POESIAS COMPLETAS

Folha de Rosto
MÁRIO DE ANDRADE



POESIAS COMPLETAS
Edição de texto apurado, anotada e acrescida de documentos por
Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez



VOLUME 1







NOVA FRONTEIRA | RIO DE JANEIRO 2013
SUMÁRIO
VOLUME 1 - POESIAS COMPLETAS
Capa
Folha de Rosto
Poesias completas, um livro multifário
Pauliceia desvairada
"A Mário de Andrade"
Prefácio interessantíssimo
Inspiração
O trovador
Os cortejos
A escalada
Rua de São Bento
O rebanho
Tietê
Paisagem nº 1
Ode ao burguês
Tristura
Domingo
O domador
Anhangabaú
A caçada
Noturno
Paisagem nº 2
Tu
Paisagem nº 3
Colloque sentimental
Religião
Paisagem nº 4
As Enfibraturas do Ipiranga
Losango cáqui ou afetos militares de mistura com os porquês de eu saber
alemão
Advertência
I “Meu coração estrala.”
II Máquina-de-escrever
III “– Mário de Andrade!”
IV “Soldado-raso da República.”
V “‘– Escola! Sen... tido!’”
VI “Queda pedrenta da ladeira.”
VII “Que sono!”
VIII “‘– Escola! Alto!’”
IX “Careço de marchar cabeça levantada”
X Tabatinguera
XI “O sargento com esses acelerados”
XII “Aquele bonde...”
XIII “Seis horas lá em S. Bento.”
XIV O “Alto”
XV “Abro tua porta inda todo úmido do orvalho da manhã.”
XVI “Conversavam”
XVII “Mário de Andrade, intransigente pacifista [...]”
XVIII “Cabo Alceu é um manguari guaçu”
XIX “Marchamos certos em reta pra frente.”
XX “Cadência ondulada suave regular.”
XXI A menina e a cantiga
XXII “A manhã roda macia a meu lado”
XXIII “De nada vale inteligência.”
XXIV A escrivaninha
XXV “Sou o ‘base’.”
XXVI “‘– Escola, olhe essa palestra!’”
XXVII A menina e a cabra
XXVIII Flamingo
XXIX “Enfim no bonde pra casa.
XXX Jorobabel
XXXI Cabo Machado
XXXII As moças
XXXIII “Meu gozo profundo ante a manhã sol”
XXXIII (bis) Platão
XXXIV Louvação da Emboaba Tordilha
XXXV “‘Meu coração estrala’...”
XXXVI “Como sempre, escondi minha paixão.”
XXXVII “Te gozo!...”
XXXVIII “Manhã veraneja, manhã que dá sustância,”
XXXIX Parada
XL “Não devia falar ‘meu coração estrala’.”
XLI Toada sem álcol
XLII Rondó das tardanças
XLIII “Desincorporados.”
XLIV Rondó do tempo presente
XLV Toada da esquina
Clã do jabuti
O poeta come amendoim
Carnaval carioca
Coordenadas
Rondó pra você
Viuvita
Lembranças do Losango cáqui
Sambinha
Moda dos quatro rapazes
Moda do Brigadeiro
Acalanto da pensão azul
Soneto do Homem Morto
Noturno de Belo Horizonte
O ritmo sincopado
Arraiada
Toada do Pai-do-Mato
Tempo das águas
Poema
Tostão de chuva
Lenda do céu
Coco do Major
Moda da cadeia de Porto Alegre
Paisagem nº 5
Moda da cama de Gonçalo Pires
Dois poemas acreanos
I Descobrimento
II Acalanto do seringueiro
Remate de males
Eu sou trezentos...
Danças
Tempo da maria
I Moda do corajoso
II Amar sem ser amado, ora pinhões!
III Cantiga do ai
IV Lenda das mulheres de peito chato
V Eco e o Descorajado
VI Louvação da tarde
VII Maria
Poemas da negra
I “Não sei por que espírito antigo”
II “Não sei se estou vivo...”
III “Você é tão suave,”
IV “Estou com medo...”
V “Lá longe no sul,”
VI “Quando”
VII “Não sei porque os tetéus gritam tanto esta noite...”
VIII “Nega em teu ser primário a insistência das coisas,”
IX “Na zona da mata o canavial novo”
X “Há o mutismo exaltado dos astros,”
XI “Ai momentos de físico amor,”
XII “Lembrança boa,”
Marco de viração
Aspiração
Louvação matinal
Improviso do rapaz morto
Momento
Ponteando sobre o amigo ruim
As bodas montevideanas
A adivinha
Improviso do mal da América
Manhã
Momento
Pela noite de barulhos espaçados...
Poemas da amiga
I “A tarde se deitava nos meus olhos”
II “Se acaso a gente se beijasse uma vez só...”
III “Agora é abril, ôh minha doce amiga,”
IV “Ôh trágico fulgor das incompatibilidades humanas!”
V “Contam que lá nos fundos do Grão Chaco”
VI “Nós íamos calados pela rua”
VII “É hora. Mas é tal em mim o vértice do dia”
VII (bis) “É uma pena, doce amiga,”
VIII “Gosto de estar a teu lado,”
IX “Vossos olhos são um mate costumeiro.”
X “Os rios, ôh doce amiga, estes rios”
XI “A febre tem um vigor suave de tristeza,”
XII “Minha cabeça pousa nos seus joelhos,”
A costela do grã cão
Canto do mal-de-amor
Reconhecimento de Nêmesis
Mãe
Lundu do escritor difícil
Melodia Moura
Momento
Toada
Grã cão do outubro
I Vinte e nove bichos
II Os gatos
III Estâncias
IV Poema tridente
V Dor
Quarenta anos
Momento
Brasão
Soneto
As cantadas
Luar do Rio
Canção
Livro azul
Rito do irmão pequeno
Girassol da madrugada
O grifo da morte
O carro da miséria
Lira paulistana
“Minha viola bonita,”
“São Paulo pela noite.”
“Garoa do meu São Paulo,”
“Vaga um céu indeciso entre nuvens cansadas.”
“Ruas do meu São Paulo,”
“Abre-te boca e proclama”
“Esse homem que vai sozinho”
“O disco terminara [...]”
“O bonde abre a viagem,”
“Eu nem sei se vale a pena”
“O céu claro tão largo, cheio de calma na tarde,”
“Tua imagem se apaga em certos bairros,”
“Numa cabeleira pesada”
“Na rua Barão de Itapetininga”
“Beijos mais beijos,”
“Silêncio em tudo. Que a música”
“Bailam em salto”
“A catedral de São Paulo”
“... os que esperam, os que perdem”
“Agora eu quero cantar”
“Na rua Aurora eu nasci”
“Vieste dum futuro selvagem,”
“Moça linda bem tratada,”
“Quando eu morrer quero cantar”
“Num filme de B. de Mille”
“Entre o vidrilho das estrelas dúbias,”
“Nunca estará sozinho.”
A meditação sobre o Tietê
“Nasceu Luís Carlos no Rio”
Café
Café: Concepção melodramática
Café: tragédia coral em três atos
Primeiro ato: Primeira cena | porto parado
I Coral do queixume
II Madrigal do truco
III Coral das Famintas
IV Imploração da fome
Segunda cena | “companhia cafeeira S.A.”
I Coral do provérbio
II A discussão
III Coral do abandono
Segundo ato: Primeira cena | “câmara-balé”
I Quinteto dos serventes
II A embolada da ferrugem
III A endeixa da Mãe
Segunda cena | o êxodo
I Coral puríssimo
II Mimodrama
III Coral da vida
IV Coral do êxodo
Terceiro ato: O dia novo
I 1º Parlato do rádio
II Cânone das assustadas
III Estância de combate
IV Estância da revolta
V Fugato coral
VI 2º Parlato do rádio
VII Grande coral de luta
VIII O Rádio da Vitória
VIII (bis)
IX Hino da fonte da vida
Texto de orelha
Sobre o autor
Créditos
Ficha catalográfica
Texto de quarta capa



VOLUME 1







Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez


“Enquanto o resto dos homens sonham de pé, perturbados incessantemente
por imaginações monstruosas, o poeta vive acordado o sonho da vida.”
Goethe/Mário de Andrade[1]

“Le véritable gardien des mondes disparus est le poète, celui qui ressent la
façon dont les hommes, ensemble, un jour, ont habité leur terre, et qui peut
la dire.”
Marcel Conche[2]
“Composto e impresso na/ TIPOGRAFIA CUPOLO/ à/ Rua do Seminário, 187/ São Paulo/ em
Novembro/ de 1941”, vem à luz Poesias, livro que tem na capa a chancela da Livraria Martins
Editora. O título em vermelho e os demais dizeres em preto, à semelhança das capas de Amar,
verbo intransitivo e Macunaíma, permitem que se suponha um projeto do autor. Estas duas
obras e outras, pagas com as economias de Mário de Andrade, haviam lhe garantido a
liberdade de traçar as capas — sóbrias, de baixo custo, jogando apenas com letras.
Quando regressa a São Paulo, em janeiro de 1941,[3] finda a sua permanência de três anos
no Rio de Janeiro, o escritor traz com ele o propósito de revisitar a própria obra poética editada
até então e de difundir novos elencos. O propósito pesava, severo, a passagem do tempo,
conforme se lê nesta carta a Henriqueta Lisboa, do dia 27 de agosto do ano anterior:
Vou talvez polir algumas arestas e alimpar de cacoetes de combate alguns dos meus livros publicados que mais
estimo e preparar uma possível edição de poesias escolhidas.[4]
A essa altura da vida, a produção do polígrafo Mário de Andrade está plenamente
reconhecida nos ensaios nas áreas da música e das artes plásticas, bem como nos estudos de
etnografia. O mesmo não acontece quanto à literatura e, por essa razão, o poeta luta pelo novo
livro, como está na carta dele a Yolanda Jordão Breves, do 7 de setembro desse mesmo ano
de 1941:
Seu pedido não ficou sem eco em mim, e ainda fiz duas tentativas tímidas, uma com a Livraria Martins, outra com os
editores do Caderno Azul — única gente que ainda poderia corresponder a um pedido meu. Nada. Aliás é fácil de
mostrar a você que qualquer pedido meu não teria correspondência, pois que exatamente agora, apesar do sucesso
de venda do primeiro Caderno Azul, com dois ensaios meus sobre Música,[5] não consegui ninguém que me
editasse as Poesias, agora em impressão. Eu mesmo as estou editando à minha custa, um sacrifício que irá para
mais de quatro contos de réis. E para conseguir que alguma editora me distribua o livro, ele sairá com o nome da
Livraria Martins, que, além do anúncio, levará 50% da venda, pelos sacrifícios de distribuição! Creio que esta lhe
bastará para mostrar a impossibilidade da edição de poesias, agora, pelo menos, com o meu... prestígio.[6]
Em 1941, Mário de Andrade considera, para compor o volume, sua poesia a partir de
Pauliceia desvairada, marco do modernismo literário brasileiro em 1922, Losango cáqui ou
afetos militares de mistura com os porquês de eu saber alemão (1926), Clã do jabuti (1927) e
Remate de males (1930). Deixa de lado a estreia Há uma gota de sangue em cada poema,
sob o pseudônimo Mário Sobral em 1917. Poesia de cunho pacifista, exibindo determinados
aspectos formais renovadores, será por ele encaminhada, em 1943, para Obra imatura, o
volume I das Obras Completas, pela Livraria Martins Editora.[7]
“Poesias escolhidas”, isto é, Poesias, constitui-se de cinco partes. As três primeiras
selecionam poemas, no bojo dos livros publicados, captando o sentido maior de cada título, no
contexto da criação. “O estouro” autentica a eclosão do modernismo em Pauliceia desvairada,
de 1922, assim como o empenho em confirmar a nova estética nos poemas de Losango cáqui,
escritos a partir desse mesmo ano até 1924, mas lançados em volume apenas em 1926,
devido à falta de recursos financeiros para a impressão. “Prisão de luxo” acolhe a poesia de
Clã do jabuti, sem, contudo, identificar o livro de 1927; “Remate de males” reitera as propostas
e a evolução do poeta, no âmbito do modernismo. As outras partes, “A costela do Grã Cão” e
“Livro azul”, trazem poemas retomados e os mais recentes, superada a contingência de uma
plataforma modernista. A avaliação da própria obra pelo autor prenuncia sua conferência O
movimento modernista, corajoso balanço de um programa, em 30 de abril de 1942, no Rio de
Janeiro.[8]
Da tiragem de Poesias, Mário de Andrade, como era do seu costume, separa e assina um
“exemplar de trabalho”, rótulo de sua lavra. Com status de manuscrito, os exemplares de
trabalho, hoje organizados em seu arquivo, no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade
de São Paulo,[9] cristalizam novas versões na sobreposição de rasuras autógrafas aos textos
impressos. É provável que recurso semelhante, concernente à nova estrutura e à nova versão
de texto, tenha moldado Pauliceia desvairada, Losango cáqui, Clã do jabuti e Remate de
males para figurarem em Poesias. Todavia, nada se pode inferir nesse sentido, pois, no
arquivo, apenas Clã do jabuti convive, e de forma inexpressiva, com os exemplares de
trabalho de A escrava que não é Isaura, Macunaíma, Amar, verbo intransitivo e de outros livros
que exibem alterações autógrafas relevantes, de vário naipe, no intuito de uma nova edição.
Nas páginas do volume de Clã do jabuti apartado pelo autor, há uma única correção a erro
tipográfico, aproveitada na edição de Poesias.[10]
Entre os exemplares de trabalho, o de Poesias mostra-se sui generis. Enquanto as rasuras
corrigem parcamente erros tipográficos, o volume absorve cogitações do poeta sobre a criação
de EU SOU TREZENTOS... (Remate de males), “A COSTELA DO GRÃ CÃO”, “RITO DO IRMÃO PEQUENO” e
“O GRIFO DA MORTE” (“LIVRO AZUL”).[11] Ao transitar pela memória da criação, as cogitações — na
escrita a tinta preta, convulsa, com lapsos — mesclam-se, em determinados instantes, à
confidência do indivíduo. Depositadas em espaços em branco do próprio volume e em folhas
apensas, representam o depoimento derivado da parcela final de uma carta, que ali se faz ver.

Esse documento, datiloscrito original, assinado “M.”, na mesma tinta preta das rasuras que
exibe, não cumpre o rumo epistolar; na falta da página primeira, perdem-se data e destinatário.
Evidencia que o autor, depois de ter consultado Manuel Bandeira e Prudente de Moraes, neto,
seus velhos amigos, sobre a conveniência de divulgar “A COSTELA DO GRÃ CÃO”, conjunto de
poemas extremados na marca autobiográfica, busca um terceiro parecer. Está decidido a
enviar os versos; não tenciona, todavia, mudar a decisão:
Aqui começam os poemas que Manuel Bandeira e Prudente de Moraes, neto preferem que eu não publique. Mas eu
quero publicar. [...] Ora eu argumento: se me permitem publicar e aprovam a publicação de coisas tão violentas e tão
íntimas como a CANÇÃO DO MAL DE AMOR[12] e o RECONHECIMENTO DE NÊMESIS, não vejo razão pra não publicar o reconhecimento
do... GRÃ CÃO. São dessas coisas que ficam como que ao lado da arte e da beleza, como valor humano apenas.
Apenas...
A leitura deste trecho autoriza a hipótese pela qual Mário de Andrade, ao perceber que
estaria anulando o sentido da consulta, tenha guardado a página onde depositara essa
análise de sua obra. Vale lembrar que, nos primeiros anos da década de 1940, ele se detém
especialmente no exame dos próprios caminhos, o que se pode ver no Ensaio de
interpretação de O carro da Miséria, na INTRODUÇÃO da ópera Café e, como já se sabe, em O
movimento modernista. Escolhe novos leitores privilegiados — os amigos moços. Quem são?
A quem se dirigira originalmente a carta não enviada? A chave está na correspondência de
Mário com Oneyda Alvarenga. Na carta de 29 de setembro de 1940, que encontra o poeta no
Rio de Janeiro, a discípula, pouco antes presenteada com a longa preleção epistolar de seu
mestre sobre o conhecimento técnico,[13] planeja visitá-lo no início de outubro, caso ele não
venha passar o aniversário em São Paulo, no dia 9 desse mês. Se vai à capital federal ou se o
amigo vem à Pauliceia, fica-se sem saber. O fato é que, de posse do manuscrito, Oneyda
confessa, na carta subsequente, em 29 de outubro, não ter ainda conseguido ler os versos. A
resposta, em 1º de novembro de 1940, elucida:
Recebi sua carta e na verdade só lhe escrevo desta vez pra lhe dizer que não precisa me mandar a “A COSTELA DO GRÃ
CÃO” pra cá, depois que a ler. Estarei em São Paulo lá pelo dia 13 ou 14 deste e então trarei comigo os versos. Aliás
passe eles ao Saia pra que ele também dê opinião. Estou me interessando, no caso, mais com a opinião dos moços
que dos meus contemporâneos.[14]
Mário de Andrade prefere, portanto, dialogar com Oneyda Alvarenga e Luís Saia, seu
colaborador no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional; com Murilo Miranda, no
Rio, a quem dedica “A COSTELA DO GRÃ CÃO”. Em 10 de março de 1941, passa ao jovem poeta
mineiro Alphonsus de Guimaraens Filho o conteúdo do livro previsto para novembro:
[...] há uma larga parte de inéditos. Dei ao Manuel pra me aconselhar e ele repudiou muitos. Dei ao Prudente que
também repudiou muitos. Mas ambos divergiam bastante no repúdio, só tendo concordado umas três vezes. Resolvi
abandonar de vez o conselho da minha geração. Andei mostrando pra alguns moços que têm muita liberdade, mas a
máxima liberdade comigo: não repudiaram nenhum! São versos brutais, representam uma das piores crises morais,
ou melhor, imorais que já aguentei. Vou conservar. Não lhe mando por não ter quem os copie, meu secretário está
ocupadíssimo agora e eu ainda mais.[15]
Essa trilha de situações externas à carta corre paralela a uma pergunta indispensável: por
que esse documento é guardado e depois inserido pelo escritor no exemplar de trabalho de
Poesias? O motivo reside, possivelmente, no conteúdo do fragmento — a análise de magna
coragem que entrelaça a percepção da dor de viver à criação poética. Essa espécie de carta
para si mesmo adquire o sentido de “fazer a História”[16] quando, em 1943, o poeta, ao mesmo
tempo que retorna a seus textos no exemplar de trabalho, começa o resgate de seus esparsos,
visando Poesias completas, volume II de suas Obras Completas, pela Livraria Martins Editora.
Esse propósito explica a presença dos poemas OBSESSÃO e ASSUSTADO, títulos de 1921 e
1922, em recortes de jornais não identificados, sem data.[17]

“Uma larga parte de inéditos”
Essa frase de Mário de Andrade ultrapassa o elenco do livro Poesias, noticiado a Alphonsus
de Guimaraens Filho, em 1941. Diz respeito ao exercício infatigável da poesia, no conjunto
praticamente incalculável da criação incessante, em múltiplas áreas, que caracteriza a
produção do polígrafo, materializada em seus manuscritos que somam notas, esboços, planos,
versões nos dossiês em seu arquivo e na marginália, em sua biblioteca. Trabalho que
repercutiu parcialmente, é claro, no grande número de textos por ele publicados em livros,
revistas ou jornais.
A poligrafia, resultante dos multiplicados interesses do intelectual dotado de um insaciável
desejo de estudar e de poderoso fôlego de ensaísta e artista, distingue Mário de Andrade
poeta, ficcionista, crítico e teórico, na esfera da literatura, e o afirma em seus escritos sobre
música, estética, artes plásticas, folclore e cinema, sem falar em suas incursões no terreno da
composição musical e da fotografia. Das atividades desempenhadas por ele ao longo da vida
— professor de piano, de Estética e História da Música, no Conservatório Dramático e Musical
de São Paulo, de Filosofia e História da Arte, na Universidade do Distrito Federal, jornalista,
diretor do Departamento de Cultura da Municipalidade de São Paulo, pesquisador do Serviço
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e no Instituto Nacional do Livro — vieram, por
certo, muitos dos trabalhos que dele se conhece.
O verso “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,”,[18] em que o eu lírico constata a
clivagem do ser e a multiplicação das vivências, ganha valor simbólico para quem se inclina
sobre os manuscritos vinculados a projetos simultâneos, decorrentes de diferentes
motivações. Por exemplo: entre 1923 e 1927 — contam os documentos —, Mário escreve
Amar, verbo intransitivo, romance moderno cuja criação se alimenta de certas soluções do
expressionismo, na leitura de romancistas alemães e austríacos.[19] Em 1925, como relata a
Manuel Bandeira, em carta de 31 de maio, o poeta interrompe o leitor:
Dia 13 de maio, no bonde, escrevi este poema num livro de Heinrich Mann que estava lendo. Veio de repente por
causa de duas meninas que passaram enquanto eu estava esperando o bonde. Não é engraçado? Não foi 13 de
maio não, foi num feriado de abril, creio que 21, eu ia no concerto da Sinfônica, me lembro muito bem.[20]
Então, a primeira versão de SAMBINHA, esboço a grafite, figura na margem das p. 162-163 do
romance de Heinrich Mann, Die Armen (Leipzig: Kurt Wolff Verlag, 1917).[21] A criação
conjuga o assédio masculino a uma jovem operária, presente na leitura, à atração que duas
costureirinhas, andando pela rua, exercem nos homens, segundo o eu lírico. Em setembro do
mesmo 1925, retrabalhado, o poema aparece n’A Revista dos modernistas mineiros,[22]
alcançando Clã do jabuti, em 1927.
A coexistência de motivações pode até estabelecer cruzamento mais complexo,
transdisciplinar, como no soneto UVA,[23] que emerge durante o estudo da partitura para piano
de Théodore Dubois, Poëmes virgiliens: les abeilles (Rio de Janeiro: Arthur Napoleão, s.d.).
Mário de Andrade é tocado tanto pela música quanto pelos versos 53 a 55 do canto IV das
Geórgicas, ali transcritos e traduzidos. Marca o dedilhado na pauta e sua invenção une Virgílio
ao Rubáiyat de Omar Kháyyám.
Poesias completas e a escritura interrompida
Depois de sua volta a São Paulo, no começo do ano de 1941, e até a morte que o arrebata
em 25 de fevereiro de 1945, impressiona o número de obras e projetos aos quais o polímata se
entrega. No circuito da poesia, o arquivo dele mantém três importantes títulos em versões
completas, à beira da publicação.[24] São eles: Café, “concepção melodramática” a partir da
ideia esboçada por volta de 1933, ou mesmo antes; O carro da Miséria, obra silenciada na
década anterior; e a Lira paulistana, prendendo-se especialmente à cidade microcosmo da
qual, em verdade, os versos de Mário de Andrade nunca se tinham afastado, desde Pauliceia
desvairada, em 1922.
Café configura-se “concepção melodramática”, na vereda aberta pelo poeta músico no
oratório profano AS ENFIBRATURAS DO IPIRANGA, em Pauliceia desvairada. Salvo em dois trechos
que contemplam melodias folclóricas, a música não é grafada em pentagrama, como no
oratório de 1922; distribui-se na sonoridade dos versos e nas determinações escritas,
servindo, naquele momento, à poesia que se arroja na denúncia das injustiças sociais. Na
carta ao crítico Antonio Candido, um dos primeiros leitores do manuscrito, Mário externa, em
18 de janeiro de 1943, a consciência dos percalços da própria escritura (ou de sua dimensão
transdisciplinar):
O que está feito, embora reconhecendo que em muitas partes principalmente do poema, eu “sinta” definitivo: é
apenas uma redação para governo e trabalho do compositor. Certamente ainda não é a obra, vaidosamente só
minha, que eu publicarei um dia, sem música, para os que me queiram ler.
Aliás, esta é uma das tragédias deste “caso”. Há uma “vaidade” no Café que até chega a me repugnar e de que talvez
eu seja castigado. É que se tratando de um libreto apenas, eu não devia ter dado aos meus textos o excesso de
cuidado artístico que dei. Eles se tornaram muito independentes, apesar das mil e uma intenções musicais a que
pude confortavelmente me sujeitar, por saber música o meu bocado. Quer ver um caso muito típico? É o CÂNONE DAS
ASSUSTADAS. Não há dúvida nenhuma que eu o fiz com pura intenção musical, sujeitando-o a cortes rítmicos tais que
obrigam a entrada canônica das três vozes corais femininas, consecutivamente cantando a mesma melodia. Mas o
diabo é que, meu Deus! eu sei música! De maneira que em vez de eu fornecer um texto qualquer, uma pobre
quadrinha em redondilhas, de que um compositor inventasse de supetão a ideia polifônica de um cânone, porque a
melodia dele, só dele, se prestava a isso, eu usurpei o valor exclusivamente musical do cânone, a sua
expressividade psicológica e pus isso no meu texto! O texto é que ficou canônico! No texto é que as palavras se
assustam, montam umas sobre as outras, correm ofegantes. E a conclusão deplorável que sou obrigado
honestamente a reconhecer é que, em vez de eu auxiliar o compositor como devia, eu roubei ele. Nada implica mais
que o compositor possa tirar um cânone bom do meu texto. Pelo contrário: o mais provável é que o cânone musical
esteja definitivamente prejudicado. É uma coisa por demais sabida que não são os textos melhores que provocam as
melhores músicas. Principalmente em música teatral, cuja audibilidade textual é muito incorreta. Mas o pior não é
isto. É eu ter provavelmente sugado a musicalidade da música, a pondo no meu texto.[25]
Em 1942, conforme os manuscritos, o escritor trabalha com afinco em sua ópera. Em 1929,
antes do estouro da crise mundial, o tema das vicissitudes da produção paulista do café
fecundara-lhe a criação. Tendo parentes e amigos fazendeiros, sabia dos privilégios da
aristocracia cafeeira e da inquietação dela com as condições climáticas ou mercadológicas;
testemunhava a pobreza e a sujeição dos colonos. Iniciara o romance Café que desnuda as
contradições sociais no mergulho na psicologia das personagens, e deveria culminar na
revolução de 1930, conforme uma nota de planejamento. A escritura dessa narrativa cessa,
porém, em 1942, após várias interrupções. A ideia de revolução, transplantada para um tempo
e um país não especificados, conquista autonomia na ópera por meio da luta que legitima um
mundo novo e arrasa a secular servidão na sociedade de classes. Este gênero, por associar
música ao entrecho dramático, revela-se eficaz para a ampliação da mensagem revolucionária
do artista nas pegadas, talvez, do Nabucodonosor de Verdi:
Drama? Melodrama? Tragédia lírica?... Mas eu carecia da apoteose... A minha intenção não era, nunca fora
livremente estética desde as primeiras preocupações que me tomaram com intenção criadora. Eu carecia da
apoteose como uma definição que era. Enfim, se tratava muito conscientemente de um aproveitamento dos valores
estéticos da beleza para criar uma obra-de-arte que iria servir de lição. E uma lição, eu imaginava, tão intencional
que devia se tornar bem clara, bem legível e principalmente bem impregnante. E aqui interferiam os valores
impressionantes da ópera, os seus valores sensuais, que eu não me preocupava aristocraticamente de recusar. Pelo
contrário: eu precisava deles. Eu pretendia me utilizar deles. Não só a lição do enredo tinha de ser fácil, não só os
textos claros, mas a música fácil e clara também. Música, não banal como certo melodismo italiano, não baixa e
aviltantemente sensual como tanto Massenet e tanto Puccini, mas fácil, franca, popular, que o povo saísse cantando e
assobiando na rua.[26]
Café não se consubstancia, contudo, na música do compositor escolhido pelo poeta. O
processo criativo da ópera, exposto nas cartas a Francisco Mignone, não chega à partitura.
O carro da miséria, poema longo — 353 versos —, escrito pela primeira vez em 24 de
dezembro de 1930, retomado em 11 de outubro de 1932 e 26 de dezembro de 1942,[27]
remanesce inédito em 1945. Assim é, devido a uma certa prudência do autor, consciente de
que, na vigência do Estado Novo, o peso político do texto açularia a repressão. Na carta de 5
de janeiro de 1944 ao amigo Alphonsus de Guimaraens Filho, Mário justifica a ausência no
livro de 1941: “é impublicável, por isso não saiu nas Poesias, eu tomava cadeia decerto.”[28]
No mesmo ano de 1944, em seu ENSAIO DE INTERPRETAÇÃO DE O carro da miséria, classifica o
texto como “interessado”, nascido de “preocupações políticas, sociais, nacionais de função
imediata”, e paradoxalmente “hermético”, mesclado a questões pungentes do eu lírico.
Arremata a análise: “E eu creio, como também Manuel Bandeira, que O carro da Miséria
contém alguns dos versos mais bonitos que já inventei.”[29]
O lirismo amargo, a consciência das contradições sociais e da inelutável solidão do homem
crescem na poesia mariodeandradiana no correr dos anos; desvencilham-se da contingência
do modernismo. O caderninho que, em 6 de maio de 1933, recebera, em sua primeira página,
o poema CÂNTICO, torna-se espaço da escritura de Lira paulistana, em 1944-1945. Pela
exploração do tema da alma lacerada do homem na cidade moderna, CÂNTICO teria pertencido
ao conjunto dos textos em “A COSTELA DO GRÃ CÃO” e ficara ali reservado quando da montagem
de Poesias, em 1941, porque suscitara um novo projeto, esboçado nas linhas restantes da
página e no verso dela. Nele ressoam matrizes evocadas em leituras, anunciando a
apropriação. São Paulo, não mais Pauliceia, redesenha-se na cidade do poeta medieval
Martim Codax, no primeiro documento do processo criativo da Lira:

(Uma série de poemas duma grande pureza de expressão, duma allure de epitáfio grego, parecidos com os poemas
maoris e outros do livro de Radin, Primitive Man as Philosopher pgs 110 e ss; 117 e ss; nas invocações invocando
coisa paulistana como Marinetti, viaduto etc. e no entanto demonstrando um sentimento absolutamente livre da
contemporaneidade) Entre os jograis galegos o Martim Codax tem poemas deliciosos, a imitar, como:

“Ondas do mar de Vigo
Se vistes meu amigo
E ay Deus se verra cedo!

Ondas do mar levado
Se vistes meu amado
E ay Deus se verra cedo!”

(e nas demais canções (Rev. Lusitana, vol. 29, 1931) fala sempre em Vigo). “A La igreja de Vigo”, por ex.

(Pela data do CÂNTICO, no verso, se vê que a 1ª ideia da Lira paulistana é 1933)

A carta a Henriqueta Lisboa, no dia 3 de agosto, 1944, avaliza, nesse documento, a gênese
da Lira paulistana:

A Oneida Alvarenga me pediu as minhas notas e fichas sobre danças dramáticas aqui do sul [...], fui remexer na
minha papelada sobre isso e topei com uma nota num caderno antigo, nota de quase dez anos atrás, em que eu dizia
ser possível aproveitar pra uns poemas de São Paulo os processos poéticos do trovadorismo ibérico. Principalmente
os paralelísticos. Nada disto estava na nota que só dizia fazer uns versos à-la-manière-de o jogral Martim Codax, que
nasceu em Vigo e cita a cidade natal em várias canções dele. E citava:

“Ondas do mar de Vigo
Se vistes meu amigo
E ay Deus, se verra cedo!”

Outra nota acrescentava reler uns poemas maoris citados por Paul Radin no seu estudo sobre Primitive Man as
Philosopher. Nunca pude fazer o que pretendia e nunca forcei, como é meu costume. Uma vez, me lembro, veio um
rebate falso, saíram umas quadrinhas soltas que depois joguei fora. Pois desta vez bastou reler a nota. Os poemas
vinham feitos, aos três, aos dois, e passei uns dez dias miraculosos de ventura criadora. Bom, nesse sentido é que eu
digo que esses poemas são meus. Hei-de publicar A lira paulistana em livro. Mesmo os seus poemas mais violentos.
Martim Codax sugeriu dois poemas, um dos cantos maoris quase que traduzi nos sete primeiros versos do poema
que principia “Tua imagem se apaga em certos bairros”, pelo menos, se não traduzi as frases, transpus a ideia;
engraçado: sai a sátira a São Paulo bem à-la-manière de Gregório de Matos, inesperadamente, sem a menor
intenção preliminar de fazer isso; e desenvolvi o processo paralelístico de pensar, não só nas suas consequências
folclóricas “Minha viola bonita — Bonita viola minha”, como de outras maneiras que talvez sejam só minhas.[30]
Além disso, as cogitações do poeta que, a partir de sua Lira, vincam, na mesma missiva, os
conceitos de poesia social e poesia de circunstância, denotam, em Mário de Andrade, a plena
consciência da sua estratégia modernista dos anos de 1920. Ainda que extensas, vale a pena
transcrevê-las, uma vez que envolvem as escolhas do autor e a proposta da atual edição de
Poesias completas:
Pra esclarecer, eu acho que não se deve chamar de poesia “social” a que tem preocupações com a coletividade.
Porque toda poesia, toda obra-de-arte é “social”, porque, mesmo se preocupando exclusivamente com as reações
pessoais do artista, interessa à coletividade. Muito embora não cante, não se preocupe com a coletividade. O que em
geral andamos por aí chamando de poesia social, é poema de circunstância, é arte de combate. Veja bem como esta
simples mudança de nome esclarece as coisas e determina as posições. Há uma arte, há um gênero de arte,
ponhamos gênero Casa Sucena, gênero marchinha de carnaval, que tem como caráter essencial o funcionamento
imediato e transitório. Tão nobre, como gênero, como qualquer outro gênero. Este gênero “de circunstância” pode da
mesma forma que qualquer outro provocar coisas eterníssimas e geniais. Afinal das contas, certas xingações e
vinganças de Dante, no “Inferno”, são tão sublimes como o “To be or not to be” que eu aliás não gosto muito, ou a
Capela Sistina. Eu que jamais publiquei em livro poesia minha que não fosse “fatalizada”, desque concebida a
transitoriedade na obra “de combate”, publico sem a menor hesitação, numa revista ou jornal, um poema não
fatalizado, escrito “de propósito”. Não em livro porém. É o caso de A TAL por exemplo, que fez bastante barulho, mas
que nunca tive intenção nem desejo de publicar nas futuras Poesias completas. Mas nestas virão O café e A lira
paulistana, não hesito nem há dúvida.[31]





Poesias completas, até onde?


Três conjuntos compostos por Mário de Andrade relativos à sua poesia anterior ao
modernismo e um com poemas engendrados entre 1924 e 1933 demonstram uma tentativa do
escritor de recuperar seu passado poético.
A correspondência de Mário com Manuel Bandeira historia, em outubro de 1925, a formação
do primeiro conjunto, cercando títulos, a maioria anteriores à publicação de Há uma gota de
sangue em cada poema, em 1917. No dia 4 daquele mês, o poeta paulistano pede a leitura
franca do confrade para o “livrinho” manuscrito que lhe remete, contando com a devolução.
Relembra os primórdios de sua criação e refere-se particularmente a sonetos, bem como aos
poemas intitulados SABIÁ e mais UM DELES:
Primeiros versos que fiz, não me lembro se com treze ou quatorze anos, foram acolhidos com gargalhadas de todos
e, o que é pior, com inteira desatenção dele [do pai] e um muxoxo desprezivo. Nunca mais fiz nada até mais de vinte,
convencido de que não era coisa nenhuma. De supetão, em 1913, época de doença grave, que quase me matou,
neurastenia aguda devido a excesso de estudos de piano e morte de irmão que eu queria sobre todos, principiei a
versificar. Fiz montões de porcarias que não mostrava a ninguém certo de que aquilo devia ser porcariada grossa. No
entanto, no íntimo vibrava como um maluco diante dos meus sonetos. Fazia três até mais por dia, nas épocas de
grande efervescência. Desses milhares de versos este livrinho ficou. Todo o resto eu ia destruindo aos poucos. Leia e
volte porque não tenho cópia e me interessa guardar. São na quase totalidade anteriores ao Há uma gota. Você há-
de ter curiosidade de ler isso. Alguns sonetos valem. Diga quais te parecem valer. Confrontarei nossas opiniões.
Talvez um dia publicando certos poemas de todas as épocas que não têm possibilidade de aparecer dentro dos
meus livros que têm sempre assuntos determinados, incluirei alguns desses versos metrificados, sonetos e o SABIÁ e
mais UM DELES. O resto: morte sem piedade. Reflita por escrito no próprio livro, não faz mal e não cansará.[32]
No dia 10, a análise de Bandeira descobre, no “caderno”, ÉCOGLA, MINHA EPOPEIA, NEVROSE
AO LUAR, BALADA DA ÚLTIMA PRINCESA, ALEGRIA PRAIANA, quadrinhas de que destaca trechos e o
citado SABIÁ. Aplaude e transcreve versos da CANÇÃO DE SOLDADO que, aliás, havia saído no
tabloide do bairro de Sant’Ana, O Fanal, em 20 de outubro, 1922, conforme o álbum “Recortes
III”, no arquivo Mário de Andrade. O caderno não mais existe e, com ele, NEVROSE AO LUAR e
SABIÁ, pelo menos com estes títulos, desapareceram. Os outros títulos certamente ganham
novas versões, por meio de variantes, como acontecia com todo e qualquer texto, a cada
passar a limpo do scriptor. Em dois momentos na década de 1940, as versões nesse primeiro
conjunto diversificam-se nas cópias datilografadas com alterações, formando conjuntos para
Murilo Miranda e Oneyda Alvarenga. ALEGRIA PRAIANA torna-se CANÇÃO MARINHA; ao perder o
verso “A alegria que aparece”, transforma-se em PRAIEIRA ou PRAIANA, conforme a versão no
bloco preparado para Murilo ou Oneyda.
O segundo conjunto, “POESIAS ANTERIORES A 1919 E ÀS PESQUISAS MODERNISTAS”, consiste na
seleta com 14 textos, estruturada, sob esse título, para número da Revista Acadêmica do Rio
de Janeiro, comemorativo dos 50 anos de Mário de Andrade, em outubro de 1943. Para isso, o
homenageado monta o projeto dividido em “POESIA”, “PROSA DE FICÇÃO”, “POLÊMICA”, “SÁTIRA” e
“CRÍTICA” — de pintura, cinema, poesia e música. Na primeira parte entram: “1. ‘Fiori-de-la-pá’
(1906-7)/ 2. Sonetos anteriores a Pauliceia (1914-19)/ 3. ÚLTIMOS VERSOS-CAFÉ (1942 – trecho).”

Em 1º de agosto, Murilo Miranda inteira-se do plano:
Poesias anteriores a 1919 e às pesquisas modernistas. (É quase tudo inédito, creio que só tem três poesias
publicadas, duas pela Acadêmica mesmo, e uma pela Garoa, revisteco inachável daqui. Como não pretendo
republicar isso em parte nenhuma, quem quiser ter curiosidade só na Acadêmica mesmo. Você escolherá o que
quiser, mas eu confesso que, no caso de publicar, preferia que fosse tudo, pra ficar como documentação definitiva,
aumentando provavelmente o valor bibliográfico do número.)[33]
Como a homenagem não se concretiza, o escritor resguarda o dossiê Revista Acadêmica
entre seus manuscritos.
O terceiro conjunto — “POESIAS ANTERIORES a 1917” —, confiado a Oneyda Alvarenga, totaliza
também 14 textos; ao lado de textos exclusivos, repete alguns poemas dos conjuntos
anteriores, com variantes nos versos. Foi abrigado pelo autor na pasta “VI/ A/ COSTELA/ DO/ GRÃ
CÃO”, reaproveitada de manuscritos descartados, após a edição de Poesias, em 1941.
O quarto conjunto, também oferecido a Oneyda Alvarenga e por ela recambiado ao arquivo
de Mário depois da morte dele, habita a pasta improvisada com uma folha dupla de papel
almaço. No primeiro anverso, o título a tinta “POESIAS” está acrescido do destinatário “Oneida”,
a grafite. No anverso da segunda folha, a denominação primitiva datiloscrita e riscada, “I/
ANTES DA PAULICEIA DESVAIRADA”, autoriza a hipótese pela qual um projeto mais amplo teria sido
cogitado para Poesias completas, precedendo a doação à musicóloga, por volta de 1944,
segundo ela. Em dezembro de 1960, na Revista do Livro, Oneyda Alvarenga organiza, como
POESIAS MALDITAS, os dois conjuntos recebidos do amigo. Na oportunidade esclarece:
No início de 1944, Mário de Andrade me deu os 24 poemas e a série de quadras que ora publico, acompanhando-os
de uma explicação mais ou menos assim: não achava esses versos merecedores de publicação, mas também não
tinha coragem de destruí-los; eram meus. [...] A exclusão que impediu a esses poemas a vida em letra de forma e o
ingresso nas Obras Completas não tirou ao presente o seu único possível e claríssimo sentido: Se você achar que
valha a pena, publique um dia esses versos, quando houver um momento adequado.[34]
A declaração da legatária dos documentos condiz com a afirmação de Mário de Andrade a
Manuel Bandeira, em 1925, sobre a sua possibilidade, ainda que remota, de publicar “certos
poemas de todas as épocas”. Em 1943, revigora-se com a amostragem da produção anterior a
Pauliceia desvairada, tracejada para a Revista Acadêmica; e com a adição, ao exemplar de
trabalho de Poesias, dos poemas OBSESSÃO e ASSUSTADO, já referidos, cuja escritura, em 1921
e 1922, coincide com a redação de Pauliceia desvairada; adição que sugere a abertura para
Poesias completas, como já se aventou, no presente estudo. Em 17 de fevereiro, 1944, instala-
se, nessa chave, o plano para Obra imatura, volume I das Obras Completas, veiculado pelo
Diário de S. Paulo. Arrola: “Introdução às Obras Completas (inédito); HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM
CADA POEMA; Contos selecionados do Primeiro andar e A escrava que não é Isaura”; além de
“um grupo de sonetos inéditos, anteriores ao primeiro volume de versos, bem como as ainda
i nédi tas CENAS INFANTIS, sobre as peças de Schumann do mesmo nome e escritas em
1920.”[35] O plano é validado, com exceção dos sonetos e das CENAS INFANTIS, na relação dos
títulos de Mário de Andrade previstos para as Obras Completas estampada, em 1944, no
volume VIII, Pequena história da música.[36]
Em janeiro desse ano de 1944, entrevistado por Jussieu da Cunha Batista, o escritor deixa
claro que a resolução tomada em 1917, em nome do “ideal do artista não-conformista” —
estrear, em meio à Grande Guerra, com o livro pacifista Há uma gota de sangue em cada
poema —, preterira versos “mais belos, mais ‘estéticos’ e muito mais gratuitos”. Faz com que
se pense que a escolha exclusiva desse volume para representar a poesia em Obra imatura
tenha correspondido, novamente, a uma estratégia (ou a uma imposição editorial).[37] O fato é
que Há uma gota de sangue em cada poema, bem como o conjunto da Obra imatura,
exprimem, acima de tudo, a criação literária que não teme a própria história. Nessa direção, o
adjetivo “imatura” espelha o amadurecimento da poesia em busca da modernidade não só ao
eleger um tema atual, como no estilo e no emprego de algumas palavras do português falado
no Brasil. No jovem poeta pontificam, entre outros arrojos, orações curtas, quase telegráficas, a
onomatopeia e versos finalizados com reticências, preludiando o verso harmônico da polifonia
poética em Pauliceia desvairada. “Imatura” serve também para batizar o volume que, na prosa
de ficção, refunde contos antigos e aceita versões de contos ainda não ultimados.
“Poemas de todas as épocas”
Poeta fértil, sempre atento à própria “impulsão lírica”, Mário de Andrade semeia versos em
fólios, cadernos e caderninhos; nas margens e folhas brancas em suas leituras; mistura-os a
suas cartas. Encaminha poemas a jornais e revistas; mais tarde, este ou aquele entra em seus
livros. Escritor difícil para sua época, precisou pagar, com suas economias, a primeira tiragem
de todos os seus títulos de poesia e ficção. Artista devotado à estratégia de seus projetos
renovadores, obrigou-se a escolher e a engavetar o que lhe sobrava do exame pontual de
cada texto. O interesse em difundir, “talvez um dia”, “poemas de todas as épocas” responde
pelo ato de amealhar o que pudesse caber em uma edição mais abrangente de suas Poesias
completas. Quão completa seria se o autor a tivesse concretizado?
O livro póstumo em 1955, Poesias completas, na coleção pela Livraria Martins Editora,
incorporou Pauliceia desvairada, 1922, Losango cáqui ou afetos militares de mistura com os
porquês de eu saber alemão, 1926, Clã do jabuti, 1927 e Remate de males, 1930, sem levar
em conta Poesias, 1941. Cumpriu o projeto do autor de unir o que ele divulgara em livros aos
inéditos Café, Lira paulistana e O carro da Miséria. Estes últimos já haviam sido objeto de
publicação em 1946, um ano após o seu falecimento, passadas as condições políticas
adversas.
O exame do texto em Lira paulistana seguida de O carro da Miséria e em Poesias
completas, assim como nas reedições destas, detecta problemas quanto à fidelidade. Urgiam
portanto, uma criteriosa recuperação do projeto literário jacente em cada título e a correção dos
desvios, o que significa, sem dúvida, análise e interpretação. A retomada foi o escopo da atual
edição que buscou compreender a invenção poética de Mário de Andrade nos manuscritos e
nas edições em vida, assim como em sua correspondência, em seu jornalismo e em sua
marginália, no compromisso de devolver a integridade ao texto.
A diligência de esquadrinhar o arquivo, a biblioteca, a correspondência ativa e passiva de
Mário de Andrade publicada, a produção dele nos periódicos literários e na grande imprensa,
com a finalidade de recompor trajetos, conseguir outras versões da poesia conhecida nos
livros e, dessa forma, melhor entender a criação do poeta, abriu esta nova edição para a
perspectiva documental complementar, inaugurada por Diléa Zanotto Manfio em sua edição
crítica de Poesias completas.
Na ausência de um plano que materializasse um alargamento, e ciente do absurdo de um
trabalho editorial inventar a “vontade do autor”, a atual edição de Poesias completas
desdobrou-se em um 2º volume que reúne transcrições e fac-símiles. Esse volume extra
advém do desejo de compartilhar os resultados de uma pesquisa demorada e minuciosa que
coligiu documentos externos aos livros, procurando apreender a vasta e multíplice produção
poética. Concorda inteiramente com Oneyda Alvarenga:
A posição que Mário de Andrade ocupa na literatura brasileira, a esta altura já confere a tudo quanto ele escreveu,
pelo menos um valor de documento necessário ao exame dos seus caminhos intelectuais e artísticos.[38]
E sabe ser tarefa impossível consumar algo como Poesias completíssimas.
Desse modo, o leitor do segundo volume entra em contato com documentos concernentes
aos livros publicados por Mário de Andrade e a obras póstumas; com os textos estabelecidos
de poesias inéditas e esparsas, em conjuntos reunidos pelo autor, em títulos retirados de
jornais e revistas; da correspondência, da marginália e em dossiês de manuscritos. Poderá
acompanhar elos expressivos na criação poética. Por exemplo, surpreender, na CANÇÃO DE
SOLDADO, um primeiro momento na gênese não só do poema PARADA, de sofisticada
elaboração modernista, como do próprio Losango cáqui.[39] Ou flagrar, na folha de guarda do
Frei Luís de Sousa/Um auto de Gil Vicente de Almeida Garrett, em uma edição bastante
antiga, a primeira versão do soneto ARTISTA, que foi parar no PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO de
Pauliceia desvairada. E descobrir a faceta do poeta tradutor — de si mesmo e do chileno
Arturo Torres-Rioseco.
Esta edição
O estabelecimento do texto de Poesias completas pautou-se pelo cotejo das edições em
vida com os exemplares de trabalho e com as versões de poemas em manuscritos ou
existentes em periódicos e na correspondência. Tomou como textos-base o manuscrito
configurado no exemplar de trabalho de Poesias, em tudo o que não feriu o modernismo
estratificado nas edições princeps, que fundamentam a poesia de circunstância, determinante
no projeto literário modernista de Mário de Andrade, no período 1922-1930. A presente edição
aprovou integralmente, na edição de 1941, as variantes relativas à alteração da pontuação e
da ortografia de “oiro” e “doirado” para “ouro” e “dourado”, considerando o ritmo da frase e a
sonoridade. Viu-se, também, no dever de acatar a totalidade dos textos porque Poesias, como
seleta que é, suprimiu títulos constantes das primeiras edições. E de absorver o SONETO DO
HOMEM MORTO, que ingressou em Poesias, na série dos poemas escritos em Campos do
Jordão. Atendeu, outrossim, no caso dos inéditos Café, Lira paulistana e O carro da Miséria, à
última versão, evidente como tal, nos manuscritos, no arquivo do escritor.
Estas Poesias completas são uma edição fidedigna anotada que registra, em notas de
rodapé, as variantes mais significativas no confronto dos textos nas primeiras edições com os
textos em Poesias, e com aqueles em revistas, jornais e cartas.
Esta edição acata o vocabulário e a sintaxe que se manifestam, nos textos, na língua
portuguesa falada no país, enquanto artifício resultante da pesquisa empreendida por aquele
que construiu uma Gramatiquinha da fala brasileira, na qual destaca a tendência poética da
nossa fala.[40] Ao pôr em prática a atualização ortográfica dos textos pela norma vigente, não
se furtou a aceitar, paralelamente, a grafia fonética de determinadas palavras e expressões,
partilhando a preocupação com a prosódia e o sentido, o que, na parcela linguística do
nacionalismo do modernista, responde por idiossincrasias ortográficas. No tocante às palavras
estrangeiras, julgou que o fluxo da frase poética, na expressão do eu lírico, plasma formas
correntes no cotidiano brasileiro. Grafá-las em itálico seria produzir um distanciamento,
desfigurar o universo autônomo da poesia.
Esta edição agradece a colaboração recebida da Profª. Flávia Camargo Toni, dos
pesquisadores Aline Novais de Almeida, Marina Damasceno de Sá, Paulo José da Silva
Cunha, e, especialmente, do Prof. Marcos Antonio de Moraes.[41]







PAULICEIA DESVAIRADA[42]
dezembro de 1920 A dezembro de 1921



A MÁRIO DE ANDRADE[43]

Mestre querido.

Nas muitas horas breves que me fizestes ganhar
a vosso lado dizíeis da vossa confiança pela arte
livre e sincera... Não de mim, mas de vossa
experiência recebi a coragem da minha Verdade
e o orgulho do meu Ideal.
Permiti-me que ora vos oferte este livro que
de vós me veio. Prouvera Deus! nunca vos
perturbe a dúvida feroz de Adriano Sixte...
Mas não sei, Mestre, se me perdoareis a distância
mediada entre estes poemas e vossas altíssimas
lições... Recebei no vosso perdão o esforço
do escolhido por vós para único discípulo;
daquele que neste momento de martírio muito
a medo inda vos chama o seu Guia, o seu Mestre,
o seu Senhor.

Mário de Andrade • São Paulo, 14 de dezembro de 1921
PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO[44]

Dans mon pays de fiel et d’or
j’en suis la loi.
E. Verhaeren
Leitor:
Está fundado o Desvairismo.

Este prefácio, apesar de interessante, inútil.

Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões. Para quem me aceita são inúteis ambos. Os
curiosos terão prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para quem
me rejeita trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou.

Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita.
Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste
PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO.

Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague, onde principia a seriedade. Nem
eu sei.

E desculpe-me por estar tão atrasado dos movimentos artísticos atuais. Sou passadista,
confesso. Ninguém pode se libertar duma só vez das teorias-avós que bebeu; e o autor deste
livro seria hipócrita se pretendesse representar orientação moderna que ainda não
compreende bem.

Livro evidentemente impressionista.
Ora, segundo modernos, erro grave o Impressionismo.
Os arquitetos fogem do gótico como da arte nova, filiando-se, para além dos tempos históricos,
nos volumes elementares: cubo, esfera, etc. Os pintores desdenham Delacroix como Whistler,
para se apoiarem na calma construtiva de Rafael, de Ingres, do Greco. Na escultura Rodin é
ruim, os imaginários africanos são bons. Os músicos desprezam Debussy, genuflexos diante
da polifonia catedralesca de Palestrina e João Sebastião Bach. A poesia...
“tende a despojar o homem de todos os seus aspectos contingentes e efêmeros, para apanhar
nele a humanidade”... Sou passadista, confesso.

“Este Alcorão nada mais é que uma embrulhada de sonhos confusos e incoerentes. Não é
inspiração provinda de Deus, mas criada pelo autor. Maomé não é profeta, é um homem que
faz versos. Que se apresente com algum sinal revelador do seu destino, como os antigos
profetas”. Talvez digam de mim o que disseram do criador de Alá. Diferença cabal entre nós
dois: Maomé apresentava-se como profeta; julguei mais conveniente apresentar-me como
louco.

Você já leu São João Evangelista? Walt Whitman? Mallarmé? Verhaeren?

Perto de dez anos metrifiquei, rimei. Exemplo?
ARTISTA
O meu desejo é ser pintor – Lionardo,
cujo ideal em piedades se acrisola;
fazendo abrir-se ao mundo a ampla corola
do sonho ilustre que em meu peito guardo...
Meu anseio é, trazendo ao fundo pardo
da vida, a cor da veneziana escola,
dar tons de rosa e de ouro, por esmola,
a quanto houver de penedia ou cardo.
Quando encontrar o manancial das tintas
e os pincéis exaltados com que pintas,
Veronese! teus quadros e teus frisos,
irei morar onde as Desgraças moram;
e viverei de colorir sorrisos
nos lábios dos que imprecam ou que choram![45]

Os srs. Laurindo de Brito, Martins Fontes, Paulo Setúbal, embora não tenham evidentemente a
envergadura de Vicente de Carvalho ou de Francisca Júlia, publicam seus versos. E fazem
muito bem. Podia, como eles, publicar meus versos metrificados.

Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. Tenho pontos de contato com o futurismo.
Oswald de Andrade, chamando-me de futurista, errou. A culpa é minha. Sabia da existência do
artigo e deixei que saísse. Tal foi o escândalo, que desejei a morte do mundo. Era vaidoso.
Quis sair da obscuridade. Hoje tenho orgulho. Não me pesaria reentrar na obscuridade.
Pensei que se discutiriam minhas ideias (que nem são minhas): discutiram minhas intenções.
Já agora não me calo. Tanto ridicularizariam meu silêncio como esta grita. Andarei a vida de
braços no ar, como o Indiferente de Watteau.

“Alguns leitores ao lerem estas frases (poesia citada) não compreenderam logo. Creio mesmo
que é impossível compreender inteiramente à primeira leitura pensamentos assim
esquematizados sem uma certa prática. Nem é nisso que um poeta pode queixar-se dos seus
leitores. No que estes se tornam condenáveis é em não pensar que um autor que assina não
escreve asnidades pelo simples prazer de experimentar tinta; e que, sob essa extravagância
aparente havia um sentido porventura interessantíssimo, que havia qualquer coisa por
compreender”. João Epstein.

Há neste mundo um senhor chamado Zdislas Milner. Entretanto escreveu isto: “O fato duma
obra se afastar de preceitos e regras aprendidas, não dá a medida do seu valor”. Perdoe-me
dar algum valor a meu livro. Não há pai que, sendo pai, abandone o filho corcunda que se
afoga, para salvar o lindo herdeiro do vizinho. A ama-de-leite do conto foi uma grandíssima
cabotina desnaturada.

Todo escritor acredita na valia do que escreve. Se mostra é por vaidade. Se não mostra é por
vaidade também.

Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres.

O ridículo é muitas vezes subjetivo. Independe do maior ou menor alvo de quem o sofre.
Criamo-lo para vestir com ele quem fere nosso orgulho, ignorância, esterilidade.

Um pouco de teoria?
Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou
confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com
acentuação determinada.
Entroncamento é sueto para os condenados da prisão alexandrina. Há porém raro exemplo
dele neste livro. Uso de cachimbo...

A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer empecilho a perturba e mesmo emudece. Arte, que,
somada a Lirismo, dá Poesia,[46] não consiste em prejudicar a doida carreira do estado lírico
para avisá-lo das pedras e cercas de arame do caminho. Deixe que tropece, caia e se fira. Arte
é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas, de sentimentalidades românticas, de
pormenores inúteis ou inexpressivos.

Que Arte não seja porém limpar versos de exageros coloridos. Exagero: símbolo sempre novo
da vida como do sonho. Por ele vida e sonho se irmanam. E, consciente, não é defeito, mas
meio legítimo de expressão.

“O vento senta no ombro das tuas velas!” Shakespeare.
Homero já escrevera que a terra mugia debaixo dos pés de homens e cavalos. Mas você deve
saber que há milhões de exageros na obra dos mestres.

Taine disse que o ideal dum artista consiste em “apresentar, mais que os próprios objetos,
completa e claramente qualquer característica essencial e saliente deles, por meio de
alterações sistemáticas das relações naturais entre as suas partes, de modo a tornar essa
característica mais visível e dominadora”. O sr. Luís Carlos, porém, reconheço que tem o direito
de citar o mesmo em defesa das suas “Colunas”.

Já raciocinou sobre o chamado “belo horrível”? É pena. O belo horrível é uma escapatória
criada pela dimensão da orelha de certos filósofos para justificar a atração exercida, em todos
os tempos, pelo feio sobre os artistas. Não me venham dizer que o artista, reproduzindo o feio,
o horrível, faz obra bela. Chamar de belo o que é feio, horrível, só porque está expressado com
grandeza, comoção, arte, é desvirtuar ou desconhecer o conceito da beleza. Mas feio =
pecado... Atrai. Anita Malfatti falava-me outro dia no encanto sempre novo do feio. Ora Anita
Malfatti ainda não leu Emílio Bayard: “O fim lógico dum quadro é ser agradável de ver. Todavia
comprazem-se os artistas em exprimir o singular encanto da feiura. O artista sublima tudo”.

Belo da arte: arbitrário, convencional, transitório – questão de moda. Belo da natureza:
imutável, objetivo, natural – tem a eternidade que a natureza tiver. Arte não consegue
reproduzir natureza, nem este é seu fim. Todos os grandes artistas, ora consciente (Rafael das
Madonas, Rodin do Balzac, Beethoven da Pastoral, Machado de Assis do Brás Cubas), ora
inconscientemente (a grande maioria) foram deformadores da natureza. Donde infiro que o
belo artístico será tanto mais artístico, tanto mais subjetivo quanto mais se afastar do belo
natural. Outros infiram o que quiserem. Pouco me importa.

Nossos sentidos são frágeis. A percepção das coisas exteriores é fraca, prejudicada por mil
véus, provenientes das nossas taras físicas e morais: doenças, preconceitos, indisposições,
antipatias, ignorâncias, hereditariedade, circunstâncias de tempo, de lugar, etc... Só
idealmente podemos conceber os objetos como os atos na sua inteireza bela ou feia. A arte
que, mesmo tirando os seus temas do mundo objetivo, desenvolve-se em comparações
afastadas, exageradas, sem exatidão aparente, ou indica os objetos, como um universal, sem
delimitação qualificativa nenhuma, tem o poder de nos conduzir a essa idealização livre,
musical. Esta idealização livre, subjetiva, permite criar todo um ambiente de realidades ideais
onde sentimentos, seres e coisas, belezas e defeitos se apresentam na sua plenitude heroica,
que ultrapassa a defeituosa percepção dos sentidos. Não sei que futurismo pode existir em
quem quase perfilha a concepção estética de Fichte. Fujamos da natureza! Só assim a arte
não se ressentirá da ridícula fraqueza da fotografia... colorida.

Não acho mais graça nenhuma nisso da gente submeter comoções a um leito de Procusto
para que obtenham, em ritmo convencional, número convencional de sílabas. Já, primeiro
livro, usei indiferentemente, sem obrigação de retorno periódico, os diversos metros pares.
Agora liberto-me também desse preconceito. Adquiro outros. Razão para que me insultem?

Mas não desdenho balouços dançarinos de redondilhas e decassílabos. Acontece a comoção
caber neles. Entram pois às vezes no cabaré rítmico dos meus versos. Nesta questão de
metros não sou aliado; sou como a Argentina: enriqueço-me.

Sobre a ordem? Repugna-me, com efeito, o que Musset chamou:
“L’art de servir à point un dénouement bien cuit”.

Existe a ordem dos colegiais infantes que saem das escolas de mãos dadas, dois a dois.
Existe uma ordem nos estudantes das escolas superiores que descem uma escada de quatro
em quatro degraus, chocando-se lindamente. Existe uma ordem, inda mais alta, na fúria
desencadeada dos elementos.

Quem leciona História do Brasil obedecerá a uma ordem que, certo, não consiste em estudar a
guerra do Paraguai antes do ilustre acaso de Pedro Álvares. Quem canta seu subconsciente
seguirá a ordem imprevista das comoções, das associações de imagens, dos contatos
exteriores. Acontece que o tema às vezes descaminha.

O impulso lírico clama dentro de nós como turba enfuriada. Seria engraçadíssimo que a esta
se dissesse:
“Alto lá! Cada qual berre por sua vez; e quem tiver o argumento mais forte, guarde-o para o
fim!” A turba é confusão aparente. Quem souber afastar-se idealmente dela, verá o imponente
desenvolver-se dessa alma coletiva, falando a retórica exata das reivindicações.

Minhas reivindicações? Liberdade. Uso dela; não abuso. Sei embridá-la nas minhas verdades
filosóficas e religiosas; porque verdades filosóficas, religiosas, não são convencionais como a
Arte, são verdades. Tanto não abuso! Não pretendo obrigar ninguém a seguir-me. Costumo
andar sozinho.

Virgílio, Homero, não usaram rima. Virgílio, Homero, têm assonâncias admiráveis.

A língua brasileira é das mais ricas e sonoras.
E possui o admirabilíssimo “ão”.

Marinetti foi grande quando redescobriu o poder sugestivo, associativo, simbólico, universal,
musical da palavra em liberdade. Aliás: velha como Adão. Marinetti errou: fez dela sistema. É
apenas auxiliar poderosíssimo. Uso palavras em liberdade. Sinto que o meu copo é grande
demais para mim, e inda bebo no copo dos outros.

Sei construir teorias engenhosas. Quer ver?
A poética está muito mais atrasada que a música. Esta abandonou, talvez mesmo antes do
século 8, o regime da melodia quando muito oitavada, para enriquecer-se com os infinitos
recursos da harmonia. A poética, com rara exceção até meados do século 19 francês, foi
essencialmente melódica. Chamo de verso melódico o mesmo que melodia musical: arabesco
horizontal de vozes (sons) consecutivas, contendo pensamento inteligível.
Ora, se em vez de unicamente usar versos melódicos horizontais:
“Mnezarete, a divina, a pálida Frineia,
Comparece ante a austera e rígida assembleia
Do Areópago supremo...”[47]
fizermos que se sigam palavras sem ligação imediata entre si: estas palavras, pelo fato mesmo
de se não seguirem intelectual, gramaticalmente, se sobrepõem umas às outras, para a nossa
sensação, formando, não mais melodias, mas harmonias.
Explico melhor:
Harmonia: combinação de sons simultâneos. Exemplo:
“Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!...”
Estas palavras não se ligam. Não formam enumeração. Cada uma é frase, período elíptico,
reduzido ao mínimo telegráfico. Se pronuncio “Arroubos”, como não faz parte de frase
(melodia), a palavra chama a atenção para seu insulamento e fica vibrando, à espera duma
frase que lhe faça adquirir significado e QUE NÃO VEM. “Lutas” não dá conclusão alguma a
“Arroubos”; e, nas mesmas condições, não fazendo esquecer a primeira palavra, fica vibrando
com ela. As outras vozes fazem o mesmo. Assim: em vez de melodia (frase gramatical) temos
acorde arpejado, harmonia, – o verso harmônico.
Mas, se em vez de usar só palavras soltas, uso frases soltas: mesma sensação de
superposição, não já de palavras (notas) mas de frases (melodias). Portanto: polifonia poética.
Assim, em Pauliceia desvairada usam-se o verso melódico:
“São Paulo é um palco de bailados russos”;
o verso harmônico:
“A cainçalha... A Bolsa... As jogatinas...”;
e a polifonia poética (um e às vezes dois e mesmo mais versos consecutivos):
“A engrenagem trepida... A bruma neva...”
Que tal? Não se esqueça porém que outro virá destruir tudo isto que construí.
Para ajuntar à teoria:

Os gênios poéticos do passado conseguiram dar maior interesse ao verso melódico, não só
criando-o mais belo, como fazendo-o mais variado, mais comotivo, mais imprevisto. Alguns
mesmo conseguiram formar harmonias, por vezes ricas. Harmonias porém inconscientes,
esporádicas. Provo inconsciência: Victor Hugo, muita vez harmônico, exclamou depois de
ouvir o quarteto do Rigoletto: “Façam que possa combinar simultaneamente várias frases e
verão de que sou capaz”. Encontro anedota em Galli, Estética musical. Se non é vero...

Há certas figuras de retórica em que podemos ver embrião da harmonia oral, como na lição
das sinfonias de Pitágoras encontramos germe da harmonia musical. Antítese – genuína
dissonância. E se tão apreciada é justo porque poetas como músicos, sempre sentiram o
grande encanto da dissonância, de que fala G. Migot.

Comentário à frase de Hugo. Harmonia oral não se realiza, como a musical, nos sentidos,
porque palavras não se fundem como sons, antes baralham-se, tornam-se incompreensíveis. A
realização da harmonia poética efetua-se na inteligência. A compreensão das artes do tempo
nunca é imediata, mas mediata. Na arte do tempo coordenamos atos de memória
consecutivos, que assimilamos num todo final. Este todo, resultante de estados de consciência
sucessivos, dá a compreensão final, completa da música, poesia, dança terminada. Victor
Hugo errou querendo realizar objetivamente o que se realiza subjetivamente, dentro de nós.

Os psicólogos não admitirão a teoria... É responder-lhes com o SÓ-QUEM-AMA de Bilac. Ou com
os versos de Heine de que Bilac tirou o SÓ-QUEM-AMA. Entretanto: se você já teve por acaso na
vida um acontecimento forte, imprevisto (já teve, naturalmente) recorde-se do tumulto
desordenado das muitas ideias que nesse momento lhe tumultuaram no cérebro. Essas ideias,
reduzidas ao mínimo telegráfico da palavra, não se continuavam, porque não faziam parte de
frase alguma, não tinham resposta, solução, continuidade. Vibravam, ressoavam,
amontoavam-se, sobrepunham-se. Sem ligação, sem concordância aparente – embora
nascidas do mesmo acontecimento – formavam, pela sucessão rapidíssima, verdadeira
simultaneidade, verdadeiras harmonias acompanhando a melodia enérgica e larga do
acontecimento.

Bilac, Tarde, é muitas vezes tentativa de harmonia poética. Daí, em parte ao menos, o estilo
novo do livro. Descobriu, para a língua brasileira, a harmonia poética, antes dele empregada
raramente (Gonçalves Dias, genialmente, na cena da luta, I-JUCA-PIRAMA). O defeito de Bilac
foi não metodizar o invento; tirar dele todas as consequências. Explica-se historicamente seu
defeito: Tarde é um apogeu. As decadências não vêm depois dos apogeus. O apogeu já é
decadência, porque sendo estagnação não pode conter em si um progresso, uma evolução
ascensional. Bilac representa uma fase destrutiva da poesia; porque toda perfeição em arte
significa destruição. Imagino o seu susto, leitor, lendo isto. Não tenho tempo para explicar:
estude, se quiser. O nosso primitivismo representa uma nova fase construtiva. A nós compete
esquematizar, metodizar as lições do passado.
Volto ao poeta. Ele fez como os criadores do organum medieval: aceitou harmonias de quartas
e de quintas desprezando terceiras, sextas, todos os demais intervalos. O número das suas
harmonias é muito restrito. Assim,
“[...] o ar e o chão, a fauna e a flora,
a erva e o pássaro, a pedra e o tronco, os ninhos e a hera,
a água e o réptil, a folha e o inseto, a flor e a fera”
dá impressão duma longa, monótona série de quintas medievais, fastidiosa, excessiva, inútil,
incapaz de sugestionar o ouvinte e dar-lhe a sensação do crepúsculo na mata.[48]

Lirismo: estado afetivo sublime – vizinho da sublime loucura. Preocupação de métrica e de
rima prejudica a naturalidade livre do lirismo objetivado. Por isso poetas sinceros confessam
nunca ter escrito seus melhores versos. Rostand por exemplo; e, entre nós, mais ou menos, o
sr. Amadeu Amaral. Tenho a felicidade de escrever meus melhores versos. Melhor do que isso
não posso fazer.

Ribot disse algures que inspiração é telegrama cifrado transmitido pela atividade inconsciente
à atividade consciente que o traduz. Essa atividade consciente pode ser repartida entre poeta
e leitor. Assim aquele não escorcha e esmiúça friamente o momento lírico; e bondosamente
concede ao leitor a glória de colaborar nos poemas.

“A linguagem admite a forma dubitativa que o mármore não admite”. Renan.

