar e mudar esse sistema em novas formas e novas funções.
Referências bibliográficas BECHARA, Evanildo (1976). Lições de Português pela análise sintática. Rio de Janeiro, Grifo. COSERIU, Eugenio (1979). Teoria da linguagem e lingüística geral. Rio de Janeiro: Presença. COSERIU, Eugenio (1980). Lições de lingüística geral. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico S/A. CUNHA, Celso & CINTRA, Lindley (1985). Nova Gramática do português contemporâneo. 2ªed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira.

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SAUSSURE, Ferdinand (1972). Curso de lingüística geral. 4ªed., São Paulo, Cultrix.

O autor Eugenio Coseriu afirma que a possibilidade e a necessidade de distinguir entre norma e sistema surgiu-lhe da própria obra de Saussure e se propõe voltar a ela para encontrar a origem das dificuldades, contradições e incoerências contidas nos vários enunciados acerca da língua e da fala. Pretende nela encontrar também possíveis sugestões que levem a uma solução mais aceitável do problema. Não atribui à doutrina de Saussure uma incoerência fundamental, mas acha que sua concepção oferece, sim, dificuldades de interpretação, pois não foi suficientemente desenvolvida. Podemos notar que a norma brasileira distingue extremamente da linguagem escrita padrão culta, enquanto a norma portuguesa está mais próxima dessa linguagem.

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José de Alencar e a língua nacional
Ana Lucia de Souza Henriques, da UERJ
A necessidade de consolidação ou de preservação de culturas nacionais levou escritores do Romantismo a valorizar determinados elementos que queriam como típicos de seus países, dentre eles a língua nacional. A conquista da independência fez com que nações jovens, como o Brasil, defendessem a idéia da existência de uma cultura própria. O movimento romântico chega ao nosso país na década seguinte à da independência. A nação recém-independente começa a pensar a sua história, a resgatar suas tradições, buscando-as por isso em suas origens. Havia, pois, a necessidade de consolidar a cultura nacional, de fundar uma literatura própria, como também de afirmar, frente a Portugal principalmente, o espírito nacional brasileiro. O momento histórico-social de então tem, portanto, extrema relevância para que se compreenda o sentimento nacionalista que iria surgir, acompanhado da importância de se criar a imagem de um país coeso, unido nacionalmente. Após a conquista da independência política, cabia lutar pela liberdade nas artes. Nossos escritores desejavam construir uma literatura que estivesse em harmonia com a natureza americana, que servisse como um instrumento de valorização do país. Na verdade, o que pode ser observado nesse período é a intensificação de um processo de afirmação de nossa nacionalidade, cuja origem é anterior ao Romantismo e à independência do país. Dessa forma, o início desse processo surge ainda no Brasil colonial. Suas sementes vão sendo plantadas pelos árcades brasileiros, tanto neoclássicos quanto pré-românticos. Mesmo ainda estando presos

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a moldes universalistas, esses escritores voltaram-se para temas e sentimentos nossos. (Cf. CÂNDIDO, 1971, vol. II, p. 9-10) Durante toda sua carreira, José de Alencar valorizou a literatura nacional. Em prefácios, posfácios, cartas de advertência, deixaria sempre clara a preocupação em propagar e defender suas idéias em relação ao rumo a ser tomado pela literatura brasileira, o que conseqüentemente significou também a defesa do estilo adotado por ele em suas obras. Ainda jovem, fala sobre a literatura nacional nascente nas críticas que tece ao poema épico indianista A confederação dos tamoios, de Gonçalves de Magalhães, publicado em 1864 às expensas do imperador D. Pedro II. Magalhães pretendia que seu texto fosse considerado o poema épico nacional por excelência, pois glorificava o passado histórico da nação e o sentimento antilusitano. Alencar causou uma polêmica ao questionar, em suas Cartas sobre a confederação dos tamoios, a inadequação do poema de Magalhães em relação ao que ele se propusera cantar. Essas críticas se referem a um poema que se queria nacional, não a um poema qualquer. E é, sob esse ponto de vista, que dirige suas críticas, enfatizando constantemente a idéia de que a literatura nacional nascente deveria estar de acordo com a nossa terra e nossa gente. (ALENCAR, vol. IV, p. 914) Na concepção alencariana a respeito da maneira apropriada para cantar a paisagem e o povo brasileiros de uma forma original mais adequada aos tão buscados traços nacionais, podese observar que não caberia o emprego de modelos pré-estabelecidos, nem tampouco a repetição pura e simples de costumes e vocábulos indígenas. Assim, nas Cartas sobre a confederação dos tamoios, Alencar não apenas critica o poema épico de Magalhães, como já dissemos, mas também vai, à medida que fundamenta suas críticas, fornecendo dados a respeito do que acreditava ser necessário à criação de uma obra dentro de um estilo que pudesse ser típico da literatura nacional nascente. Essa sua maneira de pensar levou José de Alencar a considerar o romance a forma apropriada para escrever seu poema nacional. Iracema é, então, escrito nessa nova forma por ele sugerida, e Alencar, servindo-se da temática do indianismo, participa conscientemente da fundação de uma literatura nacional que retrata o país, fazendo-o de uma forma original e valendo-se de uma linguagem que acredita ser bem próxima ao português falado no Brasil.

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A originalidade da língua e do estilo alencarianos foi motivo de crítica variada. O escritor não deixou de falar em defesa de seus romances, apresentando argumentos bem fundamentados, típicos de quem estudara o assunto de que tratava. Segundo ele, suas opiniões a respeito de gramática fizeram com que fosse tomado tanto como um inovador quanto como um escritor incorreto e descuidado. (ALENCAR, 1958, vol. III, p. 312) Assim, em sua resposta à crítica que o literato português Pinheiro Chagas fez sobre a falta de correção na linguagem portuguesa em Iracema, o escritor cearense refuta as acusações afirmando que não se tratava de uma mania de nossos escritores querer tornar o “brasileiro” uma língua diferente do velho português. (ALENCAR, 1958, vol. III, p. 314) Segundo Alencar, a origem das mudança estava no falar de um povo que, além de separado politicamente, encontrava-se em um continente de características próprias. Mais tarde, em 1872, em Bênção paterna, ensaio que antecede o primeiro capítulo do romance Sonhos d’ouro, Alencar perguntaria: O povo que chupa o caju, a manga, o cambucá e a jabuticaba, pode falar uma língua com igual pronúncia e o mesmo espírito do povo que sorve o figo, a pêra, o damasco e a nêspera? (ALENCAR, 1959, vol. I, p. 702) Essas transformações na linguagem seriam, segundo sua maneira de pensar, conseqüência de vários fatores combinados, como as condições climáticas, a contribuição dos primitivos habitantes e a influência recebida pelos estrangeiros que aqui viviam. Todos, enfim, participariam desse processo, que ele considerava um aperfeiçoamento, uma adequação da língua ao espírito do povo. José de Alencar revela no estilo por ele utilizado em Iracema que suas pesquisas abrangeram também o campo da linguagem, pois o preocupavam questões como o vocabulário, a ortografia, a acentuação e a gramática da Língua Portuguesa falada no Brasil, a língua nacional. Após tecer considerações acerca de algumas das escolhas lingüísticas que faz, o escritor deixa evidente sua determinação em procurar escrever de uma maneira mais adequada à língua nacional. Uma das questões de que trata é a do pronome se, que, em suas palavras, zune em torno da frase como uma vespa teimosa. (ALENCAR, 1958, vol. III, p. 315) Alencar demonstra ter pesquisado o tema, pois afirma que procurara e encontrara na gramática uma solução para o uso adequado de pronomes. Co-

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menta o assunto e, em seguida, passa a tratar da colocação dos pronomes pessoais oblíquos átonos. Sobre eles, escreve no Pósescrito de Iracema:
É também matéria de escândalo a colocação dos pronomes pessoais que servem de complemento ao verbo, me, te, lhe e se. Entendem que nós os brasileiros afrancesamos o discurso, fazendo em geral preceder o pronome, quando em português de bom cunho a regra é pospor o pronome. Tal regra não passa de arbítrio que sem fundamento algum se arrogam certos gramáticos. Pelo mecanismo primitivo da língua, como pela melhor lição dos bons escritores, a regra a respeito da colocação do pronome e de todas as partes da oração é a clareza e elegância, eufonia e fidelidade na reprodução do pensamento. (ALENCAR, 1958, vol. III, p. 316-317)

Em relação a isso, no livro a Gramática de José de Alencar, Cândido Jucá Filho tece vários comentários e aponta, em trechos retirados de obras diversas do autor de Iracema, a maneira pela qual os pronomes foram ou deixaram de ser empregados. Gladstone Chaves de Melo, em Alencar e a “língua brasileira”, afirma que Alencar colocou pronomes regular (aqui a palavra tem sentido gramatical lusitano) e irregularmente, levado pela eurritmia da frase. Gladstone chama a atenção para o fato de o escritor ter feito mudanças em relação à posição de pronomes na segunda edição de Iracema, nas quais colocações regulares passaram a ser irregulares. (MELO, 1972, p. 104) Em seu ensaio Alencar e língua do Brasil, Evanildo Bechara ressalta que o autor de Iracema, ao falar em defesa de seus usos lingüísticos, faz antecipações que já apontavam para estudos científicos da língua que viriam a ser realizados anos mais tarde. Comentando a atualidade das afirmações de Alencar, Bechara cita Said Ali e comprova a grande semelhança existente entre o que dissera o autor de Iracema e o que diria, anos mais tarde, esse renomado filólogo. Consideramos ainda relevantes os comentários de Cândido Jucá sobre os recursos lingüísticos utilizados por Alencar quando procura mostrar a forma com que o estrangeiro fala a Língua Portuguesa. Devemos entender por estrangeiro todo aquele que

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não tem o português como língua-mãe. Daí o índio em Alencar também demonstrar certa dificuldade em se expressar num idioma que não é o seu. Sobre essa questão, diz o crítico:
O Índio nem sempre se ajeita em usar, falando de si, os pronomes da primeira pessoa. Exprime-se como as crianças, ainda não adestradas, na terceira pessoa: “– A filha de Araquém é mais forte que o chefe dos guerreiros – disse Iracema travando da inúbia. – Ela tem aqui a voz de Tupã, que chama seu povo” (Iracema, p. 41.). Ou seja: “– Eu sou mais forte que o chefe dos guerreiros. Eu tenho aqui a voz de Tupã, que chama seu povo”.

Um outro recurso lingüístico comentado por Cândido Jucá é o da utilização das formas depoentes dos verbos, segundo o crítico, Alencar as adotava para conseguir um tom estranhável ou solene, de prática de estrangeiros, ou de linguagem envelhecida: O irmão de Iracema anuncia que é chegado aos campos dos Tabajaras”. (Iracema, p. 48) Cândido Jucá também comenta o fato de Alencar ter inventado palavras, ter introduzido palavras novas e ter feito com que algumas outras voltassem à circulação. Dentre os vários vocábulos citados pelo crítico, citemos, por exemplo, o verbo onomatopaico rugitar, que, segundo Cândido, foi introduzido pelo autor de Iracema. Este verbo, de acordo com o que diz, surgiu do termo latino rugitus, que significa particularmente o borborigmo (burburinho), ou o roncar do ventre. (JUCÁ, 1966, p. 118) Ainda a respeito da seleção vocabular presente na obra alencariana, Gladstone Chaves de Melo ressalta o uso de tupinismos e brasileirismos, apresentando noventa e oito exemplos colhidos apenas em Iracema. Constam dessa seleção palavras como carnaúba (Iracema, p.1), graúna, jati, tabajara (Iracema, p. 5), cauim (Iracema, p. 272), ubiratã (Iracema, p. 71), tacape, araçóia, jenipapo, mandioca (Iracema, p. 133), zabelê (Iracema, p. 93), dentre outras. Com relação ao Português do Brasil, Alencar também chama a atenção para o gênio musical do povo brasileiro, ressaltando que esse era o fator responsável pela maior sonoridade e brilho do idioma aqui falado. Ao comentar o estilo de Alencar, Gladstone Chaves de Melo afirma que quem lê com atenção e com a alma

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os escritos literários de Alencar sente para logo a música de sua frase. (MELO, 1972, p. 58) José de Alencar diria que em Iracema seriam encontradas suas idéias sobre literatura nacional e também a poesia inteiramente brasileira, haurida na língua dos selvagens. (ALENCAR, 1958, vol. III, p. 307) A respeito da maneira em que deveria ser expressa a língua dos aborígenes, diz Alencar:
Sem dúvida que o poeta brasileiro tem de traduzir em sua língua as idéias, embora rudes e grosseiras, dos índios; mas nessa tradução está a grande dificuldade; é preciso que a língua civilizada se molde quanto possa à singeleza primitiva da língua bárbara; e não represente as imagens e pensamentos indígenas senão por termos e frases que ao leitor pareçam naturais na boca do selvagem. O conhecimento da língua indígena é o melhor critério para a nacionalidade da literatura. Ele nos dá o verdadeiro estilo, como as imagens poéticas do selvagem, os modos de seu pensamento, as tendências de seu espírito, e até as maiores particularidades de sua vida. É nessa fonte que deve beber o poeta brasileiro; é dela que há de sair o verdadeiro poema nacional, tal como eu o imagino. Cometendo, portanto, o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realizar as idéias que me flutuavam no espírito, e não eram ainda plano fixo; a reflexão consolidou-as e robusteceu. (ALENCAR, 1958, vol. III, p. 307)

Após mencionar que não conseguira realizar em versos a obra desejada, Alencar justifica a sua opção pela prosa, em parte pelo fato de ela oferecer maior elasticidade, o que, segundo afirma, facilita o emprego de imagens indígenas. (ALENCAR, 1958, vol. III, p. 307) Dessa forma, podemos observar que, em Iracema, ele se preocupa com a questão da autenticidade em uma obra que deseja adequada ao que o país tem de mais tipicamente seu. Logo, procura utilizar uma linguagem que acredita ser brasileira como um importante elemento marcador de nacionalidade para cantar nossas origens em seu poema nacional.

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Referências bibliográficas ALENCAR, José de. Obras completas. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958/1960. 4 v. BECHARA, Evanildo. José de Alencar e a língua do Brasil. In: MATTOS, Elsa Savino de et alii, eds. Linguagem. Niterói: Ceuff, n. 1, 1978, p. 105-22. CÂNDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. São Paulo: Martins, 1971. v. 2. CASTELLO, José Aderaldo, org.. Textos que interessam à história do romantismo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1961. COUTINHO, Afrânio. Ainda e sempre a língua brasileira. In:––. Impertinências. Niterói: EdUFF, 1990, p. 165-205. JUCÁ (filho), Cândido. A gramática de José de Alencar. Rio de Janeiro: Colégio Pedro II, 1966. MELO, Gladstone Chaves de. Alencar e a “língua brasileira”. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1972. SILVA NETO, Serafim da. Introdução. In: ––. História da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1970, p. 13-53.

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Duarte Nunes do Lião e a saudade do latim
Antônio Martins de Araujo, da ABF e UFRJ. 1. A querela entre conservadores e inovadores Recuemos à Paris de 1529. Nesse ano, o livreiro-editor francês Geofroy Rory publicou uma obra sua intitulada Champ fleury, que deflagrou uma verdadeira revolução na ortografia francesa. A fim de evitar a algaravia em que se constituíra a escrita medieval daquele idioma, Tory propôs tirar partido dos recursos aportados pela incipiente caixa de tipos móveis da imprensa para melhorar e simplificar a escrita daquele idioma. Suas lúcidas sugestões caíram logo na aceitação geral e se incorporaram aos usos do francês escrito de então. Abriram caminho principalmente para que os gramáticos e os ortógrafos de seu tempo, como Dubois, Louis Meigret e Jacques Peletier du Mans, estabelecessem o formato de uma das mais estáveis ortografias românicas. Não obstante o sucesso que alcançaram esses primeiros ajustes ortográficos do francês quinhentista, como era de esperar-se nesses casos, encontraram eles sérias resistências, como as de Robert Estienne, impressor do rei, que era a favor da ortografia tradicional de base latina, com um número enorme de grafemas sem qualquer valor fonológico. Segundo a obra do doutor Kukenhein em que colhemos as informações acima1 , é grande o interesse de filólogos italianos, franceses e espanhóis, principalmente nos séculos XV e XVI, em estabelecer as normas ortográficas dessas três línguas vulgares em face do latim. Em pouco mais de dois séculos, esse tema ensejou cerca

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de 76 obras e documentos afins de 60 filólogos italianos, 61 outras de 42 filólogos franceses, e 39 outras de 35 filólogos espanhóis. Não é de admirar tão prolífica fortuna crítica do tema ortografia naqueles dois séculos, justamente quando estava em jogo o embate entre a necessidade da racionalização da escrita desses idiomas em face das inúmeras transformações por que passaram, e o ideal do retorno às fontes greco-romanas pregado pelo Renascimento na Europa Ocidental, a partir do movimento que, nesse sentido, partiu da Itália quatrocentista. Para a análise dos dados e para o esboço das conclusões a que chegaremos, contentar-nos-emos com nossas duas primeiras gramáticas, a de Fernão de Oliveira2 e a de João de Barros3 , e com nossos dois primeiros tratados de ortografia, o de Pêro de Magalhães de Gandavo4 e o de Duarte Nunes do Lião5 . A seleção dos vocábulos foi feita a partir dos vocábulos com consoantes em posição implosiva medial encontrados no tratado desse último ortógrafo. O interesse principal desse tema para nós reside no fato de que o suruabácti de apoio a essas consoantes no uso oral distenso brasileiro do idioma comum, transforma em sobredáctilos ou biesdrúxulos trissílabos propararoxítonos, como técnica e rítmico; ou deslocam para a nova sílaba a subtônica de palavras, como a de abissolutamente. Esse dengue reflete-se no uso literário, como nas quatro sílabas da palavra ignóbil, destes versos do épico I Juca Pirama, de nosso poeta maior: “Contudo os olhos de ignóbil pranto / Secos estão; / Mudos os lábios não descerram queixas / Do coração.”6 2. O corpus em face das metas E por que estes não outros? Além do valor testemunhal de suas obras fundadoras num século de profundas mudanças por que passou o português, poder-se-á lembrar, entre outras razões, as que ora apresentamos. Fernão de Oliveira, “um dos gramáticos mais originais (em certo sentido o mais original” e “o mais importante foneticista da Renascença na România”, segundo Eugênio Coseriu7 , pela sua moderna compreensão da mudança lingüística explicitada neste passo: “e muy poucas [são] as cousas que duram por todas as idades em hu) estado, quanto mais as falas que sempre se conformão cõ os conçeitos ou os entenderes, juizos e tratos dos home)s: estes

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home)s entendem, julgão e tratão por diversas vias e muytas, as vezes segundo quer a neçessidade, as vezes segundo pedem as inclinações naturaes.”8 Quanto a João de Barros, já bastaria sua preocupação em criar um sistema próprio de acentuação para refletir o timbre das vogais de seu tempo. Muito mais do que mero continuador da Gramática de Antônio de Nebrija em Portugal, valha-nos, por agora, esta reflexão de Leonor Buescu sobre a obra polimorfa do também novelista e poeta JB:
Para além e acima do historiador, do filósofo, do pensador, do crítico da sociedade e do homem do Paço, está o sopro renascentista que condicionou a Gramática no seu conjunto pedagógico-didático e fez do seu autor um dos mais relevantes espíritos do Humanismo português.9

Em relação à de Barros e de Oliveira, é reduzida a bagagem de Pero de Magalhães de Gândavo. Sua inserção, todavia, aqui também se impõe, por sua nítida percepção da interação pragmática entre a pronúncia e a escrita das palavras, consubstanciadas neste passo:
[...] com saberem [os Portugueses] escrever, saberião bem pronunciar os vocábulos, & com os saberem bem pronunciar, ficaria a mesma lingua parecendo melhor aos naturaes que a professam. Por onde não avia de aver pessoa que se prezasse de si, que não trabalhasse por saber algu) latim, que nisso consiste o falar bem Portugues. e desta maneira facilme)te euitarião todos estes erros, e serião perfectos em guardar a orthographia cõforme á ethymologia e pronunciação dos vocabulos.10

Finalmente, a Orthographia de Duarte Nunes revela-nos um homem dividido entre a inovação portuguesa e a tradição latina. Embora, por mais de uma vez, recomende que não se devem acrescentar ou mudar, na escrita, letras que violentem o uso oral, pelo menos no tema de que nos ocuparemos aqui, seu sistema ortográfico está preso a este seu postulado:

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA A Vltima regra, que na lembrança deue ser a primeira seja, que trabalhemos sempre, por investigar a orige) dos vocabulos. Porq[ue] pela etymologia delles, se sabe a orthographia, & pela bõa orthographia a etymologia. E essa he a fonte & a raiz de fallarmos, & escreuermos bem, & propriamente, ou mal11

Como esse ortógrafo é o que mais prodigamente utilizou consoantes em posição implosiva medial, a seleção dos vocábulos de nosso corpus foi feita a partir daquela sua obra. O cotejo dessas obras pioneiras de nossa filologia com Os lusíadas 12 nos mostrará se a norma ortográfica de Camões foi inovadora ou conservadora no uso daquelas consoantes. O objetivo principal deste estudo, portanto, é mostrar em que graus esse retorno ao latim se cristalizou nessas cinco obras portugueses quinhentistas. Para tal demonstração, porém, procedemos a um rigoroso corte epistemológico. Procuraremos quantificar e qualificar esse retorno ao latim, exclusivamente quanto ao apagamento e à recuperação das consoantes /t/, /d/; /p/, /b/; e /k/, /g/, em posição implosiva medial. Vistas que foram as metas e as razões do corpus, entremos em nosso assunto. 3. As consoantes /t/ e /d/ em posição implosiva A regularidade com que FO e JB escrevem ajetivo e auerbio sem o <d> latino parece atestar a fragilização, ou mesmo o apagamento dessa oclusiva linguodental sonora em posição implosiva medial nos meados do século XVI em Portugal. Com saudades do latim, DNL recuperaria para o uso aquele grafema que, naquelas palavras, até hoje resiste gozando da contrapartida fonológica. Por isso, será mero eufemismo chamar-se de mudas a essas consoantes assilábicas. Vejamos o quadro I: Quadro 1 - Consoante oclusiva linguodental sonora em posição implosiva medial
F ERN ˆ O D E O LIVEI RA (15 36 ) ajetiu o (s ) 5 v JOˆ O D E BA R ROS ( 154 0) aietiu o(s ) 26 v LU˝S VA Z D E C A M ES ( Os lu s ad as ) (1572) P ERO D E M A GA LH ˆ ES D E G´ N DA VO (1574) DUA RT E NU N EZ D O LIˆ O (1 576 ) ad jectiuo 2 v

au erb io(s ) 8 v

au Ø io(s ) 1 5 v rb au erb io(s ) 3 v ad uØ rbio (6 0.9)

ad uerbio (s ) 14 v

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Sem o /t/ implosivo, JB grafa o helenismo arisméticos 139.4; mas DNL, por duas vezes, grafa com o <th> latino arithmetica. Abramos aqui um parêntese para mostrar a curiosa a sobrevida do theta grego e do taw (ou tav) hebraico em nosso corpus. Como oclusiva plena, em início de sílaba, transformou-se hoje em <t> simples aquele dígrafo nos antropônimos Tamar e Mateus. Em posição implosiva medial, essa consoante desapareceu na evolução de Bethlee) 50.23 para Belém; porém, simplifica-se em <t> na atualização de Bethphagee (ibid.) e Bethsabel (ibid.). E, como a história das línguas “tem razões que a própria razão desconhece”, em posição final, após passar pelo crivo do grego e do latim, os desdobramentos do dígrafo <th> oriundo do grafema hebraico tav ocorrem meio à la diable. Ou simplifica-se em <-t-> seguido de um <-e> paragógico em Judite e Rute; ou vira <-s>, valendo / sà/ ou /s/ conforme a região, em Golias; ou simplesmente apagase em Nazaré e Jafé. Duarte Nunes também grafa com <-d-> assilábico admirativo 3 v, admittir 10 v, aduertir 10 v, e os antropônimos Ariadna e Cadmo 37.14. A regularidade desse grafema nos hábitos ortográficos desse escritor parece testemunhar a presença da consoante em seu uso oral à época, uso que vem atravessando os tempos até nossos dias. 4. A consoante /p/ em posição implosiva medial A evolução da consoante oclusiva bilabial surda em posição implosiva medial não é muito diversa da história do /t/ que vimos de examinar. JB já não a representa graficamente em corruçám 126.14; mas, pelo menos a partir de Os Lusíadas, o <-p-> latino se reinscreve não só naquele substantivo como também nos seus cognatos corrupto e corruptor; prossegue em PMG e DNL, e chega incólume até nós. Examinemos o quadro 2: Quadro 2 - Consoante oclusiva bilabial surda em posição implosiva medial
FERNˆ O DE OLIVE IR A (1536) JOˆ O DE LU˝S VAZ DE BARRO S (1540) CAM ES (Os lus adas) (1572) corru Æ m corrup ª o 2 v (126.14) corrupto e fl.5 v corruptorVIII40 escrito(s) 2 v escripto e fl. 3 v escritura 10 v escriptura 4 v (1574)P ERO DE MAG ALHˆ E S DE G´ NDAVO corrup ª o (23.1 ) corruptamente (23.10) escripta 2 v escriptura(s) 6 v DUAR TE NUNEZ DO LIˆ O (1576) corrup ª o 15 v corrupto e fl. 20 v scripto e fl. 13 v scriptura(s) 48 v

escrito(s) 2 v escritura 8 v escriptura (19 .1)

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O mesmo não ocorreu com escrita, e seus cognatos, assim grafados por FO e JB. Reinstalado por Camões e, depois, por nossos dois primeiros ortógrafos, esse <-p-> latino não sobreviveu aí nem em seu cognato escritura. Se esse <-p-> etimológico em posição implosiva inicial, usado por DNL em pneuma 37.7 se conserva até hoje; cai, todavia, em psalmo 37.10, forma com que ele desejava banir salmo, então já popularizada. Outrossim, resulta frustrada sua tentativa de reinserilo em muitas outras palavras, como baptismo 70.4; baptizar 70.3; concepto 72.6; malscriptas 61.9; Neptuno 60.5; precepto 52.23 ou preçeptos 1.4; preceptor 52.24; scriptores 2v; septil 43.20; e, ainda, no antropônimo latino Hiempsal 37.10, e no topônimo helênico Terapne (ibid.) 5. A consoante /b/ em posição implosiva medial Quanto a esse tópico, não contemos com a ajuda de PMG. Nenhum dos cinco vocábulos de nosso corpus se encontra em suas breves Regras. Enquanto FO, JB e LVC preferem o adj. escuro, DNL considera-o corrupto, e prefere o erudito obscuro e o italianizado oscuro. Analisemos o quadro 3: Quadro 3 - Consoante oclusiva bilabial sonora em posição implosiva medial
FERNˆ O DE OLIVEIRA (1536) escuro(a) 3v. JOˆ O DE BARROS (1540) escura(s) 2 v. . LU˝S VAZ DE CAM ES (Os Lus adas) (1572) escuro e flex. 30 v (1574)PERO DE MAGALHˆ ES DE G´ NDAVO DUARTE NUNEZ DO LIˆ O (1576) escuro (70.6) obscuro 3 v oscuro (70.6) subjecto 2 v

sogeita (60.2) sogeyta(s) 2 v

sogeita v. (116.12)

sujeito e fl. 9 v, subjeito (III.127), sujeitar e fl. 7 v sugeitar (VII.33)

sojυ)tivo (37.30) sustantiuo 3 v sustª tiuo 4 v

suiuntiuo (106.1) suiυ)tivo (96.12)

subjunctiuo 2 v substantiuo 3 v substª tiuo (52.14) substancia (5.4)

sustancia 6 v sustancial (80.14)

Enquanto FO e JB preferem o adj. e particípio sogeita com <-og->, Camões prefere-os com <-uj->, forma que se imporia. Aqui, mais uma vez, DNL sacrifica aos numes latinos: grafa subjecto, com duas consoantes assilábicas. Assim, continua esse

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ortógrafo a opor-se à ortografia fonética dos nossos dois primeiros gramáticos. FO usa soiuâòtivo, JB suiuntiuo e suiu)tiuo. Ainda sem o <b> latino, FO grafa nada menos que 7 v sustantiuo, e JB 6 v sustancia, com o sentido de força física. Das práticas fonético-ortográficas de DNL não pegou o latinismo absente, que ele dá como variante de ausente neste passo: “E nos dizemos absente, & ausente, & abano, & auano, & aljaba, & aljaua, & faba, & fava, & tabula, & tauoa [...]” 4.11. Os demais bês etimológicos por ele mantidos na posição que estamos examinando sobreviveram até nossos dias, a saber: Adbera 37.4; obstar 2.3; obstinados 4.1; subterfugio 38.2 e obtuso 2v. 6. A consoante /g/ em posição implosiva medial Decididamente DNL extrapola na revoada em direção ao latim, no tocante ao uso do grafema <g> no fim de sílaba medial. Olhemos o quadro 4. Quadro 4 - Consoante oclusiva velar sonora em posição implosiva medial
FER N ˆ O DE O L I V E IR A (15 36) a u m e n t o (4 3 .6 ) aum e ntatiuo 2 v d i n o s ( 5 5 .1 2 ) JO ˆ O D E B AR R O S (1 54 0) a u m e n t o (9 4 .1 6 ) a u m e n t a t i u o (s ) 5 v L U ˝S V AZ D E C AM E S (O s L us adas ) (1 57 2 ) aum e nto 3 v digno e fl. 8 v dino e fl. 1 5 v ig no r ante 4 v re yno(s) 12 v r e i no (s ) 8 9 v s i g n i f ic a r e f l . 9 v (15 74)P E R O D E M AG ALH ˆ E S D E G ´ N D A VO D U AR TE N U N EZ D O L Iˆ O ( 1 5 7 6 ) augm e nto 2 v d i g n o ( 3 4 .1 6 ) i g n o r a n d o ( 3 4 .2 ) i n o rª te s ( 7 5 .8 ) re yno 4 v s i n i fi c a r 2 6 v re yno(s) 2 v s i n i fi c a r e f l . 1 1 v digno e fl. 3 v ig no r ar e f l. 3 v ig no r anc ia 3 v re gno 2 v s i g n i f ic a r e f l . 1 8 v

s i n i fi c a ª o 6 v

s i n i fi c a d o 6 v

s i n i fi c a a m 3 v, s i n i fi c a ª 3 v s i n i fi c a Æ 3 v m s i n i fi c a ı e s ( 1 1 2 .9 ) s i n i fi c Æd o ( s) 5 v

s i g n i f ic a ª o 4 v

s i g n i f ic a ª o 2 2 v

s i g n i f ic a d o (1 7 .1 5 )

s i g n i f ic a d o 4 v

Sem esse <g> latino, que, segundo tudo leva a crer, já não mais se pronunciava, FO, JB e Camões escreveram aumento e seus cognatos, e mais reyno, esta última já com a omissão da implosiva velar e o conseqüente desenvolvimento do yode em semivogal. FO usa a forma dinos, uma só vez, em 55.12; e Camões prefere-a sem a implosiva. Usa-a 15 vezes contra apenas 8 com o <g> etimológico. A coexistência das duas formas em Os Lusíadas parece apontar para a transição da mudança lingüística em favor

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da forma erudita digno, preferida aliás por PMG 34.16 e DNL 3 v. Além disso, a grafia inorãtes em FO 75.8 revela o apagamento dessa consoante naquela posição, mas vai ser reabilitada por Camões 4 v, por PMG em ignorando 34.2 e por DNL em ignorar 3 v e ignorancia 3 v. À vista desses elementos, se excluirmos augmento e regno, cujas grafias à latina parecem divorciar-se da prática oral da época, temos de reconhecer que a reinserção do <g> etimológico em digno, ignorar e significar com seus cognatos, gerou conseqüência fonológica duradoura. É nítida a reabilitação dessa consoante em posição implosiva a partir dos nossos dois ortógrafos do último quartel do século XVI. Enquanto FO e JB a silenciam em 27 ocorrências; PMG e DNL a reabilitam em 31 outras. 7. A consoante /k/ em posição implosiva medial Caso extremo é a infrutífera tentativa de PMG abandonar as formas já ditongadas de perfeito (fl. e der.) e respeito(s), consagradas pelos três antecessores seus aqui estudados, no sentido de forçar-lhes a realidade morfonológica, grafando perfecto 3v e respectos 14.8, já obsoletos àquela altura. Cegamente lhe seguiu os passos, dois anos depois, DNL não só nessas duas lexias, como também na preferência a lector(es), e lectura, lexias inexistentes no corpus dos dois gramáticos e de Camões. Debalde DNL tenta reintegrar aos hábitos manuscritores daquele século, o <-c-> implosivo latino, que não teve sobrevida fonológica, em palavras como auctor, conjunctas, no subst. contrato (sobreviveu no adj. participial contracto e fls. [= contraído]), dicto e fls., distincto, lectores(es) e practica. Exploremos agora o Quadro 5. Quadro 5 - Consoante oclusiva velar surda em posição implosiva medial
FERNˆ O DE JOˆ O DE OLIVEIRA(1536) BARROS (1540) autor (30.2) autoridade 2 v. autor(es) 3 v. autoridÆ 2 v. de conjunto (90.18) cı jυ)ta 2 v contrÆ adj. tas (89.20) dita (86.14) LU˝S VAZ DE CAM ES (Os Lus adas) (1572) autoridade 2 v authoridade VII.59 PERO DE DUARTE NUNEZ MAGALHˆ ES DE DO LIˆ O (1576) G´ NDAVO (1574) autor 1.9 auctor 2 v. authoridade (36.16) conjunctas (51.18) conunctiuo 2 v contracto(s) 3 v .s. cı tracto 2 v s., adj. dicta 22 v dito 2 v dicto 22 v

contrato subst. 3 v

ditas 2 v. dito 6 v distinta(os) 2 v

distintos 2 v

dito X.5 ditoso e fls. 12 v distinto II.1

dictos 12 v
distincta(s) 3 v

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doutos 2 v effeito (15.31)

disti®tamente 114.18 douto(s) 2 v effeitos (122.16), mas effectiuo (79.3)

distintamenteX.109 douto 3 v effeito 6 v efeyto VIII.81 lector 4 v lectura (19.9) perfectos 2 v perfectamente (22.14) pratica 2 v respectos (14.8) sancta (3.2) doctos 6 v effecto 6 v lector(es) 4 v perfecto 3 v perfectamente 3 v practica 4 v respecto 7 v sancto 3 v subjecto (subst.)2 v

perfeyta(s) 3 v

perfeito(a) 5 v perfectamente (116.22) respeito (71.24)

perfeito(s) 7 v

respeito 7 v sancto (6.27) sojeitas (60.2) sogeyta(s) 2 v sojυ)tiuo (37.30) tratar e fl. 11 v tratada 2 v

pratica 4 v respeito(s) 9 v respeyto 2 v sancto(s) 44 v santo(a) 4 v sogeitar fl. (106.12) sujeito(a) 9 v, subjeito 1 v, sugeitar e fl. 6 v, sujeitar 1 v suiuntiuo(106.1) suiυ)tiuo (96.12) tratar e fl. 6 v trayto 6 v tracto 2 v

subjunctiuo 2 v tratar 3 v tractar e fl. 8 v tractado 3 v

Por interessantes, impõe-se destacar três casos pontuais ocorrentes neste tópico, a saber: 1) O uso, só por parte de Camões, da variante trayto 6v, com ditongação, ao lado da forma culta tracto 2 v. 2) Isolada é a tentativa de DNL tentar recuperar essa implosiva no latinismo docto 6 v, ao que tudo indica, sem nenhuma contrapartida fonológica, à revelia da variante evoluída douto, com ditongação, já consagrada pelo uso e reconhecida pelos seus antecessores. 3) Com exceção apenas de JB, é consensual entre os outros quatros autores aqui estudados, a forma alatinada sancto, mas a presença de quatro variantes sem a implosiva em Camões já nos sugere, pelo menos, possível vacilação da pronúncia dessa palavra ao tempo. É diante de alguns fatos como os aqui estudados que Mattoso Câmara Jr advertia: “[...] devemos voltar os olhos para a língua geral escrita e especialmente para a língua literária, onde a padronização não poucas vezes se afasta da realidade lingüística diária, e às vezes passa a influir sobre ela. ”13 Por amor à brevidade, silenciaremos sobre outras três dezenas de tentativas frustradas de DNL no sentido de reconduzir o <c-> com valor implosivo, até à revelia da própria história da língua, como aquele terrível anoctescer 40.14, com que tenta desbancar o parassintético anoitecer. A bem da justiça, porém, temos de reconhecer uma vitória de DNL. Com exceção apenas de Os

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Lusíadas, enquanto todos os outros textos do corpus assinalam o apagamento do /k/ implosivo latino de dictione[m] nas variantes portuguesas dição / diçam e seu plural dições, as 43 ocorrências de dicção e as 72 de dicções (um total, portanto, de 115 evidências na Ortografia do licenciado) são até hoje as formas preferidas em todo o mundo da lusofonia. Tanto aqui, como em Portugal, e em África, a semente lionina pegou e deu frutos duradouros. 8. Conclusões À vista do exposto, eis algumas das conclusões que poderemos estabelecer. 1.Na esteira das liberalidades grafemáticas da scriptologia medieval portuguesa, em que se projetaram os múltiplos dialetos, falares e idioletos da primeira metade do séc. XVI, indubitavelmente FO e JB espelharam em suas normas ortográficas o habitual apagamento das consoantes latinas em posição implosiva medial, àquela altura, nos 36 vocábulos e nos cognatos selecionados no corpus. 2.Embora algumas dessas consoantes reconduzidas à escrita, no decorrer da segunda metade dos anos quinhentos, não tenham gerado conseqüência fonológica duradoura (como em augmento, auctor e escripto/-ura); outras se revelaram de intensa vitalidade e chegaram até nós (como em corrupção; substantiuo, substancia; digno, ignorar, significar). Sob a palavra de ordem renascentista de retorno às formas, ao estilo e aos temas da cultura greco-romana, embora já se insinue discretamente em Os Lusíadas a recuperação gráfica de algumas dessas consoantes latinas na posição estudada (como em corrupção e ignorante), essa prática recuperatória se intensifica nas Regras de Gândavo e se torna constante e homogênea na Ortografia de Duarte Nunes do Lião. Por isso, mister se faz creditar a este último as láureas de subverter o preceito de que só à língua escrita cabe espelhar o uso oral, e assim haver ajudado a mudar os caminhos da história.
Agradecimento Desejamos expressar nossos agradecimentos ao Prof. Toru Maruyama por nos haver permitido consultar os Índex Alfabético(s) do(s) Vocabulário(s) das gramáticas de Fernão de Oliveira e João de Barros, bem como os dos tratados ortográficos de Pero de Magalhães de Gândavo e Duarte Nunes do Lião, pertencentes ao acervo da Universidade de Nanzan, da cidade de Nagoya (Japão). Sem tal privilégio, seria impossível alcançar os objetivos da presente pesquisa.

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Notas 1 KUKENHEIN, Dr. L. Contribuitions à l’histoire de la grammaire italienne, espagnole et française à l’époque de la Renaissance. Amsterdão, Noord-Hollandsche Nitgevers-Maatschappij, 1932. p. 22-23. 2 OLIVEYRA, Fernão de. Grammatica da lingoagem portuguesa. Facsimile da l.ª ed. (Lisboa, Germão Galharde, 1536). Lisboa, Imprensa Nacional, 1981. 3 BARROS, João de Barros. Cartinha (1539). Grammatica da lingua portuguesa com os mandamentos da santa madre igreja. Dialogo da viçiosa vergonha (1540). Repr. facsimilada, leitura, introd. e anot. por Maria Leonor Carvalhão Buescu. Lisboa, Univ. de Lisboa, 1971. 4 GANDAVO, Pero de Magalhães de. Regras que ensinam a maneira de escrever a orthographia da lingua Portuguesa, com hum Dialogo que adiante se segue em defensam da mesma lingua. (Lisboa, Antonio Gonsalves, 1574) Introd. de Maria Leonor Carvalhão Buescu. Lisboa, Biblioteca Nacional, 1981. 5 LIÃO, Duarte Nunes de. Orthographia da lingoa portuguesa. Lisboa, Ioão de Barreira impressor del Rei N. S., 1576. 6 DIAS, Antônio Gonçalves. Poesia completa & prosa escolhida. Org. e estab. de texto por Antônio Houaiss. Rio de Janeiro, Aguilar, 1959. p. 360. 7 COSERIU, Eugenio. Língua e funcionalidade em Fernão de Oliveira. Rio de Janeiro, EDUFF, 1991. p. 47. 8 op. laud. p. 50, linhas 2-8. 9 BUESCU, Maria Leonor Carvalhão. Historiografia da Língua Portuguesa. Lisboa, Sá da Costa, 1984. p. 32 10 Op. laud., p. 8. 11 Op. laud., p.61 verso. 12 CUNHA, Antônio Geraldo da, et alii. Índice analítico do vocabulário dos Lusíadas. 3 v. Rio de Janeiro, MEC/ INL, 1966. 13 CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. Dispersos. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1975, p. 83.

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Língua e História do Brasil seiscentista em um manuscrito lusitano
Carla da Penha Bernardo, da UFRJ.
Teceremos algumas considerações a partir da leitura do Noticiário maranhense, descrição do Estado do Maranhão, suas contendas e peregrinas circuntâncias, de 1685, de João de Souza Ferreira,1 fazendo-o dialogar com outras antigas crônicas. O texto, cedido pelo professor Antonio Martins de Araujo (UFRJ), foi copiado a partir do microfilme do recém-falecido lexicógrafo Antônio Geraldo da Cunha, que, por sua vez, fizera cópia do manuscrito original que pertencera ao bibliófilo francês J. J. Renoux, também já falecido. Todos os que se referiram ao Noticiário chamaram a atenção para seus problemas, sobretudo para sua oscilação ortográfica, tanto que Francisco Barata, que editou o texto em 1919, afirmou: “Manuscripto singular é o que ahi vai por cópia! /..../ Tem defeitos e erros tão numerosos, que quasi se pode dizer não haver nelle uma palavra portuguezmente escripta”. Não se pode deixar de notar, no entanto, o valor documental da obra. As idéias nela presentes, quando lidas junto com as de obras contemporâneas, permitem uma melhor compreensão de importantes fatos históricos do país. O Noticiário maranhense é uma forma de angariar a simpatia real para as terras brasílicas, em especial as do antigo Estado do Maranhão e Grão-Pará. O texto mostra as adversidades enfrentadas pelos portugueses em uma terra desconhecida, de climas e hábitos completamente diversos dos seus, repleta de matas, índios violentos, doenças, animais ferozes, mas também de bens naturais e de riquezas, cujo principal produto, o pau-brasil, oferecia o lucro de 500%. No livro, defende-se o cativeiro indígena como solução para eliminar os problemas do norte do país, visto que a mão-de-obra

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negra, além de mais cara, era difícil de ser adquirida no Estado – é isso o que o autor tenta provar em suas 236 páginas manuscritas. Havia, de um lado, a proibição do cativeiro defendida pelo Reino e pelos jesuítas, por isso era preciso não apenas mostrar a necessidade de submeter os Tapuias ou índios, como os europeus os chamavam, mas sobretudo prová-la com fatos. Isso foi motivo de muitos conflitos no Maranhão, o que levaria o povo local a se revoltar, a perseguir e a expulsar os jesuítas. Sequer o padre Antônio Vieira escaparia. A dependência do português em relação ao indígena era total, ‘comendo o branco por sua mão’ e sendo salvo, pelos nativos, das matas desconhecidas onde os europeus morriam por não poderem encontrar a saída:
Demais que, se há razão para se captivarem pretos, desterrando-os de suas terras, menos escruplo, parece, se podia fazer de pessuir Tapuias captivos, ficando no seu natural senhores de suas plantas e criações os que delas querem tratar, como se não fossem captivos; nem tal captiveiro se podia tomar pelo reputado dos teologos na Europa, onde há tal fome e frio, que vestem e comem o que seus senhores lhes dão; e no Brasil vai tanta diferença, que, baste saber-se, não há fome, nem frio: comemos por sua mão, e quando eles querem. (p. 176-7).

