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Significado de PSICANÁLISE

Significado de PSICANÁLISE

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Termo criado por Sigmund FREUD*, em 1896, para nomear um método particular de psicoterapia* (ou tratamento pela fala) proveniente do processo catártico (catarse*) de Josef BREUER* e pautado na exploração do inconsciente*, com a ajuda da associação livre*, por parte do paciente*, e da interpretação*, por parte do psicanalista.
Por extensão, dá-se o nome de psicanálise:
ao tratamento conduzido de acordo com esse método;
à disciplina fundada por Freud (e somente a ela), na medida em que abrange um método terapêutico, uma organização clínica, uma técnica psicanalítica*, um sistema de pensamento e uma modalidade de transmissão do saber (análise didática*, supervisão*) que se apóia na transferência* e permite formar praticantes do inconsciente;
ao movimento psicanalítico, isto é, a uma escola de pensamento que engloba todas as correntes do freudismo.
Termo criado por Sigmund FREUD*, em 1896, para nomear um método particular de psicoterapia* (ou tratamento pela fala) proveniente do processo catártico (catarse*) de Josef BREUER* e pautado na exploração do inconsciente*, com a ajuda da associação livre*, por parte do paciente*, e da interpretação*, por parte do psicanalista.
Por extensão, dá-se o nome de psicanálise:
ao tratamento conduzido de acordo com esse método;
à disciplina fundada por Freud (e somente a ela), na medida em que abrange um método terapêutico, uma organização clínica, uma técnica psicanalítica*, um sistema de pensamento e uma modalidade de transmissão do saber (análise didática*, supervisão*) que se apóia na transferência* e permite formar praticantes do inconsciente;
ao movimento psicanalítico, isto é, a uma escola de pensamento que engloba todas as correntes do freudismo.

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PSICANÁLISE

Termo criado por Sigmund FREUD*, em 1896, para nomear um método particular de psicoterapia* (ou tratamento pela fala) proveniente do processo catártico (catarse*) de Josef BREUER* e pautado na exploração do inconsciente*, com a ajuda da associação livre*, por parte do paciente*, e da interpretação*, por parte do psicanalista. Por extensão, dá-se o nome de psicanálise:
1. ao tratamento conduzido de acordo com esse método; 2. à disciplina fundada por Freud (e somente a ela), na medida em que abrange um

método terapêutico, uma organização clínica, uma técnica psicanalítica*, um sistema de pensamento e uma modalidade de transmissão do saber (análise didática*, supervisão*) que se apóia na transferência* e permite formar praticantes do inconsciente; 3. ao movimento psicanalítico, isto é, a uma escola de pensamento que engloba todas as correntes do freudismo.

“Já havendo o método catártico renunciado à sugestão*, Freud deu um passo a mais, rejeitando igualmente a hipnose. Ele trata com igualdade seus enfermos, do seguinte modo: sem procurar influenciá-los de maneira alguma, faz com que se estendam comodamente em um divã, enquanto ele próprio, retirado do olhar dos pacientes, senta-se atrás deles. Não lhes pede para fecharem os olhos e evita tocá-los, bem como empregar qualquer outro procedimento passível de lembrar a hipnose. Esse tipo de sessão se passa à maneira de uma conversa entre duas pessoas em estado de vigília, uma das quais é poupada de qualquer esforço muscular e de qualquer impressão sensorial capaz de desviar sua atenção de sua própria atividade psíquica.” (Freud, S., em um texto coletivo)

FREUD, segundo Stefan Zweig[1]

“Não se podia imaginar um indivíduo de espírito mais intrépido. Freud ousava a cada instante expressar o que pensava, mesmo quando sabia que inquietava e perturbava com suas declarações claras e inexoráveis; nunca procurava tornar sua posição menos difícil através da menor concessão, mesmo de pura forma.

“Estou convencido de que Freud poderia ter exposto, sem encontrar resistência por parte da universidade, quatro quintos de suas teorias, se estivesse disposto a vesti-las prudentemente, a dizer ‘erótico’ em vez de ‘sexualidade’, Eros em vez de ‘libido’ e a não ir sempre até o fundo das coisas, mas limitar-se a sugeri-las. Mas desde que se tratasse de seu ensino e da verdade, ficava intransigente; quanto mais firme era a resistência, tanto mais ele se afirmava em sua resolução. “Quando procuro um símbolo da coragem moral – o único heroísmo no mundo que não exige vítimas – vejo sempre diante de mim o belo rosto de Freud, com sua clareza viril, com seus olhos sombrios de olhar reto e viril.”

[1] Stefan Zweig, (1881-1942), escritor austríaco, publicou em 1931 o ensaio A cura pelo espírito, uma história das psicoterapias desde Franz Anton Mesmer.