“Entre o artista plástico e o músico está o poeta, que se avizinha do artista plástico com a sua
produção consciente, enquanto atinge as possibilidades do músico no fundo obscuro do
inconsciente”. De Wagner.

Você está reparando de que maneira costumo andar sozinho...

Dom Lirismo, ao desembarcar do Eldorado do Inconsciente no cais da terra do Consciente, é
inspecionado pela visita médica, a Inteligência, que o alimpa dos macaquinhos e de toda e
qualquer doença que possa espalhar confusão, obscuridade na terrinha progressista. Dom
Lirismo sofre mais uma visita alfandegária, descoberta por Freud, que a denominou Censura.
Sou contrabandista! E contrário à lei da vacina obrigatória.

Parece que sou todo instinto... Não é verdade. Há no meu livro, e não me desagrada,
tendência pronunciadamente intelectualista. Que quer você? Consigo passar minhas sedas
sem pagar direitos. Mas é psicologicamente impossível livrar-me das injeções e dos tônicos.

A gramática apareceu depois de organizadas as línguas. Acontece que meu inconsciente não
sabe da existência de gramáticas, nem de línguas organizadas. E como Dom Lirismo é
contrabandista...

Você perceberá com facilidade que se na minha poesia a gramática às vezes é desprezada,
graves insultos não sofre neste prefácio interessantíssimo. Prefácio: rojão do meu eu superior.
Versos: paisagem do meu eu profundo.

Pronomes? Escrevo brasileiro. Se uso ortografia portuguesa é porque, não alterando o
resultado, dá-me uma ortografia.

Escrever arte moderna não significa jamais para mim representar a vida atual no que tem de
exterior: automóveis, cinema, asfalto. Se estas palavras frequentam-me o livro não é porque
pense com elas escrever moderno, mas porque sendo meu livro moderno, elas têm nele sua
razão de ser.

Sei mais que pode ser moderno artista que se inspire na Grécia de Orfeu ou na Lusitânia de
Nun’Álvares. Reconheço mais a existência de temas eternos, passíveis de afeiçoar pela
modernidade: universo, pátria, amor e a presença-dos-ausentes, ex-gozo-amargo-de-infelizes.

Não quis também tentar primitivismo vesgo e insincero. Somos na realidade os primitivos
duma era nova. Esteticamente: fui buscar entre as hipóteses feitas por psicólogos, naturalistas
e críticos sobre os primitivos das eras passadas, expressão mais humana e livre de arte.

O passado é lição para se meditar, não para reproduzir.
“E tu che se’ costì, anima viva,
Pàrtiti da cotesti che son morti”.

Por muitos anos procurei-me a mim mesmo. Achei. Agora não me digam que ando à procura
da originalidade, porque já descobri onde ela estava, pertence-me, é minha.

Quando uma das poesias deste livro foi publicada, muita gente me disse: “Não entendi”.
Pessoas houve porém que confessaram: “Entendi, mas não senti”. Os meus amigos... percebi
mais duma vez que sentiam, mas não entendiam. Evidentemente meu livro é bom.

Escritor de nome disse dos meus amigos e de mim que ou éramos gênios ou bestas. Acho que
tem razão. Sentimos, tanto eu como meus amigos, o anseio do farol. Se fôssemos tão
carneiros a ponto de termos escola coletiva, esta seria por certo o “Farolismo”. Nosso desejo:
alumiar. A extrema-esquerda em que nos colocamos não permite meio-termo. Se gênios:
indicaremos o caminho a seguir; bestas: naufrágios por evitar.

Canto da minha maneira. Que me importa se me não entendem? Não tenho forças bastantes
para me universalizar? Paciência. Com o vário alaúde que construí, me parto por essa selva
selvagem da cidade. Como o homem primitivo cantarei a princípio só. Mas canto é agente
simpático: faz renascer na alma dum outro predisposto ou apenas sinceramente curioso e livre,
o mesmo estado lírico provocado em nós por alegrias, sofrimentos, ideais. Sempre hei-de
achar também algum, alguma que se embalarão à cadência libertária dos meus versos. Nesse
momento: novo Anfião moreno e caixa-d’óculos, farei que as próprias pedras se reúnam em
muralhas à magia do meu cantar. E dentro dessas muralhas esconderemos nossa tribo.

Minha mão escreveu a respeito deste livro que “não tinha e não tem nenhuma intenção de o
publicar”. Jornal do Comércio, 6 de junho. Leia frase de Gourmont sobre contradição: 1°
volume das Promenades littéraires. Rui Barbosa tem sobre ela página lindíssima, não me
recordo onde. Há umas palavras também em João Cocteau, La noce massacrée.

Mas todo este prefácio, com todo o disparate das teorias que contém, não vale coisíssima
nenhuma. Quando escrevi Pauliceia desvairada não pensei em nada disto. Garanto porém
que chorei, que cantei, que ri, que berrei... Eu vivo!

Aliás versos não se escrevem para leitura de olhos mudos. Versos cantam-se, urram-se,
choram-se. Quem não souber cantar não leia PAISAGEM N° 1. Quem não souber urrar não leia
ODE AO BURGUÊS. Quem não souber rezar, não leia RELIGIÃO. Desprezar: A ESCALADA. Sofrer:
COLLOQUE SENTIMENTAL. Perdoar: a cantiga do berço, um dos solos de Minha Loucura, das
ENFIBRATURAS DO IPIRANGA. Não continuo. Repugna-me dar a chave de meu livro. Quem for
como eu tem essa chave.

E está acabada a escola poética “Desvairismo”.

Próximo livro fundarei outra.

E não quero discípulos. Em arte: escola = imbecilidade de muitos para vaidade dum só.

Poderia ter citado Gorch Fock. Evitava o PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO. “Toda canção de
liberdade vem do cárcere”.
INSPIRAÇÃO
Onde até na força do verão
havia tempestades de ventos
e frios de crudelíssimo inverno.
Fr. Luís de Sousa
São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
5 Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys![49]
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!
O TROVADOR[50]
Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras de sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal...
5 Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo...
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...
10 Sou um tupi tangendo um alaúde!
OS CORTEJOS[51]
Monotonias das minhas retinas...
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...
Todos os sempres das minhas visões! “Bon giorno, caro”.
Horríveis as cidades!
5 Vaidades e mais vaidades...
Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!
Oh! os tumultuários das ausências!
Pauliceia – a grande boca de mil dentes;
e os jorros dentre a língua trissulca
10 de pus e de mais pus de distinção...
Giram homens fracos, baixos, magros...
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...
Estes homens de São Paulo,
todos iguais e desiguais,
15 quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
parecem-me uns macacos, uns macacos.
A ESCALADA[52]
(Maçonariamente.)
– Alcantilações!... Ladeiras sem conto!...
Estas cruzes, estas crucificações da honra!...
– Não há ponto final no morro das ambições.
5 As bebedeiras do vinho dos aplaudires...
Champanhações... Cospe os fardos!
(São Paulo é trono.) – E as imensidões das escadarias!...
– Queres te assentar no píncaro mais alto? Catedral?...
– Estas cadeias da virtude!...
10 – Tripinga-te! (Os empurrões dos braços em segredo.)
Principiarás escravo, irás a Chico-Rei!
(Há fita de série no Colombo,
O empurrão na escuridão. Filme nacional.)
– Adeus lírios do Cubatão para os que andam sozinhos!
15 (Sono tre tustune per i ragazzini.)
– Estes mil quilos da crença!...
– Tripinga-te! Alcançarás o sólio e o sol sonante!
Cospe os fardos! Cospe os fardos!
Vê que facilidade as tais asas?...
20 (Toca a banda do Fieramosca: Pa, pa, pa, pum!
Toca a banda da polícia: Ta, ra, ta, tchim!)
És rei! Olha o rei nu!
Que é dos teus fardos, Hermes Pança?!
– Deixei-os lá nas margens das escadarias,
25 onde nas violetas corria o rio dos olhos de minha mãe...
– Sossega. És rico, és grandíssimo, és monarca!
Alguém agora t’os virá trazer.
(E ei-lo na curul do vesgo Olho-na-Treva.)
RUA DE SÃO BENTO[53]
Triângulo.
Há navios de vela para os meus naufrágios!
E os cantares da uiara rua de São Bento...
Entre estas duas ondas plúmbeas de casas plúmbeas,
5 as minhas delícias das asfixias da alma!
Há leilão. Há feira de carnes brancas. Pobres arrozais!
Pobres brisas sem pelúcias lisas a alisar!
A cainçalha... A Bolsa... As jogatinas...
Não tenho navios de vela para mais naufrágios!
10 Faltam-me as forças! Falta-me o ar!
Mas qual! Não há sequer um porto morto!
– Can you dance the tarantella? – Ach! ya.
São as califórnias duma vida milionária
numa cidade arlequinal...
15 O Clube Comercial... A Padaria Espiritual...
Mas a desilusão dos sombrais amorosos
põe majoration temporaire, 100%
nt
!...
Minha Loucura, acalma-te!
Veste o water-proof dos tambéns!
20 Nem chegarás tão cedo
à fábrica de tecidos dos teus êxtases;
telefone: Além, 3991...
Entre estas duas ondas plúmbeas de casas plúmbeas,
vê, lá nos muito-ao-longes do horizonte,
25 a sua chaminé de céu azul!
O REBANHO
Oh! minhas alucinações!
Vi os deputados, chapéus altos,
sob o pálio vesperal, feito de mangas-rosas,
saírem de mãos dadas do Congresso...
5 Como um possesso num acesso em meus aplausos
aos salvadores do meu estado amado!...
Desciam, inteligentes, de mãos dadas,
entre o trepidar dos táxis vascolejantes,
a rua Marechal Deodoro...
10 Oh! minhas alucinações!
Como um possesso num acesso em meus aplausos
aos heróis do meu estado amado!...
E as esperanças de ver tudo salvo!
Duas mil reformas, três projetos...
15 Emigram os futuros noturnos...
E verde, verde, verde!...
Oh! minhas alucinações!
Mas os deputados, chapéus altos,
mudavam-se pouco a pouco em cabras!
20 Crescem-lhes os cornos, descem-lhes as barbinhas...
E vi que os chapéus altos do meu estado amado,
com os triângulos de madeira no pescoço,
nos verdes esperanças, sob as franjas de ouro da tarde,
se punham a pastar
25 rente do palácio do senhor presidente...
Oh! minhas alucinações!
TIETÊ[54]
Era uma vez um rio...
Porém os Borbas-Gatos dos ultranacionais esperiamente!
Havia nas manhãs cheias de sol do entusiasmo
as monções da ambição...
5 E as gigânteas vitórias!
As embarcações singravam rumo do abismal Descaminho...
Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!
Ritmos de Brecheret!... E a santificação da morte!
Foram-se os ouros!... E o hoje das turmalinas!...
10 – Nadador! vamos partir pela via dum Mato-Grosso?
– Io! Mai!... (Mais dez braçadas.
Quina Migone. Hat Stores. Meia de seda.)
Vado a pranzare con la Ruth.
PAISAGEM Nº 1
Minha Londres das neblinas finas!
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Há neve de perfumes no ar.
Faz frio, muito frio...
5 E a ironia das pernas das costureirinhas
parecidas com bailarinas...
O vento é como uma navalha
nas mãos dum espanhol. Arlequinal!...
Há duas horas queimou sol.
10 Daqui a duas horas queima sol.
Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,
um tralalá... A guarda-cívica! Prisão!
Necessidade a prisão
para que haja civilização?
15 Meu coração sente-se muito triste...
Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas
dialoga um lamento com o vento...
Meu coração sente-se muito alegre!
Este friozinho arrebitado
20 dá uma vontade de sorrir!
E sigo. E vou sentindo,
à inquieta alacridade da invernia,
como um gosto de lágrimas na boca...
ODE AO BURGUÊS
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
5 O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
10 e gemem sangues de alguns milréis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam o Printemps com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
15 Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre sol!
20 Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! Ao burguês-tílburi!
Padaria Suíça! Morte viva ao Adriano!
25 “– Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
– Um colar... – Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
30 Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
35 sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
40 Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!...
TRISTURA[55]
Une rose dans les ténèbres
Mallarmé
Profundo. Imundo meu coração...
Olha o edifício: Matadouros da Continental.
Os vícios viciaram-me na bajulação sem sacrifícios...
Minha alma corcunda como a avenida São João...
5 E dizem que os polichinelos são alegres!
Eu nunca em guizos nos meus interiores arlequinais!...
Pauliceia, minha noiva... Há matrimônios assim...
Ninguém os assistirá nos jamais!
As permanências de ser um na febre!
10 Nunca nos encontramos...
Mas há rendez-vous na meia-noite do Armenonville...
E tivemos uma filha, uma só...
Batismos do sr. cura Bruma;
água-benta das garoas monótonas...
15 Registrei-a no cartório da Consolação...
Chamei-a Solitude das Plebes...
Pobres cabelos cortados da nossa monja!
DOMINGO[56]
Missas de chegar tarde, em rendas,
e dos olhares acrobáticos...
Tantos telégrafos sem fio!
Santa Cecília regorgita de corpos lavados
5 e de sacrilégios picturais...
Mas Jesus Cristo nos desertos,
mas o sacerdote no Confiteor... Contrastar!
– Futilidade, civilização...
Hoje quem joga?... O Paulistano.
10 Para o Jardim América das rosas e dos pontapés!
Friedenreich fez gol! Corner! Que juiz!
Gostar de Bianco? Adoro. Qual Bartô...
E o meu xará maravilhoso!...
– Futilidade, civilização... [57]
15 Mornamente em gasolinas... Trinta e cinco contos!
Tens dez milréis? Vamos ao corso...
E filar cigarros a quinzena inteira...
Ir ao corso é lei. Viste Marília?
E Filis? Que vestido: pele só!
20 Automóveis fechados... Figuras imóveis...
O bocejo do luxo... Enterro.
E também as famílias dominicais por atacado,
entre os convenientes perenemente...
– Futilidade, civilização.
25 Central. Drama de adultério.
A Bertini arranca os cabelos e morre.
Fugas... Tiros... Tom Mix!
Amanhã fita alemã... de beiços...
As meninas mordem os beiços pensando em fita alemã...
30 As romas de Petrônio...
E o leito virginal... Tudo azul e branco!
Descansar... Os anjos... Imaculado!
As meninas sonham masculinidades...
– Futilidade, civilização.
O DOMADOR
Alturas da Avenida. Bonde 3.
Asfaltos. Vastos, altos repuxos de poeira
sob o arlequinal do céu ouro-rosa-verde...
As sujidades implexas do urbanismo.
5 Filets de manuelino. Calvícies de Pensilvânia.
Gritos de goticismo.
Na frente o tram da irrigação,
onde um sol bruxo se dispersa
num triunfo persa de esmeraldas, topázios e rubis...
10 Lânguidos boticellis a ler Henry Bordeaux
nas clausuras sem dragões dos torreões...
Mário, paga os duzentos réis.
São cinco no banco: um branco,
um noite, um ouro,
15 um cinzento de tísica e Mário...
Solicitudes! Solicitudes!
Mas... olhai, oh meus olhos saudosos dos ontens
esse espetáculo encantado da Avenida!
Revivei, oh gaúchos paulistas ancestremente!
20 e oh cavalos de cólera sanguínea!
Laranja da China, laranja da China, laranja da China!
Abacate, cambucá e tangerina!
Guardate! Aos aplausos do esfuziante clown,
heroico sucessor da raça heril dos bandeirantes,
25 passa galhardo um filho de imigrante,
louramente domando um automóvel!
ANHANGABAÚ[58]
Parques do Anhangabaú nos fogaréus da aurora...
Oh larguezas dos meus itinerários!...
Estátuas de bronze nu correndo eternamente,
num parado desdém pelas velocidades...
5 O carvalho votivo escondido nos orgulhos
do bicho de mármore parido no Salon...
Prurido de estesias perfumando em rosais
o esqueleto trêmulo do morcego...
Nada de poesia, nada de alegrias!...
10 E o contraste boçal do lavrador
que sem amor afia a foice...
Estes meus parques do Anhangabaú ou de Paris,
onde as tuas águas, onde as mágoas dos teus sapos?
“– Meu pai foi rei!
15 – Foi. – Não foi. – Foi. – Não foi.”
Onde as tuas bananeiras?
Onde o teu rio frio encanecido pelos nevoeiros,
contando histórias aos sacis?...
Meu querido palimpsesto sem valor!
20 Crônica em mau latim
cobrindo uma écloga que não seja de Virgílio!...
A CAÇADA[59]
A bruma neva... Clamor de vitórias e dolos...
Monte São Bernardo sem cães para os alvíssimos!
Cataclismos de heroísmos... O vento gela...
Os cinismos plantando o estandarte;
5 enviando para todo o universo
novas cartas-de-Vaz-Caminha!...
Os Abéis quase todos muito ruins
a escalar, em lama, a glória...
Cospe os fardos!
10 Mas sobre a turba adejam os cartazes de Papel e Tinta
como grandes mariposas de sonho queimando-se na luz...
E o maxixe do crime puladinho
na eternização dos três dias... Tripudiares gaios!...
Roubar... Vencer... Viver os respeitosamentes, no crepúsculo...
15 A velhice e a riqueza têm as mesmas cãs.
A engrenagem trepida... A bruma neva...
Uma síncope: a sereia da polícia
que vai prender um bêbedo no Piques...
Não há mais lugares no boa-vista triangular.
20 Formigueiro onde todos se mordem e devoram...
O vento gela... Fermentação de ódios egoísmos
para a caninha-do-Ó dos progredires...
Viva virgem vaga desamparada...
Malfadada! Em breve não será mais virgem
25 nem desamparada!
Terá o amparo de todos os desamparos!
Tossem: O Diário! A Plateia...
Lívidos doze-anos por um tostão
Também quero ler o aniversário dos reis...
30 Honra ao mérito! Os virtuosos hão-de sempre ser louvados
e retratificados...
mais um crime na Mooca!
Os jornais estampam as aparências
dos grandes que fazem anos, dos criminosos que fazem danos...
35 Os quarenta-graus das riquezas! O vento gela...
Abandonos! Ideais pálidos!
Perdidos os poetas, os moços, os loucos!
Nada de asas! nada de poesia! nada de alegria!
A bruma neva... Arlequinal!
40 Mas viva o Ideal! God save the poetry!
– Abade Liszt da minha filha monja,
na Cadillac mansa e glauca da ilusão,
passa o Oswald de Andrade
mariscando gênios entre a multidão!...[60]
NOTURNO[61]
Luzes do Cambuci pelas noites de crime...
Calor!... E as nuvens baixas muito grossas,
feitas de corpos de mariposas,
rumorejando na epiderme das árvores...
5 Gingam os bondes como um fogo de artifício,
sapateando nos trilhos,
cuspindo um orifício na treva cor de cal...
Num perfume de heliotrópios e de poças
gira uma flor-do-mal... Veio do Turquestã;
10 e traz olheiras que escurecem almas...
Fundiu esterlinas entre as unhas roxas
nos oscilantes de Ribeirão Preto...
– Batat’assat’ô furnn!...
Luzes do Cambuci pelas noites de crime!...
15 Calor... E as nuvens baixas muito grossas,
feitas de corpos de mariposas,
rumorejando na epiderme das árvores...
Um mulato cor de ouro,
com uma cabeleira feita de alianças polidas...
20 Violão! “Quando eu morrer...” Um cheiro pesado de baunilhas
oscila, tomba e rola no chão...
Ondula no ar a nostalgia das Baías...
E os bondes passam como um fogo de artifício,
sapateando nos trilhos,
25 ferindo um orifício na treva cor de cal...
– Batat’assat’ô furnn!...
Calor!... Os diabos andam no ar
corpos de nuas carregando...
As lassitudes dos sempres imprevistos![62]
30 e as almas acordando às mãos dos enlaçados!
Idílios sob os plátanos!...
E o ciúme universal às fanfarras gloriosas
de saias cor-de-rosa e gravatas cor-de-rosa!...[63]
Balcões na cautela latejante, onde florem Iracemas
35 para os encontros dos guerreiros brancos... Brancos?
E que os cães latam nos jardins!
Ninguém, ninguém, ninguém se importa!
Todos embarcam na Alameda dos Beijos da Aventura!
Mas eu... Estas minhas grades em girândolas de jasmins,
40 enquanto as travessas do Cambuci nos livres[64]
da liberdade dos lábios entreabertos!...
Arlequinal! Arlequinal!
As nuvens baixas muito grossas,
feitas de corpos de mariposas,
45 rumorejando na epiderme das árvores...
Mas sobre estas minhas grades em girândolas de jasmins,
o estelário delira em carnagens de luz,
e meu céu é todo um rojão de lágrimas!...
E os bondes riscam como um fogo de artifício,
50 sapateando nos trilhos,
jorrando um orifício na treva cor de cal...
– Batat’assat’ô furnn!...
PAISAGEM Nº 2[65]
Escuridão dum meio-dia de invernia...
Marasmos... Estremeções... Brancos...
O céu é toda uma batalha convencional de confetti[66] brancos;
e as onças pardas das montanhas no longe...
5 Oh! para além vivem as primaveras eternas!
As casas adormecidas
parecem teatrais gestos dum explorador do polo
que o gelo parou no frio...
Lá para as bandas do Ipiranga as oficinas tossem...
10 Todos os estiolados são muito brancos.
Os invernos de Pauliceia são como enterros de virgem...
Italianinha, torna al tuo paese!
Lembras-te? As barcarolas dos céus azuis nas águas verdes...
Verde – cor dos olhos dos loucos!
15 As cascatas das violetas para os lagos...
Primaveral – cor dos olhos dos loucos!
Deus recortou a alma de Pauliceia
num cor de cinza sem odor...
Oh! para além vivem as primaveras eternas!...
20 Mas os homens passam sonambulando...
E rodando num bando nefário,
vestidas de eletricidade e gasolina,
as doenças jocotoam em redor...
Grande função ao ar livre!
25 Bailado de Cocteau com os barulhadores de Russolo!
Opus 1921.
São Paulo é um palco de bailados russos.
Sarabandam a tísica, a ambição, as invejas, os crimes
e também as apoteoses da ilusão...
30 Mas o Nijinsky sou eu!
E vem a Morte, minha Karsavina!
Quá, quá, quá! Vamos dançar o fox-trot da desesperança,
a rir, a rir dos nossos desiguais!
TU[67]
Morrente chama esgalga,
mais morta inda no espírito!
Espírito de fidalga,
que vive dum bocejo entre dois galanteios
5 e de longe em longe uma chávena da treva bem forte!
Mulher mais longa
que os pasmos alucinados
das torres de São Bento!
Mulher feita de asfalto e de lamas de várzea,
10 toda insultos nos olhos,
toda convites nessa boca louca de rubores!
Costureirinha de São Paulo,
ítalo-franco-luso-brasílico-saxônica,
gosto dos teus ardores crepusculares,
15 crepusculares e por isso mais ardentes,
bandeirantemente!
Lady Macbeth feita de névoa fina,
pura neblina da manhã!
Mulher que és minha madrasta e minha irmã![68]
20 Trituração ascencional dos meus sentidos!
Risco de aeroplano entre Moji e Paris!
Pura neblina da manhã!
Gosto dos teus desejos de crime turco
e das tuas ambições retorcidas como roubos!
25 Amo-te de pesadelos taciturnos,
Materialização da Canaã do meu Poe!
Never more!
Emílio de Menezes insultou a memória do meu Poe...
Oh! Incendiária dos meus aléns sonoros!
30 tu és o meu gato preto!
Tu te esmagaste nas paredes do meu sonho!
este sonho medonho!...
E serás sempre, morrente chama esgalga,
meio fidalga, meio barregã,
35 as alucinações crucificantes
de todas as auroras de meu jardim!
PAISAGEM Nº 3
Chove?
Sorri uma garoa cor de cinza,
muito triste, como um tristemente longo...
A casa Kosmos não tem impermeáveis em liquidação...[69]
5 Mas neste largo do Arouche
posso abrir meu guarda-chuva paradoxal,
este lírico plátano de rendas mar...
Ali em frente... – Mário, põe a máscara!
– Tens razão, minha Loucura, tens razão.
10 O rei de Tule jogou a taça ao mar...
Os homens passam encharcados...
Os reflexos dos vultos curtos
mancham o petit-pavé...
As rolas da Normal
15 esvoaçam entre os dedos da garoa...
(E se pusesse um verso de Crisfal
No De Profundis?...)
De repente
um raio de Sol arisco
20 risca o chuvisco ao meio.
COLLOQUE SENTIMENTAL
Tenho os pés chagados nos espinhos das calçadas...
Higienópolis!... As Babilônias dos meus desejos baixos...
Casas nobres de estilo... Enriqueceres em tragédias...
Mas a noite é toda um véu-de-noiva ao luar...
5 A preamar dos brilhos das mansões...
O jazz-band da cor... O arco-íris dos perfumes...
O clamor dos cofres abarrotados de vidas...
Ombros nus, ombros nus, lábios pesados de adultério...
E o rouge – cogumelo das podridões...
10 Exércitos de casacas eruditamente bem talhadas...
Sem crimes, sem roubos o carnaval dos títulos...
Se não fosse o talco adeus sacos de farinha!
Impiedosamente...
– Cavalheiro... – Sou conde! – Perdão.
15 Sabe que existe um Brás, um Bom Retiro?
– Apre! respiro... Pensei que era pedido.
Só conheço Paris!
– Venha comigo então.
Esqueça um pouco os braços da vizinha...
20 – Percebeu, hein! Dou-lhe gorjeta e cale-se.
O sultão tem dez mil... Mas eu sou conde!
– Vê? Estas paragens trevas de silêncio...
Nada de asas, nada de alegria... A lua...
A rua toda nua... As casas sem luzes...
25 E a mirra dos martírios inconscientes...
– Deixe-me pôr o lenço no nariz.
Tenho todos os perfumes de Paris!
– Mas olhe, embaixo das portas, a escorrer...
– Para os esgotos! Para os esgotos!
30 – ... a escorrer,
um fio de lágrimas sem nome!...
RELIGIÃO[70]
Deus! creio em Ti! Creio na tua Bíblia!
Não que a explicasse eu mesmo,
porque a recebi das mãos dos que viveram as iluminações!
Catolicismo! sem pinturas de Calixto!... As humildades!...
5 No poço das minhas erronias
vi que reluzia a lua dos teus perdoares!...
Rio-me dos Luteros parasitais
e dos orgulhos soezes que não sabem ser orgulhos da Verdade;
e os mações, que são pecados vivos,
10 e que nem sabem ser Pecado!
Oh! minhas culpas e meus tresvarios!
E as nobilitações dos meus arrependimentos
chovendo para a fecundação das Palestinas!
Confessar!...
15 Noturno em sangue do Jardim das Oliveiras!...
Naves de Santa Efigênia,
os meus joelhos criaram escudos de defesa contra vós!
Cantai como me arrastei por vós!
Dizei como me debrucei sobre vós!
20 Mas dos longínquos veio o Redentor!
E no poço sem fundo das minhas erronias
vi que reluzia a lua dos seus perdoares!...
“Santa Maria, mãe de Deus...”
A minha mãe-da-terra é toda os meus entusiasmos:
25 dar-lhe-ia os meus dinheiros e minhas mãos também!
Santa Maria dos olhos verdes, verdes,
venho depositar aos vossos pés verdes
a coroa de luz da minha loucura!
Alcançai para mim
30 a Hospedaria dos Jamais Iluminados!
PAISAGEM Nº 4
Os caminhões rodando, as carroças rodando,
rápidas as ruas se desenrolando,
rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos...
E o largo coro de ouro das sacas de café!...
5 Na confluência o grito inglês da São Paulo Railway...
Mas as ventaneiras da desilusão! a baixa do café!...
As quebras, as ameaças, as audácias superfinas!...
Fogem os fazendeiros para o lar!... Cincinato Braga!...[71]
Muito ao longe o Brasil com seus braços cruzados...
10 Oh! as indiferenças maternais!...
Os caminhões rodando, as carroças rodando,
rápidas as ruas se desenrolando,
rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos...
E o largo coro de ouro das sacas de café!...
15 Lutar!
A vitória de todos os sozinhos!...
As bandeiras e os clarins dos armazéns abarrotados...
Hostilizar!... Mas as ventaneiras dos braços cruzados!...
E a coroação com os próprios dedos!
20 Mutismos presidenciais, para trás!
Ponhamos os (Vitória!) colares de presas inimigas!
Enguirlandemo-nos de café-cereja!
Taratá! e o peã de escárnio para o mundo!
Oh! este orgulho máximo de ser paulistamente!!![72]
AS ENFIBRATURAS DO IPIRANGA

Oratório profano

O, woe is me
To have seen what I have seen, see what I see![73]
Shakespeare
DISTRIBUIÇÃO DAS VOZES:

Os Orientalismos Convencionais – (escritores e demais artífices elogiáveis) – Largo,
imponente coro afinadíssimo de sopranos, contraltos, barítonos, baixos.
As Senectudes Tremulinas – (milionários e burgueses) – Coro de sopranistas.
Os Sandapilários Indiferentes – (operariado, gente pobre) – Barítonos e baixos.
As Juvenilidades Auriverdes – (nós) – Tenores, sempre tenores! Que o diga Walter von
Stolzing!
Minha Loucura – Soprano ligeiro. Solista.
Acompanhamento de orquestra e banda.
Local de execução: a esplanada do Teatro Municipal. Banda e orquestra colocadas no
terraplano que tomba sobre os jardins. São perto de cinco mil instrumentistas dirigidos por
maestros... vindos do estrangeiro. Quando a solista canta há silêncio orquestral – salvo nos
casos propositadamente mencionados. E, mesmo assim, os instrumentos que então ressoam,
fazem-no a contragosto dos maestros. Nos coros dos Orientalismos Convencionais a banda
junta-se à orquestra. É um tutti formidando.
Quando cantam As Juvenilidades Auriverdes (há naturalmente falta de ensaios) muitos
instrumentos silenciam. Alguns desafinam. Outros partem as cordas. Só aguentam o rubato
lancinante violinos, flautas, clarins, a bateria e mais borés e maracás.
Os Orientalismos Convencionais estão nas janelas e terraços do Teatro Municipal. As
Senectudes Tremulinas disseminaram-se pelas sacadas do Automóvel Clube, da Prefeitura,
da Rôtisserie, da Tipografia Weisflog, do Hotel Carlton e mesmo da Livraria Alves, ao
longe.[74] Os Sandapilários Indiferentes berram do Viaduto do Chá. Mas As Juvenilidades
Auriverdes estão embaixo, nos parques do Anhangabaú, com os pés enterrados no solo.
Minha Loucura no meio delas.[75]
NA AURORA DO NOVO DIA
PRELÚDIO
As caixas anunciam a arraiada. Todos os 550.000 cantores concertam apressadamente as
gargantas e tomam fôlego com exagero, enquanto os borés, as trompas, o órgão, cada timbre
por sua vez, entre largos silêncios reflexivos, enunciam, sem desenvolvimento, nem
harmonização o tema: “Utilius est saepe et securius quod homo non habeat multas
consolationes in hāc vitā”.
E começa o oratório profano, que teve por nome
AS ENFIBRATURAS DO IPIRANGA
As Juvenilidades Auriverdes
(pianíssimo)
Nós somos as Juvenilidades Auriverdes!
As franjadas flâmulas das bananeiras,
as esmeraldas das araras,
os rubis dos colibris,
5 os lirismos dos sabiás e das jandaias,
os abacaxis, as mangas, os cajus
almejam localizar-se triunfantemente,
na fremente celebração do Universal!...
Nós somos as Juvenilidades Auriverdes!
10 As forças vivas do torrão natal,
as ignorâncias iluminadas,
os novos sóis luscofuscolares
entre os sublimes das dedicações!...
Todos para a fraterna música do Universal!
15 Nós somos as Juvenilidades Auriverdes![76]
Os Sandapilários Indiferentes
(num estampido preto)
Vá de rumor! Vá de rumor!
Esta gente não nos deixa mais dormir!
Antes E lucevan le stelle de Puccini!
Oh! pé de anjo, pé de anjo!
20 Fora! Fora o que é de despertar!
(A orquestra num crescendo cromático
de contrabaixos anuncia...)
Os Orientalismos Convencionais
Somos os Orientalismos Convencionais!
Os alicerces não devem cair mais!
Nada de subidas ou de verticais!
Amamos as chatezas horizontais!
25 Abatemos perobas de ramos desiguais!
Odiamos as matinadas arlequinais!
Viva a Limpeza Pública e os hábitos morais!
Somos os Orientalismos Convencionais!
Deve haver Von Iherings para todos os tatus!
30 Deve haver Vitais Brasis para os urutus!
Mesmo peso de feijão em todos os tutus!
Só é nobre o passo dos jabirus!
Há estilos consagrados para os Pacaembus![77]
Que os nossos antepassados foram homens de truz!
35 Não lhe bastam velas? Para que mais luz!
Temos nossos coros só no tom de dó!
Para os desafinados, doutrina de cipó!
Usamos capas de seda, é só escovar o pó!
Diariamente à mesa temos mocotó!
40 Per omnia saecula saeculorum moinhos terão mó!
Anualmente de sobrecasaca, não de paletó,
vamos visitar o esqueleto de nossa grande Avó!
Glória aos Iguais! Um é todos! Todos são um só!
Somos os Orientalismos Convencionais!
As Juvenilidades Auriverdes
(perturbadas com o fabordão, recomeçam mais alto, incertas)
45 Magia das alvoradas entre magnólias e rosas...
Apelos do estelário visível aos alguéns...
– Pão de Ícaros sobre a toalha estática do azul!
Os tuins esperanças das nossas ilusões!
Suaviloquências entre as deliquescências
50 dos sáfaros, aos raios do maior solar!...
Sobracemos as muralhas! Investe com os cardos!
Rasga-te nos acúleos! Tomba sobre o chão!
Hão-de vir valquírias para os olhos-fechados!
Anda! Não pares nunca! Aliena o duvidar
55 e as vacilações perpetuamente!
As Senectudes Tremulinas
(tempo de minuete)
Quem são estes homens?
Maiores menores
Como é bom ser rico!
Maiores menores
60 Das nossas poltronas
Maiores menores
olhamos as estátuas
Maiores menores
do signor Ximenes
65 – o grande escultor!
Só admiramos os célebres
e os recomendados também!
Quem tem galeria
terá um Bouguereau!
70 Assinar o Lírico?
Elegância de preceito!
Mas que paulificância
Maiores menores
o Tristão e Isolda!
75 Maiores menores
Preferimos os coros
dos Orientalis-[78]
mos Convencionais!
Depois os sanchismos
80 (Ai! gentes, que bom!)
da alta madrugada
no largo do Paiçandu!
Alargar as ruas...
E as Instituições?
85 Não pode! Não pode!
Maiores menores
Mas não há quem diga
Maiores menores
quem são esses homens[79]
90 que cantam do chão?
(a orquestra súbito emudece, depois
duma grande gargalhada de timbales)
Minha Loucura
(recitativo e balada)
Dramas da luz do luar no segredo das frestas
perquirindo as escuridões...
A traição das mordaças!
E a paixão oriental dissolvida no mel!...
95 Estas marés da espuma branca
e a onipotência intransponível dos rochedos!
Intransponivelmente! Oh!...
A minha voz tem dedos muito claros
que vão roçar nos lábios do Senhor;
100 mas as minhas tranças muito negras
emaranharam-se nas raízes do jacarandá...
Os cérebros das cascatas marulhantes
e o benefício das manhãs serenas do Brasil!
(grandes glissandos de harpa)
Estas nuvens da tempestade branca
105 e os telhados que não deixam a chuva batizar![80]
Propositadamente! Oh!...
Os meus olhos têm beijos muito verdes
que vão cair às plantas do Senhor;
mas as minhas mãos muito frágeis[81]
110 apoiaram-se nas faldas do Cubatão...
Os cérebros das cascatas marulhantes
e o benefício das manhãs solenes do Brasil
(notas longas de trompas)
Estas espigas da colheita branca
e os escalrachos roubando a uberdade!
115 Enredadamente! Oh!...
Os meus joelhos têm quedas muito crentes
que vão bater no peito do Senhor;
mas os meus suspiros muito louros
entreteceram-se com a rama dos cafezais...
120 Os cérebros das cascatas marulhantes
e o benefício das manhãs gloriosas do Brasil!
(harpas, trompas, órgão)
As Senectudes Tremulinas
(iniciando uma gavota)
Quem é essa mulher!
É louca, mas louca
pois anda no chão!
As Juvenilidades Auriverdes
(num crescendo fantástico)
125 Ódios, invejas, infelicidades!...
Crenças sem Deus! Patriotismos diplomáticos!
Cegar!
Desvalorização das lágrimas lustrais!
Nós não queremos mascaradas! E ainda menos
130 cordões Flor-do-abacate das superfluidades!
Os tumultos da luz!... As lições dos maiores!...
E a integralização da vida no Universal!
As estradas correndo todas para o mesmo final!...
E a pátria simples, una, intangivelmente
135 partindo para a celebração do Universal!
Ventem nossos desvarios fervorosos!
Fulgurem nossos pensamentos dadivosos!
Clangorem nossas palavras proféticas
na grande profecia virginal!
140 Somos as Juvenilidades Auriverdes!
A passiflora! o espanto! a loucura! o desejo!
Cravos! mais cravos para nossa cruz!
Os Orientalismos Convencionais
(Tutti. O crescendo é resolvido
numa solene marcha fúnebre)
Para que cravos? Para que cruzes?
Submetei-vos à metrificação!
145 A verdadeira luz está nas corporações!
Aos maiores: serrote; aos menores: o salto...
E a glorificação das nossas ovações!
As Juvenilidades Auriverdes
(num clamor)
Somos as Juvenilidades Auriverdes!
A passiflora! o espanto! a loucura! o desejo!
150 Cravos! mais cravos para nossa cruz!
Os Orientalismos Convencionais
(a tempo)
Para que cravos? Para que cruzes?
Submetei-vos à poda!
Para que as artes vivam e revivam
use-se o regime do quartel!
155 É a riqueza! O nosso anel de matrimônio!
E as fecundidades regulares, refletidas...
E os perenementes da ligação mensal...
As Senectudes Tremulinas
(aos miados de flautim impotente)
Bravíssimo! Bem dito! Sai azar!
Os perenementes da ligação anual!
As Juvenilidades Auriverdes
(berrando)
160 Somos as Juvenilidades Auriverdes!
A passiflora! o espanto! a loucura! o desejo!
Cravos! mais cravos para nossa cruz!
Os Orientalismos Convencionais
(da capo)
Para que cravos? Para que cruzes?
Universalizai-vos no senso comum!
165 Senti sentimentos de vossos pais e avós!
Para as almas sempres torresmos cerebrais!
E a sesta na rede pelos meios-dias!
Acordar às seis; deitar às vinte e meia;
e o banho semanal com sabão de cinza,
170 limpando da terra, calmando as erupções...
E a dignificação bocejal do mundo sem estações!...
Primavera, inverno, verão, outono...[82]
Para que estações?
As Juvenilidades Auriverdes
(já vociferantes)
Cães! Piores que cães!
175 Somos as Juvenilidades Auriverdes!
Vós, burros! malditos! cães! piores que cães!
Os Orientalismos Convencionais
(sempre marcha fúnebre, cada vez mais forte porém)
Para que burros? Para que cães?
Produtividades regulares. Vivam as maleitas!
Intermitências de polegadas certas!
180 Nas arquitecturas renascença gálica;
na música Verdi; na escultura Fídias;
Corot na pintura; nos versos Leconte;
na prosa Macedo, D’Annunzio e Bourget!
E na vida enfim, eternamente eterna,
185 concertos de meia à luz do lampeão,
valsas de Godard no piano alemão,
marido, mulher, as filhas, o noivo...
As Juvenilidades Auriverdes
(numa grita descompassada)
Malditos! Boçais! Cães! Piores que cães!
Somos as Juvenilidades Auriverdes!
190 A passiflora!... Vós, malditos! boçais!
Os Orientalismos Convencionais
(f f f)
... o corso aos domingos, o chá no Trianon...
E as ...........cidades, as ...........cidades,
as ...........cidades, as ...........cidades,
e mil ...........cidades...[83]
As Juvenilidades Auriverdes
(f f f f)
195 Seus borras! Seus bêbedos! Infames! Malditos!
A passiflora! o espanto! a loucura! o d...
Os Orientalismos Convencionais
(f f f f f)
... e as perpetuidades
das celebridades das nossas vaidades;
das antiguidades às atualidades;[84]
200 ao fim das idades sem desigualdades
quem há-de...
As Juvenilidades Auriverdes
(loucos, sublimes, tombando exaustos)
Seus....................................................................................!!!
(A maior palavra feia que o leitor conhecer)
Nós somos as Juvenilidades Auriverdes!
A passiflora! o espanto!... a loucura! o desejo!...
205 Cravos!... Mais cravos... para... a nossa...
Silêncio. OS Orientalismos Convencionais, bem como as Senectudes Tremulinas e
o s Sandapilários Indiferentes fugiram e se esconderam,[85] tapando os ouvidos à
grande, à máxima VERDADE. A orquestra evaporou-se, espavorida. Os maestri
sucumbiram. Caiu a noite, aliás; e na solidão da noite das mil estrelas as
Juvenilidades Auriverdes, tombadas no solo, chorando, chorando o arrependimento
do tresvario final.
Minha Loucura
(suavemente entoa cantiga de adormentar)
Chorai! Chorai! Depois dormi!
Venham os descansos veludosos
vestir os vossos membros!... Descansai!
Ponde os lábios na terra! Ponde os olhos na terra!
210 Vossos beijos finais, vossas lágrimas primeiras
para a branca fecundação!
Espalhai vossas almas sobre o verde!
Guardai nos mantos de sombra dos manacás
os vossos vaga-lumes interiores!
215 Inda serão um sol nos ouros do amanhã!
Chorai! Chorai! Depois dormi!
A mansa noite com seus dedos estelares
fechará nossas pálpebras...
As vésperas do azul!...
220 As melhores vozes para vosso adormentar!
Mas o Cruzeiro do Sul e a saudade dos martírios...
Ondular do vai-vem! Embalar do vai-vem!
Para a restauração o vinho dos noturnos!...
Mas em vinte anos se abrirão as searas!
225 Virão os setembros das floradas virginais!
Virão os dezembros do sol pojando os grânulos!
Virão os fevereiros do café-cereja!
Virão os marços das maturações!
Virão os abris dos preparativos festivais!
230 E nos vinte anos se abrirão as searas!
E virão os maios! E virão os maios!
Rezas de Maria... Bimbalhadas... Os votivos...
As preces subidas... As graças vertidas...
Tereis a cultura da recordação![86]
235 Que o Cruzeiro do Sul e a saudade dos martírios
plantem-se na tumba da noite em que sonhais...
Importa?!... Digo-vos eu nos mansos
oh! Juvenilidades Auriverdes, meus irmãos:
Chorai! Chorai! Depois dormi!
240 Venham os descansos veludosos
vestir os vossos membros!... Descansai!
Diuturnamente cantareis e tombareis.
As rosas... As borboletas... Os orvalhos...
O todo-dia dos imolados sem razão...
245 Fechai vossos peitos![87]
Que a noite venha depor seus cabelos alens
nas feridas de ardor dos cutilados!
E enfim no luto em luz, (Chorai!)
das praias sem borrascas, (Chorai!)
250 das florestas sem traições de guaranis
(Depois dormi!)
que vos sepulte a Paz Invulnerável!
Venham os descansos veludosos
vestir os vossos membros... Descansai!
(quase a sorrir, dormindo)
255 Eu... os desertos... os Caíns... a maldição...
(As Juvenilidades Auriverdes e Minha Loucura adormecem eternamente
surdos, enquanto das janelas de palácios, teatros, tipografias, hotéis –
escancaradas, mas cegas – cresce uma enorme vaia de assovios, zurros,
patadas.)
FIM

LAUS DEO!
Losango cáqui
LOSANGO CÁQUI
OU
AFETOS MILITARES DE MISTURA
COM OS PORQUÊS DE EU SABER ALEMÃO[88]







para Anita Malfatti[89]

ADVERTÊNCIA[90]

Me resolvo a publicar este livro assim como foi composto em 1922. É um diário de três
meses a que ajuntei uns poucos trechos de outras épocas que o completam e esclarecem.
Sensações, ideias, alucinações, brincadeiras, liricamente anotadas. Raro tive a intenção de
poema quando escrevi os versos sem título deste livro.
Aliás o que mais me perturba nesta feição artística a que me levaram minhas opiniões
estéticas é que todo lirismo realizado conforme tal orientação se torna poesia-de-circunstância.
E se restringe por isso a uma existência pessoal por demais. Lhe falta aquela característica de
universalidade que deve ser um dos principais aspectos da obra-de-arte. Vivo parafusando,
repensando e hesito em chamar estas poesias de poesias. Prefiro antes apresentá-las como
anotações líricas de momentos de vida e movimentos subconscientes aonde vai com gosto o
meu sentimento possivelmente pau-brasil e romântico.
Hoje estou convencido que a Poesia não pode ficar nisso. Tem de ir além. Pra que alens
não sei não e a gente nunca deve querer passar adiante de si mesmo.
Porém peço que este livro seja tomado como pergunta, não como solução que eu acredite
sequer momentânea. A existência admirável que levo consagrei-a toda a procurar. Deus
queira que não ache nunca... Porque seria então o descanso em vida, parar mais detestável
que a morte. Minhas obras todas na significação verdadeira delas eu as mostro nem mesmo
como soluções possíveis e transitórias. São procuras. Consagram e perpetuam esta
inquietação gostosa de procurar. Eis o que é, o que imagino será toda a minha obra: uma
curiosidade em via de satisfação.
Rapazes, não confundam a calma destas linhas preparatórias com a melancolia comum.
Não tem melancolia aqui. Sou feliz. Estou convencido que cumpro o destino que deviam ter
meu corpo em sua transformação, minha alma em sua finalidade.
E passo bem, muito obrigado.
M. de A.
S. Paulo, 1924
I[91]
Meu coração estrala.
Esse lugar-comum inesperado: Amor.
Na trajetória rápida do bonde...
De Sant’Ana à cidade.
5 Da Terra à Lua
Júlio Verne
Atravessei o núcleo dum cometa?
Me sinto vestido de luzes estranhas[92]
E da inquietação fulgurante da felicidade.
10 Aqueles olhos matinais sem nuvens...
Meu coração estrala.[93]
No entanto dia intenso apertado.
Fui buscar minha farda.
Choveu.
15 Visita espanto
Discussões estéticas.
Automóvel confidencial.
Os cariocas perderam o matche.
Eta paulistas![94]
20 Mas aqueles olhos matinais sem nuvens...
Meu refrão!
E penso nela, unicamente penso em mim.
Amo todos os amores de S. Paulo... do Brasil.
Eu sou a Fama de cem bocas
25 Pra beijar todas as mulheres do mundo!
Hoje é Suburra nos meus braços abraços frementes amor!
Minha Loucura, acalma-te.
... Muitos dias de exercícios militares...
Previsões tenebrosas...
30 Revoluções futuras...
Perspectiva de escravo cáqui, pardacento, fardacento...[95]
Meu coração estrala.
Amor!...
II
MÁQUINA-DE-ESCREVER[96]

B D G Z, Remington.
Pra todas as cartas da gente.
Eco mecânico
De sentimentos rápidos batidos.
5 Pressa, muita pressa.
Duma feita surripiaram a máquina-de-escrever de meu mano.
Isso também entra na poesia
Porque ele não tinha dinheiro pra comprar outra.
Igualdade maquinal,
10 Amor ódio tristeza...
E os sorrisos da ironia
Pra todas as cartas da gente...
Os malévolos e os presidentes da República
Escrevendo com a mesma letra...
15 Igualdade
Liberdade
Fraternité, point.
Unificação de todas as mãos...
Todos os amores
20 Começando por uns AA que se parecem...
O marido que engana a mulher,
A mulher que engana o marido,
Os amantes os filhos os namorados...
“Pêsames”.
25 “Situação difícil.
Querido amigo... (E os 50 milréis.)
Subscrevo-me
adm
or
. obg
o
.”
E a assinatura manuscrita.
30 Trique... Estrago!
É na letra O.
Privação de espantos
Pras almas especulas diante da vida!
Todas as ânsias perturbadas!
35 Não poder contar meu êxtase
Diante dos teus cabelos fogaréu!
A interjeição saiu com o ponto fora de lugar!
Minha comoção
Se esqueceu de bater o retrocesso.
40 Ficou um fio
Tal e qual uma lágrima que cai
E o ponto final depois da lágrima.
Porém não tive lágrimas, fiz “Oh!”
Diante dos teus cabelos fogaréu.
45 A máquina mentiu!
Sabes que sou muito alegre
E gosto de beijar teus olhos matinais.
Até quarta, heim, ll.
Bato dois LL minúsculos.
50 E a assinatura manuscrita.
III
– Mário de Andrade!
– Ah...
Me lembrava daquela cara olhos cabelos,
Daquelas mãos um dia cheias de amizades pra mim...
5 No entanto era um desconhecido.
– Faz tantos anos, Mário...
– Meia-dúzia, foi em 916.
– Tive notícias de você... Pelos jornais. Tenho seguido.
– Ahn...
10 – Você mudou bastante.
– Estou mais forte.
– Os insultos foram por demais.
– Um pouco... Mas, você?
– Ora eu... Mas não acreditei, Mário de Andrade.
15 – E as manobras no Rio, se lembra!... Bom tempinho!
– Nosso tempo...
E quis me cercar daqueles braços caídos!...
Então, falando muito baixo pra mim mesmo,
Veríamos juntos se estou certo no que sou...
20 NO ENTANTO ERA UM DESCONHECIDO.
Convidou:
– Sigo pra Caçapava.
– Não pede transferência? É requerer do general. Eu fico aqui.
Me olhou rápido como envergonhado de procurar alguém.
25 Depois pousou o olhar nos horizontes curtos da rua Conselheiro Crispiniano.
Depois deixou ele cair nas mãos encardidas pela companhia das sombras
burocráticas.
Depois me fitou. Fixamente.
– Não. Vou pra Caçapava. Adeus, Mário de Andrade.
– Passe bem.
30 Que alívio!
Detesto os mortos que voltam.
São tão mais nossas as imagens!...
IV[97]
Soldado-raso da República.
Quarto Batalhão de Caçadores aquartelado em Sant’Ana.
Rogai por nós!
Valha-me Deus!
5 Todo vibro de ignorâncias militares.
... O calcanhar direito se levanta,
Corpo inclinado pra frente...
A marcha rompe.
Marcha, soldado,
10 Cabeça de papel,
Soldado relaxado
Vai preso pro quartel...
V
“– Escola! Sen... tido!”
E a manhã
noiva
invernal
5 umidecida,
Névoas
Ventos
Gotas de água,
Se desenrola que nem novelo de fofa lã.
10 Que frio!...
Quatro carreiras de menhires humanos.
IMOBILIDADE ABSOLUTA.
Porém as almas tremem retranzidas.
“– Cabeças levantadas! Ninguém se mexa!”
15 E a neblina envereda ver garças batendo asas brancas
Pelos alinhamentos de Carnac.
VI[98]
Queda pedrenta da ladeira.
Calcei botinas de febre.
Meus pés são duas sarças ardentes.
Queima-se o bruxo!
5 Inquisição!
Topada,
Turtuveio,
Desfaleço...
... um-dois, um-dois...
10 Mário, coragem!
Tão atrás dos companheiros... Avance!
Olhe à direita o alinhamento.
E continuo: um-dois, um-dois...
Mas como eu marcharia,
15 Taratá!
Bandeiras
Centenário
Exposição Universal
Torre-das-Joias dos meus beijos,
20 Se ela fosse soldado!
Se marchasse a meu lado
Com a sarça ardente dos cabelos
Labaredando sob o quepe...
Que linda então a barulheira dos tacões
25 Batendo macanudos no chão:
UM-DOIS, UM-DOIS...
E nem marcha!
Desembestava maluco por essas pedras queridas,
Se ela fosse meu rancho,
30 Se ela fosse meu soldo!
Meu amor...
Mário, cuidado, se alinhe!
Tão na frente dos companheiros...
Contenha esse ardor patriótico,
35 Essa baita paixão pelo Brasil!
VII[99]
Que sono!
Todo dia,
Quatro e meia,
Madrugada...
5 Tácito hoje não veio.
Que seria?
Inquietação.
A neblina se senta a meu lado no bonde.
Estou doente.
10 RUA DOS INVOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA.
VIII[100]
“– Escola! Alto!”
Pararraáaaa...
“– Não prestou! Escola!...”
Escola pra quem, tenente?
5 O poeta vai na escola...
Vai soletrar marchas altos esporas...
O apito mandachuva chicoteia o lombo dele.
O tenente é um cowboy da Paramount.
O potro corcoveia
10 Prisca,
Relinchos surdos,
Tine tiririca esporeado no orgulho,
Mas parou porque o cowboy fê-lo parar.
A fita continua.
15 E Pauliceia em frente
Recostada no espigão do horizonte
Aplaude o domador douradamente
Batendo a mão do Sol na mão da Terra.
IX[101]
Careço de marchar cabeça levantada[102]
Olhar altivo pra frente...
Mas eu queria olhar à esquerda...
Bonita casa colonial
5 Cheinha mesmo de paisagem![103]
“– Olhar altivo pra frente!”
O meu tenente
Não aprecia as casas coloniais.
Porém o meu olhar blefa o tenente.
10 Olhou altivo pra frente
E batendo no quepe do soldado da frente[104]
Fez esquerda-volver
E meigamente espiou a casa colonial.
X
TABATINGUERA[105]
Mas a taba cresceu... Tigueras agressivas,
Pra trás! Agora o asfalto anda em Tabatinguera.
Mal se esgueira um pajé entre locomotivas
E o forde assusta os manes lentos do Anhanguera.
5 Anhanga fantasmal, feito de tabatinga
Guincha, entrou pelo chão como o Anhangabaú.
E a alvura se tornou cimento-armado, é cinza,
Tinge a garoa Borba Gato Engaguaçu...
Nada de ajuntamento! Os polícias dirigem
10 O “Circulez”. Meu Deus! É a marquesa de Santos!
Está pálida... O olhar fuzilando coragem
Faísca da cadeirinha atapetada de anjos.
Segue pra forca da Tabatinguera. Lento
O cortejo acompanha a rubra cadeirinha
15 Pro Ipiranga. Será que em tão pequeno assento
A marquesa botou sua imperial bundinha!...[106]
XI[107]
O sargento com esses acelerados
No campo de futebol...
Que avançadas vencedoras de paulistas
Contra uruguaios fugitivos invisíveis...
5 Vencemos facilmente.
Como sempre...
E o descanso feliz.
Gosto de mim esta manhã.
Minhas narinas esvoaçam,
10 Me levam os olhos pra festa do longe.
Boca trêmula de gostoso sorrir.
E chupo a taça da aurora
Cujo vinho é mais cor-de-rosa
Que um rubái de Omar Khayam.
XII[108]
Aquele bonde...
Sensação primavera de jardim.
Aleias regulares francesas coroadas de rosas,
Chiados de insetos de metálicas asas,
5 Cheiro claro esgarçado rosado de rosas abertas,[109]
De rosas nos ares na grama nos caminhos,
Milhares de rosas nos ares na grama nos caminhos,
De rosas se rindo...
Vontade de amar!...[110]
10 No entanto é já bem corriqueira[111]
Esta comparação de flores e mulheres.
XIII[112]
Seis horas lá em S. Bento.
Os lampiões fecham os olhos de repente
À voz de comando do sino.
A madrugada imensamente escura
5 Abafa as arquiteturas da praça.
E a estátua de Verdi também, graças a Deus!
Mãos nos bolsos
Grupinhos entanguidos
Encafuados nas socavas dos andaimes
10 Os reservistas que nem malfeitores.
Dlem! Dlem!...
“SANT’ANA”
Vem vindo a procissão com tocheiros e luzes.
E principia o assalto agitado sem vozes.
15 Anticlericais!
Fora estandartes andores!
Desaparecem os padres da noite.
As filhas-de-Maria das neblinas
Espavoridas pelo Anhangabaú...
20 Assaltantes equilibrados nos estribos.
Estilhaço me fere nos olhos o sangue da aurora.
Risadas.
Chamados.
Cigarros acesos.
25 Incêndio!
Extermínio!
Vitória completa...
Faz frio de geada esta manhã...
A gente se encosta nos outros, pedindo
30 Uma esmolinha de calor.
E o bonde abala sapateando nos trilhos
Em busca das casernas sinistras cor-de-chumbo.
XIV
O “ALTO”[113]
Tudo esquecido na cerração.
... um-dois, um-dois, um-dois, um-dois, um-dois,
um-dois, um-dois, um-dois
ÁRVORE
5 um-dois, um-dois, um-dois, um-dois,
um-dois
ÁRVORE
um-dois, um-dois, um-
ÁRVORE
10 dois,
um-dois, um-dois, um-dois, um-dois,
um-dois
PRIMEIRO APITO
um-dois,
15 um-dois,
um:
– prraá.
– Cutuba!
XV
Abro tua porta inda todo úmido do orvalho da manhã.
Estávamos tão bonitos hoje...
Os filhos dos fazendeiros
Os filhos dos italianos...
5 Tinha também alguns com a pele morena por demais
Como deve ser ridículo um negro passeando em Versalhes!
Detestável Paris!
Porém nós fazíamos a mesma raça,
Grande gente nova sem ódios,
10 Povo de trabalho e de aventura...
Novo-Continente, novo centro do mundo!...
Então vim, pra que me visses de farda.
Preguiçosa!
A estas horas amante de soldado já esqueceu o toucador!
15 Teus beijos serelepes novo orvalho sobre mim.
Teus olhos palpitantes e risadas
As tuas palmas infantis...
Me entristeci.
Vejo no espelho a medalha dos teus cabelos no meu peito.
20 O bonde grita engasgado nos trilhos da esquina.
Não ficarei.
Quando a primeira vez apareci fardado,
Duas lágrimas ariscas nos olhos de minha mãe...
XVI
Conversavam
Serenos pacholas fortes.
Que planos estratégicos...
Balística.
5 Tenentes.
Um galão.
Dois galões.
A galinhada!
Apito em grãos de milho no ar.
10 Escola pra um! Escola pra todos!
Mande mande, tenente!
Meus braços minhas pernas olhos
Apite que eles obedecerão!
Mas porém da caserna dum corpo que eu sei
15 Sai o exército desordenado meu sublime...[114]
Assombrações
Tristezas
Pecados
Versos-livres
20 Sarcasmos...
E o universo inteirinho em continência!
... Vai passando
No seu cavalo alazão
O marechal das tropas desvairadas
25 Do país de Mim-Mesmo...
XVII[115]
Mário de Andrade, intransigente pacifista, internacionalista amador, comunica aos
camaradas que bem contravontade, apesar da simpatia dele por todos os homens da
Terra, dos seus ideais de confraternização universal, é atualmente soldado da
República, defensor interino do Brasil.
E marcho tempestuoso noturno.
Minha alma cidade das greves sangrentas,
Inferno fogo INFERNO em meu peito,
5 Insolências blasfêmias bocagens na língua.
Meus olhos navalhando a vida detestada.
A vista renasce na manhã bonita.
Pauliceia lá embaixo epiderme áspera
Ambarizada pelo sol vigoroso,
10 Com o sangue do trabalho correndo nas veias das ruas.
Fumaça bandeirinha.
Torres.
Cheiros.
Barulhos
15 E fábricas...
Naquela casa mora,
Mora, ponhamos: Guaraciaba...
A dos cabelos fogaréu!...
Os bondes meus amigos íntimos
20 Que diariamente me acompanham pro trabalho...
Minha casa...
Tudo caiado de novo!
É tão grande a manhã!
É tão bom respirar!
25 É tão gostoso gostar da vida!...
A própria dor é uma felicidade...[116]
XVIII[117]
Cabo Alceu é um manguari guaçu
Com espinhas de todas as cores na cara,
Talqualmente uma coleção de turmalinas.
Acredita nas energias sem delicadeza
5 E nas graças vagamente eruditas.
“– Na minha esquadra ninguém se mexe.
La donna é immobile!”
XIX[118]
Marchamos certos em reta pra frente.
Asa especula freme vagueia na luz do sol.
Faça do seu espírito uma marcha de soldado,
Das suas sensações um voo de andorinha.
XX[119]
Cadência ondulada suave regular.
Névoa grossa pesada que nem som de trompa longe.
O Sol colhe algodão nas praias do Tietê.
... um-dois, um-dois...
5 NA REDE.
A cadência me embalança.
Que gostosura!
Ela devia estar aqui
Com os seus cabelos...
XXI
A MENINA E A CANTIGA
... trarilarára... traríla...
A meninota esganiçada magriça com a saia voejando por cima dos joelhos em nó
vinha meia dançando cantando no crepúsculo escuro. Batia compasso com a varinha
na poeira da calçada.
... trarilarára... traríla...
De repente voltou-se pra negra velha que vinha trôpega atrás, enorme trouxa de
roupas na cabeça:
5 – Qué mi dá, vó?
– Naão.
... trarilarára... traríla...
XXII[120]
A manhã roda macia a meu lado
Entre arranha-céus de luz
Construídos pelo melhor engenheiro da Terra.
Como ele deixou longe as renascenças do sr. dr. Ramos de Azevedo!
5 De que valem a Escola Normal o Théatre Municipal de l’Opéra
E o sinuoso edifício dos Correios-e-Telégrafos
Com aquele relógio-diadema made inexpressively?
Na Pauliceia desvairada das minhas sensações
O Sol é o sr. engenheiro oficial.
XXIII[121]
De nada vale inteligência.
Tempo perdido odiar os que devia odiar.
Saudei-o muito sorrindo.
Amor cantou por minha continência...
5 Ele no entanto foi mesquinho.
Na Semana de Arte Moderna teve um
número de programa que quase ninguém viu:
“A REVELAÇÃO DOS TAMANDUÁS”.
Saudei-o muito sorrindo...
10 E nem é influência do clima.
Está quente.
Vai chover.
Nuvens danadas.
E cansaço faz calor dentro de mim.
15 Saudei-o muito sorrindo...
Meu Deus, perdoai-me!
Creio bem que amo os homens por amor dos homens![122]
Não escreveria mais ODE AO BURGUÊS
Nem muitos outros versos de Pauliceia desvairada,
20 Tenho todo um mapa-múndi de estados-de-alma.
Pauliceia, passagem do equador...
Fazia frio no parnasianismo...
Ara! pra que voltar nas paisagens de dantes!
Dez quilômetros...
25 Quatro quilômetros...
Treze quilômetros...
O trem continua rápido.
Para em cada estação.
Me penteio no espelho.
30 – Você mudou bastante.
– Estou mais forte.
NO ENTANTO ERA UM DESCONHECIDO.
Desço.
Mas o sargento apita.
35 Aviso.
Torna a apitar.
Subo de novo.
Trem em marcha...
Onde irá dar a mobilização da vida!
XXIV
A ESCRIVANINHA[123]
Meu pai com seu nariz judeu...
Eu vivia quase sem ruído.
Dumas Terrail Zola escondidos,
Se ele souber... Meu pai? Meu Deus?
5 Duas pessoas num só terror.
Meus quatorze anos sorrateiros:
Leituras pobres, vícios feios,[124]
Quanto passado sem valor!
Eu não vivi no meu país.
10 Zola Terrail Dumas franceses...
Que gramáticas portuguesas
Pro miserável de Paris![125]
Depois a Vida me ensinou
A vida. Meu pai morreu. Quando
15 Órfão me vi, chora-chorando,
Minha miséria se acabou.
Anjo-da-Guarda, Solidão!
Zola voltou pra escrivaninha
De meu pai. Que grandeza estranha
20 Pôs esse gesto em minha mão?...
Não sei.
XXV
Sou o “base”.
Primeiro homem da 4ª Companhia.
Primeiro homem de S. Paulo!
Ela devia estar aqui
5 Com o seu “bom-dia”...
Tem dois soldados inda mais compridos que eu.
E a bizarria?
E a nitidez dos gestos militares?
Finalmente o sargento compreendeu que eu era o Exemplo,
10 Me deu o lugar supremo!
Sou o generalíssimo das tropas de terra-e-mar da humanidade!
Ela devia estar aqui
Com a sua vaidade.
Tudo em mim são ângulos, retas.
15 Maquinismo inflexível.
Corpo metrônomo,
Allegro ma non troppo.
Abaixo as músicas românticas!
Sou uma fuga de João Sebastião Bach!
20 Porém os pés sarcásticos satíricos
Grita-gritam riso fino de picadas.
Cobras,
Espinhos,
Dores,
25 Cacos no caminho.
Calcei botinas de febre!
Lamentações humilhações físicas insuportáveis!
Meus pobres pés martirizados!
Ah, os bálsamos deliciosos refrigerantes!
30 Perfumes raríssimos bíblicos!
Madalenas de mãos finas lentas imperiais!
Ela devia estar aqui
Com as suas mãos lentas...
XXVI[126]
“– Escola, olhe essa palestra!”
– Olhe o Paulistano
XXVII
A MENINA E A CABRA
A menina peleja pra puxar a cabra
Que toda se espaventa escorregando no asfalto
Entre as campainhadas dos bondes
E a velocidade poenta dos automóveis..
5 ... Todo um rebanho de cabras...
As cabras pastam o capim do meio-dia...
E na solidão morta da serra
Nem um toque só de buzina.
Cachorro feio de olhos grandes entocaiados nos pelos.
10 Junto das pedras movidas pelas lagartixas,
Aonde o solzão chapinha na água agitada[127]
Afinca os dentes no queijo dourado
Lícias, pastor.
XXVIII
FLAMINGO
Rígido a levantar no blau a flama rósea,
Flamingo... Além na sombra o mistério de Flandres...
Sinos de coros polifônicos se expandem
Em cinza, em amplidão nítida e crua ardósia.
5 Quimera viva! Vlan! Lança pelo infinito
O bico em curva e o voo arca sobre o deserto.
Desce no areal. Heraldo o alto perfil inquieto
Real... E a ridiculez do passo de Carlito.
Passam autos. Mulheres vão e vêm. Dengosa
10 A tarde grande bate as asas do flamingo.
Marés-altas de luxo. E o Flamengo domingo
Abre nos céus o que não tem no Rio: rosas!...
XXIX[128]
Enfim no bonde pra casa.
O coronel não gostou do alinhamento das armas.
Sargento Vitoriano ordenou dez minutos de acelerado.
No entanto era tão moço o nosso desalinho...
5 Sou brasileiro ou alemão?
Imperialismo...
Na certa que Dom Pedro II
Havia de se rir do nosso desalinho...
O bonde nada no Tietê.
10 Havia nas manhãs cheias de sol do entusiasmo
As monções da ambição...
Gigânteas vitórias...
Ninguém se amolava com o alinhamento das armas!
Ninguém mandava acelerados!
15 E nas madrugadas bonitas
Do ouro da luz mexendo na neblina
As bandeiras e as monções enveredavam pra aventura!...
Porém o hoje das turmalinas falsas baratíssimas!
Vida besta infame odiada!
20 Eu trago a raiva engatilhada...
XXX
JOROBABEL
Um choro aberto sobre o universo desaba
A badalar... Um choro aberto sobre a terra
Em bandos de ais... Guaiar profético se expande...
Anda franco no mundo o agouro da miséria...
5 Job abúlico baba o fel que o devora... Hirta
A multidão que desapareceu Abel...
Um choro... E a vida excessivamente infinita!...
Clamor! Ninguém se entende! Um Deus não vem!... Babel!...
Babel! Um choro aberto sobre a confusão
10 Das raças! Babel! Os sinos em arremessos
Bélicos! Badalar dos sinos! Multidão
Hirta! Jerusalém incendiada... Rebate!
Babel! Jerusalém! Jorobabel! Babel!
Batem os bronzes bimbalhando! Pobre Job
15 Sem ouro, multidão devora e baba o fel...
Um choro aberto de entes misérrimos... Oh!...[129]
XXXI
CABO MACHADO[130]
Cabo Machado é cor-de-jambo,
Pequeninho que nem todo brasileiro que se preza.
Cabo Machado é moço bem bonito.
É como se a madrugada andasse na minha frente.
5 Entreabre a boca encarnada num sorriso perpétuo
Adonde alumia o sol de ouro dos dentes[131]
Obturados com um luxo oriental.
Cabo Machado marchando[132]
É muito pouco marcial.
10 Cabo Machado é dançarino, sincopado,
Marcha vem-cá-mulata.
Cabo Machado traz a cabeça levantada
Olhar dengoso pros lados.
Segue todo rico de joias olhares quebrados
15 Que se enrabicharam pelo posto dele[133]
E pela cor-de-jambo.
Cabo Machado é delicado, gentil.
Educação francesa mesureira.
Cabo Machado é doce que nem mel
20 E polido que nem manga-rosa.
Cabo Machado é bem o representante duma terra[134]
Cuja Constituição proíbe as guerras de conquista
E recomenda cuidadosamente o arbitramento.
Só não bulam com ele![135]
25 Mais amor menos confiança!
Cabo Machado toma um jeito de rasteira...[136]
Mas traz unhas bem tratadas
Mãos transparentes frias,
Não rejeita o bom-tom do pó-de-arroz.
30 Se vê bem que prefere o arbitramento.
E tudo acaba em dança![137]
Por isso cabo Machado anda maxixe.
Cabo Machado... bandeira nacional!
XXXII
AS MOÇAS[138]
Cinco ou seis...
E me senti mais só no meio delas.
Rostos de luas coloridas,
Conversas fiadas de mulheres...
5 Mas a cidade continua...
PALMA DE MÃO...
E li nas linhas ruas
O destino daquela mocidade.
– É fatal: deixai-me a rir
10 E sorrindo parti!
Ela se fechará pra vos prender.
Antes se rir.
Vamos! mais rouge riso pros lábios,
Os sapatinhos de verniz,
15 Sedas e coração!
E é aguentar o cinema quotidiano!
Cowboys predestinados
Raptos elétricos...
E tudo acaba mal.
20 Sofrei!
... A própria dor é uma felicidade.
E ei-las partindo.
Longe de mim.
Voo de moças!
25 Voo de moscas assustadas...
E vão se debater ansiosas na vidraça...
E A MÃO QUE AS VAI PEGAR!
E fiquei a me rir...
Rindo das moças,
30 das moscas,
da vida...
das lágrimas nos olhos pequeninos.
XXXIII[139]
Prazeres e dores prendem a alma no corpo como com um prego. Tornam-a
corporal... Consequentemente é impossível a ela chegar pura nos Infernos.
Platão
Meu gozo profundo ante a manhã sol
a vida carnaval...
Amigos
Amores
5 Risadas
Os piás imigrantes me rodeiam pedindo retratinhos de artistas de cinema, desses que
vêm nos maços de cigarros.
Me sinto a Assunção de Murilo!
Já estou livre da dor...[140]
Mas todo vibro da alegria de viver.
10 Eis porque minha alma inda é impura.
XXXIII (bis)[141]
PLATÃO
Platão! por te seguir como eu quisera
Da alegria e da dor me libertando
Ser puro, igual aos deuses que a Quimera
Andou além da vida arquitetando!
5 Mas como não gozar alegre quando
Brilha esta alva manhã de primavera[142]
– Mulher sensual que junto a mim passando
Meu desejo de gozos exaspera!
A vida é bela![143] Inúteis as teorias!
10 Mil vezes a nudeza em que resplendo
À clâmide da ciência, austera e calma!
E caminho entre aromas e harmonias[144]
Amaldiçoando os sábios, bendizendo
A divina impureza de minha alma.
XXXIV
LOUVAÇÃO DA EMBOABA TORDILHA
Eu irei na Inglaterra
E direi a todas as moças da Inglaterra
Que não careço delas
Porque te possuo.
5 Irei na Itália
E direi a todas as moças da Itália
Que não careço delas
Porque te possuo.
Irei nos Estados-Unidos
10 E direi a todas as moças dos Estados-Unidos
Que não tenho nada com elas
Porque te possuo.
Depois irei na Espanha
e direi para todas as niñas da Espanha
15 Que não tenho nada com elas
porque te possuo.
(etc.)
Quando voltar ao Brasil
Te mostrarei a irmã dos teus cabelos,
Minha constância triunfante.
20 Será bonito enxergar as irmãs abraçadas na rua!
E inda terei de ir numa terra que eu sei...
Mas não será pra lhe gritar minha felicidade fanfarrã...
Será numa comovida silenciosa romaria
De amor, de reconhecimento.
XXXV[145]
“Meu coração estrala”...
Que imagem sem verdade.
Porém não tive ideia de mentir...
Foram os nervos, a alma?
5 Que quer dizer estralo!
Nem ao menos sou padre Vieira...
Oh dicionário pequitito!...
XXXVI[146]
Como sempre, escondi minha paixão.
Ninguém soube do primeiro beijo que te dei.
Ninguém não é a inteira verdade
Mas são tão relativos os desconhecidos...
5 S. Paulo é já uma grande capital.
Não porque tenha milhares de habitantes
Porém a curiosidade já não passa mais dos olhos pras línguas.
E quanto é mais intenso amar sem comentários!
Mas eu sonho que vais agarradinha no meu braço
10 Numa rua toda cheia de amigos, de soldados, conhecidos...
XXXVII[147]
Te gozo!...
E bem humanamente, rapazmente.
Mas agora esta insistência em fazer versos sobre ti...
XXXVIII[148]
Manhã veraneja, manhã que dá sustância,
Toda lisa sem nuvens
sem cuidados
cansaços...
5 Adiante o morro sacode o ombro indiferente.
Curiosidade de viver!
Cadência bem batida, regular.
Porém o sargento embirrou com o alinhamento das armas.
“– Alinhem essas armas, senhores!”
10 O sargento ignora a influência do sangue latino.
Impaciência.
Mocidade.
Verso-livre...
Alegria grita em mim.
15 Curiosidade de viver!
“– Senhores, as armas!”
... e os barões assinalados
Que da ocidental praia lusitana...
Marco a cadência com versos de Camões.
20 Ineses fugitivas nas janelas e portas.
Amo todas as moças brancaranas ou louras
E a manhã despenteando nos telhados seus cabelos fogaréu...
Curiosidade de viver!
Sargento Vitoriano,
25 Sapeque o seu jamegão latino
Nesta desalinhada Companhia brasileira!
XXXIX
PARADA[149]
(7 de setembro de 1922)
“– Colunas de pelotões por quatro!”
O DESFILE PRINCIPIA.
O refle rombudo da soldadesca marchando
Mansamente se embainha na Avenida.
5 “– Olhe a conversão!”
Conversão de S. Paulo...
Todos convergem pra esquerda.
Lá está Bilac estreando a fatiota de bronze.
Pátria latejo em ti...
10 Meu Brasilzinho do coração!
A alma da gente drapeja no espaço cinzento.
Os mil milhões de rosas paulistanas.
Moça bonita!
Muitas moças.
15 Conhecidos.
“– Troque o passo!”
Gi, Taco, Maria, que lindos os três!
Máquinas cinematográficas.
My Boy.
20 Não posso me rir.
Olhar altivo pra frente...
Na minha frente
O cabo mais descabido deste mundo.
Rua Augusta curiosa.
25 Todas as ruas transversais espiando curiosas
Trepadas em trincheiras de automóveis.
Sorveteiro.
Moça bonita!
Palmas.
30 Grade dos escoteiros perfilados.
Cunhãs, velhas corocas debruçadas...
Brutas!
No parapeito das cabeças infantis.
As famílias dos mitras nos castelos roqueiros
35 Apresentam armas em negligé.
Zero uniforme.
Este cabo caminha em contratempo,
Cinco por quatro,
Tal e qual Boieldieu na Dama branca
40 “Viens, gentille dame”...
Zortzico de Albeniz...
Esculhamba toda a marcha!
Moça bonita!
“– Olhe o Mário de Andrade!”
45 Se enganou, moça.
Onde estarei?
Ela não veio com certeza...
Que bem me importa!
Saiba a cidade de S. Paulo
50 Que nela vive um homem feliz!
“– Olhe a cadência!”
O TRIANON VAI PASSAR
Palmas.
O tenente gesticula com a espada
55 E todos olham pra direita em continência.
Músicas.
Ovação.
Trinta carinhas adoráveis.
Esta família sorocaba...
60 Tudo procissiona em meus olhos um-dois...
Árvores,
O preto,
Beiço vermelho tapa o resto.
Moça bonita!
65 Músicas.
Cornetas.
Cornacas.
Bengalós.
No alto dum palanquim
70 Sua Excia. o marajá de Khajurao.
O sr. presidente do Estado não gosta de Modernismo...
Olha pra mim!
“– Fora de forma!
Quarenta dias de prisão!...”
75 Oh, minhas alucinações!
Moça bonita!
Palmas.
Passou o palanquim.
Serenamente continuou sua jornada
80 Sua Excia. o marajá de Khajurao.
E os diademas de pérolas luzentes
Nos risos das favoritas.
Toneladas de moças bonitas!
“– Viva o Brasil!”
85 “– Viva o Quarto Batalhão de Caçadores!”
Risos.
Sorveteiro-sorveteiro.
Acerte o passo, cabo!
Um senhor três filhas gordas,
90 Colares falsos,
Terra-roxa,
Guaratinguetá,
Tabatinguera,
Oblivion!
95 Oblivion...
Está acabando a preocupação.
Braço dói.
A Avenida escampou.
Não tem mais moça bonita.
100 Quedê as palmas?
Não existo.
Não marcho.
Muito longe
Nos cafundós penumbristas de Santo Amaro
105 O vácuo badalando badalando...
Eco dentro de mim.
Não tem mais Independência do Brasil.
Olhos defuntos.
Ninguém.
110 Nada.
Pra que tanto tambor?
O braço nem dói mais.
Cheiros de almoços mayonnaises.
Sol crestado nas nuvens que nem PÃO.
115 Kennst du das Land
Wo die Zitronen blühen?...
Assombrações desaparecidas.
O mundo não existe.
Não existo.
120 Não sou.
CICLIZAÇÃO
Alô?...
Dava dez milréis por um copo de leite.
XL[150]
Não devia falar “meu coração estrala”.
Lembro todos os estralos do mundo...
Os boleeiros guasqueiam os burros...
O pneu arrebentou quando íamos duas horas da manhã...
5 Balas-de-estralo pelo Ano-Bom...
– Eu peno todas as dores
Com este amor que Deus me deu,
Quem achou os seus amores
A si mesmo se perdeu.
10 Só falta música.
Se fosse rico havia de ter uma farda de gala.
Não devia falar “meu coração estrala”...
Esta preocupação de sentimento que passou...[151]
XLI
TOADA SEM ÁLCOL[152]
Certeza de ser nesta vida
Fingimento de alguém nas artes,
Antes fraco inerme covarde,
Covarde diante desta vida.
5 Chuçadas e lapos berrantes,[153]
Klaxon, terror! sem automóvel...
Antes triste traste covarde
Diante dos morros desta vida.
Ninguém sabe da solitude
10 Que enche o meu peito sem emprego,
O qual comunga todo dia
Na missa-baixa do abandono.
Mas, rapazes, não tenho a culpa
De ter faltado em minha vida
15 O amigo que me defendesse,
Aquela que eu defenderia.
XLII
RONDÓ DAS TARDANÇAS[154]
“– Volte amanhã.”
Como tarda a desincorporação!
Não tem mais formaturas,
Não tem mais acelerados...
5 CALMARIA
Desejo de tempestades
Adoece meus membros parados.
Quero ir de novo pro batuque público da vida!
Que engraçado!
10 Também quando trato dos meus negócios com a vida
Ela sempre me diz com o ar distraído dela:
“– Volte amanhã.”
XLIII[155]
Desincorporados.
Previsões tenebrosas,
Outra parada,
Revoluções futuras...
5 O sr. presidente da República
Acredita na fidelidade dos seus súditos.
E TUDO ACABA EM DANÇA!
Por isso cabo Machado anda maxixe...
Nem sodade nem prazer.
10 Me inebriei de manhãs e de imprevistos.
Bebedeiras sentimentais...
Meu vício original.
Recordamos esquerdas-volver e meias-voltas...
Volta e meia vamos dar.
15 É certo que me alegra
Não ser obrigado a fingir mais olhar altivo pra frente,
Secretamente eu preferia o olhar quebrado do amor.
E a gente tem mais coisas que fazer.
Não sou desses pros quais a segunda-feira é igualzinha ao domingo.
20 Trabalho como jeteí
Quando é florada na fruteira.
Corro minha vida com a velocidade dos elétrons
Mas porém sei parar diante das vistas pensativas
E nos portais das tupanarocas sagradas.
25 Eis a vida.
V’là Paris...
pan-bataclan...
– Ordinário, marche,
Pros meus vinte-e-nove anos maravilhosos!
30 Afinal,
Este mês de exercícios militares:
Losango cáqui em minha vida.
... arlequinal...
XLIV
RONDÓ DO TEMPO PRESENTE[156]
Noite de music-hall...
Não, faz sol. É meio-dia.
Hora das fábricas estufadas digerindo.
A rua elástica estica-se tal qual clown desengonçado
5 Farfalhando neblinas irônicas paulistas.
O Sol nem se reconhece mais de empoado
Ver padeiro que a gente encontra manhãzinha
Quando das farras vai na padaria comer pão.
Noite de music-hall...
10 Cantoras bem pernudas.
O olhar piscapisca dos homens aplaudindo.
Como se canta bem nas ruas de S. Paulo!
O passadista se enganou.
Não era desafinação
15 Era pluritonalidade moderníssima.
Em seguida o imitador,
Tenores bolchevistas,
Tarantelas do Fascio...
Ibsen! Ibsen!
20 Peer Gynt vai pro escritório
Com o rubim falso na unha legítima.
Empregados públicos virginais
Deslumbrados com o jazz dos automóveis.
Os cadetes mexicanos marcham que nem cavalos ensinados,
25 Está repleto o music-hall!
Mulheres-da-vida perfiladas nas frisas.
– Olhar à direita!
– Olhar à esquerda!
Taratá!
30 Olhar especula pra todos os lados!
Mas as continências livres do meu chapéu
Não se esperdiçarão mais com galões desconhecidos!
Prefiro mil vezes saudar os curumins!
Os meninos-prodígios caminham século-vinte
35 Sem esbarrão na confusão da multidão.
Bravíssimo!
Taratá!
Século Broadway de gigolôs, boxistas e pansexualidade!
Que palcos imprevistos!
40 Programas originais!
Permitido fumar.
Esteja a gosto.
Faz sol.
É meio-dia...
45 Noite de music-hall...
XLV
TOADA DA ESQUINA[157]
Pouco antes de meio-dia
Senti que vinha. Esperei.
Veio. Passou. Foi assim
Como se a lua passasse
5 Por essa picada estranha
Que viajo desde nascer.
A redoma toda verde
Do meu peito escureceu.
Noite de maio bondoso.
10 Lá vai a lua passando.
Há mesmo essa refração
Que me bota no pescoço
O cachecol da Via-Látea
E a lua na minha mão.
15 Mas quando quero gozar
O belo tátil do luar,
E passo a mão sobre os dedos...
Tenho que desiludir-me.
Foi mentira dos sentidos,
20 Foi o orvalho. Nada mais.
Veio. Passou. Foi assim
Como se a lua...
Suspiro talqual na infância.
– Que queres, Mário? – Mamãe,
25 Quero a lua! – Hoje é impossível,
Já vai longe. Tem paciência,
Te dou a lua amanhã.
E espero. Esperas... Espera...
– Pinhões!
CLÃ DO JABUTI[158]