Nem esse fato, no entanto, foi suficiente para permitir que a maioria dos brancos visse no índio um semelhante. À época, homens simples ou nobres, seculares ou religiosos não viam nos nativos senão um animal, o que já ocorrera com os negros. Ainda em 1720, Rafael Bluteau, renomado autor do Vocabulário latino-português, escreveria, a respeito dos negros, as seguintes linhas, representantes do pensamento da época:
Tem o [salvagem] cara quasy da feyção de homem, com o nariz chato, & revolto, cabeça grossa, peyto sem cabello, & as costas cubertas de cabello negro. Tem este animal muyta força, & muyta agilidade. Sabe porse em pé, & quasi sempre anda direyto. Ha salvagem macho & salvagem femea; esta tem peytos, & ventre a modo de mulher /..../. Em Hollanda trouxerão ao Príncipe Frederico

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Henrique hua salvagem femea do tamanho de hua rapariga de tres annos, ainda que gorda,& repleta, era muyto agil, bebia & comia com aceyo, & dormia em cama com lençois como gente.

Esse pensamento acerca dos negros e dos índios também se apresenta no Noticiário em vários pontos. Havendo um grupo destes sido levado a Lisboa, diante da repugnância manifestada pelo povo, que “se retirava, ou pelo menos intojava, não lhe sabendo o nome, mais que de ‘papa gente’” (p. 173), J. S. Ferreira conclui como Bluteau: “/..../ os Indios, tão alheios dela [são, i. é: da capacidade], que, de gente, parece, não têm mais que a similhança /..../”. (p. 173). O mesmo tipo de exposição se daria com seis indígenas levados a Paris, anos antes, onde receberam nomes franceses e se casaram com francesas. Três deles teriam morrido, segundo Malherbe, “pelo ar não lhes ser saudável”. Séculos passados, parece-nos tristemente risível o exotismo e a exploração desses europeus que tudo nos levavam, desde “papagaios sabendo algumas palavras de francês”, até nossos homens. Portugueses e franceses, portanto, davam o mesmo tratamento aos maranhões brasilianos. Assim, pode-se delinear uma resposta à pergunta tantas vezes feita sobre os resultados de uma colonização, no Brasil, realizada por povos que não o lusitano. Pode-se dizer que enquanto os primeiros pretenderam, de certa forma, criar a Nova Lusitânia imaginada por Gândavo, os últimos fundaram sua efêmera França Equinocial. Os próprios brasílicos, com o tempo, puderam percebê-lo. Por isso, diante do armistício entre franceses e portugueses no Maranhão, os índios tomam uma lúcida atitude: “/..../ os índios /..../ manifestavam a intenção de fugir /..../; nas aldeias, espalhara-se o rumor de que, se os brancos haviam chegado a um acordo, era para reduzi-los, todos, ao cativeiro /..../.” (Apud PIANZOLA). Em pleno século XVI, vivia-se no Brasil um atemporal medievalismo, falando-se em “liberdade sujeita”, em servos, em distribuição desigual de terras, problemas que se estenderiam aos séculos seguintes. Não se pode, pois, deixar de admirar a forma mais moderna e humana de colonização adotada pelos religiosos, sobretudo os jesuítas, o que levaria os habitantes da Colônia a perseguirem-nos, fato que se repetiria em outros países. As palavras de alguns religiosos, no entanto, dão conta de sua idéia de conversão, como nos lembra J. G. Merquior: “Anchieta acha os silvícolas ‘sem

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engenho’; desenganado, chega a recomendar ‘espada e vara de ferro, que é a melhor pregação”. Quanto a Nóbrega, seu desabafo é franco: ‘São tão bestiais, que não lhes entra no coração coisa de Deus’”. (Apud MERQUIOR, p. 18). Apesar disso, o tratamento atribuído aos indígenas no GrãoPará, como indica Souza Ferreira, se podia ser de extrema crueldade, também podia ser mais humano, sobretudo quando comparado ao que era dado aos negros. Contudo, nem isso foi suficiente para impedir que os índios fossem tachados de “naturalmente preguiçosos”, ainda que até suas crianças fossem forçadas ao trabalho. Esse bom tratamento dado aos índios era uma necessidade, caso contrário, como se indica no Noticiário, eles morriam – naturalmente ou por vontade própria – ou se rebelavam, matando os brancos, o que, pouco a pouco, também os seculares perceberam. As crônicas da época mostram que o indígena jamais se submeteu espontaneamente. Mesmo os curumins fugiam diante da primeira oportunidade. Muitos, incapazes de lutar, preferiam a morte de formas variadas e “desasperadas”, como indica Ferreira, fato que a literatura romântica apresenta com menos idealismo do que hoje se imagina:
/..../ muitos que, desno principio da conquista estavam servindo aos Portugueses por amigos e companheiros; outros que, quando buscavam a paz, que com sinal de cristandade se lhes havia premetido, então se achavam com a liberdade rendida, e assim permaneciam, como se expirimentava, matando aos senhores e fugindo; outros comendo terra e morrendo; e as femeas tomando medecina para não gerarem; e se alguas chegavam a ter fructo, lhe faziam, como me succedeo, que, comprando duas Indias com ua cria, se meteram pelo mato, e, daí a tres dias, voltaram fartas, mas sem o filho, ensinando outros a comer carvão, cinza, cascas de pao, terra e outras desasperações, com que uns e outros se malogravam. (pp. 178-9).

Por que teriam os índios ‘escapado’ ao jugo, ao contrário dos negros? Por muitas razões, mas, principalmente, porque, como vimos, os brancos deles dependiam e porque, eles, ao contrário dos negros, escapavam com facilidade pelos matos:

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Nem estas terras eram como as do Brasil, onde todos os meses lhes entravam [sic] cantidade de negros, o que não tinha o Estado do Maranhão, por suas deficuldades, e que, se os estilos das terras faziam lei, não eram estas capazes, ainda que em algu tempo tevessem pretos, para se viver só com eles, e sem alguns Indios para guias e pilotos dos mares, por não haver outras estradas de que os pretos nem a si se saberiam livrar, quanto mais aos brancos, e menos entrarem e saírem dos matos com a caça, de que no Estado se vive, pelo menos no Pará /..../. (p. 48).

Apesar desse conhecimento geográfico e do fato de muitos conhecerem a língua túpica ou geral ao lado da sua, os índios sucumbiram. Os negros, por outro lado, resistiram, mas ainda hoje se reflete o tratamento de séculos idos. A abolição da escravatura só se deu quando esta era já um fato. E os libertos de então, sem meios de subsistência, tinham poucos caminhos: vinganças contra os senhores, assaltos em estradas, roubos a fazendas ou nova sujeição aos senhores. Aptidão para o crime e subserviência, diriam alguns, palavras que são repetidas irrefletidamente, passados mais de cem anos. E esclarece o samba contemporâneo que o negro hoje está “livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela” por problemas que refletem os do passado. No Noticiário, contudo, fala-se principalmente da causa índia. No que diz respeito à religião, Ferreira indica “/..../ assim como não há nenhu [índio] que reze de sua devação [devoção] mais que enquanto os fazem repetir o que se lhes ensina; da mesma maneira, é necessário, para fazerem algua cousa, estar-selhes sempre apontando com o dedo” (p. 205). Também os franceses reconhecem que “ensinam” práticas aos índios, inclusive as religiosas e que eles, segundo Yves d’ Évreux, “embora não compreendam nada /..../, avançaram tanto que dirse-ia que viveram toda a sua vida entre os franceses” (Apud PIANZOLA, p. 159). E, apesar das evidências, o padre Yves d’ Évreux concluiria que a terra estava conquistada “não pela força, mas pelo amor” (id., p. 163). Diferença foi e continua a ser sinônimo de estigma. Por isso, em relação à língua túpica, acreditaram os portugueses – inclusive João de Souza Ferreira – não possuir o F, o L e o R entre seus

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fonemas por se tratar de gente “sem Fé, nem Lei, nem Rei”. Dessa idéia, não escaparia sequer o lúcido e competente Franco Barreto em sua Ortografia da lingua portuguesa. Mas o preconceito lingüístico não se ateve ao século de Ferreira. Acreditou-se que a pretensa “preguiça natural” dos nativos se devesse também ao calor tropical, que atingiria, inclusive, sua pronúncia. Em texto de Caldcleugh, de 1825, transcrito em “A vitória do português no Brasil colonial”, de J. H. Rodrigues, lê-se:
O português falado pelos brasileiros /..../ distingue-se facilmente do português de Portugal. O modo de falar é muito mais vagaroso, uma particularidade que se nota em todas as colônias, e pode somente ser atribuído ao clima, ao privar seus habitantes da atividade de espírito, da qual não há deficiência na Europa, produzindo de fato considerável lassidão.

Apesar da idéia de lassidão e subserviência que os brancos passaram acerca dos índios, o que se observa nas crônicas antigas é seu desejo de escapar ao jugo de todas as formas, até mesmo asfixiando-se, provocando o aborto e comendo terra. Isso ocorre, por exemplo, com uma índia prestes a ser devorada por uma tribo inimiga, a qual, liberta pelos portugueses, segundo João de Souza Ferreira, “/..../ vendo que a desamarravam, voltou o contentamento em lagrimas, mostrando que queria mais morrer e deixar nome em tão celebrada festa do que ser escrava dos brancos” (p. 209). Anos antes, no mesmo Maranhão, houve conflitos entre os próprios índios em razão de alguns se renderem aos franceses. Nesse momento, uma índia lhes gritaria: “Não, não /..../, jamais nos renderemos aos tupinambás, eles são traidores. Eis que nossos principais estão mortos e morreram por essas bocas de fogo [os mosquetes], coisa que nunca vimos. Se for preciso morrer, morreremos /..../.” (Apud PIANZOLA, p. 138). Há inúmeros casos de violência dos indígenas, apresentados não só no Noticiário maranhense, mas também nas várias crônicas da época. Ao lado dessa, ocorre a violência dos portugueses, narrada por Souza Ferreira, como o sacrifício público de índios diante da boca do canhão (pp. 37-38). Por vezes, Ferreira critica seus compatriotas, inclusive os religiosos, de forma extremamente dura, como aqui: “/..../ na verdade, mui odioso era o [titolo] de captivos dos brancos aos Indios, pela falta de justiça”, ou aqui:

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/..../ Porém, sendo este o tempo em que se deviam fazer as jornadas de conducções pelo rio das Almazonas, não davam repetidas ambições lugar a esperar monção [estação apropriada] porque todo o tempo lhe parece pouco [ao colonizador], sendo que no inverno são aquelas jornadas matadoras, assim pelo ruim tempo e pouco sostento que se acha, como pela agoa que então se bebe, turba, das terras que as enchentes vão quebrando e envolvendo, alimpando os lagos e matas que vêm batendo, de que saem nuves de pragas a beberem o sangue da gente: de dia, muita mosca, e, de noite, mosquitos, tantos, e taes, que por melhor que ua pessoa se cubra, tudo passam por chegarem ô couro e carne, que atravessam sem darem lugar a que se possa dormir, a que os pobres Indios remeiros fazem descuberta barreira, de que, suposto adoecem brancos e negros, destes morrem mais tanto quanto com maior diferença lhes custa. Mas, muito sadio é o Almazonas naquele tempo, quando as agoas apuradas correm, retiradas de toda a praga, e as praias providas de todo bom agasalho, cinco meses de bõa monção; se se subisse pelo natal, e descessem de setembro por diante, serviria de recreação o que servia de ruína, e tudo, assim, aproveitaria, mediante o Creador / ..../. (pp. 214-5).

Pelo que se vê, houve violências e equívocos entre brasílicos, portugueses e franceses no Estado do Maranhão. A antiga colonização se mostra como a grande responsável pelas desigualdades sociais hoje vividas no Brasil. O problema da distribuição de terras, o preconceito racial, o subemprego dos descendentes dos negros, a redução dos grupos indígenas, os apadrinhamentos – tudo isso está contado nas velhas crônicas, inclusive no manuscrito tricentenário de João de Souza Ferreira. O Noticiário maranhense é um dos documentos que, lido junto aos demais, serve de subsídio para a História do Maranhão passado e de seus reflexos no Brasil contemporâneo. Vale a pena lermos textos brasileiros de 300, 400, 500 anos em todos os tempos e não apenas em uma data, sem dúvida memorável, como a que se anuncia. Se, de fato, queremos nos conhecer e aprender com o já ido, que haja cada vez mais espaço para a pesqui-

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sa desses textos e dessa língua na Universidade brasileira.
Bibliografia BARRETO, Ioam Franco. Ortografia da lingua portuguesa. Lisboa: Officina de Ioam da Costa, MDCLXXI. BERNARDO, Carla. Edição do manuscrito Noticiário maranhense, descrição do Estado do Maranhão, suas contendas e peregrinas circunstâncias, de 1685, de João de Souza Ferreira. Dissertação de Mestrado em Filologia Românica apresentada à Faculdade de Letras da UFRJ, 1996. 581 pp. CÂMARA JR. Joaquim Mattoso. Introdução às línguas indígenas brasileiras. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1965. FERREIRA, João de Souza. Noticiario maranhense, RIHGB. Rio de Janeiro, v. 81, 1919, pp. 289-352. GÂNDAVO, Pêro Magalhães de. Tratado da província do Brasil. Editado por Emmanuel Pereira Filho. Rio de Janeiro: INL – MEC: 1965. LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro: INL, Lisboa: Portugália, 1943. T. III. LISBOA, João Francisco. Jornal de Tímon; apontamentos, notícias e observações para servirem à História do Maranhão. Tomo II, 1.o vol. Brasília: Alhambra, s. d. MARICHAL, Robert. La critique des textes. In:___. L’ Histoire et ses méthodes. Dir. de Charles Samaran. Paris: Gallimard, 1961. MARQUES, César Augusto. Estudo critico sobre o manuscrito America abreviada, suas noticias e de seus naturaes, e em particular do Maranhão, titulos, contendas e instrucções á sua conservação e augmento muito uteis pelo padre João de Souza Ferreira. Rio de Janeiro. Ms do IHGB, 1888. 11 p. MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996. PIANZOLA, Maurice. Os papagaios amarelos; os franceses na conquista do Brasil/ Les perroquets jaunes; des Français à la conquête du Brésil – XVIIe siècle. Trad. de Rosa Freire d’ Aguiar. São Luís do Maranhão: Secretaria da Cultura do Estado do Maranhão: Alhambra, 1992. RODRIGUES, José Honório. História da História do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1979. P. I. ______. A Vitória do Português no Brasil Colonial. Brasília, 1983, v. I, 1983, v. I, n. 4, pp. 21-41, jul.-set., 1983. TEYSSIER, Paul. História da Língua Portuguesa. Trad. de Celso Cunha e Claire de Oliveira. Lisboa: Sá da Costa, 1984. VARNHAGEN, A. História geral do Brasil; antes de sua separação e independência de Portugal. Revisão e notas de Rodolfo Garcia. São Paulo: Melhoramentos, MEC, 1975, T. III. VERNEY, Luís Antonio. Verdadeiro método de estudar. Valensa: Oficina de Antonio Balle, MDCCXLVI. T. I. Carta I.

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VASCONCELLOS, Simão Leite de. Crônica da Companhia de Jesus no Brasil. 3. ed. Petrópolis: Vozes; INL: 1977, v. I. Nota 1 As páginas citadas dizem respeito à edição do manuscrito feita por nós e indicada na bibliografia.

Carla da Penha Bernardo - Mestra em Filologia Românica e doutoranda em Literatura Portuguesa (UFRJ).

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Os utensílios de cozinha: português europeu do séc. XVI em confronto com o português do Brasil no séc. atual
Celina Márcia de Souza Abbade, da UNEB/ BA/ BRASIL, PPGL-UFBA 1. Apresentação Ao iniciar o Mestrado na Universidade Federal da Bahia, na área de Lingüística Histórica, no primeiro semestre de 1996, sob a orientação da professora Célia Marques Telles, escolheu-se trabalhar com o estudo de alguns aspectos lexicais das receitas encontradas no Livro de cozinha da Infanta D. Maria, manuscrito português do século XVI, a partir da edição crítica de Giacinto Manuppella.1 O interesse pelo estudo do vocabulário quinhentista relativo à cozinha, surgiu primeiramente da curiosidade despertada ao se entrar em contato com o primeiro livro manuscrito de cozinha portuguesa conhecido até o momento: o Livro de cozinha da Infanta D. Maria que provavelmente pertenceu ao final do século XV e princípios do século XVI2 . Ao deparar-se com tais receitas, reconhecem-se de imediato as diferenças em relação às atuais: o vocabulário utilizado na época, tanto pode diferir do atual, como pode ser mantido até os dias de hoje. Um estudo diacrônico desses vocábulos mostraria a evolução de cada um deles, ou a sua permanência na língua resistindo às modificações através dos tempos. O presente estudo, entretanto, pretende apenas demonstrar como, apesar de os tempos modernos terem trazido novos utensílios que não existiam na época, grande parte deles permanecem, utilizando apenas, algumas vezes, uma nova “roupagem” seja ela na expressão ou no objeto material.

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Trata-se de um estudo lexicológico, e, portanto, serão observados apenas os aspectos relativos ao léxico, restringindose o enfoque ao campo dos “utensílios”. Sabe-se, porém, como é a história de um povo, através do seu vocabulário. Como textos de base, serão utilizados o Livro de cozinha da Infanta D. Maria (para os utensílios utilizados no século XVI) e O livro de cozinha de Pedro Archanjo com as merendas de Dona Flor (para os do século XX). A partir desses textos, mostrar-se-á a evolução ou permanência dos utensílios encontrados em ambos os textos. 2. Dois livros de receitas 2.1. O Livro de cozinha da Infanta D. Maria O Livro de cozinha da Infanta D. Maria é o manuscrito I-E-33 da Biblioteca Nacional de Nápoles. Teria pertencido a uma Infanta portuguesa de cultura notável: a Infanta D. Maria de Portugal, filha de D. Duarte (1515/1540) duque de Guimarães, neta do rei D. Manuel e sobrinha de D. João III. Moça letrada e culta, lida em grego e latim, que ao casar-se com Alexandre Farnésio (duque de Parma, Placêncio e Castro), vai, em 1565, morar em Parma. O manuscrito que teria sido levado para a Itália pela Infanta, faz parte de um grupo de cinco tomos de origem farnesiana, doação vinda da família Farnésio. Consta de setenta e quatro fólios, divididos em quatro cadernos com setenta e quatro receitas. Um códice que, apesar dos problemas paleográficos e cronológicos que apresenta, é deveras valioso, contribuindo não só para o vocabulário histórico da linguagem nacional, como também mostrando um lado importante da vida social que é a arte de cozinhar e bem comer, numa época da história nacional portuguesa de que muito pouco se conhece e cujo mais antigo documento de receitas culinárias publicado não é anterior a 1680, que é “A Arte de Cozinha” de Domingos Rodrigues.3
A edição de Giacinto Manuppella do Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, inicia-se com a edição crítica do manuscrito e em seguida é feita a leitura diplomática nas páginas de números pares, junto a leitura em ortografia moderna, nas páginas de números ímpares. Ao final do livro,

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encontram-se dois índices que são de interesse para o estudo do léxico: índice de palavras que ocorrem no códice (p. 165-244) e índice de assuntos versados nas receitas (p. 247-249). Como alguns vocábulos são desconhecidos da maioria dos leitores, fez-se também um glossário das palavras que ocorrem no códice, o que serviu para colaborar no levantamento lexical pretendido.

O Livro de cozinha da Infanta D. Maria é composto de 67 receitas distribuídas em quatro cadernos e mais seis receitas avulsas que não tratam especificamente de culinária, mas de receitas diversas de uso doméstico. O primeiro caderno é o Caderno dos manjares de carne com 26 receitas (numeradas de 4 a 29); o segundo, Caderno dos manjares de ovos, com 4 receitas (numeradas de 30 a 33); em seguida encontrase o Caderno dos manjares de leite com 7 receitas (numeradas de 34 a 40); e, finalmente, o Caderno das cousas de conserva com 24 receitas (numeradas de 41 a 64). 2.2. O Livro de cozinha de Pedro Archanjo com as merendas de Dona Flor4 Em 1987 resolvi estudar a obra do meu pai, o escritor Jorge Amado, para fazer um livro de cozinha. Fiz a leitura de seus romances em ordem cronológica para sentir a evolução da presença e da importância da comida e da bebida nos seus livros. Dei-me conta que o material é muito mais rico do que imaginava e que valeria à pena identificar não somente os pratos da culinária baiana, mas tudo que se come e bebe, seja vatapá, acarajé, jaca, cachaça, champanhe, seja terra, rato, gente.5
Assim nasce A comida baiana de Jorge Amado ou O livro de cozinha de Pedro Archanjo com as merendas de Dona Flor. Pedro Archanjo e Dona Flor, são personagens de romances de Jorge Amado. Foi Pedro Archanjo quem inspirou Paloma Amado a organizar esse livro de receitas. Manual de culinária baiana é o título dado por Pedro Archanjo, personagem de Tenda dos milagres6 , a seu livro de cozinha. Nas palavras de Paloma Amado:

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Pedro Archanjo é um obá de Xangô, Oju Obá cheio de conhecimento e sabedoria. Conhece o povo mestiço da Bahia como a palma de sua mão, seus hábitos, sua cultura. Através de Archanjo pode-se ter a noção exata da delicadeza e da força, da simplicidade e da sofisticação desta culinária que também é fruto da miscigenação, que junta o dendê africano à mandioca do índio e ao azeite de oliva português.7 Dona Flor é a personagem central de Dona Flor e seus dois maridos8 que, do ponto de vista alimentar, é também um livro de cozinha baiana. Utilizando novamente as palavras de Paloma Amado, pode dizer-se desse romance que:
Além de dar receitas - todas corretas e factíveis - mostra o jeito de comer da Bahia; explica os carurus de Cosme e Damião; ensina o que servir num velório; explica como fazer uma grande merenda à tarde Em Dona Flor e seus dois maridos se encontra uma relação das comidas de candomblé, com os pratos preferidos de cada santo e as quesilas ¾ o que os santos e seus filhos não podem comer e às vezes nem pronunciar o nome.9

Após fazer o levantamento de todo o material, Paloma Amado afirma ter, inicialmente, caído na tentação de fazer um estudo sobre a alimentação através de um ponto de vista antropológico ou sociológico, mas resiste e faz a opção pelo livro de cozinha, devido ao grande número de material encontrado. Divide esse material por temas e resolve fazer vários livros. Esse é o primeiro deles e divide-se em duas partes: a primeira, O livro de cozinha de Pedro Archanjo, refere-se aos pratos utilizados nos almoços e jantares baianos. Na segunda, com As merendas de Dona Flor, lembra os pratos não apenas servidos entre as refeições principais, mas que compõem os cafés da manhã e os jantares baianos10 . Mais dois livros se seguirão posteriormente, um das comidas de candomblé e outro sobre as frutas devido a enorme variedade delas e a importância que têm na alimentação. Esses dois não serão tratados no presente estudo. 3. Utensílios de cozinha: do séc. XVI ao séc. XX Pelo fato de as técnicas culinárias no séc. XVI não se mostrarem excessivamente complexas (assar, cozer, fritar, es-

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tufar ou afogar eram as principais técnicas empregadas), poucas variedades de utensílios se tornavam necessárias:
para levar os ingredientes ao fogo usavamse tigelas, panelas, tachos, púcaras ou púcaros; o peixe era frito em frigideiras e sertãs; bacias e bacios serviam para lavar os alimentos, misturálos e os levar ao lume; as panelas eram cobertas com tapadeiras, testos, telhadores ou sapadeiras; colheres, garfos e facas, geralmente de ferro, assim como escumadeiras, jueiras, graais, rolos, furadores, machadinhas, carretilhas auxiliavam os cozinheiros. À mesa, levava-se alimentos em pratos, escudelas, tachos etc. Desde a Idade Média que se usavam nas mesas toalhas e guardanapos. Nesse período, a faca era instrumento por excelência, desconhecendo-se garfos e utilizando-se com pouca freqüência a colher. Para beber usavam-se copos um pouco maiores dos que os atuais. Embora se recorresse às escudelas para sopas e outros alimentos líquidos, comia-se inicialmente a carne e o peixe em cima de grandes rodelas de pão, substituídas mais tarde pelo talhador de madeira e, depois, por escudelas que serviam para duas pessoas11 .

No Livro de cozinha da Infanta D. Maria encontramse quarenta utensílios diferentes: agulha, albarada de bico, alfinete, algujdar (alguydar), bacia, bacio, borcelana, caninhas (canynhas), canyuete, canudo, capadeira, carretilha, colher(es), escudela(s) (escudella), escumadeira, fogareiro (ffogareiro, fugareiro), furador, fuso (ffuso), gral, jueira (juejra), lagia, machadinha, panela(s) (panella), pano(s), pao rrolyco, peneira (pineira, pinejra, pineyra, pyneyra(s)) , prato(s), púcara (pucaro(s), pucoro, pucaros), rrapadoura, rrolo(s), sesto, sertã (sartãa, sertãa, sartam, sertam, certãa), tacho, tapadeira, tauoa, telhador, testo, tigela [tejalla, tegela(s), tigella(s), tijella, tyjela, tijela, tijella] , toalha, vasilha (vasylha, vazilha). A comida baiana de Jorge Amado traz uma variedade de quarenta e seis utensílios a saber: assadeira, batedeira, braseiro, caldeirão(zinho), caneca, churrasqueira, colher (de pau), compoteira, concha, copo, cortador, cumbuca

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de barro, cuscuzeiro, escovinha, escumadeira (espumadeira), espátula, espeto, espremedor, faca, folha de bananeira, fôrma, forminhas, forno, frigideira, garfo(ão), geladeira, grelha, liqüidificador, martelo de carne, moedor de carne, molheira, palito, panela(lão), pano, papel absorvente, peneira, prato, rolo, tábua (de carne), tabuleiro, tampa, travessa, tigela, urupema (peneira de palha bem fina), vasilha, xícara.
Atualmente, algumas técnicas mais requintadas podem ser utilizadas após a invenção de batedeiras, liqüidificadores, multiprocessadores, fornos elétricos, forno de microondas, dentre outros. Mas basicamente, continua-se cozinhando, assando e fritando os alimentos, como se fazia no século XVI. A variedade de utensílios utilizados na cozinha atual é maior, mas nada tão distante daqueles tempos. É importante lembrar que, já no século XIV, Leonardo da Vinci, com suas experiências culinárias e sua mente criativa, já fazia desenhos de maquinários e utensílios que poderiam contribuir e facilitar as cozinhas da época. Ele já imaginava picadores de carne, máquinas de lavar, descascadores de nozes mecânicos e coisas semelhantes. Com o tempo, seus desenhos transformam-se em objetos reais.12 Se no Livro de cozinha da Infanta D. Maria foram encontrados 40 utensílios, no livro A comida baiana de Jorge Amado encontram-se 46. À primeira vista, a diferença é bem pequena, apenas seis utensílios a mais. No entanto, apenas dez deles são encontrados em ambas as épocas (colher, escumadeira, panela, pano, peneira, prato, rolo, tábua, tigela, vasilha). Os demais trinta e seis utensílios do livro A comida baiana de Jorge Amado não citados no Livro de cozinha da Infanta D. Maria, poderiam até não existir no século XVI. Mas dos trinta utensílios restantes do Livro de cozinha da Infanta D. Maria, que não são citados em A comida baiana de Jorge Amado, apenas sete deles não são mais utilizados atualmente (albarada, caninha, gral, sertã, sapadeira, tapadeira, telhador). Os outros vinte e três apenas não se encontram no livro em questão, mas existem atualmente, mesmo que sejam de pouco uso (agulha, alfinete, alguidar, bacia, bacio, canivete, canudo, carretilha, cesto, escudela, fogareiro, furador,

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fuso, joeira, lage, machadinha, pau roliço, porcelana, púcara(o), rapadeira, tacho, testo, toalha)13 .

Isso esquematizado, dará o seguinte:
FO N TE L i vr o c . i nf. D . M ari a U TEN S˝LIO S EN C O N TR AD O S 40 U TEN S˝LIO S EM C O M U M 10 U TEN S˝LIO S D IFER EN TES 30

A co mida b. de J. A mado
FO N TE L i vr o c . i nf. D . M ari a

46

10

36

U TEN S˝LIO S U TILIZ AD O S 27

U TEN S˝LIO S P O U C O U SO 9

U TEN S˝LIO S SEM U SO 7

Partindo do Livro de cozinha da Infanta D. Maria pode observar-se, portanto, que lexias como agulha, alfinete, bacia, canivete, canudo, carretilha, cesto, colher, escumadeira, fogareiro, furador, laje, machadinha, panela, pano, peneira, prato, porcelana, rolo, tábua, tigela, toalha, vasilha são utilizados atualmente, mantendo o mesmo significado. Outros - como alguidar (vaso em forma de tronco invertido), escudela (tigela de madeira, pouco funda), fuso(instrumento roliço e pontiagudo que serve para fiar), joeira (peneira que serve para separar o trigo do joio), pau roliço (qualquer pedaço de madeira em forma de rolo), púcara(o) (pequeno recipiente com asa, ordinariamente destinado a extrair líquidos de outros recipientes maiores), rapadoura (instrumento próprio para rapar), tacho (recipiente largo e pouco fundo, em geral com asas), testo (tampa) - existem ainda, porém são de muito pouco uso. Algumas unidades lexicais achouse documentadas no Estado da Bahia: alguidar, tacho, testo e púcaro foram registrados por Nilton Vasco da Gama no município de Marogogipe, no Recôncavo Baiano.14 Porcelana está documentada em toda a região do “falar baiano” no Atlas prévio dos falares baianos15 . Em todos os casos, mantém-se o sentido do século XVI. Albarada, caninha, gral, sertã, sapadeira, tapadeira, telhador não mais existem no vocabulário atual. Para caninha

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utiliza-se caniço, para gral usa-se cálice, para sertã tem-se frigideira ou torradeira e sapadeira, tapadeira e telhador foram substituídos por tampa. Bacio tinha o mesmo sentido de bacia hoje. 4. Considerações finais Estudar o léxico de uma língua é descobrir um mundo com inúmeras possibilidades de mudanças e pode dizer-se que essas mudanças fazem parte da nossa própria evolução como seres humanos. Através dos tempos os utensílios de cozinha, assim como as coisas do mundo, vão se transformando, vão surgindo outros, melhoram-se os já existentes, que permanecem em constantes mudanças. Porém, mais importante que as mudanças, é a capacidade humana de poder realizá-las ou não.
Referências bibliográficas: COSTA, P. 1994. A comida baiana de Jorge Amado ou O livro de cozinha de Pedro Archanjo com as merendas de Dona Flor. São Paulo, Maltese. FERRO, J. 1996. Arqueologia dos hábitos alimentares. Lisboa, Dom Quixote. GAMA, N. 1976. Breves considerações sobre o vocabulário de uma variante lingüístico profissional em Maragogipe. In I Encontro Nacional de Lingüística. Conferências/ PUC-RJ, p.406-433. MANUPPELLA, G. 1986. Livro de cozinha da Infanta D. Maria de Portugal. Códice português I.E.33 da Biblioteca Nacional de Nápoles, Lisboa, Imprensa Nacional / Casa da Moeda. ROSSI, N. 1965. Atlas prévio dos falares baianos. Salvador, Universidade Federal da Bahia – Faculdade de Filosofia - Laboratório de Fonética. Instituto Nacional do Livro: Carta 46. ROUTH, S. y J. 1996. Notas de cocina de Leonardo da Vinci. Compilación y edición. Traducción de Marta Heras. Madrid, Temas de Hoy SA. Notas 1 Cf. Giacinto MANUPPELLA. Livro de cozinha da Infanta D. Maria: Códice português I. E. 33. da Biblioteca Nacional de Nápoles. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1986. 2 Cf. id. ibid., p. XVI. 3 Cf. Domingos RODRIGUES Arte de cozinha.. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda,1987. Leitura, apresentação, notas e glossário

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por Maria das Graças Pericão e Maria Isabel Faria. 4 Cf. Paloma Jorge Amado COSTA. A comida baiana de Jorge Amado ou O livro de cozinha de Pedro Archanjo com as merendas de Dona Flor. São Paulo: Maltese, 1994. 5 Cf. id. ibid., p. xi. 6 Cf. Jorge AMADO. Tenda dos milagres. São Paulo: Martins, 1969. (Coleção Obra de Jorge Amado, Vol. 18). 7 Conf. Paloma Jorge Amado COSTA. Ob. Cit. p. xxv. 8 Cf. Jorge AMADO. Dona Flor e seus dois maridos. São Paulo: Martins, 1966. (Coleção Obra de Jorge Amado, Vol. 17). 9 Conf. Paloma Jorge Amado COSTA. Ob. Cit. p. xxiv-xxv. 10 A comida baiana de Jorge Amado é dividida em várias partes além das duas principais. Começa com umas introdução onde se faz um histórico do surgimento e utilização da comida baiana nos romances de Jorge Amado. Segue com O livro de cozinha de Pedro Archanjo dividido em onze capítulos: (Dos Tira-Gostos (p.3), Dos Grandes Pratos da Comida de Azeite (p.31), Das Frigideiras (p.57), Das Moquecas (p.75), Da Rampa do Mercado (p.95), Das Aves (p.113), Do Mar e do Rio (p.135), Dos Assados de Carne (p.151), Das Carnes-Secas (p.165), Das Caças de Tição Abduim (p.179), Dos Doces (p.189). Em seguida, As Merendas de Dona Flor se divide em cinco partes: De Beiju e Cuscuz (p.221), Dos Bolos (p.233), Dos Mingaus (p.253), De Legumes e Frutas (p.267), Dos Biscoitinhos e de Outras Coisas (p.279). O livro termina com os índices de Receitas, Livros e Personagens; de Pratos e Ingredientes e de Pessoas e Restaurantes Citados. 11 Cf. João Pedro FERRO. Arqueologia dos hábitos alimentares. Dom Quixote: Lisboa, 1996. P.37. 12 Cf. Shelagh y Jonathan ROUTH. Notas de cocina de Leonardo da Vinci. Compilación y edición. Traducción de Marta Heras. Temas de Hoy S.A: Madrid, 1996. 13 Os utensílios marcados em ítálico, são aqueles considerados de “pouco uso”. 14 Cf. Nilton VASCO DA GAMA. Breves considerações sobre o vocabulário de uma variante lingüístico profissional em Maragogipe. In: I Encontro Nacional de Lingüística. Conferências/ PUC-RJ, 1976. P.406-433. 15 Cf. N. ROSSI. Atlas prévio dos falares baianos. Universidade Federal da Bahia – Faculdade de Filosofia - Laboratório de Fonética. Instituto Nacional do Livro: Salvador, 1965. Carta 46. Registra-se também no Estado de Sergipe.

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É uma Língua Portuguesa, com certeza
Claudio Cezar Henriques, da ABF e UERJ. “À vista do que fica exposto, a Comissão reconhece e proclama esta verdade: o idioma nacional do Brasil é a LÍNGUA PORTUGUESA. E, em conseqüência, opina que a denominação do idioma nacional do Brasil continue a ser: Língua Portuguesa.” Assim terminava o relatório apresentado ao Ministro da Educação e Saúde pela Comissão nomeada para cumprir a determinação contida no art. 35 do Ato das Disposições Transitórias, apenso à Constituição de 18 de setembro de 1946, onde se lia: “O Governo nomeará comissão de professores, escritores e jornalistas, que opine sobre a denominação do idioma nacional.” Seu relator, Sousa da Silveira, Presidente da Academia Brasileira de Filologia, encerrava sua longa exposição de motivos afirmando que tal denominação, além de corresponder à verdade dos fatos, tinha a vantagem de lembrar, em duas palavras, “a história de nossa origem e a base fundamental da nossa formação de povo civilizado”. Portanto, começamos nossa breve exposição sobre o tema desta mesa-redonda, que trata da implantação e da oficialização do português do Brasil como língua nacional, relembrando o documento institucional que marca essa definição lingüística, associada muita vez em nossa história a posicionamentos políticos nem sempre dos mais isentos. Não é improvável, porém, encontrar ainda algum defensor intransigente da proclamação de uma independência terminológica que venha a “corrigir” o citado parecer. Foi o que ocorreu em 1986, quando Afrânio Coutinho se manifestou contrariamente a

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um outro parecer, sobre Diretrizes para o aperfeiçoamento do ensino/aprendizagem da Língua Portuguesa, do Conselho Federal de Educação. O acadêmico insistia na tese de que a norma culta, defendida pelos filólogos como um dos componentes obrigatórios do ensino, corresponde à norma portuguesa. E afirmava: “Pretender submeter a massa brasileira à norma culta de Portugal, que os gramáticos portugueses e brasileiros teimam em estabelecer, é um crime de leso-patriotismo e de lesa-ciência lingüística.” Voltemo-nos, então, para a transplantação do Português para o Brasil, que ocorreu vinculada a uma colonização em massa, o que não foi em verdade um fenômeno novo na história lingüística da humanidade. Como nos outros casos, também aqui se precisaria fazer uma avaliação das condições sociais e lingüísticas específicas que envolveram as relações desse contato. Desde a época da independência política brasileira, as iniciativas em busca do estabelecimento de uma norma lingüística fundamentada no uso geral do Brasil tomavam como foco algumas preferências locais quanto ao uso de construções sintáticas – notadamente a questão da colocação pronominal – e ao vocabulário brasileiro. É o que se nota nas idéias defendidas pelo Visconde da Pedra Branca em 1926 e, alguns anos mais tarde, no que Macedo Soares também sustenta: “Já é tempo de escrevermos como se fala no Brasil e não como se escreve em Portugal.” No campo literário, Gonçalves de Magalhães e José de Alencar foram dos primeiros a incluir o tema em suas manifestações escritas. Ao longo do tempo, tal atitude, porém, não se manifestaria de uma maneira muito lúcida e firme, variando – conforme o caso e o autor – da atitude conservadora light ao radicalismo extremo de se defender a tese da existência de uma língua brasileira, distinta da portuguesa, a partir de teorias sobre causalidade e evolucionismo, biologismo, vocabulismo ou nacionalismo, que englobavam a referência a empréstimos (e não substratos) lingüísticos indígenas e africanos, entre outros argumentos. Consideremos que, hoje, esse tema da língua nacional falada no Brasil se mostra como conseqüência amadurecida e superada em torno de adesões ou rejeições à matriz européia (e seus modelos?). Afinal, como já foi dito por filólogos conceituados nos dois lados do Atlântico, não é uma ficção falar num português americano, em bloco, em face do bloco do português europeu – isto sem incluir o que se passa com os demais países da comunidade

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lusofônica. Esses dois grandes dialetos, o lusitano e o brasileiro, por sua vez se diferenciam numa multiplicidade de subdialetos e expõem características específicas de influências e preferências sintáticas, morfológicas ou lexicais e acentuadas marcas de pronúncia – e é aqui que reside a principal diferença entre as duas principais maneiras de falar a Língua Portuguesa. No caso brasileiro, a língua comum se confirma nas variedades regionais, sociais e individuais, ao contrário do que apregoavam os argumentos “panbrasileiristas”. Contra qualquer defesa que se possa fazer sobre a chamada “língua brasileira”, pode-se recorrer às conclusões de Raimundo Barbadinho Neto, Sobre a norma literária do Modernismo (Ao Livro Técnico, 1977), que confirmam ser “o sistema da língua do Brasil, em seu conjunto, ainda o mesmo da de Portugal, sem embargo das leves diferenças de norma e da nítida existência de um estilo nacional americano e um estilo nacional português.” Para encerrar, fiquemos com as palavras de Barbosa Lima Sobrinho em A Língua Portuguesa e a unidade do Brasil (José Olympio, 1977 – a 1a edição é de 1958): “No dia em que se quebrasse a disciplina da língua escrita e da língua literária, para que prevalecessem os falares regionais, teria também desaparecido a unidade lingüística, que é um dos fundamentos de nossa unidade política e de nossa unidade nacional.” Ou as de Edith Pimentel Pinto, em A língua escrita no Brasil (Ática, 1992 – série Fundamentos): “O esgotamento das posições que pleiteavam o estatuto de dialeto ou de língua autônoma para o português do Brasil corresponde, no plano dos especialistas, à divulgação de teorias lingüísticas capazes de iluminar melhor a questão; e, por parte dos não-especialistas, ao sentimento, estimulado pela escola, de pertencerem ao mundo lusófono, do que resulta, hoje, um consenso a respeito da língua materna dos brasileiros. Isto significa que a rede de oposições funcionais, características de um sistema, é, rigorosamente, a mesma em Portugal, no Brasil ou na África.” A norma culta brasileira, por sua vez, está consignada nas obras literárias contemporâneas e na imprensa de prestígio. Na escola, já não se tem a imposição de uma norma artificial, prevalecendo as propostas que privilegiam o ensino das modalidades da Língua Portuguesa, da gramaticalização brasileira e do saber metalingüístico. Quando isso não acontece, as causas – infelizmente – podem ser atribuídas à política institucionalizada de desvalorização do magistério.