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ORIGENS da PSICANÁLISE:

MESMERISMO HIPNOTISMO CATARSE

Segundo Michel Foucault, em “História da Loucura” (6ª edição-reimpressão, Editora Perspectiva, são Paulo, 2000) , a lepra ‘desaparece’ do mundo Ocidental ao final da Idade Média, sendo brevemente substituída pelas doenças venéreas e finalmente pela loucura. Os loucos ocupariam os leprosários e outras instituições.

MESMERISMO

Franz Anton MESMER (1734-1815): Médico austríaco, amigo de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), era autenticamente médico da Faculdade de Viena e conhecedor da física, da filosofia e da teologia de seu tempo. Em 1773, popularizou a doutrina do magnetismo animal: afirmava que as doenças nervosas provinham de um desequilíbrio na distribuição de um “fluido universal”, que circulava no organismo humano e animal. A virtude curativa provinha, segundo ele, do próprio médico, portador de um fluido magnético, emanado, por exemplo, do brilho dos seus olhos. Para estabelecer o equilíbrio da circulação fluídica, devia-se pôr o doente em estado de sonambulismo e provocar nele estados convulsivos, por uma série de manipulações, chamadas passes magnéticos. Em 1775, Mesmer foi convidado pelo Príncipe-Eleitor da Baviera a confrontar-se com o padre Johann Joseph Gassner. Humilde sacerdote rural e célebre exorcista de Würtemberg, Gassner praticava a expulsão do mal “demoníaco” do corpo das histéricas, depois de ter experimentado o método no seu próprio corpo, por ocasião de um confronto com o diabo. Ora, na presença da corte e das autoridades, Mesmer provocou e curou convulsões em um doente, sem recorrer ao exorcismo. Mesmer declarou que Gassner era um homem honesto, mas que curava os seus doentes, sem saber, graças ao magnetismo: “Foi assim” – escreveu Henri F. Ellenberger* – “que Franz Anton Mesmer operou em 1775 a guinada decisiva do exorcismo para a psicoterapia dinâmica.” Atacado por todas as academias da Europa, Mesmer conquistou todavia um sucesso estrondoso com os seus tratamentos magnéticos. Em Viena, Mesmer tratou, pelo magnetismo, de Maria-Theresia Paradis, uma jovem musicista de 18 anos. Em um primeiro tempo, ela recobrou a visão, mas a sua cura foi contestada e ela voltou à cegueira. Abalado com esse fracasso, Mesmer mergulhou na depressão e depois deixou a Áustria, para instalar-se em Paris. Em Paris, a partir de 1778, e até as vésperas da Revolução Francesa, o magnetismo fez um enorme sucesso. Tornando-se uma espécie de mago, Mesmer formou discípulos, que fundaram a Sociedade da Harmonia Universal, destinada a restabelecer os vínculos entre os homens, pela força de um fluido. Graças à sua famosa “tina”, ele tratava coletivamente dos numerosos doentes que acorriam à sua suntuosa mansão. Em uma tina cheia d’água eram depositados pedaços de vidro, pedras e hastes metálicas, cujas pontas tocavam os pacientes, ligados entre si por uma corda, que permitia a circulação do fluido. Em 1784, uma comissão composta de peritos da Academia de Ciências e da Sociedade Real de Medicina, entre os quais Benjamin Franklin (1706-1790) e Antoine de Lavoisier (1743-1794),

condenou o mesmerismo e suas práticas, assim como a teoria do fluido, e declarou que os efeitos terapêuticos obtidos por Mesmer se deviam ao poder da imaginação humana. Nessa data, o marquês Armand de Puységur (1751-1825) demonstrou na sua aldeia de Buzancy a natureza psicológica, e não fluídica, da relação terapêutica, substituindo o tratamento magnético por um estado de “sono desperto” ou “sonambulismo”. Em 1931, quando Sigmund Freud leu a obra que Stefan Zweig acabava de dedicar a Mesmer e à história da “cura pelo espírito”, atribuiu o devido lugar a esse médico das Luzes na história da invenção da sugestão: “Penso, como você, que a verdadeira natureza da sua descoberta, isto é, a sugestão, ainda não está identificada”. Isso se faria pelos trabalhos da historiografia* erudita.