O POETA COME AMENDOIM
(1924)[159]

A Carlos Drummond de Andrade[160]
Noites pesadas de cheiros e calores amontoados...
Foi o sol que por todo o sítio imenso do Brasil
Andou marcando de moreno os brasileiros.
Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer...
5 A noite era pra descansar. As gargalhadas brancas dos mulatos...
Silêncio! O Imperador medita os seus versinhos.
Os Caramurus conspiram na sombra das mangueiras ovais.[161]
Só o murmurejo dos cre’m-deus-padres irmanava os homens de meu país...
Duma feita os canhamboras perceberam que não tinha mais escravos,
10 Por causa disso muita virgem-do-rosário se perdeu...[162]
Porém o desastre verdadeiro foi embonecar esta República temporã.
A gente inda não sabia se governar...[163]
Progredir, progredimos um tiquinho
Que o progresso também é uma fatalidade...
15 Será o que Nosso Senhor quiser!...
Estou com desejos de desastres...
Com desejos do Amazonas e dos ventos muriçocas
Se encostando na canjerana dos batentes...
Tenho desejos de violas e solidões sem sentido
20 Tenho desejos de gemer e de morrer.[164]
Brasil...
Mastigado na gostosura quente do amendoim...
Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remelexo melado melancólico...
25 Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons...
Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois remurmuram sem malícia as rezas bem-nascidas...[165]
Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...[166]
30 Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,[167]
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
35 Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.
CARNAVAL CARIOCA[168]
(1923)
a Manuel Bandeira[169]
A fornalha estrala em mascarados cheiros silvos
Bulhas de cor bruta aos trambolhões,
Cetins sedas cassas fundidas no riso febril...
Brasil!
5 Rio de Janeiro!
Queimadas de verão!
E ao longe, do tição do Corcovado a fumarada das nuvens pelo céu.
Carnaval...
Minha frieza de paulista,[170]
10 Policiamentos interiores,
Temores da exceção...
E o excesso goitacá pardo selvagem!
Cafrarias desabaladas
Ruínas de linhas puras
15 Um negro dois brancos três mulatos, despudores...
O animal desembesta aos botes pinotes desengonços
No heroísmo do prazer sem máscaras supremo natural.
Tremi de frio nos meus preconceitos eruditos
Ante o sangue ardendo povo chiba frêmito e clangor.
20 Risadas e danças
Batuques maxixes
Jeitos de micos piricicas
Ditos pesados, graça popular...
Ris? Todos riem...
25 O indivíduo é caixeiro de armarinho na Gamboa.
Cama de ferro curta por demais,
Espelho mentiroso de mascate
E no cabide roupas lustrosas demais...
Dança uma joça repinicada
30 De gestos pinchando ridículos no ar.
Corpo gordo que nem de matrona
Rebolando embolado nas saias baianas,
Braço de fora, pelanca pulando no espaço
E no decote cabeludo cascavéis saracoteando
35 Desritmando a forçura dos músculos viris.
Fantasiou-se de baiana,
A Baía é boa terra...
Está feliz.
Entoa à toa a toada safada
40 E no escuro da boca banguela
O halo dos beiços de carmim.
Vibrações em redor.
Pinhos gargalhadas assobios
Mulatos remelexos e boduns.
45 Palmas. Pandeiros. – Aí, baiana!
Baiana do coração!
Serpentinas que saltam dos autos em monóculos curiosos,
Este cachorro espavorido,
Guarda-civil indiferente.
50 Fiscalizemos as piruetas...
Então só eu que vi?
Risos. Tudo aplaude. Tudo canta:
– Aí, baiana faceira,
Baiana do coração!
55 Ele tinha nos beiços sonoros beijando se rindo
Uma ruga esquecida uma ruga longínqua
Como esgar duma angústia indistinta ignorante...
Só eu pude gozá-la.
E talvez a cama de ferro curta por demais...
60 Carnaval...
A baiana se foi na religião do Carnaval
Como quem cumpre uma promessa.
Todos cumprem suas promessas de gozar.
Explodem roncos roucos trilos tchique-tchiques
65 E o falsete enguia esguia rabejando pelo aquário multicor.
Cordões de machos mulherizados,
Ingleses evadidos da pruderie,
Argentinos mascarando a admiração com desdéns superiores
Degringolando em lenga-lenga de milonga,
70 Polacas de indiscutível índole nagô,
Yankees fantasiados de norte-americanos...
Coiozada emproada se aturdindo turtuveando
Entre os carnavalescos de verdade
Que pererecam pararacas em derengues meneios cantigas, chinfrim de gozar!
75 Tem outra raça ainda.
O mocinho vai fuçando o manacá naturalizado espanhola.
Ela se deixa bolinar na multidão compacta.
Por engano.
Quando aproximam dos polícias
80 Como ela é pura conversando com as amigas!
Pobre do moço olhando as fantasias dos outros,
Pobre do solitário com chapéu caicai nos olhos!
Naturalmente é um poeta...
Eu mesmo... Eu mesmo, Carnaval...
85 Eu te levava uns olhos novos
Pra serem lapidados em mil sensações bonitas,
Meus lábios murmurejando de comoção assustada
Haviam de ter puríssimo destino...
É que sou poeta
90 E na banalidade larga dos meus cantos
Fundir-se-ão de mãos dadas alegrias e tristuras, bens e males,
Todas as coisas finitas
Em rondas aladas sobrenaturais.
Ânsia heroica dos meus sentidos
95 Pra acordar o segredo de seres e coisas.
Eu colho nos dedos as rédeas que param o infrene das vidas,
Sou o compasso que une todos os compassos,
E com a magia dos meus versos
Criando ambientes longínquos e piedosos
100 Transporto em realidades superiores
A mesquinhez da realidade.
Eu bailo em poemas, multicolorido!
Palhaço! Mago! Louco! Juiz! Criancinha!
Sou dançarino brasileiro!
105 Sou dançarino e danço! E nos meus passos conscientes
Glorifico a verdade das coisas existentes[171]
Fixando os ecos e as miragens.
Sou um tupi tangendo um alaúde
E a trágica mixórdia dos fenômenos terrestres
110 Eu celestizo em euritmias soberanas,
Ôh encantamento da Poesia imortal!...
Onde que andou minha missão de poeta, Carnaval?
Puxou-me a ventania,
Segundo círculo do Inferno,
115 Rajadas de confetes[172]
Hálitos diabólicos perfumes
Fazendo relar pelo corpo da gente
Semíramis Marília Helena Cleópatra e Francesca.
Milhares de Julietas!
120 Domitilas fantasiadas de cow-girls,
Isoldas de pijama bem francesas,
Alzacianas portuguesas holandesas...
Geografia!
Êh liberdade! Pagodeira grossa! É bom gozar!
125 Levou a breca o destino do poeta,
Barreei meus lábios com o carmim doce dos dela...
Teu amor provinha de desejos irritados,
Irritados como os morros do nascente nas primeiras horas da manhã.
Teu beijo era como o grito da araponga,
130 Me alumiava atordoava com o golpe estridente viril.
Teu abraço era como a noite dormida na rede
Que traz o dia de membros moles mornos de torpor.
Te possuindo eu me alimentei com o mel dos guarupus,
Mel ácido, mel que não sacia,
135 Mel que dá sede quando as fontes estão muitas léguas além,
Quando a soalheira é mais desoladora
E o corpo mais exausto.[173]
Carnaval...
Porém nunca tive intenção de escrever sobre ti...
140 Morreu o poeta e um gramofone escravo
Arranhou discos de sensações...
I
Embaixo do Hotel Avenida em 1923
Na mais pujante civilização do Brasil
Os negros sambando em cadência.
145 Tão sublime, tão áfrica!
A mais moça bulcão polido ondulações lentas lentamente
Com as arrecadas chispando raios glaucos ouro na luz peluda de pó.
Só as ancas ventre dissolvendo-se em vaivéns de ondas em cio.
Termina se benzendo religiosa talqualmente num ritual.
150 E o bombo gargalhante de tostões
Sincopa a graça da danada.
II
Na capota franjada com xale chinês
Amor curumim abre as asas de ruim papelão.
Amor abandonou as setas sem prestígio
155 E se agarra na cinta fecunda da mãe.
Vênus Vitoriosa emerge de ondas crespas serpentinas,
De ondas encapeladas por mexicanos e marqueses cavalgando autos
perseguidores.
– Quero ir pra casa, mamãe!
Amor com medo dos desejos...
III
160 O casal jovem rompendo a multidão.
O bando de mascarados de supetão em bofetadas de confetes na mulher.
– Olhe só a boquinha dela!
– Ria um pouco, beleza!
– Come do meu!
165 O marido esperou (com paciência) que a esposa se desvencilhasse do bando de
máscaras
E lá foram rompendo a multidão.
Ela apertava femininamente contra o seio o braço protetor do
Esposo.
Do esposo recebido ante a imponência catedrática da Lei
170 E as bênçãos invisíveis – extraviadas? – do Senhor...
Meu Deus...
Onde que jazem tuas atrações?
Pra que lados de fora da Terra
Fugiu a paz das naves religiosas
175 E a calma boa de rezar ao pé da cruz?
Reboa o batuque.
São priscos risadas
São almas farristas
Aos pinchos e guinchos
180 Cambeteando na noite estival.
Pierrots-fêmeas em calções mais estreitos que as pernas,
Gambiarras iluminadas!
Oblatas de confetes no ar,
Incenso e mirra marca Rodo nacional
185 Açulam raivas de gozar.
O cabra enverga fraque de cetim verde no esqueleto.
Magro magro asceta de longos jejuns dificílimos.
Jantou gafanhotos.
E gesticula fala canta.
190 Prédicas de meu Senhor...
Será que vai enumerar teus pecados e anátemas justos?
A boca vai florir em bênçãos e perdões...[174]
Porém de que lados de fora da Terra
Falam agora as tuas prédicas?
195 Quedê teus padres?
Quedê teus arcebispos purpurinos?
Quedele o tempo em que Felipe Neri
Sem fraque de cetim verde no esqueleto
Agarrava a contar as parábolas lindas
200 De que os padres não se lembram mais?
Por onde pregam os Sumés de meu Senhor?
Aqueles a quem deixaste a tua Escola
Fingem ignorar que gostamos de parábolas lindas,
E todos nos pusemos sapeando histórias de pecado
205 Porque não tinha mais histórias pra escutar...
Senhor! Deus bom, Deus grande sobre a terra e sobre o mar,
Grande sobre a alegria e o esquecimento humano,
Vem de novo em nosso rancho, Senhor!
Tu que inventaste as asas alvinhas dos anjos
210 E a figura batuta de Satanás;
Tu, tão humilde e imaginoso
Que permitiste Isis guampuda nos templos do Nilo,
Que indicaste a bandeira triunfal de Dionísio pros gregos
E empinaste Tupã sobre os Andes da América...
215 Aleluia!
Louvemos o Criador com os sons dos saxofones arrastados,
Louvemo-Lo com os salpicos dos xilofones nítidos!
Louvemos o Senhor com os riscos dos recorrecos e os estouros do tam-tam,
Louvemo-Lo com a instrumentarada crespa do jazz-band!
220 Louvemo-Lo com os violões de cordas de tripa e as cordeonas imigrantes,
Louvemo-Lo com as flautas dos choros mulatos e os cavaquinhos das serestas
ambulantes!
Louvemos O que permanece através das festanças virtuosas e dos gozos ilegítimos!
Louvemo-Lo sempre e sobre tudo! Louvemo-Lo com todos os instrumentos e todos os
ritmos!...
Vem de novo em nosso rancho, Senhor!
225 Descobrirei no colo dengoso da Serra do Mar
Um derrame no verde mais claro do vale,
Arrebanharei os cordões do carnaval
E pros carlitos marinheiros gigoletes e arlequins
Tu contarás de novo com tua voz que é ver o leite
230 Essas histórias passadas cheias de bons samaritanos,
Dessas histórias cotubas em que Madalena atapetava com os cabelos o teu chão...
... pacapacapacapão!... pacapão! pão! pão!...
Pão e circo!
Roma imperial se escarrapacha no anfiteatro da Avenida.
235 Os bandos passam coloridos,
Gesticulam virgens,
Semivirgens,
Virgens em todas as frações
Num desespero de gozar.
240 Homens soltos
Mulheres soltas
Mais duas virgens fuxicando o almofadinha
Maridos camaradas
Mães urbanas
245 Meninos
Meninas
Meninos
O de dois anos dormindo no colo da mãe...
– Não me aperte!
250 – Desculpe, Madama!
Falsetes em desarmonia
Coros luzes serpentinas serpentinas
Coriscos coros caras colos braços serpentinas serpentinas
Matusalém cirandas Breughel
255 – Diacho!
Sambas bumbos guizos serpentinas serpentinas...
E a multidão compacta se aglomera aglutina mastiga em
[aproveitamentos brincadeiras asfixias desejadas
[delírios sardinhas desmaios
Serpentinas serpentinas coros luzes sons
E sons!
260 YAYÁ, FRUTA-DO-CONDE,
CASTANHA-DO-PARÁ!...
Yayá, fruta-do-conde,
Castanha-do-Pará!...
O préstito passando.
265 Bandos de clarins em cavalos fogosos.
Utiaritis aritis assoprando cornetas sagradas.
Fanfarras fanfarrãs
fenferrens
finfirrins...
270 Forrobodó de cuia!
Vitória sobre a civilização! Que civilização?... É Baco!
É Baco num carro feito de ouro e de mulheres
E dez parelhas de bestas imorais.
Tudo aplaude guinchos berros,
275 E sobre o Etna de loucuras e pólvoras
Os Tenentes do Diabo.
Alegorias, críticas, paródias
Palácios bestas do fundo do mar,
Os aluguéis se elevam...
280 Os senhorios exigentes...
Cães! infames! malditos!...
... Eu enxerguei com estes meus olhos que inda a terra há-de comer
Anteontem as duas mulheres se fantasiando de lágrimas.
A mais nova amamentava o esqueletinho.
285 Quatro barrigudinhos sem infância,
Os trastes sem conchego
No lar-de-todos da rua...
O solzão ajudava a apoteose
Com o despejo das cores e calores...
290 Segue o préstito numa via-látea de esplendores.
Presa num palanquim de ônix e pórfiro...
Ôta, morena boa!
Os olhos dela têm o verde das florestas,
Todo um Brasil de escravos-banzo sensualismos,
295 Índios nus balanceando na terra das tabas,
Cauim curare caxiri
Cajás... Ariticuns... Pele de sol!
Minha vontade por você serpentinando...
O préstito se vai.
300 Os Blocos se amontoam me afastando de você...
Passa o Flor de Abacate,
Passa o Miséria e Fome, o Ameno Resedá...
O préstito se vai...
Você também se foi rindo pros outros,
305 Senhora dona ingrata
Coberta de ouro e prata...
Esfuzios de risos...
Arrancos de metais...
O schlschlsch monótono das serpentinas...
310 Monótono das serpentinas...
E a surpresa do fim: fadiga de gozar...
Claros em torno da gente.
Bolas de fitas de papel rolando pelo chão.
Manchas de asfalto.
315 Os corpos adquirem de novo as sombras deles.
Tem lugares no bar.
As árvores pousam de novo no chão graciosas ordenadas,
Os palácios começam de novo subindo no céu...
Quatro horas da manhã.
320 Nos clubes nas cavernas
Inda se ondula vagamente no maxixe.
Os corpos se unem mais.
Tem cinzas na escureza indecisa da arraiada.
Já é quarta-feira no Passeio Público.
325 Numa sanha final
Os varredores carnavalizam as brisas da manhã
Com poeiras perfumadas e cromáticas.
Peri triste sentou na beira da calçada.
O carro-chefe dos Democráticos
330 Sem a falação do estandarte
Sem vida, sem mulheres
Senil buscando o barracão.
Democraticamente...
Aurora... Tchim! Um farfalhar de plumas áureas no ar.
335 E as montanhas que nem tribos de guaianás em rapinas de luz
Com seus cocares de penas de tucano.
O poeta se debruça no parapeito de granito.
A rodelinha de confete cai do chapéu dele,
Vai saracotear ainda no samba mole das ondas.
340 Então o poeta vai deitar.
Lentamente se acalma no país das lembranças
A invasão furiosa das sensações.
O poeta sente-se mais seu.
E puro agora pelo contato de si mesmo
345 Descansa o rosto sobre a mão que escreverá.
Lhe embala o sono
A barulhada matinal de Guanabara...
Sinos buzinas clácsons campainhas
Apitos de oficinas
350 Motores bondes pregões no ar,
Carroças na rua, transatlânticos no mar...
É a cantiga-de-berço.
E o poeta dorme.
O poeta dorme sem necessidade de sonhar.
COORDENADAS

(1924)

a Couto de Barros[175]
RONDÓ PRA VOCÊ[176]
De você, Rosa, eu não queria
Receber somente esse abraço[177]
Tão devagar que você me dá,
Nem gozar somente esse beijo[178]
5 Tão molhado que você me dá...
Eu não queria só porque
Por tudo quanto você me fala,
Já reparei que no seu peito
Soluça o coração bem feito
10 De você.
Pois então eu imaginei
Que junto com esse corpo magro,[179]
Moreninho que você me dá,
Com a boniteza, a faceirice,
15 A risada que você me dá,
E me enrabicham como o quê,
Bem que eu podia possuir também
O que mora atrás do seu rosto, Rosa,
O pensamento, a alma, o desgosto
20 De você.
VIUVITA[180]
Ela era mesmo bonita, muito moça
Esperando autobonde sozinha na esquina.
Todos os homens a encaravam sem respeito, desejando.
Vai, pra se livrar de tanta amolação
5 Ela fez esse gesto de moça que arranja chapéu,
Só pra mostrar a defesa que tinha no dedo, uma aliança.
A moça esqueceu que tinha duas alianças no dedo...
Por causa disso os homens se aproximaram mais.
LEMBRANÇAS DO LOSANGO CÁQUI[181]
Meu Deus como ela era branca!...
Como era parecida com a neve...
Porém não sei como é a neve,
Eu nunca vi a neve,
5 Eu não gosto da neve!
E eu não gostava dela...
SAMBINHA[182]
Vêm duas costureirinhas pela rua das Palmeiras.
Afobadas, braços dados, depressinha,
Bonitas, Senhor! que até dão vontade pros homens da rua.
As costureirinhas vão explorando perigos...
5 Vestido é de seda.
Roupa-branca é de morim.
Falando conversas fiadas
As duas costureirinhas passam por mim.
– Você vai?
10 – Não vou não!
Parece que a rua parou pra escutá-las.
Nem os trilhos sapecas
Jogam mais bondes um pro outro.
E o sol da tardinha de abril
15 Espia entre as pálpebras crespas de duas nuvens.[183]
As nuvens são vermelhas.
A tardinha é cor-de-rosa.
Fiquei querendo bem aquelas duas costureirinhas...
Fizeram-me peito batendo
20 Tão bonitas, tão modernas, tão brasileiras!
Isto é...
Uma era ítalo-brasileira.
Outra era áfrico-brasileira.
Uma era branca.
25 Outra era preta.
MODA DOS QUATRO RAPAZES[184]
(Campos do Jordão)
Nós somos quatro rapazes
Dentro duma casa vazia.
Nós somos quatro amigos íntimos
Dentro duma casa vazia.
5 Nós somos ver quatro irmãos
Morando na casa vazia.
Meu Deus! se uma saia entrasse
A casa toda se encheria!
Mas era uma vez quatro amigos íntimos...
MODA DO BRIGADEIRO [185]
(Campos do Jordão)
O brigadeiro Jordão
Possuiu estes latifúndios
Dos quais o metro quadrado
Vale hoje uns nove milréis.
5 Puxa! que homem felizardo
O brigadeiro Jordão!...
Tinha casa tinha pão,
Roupa lavada e engomada
E terras... Qual terras! mundos
10 De pastos e pinheirais!
Que troças em perspectiva...
Nem pensava em serrarias
Nem fundava sanatórios
Nem gado apascentaria!
15 Vendia tudo por oito
E com a bolada no bolso
Ia no largo do Arouche
Comprar aquelas pequenas
Que moram numa pensão!
20 Mas não são minhas as terras
Do brigadeiro Jordão...
ACALANTO DA PENSÃO AZUL[186]
(Campos do Jordão)
Oh héticas maravilhosas
Dos tempos quentes do Romantismo,
Maçãs coradas, olhos de abismo,
Donas perversas e perigosas,
5 Oh héticas maravilhosas!
Não vos compreendo, sois de outras eras,
Fazei depressa o pneumotórax
Mulheres de Anto e de Dumas Filho!
E então seremos bem mais felizes,
10 Eu sem receio do vosso brilho,
Vós sem bacilos nem hemoptises,
Oh héticas maravilhosas!
SONETO DO HOMEM MORTO [187]
(Campos do Jordão, 1924)
Paragens do Homem Morto... Fantasia
Da natureza livre a imaginar,
Mar de ondas paralíticas que um dia
A terra ergueu para imitar o mar...
5 Stadiums suspensos onde a ventania
Vence no steeple-chase a luz solar
E em que os pinheiros da melancolia
Boxam com luvas de cem onças no ar...
Paragens do Homem Morto... Os elementos
10 Sambam nos morros sobre os quais a lua
Chocalha crebra feito um maracá...
Vida dos meus sentidos sonolentos!
Vida do corpo, primitiva, nua,
Paragens do Homem Morto... viver lá!
NOTURNO DE BELO HORIZONTE[188]
(1924)

a Elísio de Carvalho[189]
Maravilha de milhares de brilhos vidrilhos,
Calma do noturno de Belo Horizonte...
O silêncio fresco desfolha das árvores[190]
E orvalha o jardim só.
5 Larguezas.
Enormes coágulos de sombra.
O polícia entre rosas...
Onde não é preciso, como sempre...
Há uma ausência de crimes
10 Na jovialidade infantil do friozinho.
Ninguém.
O monstro desapareceu.
Só as árvores árvores do mato-virgem[191]
Pendurando a tapeçaria das ramagens
15 Nos braços cabindas da noite.
Que luta pavorosa entre floresta e casas...
Todas as idades humanas
Macaqueadas por arquiteturas históricas
Torres torreões torrinhas e tolices
20 Brigaram em nome da?
Os mineiros secundam em coro:
– Em nome da civilização!
Minas progride.
Também quer ter também capital moderníssima também...
25 Pórticos gregos do Instituto de Rádio
Onde jamais Empédocles entrará...
O Conselho Deliberativo é manuelino,
Salão sapiente de Manuéis-da-hora...
Arcos românicos de São José
30 E a catedral que pretende ser gótica...
Pois tanto esquecimento da verdade!
A terra se insurgiu.
O mato invadiu o gradeado das ruas,[192]
Bondes sopesados por troncos hercúleos,
35 Incêndio de Cafés,[193]
Setas inflamadas,
Comboio de trânsfugas pro Rio de Janeiro,
A ramaria crequenta cegando as janelas
Com a poeira dura das folhagens...[194]
40 Aquele homem fugiu.
A imitação fugiu.
Clareiras do Brasil, praças agrestes!...
Paz.
O mato vitorioso acampou nas ladeiras.[195]
45 Suor de resinas opulentas.
Grupos de automóveis:
Baitacas e jandaias do rosal.
E o noturno apagando na sombra o artifício e o defeito
Adormece em Belo Horizonte
50 Como um sonho mineiro.
Tem festas do Tejuco pelo céu!
As estrelas baralham-se num estardalhaço de luzes.
O sr. barão das Catas-Altas
Reúne todas as constelações
55 Pra fundir uma baixela de mundos...
Bulício de multidões matizadas...
Emboabas, carijós, espanhóis de Felipe IV...
Tem baianos redondos...[196]
Dom Rodrigo de Castel Branco partirá!...
60 Lumeiro festival... Gritos... Tocheiros...
O Triunfo Eucarístico abala chispeando...
Os planetas comparecem em pessoa!
Só as magnólias – que banzo dolorido! –
As carapinhas fofas polvilhadas
65 Com a prata da Via-Látea
Seguem pra igreja do Rosário
E pro jongo de Chico-Rei...
Estrelas árvores estrelas
E o silêncio fresco da noite deserta.
70 Belo Horizonte desapareceu
Transfigurada nas recordações.
... Minas Gerais, fruta paulista...
Ouvi que tem minas ocultas por cá...
Mas ninguém mais conhece Marcos de Azeredo,
75 Quedê os roteiros de Robério Dias?[197]
Prata
Diamantes cascateantes
Esmeraldas esmeraldas esperanças!...
Não são esmeraldas, são turmalinas, bem se vê:[198]
80 A casinha de taipa a beira-rio.
Canoa abicada na margem,
A bruma das monções,
Mais nada.
Os galhos lavam matinalmente os cabelos
85 Na água barrenta indiferente.
As ondas sozinhas do Paraíba
Morrem avermelhadas mornas cor-de-febre.
E a febre...
Não sejamos muito exigentes.
90 Todos os países do mundo
Tem os seus Guaicuis emboscados
No sossego das ribanceiras dolentes.
As carneiradas ficavam pra trás...
O trem passava apavorado.
95 Só parou muito longe na estação
Pra que os romeiros saudassem
Nosso Senhor da Boa-Viagem.
Ele ficava imóvel na beira dos trilhos
Amarrado à cegueira.
100 Trazia só os molambos necessários
Como convém aos santos e
Aos avarentos.
Porém o netinho corria junto das janelas dos vagões
Com o chapéu do cego na mão.
105 Quando a esmola caía – com que triunfo! – o menino gritava:
– Pronto! Mais uma!
Então lá do seu mundo
Nosso Senhor abençoava:
– Boa viagem.
110 Examina a carne do teu corpo.
Apesar da perfeição das estradas-de-ferro
E da inflexível providência dos horários,
Encontros descarrilamentos mortes...
Pode ser!...
115 As esmolas tombavam.
– Pronto! Mais uma!
– Boa viagem.
Minas Gerais de assombros e anedotas...
Os mineiros pintam diariamente o céu de azul
120 Com os pincéis das macaúbas folhudas.
Olhe a cascata lá!
Súbita bombarda.
Talvez folha de arbusto,
Ninho de teneném que cai pesado,
125 Talvez o trem, talvez ninguém...
As águas se assustaram
E o estouro dos rios começou.
Vão soltos pinchando rabanadas pelos ares,
Salta aqui salta corre viravolta pingo grito
130 Espumas brancas alvas
Fluem bolhas bolas,
Itoupavas altas...[199]
Borbulham bulhando em murmúrios churriantes
Nas bolsas brandas largas das enseadas lânguidas...
135 De supetão fosso.[200]
Mergulho.
Uivam tombando.
Desgarram serra abaixo.
Rio das Mortes
140 Paraopeba
Paraibuna,
Mamotes brancos...
E o Araçuí de Fernão Dias...
Barafustam vargens fora
145 Até acalmarem muito longe exânimes
Nas polidas lagoas de cabeça pra baixo.[201]
Rio São Francisco o marrueiro dos matos
Partiu levando o rebanho pro norte
Ao aboio das águas lentamente.
150 A barcaça que ruma pra Juazeiro
Desce ritmada pelos golpes dos remeiros.[202]
Na proa, o olhar distante a olhar,
Matraca o dançador:
“Meu pangaré arreado,
155 Minha garrucha laporte,
Encostado no meu bem
Não tenho medo da morte.
Ah!...”
Um grande Ah!... aberto e pesado de espanto
160 Varre Minas Gerais por toda a parte...
Um silêncio repleto de silêncio
Nas invernadas, nos araxás,
No marasmo das cidades paradas...
Passado a fuxicar as almas,
165 Fantasmas de altares, de naves douradas
E dos palácios de Mariana e Vila Rica...
Isto é: Ouro Preto.
E o nome lindo de São José d’El Rei mudado num odontológico Tiradentes...[203]
Respeitemos os mártires.
170 Calma do noturno de Belo Horizonte...
As estrelas acordadas enchem de Ahs!... ecoantes o ar.
O silêncio fresco despenca das árvores.
Veio de longe, das planícies altas,
Dos cerrados onde o guaxe passa rápido...
175 Vvvvvvv... passou.
Passou tal qual o fausto das paragens de ouro velho...[204]
Minas Gerais, fruta paulista...
Fruta que apodreceu.
Frutificou mineira! Taratá![205]
180 Há também colheitas sinceras!
Milharais canaviais cafezais insistentes
Trepadeirando morro acima.
Mas que chãos sovinas como o mineiro-zebu!
Dizem que os baetas são agarrados...
185 Não percebi, graças a Deus!
Na fazenda do Barreiro recebem opulentamente.[206]
Os pratos nativos são índices de nacionalidade.
Mas no Grande Hotel de Belo Horizonte servem à francesa.[207]
Et bien! Je vous demande un toutou!
190 Venha a batata-doce e o torresmo fondant!
Carne-de-porco não!
O médico russo afirma que na carne-de-porco andam micróbios de loucura...
Basta o meu desvairismo!
E os pileques
195 quase pileques
salamaleques
da caninha de manga!...
Taratá! Quero a couve mineira![208]
Minas progride!
200 Mãos esqueléticas de máquinas britando minérios,
As estradas-de-ferro estradas-de-rodagem
Serpenteiam teosoficamente fecundando o deserto...
Afinal Belo Horizonte é uma tolice como as outras.
São Paulo não é a única cidade arlequinal.
205 E há vida há gente, nosso povo tostado.
O secretário da Agricultura é novo!
Fábricas de calçados[209]
Escola de Minas no palácio dos Governadores,
Na Casa dos Contos não tem mais poetas encarcerados,
210 Campo de futebol em Carmo da Mata,
Divinópolis possui o melhor chuveiro do mundo,
As cunhãs não usam mais pó de ouro nos cabelos,
Os choferes avançam no bolso dos viajantes,[210]
Teatro grego em São João d’El Rei
215 Onde jamais Eurípedes será representado...
Ninguém mais para nas pontes, Critilo,
Novidadeirando sobre damas casadas.
Tenho pressa! Ganhemos o dia![211]
Progresso! Civilização!
220 As plantações pendem maduras.
O morfético ao lado da estrada esperando automóveis...
Cheiro fecundo de vacas,
Pedreiras feridas,
Eletricidade submissa...
225 Minas Gerais sáxea e atualista
Não resumida às estações-termais!
Gentes do Triângulo Mineiro, Juiz de Fora!
Força das xiriricas das florestas e cerrados![212]
Minas Gerais, fruta paulista!...
230 Alegria da noite de Belo Horizonte!
Há uma ausência de males
Na jovialidade infantil do friozinho.
Silêncio brincalhão salta das árvores,
Entra nas casas desce as ruas paradas
235 E se engrossa agressivo na praça do Mercado.
Vento florido roda pelos trilhos.
Vem de longe, das grotas pré-históricas...
Descendo as montanhas
Fugiu dos despenhadeiros assombrados do Rola-Moça...
240 Estremeção brusco de medo.[213]
Pavor.
Folhas chorosas de eucaliptos.
Sino bate.
Ninguém.
245 A solidão angustiosa dos píncaros...
A paz chucra, ressabiada, das gargantas da montanha...
A serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não...
Eles eram do outro lado,
250 Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele[214]
Cada qual no seu cavalo.
Antes que chegasse a noite
255 Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puseram de novo[215]
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.
260 Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente ela atrás.
E riam. Como eles riam!
265 Riam até sem razão.
A serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.
As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
270 E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões
Temendo a noite que vinha.
Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
275 E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam[216]
280 Buscando o despenhadeiro.
Ah, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
285 Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte.
Na altura tudo era paz...
Chicoteando o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
290 O noivo se despenhou.
E a serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.[217]
Eu queria contar as histórias de Minas
Aos brasileiros do Brasil...[218]
295 Filhos do Luso e da melancolia,
Vem, gente de Alagoas e de Mato Grosso,
De norte e sul homens fluviais do Amazonas e do rio Paraná...
E os fluminenses salinos
E os guascas e os paraenses e os pernambucanos
300 E os vaqueiros de couro das caatingas
E os goianos governados por meu avô...
Teutos de Santa Catarina,
Retirantes de língua seca,
Maranhenses paraibanos e do Rio Grande do Norte e do Espírito Santo
305 E do Acre, irmão caçula,
Toda a minha raça morena!
Vem, gente! vem ver o noturno de Belo Horizonte!
Sejam comedores de pimenta
Ou de carne requentada no dorso dos pigarços petiços,[219]
310 Vem, minha gente!
Bebedores de guaraná e de açaí,
Chupadores do chimarrão,
Pinguços cantantes, cafezistas ricaços,
Mamíferos amamentados pelos cocos de Pindorama,
315 Vem, minha gente, que tem festas do Tejuco pelo céu![220]
Bárbara Heliodora desgrenhada louca
Dizendo versos desce a rua do Pará...[221]
Quem conhece as ingratidões de Marília?
Juro que foi Nosso Senhor Jesus Cristo Ele mesmo
320 Que plantou a sua cruz no adro das capelas da serra!
Foi Ele mesmo que em São João d’El Rei
Esculpiu as imagens dos seus santos...
E há histórias também pros que duvidam de Deus...
O coronel Antônio de Oliveira Leitão era casado com dona Branca Ribeiro do
Alvarenga, ambos de orgulhosa nobreza vicentina. Porém nas tardes de Vila Rica a
filha deles abanava o lenço no quintal... – “Deve ser a algum plebeu, que não há
moços nobres na cidade...” E o descendente de cavaleiros e capitães-mores não quer
saber de mésalliances. O coronel Antônio de Oliveira Leitão esfaqueou a filha.
Levaram-no preso à Baía onde foi decapitado.[222] Pois dona Branca Ribeiro do
Alvarenga reuniu todos os cabedais.[223] Mandou construir com eles uma igreja para
que Deus perdoasse as almas pecadoras do marido e da filha.
325 Meus brasileiros lindamente misturados,
Se vocês vierem nessa igreja dos Perdões
Rezem três ave-marias ajoelhadas
Pros dois desinfelizes.[224]
Creio que a moça não carece muito delas
330 Mas ninguém sabe onde estará o coronel...
Credo![225]
Mas não há nada como histórias pra reunir na mesma casa...[226]
Na Arábia por saber contar histórias
Uma mulher se salvou...[227]
335 A Espanha estilhaçou-se numa poeira de nações americanas
Mas sobre o tronco sonoro da língua do ão
Portugal reuniu 22 orquídeas desiguais.
Nós somos na Terra o grande milagre do amor!
Que vergonha se representássemos apenas contingência de defesa
340 Ou mesmo ligação circunscrita de amor...
Porém as raças são verdades essenciais[228]
E um elemento de riqueza humana.
As pátrias têm de ser uma expressão de Humanidade.
Separadas na guerra ou na paz são bem pobres
345 Bem mesquinhos exemplos de alma
Mas compreendidas juntas num amor consciente e exato
Quanta história mineira pra contar!
Não prego a guerra nem a paz, eu peço amor!
Eu peço amor em todos os seus beijos,
350 Beijos de ódio, de cópula ou de fraternidade.
Não prego a paz universal e eterna, Deus me livre!
Eu sempre contei com a imbecilidade vaidosa[229] dos homens
E não me agradam os idealistas.
E temo que uma paz obrigatória[230]
355 Nos fizesse esquecer o amor
Porque mesmo falando de relações de povo e povo
O amor não é uma paz
E é por amor que Deus nos deu a vida...[231]
O amor não é uma paz, bem mais bonito que ela,
360 Porque é um completamento!...
Nós somos na Terra o grande milagre do amor!
E embora tão diversa a nossa vida[232]
Dançamos juntos no carnaval das gentes,
Bloco pachola do “Custa mas vai!”
365 E abre alas que Eu quero passar!
Nós somos os brasileiros auriverdes!
As esmeraldas das araras
Os rubis dos colibris
Os abacaxis as mangas os cajus
370 Atravessam amorosamente
A fremente celebração do Universal!
Que importa uns falem mole descansado[233]
Que os cariocas arranhem os erres na garganta
Que os capixabas e paroaras escancarem as vogais?
375 Que tem se o quinhentos réis meridional
Vira cinco tostões do Rio pro Norte?
Juntos formamos este assombro de misérias e grandezas,
Brasil, nome de vegetal!...
O bloco fantasiado de histórias mineiras[234]
380 Move-se na avenida de seis renques de árvores...
O sol explode em fogaréus...
O dia é frio sem nuvens, de brilhos vidrilhos...
Não é dia! Não tem sol explodindo no céu!
É o delírio noturno de Belo Horizonte...
385 Não nos esqueçamos da cor local:
Itacolomi... Diário de Minas... Bondes do Calafate...
E o silêncio... sio... sio... quiriri...
Os seres e as coisas se aplainam no sono.[235]
Três horas.
390 A cidade oblíqua
Depois de dançar os trabalhos do dia
Faz muito que dormiu.
Seu corpo respira de leve o aclive vagarento das ladeiras.
De longe em longe gritam solitários brilhos falsos[236]
395 Perfurando o sombral das figueiras:
Berenguendens berloques ouropéis de Oropa consagrada[237]
Que a goiana trocou pelas pepitas de ouro fino.
Dorme Belo Horizonte.
Seu corpo respira de leve o aclive vagarento das ladeiras...
400 Não se escuta sequer o ruído das estrelas caminhando...
Mas os poros abertos da cidade
Aspiram com sensualidade com delícia
O ar da terra elevada.
Ar arejado batido nas pedras dos morros,
405 Varado através da água trançada das cachoeiras,
Ar que brota nas fontes com as águas
Por toda a parte de Minas Gerais.
O RITMO SINCOPADO

(1923-1926)

a Tarsila[238]
ARRAIADA[239]
Manhãzinha
A italiana vem na praia do ribeirão.
Vem derreada e com a sombra do sono no canto dos olhos.[240]
Põe a trouxa de roupas na lapa[241]
5 E erguida fica um momentinho assim no sol.
A narina dela mexe que nem peito de rolinha.
Mastiga a boca sem lavar
Que tem um visgo de banana e de café.
Respira.
10 Afinal se espreguiça
Erguendo pros anjos o colo criador.
TOADA DO PAI-DO-MATO[242]
(Índios Parecis)
A moça Camalalô
Foi no mato colher fruta.
A manhã fresca de orvalho
Era quase noturna.
5 – Ah...
Era quase noturna...
Num galho de tarumã
Estava um homem cantando.
A moça sai do caminho
10 Pra escutar o canto.
– Ah...
Ela escuta o canto...
Enganada pelo escuro
Camalalô fala pro homem:
15 Ariti, me dá uma fruta
Que eu estou com fome.
– Ah...
Estava com fome...
O homem rindo secundou:
20 – Zuimaalúti se engana,
Pensa que sou ariti?
Eu sou Pai-do-Mato.
Era o Pai-do-Mato!
TEMPO DAS ÁGUAS


O gado estava amoitando na capoeira.
Agora é a gupiara agachada no lombo do morro
Vazia que não tem mais fim.
De repente faz cócega na cara da gente
5 A mão de chuva do vento.
Tempo perdido se afobar,
Ela já vem na cola do liburno.
Olhe a folhinha seca.
Salta que salta ressabiada, corcoveia,
10 Desembestou que nem potranca chucra pasto fora.
Você quase nem tem tempo de vestir a capa boa
E despenca a chuva de Deus.
O espaço num átimo se enche de ar leviano
E a água lava até a espinha da gente
15 E encrespa a crina do animal.
Que gostosura!
Você rejeita o forde da fazenda na porteira
E continua tchoque-tchoque na tijuqueira peguenta da estrada.
Em casa,
20 No brim novo com cheiro de ribeirão
Você deita na rede da varanda,
Chupita o traço da abrideira...
E se conversa.
E se conversa sobre a baixa do café.
POEMA[243]


Neste rio tem uma iara...
De primeiro o velho que tinha visto a iara
Contava que ela era feiosa, muito!
Preta gorda manquitola ver peixe-boi.
5 Felizmente velho já morreu faz tempo.[244]
Duma feita, madrugada de neblina,
Um moço que sofria de paixão
Por causa duma índia que não queria ceder pra ele,
Se levantou e desapareceu na água do rio.
10 Então principiaram falando que a iara cantava, era moça,[245]
Cabelos de limo verde do rio...[246]
Ontem o piá brincabrincando
Subiu na igara do pai abicada no porto,
Botou a mãozinha na água funda
15 E vai, a piranha abocanhou a mãozinha do piá.
Neste rio tem uma iara...
TOSTÃO DE CHUVA
Quem é Antônio Jerônimo? É o sitiante
Que mora no Fundão
Numa biboca pobre. É pobre. Dantes
Inda a coisa ia indo e ele possuía
5 Um cavalo cardão.
Mas a seca batera no roçado...
Vai, Antônio Jerônimo um belo dia
Só por debique de desabusado
Falou assim: “Pois que nosso padim
10 Pade Ciço que é milagreiro, contam,
Me mande um tostão de chuva pra mim!”
Pois então nosso “padim” padre Cícero
Coçou a barba, matutando e disse:
“Pros outros mando muita chuva não,
15 Só dois vinténs. Mas pra Antônio Jerônimo
Vou mandar um tostão”.
No outro dia veio uma chuva boa
Que foi uma festa pros nossos homens
E o milho agradeceu bem. Porém
20 No Fundão veio uma trovoada enorme
Que num átimo virou tudo em lagoa
E matou o cavalo de Antônio Jerônimo.
Matou o cavalo.
LENDA DO CÉU[247]
Andorinha, andorinha,
Andorinha avoou,
Andorinha caiu,
Curumim a pegou.
5 – Piá, não me maltrata não!
Eu levo você pro mato
Enxergar bichos tamanhos
E correr com os guanumbis...
O menino brincava,
10 Andorinha sofria
E dum lado pra outro
Atordoada gemia:
– Piá, não me maltrata não!
Eu levo você pro mar
15 Ver as ondas ver as praias
Ver os peixinhos do mar...
O menino malvado
Taperá machucou.
E já morremorrendo
20 A coitada falou:
– Piá, não me maltrata não...
Eu levo você pro céu...
E nunca ninguém não cansa
De ver as coisas do céu...
25 É um sítio bonito mesmo
Beiradeando o trem-de-ferro,
Lá você acha sua gente
Que faz muito que morreu.
Assegura em minhas penas,
30 Vamos embora com Deus...
Andorinha, andorinha,
Andorinha avoou,
Foi subindo pro céu,
Curumim carregou.
35 – Assegura bem, menino,
Não olha pra baixo não.
Não tem sodade do mundo
Que o mundo é só perdição.
E avoando avoando
40 Afinal se chegou.
Andorinha desceu.
Curumim apeou.
Abriu os olhos e viu.
Era o céu... ôh boniteza!
45 Tinha espingarda gangorra
Estilingue... Tinha bichos
E tinha tantas surpresas
Que era mesmo um desperdício.
Olha um cachorro jaguar!
50 Olha a ave seriema!
Olha aquelas três-marias
Da gente bolear nhandus!...
Era que nem um pomar
Com tanta fruta aromando
55 Que o ar ficava que ficava
Bonzinho de respirar.
O curumim caminhava
Seguindo os postes da linha,
Lá pelo varjão se ouvia
60 Duma fordeca a chispada,
E no meio-dia quente
Amulegando maneiro
Um aboio tão chorado
Que acuava no corpo doce
65 O sono do brasileiro.
Tinha mandioca e açaí
Mate cana arroz café
Muita banana e feijão
Milho cacau... Tinha até
70 Pra lá do cercado novo
Cheio de taperebás
Um rancho do nosso povo
Com seu mastro de São João.
No galpão um homem comprido
75 Duma quente morenez,
Com a pele bem sapecada
Pelo sol deste país,
Gemia numa sanfona
Uma mazurca tão linda
80 Que se parava um bocado
O ouvido cantava ainda.
O menino olhou pro homem
E gritou: – B’as tarde, tio!
– Meu sobrinho, entra no rancho,
85 Nossa gente já está aí.
E o piá se rindo matava
Saudades do coração.
Tomava a bênção da mãe,
Do pai, abraçava o irmão,
90 Afinal topou com o primo
Que era unha-e-carne com ele
E comovidos os dois,
Os dois se deram a mão.
E foram brincar pra sempre
95 Pelos pagos abençoados
Do meio-dia do céu.
No céu sempre é meio-dia...
Não tem noite, não tem doença
E nem outra malvadez...
100 A gente vive brincando...
E não se morre outra vez.
COCO DO MAJOR[248]
(Rio Grande do Norte)

a Antônio Bento de Araújo Lima[249]
O major Venâncio da Silva
Guarda as filhas com olho e ferrolho,
Que vidinha mais caningada
– seu mano –
5 Elas levam no engenho do velho!
Nem bem a arraiada sonora
Vem tangendo as juremas da estrada
Já as três se botam na renda
– seu mano –
10 Trequetreque de bilros, mais nada.
Vai, um mocetão paroara
Destorcido porém sem cabeça
Apostou num coco da praia
– seu mano –
15 Que daria uma espiada nas moças.
Pois a fala do lambanceiro
Foi parar direitinho no ouvido
Do major Venâncio da Silva
– seu mano –
20 Que afinal nem se deu por achado.
Bate alguém na sede do engenho.
– Seu major, ando morto de sede,[250]
Por favor me dê um copo de água...
– seu mano –
25 – Pois não, moço! Se apeie da égua.
Dois negrões agarram o afoito,
O major assobia pra dentro.
Vêm três moças lindas chorando
– seu mano –
30 Com quartinhas de barro cinzento.
– Esta é minha filha mais velha,
Beba, moço, que essa água é de sanga.
E os negrões obrigam o pobre
– seu mano –
35 A engolir a primeira moringa.
– Esta é minha filha do meio,
Beba, moço, que essa água é de corgo.
E os negrões obrigam o pobre
– seu mano –
40 A engolir a moringa, já vesgo.
– Esta é minha filha mais nova,
Beba, moço, que essa água é de fonte.
E os negrões afogam o pobre
– seu mano –
45 Que adubou os facheiros do monte.[251]
O major Venâncio da Silva
Tem as filhas mais lindas do norte,
Mas ninguém não viu as meninas
– seu mano –
50 Que ele as guarda com água de pote.
MODA DA CADEIA DE PORTO ALEGRE

A Mário Pedrosa[252]
Dona Rita amouxa em casa
Uma porção da riqueza
Que o marido, que Deus tenha!
Por amor dela ajuntou.
5 A riqueza de que falo
É cobres, porque dos filhos
Só um mocinho não gorou.
Apesar dessa família
Já grande, em pleno viçor,
10 Quando ela pensa em gatunos
Corre pela espinha dela
Uma friagem de horror.
Também não tem na cidade
Correição de segurança
15 Adonde gatuno que entra
Perde pra sempre a esperança
De outra vez ir gatunar.
Dona Rita passa as noites
Sem dormir, sem descansar.
20 Qualquer barulhinho a pobre
Levanta, vai assuntar.
Pois então ela resolve,
Gasta mas gasta pra bem:
Faz construir uma cadeia
25 Que mais segura não tem
Por este grande Brasil.
Era mesmo um casarão
Alvo que nem tabatinga,
Com tanta grade tamanha
30 Que apertava o coração.
Toda a gente ia passear
Lá no largo da Cadeia
Mas porém se espera um preso
Pra estreia da correição.
35 Agora o filho entra tarde.
Dona Rita sossegada
Costura, pesponta meias
Enquanto sono não vem.
Só de pensar na cadeia
40 Dona Rita dorme bem.
Foi então que numa festa
Já quase de-manhãzinha
O filho de dona Rita
Botou seis tiros no peito
45 De outro moço, rival dele
Nuns negócios de paixão.
Estrearam a correição.
Dona Rita não foi ver.
Definha que não definha,
50 Durou uns pares de meses,
Afinal veio a morrer.
Falam também que de-noite
O carcereiro rondando
Escuta pelo caminho
55 O choro de dona Rita
Gemendo devagarzinho...
Mas isso de assombração
Só quem vê é que acredita...
PAISAGEM Nº 5[253]
De-dia um solzão de matar taperá
Passeou na cidade o fogo de Deus.
Os paulistas andaram que nem caçaremas tontas
Daqui pra ali buscando as sombras de mentira.
5 Mas agorinha mesmo deram as vinte horas.
De já-hoje quando a noite agarrou empurrando a luz quente pra trás do
horizonte[254]
Brisou uma friagem de inverno refrescando os pracianos e a cidade rica.
As famílias pararam de suar.
Janelas abertas e portas abertas em todas as casas.
10 Se boia, se conversa descansado.[255]
Nas varandas portas terraços escuros
Acende apagam os vaga-lumes dos cigarros.
Todas as bulhas se ajuntam num riso feliz.
Faz gosto a gente andar assim à toa
15 Reparando na calma da sua cidade natal.[256]
MODA DA CAMA DE GONÇALO PIRES[257]
Gonçalo Pires possui uma cama,
Em nossa vila não tem mais nenhuma,
Gonçalo Pires se dá um estadão,
Só ele na terra dorme gostoso
5 Em traste bonito de estimação.
Delem! dem! dem!... O sr. Ouvidor,
Representante de Felipe IV,
Já vem subindo pelo Cubatão.
O dr. Antônio Rebelo Coelho
10 Vem nesta vila fazer correição.
Delem! dem! dem!... São Paulo nos acuda!
Se agita a Municipalidade,
Ouvidor-geral não dorme no chão!
Gonçalo Pires não quer emprestar
15 Cama cobertor lençol e colchão.
Mas os vereadores são bons paulistas
E Francisco Jorge, o procurador,
Recebe da Câmara autorização:
Trará a cama de Gonçalo Pires,
20 Ele que deixe-se de mangação!
Gonçalo Pires resmunga, peleja,
Mas a autoridade é da Autoridade,
Lá vêm pelas ruas em procissão,
Cobertos de olhos relampeando inveja
25 Cama cobertor lençol e colchão.
Que úmido frio... Das várzeas em torno
Na noite vazia que não tem fim
Dissolve as casinhas a cerração...
O Ouvidor-geral sonha em cama boa
30 E Gonçalo Pires dorme no chão.
Delem! dem! dem!... O Ouvidor vai-se embora!
Sai mais festejado que quando entrou...
A Câmara impa de satisfação.
Mas os vereadores são bons paulistas:
35 – Que entregue-se a cama com prontidão.
Gonçalo Pires rejeita o bem dele!
Não dorme em cheiro de ouvidor-geral...
Se reúne a Câmara em nova sessão.
– Lave-se o lançol! indica o notário.
40 Qual! Gonçalo empaca na rejeição.
Sete anos levam nessa pendenga
A Câmara paulista e Gonçalo Pires,
Paulista emperrando, não cede não.
E a História não sabe que fim levaram
45 Cama cobertor lençol e colchão.
Dois poemas acreanos[258]

A Ronald de Carvalho[259]
I
DESCOBRIMENTO[260]
Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido[261]
5 Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro, de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
10 Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu...
II
ACALANTO DO SERINGUEIRO[262]
Seringueiro brasileiro,
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.
Ponteando o amor eu forcejo
5 Pra cantar uma cantiga
Que faça você dormir.
Que dificuldade enorme!
Quero cantar e não posso,
Quero sentir e não sinto
10 A palavra brasileira
Que faça você dormir...
Seringueiro, dorme...
Como será a escureza
Desse mato-virgem do Acre?
15 Como serão os aromas
A macieza ou a aspereza
Desse chão que é também meu?
Que miséria! Eu não escuto
A nota do uirapuru!...
20 Tenho de ver por tabela,
Sentir pelo que me contam,
Você, seringueiro do Acre,
Brasileiro que nem eu.
Na escureza da floresta
25 Seringueiro, dorme.
Seringueiro, seringueiro,
Queria enxergar você...
Apalpar você dormindo,
Mansamente, não se assuste,
30 Afastando esse cabelo
Que escorreu na sua testa.
Algumas coisas eu sei...
Troncudo você não é.
Baixinho, desmerecido,
35 Pálido, Nossa Senhora!
Parece que nem tem sangue.
Porém cabra resistente
Está ali. Sei que não é
Bonito nem elegante...
40 Macambúzio, pouca fala,
Não boxa, não veste roupa
De palm-beach... Enfim não faz
Um desperdício de coisas
Que dão conforto e alegria.
45 Mas porém é brasileiro,
Brasileiro que nem eu...
Fomos nós dois que botamos
Pra fora Pedro II...
Somos nós dois que devemos
50 Até os olhos da cara
Pra esses banqueiros de Londres...
Trabalhar nós trabalhamos
Porém pra comprar as pérolas
Do pescocinho da moça
55 Do deputado Fulano.
Companheiro, dorme!
Porém nunca nos olhamos
Nem ouvimos e nem nunca
Nos ouviremos jamais...
60 Não sabemos nada um do outro,
Não nos veremos jamais!
Seringueiro, eu não sei nada!
E no entanto estou rodeado
Dum despotismo de livros,
65 Estes mumbavas que vivem
Chupitando vagarentos
O meu dinheiro o meu sangue
E não dão gosto de amor...
Me sinto bem solitário
70 No mutirão de sabença
Da minha casa, amolado
Por tantos livros geniais,
“Sagrados” como se diz...
E não sinto os meus patrícios!
75 E não sinto os meus gaúchos!
Seringueiro, dorme...
E não sinto os seringueiros
Que amo de amor infeliz!...
Nem você pode pensar
80 Que algum outro brasileiro
Que seja poeta no sul
Ande se preocupando
Com o seringueiro dormindo,
Desejando pro que dorme
85 O bem da felicidade...
Essas coisas pra você
Devem ser indiferentes,
Duma indiferença enorme...
Porém eu sou seu amigo
90 E quero ver se consigo
Não passar na sua vida
Numa indiferença enorme.
Meu desejo e pensamento
(... numa indiferença enorme...)
95 Ronda sob as seringueiras
(... numa indiferença enorme...)
Num amor-de-amigo enorme...
Seringueiro, dorme!
Num amor-de-amigo enorme
100 Brasileiro, dorme!
Brasileiro, dorme.
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme.
Brasileiro, dorme,
105 Brasileiro... dorme...
Brasileiro... dorme...
Remate de males
REMATE DE MALES[263]




Quid, homo, ineptam sequeris laetitiam.
(sec. XI)
EU SOU TREZENTOS...[264]
(7 de junho de 1929)
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! ôh caiçaras!
Se um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
5 Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
10 Mas um dia afinal me encontrarei comigo...[265]
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
DANÇAS[266]
(1924)

A Dona Baby Guilherme de Almeida[267]

I[268]

Quem dirá que não vivo satisfeito! Eu danço!
Dança a poeira no vendaval.
Raios solares balançam na poeira.
Calor saltita pela praça
5 pressa
apertos
automóveis
bamboleios
Pinchos ariscos de gritos
10 Bondes sapateando nos trilhos...
A moral não é roupa diária!
Sou bom só nos domingos e dias-santos!
Só nas meias o dia-santo é quotidiano![269]
Vida
15 arame
crimes
quidam
cama e pança!
Viva a dança!
20 Dança viva!
Vivedouro de alegria!
Eu danço!
Mãos e pés, músculos, cérebro...[270]
Muito de indústria me fiz careca,[271]
25 Dei um salão aos meus pensamentos!
Tudo gira,
Tudo vira,
Tudo salta,
Samba,
30 Valsa,
Canta,
Ri!
Quem foi que disse que não vivo satisfeito?[272]
EU DANÇO!
II

35 Meu cigarro está aceso.
O fumo esguicha,
O fumo sobe,
O fumo sabe ao bem e ao mal...
O bem e o mal, que coisas sérias!
40 Riqueza é bem.
Tristeza é mal.
Desastres
sangue
tiros
45 doença
Dança!...
O elevador subiu aos céus, ao nono andar,
O elevador desce ao subsolo,
Termômetro das ambições.
50 O açúcar sobe.
O café sobe.
Os fazendeiros vêm do lar.
Eu danço!
Tudo é subir.
55 Tudo é descer.
Tudo é dançar!
O Esplanada grugrulha.
Todos os homens vão no cinema.[273]
Lindas mulheres nos camarotes.
60 Leves mulheres a passar...
Não frequento cafés-concertos,
Mas tenho as minhas aventuras...
Desventurados os coiós!
A vida é farta.
65 O mundo é grande.
Tem muito canto onde esconder![274]
Subúrbios
casas
pensões
70 táxis...
Vejo sonâmbulos ao luar
Beijando moças estioladas.
Tolos! a poeira sobe no ar...
O fumo sobe e morre no ar...[275]
75 Eu vivo no ar!
Dançarinar!...
III

Filha, tu sabes... que hei-de fazer!
Nós todos somos assim.
Eu sou assim.
80 Tu és assim.
Dançam os pronomes pessoais.
Nunca em minuetes! Nunca em furlanas!
EU
ELE
85 TU
NÓS
ELES
VÓS...
Não paro.
90 Não paras.
Sucedem quadrilhas...
Gatunos!
Assassinos!
Ciganos!
95 Judeus!
Quebras formidáveis!
Riquezas fetos de cinco meses
Já velhas como Matusalém.
Baixistas calvos, rotundos, glabros,
100 Trusts de cana, trusts de arroz,
Açambarcadores de feijão-virado...
A Bolsa revira.
Reviram-se as bolsas.
As letras entram.
105 Os ouros saem...
Corrida
tombos
vitórias
delírios
110 banquetes
orquestras...[276]
Os homens dançam...
Danço também.
Nunca minuetes nem bacanais!
115 Somos farândolas?
Somos lanceiros?
Somos quadrilhas?
Que somos nós!?
Pronomes pessoais.