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Qual é a “língua brasileira” a se aprender na escola?
Darcilia Simões, da UERJ.
Não há uma língua mais correta do que outra, porque não há uma língua típica. No seu desenvolvimento, uma língua pode ser mais ou menos opulenta, porém, nunca mais ou menos correta. Não se trata, pois, de elogiar ou vituperar, a linguagem de Portugal ou a do Brasil. De resto, um povo fala e traja como quer (seria mais certo do dizer como pode) e os pedantes da língua se parecem com os pedantes da moda. 2

Pôr na mesa de discussões a questão do português brasileiro, sua implantação e sua oficialização levou-me a refletir sobre pensamento do estudioso SÍLVIO ROMERO acerca da questão da correção lingüística que, no foro do ensino da língua é matéria de destaque. Polêmicas acirradas se desenrolam, mas as divergências continuam vivas. Afinal, quem está com a razão acerca da língua certa do povo? E mais: quais os critérios de definição de língua certa (ou errada)? O fragmento em epígrafe integra texto datado de 1916 e, em 1999 (83 anos depois), continua-se a discutir o tema com o mesmo calor de antanho. O advento da Lingüística trouxe-nos a dicotomia descrição & prescrição que, em primeira instância, parecia resolver a questão, uma vez que definia os papéis dos lingüistas e dos gramáticos: estes com a responsabilidade de apontar os modelos adequados; aqueles com o compromisso de explicar a sistemática das línguas. No entanto, retomando a idéia de SILVIO ROMERO quanto à questão da moda e dos pedantes, creio que a solução do certo e do errado em língua do ponto de vista do ensino vai perpetuar-se tal

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como o dilema do ovo e da galinha. Isto porque a definição do modelo ideal da língua – dito correto – deságua numa questão de poder que, por sua vez, leva-nos ao status quo que, a seu turno, assevera a relação entre língua e homem. Logo, se a língua é um fato social, por conseguinte, construído pela inter-relação humana, estará aquela sujeita aos ires-e-vires da vaidade humana e de suas conseqüências na estruturação do poder. A elitização das formas de dizer acaba por gerar uma idéia distorcida a respeito do domínio da língua nacional. É comum ouvir-se algo como “a gente fala tudo errado mesmo!” se a gente quiser falar de acordo com a gramática fica muito difícil”, etc. E essa distorção é intensificada pela atitude escolar que determina a variante padrão (ou norma culta) como a única forma correta de usar a Língua Portuguesa. Isto promove um distanciamento absurdo entre o que se ensina da língua e o que se usa da língua. Chega-se a pensar que aprender o português dito correto é tão difícil quanto aprender uma língua estrangeira. Esse problema é histórico, pois a escola no Brasil nasceu por força de necessidades políticas completamente afastadas do atendimento a interesse popular. E até hoje o que se vê é uma gestão escolar elitista, preocupada com quadros estatísticos de fachada, completamente distante da realidade vivida pela população. Logo, a política do ensino do idioma nacional não corresponde aos anseios lingüísticos da população, uma vez que sonega a variedade decorrente das dimensões continentais de nosso país, olvidando a caracterização de um povo plural na cor, no credo, nos usos e costumes, enfim, na forma de viver. Não quero fazer apologia de um ensino anarquista em que a variante padrão seja posta de lado, mas um ensino de fato democrático em que não se faça hierarquização dialetal. É preciso situar claramente a variante padrão no âmbito sócio-político, para que o estudante tome consciência da necessidade dessa modalidade de língua em benefício da comunicação ampla entre os usuários do português do Brasil. Sem alimentar a idéia de que um uso lingüístico possa ser melhor ou pior que outro, a variante padrão pode passar a ser buscada pelo estudante, ao invés de imposta pela escola. Para tanto é preciso demonstrar, através dos textos e de seu compromisso comunicacional, a necessária adequação de registro e a variedade estrutural decorrente da pluralidade de estilos à disposição do falante. Entendo que a política do ensino da língua para o terceiro

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milênio tende a ser eminentemente semiótico-estilística, sem abandonar os domínios gramaticais, mas privilegiando a forma e seus efeitos expressivo-comunicativos. Destarte, a atitude elitizante daria lugar a uma postura interacional, e a estilística não mais seria vista como antagonista da gramática, mas como sua coadjuvante, uma vez que viria ao texto todas as vezes que houvesse necessidade de um contorno expressivo especial e indispensável ao seu apuro expressivo-comunicativo. Minha preocupação maior, enquanto estudiosa do vernáculo, tem sido o ensino e, durante minhas pesquisas, descobri que o estudo do texto abarca a dualidade que o define como objeto de significação e objeto de comunicação. Por isso, o estudo do texto com vistas à construção de seu (seus) sentido(s) só pode ser entrevisto como o exame tanto dos mecanismos internos quanto dos fatores contextuais ou sócio-históricos de produção do sentido. Convém observar que a tomada dos mecanismos internos é justamente a preocupação de natureza gramatical, enquanto os fatores contextuais ou sócio-históricos ficam por conta das abordagens semióticas e estilísticas. Para ilustrar minhas palavras quanto a essa ótica metodológica sobre a abordagem dos conteúdos vernáculos, esclarecemos que as relações estabelecidas entre os signos lingüísticos perpassam por vários níveis de construção de sentido. Os que têm interessado à observação no projeto que venho desenvolvendo são o nível semiótico: por que isto significa o que significa? E o nível estilístico: o que isto pode provocar no leitor, enquanto impressão ou sugestão? Para tanto, há que se atinar para o potencial do signo lingüístico, como material disponível para o falante nativo (estamos tratando de língua materna – L1), por meio do qual ele interagirá com os seus pares. Nessa ótica, o ensino do idioma ganha contornos bastante diversos do que nos legou a escola tradicional. Proponho hoje um ensino não apenas normativo, mas interacionista, progressista, produtivo. Observando-se os valores funcionais dos signos e as conseqüências estilísticas e semióticas de seu emprego nos enunciados, a gramática não será trazida de fora para dentro, mas emergirá dos textos e das necessidades comunicativas. Portanto, vincular-se-á aos atos de fala (cf. SEARLE, John R. 1981. Os actos de fala) e terá valores ajustados e ajustáveis às necessidades enunciativas. Trata-se de um trabalho em que a gramática vai ao plural e

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será estudada em conformidade com a modalidade de texto em que estiver inserida. É um estudo gramatical contextualizado. É um estudo que não tem a nomenclatura como fim, mas como conseqüência. É um estudo que não visa às classificações absolutas, mas a uma relativização funcional dos elementos da língua, de suas relações e de seus mecanismos. Trata-se, portanto, de uma proposta metodológica em que nada é proibido desde que seja oportuno. Ilustrando: Estudar tipos de sujeito, de predicado, classes gramaticais, etc. deve ser o atendimento de uma necessidade de entendimento de relações, como: “A gente somos inútil!” Por que tal enunciado soa mal em nossos ouvidos? Porque estamos habituados a ouvi-lo como A gente é inútil ou Nós somos inúteis. Logo, a dissonância causada pelo desrespeito à concordância – seja verbal seja nominal – é o dado problemático. Portanto, cumpre aproveitar para examinar os valores: flexão nominal - singular/plural; flexão verbal – número-pessoal; concordância verbal e nominal: verbo/substantivo & substantivo/adjetivo, respectivamente; etc. Observe-se que à escola cabe informar das melhores maneiras de expressão levando em conta a indispensável adequação contextual. Por isso, trago ao texto algumas palavras de Celso Cunha (In Língua, Nação, Alienação, 1981: 15):
O próprio status da modalidade lingüística de que nos servimos não está claramente definido, ou melhor, as conceituações propostas se fundam em razões extralingüísticas, de regra eivadas de preconceitos historicistas ou nacionalistas. Daí as denominações variadas que vão desde as jacobinas (do tipo língua brasileira) às subservientes (como dialeto brasileiro). Isso sem falar nas neutras, anódinas (a exemplo de língua ou idioma nacional), que mais de uma vez têm valido para acalmar zelos patrióticos, mas que, em verdade, deixam a língua inominada, pois não há país soberano que não possua o seu idioma nacional.

Como é possível depreender do excerto, todo radicalismo sobre esta ou aquela variante seria uma atitude leviana ou intempestiva, uma vez que as fronteiras entre as variações lingüísticas não passam de cortinas de fumaça, por isso, são tênues e flutuantes, em geral. Logo, a impermeabilidade lingüística não é uma atitude pe-

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dagógica adequada, sobretudo em tempos de globalização, onde tudo é de todos e para todos. Por que não a língua? Na obra citada, o ilustre gramático já se indagava sobre: Como classificar o português do Brasil? E qual a metodologia de que nos devemos servir para descrevê-lo e explicá-lo?(Id. Ib.) Verifica-se, então, que o enfrentamento das questões relativas à descrição e à explicação da língua – e ao ensino, por extensão – são preocupações históricas que vêm sendo trabalhadas pelos filólogos, gramáticos, literatos, professores, compositores, políticos, etc. Logo, não se trata de questão simples de ser abordada, tampouco resolvida por um modelo qualquer de trabalho didático, sobretudo. No entanto, é preciso considerar-se que, dos modelos pedagógicos praticados podem emergir rotulações danosas para os estudantes (usuários do vernáculo), pelo simples fato de não dominarem a dita norma culta (ou padrão), apesar de comunicarem-se satisfatoriamente em suas variantes lingüísticas originais. A responsabilidade da escola em propiciar meios e modos em que o educando se assenhorie progressivamente do dialeto prestigiosos sem que seja violentado com a desorganização ou a destruição do seu vernáculo (CUNHA, Celso. 1985. A questão da norma culta brasileira. [p. 47]) é patente. Entretanto, os excessos precisam ser combatidos, e os olhos da escola precisam ser abertos para a necessidade de uma comunicação lingüística plural, extensiva a todos os falantes de uma língua, independentemente de localização geográfica ou social. O ensino eficiente da língua, portanto, deve calcar-se no uso desta; é o texto quem orienta um ensino produtivo, já que aquele é meio de veiculação das idéias; e é por meio do texto (oral ou escrito) que a comunicação é efetivada. O texto também traz consigo os compromissos do contexto: o que falo? para que falo? com quem falo. Dessa tríade de indagações surge uma de importância capital: como devo falar? Aí ressurge a estilística como a grande organizadora dos ditos, dos enunciados. É por meio da estilística que se tem acesso a um conjunto de “instruções” sobre o funcionamento eficaz das formas de dizer. Não basta pensar no autor defunto & defunto autor de Memórias póstumas de Brás Cubas, ou nos olhos de ressaca de Capitu em Dom Casmurro, assim como nas vozes veladas veludosas vozes de Cruz e Souza, como matéria para a análise estilística. É de interesse estilístico também a escolha do registro que, por sua vez vai determinar a seleção vocabular e as

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combinações sintagmáticas que mais se adaptem à formulação textual pretendida. Ao lado da estilística vem a semiótica, tomando os signos verbais ora como ícones, como índices ou como símbolos (classificação genérica) e viabilizando a seleção da seleção e a recombinação mais oportuna e eficaz, associando a necessidade expressiva à interpretabilidade do texto. Não devendo prolongar as reflexões sobre o tema em função da natureza desse trabalho - uma fala em mesa-redonda, decidi conclui-lo retomando a pergunta-título Qual é a língua brasileira a se aprender na escola? e reapresentar a questão substituindo aprender por ensinar, apontando o adjetivo brasileiro não como um índice de jacobinismo, mas de soberania; lembrando da importância do domínio mais amplo possível das variedades da Língua Portuguesa do Brasil, como condição de eficiência comunicacional e de competência cidadã; alertando os docentes sobre a importância de uma metodologia interacionista, funcional, dinâmica, onde a estilística seja de fato trabalhada como ciência do estilo, e a semiótica seja convidada a participar da festa do idioma (classes de português), atuando como “bússola” para a composição dos melhores textos e, por conseguinte, para a leitura destes. Por isso, a escola deverá apetrechar o aluno, se não com o uso imediato de qualquer variante, mas pelo menos com a disponibilidade de interagir com qualquer delas sem atitude preconceituosa ou discriminatória. A partir do convívio sistemático com a multiplicidade de usos lingüísticos e a observação cuidadosa dos valores expressivo-comunicativos dos componentes textuais, o usuário tornar-se-á versátil diante das potencialidades da língua e, conseqüentemente, estará preparado para desempenhar valioso papel social no BRASIL adulto do terceiro milênio.
Nota 2 (Palavras SÍLVIO ROMERO. Estudos sobre a poesia popular. p. 310 Apud in VIRGÍLIO DE MEMOS – O problema dialetológico. In PINTO, Edith Pimentel. O português do Brasil- Textos críticos e teóricos – 18201920 – Fontes para a teoria e a história. Rio de Janeiro: Textos técnicos e científicos; São Paulo: EDUSP.) Darcilia Simões - Doutora em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa) pela UFRJ, tendo defendido tese sobre a aplicação da semiótica ao ensino da redação. É professora adjunta do Programa de Mestrado em Língua Portuguesa do Instituto de Letras da UERJ, atuando como subcoordenadora do Curso e coordenadora da Pós-graduação lato sensu.

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A defesa da fé no púlpito transdisciplinar
Geysa Silva, da UFJF.
O progressivo deslocamento dos estudos literários, para outras áreas além da teoria mesma, implica a absorção de elementos de natureza diversa, que apontam para a cultura como centro irradiador de pesquisas e de publicações referentes ao assunto. Essa mudança de enfoque trouxe uma nova postura diante do texto e liberou a crítica para penetrar em várias disciplinas, usando-as como contraponto a sua especialidade e, assim, melhor lidar com os múltiplos aspectos que a leitura do literário oferece. Nestas condições, não devem surpreender a ninguém relações entre literatura e religião, ou entre literatura e música, pois tão agudas quanto as mudanças de gêneros são as mudanças teóricas que os analisam. Considerando-se que palavra e música são em essência imbricadas pelo som e que a ligação entre elas remonta às origens líricas, possível é observar como se dão essas referências que se manifestam no tecer das estruturas dessas formas de arte. Por outro lado, a religião, ao invocar a persuasão retórica para atrair e convencer os fiéis, deu, muitas vezes, a seus sermões um ritmo e uma melodia facilmente identificáveis. De início, poder-se-ia dizer com Empédocles1 que, no literário, “o tornar-se um é ele mesmo um múltiplo, o concentrar-se é separar-se”, pois do literário não se pode afirmar de modo enfático o que é, só se pode declarar do que se trata; trata-se da manta que encobre as afirmações religiosas e do mantra que se invoca e se repete no ato litúrgico da escritura. No discurso religioso, os rastros do literário vão denunciando os enigmas que se ocultam e se mostram na cena musical e ambígua da linguagem, pois a religião como a música é duplicável, é som (palavra) e silêncio, construção e

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desconstrução, uma forma de inferência e de representação, uma lente através da qual não se vê, mas se concebe a vida e o homem. Por trabalhar com concepções, a crítica literária hoje escapa à tradição racionalista do ocidente, interpretando Saberes e permitindo que a literatura se amplie, ocupando o terreno transdisciplinar, numa operação de deslizamento que vai da harmonia dos vocábulos aos apelos impactantes de uma religiosidade aflita. Falar da experiência religiosa significa recuperar uma tradição determinada, desprezando a razão para adotar componentes emotivos e intuitivos na apreensão do que é dito e vivido. No caso particular desse trabalho o que se pretende é pegar os fios de diferentes meadas e trançá-los, para tentar apreender a herança cultural de uma cidade, suas crenças, seus medos e desatar o nó de suas memórias. O tripé - literatura, música e religião - constitui, portanto, a complexa arquitetura com que serão examinados alguns discursos do Padre Júlio Maria, redentorista que abalava o comodismo de católicos do século XIX e princípios do século XX, na cidade mineira de Juiz de Fora. Quem era esse Padre Júlio Maria, que pregava um catolicismo vigoroso e atacava a mescla de sagrado e profano, observada nas festas religiosas de Juiz de Fora, no início do século? Nascido em Angra dos Reis, bacharelou-se em Direito, em São Paulo; militou na política e exerceu cargos de magistratura em Minas Gerais. Ao enviuvar pela segunda vez, foi para Mariana, onde estudou Teologia e ordenou-se padre, em 1891, indo para Juiz de Fora. Ficou famoso por seus sermões, que traduzem um esforço de situar-se entre o religioso e o literário, na dinâmica das relações que integram forma e conteúdo. Dele nos fala Murilo Mendes, em A idade do serrote, como alguém que tem visão diferente do catolicismo e, assim, influenciava os fiéis: O Padre Júlio Maria já me vacinara contra a religião piegas das beatas1 . Ao transformar o discurso religioso em literário, o Padre Júlio Maria lhe atribui o imperativo de representar, ser imagem, um universo em outra dimensão. E suas palavras vão ganhar traços musicais, visto que a música repousa sobre a relação triática: homem/ obra/transcendência, daí a importância do ritmo, do tempo construído pelo artista que transfigura o real. A fala performática, que do púlpito imprecava contra os fiéis, é atravessada por uma melodia monocórdia, análoga à monofonia do canto gregoriano, que o rigor eclesiástico conduziu ao máximo de perfeição expressiva, permitin-

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do que até hoje ouvintes se deliciem com sua beleza. Essa monodia (segundo alguns) ou monofonia (segundo outros) limita as opções de representação, todavia permite centrar a atenção no orador e, por conseguinte, em suas palavras, conforme se constata neste trecho de O Deus desprezado: Eu sigo os trilhos que o Senhor me riscou; dou os combates a que me convidou; acompanho a estrela que Ele fez brilhar nas trevas da minha mocidade1 . Em música, a melodia é o universo semântico da obra, o espaço (no sentido amplo do termo), onde se desenham imagens ordenadas pela harmonia e onde o musical adquire materialidade. Esta música-linguagem é captada pelo leitor que percebe as relações entre essas duas formas expressivas e pelo autor que pretende a integração do homem com a totalidade absoluta. É preciso notar, contudo, que totalidade aqui não significa uma forma de organização e, sim, uma vivência plena do Santíssimo Sacramento, mostrando que o homem pode e deve aspirar a esse estado último da hierarquia cristã, mesmo sem desprender-se de suas obrigações cotidianas. O Padre Júlio Maria não receita a irracionalidade, mas percebe que o desapreço pelos valores espirituais constituía-se em grave ameaça ao catolicismo. Ao notar as “doenças” de uma cidade que começava a mergulhar na era da técnica e a entregar-se aos excessos do pragmatismo, o vigário vai tentar “salvá-la” para Deus, propondo uma prática de vida que se opunha à superficialidade da fé. Assim, entre os extremos da fé desencaminhada e um ateísmo transformado em réu de um processo de animosidade contra a Santa Madre Igreja, o Padre Júlio Maria procurou um espaço no qual a razão se unisse ao sentimento. Nessas condições, modifica a melodia de seus discursos, que invocam testemunhos, colocam em disponibilidade várias vozes, não como diálogo polifônico, porque as vozes não se contrapõem, porém como expressão de uma mesma idéia. Os santos são, em relação a Jesus Cristo, diz com muito feliz comparação, Augusto Nicolau, como prismas em relação à luz2 .

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Ou ainda: S. Vicente de Paulo [...] aos padres exprobava esta triste decadência da religião e dizia: “Somos nós, os padres, a causa principal da deplorável diminuição da fé1 . Admitir a culpa dos padres traz, para a discussão, o tema da recompensa e do castigo, do mérito e do demérito. Há nessa religiosidade o imperativo categórico kantiano, uma escuta anterior - o dever que a consciência impõe ao sujeito que é visto como imagem, modelo a ser seguido pelos leigos. Para exortar os padres a vivenciarem o Santíssimo Sacramento e a disseminarem essa devoção (tal como fazem os carismáticos contemporâneos), o Padre Júlio Maria organiza seu discurso em perguntas retóricas, no mais puro estilo de Vieira. No final de século XIX, a atmosfera de angústia e de pessimismo exemplificada por Schopenhauer provocava, em contraponto, a vontade hedonística de aproveitar cada momento da existência; por isso muitos preferiam os prazeres dos sentidos aos prazeres intelectuais ou aos prazeres místicos. Os padres demitiam-se do dever de estudar e adotavam o improviso como prática oratória. Contra isso investe o Padre Júlio Maria:
Pode saber pregar quem não procura no Divino Mestre da palavra a alma, a inspiração, o fogo da eloqüência sagrada?! [...] A palavra de Deus não precisa, para trazer frutos de talentos oratórios; precisa apenas ser reproduzida pelo padre com decoro, fidelidade, gravidade2 .

Os sermões se sucedem, organizados em suíte que, após variações esporádicas, executam o ritornello da adoração ao Santíssimo, como condição sine qua non para a beatitude ser alcançada. Essa estrutura de repetição, que lembra o estribilho, combina-se com a linguagem metafórica e com os inúmeros similes e comparações encontradas nos discursos. Em música, ao contrário do texto verbal, nenhuma combinatória da conta do texto específico, pois é impossível encaixar os sons em sintagmas. Entretanto, os movimentos de um discurso podem ser apreciados como os de uma obra musical. É assim com os sermões de O Deus desprezado. Iniciam-se com um adágio grave, ao qual se seguem fórmulas dramáticas que lembram as árias operísticas

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ou os recitativos acompanhados de elementos musicais. Essa técnica leva o ouvinte num crescendo para ancorá-lo num tempo que permanece até no silêncio depois da última palavra (ou última nota) e que se faz na dialética entre stasis e kinesis. Vejam-se alguns fragmentos do vigésimo quinto sermão:
Início: Quanto ao ensino em geral, é uma tristeza a doutrinação das paróquias. Meio: O sermão! Ele revela a degeneração do culto, o falseamento das devoções e o divórcio, em muitos, da fé eclesiástica com a Teologia. Final: Assim, no sermão há de haver o proveitoso da fruta, o formoso das flores, o vestido das folhas[...], mas tudo isso nascido e formado de um só tronco, e esse levantamento no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho1 .

A macro-estrutura desses sermões é a segmentação didática tradicional: apresentação, desenvolvimento, conclusão e por conseguinte, a mesma estrutura da sonata. A tonalidade do desenvolvimento contrasta com a da apresentação, enquanto a última parte retorna a primeira, porém num ritmo vibrante não usado anteriormente. O final apoteótico desses sermões, em O Deus desprezado, faz a negação do lado trágico da vida e substitui a gratuidade e a insignificância de nossa existência pela crença na redenção. Assim como a vontade de potência é, para Nietzsche, a força maior que nos possibilita uma jubilação trágica, o culto de Cristo presente na Eucaristia é a devoção principal que permite ao Senhor humilhar-se, repetir o sacrifício do Calvário e oferecer-se de novo como Salvador. Em Juiz de Fora do início do século, o Padre Júlio Maria se assombra com uma religiosidade que não consegue aceitar, com uma fé que não conduz a nada e, então, ele elabora meios de encarar esse nada de frente; constrói, em seus sermões, uma ética em que a religião é capaz de assumir a vida em sua integridade. Se, em A origem da tragédia, Nietzsche pensa o trágico não como convite à paralisação, mas como proximidade com Dionísio e como meio de penetrar no Eterno Retorno, em O Deus desprezado, o Padre Júlio Maria pensa que a tragédia da morte pode ser superada pela presença de Cristo encarnado que leva o crente à glória inefável.

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A presença real! A permanência de Jesus Cristo na terra! A sua perpétua coabitação com os homens! [...] O espírito que se fortalece neste mistério quase que sente despedaçados os grilhões da carne e vai, nas regiões do infinito, pedir aos anjos que cantem a fortuna e a glória da humanidade!1 A literatura, através do discurso religioso, presentifica um tempo distante, permitindo que a imaginação percorra o texto, desvele sua geologia para alcançar o contemporaneidade. A obra, assim, deixa de ser apenas o documento que indica o passado de modo não proposital, para transformar-se em monumento. Com as inúmeras diguras de linguagem, encontradas em O Deus desprezado, erguese uma Juiz de Fora ansiosa por viver as delícias da “belle époque” que se formava; um catolicismo entregue a festas e comemorações que mais divertiam do que doutrinavam; um clero dividido por questões pessoais ou por divergências teológicas. Quais são as enfermidades que desunem muitos padres? ressentimentos,rivalidades, egoísmos, vaidades. Ora, que ressentimento alheio pode resistir a um ato de amor de nossa parte2 ? Fato social e mônoda, a obra, segundo Benjamim, é cristalização das tensões sociais e alegoria do outro de sua época, mostrando a História como poderia ter sido e como legado do que foi, enquanto o murmúrio barthesiano da linguagem transmuta os elementos que afloram no texto e revela a face oculta da palavra, que penetra no entrevisto e no entretido, exibindo os fractais de outros Saberes, diferentes do literário. Musical, religioso, literário, o discurso de O Deus desprezado sobrepõe a tudo o problema da crença. Crer na salvação, numa época caracterizada pelo esquecimento de Deus, significa sustentar uma referência a um sentido. É esse sentido que o poeta Murilo Mendes, menino ainda quando ouvia as pregações do Padre Júlio Maria, vai retornar, já adulto, ao encontrar-se com Jorge de Lima e Ismael Nery. Crer, para o padre e para o poeta, não é apenas aceitar as certezas oferecidas pela religião institucional. Crer é compartilhar a vida com o Verbo Encarnado e viver na angústia do silêncio de Deus.

Geysa Silva - Professora de Teoria da Literatura da UFJF.

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Bibliografia MENDES, Murilo. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguila, 1994. NIETZSCHE, Friederich. O nascimento da tragédia no espírito da música. In: Nietzsche. São Paulo: Abril Cultural. Coleção. Os pensadores, 1978. PADRE JÚLIO MARIA. O Deus desprezado. Rio de Janeiro: Livraria Boa Imprensa, 1905. Notas 1 Empédocles (1973), p.232 1 Mendes (1994), p.94 1 Padre Júlio Maria (1895), p.102 2 Padre Júlio Maria (1895), p.34 1 Idem, p.26 2 Idem, p.86 1 Padre Júlio Maria (1905), p.91 1 Padre Júlio Maria (1905), p.106-107 2 Idem, p.84

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A indeterminação do sujeito no falar culto do Rio de Janeiro
Hilma Ranauro
1. Introdução O sujeito formalmente expresso pode ou não estar indefinido ou definido, indeterminado ou determinado, semanticamente, o que depende de o falante poder ou não identificá-lo, ou mesmo querer ou achar relevante fazê-lo. Pode ele atribuir o que afirma à massa humana indiferenciada, falando de um modo geral, sem referir-se a alguém em especial. Nesses casos, pode haver ou não, formalmente expresso, um termo-sujeito, que seria, do ponto de vista semântico, indeterminado. Nosso corpus, retirado de dois Inquéritos do Projeto NURC/ UFRJ, dá mostra de vários recursos da Língua Portuguesa do Brasil, mais especificamente do Rio de Janeiro, utilizados, na fala oral considerada culta, para a chamada indeterminação do sujeito: você, a gente, nós, eles, a(s) pessoa(s), alguém, eu, além das registradas pelas gramáticas normativas (verbo na 3ª p. pl. ou verbos na 3ª p. sing. + se), muitas vezes em coocorrência, em distribuição livre. Muitos são os contextos em que a ocorrência de diferentes formas, em diferentes momentos e contextos, revelam que o falante vem a incluir a si mesmo e/ou seu interlocutor no que seria o sujeito dito indeterminado. É importante que se esclareça ser característica do informante do Inquérito 193, o que se depreende do seu discurso, uma atitude liberal quanto a padrões e valores sociais. A informante do Inquérito 373 manifesta pontos de vista tradicionais e conservadores em algumas de suas colocações. Até que ponto isso se estaria refletindo em suas opções lingüísticas?

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O informante do Inquérito 193, um homem, tinha, à época da entrevista, 45 anos de idade; a informante do Inquérito 373, uma mulher, 58 anos. Até que ponto todos esses dados, além da profissão de cada um (não constante dos inquéritos) estariam a determinar opções e/ou número de ocorrências? Caberia levantar um maior número de inquéritos para que se pudesse ousar em termos de interpretações nesses níveis. Que se registre que o inquérito de n.º 193 data de 1973 e o de n.º 373 de 1978. Apresentam, porém, usos que são facilmente observáveis nos nossos dias. O número de ocorrências de cada uma das formas levantadas - em cada inquérito e no total - está registrado na tabela apresentada ao final. 2. Os inquéritos 193 e 373 do Projeto NURC2 2.1 - VOCÊ (74 ocorrências - 64 no inquérito 193 e 10 no inquérito 393) Sabemos ser comum, entre os falantes do português do Brasil, o emprego de você, onde se indetermina (indefine) o sujeito, ou, como já colocamos, se o generaliza. Em relação ao falar do Rio de Janeiro, temos, a comprovarem essa afirmação, exemplos coligidos a partir dos inquéritos 193 e 373 do Projeto NURC: Inquérito 193:
Mas era um maiô de duas peças que você via... três dedos de...barriga, né? (p.19); O efeito é que você tem toda uma ligação espiritual, quando você vê aquela imagem de mulher grávida dá sempre um carinho.. uma ligação espiritual...com... com o lado espiritual e... e... estético. (p.11); Peruca, por exemplo, é...bonito. Você...Você não tem a sensação de postiço, né? (p.20); Antigamente você não usava uma jóia falsa, era ridículo, você usar uma jóia falsa, né? Ou você usava uma jóia raríssima, ou você não usava nada. (p.25); Lá você............., você tem que...que...se vestir de acordo com o local, né? Lá na Europa, em Paris, tinha tanta roupa de lã, tinha que botar agasalho. Não botava gravata que também lá usa pouco gravata. (p.28). (São nossos os grifos).

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No último exemplo, observa-se o emprego do verbo na 3ª p. do sing. sem o pronome se: “...tinha que botar agasalho. Não botava gravata que também lá usa pouco gravata”. Pelos padrões considerados cultos pela norma vigente, caberia dizer: “...tinha-se que botar agasalho. Não se botava gravata que também lá se usa pouco gravata.” Observa-se, aqui, o emprego de você, e, após, o de outra forma para indeterminar o sujeito. Isso é comum neste Inquérito 193:
...você não nasce com roupa. É uma neurose, não é nem complexo, é neurose mesmo. Você não nasce com roupa. Com duas horas, três horas de nascido, te põem uma roupa em cima e você não consegue tirar nunca mais. (p.01); Se você está dependente dele, pra...pagar sua comida, pra pagar teu almoço, pagar não sei o que, você não quer contrariar, não quer criar caso... (p.25) (No último exemplo, observa-se o emprego de pronome possessivo referente à 3ª p. e o referente à 2ª). Não, não há relação entre você ficar nu*, com o erotismo, com coisa nenhuma. Você aprende isso quando acontece o fato e de repente você vê que não tem a menor importância. Que é um drama, não é? Você imagina...é...o fato de você ficar nu,* você (espera aí um instantinho) você dramatiza, é uma coisa terrível. Você acha que pela primeira vez você vai ficar nu* em tudo na frente das pessoas, te cria um drama, e até um trauma, já aconteceu isso, eu já vi gente assim de não conseguir ficar, não conseguir tirar a roupa. (p.02).

Observe-se que, se o pronome se referisse ao interlocutor, no caso, uma mulher, ele teria dito “você ficar nua (fem.)”. Percebese, aí, a consciência de que você não se refere diretamente à pessoa com quem se fala, mas às pessoas de um modo geral, incluindose a com quem se fala. O mesmo ocorre nos exemplos dados a seguir, também do Inquérito 193:
Da importância que é a pessoa poder tirar a roupa, poder ficar nu na frente dos outros. (p.01); Você na zona norte não fazendo nada... vai fazer o quê? Vai ficar sentado num banco de praça ou

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA ficar trancado em casa? (p.12); Não aceita mais subordinação, que antigamente você, eu tinha falado isso há pouco tempo, você, a mulher era criada pra...prendas domésticas, né, e isso significava apenas você transferir porque a mulher antes de se casar ela era dependente dos pais... (p.22).

Registra-se uma mudança de atitude do informante, na medida em que toma consciência de que o que vai falar não pode ser atribuído a todos, de um modo geral, indiferenciadamente, como vinha fazendo. Está ele, agora, referindo-se a uma condição específica da mulher. Isso o faz retomar o início do pensamento, das conjecturas e retificar-se:
...antigamente você, eu tinha falado isso há pouco tempo, você, a mulher era criada pra... prendas domésticas etc.

Inquérito 373: No Inquérito 373, p. 23, a partir da linha 07, registra-se o emprego do pronome de primeira pessoa do singular, eu, juntamente com o emprego de você. O falante se coloca na situação, parte da generalização para a identificação com a situação a que se refere:
Porque você vê, um pagamento bancário que você tenha com aquele prazo, se eu passar um dia, um dia, você vai pagar...

Na página 22, linhas 14 e 15, registra-se:
Está meio...de...depositar todo mês, que se eu parar de depositar, então já...

Foi também registrada a coocorrência de você e a(s) pessoa(s) (item a seguir). 2.2 - A(S) PESSOA(S) (7 ocorrências - 3 no Inq. 193 e 4 no Inq. 373). É comum a coocorrência da forma no singular e no plural em ambos os Inquéritos:

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Inquérito 193:
Da importância que é a pessoa poder tirar a roupa, poder ficar nu na frente dos outros. (p. 02)

Inquérito 373:
Agora o que as pessoas fazem pra levar aquele dinheiro pra dentro de casa... (p.25); Agora, a pessoa também tem que ser um pouquinho esperta, né? (p.28); Então a pessoa... É um trabalhão. Tem que ter agenda pros pagamentos, pras coisas. Você tem que estar escrevendo aquilo, durante o mês tem que fazer: dia tal pagar o banco, dia tal, tal banco (inintelegível). Porque se você se atrasa, vai pagar juros. (p.13). (Atente-se para a coocorrência de você).

2.3 - A GENTE (10 ocorrências - 3 no Inq. 193 e 7 no Inq. 373) Gladstone Chaves de Melo cita, dentre as formas de exprimir o sujeito indeterminado, “o sujeito materialmente constituído pela expressão ‘a gente’, de valor indefinido” (MELO, 1980,p.122). Já Evanildo Bechara, na 9ª edição da sua Moderna Gramática Portuguesa, aponta como uma das formas de indeterminar o sujeito o emprego do pronome se junto ao verbo “de modo que a oração passe a equivaler a outra que tem por sujeito alguém, a gente ou expressão sinônima” (BECHARA, 1964, p.247). No exemplo que se segue, colhido do Inquérito 193, percebese a coocorrência de a gente e do verbo na 3ª p. sing. + se, a confirmar a correspondência semântica entre ambos os empregos quanto à indeterminação do sujeito :
E agora a gente usa uma calça de, de boca larga e...e se lembra a calça de boca sino, acha ridículo, né? Ou tem uma antiga que bota e acha ridículo. Mas também já houve um tempo em que ...usava-se boca larga e depois virou de boca sino e se achava ridículo a boca larga. Isso é modismo. (Inq. 193, p.05); É uma calça tipo... calça justa que a gente usou. (ibid:29).

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No Inquérito 373, ocorre, por exemplo:
Se ele tem um bom emprego, a gente calcula...calcula logo que é o emprego que está sustentando aquilo, né? (p.15); Cla...claro, caderneta de poupança a gente tem. Tem que ter, né? (p.22).

2.4 - NÓS (10 ocorrências - todas no Inq. 373). Outro fato observado é o emprego do pronome nós, correspondendo a a gente, como sujeito indeterminado. As dez ocorrências se encontram no Inquérito 373. Não registramos nenhuma no Inquérito 193:
DOC E (inteligível) se a gente for comparar com com a televisão brasileira, né... LOC Se nós formos fazer isso a tele...as televisões... (Inq. 373, p.32).

Registramos, aqui, o emprego de a gente pelo documentador (DOC). Oberve-se que, curiosamente, o informante, que vinha empregando a gente, usou nós. No exemplo apresentado a seguir, registra-se coocorrência do emprego da forma verbal na 3ª p. do sing. + se e de nós:
...não se pode dizer que é...as mulheres estejam mais...não sei. Isso agora está variando muito. Talvez que há algum tempo nós pudéssemos dizer que a mulher juntava primeiro pra comprar depois. (Inq. 373, p.27).

Se ocorre o emprego de a gente onde se indetermina o sujeito, é natural que se empregue nós, já que, semanticamente, ambos se correspondem (a gente = nós)1 . 2.5 - ELES (9 ocorrências - todas no Inq. 373). Registra-se, também, uma tendência que se observa comumente entre nós: o emprego de eles onde se empregaria uma das formas gramaticais de indeterminação do sujeito:

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Que você vê, toda hora eles estão mostrando um negócio...; Eu sei que nos Estados Unidos, eles já estão olhando muito essa parte...; Eles estão chegando a esta conclusão. (Inq. 373, p.33).

A forma pronominal, cabe esclarecer, não se reporta a nenhum referente anteriormente mencionado. O documentador perguntara: “Vai haver agora alguma espécie de modificação, né? No funcionamento da caderneta?” A informante respondeu inicialmente: “É, se... eles dizem que vai ha..., vai, não. // É outro tipo de poupança que eles estão pensando em fazer.” 2.6 - O PESSOAL (2 ocorrências, uma em cada Inquérito):
Via de regra, o pessoal todo além de não fazer nada...também tá...tá liberto de uma série de compromissos... (Inq. 193:12); Será que o pessoal quer mesmo? Se se marcar uma reunião, uma palestra sobre isto, será que vai-se ter público pra... (Inq.373, p.29)

2.7 - ALGUÉM (1 ocorrência no Inquérito 373):
“É verdade que...agora alguém pode argumentar: ah, mas é...agora o nível de vida...” (Inq.373, p.4).

Foi comum, entre gramáticos mais antigos, a discussão quanto a terem enunciados desse tipo sujeito indeterminado ou sujeito “claro”. No cerne dessa questão, estava a confusão entre os planos morfossintático e semântico. Do ponto de vista morfossintático, o sujeito é alguém, semanticamente indeterminado (indefinido para Said Ali). É “claro” por ser formalmente expresso, mas não o é semanticamente. 2.8 - VERBO NA 3ª P. PL. (1 ocorrência no Inquérito 193). Quanto às formas apontadas pela gramática normativa para a indeterminação do sujeito, observamos que a forma de 3ª pessoa do plural aparece só uma vez, no Inquérito 193, mesmo assim, após o Documentador tê-la empregado, o que nos leva a concluir que o informante deve ter sido influenciado pelo registro de seu

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interlocutor.
DOC Se batessem na porta e você tivesse que se levantar rapidamente? INF ...Se batessem e ...eu tivesse que sair da cama, eu enfiava uma calça. (Inq. 193, p.24).

2.9 - VERBO NA 3ª P. SING. + SE (17 ocorrências) e/ou - SE (16 ocorrências) (Inquérito 193: 7 ocorrências com se e 14 sem o se; Inquérito 373: 10 ocorrências com o se e 2 sem o se). Inquérito 193: No Inq. 193, chegamos a registrar a construção com o se e, imediatamente, a sem o se:
Antigamente se durava dois ou três anos para separar, agora leva cinco anos. (Inq.193:21); Não se usava cores vivas, nem em gravatas. Depois...começaram a aparecer camisas floridas de influência americana, não é? Aí, de repente, liberou tudo. (Inq. 193, p.04); Aí liberou tudo. (Inq. 193, p.05).

Lembremos, aqui, o exemplo de Gladstone Chaves de Melo “Quebrou a compoteira.” Por “Quebrou-se a compoteira.”, como uma das formas de se indeterminar o sujeito. (MELO, 1980, p.120)
Lá você , você tem que, que... se vestir de acordo com o local, né? Lá na Europa, em Paris, tinha tanta roupa de lã, tinha que botar agasalho. Não botava gravata que também lá usa pouco gravata. (por “tinha-se que botar agasalho”; “Não se botava gravata que também lá se usa pouco gravata”). (Inq. 193, p.28).

Inquérito 373: Ah! só paga daqui a dois meses (por só se paga). (Inq. 373, p.29). No exemplo que damos a seguir, colhido no Inquérito 193, observamos que nem o fato de o documentador empregar a constru-

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ção com o se leva o informante a fazê-lo. Observemos:
DOC Em relação à roupa interna, de mulher e homem, o que se usava antes, o que que se usa agora, ou não se usa? INF Usava e não usa? Sutiã! Pelo menos a grande maioria não usa, né? Parece até que as fábricas estão...falindo. Não usava sutiã, hoje não usa sutiã. Hoje não usa sutiã. Calça continua usando. (por “usava-se”, “não se usa” “continua-se usando”). (Inq.193, p.23).

Este fato é comum entre nós, principalmente no falar mineiro. (cf. A perda dos pós-clíticos no dialeto mineiro, Dissertação de Mestrado de Alair da Cruz Cavalcante D’Albuquerque/UFRJ/1982). 2.10 - Coocorrência de várias formas para a indeterminação do sujeito. A construção com verbo na 3ª p. sing. + se ocorre 10 vezes no Inquérito 373. Na maioria das vezes, há uma oscilação: ocorre, por vezes, o emprego concomitante dessa forma e de outras em que se registra formalmente um sujeito (você, nós, a(s) pessoa(s), a gente, etc.). Isso comprova a correspondência semântica entre aquela construção e as que tenham esses termos, ou outros similares, como sujeito claramente expresso. Vejamos:
É verdade que...agora alguém pode argumentar ah, mas é...agora o nível de vida... Está certo, eles pagam caro. Eles pagam caro isto...esta possibilidade que eles têm agora. Eu não...não...não...não...não...não...não acredito que seja de se... de se isolar esse pensamento, não. Eles estão, realmente, pagando um preço muito alto.” (Inq. 373, p.04). (Eles, nesses contextos, reporta-se a “os estudantes”). “Só se pensa em trabalho pra ter dinheiro.” (Inq.373, p.26).

O último enunciado conclui uma fala que se inicia na p.25, linha 15, em que a informante emprega as pessoas:
Agora o que as pessoas fazem pra levar aquele dinheiro pra dentro de casa... (Inq.373,p.25, li-

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA nha 17); As pessoas têm dois, três, quatro empregos. (p.25, linha 19); ...influi dentro de casa. Desde o humor da pessoa... (não mais as pessoas). (p.26, linhas 2 e 3). Só se pensa em trabalhar pra ter dinheiro.( E não: “A(s) pessoa(s) só pensa(m) em trabalhar pra ter dinheiro”).

Nesses contextos, não inclui a informante a si mesma nem sua interlocutora. Emprega as pessoas e verbo na 3ª p. sing. + se. Por vezes, passa ela a incluir sua interlocutora e a si mesma:
...não se pode dizer que é...as mulheres estejam mais...não sei. Isso agora está variando muito. Talvez que há algum tempo nós pudéssemos dizer que a mulher juntava primeiro pra comprar depois. (Inq.373, p.27). (Emprego do verbo na 3ª p. sing. + se e da 1ª p. pl.).

Inclui ela a si mesma e a interlocutora no que vinha atribuindo a um sujeito indeterminado. Comparemos esse exemplo com os que damos a seguir:
Será que o pessoal quer mesmo? Se se marcar uma reunião, uma palestra sobre isto, será que vai se ter público pra... (Inq.373, p.29); Mas nós nos deparamos logo com um problema: nós não vamos ter um público para aquilo. (Inq.373, p.31); Contrata-se uma pessoa, um economista, um assistente social, um nutricionista e vamos fazer uma série de palestras pra pessoa aprender o que deve comprar e o que não deve comprar, vaise ensinar isso tudo, muito bem, né? (Inq.373, p.31).

Temos, onde se indetermina o sujeito, a coocorrência de o pessoal, do verbo na 3ª p. sing. + se, do verbo na 1ª p. pl., com ou sem a presença do pronome sujeito e de a pessoa. Percebe-se, nessa oscilação, nessa variação, que a informante se inclui e inclui sua interlocutora entre os que “marcariam uma reunião”, os que “teriam ou não público”, entre os que “fariam uma série de conferências” e “ensinariam tudo”, mas não entre os que “quereriam ou não isso” (emprega o pessoal), nem entre os que “iriam ou não responder à convocação” e os que deveriam “aprender a comprar” (emprega ela a pessoa).

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Esses exemplos estão a cobrar um levantamento maior e um estudo mais profundo. Caberia verificar as várias formas de “indeterminar” (indefinir?) o sujeito, verificando-se as escolhas do utente da língua e o que subjaz a elas, o que estaria a motivá-las. Cabe verificá-las em relação à inclusão ou não do emissor e/ou do receptor. No emprego de eles, parece clara, pelo menos no dito ou aparentemente dito, a exclusão do emissor e do receptor. É sempre bom lembrar que muitas vezes se atribui “aos outros” (eles) o que se gostaria de dizer, ou se pretende dizer, do receptor ou a ele, nas “indiretas”, no “jogar verde para colher maduro”, para ver se ele “veste a carapuça”, como se costuma dizer. No emprego de a gente e nós, percebe-se a inclusão do emissor. Haveria por vezes a inclusão de ambos, emissor e receptor, o que se poderia depreender, ou não (resta sempre o subliminar), da situação de enunciação e/ou do contexto. No Inquérito n.º 373, são vários os contextos em que a forma que representa o sujeito do(s) enunciado(s) varia a cada afirmação: ora ele, ora eles, ora eu, nós, a pessoa, a gente, etc... No que apresentamos a seguir, o emissor passa do distanciamento de si mesmo e do ouvinte para a inclusão, primeiro, de si mesmo, depois, de ambos:
...eles também se perdem, eles não vêem que no fim do mês eles vão ter que pagar aquelas contas todas. E agora também há um fator: ah! só paga (por só se paga) daqui a dois meses, três meses, a pessoa: ih, daqui... eu compro em dezembro vamos comprar porque só em março nós vamos pagar. (Inq. 373, p.29). (Após empregar eles, verbo na 3ª p. sing. sem o se e a pessoa, a informante emprega eu (por incluir a si mesma) e nós (por incluir a si e sua interlocutora).

Essas oscilações são freqüentes no Inquérito 373 e não no Inquérito 193. Neste, o informante emprega exaustivamente a forma você, como já registramos. Raros são os contextos em que emprega o verbo em 3ª p. sing., na maioria das vezes sem o pronome se.

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2.11 - EU (1 ocorrência no Inquérito 373). No trecho dado a seguir, ocorre também o emprego de eu, alternando com as demais formas. É interessante observar que, nesse trecho, ocorre, também, o emprego de eu (formas não assinaladas), reportando-se à 1ª p. sing., à 1ª p. do discurso como sujeito dito “claro”, não “indeterminado”. O mesmo ocorre em relação a você.
Nós já temos tanta papelada pra olhar os prazos, se não olhar o prazo, vai pagar juros, vai pagar juros de mora, vai pagar imposto, tanta coisa; agora mais um negócio na cabeça da gente pra saber se...se vai botar...vai botar mil, ou se vai botar mil e quinhentos. Espera aí”! Não acho que... Não acho prático isso não, ouviu? Eu acho que a coisa deve ser ah...facilitando, facilitar a vida. Porque você vê, um pagamento bancário que você tenha com aquele prazo, se eu passar um dia, um dia, você vai pagar... (Você, em sua 1ª ocorrência (sem negrito), reporta-se à documentadora). Eu estou com um aqui que...que...que é um condomínio, se eu me atrasar, vou pagar vinte por cento! É um absurdo pagar vinte por cento. (Inq. 373, p.2223). (Eu, nessas últimas ocorrências, reporta-se à 1ª pessoa do singular. A informante refere-se a si mesma). A informante emprega nós (temos), a 3ª p. singular – se, e a gente. Mais adiante, vem a empregar você, eu e você.

Há uma identificação da informante com a situação. Apesar de falar de um modo geral, ela acaba por colocar-se também como sujeito, ou no sujeito. Observa-se a oscilação entre o emprego de você (maior identificação com o receptor) e eu. Do mesmo modo que o emprego de você, nesses contextos, corresponde semanticamente à indeterminação do sujeito, esse emprego do eu também corresponderia. Não se trata do emprego de você e eu com referência a uma pessoa do discurso - 2ª e 1ª do singular, respectivamente - mas referindo-se a um você e eu gerais, universais, empregados onde, numa linguagem mais cuidada, formal, se empregaria a construção com o verbo na 3ª p. sing. + se:

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...um pagamento bancário que você tenha com aquele prazo, se eu atrasar um dia, um dia, você vai pagar... por ...um pagamento bancário que se tenha com aquele prazo, se se atrasar um dia, vai-se pagar).

3. TABELAS
VOC˚ Inq. 193 Inq. 373 TOTAL 64 12 76 A GENTE 3 7 10 N S − 10 10 ELES − 9 9 A(S) PESSOA(S) 3 4 7 ALGU M − 1 1 EU − 1 1

Inq. 193 Inq. 373 TOTAL

VERBO NA 3“ P. SING. + SE − SE 7 14 10 2 17 16

VERBO NA 3“ P. DO PL. 1* − 1

* Esse emprego de verbo na 3ª pes. pl., surge imediatamente após seu emprego pela Documentadora ao formular a pergunta. Além disso, é único nesse Inquérito. Esses fatos nos levam a concluir que o Informante foi influenciado pela fala da Documentadora. Não deve, pois, ser considerado. 4. Conclusão A análise de dois Inquéritos do Projeto NURC (Inquérito 193 e 373) nos fez observar formas de indeterminação do sujeito para as quais não se costuma atentar. Os vários níveis de envolvimento do falante no que atribui a um sujeito dito indeterminado (indefinido, para Said Ali) se vai revelando em seu discurso. Isso fica bem claro em exemplos colhidos ao Inquérito 373. Até que ponto o Informante se envolve e/ou busca envolver seu interlocutor fica muitas vezes claro nas suas escolhas lingüísticas, que apontam para aspectos da linha argumentativa que vem a imprimir ao seu discurso. Isso se pode observar, nos Inquéritos estudados, com referência à indeterminação do sujeito.

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Restam questões a serem levantadas quanto aos processos e formas de indeterminação do sujeito; no caso em estudo, especificamente do falar culto do Rio de Janeiro. Qual seria a forma predominante? Seria você, como nesses dois inquéritos? A que se poderia atribuir isso? Qual a inovação mais recente? E mais: que outras razões podem levar à indeterminação do sujeito? Por quê? Quais as predominâncias por faixa etária, sexo, profissão, nível sociocultural, etc.? Em que situações, e em que níveis, o falante se inclui e/ou seu interlocutor no que seria o sujeito indeterminado? Quais as gradações dessa inclusão? Que fatores a determinam e caracterizam? Caberia a feitura de uma escala, com os vários graus de indeterminação do sujeito. Parece que as pessoas é exemplo prototípico de indeterminação do sujeito, cabendo-lhe, então, o maior grau de indeterminação numa possível escala. Caberia igualmente detectar as variáveis, por exemplo, nos diferentes gêneros de discurso, com ênfase naturalmente, no discurso dito argumentativo. A língua, cabe dizer até a exaustão, é viva. Que se registrem as normas do uso tido como culto, mas que se atente para o fato de que há o uso culto oral e o uso culto escrito, nas seus vários e diferentes níveis e registros. Isso é claro para nós, os estudiosos e especialistas. Cabe esclarecê-lo, e sempre, aos usuários da língua de um modo geral. Só assim se lhes apresentará o estudo da língua como algo prazeroso e criativo, e não como algo distante e deles independente.

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Hilma Ranauro - Professora universitária (UFF), Mestre em Letras pela PUC/RJ e Doutora em Letras Vernáculas pela UFRJ. Autora de O falar do Rio de Janeiro - Um estudo de caso e Contribuição à Historiografia dos Estudos Científicos da Linguagem no Brasil – Sílvio Elia e João Ribeiro. Membro da Academia Brasileira de Filologia.

Referências bibliográficas BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa - Curso médio - 9ª ed., São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1964. CUNHA, Celso F. da. Gramática da língua portuguesa - 5ª ed., RJ, FENAME, 1970. D’ALBUQUERQUE, Aliar da Cruz C. A perda dos pós-clíticos no dialeto mineiro - Dissertação de Mestrado, UFRJ, 1982. MELO, Gladstone Chaves de. Gramática fundamental da língua portuguesa - 3ª ed., RJ, Ao Livro Técnico S/A Indústria e Comércio, 1980. OMENA, Nelize Pires de. “A Alternância entre NÓS e A GENTE em Função do Sujeito”; in XIX Anais do Seminário do GEL, pp. 93/105, Campinas, 1987. SAID ALI, Manuel. Gramática secundária da língua portuguesa, 6ª ed., Rio de Janeiro, Edições Melhoramentos, 1965. Material que serviu de base para o levantamento do corpus analisado: - Inquérito 193 do Projeto NURC (n.º 59) Rio de Janeiro. / Tema: vestuário. / Informante n.º 221. / Sexo: masculino. / Idade: 45 anos / Data: 29/11/1973. / Documentadores: Diana Maria Isente Calou e Maria do Socorro Demais. - Inquérito 373 - Projeto NURC (n.º 123) Rio de Janeiro. / Tema: Dinheiro, Banco, Finanças, a Bolsa. / Informante n.º 459. / Sexo: feminino. / Idade: 58 anos. / Data: 02/03/1978. / Documentadores: Maria Cristina Rigoni e Marco Aurélio Pires. Nota 1 Sobre essa correspondência, consulte-se “A Alternância entre NÓS e A GENTE em função do Sujeito”, de Nelize Pires de Omena - in XIX Anais do Seminário do GEL, Campinas, 1987, p.93-105.

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As linguagens de Fernando Pessoa e Manoel de Barros
Isaac Newton Almeida Ramos
Resumo O presente trabalho tem por objetivo expor as peculiaridades semelhantes constatadas, após diversas análises, sobre o discurso poético de Fernando Pessoa e de Manoel de Barros. Ao comparar as estruturas análogas, foi possível relacionar como expressões comuns: a infância e a metalinguagem. Demonstraremos o dialogismo poético entre os dois autores. Unitermos: Fazer poético, imagem, infância, intertextualidade e existência. No presente artigo elegemos dois dos pontos abordados em nosso projeto de pesquisa: a “Infância” e a “Metalinguagem”. Outros, tais como: o existencialismo, o surrealismo, a religiosidade e a licenciosidade, ficarão para uma outra oportunidade. A união dos dois, dialogicamente, não é ou foi casual, inclusive transformou-se em um exercício crítico salutar. Propomo-nos a uma discussão mais ampla sobre os dois poetas, no entanto, o espaço aqui não permite outras considerações. Então, passemos ao texto em questão. A volta à infância é uma das marcas da poesia de Manoel de Barros e de Fernando Pessoa. A infância, idade da inocência, apresenta-se como o lugar e tempo ideal da vida, configura-se como experiência marcante do poeta. “A infância, soma das insignificâncias do ser humano, tem um significado fenomenológico próprio, um significado fenomenológico puro porque está sob o signo do maravilhamento. Pela graça do poeta, tornamo-nos o puro e simples sujeito do verbo maravilhar-se.”2 .

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Se “o poeta é aquele que ouve uma linguagem sem entendimento”3 , podemos afirmar que a linguagem infantil é uma linguagem sem entendimento para o adulto. Só que o poeta sabe ouvi-la e recria-a para recontá-la e recortar a solidão de criança, que é a mesma solidão dos poetas, os quais são salvos pela literatura. Observemos como isso ocorre numa poesia de Barros:
Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com palavras. Minha mãe gostou. É assim: De noite o silêncio estica os lírios. (LSN.,33)4

O poeta Manoel de Barros, através do eu-lírico na primeira pessoa, faz um retorno à infância. Nesta tem-se a presença do brinquedo e da figura materna, que aprova o que fez a criança, que não é um brinquedo qualquer, é um “brinquedo com palavras”; isto é, o EU afirma que com elas pode-se fazer o que quiser, em face das mesmas serem imóveis, e só ganharem movimento se o EU (sujeito) movê-las. No relacionamento entre homem, mundo e linguagem, a infância subleva-se como um estado potencial de todas as invenções. E quando o adulto (no caso, o poeta) vislumbra tais devaneios é porque reconhece que “a infância é o poço do ser”5. E o EU, por sua vez, move as palavras de acordo com a sua vontade. Em seguida ele mostra qual foi o brinquedo que fabricou, trata-se de um ‘jogo’ de palavras, sendo que elas atendem à lógica morfossintática; todavia rompem com a semântica. Então, perguntamo-nos como pode “de noite o silêncio (esticar) os lírios?” Primeiramente o silêncio se constitui em ausência de som e, além de tudo, isso não seria perceptível, muito menos teria a capacidade de alongar os lírios posto que são flores não suscetíveis de serem espichadas. Instaurou-se uma imagem surreal. A partir de um acontecimento pictórico/natural da noite ele inverte as expectativas, segundo a ordem natural das coisas, e acaba por demonstrar realmente um brinquedo, ao mesmo tempo que o eu-lírico não se preocupa em obedecer a essa mesma ordem natural das coisas. E sendo o brinquedo uma realidade que se tem na infância, Barros ao citá-lo através de/com as palavras, sempre o relaciona com a infância. Em Pessoa a infância é vista a partir de um posto de vista sentimental e melancólico:
Pobre velha música! Não sei por que agrado,

BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA Enche-se de lágrimas Meu olhar parado. Recordo outro ouvir-te, Não sei se te ouvi Nessa minha infância Que me lembra em ti. (...) (OP, 90:140)

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Percebe-se que o eu-lírico se encontra numa idade madura, e ao ouvir uma dada música recorda-se de sua infância e, dessa forma, entrega-se à emoção. “Nos devaneios da criança, a imagem prevalece acima de tudo. As experiências só vem depois.”6 Podemos observar isso de uma maneira metafórica nos versos de Barros: “A última estrela que havia no céu/ deu pra desaparecer/ o mundo está sem estrela na testa”. (GEC, 41) Ou nessa imagem onomatopéica: “O menino caiu dentro do rio, tibum,/ ficou todo molhado de peixe.../ A água dava rasinha de meu pé”. (GEC, 127) Neste outro trecho de Pessoa, temos um exemplo de infância vista saudosamente a partir do olhar de um adulto:
O Luar quando bate na relva Não sei que cousa me lembra... Lembra-me a voz da criada velha Contando-me contos de fadas. (...) (OP,224:215)

“O poema nos faz recordar o que esquecemos: o que somos realmente”.7 Aqui o eu-lírico exibe referenciais situados na natureza (luar e relva), os quais funcionam como ocasionadores da lembrança da infância do EU. “Para entrar nos tempos fabulosos, é preciso ser sério como uma criança sonhadora. A fábula não diverte – encanta”.8 Depois de termos visto um cenário pessoano, vejamos o que Barros, nos revela com seu olhar infantil: “Meu avô ampliava a solidão./ No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro”. (LSN, 21) Já o poeta português nos conta: “Quando era criança,/ Vivi, sem saber,/ Só para hoje ter/ Aquela lembrança.”(OP, 171:1745) Blanchot afirma que: “(...) As lembranças são necessárias, mas para serem esquecidas, para que nesse esquecimento, no silêncio de uma profunda metamorfose, nasça finalmente uma palavra, a primeira palavra de um verso.”9

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Em outro poema, do livro Poesias, cujo título é “Infância”, Barros mostra-nos um eu lírico criança, em um dia de chuva, que parece estar olhando através da vidraça, numa imagem bastante singela e calma:
Coração preto gravado no muro amarelo. A chuva fina pingando... pingando das árvores... Um regador de bruços no canteiro. Barquinhos de papel na água suja das sarjetas... Baú de folha de flandres da avó no quarto de dormir Réstias de luz no capote preto do pai. Maçã verde no prato. (...) (GEC, : 110)

A partir de um ritmo “estilo crônica”, o eu-lírico apresenta-se com verbos no presente descrevendo cenas corriqueiras da infância, as quais possuem desde brinquedos à presença de familiares. Aqui é mostrado um prisma próximo da visão pessoana. Constatase isso em: A VOZ DE MEU PAI (GEC:103): “Os ventos levamme longe...” e (...) “entro na casa onde nasci”; uma típica volta ao passado. E, num outro trecho, ao alternar o ato de abrir e fechar os olhos, ele enxerga a realidade e sente a dor da perda das coisas, inclusive a presença da figura paterna, que o chama docemente: “Venha, meu filho,/ Vamos a ver os bois no campo e as canas amadurecendo ao sol,/”. Ao retornar à realidade, o eu-lírico sente a solidão. “Estou só”, tendo em vista que não ouve a voz de seu pai. Já Pessoa, mostra um eu-lírico arrependido pelo que deixou de ser:
A criança que fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou; Mas hoje, vendo que o que sou é nada, Quero ir buscar quem fui onde ficou.(OP, 700)

Barros, em Noturno do filho do fazendeiro, assim se apresenta: “Ia até a infância e voltava./ Gostaria mais se pudesse ficar/” (GEC,65). Neste verifica-se o desejo não apenas de voltar à infância, como também de se enclausurar nela. Afinal, “a Infância é uma Água humana, uma água que brota da sombra. Essa infância nas brumas e nas luzes, essa vida na lentidão dos limbos, dá-nos uma certa espessura de nascimentos. Quantos seres temos começado!”10 Vejamos como isso ocorre em outro livro:

BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA Remexo com um pedacinho de arame nas minhas memórias fósseis. Tem por lá um menino a brincar no terreiro: ............................................................................... O menino cangava dois sapos e os botava a puxar o carrinho. Faz de conta que ele carregava areia e pedras No seu caminhão. (RAQC, 14:47):

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Além disso, Barros coloca a infância situada num estágio de primitivo, valioso para a construção da poesia, para ele, a criança é mais poeta que o adulto; pois tudo expresso por ela é espontâneo, contém pureza assim como o primitivo. “Nossas solidões de criança deram-nos as imensidades primitivas.”11 Essas imensidades são discursadas pelo poeta dessa forma: “Para voltar à infância, os poetas precisariam também reaprender a errar a língua”. (GA: 57) Em outra obra ele já justificava que “crianças desescrevem a língua. Arrombam as gramáticas. (Como um cálice lilás de beco!)” (LPC, 62) Por outro lado, Alberto Caeiro questiona o dogmatismo e usa as crianças como exemplo, pois segundo ele, são vítimas de inculcações que geram crendices, todavia destaca que ao mesmo tempo que são dogmáticas (deus doente), possuem capacidade de discernimento (deus) para constatar como as coisas possuem existência, mesmo que seja apenas na imaginação:
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas Age como um deus doente, mas como um deus. .............................................................................................., Sabe que não há razão nenhuma para nada existir, Sabe que ser é estar em um ponto Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer. (OP, 287:239)

Em Barros temos o olhar infantil, enquanto em Caeiro/Pessoa é o adulto que se manifesta (conforme o último trecho citado). Esse adulto apresenta uma “moral”, mas não uma moral doentia, ela é sobretudo reflexiva. Quanto à metalinguagem afirmamos que ela ocupa posição destacável na poesia dos dois autores. E tem por objetivo oferecer ao leitor um ensinamento, um certo didatismo. Percebe-se, ainda, que há uma preocupação de ambos com relação à leitura de suas obras. Paul Valéry definiu o verso como “equilíbrio maravilhoso e sensibilíssimo entre a força sensível e a intelectual da linguagem”.

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Esses dois poetas mostram claramente esse equilíbrio e têm consciência do seu fazer poético. Neles, a busca ao leitor não é um exercício insano, sobretudo apresenta-se como uma preocupação estética. A natureza dialógica de suas obras mostra que nelas opera uma espécie de circularidade ou transitividade que as modificam num processo contínuo e crítico com relação às próprias estratégias de composição de cada um deles. “(...) O escritor nunca sabe que a obra está realizada. O que ele terminou num livro, recomeçá-lo-á ou destruí-lo-á num outro....”12 . Ambos adotam essa postura de recomeçar ou destruir, repetindo-se por vezes. Pessoa e seus heterônimos comunicam-se. Barros e seus “eus líricos” festejam a comunicação intertextual. De um livro ao outro eles promovem um verdadeiro interlúdio. Barros afirma que o “poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina”. (GA, 35) Pessoa, por sua vez, mostra que “o poeta é um fingidor”. (OP, 143: 164) Temos dessa forma definições inter-relacionadas. Ainda, Pessoa afirma que: “Dizem que finjo ou minto/ Tudo que escrevo. Não./ Eu simplesmente sinto/ Com a imaginação”. (OP, 144: 165) Pode–se reparar que há uma oposição ao conceito que vê o poeta como um fingidor, mas em seguida ele destaca que usa a “imaginação”, e no mesmo poema ele continua: “Por isso escrevo em meio/Do que não está ao pé,/Livre do meu enleio,/Sério do que não é./Sentir? Sinta quem lê! (...)”. Para Pessoa o seu fazer poético se dá fora das regras, pois está fora do pé da letra e utiliza-se do adjetivo “livre” para dizer que é livre do seu enredo. Usa o adjetivo “sério” para expressar certeza, certeza do que não é, quer dizer do que não possui existência. Com isso mostra que possui liberdade sobre seu enredo e consciência da não-existência. “Assim como a poesia separou-se do coração, também a forma separa-se do conteúdo. A salvação da poesia consiste na linguagem, enquanto o conteúdo permanece em sua insolubilidade.”13 Vejamos como isso ocorre em um verso-poema de Barros: “Minhocas arejam a terra: poetas, a linguagem”. (LPC, 55) Neste temos uma comparação entre um ser da natureza que tem a sua utilidade pelo fato de arejar a terra, com um ser das letras, que por sua vez é útil para a linguagem, pois a areja também. Dentro da concepção de Barros, arejar a linguagem significa trabalhar com as palavras, buscando sempre inová-las, tanto no sentido de criar novas palavras, como no de encantar as já existentes, objetivando “ressemantizar” a linguagem. Numa outra situação, Caeiro afirma

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que: “Há poetas que são artistas/ E trabalham nos seus versos/ Como uma carpinteiro nas tábuas!” (OP, 241: 22) Isso mostra que assim como o carpinteiro aparelha a madeira para a obra, sendo um artífice que trabalha em artes grosseiras de madeira e faz da matéria-prima o que deseja, fazendo dela a sua arte, da mesma forma o poeta tem como matéria-prima as palavras, e com elas faz o que lhe convêm, formando então os seus versos. “A poesia é uma arte da linguagem. A linguagem, contudo, é criação da prática.”14 Caeiro também afirma: “Procuro encostar as palavras à idéia”. Para Valéry a idéia é suscetível de ser observada, provocada e manobrada, trata-se de um discurso interno, imagem, intenção, ou percepção do espírito que, pode ser exprimida em palavras, se for transformada e posicionar entre o pensamento produtor de idéias, a atividade de resoluções internas, e depois os versos, que somente atendem “às necessidades que devem ser criadas por eles mesmos”. O ato de encostar as palavras à idéia constitui-se no desejo do eu-lírico em contrabalançar as palavras às idéias, a fim de que a primeira venha equivaler, ou melhor, se identificar com a segunda. Neste mesmo poema o eu-lírico ressalta o seguinte: “Procuro despir-me do que aprendi,” na verdade isto configura-se na ação de desaprender, tão mencionada por Barros. Um exemplo claro pode ser apreendido no LI: “Desaprender 8 horas por dia assim ensina os princípios”. Os princípios aqui empregados valoriza a atividade de “desaprendizagem”. Pois para Barros: “Ao poeta faz bem/ Desexplicar—” . Penso em Barthes quando afirma que “a literatura é tão somente uma linguagem, isto é, um sistema de signos:...o crítico não tem de reconstruir a mensagem da obra, mas somente o seu sistema...”15 . E Barros parece apostar nessa afirmativa barthesiana, não só porque ele tem pleno domínio da técnica de fazer versos de maneira estranhada, mas também porque é a partir da própria estrutura que a sua poesia se diferencia da de Pessoa. Enquanto isso, Caeiro manda-nos um recado: “Não tenho ambições nem desejos/ Ser poeta não é uma ambição minha/ É a minha maneira de estar sozinho”. (OP, 206: 203) Para o eu-lírico, ser poeta é um refúgio, uma forma de se isolar, de forma alguma se refere a uma ambição, mas sim a uma condição. Barros demonstra esse mesmo pensamento: “Não tenho pretensões de conquistar a inglória perfeita”16 , o qual revela que não há por parte do eu-lírico o desejo de se glorificar. Para finalizarmos, vejamos alguns trechos de um dialogismo entre Pessoa e Barros:

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FP: MB:

FP: MB: (LI.,11) FP: “A aprendizagem que me deram ................................................... Uma aprendizagem de desaprender.”(456) MB: “Minhocas arejam a terra; poetas, a linguagem.” (GEC, 252) FP: “Não me importo com as rimas ..................................................... E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...”(219) MB: “Sou puxado por ventos e palavras”.(LI., 41) “Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.” (LSN, 68) FP: “Não tenho ambições nem desejos Ser poeta não é uma ambição minha É a minha maneira de estar sozinho.”(206) MB: “Não tenho pretensões de conquistar a inglória perfeita.” (LSN, 85) FP: “Não sou nada Nunca serei nada Não posso querer ser nada.” (456) MB: “Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.”(67) FP: “Pensar em nada É ter a alma própria e inteira.” (505) MB: “Tem mais presença em mim o que me falta. melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.” (LSN.,67) FP: “Nada me prende a nada.” (452) MB: “Poesia é a loucura das palavras.” (GEC., 186) FP: “Não: toda a palavra é a mais. Sossega. Deixa, da tua voz, só o silêncio anterior.” (680) MB: “A palavra incapaz de ocupar o lugar de uma imagem.

“Procuro encostar as palavras à idéia.” (251) “Acho um tanto obtuso ter idéias. Prefiro fazer vadiagem com letras. Ao fazer vadiagem com letras posso ver quanto é branco o silêncio do orvalho.” (RAQC., 51) “Procuro despir-me do que aprendi.” (251) “Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.”

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O antesmemente verbal: a despalavra mesmo.” (RAQC., 53) FP: “Uma flor acaso tem beleza? Têm beleza acaso um fruto? Não: têm cor e forma E existência apenas.” (231) MB: “Beleza e glória das coisas olho é que põe. Bonito é o desnecessário.” (GEC., 260) FP: “Todas as opiniões que há sobre a Natureza Nunca fizeram crescer ou nascer uma flor (...) Se a ciência quer ser verdadeira, Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?” (290) MB: “As coisas que não levam a nada têm grande importância.” (GEC, 179) FP: “Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena.” (29)
Notas 1 1 Prof. Auxiliar junto ao Departamento de Letras da UNEMAT, campus de Alto Araguaia, MT, especialista em Letras pela UNESP-Assis, coordenador do projeto de pesquisa “AS INFLUÊNCIAS DE FERNANDO PESSOA NA POESIA DE MANOEL DE BARROS”. 2 BACHELARD, Gaston. A Poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, p.122, 1988. 3 BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, p.45, 1987. 4 Siglas utilizadas nesta comunicação: LSN (Livro sobre nada); OP (Obra poética); GEC (Gramática expositiva do chão); RAQC (Retrato de artista quando coisa); GA (O guardador de águas); ; LPC (Livro de précoisas); LI (Livro das ignorãças). 5 BACHELARD, p,109. 6 Ibid, p.97. 7 PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Olga Saravy. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p.133, 1982. 8 BACHELARD, Ibid., p.113. 9 BLANCHOT, Ibid., p.83. 10 BACHELARD, Ibid., p.106. 11 BACHELARD, Ibid., p.97. 12 BLANCHOT, Ibid. p.11.. 13 FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna (da metade do século XIX a meados do século XX). Trad. Marise M. Curioni.. 2.ed. São Paulo: Duas Cidades, p.40, l99l.

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14 VALÉRY, Paul. Variedades. Trad. Maiza Martins de Siqueira. São Paulo: Iluminuras, p.208, 1991. 15 BARTHES, Roland. Crítica e verdade. São Paulo: Perspectiva, p.162, 1982. (Debates,.24) 16 BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, p.85, 1996. 17 BACHELARD, Gaston. A Poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, p.122, 1988. 18 BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, p.45, 1987. 19 BACHELARD, p,109. 20 Ibid, p.97. 21 PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Olga Saravy. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p.133, 1982. 22 BACHELARD, Ibid., p.113. 23 BLANCHOT, Ibid., p.83. 24 BACHELARD, Ibid., p.106. 25 BACHELARD, Ibid., p.97. 26 BLANCHOT, Ibid. p.11.. 27 FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna (da metade do século XIX a meados do século XX). Trad. Marise M. Curioni.. 2.ed. São Paulo: Duas Cidades, p.40, l99l. 28 VALÉRY, Paul. Variedades. Trad. Maiza Martins de Siqueira. São Paulo: Iluminuras, p.208, 1991. 29 BARTHES, Roland. Crítica e verdade. São Paulo: Perspectiva, p.162, 1982. (Debates,.24) 30 BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, p.85, 1996.

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Edição diplomática de Gregório de Matos Guerra
José Pereira da Silva, da UERJ.
Introdução Gregório de Matos Guerra nasceu na Bahia e viveu no século XVII como um advogado famoso, clérigo polêmico e poeta contestador, inconformado com os costumes de sua época. Sua rica poesia está esparsa em várias dezenas de códices, muito bem guardados (a chaves) na Biblioteca Nacional (do Rio de Janeiro), na Biblioteca Histórica do Itamaraty, na Coleção Prof. Celso Ferreira da Cunha (da Faculdade de Letras da UFRJ), na Biblioteca do Congresso (Estados Unidos), na Torre do Tombo (Portugal) etc. A requisitada edição crítica da obra poética do “Boca do Inferno” não poderá ser concretizada antes que se conclua a sua edição diplomática, por ser absolutamente inviável a consulta direta a todos esses códices manuscritos (alguns de três e de quatro grossos volumes, como aquele de que o Imperador D. Pedro II possuiu dois tomos (só agora encontrados, pelo cotejo da cópia que nos trouxe de Portugal o Prof. Adriano Espínola), o que pertenceu a Celso Cunha (do qual está desaparecido o quarto tomo) e o que se denomina códice Varnhagen (conservado na Biblioteca do Itamaraty). A edição diplomática consiste na transcrição mais fiel possível, sem qualquer tentativa de correção do que parecer erro do manuscrito, de forma que os pesquisadores possam ter a confiança de estar diante do que mais próximo se tenha conseguido chegar dos documentos mantidos com tanto zelo pelas instituições que protegem.

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O plano da edição Este trabalho teve início em 1997, a partir da proposta que foi apresentada pelo Prof. Dr. Emmanuel Macedo Tavares no 5º Encontro Internacional da Associação dos Pesquisadores do Manuscrito Literário, realizado em Salvador no ano anterior, de se fazer a edição diplomática do códice Celso Cunha, que se encontrava na Biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ. Animado com a proposta do colega, apresentei-me como colaborador para empreender tão simpática proposta e transcrevemos os três volumes que então foram encontrados daquela coleção, pois o quarto havia desaparecido misteriosamente. Nessa primeira etapa do projeto, coordenou-o o Prof. Dr. Emmanuel Macedo Tavares, digitando pessoalmente o primeiro tomo e revisando a cópia dos dois seguintes, digitados por mim, que fiz a revisão do primeiro. Enquanto preparávamos esses três volumes, indo diariamente à Ilha do Fundão para cumprir nossa tarefa, sem qualquer auxílio ou bolsa, preparava-se uma segunda etapa desse projeto, para a publicação dos códices que se encontram na Biblioteca Nacional e, posteriormente, dos que estão guardados na Biblioteca Histórica do Itamaraty. Ali foram encontrados 15 códices, que estão assim relacionados: Códice 1711 da Biblioteca do Congresso, em Washington (há uma cópia mircofilmada na Biblioteca Nacional), com 407 página e índices, das quais temos cópia em microfilme; Códice 45 da Torre do Tombo, denominado por nós CÓDICE DO IMPERADOR 3, com 257 páginas já digitado e com duas revisões já concluídas, será disponibilizado na Internet nos próximos dias, em www.filologia.org.br/textos (a cópia facsimilar existente na Biblioteca Nacional foi oferecida pelo Prof. Adriano Espínola); Códice 46 da Torre do Tombo, denominado por nós CÓDICE DO IMPERADOR 4, com 785 páginas já digitado e com duas revisões já concluídas, será disponibilizado na Internet nos próximos dias, em www.filologia.org.br/textos (a cópia facsimilar existente na Biblioteca Nacional foi oferecida pelo Prof. Adriano Espínola); Códice 50,1,11 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE DO IMPERADOR 1, com 222 páginas já digitado e

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com uma primeira revisão concluída; Códice 50,2,1 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE CARVALHO, com 374 páginas já digitadas e com duas revisões concluídas, disponível na Internet, em www.filologia.org.br/textos; Códice 50,2,1A da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE CAPITÃO-MOR, com 385 páginas já digitadas; Códice 50,2,2 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE DO CONDE 1, com 445 páginas já digitadas e com uma primeira revisão concluída; Códice 50,2,2A da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE DO CONDE 2, com 416 páginas já digitadas; Códice 50,2,3 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE AFRÂNIO PEIXOTO 1, com 363 páginas já digitadas e com uma primeira revisão concluída; Códice 50,2,3A da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE Nº 59, com 369 páginas, fora de consulta Códice 50,2,4 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE CAMILO CASTELO BRANCO, com 650 páginas, fora de consulta; Códice 50,2,5 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE DO IMPERADOR 2, com 912 páginas, já digitado até à folha 156, pois o restante não pertence a Gregório de Matos; Códice 50,2,6 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE AFRÂNIO PEIXOTO 2, com 819 páginas já digitadas e com uma primeira revisão concluída; Códice 50,2,7 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE JOÃO RIBEIRO, com 1024 páginas já digitadas e com uma primeira revisão concluída; Códice 50,2,8 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE LINO DE MATOS 1, com 190 páginas já digitadas e com uma primeira revisão concluída; Códice 50,2,9 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE LINO DE MATOS 2, com 528 páginas já digitadas; Códice 50,3,16 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE DE ÉVORA, com 68 páginas já impresso pela DIGRAF e disponível na Internet, em www.filologia.org.br/textos; Códice 50,4,1 da Biblioteca Nacional, denominado CÓDICE DATILOGRAFADO, com 251 páginas digitadas e com duas revisões concluídas Códice L. 15-1 da Biblioteca Histórica do Itamaraty,

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denominado CÓDICE NOVO por James Amado, tem 299 folhas, das quais temos cópia em microfilme; Códice L. 15-2, 1º vol. da Biblioteca Histórica do Itamaraty, denominado CÓDICE VARNHAGEN 1, tem 269 p. e índice, das quais temos cópia em microfilme; Códice L. 15-2, 1º vol. da Biblioteca Histórica do Itamaraty, denominado CÓDICE VARNHAGEN 1, tem 269 p. e índice, das quais temos cópia em microfilme; Códice L. 15-2, 2º vol. da Biblioteca Histórica do Itamaraty, denominado CÓDICE VARNHAGEN 2, tem 449 p. e índice, das quais temos cópia em microfilme; Códice L. 15-2, 3º vol. da Biblioteca Histórica do Itamaraty, denominado CÓDICE VARNHAGEN 3, tem 484 p. e índice, das quais temos cópia em microfilme; Códice L. 15-2, 4º vol. da Biblioteca Histórica do Itamaraty, denominado CÓDICE VARNHAGEN 4, tem 376 p. e índice, das quais temos cópia em microfilme. Novas dificuldades – novas soluções No início do ano passado, foi solicitado à FAPERJ um auxílio para a publicação dessa obra, na forma de edição diplomática, como estamos preparando. O auxílio foi negado, com a falsa alegação de que o Prof. Fernando da Rocha Peres (na Bahia) e o Prof. Francisco Topa (em Portugal) já desenvolviam o mesmo projeto, o que caracterizaria duplicação de recursos para um mesmo fim. Como não pude reunir a documentação no tempo concedido para recorrer, espero ainda consegui-lo noutra oportunidade. Tendo-me reunido a um grupo de pesquisadores da UERJ para, através do PROCIÊNCIA, solicitar os recursos do FAP (Fundo de Apoio à Pesquisa), oferecido pela FAPERJ, conseguimos R$ 50.000,00 (cinqüenta mil reais) que seriam destinados, entre outras coisas, para montar um laboratório de informática para edição em CD-ROM. Pelo que me consta, até ontem, a FAPERJ ainda não havia liberado esse fundo. Na seleção dos projetos para conseguirem bolsas de Iniciação Científica, dois professores entraram com pedido de uma cota cada um para a pesquisa da obra de Gregório de Matos. Ninguém conseguiu.

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Concluindo Essa edição diplomática indicará em notas de rodapé todos os vestígios percebidos de intervenção física (humana ou não) no texto transcrito, tais como borrões, emendas e rasuras; furos ou ruídos no papel, perda de folha, mudança do tipo de tinta ou de outro instrumento da escrita, desenhos ou outros elementos decorativos; informações complementares sobre os copistas e sobre os proprietários anteriores das referidas cópias, características do papel e da encadernação, assim como seu estado atual de conservação. Com todas as dificuldades relatadas, resolvemos começar a publicar nosso trabalho pela Internet, de modo que o maior número possível de interessados possa guardar cópias desse material para que tal obra não se perca definitivamente. Para isto, tivemos de fazer algumas adaptações naqueles textos ali disponibilizados, para que ficasse somente o texto de Gregório de Matos, sem os nossos comentários, que aparecem em notas nos arquivos em disquete ou impressos. Por volta de oitenta por cento do material já está disponível, em Word para Windows, embora ainda não tenha recebido todas as revisões necessárias. (Pretendemos cotejar o texto digitado com o manuscrito pelo menos três vezes). Os editores críticos, os organizadores de antologias, os estudiosos em geral da Literatura Brasileira do século XVII, assim como os analistas dos usos e costumes daquela época de nossa história política, eclesiástica e moral, já têm um rico material para prosseguir em seus trabalhos. Para que tenha o uso que pretendemos dar-lhes, os textos serão fornecidos gratuitamente, em disquetes, aos pesquisadores que se identificarem e o solicitarem, e alguns já estão disponibilizados na Internet, na home page www.filologia.org.br/textos.

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Os sufixos tupi tyba ou tüba identificados com o sufixo português al
Luiz César Saraiva Feijó, da ABF e UERJ
São inúmeros os topônimos portugueses oriundos de elementos da língua tupi. A onomástica indígena no português do Brasil apresenta sua marca do século XVII ao século XVIII em milhares de termos, conforme pesquisa da professora Marina Vicentina de Paula do Amaral Dick que registra mais de 10.000 termos levantados, comentados e analisados em sua significativa contribuição aos estudos lingüísticos das línguas indígenas, no estado de São Paulo, num mapeamento onomástico que está prestes a se concretizar. Aqui, os nossos comentários dizem respeito aos topônimos encontrados nas regiões sudeste e sul do Brasil, formados com os elementos tupis tüba e tyba,1 que funcionam como sufixos, introduzindo no radical, noção de coletivo, grande quantidade, abundância, equivalente “à desinência portugueza em al” 2.
Por estarmos residindo na capital do Estado do Paraná, lecionando nos Cursos de Graduação e Pós-graduação em Comunicação Social da Faculdade OPET (Organização Paranaense de Ensino Técnico), iniciaremos nossos comentários com topônimos deste Estado, começando pelo nome de sua capital.

1- Curitiba, do tupi ku’ri, pinheiro e tüba, sufixo coletivo, grande quantidade. Do antigo nome Curituba ao atual Curitiba, verificou-se a preferência por este último, uma vez que os sufixos tüba e tyba se alternam 3 na formação de muitos outros topônimos. Assim, Curitiba pode ser entendido como região de pinheiral, onde o sufixo – al –

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apresenta a idéia de coletivo, grande quantidade, abundância. Os sítios paranaenses 4 concentram enorme quantidade dos únicos pinheiros do Brasil, conhecidos como araucária-do-Paraná (araucária brasiliensis 5), encontrados nativos nas faixas de terras que vão do centro-oeste do Paraná ao Chile, região de Arauco, donde o seu nome. Por isso, o elemento tupi ku’ri é raro fora dessa região, como topônimo. Como formador de substantivos comuns, ocorre em algumas regiões do Brasil (Norte, Nordeste), como curiúva ( de kuri , pinheiro + iwa, árvore). Encontramos, ainda, o elemento ybirá , que também significa árvore, muito comum na formação de nomes, como, entre outros, o conhecido ibirapitanga (árvore vermelha, o pau-brasil), primitivo nome de nossa terra. 2- Guabirutuba é um bairro da cidade de Curitiba. Do tupi guabiru, rato pardo, menor que a capivara (do tupi kapi’xawa, comedor de capim) e tüba, como sufixo coletivo. 3- Guaratuba é cidade do Paraná, do tupi wa’ra, garça e tüba, abundância, muito. Outro topônimo com a mesma origem, bairro no litoral sul da cidade do Rio de Janeiro é Guaratiba, onde foi usado o sufixo tyba e não o sufixo tüba. Na região sudeste, no Estado de São Paulo, encontramos os seguintes topônimos: 4- Ubatuba – Cidade praiana. Do tupi u’ba, cana de flecha, caniço e o sufixo coletivo tüba; 5- Caraguatatuba – Cidade praiana. Do tupi karawa’ta, gravatá e o sufixo coletivo tüba; 6- Araçatuba – Cidade do interior de São Paulo. Do tupi ara’as, araçá (fruta) e o sufixo coletivo tüba; No Rio de Janeiro, há, também, alguns topônimos com o sufixo coletivo tyba (tüba), da lígua dos tupinambás, que pelo litoral deste Estado viveram: 7- Mangaratiba – Do tupi mâga’ra e tüba, sufixo coletivo, o sítio dos mangarás. (Mangará é a ponta terminal da inflorescência da bananeira; umbigo);

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8- Sepetiba – Do tupi as’pê e sufixo coletivo tyba (tüba). Sapezal; 9- Sernambetiba – Do tupi surunam’bi, sernambi (molusco, concha branca) e sufixo coletivo tyba. Portanto, os sufixos tüba e tyba corresponderiam ao sufixo português – al – introduzindo a noção de coletivo, fartura, grande quantidade etc. Contudo, nem sempre os sufixos tupi tüba e tyba, agregados primitivamente a um sintagma tupi passaram a integrar topônimos portugueses. É o caso de yby cuî tyba que significa areal (tyba = al), pois yby é terra e cuî é farinha, pó, isto é, areia, mais tyba, sufixo coletivo, areal. Mas o topônimo que ficou foi ybycuî. Ibicuí, praia e distrito de Mangaratiba, no Rio de Janeiro. Realmente este local não é caracterizado por extensa faixa de areia. Não é um areal, logo não comportaria no topônimo o sufixo tupi tyba, mesmo porque a faixa de areia branca, o grande areal está em frente a Ibicuí, voltado para o mar aberto que banha a Restinga da Marambaia 6. Ibicuitiba não existe como topônimo. Outro comentário ligado a esta colocação sociolingüística, diz respeito a uma observação de campo ocorrida em 1964, quando lecionávamos no Colégio Estadual Barão do Rio Branco, em Santa Cruz, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, bem perto de Sepetiba. Naquela ocasião, durante uma festividade, em Sepetiba, comemorando o dia de São Pedro, o pescador, verificamos que os já muito idosos pronunciavam os topônimos Sepetiba, Mangaratiba, Sernambetiba, Guaratiba (locativos constantes do vocabulário ativo dos pescadores), com um fonema paragógico /s/, de plural. Voltamos diversas vezes à região e constatamos o fenômeno. Pensamos que esses topônimos, assim pronunciados (Sepetibas, Mangaratibas, Sernambetibas, Guaratibas), sejam formas pluralícias, percebido o sufixo tyba como coletivo. É importante salientar que todos os idosos eram caiçaras 7 . Uma semantização inconsciente, perdida no tempo, materializada pelo /s/ paragógico ? Interessante é que o normal na linguagem inculta, na fala descuidada, no falar daqueles que não têm a língua adquirida, isto é, a língua que se aprende na escola, é a redução, o não pronunciamento do /s/ de plural. Contudo, parece que existe uma semantização inconsciente na competência do indivíduo falante, pois este /s/ paragógico poderia ser um sinal de pluralização. Inconsciente, também, é a concordância de-

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sastrosa da língua popular, encontrada em expressões do tipo “o pessoal chegaram”, numa espécie de concordância ideológica, silepse , portanto. Ainda para abonar esta teoria, não nos esqueçamos da consciência lingüística do indivíduo falante, materializada no topônimo Ibicuí, comentado acima, sem a presença do sufixo “tyba”. Por outro lado, é sempre oportuno salientar que muitos topônimos com roupagem tupi nascem por criatividade da cultura do homem branco, falante da Língua Portuguesa, já estabelecida como língua nacional pela elite intelectual brasileira, desde os fins do século XVIII, quando, por aglutinação, dois ou mais lexemas tupis criam nomes de sítios, por essas regiões do interior de nossa pátria. Mas é importante também lembrar que esta mesma elite intelectual, que assumiu, definitivamente, no século XIX, a Língua Portuguesa, traz do passado a prática vergonhosa do torpe extermínio de nossos índios, que correm o risco de serem somente lembrados pela presença dos lexemas e morfemas de sua língua geral introduzidos no português do Brasil.

Notas 1 Sem função distintiva (fonológica), com pronúncia da vogal /y/ sem arredondamento e da vogal /ü/ com arredondamento dos lábios, segundo a Profra. Yonne Leite, do Departamento de Antropologia do Museu Nacional, da UFRJ. 2 Cf. DIAS, Gonçalves, Dicionário da língua tupi, chamada língua geral dos indígenas do Brasil, Rio de Janeiro, Liv. São José, 1970, p.69. 3 Em muitos casos essa preferência foi da nossa cultura, a cultura do homem branco. 4 Sítios banhados pelo rio Paraná e sítios do altiplano do Estado do Paraná. Paraná vem do guarani pa’ra e nã, onde pa’ra significa mar e nã, semelhante. Assim, Paraná = semelhante ao mar; rio grande; parente do mar, Cf. NASCENTES, DELP, Rio, Vol. 2, p. 233, 1952. 5 Já no século XVI encontramos referência a este pinheiro e a nomes indígenas do atual Estado do Paraná nos textos de Álvar Nuñes Cabeza de Vaca, naufrágios & comentários. 6 Do tupi marã’bai, cerco do mar, recife. Nascentes discorda. Recife é o que não há na Marambaia, o que existe é uma grande língua de areia separando o mar aberto da baía de Sepetiba. Prefere mba’ra mbai, cerco do mar. Cf. NASCENTES, Opus cit, p.190. 7 Do tupi kai’sara, estacada de proteção em voltas das aldeias; indivíduo natural de região praiana.