IV
14 horas.[277]
Filha, tu vais dormir.
Eu te contemplo aborrecido.
Que fazes estreita na cama tão larga?
Por que te encolhes assim?
125 Teus cabelos suados se esperdiçam.
Tuas mãos aziagas tamborilam.
Teu corpo estreito treme vibra...
– Poeta, me deixe dormir![278]
Eu te contemplo aborrecido...
130 Devo esconder-te o meu sorriso?...
Já sei porque o sono não chega,
Filha, começas a dançar...
Teu corpo todo se enrodilha
estremece
135 sacode
bate
lata
seco
... heque! heque!...
140 quebra
queima
reina
dança
sangue
145 gosma...
Teus lábios dançam:
– Por piedade!
Não é domingo nem dia-santo!
Filha, tu danças para dormir![279]
150 Tosses até que não podes mais![280]
Devo esconder-te o meu sorriso?...
V
Aquele quarto me sufoca,
Prefiro ar livre,
Não voltarei.
155 Ar livre, ar leve que dança, dança!
Dançam as rosas nos rosais!
São flores vermelhas
São botões perfeitos
São rosas abertas, gritos de prazer!
160 São Paulo é um rosal!
São Paulo é um jardim!
Morena, tem pena,
Tem pena de mim!
A rosa-riso dança nos teus lábios
165 vermelhos
mordidos...
Volúpias alegres...
O mundo não vê?
Nós nos separamos.
170 Nós nos ajuntamos.
O bonde passou,
O amigo passou...
O mundo não vê?[281]
A vida é tão curta!
175 Quem tem certeza do amanhã!
Lourenço de Medicis?...
Florença delira.[282]
Paris queima,
Viena valsa,[283]
180 Berlim ri...
E New York abençoa o jazz universal.
Negros de cartola
Turcos de casaca
Montecarlo e Caldas e Copacabana
185 Tudo é um caxambu!
EU DANÇO!
Dança do amor sem sentimento?
Dança das rosas nos rosais!...
VI
Parceiro, tu sabes a dança do ventre
190 Mas eu vou te ensinar dança melhor.
Olha: a Terra é uma bola.
A bola gira.
Gira o universo.
Os homens giram também.
195 Tudo é girar, tudo é rodar.
Sofres acaso de amor sem volta?
Porque paraste no teu amor!
Choras que os outros não te compreendem?
Fala francês que te entenderão![284]
200 Morres, duvidas, pensas?... – Parceiro,
Tu só conheces a dança do ventre,
A dança do ombro é muito melhor!
VII
“Oh, como passas!”
“Bravo! enfim voltas!”
205 São inimigos,
São morfinômanos,
Virgens e honestos,
Crápulas vis.
Saúdo a todos,
210 Ninguém me estima,
Dançam meus ombros,
Eu sou feliz![285]
Eu sou feliz porque a Terra é uma bola.
A bola gira,
215 Gira o universo,
Giro também.
Sou Gira.
Sou Louco.
Sou Oco.
220 Sou homem!...
Sou tudo o que vocês quiserem,
Mas que sou eu?
Meu alfaiate tem mais fregueses.
Não há canalha sem virtude.
225 Não há virtuosos sem desonra.[286]
Entro nos teatros lendo jornais.
Converso pouco e escuto muito.
Falo francês...
Leio em vernáculo Tristran Shandy.
230 Conheço Freud e Dostoievsky.
Compro as revistas do Brasil.[287]
E
Principalmente
Sei enramar meu ditirambo,
235 Sei guspir um madrigal![288]
Depois dou de ombros.
Meus ombros dançam...
Sou partidário da desombra universal!
VIII

Há terras incultas além muito longe...[289]
240 Há bichos terríveis nas terras incultas...[290]
Há pássaros lindos nos jequitibás...
O dia ora é claro, ora é escuro...
Zumbidos de abelhas fabricando mel...
Ora os bichos urram,[291]
245 Ora as aves cantam,
Ora é a flor que abrolha,
Ora a árvore cai...[292]
O céu se escurece. É a tormenta...
Dançam coriscos no céu.
250 Relâmpagos
trovões
um samba hediondo,
um candomblê...
As caiporas galopam nas ancas das antas...[293]
255 Aranhas formigas sacis e Jaci...
O rio da Dúvida passa a dançar...
A vitória-régia oscila balouçante nas águas indecisas...[294]
Há terras incultas além...[295]
Mas quem que as visitou?
260 Ninguém.
A confusão é enorme!...
Filha, tu sabes... que hei-de fazer!
Tudo é quadrilha![296]
Me ponho a dançar![297]
IX

265 EU DANÇO![298]
Eu danço manso, muito manso,
Não canso e danço,
Danço e venço,
Manipanso...
270 Só não penso...
Quando nasci eu não pensava e era feliz...
Quando nasci eu já dançava,
Dançava a dança da criança,
Surupango da vingança...
275 Dança do berço:
Sim e Não...
Dança do berço:
Não e Sim...
A vida é assim...
280 E eu sou assim.[299]
... ela dançava porque tossia...
Outros dançam de soluçar...
Eu danço manso a dança do ombro...
Eu danço... Não sei mais chorar!...[300]
TEMPO DA MARIA

(1926)

a Dona Eugênia Álvaro Moreira[301]
I
MODA DO CORAJOSO[302]
Maria dos meus pecados,
Maria, viola de amor...
Já sei que não tem propósito
Gostar de donas casadas,
5 Mas quem que pode com o peito!
Amar não é desrespeito,
Meu amor terá seu fim.
Maria há-de ter um fim.
Quem sofre sou eu, que importa
10 Pros outros meu sofrimento?
Já estou curando a ferida.
Se dando tempo pro tempo
Toda paixão é esquecida.
Maria será esquecida.
15 Que bonita que ela é!... Não
Me esqueço dela um momento!
Porém não dou cinco meses,
Acabarão as fraquezas
E a paixão será arquivada.
20 Maria será arquivada.
Por enquanto isso é impossível.
O meu corpo encasquetou
De não gostar senão de uma...[303]
Pois, pra não fazer feiura,
25 Meu espírito sublima
O fogo devorador.
Faz da paixão uma prima,
Faz do desejo um bordão,
E encabulado ponteia[304]
30 A malvadeza do amor.
Maria, viola de amor!...
II
AMAR SEM SER AMADO, ORA PINHÕES!
Esperemos neste lugar.
Não sou nenhum conde do papa,
Só mesmo de Anto serei conde...
Sou poeta da viação barata,
5 Mário, pague os duzentos réis...
Siga, chofer. Espero o bonde.
Cachorro. Trilhos nobres. Moças.
Moças, não. Mulheres perdidas
No ouro, distinga-se, senão
10 Perde o sal a comparação
Com que saudei essas amigas:
– Grandes auroras promissoras!
Tenho jeito pra gigolô...
E, por falar de aurora, enfim
15 Me dá São Paulo uma tardinha
De que o poeta Gonçalves Dias
Se tivesse alguma saudade,
Tinha razão. Que nem rubi
De puro oriente, no ocidente
20 O solão despenca do mármore
Dum céu elegante, na estica.
Esta folha no meu chapéu...
Em mim, tal qual num tronco de árvore,
Trepa um ventinho piricica.
25 Me perdi pelas sensações.
Não sou eu, sou eus em farrancho,
E vem lavar minha retina,
Em maretas de poeira fina
Todas as coisas tamisando,
30 O Tâmisa das ilusões.
Me dissolvo por essas águas!
E na vista submarina,
Renovo o milagre cristão
Com a minha multiplicação:
35 Sou a festança desta vida!
Peixes! Torpedos... bondes... casas...
Cavam a terra no jardim.
É no meu peito. Como um ólio,
Me esparramo pela cidade,
40 E as coisas, nessa intimidade,
São um dilúvio de olhos, olhos
Meus, assuntados sobre mim.
Tudo se funde em minha vista.
Estou alegre. Coisa estranha,
45 Não sinto o bem, sorrio ao mal...
Será a inconsciência transcendental
De que falava Graça Aranha?[305]
Todo Infinito! ôh farra! ôh Lapa!
Não sei não. Porém, ver um Zeus,
50 Conhecem? Zeus de casimira,
Meio suado, vou no universo
Buscando o meu fogo disperso
Que pelas coisas giro gira,
Roubado pelos Prometeus.
55 Às sacudidelas do bonde,
Na minha frente rósea chama
Crepita, ôh pescoço! Um ardor
Principiante, consolador,
Zeus (Zeus sou eu) gemendo chama:
60 – Fogo, onde estás, aonde? aonde?
É isso! Rapazes, encontrei
O fogaréu maravilhoso
Que foi, que é meu, que será sempre
Meu! Relumeia à minha frente,
65 E devora num instantinho
As minhas paus Tábuas da Lei.
Moralidade, lei seca, vá-se
Embora! Vá por Seca e Meca!
Darei Seca, Meca e Baía
70 Por mais este amor, sim, mais um,
Porque enfim é amante de poeta
Toda e qualquer mulher que passe!
Êxtase! Desejo! Loucura!
Quase dolorosa surpresa!
75 Espanto de não ser mais só!
E a gente imagina que é o pó
Que sufoca e, vai, com aspereza
Bota a culpa na prefeitura.
Minha paixão de supetão!
80 Já nem posso mais respirar!
Que pescoço! que braços! quê!...
Bom... olhemos a natureza.
O céu se encurva sobre o chão
Num gesto forte de abraçar.
85 Te amo!... Que bonita que ela é!...
Trago comigo o cheiro dela.
Só penso nela!... Infelizmente
O meu caso não tem futuro,
Ai, Maria do perfil duro,
90 Ai, Maria sempre presente!...
Que friúme em minha tristeza...
Rapazes! a minha alegria,
A minha alegria está presa
Num perfil duro de mulher!
95 Ela me olha tão fria, fria...
Ora! verifiquemos como
Rictus: “Merde! voilá l’hiver.”
Poeta, sossegue, ela é casada...
Pois sim. Pensemos noutra coisa.
100 No que será?... Negro de suéter,
Que engraçado!... mas... que tristeza!
Esta vida não vale nada!...
Vou cantar a Louvação do Éter!
Vaga hipótese sem perigo!
105 Hangar da nossa segurança!
Luz de Einstein et caterva! Prova
Dos nove da sabença humana!
Deus, que a cosmogonia nova
Nunca viu, mas conta contigo!
110 Obra-prima do nosso Amigo!
De alguma entocaiada parte
Aonde a ciência não entrou,
Me dás a honra de ser, e eu sou,
Por tuas artes, Malazarte,
115 Vaga hipótese sem perigo...
Tudo isto há-de passar, Maria,
Durma em sossego. O meu respeito
Sempre há-de respeitar você.
Eu não aguento mais meu peito!
120 Mas jamais não aceitaria
Arranjos como o de Musset![306]
Durma sem medo, sossegada.
Você não vai pra sala grande,
Tem sala à parte em meu harém.
125 Vista o pijama dos meus olhos,
E descanse sobre o meu sonho
Que nunca fez mal pra ninguém!
Eu velarei a corajosa
Dormindo sobre a dinamite...
130 Fumos... Assombrações... Não te
Largo mais, Iara do Tietê!...
Ao menos até que fareje
Alguma paixonite nova...
É o fim. Lá fora dormirá
135 Pauliceia. Paz. Quase informe,
Ela dorme, dorme sorrindo,
Enquanto gemo o verso lindo
Com que as índias parecis dormem...
Uirô mococê cê-macá...
III
CANTIGA DO AI[307]
Ai, eu padeço de penas de amor,
Meu peito está cheio de luz e de dor!
Ai, uma ingrata tão fria me olhou,
Que vou-me daqui sem saber pra onde vou!
5 Eu cheirei um dia um aroma de flor
E vai, fiquei doendo de penas de amor!
Foi minha ingrata que por mim passou!
Ai, gentes! eu parto! não sei pra onde vou!
Ai, malvada ingrata que escolhi bem!
10 Eu sofro e não posso queixar de ninguém!
Sofro mas me orgulho de meu sofrer,
É linda a malvada que fui escolher!
Tem a mansidão dos portos de mar
Mas porém é arisca que nem pomba-do-ar!
15 Ela é quieta e clara, ela é rosicler,
É a boca-da-noite virada mulher![308]
Ai, unhas de vidro para me encantar!
Ai, olhos riscados pra não me enxergar!
Ai, peito liso, boca de carmim!
20 Ingrata malvada que não pensa em mim!
Ai, pena tamanha que me quebrou!
Adeus! vou-me embora! não sei pra onde vou!
Lastimem o poeta que vai partir,
Ôh amantes se amando no imenso Brasil!...[309]
IV
LENDA DAS MULHERES DE PEITO CHATO[310]
Macunaíma, Maria,
Viajando por essas terras
Com os dois manos, encontrou
Uma cunhã tão formosa
5 Que era um pedaço de dia
Na noite do mato-virgem.
Macunaíma, Maria,
Gostou da moça bonita.
Porém ela era casada,
10 E jamais não procedia
Que nem as donas de agora,
Que vivem mais pelas ruas
Do que na casa em que moram;
Vivia só pro marido
15 E os filhos do seu amor,
Fiava, tecia o fio,
Pescava, e março chegado,
Mexendo o corpo gostoso,
Ela fazia a colheita
20 Do milho de beira-rio.
Que bonita que ela é!... Bom.
Macunaíma, Maria,
Não pôde seguir, ficou.
Que que havia de fazer!
25 Amar não é desrespeito,
Falou pra ela e ela se riu.
Então lhe subiu do peito
A escureza da paixão,
E o apaixonado cegou.
30 Pegou nela, mas a moça
Possuía essa grande força
Que é a força de querer bem:
Forceja que mais forceja,
Até deu nele! Não doeu.
35 Macunaíma, Maria,
Largou da moça.
Ôh, meu Deus!
Como estava contrariado!
Pois um moço que ama então
40 Não tem direito de amar!
Tem, Maria, tem direito!
Te juro que tem direito!
Macunaíma fez bem!
O amor dele era tão nobre
45 Ver o do outro que casou.
Casar é uma circunstância
Que se dá, que não se dá,
Porém amar é a constância,
Porta num, se abanca, e o pobre
50 Tem que lhe matar a fome,
Dar cama pra ele dormir.
Macunaíma, Maria,
Era como eu brasileiro,
E em todas as moradias
55 Que se erguem no chão quentinho
Do nosso imenso Brasil,
Não tem uma que não tenha
Um quarto-de-hóspedes pronto!
Pobre do Macunaíma,
60 Não tem culpa de penar!
Foi brasileiro, amor veio,
Ele teve que hospedar!
– Eu te amo, (que ele falava)
Moça linda! Você tem
65 Esse risco de urucum
Na beira do olhar somente
Pra não ver quem te quer bem!
Olhos de jabuticaba!
Colinho de cujubim!...
70 Te adoro como se adora
Com doçura e com paixão!
Maria... Vamos embora!
(Que ele falava pra moça)
Eu quero você pra mim!
75 Bom. O coitado, Maria,
De tanta contrariedade,
Pôs reparo que é impossível
Se ser feliz neste mundo,
Em plena infelicidade...
80 Se vingou. Tinha ali perto
Dois cachos de bananeira.
Cortou deles... você sabe,
Os mangarás pendurados,
Que de tão arroxeados
85 Têm mesmo a cor da paixão.
Lá no Norte chamam isso
De “filhotes da banana”,
E a bananeira dá fruta
Uma vez, não dá mais não...
90 Macunaíma, Maria,
Pegou na moça, arrancou
Os peitinhos emproados
Do colo de cujubim,
Pendurou no lugar deles
95 Os filhotes da paixão.
Por isso essa moça dura,
De quem nós todos nascemos,
Tem o colo que nem de homem,
De achatado que ficou.
100 E hoje as donas são assim...
Adianta a lenda que a moça
Ficou feia... Não sei não...
V
ECO E O DESCORAJADO
Neste lugar solitário
Onde nem canta o sem-fim,
Choro. E um eco me responde
Ao choro que choro em vão.
5 Eco, responda bem certo,
Meus amigos me amarão?...
E o eco me responde: – Sim.
Pois então, eco bondoso,
Você que sabe a razão
10 Porque deixando o tumulto
De Pauliceia, aqui vim:
Eco, responda bem certo,
Maria gosta de mim?...
E o eco me responde: – Não!
15 Antes morrer... Eu me sinto[311]
Tão vazio com este amor...
Não aguento mais meu peito!
Morrer! seja como for!
Eco, responda bem certo,
20 Morrerei hoje, amanhã?...
E o eco me responde: – Nhãam...
VI
LOUVAÇÃO DA TARDE
Tarde incomensurável, tarde vasta,
Filha de sol já velho, filha doente
De quem despreza as normas da eugenia,
Tarde vazia, dum rosado pálido,
5 Tarde tardonha e sobretudo tarde
Imóvel... quase imóvel: é gostoso
Com o papagaio louro do ventinho
Pousado em minha mão, pelas ilhotas
Dos teus perfumes me perder, rolando
10 Sobre a desabitada rodovia.
Só tu me desagregas, tarde vasta,
Da minha trabalheira. Sigo livre,
Deslembrado da vida, lentamente,
Com o pé esquecido do acelerador.
15 E a maquininha me conduz, perdido
De mim, por entre cafezais coroados,
Enquanto meu olhar maquinalmente
Traduz a língua norte-americana
Dos rastos dos pneumáticos na poeira.
20 O doce respirar do forde se une
Aos gritos pontiagudos das graúnas,
Aplacando meu sangue e meu ofego.
São murmúrios severos, repetidos,
Que me organizam todo o ser vibrante
25 Num método sadio. Só no exílio
De teu silêncio, os ritmos maquinares
Sinto, metodizando, regulando
O meu corpo. E talvez meu pensamento...
Tarde, recreio de meu dia, é certo
30 Que só no teu parar se normaliza
A onda de todos os transbordamentos
Da minha vida inquieta e desregrada.
Só mesmo distanciado em ti, eu posso
Notar que tem razão-de-ser plausível
35 Nos trabalhos de ideal que vou semeando
Atabalhoadamente sobre a Terra.[312]
Só nessa vastidão dos teus espaços,
Tudo o que gero e mando, e que parece
Tão sem destino e sem razão, se ajunta
40 Numa ordem verdadeira... Que nem gado,
Pelo estendal do jaraguá disperso,
Ressurge de tardinha e, enriquecido
Ao aboio sonoro dos campeiros,
Enriquece o criador com mil cabeças
45 No circo da mangueira recendente...
Tarde macia, pra falar verdade:
Não te amo mais do que a manhã, mas amo
Tuas formas incertas e estas cores
Que te maquilham o carão sereno.
50 Não te prefiro ao dia em que me agito,
Porém contigo é que imagino e escrevo
O rodapé do meu sonhar, romance
Em que o Joaquim Bentinho dos desejos
Mente, mente, remente impávido essa
55 Mentirada gentil do que me falta.
Um despropósito de perfeições
Me cerca e, em grata sucessão de casos,
Vou com elas vivendo uma outra vida:
... Toda dor física azulou... Meu corpo,
60 Sem artritismos, faringites e outras
Específicas doenças paulistanas,
Tem saúde de ferro. Às intempéries
Exponho as ondas rijas dos meus músculos,
Sem medo. Praquê medo!... Regulares,
65 Mais regulares do que os meus, os traços
Do meu rosto me fazem desejado
Mais facilmente que na realidade...
Já não falo por ela não, por essa
Em cujo perfil duro jaz perdida
70 A independência do meu reino de homem...[313]
Que bonita que ela é!... Qual!... Nem por isso.
Não sonho sonhos vãos. A realidade,
Mais esportiva de vencer, me ensina
Esse jeito viril de ir afastando
75 Dos sonhos vesperais os impossíveis
Que fazem a quimera, e de que a vida
É nua, friorentamente nua.
Não a desejo não... Viva em sossego
Essa que sendo minha, nos traria
80 Uma vida de blefe, arrebatada
Por mais estragos que deslumbramentos.
Isto, em bom português, é amor platônico...
Quá! quá! quá!... Desejemos só conquistas!
Um poder de mulheres diferentes,
85 Meninas-de-pensão, costureirinhas,
Manicuras, artistas, datilógrafas,
Brancaranas e louras sem escândalo,
Desperigadas... livro de aventuras
Dentro do qual secasse a imagem da outra,
90 Que nem folha de malva, que nem folha
De malva... da mais pura malva perfumada!...
Livre dos piúns das doenças amolantes,
Com dinheiro sobrando, organizava
As poucas viagens que desejo... Iria
95 Viajar todo esse Mato Grosso grosso,
Danado guardador da indiada feia,
E o Paraná verdinho... Ara, se acaso
Tivesse imaginado no que dava
A Isidora, não vê que ficaria
100 Na expectativa pança em que fiquei!
Revoltoso banzando em viagens tontas,
Ao menos o meu sul conheceria,
Pampas forraginosos do Rio Grande
E praias ondejantes do Iguaçu...[314]
105 Tarde, com os cobres feitos com teu ouro,
Paguei subir pelo Amazonas... Mundos
Desbarrancando, chãos desbarrancados,
Aonde no quiriri do mato brabo
A terra em formação devora os homens...
110 Este refrão dos meus sentidos... Nada
Matutarei mais sem medida, ôh tarde,
Do que esta pátria tão despatriada!
Vibro! Vibro. Mas constatar sossega
A gente. Pronto, sosseguei. O forde
115 Recomeça tosando a rodovia.
“Nosso ranchinho assim tava bom...” Sonho...
Já sabe: desejando sempre... Um sítio,
Colonizado, sem necessidade
De japoneses nem de estefanóderis...
120 Que desse umas quatorze mil arrobas...
Já me bastava. Gordas invernadas
Pra novecentos caracus bem...
Tarde,
Careço de ir voltando, estou com fome.
125 Ir pra um quarto-de-banho hidroterápico
Que fosse a peça de honra deste rancho,
Aonde também, faço questão, tivesse
Dois ou três quartos-de-hóspedes... Isto é,
De hóspedes não, de amigos... Esta casa
130 É sua... Entre... Se abanque... Mande tudo...
Não faça cerimônia... Olha, de-noite
Teremos Hindemith e Villa-Lobos!
Que bom! possuir um aparelho de
Radiotelefonia tão perfeito
135 Que pegasse New York e Buenos Aires!...
Tarde de meu sonhar, te quero bem!
Deixa que nesta louvação, se lembre
Essa condescendência puxapuxa
De teu sossego, essa condescendência
140 Tão afeiçoável ao desejo humano.
De-dia eu faço, mas de-tarde eu sonho.
Não és tu que me dás felicidade,
Que esta eu crio por mim, por mim somente,
Dirigindo sarado a concordância
145 Da vida que me dou com o meu destino.
Não marco passo não! Mas se não é
Com desejos sonhados que me faço
Feliz, o excesso de vitalidade
Do espírito é com eles que abre a válvula
150 Por onde escoa o inútil excessivo;
Pois afastando o céu de junto à terra,
Tarde incomensurável, me permites,
Qual jaburus-moleques de passagem,
Lançar bem alto nos espaços essa
155 Mentirada gentil do que me falta.
Ciao, tarde, estou chegando. É quase noite.
Todo o céu já cinzou. Dependurada
Na rampa do terreiro a gaiolinha
Branca da máquina “São Paulo” inda arfa,
160 As tulhas de café desentulhando.
Pelo ar um lusco-fusco brusco trila,
Serelepeando na baixada fria.
Bem no alto do espigão, sobre o pau seco,
Ver um carancho, se empoleira a lua,
165 – Condescendente amiga das metáforas...
VII
MARIA[315]
Passa pura neste mundo,
Sendo chique e sendo rica,
Tem marido, quatro filhos,
Sabe rir, sabe gozar,
5 O nome dela é Maria.
Faz pouco telefonou
Falando que não iria
No chá da casa da amiga.
De vez em quando ela falta
10 Às festas de sociedade,
Arranja dor-de-cabeça
E outras desculpas assim.
Agora está no jardim
Toda de branco vestida.
15 O sol é um pintor das dúzias!
Diz-que pretende dourar
Aqueles cabelos curtos...
Não vê! só faz relumear
O preto daquele preto,
20 Que não tem nada mais preto
Que os cabelos de Maria!
Como é bonita! Seus olhos
São que nem jabuticabas.
E mesmo que o perfil dela
25 Seja um pouco duro, a gente
Assuntando aquele rosto
Que o rouge aviva mansinho,
A gente sente um sossego
De peito de passarinho.
30 A gente sente... meu Deus!
De deveras, um amor...
Que não é amor, é amorzinho
Feito de admiração.
Encanto de dia-santo!
35 Gosto que não dá desgosto!
Amor não! Veneração!
Se eu falasse que Maria
Traz um halo na cabeça,
Halo de santa moderna
40 Que maxixa e fala o inglês,
Muita gente se riria...
Pois se riam à vontade!
Maria traz na cabeça
O halo de Santa Maria!
45 É Shelley que está na moda,
E as mãos dela sobre a capa
Da edição de Oxford, orvalham
O couro negro macio
Com as gotas secas do brilho
50 Das unhas manicuradas.
Não quis mais ler porque livros
Não lhe dão a gostosura[316]
Que tem vendo as travessuras
Dos filhinhos em redor.
55 Um fala que tem de ser
Chofer duma lincoln verde;
O outro inda não sabe, hesita
Entre médico e aviador;
O caçula... lá se amola
60 Em saber o que será!
É pecurrucho, não pensa,
Tem a instintiva sabença
De andorinha taperá:
Aonde faz quente, ele vai.
65 Gatinhando emigra bambo
Do colo da mãe pro pai,
Do colo do pai pra cama.
Agora dorme na grama
Sobre o pleide branco e preto.
70 Troca a noite pelo dia...
Junto dele a ama cochila,
No branco e preto de estilo.
... Que a champanha dos jantares,
Tal-e-qual a cobra preta,
75 Vem de-noite e chupa o leite
Da sem-seios da Maria...
E Maria, a outra filhinha,
Maria filha de Maria,
Parecida com Maria,
80 Essa emburrou porque o mano
Mais velho diz que não quer
Que ela beije a cara dele.
Há-de ser chofer da lincoln
E há-de viver toda a vida
85 Sem boquinha de mulher!
Maria se ri tranquila.
São anjos, não são? São anjos
Que não têm asas por baixo
Dos suéteres de listrão.
90 Já falam seu alemão
Com a governanta comprida,
Mas que são anjos? são anjos
Da boniteza da vida!
... Que anjos são estes
95 Que estão me arrodeando,
De-noite e de-dia...
Padre Nosso...
Ave, Maria!
POEMAS DA NEGRA

(1929)

a Cícero Dias[317]
I


Não sei por que espírito antigo
Ficamos assim impossíveis...
A lua chapeia os mangues
Donde sai um favor de silêncio
5 E de maré.
És uma sombra que apalpo
Que nem um cortejo de castas rainhas.
Meus olhos vadiam nas lágrimas.
Te vejo coberta de estrelas,
10 Coberta de estrelas,
Meu amor!
Tua calma agrava o silêncio dos mangues.
II[318]
Não sei se estou vivo...
Estou morto.
Um vento morno que sou eu
Faz auras pernambucanas.
5 Rola rola sob as nuvens
O aroma das mangas.
Se escutam grilos,
Cricrido contínuo
Saindo dos vidros.
10 Eu me inundo de vossas riquezas!
Não sou mais eu...
Que indiferença enorme...
III
Você é tão suave,
Vossos lábios suaves
Vagam no meu rosto,
Fecham meu olhar.
5 Sol-posto.
É a escureza suave
Que vem de você,
Que se dissolve em mim.
Que sono...
10 Eu imaginava
Duros vossos lábios,
Mas você me ensina
A volta ao bem.
IV
Estou com medo...
Teu beijo é tão beijo,
Tua inocência é dura,
Feita de camélias.
5 Ôh, meu amor,
Nós não somos iguais!
Tu me proíbes
Beber água após...
Eu volto à calma
10 E não te vejo mais.
V
Lá longe no sul,
Lá nos pés da Argentina,
Marulham temíveis os mares gelados,
Não posso fazer mesmo um gesto!
5 Tu me adivinhas, meu amor,
Porém não queres ser escrava!
Flores!
Apaixonadamente meus braços desgalham-se,
Flores!
10 Flores amarelas do pau-d’arco secular!
Eu me desgalho sobre teu corpo manso,
As flores estão caindo sobre teu corpo manso,
Te cobrirei de flores amarelas!
Apaixonadamente
15 Eu me defenderei!
VI[319]
Quando
Minha mão se alastra
Em vosso grande corpo,
Você estremece um pouco.
5 É como o negrume da noite
Quando a estrela Vênus
Vence o véu da tarde
E brilha enfim.
Nossos corpos são finos,
10 São muito compridos...
Minha mão relumeia
Cada vez mais sobre você.
E nós partimos adorados
Nos turbilhões da estrela Vênus!...
VII
Não sei porque os tetéus gritam tanto esta noite...
Não serão talvez nem mesmo os tetéus.
Porém minha alma está tão cheia de delírios
Que faz um susto enorme dentro do meu ser.
5 Estás imóvel.
És feito uma praia...
Talvez estejas dormindo, não sei.
Mas eu vibro cheinho de delírios,
Os tetéus gritam tanto em meus ouvidos,
10 Acorda! ergue ao menos o braço dos seios!
Apaga o grito dos tetéus!
VIII
Nega em teu ser primário a insistência das coisas,
Me livra do caminho.
Colho mancheias de meus olhares,
Meu pensamento assombra mundos novos,
5 E eu desejava estar contigo...
Há vida por demais neste silêncio nosso!
Eu próprio exalo fluidos leves
Que condensam-se em torno...
Me sinto fatigantemente eterno!
10 Ah, meu amor,
Não é minha amplidão que me desencaminha,
Mas a virtuosidade...
IX
Na zona da mata o canavial novo
É um descanso verde que faz bem;
É uma suavidade pousar a vista
Na manteiga e no pelo dos ratos;
5 No mais matinal perfume francês
A gente domina uma dedicação;
Apertando os dedos no barro mole
Ele escorre e foge,
E o corpo estremece que é um prazer...
10 Mas você é grave sem comparação.
X
Há o mutismo exaltado dos astros,
Um som redondo enorme que não para mais.
Os duros vulcões ensanguentam a noite,
A gente se esquece no jogo das brisas,
5 A jurema perde as folhas derradeiras
Sobre Mestre Carlos que morreu.
Dir-se-ia que os ursos
Mexem na sombra do mato...
A escureza cai sobre abelhas perdidas.
10 Um potro galopa.
Ponteia uma viola
De sertão.
Nós estamos de pé,
Nós nos enlaçamos,
15 Somos tão puros,
Tão verdadeiros...
Ôh, meu amor!
O mangue vai refletir os corpos enlaçados!
Nossas mãos já partem no jogo das brisas,
20 Nossos lábios se cristalizam em sal!
Nós não somos mais nós!
Nós estamos de pé!
Nós nos amamos!
XI
Ai momentos de físico amor,
Ai reentrâncias de corpo...
Meus lábios são que nem destroços
Que o mar acalanta em sossego.
5 A luz do candeeiro te aprova,
E... não sou eu, é a luz aninhada em teu corpo
Que ao som dos coqueiros do vento
Farfalha no ar os adjetivos.
XII


Lembrança boa,
Carrego comigo tua mão.
O calor exausto
Oprime estas ruas
5 Que nem a tua boca pesada.
As igrejas oscilam
Por cima dos homens de branco,
E as sombras despencam inúteis
Das botinas, passo a passo.
10 O que me esconde
É o momento suave
Com que as casas velhas
São róseas, morenas,
Na beira do rio.
15 Dir-se-ia que há madressilvas
No cais antigo...
Me sinto suavíssimo de madressilvas
Na beira do rio.
MARCO DE VIRAÇÃO

a José Bento Faria Ferraz[320]
ASPIRAÇÃO[321]
(9 de setembro de 1924)
Doçura da pobreza assim...
Perder tudo o que é seu, até o egoísmo de ser seu,
Tão pobre que possa apenas concorrer pra multidão...
Dei tudo o que era meu, me gastei no meu ser,
5 Fiquei apenas com o que tem de toda a gente em mim...
Doçura da pobreza assim...[322]
Nem me sinto mais só, dissolvido nos homens iguais![323]
Eu caminhei. Ao longo do caminho,
Ficava no chão orvalhado da aurora,
10 A marca emproada dos meus passos.[324]
Depois o sol subiu, o calor vibrou no ar
Em partículas de luz dourando e sopro quente.[325]
O chão queimou-se e endureceu.[326]
O sinal dos meus pés é invisível agora...
15 Mas sobra a Terra, a Terra carinhosamente muda,
E crescendo, penando, finando na Terra,[327]
Os homens sempre iguais...
E me sinto maior, igualando-me aos homens iguais!...
LOUVAÇÃO MATINAL
(dezembro de 1925)
É de-manhã. Se sente a fadiga boa do sono.
Porém o corpo estica, chupando com os poros abertos,
Toda a luz, todo o frescor, todo o ímpeto da manhã.
Eu fiz da minha vida sempre um rasgo matinal...
5 Enquanto a água rija do banho me bate no corpo
Sinto a manhã se levantando viva no país...
Sinto movendo as coxas das coxilhas lá no sul;
Adiante os colonos monótonos erguem o mate,
E na sombra fraca do carijo a brisa trabalha,
10 Deitando sobre a congonha o bafo sedento dela;
Nos sítios de serra-acima o solzão dependurado,
Polido e carnudo que nem fruta de jerimum,
Despenca dos itaquás sangrentos e se esbandalha
Nas roças de milho, nas roças de arroz e nos corgos,
15 Afugentando a sombra escusa das canhadas;[328]
Nas terras de milagre as águas prenhes dos garimpos
Choram em cada bateia a lágrima dum diamante;
Mais pra arriba o grito pontudo do Cabuji
Achata o murmurejo religioso das juremas;
20 E quando lá no Amazonas as águas vadias se listram
Com os círculos dos jacarés que afundam pra descansar,
Vida de trabalho brabo, vida de todo dia.
Os gaiolas sobem lentamente o rio,
E os passarões, de pernas esticadas,
25 Mergulham em reta nas nuvens morenas do céu...
Tudo o que acorda na manhã do dia natural
Segue uma linha bem traçada, linha já sabida,
Aonde assusta de supetão o prisco do imprevisto,
Ver codorna que sem querer o camarada levantou.
30 Possuir consciência de si mesmo isso é a felicidade,
Isso é a glória de ser, fazendo o que será.
Que a vida de cada qual seja um projeto de casa!
Seco, o projeto agride o olho da gente no papel,
Porém quando a casa se agarra no lombo da terra,
35 Ela se amiga num átimo com tudo o que enxerga em volta,
Se adoça, perde a solidão que tinha no projeto,
Se relaciona com a existência, um homem vive nela,
E ela brilha da força do indivíduo e o glorifica.
Deflorar a virgindade boba do que tem de vir!...
40 Eu nunca andei metido em sortes nem feitiçarias,
Não posso contar como é a sala das cartomantes,
E minhas mãos só foram lidas pelos beijos das amadas,
Porém sou daqueles que sabem o próprio futuro,
E quando a arraiada começa, não solto a rédea do dia,
45 Não deixo que siga pro acaso, livre das minhas vontades.
O meu passado... Não sei. Nem nunca matuto nele.
Quem vê na noite? o que enxerga na escureza assombrada?
O que passou, passou; nossa vaidade é tão constante,
Os preconceitos e as condescendências são tão fáceis
50 Que o passado da gente não é mais
Que um sono bem comprido aonde um poder de sombras lentas
Mostram que a gente sonhou. Porém não sabe o que sonhou.
Não recapitular! Nunca rememorar!
Porém num rasgo matinal, em coragem perpétua
55 Ir continuando o que um dia a gente determinou!
Eu trago na vontade todo o futuro traçado!
Não turtuveio mais nem gesto meu para indeciso!
Passam por mim pampeiros de ambições e de conquistas,
Chove tortura, estrala o mal, serenateia a alegria,
60 Futuro está gravado em pedra e não se apaga mais!
Por isso é que o imprevisto é para mim mais imprevisto,
Guardo na sensação o medo ágil da infância,
Eu sei me rir! eu sei me lastimar com ingenuidade!
Nombrada da terra em força nova na manhã!
65 Ao pé de mim São Paulo em rosa vibra cheirando vida!
O sol abrindo o paraquedas de ouro na amplidão
E peneirando o pólen do calor sobre esse mundo...
Rangem os caminhões. Padeiro entrega o pão. O leite
Ferve no fogo. A feira grita de cor. As notícias
70 Correm povo no galopão folgado dos jornais.
Auto-ônibus bufando. Tudo bufando, abrindo asa...
A cidade mexe de vida fresca, temporã.
É a manhã! é a manhã! a glória formidável da manhã!...
Eu fiz da minha vida sempre um rasgo, uma nombrada matinal...
75 Isso é a felicidade.
É a minha glória.[329]
IMPROVISO DO RAPAZ MORTO
(1925)
Morto, suavemente ele repousa sobre as flores do caixão.
Tem momentos assim em que a gente vivendo
Esta vida de interesses e de lutas tão bravas,
Se cansa de colher desejos e preocupações.
5 Então para um instante, larga o murmúrio do corpo,
A cabeça perdida cessa de imaginar,
E o esquecimento suavemente vem.
Quem que então goze as rosas que o circundam?
A vista bonita que o automóvel corta?
10 O pensamento que o heroíza?...
O corpo é que nem véu largado sobre um móvel,
Um gesto que parou no meio do caminho,
Gesto que a gente esqueceu.
Morto, suavemente ele se esquece sobre as flores do caixão.
15 Não parece que dorme, nem digo que sonhe feliz, está morto.
Num momento da vida o espírito se esqueceu e parou.
De repente ele assustou com a bulha do choro em redor,
Sentiu talvez um desaponto muito grande
De ter largado a vida sendo forte e sendo moço,
20 Teve despeito e não se moveu mais.
E agora ele não se moverá mais.
Vai-te embora! vai-te embora, rapaz morto!
Ôh, vai-te embora que não te conheço mais!
Não volta de-noite circular no meu destino
25 A luz da tua presença e o teu desejo de pensar!
Não volta oferecer-me a tua esperança corajosa,
Nem me pedir para os teus sonhos a conformação da terra![330]
O universo muge de dor aos clarões dos incêndios,
As inquietudes cruzam-se no ar alarmadas,
30 E é enorme, insuportável minha paz!
Minhas lágrimas caem sobre ti e és como um sol quebrado!
Que liberdade em teu esquecimento!
Que independência firme na tua morte!
Ôh, vai-te embora que não te conheço mais!
MOMENTO[331]
(novembro de 1925)
Ninguém ignora a inquietação do clima paulistano...
Pois tivemos hoje uma arraiada fresca de neblina.
Depois do calorão duma noite maldita, sem sono,
Uma neblina leviana desprendeu das nuvens lisas
5 E pousou um momentinho sobre o corpo da cidade.
Ôh como era boa, e o carinho que teve pousando!
Não espantou, não bateu asa, não fez nenhuma bulha,
Veio, que nem beijo de minha mãe se estou enfezado[332]
Vem mansinho, sem medo de mim, e pousa em minha testa.
10 Assim neblina fez, e o sopro dela acalmou as penas
Desta cidade histórica, desta cidade completa,
Cheia de passado e presente, berço nobre onde nasci.[333]
Os beijos de minha mãe são tal-e-qual a neblina madruga...
Meu pensamento é tal-e-qual São Paulo, é histórico e completo,
15 É presente e passado e dele nasce meu ser verdadeiro...
Vem, neblina, vem! Beija-me, sossega-me o meu pensamento!
PONTEANDO SOBRE O AMIGO RUIM[334]
(março de 1927)
Enfim a gente não é mais amigo um do outro não.
Você anda fácil, levianinho,
No labirinto das complicações.
Que sutileza! quanta graça dançarina!...
5 É certo que fica sempre
Bastante pó das asas de você
Nos galhos, nos espinhos,
Até nas flores desse mato...
Mesmo já pus reparo várias vezes
10 Nas asas de você estragadas pelas beiras...
Porém o essencial, o importante
É que apesar desse estrago inda você pode voar.
Eu não sou assim não.
Sou pesado, bastante estabanado,
15 Não tenho asa nem muita educação.
Careço de caminho largo, bem direito.
Se falta espaço, quebro tudo,
Me firo, me fatigo... Afinal caio.
No meio do mato eu paro, não posso mais caminhar.
20 Não posso mais.
Você... É possível que ainda me chame de amigo...
Mesmo perdendo um bocadinho de asa
Pousa no meu espinheiro e inda pode voar depois.
Mas eu, eu sofro é certo,
25 Porém já não sou mais amigo de você.
Você é amigo do mar, você é amigo do rio...
AS BODAS MONTEVIDEANAS
(15 de janeiro de 1928)
Todas as coisas estarão boazinhas porque são indiferentes...
Vocês chegaram até o ponto da alegria...
Pra que matutar mais?
“– Pois que a gente se quer bem, tanto! que o corpo
5 Consegue ficar na espera tempo longo de conversa,
Não venham nos avisar que é Buenos Aires lá fora,
Que é Buenos Aires com toda a magnitude firme dela!
Não venham nos avisar que até o garçom olha pra nós...
Não venham não! E que ninguém não venha mais!
10 Diz, pássaro, diz outra vez como foi que você veio parar aqui!
Diz tudo, e diz principalmente outra vez, pássaro!
Repete, não faz mal, repete o caso, colhereira chiquitita do Brasil!...
Será mesmo que a gente se escuta falando?
Diz, pássaro! Que a voz de você ameigue as coisas que muito já sei,
15 Enquanto os nossos olhos entram fundo no invisível de nós dois,
Pra que matutar mais!...”
“– Ah, flores duma outra idade e marchas nupciais, véus de noiva...
Amanhã cedo iremos a Montevidéu casar...
Tem mais comodidade lá na Lei, até divórcio nos reserva,
20 E nós iremos a Montevidéu só pra casar...
Pra que matutar mais, viva o Uruguai!
Nem bem chegando lá vou no cabeleireiro consertar as sobrancelhas, stou
medonha,
E você bota a gravata listrada que dei pra você.
Nos casaremos alinhados.
25 Flores de laranjeira não, bobagem! mas... que tal umas laranjas?
Umas laranjas bem geladas, bem ácidas pro jantar... Vai ser bom!”
Ah, flores duma outra idade e marchas nupciais, véus de noiva,
Até vocês podem cair sobre eles, os noivos aceitarão tudo!
A terra enorme em todos os seus gritos que ranja na marcha nupcial!
30 A burundanga dos ventos de poeira, pampeiros, noroestes, sulões,
Cheirosos, se tecendo em véu de noiva sobre o pássaro,
E a florada meridional das estrelas despencando em sol sobre eles!...[335]
Aceitam tudo porque já não é mais hora de enxergar.
E que o quarto de hotel, Montevidéu, a Terra, o mundo,
35 Sejam pequenos ou grandes, qual! de nada saberão mais!
Canta, som complacente de minha voz, a louvação nupcial com entusiasmo!
Canta por ti, canta apostando!
Canta, que o canto nupcial é torcida também, torce pra eles!
A equipe nova seguiu andarilha,
40 Torce pra que eles cheguem juntos no destino!
Torce, ri contente, grita que embora não ouçam-te o grito,
O som irá dinamizar o ardor dos jogadores!
Dinamiza! Dá força, dá ritmo, porque o jogo bem torcido
É comovente, mais movimentado e bem de esporte leal!
45 Abaixo os profissionais!
Canta num som mui alto, casta e desnecessária!
Desabaladamente, feito boba, canta e recanta muito,
Eles estão no jogo e já não podem cantar mais!
Torce, torce e grita boba-alegre comovida sem sentido!
50 Para eles vai ser a vitória ou a derrota no jogo, despeito ou completamento,
Porém pra ti, voz minha, resta o canto de esporte vital, acima dos resultados!
Canta alegre na torcida, voz de poeta!
Canta sem ter razão pra estar alegre!
Dois seres sem temor, sem matutar se uniram, dois a mais!
55 Não tens razão especial não pra estar alegre, voz de poeta?
Pois canta assim mesmo ignorando a razão que te leva,
Mas canta sempre! Canta empolgada à violência da Terra,
A violência dos seres que através das civilizações aflitivas,
Inda enxergam o Sol na abertura dos dias
60 E bailam sobre os vulcões!
A ADIVINHA
(janeiro de 1928)
Que é que é?
Ele possui uma alma e um corpo feito o nosso
E vai percorrendo o caminho de todos.
Foi piá, quis bem a mãe, quis bem a casa dele,
5 E afinal uma feita quis bem a cidade e foi homem.
Então gostou da intrepidez das ruas normativas
E cantou o orgulho do homem no indivíduo.
Pôs a boca no mundo, imaginou que era um,
E era apenas mais um o cantor gastador.
10 Pôs a boca no mundo e cantou todo o dia,
Porém a voz se fatigou talqualmente os vulcões
E não ficou mais que o instrumento.
Ser o bojo vazio do violão...
A noite igualada separa a vida do universo,
15 É o momento em que as coisas todas são resumos
E pelas esquinas dos bairros se engrandecem os violões.
Que é que é?...
É um instrumento de música oscilando num soco de pedra.
De pedra sangrenta do Itacolumi.
20 Careceu que pela entrada da cidade lerdamente,
Ao aboio alto dos homens e dos animais,
Viessem os séculos montando bois castrados,
Pra que o violão fosse afinal violão.
O vento afina e desafina as cordas,
25 A chuva tantana na taboa do pinho,
Remexe a dança com lambança,
Cada sujeito que passa tira um ponteio só dele...
Tudo ponteios, tudo sons sem resultado,
Reboam ressoam na caixa de todos,
30 Sem cantos, sem palavras... A voz do homem se acabou.
Sobre o mar cinzento relumeia céu de estrela,
Sobre a Terra girada ao impulso dos passos populares,
Que nem chagas as cidades, que nem chagas...
São berevas. Não! são pensamentos! maravilhas orgulhosas!
35 São berevas... Taperas e palácios...
E a febre... As águas mornas do Paraíba...
As águas novas do Missuri-Mississipi...
O Reno com vilegiaturas e castelos medievais...
Vamos pra Caxambu! pra Karlsbad!
40 Vamos ver Mussolini! Vamos ver os escravos!
Vamos ver se Leningrado não mudou de nome, gente!
Que é que é! É o violão. Um ponteio sem voz
Trepadeirando até agarrar lá em riba
Nos espeques firmes das estrelas do céu.
45 Nos ares as luzes torcendo cruzando,
Sempre dança, tudo maxixe impossível,
As luzes fazem traçados em emboladas de luz.
São anúncios. Todas as luzes são anúncios.
Todas as ideias e paixões é tudo anúncio! Tudo só anúncio, só anúncio no mundo!
50 E o pinho reboa ressoa se estrala em só anúncio!
Uma bruta duma dança rag remexe a Terra?
Um pensamento fundo rasga um lapo na caixa do pinho?
Porém que é que é! Será choro? Será seresta de festa?
Será que é pensamento mesmo? será piá? Serapião? Será violão!
55 Que é que é balanceado no soco de pedra
O instrumento saracoteando anúncios de harmonias?
Os críticos analisarão todas as harmonias,
Os pensamentos conceberão sistemas e tonalidades,
Será possível tirar uma regra e a regra viverá setenta-e-um anos...
60 Mas que é que é o violão que existe e existirá
Além da regra e a regra não diz nada e o violão vê na regra só anúncio!...
Êh, cordas, cordas, cordas metálicas feitas de século,
Se quebrem logo! Cordas, o violão não pode mais saber o que são cordas,
Não sabe porque soa tanto e a caixa de ressonância
65 Vibra com tudo, mesmo com o frescor sentimental da luna sertaneja...
Êh, cordas do violão, por que não viram homem outra vez?
Deixem que ele cante a geometria praciana,
E o Carnaval, e a Flor de Amor, e Mamãe com Papai!
Deixem que ele possa achar de novo as palavras arcaicas!
70 Mas o violão é mais imenso que as palavras
E não as compreende mais.
Que significa até a palavra “Deus”?
... alguma coisa mais desejada...
Mais bem puxada, mais bem dançada,
75 Além do mundo e do pensamento...
Catira leve e jongo lento,
Pra que não basta noite de dança...
Êxtase de interminável festança,
Que a insuficiência do amor não abre
80 Na flor humana duma palavra...
Ele ressoa no bojo do violão! no bordão! gentes, bem no bordão![336]
Mas o violão não sabe não! ninguém não sabe!
É tudo um som sem sins!... Platariviux! gentes, platariviux!... Que é que é! Que é que
é!...
E a tristeza iluminada, vasta, instrumental,
85 Ácida inquietação, maravilhando, turtuveando,
Recai sobre a adivinha.
IMPROVISO DO MAL DA AMÉRICA
(fevereiro de 1928)
Grito imperioso de brancura em mim...
Êh coisas de minha terra, passados e formas de agora,
Êh ritmos de síncopa e cheiros lentos de sertão,
Varando contracorrente o mato impenetrável do meu ser...
5 Não me completam mais que um balango de tango,
Que uma reza de indiano no templo de pedra,
Que a façanha do chim comunista guerreando,
Que prantina de piá, encastoado de neve, filho de lapão.
São ecos. Mesmos ecos com a mesma insistência filtrada
10 Que ritmos de síncopa e cheiro do mato meu.
Me sinto branco, fatalizadamente um ser de mundos que nunca vi.
Campeio na vida a jacumã que mude a direção destas igaras fatigadas
E faça tudo ir indo de rodada mansamente
Ao mesmo rolar de rio das aspirações e das pesquisas...
15 Não acho nada, quase nada, e meus ouvidos vão escutar amorosos
Outras vozes de outras falas de outras raças, mais formação, mais forçura.
Me sinto branco na curiosidade imperiosa de ser.
Lá fora o corpo de São Paulo escorre vida ao guampaço dos arranha-céus,
E dança na ambição compacta de dilúvios de penetras.
20 Vão chegando italianos didáticos e nobres;
Vai chegando a falação barbuda de Unamuno
Emigrada pro quarto-de-hóspedes acolhedor da Sulamérica;
Bateladas de húngaros, búlgaros, russos se despejam na cidade...
Trazem vodka no sapiquá de veludo,
25 Detestam caninha, detestam mandioca e pimenta,
Não dançam maxixe, nem dançam catira, nem sabem amar suspirado.
E de-noite monótonos reunidos na mansarda, bancando conspiração,
As mulheres fumam feito chaminés sozinhas,
Os homens destilam vícios aldeões na catinga;
30 E como sempre entre eles tem sempre um que manda sempre em todos,
Tudo calou de supetão, e no ar amolegado da noite que sua...
– Coro? Onde se viu agora coro a quatro vozes, minha gente! –
São coros, coros ucranianos batidos ou místicos, Sehensucht d’além-mar!
Home... Sweet home... Que sejam felizes aqui!
35 Mas eu não posso, não, me sentir negro nem vermelho!
De certo que essas cores também tecem minha roupa arlequinal,
Mas eu não me sinto negro, mas eu não me sinto vermelho,
Me sinto só branco, relumeando caridade e acolhimento,
Purificado na revolta contra os brancos, as pátrias, as guerras, as posses, as
preguiças e ignorâncias!
40 Me sinto só branco agora, sem ar neste ar-livre da América!
Me sinto só branco, só branco em minha alma crivada de raças!
MANHÃ[337]
(18 de março de 1928)[338]
O jardim estava em rosa ao pé do sol
E o ventinho de mato que viera do Jaraguá,
Deixando por tudo uma presença de água,
Banzava gozado na manhã praciana.
5 Tudo limpo que nem toada de flauta.
A gente se quisesse beijava o chão sem formiga,
A boca roçava mesmo na paisagem de cristal.
Um silêncio nortista, muito claro!
As sombras se agarravam no folhedo das árvores[339]
10 Talqualmente preguiças pesadas.
O sol sentava nos bancos tomando banho-de-luz.
Tinha um sossego tão antigo no jardim,
Uma fresca tão de mão lavada com limão,[340]
Era tão marupiara e descansante
15 Que desejei... Mulher não desejei não, desejei...
Se eu tivesse a meu lado ali passeando
Suponhamos Lenine, Carlos Prestes, Gandhi, um desses!...
Na doçura da manhã quase acabada
Eu lhes falava cordialmente: – Se abanquem um bocadinho.
20 E havia de contar pra eles os nomes dos nossos peixes,
Ou descrevia Ouro Preto, a entrada de Vitória, Marajó,
Coisa assim, que pusesse um disfarce de festa
No pensamento dessas tempestades de homens.
MOMENTO[341]
(16 de setembro de 1928)
Deve haver aqui perto uma roseira florindo,
Não sei... sinto por mim uma harmonia,
Um pouco da imparcialidade que a fadiga traz consigo.
Olho pra minhas mãos. E uma ternura perigosa
5 Me faz passar a boca sobre elas, roçando,
(De certo é alguma rosa...)
Numa ternura que não é mais perigosa não, é piedade paciente.[342]
As rosas... Os milhões de rosas paulistanas...
Já tanto que enxerguei minhas mãos trabalhando,
10 E tapearem por brinquedo umas costas de amigo,
Se entregarem pra inimigo, erguerem dinheiro do chão...
Uma feita meus dedos pousaram nuns lábios,
Nesse momento eu quis ser cego!
Ela não quis beijar a ponta dos meus dedos,
15 Beijou as mãos, apaixonadamente, em submissão...
Ela beijou o pó das minhas mãos...
O mesmo pó que já desce na rosa nem bem ela se abre.
Deve haver aqui perto uma roseira florindo...
Que harmonia por mim... Que parecença com jardim...
20 O meu corpo está são... Minha alma foi-se embora...
E me deixou.
PELA NOITE DE BARULHOS ESPAÇADOS...[343]
(junho de 1929)
Pela noite de barulhos espaçados,
Neste silêncio que me livra do momento
E acentua a fraqueza do meu ser fatigadíssimo,
Eu me aproximo de mim mesmo
5 No espanto ignaro com que a gente se chega pra morte.
Meu espírito ringe cruzado por dores sem nexo,
Numa dor unida, tão violentamente física,
Que me sinto feito um joelho que dobrasse.
A luz excessiva do estúdio desmancha a carícia do objeto,
10 Um frio de vento vem que me pisa tal qual um contato,
Tudo me choca, me fere, uma angústia me leva,
Estou vivendo ideias que por si já são destinos
E não escolho mais minhas visões.
A aparência é de calma, eu sei. Dir-se-ia que as nações vivem em paz...
15 Há um sono exausto de repouso em tudo,
E uma cega esperança, cantando benditos, esmola
Em favor dos homens algum bem que não virá...
Me sinto joelho. Há um arrependimento vasto em mim.
Eu digo que os séculos todos
20 Se atrasaram propositalmente no caminho,
Me esperaram, e puxo-os agora como boi fatal.
Me sinto culpado de milhões de séculos desumanos...
Milhões de séculos desumanos me fizeram, fizeram-te, irmão;
E pela noite de barulhos espaçados
25 Não quero escutar o conselho que desce dos arranha-céus do norte!
Eu sei que teremos um tempo de horror mais fecundo
Que as rapsódias da força e do dinheiro!
Será que nem uma arrebentação...
Os postos isolados das cidades
30 Se responderão em alarmas raivacentos,
Saídos das casas iguais e da incúria dos donos da vida.
Havemos de ver muitos manos passando a fronteira,
Haverá pão grátis muito duvidoso,
As salas de improviso se encherão de discussões apaixonadas,
35 Mortas no dia seguinte em desastres que não sei quais.
Será tempo de esforço caudaloso,
Será humano e será também terribilíssimo...
Só há-de haver mulheres que não serão mais nossas mulheres.
Os piás hão-de estar sem confiança catalogados na fila,
40 E os homens morrerão violentamente
Antes que chegue o tempo da velhice.
Poemas da amiga

(1929-1930)

a Jorge de Lima[344]
I[345]
A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.
5 Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe, doce amiga; e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor-de-rosa
Mexendo asas azuis dentro da tarde.[346]
II
Se acaso a gente se beijasse uma vez só...
Ontem você estava tão linda
Que o meu corpo chegou.
Sei que era um riacho e duas horas de sede,
5 Me debrucei, não bebi.
Mas estou até agora desse jeito,
Olhando quatro ou cinco borboletas amarelas,
Dessas comuns, brincabrincando no ar.
Sinto um rumor...
III
Agora é abril, ôh minha doce amiga,
Te reclinaste sobre mim, como a verdade,
Fui virar, fundeei o rosto no teu corpo.
Nos dominamos pondo tudo no lugar.
5 O céu voltou a ser por sobre a terra,
As laranjeiras ergueram-se todas de-pé
E nelas fizemos cantar um primeiro sabiá.
Mas a paisagem logo foi-se embora
Batendo a porta, escandalizadíssima.
IV
Ôh trágico fulgor das incompatibilidades humanas!
Que tara divina pesa em nosso corpo vitorioso
Não permitindo que jamais a plenitude satisfeita
Descanse em nosso lar como alguém que chegou!...
5 Não tenho esperança mais nas vossas revelações!
Vós me destes o amor, me destes a amizade,
E na experiência de minha doce amiga me destes
Mais do que imaginei... Mas a volta foi cruel.
Eu sofro. Êh, liberdade, essência perigosa...
10 Espelhos, Pireneus, caiçaras e todos os desesperos,
Vinde a mim que outros agora aboiam pra eu marchar!
Tudo é suavíssimo na flora dos milagres...
Um pensamento se dissolve em mel e à porta
Do meu coração há sempre um mendigo moço esmolando...
15 Eu saí da aventura! Eu fugi da ventura!
Nós não estamos na cidade nem no mato.
Nós rolamos na ânsia dos fabulosos aeroplanos,
E vos garanto que agora não acabaremos mais!
V[347]
Contam que lá nos fundos do Grão Chaco
Mora o morubixaba chiriguano Caiuari,
Nas terras dele nenhum branco não entrou.
São planos férteis que passam a noite dormindo
5 Na beira dum lagoão calmo de garças.
Enorme gado pasta ali, o milho plumeja nos cerros,
E os homens são todos bons lá onde o branco não entrou.[348]
Nós iremos parar nesses desertos...
Viajando através de fadiga e miséria,
10 Os dias ferozes nós descansaremos abraçados,
Mas pelas noites suaves nossos passos nos levarão até lá.
E ao vivermos nas terras do morubixaba Caiuari,
Tudo será em comum, trabucaremos como os outros e por todos,
Não haverá hora marcada pra comer nem pra dormir,
15 Passaremos as noites em dança, e na véspera das grandes bebedeiras
Nos pintaremos ricamente a riscos de urucum e picumã.
Pouco a pouco olvidaremos as palavras de roubo, de insulto e mentira,
A terminologia das nações e da política,
E dos nossos pensamentos afinal desertarão as profecias.
20 Ôh, doce amiga, é certo que seríamos felizes[349]
Na ausência deste calamitoso Brasil!...
Fecho os olhos... É pra não ver os gestos contagiosos...
Ando em verdades que deviam já não ser do tempo mais...
A nossa gente vai muito sofrer e trago o coração inquieto.[350]
VI
Nós íamos calados pela rua
E o calor dos rosais nos salientava tanto
Que um desejo de exemplo me inspirava,
E você me aceitou por entre os santos.
5 Erguer do chão um toco de cigarro,
Fumá-lo sem saber por que boca passou,
A terra me erriçava a língua e uma saliva seca
Pousando nos meus lábios molhados renasceu.
Todos os boitatás queimavam minha boca
10 Mas quando recomecei a olhar, ôh minha doce amiga,
Os operários passavam-se todos para o meu lado,
Todos com flores roubadas na abertura da camisa...
O sol no poente, de novo auroral e nativo,
Fazia em caminho contrário um dia novo;
15 E as noites ficaram luminosamente diurnas,
E os dias massacrados se esconderam no covão duma noite sem fim.
VII
É hora. Mas é tal em mim o vértice do dia
Nesta sombra... Porque serás mais que os rapazes,
E bem mais, muito mais do que as amantes?...
Sombra!... Sombra de cajazeira perfumada,
5 Saudando a minha inquietação com a tua delícia!
Eu poderia dormir no teu regaço, ôh mana...
Abri-vos, rincões do sossego,
Não cuideis que é minha amante, é minha irmã!
Porém é muito cedo ainda, e no portão do Paraíso
10 O anjo das cidades vigia com a espada de fogo na mão.
VII (BIS)
É uma pena, doce amiga,
Tudo o que pensas em mim.
Eu sei, porque acho uma pena
Também o que penso em ti.
5 Mesmo quando conversamos,
É uma pena, outras conversas
De olhos e de pensamentos,
Andam na sala, dispersas.
VIII
Gosto de estar a teu lado,
Sem brilho.
Tua presença é uma carne de peixe,
De resistência mansa e um branco
5 Ecoando azuis profundos.
Eu tenho liberdade em ti.
Anoiteço feito um bairro,
Sem brilho algum.
Estamos no interior duma asa
10 Que fechou.
IX
Vossos olhos são um mate costumeiro.
Vossas mãos são conselhos que é indiferente seguir.
Gosto da vossa boca donde saem as palavras isoladas
Que jamais não ouvi.
5 Porém o que eu adoro sobretudo é vosso corpo
Que desnorteia a vida e poupa as restrições.
Ôh, doce amiga! vossos castos espelhos de aurora
Despejam sobre mim paisagens e paisagens
Em que passeio feito um rei sem povo,
10 Cortejado por noruegas, caponetes e caminhos,
– Os caminhos incompetentes que jamais não me conduzirão a alguém!...
X
Os rios, ôh doce amiga, estes rios
Cheios de vistas, povoados de ingazeiras e morretes,
Pelo Capibaribe irás ter ao Recife,
Pelo Tietê a São Paulo, no Potenji a Natal.
5 Pelo Tejo a Lisboa e pelo Sena a Paris...
Os rios, ôh minha doce amiga, na beira dos rios
É a terra de povoação em que as cidades se agacham
E de-noite, que nem feras de pelo brilhante, vão beber...
Pensa um bocado comigo na vasta briga da terra,
10 E nas cidades que nem feras bebendo na praia dos rios!
Insiste ao pé de mim neste meu pensamento!
E os nossos corações, livres do orgulho,
Mais humilhados em cidadania,
Irão beber também junto das feras.
XI
A febre tem um vigor suave de tristeza,
E os símbolos da tarde comparecem entre nós;
Não é preciso nem perdoar nem esquecer os crimes
Pra que venha este bem de sossegar na pouca luz.
5 É a nossa intimidade. Um fogo arte, esquentando
Um rumor de exterior bem brando, muito brando,
E dá clarões duma consciência intermitente.
A poesia nasce.
Tu sentes que o meu fluido se aninha em teu colo e te beija na face,
10 E, por camaradagem, me olhas ironicamente.
Mas estamos sem mesmo a insistência dos nossos brinquedos.
E o vigor suave da febre
Não intimida os nossos corações tranquilos.
XII[351]
Minha cabeça pousa nos seus joelhos,
Vem o entressono, e é milagroso!
A vida se conserva em mim doada pelos seus joelhos,
E sou duma inimaginável liberdade!
5 Ôh espíritos do ar que os homens adivinham,
Dizei-me o que se evola do meu corpo!
Essa outra coisa vaporosa e brancacenta
Que não é fumo, nem echarpe,
Não tem forma, porém não se desmancha
10 E baila no ar...
Todos os adeuses, todos os espelhos e girândolas
Voltejam no espaço que se enche e esvazia
Num tremor ávido a esfolhar-se em pregas sem dureza...
Abre a rosa oculta em sinais,
15 Manhãs em vésperas de ser,
Pireneus sem desejo, enquanto à espreita,
Os objetos em torno me invejam
Buscando me prender na miséria da imagem...
Ôh espíritos do ar, dizei-me a rosa incomparável
20 Que se evola reagindo em baile no ar!
Baile! Baile de mim no entressono!
Não é uma alma, não é um espírito do ar, não é nada!
É a outra coisa que baila, que baila, que baila,
Livre de mim! gratuita enfim! fútil de eternidade!
25 Ôh, brinca, brinca, minha melodia!
Sabiá da mata que canta a mei-dia!
Olha o coco, Sinhá!
A costela do grã cão
A COSTELA DO GRÃ CÃO