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A Língua Portuguesa no Brasil: papel dos gramáticos na sua implantação
Manoel Pinto Ribeiro, daUERJ, CEUAM e ABF
De início, queremos manifestar a alegria de ver, em discussão, um tema há muito afastado dos debates nos congressos de Letras. Esta rara oportunidade se deve à ampla visão lingüístico-filológica do Prof. Leodegário A. de Azevedo Filho, que, há trinta e um anos, organiza um evento que representa um recorde nos meios acadêmicos. É necessário que ocorram outras oportunidades, a fim de que se possa repensar o estudo de Língua Portuguesa no nível escolar e no universitário. Também queremos lembrar, com grande emoção, a ausência de Mestres como os professores Sílvio Elia e Olmar Guterres da Silveira, que marcaram suas vidas pela grandeza de espírito e por um domínio incontestável dos estudos lingüístico-filológicos. Jamais poderão ser esquecidos por todos quantos conviveram com eles. Neste rápido encontro, nosso propósito é o de expressar a experiência didática com um trabalho que vem sendo publicado há vinte e três anos. É uma gramática para o ensino médio, com pequenas incursões no ensino superior. Para isso, tivemos de analisar compêndios escolares utilizados nos últimos trinta anos. Também se tornou necessário o acompanhamento de muitos progressos da lingüística geral e da lingüística aplicada à Língua Portuguesa. Pelo que observamos nos últimos nove anos de nossa tarefa em Cursos de Letras na UERJ e no Centro Universitário Augusto Motta, poderíamos afirmar que a gramática precisa ser implantada ou, quem sabe, reimplantada nos estudos de Língua Portuguesa, pois se observa, nitidamente, que seu estudo tem sido praticamente abandonado, o que vem causando um afastamento muito comprometedor da norma culta, não apenas entre os estudantes mas ainda

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entre jornalistas e, até mesmo, professores de nível universitário. Como exemplo desse desleixo, basta ler as matérias divulgadas nos jornais ou nas universidades. Em 26 de julho de 1999, um conhecido jornal estampava um comunicado em que dois advogados participavam o reinício de suas atividades, em determinado escritório. Demonstrando dificuldade na expressão verbal, o aviso, depois de uma introdução, por sinal correta, complementava, sem qualquer pausa: “... .que voltaram a trabalhar juntos no mesmo Escritório de Advocacia como fizeram seus Pais e Avós, escritório este que está às vésperas de completar um século de existência e, cujo endereço é ...”. O elemento em negrito, além da vírgula que não devia existir, mostra a insegurança no redigir o texto. Para o Mestre Bechara, o falante domina o sistema de uma língua quando está em condição de criar nela. Como se observa na mensagem, do ponto de vista do registro dos autores do texto, a “criação” demonstra um afastamento muito comprometedor do seu nível cultural. Como se sabe, em Portugal a descrição gramatical começa com a Grammatica da lingoagem portuguesa, de Fernão de Oliveira, em 1536. Esta obra foi analisada exemplarmente pelo Prof. Olmar, em tese de concurso para o Colégio Pedro II. Em 1540, surge a gramática de João de Barros. No Brasil, iniciamos os estudos gramaticais com Antônio Alvares Pereira Correia, o Coruja, com a obra Compêndio de gramática da língua nacional, em 1835. Rosa Virgínia Mattos e Silva, no livro Contradições no ensino de português, citando Antônio Houaiss, diz que Frei Caneca, em Recife, que viveu de 1779 a 1825, teria redigido a primeira gramática de brasileiros para brasileiros, encampando as regras lusitanas. O segundo trabalho é de Francisco Sotero dos Reis que publicou Postilas de gramática geral aplicada à Língua Portuguesa pela análise dos clássicos, em 1862, e Gramática portuguesa em 1886. Na Academia Brasileira de Filologia, o Prof. Antônio Martins de Araújo é um excelente especialista em historiografia das gramáticas e da ortografia, e nos forneceu indicações para que falássemos sobre o assunto da palestra, mas infelizmente nosso tempo é limitado e aguardaremos uma nova oportunidade para gramáticas e da ortografia, e me forneceu indicações para que falássemos sobre o assunto da palestra, mas infelizmente nosso tempo é limitado e aguardaremos uma nova oportunidade para tratarmos da matéria. Outro especialista é o Prof. Ricardo Stavola Cavaliere, que estudou a Gramática portuguesa de Júlio Ribeiro, de 1881, além de outros autores, nos aspectos

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fonológicos e morfológicos. Hoje, o ensino de gramática está relegado a um plano de absurdo e inexplicável desprestígio. O estudo de Língua Portuguesa praticamente inexiste, fato que documentamos há vários anos em nossas turmas, nos primeiros anos da faculdade de Letras. Apesar da boa qualidade de nosso alunado, observa-se, ao começarmos o curso, que não lhe foi passado um conteúdo adequado do funcionamento da Língua Portuguesa. Além disso, verifica-se também que até a análise e a interpretação do texto são tratadas com muita insegurança. O professor universitário tem, praticamente, de iniciar o aluno em um aprendizado de como se estrutura o sistema lingüístico do português, na variante formal. Aqui, pretendemos mostrar o caminho que devemos percorrer para uma visão adequada da gramática portuguesa. Observe-se que não estamos propondo uma cega obediência à norma culta rígida, que vem sendo criticada de forma indiscriminada, como se tudo quanto a gramática normativa prescreve fosse um empecilho para o aprendizado. De repente, após o notável trabalho do Prof. Eugênio Coseriu, todos descobriram que a língua apresenta variações. Graças a essa lição, em nosso livro abrimos um capítulo para tratar do assunto, com o título de registros lingüísticos. Para Evanildo Bechara, “a norma contém o que é tradicional, comum e constante, tudo o que se diz assim e não de outra maneira. O sistema contém as oposições funcionais para que uma unidade da língua não se confunda com outra”. O que desejamos documentar é que o aluno não é levado a entender como se estrutura, como funciona uma língua. Não se trata, portanto, de prescrever regrinhas, mas sim de fazê-lo compreender as várias oposições que existem em nosso sistema, para que ele possa, então, organizar coerentemente suas mensagens. Parece-nos que muitos aspectos contribuíram para o desprestígio do ensino de nossa língua. Em primeiro lugar, a necessidade de uma revisão da Nomenclatura Gramatical Brasileira. Aqui, temos a honra de contar com a presença do Prof. Antônio José Chediak, membro da comissão da nomenclatura organizada em 1957. Já em 1970, o professor Celso Cunha sugeria que esse trabalho fosse rediscutido. Por nossa sugestão, a Academia Brasileira de Filologia está iniciando um reexame da questão, que deverá contar com o envolvimento de todos os setores interessados no aprimoramento de um estudo mais consentâneo com os avanços da lingüística. Não se pode negar, porém, a grande utilidade da nomenclatura

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no início de sua implantação, pois os termos empregados eram múltiplos para representar um mesmo conceito. Exemplo disso era a classificação de orações aditivas, também conhecidas como aproximativas ou copulativas, nas gramáticas da época. Não devemos esquecer que a Medicina, em recente congresso, de acordo com noticiário de jornais, resolveu unificar sua nomenclatura, em virtude os inumeráveis nomes por que um dado elemento era estudado. Assim, o termo rótula foi substituído por patela, que se origina do latim clássico. Cotovelo passa a ser cúbito. Daí estarmos livres da dor de cotovelo, que “passará” a dor de cúbito. Nas escolas de ensino médio, muitos sugerem a omissão do termo gramatical, utilizando-se um substituto. Num determinado colégio, em lugar de adjetivo passou-se a usar a expressão “palavra de enfeite”. Imaginem quantas “palavras de enfeite” seriam necessárias para elogiar os Mestres Bechara, Walmírio e Chediak. Em todos os níveis da gramática, há necessidade de uma revisão, a começar pelos estudos de fonética e fonologia, já que este último termo, dentre muitos, não se encontra no corpo de nossa nomenclatura. Outras conquistas no nível fonológico deverão ser agasalhadas, principalmente em virtude do trabalho de Mattoso Camara Jr., a partir de sua tese de doutoramento em Letras, em 1949, sob o título de Para o estudo da fonêmica portuguesa. Nesta pesquisa, bem como nos livros Problemas de língüística descritiva, História e estrutura da Língua Portuguesa e Estrutura da Língua Portuguesa, a descrição do sistema fonológico do português do Brasil se enriqueceu com lições primorosas que não podem ser esquecidas por nossas gramáticas. Ressaltamos a descrição do sistema de fonemas da Língua Portuguesa, numa visão estrutural. No sistema vocálico, salienta o grande Mestre a importância do quadro de vogais orais de acordo com a posição na sílaba. Assim, do quadro de sete vogais na posição tônica, o número de vogais se reduz para cinco na posição pretônica, a quatro na postônica medial e a três fonemas apenas na posição postônica final, em virtude do fenômeno da neutralização. Também põe em xeque a lição sobre vogais nasais, propondo que se descreva o fato como vogal seguida de travamento nasal (o arquifonema nasal: /N/). No estudo das semivogais, a nosso ver resolve a questão de que a vogal é uma vogal assilábica, e não uma consoante como muitos propuseram. Em outro ponto reduz a importância da descrição dos encontros consonantais e vocálicos no português do Brasil. Este assunto

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foi objeto de nosso trabalho de monografia na Universidade Federal Fluminense, quando tivemos a honra de ser examinado por Sílvio Elia e por Walmírio Macedo, com a orientação do extraordinário Mestre Olmar Guterres da Silveira, Mattoso nos mostra, que, no português do Brasil, só existem quatro consoantes pós-vocálicas (/ R/, /N/, /S/, /I/), fato que impossibilita a descrição de muitos casos como de encontros consonantais, em virtude da epêntese de uma vogal, geralmente o /i/, que desfaz o encontro, como no par opositivo apto /’apitU/ e apito /a’pitU/, cuja diferença se manifesta apenas pela posição do acento tônico, um traço fonêmico supra-segmental. Cabe lembrar um fato ocorrido em uma prova de Sociologia em que um aluno escreveu o vocábulo sexo da seguinte forma: sequiço. Indagado pela professora, o aluno pediu-lhe desculpa e disse-lhe que “faltava” o acento. Apesar do desconhecimento da ortografia do vocábulo, o aluno, dentro do que preceitua a lição de Mattoso Camara, comprova o acerto da teoria do lingüista. É de lembrar, ainda, a obra Iniciação à fonética e à fonologia, de Dinah Callou e Yonne Leite, dentre outras, como uma excelente contribuição para a matéria. Enfim, apesar do abandono do ensino de fonética e de fonologia no ensino médio, cremos ser tarefa de uma boa gramática a descrição coerente do sistema fonêmico, ponto fundamental para a compreensão de como funciona uma língua. Nossa experiência didática no ensino superior, em fonética e fonologia, nos tem trazido gratas surpresas. Antes de iniciar o programa, estabelecemos um teste de diagnose, para ficar comprovado o que aluno conseguiu aprender no ensino médio. Como era de esperar, o aluno demonstra um sério desconhecimento do nosso sistema fonológico. Depois das primeiras lições, com o emprego intensivo da transcrição fonológica, o discente passa a perceber a diferença entre a camada fônica e a linguagem escrita. O último resultado com uma turma de setenta alunos no Centro Universitário Augusto Motta, depois de muito trabalho em sala de aula, trouxenos uma satisfação incontida. Todos os alunos foram aprovados, sem necessidade de nenhuma ajuda. É de se lamentar, portanto, que esta parte essencial do ensino de uma língua tenha sido retirada dos programas dos exames de vestibular. Cabe também um protesto para o pouco caso que se observa na maioria desses exames, com raríssimas questões envolvendo o conhecimento do sistema lingüístico. Além disso, quase sempre os quesitos sobre gramática são mal formulados.

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Mesmo com alguns obstáculos da nomenclatura gramatical, acreditamos que a contribuição de notáveis trabalhos universitários é fundamental para dirimir as divergências em alguns pontos dos estudos gramaticais. Sempre nos preocupamos em estabelecer o conceito mais apropriado ao fato língüístico. Por isso, seguimos, desde a primeira edição de nosso livro, em 1976, a lição de grandes autores, com ênfase nos trabalhos do Professor Bechara, de Rocha Lima, Celso Cunha, Gladstone Chaves de Melo, Othon M. Garcia, Antônio José Chediak, Leodegário de Azevedo Filho, Castelar de Carvalho e Walmírio Macedo. Também acompanhamos, desde a antiga UEG, as irrepreensíveis lições do Prof. Olmar Guterres da Silveira, que nos trouxe soluções perfeitas com suas teses de concursos Prefixos e não-prefixos e Orações subordinadas sem conectivo. A leitura atenta desses dois trabalhos nos possibilitou esclarecimentos notáveis sobre dois aspectos fundamentais de lingüística aplicada ao ensino de Língua Portuguesa. Como discípulo fiel do Prof. Olmar, o Mestre Horácio Rolim de Freitas, uma das mais perfeitas vocações para o magistério, pesquisador incansável, nos brinda com Princípios de morfologia, obra que fornece resposta adequada a muitos pontos da estrutura e formação de vocábulos, principalmente no estudo da parassíntese e dos regressivos (deverbais). Note-se que um artigo do Prof. Olmar nos esclarece que não existem os chamados regressivos nominais, já que a classe e a função dos vocábulos não se alteram na frase. Assim, delega e delegado continuam a ser substantivos, desempenhando determinada função sintática num contexto. Na sintaxe, enfatizamos o estudo das orações subordinadas sem conectivos, trabalho infelizmente esquecido pela maioria de nossas gramáticas, fato que provoca a interpretação inadequada de análise de variadas estruturas sintáticas do português. Dois livros nos servem até hoje de guia: Moderna gramática portuguesa e Lições de português pela análise sintática, do Prof. Evanildo Bechara. A obra Novas lições de análise sintática, de Adriano da Gama Kury, da Ática, presta também relevante contribuição ao bom entendimento da sintaxe portuguesa moderna na variante culta brasileira. Por isso não entendemos como jornalistas se perdem em frases como “São nesses momentos que devemos...” Em outra ordem teríamos, dentro do padrão formal, teríamos: “Nesses momentos é que devemos...” Cria-se uma regra de concordância afastada

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do registro culto. Também, num informativo de uma faculdade de comunicação (sic) encontramos uma mensagem que dizia: “Apresentaram-se, como expositores neste seminário, os professores A, B e C, sendo que suas palestras foram gravadas em vídeos e, nos debates posteriores, interessantes questões sobre conceitos, currículos e metodologias de Comunicação foram suscitadas”. Em linguagem normal, demonstrando domínio da norma culta, diríamos: “Apresentaram-se, como expositores neste seminário, os professores A, B e C, cujas palestras foram gravadas em vídeos. Nos debates posteriores, interessantes questões sobre conceitos, currículos e metodologias de Comunicação foram suscitadas”. Basta comparar os dois textos para se verificar como houve uma dificuldade em redigir a mensagem dentro dos padrões necessários à exposição da matéria. Outro texto “A metodologia a ser aplicada no encontro prevê a apresentação de vídeos e, depois, abrindo-se para debates entre docentes e discentes da unidade; assinalando-se que o evento será considerado como atividade curricular e, portanto, com presença obrigatória”. O texto deveria ser: “A metodologia a ser aplicada no encontro prevê a apresentação de vídeos. Haverá, depois, debates entre docentes e discentes da unidade, assinalando-se que o evento será considerado como atividade curricular, portanto com presença obrigatória”. Evidentemente a culpa é da gramática, ou seja, da má formulação gramatical, o que revela a “ingnorância” do redator. Por isso, em virtude do terrorismo implantado contra o ensino de gramática, propomos que esqueçamos a origem grega do termo e o substituamos por “granática”, que, sem dúvida, é mais “explosivo”. Modernamente, recebemos a contribuição de Iniciação à sintaxe do português, que discute admiravelmente o enfoque estruturalista, com soluções coerentes para muitos aspectos controvertidos. Seu autor é o Prof. José Carlos Azeredo que veio engrandecer o corpo docente da UERJ. Da Profa. Flávia de Barros Carone temos o livro Subordinação e coordenação. De Othon M. Garcia, com o imprescindível Comunicação em prosa moderna, obra que todos elogiam mas que tem sido pouco utilizada, destacamos refulgentes lições que nos ensinam a pensar, com apoio principalmente na estrutura sintática, o que nos leva a

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dominar conscientemente o nosso idioma. Com um selecionado número de pesquisadores, julgamos conseguir uma descrição gramatical sem complicações, sem precisar apelar para complexas lições da lingüística, como infelizmente tem acontecido em alguns setores. Não poderíamos deixar de mencionar a obra O modernismo brasileiro e a Língua Portuguesa, de Luiz Carlos Lessa, que tem servido como base para exemplificação da fase atual do português, visto que o autor fez um levantamento exaustivo da norma culta e coloquial utilizada pelos autores modernistas. É exemplo sério, digno de louvores pela exaustiva pesquisa, que revela, principalmente, quais são os padrões frasais mais comuns no português do Brasil. Com este roteiro aqui exposto, cremos que se realiza um racional curso de lingüística aplicada ao ensino da língua. No IX Congresso de Língua e Literatura, em 1978, na UERJ, sob o tema Panorama atual do ensino do português do Brasil, o prof. Olmar questiona a preocupação sobre o ensino de nossa língua em virtude do noticiário alarmante e da atitude exaltada que a esse respeito assumem homens ilustres do país. Por essas opiniões, o ensino de Português vai mal naturalmente porque os professores não o ensinam, ou não o ensinam bem. O Mestre rebateu essas afirmações demonstrando que não é apenas a expressão verbal que se documenta como deficiente, mas principalmente a falta de cultura geral. Conclui mostrando que “a Educação de massa, assentada no princípio de Escola para todos foi entre nós transformada em Educação massificadora, situação que se agrava com o desaparecimento total da Educação que visa à formação das elites dirigentes”. Uma outra palavra de importância é de Antônio Houaiss, em uma reportagem na revista Prodoctor, em 1995. Ao falar sobre o uso abusivo do coloquialismo na linguagem oral, ele esclarece que isso “revela um relativo empobrecimento no uso da língua e de seu vocabulário. E por uma razão muito simples: nunca no Brasil o ensino primário, que é a base desta linguagem, foi tão torpe quanto está sendo”. Diz ele que, “naturalmente, para as meras relações de amor, de comer, de locomover-se, é possível comunicar-se com um número reduzido de palavras. Mas, na medida em que os jovens tiverem que entrar no mercado de trabalho e numa função relativamente qualificada, os horizontes verbais e gramaticais terão que se ampliar”.

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Iung dizia que achava muito estranho que ninguém veja o que uma educação sem Humanidades está fazendo ao homem. Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si mesmo é uma doença, concluiu o grande psicólogo. Por isso, é lamentável o pensamento radical de pessoas que tentam fazer tabula rasa de toda uma cultura acumulada em séculos de civilização. Mesmo em cursos de Letras, há os que consideram o estudo de Lingüística, Latim, Filologia Romântica e até mesmo de Língua Portuguesa como elementos sem qualquer utilidade para o estudante. Cabe aos que preservam a dignidade da cultura nacional lutar contra esse tipo de atitude, pois não se pode calar diante de afirmações desprovidas de um mínimo de sensatez. Concluindo, precisamos deixar claro que não se aprende gramática apenas com a finalidade de expor mensagens de caráter eminentemente normativo, mas, principalmente, para, com a ajuda de uma metodologia adequada, fazer o aluno entender como o nosso sistema lingüístico funciona. Para o estudante de Letras se tornará muito fácil a tarefa de se estudar qualquer outra língua, desde que ele compreenda como funciona a nossa. Brevis esse laboro, obscurus fio ( Esforço-me por ser breve e fico obscuro), como disse Horácio na Arte Poética. Por isso, para encerrar, façamos nossas as palavras de Clarice Lispector em Declaração de amor à Língua Portuguesa:
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e se me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

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Clarice Lispector e Maria Gabriela Ilansol: tentativas de descrever sutilezas ou como dobrar a língua
Maria de Lourdes Soares, da UFRJ.
À Lucia Helena e Roberto Corrêa dos Santos

1. Clarice1 : a arte de escrever palavras e silêncios a bico de pena
E se tenho aqui que usar-te palavras, elas tem que fazer um sentido quase que corpóreo, estou em luta com a vibração última (AV, 11)

Em “Declaração de Amor”, Clarice Lispector manifesta a convicção de “que queria mesmo era escrever em português”, sabendo, no entanto, que a Língua Portuguesa
não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temeriamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A Língua Portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo (...). Eu queria que a Língua Portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos (DM, 98).

A língua literária de Clarice revela os clichês (os signos esvaziados), retira a capa que imobiliza o dinamismo da linguagem e a

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devolve revitalizada. Na lição do Mestre Caeiro2 , a clariceana aprendizagem de desaprender exige o esquecimento do modo de lembrar e de sentir que nos ensinaram.
A epifania revela-se um procedimento capaz de despir a primeira capa de superficialismo da linguagem pouco trabalhada pelo pensamento. Para Olga de Sá, a presença do fenômeno epifânico constitui o traço básico da escritura de Clarice, traço que guarda algumas semelhanças com o “estranhamento”, na acepção dada ao termo pelos formalistas russos. Trata-se da visão poética que nos liberta do automatismo perceptivo, devolvendo-nos a sensação de deslumbramento de quem vê o mundo pela primeira vez: Ela é expressão de um momento excepcional, em que se rasga para alguém a casca do cotidiano, que é rotina, mecanicismo e vazio. Mas é também defesa contra os desafios das descobertas interiores, das aventuras com o ser. Por isso a epifania é sempre um momento de perigo à borda do abismo, da sedução que espreita todas as vidas. A vida protegida representa o domesticado, o dia-a-dia, o casamento, as compras na feira, as visitas e os aniversários. (...) Enfim, a epifania é um modo de desvendar a vida selvagem que existe sob a mansa aparência das coisas, é um pólo de tensão metafísica, que perpassa e transpassa a obra de Clarice Lispector3 .

Para as suas “tentativa(s) de descrever sutilezas” (DM, 431), a herança recebida não lhe chega: “um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar sempre uma herança de língua já feita” (DM, 99). Sem rejeitar a herança recebida, sabe que na assumpção criadora do adquirido há sempre uma margem para a ruptura, para a inovação. Em 1943, no artigo “No raiar de Clarice Lispector”, primeiro estudo de relevo sobre a obra de Clarice, Antonio Candido4 já assinalava que o compromisso da escritora é com a linguagem e não com a realidade empírica. O seu grande tema - a busca da palavra, da sua palavra, com uma urgência vital – faz-se através do leal e constante combate

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corpo-a-corpo, da contínua confrontação com a palavra, daí a sensação de precariedade, de extrema fragilidade que a sua escrita provoca no leitor. Em lugar da plenitude ou do sujeito pleno, grande parte das suas personagens e narradoras falam-nos da criação do mundo e do sujeito fundados no vazio. Vazio ainda informe, mas expectante. Mundo e sujeito não dados de antemão, mas em processo, sempre se-fazendo, “espelhando o vazio existente no centro de cada indivíduo clariceano, o vazio que Clarice costuma vestir em metáforas, de claridade, de chama, de lucidez”5. A essa experiência do ser, transfigurada através da linguagem artística, poderíamos chamar talvez de plenitude do vazio:
Para isso são necessários os artifícios da distância, da disponibilidade, do esquecimento, e os artifícios da língua: a escolha e o emprego exato do vocábulo, a justa construção sintática (...) Os recursos advindos de uma escolha e de um remanejamento de valores de que se vai tecendo o projeto escritural de Clarice que favorece a passagem da vivência à obra6 .

O que há de original na escrita de Clarice, o que individualiza o seu estilo literário7, é ter encontrado, no “encontros de confrontação”8 com a paisagem da língua, a forma adequada para expressar a sua visão do mundo, a sua paisagem interior. Valendo-se da estratégia do viés, Clarice contorna o desafio de atravessar a paisagem agreste (porém não agressiva) da Língua Portuguesa. O esforço de sutilizar a língua, de torná-la dúctil, corresponde à procura da “tessitura de viver”, sempre com “o coração de esguelha”, à esquerda, “indireto” (DM, 42). “Nós somos de soslaio” (AV, 71). Vários trechos de Água Viva sublinham esse peculiar modo de estar na escrita:
É que estou percebendo uma realidade enviesada. Vista por um corte oblíquo. Só agora pressenti o oblíquo da vida. Antes eu só via através de cortes retos e paralelos. Não percebia o sonso traço enviezado (AV, 70). E eu vivo de lado – lugar onde a luz central não me cresta. E falo bem baixo para que os ouvi-

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA dos sejam obrigados a ficar atentos e a me ouvir (AV 72). Não dirijo nada. Nem as minhas próprias palavras. Mas não é triste: é humildade alegre. Eu, que vivo de lado, sou à esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo (AV, 34).

Atravessar “essa vida insolitamente enviesada” (AV, 70) é o móvel da escrita que se produz “à medida que”, “à beira de”: “escrevo-te à medida de meu fôlego” (AV, 56); “meus dias são um só clímax: vivo à beira” (AV, 12). A sutilização pressupõe aceitar ou até mesmo preferir a dissonância, a “harmonia da desarmonia”: “a dissonância me é harmoniosa. A melodia por vezes me cansa” (AV, 67); “A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz” (AV, 12). O estilo desse canto não será grandiloqüente, nem o som alto e sublimado porque “todas as vidas são vidas heróicas” (AV, 68) e “todo herói é herói de si mesmo. Quem vence está-se vencendo”. Melhor “é cantar uma melodia sem palavras. Espécie de cantilena extremamente plangente” (AV, 84), um “improviso constante” (AV, 95), à beira do silêncio. Para a “narradora-autora” de Água viva, a escrita surge de um profundo desejo de “querer falar”, embora escrever só lhe dê “a grande medida do silêncio” (AV, 12). Em Clarice, o silêncio não significa a morte da linguagem, mas, de um modo geral, a contraparte do som, o que o torna perceptível. De igual modo, também a imobilidade faz parte do movimento, como percebe a autora, na crônica “Tentativa de descrever sutilezas”, ao contemplar a dança do bailarino hindu, que “faz gestos hieráticos e pára”: “E muitas vezes a sua imobilidade súbita é a ressonância do salto anterior: o ar parado ainda contém todo o tremor do gesto” (DM, 431). Talvez a mais bem sucedida de suas tentativas para descrever sutilezas esteja em “Menino a bico de pena”, conto de Felicidade clandestina também publicado como crônica em A descoberta do mundo. “Como conhecer jamais o menino?” (DM, 256) Como apreendê-lo nas malhas da linguagem sem o aprisionar irremediavelmente? Como dizer o outro não sendo o outro? Com a delicadeza da poeta Cecília9 , Clarice sabe que tentar tocar com a pesada mão humana as finas asas de uma borboleta é fatalmente condená-la à

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morte. Conhece também – e respeita – a inacessibilidade do outro. Só lhe resta então propor o não-desenho:
Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bicode-pena mancha o papel para além da finíssima atualidade em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo (FC, 256).

Enquanto escritora, como lembra Leila Perrone-Moisés, Clarice “não acreditava nem um pouco na capacidade da linguagem para dizer ‘a coisa’, para exprimir o ser, para coincidir com o real”. Na verdade, o que ela procurava através da escrita, com a seriedade de quem abraça uma missão ou com a resignação de quem acolhe uma condenação, era pescar nas entrelinhas, “a palavra pescando o que não é palavra” (DM, 414):
O que ela buscava não era da ordem da representação ou da expressão. Ela operava emergências de real na linguagem, urgências de verdade. Resta ao leitor receber suas mensagens em branco, e ouvir o que de essencial se diz em seus silêncios. “Você não acha que há um silêncio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração atenda”10 .

2. Llansol11 : a língua impura da escrita
Por acaso tu já provaste a água quimicamente pura, a água de laboratório, sem um grão de poeira ou esterco, sem o pequeno excremento de um pássaro, a água feita apenas de oxigênio e de hidrogênio?

Nicolás Guillen A água que move a ficção de Llansol não é a água pura das nascentes, mas a que resulta do encontro de diferentes cursos de água e de materiais diversos:
Todavia tivera um sonho, um sonho de tanta pureza que matava a vida (de igual modo, por ser tão pura, a água dos lagos, nas grutas, não permi-

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA te aos peixes a vida) (DPE, 212).

A água viva da escrita se alimenta da confluência de várias fontes e cursos de água, conforme a própria ficção se define: “uma ficção não pode ser simples, é o encontro inesperado do diverso” (CA, 18). Em Llansol, a língua impura da escrita liga-se sobretudo à coexistência de registros discursivos (romanesco, lírico e reflexivo), à contaminação entre os gêneros (narrativo, lírico), de que resulta o embaraço, por parte da crítica, em classificar seus textos. A sua trajetória ficcional é a textualização da recusa ao modelo da escrita representativa, realista:
À medida que ousei sair da escrita representativa em que me sentia tão mal, como me sentia mal na convivência, e em Lisboa, encontrei-me sem normas, sobretudo mentais. Sentia-me infantil em dar vida às personagens da escrita realista, porque isso significava que lhes devia igualmente dar a morte. Como acontece. O texto iria fatalmente para o experimentalismo inefável e/ou hermético. Nessas circunstâncias, identifiquei progressivamente “nós construtivos” do texto a que chamo figuras e que, na realidade, não são necessariamente pessoas mas módulos, contornos, delineamentos. Uma pessoa que historicamente existiu pode ser uma figura, ao mesmo título que uma frase (“este é o jardim que o pensamento permite”), um animal, ou uma quimera. O que mais tarde chamei cenas fulgor (FP, 139-40).

Llansol propõe a potencialização do romance através da mutação (conceito apropriado da Biologia), operação capaz de provocar o deslizamento da desgastada paisagem da narratividade para a paisagem fértil da textualidade:
É minha convicção que, se se puder deslocar o centro nevrálgico do romance, descentrá-lo do humano consumidor de social e de poder, operar uma mutação da narratividade e fazê-la deslizar para a textualidade um acesso ao novo, ao vivo, ao fulgor, nos é possível (LL1, 120).

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Esse deslocamento poderá abrir o “acesso ao dom poético, de que o exemplo longínquo foi a prática mística”:
Sem o dom poético, a liberdade de consciência definhará. O dom poético é, para mim, a imaginação criadora própria do corpo de afectos, agindo sobre o território das forças virtuais, a que poderíamos chamar de existentes-não-reais (LL1, 120).

Ainda nas palavras de Llansol,
a textualidade é a geografia dessa criação improvável e imprevisível; a textualidade tem por órgão a imaginação criadora, sustentada por uma função de pujança _______ o vaivém da intensidade. Ela permite-nos a cada um por sua conta, risco e alegria, abordar a força, o real que há-de vir ao nosso corpo de afectos (LL1, 120-1).

Ao recusar-se a escrever numa língua de impostura, Llansol dá impulso a um percurso de escrita que se assemelha à trajetória de Témia, ou “a rapariga que temia a impostura da língua”, figura que aparece em alguns livros da autora, como Um beijo dado mais tarde. Contrariando os conhecidos protocolos romanescos, o seu “texto não avança por desenvolvimentos temáticos, nem por enredo, mas segue o fio que liga as diferentes cenas fulgor” (FP, 140). Seguindo um dos mais fortes e constantes fios, chegamos a uma fascinante cena fulgor, que se liga à procura da língua – a língua como sujeito e objeto dessa escrita. “A língua, como sujeito do ‘olhar’ e da ‘meditação-contemplação’ em que essa escrita diz fazer-se”12 . Ao partir de Portugal para ir viver na Bélgica, Llansol acolhe e leva consigo uma herança de língua, bem inalienável:
não possuía do passado senão uma línguade que nada, nem ninguém, conseguiriam separar-me. E, hoje, sei que essa língua se tinha tornado o meu único ponto firme – a minha âncora: o meu real; o nó de certeza do meu corpo com o mundo (LL1, 126).

A potência do texto de Llansol alimenta-se da fecundidade do encontro: um lugar e uma língua, em sobreimpressão: a língua

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da “ocidental praia lusitana” e as planícies da paisagem belga. O título do texto “O extremo ocidental do Brabante” (LL1, 124) falanos admiravelmente desse fértil encontro, constituindo um “aqui” poderosamente sobreimpresso. Paisagem híbrida, compósita, includente, em que os nomes dos sítios geográficos não assinalam fronteiras demarcadas, mas pontos de apoio, a necessária e precária rede para que o texto não se esvaia. A escrita-viagem põe “aqui” em movimento (vale lembrar que “aqui” é o lugar de inserção da pátria na épica camoniana, e que, na Mensagem de Pessoa, Ulisses “aqui” aportou):
eu vim aqui para me esquecer de como se contam histórias e se constroem narrativas, pois que recorrer sempre a essa escrita enfraquece a vigilância da memória e apaga a imaginação do espírito (SS, 68).

Com a sutileza da língua do contorno, o texto de Llansol “circula para romper o que está preso” (FP, 78), procurando desfazer nós paradigmáticos ligados à sua cultura de origem: “queria desfazer o nó que liga, na literatura portuguesa, a água e os seus maiores textos. Mas sei que este nó é muito forte, um paradigma frontalmente inatacável” (FP, 32). Para trazer à fala o fio de água de si, Llansol sabe que há escolhos a contornar: “Dobra a tua língua, articula, / Dobra a tua língua, articula (FP, 8). Diferentemente de Clarice, que “queria não ter aprendido outras línguas” só para que a sua “abordagem do português fosse virgem e límpida” (DM, 99), a escritora portuguesa gostaria de dobrar “a Língua Portuguesa com o conhecimento de outra língua” (FP, 20). Ao enunciar o desejo de escrever em português com o conhecimento de outra língua, Llansol talvez se refira ao bilingüismo (o francês e o português), presente sobretudo em Finita (Diário 2), ou ainda ao impulso de fazer correr a língua de Camões, Pessoa e de outros poetas, fontes gotejantes de escrita:
Eu escrevo em língua estrangeira dentro da língua de Comuns [um dos nomes de Camões na ficção de Llansol] e essa língua não tem um território já povoado, só para ela (SS, 101). O meu país não é a minha língua, mas levála-ei para aquele que encontrar (FP, 47).

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Em nome de um “poder de língua” (FP, 8), o texto de Llansol exercita-se na lição da desescrita. A travessia de territórios enclausurados, de formações sistemáticas, pressupõe deslocamentos com sentido, lentas mutações. O texto mutante ou romance textualmente abalado afasta-se do “grande romance” e participa da batalha “por uma literatura menor”, isto é, uma literatura que não pretende tornar-se maior, mas que, revolucionariamente, afirma a sua singularidade no seio da “grande literatura” ou da literatura estabelecida13 . Tal como a escrita de Clarice, a ficção de Llansol perturba a ordem estabelecida, desloca o leitor da inércia do texto previsível ou facilmente “digerível”, do conforto e da segurança do lugar-comum, para a instabilidade de um lugar comum – o da comunidade dos diferentes. São João da Cruz, Tomás Müntzer, Pégaso, Coração do Urso, Nietzsche, Eckhart e tantas outras figuras participam da comunidade instável e instabilizante baseada na diferença dos diferentes, no esquecimento ativo: “um grande crepúsculo inundava a escrita, e todos os factos e acontecimentos se inscreviam num contexto de máxima originalidade” (RV, 44). A comunidade errante que atravessa o espaço ficcional de Llansol compõe-se não apenas de figuras humanas (históricas, imaginárias, míticas, lendárias...), mas também de animais, como o cão Jade, que corre nas cenas fulgor de Amar um cão, e de plantas, como Prunus Triloba, o arbusto que floresce em texto em Finita. Participar dessa comunidade heteróclita, essencialmente inacabada, é correr o risco de perder-se, de devir-anônimo. O convívio de personagens que, do ponto de vista do referente histórico, remetem para épocas e nacionalidades distintas, configura uma espécie de transnacionalidade. De maneira análoga, a sobreimpressão de espaços e tempos diversos constitui o síncrono, a criação de um espaço-tempo sincrônico para o qual convergem fragmentos textuais provenientes de diversas ordens e mundos, aproximando-se daquilo que Foucault denominou “heterotopia”:
As utopias consolam (...) As heterotopias inquietam, sem dúvida porque solapam secretamente a linguagem, porque impedem de nomear isto e aquilo, porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham, porque arruinam de antemão a “sintaxe” (...); as heterotopias dessecam o propósito, estancam nelas próprias, contestam, desde a raiz,

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA toda a possibilidade de gramática; desfazem os mitos (...)14 .

Ler Llansol, tal como ler Clarice, é, portanto, aceitar o “pacto do inconforto” (LL1, 12), pois que, para acercar-se da morada do selvagem coração da vida/da língua, é preciso primeiro pôr-se a caminho. Travessia sempre arriscada, de um perigo mortal, mas apesar disso, ou por isso mesmo, tão fascinante:
a palavra “inconforto” é todavia capciosa, indica incómodo e coração ansioso, à espera de um amigo sereno. Devo reconhecer que o meu texto, ao deixar inseguro o sujeito que enuncia, se dirige, de facto, ao ansiar do coração, e o coloca na sombra da dúvida. E, se o coração persiste em ler, é porque há nele um fulgor estético que ilumina o próximo passo, e o faz apoiar no detalhe justo e irrecusável (LL 1, 12).

Amando através do “coração da inteligência” (CA, 91), a escrita de Llansol deseja a figura do leitor, deseja o seu desejo, causa amante. Com o ansiar do coração pelo texto de Llansol, reencontramos aqui o texto de Clarice, escrita-pulsação do “pensar-sentir” (AV, 91) “à espera que o coração atenda”. O laço que as une é o fulgor estético que ambas perseguem, oferecendo àquele que persistir na leitura de seus textos duas das mais belas travessias da Língua Portuguesa literariamente trabalhada. A essa dupla promessa de felicidade também chamamos literatura.

Referências bibliográficas ABREU, Maria Fernanda de. Maria Gabriela Llansol – um olhar à procura da língua. Revista Internacional de Língua Portuguesa. Associação das Universidades de Língua Portuguesa. Lisboa, n. 8, p 47-56, mar. 1993. CANDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1977. DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Kafka: Por uma Literatura menor. Rio de Janeiro: Imago, 1977. DOUGLASS, Ellen. A busca feminista em Perto do coração selvagem. In: GOTLIB, Nádia Batella (org.) A mulher na Literatura. Belo Hori-

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zonte: Imprensa da Universidade de Minas Gerais, v. II, p. 71-9,1990. FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1987. GUERRA DA CAL, Ernesto. Língua e estilo de Eça de Queiroz. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969. MEIRELES, Cecília. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1958. PERRONE-MOISÉS, Leyla. Flores da escrivaninha. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. PESSOA, Fernando. Obra Poética. 7.ed. Rio de Janeiro, 1977. SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis: Vozes, 1979. SANTOS, Roberto Corrêa. Artes de Fiandeira. In: LISPECTOR, Clarice. Laços de família. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991, p. 5-14. Notas 1 Obras de Clarice Lispector referidas neste trabalho e siglas usadas para as citar: Água Viva. 5.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980 (AV); A Descoberta do mundo. 3.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992 (DM); Felicidade Clandestina. 7.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991 (FC). 2 PESSOA, F., 1977, p. 226. “Procuro despir-me do que aprendi, / Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram / e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos”. 3 SÁ, Olga de, 1979, p. 106. 4 CANDIDO, A., 1977. 5 DOUGLASS, E., 1990, p. 77. 6 SANTOS, R. C., 1991, p. 6-7. 7 CAL, E. G., 1969, p. 51. “O estilo literário vai muito além do meramente verbal. Ter um estilo não é possuir uma técnica de linguagem, mas principalmente ter uma visão própria do mundo e haver encontrado uma forma adequada para expressar essa paisagem interior”. 8 A expressão foi extraída de Um falcão no punho, de Maria Gabriela Llansol. (cf. Nota 10) 9 MEIRELES, C., 1968, p. 487-8. Poema “Elegia a uma pequena borboleta”. 10 PERRONE-MOISÉS, L. ,1990, p. 177. 11 Obras de Maria Gabriela Llansol referidas neste trabalho e siglas usadas para as citar: Depois dos pregos na erva. Porto: Afrontamento, 1973 (DPE); A restante vida. Porto: Afrontamento, 1983 (RV); Causa amante. Lisboa: A Regra do Jogo, 1984 (CA); Um falcão no punho. Diário 1. Lisboa: Rolim, 1985 (FP); Finita. Diário 2. Lisboa:Rolim, 1987; Da sebe ao ser. Lisboa: Rolim, 1987 (SS). Amar um cão. Sintra: Colares, 1990; Um beijo dado mais tarde. Lisboa: Rolim, 1990 (BDT). Lisboaleipzig 1. Lisboa: Rolim, 1994 (LL1). 12 ABREU, M. F. , 1993, p. 8. 13 DELEUZE, G., & GUATTARI, F., 1977, p. 28. 14 FOUCAULT, M. 1987, p. 7-8.

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Um olhar sobre O memorial do convento - Saramago, primeiro Prêmio Nobel da Língua Portuguesa
Marina Machado Rodrigues, da UERJ.
Cada momento revolucionário impõe a tarefa de transgredir a história dos vencedores, ou desarticulá-la, de imobilizar o seu fluxo, de extrair do seu continuum os passados cativos, de despertar de suas sepulturas os mortos que dependem de cada presente, para que a vitória dos opressores não seja definitiva. 1

O Memorial do convento traz à cena o texto da história oficial para desconstruí-lo e reorganizá-lo, sob a luz do realismo crítico-social, fundando o lugar do ubi-sunt, quando faz dialogarem na ficção os discursos da história e da literatura. A ficção corrói a versão hegemônica consagrada pela história oficial, enquanto discurso do dominador, fazendo da literatura o outro da história. Se por um lado, a desmistificação instaurada pelo texto, desautorizando a versão oficial, se efetiva por meio de uma atitude iconoclasta em relação aos eventos ocorridos no passado, a narrativa, como escombro, não pode deixar de veicular a visão melancólica própria da alegoria histórica. Walter Benjamin diz que “a história é sempre a história do vencedor”2 . Mas a sua recriação pela e na literatura confere à escritura o estatuto de verdade histórica possível. É no entrelugar da história e da literatura que se opera a transformação efetivada por Saramago. No romance, o passado não se faz letra morta e nisto reside a revisão crítica da história, já que é com os olhos do presente que o passado se organiza3 . O autor subverte a noção de temporalidade. Mas ao se voltar para o passado, os olhos se fixam no futuro e,

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tecendo o futuro, o narrador desconstrói o passado. Ao presente só cabem olhos. O devir, no entanto, pode surgir como presente na voz da enunciação que insere comentários ou acontecimentos deslocados do contexto narrado, como a alusão aos efeitos da bomba atômica:
ontem se derrubavam muralhas e hoje se desmoronam cidades, ainda ontem se exterminavam países e hoje se rebentam mundos, ainda ontem morrer era uma tragédia e hoje é banalidade evaporar-se um milhão, 4

Ideologicamente, o Memorial do convento inscreve a crítica e a corrosão de uma estrutura que tem sido responsável pela manutenção dos privilégios de poucos e da conseqüente exploração da maioria. Nada passa desapercebido aos olhos do narrador que tem sob a mira os poderes institucionalizados e, como um franco atirador, dispara em todas as direções. Pela ótica do narrador, por exemplo, surpreende-se a corrosão da liturgia e, por extensão, da crença no milagre, do alcance da oração, que aliás como quase todo o campo do sagrado se acha minado pela ironia e pelo deboche:
(...) esse é o mistério das orações, lançamolas ao ar com uma intenção que é nossa, mas, elas escolhem o seu próprio caminho, às vezes atrasam-se para deixar passar outras que tinham partido depois, e não é raro que algumas se acasalem, assim nascendo orações arraçadas ou mestiças, que não são nem o pai nem a mãe que tiveram, quando calha brigam, param na estrada a debater contradições e por isso é que se pediu um rapaz e veio uma rapariga (...)5

O processo de desmistificação se opera em todos os níveis, incluindo o discurso ficcional, já que a Literatura, diferentemente da História, não se prende a “um único tipo de verdade”, como se vê adiante:
Este diálogo é falso, apócrifo, calunioso e também profundamente imoral, não respeita o trono e nem o altar. 6

A propósito do trono, o narrador procede à dessacralização

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em nível metafórico e metonímico: tanto da instituição - quando denuncia a penúria, a ignorância e a opressão do povo - quanto de seu representante, como nesta passagem do texto em que se referindo aos maus ares que se respiravam no paço devido à morte do irmão da rainha e à má saúde da mesma acrescentou, em linguagem ambígua:
os ares não andavam bons no paço, como ainda agora se averiguou ao dar el-rei um flato rijo de que pediu confissão. 7

Ou ainda, de uma só vez, atacando trono e altar:
(...) de el-rei não falemos, que sendo tão moço ainda gosta de brinquedos, por isso protege o padre, por isso se diverte tanto com as freiras nos mosteiros e as vai emprenhando, uma após outra, ou várias ao mesmo tempo, que quando acabar a sua história se hão de contar por dezenas os filhos assim arranjados, coitada da rainha, que seria dela se não fosse o seu confessor António Stieff, jesuíta, por lhe ensinar resignação (...)8

Saramago faz do humor um poderoso instrumento de corrosão. Através do riso, como já ensinara Bergson, “a sociedade se vinga dos excessos cometidos contra ela”, e é contra o poder instituído que o autor descarrega suas baterias. Como Blimunda, a dos olhos excessivos, os olhos do narrador tudo vêem e, se essa via do avesso as pessoas, este do avesso podia ver e virar as verdades. A tessitura do romance se faz da movência dos olhos e dos significantes dos diversos olhares em movimento. Assim, o narrador, a cuja subjetividade se submetem todos os personagens, cria uma nova sintaxe textual. À Blimunda era dado ver por dentro, ao narrador é dada a possibilidade de puxar os cordéis. O romance privilegia os pequenos, que têm sua ação alargada, em função das relações simbólicas que o texto engendra e, em contrapartida, o estrato palaciano é vitimado por toda sorte de ataques que desfazem a aura forjada pela história9 . Ainda se utilizando da metáfora dos olhos, o narrador estabelece a diferença entre ver e olhar; este último, como tradução da alienação do povo:

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA este é o dia de ver, não de olhar, que esse pouco é o que os olhos tendo, são outras qualidades de cegos.10

Aliás, por serem cegos, é que o narrador denuncia as injustiças sociais:
esta cidade, mais do que todas, é uma boca que mastiga de sobejo para um lado e de escasso para outros,11

Cabe também por este motivo outra advertência do narrador de que:
usa cada qual os olhos que tem para ver o que pode ou lhe consentem, ou apenas parte pequena do que desejava, quando não é por simples obra do acaso. 12

É a mesma voz que desmistifica a decadência dos costumes numa sociedade, cujos valores morais se apóiam na ambigüidade das ações:
é uma terra de ladrões, que olho vê, mão pilha, e sendo a fé tanta, ainda que nem sempre recompensada, maior é o descaro e a impiedade com que se salteiam as igrejas.13

O olhar do narrador se volta ainda para a justiça dos homens, que, parcial, defende os ricos e pune os pobres, apontando as iniqüidades de que são vítimas os que “são outra qualidade de cegos”. Além de vendas nos olhos, adverte os leitores de que os pratos da balança da Justiça podem pender para um dos lados, quando se trata de apadrinhados ou poderosos, apontando a corrupção institucional:
a questão é ter padrinhos que desculpem o homicídio e mil cruzados para pôr na balança, nem é para outra coisa que a justiça a leva na mão...14

Também a justiça divina traz os olhos vendados, pois,

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morreu afogado D. Miguel e se salvou D. Francisco, quando honrada a justiça seria o contrário.15

“O mundo de cada um é os olhos que tem”16 , entretanto, o desvio do olhar implica um desvio da intenção. E é deste modo que o narrador parece justificar os excessos a que são submetidos homens e animais na construção do convento de Mafra. Não se sabe se Deus não está olhando, ou se estará desviando os olhos de propósito, já que “a obra é para a glória e serviço dele mesmo”17 e os fins justificam os meios, concluiríamos nós, leitores. A narrativa constrói a imagem de Deus à semelhança do homem, atribuindo àquele a natureza deste. Como opera a inversão da ordem, a narrativa coloca em questão a própria essência da divindade, segundo a ótica teológica cristã, já que tal procedimento se inscrevia somente no âmbito das divindades pagãs. O mesmo recurso serve à corrosão da aura do sagrado, como no deslocamento herético a que tem lugar entre santos e homens: estes castigam aqueles, que não se querem ver despojados de seus bens materiais. Em relação à Igreja, à Religião e ao clero, o processo de dessacralização atinge o seu ponto mais crucial, não escolhesse a ficção o período negro da história de Portugal em que a Inquisição reinou absoluta. Assim, em referência à Igreja e à Companhia de Jesus, o discurso do narrador assume o tom herético que perpassa toda a narrativa:
Vem Santo Domingo e Santo Inácio, ambos ibéricos e sombrios, logo demoníacos, se isto não é ofender o demônio. 18

A paródia19 é outro recurso utilizado, por exemplo, na derrubada de mitos caros à cultura portuguesa. No romance de Saramago, funciona como metonímia do processo de criação. É através da paródia que o narrador atualiza a dicotomia identidade/ diferença entre o Velho do Restelo e um homem do povo, que é morto ao explicitar a forma cruel empregada pelo poder no recrutamento dos trabalhadores para a construção do convento franciscano. O autor, ao reler o texto camoniano, insere-o em nova circunstância, deslocando-lhes significante e significado, já modificados pelo olhar que um outro tempo autoriza:

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BRASIL – 500 ANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA (...) acompanham-nos até fora da vila as infelizes, que vão clamando, qual em cabelo, Ó doce e amado esposo, e outra protestando, Ó filho, a quem eu tinha só para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice minha, não se acabavam as lamentações, tanto que os montes de mais perto respondiam, quase movidos de alta piedade, enfim já os levados se afastam (...) então uma grande voz se levanta, é um labrego de tanta idade já que o não quiseram, e grita subido a um valado, que é púlpito de rústicos, Ó glória de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame, ó pátria sem justiça, e tendo assim clamado, veio dar-lhe o quadrilheiro uma cacetada na cabeça, que ali mesmo o deixou por morto.20

O trecho explicita a dicotomia sublime/grotesco ao mesmo tempo em que traz a oposição passado/presente, afirmada na degradação do velho camoniano. Este se vê transformado num labrego rústico, cujo púlpito é um valado e, ao invés do respeito que autoriza o “saber só de experiências feito”, inspira o ódio dos homens que estão a serviço do rei. O mito se desfaz em nome da postura política assumida pelo discurso da enunciação. É também pela via da paródia que o narrador procede à dessacralização da liturgia, ao tomar a letra da oração ao Pai e subvertê-la em dois níveis -“mãe nossa que na terra estais”21 ; ou através do aforismo “Pater noster que non estis in coelis”22 – em que o efeito de corrosão é muito mais significativo, já que o contraste provocado pela citação latina – que confere maior autoridade à sentença – seguida da partícula non, nega e desautoriza o seu sentido transcendente. A narrativa explicita o contraste existente entre a posição de superioridade de que goza a Europa culta e rica e a subserviência de Portugal, pobre e analfabeto, que é desnudado aos olhos do leitor segundo a ótica do poder. Assim é o povo português, segundo a visão de seu rei:
(...) e desta pobre terra de analfabetos, de rústicos, de toscos artífices não se podem esperar supremas artes e ofícios, encomendem-se à Europa, para o meu Convento de Mafra, pagando-se com o ouro de minhas minas e mais fazendas, os recheios e ornamentos, que deixarão, como dirá

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o frade historiador, ricos os artífices de lá, e a nós, vendo-os, aos ornamentos e recheios, admirados. De Portugal não se requeira mais que pedra, tijolo e lenha para queimar, e homens para a força bruta, ciência pouca23

Neste mesmo tom, denuncia ironicamente a importação indiscriminada de modelos culturais europeus. A crítica à supervalorização do elemento espúrio na cultura portuguesa se reflete, por exemplo, no pedido de Baltasar a S.Bento:
que mal tem que peça um soldado a S. Bento uma inglesa ao menos uma vez, para não morrer ignorante.24

Como o fogo prometeico, o saber, fruto proibido, é risco certo em qualquer tempo. Assim, a chama sagrada para Baltasar acaba por implicar sua própria condenação. Saber além, metáfora da consciência não-alienada, é delito não tolerado pela Inquisição ou pelo Poder em qualquer tempo. Baltasar queimou na fogueira, no passado, como tantos outros; no presente, o narrador sabe que a fogueira pode assumir formas bem mais sofisticadas, e que este tipo de falta certamente não ficará impune. O tratamento de corrosão dispensado à Inquisição se faz também pela via da ironia, em discurso ambíguo, que acaba por chamuscar as imagens de Deus, a dos santos e a de uma certa prática religiosa, comum ainda hoje:
(...) ao todo cento e trinta e sete pessoas, que o Santo Ofício, podendo, lança as redes ao mundo e trá-las cheias, assim peculiarmente, praticando a boa lição de Cristo quando Pedro disse que o queria pescador de homens.25

Mas nem só de desmistificação se faz um texto. O memorial do convento também conta a história de amor entre Baltasar e Blimunda que, com Frei Bartolomeu, formam a trindade humana. A tensão criada pelo confronto de posturas destes personagens com diferentes elementos dentro da narrativa possibilita, além da crítica do real, a instauração do que o texto constrói como verdade. É, então, a partir da metáfora das vontades, que a enunciação recusa à religião o papel messiânico que a própria sociedade lhe confere, ao alimentar a cultura do milagre, pois da vontade e

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pertinência dos três personagens depende o vôo, metáfora da liberdade. À fé se opõe outro mito. Se o corpo de Baltasar se extingue, a vontade sobrevive ainda e se junta à de Blimunda, seu complemento exato. O texto valoriza a crença no poder dos homens e a possibilidade de construção do futuro, quando recusa a origem divina aos seres humanos – já que a alma não podia ser vista por olhos que enxergavam por dentro. Por isso, as vontades, sim, estas existiam tão concretamente que somente a partir delas se poderia construir o sonho de liberdade dos três personagens. E neste ponto se depreende a visão melancólica do texto, quando se percebe que o sonho se restringe a três pessoas. As outras nunca o tiveram, ou ainda não o acreditam possível. Ao milagre da salvação representado pela trindade divina, a narrativa apresenta a opção da trindade humana, como agenciadora da mudança. Mesmo quando dois dos três esteios são vencidos, o terceiro resiste, com a vontade redobrada, pois somada à de Sete-Luas está a de Sete-Sóis. A esperança subsiste então. A visão parodística da história pressupõe a criação de um outro texto em que são construídas novas verdades. Na ficção, a história é repensada a partir da crítica ao poder, à sociedade e a seus valores. Os procedimentos utilizados pelo autor – como a paródia, os aforismos, a ironia, o deboche desbragado – corroem a versão oficial, questionando os valores das velhas estruturas responsáveis pela construção de um imaginário de época que, ao introjetar as imagens do passado, deixou o futuro sem perspectiva. Ao repensar e criticar a história e a cultura portuguesas, Saramago desautoriza o discurso hegemônico e pela via da diferença possibilita a busca da identidade de seu povo, deixando-nos entrever o que poderia ter sido mas não foi. À imagem e semelhança de Blimunda, o autor possui olhos que sobejam. Contudo, a direção de um certo olhar, ao implicar o desvelamento, revela também a “amargura que é o olhar dos videntes”.26

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Notas 1 ibidem, p.21 2 BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política, p.20 3 Segundo Nietzsche “o senso histórico exagerado levado ao seu extremo lógico erradica o futuro porque destrói as ilusões e priva as coisas existentes da única atmosfera em que podem viver”. Ao contrário, à Literatura contemporânea cabe a possibilidade de virar do avesso a História, como uma forma de engendrar o futuro. 4 SARAMAGO, J. O memorial do convento, p.286 5 Ibidem, p.71/72 6 ibidem, p.283 7 ibidem, p.49/50 8 Ibidem, p.91 9 Em O Memorial do Convento, o ponto de vista da narrativa parece coincidir em parte com o conceito do historicismo realista, segundo o qual, de acordo com Hayden White, “a tarefa do historiador era menos lembrar aos homens suas obrigações com o passado que impor-lhes uma consciência da maneira como o passado poderia ser utilizado para efetuar uma transição eticamente responsável do presente para o futuro”, p. 61 10 SARAMAGO, J. O memorial do convento,p.79 11 ibidem,p.27 12 ibidem, p.84 13 ibidem, p.20 14 ibidem, p.189 15 ibidem, p. 190 16 ibidem, p.272 17 ibidem, 217 18 ibidem, 320 19 “A paródia se constrói como desmistificadora do discurso realista que criou a ilusão de refencialidade, a suposta ligação da narrativa com a realidade. A ficção contemporânea liberta-se, assim, da pretensão da verdade e, minando a realidade, torna-se mais próxima dela, afirmando uma cultura e definindo uma identidade.” 20 Saramago,idem, p.293 21 ibidem, p.161 22 ibidem, p.157 23 ibidem, p.228 24 ibidem, p.44 25 ibidem, p.95 26 ibidem, p.166

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Tupinismos, africanismos, asiaticismos e o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa
Mauro de Salles Villar, do IAH.
Muita gente se pergunta como se faz um dicionário. A crença popular é a de que quem neles trabalha “sabe tudo”. Obviamente, porém, tal coisa nem possível seria. A lexicografia é apenas o trabalho de lexicógrafos, não necessariamente super-homens intelectuais. É técnica desenvolvida em muitos anos de labor humano. Bastaria referir que o primeiro dicionário conhecido foi produzido em Ebla, um dos grandes centros urbanos da cultura proto-síria, há no mínimo 4.300 anos. Os lexicógrafos são basicamente redatores generalistas que dominam as regras da metalinguagem empregada no fazer de dicionários, enciclopédias e afins. É por essa razão que, para elaborarem tais obras de referência, carecem necessariamente da contribuição de um conjunto de especialistas das mais diversas áreas do saber e do fazer humanos, contingente capaz de suprir as lacunas de informação técnica que ocorram nas definições. As enciclopédias, os glossários, os dicionários, tais como existem hoje, são uma atividade de complexa estrutura, não podendo mais ser obra de um grupo singelo de redatores auto-suficientes, por mais abarcantes que sejam os seus conhecimentos. Humanistas desse tipo não mais existem em nosso mundo, um tempo em que a realidade se tornou de tal maneira multímoda no que respeita à sua variedade e extensão, e em que as suas prospecções verticais multiplicaram-se tanto e atingiram tamanhas profundidades, especialmente no campo das ciências e da tecnologia, que uma visão conspectiva absoluta é impossível, a não ser, de modo não mais que aproximativo, como fruto de um vigoroso trabalho colegiado. Por isso, um grande dicionário, como o Third New International

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Webster, lançado nos Estados Unidos em 1961 com 460.000 entradas, contou com uma força-tarefa de 1 editor-chefe, 13 redatores associados, 58 redatores assistentes, 66 assistentes editoriais, 31 assistentes de secretaria e 343 especialistas externos utilizados como consultores. Em outras palavras, o numeroso grupo editorial interno teve como adjutório forçoso o trabalho conexo de centenas de especialistas, dentro e fora dos Estados Unidos, para levar a cabo a sua missão. Nos dicionários ditos de língua geral, a base das averbações é de pala-vras da língua de “nível zero” – a não científica ou técnica, a língua comum do dia-a-dia e a literária. Nesse campo, a competência básica é dos lexicógrafos – lingüistas, gramáticos e filólogos. Mas o contingente numericamente funda-mental das línguas modernas é composto pela terminologia, sistema de palavras empregadas numa disciplina particular (por exemplo, a terminologia botânica, ou da marinharia, ou da matemática). Foi nessa área que explodiram quantitativamente as línguas de cultura no século XIX e no XX, especialmente aquelas que contam com grande desenvolvimento nas tecnologias de ponta. Todavia, como a nomenclatura técnica é crescentemente universal, cada neologismo criado por força de nova tecnologia ou descoberta é também, pelo menos potencialmente, palavra nova de qualquer outra língua cujos falantes dela venham a se utilizar. Para se ter uma idéia desse fenômeno de expansão lexical, comparo os números da Língua Portuguesa na medievalidade com aqueles de hoje. Calcula-se que o português medieval contasse com cerca de 15 mil vocábulos. Em meados do século XVI, com a expansão marítima, esse total estaria entre 30 e 40 mil. No final do século XIX, o registro em dicionários atingia a casa das 80-90 mil unidades léxicas. Saltando daí para o início da década de 1980, o corpus do Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras já registra cerca de 360 mil entradas. Mas a dicionarização ou a vocabularização não representam o cômputo exato do número de palavras de uma língua. Se o Oxford English Dictionary, essa catedral da lexicografia internacional, traz registradas mais de 615 mil unidades da língua inglesa, não se pense que o seu léxico se esgota em tal quantitativo. Muito longe disto. Os projetos de lexicografia, para se comporem, fazem uma escolha dentre o extensíssimo material com que conta a língua, seja determinando no tempo o período fechado sobre o qual focalizarão o seu esforço de pesquisa, seja pré-fixando o número de entradas

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sobre as quais irão versar. Os dicionários, especialmente os de língua geral, jamais se utilizam de modo exaustivo das nominatas terminológicas. Nem poderiam fazê-lo. Qualquer língua moderna conta, não com centenas de milhares de vocábulos, mas com milhões de palavras e sintagmas potencialmente dicionarizáveis. Calcula-se, por exemplo, que só os vocábulos e locuções ligados à medicina girem em torno de um total de 600 mil unidades. A terminologia química e farmacológica atinge quase 2 milhões de vocábulos, total excedido pela zoologia, pois só a entomologia tem 2 milhões de insetos classificados. Um registro abarcante da botânica universal não seria menos titânico. E se é verdade que a maior parte das espé-cies, gêneros, classes, tribos etc. dessas classificações tenha denominação ape-nas no latim científico, seus nomes são todos vernacularizáveis e, portanto, registráveis em dicionários, mesmo naqueles de língua geral. E pensar que apenas 13% das espécies da biodiversidade da Terra foram classificados até agora... Em resumo, quanto à linguagem especial do tecnoleto, os lexicógrafos têm mesmo de se valer do conhecimento de profissionais de cada área. Quem trabalha em lexicografia saberá padronizar, no estilo do dicionário que estiver fazendo, o material técnico recebido, mas fica dependente da qualidade, exatidão e utilidade das informações prestadas pelo colaborador especialista. Em línguas bem estudadas, o papel do lexicógrafo é aprofundar a pes-quisa; é procurar exceler na definição dos conceitos das unidades léxicas, tentando levá-las a uma eficácia e precisão cada vez maiores. É também incluir, com critério, neologismos e a neologia ligada às acepções. Se a questão for de etimologia ou sobre a história de um vocábulo, é preciso ir além do que antes havia sido feito. A lexicografia, como registro da extensão horizontal e vertical das vivências e cogitações de um povo através de sua língua, é um processo de agregação, no tempo, de esforços, pesquisas e resultados, um somatório de conquistas que se acumulam umas sobre as outras. Um grande dicionário espelha e baliza a expansão e os limites do pensamento e das conquistas materiais dos seus falantes. Por esta razão, tais obras são tão importantes para a política cultural dos povos. A Espanha, por exemplo, cedo adiantou-se às demais línguas européias na intuição da importância dos dicionários com o seu Tesoro de la Lengua Castellana y Española, de Sebastián de Covarrubias. Publicado em 1611, ele precedeu de um ano o célebre

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Vocabolario degli Accademici della Crusca, de Florença, editado em Veneza. No século seguinte, a Espanha foi além com o primeiro Borbón, Filipe IV, monarca esclarecido que em 1723 destinou por decreto uma renda anual, obtida por um imposto sobre o tabaco, para a publicação do Diccionario de Autoridades da Real Academia Española, monumento da lexicografia desse país. Na França, a consciência da importância decisiva do idioma como uma espécie de “cola social” e ferramenta política de hegemonia cultural é patente tanto historicamente quanto no conjunto de meios e financiamentos postos à disposição de lexicógrafos para a elaboração do Trésor de la Langue Française em 16 alentados volumes – e isso numa língua que já contava com excelentes dicionários, como os Littré, os Larousse, os Robert e os da editora Hachette, para citar apenas quatro bons filos lexicográficos. Mas que fazer quando aspectos da língua sobre a qual um dicionário versa se encontram mal estudados, quando houve interrupção nos esforços de compreendê-los, pesquisá-los e registrálos? Que fazer quando as informações especializadas sobre que basear os esforços do registro lexicográfico são por vezes pouco confiáveis, confusas, a exigir estudos que as retifiquem? Os dicionários e enciclopédias congeminam em si duas naturezas: são produtos culturais e bens de comércio. Por esse segundo motivo, sobre eles in-cidem as ubíquas pressões por produção, prazos, contenção de custos, redução de grupos de trabalho, moderação de pesquisa. Em outras palavras, acaba por faltar tempo para a reflexão mais aprofundada, para as verificações mais minuciosas, para as leituras superpostas do material trabalhado, a fim de que ocorra uma filtragem dos deslizes advenientes do forte ritmo da produção. Os dicionários, gravados por tais exigências alheias ao seu processo, passam en-tão a se apressar, repetindo-se, copiando definições, reproduzindo velhas soluções propostas para etimologias, replicando tradicionais procedimentos técnicos, sem ânimo ou possibilidade de sugerir avanços, estabelecer características mais pessoais, pesquisar desenvolvimentos. O perigo disso é o de se acabar fazendo sempre o mesmo dicionário, apenas cosmeticamente alterado, com permanência de equívocos definitórios e reinclusão das nefastas palavras de papel, que é como chamamos aquelas que se encontram em vocabulários, léxicos e em outros livros de autoridade similar, mas sem curso real na língua – palavras originárias de erros ortográficos, tipográficos, ou resultantes de má leitura de originais ou de pronúncia incorreta.

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Dentro desse quadro, vejamos a situação dos tupinismos, africanismos e asiaticismos no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, obra em trabalhamos há nove anos (mais uma interrupção de cinco por motivos financeiros) e que será entregue ao editor para produção no Brasil em agosto do ano 2000. Inicio pelo relato do que entendem por tupi algumas obras de referência e dicionários que tratam da questão no Brasil. O Tupi é um tronco lingüístico que faz parte do Macro-Filo Andino-Equatorial. Na década de 1970, para a antropologia brasileira, ele incluía sete famílias: a Família Tupi-Guarani, a família Mundurukú, a família Jurúna, a família Arikêm, a família Tuparí, a família Ramarâma e a família Mondé – cada uma destas com suas línguas e dialetos específicos. A palavra tupi denota, igualmente, uma língua específica da família lingüística Tupi-Guarani. A constituição desta era, no citado período, descrita como incluindo: o tupi (subdividido em tupi antigo ou tupinambá e o tupi moderno ou nheengatu); o guarani (subdividido em guarani antigo e guarani moderno, o qual englobava o Kaiwá, o Nhandéva, o Mbiá); o Xetá; o Tenetehára (que incluía o Guajajára e o Tembé); o Asurini e o Suruí do Tocantins (Mudjeretíre); o Apiaká do Tapajós; o Tapirapé; o Kamayurá; o Kawahib (que abarcava o Parintintin, o Paranawát [Pawaté, Takwatép, Ipotewat], o Wiraféd, o Tukumanféd, o Diahói, o Tenharín [boca negra], o Júma, o Kayabí; o Urubu-Kaapór (que compreendia o Manajé [Amanajé], o Anambé, o Turiwára); o Oyampi, o Emeriõ (Émerillon) e o Karipúna do Uaçá; o Awetí; e o Mawé (Sataré). O dicionário em que trabalhamos hoje registra o Tronco Tupi como compreendendo, no Brasil, dez famílias vivas distribuídas por 14 estados. Nosso texto descreve o Tupi-Guarani como a família lingüística do Tronco Tupi com a maior distribuição geográfica no Brasil, estendendo-se por 13 estados e compreendendo 20 línguas vivas que se caracterizam por pequena diferenciação interna. O Guarani é uma língua da família lingüística tupi-guarani falada pelo grupo indígena que habita Mato Grosso do Sul, e do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, onde atualmente se divide nos subgrupos kaiwá, mbiá e nhandéva. Vejamos, porém, o que deixaram registrado alguns tupinólogos brasileiros sobre a questão. Para o celebrado professor sul-rio-grandense Frederico G. Edelweiss, no ensaio denominado “O Indianismo ao Tempo do Império” (janeiro de 1955), constante da abertura da 4ª edição de O

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Tupi na Geografia Nacional, de Teodoro Sampaio, o tupi é a “língua fixada pelos jesuítas no primeiro século da catequese” – o tupi dos séculos XVI e XVII, ouvido diretamente dos indígenas desse grupo étnico. A língua geral ou nheengatu colonial, que ele chama também de brasiliano, é o “desenvolvimento do tupi entre os mestiços e no intercâmbio, sob a influência da Língua Portuguesa e da colonização”. “É um tupi na primeira fase da sua progressiva decadência, da qual nem textos possuímos.” Nheengatu ele classificava de “língua geral moderna, no estado em que ficou reduzida na bacia amazônica”. Em Tupis e Guaranis (1947, p. 32), registrou que tal dialeto “nunca foi falado por qualquer tribo não aculturada.” Teodoro Sampaio chamava de tupi da costa ao tupi considerado genuíno, tupi amazônico ao nheengatu e tupi-guarani ao guarani. Registra Edelweiss (ob.cit.) que Sampaio abeberou-se no Dicionário Português-Brasiliano e Brasiliano-Português, léxico compilado por jesuítas que, no seu ponto de vista, versa não sobre o tupi, mas sobre um estádio intermediário do tupi, modificando-se em direção ao nheengatu (embora contenha também peculiaridades guaranis isoladas). As etimologias de Teodoro Sampaio mesclam formas tupis, guaranis e nheengatus “sem a mínima distinção”, diz Edelweiss. Reproduzo a seguir um excerto do texto desse autor no citado ensaio “O Indianismo”, a respeito de discrepâncias de conceito atribuídas às citadas palavras em diversos autores:
Desde 1823, Martius havia adotado o genérico tupi para a família hoje designada por tupiguarani. Porto Seguro seguiu-lhe as pegadas, chegando mesmo a declarar nas obras guaranis de Montoya por ele editadas que, ao invés de língua guarani, fora preferível dizer língua tupi. Para Couto de Magalhães, tupi e nheengatu eram sinônimos e o guarani, um simples dialeto deles. Batista Caetano só admitia a existência de um único idioma: o guarani – e, a par de alguns termos locais, atribuía as diferenças fonéticas marcantes ao tupi antigo, quase exclusivamente à deturpação dos portugueses. Para Barbosa Rodrigues, ao contrário, o nheengatu, a despeito de corrompido, continuava sendo, ainda em fins do século dezenove, o dialeto mais próximo da língua-mãe e mais puro do que o tupi de Anchieta e o guarani de Montoya. Declara ele em Poranduba Amazonense (1887): “Venho

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apresentar-te [a Batista Caetano, a quem dedicou o livro] o resultado de alguns estudos que confirmam até certo ponto (....) que o nheengatu (....) é mais puro que o tupi do Sul e que o guarani (....).”

No ano passado, Eduardo de Almeida Navarro publicou o seu Método Moderno de Tupi Antigo: a Língua dos Primeiros Séculos, em cuja introdução esclarece:
O tupi só era falado na capitania de São Vicente, aí incluindo-se o planalto de Piratininga, em trechos do atual estado de São Paulo. – Assim, chamar a língua brasílica de tupi ou tupinambá não é absolutamente preciso, pois ambas eram variantes dialetais e não línguas propriamente ditas. Por que a chamamos, então, neste Método, de “tupi antigo”, se o tupi era uma variante dialetal de menor uso que o tupinambá? Isso só se justifica pelas seguintes razões Esse designativo teve larga difusão, muita aceitação pelo povo em geral, apresentando o caráter de um denominador comum, sendo um termo que entra na composição de outros, todos nomes de povos falantes da língua brasílica: tupinambá, tupiniquim, tupinaé. – Embora as gramáticas de Anchieta (1595) e de Figueira (1621) descrevam principalmente a variante tupinambá, a poesia lírica e o teatro que Anchieta nos deixou (...) está, em grande parte, em tupi, que ele aprendeu primeiro, quando viveu em São Paulo de Piratininga, de 1554 a 1562. Por muitas vezes, Anchieta empregou as duas variantes dialetais num mesmo texto, como que considerando irrelevantes suas diferenças. – A própria variante tupinambá apresentava aspectos diferenciados na costa brasileira: o tupinambá da gramática de Anchieta e o descrito pela gramática de Luís Figueira, em Pernambuco, tinham diferenças entre si, podendo-se dizer que Figueira descreveu uma outra variante dialetal, o tupinambá do norte.”

Em outras palavras, neste texto, entende-se tupi antigo pelo que é chamado por outros de guarani antigo – enquanto o “tupi

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moderno”, vale dizer, o nheengatu moderno, é aquele “ainda falado em certas partes do Norte e do Nordeste do Brasil.” O quadro das línguas indígenas do Brasil apresenta ainda hoje de 120 a 150 línguas, ou seja, aproximadamente a metade do total falado na época do descobrimento. Teodoro Sampaio, no que foi reproduzido por alguns dicionários, qualificou por vezes de tupi o que era guarani ou nheengatu, reduzindo o que não chamava de tupi freqüentemente ao termo tapuia, denominação genérica atribuída pelos portugueses a indígenas dos grupos que não falavam lín-guas do tronco tupi e habitavam no interior do país. Veja-se este trecho do capítulo 1 do seu livro O Tupi na Geografia Nacional, intitulado “Da expansão da língua tupi e do seu predomínio na geografia nacional”:
Transpondo-se o São Francisco em direção ao sul, penetra-se de novo numa região ingrata pela inclemência do céu e se vai atravessando a bacia elevada do Vaza-Barris, antes de ganhar os trechos esparsos e mais deprimidos das chapadas baianas que, depois do salto de Paulo Afonso, depois de Canudos e de Monte Santo, levam a Itiúba, ao Tombador e ao Açuruá. Aí, nesse trecho do pátrio território, aliás dos mais ingratos, onde outrora se refugiaram os perseguidos destroços dos Orizes, Procás e Cariris, de novo aparecem, designando os lugares, os nomes bárbaros de procedência tapuia que nem o português, nem o tupi logrou suplantar. Lêemse, então, no mapa da região, com a mesma freqüência dos acidentes topográficos, nomes como Pambu, Patamoté, Xingó, Bendegó, Propriá, Cumbe, Massacará, Cocorobó, Tragogó, Canché, Chorrochó, Quicunca, Cochó, Centocé, Açuruá, Xique-Xique, Jiquié, Sincorá, Catulé ou Catolé, Mucujê, Juciape, Gagau, Orobó, Procá, Cocobocó e outros igualmente bárbaros e estranhos.

(Toda essa toponímia grafada em negrito, no original.) Sob a denominação comum de tupi ou vagamente de tupinismo, entram em nossos dicionários, do mesmo modo, o tupi antigo, o guarani, o nheengatu (também dito neotupi) e eventualmente vocábulos cujos étimos pertenceriam a outros troncos

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e a outras famílias lingüísticas. Em outras palavras, além de os estudos etimológicos estarem consideravelmente atrasados quanto à lingüística indigenista, a utilização do rótulo tupi num sentido hiperonímico de ‘empréstimo de alguma vaga língua indígena do continente americano’ continua a ocorrer e está longe de ser ideal, mas os dicionários persistem em tal simplificação por falta de fontes sobre que debruçar os seus levantamentos. O grupo de lexicógrafos do Dicionário Houaiss também se recente dessa limitação endêmica de fontes. Empenhou-se ferreamente, porém, em levar o mais longe possível as pesquisas que se podem fazer e as sugestões que se podem oferecer sobre a etimologia de tais empréstimos. No que respeita à lingüística e à etnologia indigenista nacional, preferimos fazer tábua rasa do que os outros léxicos e enciclopédias registravam, por confuso, desatualizado e por vezes errôneo, e lançar-nos a um levantamento próprio, contemporâneo e histórico, de grupos e línguas indígenas baseado na documentação mais recente dessa área. Disto resultaram cerca de 650 verbetes que incluem informações sobre o indivíduo, o grupo com sua localização geográfica e a língua ou dialeto por eles falado, além do registro de seu etnônimo brasílico, vale dizer, a denominação de cada grupo do território brasileiro, extinto ou existente, com sua transcrição segundo regras estabelecidas por antropólogos e lingüistas brasileiros. No que concerne à quantificação dos indigenismos lingüísticos no português, ou seja, das palavra, construções ou locuções de qualquer língua indígena americana tomadas de empréstimo por nossa língua, o cômputo existente é caótico, pois nunca foi levado a efeito com método. As opiniões divergem de meros 4.500 vocábulos aos 50 a 100 mil estimados por Silveira Bueno. Não creio haver dúvida de que as vozes amerindigenistas superam em número as dicções árabes conservadas no léxico português. Afinal, é patente a quantidade de topônimos (especialmente orônimos, corônimos, limnônimos, eremônimos, potamônimos e nesônimos), os numerosíssimos fitônimos e zoônimos (entre estes especialmente os ornitônimos e os ictiônimos), mas também diversos etnônimos, litônimos, nosônimos, melônimos, mitônimos, meteorônimos, demonônimos, alguns antropônimos etc. – que colorem a nossa língua, especialmente a falada no Brasil, de belos sons e visões ameríndias. Todavia, no que respeita à sua quantificação real, não há rigorosamente mais que meras opiniões.

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No Dicionário Houaiss, os topônimos só se encontram referidos na etimologia dos gentílicos, uma vez que não se dá entrada a nomes próprios de cidades na nominata. No que respeita a nomes de animais e especialmente a plantas brasileiras é que é bastante considerável o número de empréstimos indígenas, dos quais se registram também grande número de formas e variantes. Dou como exemplo o verbete guapuruvu, uma leguminosa que chega a atingir 30 metros de altura. Entre os 51 sinônimos e variantes que o dicionário refere, estão: baageiro, bacumbu, bacuparu, bacurubu, bacurubu-ficheira, bacuruvu, bacuva, bageiro, bagiro, baquerubu, baqueruvu, beri, bucurubu, gabiruvu, gapuvuru, garapivu, garapuva, garapuvu, garipuvu, grapibu, guaburuvu, guaparuva, guaperubu, guaperuvu, guapiruva, guapiruvi, guapiruvu, guapivuçu, guaporuba, guapurubu, guapuruva, guarapuvu, guarupuvu, guavirova, guavirovo, paricá, paricá-grande etc. – grande número dos quais, indigenismos. O cômputo dos empréstimos de línguas ameríndias abrangidos pelo Dicionário Houaiss ainda está em aberto, pois o grupo editorial está a 13 meses de sua finalização e não desejo aqui avançar hipóteses. Mas, na medida que tal registro é tão expressivo na obra, a fixação de suas etimologias constitui-se num ordálio para os especialistas, já pela divergência de opiniões sobre étimos, já pela infirmidade do conceito do que é o tupi nas obras de referência utilizáveis, já por serem o tronco Aruák e as famílias Karíb, Tukâno, Makú, Pâno etc. pouco estudadas, já – e pior que tudo – pela inexistência de estudos sobre grande parte dos empréstimos, exigindo que nosso grupo de etimologistas tenha de ir além do que se costumava pedir à sua classe nos dicionários de Língua Portuguesa dita geral até agora realizados. Outra questão espinhosa para a lexicografia é a discussão a respeito da fixação da grafia dos nomes indígenas. O item IV, sobre a hifenação, do “Formulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras”, aprovado em agosto de 1943, estatui, no inciso 4º, que ele deve ser empregado “nos vocábulos formados por sufixos que representam formas adjetivas como açu, guaçu e mirim, quando o exige a pronúncia e quando o primeiro elemento acaba em vogal acentuada graficamente”. Exemplificando tal regra, os vocábulos andá-açu, amoré-guaçu, anajá-mirim e capim-açu. Mas que dizer de baiacumirim, em que o u é semitônico ou de carapicupeba, onde o mesmo ocorre? O Vocabulário Ortográfico registra-as sem hífen. O problema está em que gwa’su (>açu, uçu e guaçu) e mi’rï

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não passam de exemplos de elementos de composição tupis que sincretizam palavras no português. Há grande número de outros formantes com extensa representação em nossa língua, por exemplo, pinima ‘listrado, manchado’, ‘pewa ou bewa ‘achatado, liso’, gwa’yã ‘caranguejo’, ‘taya ou ‘aya ‘que arde, picante, ácido, azedo’, pi’xuna ‘negro, preto, escuro’ e diversos outros. As palavras compostas com tais elementos não são regidas por regras claras quanto ao modo de serem grafadas, o que gera considerável instabilidade ortográfica, que aliás se espelha na própria nominata do Vocabulário Ortográfico. Eis aqui um pequeno grupo, meramente exemplificativo, de palavras formadas com elementos de composição pospositivos de origem tupi onde tal problema se torna patente: escrevem-se sem hífen (embora sempre o primeiro elemento formador seja oxítono e o segundo, adjetivante): acaripixuna, acarapeba, aratupinima, acarauçu, amborepinima, amborepixuna, acaraaia, carapicupeba, ipecupinima, ituipinima, acaricuiara etc. Em bacabamirim, entende-se a inutilidade do hífen, mas baiacumirim, que não tem hífen, poderia ser lido baiàcumirim. Aliás, um bom exemplo conjunto da instabilidade observa-se em palavras compostas com esse ictiônimo baiacu. Escrevem-se sem hífen baiacuguaíma, baiacuguima, baiacuguimbá, baiacumirim, mas grafam-se com hífen baiacu-guaiama, baiacu-guaimá, baiacuguarajuba, baiacu-arará, baiacu-ará. Quanto a baiacuarara, o Vocabulário Ortográfico registra-o com e sem hífen. Em línguas de grafia estabilizada, o trabalho da lexicografia é reproduzir, na nominata de suas entradas, o adrede estabelecido. Na nossa, em casos como esse, o dicionário tem com freqüência de absorver o papel, que não é realmente seu, de normatizador ortográfico, por se ver forçado a tomar um partido por necessidade de padronização. Mesmo nesse caso, porém, a instabilidade ocorre nos registros, pois, não havendo uma regra una, oficial, ocorrem flutuações. No que respeita aos africanismos – compreendidos nestes os empréstimos de línguas e dialetos africanos integrados no sistema de nossa língua e também vocábulos e expressões dessas línguas e dialetos registrados in natura em livros de literatura africana escritos em português – o Dicionário Houaiss conta com um levantamento próprio, realizado no Brasil, a partir de glossários apensos a obras literárias de e sobre a África lusofônica. Foram também utilizados alguns dicionários específicos publicados em Portugal e em outros países, como é o caso do Dictionaire bilingue portugais-

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français des particularités de la langue portugaise en GuinéeBissau, do Prof. Jean-Michel Massa. A flora e a fauna da região foram arroladas e pesquisadas através de manuais locais, entre eles, por exemplo, o excelente Agronomia Angolana, edição da Repartição Central dos Serviços de Agricultura de Angola, Luanda, n.7, 1953 (que é uma publicação póstuma do último trabalho do botânico John Gossweiler). Notável é também Plantas Úteis da Flora de S. Tomé e Príncipe – medicinais, industriais e ornamentais, de Luís Lopes Roseira, de 1984. Isso gerou um número tão expressivo de averbações que nos vimos forçados a guardar material para outras edições ou outras obras, de modo a possibilitar que a massa de informações que constarão do dicionário nesta primeira edição pudesse ser processada pelos botânicos, redatores, datadores e etimologistas do nosso grupo dentro do tempo de trabalho que lhes resta. Enquanto isso, um grupo de africanos de Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde trabalha em Lisboa, sob a supervisão do Prof. João Malaca Casteleiro, recolhendo material para outros verbetes regionais a serem introduzidos no Dicionário Houaiss. A parte inicial desses textos estará no Brasil no mês de setembro deste ano, para ser processada e incorporada ao corpus de nosso banco de dados. No caso de africanismos de registro neológico em dicionarização e mesmo de palavras já dicionarizadas, ocorre duplicidade ou mesmo multiplicidade de grafias entre as de cunho aportuguesado e aquelas usadas nos países de África, ocasionando, também aqui, instabilidade de padrão ortográfico no registro. Os países africanos lusófonos, mergulhados em problemas sociais e econômicos, quando não em guerra, não tiveram tempo nem disponibilidades para encetar seus levantamentos lingüísticos e estabelecer dicionários e vocabulários ortográficos com o seu padrão ideal, donde a existência de uma flutuação de soluções, por vezes dentro de um mesmo país, flutuação essa que necessariamente se reflete em qualquer dicionário que pretenda integrar a sua contribuição vocabular sem impor-lhes regras. É o que ocorre com o Dicionário Houaiss. Grande número de línguas e povos africanos da costa, contracosta e centro continental, especialmente os ligados à área de influência da expansão e colonização portuguesas, encontra-se registrado no dicionário com as informações mais atualizadas disponíveis sobre sua caracterização, localização, língua falada e eventualmente os seus traços culturais mais importantes.

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Relato, por fim, o que vimos fazendo a respeito da inclusão de asiaticismos no Dicionário Houaiss. Não é comum que dicionários elaborados no Brasil preocupem-se em averbar empréstimos de línguas orientais ao português. Basicamente eles são da Índia e de Macau, e em menor escala, por exemplo, de Timor, do cristang de Malaca, na Maláisia etc. A vocação do Dicionário Houaiss, porém, era ir tão longe no registro lusofônico quanto o possível, razão por que, assim como foram registrados regionalismos portugueses e brasileirismos e algumas palavras das línguas e crioulos africanos da área lusófona, fizemo-lo também com parte do material arrolado por monsenhor Sebastião Rodolfo Dalgado, professor de sânscrito na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em seu Glossário Luso-Asiático. Todavia, por ser histórica a maior parte desse registro, preocupamo-nos em completá-lo com informação coeva, viva. Entre as fontes com que contamos para tanto, cito dois preciosos levantamentos. Um, o do professor Raul Gaião, licenciado em Filosofia que viveu em Macau por nove anos e fez seu mestrado de Lingüística Portuguesa na Universidade de Macau, onde também lecionou português. Tal inventário foi por ele mesmo extraído e refeito para nós a partir de sua tese de mestrado, um minucioso glossário de palavras e locuções ainda vivas nos falares locais e/ou utilizadas em obras literárias de expressão portuguesa que integram elementos do chinês e do crioulo macaísta. Contém igualmente vocábulos de línguas timorenses na mesma perspectiva O outro, foi feito por Luís Filipe Tomás, especialista em História da Ásia fluente em diversas línguas orientais, que foi professor assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e é atualmente professor-associado convidado da Universidade Nova, também em Lisboa. Seu precioso levantamento é complementar ao do professor Gaião e mergulha sobre asiaticismos de outra ordem e origem. Conclusão A inexistência de estudos mais precisos sobre que fundamentar a proveniência dos vocábulos de origem ameríndia é problema penoso para a etimologia dos dicionários de Língua Portuguesa. A falta de informação sobre a origem dos empréstimos e das unidades léxicas das línguas africanas in natura registradas é igualmente grave e extensa. Etimologizar e datar tais vocábulos e sintagmas é tarefa árdua, especialmente em dicionários que pretendam impor

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um padrão mais metódico de aprofundamento de tais questões, como é o caso do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. A ortografia de tupinismos e dos indigenismos em geral é outro motivo de preocupação para o estabelecimento de uma nominata lexicográfica. Vimos apoiando-nos na bibliografia existente em Língua Portuguesa e não só, e utilizando os saberes de especialistas nacionais e estrangeiros para superar ou, pelo menos, aventar hipóteses sobre tais pendências. Um esforço especial está sendo feito para averbar africanismos e asiaticismos de toda a área lusófona, com o auxílio de colaboradores locais. As dificuldades conjuntas de tais tarefas obviamente crescem na medida exata da extensão da nominata sobre que se propõe trabalhar.
Se quiseres enviar um condenado ao suplício, não o mandes às minas de ouro nem ao verdugo; antes obriga-o a compilar um dicionário.” Quando o filólogo e historiador Joseph Justus Scaliger, nascido na França e falecido em Leyden em 1609, enunciou esta sua famosa consideração, referia-se aos dicionários de menos de 10 mil palavras que se faziam no seu tempo, o século XVI. Imagino o que diria de um com mais de 250 mil entradas, como o que fazemos.