a Murilo Miranda[352]
CANTO DO MAL-DE-AMOR
(1924)
Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor.
Senti que vinha... Seus braços
Era fatal me chamavam,
5 Parti... Cheio de vontade
E já não tenho vontade,
Percorro a noite, percorro
A noite com mal-de-amor...
É tarde já... Zero grau.
10 Hesito mais, indeciso...
Meus irmãos desaparecem
Nos corredores com luz
Donde saltam na calçada
Muitos palhaços de riso,
15 Até rio... Vaia o jazz.
Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
20 Sofrendo. A frase não para
No meio: com mal-de-amor.
Ironia do contraste,
Militares linhas retas,
Praças claustros seculares
25 Nunca amaste! nunca amaste!
Névoa filha-de-Maria,
Névoa fria... vida fria...
Não vale a pena ficar
Torturando a minha carne
30 Com o cilício da esperança,
Arrasto gozos perdidos,
Vim buscar os corredores
Os corredores com luz,
E o eco desses braços nus
35 Resvalando no céu baixo,
Atordoando os meus ouvidos,
Corro cambaleio azoinam
Meu corpo corpos rangentes,
Estalidos de desejos,
40 Beijos, ecos estridentes
De braços nus me chamando,
Eu quero! eu quero... Seus braços
Teus abraços boca pele
seios olhos seios dentes
45 Corro. O eco explode já perto
Muito, perto muito, forte,
Vejo perfume de fome
Muito forte, muito perto,
Agora... Ela me abre os braços
50 Viro a esquina, estendo os braços,
Meus abraços nos espaços,
Rua reta, rua reta,
Rua reta, que deserto!...
Os lampiões bem regulares
55 Com um só olho. São ciclopes.
São eunucos dum harém,
Odalisca, o lampião pisca,
Não tem mais nada ninguém...
O sino cai sobre mim.
60 São três horas já... Percorro
A noite com mal-de-amor...
Pedaços de minha carne
Pelos punhais das esquinas
Vão ficando, vou caminho
65 Sigo... amor... Sei que não morro,
Vou sigo caminho... é tarde...
É mais adiante! Na esquina!...
Já sei que não é... Aquela
Janela sempre acordada,
70 É uma puta me chamando,
Dez milréis, mercadoria,
Alfândega, porto de Santos
Oceano Atlântico, grande
Mar monótono monótono,
75 As ondas que vão e vêm,
Os cadáveres dos naufrágios
Serão jogados na areia...
E há praias muito bonitas
Com palmeiras guaranis...
80 As invenções de Alencar
Ficaram muito inferiores
A esses oásis das praias
Tão verdes, tão verdes, tão,
Tão horrível solidão!...
85 E o mar ondula e desmaia,
Depois me empurra é fatal
O mar me empurra pra areia
Sou atirado na praia
Das palmeiras, minha rua...
90 Minha rua das Palmeiras...
Vou sigo caminho... Longe
Meu quarto... quarto vazio...
Um vago marulhar de ondas
Sai dos meus ouvidos... O eco
95 Morreu. Um marulhar de ondas...
A miragem se dispersa.
Os braços nem chamam mais...
Sangue da aurora... O padeiro
Passou.
100 Última esquina.
Perto
O olho frio do meu quarto...
Nem não tenho carne mais...
Carne mais... Sigo. Caminho...
105 Destroços de ossos batendo...
Triste triste do andarilho
Carregando para o quarto
Os lábios secos. Inúteis...
RECONHECIMENTO DE NÊMESIS
(março de 1926)
Mão morena dele pousa
No meu braço... Estremeci.
Sou eu quando era guri
Esse garoto feioso.
5 Eu era assim mesmo... Eu era
Olhos e cabelos só.
Tão vulgar que fazia dó.
Nenhuma fruta não viera
Madurando temporã.
10 Eu era menino mesmo,
Menino... Cabelos só,
Que à custa de muita escova
E de muita brilhantina,
Me ondulavam na cabeça
15 Que nem sapé na lagoa
Se vem brisando a manhã.
É gente que não compreendo
Os saudosos do passado,
Nem os gratos... Relembrança
20 Porta muito raramente
Nos olhos dos ocupados.
Por isso enxergo sem gosto
A casa da minha infância,
Casão meio espandongado
25 Onde meu pai se acabou.
Só mesmo o que é bem de agora
Possui direito de lágrima,
Sofrer... pois sim, mas lutando
Pela replanta brotando,
30 Sofrer sim, mas porém nunca
Sofrer puxando memória
Pelo café que secou.
No entanto quando sucede
Mais braba a vileza humana
35 Arranhar na minha porta,
Não sei porque o curumim
Que eu já fui, surge e se bota
Assim rentinho de mim.
Será que é um anjo-da-guarda?...
40 Não sei não... Creio que não.
Ele faz que não me enxerga,
Que não me conhece... Mão
Morena sempre pousando
No meu ombro, aluada muito!
45 Até o menino inteirinho
É que nem cousa perdida
E não dá tento de si.
Possui a vida sem vida
Das sombras. É assombração.
50 Remexe por todo o quarto,
Não desloca nenhum traste,
Se vê bem que não faz parte
Do grupo dos meus amigos...
Volta-e-meia vem e pousa
55 No meu braço a mão morena...
É um silêncio atravessando
O corpo manso das cousas.
Eu também se o reconheço
É só porque sofro agreste,
60 E embora grudando a vista
No livro, eu faça de conta
Que não reparo no tal,
Minha alma espia o menino
Enquanto a vista devora
65 Uma sopa de aletria
Feita de letras malucas.
Mas ele não vai-se embora,
E o vulto do curumim,
Sem piedade, me recorda
70 A minha presença em mim.
Só isso. E por causa disso
Não posso fugir de mim!
Não posso ser como os outros!
Riso não pega de enxerto,
75 Ser mau carece raiz...
E confessando que sofro,
Não sei se é pela coragem,
Mas tenho como uma aragem
E fico bem mais feliz.
80 Menino, tu me recordas
A minha presença em mim!
... A primeira vez que veio,
Tive uma alegria enorme,
Gostei de ver que já era
85 Bem mais taludo e mais forte
Que em pequeno e que possuía
Uma alma aquecida pelo
Fogo humano do universo.
Segunda vez me irritou.
90 Fui covarde, fui perverso,
Peguei no tal, lhe ensinei
A indecente dança-do-ombro.
Não quis saber, foi-se embora.
E quando não o vi mais,
95 Sozinho, me arrependi.
A terceira vez é agora
E eu... não sei... não gosto dele
Mas não quero que o rapaz
Me deixe sozinho aqui.
100 Não danço mais dança-do-ombro!
Eu reconheço que sofro!
Ah! malvadeza brutaça
Dos indivíduos humanos,
Dos humanos desta praça!
105 Ah! homens filhos-da-puta,
Gente bem ruim, bem odiando,
Homens bem homens, grandiosos
Na sua inveja acordada!
Grandiosos na força bruta,
110 Na estupidez desvelada!
Que heroísmo sem inocência,
O do sujeito esquecendo
Do remorso e da consciência!
Ôh! força reta, bem homem,
115 De ser talqualmente os mares,
E os movimentos do mundo!
Perversidades solares
Da magrém! ser matapau!
Sucuri, raio, minuano!
120 Forçura destes humanos,
Iguais na perversidade,
Iguais na imbecilidade,
Na calúnia, iguais no ciúme!...
Conscientemente implacáveis!
125 Imperiais no riso mau!...
Ota, cabra demográfico,
Jornaleiro do azedume,
Secreção de baço podre,
Alma em que a sífilis deu!
130 Burrice gorda, indiscreta,
Veneranda... Homo imbecilis,
Invejado pelo poeta...
Viva piolho-de-galinha!
Êh! homem, bosta de Deus!
135 Menino, sai! Eu te odeio,
Menino assombrado, feio,
Menino de mim, menino,
Menino trelento, que enches
Com teus silêncios puríssimos
140 A bulha dos meus desejos,
Que nem a calma da tarde
Vence a bulha da cidade...
Menino mau, que me impedes
De entrar também pro recheio
145 Das estatísticas... sai!
Menino vago, sem nome,
Que me embebes inteirinho
Nesta amargura visguenta
Pelos homens! pelos homens!...
150 Puxa! rapazes, minha alma,
Comprida que não se acaba,
Está negra tal-e-qual
Fruta seca de goiaba!
Meus olhos tão gostadores
155 Nem têm mais gosto de olhar![353]
E pela primeira vez
O murmurejo natal
Desta vida está sem graça,
E eu só desejo uma calma
160 Que apagasse até meus ais!
Tudo amarga porque os homens
Me amargaram por demais!
Uma tristeza profunda,
Uma fadiga profunda,
165 E até, miseravelmente,
O projeto inconfessável
De parar...
Menino, sai!
Você é o estranho periódico
170 Que me separa do ritmo
Unânime desta vida...
E o que é pior, você relembra
Em mim o que geralmente
Se acaba ao primeiro sopro:
175 Você renova a presença
De mim em mim mesmo... E eu sofro.
É tarde. Vamos dormir.
Amanhã escrevo o artigo,
Respondo cartas, almoço,
180 Depois tomo o bonde e sigo
Para o trabalho... Depois...
Depois o mesmo... Depois,
Enquanto fora os malévolos
Se preocupam com ele,
185 Vorazes feito caprinos,
Nesta rua Lopes Chaves
Terá um homem concertando
As cruzes do seu destino.
MÃE[354]
(1926)
Existirem mães,
Isso é um caso sério.
Afirmam que a mãe
Atrapalha tudo,
5 É fato, ela prende[355]
Os erros da gente,
E era bem melhor
Não existir mãe.
Mas em todo caso
10 Quando a vida está
Mais dura, mais vida,
Ninguém como a mãe
Pra aguentar a gente
Escondendo a cara
15 Entre os joelhos dela.
– O que você tem?...
Ela bem que sabe
Porém a pergunta
É pra disfarçar.
20 Você mente muito,
Ela faz que aceita,
E a desgraça vira
Mistério pra dois.
Não vê que uma amante
25 Nem outra mulher
Entende a verdade
Que a gente confessa
Por trás das mentiras!
Só mesmo uma mãe...
30 Só mesmo essa dona
Que a-pesar-de ter
A cara raivosa[356]
Do filho entre os seios,
Marcando-lhe a carne,
35 Sentindo-lhe os cheiros,
Permanece virgem,
E o filho também...
Ôh virgens, perdei-vos,
Pra terdes direito
40 A essa virgindade[357]
Que só as mães têm![358]
LUNDU DO ESCRITOR DIFÍCIL
(1928)
Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
5 É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.
Cortina de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
10 Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.
Misturo tudo num saco,
15 Mas gaúcho maranhense
Que para no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
20 Bobo é quem não é tatu!
Eu sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!...
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
25 Bagé, pixé, chué, ôh “xavié”,
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!
Virtude de urubutinga
De enxergar tudo de longe!
30 Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu cassange!
Você sabe o francês “singe”
Mas não sabe o que é guariba?
– Pois é macaco, seu mano,
35 Que só sabe o que é da estranja.
MELODIA MOURA[359]
(1928)
Quando as casas baixarem de preço
Lá na cidade, Laura Moura,
Uma delas será sua sem favor.
Será num bairro bem central,
5 Pra que o nosso mistério engane mais.
Quando as casas baixarem de preço,
Você há-de ter a vossa, Laura Moura,
Lá na cidade em que trabalho...
Há-de ser bom, pousando o rosto em vosso colo,
10 Me entediar feito um dono,[360]
Mal escutando as mágoas de você.
Laura Moura viverá bem sossegada,
Me servindo,
Toda puxada pelo Piauí.
15 Num longing quase bom,
Comendo alimentos comprados,
Laura Moura falará de Teresina
E das boiadas e dos boiadeiros
E da polvadeira seca do Piauí.
20 Quando as casas baixarem de preço,
Laura Moura, prenda minha,
Uma delas será sua sem favor.
Lá fora a bulha da cidade[361]
Disfarçará nosso prazer...
25 E a gente, numa rede maranhense,
Ao som dum jazz bem blue,[362]
Balancearemos no calor da noite,
Sonhando com o sertão.
MOMENTO[363]
(1929)
O mundo que se inunda claro em vultos roxos[364]
No caos profundo em que a tristura
Tange mansinho os ventos aos molambos.[365]
A gente escapa da vontade.
5 Se sente prazeres futuros,
Chegar em casa,
Reconhecer-se em naturezas-mortas...
Ôh, que pra lá da serra caxingam os dinossauros!
Em breve a noite abrirá os corpos,
10 As embaúbas vão se refazer...[366]
A gente escapa da vontade.
Os seres mancham apenas a luz dos olhares,
Se sobrevoam feito músicas escuras.
E a vida, como viola desonesta,
15 Viola a morte do ardor, e se dedilha...
Fraca.
TOADA[367]
(1932)
No outro lado da cidade,
Não sei o quê, foi o vento,
O vento me dispersou.
Viajei por terras estranhas
5 Entre flores espantosas,
Tive coragem pra tudo
No outro lado da cidade,
Sem tomar cuidado em mim.
Passeava com tais perícias,
10 Punha girafas na esquina,
Quantos milagres na viagem,
Meu coração de ninguém!
E pude estar sem perigo
Por entre aconchegos pagos,
15 Em que o carinho mais velho
Inda guardava agressão.
Busquei São Paulo no mapa,
Mas tudo, com cara nova,
Duma tristeza de viagem,
20 Tirava fotografia...
E o meu cigarro na tarde
Brilhava só, que nem Deus.
Fiquei tão pobre, tão triste
Que até meu olhar fechou.[368]
25 No outro lado da cidade
O vento me dispersou.
Grã cão do outubro
I
VINTE E NOVE BICHOS
(outubro de 1933)
No meu enorme corpo fatigado,
Todo mole com as almofadas,
Você se aninha sem beijar.
Estou sem forças feito um caos.
5 Você é uma via-látea errante
Que não desejo mais valorizar.
Paz. A falsa paz vacila disponível
Enquanto à sombra da cheia fruteira
Os bichos se alimentam sem cessar.
10 Um desespero me arde, eu te repilo.
É a arraiada que vem, é o sol imundo
Que vai mostrar a bicharada
Aos emboléus, vinda do caos.
II
OS GATOS
(A)
(14 de outubro de 1933)
Que beijos que eu dava...
Não tigre, vossa boca é mesmo que um gato
Imitando tigre.
Boca rajada, boca rasgada de listas,
5 De preto, de branco,
Boca hitlerista,
Vossa boca é mesmo que um gato.
Nas paredes da noite estão os gatos.
Têm garras, têm enormes perigos
10 De exércitos disfarçados,
Milhares de gatos escondidos por detrás da noite incerta.
Irão estourar por aí de repente,
Já estão com mil rabos além de São Paulo,
Nem sei mais se são as fábricas que miam
15 Na tarde desesperada.
Penso que vai chover sobre os amores dos gatos.
Fugirão?... e só eu no deserto das ruas,
Oh incendiária dos meus aléns sonoros,
Irei buscando a vossa boca,
20 Vossa boca hitlerista,
Vossa boca mais nítida que o amor,
Ai, que beijos que eu dava...
Guardados na chuva...
Boiando nas enxurradas
25 Nosso corpo de amor...
Que beijos, que beijos que eu dou!
Vamos enrolados pelas enxurradas
Em que boiam corpos, em que boiam os mortos,
Em que vão putrefatos milhares de gatos...
30 Das casas cai mentira,
Nós vamos com as enxurradas,
Com a perfeita inocência dos fenômenos da terra,
Voluptuosamente mortos,
Os sem ciência mais nenhuma de que a vida
35 Está horrenda, querendo ser, erguendo os rabos
Por trás da noite, em companhia dos milhões de gatos verdes.
(B)
(15 de outubro de 1933)

Me pus amando os gatos loucamente,
Ôh China!
Mas agora porém não são gatos tedescos,
40 Tudo está calmo em plena liberdade,
Se foram as volúpias e as perversões tão azedas,
Eu sou cravo, tu és rosa,
Tu és minha rosa sincera,
És odorante, és brasileira à vontade,
45 Feito um prazer que chega todo dia.
Mas eu te cresço em meu desejo,
Ai, que vivo arrasado de notícias!
Murmurando com medo ao teu ouvido:
Ôh China! ôh minha China!...
50 Tu te gastas sob o meu peso bom,
Teus lábios estão alastrados na abertura do reconhecimento,
Teus olhos me olham, me procuram todo...
Mas eu insisto em meu castigo, ôh China.
Como um gato chinês criado através de séculos de posse e de aproveitamentos,
55 Para meu gozo só, pra meu enfeite só de mim,
Pra mim, pra mim, tu foste feita, ôh China!
Estou te saboreando, és gato china que apanhei vagamundo na rua,
Ôh China! ôh minha triste China,
Estarei pesando, te fazendo pesar sem motivo,
60 Estou... estava, ôh minha triste sina,
Até que fui guardar nos teus cabelos perdidos
Lágrima que não pude sem chorar.
III
ESTÂNCIAS
(15 de outubro de 1933)

(A)
No caminho da cidade,
Oh vós, homens que andais pelo caminho,
Olhai-me, cercai-me todos, abraçai-me,
Abraçai-me de amor e de amigo, na meiga carícia indecisa,
5 Cegos, mudos, viris, na imperfeição irremediável!
(B)
No caminho da cidade
Meus olhos se rasgam na volúpia de amor,
Torres, chaminés perto, notícias, milhões de notícias,
Dor... Este profundo mal de amar indestinado,
10 Como a primavera que fareja a cidade através do sol frio.
(C)
No caminho da cidade
Que estranha ressonância, frautas, membis, andorinhas,
Tudo alargou, tudo está ereto de repente,
Minhas mãos penetram no ar reconhecidas,
15 Desfaleço, meus olhos se turvam, me encosto.



(D)
No caminho da cidade
Mas não posso esquecer!
Ôh meu amor, este grito avançando através das idades...
Me beija! me sufoca nos teus braços!
20 Que eu só desejo ser vencido logo
Para te perfurar com a cadência do dia e da noite
E sermos anulados numa paz sem colisão...
IV
POEMA TRIDENTE
(outubro de 1933)
Vosso corpo seria encontrado nos desertos.
Sois tão linda... você é a Lei!
Você é tão mal contrária a essas mil leis humanas
Que avançam cegas insensíveis sobre o horror...
5 Você é tal-e-qual, bem polida,
Sem erros, cadencial.
Ôh besta fera maldita,
Você é mas é um braço esfomeado terminando em faísca de gládio,
Caindo aqui, varrendo além,
10 Voando, cego braço, aterrissando no meio das turbas,
Matando gente, depredando gente, inventando orfanatos,
Bandos de caravanas de leprosos,
Exílios pra judeus, pra paulistas, pra estudantada cubana,
Eu te amo de um amor educado no inferno!
15 Te mordo no peito até o sangue escorrer
Me dando socos, chorando, chamando de bruto, de cão,
O Grã Cão é o Mildiabo educado sozinho no inferno!
Nos debatemos, o braço esfomeado braceja,
Golpeia aqui, matou centenas de operários,
20 Queima cafezais, trigais, canaviais, desocupados,
Quebra os museus grandiosos,
Usa a lei de fugir pra estudantada cubana.
E no esforço sobrosso colhendo com o gládio o subsolo da Europa,
Abaixo os tiranos! abaixo Afonso XIII!
25 O mar fez maremoto, e convulsivos
Nos odiando no mesmo abraço confundidos,
Eleitos, desesperados na febre de amar,
Jorramos em lucilações fantásticas tremendas,
Todo o nosso ardor vai se esgotar na seiva!
30 Você é lindíssima! É polida e cadencial feito uma lei!
Mas eu sou o Grã Cão que te marquei um bocado com o crime dos mundos!
E agora nem de perdão carecemos
No mesmo abraço desaparecidos.
V
DOR[369]
(15 de outubro de 1933)

A cidade está mais agitada a meidia.
As ruas devastam minha virgindade
E os cidadãos talvez marquem encontro nos meus lábios.
Minha boca é o peixe macho e derramo núcleos de amor pelas ruas.
5 Que irão fecundar os ovários da vida algum dia.
Eu venho das altas torres, venho dos matos alagados,
Com meus passos conduzidos pelo fogo do Grã Cão![370]
Mas pra viver na cidade de São Paulo escondi na corrente de prata
A inútil semente do milho, a maniva,
10 E enroupei de acerba seda o arlequinal do meu dizer...[371]
E agora apontai-me, janelas do Martinelli,
Calçadas, ruas, ruas, ladeiras rodantes, viadutos,[372]
Onde estão os judeus de consciência lívida?
Os tortuosos japoneses que flertam São Paulo?
15 Os ágeis brasileiros do Nordeste? os coloridos?
Onde estão os coloridos italianos? onde estão os turcomanos?[373]
Onde estão os pardais, madame la Françoise,
Ergo, ego, Ega, égua, água, iota, calúnia e notícias,[374]
Balouçantes nas marquesas dos roxos arranha-céus?...
20 Não vos trago a fala de Jesus nem o escudo de Aquiles,
Nem a casinha pequenina ou a sombra do jatobá.
Tudo escondi no caminho da corrente de prata.
Mas eu venho das altas torres trazido ao facho do Grã Cão,[375]
Lábios, lábios para o encontro em que cantareis fatalmente,[376]
25 Ameaçados pela fome que espia detrás da coxilha,
A dor, a caprichosa dor desocupada que desde milhões de existências
Busca a razão de ser.
QUARENTA ANOS[377]
(27 de dezembro de 1933)
A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo[378]
Só pode ser medido em se sofrendo.
5 Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar... Eu ouso[379]
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei.[380]Foi meu pecado... Horrendo
Seria, agora que a velhice avança,
10 Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.
Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!... Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.
MOMENTO[381]
(abril de 1937)
O vento corta os seres pelo meio.[382]
Só um desejo de nitidez ampara o mundo...
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.[383]
5 Ninguém chega a ser um nesta cidade,
As pombas se agarram nos arranha-céus, faz chuva.
Faz frio. E faz angústia... É este vento violento
Que arrebenta dos grotões da terra humana[384]
Exigindo céu, paz e alguma primavera.
BRASÃO
(10 de dezembro de 1937)
Vem a estrela dos treze bicos,
Brasil, Coimbra, Guiné, Catalunha,
E mais a Bruges inimaginável
E a decadência dos Almeidas.
5 E sobre a estrela dos treze bicos
Pesa um coração mole
De prata coticada trezemente,
Em cujo campo há-de inscrever-se
“Eu sou aquele que veio do imenso rio”.
10 E sobre o campo do meu coração,
Todo em zarcão ardendo,
Há em ouro a arca de Noé com vinte-e-nove bichos blau,
E a jurema esfolhando as folhas derradeiras
Sobre Mestre Carlos, o meu grande sinal.
15 E a seguir a trombeta, essa trombeta
Insiste pela Catalunha,
Mas desta vez eu que escolhi!
Ôh, meus amigos,
Perdão pelos séculos pesados de cicatrizes infinitas,
20 Perdão por todas as sabedorias,
Pela esfera armilar das conquistas insanas!
Essa trombeta eu que escolhi, toda de prata,
Com treze línguas de fogo na assustadora boca,
E a inscrição “Que-dele eles?”,
25 Eles, os bandeirantes...
E falta o boi Paciência, o boi que pertence a Armida.
Traz por guampas os cornos da luna
E um peitoral de turmalinas.
Mas esse vem no outro coração mole,
30 Não se mostra a ninguém.
O boi Paciência serão treze preguiças assustadas,
No porto do imenso rio esperando,
Esperando pelos treze caminhos
Das mil cavernas das quarentas mil perguntas.
35 Ai, que eu vou me calar agora,
Não posso, não posso mais!
SONETO[385]
(dezembro de 1937)
Aceitarás o amor como eu o encaro?...
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente[386]
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
5 Tudo o que há-de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,[387]
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.
Não exijas mais nada. Não desejo
10 Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
Que grandeza... A evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.
AS CANTADAS[388]
(Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1938)
Terras bruscas, céus maduros,
Apalpam curvas os autos,
Ai, Guanabara,
Serão desejos incautos,
5 Ancas pandas, seios duros...
Senti as curvas dos autos
Nas praias de Guanabara.
Penetro as fendas dos morros,
Desafogos de amor, jorros
10 De sensualidades quentes,
Ai, ares de Guanabara,
Sou jogado em praias largas,
Coxas satisfeitas feitas
De ondas amargas.
15 Não posso mais... Nunca ousara
Pensar cajás, explosões
De melões,
Mulatas, uvas pisadas,
Ai, Guanabara,
20 Tuas noites fatigadas...
Me derramo todo em sucos
Malucos de ilhas Molucas.
Manhã. Brisas intranquilas
De volúpias mal ousadas
25 Passam por ti,
Num gosto naval de adeuses...
Há deusas...
Há Vênus, há Domitilas
Fazendo guanabaradas
30 Por aí...
Mas as palmeiras resistem.
Na deformação dos raios,
Templos, gentes, esperanças
Em desmaios
35 E transposições de níveis...
Só as palmeiras resistem
Como consciências incríveis!
As noites não são bem noites,
As músicas são cansaços,
40 Açoites
De convites, bocas, mar,
Ai, ares de Guanabara,
Vou suspirar...
Meus olhos, minhas sevícias,
45 Minha alma sem resistências,
A Guanabara te entregas
Sem Deus, sem teorias poéticas...
Os aviões saltam dos trilhos,
Perfuram morros, ardências,
50 Delícias, vícios, notícias...
Aiai, Guanabara!
Que todo me desfaleço
Por cento e dez avenidas,
Pela mulher de em seguida,
55 Por teus cheiros, por teus sais,
Pelos aquedutos, pelos
Morros de crespos camelos
E elefantes triunfais!
Eu não sei se mais gozara,
60 Iaiá, Sereia do Mar,
Se achara n’alma outra clara
Glória rara sol luar
Aurora uiara
Niágara realeza[389]
65 Suprema, eterna surpresa,
Guanabara!...
LUAR DO RIO[390]
(Rio de Janeiro, dezembro de 1938)
Olha o balão subindo!
Mas quem foi o louco varrido
Que em novembro se lembrou de o soltar!
– É o luar, é o luar!
5 E as casas! olha os arranha-céus,
Parece que estão se movendo,
Com tantas janelas a chamar?...[391]
E este céu cor-de-cinza,
E este mar cor-de-prata,
10 E o Cristo do Corcovado!
Olha! parece um palhaço,
Parece um filósofo, parece até Cristo mesmo
Erguido no altar?...[392]
E estas minhas mãos inquietas,[393]
15 E o vento alcoolizado,
E as carícias das ilhas...
E as narinas cheirando ofegantes,
E essa vela das praias do norte,
E um desejo de falar besteira,
20 De dançar por aí feito maluco,
Esquecido de amar?...[394]
– É o luar, é o luar!
É o luar que inventa novas árvores e morros,[395]
Vence as luzes da enorme cidade,
25 Vence a noite, vence os homens,
Vence as tristezas e os mandos do mundo...[396]
Não acredita não, José Correia,
Que vais te perder, e esquecer, feito estátua,[397]
A imensa dor multissecular.
CANÇÃO[398]
(Rio de Janeiro, 22 de dezembro de 1940)
... de árvores indevassáveis
De alma escusa sem pássaros
Sem fonte matutina
Chão tramado de saudades
5 À eterna espera da brisa,
Sem carinhos... como me alegrarei?
Na solidão solitude,
Na solidão entrei.
Era uma esperança alada,
10 Não foi hoje mas será amanhã,
Há-de ter algum caminho
Raio de sol promessa olhar
As noites graves do amor
O luar a aurora o amor... que sei!
15 Na solidão solitude,
Na solidão entrei,
Na solidão perdi-me...
O agouro chegou. Estoura
No coração devastado
20 O riso da mãe-da-lua,
Não tive um dia! uma ilusão não tive!
Ternuras que não me viestes
Beijos que não me esperastes
Ombros de amigos fiéis
25 Nem uma flor apanhei.
Na solidão solitude,
Na solidão entrei,
Na solidão perdi-me,
Nunca me alegrarei.
Livro azul
LIVRO AZUL



RITO DO IRMÃO PEQUENO
(1931)

a Manuel Bandeira[399]

I
Meu irmão é tão bonito como o pássaro amarelo,[400]
Ele acaba de nascer do escuro da noite vasta!
Meu irmão é tão bonito como o pássaro amarelo,
Eu sou feito um ladrão roubado pelo roubo que leva,
5 Neste anseio de fechar o sorriso da boca nascida...
Gentes, não creiam não que em meu canto haja sequer um reflexo de vida!
Ôh não! antes será talvez uma queixa de espírito sábio,
Aspiração do fruto mais perfeito,
Ou talvez um derradeiro refúgio para minha alma humilhada...
10 Me deixem num canto apenas, que seja este canto somente,
Suspirar pela vida que nasceria apenas do meu ser!
Porque meu irmão pequeno é tão bonito como o pássaro amarelo,
E eu quisera dar pra ele o sabor do meu próprio destino
A projeção de mim, a essência duma intimidade incorruptível!...
II[401]
15 Vamos caçar cotia, irmão pequeno,
Que teremos boas horas sem razão,
Já o vento soluçou na arapuca do mato
E o arco-da-velha já engoliu as virgens.
Não falarei uma palavra e você estará mudo,
20 Enxergando na ceva a Europa trabalhar;
E o silêncio que traz a malícia do mato,
Completará o folhiço, erguendo as abusões.
E quando a fadiga enfim nos livrar da aventura,
Irmão pequeno, estaremos tão simples, tão primários,
25 Que os nossos pensamentos serão vastos,
Graves e naturais feito o rolar das águas.
III
Irmão pequeno, sua alma está adejando no seu corpo,
E imagino nas borboletas que são efêmeras e ativas...
Não é assim que você colherá o silêncio do enorme sol branco,
30 O ferrão dos carapanãs arde em você reflexos que me entristecem.
Assim você preferirá visagens, o progresso...
Você não terá paz, você não será indiferente,
Nem será religioso, você... ôh você, irmão pequeno,
Vai atingir o telefone, os gestos dos aviões,
35 O norte-americano, o inglês, o arranha-céu!...
Venha comigo. Por detrás das árvores, sobrado dos igapós,
Tem um laguinho fundo onde nem medra o grito do cacauê...
Junto à tocaia espinhenta das largas vitórias-régias,
Boiam os paus imóveis, alcatifados de musgo úmido, com calor...
40 Matemos a hora que assim mataremos a terra e com ela
Estas sombras de sumaúmas e violentos baobás,
Monstros que não são daqui e irão se arretirando.
Matemos a hora que assim mataremos as sombras sinistras,
Esta ambição de morte, que nos puxa, que nos chupa,
45 Guia da noite,
Guiando a noite que canta de uiara no fundo do rio.
IV
Deixa pousar sobre nós dois, irmão pequeno,
A sonolência desses enormes passados;
E mal se abra o descuido ao rolar das imagens,
50 A chuva há-de cair, auxiliando as enchentes.
Sob a jaqueira no barranco ao pé da sombra
As pedras e as raízes sossegadas apodrecem.
Havemos de escutar o som da fruta caindo n’água,
E perceber em toda essa fraca indigência,
55 A luminosa vaga imperecível lentidão.
V

Há o sarcástico predomínio das matérias
Com seu enorme silêncio sufocando os espíritos do ar...
Será preciso contemplá-las, e a paciência,
Irmão pequeno, é que entreabre as melhores visões.
60 Nos dias em que o sol exorbita esse branco
Que enche as almas e reflete branqueando a solidão da ipueira,
Havemos de sacrificar os bois pesados.
O sangue lerdo escorre das marombas sobre a água do rio,
E catadupa reacendido o crime das piranhas.
65 Só isso deixará da gente o mundo tão longínquo...
As nossas almas se afastam escutando o segredo parvo,
E o branco penetra em nós que nem a inexistência incomparável.
VI
Chora, irmão pequeno, chora,
Porque chegou o momento da dor.
70 A própria dor é uma felicidade...
Escuta as árvores fazendo a tempestade berrar.
Valoriza contigo bem estes instantes
Em que a dor, o sofrimento, feito vento,
São consequências perfeitas
75 Das nossas razões verdes,
Da exatidão misteriosíssima do ser.
Chora, irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também cumprir o seu próprio destino:
80 É chegar àquela coincidência vegetal
Em que as árvores fazem a tempestade berrar,
Como elementos da criação, exatamente.
VII
O acesso já passou. Nada trepida mais e uma acuidade gratuita
Cria preguiças nos galhos, com suas cópulas lentíssimas.
85 Volúpia de ser a blasfêmia contra as felicidades parvas do homem...
São deuses...
Mas nós blefamos esses deuses desejosos de futuro,
Nós blefamos a punição europeia dos pecados originais.
Ouça. Por sobre o mato, encrespado nas curvas da terra,
90 Por aí tudo, o calor anda em largado silêncio,
Ruminando o murmulho do rio, como um frouxo cujubim.
Na vossa leve boca o suspiro gerou uma abelha.
É o momento, surripiando mel pras colmeias da noite incerta.


VIII
O asilo é em pleno mato, cercado de troncos negros
95 Em que a água deixa um ólio eterno e um som,
Só uma picada fere a terra e leva ao porto,
Onde entre moscas jaz uma pele de uiara a secar.
As maqueiras se abanam com lerdeza,
Enquanto à voz do cotcho uma toada se esvai.
100 Ela foi embora e nós ficamos. Não há nada.
Nem a inquieta visão dessa curiosidade que se foi.
IX
A cabeça desliza com doçura,
E nas pálpebras entrecerradas
Vaga uma complacência extraordinária.
105 É pleno dia. O ar cheira a passarinho.
O lábio se dissolve em açúcares breves,
O zumbido da mosca embalança de sol.
... Assurbanipal...
A alma, à vontade,
110 Se esgueira entre as bulhas gratuitas,
Deixa a felicidade ronronar.
Vamos, irmão pequeno, entre palavras e deuses,
Exercer a preguiça, com vagar.
X
A enchente que cava margem,
115 Roubou os barcos do porto,
A água brota em nosso joelho
Delícias de solidão.
Trepados na castanheira
Viveremos sossegados
120 Enquanto a terra for mar;
Pauí-Pódole virá
Nas horas de Deus trazer
A estrela, a umidade, o aipim.
E quando a terra for terra,
125 Só nós dois, e mais ninguém,
De mim nascerão os brancos,
De você, a escuridão.
GIRASSOL DA MADRUGADA
(1931)

a R. G.[402]

I
De uma cantante alegria onde riem-se as alvas uiaras
Te olho como se deve olhar, contemplação,
E a lâmina que a luz tauxia de indolências
É toda um esplendor de ti, riso escolhido no céu.
5 Assim. Que jamais um pudor te humanize. É feliz
Deixar que o meu olhar te conceda o que é teu,
Carne que é flor de girassol! sombra de anil!
Eu encontro em mim mesmo uma espécie de abril
Em que se espalha o teu sinal, suave, perpetuamente.
II
10 Diga ao menos que nem você quer mais desses gestos traiçoeiros
Em que o amor se compõe feito uma luta;
Isso trará mais paz, porquanto o caminho foi longo,
Abrindo o nosso passo através dos espelhos maduros.
Você não diz, porém o vosso corpo está delindo no ar,
15 Você apenas esconde os olhos no meu braço e encontra a paz na escuridão..
A noite se esvai lá fora serena sobre os telhados,
Enquanto o nosso par aguarda, soleníssimo,
Radiando luz, nesse esplendor dos que não sabem mais pra onde ir.
III
Se o teu perfil é puríssimo, se os teus lábios
20 São crianças que se esvaecem no leite,
Se é pueril o teu olhar que não reflete por detrás,
Se te inclinas e a sombra caminha na direção do futuro:
Eu sei que tu sabes o que eu nem sei se tu sabes,
Em ti se resume a perversa e imaculada correria dos fatos,
25 És grande por demais para que sejas só felicidade!
És tudo o que eu aceito que me sejas
Só pra que o sono passe, e me acordares
Com a aurora incalculavelmente mansa do sorriso.
IV
Não abandonarei jamais de-noite as tuas carícias,
30 De-dia não seremos nada e as ambições convulsivas
Nos turbilhonarão com as malícias da poeira
Em que o sol chapeará torvelins uniformes.
E voltarei sempre de-noite às tuas carícias,
E serão búzios e bumbas e tripúdios invisíveis
35 Porque a Divindade muito naturalmente virá.
Agressiva Ela virá sentar em nosso teto,
E seus monstruosos pés pesarão sobre nossas cabeças,
De-noite, sobre nossas cabeças inutilizadas pelo amor.
V
Teu dedo curioso me segue lento no rosto
40 Os sulcos, as sombras machucadas por onde a vida passou.
Que silêncio, prenda minha... Que desvio triunfal da verdade,
Que círculos vagarosos na lagoa em que uma asa gratuita roçou...
Tive quatro amores eternos...
O primeiro era a moça donzela,
45 O segundo... eclipse, boi que fala, cataclisma,
O terceiro era a rica senhora,
O quarto és tu... E eu afinal me repousei dos meus cuidados.
VI
Os trens-de-ferro estão longe, as florestas e as bonitas cidades,
Não há senão Narciso entre nós dois, lagoa,
50 Já se perdeu saciado o desperdício das uiaras,
Há só meu êxtase pousando devagar sobre você.
Ôh que pureza sem impaciência nos calma
Numa fragrância imaterial, enquanto os dois corpos se agradam,
Impossíveis que nem a morte e os bons princípios.
55 Que silêncio caiu sobre a vossa paisagem de excesso dourado!
Nem beijo, nem brisa... Só, no antro da noite, a insônia apaixonada
Em que a paz interior brinca de ser tristeza.

VII
A noite se esvai lá fora serena sobre os telhados
Num vago rumor confuso de mar e asas espalmadas,
60 Eu, debruçado sobre vossa perfeição, num cessar ardentíssimo,
Agora pouso, agora vou beber vosso olhar estagnado, ôh minha lagoa!
Eis que ciumenta noção de tempo, tropeçando em maracás,
Assusta guarás, colhereiras e briga com os arlequins,
Vem chegando a manhã. Porém, mais compacta que a morte,
65 Para nós é a sonolenta noite que nasce detrás das carícias esparsas.
Flor! flor!...
Graça dourada!...
Flor...
O GRIFO DA MORTE
(1933)

a Lúcio Rangel[403]

I
Milhões de rosas
Para esta grave
Melancolia,
Milhões de rosas,
5 Milhões de castigos...
Milhões de castigos,
Imperfeita grávida,
Quem foi? foi o vento
Que fez-te imperfeita,
10 Milhões de aratacas!
A toca fendeu
Para esta grave
Melancolia,
Milhões de castigos,
15 Milhões de aratacas...
Salta o bicho roxo.
Depois ficou ruim,
Depois ficou roxo,
Depois ficou ruim,
20 Depois ficou roxo,
Ruim-roxo, ruim-roxo,
Milhões de bandeiras!
Os camisas pretas,
Os camisas pardas,
25 Os camisas roxas,
Ruim-roxo, ruim-roxo,
Milhões de bandeiras!
Milhões de castigos!
Quem foi? foi a rosa
30 Dos ventos da amarga
Desesperança...
Ei-vem a morte
– ruim-roxo... –
Consoladora...
35 Milhões de rosas,
Milhões de castigos...
II
Retorno sempre
A cada volta do caminho
À lagoa imóvel.
40 Superfície juncada
De mãos-postas negras
Que afundam sempre.
Meus olhos são moscas,
Única vida grave
45 Esparsa no silêncio.
O silêncio avança
Que nem um navio,
Não penso, estremeço.
Tremor sem razão
50 Que termina em meio
Nem bem principia.
A boca desdenha
As palavras ásperas,
Evitando a vida.
55 Mas... dor, periquito,
Novamente rufa
Da serrapilheira,
Sobe no alto no alto,
Vai dormir nas casas
60 Além da floresta.
III
Mocidade parva,
Dor sem pensamento,
Ôh cálido futuro
De brilho estonteante,
65 Fechando o presente
No punho cerrado
Com as unhas aduncas,
Ferindo a munheca
De onde o sangue escorre
70 Gravando o caminho
Com rasto facílimo
Em que a fera acode.
Lá no rombo escuso
Te pega nas garras,
75 Explode o suspiro.
Escurece aos poucos
Teu corpo auroral.
IV
Quando o rio Madeira
Fica inavegável,
80 A corredeira clara
Junto ao trem-de-ferro
Vai rasa entre as pedras
Da margem deserta,
Suspensa no charco
85 Imenso da morte.
A claridade vasta
Guasca Mato Grosso,
Filtrada da nuvem
Que de tão exausta
90 Se apoia na crista
De espuma do rio.
O calor mais branco
Esturrica as pedras
E tange o Grão Chaco
95 Pros altos dos Andes,
Onde as almas planam
Sem fecundidade,
Na terra sem mal,
Sem fecundidade.
V
100 Silêncio monótono,
Calma serenata
Na monotonia,
A alma sem tristeza
Pouco a pouco vai
105 Desabrochando
O instante do lago.
Morte, benfeitora morte,
Eu vos proclamo
Benfeitora, ôh morte!
110 Benfeitora morte!
Morte, morte...
Se escuta no fundo
A sombra das águas
– calma serenata... –
115 Se depositando
Para nunca mais.
O carro da miséria
O CARRO DA MISÉRIA[404]
(24 de dezembro de 1930 | 11 de outubro de 1932 | 26 de dezembro de 1943)



a Carlos Lacerda[405]
I
O que que vêm fazer pelos meus olhos tantos barcos
Lenços rompendo adeuses presentinhos
Charangas na terra-roxa das estações um grito
Um grito não um gruto
5 Que me faz esquecer a miséria do mundo pão pão...
O que que vem fazer na minha boca um beijo
A mulher da Bolívia agarrando
Um penacho de viúvas restritas
Restritas não restrutas
10 Que o papagallo repassa e põe na vida...
Ah... caminhos caminhos caminhos errados de séculos...
Me sinto o Pai Tietê. Dos meus sovacos
Saem fantasmas bonitões pelos caminhos
Penetrando o esplendor falso da América.
15 Dei-vos minas de ouro vós me dais mineiros!
Glória a Cícero nas vendinhas alterosas
Com a penugem dos pensamentos sutis
Feito ninho de guaxe
O passado atrapalha os meus caminhos
20 Não sou daqui venho de outros destinos
Não sou mais eu nunca fui eu decerto
Aos pedaços me vim – eu caio! – aos pedaços disperso
Projetado em vitrais nos joelhos nas caiçaras
Nos Pireneus em pororoca prodigiosa
25 Rompe a consciência nítida: EU TUDOAMO.
Ora vengan los zabumbas
Tudoamarei! Morena eu te tudoamo!
Destino pulha alma que bem cantaste
Maxixa agora samba o coco
30 E te enlambuza na miséria nacionar.
II
Meu baralho dois ouros
Eu não quero mais jogar
Meu baralho dois ouros
Eu não quero mais jogar.
35 E diz o prinspo
Sangue-azul louro perneta
Ontem me deu na veneta
Fui na venda pra jogar
Joguei no sangue
40 Companheiro de aventura
Mas o sangue se depura
Está na moda depurar.
Meu baralho dois ouros
Eu não quero mais jogar.
45 E diz o sangue
Rebolando a raça fina
Tintinabulem tintinas
Que eu vou jogar no ariano
Mai’ não me assustem
50 Que num mês viro paulista
Ganho bem suspendo a crista
E tenho quatrocentos anos.
Meu baralho dois ouros
Eu não quero mais jogar.
55 Diz o ariano
Deixe de parte seu mano
Você fede a veterano
Da rabolução de julho
Tava danado
60 Com a sonhança desses pestes
Que juguei no Júlio Prestes
Mas quem deu foi o Getúlio.
Meu baralho dois ouros
Eu não quero mais jogar.
65 E diz o Júlio
Sou o mês nublado e frio
Que lava a bunda no rio
E economiza sabão
Fui trapaceado
70 Tanto heroísmo tanto estralo
Que arrisquei tudo em São Paulo
Mas quem deu foi a treição.
Meu baralho dois ouros
Eu não quero mais jogar.
75 Diz a treição
Navegando na água turva
Vá pela sombra e na curva
Apite que nem buzina
E foi-se embora
80 Tão elegante e gentil
Que joguei no meu Brasil
Mas quem deu foi a Argentina!
Ai meu baralho dois ouros
Eu não quero nunca mais jogar!
85 Vou seguindo no cortejo
E vira o coco Sinhá!
III
Pica-Fumo Rompe-Rasga
João Jaffet e mariposa
Olê banqueiro da esquina
90 Acende a vela da esposa
Pica-Fumo funga um choro
Rompe-Rasga masca a coisa
João Jaffet sou da imoralidade
Olê banqueiro da esquina
95 O que não sabe imagina
João Jaffet da nossa cama
Deu um prisco e disse adeus
Mas o banqueiro crê em Deus
Convoca na encruzilhada
100 Um conselho de família
Vem o Diabo vem a Pomba
Rompe-Rasga Jornalista
E a Santa Constituição
Senhores grande é o perdão
105 O juiz com a vela da esposa
Bateu no céu que esfolou
Eu joguei na mariposa
Mas quem deu foi barbuleta
“Antigamente espineta
110 Depois mazurca, hoje samba”
Me disse um cipreste triste
Senhor de borla e cacimba.
IV
Mas não quero estes zabumbas!
Eu não quero o fulgor da mocidade
115 Nem teus peiticos morena.
Vamos a ver adonde cai o fogo-do-ar
É um coração velho experimentado
Que a Guerra Grande de 14 mutilou...
Voa uma pomba no adro.
120 O caçador aponta. A pomba atira.
A pia pinga o pinto pia
Morre a vizinha.
És virgem
Virgem nasceste virgem morreste ôh soneto
125 Vejo tua estrela morta no teu corpo frio
Onde os ratos fazem ninho.
O enterro trouxe tanto carro
“Mais um!” sino canta “Mais um!”
Supostas as lágrimas de todos os porões
130 Puxa que inundação!
Mas eu não quero estes zabumbas
Prefiro a excursão roçando no morro
Desejo a noite em que a miséria durma
Indiferente às gargalhadas infernais...
135 Calma
Calma de rio de água barrosa
Donde nos vem a maleita sublime
O grande bem... Vamos maninha vamos
Na praia passear
140 Vou esperar o sonho que há-de vir
E quando vier o hei-de matar.
V
Plaff! chegou o Carro da Miséria
Do carnaval intaliano!
Tia Miséria vem vestida de honour[406]
145 Cor de cobre do tempo
Atrás dela recolhendo guspe
O caronel o ginaral o gafetão
O puro o heroico o bem-intencionado
Fio da usina brasilera
150 Requebra o povo de Colombo.
Tia Miséria vai se ajeita
E tira o peido da miséria.
Mármores estralam rebentados
Vento sulão barrendo as chamas
155 Contorce os pinheiros machados
Zine o espaço carpideira
Arrancando os cabelos
Dos luminosos magistrais
E à luz dos raios que te partam
160 Colhida pelos vendavais
Faz bilboquê com a bolinha do mundo
A cibalização cristã.
VI
Ah eu sei que as trompas fúnebres
Chamam os novos pra circuncisão!...
165 São os moços negros não da África
São os moços nugros lá das oficinas
Fábricas e chavascais
Chapéus fálicos no cocoruto
E enormes maracás simbólicos na mão...
170 Caipiras praieiros bichos-do-mato rendeiras
Trazei pro cortejo mil carros de milho!
A oficina apita no grão da arraiada
E vamos ter brigas e mortes que bão!
Ao poeta tu pagas ao farda tu pagas
175 Louvores e guerras escorre tostão...
Larinhos crespinhos e matarazinhos
Lá vem o esculápio num pingo quartão...
Mas eu sei sei que as trompas fúnebres
Chamam os novos pra circuncisão!
180 Bilboquê por bilboquê
Os moços nugros lá das oficinas
Fazem bilboquê da civilização.
VII
Tia Miséria talvez antes que o galo cante
Me negarás três vezes Tia Miséria...
VIII
185 Nas ondas do mar eu vou
Tenho medo de morrer
Se eu soubesse que morria
Nas ondas do mar não ia.
Geme por sobre mim
190 O grande torpe esfacelado
Âncoras caem feito lágrimas
Do meu amor que se acabou.
Mergulho no ão do vendaval.
... toda essa multidão de caminhos malditos
195 Por onde puxo o Carro da Miséria feito boi
Eu boi? eu cobra! não! que eu sou gaúcho
Cuera na dignidade e na zangueza!
Viúvas restritas restrutas restritas
Venham amostrar a obrigação do poeta
200 Que range e come as próprias tíbias do naufrágio
Venham escutar o canto das jangadas
E a tropilha em rancor cegar meus gritos
Traíras velozes rombos infinitos
Maravilhas de Europa e arranha-céus...
205 No fundo eu choro como um mamote safado
No fundo eu choro como um safadíssimo chupim.
Viúvas restritas viúvas da Bolívia
Venham explicar a obrigação do poeta
Assanhadas coitadinhas dessas madres
210 Por me encontrarem constipado.
IX[407]
Ôh não! muito obrigado.
... pra depois outro e mais outro
Basta o que vai-me por dentro
Amargo de alma de moço
215 Deste século safado
Cigarro... pra que cigarro
Basta Mussolini Trotski[408]
A Neoscolástica Freud
Crise virtuoses cinema
220 Como o sereno na flor
Não insista mais amor[409]
sou desgraçado não fumo.
X
Pois então violão hás-de reconhecer
Que é impossível em plena cibalização
225 A coincidência do leproso...
Nesta casa tem... tem... tem...
Tem chão de terra e latrina de poço.
Neste poço tem... tem... tem...
Tem adubo fino e doença pra moço.
230 Este moço tem... tem... tem...
Alma de alecrim corpo de caroço.
Alma de alecrim! alma de alecrim!
Plantaram no chão deu fogo santelmo
Falaram que aquilo é plata escondida
235 Abriram a cova pulou o esqueleto.
O esqueleto segue zurzido
Pelas tiradeiras pelas pás pelas sementes
Um rico cidadão provindo de Barbados
Que resistiu no sorvedouro da Madeira-Mamoré
240 Chimpa sobre o esqueleto um insulto em inglês
Bate mas não insulta
Fala o esqueleto com sua cara de pelote
E então que o bandeirante
Aponta o clavinote
245 Mas Deus existe até num pote
E o esqueleto engole o insulto
E mais a ponta do chicote.
XI
Enquanto isso os sabichões discutem
Se doce-de-abobra não dá chumbo pra canhão.
XII
250 Mas eu mas eu rapazes
Canto com convicção.
Eu canto as viúvas canto os marmeleiros
Canto o gosto do mel e da amplidão
Librar librar asas de ouro e granada
255 Sobre o Carro da Miséria
Mas se o carro está escarlate
Que parece um bonifrate
Isso é sangue era-não-era
Que só com a Vaca-Amarela
260 Parou o esguicho coagulou
Com tanta arte de repuxo
Que é ver pluma de avestruz
Zás-trás quem é?...
É o chauffeur que vem de Angola
265 Com a Internacional na boca
E o seu chapéu à espanhola.
XIII
Enquanto o mundo for mundo
Enquanto o sal for compra-e-venda
Enquanto a vida vier com injeção de éter
270 Enquanto o poeta tiver
Vetiver cabeça tronco e membro
Os milagres farão chuvas de astros nos sonhos
O amor há-de ser tudo e a carícia dos pratos
Além de alimentar despertará prazer...
275 Chorar é bom, rir bim, raivar é bão pão pão
Mas im miu páito as núvoas dus absentos
Não puderão tir mais dulçuras de mulatras
Nem o soave gimir das brises no caqueiral.
Torpe é a cidade. Um desejo sombrio de estupro
280 Um desejo de destruir tudo num grito
Num grito não num gruto
E dar um beijo em cada mão de quem trabalha...
E se o Fulano for maneta?
Ora brinque-se senhor adevogado
285 Diga adeus e vá pro Diabo que o carregue
Que eu também já vou saindo
Pro galo poder cantar.
XIV[410]
Vou-me embora vou-me embora
Vou-me embora pra Belém
290 Vou colher cravos e rosas
Volto a semana que vem
Vou-me embora paz da terra
Paz da terra repartida
Uns têm terra muita terra
295 Outros nem pra uma dormida
Não tenho onde cair morto
Fiz gorar a inteligência
Vou reentrar no meu povo
Reprincipiar minha ciência
300 Vou-me embora vou-me embora
Volto a semana que vem
Quando eu voltar minha terra
Será dela ou de ninguém.
XV
Estes zabumbas que eu quero!
305 Quero a vida franca nobilitada
Esquecida dos séculos atrás!
Vocês sombras ignaras das enxadas
Punidos sem razão nas camisas listradas
Mães pra ter filho mães pra lavadeiras
310 Vermes barrigudinhos chins e Almeidas
Avança avança contra toda a Cristandade!
General serás derrotado
Há-de o sabor da vida alumiar tantas almas
Quantas o dia contiver
315 Por que não serão sombras os passados
Por que não há-de a glória dos povos
Ruir em saudade inocência vazia dos tempos escuros
Vertigem de tanto crime que se foi?...
Ainda não viveste
320 Não refaças com dulce e suciadade
A longa vida de inferioridade
Que os séculos atrás acumularam
Há um fulgor bravo em se datar a entrada
Sem reviver puxando atrás de si
325 A cauda do pavão e mil olhos de séculos
Te castigando o andar debilitado.
XVI
Nasce o dia canta o galo
O salvador não nasceu.
Não foram esses heróis heróis revolucionários
330 Que ficaram heróis heróis revolucionários
Martirizados pelo encalhe do café
Não foram esses heróis vestidos de farda e farsa
Capazes de vencer na luta pizzico-física
Crentes ainda de corage e covardage
335 Que fizeram vosso dia
Não nasceu o salvador.
Nasce o dia canta o galo
Tudo é angústia e Tia Miséria
Grunhe junto aos portões feito capado e dorme
340 Acorda acorda Tia Miséria
Vem nascendo um dia enorme
Mas pouco se vê porém!
Oi Tia Misemiséria
Tens de parir o que espero
345 Espero não! esperamos
O plural é que eu venero
Nasce o dia canta o galo
Miséria pare vassalo
Pare galão pare crime
350 Pare Ogum pare xerém:
Pois então há-de parir
Nossa exatidão também.
LIRA PAULISTANA[411]




Minha viola bonita,
Bonita viola minha,
Cresci, cresceste comigo
Nas Arábias.
5 Minha viola namorada,
Namorada viola minha,
Cantei, cantaste comigo
Em Granada.
Minha viola ferida,
10 Ferida viola minha,
O amor fugiu para leste
Na borrasca.
Minha viola quebrada,
Raiva, anseios, lutas, vida,
15 Miséria, tudo passou-se
Em São Paulo.

São Paulo pela noite.
Meu espírito alerta
Baila em festa e metrópole.
São Paulo na manhã.
5 Meu coração aberto
Dilui-se em corpos flácidos.
São Paulo pela noite.
O coração alçado
Se expande em luz sinfônica.
10 São Paulo na manhã.
O espírito cansado
Se arrasta em marchas fúnebres.
São Paulo noite e dia...
A forma do futuro
15 Define as alvoradas:
Sou bom. E tudo é glória.
O crime do presente
Enoitece o arvoredo:
Sou bom. E tudo é cólera.

Garoa do meu São Paulo,
– Timbre triste de martírios –
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
5 Passa e torna a ficar branco.
Meu São Paulo da garoa,
– Londres das neblinas finas –
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
10 Passa e torna a ficar rico.
Garoa do meu São Paulo,
– Costureira de malditos –
Vem um rico, vem um branco,
São sempre brancos e ricos...
15 Garoa, sai dos meus olhos.

Vaga um céu indeciso entre nuvens cansadas.
Onde está o insofrido? O mal das almas
Quase parece um bem na linha das calçadas,
A palavra se inutiliza em brisas calmas
5 De andantes, onde estou! No entanto é dia claro...
Toda forma de ação se esvai numa atonia,
Há desamparo e aceitação do desamparo.
– Essa história de amar quando começa o dia...

Ruas do meu São Paulo,
Onde está o amor vivo,
Onde está?
Caminhos da cidade,
5 Corro em busca do amigo,
Onde está?
Ruas do meu São Paulo,
Amor maior que o cibo,
Onde está?
10 Caminhos da cidade,
Resposta ao meu pedido,
Onde está?
Ruas do meu São Paulo,
A culpa do insofrido,
15 Onde está?
Há-de estar no passado,
Nos séculos malditos,
Aí está.

Abre-te boca e proclama
Em plena praça da Sé,
O horror que o nazismo infame
É.
5 Abre-te boca e certeira,
Sem piedade por ninguém,
Conta os crimes que o estrangeiro
Tem.
Mas exalta as nossas rosas,
10 Esta primavera louca,[412]
Os tico-ticos mimosos,
Cala-te boca.

Esse homem que vai sozinho
Por estas praças, por estas ruas,
Tem consigo um segredo enorme,
É um homem.
5 Essa mulher igual às outras
Por estas ruas, por estas praças,
Traz uma surpresa cruel,
É uma mulher.
A mulher encontra o homem,
10 Fazem ar de riso, e trocam de mão,
A surpresa e o segredo aumentam
Violentos.
Mas a sombra do insofrido
Guarda o mistério na escuridão.
15 A morte ronda com sua foice.
Em verdade, é noite.

O disco terminara e a companhia estava vulnerada. Foi quando Camargo
Guarnieri arrancou:
– Mas nunca numa sala de concerto, se pode obter sonoridade assim!
Um disse:
– Essa música é uma mentira.
5 Meus olhos se enchem de lágrimas.
Tudo se turva em recusas escuras,
Muxibas congeladas, casas
Em série, músicas racionadas,
O deus novo científico e marcial
10 Gerando latagões. Em latas.
Partir eu parto...
Mas essa música é mentira.
Mas partir eu parto.
Mas eu não sei onde vou.

O bonde abre a viagem,
No banco ninguém,
Estou só, stou sem.
Depois sobe um homem,
5 No banco sentou,
Companheiro vou.
O bonde está cheio,
De novo porém
Não sou mais ninguém.

Eu nem sei se vale a pena
Cantar São Paulo na lida,
Só gente muito iludida
Limpa o goto e assopra a avena,
5 Esta angústia não serena,
Muita fome pouco pão,
Eu só vejo na função
Miséria, dolo, ferida,
Isso é vida?
10 São glórias desta cidade
Ver a arte contando história,
A religião sem memória
De quem foi Cristo em verdade,
Os chefes nossa amizade,
15 Os estudantes sem textos,
Jornalismo no cabresto,
Tolos cantando vitória,
Isso é glória?
Divórcio pra todo o lado,[413]
20 As guampas fazem furor,
Grã-finos do despudor,
No gasogênio empestado,
Das moças do operariado
São os gozosos mistérios,
25 Isso de ter filho, néris,
E se ama seja o que for,
Isso é amor?
Mas o pior desta nação
E ter fábrica de gás
30 Que donos-da-vida faz
Ianques e ingleses de ação,
Tudo vem de convulsão
Enquanto se insulta o Eixo,
Lights, Tramas, Corporation,
35 E a gente de trás pra trás,
Isso é paz?
Pois nada vale a verdade,
Ela mesma está vendida,
A honra é uma suicida,
40 Nuvem a felicidade,
E entre rosas a cidade,
Muito concha e relambória,
Sem paz, sem amor, sem glória,
Se diz terra progredida,
45 Eu pergunto:
Isso é vida?

O céu claro tão largo, cheio de calma na tarde,
É ver uma criança adormecida
Baixando as pálpebras sem pensamento
Sobre um mundo que ainda não viveu.
5 Luzes suaves e certas, luzes até nas sombras,
Doçura em tudo. Os homens estão mais longe,
São apenas recordações mansas pousando
Num sentimento sem temor.
Os ruídos se amaciam quase envelhecidos,
10 Doçura em tudo. O chão é vagarento,
O ar se esquece. A tensão do insofrido se abranda
Como a firmeza das continuações.
Eu te guardo, homem do meu caminho...
Ôh espelhos, Pireneus, caiçaras insistentes,
15 Porque não sereis sempre assim!
Abril...

Tua imagem se apaga em certos bairros,
Mas tua dor rasga nos ares,
Não me deixa dormir.
Ôh, Gilda, Oneida, Tarsila, me fechem a boca,[414]
5 Tapem meus olhos e meus ouvidos,
Para que a glória do insofrido
Volte a cantar Minas Gerais!
A tua dor se dispersa nos ares,
Mas tua imagem suando ao dia inútil
10 Me impede até de chorar.
Eu vou-me embora, vou-me embora,
Fazer weekend em Santo Amaro,
Repartir em vãs alegrias
Meu desejo vão de esquecer!
15 Só isso levas, coração.

Numa cabeleira pesada
Que ondula defronte de mim
No bonde,
Há reflexos de sol vermelho.
5 Um calor nasce no meu corpo
Que todo se desfolha em dedos
Amigos[415]
Que eu perco pelas multidões.
Os reflexos do sol vermelho
10 Incendeiam as multidões
Felizes
Que construirão a outra São Paulo
Que reconduzirá meus dedos
Para a conclusão do meu corpo
15 No leito
Duma cabeleira pesada.

Na rua Barão de Itapetininga
O meu coração não sabe de si,
Não se vê moça que não seja linda,
Minha namorada não passeia aqui.
5 Na rua Barão de Itapetininga
Minha aspiração não aguenta mais,
A tarde caindo, a vida foi longa,
Mas a esperança já está no cais.
Na rua Barão de Itapetininga
10 Minha devoção quebra duma vez,
Porque a mulher que eu amo está longe,
É... a princesa do império chinês.
Na rua Barão de Itapetininga
Noite de São João qualquer mês terá,
15 Em mil labaredas de fogo e sangue
Bandeira ardente tremulará.
Na rua Barão de Itapetininga
Minha namorada vem passear.

Beijos mais beijos,
Milhões de beijos preferidos,
Venho de amores com a minha amada,
Insaciáveis.
5 Rosas mais rosas,
Milhões de rosas paulistanas,
Venho de sustos com a minha amiga,
Implacáveis.
Luzes mais luzes,
10 Luzes perdidas na garoa,
Trago tristezas no peito vivo,
Implacáveis.
Ideais, ideais,
Ideais raivosos do insofrido,
15 Trago verdades novas na boca,
Insaciáveis.
Jornais, jornais,
Notícias que enchem e esvaziam,
– Me dá uma bomba sem retardamento,
20 Implacável!
Horas mais horas,
Rio do meu mistério esquivo,
– Me dá violetas pelos meus dedos
Insaciáveis...

Silêncio em tudo. Que a música[416]
Rola em disco sem cessar.[417]
Uns pensam, outros suspiram,
Um escuta.
5 Lourdes reina a paz em Varsóvia.
A advertência dos vidrilhos[418]
Ladrilha tudo. Nos cantos
Murcham as flores de retórica.
Rui bom, cuidado! Motorista
10 Dos highlands do pensamento:
Nessas landas os nativos
Não consertam as estradas.
Minas Gerais, fruta paulista,
Sambre et Meuse bem marxante,
15 Periga às vezes, por confiança
Nas gageures.
Esse clima de São Paulo,
Muito vento e bem calor,
Abrir e fechar de portas
20 Nas auroras do cristal.
Paulo Emílio assim que o ruído
Ruiu, o trem descarrilou[419]
No screen-play ruim... Mas os ratos
Os ratos roem por aí.
25 Um largo gesto desmaia
Na ribalta. Não faz mal
Que em São Paulo deciolizem
Lagartixas ao sol.
Essa impiedade da paineira
30 Consigo mesma... Qualquer vento,
Vento qualquer... Os canários
Cantam que mais cantam.
Lourival sentencioso,
Parceiro de dor e vale,
35 Nunca houve fúrias de Averno
Em diabo grande.
O arreliquim de Tintagiles, Gilda,
Me esconde tudo, neblina.[420]
A hera deu flor... A saudade
40 Lilá ri das inquietações.
Silêncio em tudo... Que a música[421]
Na cuíca mansa e amiga,
Faz que diz mas não diz...
Adormeceram.

Bailam em saltos fluidos[422]
Na graça flébil da tarde
– Adeus, meninas e violas! –
Mas o goleiro alvo explode
5 Num fulgor que salva o gol.
Insultos, glórias, estertores,[423]
Menino que me recusas
Tua verdade em cruzeiros...
A massa bruta se esgueira
10 Buscando os refúgios.
Onde andam os perdões?...
A dor fugiu para as ilhas,
Enquanto a noite nega
Enfermos e agitados
15 Corpos, corpos, corpos.

A catedral de São Paulo
Por Deus! que nunca se acaba
– Como minha alma.
É uma catedral horrível
5 Feita de pedras bonitas
– Como minha alma.
A catedral de São Paulo
Nasceu da necessidade.
– Como minha alma.
10 Sacro e profano edifício,
Tem pedras novas e antigas
– Como minha alma.
Um dia há-de se acabar,
Mas depois se destruirá
15 – Como o meu corpo.
E a alma, memória triste,
Por sobre os homens arisca,
Sem porto.

... os que esperam, os que perdem
o motivo, os que emudecem,
os que ignoram, os que ocultam
a dor, os que desfalecem,
5 os que continuam, os
que duvidam... Coração,
Afirma, afirma e te abrasa
Pelas milícias do não!

Agora eu quero cantar[424]
Uma história muito triste
Que nunca ninguém cantou,
A triste história de Pedro,
5 Que acabou qual principiou.[425]
Não houve acalanto. Apenas
Um guincho fraco no quarto
Alugado. O pai falou,
Enquanto a mãe se limpava:
10 – É Pedro. E Pedro ficou.
Ela tinha o que fazer,
Ele inda mais, e outro nome
Ali ninguém procurou,
Não pensaram em Alcibíades,
15 Floriscópio, Ciro, Adrasto,
Quedê tempo pra inventar!
– É Pedro. E Pedro ficou.
Pedrinho engatinhou logo
Mas muito tarde falou;
20 Ninguém falava com ele,
Quando chorava era surra
E aprendeu a emudecer.
Falou tarde, brincou pouco,
Em breve a mãe ajudou.
25 Nesse trabalho insuspeito
Passou o dia, e nem bem
A noite escura chegou,
Como única resposta
Um sono bruto o prostrou.
30 Por trás do quarto alugado
Tinha uma serra muito alta
Que Pedro nunca notou,
Mas num dia desses, não
Se sabe porque, Pedrinho
35 Para a serra se voltou:
– Havia de ter, decerto,[426]
Uma vida bem mais linda
Por trás da serra, pensou.
Sineta que fere ouvido,
40 Vida nova anunciou;
Que medo ficar sozinho,
Sem pai, mesmo longínquo, sem
Mãe, mesmo ralhando, tanta
Piazada, ele sem ninguém...
45 Pedro foi para um cantinho,
Escondeu o olho e chorou.
Mas depois foi divertido,
Aliás prazer misturado,
Feito de comparação.
50 O menino roupa-nova
Pegava tudo o que a mestra
Dizia, ele não pegou!
Porque!... Mas depois de muito
Custo, a coisa melhorou.
55 Ele gostava era da
História Natural, os
Bichos, as plantas, os pássaros,
Tudo entrava fácil na
Cabecinha mal penteada,
60 Tudo Pedro decorou.
Havia de saber tudo!
Se dedicar! descobrir!
Mas já estava bem grandinho
E o pai da escola o tirou.
65 Ah que dia desgraçado!
E quando a noite chegou,
Como única resposta
Um sono bruto o prostrou.
Por trás da escola de Pedro
70 Tinha uma serra bem alta
Que o menino nunca olhou;
Logo no dia seguinte
Quando a oficina parou,
Machucado, sujo, exausto,
75 Pedrinho a escola rondou.
E eis que de repente, não
Se sabe porque, Pedrinho
Para a serra se voltou:
– Havia de ter por certo
80 Outra vida bem mais linda
Por trás da serra! pensou.
Vida que foi de trabalho,
Vida que o dia espalhou,
Adeus, bela natureza,
85 Adeus, bichos, adeus, flores,
Tudo o rapaz, obrigado
Pela oficina, largou.
Perdeu alguns dentes e antes,
Pouco antes de fazer quinze
90 Anos, na boca da máquina
Um dedo Pedro deixou.
Mas depois de mês e pico
Ao trabalho ele voltou,
E quando em frente da máquina,
95 Pensam que teve ódio? Não!
Pedro sentiu alegria!
A máquina era ele! a máquina
Era o que a vida lhe dava!
E Pedro tudo perdoou.
100 Foi pensando, foi pensando,
E pensou que mais pensou,
Teve uma ideia, veio outra,
Andou falando sozinho,
Não dormiu, fez experiência,
105 E um ano depois, num grito,
Louca alegria de amor,
A máquina aperfeiçoou.
O patrão veio amigável
E Pedro galardoou,
110 Pôs ele noutro trabalho,
Subiu um pouco o ordenado:
– Aperfeiçoe esta máquina,
Caro Pedro! e se afastou.
Era um cacareco de
115 Máquina! e lá, bem na frente,
Bela, puxa vida! bela,
A primeira namorada
De Pedro, nas mãos dum outro,
Bela, mais bela que nunca,
120 Se mexendo trabalhou
O dia inteiro. Nem bem
A noite negra chegou,
O rapaz desiludido
Um sono bruto prostrou.[427]
125 Por trás da fábrica havia
Uma serra bem mais baixa
Que Pedro nunca enxergou,
Porém no dia seguinte
Chegando pra trabalhar,
130 Não se sabe porque, Pedro
Para a serra se voltou:
– Havia de ter, decerto,[428]
Uma vida bem mais linda
Por trás da serra, pensou.
135 Ôh, segunda namorada,
Flor de abril! cabelo crespo,
Mão de princesa, corpinho
De vaca nova... Era vaca.
Aquele riso que faz
140 Que ri, nunca me enganou...
Caiu nos braços de quem?
Caiu nos braços de todos,
Caiu na vida e acabou.
Com a terceira namorada,
145 Na primeira roupa preta,
Pedro de preto casou.
E logo vieram os filhos,
Vieram doenças... Veio a vida
Que tudo, tudo aplainou.
150 Nada de horrível, não pensem,
Nenhuma desgraça ilustre
Nem dores maravilhosas,
Dessas que orgulham a gente,
Fazendo cegos vaidosos,
155 Tísicos excepcionais,
Ou formando Aleijadinhos,
Beethovens e heróis assim:
Pedro apenas trabalhou.
Ganhou mais, foi subindinho,
160 Um pão de terra comprou.
Um pão apenas, três quartos
E cozinha, num subúrbio
Que tudo dificultou.
Menos tempo, mais despesa,
165 Terra fraca, alguma pera,
Emprego lá na cidade,
Escola pra filho, ofício
Pra filho, um num choque de
Trem, inválido ficou.
170 – Sono! único bem da vida!...
Foi essa frase sem força,
Sem História Natural,
Sem máquina, sem patente
De invenção, que por derradeiro
175 Pedro na vida inventou.
E quando remoendo a frase,
A noite preta chegou,
Pedro, Pedrinho, José,
Francisco, e nunca Alcibíades,
180 Um sono bruto anulou.
Por trás da morada nova
Não tinha serra nenhuma,
Nem morro tinha, era um plano
Devastado e sem valor,
185 Mas um dia desses, sempre
Igual ao que ontem passou,
Pedro, João, Manduca, não
Se sabe porque, Antônio
Para o plano se voltou:
190 – Talvez houvesse, quem sabe,
Uma vida bem mais calma
Além do plano, pensou.[429]
Havia, Pedro, era a morte,
Era a noite mais escura,
195 Era o grande sono imenso;
Havia, desgraçado, havia
Sim, burro, idiota, besta,[430]
Havia sim, animal,
Bicho, escravo sem história,
200 Só da História Natural!...
Por trás do túmulo dele
Tinha outro túmulo... Igual.

Na rua Aurora eu nasci
Na aurora de minha vida
E numa aurora cresci.
No largo do Paiçandu
5 Sonhei, foi luta renhida,
Fiquei pobre e me vi nu.
Nesta rua Lopes Chaves
Envelheço, e envergonhado
Nem sei quem foi Lopes Chaves.
10 Mamãe! me dá essa lua,
Ser esquecido e ignorado
Como esses nomes da rua.[431]

Vieste dum futuro selvagem,
Todo fera e diamante bruto,
Trazido pelo vento sul,
Vento sul.
5 Me perseguiste em toda a parte,
Me brutalizou teu minuto
Em Moji, São Bernardo e Embu,
Vento sul.
Mas a devastação fraterna
10 Incendeia o coração puro
Em labaredas de ouro e azul,
Vento sul.
E na promessa do teu nome,
Partindo os espelhos do escuro,
15 Me converteste em vento sul,
Vento sul.

Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.
5 Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió.
Mulher gordaça, filó
10 De ouro por todos os poros,
Burra como uma porta:
Paciência...
Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
15 Que a porta do pobre arromba:
Uma bomba.

Quando eu morrer quero ficar,[432]
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
5 Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paiçandu deixem meu sexo,[433]
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
10 O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
15 Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,[434]
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
20 Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há-de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...
25 As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Num filme de B. de Mille
Eu vi pela quinta vez
A triste vida de Cristo,
Rei dos Reis.
5 Num mictório de São Paulo
Pouco depois li uma vez,
Sobre o desenho dum pênis,
Rei dos reis.
Num automóvel de luxo,
10 Sessenta vezes por mês,
Bem barbeado, bom charuto,
Rei dos reis...
Oh, vós todos, homens, homens,
Homens, o escravo sereis,
15 Se dentro em breve não fordes
Rei dos reis![435]

Entre o vidrilho das estrelas dúbias,
Luisito, voas na guerra italiana...
És minuto e depois minuto, e inteiro
O corpo novo se retesa
5 Na contensão dos esforços finais.
Cada momento de tua vida é um fim final.
Dentro da luz do sol das mil cores,
Luisito, voas no teu avião de combate,
E és único. Tão só! Estás tão destinadamente abandonado
10 Num céu de tocaia, tecido a fogo e destruição.
Cada gesto, cada vontade tua é destruição...
Pousado na terra sem sono,
Dormes envolto num cenário insatisfeito,
E tudo o que é não é: teu lar, tuas namoradas,
15 Teus estudos e a promessa não cumprida.
Luisito! tens um sabor de promessa falhada!
Em pleno olho sem pálpebras dás morte,
Armado de morte, cercado de morte, amante da morte,
Voas e há somente morte em ti.
20 Como te fizeram antigo, Luisito, que pena!
Quando voltares, se voltares, jamais te perguntarei nada,
Jamais direi, jamais direi, ficarei mudo, mudo,
Jamais sequer me perguntarei o que sinto...
Mas como te fizeram antigo, meu Luisito!
25 Rajadas de sinos, rajadas de bandeiras, músicas e danças:
Tudo será esquecido na alegria,
Tudo será futuro em busca do homem novo.
Mas eu sei que em tua face não culpada
Estará inscrita a lágrima que eu choro.
30 Ah, que ninguém nos deixe aos dois sozinhos
Neste nosso lar familial!
Quem são os dois inimigos que se cumprimentam formalizados?
Por que escurece a sala o friúme dum rancor?
Como te fizeram antigo, meu Luisito, que pena!
35 Como te medalharam de passados horríveis!
Não poderei perdoar quando estiver comigo!
Não deverás perdoar pra que sejas perfeito!
A porta vai bater fechando sem adeus.
E alguém, não serei eu, não serás tu, alguém,
40 Alguém que se quebrou em dois irremediavelmente,
Soluçará: – Que pena...

Nunca estará sozinho.
A estação cinquentenária
Abre a paisagem ferroviária,
Graciano vem comigo.[436]
5 Nunca estará sozinho.
É tanta luz formosa,
Tanto verde, tanto cor-de-rosa,
Anita vem comigo.
Nunca estará sozinho,
10 Artigas ali na Escola,
Sargentos, Yan? Me pede esmola
O rancor do inimigo.
Todo o Nordeste canta,
Zé Bento vem comigo,
15 Confissões na garganta,
Nunca estará sozinho.
A ponte das Bandeiras
Indaga das remotas
Zonas, imaturas zonas,
20 Meu sinal do Amazonas...
Nunca estará sozinho!
Nem há noite que o salve
Da angústia que o dissolve
Em amigos e inimigos.
A MEDITAÇÃO SOBRE O TIETÊ
(30 de novembro de 1944 a 12 de fevereiro de 1945)[437]
Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
– Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...
5 É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite tão vasta
10 O peito do rio, que é como se a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
15 Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranha-céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,
20 Luzes e glória. É a cidade... É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,
Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam
25 Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
30 E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?...
Por que me proíbes assim praias e mar, por que
Me impedes a fama das tempestades do Atlântico
E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?
35 Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,
Me induzindo com a tua insistência turrona paulista
Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!...
Já nada me amarga mais a recusa da vitória
Do indivíduo, e de me sentir feliz em mim.
40 Eu mesmo desisti dessa felicidade deslumbrante,
E fui por tuas águas levado,
A me reconciliar com a dor humana pertinaz,
E a me purificar no barro dos sofrimentos dos homens.
Eu que decido. E eu mesmo me reconstituí árduo na dor
45 Por minhas mãos, por minhas desvividas mãos, por
Estas minhas próprias mãos que me traem,
Me desgastaram e me dispersaram por todos os descaminhos,
Fazendo de mim uma trama onde a aranha insaciada
Se perdeu em cisco e pólen, cadáveres e verdades e ilusões.
50 Mas porém, rio, meu rio, de cujas águas eu nasci,
Eu nem tenho direito mais de ser melancólico e frágil,
Nem de me estrelar nas volúpias inúteis da lágrima!
Eu me reverto às tuas águas espessas de infâmias,
Oliosas, eu, voluntariamente, sofregamente, sujado
55 De infâmias, egoísmos e traições. E as minhas vozes,
Perdidas do seu tenor, rosnam pesadas e oliosas,
Varando terra adentro no espanto dos mil futuros,
À espera angustiada do ponto. Não do meu ponto final!
Eu desisti! Mas do ponto entre as águas e a noite,
60 Daquele ponto leal à terrestre pergunta do homem,
De que o homem há-de nascer.
Eu vejo, não é por mim, o meu verso tomando
As cordas oscilantes da serpente, rio.
Toda a graça, todo o prazer da vida se acabou.
65 Nas tuas águas eu contemplo o Boi Paciência
Se afogando, que o peito das águas tudo soverteu.
Contágios, tradições, brancuras e notícias,
Mudo, esquivo, dentro da noite, o peito das águas, fechado, mudo,
Mudo e vivo, no despeito estrídulo que me fustiga e devora.
70 Destino, predestinações... meu destino. Estas águas
Do meu Tietê são abjetas e barrentas,
Dão febre, dão a morte decerto, e dão garças e antíteses.
Nem as ondas das suas praias cantam, e no fundo
Das manhãs elas dão gargalhadas frenéticas,
75 Silvos de tocaias e lamurientos jacarés.
Isto não são as águas que se beba, conhecido, isto são
Águas do vício da terra. Os jabirus e os socós
Gargalham depois morrem. E as antas e os bandeirantes e os ingás,
Depois morrem. Sobra não. Nem sequer o Boi Paciência
80 Se muda não. Vai tudo ficar na mesma, mas vai!... e os corpos
Podres envenenam estas águas completas no bem e no mal.
Isto não são águas que se beba, conhecido! Estas águas
São malditas e dão morte, eu descobri! e é por isso
Que elas se afastam dos oceanos e induzem à terra dos homens,
85 Paspalhonas. Isto não são águas que se beba, eu descobri!
E o meu peito das águas se esborrifa, ventarrão vem, se encapela
Engruvinhado de dor que não se suporta mais.
Me sinto o Pai Tietê! ôh força dos meus sovacos!
Cio de amor que me impede, que destrói e fecunda!
90 Nordeste de impaciente amor sem metáfóras,
Que se horroriza e enraivece de sentir-se
Demagogicamente tão sozinho! Ôh força!
Incêndio de amor estrondante, enchente magnânima que me inunda,
Me alarma e me destroça, inerme por sentir-me
95 Demagogicamente tão só!
A culpa é tua, Pai Tietê? A culpa é tua
Se as tuas águas estão podres de fel
E majestade falsa? A culpa é tua
Onde estão os amigos? onde estão os inimigos?
100 Onde estão os pardais? e os teus estudiosos e sábios, e
Os iletrados?
Onde o teu povo? e as mulheres! dona Hircenuhdis Quiroga!
E os Prados e os crespos e os pratos e os barbas e os gatos e os línguas
Do Instituto Histórico e Geográfico, e os mu-[438]
105 seus e a Cúria, e os senhores chantres reverendíssimos,
Celso nihil estate varíolas gide memoriam,
Calípedes flogísticos e a Confraria Brasiliense e Clima
E os jornalistas e os trustkistas e a Light e as
Novas ruas abertas e a falta de habitações e
110 Os mercados?... E a tiradeira divina de Cristo!...
Tu és Demagogia. A própria vida abstrata tem vergonha
De ti em tua ambição fumarenta.
És demagogia em teu coração insubmisso.
És demagogia em teu desequilíbrio anticéptico
115 E antiuniversitário.
És demagogia. Pura demagogia.
Demagogia pura. Mesmo alimpada de metáforas.
Mesmo irrespirável de furor na fala reles:
Demagogia.
120 Tu és enquanto tudo é eternidade e malvasia:
Demagogia.
Tu és em meio à (crase) gente pia:
Demagogia.
És tu jocoso enquanto o ato gratuito se esvazia:
125 Demagogia.
És demagogia, ninguém chegue perto!
Nem Alberto, nem Adalberto nem Dagoberto
Esperto Ciumento Peripatético e Ceci
E Tancredo e Afrodísio e também Armida
130 E o próprio Pedro e também Alcibíades,
Ninguém te chegue perto, porque tenhamos o pudor,
O pudor do pudor, sejamos verticais e sutis, bem
Sutis!... E as tuas mãos se emaranham lerdas,
E o Pai Tietê se vai num suspiro educado e sereno,
135 Porque és demagogia e tudo é demagogia.
Olha os peixes, demagogo incivil! Repete os carcomidos peixes!
São eles que empurram as águas e as fazem servir de alimento
Às areias gordas da margem. Olha o peixe dourado sonoro,
Esse um é presidente, mantém faixa de crachá no peito,
140 Acirculado de tubarões que escondendo na fuça rotunda
O perrepismo dos dentes, se revezam na rota solene,
Languidamente presidenciais. Ei-vem o tubarão-martelo
E o lambari-spitfire. Ei-vem o boto-ministro.
Ei-vem o peixe-boi com as mil mamicas imprudentes,
145 Perturbado pelos golfinhos saltitantes e as tabaranas
Em zás-trás dos guapos Pêdêcês e Guaporés.
Eis o peixe-baleia entre os peixes muçuns lineares,
E os bagres do lodo oliva e bilhões de peixins japoneses;
Mas é asnático o peixe-baleia e vai logo encalhar na margem,
150 Pois quis engolir a própria margem, confundido pela facheada.
Peixes aos mil e mil, como se diz, brincabrincando
De dirigir a corrente, com ares de salva-vidas.
E lá vem por debaixo e por de-banda os interrogativos peixes
Internacionais, uns rubicundos sustentados de mosca,
155 E os espadartes a trote chique, esses são espadartes! e as duas
Semanas Santas se insultam e odeiam, na lufa-lufa de ganhar
No bicho o corpo do Crucificado. Mas as águas,
As águas choram baixas num murmúrio lívido, e se difundem
Tecidas de peixe e abandono, na mais incompetente solidão.
160 Vamos, Demagogia! eia! sus! aceita o ventre e investe!
Berra de amor humano impenitente,
Cega, sem lágrima, ignara, colérica, investe!
Um dia hás-de ter razão contra a ciência e a realidade,
E contra os fariseus e as lontras luzidias.
165 E contra os guarás e os elogiados. E contra todos os peixes.
E também os mariscos, as ostras e os trairões fartos de equilíbrio e
Pundhonor.
Pum d’honor.
Quedê as Juvenilidades Auriverdes!
170 Eu tenho medo... Meu coração está pequeno, é tanta
Essa demagogia, é tamanha,
Que eu tenho medo de abraçar os inimigos,
Em busca apenas dum sabor,
Em busca dum olhar,
175 Um sabor, um olhar, uma certeza...
É noite... Rio! meu rio! meu Tietê!
É noite muito!... As formas... Eu busco em vão as formas
Que me ancorem num porto seguro na terra dos homens.
É noite e tudo é noite. O rio tristemente
180 Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
Água noturna, noite líquida... Augúrios mornos afogam
As altas torres do meu exausto coração.
Me sinto esvair no apagado murmulho das águas.
Meu pensamento quer pensar, flor, meu peito
185 Quereria sofrer, talvez (sem metáfora) uma dor irritada...
Mas tudo se desfaz num choro de agonia
Plácida. Não tem formas nessa noite, e o rio
Recolhe mais esta luz, vibra, reflete, se aclara, refulge,
E me larga desarmado nos transes da enorme cidade.
190 Se todos esses dinossauros imponentes de luxo e diamante,
Vorazes de genealogias e de arcanos,
Quisessem reconquistar o passado...
Eu me vejo sozinho, arrastando sem músculo
A cauda do pavão e mil olhos de séculos,
195 Sobretudo os vinte séculos de anticristianismo
Da por todos chamada Civilização Cristã...
Olhos que me intrigam, olhos que me denunciam,
Da cauda do pavão, tão pesada e ilusória.
Não posso continuar mais, não tenho, porque os homens
200 Não querem me ajudar no meu caminho.
Então a cauda se abriria orgulhosa e reflorescente
De luzes inimagináveis e certezas...
Eu não seria tão somente o peso deste meu desconsolo,
A lepra do meu castigo queimando nesta epiderme
205 Que encurta, me encerra e me inutiliza na noite,
Me revertendo minúsculo à advertência do meu rio.
Escuto o rio. Assunto estes balouços em que o rio
Murmura num banzeiro. E contemplo
Como apenas se movimenta escravizada a torrente,
210 E rola a multidão. Cada onda que abrolha
E se mistura no rolar fatigado é uma dor. E o surto
Mirim dum crime impune.
Vem de trás o estirão. É tão soluçante e tão longo,
E lá na curva do rio vêm outros estirões e mais outros,
215 E lá na frente são outros, todos soluçantes e presos
Por curvas que serão sempre apenas as curvas do rio.
Há-de todos os assombros, de todas as purezas e martírios
Nesse rolo torvo das águas. Meu Deus! meu
Rio! como é possível a torpeza da enchente dos homens!
220 Quem pode compreender o escravo macho
E multimilenar que escorre e sofre, e mandado escorre
Entre injustiça e impiedade, estreitado
Nas margens e nas areias das praias sequiosas?
Elas bebem e bebem. Não se fartam, deixando com desespero
225 Que o resto do galé aquoso ultrapasse esse dia,
Pra ser represado e bebido pelas outras areias
Das praias adiante, que também dominam, aprisionam e mandam
A trágica sina do rolo das águas, e dirigem
O leito impassível da injustiça e da impiedade.
230 Ondas, a multidão, o rebanho, o rio, meu rio, um rio
Que sobe! Fervilha e sobe! E se adentra fatalizado, e em vez
De ir se alastrar arejado nas liberdades oceânicas,
Em vez se adentra pela terra escura e ávida dos homens,
Dando sangue e vida a beber. E a massa líquida
235 Da multidão onde tudo se esmigalha e se iguala,
Rola pesada e oliosa, e rola num rumor surdo,
E rola mansa, amansada imensa eterna, mas
No eterno imenso rígido canal da estulta dor.
Porque os homens não me escutam! Por que os governadores
240 Não me escutam? Por que não me escutam
Os plutocratas e todos os que são chefes e são fezes?
Todos os donos da vida?
Eu lhes daria o impossível e lhes daria o segredo,
Eu lhes dava tudo aquilo que fica pra cá do grito
245 Metálico dos números, e tudo
O que está além da insinuação cruenta da posse.
E se acaso eles protestassem, que não! que não desejam
A borboleta translúcida da humana vida, porque preferem
O retrato a ólio das inaugurações espontâneas,
250 Com béstias do operário e do oficial, imediatamente inferior,
E palminhas, e mais os sorrisos das máscaras e a profunda comoção,
Pois não! Melhor que isso eu lhes dava uma felicidade deslumbrante
De que eu consegui me despojar porque tudo sacrifiquei.
Sejamos generosíssimos. E enquanto os chefes e as fezes
255 De mamadeira ficassem na creche de laca e lacinhos,
Ingênuos brincando de felicidade deslumbrante:
Nós nos iríamos de camisa aberta ao peito,
Descendo verdadeiros ao léu da corrente do rio,
Entrando na terra dos homens ao coro das quatro estações.
260 Pois que mais uma vez eu me aniquilo sem reserva,
E me estilhaço nas fagulhas eternamente esquecidas,
E me salvo no eternamente esquecido fogo de amor...
Eu estalo de amor e sou só amor arrebatado
Ao fogo irrefletido do amor.
265 ... eu já amei sozinho comigo; eu já cultivei também
O amor do amor, Maria!
E a carne plena da amante, e o susto vário
Da amiga, e a confidência do amigo... Eu já amei
Contigo, Irmão Pequeno, no exílio da preguiça elevada, escolhido
270 Pelas águas do túrbido rio do Amazonas, meu outro sinal.
E também, ôh também! na mais impávida glória
Descobridora da minha inconstância e aventura,
Desque me fiz poeta e fui trezentos, eu amei
Todos os homens, odiei a guerra, salvei a paz!
275 E eu não sabia! Eu bailo de ignorâncias inventivas,
E a minha sabedoria vem das fontes que eu não sei!
Quem move meu braço? Quem beija por minha boca?
Quem sofre e se gasta pelo meu renascido coração?
Quem? senão o incêndio nascituro do amor?...
280 Eu me sinto grimpado no arco da Ponte das Bandeiras,
Bardo mestiço, e o meu verso vence a corda
Da caninana sagrada, e afina com os ventos dos ares, e enrouquece
Úmido nas espumas da água do meu rio,
E se espatifa nas dedilhações brutas do incorpóreo Amor.
285 Por que os donos da vida não me escutam?
Eu só sei que eu não sei por mim! sabem por mim as fontes
Da água, e eu bailo de ignorâncias inventivas.
Meu baile é solto como a dor que range, meu
Baile é tão vário que possui mil sambas insonhados!
290 Eu converteria o humano crime num baile mais denso
Que estas ondas negras de água pesada e oliosa,
Porque os meus gestos e os meus ritmos nascem
Do incêndio puro do amor... Repetição. Primeira voz sabida, o Verbo.
Primeiro troco. Primeiro dinheiro vendido. Repetição logo ignorada.
295 Como é possível que o amor se mostre impotente assim
Ante o ouro pelo qual o sacrificam os homens,
Trocando a primavera que brinca na face das terras,
Pelo outro tesouro que dorme no fundo baboso do rio!
É noite! é noite!... E tudo é noite! E os meus olhos são noite!
300 Eu não enxergo sequer as barcaças na noite.
Só a enorme cidade. E a cidade me chama e pulveriza,
E me disfarça numa queixa flébil e comedida,
Onde irei encontrar a malícia do Boi Paciência
Redivivo. Flor. Meu suspiro ferido se agarra,
305 Não quer sair, enche o peito de ardência ardilosa,
Abre o olhar, e o meu olhar procura, flor, um tilintar
Nos ares, nas luzes longe, no peito das águas,
No reflexo baixo das nuvens.
São formas... Formas que fogem, formas
310 Indivisas, se atropelando, um tilintar de formas fugidias
Que mal se abrem, flor, se fecham, flor, flor, informes, inacessíveis,
Na noite. E tudo é noite. Rio, o que eu posso fazer!...
Rio, meu rio... mas porém há-de haver com certeza
Outra vida melhor do outro lado de lá
315 Da serra! E hei-de guardar silêncio!
O que eu posso fazer!... hei-de guardar silêncio
Deste amor mais perfeito do que os homens?...
Estou pequeno, inútil, bicho da terra, derrotado.
No entanto eu sou maior... Eu sinto uma grandeza infatigável!
320 Eu sou maior que os vermes e todos os animais.
E todos os vegetais. E os vulcões vivos e os oceanos,
Maior... Maior que a multidão do rio acorrentado,
Maior que a estrela, maior que os adjetivos,
Sou homem! vencedor das mortes, bem-nascido além dos dias,
325 Transfigurado além das profecias!
Eu recuso a paciência, o boi morreu, eu recuso a esperança.
Eu me acho tão cansado em meu furor.
As águas apenas murmuram hostis, água vil mas turrona paulista
Que sobe e se espraia, levando as auroras represadas
330 Para o peito dos sofrimentos dos homens.
... e tudo é noite. Sob o arco admirável
Da Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca,
Uma lágrima apenas, uma lágrima,
Eu sigo alga escusa nas águas do meu Tietê.

(Acalanto para Luís Carlos,
filho de Guilherme de Figueiredo com Alba)[439]
Nasceu Luís Carlos no Rio
E todo me transportei,
Luís Carlos do meu carinho.
Vive um Luís Carlos sozinho
5 E todo me apaixonei,
Luís Carlos do meu respeito.
Luís Carlos, dorme em meu peito,
Goza a infância sossegado,
Sonha, brinca, dorme, dorme!
10 Luís Carlos, fecundo, enorme,
Sofre o sonho amordaçado,
Não cede, não vive, flâmula!
Criança, nasces num cúmulo
De nuvem rubra e pletora
15 Que dará volta na vida.
Homem, morres nessa lida
Pra que a criança de agora
Viva outra vida mais branca.
Dorme, Luís Carlos, a franca
20 Perfeição desse teu sono,
Enquanto o mundo é mudado
Pelo homem sacrificado
Por amor do teu futuro.
Que vivas íntegro, como
25 Hoje puro, amanhã puro.
CAFÉ




A Liddy Chiaffarelli[440]
CAFÉ
CONCEPÇÃO MELODRAMÁTICA[441]

(São Paulo, 15 de dezembro de 1942)
PRIMEIRO ATO

PRIMEIRA CENA
PORTO PARADO

Desde muito que os donos da vida andavam perturbando a marcha natural do comércio do
café. Os resultados foram fatais. Os armazéns se entulharam de milhões de sacas de café
indestinado. E foi um crime nojento. Mandaram queimar o café nos subúrbios escusos da
cidade, nos mangues desertos. A exportação decresceu tanto que o porto quase parou. Os
donos viviam no ter e se aguentavam bem com as sobras do dinheiro ajuntado, mas: e os
trabalhadores, e os operários, e os colonos? A fome batera na terra tão farta e boa. Os jornais
aconselhavam paciência ao povo, anunciavam medidas a tomar. Futuramente. A inquietação
era brava e nos peitos dos estivadores mais sabidos do porto parado, numa hesitação
desgraçada, entre desânimos, a cólera surda esbravejava, se assanhavam os desejos de
arrebentar.
A orquestra, de supetão, está agitadíssima, desagradável, quase tão irrespirável como o
turbilhão que agita interiormente os estivadores. O pano se ergue rápido no armazém do porto.
O armazém está sombrio, apenas no fundo a fresta da vasta porta de correr. As pilhas de
sacas de café sobem até o teto no fundo, dos dois lados. Na frente, as sacas se amontoam
mais desordenadas, às quatro, às três, outras sozinhas. Sobre elas, deitados, sentados, aos
grupos, os estivadores quase imóveis esperam. Mais deixam raivar o turbilhão que têm do
peito do que esperam, esperar o quê! A um lado, junto à ribalta, um grupo deles no chão quer
matar o tempo no jogo do truco. A vestimenta de todos é a mesma, calças escuras, largas, e as
camisas de meia com listas vivamente coloridas, vermelho e branco, azul marinho e branco,
amarelo e roxo, verde e encarnado. Esta calça de veludo cor-de-charuto denuncia um
espanhol, assim como a boina que ele traz. Estes bigodes no estivador gordo, denunciarão o
português. Tem a palheta de banda deste rapaz amulatado, e dois negros de cabeça ao vento,
enormes, luzindo.
Na fresta da porta de fundo entra mais um estivador. Vem desanimado, lento, lerdo, se
arrastando até o centro da cena. O jornal que tinham mandado ele buscar não trouxe notícia
nenhuma, e ele o arrasta no chão, da mão pendida. Todos os estivadores se interessam pelo
que dirá o recém-chegado, mas ele nem fala, coitado, faz um gesto só: amarfanha o jornal de
parolagem e o atira com nojo no chão. E o desânimo agora abafa a todos, mais completo.
Aqueles homens enormes, forças brutais, se sentem feito crianças na decisão a tomar. Como
será possível que aquela terra deles, sempre tão altiva, tão generosa também, tenha perdido
assim o seu porte de grandeza?... O que fazer, agora que o café está baixo, sem valor. E
manso, melancólico, sofrido o queixume daqueles homens fortes enche o bojo sombrio do
armazém. E morre num abafamento implacável. Talvez fosse melhor morrer... E os estivadores
se estiram por aí, na fraqueza vil da pasmaceira. Os jogadores voltam ao seu truco disfarçador.
Fosse domingo, iriam ser sugados totalmente de suas forças morais, no futebol apaixonante,
que isto, os generosos donos da vida não se esquecem de arranjar. E ainda um italiano e o
rapaz da palheta se adormecem no jogo da morra. E parece que nada vai suceder.
Mas eis que duas mulheres de repente espiam pela fresta da porta. São eles sim, são os
companheiros que elas andaram buscando pelos botequins do cais. Mas o portuga do boteco
deu o basta no fiado e eles vieram ali. As mulheres, raivosas, correm a porta do armazém em
toda a extensão. E agora se enxerga bem nítido o porto parado, a linha reta do cais vazio, o
verde gasto do mar vazio, e um céu claro, branquiçado, sem nuvens, da mesma impassível
desolação.
E o grupo agitado de umas vinte mulheres corre para o centro da cena. Estão quase
delirantes, não podem mais, os filhos choram em casa pedindo pão, elas também estão
famintas, e os maridos, os companheiros, o que fazem? Os seus vestidos femininos de
fazendas lavradas, botam uma nota turbulenta e multicor no ambiente. “Eu quero o meu pão!”
que elas gritam, quase desvairadas. Mas aqueles homens, amolentados ainda pela indecisão,
num desalento cínico não têm mais esperança em nada. “Quem pode dar pão!”, eles
murmuram, ecoando em cinza de eco, o grito vivo das mulheres.
Quem pode dar pão?... O café pode dar pão. Sempre dera o pão, a roupa e a paz relativa
dos pobres. Mas agora aquele companheiro generoso de outros tempos, jaz ali, inútil, vazio de
força, como o cais, como o porto: vazio. E as mulheres e os homens, numa alucinação,
contemplam as pilhas mudas de sacas. Eles amam, sempre amaram aquele café paterno, que
agora parece falhar. Mas ainda há-de estar nele a salvação de todos. As mulheres se
aproximam das sacas, se abraçam com elas, contando os seus segredos de miséria,
acarinham o grão pequenino que não falhará. E o grão pequenino lhes segreda o segredo que
eles não se animavam a se revelar. Aquela fome que eles sentiam não era apenas uma fome
de alimento, mas outra maior, a fome milenar dos subjugados, fome de outra justiça na terra,
de outra igualdade de direitos para lutar e vencer.
E o pano desce lentamente, dando tempo a que o segredo que a cena revelou, se grave pra
sempre no coração de todos os oprimidos.

SEGUNDA CENA
COMPANHIA CAFEEIRA S.A.
Também noutras partes daquelas terras a fome e a angústia vai feroz. A orquestra, muito
triste e abafada, chega coleando, fazendo esforço pra saber o que será da existência. Mas eis
que se aclara porque o pano sobe nos dando o céu claro das dez horas da manhã, cafezal
pleno. A cena mostra uma encruzilhada de carreadores, árvores já taludas, com oito anos,
saias grandes pousando na terra-roxa. Na ponta dum dos carreadores está uma laranjeira
carregadinha de fruta madura. É o único gesto de altura, vivo de cor, variando os horizontes
longínquos, largos, levemente ondulados no célebre cafezal da Companhia Cafeeira S.A.
Os colonos estão por ali, terminando de almoçar. É fácil de perceber idade e condição deles
pela roupa. As moças solteiras estão de vestido vermelho, cor sexual de quem deseja homem
na vastidão dos campos. Os rapazes já não querem mais a cassa das camisas bordadas, com
que os pais deles chegaram da Europa bestial das aldeias. Estão de azulão vivo, e algum já
terá seu chapéu de caubói, aprendido no cinema. As mulheres casadas, relembram a Colona
sentada de Cândido Portinari, a saia de um vermelho já bem gasto e lavado, aquela espécie
de matinê largo de um azul quase cinza, bem neutro, e o lenço também de vermelho gasto,
protegendo os cabelos. Os seus maridos, calças de brim cinzento que aguenta a semana,
camisas brancas, sem brancura. As velhas estão de preto completamente, e os velhos estão
ridículos, com suas calças grossas, muito largas, pardacentas, e aqueles blusões de cores que
foram vivas, rosadas, amareladas, esverdeadas. As meninotas de vermelho, e os meninos da
cor do chão.
Pois um destes não se conteve. Percebendo que todos estavam distraídos na arrumação
dos badulaques do almoço, roubou uma laranja da árvore, a furou com o dedinho e vai chupá-
la. Uma velha viu, mostra o menino à outra. Aliás vários colonos viram, mas fingem que não:
que o animalzinho aprenda por si. E o menino, se imaginando livre de olhares, chupa a fruta
com ansiedade. Faz uma careta e joga a laranja longe, enquanto velhos e velhas caem na
risada. Agora o bobo vai ficar conhecendo pra sempre o provérbio da terra: “Laranja no café, é
azeda ou tem vespeira”.
Mas a mocidade e os casados, menos filósofos pra se divertirem com os provérbios da
experiência, já agarraram no trabalho da colheita. Nada dispostos, aliás, mecanizados,
fatalizados apenas pela obrigação. O almoço foi insuficiente, já de muito que os colonos não
recebem pagamento, o café para nas estações do trem-de-ferro, os armazéns não fiam mais. A
visão da fome espia nas esquinas dos carreadores. Os velhos enfim se decidem a trabalhar
também. Mas imediatamente lhes volta a dureza da realidade e um deles, num assomo de
desabafo ao menos físico, coça a cabeça com raiva e dá um pontapé na saia da árvore que
devia colher.
Ora, sucedeu que justamente no instante do pontapé, chegavam pela boca esquerda da
cena, os donos da Companhia Cafeeira S.A. e os comissários. Ex-donos aliás, porque se
vendo na possibilidade de curtir alguns anos gastando o que já tinham amontoado, eles
acabaram de entregar a fazenda aos comissários, como pagamento de dívida. É gente bem
vestida, está claro, vestindo brim do bom. Só que os comissários estão de “brim de linho
S.120”, como se diz, branco, corte de cidade, pra luzir nos escritórios e na Bolsa. Os donos
ainda trazem o brim cáqui, de fazenda, calça de montar, polainas bem engraxadas, chapéus
largos, panamás legítimos.
Esquecidos de que a fazenda já não lhes pertence mais, ficam indignados com o velho e a
colheita destratada, passam pito. Os colonos vão pra baixar a cabeça, mas as mulheres,
sempre a mulher que é mais perfeita, intervêm irritadas, desesperadas, a discussão cresce
rápida, se azeda. Tem um momento em que tudo está pra estourar. Os colonos vão perder o
tino, vão “amassar” aqueles senhores impiedosos que não arranjam nada, não querem pagar
os ordenados de meses, pouco estão se amolando com a fome dos pobres. É um instante
bravo de silêncio aquele da decisão. E os donos se preparam também pra brigar, buscando
sem disfarce os revólveres no bolso traseiro da calça ou na cinta. Qual, assim não vai mesmo
nem adianta: o melhor é abandonar a fazenda, desistir daquela espera improvável, ir buscar
pão onde ele se esconder. E os colonos anunciam que abandonarão a fazenda. Não era isto
exatamente o que os senhores queriam. Queriam era a submissão, a sujeição total. Em todo
caso livraram as epidermes, e aproveitam a decisão dos colonos pra fugir dali, um bocado
apressadinhos não tem dúvida, mas bancando gestos de indignação.
E agora os colonos estão sós. Então consigo de novo, e a orquestra, com eles, cai na
realidade terrível. Acaso não teriam sido precipitados por demais?... É o desemprego, é o
caminhar nas estradas do acaso, é o bater nas portas, é o mofar na impiedosa indiferença das
cidades. Se sentem inermes, desprotegidos, incapazes. Têm a noção muito vaga ainda de que
tudo é um crime infame. Não poderão gritar. A poeira dos caminhos vai secar a voz nas
gargantas. Ou poderão gritar! Não sabem, não conhecem, não entendem. Parece que tem
momentos nesta vida dura em que a gente se revolta, não é porque queira decididamente se
revoltar, mas porque uma força maior move a gente e se fica sem capacidade mais pra não se
revoltar. As velhas já partiram em busca da colônia, arranjar seus trastes, suas trouxas. As
mulheres casadas principiam partindo também. Melancolicamente. E o pano cai depressa,
bem depressa.
SEGUNDO ATO
PRIMEIRA CENA
CÂMARA-BALÉ
É bem difícil explicar o que teria levado o autor à invenção subitânea deste CÂMARA-BALÉ,
que até pelo nome, já denuncia a sua intenção de vaia. É possível se crer, se deve crer numa
humanidade tão civilizada que permita a existência de Câmaras eficazes. E afinal são sempre
Câmaras a cachimbada dos Velhos na tribo e as salas improvisadas dos sovietes. Por isto, a
intenção do CÂMARA-BALÉ se limita, é vaia, mas por tudo quanto de falsificação e de ridículo, os
anões subterrâneos do servilismo fizeram das Câmaras o que a história conta. Ineficientes,
traidoras e postas ao serviço dos chefes.
Estamos em plena farsa, e até o pano “farseia”, não querendo subir, caindo de repente. Os
personagens são vários, pois o enredo cai em cheio numa sessão de Câmara de deputados. A
mesa da presidência está na boca da cena, bem junto do ponto, e por trás dela se vê as
bancadas numa inclinação leve, de maneira que presidente, vice, e os secretários da Mesa
dão as costas ao público, ao passo que os deputados nos encaram de frente. E mais ou
menos a meia altura da cena, atrás, estão as galerias da assistência pública. Quando a
reunião não é secreta.
A sala de sessões é bem chique, todos os móveis, mesa, bancada, parapeito das galerias,
até o chão, tudo branquinho, dum branco alvar. Ao passo que todos os personagens da
Câmara estão de preto, Mesa e deputados de sobrecasaca, e um plastron gordo com uma
enorme pérola branca de enfeite. Os serventes também de preto, com os botões de prata no
dólmã. E os jornalistas? Se os serventes são cinco, de pé, do lado direito da cena, na mesma
linha da Mesa, na mesma linha ainda da Mesa, mas do outro lado, os jornalistas também são
cinco, sentados em cadeiras enfileiradas, uma atrás da outra. Sucede que as cadeiras
jornalísticas estão de perfil pro público, não deixando por enquanto ler o título do jornal a que
cada uma pertence, por honra e graça inusitada e inusada dessa força enorme e tão facilmente
servil que é o jornal. Ora, os títulos dos jornais da terra, que se erguem do encosto das
cadeiras, são O Patativa, Diário da Luz, O Clarim, O Previdente e o Jornal das Modas. Os
jornalistas também se vestem seriamente de preto, mas não usam sobrecasaca mais, são
modernos. Usam um paletozinho curto, calças apertadas ainda mais curtas acabando um
palmo acima do tornozelo, deixando ver as lindíssimas meias brancas de seda e os escarpins
de verniz. E quanto a gravatas, airosamente, os jornalistas só aceitam enormes gravatas cor-
de-rosa, com um laço borboleta bem pintor, são lindos. Francamente, esse tal de jornalista é
um amor.
Como se vê, tudo é branco e preto. O que vai variar de colorido muito é o pessoal das
galerias, que será o mais berrantemente colorido possível. Repetem-se as camisas-de-meia
dos estivadores, o azulão proletário, dólmãs, quepes, o cáqui de um soldado-raso. Mas as
mulheres, muitas e também com tons vivos, serão fazendas lavradas, fazendas de ramagens,
fazendas “futuristas” com desenhos abstratos de muitas cores berrantes. Nada de tecido duma
cor só, logo se perceberá por quê.
E da mesma forma que o presidente e o vice, alguns personagens têm seus nomes
distintivos. Tem, por exemplo, o Deputado do Som-Só, o Deputado da Ferrugem, o Deputado
Cinza e o Secretário Dormido.
Quando ergue o pano, está falando o Deputado do Som-Só, um escolado velhusco, que já
sabe que se falando num som só, todos dormem e as falcatruas se fazem com mais facilidade.
Tem o discurso escrito num papel gigantesco, difícil de manejar de tamanho. Como era de
esperar todos dormem, toda a Mesa, os vários deputados, todos os jornalistas, e até um único
operário que está nas galerias e ronca de papo pro ar. Só os serventes à direita é que parolam
suas intriguinhas de oficio, problemas de gorjetas, intercâmbio de amantes de deputados,
chamados de magnatas e banquetes oficiais – a vida deles. É o Quinteto dos Serventes.
E este é que acaba musicalmente porque o Deputado do Som-Só não acabaria nunca, se
não fosse entrar o Deputadinho da Ferrugem, muito novo ainda, filho de chefe político não há
dúvida, com ar de quem descobriu a pólvora. Não vê que tendo estudado direito e se formado
em nove anos rápidos, percorreu o Corpus Juris e toda a legislação existente, e com assombro
(lá dele) descobriu que ainda ninguém não legislara sobre o ínclito fenômeno da ferrugem nas
panelas de cozinha. E decidiu salvar a pátria. Se fechou seis meses a fio num cabaré, só
saindo pra comer dinheiro público na Câmara, e escreveu um discurso de embolada
maravilhoso sobre o dito assunto. Ele é que entrou pimpante, na emoção gavotística da estreia
felicíssima que os jornais já elogiaram. Está claro, durante todo o bailado é um entra-e-sai de
deputados que não se acaba. Ao passo que as galerias vão se enchendo pouco a pouco e
quando arrebentar a bagunçona, estará repleta.
Pois o Deputadinho da Ferrugem está louco pra falar, mas quem disse o Deputado do Som-
Só dar fim ao lero-lero. Agora todos acordaram, menos o Secretário Dormido, sempre de
bruços, sonhando sobre a mesa. O resto não, quer escutar a estreia do Deputadinho da
Ferrugem. Os jornalistas aspiram tomar muitas notas. Pegam do chão, ao lado, os seus maços
de papel pra notas, que pelo maço e o tamanho servem também pra outra coisa, e os lápis,
que lápis! desses gigantescos, feitos pra anúncio nos mostradores das papelarias. Mas vamos
ter o discurso, porque entrou um polícia muito lindo, até polainas brancas, bateu no ombro do
Som-Só e fez pra ele parar. Ele para que é só pra isso mesmo que ele existe e principiará
dobrando o discurso, dobrando que mais dobrando até o fim do CÂMARA-BALÉ.
O Deputadinho da Ferrugem fala enfim. Fala bem, fala verdade, e é tão gostosa a fala
andantino grazioso dele, que entre aplausos e gostosa satisfação toda a Câmara entra no
movimentinho suave se movendo pendularmente de cá pra lá, de lá pra cá. Menos o povo das
galerias que procura saber o que se decide da vida. Um operário não se contém afinal. “Pra
que falar em ferrugem de panela, se não tem o que cozinhar!” ele estoura. Outros querem que
se trate do problema do café. Os deputados se contrariam muito, o presidente bate no sinão
enorme. Ora, no princípio do discurso da ferrugem, o Secretário Dormido, que já estava
cansado da posição, se aninhara no colo do secretário seu vizinho e lhe dormira no ombro.
Meio que acorda com a baguncinha do povo, muda de posição outra vez. Se ajoelha no chão,
com a bunda nos calcanhares e se debruça no assento da sua própria cadeira, aí pondo sobre
os braços, a cabeça dormida.
Ora, nos bastidores estava esperando que o discurso acabasse o Deputado Cinza. Não que
pretendesse fazer discurso também, não vê que ele ia se comprometer. Mas o Deputado Cinza
é desses uns que gostam muito de estar bem com todos. Eu cá sou pelo que é justo, como
eles dizem. D’aí se vestirem completamente de cinzento, que é a cor neutra por excelência.
Pois do que mais ele havia de se lembrar! Industriou bem (pensou que industriou) a Mãe, uma
colona cheia de filhos, fez ela decorar um discursinho bem comodamente infeliz, contando que
os filhos tinham escola dada pelo Governo, roupa de inverno dada pela Liga das Senhoras
Desusadas e muito feijão com arroz que o Ministério da Abastança iria plantar no ano que
vem. Remédio então era mato, remédio, dentista, calista, manicura, boninas, water-closet e
balangandãs. A Mãe decorou, decorou, custava decorar aquele final dizendo que a vida
estava triste e o Governo era muito bom, não havia jeito de lembrar as palavras! Mas enfim
estava ali nos bastidores com o Cinza, esperando muito nervosa, diz-que era pra ela falar
naquele meio de tanta gente elevada tão limpa. De forma que quando, amedrontado com a
baguncinha o Deputadinho da Ferrugem acabou, uf! ela não quis entrar e o Deputado Cinza
teve que arrastar a infeliz pro recinto lustroso da Câmara. E a Mãe entra chamando a atenção
de todos. Coitada, botou o único vestido completo que ainda possuía. É aquele vestido todinho
encarnado vivo, duma cor só. Na cabeça, escondeu os cabelos destratados no lenço de
cetineta verde vivo. E traz consigo os três filhinhos que não tinha com quem deixar. Os dois
maiores, que andam, se agarram horrorizados na saia dela. O recém-nascido lhe dorme no
braço, envolto no xale amarelo cor-de-ovo. E de cor-de-ovo estão também os outros dois,
fazendinha que sobrou de incêndio. E a Mãe com os filhos botam a cor do alarma no recinto.
Que será! que não será! E o Deputado Cinza gesticulava pra ela: “Fala, diabo de mulher!” Mas
a Mãe estava horrorizada, queria, pedia pra sair, fugir dali. “Fala, diabo!” que ele gesticulava.
Então a Mãe se viu perdida. Numa espécie de delírio que a toma, se evapora todo o
discurso decorado. Sem resolver, sem decidir, sem consciência, sem nada, apenas movida por
um martírio secular que a desgraça transmite aos seus herdeiros, ela se põe a falar. Não são
dela as palavras que lhe movem a boca, são do martírio secular. São palavras duma verdade
não bem sabida, não bem pensada, são palavras bobas. Muitos deputados vão-se embora pra
não perder tempo. Outros adormecem. Falar nisso: o Secretário Dormido mudou de posição
outra vez. A cadeira estava incômoda decerto. O fato é que ele a empurra e sempre de joelhos,
põe os braços no chão e sobre eles descansa a cara dormida, agora se amostrando ao
público, e a bunda ao vento, erguida como parte principal dos secretários de Câmaras.
Bom, os demais não estão muito se amolando com a fala da Mãe, só as galerias lhe
devoram as palavras. E aos poucos, deputados, jornalistas, serventes, a Mesa, todos esses
anões subterrâneos do servilismo, utilizados pelos gigantes da mina de ouro, todos, pra não
escutar tanta besteira, se botam recordando o maravilhoso discurso sobre a ferrugem das
panelas de cozinha. E o mesmo ritmo balangado de antes volta aos poucos e afinal se afirma
franco, quando as palavras alucinadas da Mãe se tornam insuportáveis de ouvir. Tudo se
mexe, tudo cantarola, tudo dança na Câmara. Os jornalistas montaram a cavalo em suas
cadeiras e com pulinhos vão formando roda, afinal mostrando os títulos dos jornais ao público.
Os serventes também dançam de roda, se dando as mãos. O que fez o presidente? É que, não
podendo mais escutar os gritos lamentosos da Mãe, mas correspondendo a ele, a galeria,
realistamente se move, se revolta, insulta, berra, diz nomes-feios com razão. E o presidente,
movendo o sino engraçado, não vê que se esqueceu da vida e está brincando com o sino,
jogando ele no ar. Também o Deputado Cinza, quando viu a bagunçona estourar, disse
consigo: Bem, cumpri com o meu dever, agora lavo as mãos. Lavou mesmo. Lavou na água
astral do cinismo, e pra enxugá-las, puxou do bolso aquela espécie de lenço de Alcobaça,
lenço não, lençol vasto, de todas, mas todas as cores. De todas as cores.
Mas isto não se aguenta mais, é o cúmulo! Onde se viu agora o povo querer ter opinião!
Onde se viu nunca as Mães falarem! Aqui é que entra o destino precípuo da polícia dos
gigantes. Isso entram corvejantes nas galerias uns polícias, tiram os sabres com realismo cru,
e principiam chanfalhando o povo. Como reagir, ainda somos poucos, a coisa inda não se
organizou num destino unânime. Ainda não surgiu do enxurro das cidades, o Homem
Zangado, o herói moreno que os há-de anular na erupção coletiva final. E o povo foge, as
galerias se despovoam, enquanto mais dois polícias, que entraram no recinto da Câmara,
levam presa, aos empuxões, aquela doida. O pano cai com violência, sem achar mais graça
nenhuma na farsa.

SEGUNDA CENA
O ÊXODO
São os ritmos de uma marcha pesada, arrastada, fatigadíssima já. Sons tristes, sons
lastimosos, se diria de marcha fúnebre. Estamos numa dessas estaçõezinhas do trem-de-ferro,
postadas nos vilejos de três, quatro casas, pra serviço de embarque da grande indústria do
café. Até lhe puseram o nome de “ESTAÇÃO PROGRESSO”, que se lê na tabuleta do início
da plataforma, que começa no meio do palco. A estaçãozinha mesmo quase não se vê.
Apenas, na direita da cena, o princípio do edifício e quase meia porta apenas. É a tardinha.
Pra cá da plataforma e do edifício passa a linha do trem. No lusco-fusco rosado, os trilhos
ainda colhem um resto mais franco de luz. A paisagem do fundo ainda se percebe, cafezal,
cafezal, o cafezal infindável, no ondular manso dos morros. Nada mais.
Só aquela marcha pesada que vem chegando. Primeiro chegam os moços. São os colonos,
aqueles mesmos colonos da famosa Companhia Cafeeira S.A. que vimos despedidos no
primeiro ato. Na frente vieram os moços, mais fortes, que podem andar sem a ajuda de
ninguém. Rapazes e raparigas, cada qual vem por si, e param por aí, na espera do trem de
segunda classe, que ninguém sabe a que horas será composto. Não há mais vagões de
segunda classe. É que de todas aquelas terras felizes, agora tornadas invivíveis, o povo está
fugindo. Onde vão parar? São estes os que vão parar desocupados nas esquinas das ruas, no
parapeito dos viadutos, nos crimes da noite urbana, roubando quando podem, esmolando,
matando pra roubar. São os criminosos. Não os criminosos-natos, são os criminosos-feitos.
Pois os moços se arrancharam por aí, na espera do trem. Brincam, são moços. Os
namorados aproveitam pra namorar, se separando aos pares. Mas os outros passam o tempo
com brinquedos ásperos de colonos, se atiram coisas com intenção de machucar um pouco,
sem machucar não é brinquedo, meio que se generaliza esse brinquedo, até que aquela
rapariga mais perigosa teve a ideia melhor. Tirou da trouxinha um alimento, uma última
banana que toma o cuidado de mostrar bem. Todos ficam logo desejando e ela atira a banana
bem no meio da cena. Isso, os rapazes todos se atiram sobre a fruta boa, até os namorados se
esqueceram que amavam. É aquele bolo humano, pernas, braços, tombos, se mexemexendo
no chão. Um consegue a banana e com brutalidade se destaca do grupo, triunfante. Vai pra
comer, mas ainda com tempo se lembra da proprietária. Lhe põe a banana na boca que ela
morde com vontade, enquanto ele devora o resto. Ninguém mais está com vontade de brincar.
Uns sentam no chão, outros na plataforma. Fazem silêncio, mudos, pensativos, e se escuta
outra vez o ritmo lamentoso da marcha, na orquestra.
Agora são os casados que chegam. Estes vêm aos pares, braços dados, se ajudando. E
também se ajeitam por aí, sem mais nenhum ar de brinquedo. Não sabem brincar mais. O
coração está apertado com aquela solução de vida. Pois não venceram tantos trabalhos,
tantos sacrifícios, não aguentaram tantas omissões? Agora já estavam bem regularmente
arranjados na vida. Tinham enfim conquistado as graças daquela cidade terrível, postada
como sentinela impiedosa na abertura dos caminhos de serra-acima, dona das sete doenças
do frio, não deixando ninguém passar. Mas eles tinham conseguido vencer a ciumenta de
serra-acima e então ela os tomara pelas suas próprias mãos e os trouxera para aqueles chãos
felizes. E eles tinham amado tanto aqueles chãos... Ali a vida era boa, e o trabalho sadio,
muitos enriqueciam e se passavam para o bando dos gigantes... Eles amavam aqueles chãos
e quem disse pensar em partir outra vez! Haviam de viver e de morrer ali. Mas aqueles chãos
felizes e a cidade legítima foram traídos, a ruína chegara, o café apodrecera no galho. E como
o fumo ácido afugenta os insetos de beira-rio, eles também partiam de seus chãos,
afugentados pela fumaça torva do café queimado.
É quase noite já. A cólera ronda aquele troço de infelizes. O ódio aos gigantes da mina
fareja sangue no ar. Tudo está escuro, muito escuro já. Apenas na fímbria do horizonte uma
faixa encarnada violenta denuncia a existência de um sol. A orquestra marcha cada vez com
mais dificuldade, se arrasta aos socos pesadíssimos de pés exaustos. Muito longe se escuta
um rumor estranho, feio. Parecem uivos lamentosos, parecem choros de morte. E o rumor
aumenta pouco a pouco, aumenta. Agora se distingue bem: são uivos, são lamentos humanos,
são gritos horríveis de imprecação. E os colonos tapam os ouvidos, escondem os olhos, se
agitam, não suportam aquela visão horrível que vem chegando. E vem chegando os grupos de
velhos e crianças. Parecem monstros, pencas de monstros, aos três, aos quatro, se ajudando
em grupo, que ninguém pode consigo mais. O chefe da Estação Progresso surgiu da meia
porta. Atravessa a cena, e bem aqui na frente, na ribalta, pendura um cartaz que trouxe e lhe
põe uma lâmpada por cima, pra que todos saibam que
“TREM DE SEGUNDA CLASSE
NÃO HAVERÁ MAIS”
É o que diz o cartaz. E naquele estrondar de uivos, de lamentos lancinantes, os grupos vão
atravessando a cena toda e desaparecem. Ritmo cadenciado, lento, aos empuxões pesados.
Ritmo de coisa que marcha por desgraça, ritmo de supliciados. E o pano cai ainda mais lento,
como sem cair, enquanto os grupos marcham, se arrastam, se morrem naquela marcha
monstruosa.
TERCEIRO ATO

O DIA NOVO
O que eu chamo de “Dia Novo” é o dia da vitória da revolução que afinal acabou estourando
mesmo. Chegara enfim o tempo em que o povo não tivera capacidade mais pra não se
revoltar, se revoltara. Vai haver luta, briga brava em cena, que estamos num desses tentáculos
de guerra com que a revolução se espraiando pela cidade convulsionada, a dominara afinal.
As mulheres, no cortiço em que a cena se desenrola, são mulheres de operários, as mesmas
vestimentas vivas das mulheres dos estivadores do primeiro ato. Os soldados da situação
governista estarão num cáqui acinzentado bem neutro, contrastando com as cores vivas dos
revoltosos. Estes, carece fazer todos eles vibrar muito no colorido. São operários, estivadores,
ascensoristas em vermelho, rapazes estudantes com suas blusas de esporte, uniformes civis,
empregadinhos. E alguns soldados também, mas dólmãs abertos, lenço encarnado no
pescoço, libertados de seus quepes.
O pano subiu vagarento num completo silêncio musical. É noite, não se divisa nada no
escuro, apenas umas luzinhas vão se abrindo muito longe e talvez, no fundo uma pequena
mancha rubra. Um clarão de incêndio talvez. O palco está vazio. Depois de um meio minuto
decorrido assim, mais para o fundo do palco, se ilumina um lampião de rua. Luz bem fraca,
desses lampiões destratados de bairro pobre, não permitindo perceber ainda o pano de fundo,
jogando apenas a sua mancha branquiçada sobre o muro que lhe está na frente e separa o
pátio do cortiço em que estamos, da rua que faz o fundo do palco. Como que despertado pela
iluminação do lampião, um instrumento grave na orquestra principia rondando entre as
tonalidades, numa voz indecisa.
Eis que bem na frente, junto à ribalta, no canto direito de cena se acende uma lâmpada e o
espectador ainda pega a operária com os dois braços erguidos, no ato de fazer a ligação
elétrica. E a lâmpada nova apenas ilumina esse interior de casinha, uma das várias que dão
para o pátio do cortiço. Mas como a janela da casinha está aberta, uma réstia larga de luz vai
morder o chão do pátio. Pátio naturalmente vazio, sem plantas, sem nenhum prazer. Bem no
centro dele, junto do ponto quase, está o poço, que naquele bairro pobre e longínquo ainda
não chegou a rede de águas e esgotos.
Mas naquele pedaço pequeno de casinha operária, a mulher está meia inquieta, meia sem
quefazer. Vem à janela e fica espiando as bulhas da noite. A orquestra, soturna sempre, está
se arrepiando toda de frasinhas angustiadas. A luz da casinha mostra apenas, mais para a
frente a mesinha do rádio, talvez um banco, e mais no fundo um colchão no chão, onde já
dormem duas crianças-bonecas de três e cinco anos. Mas a mais velha, seus sete anos, está
acordada, muito entretida em mexer com o rádio. Afinal consegue obter uma ligação e na
soturnidade do ambiente, o espíquer agudo principia contando coisas da revolução. Meio
parece parolagem o que ele diz, cheio de frases-feitas. Diz que a revolução está vencendo,
mas isso toda a gente diz, faz três dias que o marido dela não aparece, e esta coisa não se
acaba nunca! Irritada a mulher fecha o rádio. Mas a orquestra agora já se completou, e divaga,
cheia de bulhas soturnas, arrepiada de frasinhas de ansiedade, um caos inquieto, de
interrogações e ameaças.
É neste instante que se abre a porta duma das casinhas do cortiço, do outro lado da cena. É
mais uma luz de lâmpada elétrica que morde o vazio do pátio. Um meninote surgiu, seus dez
anos. Se escuta um grito atrás dele. E o menino foge atravessando o pátio todo e vindo, por
instinto, na direção da outra luz, da casinha iluminada. Mas vem atrás dele a mãe correndo
com angústia, o persegue, o consegue alcançar já bem próximo da janela luminosa que o
chamou, o esconde nos braços, o protege com o corpo, não vá alguma bala perdida destruir
aquele filho. Com o grito, a mulher da casinha se precipitou para a janela. Porém, não foi ela
só que escutou o grito. De todas as casinhas, as portas se abrem, jogando jatos retos de luz no
pátio. E surgiram por elas mulheres, mulheres moças, casadas, algumas velhas trôpegas, vêm
saber, querem saber, correm todas pra junto da mulher e seu filho, estão assustadíssimas, o
grito ainda as desarvorou mais naquela inquietação medonha da espera, estão juntinhas umas
das outras, e se contam o seu susto, num cânone veloz, que as ideias e os sentimentos de
todas são sempre os mesmos e lhes encurtam numa corrida desesperada o pensamento e o
coração.
Um grito de alarma rasga a cena. Passou um homem fugindo pela rua, atrás do muro. A
orquestra zanga, esbravejando muito, e em bulhas abafadas na rua, por detrás do muro, se
percebe que um grupinho de homens persegue o fugitivo. Há um pequeno choque de armas.
Um tiro, um soluço de dor, um tombo pesado. Batem com fúria no portão do cortiço. As
mulheres estarrecidas nem se mexem, como que até se unem mais, um bloco humano
apavorado. Mas a menina da casinha sabe lá agora o que é revolução! Estava mexendo no
rádio outra vez e consegue ligar de novo. E o rádio, como falara mesmo, enquanto espera
notícias frescas pra comunicar, está no lero-lero duma varsa besta, bem “hora da saudade”, em
pleno choro de sensualidades fáceis. A varsa chega a tocar seu bom minuto, porque a mulher,
ainda muito tomada de pavor, à janela, junto das outras, não pusera reparo na festa. Mas afinal
percebe, faz um gesto de desesperada, vem, fecha o rádio, empurra a menina pra longe.
Mas corre à janela outra vez. Não vê que o barulho recrudesceu na rua, e não tem dúvida
mais, a revolução chegou no bairro afastado, e agora é um grupo grande que está brigando na
rua. O som parece agradável, que os soldados governistas estão mudos, mas a voz clara,
entusiasmada, viril dos revolucionários vai cantando, luta cantando, com o som da música
animando os corações. Mas batem com violência, batem muito no portão. A luta parece que
vai cessar outra vez, cessar não, vai passar, vai continuar subindo a rua, já deve ter virado a
esquina longe, o silêncio volta, mais claro, porque era visível, os revolucionários é que vinham
perseguindo os situacionistas.
Tam... tam... tâtam, batidas convencionais no portão. Isso uma mulher, completamente
vestida de amarelo, se destaca do grupo, corre feito doida, amalucada, corre rapidíssimo até o
centro do pátio, não sabe o que fazer, gira sobre si mesma na indecisão, morde uma mão com
a outra e afinal se atira ao portão e abre. O abre a meio, e pelo vão entram rápido dois
operários arrastando um chefe revolucionário, visivelmente um chefe, no dólmã aberto uns
galões de sargento e na camisa a mancha rubra do sangue. Está gravemente ferido e vai
morrer. Mas agora as mulheres perdem o medo, o esquecem, chamadas ao seu destino de
mulher. Se afobam. Entram nas casinhas, saem, trazendo água, panos, uma almofada bem
cor-de-rosa pra encostar o moribundo. O qual, carregado pelos dois rapazes e a esposa, veio
ser sentado na borda do poço. Mas ele não tem forças mais, escorrega para o chão, enquanto
a mulher o aninha no seu peito pra morrer, escorregada com ele. Os dois rapazes operários
não têm mais nada que fazer ali, o chefe está em melhores mãos. Um parte rápido e a mulher
que lhe vai abrir o portão, agora ficará junto deste, pra abrir se necessário. Mas o outro fica,
meio esquecido da luta, é o chefe do esquadrão dele que morre. Em pé, ereto, o rapaz sofre
muito e mesmo num momento, num gesto raivoso de vergonha, limpa com as costas da mão a
lágrima. Mas o chefe se estertora na morte. Chega a visita da saúde. Para de tremer, vai
erguendo o pescoço, se soergue nos braços da mulher que não existe mais pra ele, nem sabe
que ela está ali, não saberá mesmo? Os sentidos são muitos. Na aparência, o moribundo
apenas com os olhos desmesuradamente abertos e o ouvido à escuta colhe e devora os
ruídos da luta que recrudesceu na rua. Então o chefe repara no operário ali inútil, vendo ele
morrer. Faz um gesto raivoso de ordem. O operário vai pra obedecer, hesita, volta, beija a testa
do chefe e parte, desaparecendo pelo portão. O chefe soergue mais o torso, dá um sorriso de
esgar vitorioso e cai morto. A mulher chora soluçado sobre o corpo dele.
As coisas se precipitam. A luta está completamente generalizada por detrás do muro. As
mulheres, dignificadas pela morte do chefe, reagem, se entranhando na sanha da luta. Só a
menina, completamente de alma azul, está mexendo no rádio outra vez. Por vezes, em cima
do muro há um reflexo de baioneta. O portão às vezes é violentamente sacudido. Os cantos se
sucedem, coléricos, em fuga, vêm os gritos insultuosos dos soldados governistas, reagindo
cegos, feito anões. São anões. E o canto dos revolucionários se torna cada vez mais firme e
pertinaz. Não é agitado mais, nem rápido. É firme. É obstinado. É pertinaz. “Fogo e mais fogo!
Fogo até morrer” cantam num fugato feroz. A bulha da luta aberta é alastrada pela orquestra.
Se abre, muito no longe um clarão de incêndio mais forte. E aos poucos irá, nos clarões rubros
dos incêndios, se delineando a paisagem vasta do fundo. Estamos num subúrbio alto e todo o
pano de fundo, sem nenhum céu, é a vista da cidade. No longe, batido pelos incêndios, é o
centro da cidade com seus arranha-céus formidáveis. Mais próximo, são as casas de um, de
dois andares do bairro, com as janelas de perto suficientemente largas pra se abrirem,
aparecer gente nelas.
O portão foi de novo sacudido com ansiedade. E o soldado fugitivo surgiu no alto do muro,
trepado. Ao ver o grupo das mulheres, agora decididas, eretas, enérgicas, hesita. Mas sempre
a um fugitivo governista um grupo de mulheres soará menos perigoso que gente bêbeda de
revolução, o soldado pula no pátio. Mas logo atrás dele um revolucionário, um estudante
apenas, seu blusão de esporte, tem dezenove anos, vem perseguindo o covarde, apenas com
um pau na mão. Pula no pátio. Um clarão fortíssimo de um segundo ilumina toda a cena. Foi
uma granada que arrebentou bem perto, mas que a música, por elevação de arte, desdenhará
fazer soar. E o covarde, atemorizado com a criança que lhe vai bater de pau, como ele apenas
merece, atira a carabina longe e se joga de joelhos aos pés das mulheres, pedindo a vida.
Elas caem sobre ele e o estraçalharão sem piedade, sanhudas. O rapazelho troca o pau pela
carabina do soldado, abre o portão, se engolfa na luta, agora enfim entrevista pelo público. E o
canto enorme de guerra, nota contra nota, harmônico, sem grã-finagens mais de polifonias,
unânime, coletivo, se alastra largo e potente pelo teatro todo. “É guerra! É guerra! É
revolução!... É de parte a parte fogo na nação!... É hora, é hora, é hora! Chegou! chegou!
chegou!...” Uma das mulheres agarra o pau abandonado pelo estudantinho, corre ao portão, se
engolfa no bolo de morte, batendo, mordendo. A menina conseguiu ligar o rádio outra vez, que
agora está berrando as últimas notícias. O presidente da nação já fugiu do palácio e se
escondeu no quartel da polícia. Os revolucionários já estão de posse dos Correios e
Telégrafos... No Bairro Dourado os gigantes da mina do ouro resolveram morrer com muita
aristocracia, bancando Maria Antonieta, marias-antonietas de borra, em grande toalete, se
embebedando que nem gambás. “Patrão! Patrão! Patrão!” invocam os soldados governistas,
pedindo água pra anões subterrâneos. E fogem pelo pátio, entram pelas portas das casinhas,
fugindo. Os revolucionários os perseguem sem piedade. Um novo clarão vivíssimo, mais vivo,
mais próximo que o primeiro cega a cena toda, o muro cai com a explosão. As mulheres estão
lutando também. O rádio grita, berra, estronda, “Vitória! Vitória!” O presidente foi preso, o Bairro
Dourado está em chamas. Os clarões dos incêndios agora clareiam toda a cidade longínqua,
lambendo as paredes dos ilustres arranha-céus, as pombas enlouquecidas se agarram nas
marquesas dos arranha-céus, “Piedade! piedade!” berram os soldados jogando longe as
armas de aluguel. “Perdão! perdão! perdão!” Mas os revoltosos, cegos, impiedosos, que
piedade nada! “Café! Café! Café!” gritam desvairados, “café! café! café! Vitória! Vitória!” E vêm,
quem são! são os palhaços, são anões subterrâneos, são apenas um magote de deputados de
negro, vêm, são as prima-donas da vida, vêm, junto da ribalta, entre a casinha iluminada e o
poço, vêm, e com gestos de prima-dona, botando as mãos no peitinho, caem mortos, formando
um bolo de cadáveres divertido. E vêm, vêm também numa revoada, um ramilhete de aristôs
de ambos os sexos, casacas, decoletês, vidrilhos, garrafas de uísques, de champanha, de fine,
vêm até a ribalta, do lado oposto ao dos deputados e caem mortos noutro bolo engraçado de
esqueletos podres, emborcando pela última vez as garrafas desonradas.
E vem, mas até parece outra, no delírio da vitória, vem a Mãe no seu vestido vermelho
estraçalhado, um seio todo à mostra, o lenço verde da cabeça caindo num dos ombros, vem
completamente louca, delirando, com uma enorme bandeira vermelha e branca nas mãos.
Avança, corre, seguida de muitas mulheres tão selvagens como ela, tão assanhadas, tão
doidas, manchadas de sangue, rasgadas, muitos revoltosos as seguem cercando o grupo
feroz. Ferozes, ferozes, todos rindo em esgares horríveis, caras numa exaltação primária, são
monstros admiráveis, irracionais, faz medo olhar. Todas as janelas de fundo estão abertas,
iluminadas, com gente incitando os vitoriosos. Os incêndios tomaram tanto a cidade que tudo
está claro agora, violentamente clareado numa luz vermelha. A Mãe trepou no poço. Tem aos
pés o chefe que morreu, tem as irmãs em torno, os revolucionários cercando, todo o palco
cheio da vitória. Os camarotes, frisas do proscênio são invadidos por mais gente da vitória com
suas enormes bandeiras vermelho-e-branco oscilando. Só a menina, depois que o rádio
acabou de falar, já cansadinha foi dormir com os manos no colchão.
A calma desce do ar, a calma forte, já agora mais sadia e humana da vitória, e a Mãe se
imobiliza. Todos são dominados pela grandeza augusta daquela mulher. E ela entoa o hino da
vitória da vida, que todos repetem. “Eu sou a fonte da vida, Força, Amor, Trabalho, Paz!...” Os
holofotes estraçalham as últimas escurezas esparsas no ar. E o povo berra imensamente
vasto: “PAZ!...” O pano cai com estrondo.
Eu me sinto mais recompensado de ter feito esta épica. Dei tudo o que pude a ela, pra torná-
la eficaz no que pretende dizer, lhe dei mesmo com paciência os mil cuidados de técnica, pra
convencer também pelo encantamento da beleza. Mas duma beleza que nunca perdi o senso,
a intenção de que devia ser bruta, cheia de imperfeições épicas. Nada de bilros nem de buril.
Pelo contrário, muitas vezes a perversidade impiedosa da ideia definidora por exagero, fiz
acompanhar da perversidade tosca da voluntária imperfeição estética.
Me sinto “recompensado” eu falei, não tive a menor intenção, nem sombra disso! de me dar
por feliz. Como eu tenho uma saudade incessante dessa paz, dessa “PAZ” que os vitoriosos
invocaram para um futuro mais completado em sua humanidade. Eu tenho desejo de uma arte
que, social sempre, tenha uma liberdade mais estética em que o homem possa criar a sua
forma de belezas mais convertido aos seus sentimentos e justiças do tempo da paz. A arte é
filha da dor, é filha sempre de algum impedimento vital. Mas o bom, o grande, o livre, o
verdadeiro será cantar as dores fatais, as dores profundas, nascidas exatamente desta
grandeza de ser e de viver.
Há-de ser sempre amargo ao artista verdadeiro, não sei se artista bom, mas verdadeiro,
sentir que se esperdiça deste jeito em problemas transitórios, criados pela estupidez da
ambição desmedida. Um dia o grão pequenino do café nunca mais apodrecerá largado no
galho. Nunca mais os portos de todos hão-de se esvaziar dos navios portadores de todos os
benefícios da terra. Nunca mais os menos favorecidos de forças intelectuais estarão nos seus
lugares, porque não tiveram ocasião de se expandir em suas realidades. Não terão mais de
partir, na busca lotérica do pão. Então, estarão bem definidas e nítidas pra todos as grandes
palavras do verbo. Terá fraternidade verdadeira. Existirá o sentido da igualdade verdadeira. E
o poeta será mais verdadeiro.
Então, o poeta não “quererá” ser, se deixará ser livremente. E há-de cantar mandado pelos
sofrimentos verdadeiros, não criados artificialmente pelos homens, mas derivados
naturalmente da própria circunstância de viver. Me sinto recompensado por ter escrito esta
épica. Mas lavro o meu protesto contra os crimes que me deixaram assim imperfeito. Não das
minhas imperfeições naturais. Mas de imperfeições voluntárias, conscientes, lúcidas, que
mentem no que verdadeiramente eu sou.
CAFÉ
TRAGÉDIA CORAL EM TRÊS ATOS

O POEMA

(São Paulo, Natal de 1942)
PRIMEIRO ATO

PRIMEIRA CENA
PORTO PARADO
(A cena representa o interior de um armazém de café, no cais. Os estivadores na
entressombra)
I
CORAL DO QUEIXUME
Os Estivadores:
Minha terra perdeu seu porte de grandeza...
O café que alevanta os homens apodrece
Escravizado pela ambição dos gigantes da mina do ouro.
A planta nobre, o grão civilizador
5 Que jamais recusou a sua recompensa
Nada mais vale, nada mais.
Que farei agora que o café não vale mais!
Essa força grave da terra era também a minha força.
Ela era verde e me ensinava o futuro.
10 Ela era encarnada e audaciosa
Era negra e aquentava o meu coração.
Foi ela que deu à minha terra o seu porte de grandeza
E hoje nada mais vale, nada mais.
Café!... Café!... Eu exclamo a palavra sagrada
15 Café!... O seu fruto me trazia o calor no coração
Era o cheiro da minha paz, o gosto do meu riso
E agora ele me nega o pão.
Que farei agora que o café não vale mais!
Porte de grandeza, odor da minha terra, força da minha vida,
20 Que farei agora que pra mim não vales mais!
(Os estivadores se encostam nas pilhas de sacas de café, desanimados. Um grupo deles, no
chão, está jogando baralho.)