Concluo, lembrando o verso do poeta português Manuel Alegre que diz: “Na minha língua... cada verso é uma outra geografia.” Com certa liberdade, atrevo-me a afinar tal pensamento com o que buscava Antônio Houaiss em seu dicionário, que sempre foi integrar o labor coletivo de gentes brasileiras e do resto do mundo lusofônico numa nominata comum, em pós da harmonia que as diversas realizações da Língua Portuguesa geram em seu vigoroso e variado conjunto.

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Confrontos entre o Tupi antigo e a Língua Portuguesa
Nataniel dos Santos Gomes, da UFRJ / SUAM.
Nosso objetivo aqui é de fazer a descrição de alguns aspectos do tupi antigo e da Língua Portuguesa, tais como: a ordem oracional e a ordem sintagmática. 1. Informações Sobre o Tupi Antigo O tupi antigo, ou tupinambá, pertencia à família tupi-guarani. Essa família se destaca entre as outras sul-americanas, devido à sua extensão. As línguas desta família eram faladas em praticamente todo o litoral brasileiro e na bacia do rio Paraná no século XVI. Na atualidade, esta família é encontrada na Região Norte, nos estados do Maranhão, Pará, Amapá e Amazonas; na Região Centro-Oeste, em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás; na Região Sudeste, no Rio de Janeiro, São Paulo e no Espírito Santo, e nos três estados da Região Sul, além de ser encontrada fora do país, na Guiana Francesa, na Venezuela, na Colômbia, no Peru, na Bolívia, no Paraguai e na Argentina. Os primeiros registros são do início do século XVI, sendo os primeiros textos produzidos em 1575. Estes textos eram de caráter religioso, traduzidos por jesuítas a partir dos dados de um índio catequizado. Em seguida, surgem documentos que tinham o objetivo de reproduzir conversas entre os índios e os europeus. Acredita-se que praticamente todos os europeus que vinham para cá acabavam aprendendo o tupinambá. E com o tempo os missionários passaram também a produzir textos não-religiosos, como José de Anchieta, que produziu mais de 4000 versos na língua e

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ainda elaborou a primeira gramática indígena. As gramáticas que surgem depois também têm origem em religiosos jesuítas. É interessante notar que na metade do século XVII, muitos jesuítas que haviam nascido no Brasil eram totalmente bilíngües, mas poucos índios aprenderam a escrever na sua própria língua. E mesmo assim o uso do tupinambá se tornou tão comum pela população que o governo chegou a proibi-lo. Mas, mesmo assim, deixou sua marca no português, em topônimos, em nomes de aves e outros. O tupinambá foi a língua natural mais conhecida em nosso país foi o tupinambá, sendo predominante nos contatos entre portugueses e índios, e ainda se tornando a língua da expansão bandeirante no sul e da ocupação de parte da Amazônia. Segundo Edelweiss (1969:74), não se falava o tupinambá, mas o tupiniquim. Daí ele conclui que o padre Anchieta em sua gramática não estava se referindo ao léxico geral, mas um determinado emprego do tupinambá, para diferenciar o tupi de São Vicente e o tamoio do Rio de Janeiro. Informações Sobre a Língua Portuguesa A Língua Portuguesa pertence ao grupo denominado de línguas neolatinas ou românicas, que têm sua origem no latim vulgar. Resultantes da evolução e dialetação do latim, que era implantado nas regiões conquistadas pelos romanos. No caso da Língua Portuguesa, tem-se a origem a partir do latim introduzido pelos romanos na Lusitânia, na Península Ibérica. De certa forma, a história da nossa língua está ligada a fatos pertencentes à história da península. Hoje, as línguas românicas estão espalhadas por todo o mundo. E no caso do português, que é falado no Brasil, em alguns pontos da Ásia, na Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Ilha da Madeira e São Tomé e Príncipe; o espanhol, a língua oficial de praticamente toda a América do Sul e Central; o francês, falado em parte do Canadá, Guiana Francesa, Haiti, Senegal e Madagáscar; além do italiano, romeno, catalão, galego, franco-provençal, rético e sardo. 2. A sintaxe 2.1 - A ordem das orações independentes No tupi antigo, entendemos que a ordem dos constituintes

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oracionais é livre, isto nas orações independentes, ao contrário da Língua Portuguesa, que tem a preferência pela ordem sujeito-verbo-objeto (SVO). E conforme dissemos num outro trabalho (Gomes, 1999:8A), “Tanto o sintagma nominal referente ao sujeito quanto o referente ao objeto podem ocorrer antes ou depois verbo. A ordem parece servir para funções pragmáticas e não gramaticais.” Vejamos os exemplos1 abaixo, que podem ajudar a esclarecer um pouco a nossa discussão.
1. Pindobu u viu o mar1. 1 Pindobusu o-s-ep ak paranª . SVO Pindobu u 3-3-ver mar2 b. Pindobusu paranª o-s-ep ak. Pindobu u mar 3-3-ver SOV

c. paranª Pindobusu o-s-ep ak. mar Pindobu u 3-3-ver

OSV

d. o-s-ep ak paranª Pindobusu. 3-3-ver mar Pindobu u

VOS

(Lemos Barbosa, 1957:67) Percebemos que as ordens SVO, SOV, OSV e VOS, são possíveis nestas orações. É óbvio que os verbos apresentam prefixos de pessoa, que se referem tanto ao sujeito como ao objeto. Como já dissemos, a preferência da Língua Portuguesa é pela ordem SVO: 2. a) João comprou uma bola b) Eu li o livro. SVO SVO

Existe a possibilidade de outras ordens. Mas acreditamos que não fazem parte do cotidiano da língua e seriam orações muito marcadas. No tupi antigo as orações independentes podem trazer o sintagma nominal em qualquer posição, sempre com o prefixo objetivo expresso no verbo, como veremos nos exemplos abaixo. Quando o prefixo de objeto de 3ª pessoa aparece na frase, libera o sintagma nominal de objeto, que não ocupa posição fixa na oração.
3. a) a- -pysyk y b) y a- -pysyk 1sg.-3-apanha r mac hado Mac hado 1sg-3-apa nha r Eu a pa nhe i o mac hado Eu a pa nhe i o mac hado.

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Nos exemplos abaixo, percebemos que o uso do nome e do pronome de 3ª pessoa em casos de incorporação nominal, faz com que o mesmo lugar ocupado pelo nome possa ser ocupado pelo pronome de 3ª pessoa.

4. a) o- -pysyk y b) o- y-pysyk y o- -pysyk Apanhou um machado.

5. a) itÆ -potar ab) a- -potar itÆ a-itÆ -potar Quero pedras.

2.2 - A ordem nas orações dependentes No tupi antigo as orações dependentes apresentam a ordem é SOV: 6. a) Koriteî kunhã pitanga mo-mbak-i SOV Depressa mulher criança acordar-dep. “A mulher acordou a criança depressa.” b) Koriteî pitanga kunhã mo-mbak-i SOV Depressa criança mulher acordar-dep. ‘A criança acordou a mulher depressa.’ Podemos perceber que o objeto é um sintagma nominal, quando vem antes do verbo. Mas se o pronome objeto de 3ª pessoa ocorre junto ao verbo, o objeto aparece localizado à esquerda do sujeito. Vejamos: 7) Koriteî pitanga kunhã i-mombak-i Depressa criança mulher 3-acordar-dep. mulher acordou a criança’. 8) Koriteî kunhã pitanga i-mombak-i Depressa mulher criança 3-acordar-dep4 . criança acordou a mulher’. OSV ‘Depressa, a OSV ‘Depressa, a

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2.3 - A ordem no nível sintagmático A ordem nas construções genitivas No tupi antigo a ordem nas construções sintagmáticas genitivas apresenta a ordem genitivo-nome. Vejamos os exemplos abaixo:

Na Língua Portuguesa notamos que a ordem é bem diferente se comparada com o tupinambá. Ela é nome-genitivo. Vejamos: 10. a) Sorvete de chocolate b) Casa de madeira N.Gen N. Gen.

A ordem adjetivo-nome Outra observação interessante do tupinambá tem a ver com a ordem dos adjetivos e dos nomes nos sintagmas nominais. O adjetivo vem após o nome, gerando a ordem NA, exatamente como na Língua Portuguesa, conforme os exemplos abaixo: 11) itá tinga Pedra branca ‘pedra branca’ N A12) y puku rio comprido ‘rio comprido’ N A

A ordem nome-adposição Há posposições em tupinambá, portanto a ordem é N Po: 13) a-sem taba suí 1-sair aldeia da ‘saí da aldeia’ N Po

Conforme dissemos num outro trabalho, “Com exceção do sintagma envolvendo nome e adjetivo, os sintagmas do tupinambá são de núcleo final: OV (nas dependentes); N Po e Gen N”. (Gomes, 1999: 12) Na Língua Portuguesa há preposições. A ordem é Pre N.

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14) Todos saíram de casa. Pre N 2.4 - Sobre as classes de palavras Para a identificação das classes de palavras numa língua existem alguns critérios a serem seguidos: o morfológico, o sintático e o semântico (ou nocional). Vejamos a definição de Margarida Basílio (1998:52) para o critério morfológico “Entendemos por critério morfológico a atribuição de palavras a diferentes classes, a partir das categorias gramaticais que apresentem, assim como das características de variação de forma que se mostrem em conjunção com tais categorias”. Na definição do critério sintático, ela faz um acréscimo (1998:53); “atribuímos palavras a classes a partir de propriedades distribucionais (em que posições estruturais as palavras podem ocorrer) e/ou funcionais (que funções podem exercer na estrutura sintática)”. A professora Margarida Basílio neste mesmo texto propõe que, além dos critérios morfológicos e sintáticos para se identificar as classes de palavras, é importante o uso do critério semântico. Segundo ela, há uma ligação muito estreita entre estes critérios. Como exemplo, ela diz que só as palavras que designam seres apresentam flexão de número e gênero. Em Radford (1990:57) vemos que ele só utiliza os critérios morfológicos e sintáticos para classificar as palavras. Para ele, o critério semântico apresenta diversas contradições. Estas seriam expressas, por exemplo, através de verbos que denotam ação, de nomes que designam entidades ou de adjetivos que expressam estado. A contradição aparece em palavras como “assassinato” que expressa ação, são nomes e não verbos, a palavra “doença” denota estado, mas é um nome (substantivo). Esta última seria um adjetivo de acordo com o critério semântico. Ele ainda comenta que os critérios morfológicos e sintáticos são mais fidedignos na defesa das categorias lexicais (1990:57). Num outro livro Radford (1998) afirma que esta evidência morfológica para se identificar as classes de palavras está relacionada à morfologia derivacional e flexional. Na Língua Portuguesa, de um modo geral, “os morfemas derivacionais se agregam a palavras de uma determinada categoria. Em Português, o sufixo agentivo e instrumental –(d)or, como em o cantor, o ventilador, só se agregam a verbos.” (Gomes, 1999A:13) É interessante notar que esta mesma restrição ocorre com

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morfemas flexionais que se unem às palavras de certas categorias. Vemos esta ocorrência no “s” do plural que só ocorrem com nomes. Dizemos tudo isto para demonstrar porque entendemos que os critérios morfológicos e sintáticos são melhores para o nosso trabalho, usamos como base os argumentos de Radford. Sobre os nomes No tupi antigo os nomes, chamaremos de nomes os substantivos, não possuem flexão de número, gênero ou grau, mas apresentam flexão de tempo e prefixos possessivos. Para formar o plural usa-se o sufixo etá, que pode ser traduzido por “muitos”. Na verdade, esse sufixo é o verbo “ter muitos”. Outra observação curiosa é que os nomes possuem uma marca para futuro, rama, e outra para passado, pûera. 15. a) ybá ‘fruta’ b) ybá-rama ‘futura fruta’ c) ybá-puêra ‘ex-fruta’ fruta-fut. fruta-pass. Pode-se formar ainda dois tempos compostos: o passado-futuro (ram-bûera) e o futuro-passado (pûer-ama). 16. a) t-atá ‘fogo’ b) t-atá-ram-bûera ‘ex-futuro fogo’. Fogo-fut.-pass. c) t-atá-pûer-ama ‘o futuro ex-fogo’ Fogo-pass.-fut. Eles ainda possuem morfemas negativos específicos. Por exemplo, o sufixo eym(a), que pode ocorrer antes da partícula de tempo. E quando isso ocorre ela se posiciona antes desta.
17. a) xe r-eymbagßama 1 poss.-cria ª o-fut. minha futura cria ª o b) xe r-eymbab-ey-gßama 1 poss.-cria ª o-neg.-fut. a que nª o serÆnossa cria ª o

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Apresentam prefixos de posse:

18) xe-k

minha ro a

19) nde-ruba seu pai 2 poss.-pai

1 poss.-ro a

Tanto os nomes como as palavras que sofrem nominalização funcionam como núcleos de sintagmas nominais, e assim podem exercer o papel de sujeito ou objeto:
20) Kunhª o- man A mulher morre u

Mulher 3- morrer 21. a) a-ker eu dormi 1-dormir b) xe -ker pe no me u dormir 1 poss- dormir e m

Vejamos uma coisa curiosa, no exemplo 26 b o verbo “dormir” está em sua forma nominalizada. Portanto é o núcleo do sintagma objetivo da posposição. Façamos alguma observações sobre os nomes na Língua Portuguesa. Os nomes podem variar em número e gênero. Quanto à flexão de número, os substantivos podem estar no singular ou no plural. Para formar o plural dos substantivos terminados em vogal ou ditongo acrescenta-se um –s ao singular. · Mesa – mesas; boné – bonés; herói – heróis; mãe – mães. Os nomes terminados em –ão formam plural substituindo –ão por – ões, na maioria das vezes. Outra forma, menos comum, seria substituir a terminação por –ães. · Balão – balões; leão – leões; alemão – alemães; escrivão – escrivães. Os nomes terminados em –r, -z e –n formam plural com o acréscimo de –es ao singular. · Mar – mares; cruz – cruzes.

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Os substantivos terminados em –s, quando oxítonos, formam o plural acrescentando-se –es ao singular, e são invariáveis quando são paroxítonos. · Português – portugueses; país – países; o lápis – os lápis; o ônibus – os ônibus. Quando terminados em –al, -el, -ol, -ul, substituem o –l por –is. · Animal – animais; lençol – lençóis. Paroxítonos terminados em –il mudam esta terminação por –eis. · Fóssil – fósseis; réptil – répteis. Nos nomes formados com o sufixo –zinho, tanto o substantivo primitivo como o sufixo vão para o plural, desaparecendo o –s do plural do substantivo primitivo. · Papelzinho – papéi(s) + zinhos > papeizinhos A formação do plural dos compostos é um pouco diferente, possuindo uma certa complexidade que não trataremos aqui. O gênero na Língua Portuguesa pode ser masculino ou feminino para os nomes. Não é nosso objetivo demonstrar a formação do gênero, apenas mostrar diferenças com o tupinambá. Mas não apresentam flexão de tempo e prefixos possessivos, como no tupi antigo. Sobre os verbos No tupi antigo o verbo vem sempre acompanhado por um ou mais elementos pronominais, possuindo um morfema de negação específico e sem apresentar marcas de tempo, bem diferente da Língua Portuguesa, que apresenta as marcas de tempo, e não traz marcas de negação em sua morfologia. Conclusão Fizemos a descrição do tupinambá e da Língua Portuguesa, principalmente na sintaxe. Pudemos perceber inúmeras diferenças entre as línguas, sobretudo na ordem dos constituintes oracionais.

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BASÍLIO, Margarida. Teoria lexical. 5 ed. São Paulo: Ática, 1998. CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. EDELWEISS, Frederico G. Estudos tupi e tupi-guaranis: confrontos e revisões. Rio de Janeiro: Livraria Brasiliana, 1969. GOMES, Nataniel dos Santos. Algumas observações sobre a língua Tupinambá. Monografia final do curso de especialização em Línguas Indígenas Brasileiras. Rio de Janeiro: Museu Nacional, 1999. _____. Confrontos entre o tupi antigo e a Língua Portuguesa. Monografia final do curso de especialização em Língua Portuguesa. São Gonçalo: Faculdade de Formação de Professores da UERJ, 1999. ILARI, Rodolfo. Lingüística românica. São Paulo: Ática, 1992. LEITE, Yonne; VIEIRA, Marcia Damaso. Línguas tupi-guarani: estrutura ativa e suas cisões. [mss, s.d.] LEMOS BARBOSA, A. Curso de Tupi antigo. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1957. RADFORD. A. Syntactic theory and the structure of English: a minimalist approach. Cambridge: Cambridge University Press, 1998. _____. Transformational gramar: a first course. New York: Cambridge University Press, 1990. RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. Análise morfológica de um texto Tupi. Separata da Revista “Logos”, ano VII, nº 15, Curitiba: Tip. João Haupt & Cia, 1952. _____. Descripción del tupinambá en el período colonial: el arte de José de Anchieta.Colóquio sobre a descrição das línguas ameríndias no período colonial. Ibero-amerikanisches Institut, Berlim,. _____. Línguas brasileiras: para o conhecimento das línguas indígenas. 2.ed. Loyola. São Paulo, 1994. _____. Morfologia do verbo tupi. Separata de “Letras”. [s.e.] Curitiba, 1953, nº 1.

Notas 1 Os dados lingüísticos do tupi antigo apresentados neste trabalho foram tirados de Lemos Barbosa (1956). 2 Os exemplos do tupi antigo também foram utilizados no trabalho Algumas observações sobre a língua Tupinambá. 3 Temos aqui a tradução interlinear. Os números representam as pessoas dos pronomes sujeito ou objeto. 4 Podemos perceber que se o verbo aparece marcado com o pronome objeto, o sintagma objeto pode aparecer deslocado. A marca de objeto funciona como um clítico pronominal. Seria o caso do objeto na forma

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pronominal. Mas ainda temos sintagmas nominais de objeto que ocorrem com os clíticos que podem ser classificados como elementos topicalizados. Entendemos, portanto, que são construções com deslocamento à esquerda da sentença e em seu lugar fica um elemento pronominal. Vejamos: ‘Depressa, a criançai, a mulher a iacordou.’ ‘Depressa, a mulheri, a criança a iacordou.’ Esse “i” subscrito representa o deslocamento da palavra. Uma palavra passa a ocupar o lugar da outra, conforme o exemplo acima. É óbvio que poderemos encontrar estruturas a do exemplo abaixo, aonde o sintagma nominal objetivo foi omitido. O que parece indicar que o marcador objetivo de 3ª pessoa é o argumento objeto, afinal sua presença é o suficiente para indicar a existência de um objeto de 3ª. Koriteî kunhã imombak i Depressa mulher 3-acordar-dep. ‘Depressa, a mulher a acordou.’

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A língua literária do Brasil no século XX e sua formação
Paulo Silva de Araújo, da ABF e UNESA.
Nossa altitude em língua literária no século a finar-se é portentosa. Inúmeros alinham-se os magos nacionais do estilo. Oxalá pudesse indicá-los todos. Mui limitado pelo regime das Comunicações, ofereço ao leitor apenas títulos de composições e autores, em pálida revista da copiosa língua literária vernácula. Asseguro que o índice recomendado se faz de ouro no melhor quilate. Prouvera, outrossim, que me fora acessível reproduzir sob as epígrafes os excertos correspondentes e as fontes amiudadas. Noutra oportunidade o será. Em livro. Por enquanto, só escritores mortos recenseio. Prosadores: 52 Títulos: 100 Poetas: 37 Títulos: 100 Registei mais prosadores que poetas a fim de tornar visibilíssimo: na prosa, bem mais difícil de compor em língua literária em face do poema, nossa Pátria excele. Dos conterrâneos vivos dados a letras, muitos haverá escritores com a mencionada teia lingüística. Quem – retórico perguntar – não cingiria com o diadema nitente da língua literária o mérito colosso destes fúlgidos artistas abaixo?! A Cavalgada A lua banha a solitária estrada... Silêncio... Mas além, confuso e brando, O som longínquo vem-se aproximando Do galopar de estranha cavalgada... São fidalgos que voltam da caçada; Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando:

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E as trompas a soar vão agitando O remanso da noite embalsamada... E o bosque estala, move-se, estremece... Da cavalgada o estrépito que aumenta Perde-se após no centro da montanha... E o silêncio outra vez soturno desce... E límpida, sem mácula, alvacenta, A lua a estrada solitária banha. Raimundo Correia Luar na Praia Nascia a lua. O mar clareava aos poucos. Na crista arrugada das ondas vagarosas a luz joeirava cisalhas de prata. A praia clara recurvava-se entre duas finas e avançadas pontas, arenosa, sem rochas, onde as vagas adormeciam, gemendo, num grande espreguiçamento branco. Para o poente, vultos de coqueirais, batidos do vento, destacavam-se negros no céu estrelado. Nas dunas desertas e tristes, apontoavam a brancura da areia mirradas moitas de pinhão bravo; de quando a quando coleavam salsas rasteiras, como serpentes enormes. Ao norte, uma das pontas de terra que longamente enfiava pelo oceano terminava em rochedos escuros, aqui dispersos, ali quase igualmente intervalados à guisa de gigânteas alpondras: e por sobre eles, flava, fulgurante, bocejava a intercadências a lanterna benéfica dum farol. Todos os rumores dos matos, das águas e dos bichos notívagos diluíam-se na noite enluarada. Um eflúvio dormente desprendia-se dos cajueiros floridos e errava na face da terra uma canseira, um quê de sutil que impelia à modorra, ao sono e à preguiça. Depois a lua resplandeceu alta e uma refulgência prateada, com uns raros tons de azinhavre, derramouse por sobre as cousas. Gustavo Barroso · · · · A Filologia, que, pelo exame fundo das obras de um povo compostas em língua literária, procura conhecer-lhe a realidade civilizatória e o respectivo grau, tem, no caso do Brasil, de conferir-lhe venera de garbosa classe. · · · · Quanto à formação da língua literária no século, a responsabi-

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lidade maior – cristalino – se confere ao engenho poderoso e tropical dos nossos brilhantes homens e mulheres devotos à Literatura. Norteou-os, onde mais, onde menos, a influência dos cânones propagados na Europa, recebidos com mão espalmada entre nós e aqui agrupantes de luzidos nomes. Do influxo interno, sobressaia com orgulho que o gênio espantoso de Vieira se fixou na parede ante a qual se veneram os ícones sacratíssimos dos pais das letras, e foi, indubitável, como bússola de extremo fascínio. PROSA · Coelho Neto: Noturno, A flauta e o sabiá, A partilha, Luz e calor, Estio, Outubro, A mata virgem, Na mata, Penegírico de Rui Barbosa. · Gustavo Barroso: Luar na praia, Paisagem sertaneja, Incêndio, O cavalo sertanejo, A grandeza do pequenino Portugal. · Euclides da Cunha: Manhãs sertanejas, O sertanejo, O estouro da boiada, Recordações cruéis, O canhoneio, Canudos não se rendeu. · Graça Aranha: Os pirilampos, A dança dos colonos alemães, A floresta tropical, Música sertaneja. · Machado de Assis: Triste mas curto, O delírio, O sineiro da Glória, Quincas Borba, A Agulha e a linha, O defunto, Olhos de ressaca I e II. · Gastão Cruls: O templo do sol, Os passarões, A dança dos selvagens. · Canto e Melo: A baía de Botafogo. · Domício da Gama: Mariasem-Tempo. · Aluísio Azevedo: O acordar do cortiço, O chorado. · Amadeu Amaral: Boa fama. · Olavo Bilac: A gruta de pedra, O velho rei, A pátria, Manifestação Rio Branco, Oração à Bandeira. · Magalhães de Azeredo: Luar de maio. · Virgílio Várzea: Manhã na roça, No outeiro. · Joaquim Nabuco: Camões, Massangana. · Graciliano Ramos: Baleia, Libório, Vida de sururu. · Brasílio Machado: Carlos Gomes. · Humberto de Campos: O que fizeres a Teu Pai, Teu Filho te fará, As violetas de Nossa Senhora. · Raimundo de Morais: O vale amazônico. · Xavier Marques: Os vagalhões, Dança africana. · Mário Sete: Minha terra tem palmeiras... · Afonso Celso: A baía do Rio de Janeiro. · Plínio Salgado: A minha terra é linda. · Monteiro Lobato: Os Faroleiros, Negrinha. · José Veríssimo: O despertar dos Campos na Amazônia. · Salvador de Mendonça: O salto de Itu. · José Américo de Almeida: Os centauros. · Martins Fontes: A dança. · Afonso Arinos: Buriti perdido, O mar. · Carlos de Laet: O frade estrangeiro, A catedral do arcebispo. · Afrânio Peixoto: A pobre escrava. · Alcides Maia: Paisagem gaúcha. · Raul Pompéia: O Ateneu, O incêndio do Ateneu. · Aurélio Pinheiro:

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A morte de Rosa. · Viana Moog: Fim de primavera. · Agripino Grieco: Mãe, Ânsia eterna, Crepúsculo de ouro. · Cecília Meireles: Um cão, Apenas. · Érico Veríssimo: A viagem. ·João Guimarães Rosa: Minha gente. · Álvaro Moreira: Eu quero uma estrela. · Austregésilo de Ataíde: A grande noite, Olinda dos meus amores, Meio século depois, O disco dos meus sonhos. · Cornélio Pena: Reminiscências. · Clarice Lispector: Macabéa. · Paulo Setúbal: Dinheiro... · Marques Rebelo: Carnaval. ·José Lins do Rego: Sol e Grécia. · Ciro dos Anjos: Perdoa-me, Carlota! · Raimundo de Morais: O vale amazônico. · Simões Lopes: Trezentas onças. · Henrique Pongetti: Cristina. · João Neves de Fontoura: Brasil. · Lima Barreto: A casa do Rio Comprido. · Leo Vaz: O cão vadio. POESIA · Olavo Bilac: Profissão da fé, Sonata ao crepúsculo, Ouvir estrelas, Língua portuguesa, A um poeta, O sol, Anoitecer, As árvores, Pátria, Tercetos, Perfeição, Nel mezzo del camin. · Machado de Assis: A mosca azul, À Carolina, A flor do Embiruçu, Última jangada, Círculo vicioso, Soneto de Natal, Versos a Corina, Fé. · Raimundo Correia: Anoitecer, A cavalgada, O monge, Mal secreto, Plenilúnio, Banzo, Peregrino, Cítera. · Francisco Karam: Quando anoitece. · Vinícius de Morais: Soneto da separação, Poema de Natal. · Augusto dos Anjos: O lamento das coisas, Monólogo de uma sombra, A idéia. · Pedro Nava: O defunto. · Augusto Frederico Schmidt: Paz dos túmulos, Senhor, A noite Vem descendo, Poema. · Luís Carlos: Chafariz secular, Leão, O mineiro. · Manuel Bandeira: Desalento, A Camões, Os sinos, Desencanto, Estrela da manhã, Vou-me embora pra Pasárgada, A onda, Ao crepúsculo, Renúncia. · Jorge de Lima: O acendedor de lampiões, Distribuição da poesia, Espírito paráclito. · Alphonsus de Guimaraens: As mãos da Virgem, Ismália, Lua nova. · Luís Delfino: As naus. · Raul de Leôni: Melancolia. · Hermes Fontes: Dezembro. · Emílio de Meneses: O Salto do Guaíra, Soneto, Anunciação. · Martins Fontes: Religião. · Mário de Andrade: Poemas da amiga. · Cecília Meireles: Ventania, Anunciação, Destino. · Guilherme de Almeida: Dor oculta. · Carlos Drummond de Andrade: A máquina do mundo, Como um presente. · Jônatas Serrano: Saudade. · Vicente de Carvalho: Cair das folhas, A felicidade, Velho tema. · Murilo Mendes: Jandira. · Alberto de Oliveira: O bater da cancela, Ode cívica, A torren-

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te, O ninho, O vagalume, Alma em flor, Por amor de uma lágrima. · Luís Murat: Imortalidade. · Mário Pederneiras: Pelo caminho da vida, Suave caminho. · Humberto de Campos: Na serra de Maranguape. · Joaquim Nabuco: Nada. · Afonso Celso: Anjo enfermo, Alegrias. · Francisca Júlia: Os Argonautas. · Amadeu Amaral: Voz íntima. ·Bernardino Lopes: Berço. · Guimarães Passos: Teu lenço, A casa branca da serra, Soneto. · Olegário Mariano: As duas sombras, Recife de coral, O enterro da cigana. · D. Aquino Correia: O cerrado. · Lindolfo Gomes: Língua Pátria. Semântica da expressão: o superior e o mais autorizado de nossos escritores de língua literária O superior vai ser o que haja escrito com a mais desenvolvida extensão e com teor o mais variado e profundo, alheio em geral à estese, isso tudo em linguagem culta e de rigor bela, portanto em língua literária. Ainda mais, quando chegue ao Sublime. O mais autorizado fora quem evidenciasse, em teoria e na prática, o mais volumoso conhecimento da riqueza e do potencial inacreditáveis do passado e do presente lingüísticos. RUI BARBOSA: A IMPRENSA E A TRIBUNA EM MOLDES ESTÉTICOS Imprensa: jornalismo. E esse: atividade que se expressa pelo jornal, publicação em geral diária, noticiadora de fatos a cotio sucedidos, ou até há muito passados, de informes alusivos a todos os ramos do conhecimento, e manifestante de opiniões específicas. Nele se exara o editorial, artigo básico onde se entalha o pensar distintivo do órgão, nomeadamente o de gênero político. Consoante se infere, não se presta, de regra, o jornalismo a redações de índole estética. Pois bem. Não se afastando da essência jornalística, Rui, o talento, insere no artigo principal o fluido da beleza. Tudo correto e belo quanto se ventilou no primeiro item da Comunicação, acha-se presente na coluna famosa do iluminado. Inclusive, de quando a quando, o Sublime oratório, como no “Surrexit!”. É a digna imprensa continuamente em língua literária. Haja-se em vista: Surrexit Ressurgir! Toda a doçura e todo o vigor da fé se resumem nesta palavra. É a flor do calvário, a flor da cruz. O tremendo horror daquele martírio tenebroso desabotoa neste sorriso, e a humanidade

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renasce todos os anos a esse raio de bondade, como a formosura da terra à alegria indizível da manhã, o prelúdio do sol, o grande benfeitor das coisas. O homem, cercado pela morte de todos os lados, não podia conceber este ideal de eternidade, se não fosse por uma réstia do seu mistério radiante, divinamente revelado às criaturas. Nossos sonhos não inventam: variam apenas os elementos da experiência, as formas da natureza. Tem a fantasia dos viventes apenas uma palheta: a das tintas, que o espetáculo do universo lhes imprime na retina. E, no universo, tudo cai, tudo passa, tudo se esvai, tudo finda. Nesse desbotar, nesse perecer de tudo, não havia o matiz, de que se debuxou um dia, na consciência humana, o horizonte da ressurreição. Ressurgir! Deus nosso, tu só poderias ser o poeta desse cântico, mais maravilhoso que a criação inteira: só tu poderias extrair na angústia de Getsêmani e das torturas do Gólgota a placidez, a transparência, a segurança deste consolo, dos teus espinhos esta suavidade, dos teus cravos esta carícia, da mirra amarga este favo, do teu abandono este amparo supremo, do teu sangue vertido a reconciliação com o sofrimento, a intuição das virtudes benfazejas da dor, o prazer inefável da clemência, divino sabor da caridade, a prelibação da tua presença nesta alvorada, o paraíso da ressurreição. ................................................................................................................................................................................... Ressurgir! Tu ressurges todos os dias, com a mesma periodicidade, com que se renovam os teus benefícios e as magnificências da tua obra. Nega-te a nossa maldade. Nega-te a nossa presunção. Nega-te a nossa ignorância. Nega-te o nosso saber. Mas de cada negação te reergues, deixando vazios os argumentos, que te negavam, como o túmulo, onde dormiste outrora um momento, para reviver dentre os finados. ................................................................................................................................................ Assim, Senhor, quisessem ressurgir em ti os povos, que te não crêem. A esses em vão procuramos dar com o aparato dos códigos humanos a lei, a ordem, a liberdade. Sua sorte é extinguirem-se, porque não tiveram fé, e não sentem a religião do Ressurgido, que não é só o evangelho das almas regeneradas, mas a boa nova das nações fortes. Essas absorverão a terra a bem do gênero humano, enquanto as outras acabarão como raças de passagem. E por sobre o futuro, que há de ser a tua glorificação na voz das criaturas e dos céus se ouvirão para sempre os hosanas do teu triunfo: Ressurgiu! A tribuna! Eis Rui Zeus! Se borda de língua literária a impren-

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sa, conjecture-se a obra de ourives ciclópico na candência da frágua tribunícia. Aí, a magniloqüência ruiana transporta a língua literária para os cumes do Sublime. A “Oração aos Moços” é a nossa “Oração à Coroa”, aos refletores da celebridade. Perceba-se, com imaginativa vibrátil, o arroubo que nos invade o músculo apaixonável ao irmos lendo a peroração do insigne baiano em seu discurso “Visita à Terra Natal”: A Oração do Filho Espírito supremo daquele que me ensinou a sentir o direito, e querer a liberdade; daquele cuja presença íntima respira em mim nas horas do dever e do perigo; daquele a quem pertence, nas minhas ações, o merecimento da coerência e da sinceridade; emanação da honra, da veracidade e da justiça, espírito severo de meu pai...; imagem da bondade e da pureza, que verteste em minha alma a felicidade do sofrer e do perdoar, que me educaste no espetáculo divino do sacrifício coroado pelo sacrifício, carícia do céu na manhã dos meus dias, aceno do céu no horizonte da minha tarde, anjo da abnegação e da esperança, que me sorris no sorriso de meus filhos, espírito sideral de minha mãe...; se o bem desabotoa alguma vez à superfície agreste de minha vida, vós sois a mão do semeador, que o semeou..., vós, cuja energia me criou o coração e a consciência, cuja benção derramou a fecundidade sobre as urzes de minha natureza. Quando, na minha existência, alguma coisa possa inspirar gratidão, ou simpatia, não me tomem senão como o fruto em que se mitiga a sede, e que se esquece. Vós, autores benignos do meu ser, vós sois a árvore dadivosa cujos benefícios sobrevivem no reconhecimento, que não murcha. Estas flores, magia de um jardim instantâneo, onda esparsa de uma alvorada balsâmica, estas flores em que se desentranha, ao contacto da Bahia, o berço, que me afofastes com a vossa ternura, que me guardastes com as vossas vigílias, que me perfumastes com as vossas virtudes, estas flores são vossas: recebei-as. Que elas envolvam no seu aroma a vossa memória, reabram, em cada geração de vossos netos, aos pés da vossa cruz, e deixem cair o refrigério de seu orvalho sobre as paixões corrosivas, que ulceram a pátria, amofinando-lhe o presente, ameaçando-lhe o futuro. Rui: o idioma nacional no vértice do monumento brasileiro de língua literária. Patenteia-se edificado por vastíssimo elenco de escritores, in-

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cluindo-se os vivos, o monumento brasileiro de língua literária, no século expirante. Só nesta Comunicação, retrolistam-se oitenta e nove, dos idos. Da plêiade, a “Águia de Haia” cumpre, à severa, o interpretado em Semântica de o Maior e o mais Autorizado Escritor. Efetivamente: adnomina-se o superior a Rui Barbosa. A “Casa de São Clemente”, ao fácil, testemunha a imensidão de sua obra. O mais autorizado? Diáfano: Rui Barbosa! Seu estilo, puro, clássico, responde. E o duelo com o sapientíssimo Carneiro Ribeiro?! A “Replica” é o baluarte da sabedoria lingüística de Rui contra quem, afoito, duvide um instante da sua autoridade máxima entre os literatos brasileiros. Rui, ao cabo, é o superior e o mais autorizado de nossos escritores mortos e vivos. Pela herança de encantos supremos que as letras de beleza ruianas ensejam a todos, o idioma nacional, com certeza indelével, chegou, para regozijo nosso, ao vértice do monumento brasileiro de língua literária. Leiam-se, com amor, esta páginas imorredouras: As Andorinhas de Campinas Pelo límpido azul já sem sol, antes que se lhe esvaia de todo o oiro dos seus átomos de luz, mas quando o crepúsculo entra a desmaiar do seu brilho a safira celeste, um ponto retinto, perdido nos longes mais remotos, se acentua em negro na cúpula do firmamento, lá, bem no alto, bem de cima, como se a ponta de uma seta, desfechada perpendicularmente de além, varasse ali a redondeza anilada. Era um; e, logo após, já são muitos, já vêm surdindo inumeráveis, já parecem infinitos; já se cruzam; se recruzam; já se encontram e circulam; já se condensam e escurecem. Eram um grupo; e já formam um bando, já vêm crescendo em longas revoadas, já refervem em enxames e enxames, já se estendem numa vasta nuvem agitada. Toldaram o céu, encheram o ar, vêm-nos ondeando sobre as cabeças. Agora, afinal, com os movimentos de uma grande vaga sombria, ponteada de branco, a librar-se entre a terra e a imensidade, baixa a massa inquieta, rumorejando, oscilando, flutuando, rasga-se na coroa das palmeiras, açoita os fios telegráficos, resvala pelos tetos do casario, e, ao cabo, arfando e remoinhando, turbilhoando e restrugindo, com o estrépito de uma cascata argentina, de uma cachoeira de cristais que se despedaçam, chilreada imensa de vozes e grasnidos às dezenas e dezenas de milhares,

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pende, mergulha e desaparece, numa imensa curva borbolhante, por sobre o largo telheiro abandonado, que esta aérea multidão erradia elegeu entre vós para abrigo do seu descanso nas cálidas noites de verão. O Terremoto de Lisboa Todas as notas da elegia das aflições humanas soluçam no quadro de suprema angústia, que, num dia inolvidável, apavorou, há cento e vinte e sete anos, essa gloriosa extrema européia de Os lusíadas, “Onde a terra se acaba, e o mar começa”. Esse largo sorriso, azul como a onda jônia, da Europa ao Oceano, deslizado em curvas graciosas à foz sussurrante do Tejo, anegrase e contrai-se numa expressão de inenarrável desespero. Era a manhã de todos os santos em 1755. Uma convulsão atroz agita a soberba cidade em violentas contorções. O solo desloca-se, gemendo, nos espasmos de um fenômeno assombroso, cujo círculo de oscilações estende-se de Dantzig a Marrocos, da Inglaterra a Madri, enturgesce as caldas de Poplitz na Boêmia, turva, na Escócia, as águas do lago Lhomond, revolve o Mediterrâneo, nas costas da Berbéria, encapela as meigas enseadas da Madeira, e, transpondo, numa repercussão espantosa, o Atlântico, vem, do outro lado, ecoar nas Antilhas o ulular longínquo da catástrofe. Dir-se-ia que “essa trombeta de horrendas maldições, em que fala Shakespeare, estrugindo das colinas desvairadas do glorioso rio do Gama, convoca os dois continentes ao sagrado horror do inaudito cataclismo. A cabeça da grande Lusitânia vacila, como se a embriaguez da misticismo devoto a sacudisse no delírio de uma visão de Apocalipse. As abóbadas dos templos confundem sob as mesmas ruínas as imagens e os crentes, a hóstia e os levitas, o sangue dos fiéis e o da vítima incruenta; as ruas sulcam-se em abismos; os palácios desabam trovejando; a casaria, esboroando-se numa sucessão infinita de fragores indizíveis, desaparece na voragem, na confusão e no incêndio, que açoita com as asas rutilantes as trevas desse círculo dantesco. De um lado, as chamas parecem destinadas a fundir a antiga capital do Ocidente, como o fogo mecedônio amalgamara outrora num metal único o oiro, a prata e o bronze das estátuas de Corinto; do outro, quinze metros acima das mais altas marés, a enchente,

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instantânea, minaz, caótica, infernal, abisma navios e navios em repentinos sorvedouros, engole em cada assalto milhares e milhares de homens. Quatro vezes a alucinada vaga humana desaparece entre a vaga marinha e a vaga terrestre, que nalguns minutos devoram doze mil almas, enquanto a viuvez, a orfandade, a miséria e o crime se levantam por entre esqueletos hirtos das casas aluídas; enquanto o infortúnio universal liberta os forçados e os escravos, criaturas e vítimas de uma ordem social gangrenada até ao coração; enquanto o assassínio, a prostituição e o roubo laceram as entranhas e disputam os restos da cidade violada e delirante. No meio desse conflito gigantesco de todos os elementos e de todos os terrores; entre essa luta de todas as tempestades da natureza com todas as desgraças do destino humano; sob um céu que a tormenta forrou do chumbo de suas nuvens contra as lágrimas da terra; quando o dia foge e o chão falta debaixo dos pés; quando a opulência desaparece, esmigalhada, enlameada, calcinada, pelas fendas do solo; quando a razão se apaga em todos os espíritos; quando a loucura do medo enche o vazio deixado pela inteligência ausente, - de sobre essa imensa superfície devastada uma individualidade se levanta, exprimindo a luz, a calma, a força, a soberania da consciência do homem, ereta, augusta, salvadora. Tal imperturbavelmente imóvel, através da noite, sobre a cratera acesa do Hecla solitário, quando a lava entornada queima de redor os campos, e destrói ao longe os últimos vestígios da vida, a incomensurável coluna de fogo que se alonga para os céus, indiferente aos mais ríspidos ventos, enquanto o bramido formidável do fenômeno subterrâneo parece ameaçar a subversão do mundo. (Homenagem do comunicador à Língua Portuguesa no Brasil) O idioma nacional A Língua Portuguesa não é apenas idioma. É órgão de catedrais nas horas dos grandes concertos. Língua suave, fácil, que possui o vocábulo mãe, entre nós sem rima; que tem a palavra sozinho, única intérprete da solidão extrema; que abrange o termo saudade, de sentido ímpar no mundo lingüístico. Língua rica, seleta, cheia de bondades. Veio de longe em

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caravelas e naus, e deve ter sido um milagre de maravilhas o primeiro nome português exclamado ao romper o Brasil. Língua plangente para chorar os mortos! Língua risonha para celebrar a vida! Afeto e impulso do coração, que todo patriota venera! És o metal dos nossos segredos, a nave bendita de nossas preces e a poderosa magia de nossos cânticos!