II
MADRIGAL DO TRUCO
Um Jogador solista (em parlato):
– Truco!
(cantando):
Arreda porteira! Aí vai
Os peitos do Zé Migué
Laranja não tem caroço
25 Jacaré não tem pescoço
Truco de baralho velho!
O grupo madrigalista:
Seis papudo! Sai tapera
Seis seu cara de tatu
Seu portão de cemitério
30 Arapuca de bambu
Toma seis que três é pouco!
Sai do caminho porqueira
Toma nove, seis é pouco
E diga porque não quer
35 Quem não pode não me espera
Seu cara de jacaré!
Truco mesmo! Sai perneta
Reboco de igreja velha
Esteira de bexiguento
40 Sapicuá de lazarento
Sumítico arrisque o tento!
Trucou, aguenta a parada
Carrapato é bicho feio
Tem cabelo até no joeio
45 Mosquito não leva freio
Pernilongo não se capa!
(O compositor poderá, se quiser, ajuntar com o truco, de um certo momento em diante, mais
dois cantores jogando a morra, um italiano e um preto, porque assim o ariano cantará “Trè!
Cinque!” etc., lá na língua de Dante, e o tizio, cá bem na língua nossa de Camões, secundando
“Dois! Óito!”)
III
CORAL DAS FAMINTAS
(Umas mulheres aparecem na fresta da porta de fundo do armazém. Correm a porta larga que
agora deixa ver cais vazio e mar vazio. E as mulheres dos estivadores irrompem
desabaladamente pela cena.)
As Mulheres (em frases amontoadas):
– Eu tenho fome! Meus braços já se armam na ordem fatal da maldição!
– Não sou mais eu! Não choro mais em vão!
– Porto parado! mar vazio! sangue à vista!
50 – Eu tenho fome! Na minha boca nasce a palavra da decisão!
– Não sou mais eu! Chegou a hora da destruição!

Tutti das Famintas:
Não aguento a fome
Não há mais perdão
Deus dorme nos ares
55 Os donos na cama
Acordo no chão
Eu quero o meu pão!
Não aguento a fome
Lei no coração:
60 Malditos os homens
Maldito este tempo
Maldita esta vida
Eu quero o meu pão!
Eu quero o meu pão!
65 Não aguento a fome
Nesta maldição
Ódio em minha boca
Sangue nos meus olhos
Ordens nos ouvidos
70 Eu quero o meu pão!
Eu quero o meu pão!
Eu quero o meu pão!

Os Estivadores (enquanto a orquestra se melancoliza, baixinho, repetindo em
eco a mesma frase melódica final das Famintas):
– Quem pode dar pão!...
IV
IMPLORAÇÃO DA FOME
(À última pergunta, os estivadores e suas mulheres olham para as pilhas de sacas inúteis de
café. Ficam como que extáticos, delirantes, quase sensuais de amor.)
Os Estivadores e suas Mulheres (coral misto):
Ôh grão pequeno do café, escuta o meu segredo
75 Grão pequenino
Não te escondas assim no silêncio infecundo
Grão pequenino
Não dorme na paz falsa da morte, a fome indica os caminhos
A fome vai fatalizar os braços
80 Grão pequenino do café!
Pois não escutas o rebate surdo das ventanias
Grão pequenino
Não vês o clarão breve dos primeiros fogos
Grão pequenino
85 Logo eu te acordarei da paz falsa da morte
E tu reviverás, razão da minha vida,
Grão pequenino do café!
EU SOU AQUELE QUE DISSE:
Eu tenho fome! eu tenho muita fome!
90 Grão pequenino
É uma fome antiga, de milhões de anos que renasce
Grão pequenino
Nem todo o trigo do universo feito pão
Acalmava esta fome antiga e multiplicada
95 Fome de fome
Fome de justiça
Fome de equiparação
Fome de pão! fome de pão!
(O pano vai caindo)

SEGUNDA CENA
“COMPANHIA CAFEEIRA S.A.”


I
CORAL DO PROVÉRBIO
(Os colonos, acabado o almoço, retomam de má vontade o trabalho de colheita, maltratando
as plantas. Aliás, pouco antes um meninote colheu uma fruta madurinha daquela laranjeira
nascida em pleno cafezal, foi pra chupar e jogou fora. Velhos e velhas sorriram melancólicos,
coralizando breve e reflexivamente sobre o provérbio: “Laranja no café – É azeda ou tem
vespeira”. E retomam de má vontade a colheita. Um velho se exaspera, dá um pontapé na saia
do cafeeiro, justo quando aparecem os donos da Companhia Cafeeira S.A. e seus
comissários.)



II
A DISCUSSÃO
Os Donos (solenes):
– A ordem é de expulsar o que maltrata as árvores inocentes!
Colonos (homens melancólicos e mansos):
– Malvado o que abusou da inocência do fruto, o
[encarcerando nos armazéns insaciáveis, o
[queimando nas caieiras clandestinas da madrugada!
Os Donos (ásperos):
– Tonto é o que fala sem saber as altas leis da História!
Colonas (se abespinhando, a várias vozes
amontoadas):
– História! A fraqueza do humilde, a esperteza do sábio!
5 – Não posso mais! Não posso mais!
Colonos (irritados, entrando na resposta das mulheres):
– Ainda o último verão não secava os caminhos e já me
[interrogavam as manhãs... O alarma vem
chegando...
Os Donos (muito a gosto):
– Lavamos nossas mãos, eis vossos donos novos! (com
[gesto imponente aos Comissários) Falai, donos
finais!
(Estupor geral dos colonos.)
Colonas:
– O homem não é propriedade do homem!
– Não posso mais! Não posso mais! (bis, ter, ad libitum)
10 – Mas quem paga! quem paga! quem paga!
Os Comissários (querendo acalmar, num uníssono
mecânico de quem já sabe de cor o que vai dizer):
– Oh fecundos trabalhadores rurais! Vós sois a fonte de toda
a grandeza de nossa querida pátria!
Falafalar é prata mas a paciência
é ouro. Ora sulcamos o mare
magnum encapelado duma crise
mundial que ameaça subverter a
santa ordem das coisas...
Colonas (interrompendo irritadíssimas):
– Quem paga! quem paga! quem paga!
– Não pode ser! Não pode ser! (bis, ter, ad libitum)
– Fome chegou! Fome chegou! (ad libitum)
Comissários (imperturbáveis):
15 – ... a paciência é a maior virtude do operário! Os respeitáveis
pais-da-pátria já garantiram ufanos
que nem bem finde o próximo verão,
secador dos caminhos, as Câmaras
alvorotadas cuidarão do enigmático
problema do café! Fé!... Fé!...

Colonas e Colonos (amontoados):
– O ano que vem! (sempre frases repetíveis ad libitum)
– Dia de São Nunca!
– Não posso mais!
– Quem paga! quem paga! quem paga!
Comissários e Donos:
20 – Mas senhores fecundos trabalhadores rú-
A Coloniada (em hochetus):
– Isso é conversa...
– ... pra boi dormir!
– Palavras ocas...
– ... ouvidos moucos!
Donos e Comissários (em hochetus):
25 – Calai-vos, brutos!
– Respeitai os chefes!
As Colonas (avançando dois passos):
– Mas tendes fome! tendes fome!
Comissários e Donos (depois de leve hesitação):
– Mas estamos profundamente tristes.
Colonos velhos:
– Tristeza não paga dívida!
Os Rapazes (avançando dois passos, feito as
COLONAS):
30 – Triste, de barriga cheia!
As Moças (caçoando amargas):
– Vou fazer um vestido com a chita tristeza!
As Casadas (avançando mais um passo, no rojão):
– Vou dar pra meu filho só leite tristeza!
Casados e Velhos (avançando também mais um
passo, coléricos):
– Eu pago armazém com dinheiro tristeza!
Donos e Comissários (inocentérrimos):
– Mas que quereis vós que façamos nós!
Colonos (tutti):
35 – Pagar!
Comissários e Donos:
– Pagar não podemos.
Colonos:
– Pagar!
Comissários e Donos:
– Pagar não podemos!
(Bagunça coral dos colonos, a várias vozes mistas, sobre exclamações a escolher: “Unha de
fome!”; “Avarentos e avaros!”; “Mentira! Mentira!”; “Maldição!”; “Quem paga! quem paga! quem
paga!”.)
Comissários e Donos (uníssono):
– Paciência! Pagar não podemos! se arranjem!
(Silêncio completo de supetão, coros e orquestra. Os colonos oscilam pra frente no desejo de
avançar e matar. Comissários e Donos recuam meio passo, levando a mão aos revólveres. O
que decidir! E súbito, numa violenta rajada da orquestra:)
Colonos (tutti):
40 – EU SOU AQUELE QUE DISSE: Não fico mais neste
[pouso maldito! Eu parto!
Eu vou-me embora! Adeus! adeus!
(Donos e Comissários aproveitam a decisão pra sair, meio com excessiva pressa. Dois
colonos que, durante a discussão, tinham mordido laranjas sem reparar, jogam fora as frutas,
repugnados, enquanto ecoa pianíssimo na voz exausta das velhas o provérbio: “Laranja no
café – É azeda ou tem vespeira”.)
III
CORAL DO ABANDONO
(A orquestra se acalmou, tristíssima, abatida. Nos colonos imóveis bate nítida a visão da
partida. Estão abandonados a si mesmos. Já pelo fim do cântico, irão partindo primeiro as
velhas, depois as casadas, esboçando um movimento de êxodo.)
Os Colonos (coral a seis vozes mistas):
Um tremor me alucina o pensamento...
Nos meus pés indecisos vão rolar as estradas
A minha voz de porta em porta
Há-de implorar o direito de vida...
45 A cada volta do caminho
Na poeira vermelha que me embaça os olhos
E apaga a minha voz
Me sentirei morrer nessa morte ignorada
Que o sol dos verões seca logo
50 E a poeira cobre eternamente.
E nada ficará como prova do crime insensato.
No túmulo das estradas estão escondidos
Milhares de mortos de bocas abertas.
Qual a culpa que me castiga
55 Na eternidade desta boca aberta?
Esta boca aberta a que ninguém responde
Boca aberta que o sol dos verões seca logo
A que a poeira apaga a voz.
Tutti (harmônico, de caráter hínico):
Povo sem nome das terras aradas
60 Tu vais morrer na poeira das estradas!
Mas uma voz te mandará do espaço
A lei maior te fataliza o braço!
Muitas vezes a gente se revolta
Não que falte a paciência de lutar
65 Muitas vezes a gente se revolta
Por incapaz de não se revoltar.
(Pano)
SEGUNDO ATO
PRIMEIRA CENA
“CÂMARA-BALÉ”
(A cena representa o recinto duma câmara de deputados. Junto à ribalta a mesa da
presidência, anfiteatro das bancadas em seguida, e no fundo, a meia altura, as galerias do
público.)
I
QUINTETO DOS SERVENTES
(Junto à ribalta, os cinco serventes em murmúrio, se comentam coisas deputadais, jogatinas,
cambalachos, amantes, gorjetas. Todos dormem no recinto. Durante o diz-que-diz-que dos
serventes, está falando um deputado velho, bem sabido na arte das câmaras.)
O Deputado do Som-Só (num som pedal que durará
todo o quinteto):
– ... Plápláplá chiriri côcô pum. Blimblimblim téréré
xixi pum. Furrum-fum-fum, furrum-fum-fum. Pipi pipi pipi pipi a
caridade pôpô. Porque zunzum zunzum zunzum baile das
rosas lero-lero lero-lero lero-lero lero-lero! Cacá cacá cacá
cacá cacá cá-pum?... Pois tataca teteca titica totoca tutuca!
Pum!... Côcô pum!... Xixi pum!... Pipi pum!... Sclá sclá sclá sclá
sclá sclá sclá sclá dem-dem pum!... pum!... Téréré téréré téréré
téréré a grande dama pôpô. Bois sacré railway Tobias Barreto
patati lenga-lenga fonfom pum. Sclá sclá sclááa!...
Scláááááa!... Scláááááááááááááá-scláááááááááááááááa!...
Xi!... Xi!
(Mas entrou o deputadinho estreiante filho-de-papai que está louco pra falar. O polícia bate no
ombro do Deputado do Som-Só dizendo pra parar e este obedece com mansidão. Agora todos
se acordaram, menos o Secretário Dormido e querem escutar.)
II
A EMBOLADA DA FERRUGEM
(No fim de cada estrofe os deputados aplaudem, convencionalmente frenéticos. E estão se
conversandinho sobre como vai a saudinha, cassinos, comissões, amantes, mulatas, corridas
de cavalos e o presidente da República pôpô. Aos poucos, com o ritmo gostoso da embolada
vão se movendo num vaivém de corpos agradável e em breve toda a Câmara, a Mesa,
deputados, jornalistas, serventes, está dançadançando no alegrete celestial. Uma voz da
galeria, gritará num momento dado, indignada, protestando.)
O Deputadinho da Ferrugem:

Sobre a ferrugem
Das panelas de cozinha
Do país maior mistério
5 Diremos uma cousinha
O assunto é sério
Que as cozinheiras já rugem
Coléricas com a ferrugem
Das panelas de cozinha.
10 Sobre a cozinha
Com ferrugem na panela
Tragédia gloriosa e bela
Desta pátria queridinha
Ouvide! embora
15 Nossas palavras se sujem
No tremedal da ferrugem
Das panelas de cozinha.
Porque as panelas
Com ferrugem, meus senhores,
20 Na cozinha são penhores
De vitamina mesquinha
Pois a verdade
Não se oculta com a babugem
Da Oposição: há ferrugem
25 Nas panelas de cozinha.
Dizer que não
Há ferrugem quem dirá
Nas panelas de cozinha
Garantimos que isso há
30 Juramos que há
E os maus não tugem nem mugem
Pois bem sabem que há ferrugem
Nas panelas de cozinha.
E tantas provas
35 Da cozinha não encobrem
Que as panelas se manobrem
Com essa ferrugem daninha
E se quiserdes
Damos prova de lambugem
40 Rejurando que há ferrugem
Nas panelas de cozinha.
E se a ferrugem
Não sairá sem mais aquela
Da cozinha na panela
45 Por ser cousa comezinha
O que propomos
É deixar que se enlambuzem
Nossos lábios com a ferrugem
Das panelas de cozinha.
III
A ENDEIXA DA MÃE
(Mas sucedeu que com o grito do homem irritado, as galerias principiaram se manifestando
ainda tímidas. Vem um ritmo batido de vaia, murmurando num terceiro plano sonoro “Café,
café, café – Café, café, café” um sem-número de vezes. O presidente bate o sino. Todos
reprovam muito, escandalizados, a falta de educação das galerias, com aquele povinho, numa
bagunça ainda discreta, em que se escutam, espirradas num stretto surdo, frases como “Vá
carregar piano!”; “Téréré não resolve!”; “Isso é conversa pra boi dormir!”; “Desgraça pouca é
bobagem!”; “Deixa de lero-lero!”. Durante a baguncinha o Deputado Cinza aproveitou pra
entrar no recinto da Câmara. Entrada espetacular, porque ele vem puxando a Mãe. Ela se
assusta com o ambiente, quer fugir. O Deputado Cinza ordena que ela fale, ela implora partir,
ele insiste. E a Mãe, se vendo mesmo perdida, no medo, no susto, meio que delira.)
A Mãe:
50 ... Depois que o grão apodreceu no galho
A miséria chegou com seus dias compridos
E as noites curtas por demais que a fome acorda.
Nunca mais o meu filho fugiu da horta
Amassando na boca as alfaces.
55 Os peitos das mães já secaram
Caíram as cercas das hortas
Vendeu-se a vaca, fugiu o sabiá dos pomares
E muitos homens jazem podres
Nos botequins de beira-estrada
60 Nos armazéns do cais vazio
Nas grunhas do conluio da noite.
Falai se há dor que se compare à minha!...
Nos caminhos da noite pressaga
Os infelizes vêm chegando, vêm chegando
65 Conduzidos pela estrela da cidade.
São todos os que abafaram o sonho, meninos
Todos os que só amaram no susto e no arrependimento da procriação
Os que se viram já velhos sem ter o que recordar.
São os famintos, são os rotos, são os escravos,
70 São os mil e um cativos da vida, em procissão.
Falai!...
Falai se há dor que se compare à minha!...
No avanço lerdo dos bois
Os infelizes vêm chegando, vêm chegando.
75 A sentinela avançada de serra-acima
Se erriça toda de estátuas, de espantalhos, de estafermos doentes
Movidos pelo rito da esmola e do furto.
Acaso não vedes que o ponteiro está chegando na hora?
As estátuas comungarão fatais no crime hediondo
80 Acaso não vedes que o ponteiro chega na hora do crime hediondo?
Os peitos da Mãe se enrijarão no escudo seco de aço
Ruirão por milagre os muros, ruirão fortalezas e forças
A guerra vai passar com seu rancho de peste e de morte
Varrendo tudo na batucada infernal.
85 Falai!... Falai!...
Falai se há dor que se compare à minha!...
Ôh gigantes da mina do ouro
Ôh anões subterrâneos da servidão
Ôh magnatas e seus poetas laureados, galões e galinhas,
90 Pastéis, pastores, professores, jornalistas e genealogistas,
Furta-cores camiseiros e pontapezeiros,
Ôh melancias e melaços, burros borras, borrachas, molhos pardavascos
Ôh grandavascos e vendidavascos
O vosso peito ladrilhado com pedrinhas diamantes
95 É concho e vazio feito a bexiga do Mateus
Monstros tardios sem olhos sem beijo sem mãos
O que fizestes do sentido da vida!
Ôh vós gigantes da mina e vós anões subterrâneos
Falai!
100 O que fizestes, o que fizestes do sentido da vida!...
EU SOU AQUELA QUE DISSE:
Raça culpada, a vossa destruição está próxima!
Já o pato bravo avoou na escuridão da noite
E as gaivotas gritam no alarma lunar da praia!
105 Pois não vedes que os seres do campo e da rua
Estão se aquerenciando no malhadouro da praça
Já indiferentes ao chamamento passivo do ninho!
Raça culpada, a vossa destruição está próxima!
A aurora feito um gato verde se assanha por trás da cidade
110 E rompe antes do dia as barras triunfais do dia!
(Só que pelo meio da endeixa o povo das galerias não se conteve mais. E enquanto os
deputados, não querendo escutar as verdades que a Mãe estava clamando, reencetavam a
dançinha e a cantarola da embolada anterior, o povo estourou numa bagunçona desesperada.
Gritam em vozes amontoadas, em sanha: “Canalhas! Vendidos!”; “Infames! Malditos!”; “A raiva
incendiou meu desejo! Não quero mais dormir!”; “Nasceu a tigre dos caminhos! Eu baterei na
porta dos gigantes!”; “Um chefe! Um chefe!”; “Ele não para de crescer! Ele está rutilando por
trás da cidade!”; “Café, café, café – Café, café, café!”. Os polícias estão chanfalhando o povo
das galerias. Levam a Mãe presa. Os deputados dançandinho sempre.)
(Pano com estrondo)
SEGUNDA CENA
O ÊXODO
(Na estaçãozinha do trem-de-ferro. Vêm chegando os colonos, respondendo ao apelo da
cidade. Primeiro chegam os solteiros, rapazes, garotas. Estão esperançados, quase
brincalhões. Confiantes de viver na cidade terrível.)
I
CORAL PURÍSSIMO
Os Solteiros:

Quero trabalho
Firme nas ancas
Sede na boca
Força no braço
5 Brinca esperança
No peito cheio
Quero o trabalho.
Quero alegria
Mão na cintura
10 Canto na boca
Braço no braço
Peito batendo
De amor ardente
Quero a alegria.
15 Quero descanso
Cintura grossa
Riso na boca
Filho no braço
Sopa cheirosa
20 Calma de todos
Quero o descanso.
II
MIMODRAMA
(Comentados e sublinhados pela orquestra, os moços gastam o tempo entrebrincando. Uns
namoram, outros empatam o jogo dos namorados. Principiam se atirando coisas, chapéus,
trouxinhas de roupa. E uma tira de sua trouxa a banana que mostra no ar. Todos esperam com
ânsia. Ela atira a fruta no chão, e os rapazes avançam na disputa, rolam no trilho, um bolo de
homens. O que consegue pegar a banana, vai pra comer, se lembra da rapariga, lhe põe a
banana na boca. Ela morde com volúpia, ele engole o resto. Vão se acalmando, sentando por
aí, na espera do segunda-classe. A orquestra cai no ritmo pesado de marcha, pesado.)
III
CORAL DA VIDA[442]
(Agora vêm chegando os casais. Estão fatigados e ardentes. Sérios. Aos pares. Os solteiros
logo se afinam com os recém-chegados que também se arrancham por aí na espera do trem.
Há como que uma intensificação ardente de vida em todos. A tarde está se avermelhando.)
Casados e Solteiros (coral misto a quatro vozes):
Cafezal grande na calma fatigada da tarde...
Uns homens de fala vagarenta e de nariz furão
Conquistaram estas paisagens, os chãos mais felizes da terra
25 Para sobre eles plantar o oceano da esmeralda
E eu vim à chama vermelha do grão pequenino.
Porém no princípio dos chãos está postada a cidade terrível
Grandiosa e carrancuda, histórica e completa
Cheia de passado e futuro, inimiga cinzenta do estranho,
30 Dona das sete doenças irascíveis do frio.
No seu rumor resmungam as animosidades desconfiadas
Dos seus bueiros brota o sentimento da solidão.
A cidade terrível repudiou o mar facílimo
E se escanchou grimpada no penedo mais alto de serra- -acima
35 Gritando a todos o seu gélido e agressivo Quem vem lá!
Eco, fora de cena:
– Quem vem láááaa!...
[Casados e Solteiros]:
Mas eu penetrei na cidade inimiga e os meus pés não queriam andar de saudade
E a Terrível riu seu riso de garoa pervertida
E me fez punir as sete provas.
40 Ela me fez passar pelas sete provas da promissão.
A primeira foi obedecer mas eu me opus.
A segunda foi mandar e então eu obedeci.
A terceira foi sonhar mas eu me equilibrei num pé só e não dormi.
A quarta e a quinta foram roubar e matar
45 Mas eu, cheio da fragilidade, beijei de mãos abertas.
A sexta, a mais infamante de todas, foi ignorar.
Mas eu, chorando, provei o pó amargo da rua e lembrei.
Então a cidade insidiosa, cheia de música e festa,
Passou a mão de bruma nos meus olhos, me convidando a esquecer.
50 Mas eu com uma rosa roubada na abertura da camisa
Gritei no eco do mundo: Eu sou!
Eco, fora de cena:
– Eu soooooou!... Eu sooooooooooooou!...
[Casados e Solteiros]:
Pois então a cidade se fez mãe e eu descansei nela uma noite e um dia.
Ela é a mãe do trabalho, mãe do pensamento,
55 Ela é a mãe carinhosa do lar fechadinho bem quente
E nas suas noites graves todos dormem sem sonhar.
Só na lucidez do seu frio ácido
Só nela se pode beber o vinho generoso de corpo grosso
Só nela é permitido bailar sem vertigem
60 Só nela é possível querer sem miragem
Só nela, feiosa e leal, se erriça na boca do homem
O sal da verdade da hora
Sem se tornar salobro à glória do passado.
E depois que eu descansei a noite e o dia
65 A cidade me levou para os chãos mais felizes da terra
Onde tudo é carícia no seio dos morros mansos
Onde o calor é ouro no dia coroado por noites de prata.
Ôh cafezal! cafezal grande na mágoa sangrenta da tarde
Gosto de um tempo acabado, será permitido sonhar?...
70 Raça culpada, raça envilecida maldita,
Os gigantes da mina com os seus anões ensinados
Traíram a cidade e os chãos felizes.
E tudo foi, tudo será desilusão constante
Enquanto não nascer do enxurro da cidade
75 O Homem Zangado, o herói do coração múltiplo,
O justiçador moreno, o esmurrador com mil punhos
Amassando os gigantes da mina e peidando para os anões.
O urro da tempestade acorda no seio alarmado do horizonte[443]
De cada planta o cafezal destila o veneno grosso do ódio.[444]
80 Em cada mão comichona a volúpia da morte.
O meu passo deixou rastro de sangue no caminho,
O céu se embebedou de sangue, o meu suor cheira sangue.
O herói vingador já nasceu do enxurro das cidades.
Ele é todo encarnado, tem mil punhos, o olhar implacável
85 Todo ele comichona impaciente no desejo voluptuoso da morte.
Neste instante ele está vestindo a armadura de ouro e prata[445]
O seu chapéu de aba larga é levantado na frente
Ele tem uma estrela de verdade bem na testa
Ele tem um corisco no sapato
90 E um coração humano no lugar do coração.
(Só um largo listrão encarnado marca a fimbria do horizonte, no longe. Escureceu muito, e o
chefe de estação precisou pendurar uma lâmpada sobre o anúncio que trouxe. E o anúncio
avisa: “Trem de Segunda Classe – Não haverá mais”. O silêncio abatido abafa os corações.)



IV
CORAL DO ÊXODO
(E no silêncio abafado, de muito longe, vem aos poucos assombrando os ares um lamento
medonho de uivos, gritos, de dor, imprecações. Os que estão ali, nem mesmo os solteiros
conseguem se dominar, choram, escondem os rostos, gesticulam desesperados, se
contorcem. Aquela marcha horrenda de uivos, de imprecações, marcha de morte. Estronda
enfim bem perto e surgem aqueles velhos, aquelas velhas macabras, e crianças, esqueletos
doentes aos grupos de três, de cinco, se arrastando na marcha do êxodo. E passam,
atravessam lentamente, caindo, se arrastando, a cena toda, na escureza preta, só rasgada no
fundo pelo listrão encarnado do último sol.)
Velhos e Crianças (uivando):
– Aaáaai... Aiááááai!...
– Ai, meu Deus!... Ai, meu Deus!...
– Vuúuuuuu... Vuuúuuuuuuuuu...
(Estes três gritos formam a base obstinada de todo o coral. Além deles, se desfralda um tecido
lamentoso de frases episódicas possíveis, como:)
– Não posso mais! (bis, ter, ad libitum)
95 – Quero viver!
– Quero morrer!
– Eu sinto frio!
– Eu tenho fome!
(Etc.)
(Num momento dado, quando a marcha fúnebre do êxodo já se arrasta em pleno palco, os
moços e os casais, no seu desespero, clamam ferozes, desumanos, mandados pela
predestinação.)
Casados e Solteiros (entrando no coral):
Eu não fui criado do abraço noturno dos pais e das mães
100 Meu nome foi dito primeiro nos sulcos da terra profunda
Os ventos dos ares entraram nos sulcos da terra profunda
O beijo das águas baixou sobre os sulcos da terra
Sou a fonte da vida!
Que mando fatal me encaminha?
105 Quem sangra os meus olhos? Quem arma o meu braço?
Quem age por mim contra o meu próprio horror da matança?
É a fonte da vida
Que ordena vingança
Vingança!
(O pano cai lentíssimo)
Terceiro ato
O DIA NOVO
(É o pátio de um cortiço, num arrabalde da cidade, convulsionada pela revolução. Todo o pano
de fundo é tomado pela descrição da cidade, com o centro urbano longe, um amontoado de
arranha-céus. Um esgalho da revolução vem se aproximando do bairro pobre. Passa um
homem fugindo na carreira pela rua, atrás do muro do cortiço, no fundo. Na parte da casa
operária que se enxerga dum lado, na boca da cena, junto à mãe inquietíssima, a meninota
displicente, conseguiu ligar o rádio.)
I
1º PARLATO DO RÁDIO
(Na saturnidade apreensiva da orquestra ainda pobre, arrepiada de frases inquietas, o rádio
explode.)
O Rádio:
– Alô! alô!... Alô! alô!... Prezados ouvintes, alô-alô!... O Rádio é nosso! O Rádio acaba
de cair em nossas mãos! urraaa!... Alô! alô!... A revolução está prestes a se tornar
vitoriosa!... Prezados ouvintes! patriotas devotados desta grande terra vilipendiada! já
tomamos todas as estações de... Também! alô! alô! estou recebendo notícias! alô!...
alô!... Urraaaaaaa! tomaram-se os Correios e Telégrafos! Os Correios e Telégrafos!...
Tomaram-se os Correios e Telégrafos!... Ainda se luta com violência no Bairro
Dourado mas a vitória há-de ser nossa, guardem os rádios ligados! Prezados
ouvintes! Estou recebendo notícias, não desliguem o rádio!... Vamos agora executar a
valsa Perfil duro, enquanto esperamos notícias...
(A mulher impaciente fecha o rádio.)
II
CÂNONE DAS ASSUSTADAS
(Um menino sai fugindo pelo pátio. A mãe dele grita de susto e vem protegê-lo. Todas as
outras portas se abrem, deixando coar uma luz escassa no pátio. E vêm mulheres que se
ajuntam apavoradas.)
As Operárias:
Chegou, chegou, chegou!
É hora, é hora, é hora!
Meu homem combate na rua
5 Que susto, susto, susto!
Eu tremo, tremo, tremo!
Mas EU SOU AQUELA QUE DISSE:
Parti! Parti! Parti!
Adeus! Adeus! Adeus!
10 Chegou, chegou, chegou!
É hora, é hora, é hora!
Estou nesta espera de angústia
Eu sofro, sofro, sofro!
Que medo, medo, medo!
15 Mas EU SOU AQUELA QUE DISSE:
Parti! Parti! Parti!
Adeus! Adeus! Adeus!
Chegou! Chegou! Chegou!
É hora! É hora! É hora!
III
ESTÂNCIA DE COMBATE
(Pequenos grupos em luta, brigas corporais vêm se alastrando pelo arrabalde. Um tiro, um
tombo, na rua por detrás do muro. Agora um grupo mais numeroso e coeso está brigando.)
Os Revolucionários (invisíveis, cantando baixo,
com sanha):
20 É o moço da estrela na testa que vem
Eu disse: Ele traz um corisco no pé
É um chefe mais brabo que a tigre ferida
Perverso que nem cascavel
Fatal como a enchente do rio.
IV
ESTÂNCIA DA REVOLTA
(Bateram convencionalmente no portão do cortiço, depois que o combate decresceu. A mulher
desesperada foi abrir. Era o marido, um chefe revolucionário, sargento, que chega mal ferido,
carregado por dois companheiros. Morre, coitado. As mulheres agora, com a visão do morto,
perdem o medo, reagem sanhudas, animalizadas. A luta está recrudescendo por trás do
muro.)
Revolucionários e Mulheres:
25 EU SOU AQUELE QUE DISSE:
O segredo da paz se fez guerra!
Chegou! Chegou! Chegou!
O momento dos filhos da terra!
O momento dos filhos da terra
30 Chegou! Chegou! Chegou!
V
FUGATO CORAL
(A luta está se generalizando na rua, é brava, selvagem.)
Revolucionários, Governistas, as Mulheres:
Fogo e mais fogo!
Fogo até morrer!

(Texto e música tradicionais no Brasil.)
VI
2º PARLATO DO RÁDIO
(Com a mãe inteiramente tomada pelo que está sucedendo no pátio e na rua, a meninota
voltou a mexer com o rádio e eis que o consegue ligar. As notícias explodem no ambiente
feroz.)

O Rádio (exaltado, rápido):
– Alô! alô!... Estou recebendo notícias! alô! alô! prezados, o presidente já fugiu do
Palácio, buscando abrigo no Quegê da Polícia!... O presidente Papai Grande já fugiu!
já fugiu!... Está escondido no Quegê da Polícia!... Prezados ouvintes! guardem
sempre o rádio aberto, urra pela revolução!...



VII
GRANDE CORAL DE LUTA
(Há incêndios lá pelo centro urbano manchando de vermelho o ambiente. Um situacionista na
fuga, pulou o muro e veio se abrigar nas saias das mulheres, mas as furiosas o estraçalharam,
é aquela posta informe de sangue. O clarão esplêndido duma bomba cega por um segundo,
caiu o muro do cortiço, a luta se generaliza em pleno palco. As mulheres entram nela.)
Todos:
É guerra! É guerra!
35 É revolução!
É de parte a parte
Fogo na nação!

(Textos e música tradicionais no Brasil.)



VIII
O RÁDIO DA VITÓRIA
O Rádio (rapidíssimo, gritadíssimo):
– Alô! alô!... Vitória! VI-TÓ-RIAAAA!... O Bairro Dourado caiu! caiu! os gigantes
morreram! Alô! Patriotas! Patriotas! o presidente suicidou-se-o-Quegê-se-entregou, se
entregou! os anões se converteram à grande causa pública! a vitória é completa! Vi-
tó-ria! VI-TÓ-RIA!... VI-TÓÓÓÓÓ-RIA!
(A meninota fatigadinha, desinteressada fecha o rádio e vai dormir. Que durma sossegada e
viva dias novos melhores.)



VIII (bis)
(Gritos possíveis, para enchimento dos corais de luta.)
De Revolucionários e Mulheres:
– Café! Café! Café! (sempre ritmo e número de vezes
ad libitum)
40 – É hora! É hora! É hora!
– Chegou! Chegou! Chegou!
– Estrela na testa, corisco no pé!
– Vitória! Vitória!
De Soldados Governistas:
– Patrão! Patrão! Patrão!
45 – São ordens! São ordens!
– Prisão! Prisão! Prisão!
(Na derrota final):
– Perdão! Perdão! Perdão!
– Piedade! Piedade!
IX
HINO DA FONTE DA VIDA
(Durante o Rádio da Vitória principiam entrando pelo pátio, fugindo desvairados deputados,
gente chique, que caem por aí mortos. Nisto, ferocíssima, inteiramente irracional, desgrenhada,
o rosto horrendo de volúpia sanhuda, entra correndo a Mãe. Está rasgada, um seio à mostra,
nas mãos uma bandeira enorme, vermelha-e-branca. Entra correndo, pula a posta sangrenta
do soldado estraçalhado. E canta, estática, na apoteose.)
A Mãe (solo) e todo o coral misto:
Eu sou a fonte da vida
50 Do meu corpo nasce a terra
Na minha boca floresce
A palavra que será.
EU SOU AQUELE QUE DISSE:
Os homens serão unidos
55 Se a terra deles nascida
For pouso a qualquer cansaço.
Eu odeio os que amontoam
Eu odeio os esquecidos
Que não provam deste vinho
60 Sanguíneo das multidões.
É deles que nasce a guerra
E são a fonte da morte
Eu sou a fonte da vida:
Força, amor, trabalho, paz.
65 E se a força esmorecer
E se o amor se dispersar
E se o trabalho parar
E a paz for gozo de poucos
EU SOU AQUELE QUE DISSE:
70 Eu sou a fonte da vida
Não conta o segredo aos grandes
E sempre renascerás.
FORÇA!... AMOR!... TRABALHO!... PAZ!...
(Pano)
TEXTO DE ORELHA
Este volume das Poesias completas de Mário de Andrade (1893-1945) parte da edição
póstuma pela Livraria Martins Editora, que incorporava os livros Pauliceia desvairada (1922),
Losango cáqui (1926), Clã do jabuti (1927), Remate de males (1930) e os poemas divulgados
na seleta Poesias (1941). Acolhia ainda os inéditos Café, Lira paulistana e O carro da Miséria.
Ao detectar problemas de fidelidade naquela publicação de 1955, Tatiana Longo Figueiredo
e Telê Ancona Lopez debruçaram-se sobre manuscritos e edições em vida do autor, sobre sua
correspondência, seu jornalismo e mesmo sobre os escritos nas margens e folhas brancas de
suas leituras, analisando e interpretando criteriosamente todo esse material, a fim de recuperar
o projeto literário de cada título e corrigir possíveis desvios.
O resultado está materializado neste consistente e bem cuidado trabalho, que devolve a
integridade ao texto mariodeandradiano, apresentando-o com a bela capa de Ana Luisa
Escorel em diálogo franco com a capa original de Pauliceia desvairada, remetendo à noção de
poesia arlequinal desenvolvida por um artista multifacetado que soube tão bem costurar as
várias vertentes de sua produção literária.
Poeta inventivo e de uma capacidade produtiva impressionante, Mário de Andrade
examinava meticulosamente cada texto seu, engavetando o que considerasse aquém de sua
proposta estética renovadora. Esta nova edição, que a Nova Fronteira se orgulha de trazer a
público, buscou o texto fiel, cumprindo o projeto acalentado pelo autor de reunir “poemas de
todas as épocas” – suas poesias completas. Do poeta experimental de 1922, que se declarava
“um tupi tangendo um alaúde”, ao poeta reflexivo de A MEDITAÇÃO SOBRE O TIETÊ, de Lira
paulistana, que revê toda a sua trajetória artística, estão nestas Poesias completas as
transformações de um autor inquieto, que produziu algumas das obras mais importantes da
literatura brasileira do século XX.
SOBRE O AUTOR
Em 1943, no plano de suas Obras Completas, que Mário de Andrade polígrafo (1893-
1945) arma para a Livraria Martins Editora, Poesias completas deveria ampliar o conteúdo de
Poesias, seleta que, em 1941, revisita os títulos publicados no modernismo da década de
1920 – Pauliceia desvairada (1922), Losango cáqui (1926), Clã do jabuti (1927) –, e em 1930,
Remate de males, trazendo também os inéditos “A costela do Grã Cão” e “Livro azul”. Poesias
completas abrangeria a integralidade dos livros até 1930, os inéditos divulgados em 1941 e
novos inéditos como O carro da Miséria. Apenas em 1955, dez anos após a morte do autor, a
obra se concretiza. A presente edição de Poesias completas busca restituir, nos textos
apurados mediante o confronto com edições em vida e manuscritos, o projeto original de Mário
de Andrade para esse livro. Anotada e acrescida de documentos, contribui vivamente para a
história da literatura no Brasil.
© 2013 by titulares dos direitos autorais de
Mário de Andrade.

Produzido em conjunto com a Equipe Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo
(IEB-USP), coordenada por Telê Ancona Lopez

Projeto gráfico e direção de arte
Ana Luisa Escorel | Ouro sobre Azul

Assistência de projeto
Erica Leal | Ouro sobre Azul

Capa
Ana Luisa Escorel | Ouro sobre Azul
Uma releitura da pintura atribuída a Guilherme de Almeida, para a capa de Pauliceia desvairada | Edição do autor na
gráfica da Casa Mayença | São Paulo, 1922.

Revisão
Ângelo Lessa
Leandro Raniero Fernandes
Marleide Anchieta
Sabrina Primo

Editoras
Janaína Senna
Maria Cristina Antonio Jeronimo

Produção de ebook
S2 Books
Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela EDITORA NOVA FRONTEIRA PARTICIPAÇÕES S.A. Todos os
direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou
processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão do detentor do
copirraite.

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CIP BRASIL | CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ


Andrade, Mário de, 1893-1945
Poesias completas
Mário de Andrade | edição de texto apurado, anotada e acrescida de documentos por Tatiana Longo Figueiredo e
Telê Ancona Lopez
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013