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A Língua Portuguesa no Brasil: papel dos gramáticos na sua implantação
Walmírio Macedo, da ABF e USU
Diante da impossibilidade da vinda do ilustre conferencista desta hora, a organização do Congresso solicitou-me que, no espaço que a mim caberia nesta mesa de debate, usasse da paciência dos senhores para falar da minha visão de gramática, dos procedimentos e/ou conteúdo que me levaram a determinadas posições. Estou aqui entre dois gramáticos ilustres –Evanildo Bechara e Manoel Pinto Ribeiro- cada com seu ideário gramatical do maior nível e do maior respeito. O objetivo de minha fala é exclusivamente expor o que penso, ou melhor, o meu enfoque, indicando os que me iluminaram e ainda me iluminam. Na verdade, não haverá tempo para dizer tudo, ou falar sobre tudo, mas espero ser claro e sucinto para dizer o necessário e suficiente. Entendam o que vou dizer como meras reflexões sobre a gramática. Alguns lingüistas têm asseverado que a gramática deve ser lógica (Coseriu). É claro que não se trata de uma simples adesão a um logicismo gramatical. Crê-se que o objetivo na afirmação é ressaltar a distinção que deve haver entre logicismo e antilogicismo, que, no fundo, são igualmente errôneos. Na verdade, quer-se possivelmente falar no que Coseriu chama de ‘normas de coerência’. Indubitavelmente, a linguagem tem a sua própria lógica, a sua lógica interior. Qualquer discussão que envolva o tema ‘gramática’ cairá sem dúvida no tópico que aqui denomino de ‘enfoques’.E há muitos sobre os quais poderíamos discorrer indefinidamente. Dois deles – o estrutural e o funcional – têm sido objeto de

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aplicação de muitos estudiosos No momento em que esses enfoques começavam a ter o seu lugar surge a chamada gramática gerativa de Chomsky. O conteúdo dessas teorias lingüísticas, como não poderia deixar de ser, interferiu de muitas formas no ensino da Língua Portuguesa no Brasil e nos textos gramaticais. Nossos livros didáticos chegaram ao ponto de parecer livros de lingüística e não compêndios que deveriam ensinar a língua vernácula. Crê-se que, a partir daí, é que surgiu uma aversão ao ensino gramatical, como uma coisa inteiramente inútil. Mas as coisas no Brasil parecem ser cíclicas, pois já tivemos um ensino exclusivamente gramatical, depois um ensino lingüistificado, sem gramática de qualquer natureza, depois uma sadia discussão sobre se deve ensinar gramática ou não, e agora parece voltar-se a uma supervalorização de uma gramática utilitarista, como demonstram as colunas de Língua Portuguesa em dezenas de jornais e revistas do Brasil inteiro. Creio que tudo isso merece uma reflexão. Uma reflexão de natureza metodológica, uma vez que, no que tange ao conteúdo, temos excelentes gramáticas. Voltamos assim à palavra chave do nosso início ‘enfoques’. Quando digo ‘enfoque’, penso em Pottier quando, no prefácio de sua Lingüística Geral –Teoria e descrição, tradução e adaptação que fizemos para o Português, diz que “o que importa são os conceitos e seu funcionamento; a coerência do todo é mais relevante do que qualquer rótulo de escola ou teoria”. Para construir uma interpretação lingüística, faz-se necessário que o fato lingüístico se baste a si mesmo, ou seja, sem recurso a fatores extrínsecos. Esse é o enfoque da imanência. Não se deve recorrer a elemento extrínseco para explicar elemento do sistema. Diante de um fato lingüístico, o estudioso tem diante de si três caminhos: o semântico, o formal ou estrutural e o funcional. No primeiro, a primazia é do significado. No segundo, a primazia é da forma e no terceiro, procura-se conjugar forma e significado. Trata-se de opção que há de ser feita. Mattoso Câmara, no cap. ‘A classificação dos vocábulos formais’, in Estrutura da Língua Portuguesa, ressalta que há 3 critérios para classificar os vocábulos formais de uma língua. Um é o critério semântico, outro é de natureza formal e um terceiro, o funcional, ou seja, a função ou papel que cabe ao vocábulo na sentença. (p.67, 1970)

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Sua opção é pelo terceiro critério. É o nosso também. O problema da distribuição das palavras em classes – a chamada classificação das palavras sempre me preocupou pela razão da dificuldade de ‘engessar’ num grupo coisas tão diferentes e heteróclitas. Foi em Georges Galichet, em seus dois livros Méthodologie gramaticale e essais de grammaire psychologique, que encontrei a melhor solução que passei a seguir na minha gramática. Galichet estabelece grupos gerais com caracteres comuns e dentro deles coloca as classes. Assim, classes principais, classes adjuntas, classes de relação ou conectivas e marco de classe. Além de outras vantagens, a classificação de Galichet nos dá uma visão morfossintática, ressaltando que as chamadas partes da gramática, ou planos como prefere chamar, são nítidos vasos comunicantes. Outro francês também marcou muito a minha visão gramatical, o prof. Bernard Pottier. Com ele, aprendi de início colocar o ponto de equilíbrio entre sincronia e diacronia. Aquela ojeriza que alguns nutrem pela diacronia nos estudos gramaticais fica diluída ou colocada na justa medida numa belíssima página de Pottier. O que mais me chamou atenção em Pottier, ao contrário do que muitos imaginam e dizem, é o seu espírito didático. A sua visão parece estar voltada para uma apresentação didática do assunto tratado. É bem verdade que tem, às vezes, uma preocupação constante com o significado, uma exagerada preocupação semântica segundo dizem os negativistas que não o leram e não gostaram. Digo isso a respeito do termo ‘exagerada’. Mas é essa preocupação semântica que nos faz compreender melhor a visão sintática de um texto. Assim, quando comenta (LGTD, p. 135) : Um fuzil escondido é pela relva é com relva é na relva, em que indica pela relva como causa, com relva como instrumento e na relva como locativo espacial, a visão semântica clara leva à identificação também clara do adjunto adverbial. Seu enfoque sobre vozes verbais também semântico é único, porque é abrangente, não deixando de fora nenhum tipo de verbo. O enfoque tradicional –ativa, passiva e reflexiva- é ineficaz. Para Pottier, temos sete tipos de vozes: atributiva (Pedro é bom), equativa (Pedro

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é um trabalhador), situativa (Pedro está no quintal), possessiva (O leão tem cor amarela), além da ativa, passiva e reflexiva. Sua visão sobre aquilo que ele chama de ‘eixos modais’ lança uma luz sobre um problema controvertido na combinatória de dois verbos, estabelecendo assim a compreensão sobre locução verbal ou não. Assim, os verbos poder (ou semelhantes) e querer, seguidos de infinitivo, do tipo ‘eu posso estudar’ e ‘eu quero estudar’.. Compara , por exemplo, ‘João quer partir’ e ‘João vai partir’(LGTD, 178 e 263). Interpreta ‘João quer partir’ em dois segmentos semânticos: ‘João quer’ e ‘João vai partir’, ao passo que em ‘João vai partir’ só se pode achar um segmento semântico: ‘João parte’. Quer partir decididamente não é um bloco. Partir é o objeto de quer. Mas ‘vai partir’ é um bloco. O enfoque sobre as preposições de Pottier acaba aquela noção tradicional como classes vazias. Em ‘uma xícara de chá’ e ‘xícara para chá’, fica, segundo ele, caracterizada a importância semântica da preposição. As preposições têm um significado, não um significado como têm os substantivos que evocam uma imagem ou idéia, mas induzem um significado. Temos preposições que ligam um objeto indireto a um verbo e um complemento nominal ao nome que não induzem a nenhum significado, a não ser o papel sintático. A esse tipo de preposição chamei de vazia em minha gramática. Mas nem a essas Pottier considera vazias, pois reconhece nelas um significado sintático. Nos demais casos, as preposições são cheias, indicando espaço, tempo e, não sendo espaço nem tempo, noção. Nesse termo incluem-se todos os significados, como causa, fim, limitação, meio etc.. Esse enfoque das preposições leva à compreensão do adjunto adverbial e favorece uma nítida oposição entre objeto indireto e adjunto adverbial. Na sua metodologia, muitos procedimentos usados por Pottier são muito interessantes. O esquema de substituição e equivalência é empregado de forma muito esclarecedora. Há muitos outros enfoques que aproveitei na minha teoria gramatical, como o da estrutura de compreensão que apliquei para explicar o adjunto adnominal /v/complemento nominal, o conceito de potência, a hierarquização no adjunto adnominal contribuíram para muitos de meus enfoques gramaticais. Entre os nacionais, não posso deixar de mencionar o meu pro-

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fessor Mattoso Câmara com sua contribuição na fonologia e morfologia. Na verdade, não há ninguém que tenha escrito sobre assuntos gramaticais que não tenha sido influenciado pelos diferentes gramáticos brasileiros e portugueses dos dois últimos séculos. Há muita coisa boa – e porque não dizer moderna –em José Ventura Bóscoli (Gramática 1898), em Júlio Barbuda (Gram. 1926) e mais próximos Mario Barreto, Júlio Nogueira, Nascentes, Candido Jucá, Macambira, Celso Cunha, Rocha Lima e dos que estão entra nós Antonio José Chediak e Evanildo Bechara. A esses todos presto, neste momento, a minha homenagem e gratidão, ressaltando, como já disse alguém, a verdadeira originalidade está na capacidade de saber usufruir da sabedoria dos que nos antecederam.

Bibliografia BARBUDA, Julio - Gramática da Língua Portuguesa, 1926. BÓSCOLI, José Ventura - Gramatica da Lingua Portuguesa, 1898. MATTOSO, Câmara - Estrutura da Língua Portuguesa. POTTIER, Bernard - Lingüística Geral – Teoria e descrição –Trad. e adaptação de Walmirio Macedo . Presença Editora, Rio.

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Língua culta e língua literária
Walmírio Macedo, da ABF e USU
Não raro, surgem as expressões do título com emprego inadequado. Atenda-se vestibularmente a que tudo desta fase prévia da Comunicação se requer, para se aquilatarem de modo integral os pareceres adiante lavrados. Que há de entender-se por língua culta? De logo, o exato adjetivo da nomeação pronto se encarrega de a insular, por cheio, do período analfabético, deformado ou incorreto do vulgo. Culto (adj.) provém de cultus (adj.), já de si oriundo de cultum, supino ativo de colere (da 3a conj.), cultivar. Donde, culto igualiza a cultivado, e este iguala, no ramo do saber, a desenvolvido e formado pelo estudo, a cujas normas obedece nas atuações. Língua culta chama-se à que se estrutura conforme as disposições vigorantes da gramática normativa. Trata-se da linguagem correta. Nela, os utentes se acomodam, benévolos e constantes, aos referidos preceitos. Serve, de aparelho comunicador, às pessoas instruídas, membros do grupo social pertencentes a ofícios e camadas, os mais diversos. Individualizam-se pelo cuidado na matéria frásica, ou até esmero, e pela riqueza vocabular. Linguagem corrente máxime nas secções mais bem afortunadas do corpo social, ora sucede em modo formal, ora informal. Formal, quando cerimônia domine o evento: no quase total dos discursos, conferências e exposições outras de idéias; nas correspondências oficiais, nos requerimentos, contratos, relatórios e quejandos. Informal, se não existe protocolo na circunstância. Aplica-se nas cartas entre familiares ou amigos, nos diálogos cotidianos, bilhetes, notinhas e que tais. Advirta-se que a língua culta opera nas manifestações orais e

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gráficas, bem como em toda exibição da ciência. Ao demais, nesse aspecto lingüístico prepondera com mui subido grau a denotação ou, em nomenclatura do eminente Coseriu, designação real. A língua culta envolve, para em verdade o ser, a mais do atributo de correta, no mínimo os de clara, precisa, coerente e concisa. Para exemplos de língua culta prestam-se as composições: · Leonel Franca: Dignidade da pessoa. · Alceu Amoroso Lima: Meus mestres. · Farias Brito: O momento mais feliz de minha vida. Expande-se a língua escrita para surtir a literária. Como definem língua literária? Uns: a linguagem dos escritores. Outros: é a mais elevada expressão da língua escrita. Em Lógica, tais afirmações não produzem definição, como tal. De trânsito: a especulação da natureza, métodos, espécies e leis das definições, estas enquanto tais, é exclusivo assunto de manuseio filosófico. Estão completas ambas aquelas simples declarações? Julgo não. Literário flui de littera, letra; depois, no plural, litterae, com significação transcendente no próprio latim clássico: boas-letras. Língua literária, então, designa-se a que revela de maneira artística a mensagem. Ora, arte implica beleza. Se, quando se ventilem proposições estéticas, da palavra se utilize sem o referido importe, ela, na reflexão, tem lugar por absurdo equívoco. O estudo volvido à essência da beleza é privativo da inquirição filosófica, no ramal Estética, para onde convergem abundantes contributos da Psicologia e da Metafísica, unidos àquela qüididade. Belo provém de bellus (adj.), contração de benulus, diminutivo de benus, arcaico de bonus. Na origem, assim, encontramos a idéia de bom, de senhor das qualidades convenientes à sua natureza ou função, e oposta à de mau. Aprofundando, aliás, benulus eqüipola-se a bonzinho, diminutivo, idéio, com significado já romano arcaico intensivo ou de superlativo absoluto sintético. Similarmente à qualidade em: rosto lindinho (muito lindo). Belo, por alcance, de longe carreia o significado, não só de bom, porém até de muito bom, boníssimo, ótimo. Elo, para vincular-se benulus a bellus. Abstratamente aferido, melhor o belo se sente que se define. Antes se intui do que se entende. Não se lhe negue, porém, ser objeto de inteligência, visto sê-lo de intuição. “A beleza é o esplen-

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dor da ordem e da perfeição.” (Estevão Cruz.) Se algo for realmente belo, a todos, quando normais e não desviem o sentimento de espontaneidade, a todos agradará, em qualquer parte e a cada hora, porquanto, incansável, a beleza delicia, reluz e conquista. Verdade: para o julgamento exemplar a respeito do belo, exige-se adquirir, desenvolver e aprimorar o bom gosto. O antônimo de belo quem no desconhece? Aliás, mais fácil de compreender que seu inverso. Brota o vocábulo feio de foedus (adj.), da mesma origem de foetere (da 2a), raiz foet, em português fet ou fed, exalar mau cheiro. Por esse motivo, linguagem feia, mirando-se o étimo, importa o conceito de fétida, e no figurado: que desperta aversão ou, pelo menos, desprazer, desgosto, desinteresse. Essa porventura é língua literária?! Visa, em epílogo, a língua literária a escopo esteticizante. Sua natural essência jamais se contém – óbvio – em exteriorizações do pensar e do sentir vácuas do belo. A Estética enumera os efeitos da beleza no homem. O belo provoca alegria ou, no menos, grande satisfação ao contemplador. Ocasiona-lhe admiração, conjunto de pasmo e respeito. Gera-lhe impulso de transferir aos mais o deleite gozado, de partilhar com os semelhantes a comoção que o invadiu. Corolário: obra que deseje retratar língua literária tem de munir-se com as virtualidades promotoras dos efeitos do belo. Eis o que mais remoto houve e existe na energia vital da língua literária e lhe afiança a perpetuidade. Concentra-se aí o que aos beneficiários da leitura nas obras genuinamente artísticas promete e cumpre o nosso e o de todos idioma literário. Avulta a cadeia metafísica: a língua literária causa o estilo literário, e este a obra literária. Caso faleça à obra que enlistaram por literária a dita espécie de língua, o trabalho, admitido embora como otimamente elaborado, em rigor não é obra literária. Será culta. Neste aparecer da Literatura, predomina soberana com a maior amplitude a conotação, pois a subjetividade governa com império os atos do compor mental e do externo. Baila nas folhas grafadas o termo em significado alegórico, multívoco. Positiva-se com relevo a individualidade por necessitar o expositor de oferecer ao público a sua mundivisão, criatividade, o entendimento particular do concreto e do abstrato, do real e do imaginário. Nesse campo de flores, a cultura depara festiva ao mágico do verbo os áureos processos da figurística. A linguagem translata propor-

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ciona-lhe fugir das raias denotativas, pouco fecundas, e penetrar aceso as regiões ilímites abertas ao poder cosmogônico da inteligência humana. Pelo ângulo da Psicologia, nota-se: para a língua literária muito mais se inclinam e apelam os escritores de temperamento colérico ou sangüíneo, que os de melancólico ou flegmático, pensos bem antes para a culta. Procura quem redige à literária suscitar no âmago dos leitores abalo estético, prazer mental; pretende enunciar estilisticamente a beleza e, se escritor, fatos da existência própria ou social, dores e júbilos, tudo enfim quanto possa comparecer na ribalta da vida. A linguagem deveras literária encerra no tronco a doce alma poética. Dá-se-nos em prosa e verso. Ninguém desconheça: no tecido prosaico ideal ritma-se. Para alguém reverter em consumado prosador, urge, por conseguinte, saber e exercitar com perseverança a métrica, e seguir, até que se automatize no ritmo a faculdade criadora. Assenta a língua literária na de figurino culto. Por isso, abrange-lhe os itens já cotados. Aqui, entretanto, se juntam novas: acima do restante, harmonia (a música do estilo), colorido e elegância; acompanhados de originalidade, pureza, vigor e nobreza, se menos. Adite-se que pode a linguagem na qual se compôs uma obra de índole instrutiva, uma narração da vida particular de alguém, ser literária, contanto em si reúna as condições enxutas do culto e do belo. Exemplos: “Brasil – Minha Terra”, História do Brasil (fatos admirandos), de Mário Sete; “Geografia Sentimental”, Geografia do Brasil (notabilidades), de Plínio Salgado. Nesta área, de língua, permite-se aos mui sabedores permanente liberdade para, cônscios, violarem ordenanças gramaticais, a fim de obter mais efeitos expressivos. À busca de, no exame das elevadas manifestações gráficas em língua literária de um povo, na empresa de bem conhecê-las, para, em final, dizer o estado e o grau de civilização descoberto, move-se árdega e prestante a Filologia – ensinam os doutos na linda ciência. Ocorre vaga referência ao uso quase correto da fórmula aventada língua literária ao sustentar-se: é a linguagem dos escritores. Convenha-se: muitos deles se provêem de nenhumas belezas ou, até, de feiúras inumeráveis, principalmente em verso. Aparecem, todavia, arrolados como escritores, sem mais, no sentido fidalgo de literatos ou de quem traça por língua literária. Gran-

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de massa de outros, acentue-se, não escreve com o belo, porém com o certo. Devem, com que de fato devam, enfileirar-se como escritores mas de língua culta, preço dignificante, suposta a mole gigantéia dos escrevedores. Aqueloutros (praticamente a soma dos tratadistas) reduzem a língua literária à mais alta representação apenas da língua escrita. Dessarte, consideram-na o mais loução feitio só desta última linguagem. Em termos paralelos: a manifestação oral, de cunho apesar de artístico, não merece classificada de língua literária, enquanto fora de documento. Ora, pertence à Literatura o complexo das obras indumentadas em linguagem estética. Cogitemos: um orador, o perfeito, assoma à tribuna. Do exórdio à peroração, discorre firme e sem papel acerca de leve ou substancioso conteúdo, por mando da conjuntura, em linguagem amoldada aos estatutos da exposição enfunada de beleza. A tribuna, mais que a caneta do prosador na escrita, usa a linguagem figurada, ao maior a tropológica: metafórica, metonímica, perifrásica, e a de pensamentos. Não discursou em língua literária?! Tanto ainda quanto, orador, pode ascender ao Olimpo reservado à sua atividade específica: o Sublime, que é o esplendor do belo. E até: “a expressão sensível do infinito.” (Kant.) Não fala o tribuno em língua literária?! Há, por isso, de o eloqüente senhorear-se dos arcanos da forma escrita. O orador pressupõe o escritor. Cuido, em resultado, que a língua literária repousa na linguagem não só dos escritores senão também dos oradores, contanto, reitere-se, exprimam estes os elementos da notícia em plano de beleza. Contem-se – logo – duas línguas literárias: escrita e oral. Nada custoso perceber a linguagem gráfica estética. A de eloqüência apenas verbal, entretanto, unicamente os peritos no idioma e nas virtudes estilísticas a identificam, se a manifestação de rostro evolve no modelo por excelência, que extrema o autêntico orador: o improviso. Se a oração já vem nas laudas, ou se taquigrafa ou, em mais atualidade, se falada, de repente, se gravou e, após, se transcreveu, o reconhecimento de proferida em língua, à risca, literária se nivela ao de página de escritor fundida nessa linguagem.

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Parte III Resumos de comunicações

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Isoglossas do português
Afrânio da Silva Garcia, da UERJ/FFP. Partindo do conceito de isoglossa, faz-se um levantamento dos traços característicos que diferenciam tanto a modalidade brasileira da modalidade européia da Língua Portuguesa, quanto os dialetos e falares do português do Brasil e de Portugal entre si. Num segundo momento, estende-se esse levantamento aos traços característicos mais evidentes das variações lingüísticas do português, como a diferença entre português culto e inculto; entre português formal e informal, assim como suas subdivisões; entre português escrito e falado, etc. Ao final, apresentam-se as conclusões decorrentes da pesquisa.

O contorno semântico-sintático dos adjetivos em “O coruja” de Aluísio de Azevedo
Afrânio da Silva Garcia, da UERJ/FFP Apresentação dos adjetivos encomiásticos e pejorativos em “O Coruja” de Aluísio de Azevedo, como parte da pesquisa sobre Relativismo Lingüístico: relações entre semântica, cultura e sociedade. A significação dos adjetivos encomiásticos e pejorativos na obra em questão. Sua significação própria e sua significação deslocada: conotação e uso estilístico dos adjetivos. Suas relações paradigmáticas e sintagmáticas a partir do método de comutação, preconizado por Saussure. Sua colocação (de acordo com a definição de Lyons) e sua contextualização.

Intertextualidade como característica da língua literária machadiana
Alexandre Marcelo Matos, da UFJF Este trabalho tem por objetivo mostrar a relação intertextual que há entre a obra machadiana Esaú e Jacó e a Bíblia Sagrada a partir dos Salmos de Davi, valorizando as diferenciações exis-

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tentes entre estas duas obras. Concluiremos o quanto é original a obra machadiana nesta relação intertextual. E que Machado de Assis, ao manter um diálogo entre a sua obra e o texto bíblico, modifica-o para o contexto oitocentos do Rio de Janeiro, havendo deste modo, uma atualização do texto bíblico.

A cidade na obra de Lima Barreto e de Almada Negreiros
Ângela Maria Thereza Lopes, da UniverCidade e da Universidade Estácio de Sá Lima Barreto e Almada Negreiros são escritores do início do século XX, da literatura brasileira e portuguesa, respectivamente. Suas produções, ainda que separadas pela distância geográfica, levantam questões culturais profundas, que revelam espíritos críticos e atentos para a modernidade de seu tempo. A leitura dos romances Recordações do Escrivão Isaías Caminha de Lima Barrreto e Nome de Guerra de Almada Negreiros vai enfocar o espaço urbano, signo da modernidade nesse período, procurando levantar questões que permitam reconstruir a sociedade brasileira e a portuguesa e analisar como a cidade desse período foi pensada e representada por dois intelectuais de culturas diversas, mas contemporâneos.

Rostos femininos em A geração da utopia, de Pepetela
Assunção de Maria Sousa e Silva, mestranda em Poética/UFRJ As figuras femininas no romance A geração da utopia de Pepetela, no contexto ficcional da história angolana, representam, por um lado, a força de resistência revolucionária que revigora os sonhos dos agentes sociais e, por outro, os modelos estereotipados que compõem o seguimento dos indiferentes às causas políticas. Pepetela trata as questões individuais como desdobramentos do coletivo, redimensionando o caráter da luta angolana. Vemos a figura de Sara contemplada na noção de sujeito de que fala Hutcheon, no sentido de abarcar novas maneiras de ser e intervir no processo histórico e na narrativa, descentralizando o sujeito tradicional / patriarcal. Por outro lado, compartilhamos das idéias de Padilha ao constatar que A geração da utopia é uma narrativa com técnicas conservadoras, embora “tematicamente” se aproxime de modelos pósmodernos com uso inovador da ironia e da paródia.

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O “sociolingüista” Mário de Andrade e o problema da Língua Brasileira
Carlos Alexandre V. Gonçalves, da UFRJ É fato conhecido por todos aqueles que se dedicam ao estudo das obras de Mário de Andrade seu aguçado interesse pela descrição da fala viva e pela realização do oral como fonte de dados caracterizadores do português do Brasil. Desde a publicação do Prefácio interessantíssimo, de 1921 - obra em que pela primeira vez utiliza a expressão “língua brasileira” - até suas produções mais recentes, como O empalhador de passarinhos, de 1944, são marcantes as investidas marioandradinas nos terrenos da Lingüística, de uma forma geral, e da Sociolingüística, mais especificamente. Tomando como ponto de partida a obra literária de Mário de Andrade e os trabalhos por ele realizados à frente do Departamento de Cultura do Estado de São Paulo, entre 1936 e 1938, busco apresentar e discutir, nesta comunicação dados que evidenciam a profunda sensibilidade sociolingüística do autor, que pode se inserir perfeitamente no contexto dos estudos dialectológicos inaugurados por Amadeu Amaral, com O Dialeto Caipira. Mais especificamente procuro mostrar que as estratégias usadas por Mário de Andrade inovadoras para seu momento refletem preocupações teórico-metodológicas da pesquisa sociolingüística atual, ressaltando-se, ainda, o caráter científico do projeto que originou o Primeiro Congresso de Língua Nacional Cantada (1937), evidenciado na explicitação e na fundamentação de cada passo de sua pesquisa e de sua obra literária.

História externa do português do Brasil
Castelar de Carvalho, da UFRJ e ABF Implantação e evolução da Língua Portuguesa no Brasil sob os pontos de vista da História e da Sociolingüística. A visão etnolingüística de Serafim da Silva Neto. A contribuição de filólogos brasileiros e portugueses. Diálogo entre tradições: uma leitura de “A cartomante”, de Machado de Assis Cecília de Macedo Garcez, da UFJF Nesta comunicação, dedicar-nos-emos a uma análise do conto “A cartomante”, de Machado de Assis, a partir da intertextualidade

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neste realizada pelo escritor. Tal abordagem nos permitirá sublinhar a posição importante de tal artista na literatura brasileira, inclusive pela possibilidade que sua escritura nos proporciona de levantar discussões sobre dependência cultural, identidade nacional, sobre relação países colonizadores/países colonizados e tradição local e importada.

O fim de Arsenio Godard, de João do Rio: o destino de um voluntarioso
Cláudio de Sá Capuano, mestrando em Poética/UFRJ O conto O fim de Arsenio Godard, de João do Rio, publicado no volume Dentro da noite, de 1910, trata da prisão de um traidor, um estrangeiro, francês de nascimento, que expionava marinheiros revoltosos. Capturado e levado ao navio, Arsenio recebe a mais dura das penas: o silêncio. Nenhum dos revoltosos estava autorizado a tratá-lo mal, mas, da mesma forma, estavam proibidos de lhe dirigir a palavra ou lhe responder qualquer indagação. O que se percebe é que toda a tensão dos revoltosos é canalizada para a figura de Godard. Isto se dá pelo fato de o estrangeiro ter violado um tabu de um determinado grupo, pondo em risco a vida de todos. A palavra, arma do delito, a delação, é o próprio instrumento da punição. Se a palavra seria a perdição dos delatados, a sua interdição se transformou na perdição ao delator.

Os caminhos da memória: esquecer e lembrar. Uma leitura de Baú de ossos, de Pedro Nava
Cristina Ribeiro Villaça, da UFJF Nesta comunicação faremos uma leitura de Baú de ossos, abordando o diálogo entre ficção e realidade. Privilegiando o papel da memória como possibilidade de reconstrução do passado, a escrita naveana insere-se no corpus literário do século XX, conferindo ao gênero memorialístico, o status de literatura. A partir do pacto esquecer/lembrar, enfoque do caráter fragmentário de tal construção discursiva.

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Texturas da narrativa de Autran Dourado
Irene Jeanete Lemos Gilberto, da Universidade Católica de Santos O presente trabalho analisa o conto de Autran Dourado “As duas vezes que Afonso Arinos esteve em Duas Pontes”, da obra Violetas e caracóis, discutindo os procedimentos narrativos que caracterizam a pluralidade de gêneros do discurso e a técnica discursiva do autor que resgata, na ficção, o traçado da biografia.

Neologismos formados por empréstimo na Língua Portuguesa escrita contemporânea do Brasil
Isabel Aparecida de Souza Stamato, da PG/FCL-UNESP Araraquara) Este trabalho pretende estudar os neologismos formados por empréstimo na Língua Portuguesa escrita contemporânea do Brasil com base em um corpus extraído de revistas e jornais brasileiros de grande circulação nacional e internacional. Apresentamos uma análise dos neologismos por empréstimo lexical segundo GUILBERT (1975), que considera três critérios para que um item lexical estrangeiro esteja em vias de se integrar a uma língua: (i) critério morfossintático; (ii) critério fonológico; e (iii) critério semântico.

O português do Brasil: a língua de Alencar
Jorge Marques, mestre em Literatura Brasileira / UFRJ O aspecto estilístico do trabalho com a língua promovido por José de Alencar revela o caráter dúbio de seu projeto romanesco e, por extensão, de todo o movimento romântico brasileiro. É assim que as propostas teóricas de Alencar, se por um lado, refletem já um certo amadurecimento do sistema literário brasileiro, por outro lado, não são levadas até às últimas conseqüências na prática, havendo, por assim dizer, uma abertura de concessão por parte do escritor. Este descompasso que perpassa toda a obra de Alencar e que caracteriza, no final das contas, certa dose de artificialismo por parte do projeto do escritor, deve, porém, merecer compreensão: sendo um pioneiro na reivindicação de um estilo brasileiro de escrever, assunto tão polêmico em época de gramatiquice caturra, não se pode exigir de Alencar total coerência entre teoria e praxis, mas somente louvá-lo por, com suas propostas, ter ajudado a impulsionar e a efetivar um sistema literário caracteristicamente brasileiro.

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A trajetória da Língua Portuguesa na Amazônia colonial
José Ribamar Bessa Freire, da UERJ Quando o Estado do Grão-Pará aderiu à Independência do Brasil em agosto de 1823, uma parte expressiva de sua população não falava o português como língua materna, situação que se prolongaria ainda por algumas décadas. Coube, portanto, ao estado neo-brasileiro a tarefa de completar o processo de portugalização da Amazônia. Esta comunicação pretende fazer uma síntese da viagem - atribulada, tortuosa e demorada - da Língua Portuguesa pelos rios da bacia amazônica, no período colonial, destacando as diferentes formas de contato com as línguas indígenas. Durante esse processo, o português e as línguas indígenas desempenharaam diferentes funções seja como meios de comunicação corrente, familiar e técnico-prática, seja como veículos de transmissão de experiências históricas ou como instrumentos de criação literária tanto oral, quanto escrita. Despertaram em seus falantes comportamentos, sentimentos e atitudes de identificação ou de estranhamento e funcionaram, aqui e ali, como fatores de identidade étnica e de coesão social. Alguns desses aspectos serão abordados, numa perspectiva histórica, com destaque para a relação, ás vezes dramática, de interculturalidade, criada com o contato entre as diferentes línguas.

A produtividade de alguns dos processos formadores de palavra na constituição do vocabulário de pescadores artesanais
Katia Carlos Alves /Nelson Carlos Tavares Junior /Vanessa Sant’Anna Tavares, da UFRJ Esta pesquisa foi realizada a partir dos dados eliciados do corpus do Projeto APERJ (“Atlas Etnolingúistico dos Pescadores do Estado do Rio de Janeiro”). Esse inventário foi extraído de entrevistas realizadas com pescadores artesanais, analfabetos ou de pouca escolaridade, cuja atividade profissional se dá em ambiências lacustre, marítima ou fluvial. Para a composição do corpus desta comunicação, analisou-se o falar dos informantes inerentes às ambiências lacustre, marítima ou fluvial com o objetivo de se fazer o levantamento de signos - considerando os seus significantes - , cuja realização nos inquéritos analisados não figuram no Dicionário Aurélio. Além disso, foram levados em conta vocábulos dicionarizados cujos

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significados são utilizado pelos informantes de maneira diferente do emprego usual. Como processo de reflexão sobre a ocorrência de tais significantes elegeram-se os processos morfológicos de formação de palavras para depreender o emprego de tais lexias. Quanto aos significados não usuais, procurar-se-ão elucidá-los com base em processos metafóricos, analógicos e outros. As lexias ora analisadas serão dispostas cartograficamente, lançando-se mão dos recursos propiciados pela Dialectologia e pela Geografia Lingüística.

Murilo Mendes e as rasuras na religiosodade
Mara Conceição Vieira de Oliveira, daUFJF Considerando Murilo Mendes um poeta multifacetado que exibe temáticas como: o eterno feminino, a irreverência, a busca do conhecimento e aspectos estilísticos pertinentes à modernidade, optou-se pelo discurso religioso para uma análise mais elaborada, de vez que é um aspecto fortemente marcado na obra de Murilo Mendes.

A defesa da Língua Portuguesa e do Império Lusitano nos primeiros gramáticos e em António Ferreira
Márcia Maria de Arruda Franco, da UFOP/CNPq Quando, em fins do século XV, os portugueses obtiveram êxito na descoberta da nova rota para a Índia e de terras desconhecidas no Novo Mundo, a cultura portuguesa não divulgada apenas em português, pois, para os homens dessa época, língua e pátria não formavam uma aliança como elementos determinantes da nacionalidade. Na poesia, imperava o primado do castelhano, nos relatos sobre as novas descobertas, a língua latina. Foi ao longo século XVI que a necessidade de difundir a língua do colonizador por todo o império lusitano gerou o movimento, num primeiro momento restrito aos primeiros gramáticos e António Ferreira de defesa e de codificação da Língua Portuguesa. Esta deixaria de ser apenas mais um dos dialetos ibéricos, elevando-se a idioma imperial.

“Jeitinho brasileiro” - a expressão idiomática no português do Brasil: uma contribuição para o léxico da língua
Maria Auxiliadora da Fonseca Leal, da FALE/UFMG Desde Saussure, sabe-se que a língua é um sistema rigorosa-

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mente conexo, de meios de expressão comuns a um conjunto de pessoas. Esse sistema, que por sua vez, só existe nos indivíduos falantes, tem de um lado, existência independente deles, porque assim como outras instituições sociais lhes é imposto. De outro lado, cada pessoa tem o seu jeito de falar a própria língua, de modo que tantas há quantos são os indivíduos. Na presente comunicação pretende-se apresentar algumas expressões idiomáticas do português do Brasil que atuam como um importante fenômeno lingüístico de criação lexical. Sabe-se que a língua nacional com pronúncia brasileira, com vocabulário enriquecido por elementos indígenas e africanos é também composta por criações e adoções realizadas na própria língua. Gonçalves Dias com sua linguagem própria já dizia: “A minha opinião é que, ainda sem querer, havemos de modificar altamente o português. O que é brasileiro é brasileiro, e que “cuia” virá a ser tão clássico como “porcelana”, ainda que não a achem tão bonita”. A numerosa ocorrência de expressões idiomáticas em português comprova a importância e a necessidade de uma análise mais apurada do fenômeno que comporta aspectos culturais, sociais e políticos bastante evidentes. Espera-se que, no presente trabalho, alguns aspectos que envolvem as expressões idiomáticas, no português do Brasil, sejam elucidados.

As duas faces da cidade na prosa ficcional de João do Rio
Mariângela Monsores Furtado Capuano, mestranda em Literatura Brasileira/UERJ No início deste século, o Rio de Janeiro, repercutindo os ecos da modernização dos grandes centros da Europa, passou por uma série de modificações, preparando-se para a vida urbana nos moldes modernos, como já era fato em capitais européias. Na cidade, agora modernizada e higienizada, não havia lugar, ao menos no entender de certos cidadãos da época, para os populares que se aglomeravam em antigas construções. Como observa Renato Cordeiro Gomes, “esta cidade real, por onde circulava uma rica tradição popular, não cabia na visão da ‘ordem’. Era vista como obscena, ou seja, deveria estar fora de cena, para não manchar o cenário...”. É o convívio entre os homens e seu livre trânsito entre os dois lados da mesma cidade que o cronista João do Rio fixa em seus textos, especialmente nos contos publicados em Dentro da noite (1910), contos que aqui analisamos com o intuito de destacar os contrastes sociais que se misturam, num ambiente que ora se

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recobre de requinte, ora se ‘acanalha’ nos becos da cidade.

A reinvenção do infinito: mundos imaginados e imaginários em A idade do serrote, de Murilo Mendes Maria
Perla Araújo Morais, da UFMG Leitura do livro A idade do serrote enfocando o eu memorialístico enquanto construtor/desconstrutor de limites reais e imaginados. Abordagem das questões de origem, do tempo e do espaço a partir da constatação da tendência à ruptura de limites. Ênfase no caráter performático através do qual o discurso literário de Murilo Mendes subverte o real imaginado, o que por vezes ocasiona uma aprendizagem, por outras, demostra o desejo de desterritorialização (ruptura dos limites espaciais) e ainda nos possibilita observar a proposição de uma refiliação ou uma revisão da origem.

A onomástica indígena no português do Brasil: confrontos lingüísticos e interétnicos
Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick, da USP A diversidade lingüística entre o português europeu (PE) e o português brasileiro (PB) remete a considerações históricas e etnográficas, que ultrapassam a questão vocabular, nos discursos e atos comunicativos. No território americano, por exemplo, a presença de etnias diferentes entre si imprimiu valores e traços semânticos especiais às unidades da língua receptora (PB), tornando-a bifásica, pelo menos na época da conquista. O cruzamento de diversos sistemas, geradores de adstratos socioculturais, evidencia a dificuldade em recortar os significados de termos e designativos, onerados pela segmentação por vezes imprecisa dos constituintes lexicais ou pelas falhas do próprio registro ou da coleta das formas orais, oriundas dos modelos ágrafos. Partindo dessas considerações, apresentaremos dados preliminares do tratamento lexicográfico conferido ao material toponímico coletado em várias fontes (documentais e cartográficas), com vistas a elaboração do Atlas toponímico do Brasil, na variante regional paulista, e sua inclusão em domínios de experiência específicos.

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A linguagem do poder e o poder da linguagem - Lima Barreto e a Língua Portuguesa
Mauricio Pedro da Silva, da USP O presente trabalho aborda a ideologia lingüística presente na produção literária de Lima Barreto, por meio de um discurso metalingüístico. Com efeito, a perspectiva lingüística adotada por Lima Barreto revela o poder absoluto da linguagem, que é utilizado pelo romancista na luta contra os preconceitos sociais e lingüísticos. Tendo como fundamento metodológico conceitos retirados tanto da Análise do Discurso quanto da Historiografia Lingüística, nosso trabalho trata ainda da presença do estilo academicista, do purismo lingüístico e do preciosismo gramatical na linguagem pré-modernista brasileira.

O (não) lugar de Portugal na formação de Murilo Mendes
Patrícia Riberto Lopes, da UFJF Neste trabalho, que se filia a uma pesquisa maior sobre a presença do repertório cultural português na obra de Murilo Mendes, busca-se estabelecer o papel de Portugal na formação primeira do poeta. Pela análise deste livro autobiográfico, busca-se na infância os primeiros contatos com a cultura portuguesa, a fim de delimitar, através do olhar do adulto, ensaísta presente em toda obra, a importância de Portugal em sua formação. Dois fortes laços podem ser percebidos entre esse poeta brasileiro do século XX e a nação portuguesa: um de ordem sócio-cultural devido às marcas deixadas pela ex-metrópole na sociedade brasileira, outro de ordem pessoal, o qual resultou em fortes contatos, inclusive em diversas viagens a esse país. A hipótese que se levanta é a de que, marcado pela desterritorialização, Murilo Mendes não se tenha relacionado com Portugal como terra mãe, nação origem, mas como um ponto em seus intermináveis roteiros de viagem, superando a tendência à reterritorialização e situando Portugal como um entre-lugar cultural.

O duplo destronizador e a devoração simbólica – a antropofagia como revisão canônica em um conto de Rubem Fonseca
Petra Cristina Augusto, da UFJF Análise da questão: herança colonial literária e formação do acervo literário brasileiro e da linguagem nacional como elementos

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edificadores de uma literatura própria com suas peculiaridades não só formais mas também temáticas. Discussão da formação da linguagem nacional a partir da questão da herança cultural portuguesa. Ênfase no recorte histórico/ideológico do cânone literário português abordando um diálogo entre canibalismo, episódio da “Nau Catrineta”, retomada em paralelo ao dado cultural de povos não cristãos. Abordagem do conceito de antropofagia como dado fundamental para a construção de uma linguagem literária nacional.

Fatores externos na formação do léxico português da América: os elementos indígenas e afro-negros
Ruy Magalhães de Araújo, da UERJ / FFP O acervo lexical brasileiro é constituído em quase sua totalidade de elementos do léxico português europeu. Deste, razoável número de vocábulos é proveniente do português arcaico (havendo inclusive abonações de escritores da época), que veio para o Brasil com os colonizadores do norte e do sul de Portugal, e também dos Açores. Somam-se a seguir os elementos indígenas, afro-negros, os de procedência variada e os que possuem formação interna própria, isto é, os brasileirismos. Interessa-nos neste trabalho, sobremaneira, os de origem indígena e afro-negra.

Entre o segredo da Jurema e a perdida muiraquitã: em busca da identidade nacional
Tatiana Alves Soares, da UFRJ O Romantismo e o Modernismo são considerados as estéticas literárias que mais contribuíram na proposta de uma literatura nacional. Dentro dessas escolas encontramos José de Alencar e Mário de Andrade, respectivamente, como dois de seus maiores expoentes. Símbolos de suas gerações, sua produção literária apresenta inúmeras reflexões acerca do estabelecimento de uma identidade nacional. A partir do pensamento crítico dos autores citados, nosso estudo propõe uma análise comparativa de suas posturas estético-ideológicas. Com base em textos críticos e prefácios das obras alencariana e andradina, nossa leitura pensa o diálogo entre ambas as poéticas, a partir de aspectos como o papel da literatura ou a identidade nacional.

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A linguagem literária machadiana e a reescritura da tradição
Terezinha V. Zimbrão da Silva, da UFJF Neste trabalho, consideraremos a reescritura da tradição como uma característica da linguagem literária de Machado de Assis. Ora, sabemos que o narrador machadiano está sempre citando os clássicos da literatura ocidental - ou em outros termos reescrevendo-os. É esta importante característica que explicitaremos ao analisarmos em seguida o diálogo deste escritor brasileiro com a tradição clássico-pagã. Confirmaremos que esta tradição tem os seus textos em maior menor grau modificados quando reescritos por Machado de Assis. Interpretaremos tais modificações como sendo conseqüentes do processo de atualização destes textos, escritos originalmente no centro do mundo clássico, para o contexto muito distinto tanto temporalmente quanto espacialmente - da periferia do mundo moderno. Mais precisamente, tomaremos os dois primeiros capítulos de Esaú e Jacó e a partir destes faremos uma descrição de como a tradição oracular grega, tão bem registrada em um clássico universal como As Eumênides de Ésquilo veio a ser atualizada para o contexto oitocentista de um moderno romance folhetinesco.

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Parte IV Minicursos

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1) Edição crítica da lírica de Camões, sob a presidência de Leodegário A. de Azevedo Filho (ABF e UERJ), com a participação de Álvaro de Sá (ABF), Marina Machado Rodrigues (ABF e UERJ) e Xosé Manuel Dasilva Fernández (Universidade de Vigo, Espanha) A dificuldade de estabelecimento do corpus lírico camoniano no séc.XVI, conforme já atestam as duas edições quinhentistas das rimas de Luís de Camões, em face da dispersão a que os textos andaram sujeitos, gerou, ao longo de quatro séculos, equívocos gritantes, no tocante à autoria e reprodução dos textos do Poeta. As conferências proferidas neste minicurso se propuseram historiar os obstáculos encontrados pelos inúmeros editores da lírica camoniana frente ao problema, bem assim, mostrar as soluções encontradas por Emmanuel Pereira Filho e Leodegário A. de Azevedo Filho para tentar solucionar a questão. Foram abordados os seguintes pontos: a) A lírica de Camões inscreve dois problemas: o autoral e o textual. Tentativas anteriores. A metodologia proposta por Emmanuel Pereira Filho. O corpus camoniano, de acordo com a metodologia aplicada por Leodegário A. de Azevedo Filho; b) Divisão do universo lírico de Camões em três corpora: o mínimo, o addititium e o possibile; c) Critérios adotados para o estabelecimento de cada um deles. 2) Unidade do Português literário no mundo lusofônico de Portugal, Brasil e nações africanas de Língua Portuguesa, sob a presidência de Domício Proença Filho (ABF e UFF), com as participações de Carmen Lúcia Tindó Secco (UFF), Nadiá Ferreira Paulo (UERJ) e Pedro Lyra (UFRJ). Considerando-se que há unidade da Língua Portuguesa

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em todo o mundo lusofônico e dentro dessa unidade a natural variedade para exprimir as diferentes culturas, o curso teve como o objetivo: a) Demonstrar que, do ponto de vista do sistema, a língua, sendo a mesma, comporta a diversidade de normas e usos idiomáticos; b) Demonstrar que, embora haja unidade lingüística não há unidade literária, exatamente porque a língua é expressão de cultura de cada povo que a fala; c) O estudo das expressões portuguesa, brasileira e de nações africanas em Língua Portuguesa.

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