ISBN 978 85 209 3612 2

1. Poesia brasileira | I. Título

07 1631
CDD 869 93
CDU 821 134 3 (81) 3
[1] Reflexão de Goethe, em Wilhelm Meister, colhida por MA no livro de Renato Almeida, Fausto: ensaio sobre o problema
do ser (Rio de Janeiro: Editores Anuário do Brasil, 1922, p. 179), e registrada em seu Fichário analítico (ficha n° 3.423).
Documento na série Manuscritos Mário de Andrade, no arquivo do escritor (IEB-USP).
[2] CONCHE, Marcel. L’Aléatoire. Limoges: Éditions de Mégare, 1989, p. 102-103.
[3] A carta ao compositor Camargo Guarnieri, escrita no Rio de Janeiro, em 29 de dezembro de 1940, conta a resolução de
regressar a São Paulo; a que MA destina, da capital paulista, a Henriqueta Lisboa, em 14 de fevereiro de 1941, convalida a
volta, em janeiro (V. TONI, Flávia (Org.). “Correspondência Camargo Guarnieri – Mário de Andrade”. In: SILVA, Flávio (Org.).
Camargo Guarnieri: o tempo e a música. São Paulo: FUNARTE/Imprensa Oficial, 2001; SOUZA, Eneida Maria de (Org.).
Correspondência Mário de Andrade & Henriqueta Lisboa. Estabelecimento do texto: Maria Silvia Ianni Barsalini. São Paulo:
IEB-USP/Edusp/Peirópolis, 2010).
[4] SOUZA, Eneida Maria de (Org.). Op. cit., p. 113.
[5] Dirigida por Sérgio Milliet, Plácido e Silva e Luís Martins, a coleção Caderno Azul, ligada à Editora Guaíra, de Curitiba,
abre-se, em 1941, com o livro de Mário, Música do Brasil, reunindo os ensaios EVOLUÇÃO SOCIAL DA MÚSICA BRASILEIRA e DANÇAS
DRAMÁTICAS IBERO-BRASILEIRAS.
[6] Carta publicada no Jornal do Brasil em 24 de novembro de 1983; fotocópia acrescentada ao Arquivo Mário de Andrade
(IEB-USP).
[7] Entrevistado por Telê Ancona Lopez em 1977, a propósito da publicação de Macunaíma, em 1944, nas Obras
Completas, José de Barros Martins relatou que essa coleção viera de uma verba inesperada recebida por sua Livraria
Martins Editora e que ele apostara na importância da produção de Mário de Andrade no futuro.
[8] MA falou, a convite da Casa do Estudante do Brasil, no salão de conferências da biblioteca do Ministério das Relações
Exteriores do Brasil, no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 30 de abril de 1942. A sessão foi
presidida por Carlos Drummond de Andrade.
[9] Os exemplares de trabalho fazem parte de dossiês na série Manuscritos Mário de Andrade.
[10] As anotações do escritor, em seu exemplar de trabalho da 1ª edição de Clã do jabuti (São Paulo: Ed. do Autor no
Estabelecimento Gráfico Eugenio Cupolo, 1927), restringem-se à correção do erro tipográfico “morte”, em vez de “morto”,
no poema COCO DO MAJOR, e à indicação de títulos de críticas jornalísticas do momento da publicação da obra; “Festa n° 1,
nota de Andrade Muricy/ Crítica, nº 2, nota de Tasso da Silveira”.
[11]V. DOSSIÊ: EDIÇÕES E MANUSCRITOS, 1. MATÉRIA CONCERNENTE AOS LIVROS PUBLICADOS POR MÁRIO DE ANDRADE.
[12] MA refere-se ao CANTO DO MAL DE AMOR.
[13] A carta datada de 14 de setembro de 1940 é, de fato, um ensaio, publicado em ALVARENGA, Oneyda (Org.). Cartas
Mário de Andrade/Oneyda Alvarenga. São Paulo: Duas Cidades, 1983, p. 266-298.
[14] Ibid., p. 301.
[15] GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de (Org.). Itinerários: cartas a Alphonsus de Guimaraens Filho de Mário de Andrade e
Manuel Bandeira. São Paulo: Duas Cidades, 1974, p. 28.
[16] V. ANDRADE, Mário de. FAZER A HISTÓRIA. Mundo Musical, Folha da Manhã. São Paulo, 24 de agosto de 1944 (série
Manuscritos Mário de Andrade, IEB-USP).
[17]V. POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 2. POEMAS PUBLICADOS POR MÁRIO DE ANDRADE EM JORNAIS E REVISTAS.
[18] Do poema EU SOU TREZENTOS... em Remate de males.
[19] V. o dossiê de Amar, verbo intransitivo, na série Manuscritos Mário de Andrade, no arquivo do escritor, e a edição da
obra com o estabelecimento do texto por Marlene Gomes Mendes (Rio de Janeiro: Agir, 2008).
[20] V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. 2ª. ed. São Paulo: IEB-
USP/Edusp, 2001, p. 213.
[21]V. POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 4. POEMAS NA MARGINÁLIA E EM DOSSIÊS DE MANUSCRITOS, nesta edição. Rosangela Asche de Paula, em seu
artigo SAMBINHA OU O EXPRESSIONISMO NA CRIAÇÃO POÉTICA (D. O. Leitura, ano 21, n° 10. São Paulo, outubro de 2003, p. 46-52), estuda a
gênese desse poema.
[22] ANDRADE, Mário de. SAMBINHA. A Revista, ano 1, nº 3. Belo Horizonte, setembro de 1925, p. 13.
[23] V. POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 4. POEMAS NA MARGINÁLIA E EM DOSSIÊS DE MANUSCRITOS, nesta edição.
[24] Versão completa significa texto fechado unicamente para os pósteros. Se a vida lhe houvesse dado mais tempo, Mário
de Andrade provavelmente teria rasurado seus textos. O emendar até o prelo e mesmo depois, nos exemplares de
trabalho, é marca da escritura mariodeandradiana.
[25] FERNANDES, Lygia (Org.). 71 cartas de Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Livraria São José, s.d., p. 52-53.
[26] Na INTRODUÇÃO da ópera Café.
[27] As datas acham-se nos manuscritos do poema.
[28] GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de (Org.). Op. cit., p. 46; instaurado em 1937, o Estado Novo de Getúlio Vargas foi
extinto em 1945, após a morte do escritor.
[29] O ensaio está no DOSSIÊ: EDIÇÕES E MANUSCRITOS: 2. MATÉRIA CONCERNENTE A OBRAS PÓSTUMAS.
[30] SOUZA, Eneida Maria de (Org.). Op. cit., p. 289-290.
[31] Ibid., p. 290-291.
[32] MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 243.
[33] ANTELO, Raúl (Org.). Cartas de Mário de Andrade a Murilo Miranda. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 155.
[34] ALVARENGA, Oneyda (Org.). POESIAS MALDITAS. Revista do Livro, ano 5, nº 20. São Paulo, dezembro de 1960, p. 69-103;
conjunto republicado em Mário de Andrade, um pouco. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.
[35]UM IMPORTANTE EMPREENDIMENTO EDITORIAL. Começaram a ser publicadas este ano as Obras Completas de Mário de Andrade, as
quais se compõem de dezenove volumes. Diário de S. Paulo, São Paulo, 17 de fevereiro de 1944, documento na série
Matéria extraída de periódicos no arquivo do escritor (IEB-USP). Inspirado em Schumann, Mário de Andrade cria sua
“ilustração literária”, em prosa, para a suíte infantil Cinco aquarelas de Savino de Benedictis, editada em 1925.
[36] Em seu estudo RESTITUINDO Obra imatura, Aline Nogueira Marques, preparadora do texto fidedigno desse livro de Mário
de Andrade, recolhe informações fundamentais sobre esse volume (Rio de Janeiro: Agir, 2010, p. 11-35).
[37] ANDRADE, Mário de. Entrevistas e depoimentos. Ed. org. por Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo: T. A. Queiroz,
1983, p. 110-114; documento transcrito de Leitura, nº 14. Rio de Janeiro, jan. 1944.
[38] ALVARENGA, Oneyda. Mário de Andrade, um pouco. Ed. cit., p. 111.
[39] Cabe lembrar que, na exploração do tema do soldado, ecoa, entre as matrizes, determinada poesia do expressionismo
alemão ligada à Primeira Guerra Mundial, como estuda Rosângela Asche de Paula, bolsista da FAPESP, em sua tese de
doutoramento O expressionismo na biblioteca de Mário de Andrade: da leitura à criação (FFLCH-USP, 2007, orientadora:
Telê Ancona Lopez).
[40] Aline Novais de Almeida, bolsista da FAPESP, desenvolve atualmente seu projeto para o mestrado na FFLCH-USP, A
gramatiquinha da fala brasileira de Mário de Andrade: edição genética, orientada por Telê Ancona Lopez.
[41] Os pesquisadores ofereceram poemas inéditos com que eventualmente se depararam no desenvolvimento de seus
respectivos projetos. Marcos Antonio de Moraes abriu, para a edição, sua pesquisa Correspondência reunida de Mário de
Andrade: reunião de cartas dispersas, reordenação e classificação arquivística da subsérie Correspondência Ativa no
Arquivo de Mário de Andrade no IEB-USP. Edição anotada, precedida de ensaio (IEB-USP/CNPq)
[42] Este livro, considerado marco do modernismo brasileiro, veio à luz em 21 de julho de 1922, em tiragem paga com as
economias do autor, “nas oficinas da Casa Mayença Editora”, em São Paulo; a capa, com losangos coloridos, é atribuída
ao poeta Guilherme de Almeida.
[43] Em 1941, MA publica Poesias, pela Livraria Martins Editora, em São Paulo. Excluída a obra de 1917, Há uma gota de
sangue em cada poema,
Poesias representa a sua produção poética de 1922 a 1941, composta de cinco partes. A primeira, “O estouro”, guarda
poemas selecionados de Pauliceia desvairada (1922) e Losango cáqui (1926); a segunda, “Prisão de luxo”, títulos de Clã
do jabuti (1927); a terceira escolhe em Remate de males (1930);
as duas últimas partes – “A costela do Grã Cão” e “Livro azul” – oferecem obras então inéditas. A presente edição indica
todos os textos ausentes
em Poesias, como esta dedicatória de Pauliceia desvairada.
[44] Texto não incluído por MA na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[45] A primeira versão do poema ARTISTA, ainda sem o título e a forma de soneto, está na marginália (V. POESIAS INÉDITAS E
ESPARSAS: 4. POEMAS NA MARGINÁLIA E EM DOSSIÊS DE MANUSCRITOS).
[46] Nota MA: “Lirismo + Arte = Poesia, fórmula de P. Dermée.”
[47] Ao citar Bilac, MA atualizou a ortografia pela norma vigente em sua época; a presente edição também o fez.
[48] Nota MA: “Há 6 ou 8 meses expus esta teoria aos meus amigos. Recebo agora, dezembro, número 11 e 12, novembro,
da revista Esprit Nouveau. Aliás Esprit Nouveau: minhas andas neste PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO. Epstein, continuando estudo
O FENÔMENO LITERÁRIO observa o harmonismo moderno, a que denomina simultaneísmo. Acha-o interessante, mas diz que é
‘utopia fisiológica’. Epstein no mesmo erro de Hugo.”
[49] O eu lírico incorpora marca de perfume feminino do gosto da elite paulistana; o anúncio, na revista A Cigarra (a. 6, nº
125. São Paulo, 1º dez. 1919, p. 4), pontua: “UN JOUR VIENDRA/ Perfume d’Arys o mais luxuo-
so/ adoptado pelas pessoas elegantes/ o mais captivante e penetrante./ [...] ARYS, 3, rue de la Paix, Paris – em todas as
perfumarias”, atendendo à literatura de circunstância, no projeto literário de MA (DOSSIÊ: EDIÇÕES E MANUSCRITOS: 1. MATÉRIA
CONCERNENTE AOS LIVROS PUBLICADOS POR MÁRIO DE ANDRADE).
[50] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[51] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941
[52] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[53] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[54] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[55] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[56] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[57] A referência aos craques do futebol repete-se em FRANZINA (V. POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 2. POEMAS PUBLICADOS POR MÁRIO DE
ANDRADE EM JORNAIS E REVISTAS).
[58] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[59] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[60] Nota MA: “A última imagem está numa crônica rutilante de Hélios. Não houve plágio. Hélios repetiu legitimamente a
frase já ouvida, e então lugar-comum entre nós, para caracterizar deliciosa mania do Oswald.”
[61] Na carta que envia à pintora Anita Malfatti, em 15 [de maio de 1922], MA inclui uma versão do poema, com variantes na
pontuação, na divisão estrófica e nos versos destacados em notas na presente edição. Na missiva, os segmentos “fogo de
artifício” (versos 5, 23 e 49) “Alameda dos beijos” (versos 38) e “cor de cal” (verso 51) mostram-se como locuções, isso é,
com hífen (V. Arquivo Anita Malfatti, IEB-USP e BATISTA, Marta Rossetti (Org.). Mário de Andrade, cartas a Anita Malfatti,
1921-1939. São Paulo, Forense Universitária, 1989, p. 56-58).
[62] Na versão remetida a Anita Malfatti, os versos são: “corpos de virgens nuas carregando.../ Oh! as lassitudes dos
sempres imprevistos!”.
[63] Em carta de outubro de 1922 (data atestada), MA discute com Manuel Bandeira: “Zangaste com o verso alexandrino e
parnasiano ‘e o ciúme universal etc.’ Mas, caro Manuel, sabes da liberdade, mesmo excessiva que há no meu livro:
portanto não foi preconceito que me obrigou àquela fórmula. Era assim mesmo. Senti assim. Saiu assim. Como posso eu
desritmar um movimento que brotou naturalmente? Só por prevenção? Mas no PREFÁCIO já afirmava não desdenhar balouço
de versos comuns. A comoção muita vez está num ritmo comum. Os ritmos comuns existiram primeiro na natureza, depois
no preconceito. Não há preconceito nem chavão que não tenha existido naturalmente. E o meu ocasional alexandrino,
mesmo com seus dois substantivos e dois adjetivos, existiu ali naturalmente dentro de mim. Da mesma forma rimas e
metros que dentro do livro se encontram. Além disso: eu ainda estava muito perto do meu passado. Esta lei de hímen que
nos persegue!” (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. 2ª ed.; São
Paulo: IEB/ Edusp, 2001, p. 72).
[64] Na versão na carta a Anita, os versos 39-40 são: “Mas eu... Mas estas minhas grades em girândolas de jasmins,/
enquanto as travessas do Cambuci nos livrementes”.
[65] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[66] A presente edição acata a forma “confetti” da edição princeps, marcada pelo uso de palavras estrangeiras. Em CARNAVAL
CARIOCA, preferiu o termo conforme ele figura em Clã do jabuti que, em 1927, segue a língua portuguesa – “confete” e
“confetes”.
[67] Poema publicado por Oswald de Andrade no artigo O MEU POETA MODERNISTA, em que apresenta Mário de Andrade no Jornal
do Commercio de São Paulo, em 27 de maio de 1921 (Arquivo Mário de Andrade, IEB-USP).
[68] Conservado este verso da edição princeps de 1922, omitido na edição de Poesias, 1941.
[69] Este verso, em Poesias, 1941, sofreu substituição – “A Importadora não tem impermeáveis em liquidação...” –,
apagando um dado da literatura de circunstância, proposta por MA em 1922, vinculada ao aqui e agora.
[70] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[71] Adotada a edição princeps, com a presença do segmento “Cincinato Braga!...”, suprimido em Poesias, 1941.
[72] Acatada a pontuação final do verso na edição de 1922, reduzida, em 1941, a um ponto de exclamação.
[73] Conservada a epígrafe de 1922, excluída em Poesias, 1941.
[74] Em Poesias, 1941, o período é substituído por: “As Senectudes Tremulinas disseminaram-se pelas sacadas dos
arranha-céus.”, extinguindo os dados de época da edição de 1922, aqui adotada, neste caso.
[75] Seguida a versão em Poesias, de 1941, na correção “delas” que posiciona Minha Loucura junto dos personagens que
lhe são afins, As Juvenilidades Auriverdes.
[76] Os versos 14-15 mostram problema gráfico em 1941: o verso 14 perde a exclamação e o 15 é suprimido. Neste caso, a
presente edição segue a edição princeps, na qual o verso é retomado conforme o padrão na apresentação das
Juvenilidades Auriverdes e dos Orientalismos Convencionais; verso três vezes repetido, como um refrão.
[77] Obedecida a versão em Poesias, 1941, na qual o acréscimo do artigo coloca este verso no padrão rítmico dos
anteriores.
[78] Verso com divisão silábica em ambas as edições.
[79] Acatada a forma “esses” da versão de Poesias, em 1941; em 1922, o verso é: “quem são estes homens”.
[80] Em Poesias, 1941, está a substituição: “E os telhados proibindo à chuva batizar!”
[81] Acatada a substituição que a edição de 1941 exibe: o adjetivo final “trêmulas”, em 1922, passa a “frágeis” em 1941,
saindo da esfera semântica das Senectudes Tremulinas.
[82] Em 1941, Poesias consigna: “Primavera, inverno, mais verão e outono...”.
[83] Nota MA: “Aqui o leitor, se for partidário dos ORIENTALISMOS, porá nomes de escritores paulistas que aprecia, se das
JUVENILIDADES, os que detesta. Exemplo com meu próprio nome: E as mariocidades. Não existe esse sufixo: quero assim para
bater melhor o ritmo.”
[84] Em 1922, a pausa é dada pela vírgula; aceitamos a correção do autor, na edição de 1941.
[85] Seguimos a próclise instituída pela edição de 1941, por uma questão de eufonia.
[86] Os versos 224-233 foram suprimidos na edição de Poesias, em 1941.
[87] Reproduzimos a divisão dos versos 244-245 da edição de 1922. Na edição de Poesias, os versos estão assim
dispostos: “Fechai vossos peitos! Que a noite/ Venha depor seus cabelos alens”.
[88] O livro, com capa de Di Cavalcanti, foi publicado às expensas do autor na Casa Editora A. Tisi, em São Paulo, que o
levou ao prelo da Gráfica Ideal de H. L. Canton, de onde saiu em 12 de janeiro de 1926. O livro obedece à disposição
gráfica que completa o sentido dos poemas, como nos Calligrammes de Apollinaire. MA não incluiu, no volume,
determinados títulos que conservou em versões manuscritas (V. POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 5. POEMAS INÉDITOS E DE PUBLICAÇÃO PÓSTUMA).
Obra escrita em 1922, ano no qual o autor, como reservista do Exército, realiza exercícios militares. O título Losango é
recortado do traje arlequinal do poeta em Pauliceia desvairada, escolhida a cor cáqui dos uniformes militares à época.
[89] Anita Malfatti (1889-1964). Pintora paulistana amiga de MA, considerada o “estopim do modernismo” brasileiro, por sua
exposição de vigor expressionista em São Paulo, em 1917 que propiciou a reunião dos jovens poetas que aspiravam à
modernidade – MA, Oswald de Andrade, Guilherme e Tácito de Almeida. Em 1922, participou da Semana de Arte Moderna,
expondo, entre outras obras, A estudante russa, O japonês e O homem amarelo, telas que figuram na coleção de MA.
Integrou o Grupo dos Cinco, no modernismo paulistano, com MA, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Menotti del
Picchia.
Na carta de 2 de junho [de 1924], MA reitera a Anita Malfatti a dedicatória de Losango cáqui, enviando-lhe cinco poemas
em autógrafo a tinta preta. Os textos, aqui designados nas notas, apresentam, todos eles, variantes à versão publicada em
1926 (V. Arquivo Anita Malfatti, IEB-USP e BATISTA, Marta Rossetti (Org.). Op. cit., p. 77-82).
[90] Texto não incluído por MA na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[91] Uma possível primeira versão do poema, com 39 versos está na carta de 2 de junho [de 1924] de MA a Anita Malfatti;
prefere a forma “estala” a “estrala” (versos 1, 11, 32), e exibe variantes em versos, na pontuação e na divisão dos versos e
estrofes. Declara, no final: “O livro recorda o tempo em que/ fiz exercícios militares)” (V. Arquivo Anita Malfatti, IEB-USP e
BATISTA, Marta Rossetti (Org.). Op. cit., p. 78-80). Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[92] Na versão enviada à pintora, o verso é: “Sinto-me todo vestido de luzes estranhas”.
[93] Na versão oferecida a Anita, a estrofe compõe-se de cinco versos; os dois primeiros em sequência diversa da
publicação em Losango cáqui, 1926: “Meu coração estala./ Aqueles olhos matinais, sem nuvens.../ Parte-se reto para
diante abandonando tudo.../ Ah! vida circunferência.../ Recomeçar!”.
[94] “Quatro a um/ Urrah, paulistas!” na carta a Anita versos 22-23, correspondem a uma supressão e uma substituição na
interjeição, na versão publicada em 1926.
[95] Na versão remetida à pintora, está: “Horizonte de escravos, pardacento/ fardacento”.
[96] Em 22 de dezembro de 1921, MA remete, a Anita Malfatti, versão datada do dia 13 do mesmo mês, com variantes em
relação ao texto publicado em Losango cáqui, em 1926 (V. Arquivo Anita Malfatti, IEB-USP e BATISTA, Marta Rossetti
(Org.). Op. cit., p. 53-54; POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 3. POEMAS NA CORRESPONDÊNCIA DE MÁRIO DE ANDRADE). Poema não incluído na parte “O
estouro” de Poesias, em 1941.
[97] A versão enviada por MA a Anita Malfatti na carta de 2 de junho [de 1924] traz variantes na pontuação, na divisão de
estrofes e na disposição gráfica dos versos. Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941 (V. Arquivo
Anita Malfatti, IEB-USP e BATISTA, Marta Rossetti (Org.). Op. cit., p. 80).
[98] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[99] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[100] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[101] Este é o XIIº POEMA, na versão enviada a Anita Malfatti na carta de 2 de junho [de 1924]; mostra variantes em
praticamente todos os versos (V. Arquivo Anita Malfatti, IEB-USP e BATISTA, Marta Rossetti (Org.). Op. cit., p. 80-81).
[102] Na versão dada à artista plástica: “... É preciso marchar, cabeça levantada,”.
[103] Os versos 4 e 5, na versão enviada a Anita Malfatti, são: “Que linda casa colonial!/ Cheia, cheinha de paisagem!”.
[104] Na versão que se acha na carta a Anita Malfatti, os versos 9-11 são: “Mas meu olhar de artista blefa o meu tenente./
Olhou altivo para a frente;/ E ao bater no quepe do soldado da frente”.
[105] Na carta de 27 [de abril de 1924], MA envia a Manuel Bandeira outra versão deste poema, de janeiro do mesmo ano,
acompanhada de A ESCRIVANINHA (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 120-121).
[106] Na versão enviada a Bandeira, os dois últimos versos são: “Para o Museu... Coitada! Em tão pequeno assento/ A
grande dama pôs sua imperial bundinha”.
[107] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[108] Este é o XIVº POEMA, na versão enviada a Anita Malfatti na carta de 2 de junho [de 1924]; oferece variantes
significativas (V. Arquivo Anita Malfatti, IEB-USP e BATISTA, Marta Rossetti (Org.). Op. cit., p. 81). Poema não incluído na
parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[109] “O perfume claro, esgarçado, rosado de rosas abertas,”, na versão dada a Anita Malfatti.
[110] Os versos 8-9, na versão enviada a Anita, são: “De rosas sorrindo./ Desejo de amar...”.
[111] Na versão remetida a Anita Malfatti: “No entanto é já tão velha”.
[112] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[113] Após a publicação no livro Losango cáqui, no mês de janeiro, 1926, esta versão do poema se repete em setembro, na
revista carioca A Idea Illustrada (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[114] Em carta a Manuel Bandeira, com data atestada como posterior a [25 de janeiro de] 1925, MA cita este e o verso
anterior (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 183).
[115] MA envia a Manuel Bandeira, em 5 [de agosto de 1923], versão anterior (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op.
cit., p. 99-100); transcrita nesta edição (V. POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 3. POEMAS NA CORRESPONDÊNCIA DE MÁRIO DE ANDRADE).
[116] Acatada a pontuação instituída por MA em Poesias, 1941. Na primeira edição está: “A própria dor é uma felicidade!”
[117] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[118] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[119] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[120] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[121] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[122] Este e o verso anterior são mencionados na carta de MA a Manuel Bandeira, em 22 [de maio de 1923] (V. MORAES,
Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 92).
[123] Na carta de 27 [de abril de 1924], MA apresenta a Manuel Bandeira uma versão deste e do poema TABATINGUERA (V.
MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 120-121).
[124] Na versão enviada a Bandeira: “Leituras más e vícios feios...”.
[125] Na carta o verso é: “Para o indigente de Paris!”.
[126] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[127] Em 1926, na edição princeps, está: “Aonde o Solão chapinha na água agitada”.
[128] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[129] Acatada a versão que, em 1941, acrescenta a interjeição.
[130] XXIº POEMA/ (CABO MACHADO), na versão enviada a Anita Malfatti na carta de 2 de junho [de 1924]; oferece variantes na
divisão das estrofes, na pontuação e em muitos versos (V. Arquivo Anita Malfatti, IEB-USP e BATISTA, Marta Rossetti (Org.).
Op. cit., p. 81-82).
[131] Na versão dada a Anita, os versos 2-6 são: “Pequenino como todo brasileiro que se preza/ Cabo Machado é moço,
lindo./ É como se a aurora marchasse à minha frente./ Entreabre os lábios rubros num sorriso perpétuo,/ Onde raia o Sol de
oiro dos dentes”.
[132] “Cabo Machado quando marcha”, na versão enviada a Anita Malfatti.
[133] “Que se apaixonaram pelo andar convidativo”, na versão na carta referida.
[134] Os versos 19-21, na versão oferecida a Anita Malfatti, são: “Cabo Machado é doce como açúcar/ E polido como
manga-rosa/ Cabo Machado é bem o representante dum país”.
[135] “Mas não bulam com ele”, variante na versão remetida à pintora Anita Malfatti.
[136] Na versão ofertada a Anita Malfatti: “Cabo Machado esboça um ritmo de rasteira...”
[137] Os versos 27-31, na versão na carta a Anita Malfatti, são: “Mas tem unhas bem tratadas,/ Mãos diáfanas e frias,/ Não
desdenha o bom-tom do pó-de-arroz./ Vê-se bem que prefere o arbitramento./ E TUDO ACABA EM SAMBA”.
[138] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[139] Em Klaxon (nº 6, São Paulo, 15 de outubro de 1922, p. 3), sob o título POEMA, está a versão sem epígrafe, com
diferenças na pontuação, na diagramação, na divisão de estrofes e nos versos 6-8 (“E as crianças emigrantes me rodeiam,
pedindo retratinhos de artistas de cinema, desses que vêm nos maços de cigarros./ Sinto-me a ‘Assunção’ de Murilo!/
Libertei-me da dor...”). A versão no mensário de arte moderna é repetida na nota REGISTRO, em recorte assinado “F.”, sem
indicação de periódico ou data, no Arquivo Mário de Andrade: “!!! Klaxon, o espalhafatoso órgão do futurismo, insere os
inconcebíveis versos, assinados pelo Sr. Mário de Andrade, que passo a transcrever, porque, divulgando-os, acredito que
vou ter mais graça do que nunca.”. A nota, assim como a reação ao modernismo, suscitam o artigo FARAUTOS, no nº 7 da
mesma revista, em 30 de novembro de 1922.
[140] Em REGISTRO, este verso e os dois anteriores são: “E as crianças emigrantes me rodeiam, pedindo retratinhos de
artistas de cinema, desses que vêm nos maços de cigarros.../ Sinto-me a Assunção de Murilo!/ Libertei-me da dor...”.
[141] Nota MA: “Publicado na Klaxon o poema anterior causou hilaridade. Era natural. Por caçoada vesti minhas sensações
e ideias com este soneto”.
Nota da edição: PLATÃO ilustra, com variantes na pontuação, o artigo FARAUTOS, no nº 7 de Klaxon: mensário de arte moderna
(30 de novembro de 1922), no qual MA condena a obediência aos cânones estéticos dos passadistas que se comportam
como velhas ovelhas. Compara este soneto com seu POEMA, em versos livres, publicado no nº 6 da mesma revista. PLATÃO,
depois de figurar em Losango cáqui, não foi incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941
[142] Em Klaxon: “Brilha esta áurea manhã de primavera”.
[143] Em Klaxon: “A vida é boa!”.
[144] Em Klaxon: “E caminho, entre odores e harmonias,”
[145] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[146] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[147] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[148] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[149] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941. Publicado com variantes na pontuação e na divisão
de estrofes na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no Suplemento Literário de A
Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 46 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[150] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[151] No topo de folha remanescente do manuscrito de Losango cáqui, mostra-se versão dos últimos versos do poema:
“Não devia dizer ‘meu coração estala’.../ Esta preocupação dum sentimento que passou!...” (Arquivo Mário de Andrade, IEB-
USP).
[152] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941. Há uma versão praticamente idêntica em recorte sem
indicação de periódico, local e data (Arquivo Mário de Andrade, IEB-USP).
[153] Na versão, no recorte guardado por Mário de Andrade, o verso é: “Chuçadas e lapsos berrantes,”, talvez por erro na
composição tipográfica.
[154] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[155] Em 30 [dezembro de 1922], MA envia versão anterior do poema, com variantes, a Manuel Bandeira (V. MORAES,
Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 79-80; POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 3. POEMAS NA CORRESPONDÊNCIA DE MÁRIO DE ANDRADE).
[156] Poema não incluído na parte “O estouro” de Poesias, em 1941.
[157] No recorte sem indicação de jornal, cidade e data, onde se acha a versão de TOADA SEM ÁLCOL, também de Losango
cáqui, vem o esclarecimento: “Em nossa edição matutina de segunda-feira passada, publicamos um belo pequeno poema
de Mário de Andrade, TOADA DA ESQUINA, que por acidente de paginação saiu sem a assinatura do autor. A falta não foi talvez
muito grave. Estamos certos que a maioria dos leitores desta página logo adivinhou o nome que faltava; e muitos sem
dúvida viram logo que os versos transcritos pertenciam ao último livro do ilustre poeta modernista, o Losango cáqui – que é
uma ‘Ilustração’ significativa na obra de Mário de Andrade” (Arquivo Mário de Andrade, IEB-USP).
[158] O livro, cuja capa foi projeto de MA, saiu na edição paga por ele no Estabelecimento Gráfico de Eugenio Cupolo, em
São Paulo, 1927. Poesias, em 1941, na segunda parte do volume, “Prisão de luxo”, seleciona textos de Clã do jabuti,
cortado o título da obra.
[159] Versão anterior do poema sai, ao lado de ARRAIADA e RONDÓ DE VOCÊ (depois RONDÓ PRA VOCÊ), na Revista do Brasil (v. 28, a.
10, nº 111. São Paulo, março de 1925, p. 209-210). Poema publicado com variantes na divisão das estrofes na ANTOLOGIA DA
MODERNA POESIA BRASILEIRA – I, Revista Acadêmica, nº 43, Rio de Janeiro (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[160] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Poeta, contista e cronista. Amigo e correspondente de MA que o
encontrou, pela primeira vez, em 1924, quando fez parte da caravana modernista, excursionando por Minas Gerais. Em
1925, fundou, em Belo Horizonte, A Revista, de tendência inovadora, na qual MA colaborou. Em 1926, Drummond ofereceu
ao amigo o manuscrito Minha terra tem palmeiras, poesia que marca a sua adesão ao nacionalismo postulado pelo autor
de Pauliceia desvairada, a quem enviou, com dedicatória, Alguma poesia (1930), Brejo das almas (1934), Sentimento do
mundo (1940), Poesias (1942) e Confissões de Minas (1944).
[161] Na carta a Manuel Bandeira, em 29 de dezembro de 1924, MA inclui os versos 5 a 7 deste poema, com variantes na
pontuação do verso 5 e supressão do adjetivo “ovais”, no verso 7 (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 172).
[162] Na versão publicada na Revista do Brasil (v. 28, a. 10, nº 111. São Paulo, março de 1925), este verso e o anterior são:
“Duma feita os canhamboras souberam que não tinha mais escravos/ Por causa disso muita irmã do Rosário se perdeu”.
[163] O verso “Analfabetolândia Carijó”, excluído em Clã do jabuti, precede, na versão da Revista do Brasil, o verso “A
gente ainda não sabia se governar...”.
[164] No livro de 1927, nos versos 16-17 e 19-20, a palavra “vontade” da versão de 1925, na Revista do Brasil, é substituída
por “desejo”.
[165] Escolhida a substituição efetuada pelo escritor na versão de 1941; na edição princeps o verso é: “E depois semitoam
sem malícia as rezas bem nascidas...” como na versão publicada na Revista do Brasil (1925) e na Revista Acadêmica
(1939).
[166] Na Revista Acadêmica: “Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus quer...”.
[167] Na Revista do Brasil, o verso é: “Brasil que eu amo porque é o gesto do meu braço aventuroso,”.
[168] Em carta que se atesta como de [fevereiro de 1923], MA comunica a Manuel Bandeira a criação de CARNAVAL CARIOCA, a
ele enviando, em 22 [de abril] uma provável primeira versão do poema. Em 7 de novembro do ano seguinte, também em
carta, discute sugestões do amigo para alguns versos de CARNAVAL CARIOCA e do NOTURNO DE BELO HORIZONTE (V. MORAES, Marcos
Antonio de (Org.). Op. cit., p. 84-85, 87-88, 144-147). Comparados os versos citados na carta com a versão publicada,
verifica-se que o diálogo epistolar suscita nova versão do poema.
[169] Manuel Bandeira (1886-1968). Poeta, cronista, crítico e tradutor. Estreia em 1917 com Cinza das horas, lirismo
penumbrista. Em 1922, na Semana de Arte Moderna, o seu poema OS SAPOS é lido por Ronald de Carvalho, à guisa de
manifesto. Manteve fecunda e longa correspondência com MA a quem enviou, com dedicatória, seus livros Carnaval
(1919), Ritmo dissoluto e Poesias (1924), Libertinagem (1930), Poesias escolhidas e Crônicas da província do Brasil
(1937), Noções de história das literaturas (1940) e Poesias completas (1940, 1944). MA publicou estudos sobre o poeta,
entre os quais está MANUEL BANDEIRA (Revista do Brasil, a. 9, nº 107. Rio de Janeiro, novembro de 1924).
[170] Na carta a Bandeira, se lê: “Carnaval/ Tanta ridiculez!/ Minha frieza bruma de paulista etc.”; Clã do jabuti suprime e
substitui, portanto.
[171] Na carta de 7 de novembro de 1924, MA comenta: “No final corrigi uma frase que agora é bem o ideal estético e
psicológico do lirismo. ‘Sou dançarino e danço, e nos meus passos conscientes/ Dignifico a verdade das coisas existentes’.
Antes estava: ‘Traduzindo ecos em miragens’ que é besteira.”.
[172] Neste poema, em todas as repetições “confete”/ “confetes” optamos pelo uso da palavra em português, como aparece
em Clã do jabuti, 1927. Em Poesias (1941), MA utiliza a forma estrangeira: “confetti”.
[173] Com o título MADRIGAL e a indicação “(do Carnaval carioca)”, MA publica, em Letras Novas (a. 1, nº 4-5, Natal, outubro-
novembro de 1925), excerto do poema ainda inédito, versos 127-137, com variantes na pontuação; “iluminava”, substituído
no livro por “alumiava” (v. 130) e “guarapus” por “guarupus” (v. 133)
[174] Acatada a substituição, sanando o cacófato, efetuada na versão do poema em Poesias, 1941; na edição princeps, se
lê: “A boca dele florirá de bênçãos e perdões...”.
[175] A presente edição manteve o título “Coordenadas” nesta parte de Clã do jabuti e, nele, a dedicatória; Poesias, em
1941, ao eliminá-lo, passa a dedicatória à MODA DOS QUATRO RAPAZES. Antônio Carlos Couto de Barros (1896-1966): escritor
nascido em Campinas (SP); colaborou nas revistas do modernismo Klaxon, Estética assim como em Terra roxa e outras
terras, onde publicou crônicas e ensaios. MA a ele se referiu como “o filósofo da malta” em O movimento modernista (1942).
[176] Versão anterior do poema sai com o título RONDÓ DE VOCÊ, ao lado de ARRAIADA e O POETA COME AMENDOIM, na Revista do Brasil
(vol. 28, a. 10, nº 111. São Paulo, março de 1925, p. 209-210). Poema também divulgado na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA
CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no Suplemento Literário de A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de
1943, p. 46 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[177] Na Revista do Brasil: “Abraçar somente esse abraço”.
[178] Em 1925, no periódico paulistano, o verso é: “Nem beijar somente esse beijo”.
[179] “Que também com esse corpo magro”, na versão estampada na Revista do Brasil.
[180] Poema não incluído na parte “Prisão de luxo” de Poesias, em 1941.
[181] Poema não incluído na parte “Prisão de luxo” de Poesias, em 1941.
[182] A primeira versão do poema encontra-se nas margens das páginas 162 e 163 do romance Die Armen (Leipzig: Kurt
Wolff Verlag, 1917) de Heinrich Mann (V. POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 4. POEMAS NA MARGINÁLIA E EM DOSSIÊS DE MANUSCRITOS). Em A Revista
(a. 1, nº 3. Belo Horizonte, setembro de 1925, p. 13), o poema sai em versão mais próxima daquela conhecida em Clã do
jabuti.
[183] Adotada a substituição ocorrida no verso em Poesias, 1941. Em A Revista e na edição princeps, o verso é: “Espia
entre as pálpebras sapiroquentas de duas nuvens.”
[184] Em Poesias, 1941, ao ser eliminado o título “Coordenadas”, a dedicatória “a Couto de Barros”, ali presente, deslocou-
se para este poema.
[185] Publicado no nº 2 de Verde: revista mensal de arte e cultura (Cataguazes, outubro de 1927, p. 11), sob o título RONDÓ
DO BRIGADEIRO, com variantes na pontuação e a indicação “dos Poemas de Campos do Jordão”; não incluído na parte “Prisão
de luxo” de Poesias, em 1941.
[186] O poema, com o título RONDÓ DA PENSÃO AZUL, seguido da nota: “Pensão para tuberculosos nos Campos do Jordão”, sai
primeiramente em Letras Novas, a. 1, nº 4-5, Natal, outubro-novembro de 1925, com variantes na pontuação e nos versos
2-3 – “Dos tempos gastos do Romantismo/ Maçãs coroadas, olhos de abismo” – e no verso 9 – “Só então seremos juntos
felizes,”. O texto do livro, com alterações na pontuação, entra na ANTOLOGIA DA MODERNA POESIA BRASILEIRA – I, no conjunto dedicado a
MA, no nº 43 da Revista Acadêmica, no Rio de Janeiro, em abril de 1939. É repetido, com fidelidade, em Planalto (a. 2, nº
16; São Paulo, 1º de janeiro de 1942 e na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no
Suplemento Literário de A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 46 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-
USP).
[187] Excluído de Clã do jabuti, em 1927, o soneto que sucede ACALANTO DA PENSÃO AZUL em PRISÃO DE LUXO, parte II, de Poesias,
em 1941, tem esta sua posição conservada na presente edição de Poesias completas. Fez parte, assim como MODA DOS
QUATRO RAPAZES, MODA DO BRIGADEIRO e ACALANTO DA PENSÃO AZUL, do conjunto POEMAS DE CAMPOS DO JORDÃO, escrito quando MA, em 1923,
junto de Couto de Barros e Tácito de Almeida, visitou o poeta Rui Ribeiro Couto, ali recolhido para tratamento de
tuberculose. A carta de MA a Manuel Bandeira, em 19 de novembro de [1924], dá a entender que o conjunto continha
também RONDÓ DAS COISAS INCRÍVEIS e outro rondó do qual restou apenas a quadra “Quem está na pindaíba/ Fica em
Pindamonhangaba/ Não vai ao Rio de Janeiro/ Assistir ao Carnaval.”, e talvez mais textos (V. MORAES, Marcos Antonio de
(Org.). Op. cit., p. 149; POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 3. POEMAS NA CORRESPONDÊNCIA DE MÁRIO DE ANDRADE).
[188] Este poema sucede a parte “Coordenadas” em Clã do jabuti. Em 7 de novembro de 1924, MA discute, em carta a
Manuel Bandeira, sugestões do amigo para alguns versos de NOTURNO DE BELO HORIZONTE e de CARNAVAL CARIOCA (V. MORAES,
Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 144-147). Pelo que se depreende da carta, trata-se de versão anterior àquela que sai
em Estética (a. 2, v. 1, nº 3. Rio de Janeiro, abril-junho de 1925, p. 233-247), pois cita três dos onze versos que MA exclui
após a leitura de Bandeira: “Me vejam, por exemplo! Que sou eu?/ O poeta-só, homem cortado pelo meio/ Que por não
achar a predestinada...”. Na presente edição, as notas de rodapé, no decorrer do poema, mostram as variantes entre a
versão na revista carioca e a publicada em livro, sem especificar, todavia, diferenças na pontuação, na disposição gráfica
dos versos, nem na quebra de versos e de estrofes. Destacam as rasuras de MA a grafite, no exemplar do periódico que lhe
pertenceu, e o registro de um total de versos – “418 v”.
[189] Elísio de Carvalho (1880-1925). Historiador, ficcionista, poeta e tradutor. Dirigiu a revista carioca América brasileira,
onde MA publicou a série “Crônicas de Malazarte” (1923-1924). De sua extensa obra, a biblioteca de MA guarda Brava
gente (1921), Lauréis insignes (1924), Principes del spiritu americano (1925), Suave austero (1925), e a tradução da peça
Uma tragédia florentina, de Oscar Wilde.
[190] Em Estética: “O silêncio fresco se desfolha das árvores”.
[191] Na revista carioca: “Só as árvores árvores da mata-virgem”.
[192] Em Estética: “A mata invadiu o gradeado das ruas,”.
[193] Na primeira versão do poema, em Estética (a. 2, v. 1, nº 3. Rio de Janeiro, abril-junho de 1925), existe o verso “Buck
Jones salta do anúncio, fugindo,” entre este e o verso anterior.
[194] Na versão anterior, na revista Estética: “Com a poeira aguda das folhagens...”.
[195] “A mata vitoriosa acampou nas ladeiras.”, na versão publicada em periódico.
[196] Em Estética: “Há baianos redondos.”.
[197] O nome do personagem, em Estética, “Roberto Dias”, é corrigido na 1ª edição de Clã do jabuti.
[198] Na revista carioca: “Não são esperanças são turmalinas bem se vê:”.
[199] Entre este e o verso anterior, na revista Estética, há 6 versos, excluídos em Clã do jabuti: “Fumegando espalham.../
Grotas/ Pedras/ Arvoretas./ Pretas./ Pratas.”.
[200] Em Estética: “De repente fosso!”.
[201] Em sua carta a Bandeira, em 7 de novembro de 1924, MA se propõe a repensar estes versos, cuja primeira versão
cita e explica: “Até acalmarem (os rios) só muito longe exânimes/ Nas lagoas polidas de cabeça pra baixo”.
[202] No periódico: “Desce ritmada aos golpes dos remeiros.”.
[203] Na revista Estética se lê: “E o lindo nome de S. José d’El Rei mudado num odontológico Tiradentes...”.
[204] No periódico carioca este verso é dividido: “tal qual o fausto das paragens de ouro/ velho!...”.
[205] Em Estética: “Frutificou!/ Taratá!”.
[206] Na revista carioca: “Na fazenda do Barreiro recebe-se opulentamente.”.
[207] Em Estética: “Mas no Grande-Hotel de Belo-Horizonte serve-se à francesa...”.
[208] Verso iniciado em Estética sem a onomatopeia: “Taratá”.
[209]Clã do jabuti conserva apenas este verso; em Estética: “Taratá!/ Fábricas de calçados,/ Exercícios militares,”.
[210] Na revista: “Motoristas que avançam no bolso dos viajantes,”.
[211] No periódico carioca: “– Desculpe, estou com pressa./ Ganhemos o dia!”.
[212] Na versão em Estética: “Força das xiriricas, das florestas e dos campos!...”.
[213] Em seu exemplar da revista Estética, MA anota a grafite: “(espaço)”, para divisão estrófica confirmada na versão em
Clã do jabuti.
[214] Em Estética: “O noivo com sua noiva”; o exemplar de MA traz rasura a grafite – hesitação entre “sua noiva” e “a noiva
dele” –, resolvida na versão no livro e acatada na presente edição.
[215] “E puseram-se de novo”, na versão em Estética; opção pela próclise, no livro de 1927.
[216] Na versão na carta a Manuel Bandeira e em Estética, este verso e o anterior são: “Que soltos e chocarreiros/ Do
caminho se soltavam”.
[217] Os versos que compõem esta parcela do poema foram publicados em Planalto (a. 2, nº 16; São Paulo, 1º de janeiro
de 1942), com variantes na pontuação (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP). Esta “história de Minas” liga-se ao
segundo canto do poema ANÁLIA, lido e anotado por MA em Poesias de Gonçalves Dias, na edição organizada por J.
Norberto de Souza Silva (Rio de Janeiro: Garnier, 1919, v. 2, p. 80-85).
[218] Em Estética e em Clã do jabuti, o verso é: “Pros brasileiros do Brasil...”.
[219] Na revista Estética: “Ou da carne requentada do dorso dos pigarços pequenos,”.
[220] Em Estética, o verso é: “Tem festas do Tejuco pelo céu!”; acréscimo em Clã do jabuti.
[221] Em Estética, se lê: “Dizendo versos desce a rua Pará...”.
[222] O exemplar de trabalho do poema, na revista, Estética, mostra rasura: correção – crase.
[223] Em Estética: “reuniu todos os seus cabedais”.
[224] Em Estética: “Pra esses dois infelizes.”.
[225] Em seu exemplar da revista Estética, MA anota a grafite: “(espaço)”, para divisão estrófica confirmada na versão em
Clã do jabuti.
[226] Na revista Estética: “Não há nada como histórias pra reunir na mesma casa.”.
[227] Em 1941, Poesias não traz os versos 333-334, que a atual edição mantém.
[228] Em Estética: “Mas as raças são verdades essenciais”.
[229] Em Estética: “vaidosa imbecilidade”.
[230] “E eu temo que uma paz obrigatória”, em Estética, supressão do pronome pessoal efetuada por meio de rasura a
grafite, no exemplar da revista que pertenceu a MA.
[231] Em Estética: “E é por amor que Deus nos deu a Vida...”; substituição, por MA, em seu exemplar da revista – “amor” por
“ele”; solução não acatada na versão editada em 1927.
[232]Estética traz, antes deste, dois versos excluídos na versão no livro: “E enquanto os outros se pinicam nas vaidades/
Representamos nossa alegoria”.
[233] Em Estética: “Não importa que uns falem mole descansado”; em Clã do jabuti: “Que importa que uns falem mole
descansado”; em Poesias (1941): supressão evitando a repetição, acatada pela presente edição.
[234] Em Estética: “O cortejo fantasiado de histórias mineiras”.
[235] Na década de 1920, na publicação em periódico: “Os seres e coisas se aplainam no sono.”.
[236] Na revista Estética: “De longe em longe gritam desolados brilhos falsos”.
[237] Em seu exemplar da revista Estética, MA insere o expoente “(1)” em “Oropa” e explica no rodapé: “(1) A palavra Oropa
deve vir grifada ou melhor em itálico”; a atual edição não acatou esta forma que não vigora nas versões seguintes.
[238] A presente edição mantém o título “O ritmo sincopado” e a dedicatória do livro de 1927, nesta parte de Clã do jabuti;
Poesias, em 1941, ao eliminar a divisão em partes, passou a dedicatória ao poema ARRAIADA, e recorreu ao nome completo
da pintora paulista. Tarsila do Amaral (1886-1973) entrou em contato com os modernistas de São Paulo no segundo
semestre de 1922, por meio de Anita Malfatti. Em Paris, em 1923, transitou pelos ateliês dos pintores da vanguarda, Léger,
Lhote e Gleizes. Soube aliar a liberdade de experimentação à temática brasileira, dando forma plástica ao ideário das
correntes modernistas Pau-Brasil (1924) e Antropofagia (1928). Segundo MA, Tarsila “terminou a confusão entre
nacionalizar a pintura e pintar o nacional”, ao incorporar “formas do nosso humano tradicional” (Fichário analítico). Em
1931, visitou a União Soviética, engajada em valores socializantes da arte. Na coleção de artes do escritor está, entre
outros trabalhos da artista, o Retrato de Mário de Andrade (pastel sobre papel, 1922).
[239] Versão anterior do poema é publicada, ao lado de RONDÓ DE VOCÊ (depois RONDÓ PRA VOCÊ) e O POETA COME AMENDOIM, na
Revista do Brasil (vol. 28, a. 10, nº 111. São Paulo, março de 1925, p. 209-210). Em Poesias (1941), MA seleciona poemas
ignorando a divisão no livro de 1927, “O ritmo sincopado”, e excluindo o título; transfere, para ARRAIADA, a dedicatória que em
Clã do jabuti é “a Tarsila”, completando o nome da pintora – “a Tarsila do Amaral”.
[240] Na Revista do Brasil: “Está derreada e com as sobras do sono no canto dos olhos”.
[241] Na revista, em 1925, o verso é: “Bota a trouxa de roupas na lapa”.
[242] Poema publicado com diferenças na pontuação em Planalto, a. 2, nº 16; São Paulo, 1º de janeiro de 1942. O texto
sem variantes sai na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no Suplemento Literário de
A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 45 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[243] Em 7 de maio de 1925, na carta em que envia a Manuel Bandeira uma versão do texto, MA pede ao amigo: “Me dê
um nome pra este poema” (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 207). Publicado em Terra roxa e outras terras
(a. 1, nº 5; São Paulo, 27 de abril de 1926, p. 6) sob o título IARA, e como POEMA, em Planalto, a. 2, nº 16; São Paulo, 1º de
janeiro de 1942 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[244] Em Terra roxa e outras terras, o verso termina com ponto de exclamação. Na versão que a precede, na carta a Manuel
Bandeira citada, este e o verso anterior são: “Preta gorda manquitola, era ver peixe-boi./ Felizmente velho já morreu faz
muito”.
[245] Na carta de MA a Bandeira não há este verso. Na versão divulgada em Terra roxa e outras terras, o verso é: “Então
principiaram a falar que a iara cantava, era moça,”.
[246] Na versão em Terra roxa e outras terras: “Cabelos de limo esverdeado do rio”.
[247] O poema sai no Deutsche Zeitung de Porto Alegre em 21 de novembro de 1931, sob o título DIE SAGE VOM HIMMEL,
vertido por Ignez Teltscher (Arquivo Mário de Andrade, IEB-USP).
[248] Poema publicado em Planalto, a. 2, nº 16; São Paulo, 1º de janeiro de 1942 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-
USP).
[249] Antônio Bento de Araújo Lima (1902-1988). Jornalista e crítico de arte paraibano, residente no Rio de Janeiro a partir
de 1923. Ciceroneou MA em sua viagem de Turista Aprendiz ao Nordeste, entre dezembro de 1928 e fevereiro de 1929,
facilitando-lhe o contato com os cantadores (V. O Turista Aprendiz. 2ª ed., estabelecimento de texto, introdução e notas Telê
Ancona Lopez. São Paulo: Duas Cidades, 1983).
[250] No exemplar de trabalho de Clã do jabuti, MA corrige, a grafite, “morte” para “morto”, correção incorporada em
Poesias, 1941.
[251] Este verso que fecha a estrofe foi omitido na publicação do poema em Planalto, quebrando o ritmo.
[252] Mário Pedrosa (1900-1981). Crítico de arte
[253] A primeira versão do poema sai sob o título MOMENTO em Letras Novas, a.1, nº 4-5, Natal, outubro-novembro de 1925;
mostra variantes, no confronto com o texto em Clã do jabuti, em 1927. Poema não incluído na parte “Prisão de luxo” de
Poesias, em 1941
[254] Em Letras Novas, está: “De já-hoje quando a noite agarrou a empurrar a luz quente pra trás do horizonte”.
[255] Em Letras Novas, o verso 10 é: “Se boia, se conversa sossegado.”, seguido dos versos: “Diário da Noite!.../ A
Folha!...”, cortados em Clã do jabuti e consequentemente em Poesias, 1941.
[256] Na versão de 1925: “Reparando no sossego da sua cidade natal.”
[257] MA envia a Manuel Bandeira, em uma carta de [outubro de 1924], variante da primeira estrofe: “Gonçalo Pires tem
uma cama,/ Nesta cidade não há mais nenhuma!/ Gonçalo Pires se dá um estadão:/ Só ele em São Paulo dorme gostoso/
Em traste bonito, de estimação” (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 142). Na carta de 22 de outubro [de
1924], MA apresenta a Anita Malfatti outra versão, com variantes, datada do dia 13 do mesmo mês – BALADA DA CAMA DE GONÇALO
PIRES/ SÉCULO XVII (V. Arquivo Anita Malfatti, IEB-USP e BATISTA, Marta Rossetti (Org.). Op. cit., p. 89-90; fac-símile no
POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 3. POEMAS NA CORRESPONDÊNCIA DE MÁRIO DE ANDRADE).
[258] Publicado em Planalto, a. 2, nº 16; São Paulo, 1º de janeiro de 1942, com variantes na quebra das estrofes (Coleção
Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[259] Ronald de Carvalho (1893-1935). Poeta e ensaísta carioca; apresentou-se na Semana de Arte Moderna em 1922.
Publicou Epigramas irônicos e sentimentais (1922), Toda a América (1935) e Jogos pueris (1926), poesia, além dos
Estudos brasileiros, 1ª série (1924) e da Pequena história da literatura brasileira (3ª ed., 1925-1926), obras com dedicatória
na biblioteca de MA
[260] De Araraquara, em 26 de junho de 1925, MA escreve a Luís da Câmara Cascudo enviando este POEMA ACREANO (V.
MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Cascudo e Mário de Andrade: cartas 1924-1944. São Paulo: Global, 2010, p. 48).
[261] Na versão enviada a Cascudo, este verso e o anterior são: “De supetão senti uma friagem por dentro/ Fiquei tremendo
muito comovido”
[262] Poema publicado na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no Suplemento
Literário de A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 46 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[263] Capa e edição de MA nas Oficinas Gráficas de Eugenio Cupolo, em São Paulo, 1930. O título advém de um vilarejo
na Amazônia visitado pelo escritor em sua viagem ao Norte, em 1927 (V. O Turista Aprendiz. Ed. cit., p. 100-111).
[264] Poema também publicado na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no
Suplemento Literário de A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 47 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-
USP).
[265] Adotada a versão em Poesias, 1941; na edição princeps, de 1930, o verso é: “Mas um dia afinal eu toparei comigo...”.
[266] Versão anterior do poema publicada em Estética: revista trimestral, a. 1, nº 1, Rio de Janeiro, setembro de 1924, p. 12-
22. No volume encadernado, que reúne os três números do periódico, os exemplares exibem, nas margens, notas do
escritor discutindo artigos alheios, e rasuras nos textos de sua autoria, configurando exemplares de trabalho. Em DANÇAS, na
revista carioca, as rasuras criam outra versão do texto que se torna ponto de partida para a versão em Remate de males.
Na presente edição de Poesias completas, as notas de rodapé registram essas rasuras e as principais variantes entre a
versão de 1924 e a de 1930; não se ocupam de diferenças na pontuação, na quebra de versos ou de estrofes e no uso de
maiúsculas em início de verso. Importante, no longo poema de MA, a disposição gráfica com a qual os versos mimetizam o
movimento.
[267] Dedicatória em Estética e em Remate de males; em Poesias (1941), “a Baby”. Baby de Almeida (Belquiz Barrozo do
Amaral de Almeida, 1901-1988), esposa de Guilherme de Almeida, nome importante no modernismo do decênio de 1920.
[268] Seguindo a primeira edição em Remate de males, mas com diferença na quebra de estrofes e na pontuação, o
poema sai na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no Suplemento Literário de A
Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 47-48 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[269] Da tiragem de Poesias, em 1941, pela Livraria Martins Editora, MA separou um exemplar cujo texto impresso rasurou
a tinta preta, possivelmente em 1943. Nesse ano, ele reelabora os poemas para Poesias completas, volume II de suas
Obras Completas, projetadas pela mesma editora paulistana e por ela publicado postumamente em 1955. O exemplar de
trabalho traz, na falsa página de rosto, a assinatura “Mario de Andrade” ao lado de: “Exemplar de Trabalho” e “Erros
tipográficos: p. 135”. A presente edição acata a correção no verso 12 (corte da letra d, isolando artigo) – “Só nas meias do
dia-santo é quotidiano!”. Verso corrigido na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no
Suplemento Literário de A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 46 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-
USP).
[270] Na revista Estética: “Mãos,/ E pés,/ Músculos,/ Cérebro...”; no exemplar rasurado por MA, chave a grafite abarca os
versos e determina: “um verso só”.
[271] No periódico carioca: “Muito de indústria eu me fiz careca”.
[272] Em 1924, em Estética: “Quem disse que eu não vivo satisfeito?”.
[273] Em Estética: “Todos os homens vão ao cinema”; possível “correção” pela revisão da revista, não flagrada pelo escritor
em seu exemplar de trabalho do poema.
[274] No número inaugural de Estética: “Há muito canto onde esconder”; em seu exemplar de trabalho do poema, MA
substitui, a grafite, “Há” por “Tem”.
[275] Verso excluído na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no Suplemento Literário
de A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 47 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[276] Em setembro de 1924, Estética traz: “Banquetes/ Orquestras”. Acatadas a disposição e a pontuação dos versos 34-35
na edição princeps, que privilegia a figuração gráfica da dança na estrofe, e a repetição das reticências (v. 29, 35-36), sem
alterar o número de versos. Em 1941, os versos 34-35 tornam-se um: “banquetes, orquestras”.
[277] Aqui a numeração foi suprimida para evitar uma leitura equivocada do verso que se inicia com algarismos.
[278] Em Estética: “– Mário, deixa-me dormir!”; substituição a grafite por MA, em seu exemplar de trabalho do poema,
atingindo a forma verbal.
[279] Apesar de substituir “para” por “pra” no seu exemplar trabalho de Estética, em Poesias (1941) vigora a forma “para”,
acatada na atual edição de Poesias completas.
[280] Em Estética está: “Tosses até não poderes mais”; em seu exemplar de trabalho do poema, na revista, MA impõe
substituição que perdura em Remate de males (1930) e em Poesias (1941).
[281] Acatada de Poesias (1941) a substituição do ponto de exclamação que fecha o verso; na publicação em Estética
(1924) e em Remate de males (1930): “O mundo não vê!”.
[282] Obedecida a versão de 1941, em Poesias, que substitui a vírgula pelo ponto final.
[283] Adotada a substituição impressa em 1941; em Estética e na edição princeps: “Viena dança,”.
[284] Em Estética: “Fala francês, e te entenderão!”.
[285] Em 15 de novembro de [1923], em carta a Manuel Bandeira, MA reúne em uma estrofe esta e a anterior, precedidas
do comentário: “Acabei um poema. ‘Danças’. Se encontrares o Guilherme [de Almeida] aí no Rio, poderás ler o poema que
com ele está a única cópia que fiz. Prego agora a filosofia do dar-de-ombros. Tem esse versinho que resume todo o meu
atual cinismo filosófico” (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 104).
[286] No seu exemplar de trabalho do poema, em Estética, MA substitui, a grafite, “há” por “tem”, neste verso e no anterior; a
substituição não perdura, nas versões publicadas em livro.
[287] Em 1924, na versão publicada em Estética: “Compro a Revista do Brasil”.
[288] Na revista Estética está “cuspir”, forma culta substituída por “guspir”, da linguagem informal.
[289] Em Estética: “Há terras incultas além, para longe...”; substituição no exemplar de trabalho do poema, na revista de MA
[290] Em Estética: “Há feras terríveis nas terras incultas”; substituição no exemplar de trabalho do poema, na revista de MA.
[291] Na versão em Estética, este é precedido pelo verso “O mel nacional é perfume e alimenta.”, suprimido na versão em
Remate de males, 1930.
[292] Na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no Suplemento Literário de A Manhã,
v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 46, o verso é: “Ora a árvore que cai”.
[293] Em Estética: “Os caaporas galopam nas ancas das antas”.
[294] Na revista Estética: “A Vitória Régia oscila balouçante nas vagas indecisas”.
[295] Em Estética, segue-se este grande verso: “Infelizmente há também os tratados políticos. O Brasil se obstina em
cumpri-los. País idealista! Rondon passou rasgando a terra virgem. O telégrafo corta agora as paisagens incultas, trazendo
notícias europaicas: ‘Inventa-se o Dadaísmo’; ‘Aragon escreve Anicet’; ‘Der Sturm inebria a Alemanha’; ‘Em Moscovia o
teatro popular é cubista’; ‘Ultraísmo em Madrid’... Chassé! En avant! En arrière! Balancé! Tour!... Em São Paulo sabe-se
vagamente que há terras incultas ao longe. Mas quem as visitou? Ninguém. A confusão é enorme”. Em seu exemplar da
revista, MA reescreve o verso, instaura duas substituições: “Moscou” para “Moscovia” e “a gente sabe vagamente que tem
terras incultas longe. Mas quem é que foi lá?”, para o segmento final que, na versão em Remate de males é transformado
em 3 versos.
[296] Na revista Estética: “Recomeça a quadrilha...”.
[297] Em Estética: “Ponho-me a dançar”.
[298] Em seu exemplar de trabalho do poema em Estética, MA determina a supressão do destaque: “(letras iguais às
outras)”; não confirmada em Remate de males.
[299]Estética apresenta este verso sem o conetivo que o inicia e, em seguida, o verso: “Lembras o anúncio do ‘EU ERA
ASSIM’?”. Em seu exemplar de trabalho do poema, na revista, MA destaca com um retângulo a parte final do poema desde
“A vida é assim”, e exclui o verso “Lembras o anúncio do ‘EU ERA ASSIM’?” e anota: “Tirar o verso riscado”.
[300] Na revista Estética: “Eu danço... Eu não sei mais chorar!”.
[301] Em Poesias (1941), a dedicatória é “a Eugênia Álvaro Moreira”, declamadora da poesia modernista (1898-1948),
esposa de Álvaro Moreira (1888-1964), poeta, jornalista, dramaturgo e fundador do Teatro de Brinquedo, no Rio de
Janeiro. MA, em 31 de agosto de 1929, publica no Diário Nacional, a crônica EUGÊNIA (V. Táxi e crônicas no Diário Nacional.
São Paulo: Duas Cidades/ Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia, 1976, p. 145-146).
[302] Em carta [anterior a 13 de setembro de 1925], MA envia a Manuel Bandeira versão da “poesia inicial do ‘Ciclo da
Maria’” (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 234-235). Poesias (1941) exclui a numeração do título nos
poemas do “Tempo da Maria”.
[303] Em 1941, Poesias anula a cacofonia – “De não gostar sinão duma...” – , da versão remetida a Bandeira e da edição
princeps.
[304] “E encabulado descanta”, na versão dada a Bandeira.
[305] O verso em 1930 é “Que enche a boca de Graça Aranha?”. Preferida a substituição que, em 1941, reconhece o
passado, anulando a ironia.
[306] Este verso se desdobra em BURRADAS, de 1926, no conjunto de poemas inéditos oferecido por MA a Oneyda Alvarenga
(POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 1. POEMAS EM CONJUNTOS REUNIDOS POR MÁRIO DE ANDRADE)
[307] Em carta datada de 30 de novembro de 1925, MA remete a Anita Malfatti, sob o título CANTIGA DO AI! DESABALADO, versão
com variantes na pontuação e 14 dísticos ao invés de 12, em Remate de males, 1930. (Arquivo Anita Malfatti, IEB-USP e
BATISTA, Marta Rossetti (Org.). Op. cit., p. 108-109).
[308] “É a boca-da-noite que virou mulher!...”, na versão presente na carta de MA a Anita Malfatti.
[309] Acatada a forma do verso em Poesias, 1941; na edição princeps se lê: “Moçada se amando no imenso Brasil!...”.
[310] A criação dos poemas de TEMPO DA MARIA em 1926 confirma-se na carta de Manuel Bandeira a MA, em 3 de janeiro de
1927, quando o remetente comenta a LENDA DAS MULHERES DE PEITO CHATO que pertencia, naquele momento, a Clã do jabuti, livro
publicado em 1927 (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 331).
[311] Em 1930, na edição princeps está: “Antes morrer!... Eu me sinto”; acatada a substituição da pontuação.
[312] Preferida a forma “Terra” (nome próprio), da versão de 1930, mais condizente com o espírito do poema.
[313] Em 29 de agosto de 1928, citando este e o verso anterior MA declara a Manuel Bandeira: “E até me agrada isso de
destruir agora o ‘Tempo da Maria’, só aproveitando dele um ou outro poema” (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op.
cit., p. 401-402).
[314] Assimilada a rasura à p. 165 do exemplar de trabalho de Poesias, 1941, substituição: “de Iguaçu...” para “do Iguaçu...”,
retornando à versão estampada em Remate de males.
[315] Poema publicado na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no Suplemento
Literário de A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 47 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[316] Acatada a substituição nos versos 51-52, presente em Poesias, 1941; a forma em Remate de males, 1930 – “Não quis
mais ler porque livro/Não lhe dá a gostosura” – repete-se na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA
POESIA – 12, no Suplemento Literário de A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 47 (Coleção Carlos Alberto
Passos, IEB-USP).
[317] Cícero Dias (1907-2003). Artista plástico pernambucano. Em 1925, no Rio de Janeiro, inicia estudos de arquitetura e
pintura na Escola Nacional de Belas Artes. Entra em contato com os intelectuais do Rio de Janeiro e os modernistas de São
Paulo, dentre eles MA que passa a colecionar suas aquarelas, então o meio de expressão preferido pelo pintor. Na crônica
do Turista Aprendiz referente a 28 de novembro de 1928, MA defende a pintura de Cícero Dias da pecha de “desenho de
criança”, nela salientando “uma fatalidade de expressão formidável cujos valores psicológicos principais são sexualidade,
sarcasmo e misticismo. Justamente as coisas que a criança menos possui.” (V. O Turista Aprendiz. Ed. cit., p. 204).
[318] Na carta de MA a Manuel Bandeira, em 11 de maio de 1929, está a versão desta parte, com variantes na pontuação
(V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 418).
[319] Poema publicado na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no Suplemento
Literário de A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 45 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[320] Em Remate de males, 1930, o título desta parte é “Marco da viração” e não traz dedicatória. A presente edição acata a
dedicatória em Poesias, 1941, que se prende ao trajeto das edições. Na carta ao crítico literário e católico militante Alceu
Amoroso Lima (Tristão de Athayde), em 16 de agosto de 1930, MA pede licença para lhe dedicar esta parte do livro (V.
FERNANDES, Lygia (Org.). Mário de Andrade escreve cartas a Alceu, Meyer e outros. Rio de Janeiro: Editora do Autor,
1968, p. 13-16). Mas, em 2 de dezembro do mesmo ano, assim se manifesta para Manuel Bandeira: “[...] tirei do ‘Marco da
viração’ a dedicatória pro Tristão. Essa dedicatória constituiu um caso de consciência pra mim. Tinha medo de prejudicar
de qualquer forma a tal irremediável orientação católica dele, eu que nunca sei direito se sou católico, quando ateu me
pergunta digo que sou, quando católico pergunta digo que não. Mandei perguntar, ele respondeu aceitando. Mas isso não
tem nada que me explicarei com ele. Além do mais ele voltou à crítica literária e não quero que imaginem que estou
amaciando críticos.” (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 471). A homenagem torna-se, por assim dizer,
virtual, pois, na carta de 20 de dezembro de 1930, que acompanha o volume, MA considera: “[...] meu caro Alceu, a parte
“Canto [sic] da viração” lhe pertence como dádiva sinceríssima de amigo e admirador, vai sem o nome do presenteado.
Mas bons ou maus, consonantes ou não com a orientação social e religiosa de você, esses versos são seus e peço que os
considere seus” (V. FERNANDES, Lygia (Org.). Mário de Andrade escreve cartas a Alceu, Meyer e outros. Ed. cit., p. 19).
MA ainda não conhecia José Bento Faria Ferraz (1912-2005), seu aluno no Conservatório Dramático e Musical de São
Paulo e seu secretário particular de 1936 até 1945, isto é, até a morte do escritor.
[321] Em 31 de outubro de 1924, MA envia a Manuel Bandeira outra versão do poema, intitulada MATURIDADE (V. MORAES,
Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 142-143). Poema não incluído na parte “Remate de males” de Poesias, em 1941.
[322] Na carta a Bandeira, este e o verso anterior são: “Fiquei apenas com o que há de toda a gente em mim/ Doçura de ser
pobre assim!...”.
[323] “Nem me sinto mais só, dissolvido nos homens”, na versão remetida a Bandeira.
[324] Na versão enviada a Bandeira, este e o verso anterior são: “Ficava no chão mole e orvalhado da aurora/ A marca
vitoriosa dos meus passos.”.
[325] Na versão remetida ao amigo poeta: “Em partículas de luz áurea e sopro ardente”.
[326] “A terra se enrijou e endureceu.”, na carta a Manuel Bandeira.
[327] Na carta a Bandeira, este e o verso anterior são: “Mas sobre a Terra vasta, a grande Terra silenciosa/ E as árvores
crescendo e morrendo na Terra”.
[328] Adotada a substituição do adjetivo que ocorre na coletânea Poesias, 1941; em Remate de males, 1930, está:
“Afugentando a sombra funda das canhadas;”.
[329] A versão de LOUVAÇÃO MATINAL, estampada em Poesias, perdeu os três últimos versos (v. 74-76) os quais, em Remate de
males, na edição princeps de 1930, figuram no topo da p. 104.
[330] Em carta de 15 de novembro de 1937 a Osório de Oliveira, MA transcreve esta estrofe do poema (V. SARAIVA,
Arnaldo. Modernismo brasileiro Modernismo português. Campinas: Editora da Unicamp, 2004, p. 428).
[331] Publicado em Movimento brasileiro, nº 11 (Rio de Janeiro, novembro de 1929), com variante na divisão das estrofes e
alteração nos versos 8 e 12 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP). Poema não incluído na parte “Remate de males” de
Poesias, em 1941.
[332] Em Movimento brasileiro: “Veio que nem beijo de minha mãe se estou enfezado”.
[333] Em Movimento brasileiro: “Cheia de passado e presente, berço nobre em que nasci.”
[334] Poema não incluído na parte “Remate de males” de Poesias, em 1941
[335] Em Remate de males, 1930, o verso é: “E a florada meridional das estrelas despencando em flor sobre eles!...”; a
presente edição acata a substituição operada em Poesias, 1941.
[336] Na carta a Alceu Amoroso Lima, em 16 de agosto de 1930, MA transcreve 15 versos deste poema, os quais
apresentam variantes, confrontados com os versos 67-81 da versão publicada (V. FERNANDES, Lygia (Org.). Mário de
Andrade escreve cartas a Alceu, Meyer e outros. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1968, p. 15).
[337] O poema mostra-se com variantes, sobretudo na pontuação, no jornal carioca O Globo, em 12 de setembro de 1927;
na ANTOLOGIA MODERNISTA/ I MANHÃ, no Diário de Minas de Belo Horizonte, em 9 de novembro de 1928 (documentos no IEB-
USP; na Coleção Carlos Alberto Passos e no Arquivo Mário de Andrade, respectivamente). Está também em recorte da
revista Boa Nova do Rio de Janeiro, no número de janeiro de 1934, na mesma Coleção, onde se acha, ainda, a versão
constante do livro Remate de males, repetida em um recorte de Planalto (a. 2, nº 16; São Paulo, 1º de janeiro de 1942).
[338] A data desta versão desconsidera, no livro, a versão em O Globo, 12 de setembro de 1927.
[339] Em O Globo e no Diário de Minas: “As sombras se agarrando no folhedo das árvores”; na revista Boa Nova: “As folhas
se agarravam no folhedo das árvores”.
[340] Na versão em Boa Nova e no Diário de Minas: “Uma frescura tão de mão lavada com limão”.
[341] Publicado na ANTOLOGIA DA MODERNA POESIA BRASILEIRA – I, dedicada a MA, na Revista Acadêmica, nº 43, abril de 1939, sem
quebra de estrofe (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[342] Na Revista Acadêmica: “Numa ternura que não é mais ternura não, é piedade paciente,”.
[343] Em Remate de males, 1930, os títulos dos poemas e, neles, certas palavras, têm maiúsculas iniciais; em Poesias,
1941, e no exemplar de trabalho, como todos os títulos vêm em caixa alta, o espaço, ao ser reduzido, restringiu o título ao
primeiro segmento, acompanhado de reticências: “PELA NOITE...”. A presente edição de Poesias completas optou pelo
título na edição princeps.
[344] Jorge de Lima (1895-1953). Poeta, romancista, ensaísta, artista plástico e médico alagoano radicado no Rio de
Janeiro após 1930. Conhece MA em 1927, a bordo do Pedro I, quando o modernista paulistano vai ao Norte do país, como
Turista Aprendiz. Quando ele se demora no Nordeste, do final de 1928 ao início de 1929, recebeu-o em Maceió. Jorge de
Lima está presente no acervo de MA. Na biblioteca, nos livros com dedicatória: Poemas (1927), Mundo impossível do
menino (literatura infanto-juvenil, 1927), Salomão e as mulheres (romance, 1927), Essa Nega Fulô (poema, 1928), Dois
ensaios (1929), Poemas escolhidos (1932), O anjo (romance, 1934), Tempo e eternidade (obra que une sua poesia à de
Murilo Mendes, 1935), Calunga (romance, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939) e
Pintura em pânico (fotomontagens, 1943); na coleção de artes plásticas, nos desenhos Iemanjá (1941) e Duas mulheres
com violino (1942); e no arquivo, em cartas, no manuscrito Louvado e na série de fotomontagens que deu origem ao artigo
de MA FANTASIAS DE UM POETA, no Suplemento em Rotogravura de O Estado de S. Paulo, 1ª quinzena de novembro de 1939 (V.
PAULINO, Ana Maria (Org.). O poeta insólito. São Paulo: Metal Leve/ IEB, 1987). As notas de MA à margem de obras de
Jorge de Lima deram origem aos artigos dele A TÚNICA INCONSÚTIL (O Estado de S. Paulo, São Paulo, 9 jan. 1939), A MULHER
OBSCURA I – II, bem como A POESIA EM PÂNICO e A VOLTA DO CONDOR (“Vida Literária”: Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 21 e 28 de
janeiro, 9 de abril e 30 de junho, 1940).
[345] Publicado na ANTOLOGIA DA MODERNA POESIA BRASILEIRA – I, na Revista Acadêmica, nº 43; Rio de Janeiro, abril de 1939, como
POEMA DA AMIGA, “(1929 – 1930) Remate de males” (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[346] Na versão no mesmo número da Revista Acadêmica: “Movendo asas azuis dentro da tarde”.
[347] MA publica a parte V sob o título POEMA “(Dos ‘Poemas da Amiga’)”, no Diário Nacional, São Paulo, 1º de janeiro de
1930 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[348] Na versão divulgada no Diário Nacional, o verso é: “E os homens são todos bons adonde o branco não entrou.”.
[349] No Diário Nacional, este verso abre uma terceira estrofe.
[350] Acatada a substituição do verbo, presente em Poesias, 1941; em Remate de males o verso é: “A nossa gente vai
muito sofrer e tenho o coração inquieto”, conforme a publicação em periódico.
[351] O poema sai com alterações na pontuação e na divisão das estrofes, na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª
série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no Suplemento Literário de A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 47
(Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[352] Murilo Miranda (1912-1971). Carioca, cursando a Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, funda, em 1939, a
Revista Acadêmica, periódico voltado para a atualidade nas artes, letras e política, que recebe colaboração estrangeira e
acolhe textos dos principais nomes do Brasil, incluído MA. Trabalha com Max Fischer na Americ-Edit, onde segue de perto
a publicação de O Aleijadinho e Álvares de Azevedo, de MA. Aconselhando-se com este experiente bibliófilo, funda a
editora da Revista Acadêmica, voltada para tiragens especiais, como Mangue, de Lasar Segall. Nesse livro de desenhos, o
prefácio é de MA. Além de poemas na Revista Acadêmica, Murilo Miranda figura na Antologia dos poetas bissextos, de
Manuel Bandeira.
[353] Acatada a divisão estrófica marcada pelo escritor em seu exemplar de trabalho de Poesias.
[354] Poema publicado na 2ª fase de Festa: revista de arte e pensamento, a.1, nº 8; Rio de Janeiro, maio de 1935, p. 11.
[355] Na revista Festa, a ideia se divide em dois versos: “É fato, muitíssimas/ Vezes ela prende”.
[356] Na revista Festa, o verso é: “A cara fremente”.
[357]Festa, revista do modernismo carioca, traz: “A esta virgindade”.
[358]Festa finaliza o poema com exclamação e reticências.
[359] O poema mostra-se sem título e em versão com variantes na pontuação, em 10 de dezembro de 1928, no diário do
Turista Aprendiz (V. ANDRADE, Mário de. O Turista Aprendiz. 2ª ed.; estabelecimento de texto, introdução e notas Telê
Ancona Lopez. São Paulo: Duas Cidades, 1983, p. 220-221).
[360] N’O Turista Aprendiz, o verso: “Prenda minha,” figurava entre os atuais versos 9 e 10; excluído em Poesias, 1941.
[361] Em 10 de dezembro de 1928, no diário do viajante, o verso é: “Lá fora a bulha vasta da cidade”.
[362] No diário do Turista Aprendiz: “Ao som dum gramofone blue”.
[363] Em Poesias, 1941, MA apõe a data 1929 a MOMENTO. O poema, em versão com variantes intitulada CREPÚSCULO, é
enviado a Manuel Bandeira na carta de 11 de maio de 1929 (V. POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 3. POEMAS NA CORRESPONDÊNCIA DE MÁRIO DE
ANDRADE). Sob o título CREPÚSCULO URBANO, outra versão sai na revista carioca Bazar, em 21 de outubro de 1931. Em 1º de
janeiro de 1942, Planalto (a. 2, nº 16; São Paulo) absorve a mesma versão do poema no livro (Coleção Carlos Alberto
Passos, IEB-USP).
[364] Em CREPÚSCULO URBANO, o verso é: “O mundo se diluindo claro em vultos roxos”.
[365] Na versão do poema, em Bazar, se lê: “Plange mansinho os ventos em molambos...”
[366]CREPÚSCULO URBANO não traz os versos 8-10: “Ôh, que pra lá da serra caxingam os dinossauros!// Em breve a noite abrirá
os corpos,/ As embaúbas vão se refazer...”
[367] Em julho de 1934, no número que inaugura a 2ª fase de Festa: revista de arte e pensamento, do Rio de Janeiro, o
poema dispensa a primeira divisão nas estrofes e mostra variantes na pontuação.
[368] No periódico: “Que até o olhar se fechou.”.
[369] Publicado na Revista Acadêmica do Rio de Janeiro, nº 45, em agosto de 1939 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-
USP).
[370] Na Revista Acadêmica: “Com meus passos trazidos pelo fogo do Batatão...”.
[371] No periódico carioca: “E enroupei de acerba seda o verde do meu dizer.”.
[372] No periódico, o verso termina sem a palavra “viadutos”.
[373] Na Revista Acadêmica, os versos 13 a 16 não trazem pontos de interrogação.
[374] O verso, na Revista Acadêmica, termina sem o segmento final: “e notícias”.
[375] No periódico carioca: “Mas eu venho das altas torres, trazido ao facho do Batatão,”
[376] Na revista: “Lábios! lábios pro encontro em que cantareis rapidamente,”.
[377] João Condé conservou o autógrafo de versão rasurada deste soneto, com assinatura e a data “S. Paulo 27-XII-1933”,
divulgando o fac-símile nos Arquivos Implacáveis, na revista carioca O Cruzeiro de 7 de maio de 1955 (V. DOSSIÊ: EDIÇÕES E
MANUSCRITOS: 1. MATÉRIA CONCERNENTE AOS LIVROS PUBLICADOS POR MÁRIO DE ANDRADE).
[378] No fac-símile publicado na revista: “Eu nem sei mais se gozo porque o gozo”.
[379] O fac-símile do manuscrito autógrafo publicado em O Cruzeiro exibe a hesitação entre três soluções para o verso:
“Disso, eu me engano e torno a me enganar. Eu ouso.”; “Disso, persisto em me enganar... Eu ouso.” e “Disso, eu insisto em
me enganar... Eu ouso.”
[380] Rasura: substituição no autógrafo: “eu adorei”, por “só busquei”.
[381] Publicado na Revista Acadêmica do Rio de Janeiro, nº 28, em junho de 1937 (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-
USP).
[382] O verso termina em reticências na revista.
[383] Na Revista Acadêmica: “Espalha os trombones das nuvens no azul”.
[384] No periódico, o verso é: “Que estoura dos grotões da terra humana”.
[385] A data “21-XII-37” está no fac-símile do autógrafo assinado “Mario de Andrade”, assim como a dedicatória “A O.P.” e
variante no início do verso 6 – “Nasce em teu corpo nu de adolescente” –, na ANTOLOGIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA – 1ª
série – ANTOLOGIA DA POESIA – 12, no Suplemento Literário de A Manhã, v. 5; Rio de Janeiro, 18 de julho de 1943, p. 48 (V.
DOSSIÊ: EDIÇÕES E MANUSCRITOS: 1. MATÉRIA CONCERNENTE AOS LIVROS PUBLICADOS POR MÁRIO DE ANDRADE). A variante no verso 6 repete-se na
versão impressa na Revista Acadêmica, nº 33, em março de 1938. Nesta, sob o título DOIS SONETOS, o texto, datado de 1938,
exibe também variantes na pontuação; apresenta-se ao lado de TENTAÇÃO, 1916 (V. POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 1. POEMAS EM
CONJUNTOS REUNIDOS POR MÁRIO DE ANDRADE; Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[386] O verso, na Revista Acadêmica, principia sem reticências.
[387] Na versão estampada na Revista Acadêmica, o verso é: “Nasce em teu corpo nu de adolescente,”.
[388] Publicado com o título CANTADAS, na Revista Acadêmica, nº 39; Rio de Janeiro, setembro de 1938; estrofes numeradas
em algarismos romanos (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP). Em 6 de outubro de 1938, na carta a Paulo Duarte, MA
copia os quatro últimos versos do poema com o comentário: “no mês passado fiz uma poesia, sobre o Rio, de puro
entusiasmo pélico (de pele). Não vale nada, mas tem pelo menos quatro versos e um neologismo que justificam tudo [...]
Como é que ninguém ainda não descobrira que a palavra ‘guanabaradas’ significa todas as espertezas pélicas (de pele)
provocadas pelo contato da natureza facilitadora, é que não sei.” (DUARTE, Paulo. Mário de Andrade por ele mesmo. 2ª ed.
São Paulo: Hucitec/ Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1977, p. 166).
[389] A revista publica outra versão: “Via-látea realeza”.
[390] Em 2 de dezembro de 1938, MA envia a Oneyda Alvarenga a versão, com variantes, datada de “6-XI-38”: “Começo
eu, mandando aqui o único poema que fiz depois das guanabaradas que você gostou. Deste gosto menos e o Manú
gostou pouco. Ainda não tem nome. [...] o Manuel não gosta muito, acha que tem muito pra corrigir (também acho) e prefere
sem as duas estâncias do fim, contra o meu voto. O Manuel não gosta dessas tiradas meio demagógicas, mas eu gosto, é
do meu feitio. Proponha coisas, mostre pro Fernando [Mendes de Almeida] e me mande a opinião de vocês dois” (V.
ALVARENGA, Oneyda (Org.). Cartas Mário de Andrade/ Oneyda Alvarenga. São Paulo: Duas Cidades, 1983, p. 158-159).
Sob o título LUAR DO SERTÃO, o poema sai em revista não identificada (Coleção Carlos Alberto Passos, IEB-USP).
[391] Na versão com Oneyda Alvarenga esta estrofe e a seguinte terminam com o refrão: “É o luar! é o luar!”.
[392] Na carta à discípula: “Trepado no altar?...”.
[393] “E estas mãos irriquietas”, na versão da carta a Oneyda.
[394] “Esquecendo de amar!...”, na carta.
[395] Na versão com Oneyda: “É o luar que inventa as árvores e os morros”.
[396] “Vence as tristezas e os males do mundo...”, na carta à discípula.
[397] Na carta, este verso e o anterior são: “Não acredite não, Pedro Correia,/ Que vais te perder, vais esquecer que nem
retrato,”. Na versão publicada na revista não identificada, o verso é: “Que vais te perder, e esquecer que nem estátua,”.
[398] Em 10 de março de 1941, escrevendo a Alphonsus de Guimaraens Filho, MA envia-lhe este poema, então inédito (V.
GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de (Org.). Itinerários: cartas a Alphonsus de Guimaraens Filho de Mário de Andrade e
Manuel Bandeira. São Paulo: Duas Cidades, 1974, p. 29-30).
[399] MA dedica também a Bandeira o poema CARNAVAL CARIOCA de Clã do jabuti (1927).
[400] MA sublinhou a tinta vermelha o primeiro verso nas partes I e II do poema, no exemplar de trabalho de Poesias, 1941,
para ligá-los à análise da própria criação que desenvolve, a tinta preta, no espaço em branco da p. 265 e no verso dela. (V.
DOSSIÊ: EDIÇÕES E MANUSCRITOS: 1. MATÉRIA CONCERNENTE AOS LIVROS PUBLICADOS POR MÁRIO DE ANDRADE).
[401] Na ANTOLOGIA DA MODERNA POESIA BRASILEIRA – I, dedicada a MA na Revista Acadêmica, nº 43, em abril de 1939, está sob o título
POEMA DO IRMÃO PEQUENO “(1931, do Rito do Irmão Pequeno/ Publicado na Homenagem a Manuel Bandeira)”, (Coleção Carlos
Alberto Passos, IEB-USP)
[402] Em 17 de junho de 1941, MA relata a Murilo Miranda: “Você vai ter uma surpresa desagradável, mas tive mesmo que
mudar definitivamente a dedicatória do GIRASSOL DA MADRUGADA. Tenha paciência mas não posso mesmo dedicar esse poema
senão a quem o inspirou. Tanto mais que se puser o R. G. das iniciais, há duas cartas minhas a amigos que poderão
futuramente identificar essas letras. Não sei ainda se porei as iniciais ou deixo o poema sem dedicatória. Mas
decididamente não posso dedicar esses versos a outra pessoa, me causa transtorno psicológico muito desagradável” (V.
ANTELO, Raúl (Org.). Cartas de Mário de Andrade a Murilo Miranda (1934-1945). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p.
84).
[403] Lúcio do Nascimento Rangel (1914-1979). Advogado e editor, integrava o grupo de estudantes de Direito que, com
Murilo Miranda, editava, no Rio de Janeiro, a Revista Acadêmica.
[404] O estabelecimento do texto pautou-se pela última versão em datiloscrito na série Manuscritos Mário de Andrade, no
arquivo do poeta, assim considerada no confronto com cinco versões, ali presentes. A elas se pode somar a versão anterior
à primeira conhecida, apenas mencionada na carta de MA a Carlos Lacerda, em 5 de abril de 1944 (V. FERNANDES, Lygia
(Org.). 71 cartas de Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Livraria São José, s.d., p. 83-93).
[405] Carlos Lacerda (1914-1977). Escritor e jornalista carioca, destacou-se, sobretudo, no cenário político brasileiro.
Acadêmico de Direito, no Rio de Janeiro, integrou a revista Rumo e a Sociedade de Observação Social (SOS), entidades a
cujo convite MA realizou a conferência O sequestro da dona ausente, em 1933, na Casa do Estudante do Brasil. Um dos
fundadores da Revista Acadêmica. Ao lado de Moacir Werneck de Castro e Murilo Miranda, compôs o grupo de jovens
amigos que acompanharam de perto a permanência de MA no Rio, entre 1938 e 1941, mantendo com ele longas
discussões sobre o compromisso social e político dos intelectuais. Nessa época, Lacerda pediu a MA a leitura de textos
seus – poemas, a narrativa O quilombo de Manuel Congo, assim como as peças de teatro O desafio da adolescência e Rio,
em manuscritos hoje no arquivo de seu leitor. Exemplares de Rio e O quilombo de Manuel Congo, com dedicatória a MA,
estão na biblioteca deste, no IEB-USP.
[406] No manuscrito datiloscrito está a hesitação do escritor: “honour (honra)”. A presente edição preferiu “honour”.
[407] A primeira versão conhecida desta parte é o poema MONÓLOGO, na carta de MA a Manuel Bandeira, em 27 de dezembro
de 1929, com variantes na pontuação e nos quatro versos finais – “Crise, mulheres, cinema/ E a p... que te pariu./ Não
insista mais, ouviu?/ Sou desgraçado. Não fumo.” (V. MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Op. cit., p. 436). A versão desta
parte, como a primeira, AMARGURA, em Epigramas políticos, no manuscrito Cantos de Guerra, traz variantes na pontuação e
nos versos (V. POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 5. POEMAS INÉDITOS E DE PUBLICAÇÃO PÓSTUMA).
[408] Em Epigramas políticos, no manuscrito Cantos de Guerra, o verso é: “Basta nazismo, trotsquismo.”.
[409] “Não insistas mais, ouviu?” está em Epigramas políticos, no manuscrito Cantos de Guerra.
[410] A primeira versão conhecida desta parte é V - DESPEDIDA SENTIMENTAL, em Epigramas políticos, no manuscrito Cantos de
Guerra, com variantes na pontuação (V. POESIAS INÉDITAS E ESPARSAS: 5. POEMAS INÉDITOS E DE PUBLICAÇÃO PÓSTUMA).
[411] O estabelecimento do texto acatou a última versão dos poemas no manuscrito Lira paulistana. No Arquivo Mário de
Andrade, este dossiê é o único, na obra do poeta, que conserva praticamente a totalidade das fases da escritura. Ao falecer
em 25 de fevereiro de 1945, MA trabalhava os textos e aparentemente nada descartou.
[412] Verso grafado: “Nossa primavera louca” no manuscrito datiloscrito do conjunto de poemas d’A Lira paulistana,
enviado por MA a Carlos Drummond de Andrade, em carta de 30 de junho de 1944. O confronto desta versão, presente no
arquivo do poeta, na Fundação Casa de Rui Barbosa, com a última versão, conservada no arquivo de MA, mostra
sequência diferente nos títulos e poucas variantes nos textos; não inclui A MEDITAÇÃO SOBRE O TIETÊ.
[413] No conjunto de poemas enviado a Drummond, em 30 de junho de 1944, o início do verso apresenta como variante o
plural: “Divórcios”.
[414] No conjunto de poemas enviado a Drummond, em 30 de junho de 1944, este verso é: “Oh, Sérgio, Oneida, Tarsila, me
fechem a boca,”.
[415] No conjunto de poemas enviado a Drummond, em 30 de junho de 1944, este verso é: “Macios”.
[416] No conjunto enviado a Drummond, o poema apresenta variante na disposição das estrofes: a quarta torna-se sexta, a
sétima decorre do deslocamento da sexta e a primitiva sétima passa a quarta; o primeiro verso difere na pontuação:
“Silêncio em tudo que a música”.
[417] No poema oferecido a Drummond: “Rola em discos sem cessar.”.
[418] No conjunto remetido a Drummond, a variante do verso é: “A advertência dos espíritos”.
[419] Versos 21 e 22 no poema sob a guarda de Drummond: “Paulo Emílio houve um desvio/ Onde o trem descarrilou”.
[420] A variante dos versos 37-38, na versão entregue por MA a Drummond, é: “O arlequim de Tintagiles, Gilda/ Me
esconde tudo, não vejo.”.
[421] Como no primeiro verso, a pontuação deste, na versão oferecida a Drummond, difere da última versão no arquivo de
MA: “Silêncio em tudo que a música”.
[422] Em 23 de julho de 1944, no corpo de carta a Drummond, está uma versão do poema, com variantes (V. ANDRADE,
Carlos Drummond de. Op. cit., p. 517-518).
[423] Na carta a Drummond, o verso é: “Insultos, urros, estertores”.
[424] No manuscrito enviado por MA a Carlos Drummond de Andrade, o poema apresenta variantes na pontuação e na
quebra das estrofes. MA remete a Manuel Bandeira outra versão, ROMANCE/ (de A Lira Paulistana), datada “São Paulo, 5-VIII-
1944”, com a ressalva: “Esta versão não é/ a definitiva”, na qual no primeiro e terceiro versos usam o verbo “contar” (V.
Arquivo Manuel Bandeira, Fundação Casa de Rui Barbosa).
[425] Na versão dada a Bandeira: “Principiou como findou”.
[426] “Havia de ter, por certo”, na versão na carta de MA a Manuel Bandeira
[427] Na versão na carta a Bandeira: “Um sono brutal prostou.”.
[428] “Havia de ter, por certo”, na versão enviada a Manuel Bandeira.
[429] “Por trás do plano, pensou.”, na versão oferecida a Bandeira.
[430] Na carta a Bandeira o verso é: “Sim, fraco, idiota, besta,”.
[431] Na versão do poema entregue a Drummond, o verso torna-se “Como esses nomes de rua”, mediante rasura a tinta.
[432] Em 5 de agosto de 1944, MA envia a Paulo Duarte versão com variantes (V. DUARTE, Paulo. Op. cit., p. 279).
[433] Na carta, o verso é: “No Paiçandu ponham meu sexo,”.
[434] “Meu nariz deixem nos rosais”, na versão confiada a Paulo Duarte.
[435] Em 23 de julho de 1944, MA envia a Drummond três versões da estrofe:
“1ª versão: Oh vós todos, homens, homens,/ Homens, escravos sereis,/ Se não fordes, todos juntos/ Rei dos Reis.
“2ª versão: Oh vós todos, homens, homens/ O Escravo sempre sereis/ Se hoje ou amanhã não fordes/ Rei dos Reis.
“E em casa, já deitado, depois, que a gramática me sossegou, ainda variei assim, pra não perder a ternaridade
transbordante de ‘homens, homens, homens’ que gosto muito: ‘Oh vós todos, homens, homens,/ Homens, não mais
espereis!/ Sede, não escravos (não o Escravo) mas/ Rei dos Reis.’”
(V. ANDRADE, Carlos Drummond de. Op. cit., p. 515).
[436] A carta a Carlos Drummond de Andrade, em 15 de outubro de 1944, abriga versão anterior desta estrofe: “Poeta,
como estás sozinho/ A Estação da Luz cinquentenária/ Abre a paisagem ferroviária,/ Graciano vem comigo” (V. ANDRADE,
Carlos Drummond de. Op. cit., p. 531).
[437] MA falece em 25 de fevereiro de 1945.
[438] Em todas as versões do poema o verso se apresenta com a divisão silábica
[439] Guilherme de Figueiredo (1915-1997) dramaturgo, jornalista, crítico do Diário de Notícias do Rio de Janeiro, a quem
MA enviou poemas de Lira paulistana, em fase de elaboração.
[440] Liddy Chiafarelli (1891-1961). Elisa Hedwig Carolina Mankel Chiafarelli Mignone. Professora de piano, filha de Luigi
Chiafarelli, maestro e professor no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e mulher do compositor Francisco
Mignone. Em 1937, passa a viver com o marido no Rio de Janeiro, onde realiza importante trabalho de formação de
professores de iniciação musical. Sua amizade com MA acentua-se quando ele, ao se transferir para o Rio de Janeiro, em
1938, mora, durante algum tempo, no mesmo prédio em que vive o casal. Manteve correspondência com MA após a volta
dele a São Paulo, em 1941, acompanhando o trabalho na ópera Café. A música a ser escrita por Mignone não se
concretizou.
[441] O estabelecimento do texto acatou a última versão conhecida de Café, confrontadas as versões existentes no arquivo
do escritor.
[442] Em carta de 27 de outubro de 1942, MA envia a Murilo Miranda uma versão primeira desta parte, então intitulada
CORAL DA ESPERANÇA, determinando-lhe mostrá-la apenas aos “amigos mais íntimos, Moacir [Werneck de Castro] e Carlos
[Lacerda]” (V. ANTELO, Raúl (Org.). Op. cit., p. 127-130).
[443] Em 9 de novembro de 1942, MA, escrevendo a Paulo Duarte, sobre a ópera Café, apresenta-lhe trecho com variantes:
os três versos iniciais desta e os versos da próxima estrofe. Pergunta ao destinatário: “Que acha destes versos? Me
parecem dos melhores que já escrevi em vida minha” (V. DUARTE, Paulo. Op. cit., p. 257).
[444] Na carta a Paulo Duarte o verso é: “De cada planta o cafezal destila o veneno verde do ódio”. No manuscrito há
hesitacão entre as formas: “verde” e “grosso”.
[445] Na carta está: “Neste momento ele já está vestindo a armadura de ouro e prata”.
TEXTO DE QUARTA CAPA
O vento corta os seres pelo meio.
Só um desejo de nitidez ampara o mundo...
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.
Ninguém chega a ser um nesta cidade,
As pombas se agarram nos arranha-céus, faz chuva.
Faz frio. E faz angústia... É este vento violento
Que arrebenta dos grotões da terra humana
Exigindo céu, paz e alguma primavera.
MOMENTO, 1937

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