HIPNOTISMO

HIPNOSE: Termo derivado do grego hypnos (sono) e sistematizado, entre 1870 e 1878, para designar um estado alterado de consciência (sonambulismo ou estado hipnóide) provocado pela sugestão* de uma pessoa em outra. Hipnotismo foi um termo cunhado em 1843 pelo médico escocês James Braid (1795-1860), para definir o conjunto das técnicas que permitiam provocar um estado de hipnose num sujeito, com finalidades terapêuticas. A sugestão se dava, nesse caso, entre um médico hipnotizador e um paciente hipnotizado. As duas palavras, hipnose e hipnotismo, são freqüentemente utilizadas na mesma acepção. Em 1784, no exato momento em que, em Paris, a teoria do magnetismo animal de Franz Anton Mesmer era condenada pelos especialistas da Academia de Ciências e da Real Sociedade de Medicina, o marquês Armand de Puységur (1751-1825) demonstrava, em sua cidadezinha de Buzancy, a natureza psicológica e não “fluídica” da relação terapêutica, substituindo o tratamento magnético por um estado de “sono desperto” ou “sonambulismo”. Em especial, ele observou que Victor Race (seu “paciente”), longe de cumprir suas ordens, antecipava-se a elas e chegava até a impor sua vontade a seu magnetizador pelas palavras, pela verbalização de seus sintomas, sem experimentar nenhuma crise convulsiva. Foi assim que, às vésperas da Revolução de 1789, nasceu a idéia de que um mestre (um cientista, um médico ou um nobre) podia ser cerceado no exercício de seu poder por um sujeito* capaz de falar, mesmo que este lhe fosse inferior (um criado, um doente, um camponês, etc.). Em 1813, o abade José Custódio de Faria (1756-1819) retomou a mesma idéia, depois de haver participado do movimento revolucionário. Criticando todas as teorias do “fluido”,

inaugurou em Paris um curso público sobre o “sono lúcido” e demonstrou que era possível fazer os sujeitos adormecerem, concentrando a atenção deles num objeto ou num olhar. O sono, portanto, não dependia do hipnotizador, mas do hipnotizado. Em 1845, Alexandre Dumas (1802-1970) fez do abade Faria um personagem lendário em seu romance O conde de Montecristo. Antes que essa bela idéia da liberdade da fala, própria da filosofia do Iluminismo, percorresse seu caminho e fosse retomada por Sigmund Freud, foi preciso que se instalasse sobre as ruínas do magnetismo a longa aventura da hipnose. Progressivamente libertos do “fluido”, os magnetizadores da primeira metade do século XIX começaram a praticar um hipnotismo espontâneo, provocando estados sonambúlicos nos doentes nervosos. Esse método de exploração favorecia a revelação de segredos patogênicos nocivos, enterrados no inconsciente* e responsáveis pelo mau estado psíquico dos sujeitos. A partir de 1840, espalhou-se pela Europa e Estados Unidos uma grande onda de espiritismo*. Entre as mulheres que se transformavam em videntes, dotadas de personalidades múltiplas, e os médicos que hesitavam em acreditar numa possível relação com o além, o hipnotismo permitiu conferir um estatuto racional à relação terapêutica. James Braid, que introduziu a palavra ‘hipnotismo’, refutou definitivamente a teoria fluídica em prol de uma explicação de tipo fisiológico, e substituiu a técnica mesmeriana dos “passes” pela fixação num objeto brilhante, na qual Faria já havia pensado. Foi Auguste Liébeault* quem retomou os ensinamentos de Braid, seguindo-se a ele Hippolyte Bernheim*. Em 1884, os dois fundaram a Escola de Nancy, que se tornou a grande rival da Escola da Salpetrière, dominada pelo ensino de Jean Martin Charcot*. A querela entre essas duas escolas, que teve por pivô fundamental a questão da histeria*, durou uns bons dez anos. Enquanto Charcot assimilava a hipnose a um estado patológico, a uma crise convulsiva, e utilizava o hipnotismo para retirar a histeria da simulação e lhe conferir o estatuto de neurose*, Bernheim a considerava um processo normal. Assim, via no hipnotismo uma técnica de sugestão que permitia tratar dos pacientes. Reatando com o projeto de instituir uma terapia fundamentada numa pura relação psicológica, ele abriu caminho para a expansão das diversas psicoterapias da segunda psiquiatria dinâmica. Foi por isso que acusou Charcot de “fabricar” histéricas através da sugestão. Essa disputa, que opôs as duas escolas e mobilizou todos os especialistas europeus nas doenças da alma, indicou o quanto a hipnose era portadora de uma nova esperança de cura, muito embora a nosografia psiquiátrica do fim do século XIX se esgotasse no niilismo terapêutico, de tanto preconizar tratamentos inúteis – camisas-de-força, banhos, eletricidade etc. – e construir classificações rígidas, das quais o sofrimento do sujeito era banido.

Simultaneamente marcado pelo ensino de Charcot e pelo de Bernheim, Freud logo abandonou a hipnose em favor da catarse*, como mostram seus Estudos sobre a histeria*. As razões desse abandono e desse desinteresse foram objetos de múltiplos comentários contraditórios. No entanto, são bastante simples. Se Freud não gostava da hipnose e se considerava o hipnotismo uma técnica bárbara, que só podia ser aplicada a um número restrito de doentes, era porque a adoção da psicanálise, como técnica de verbalização dos sintomas pela fala, enfim permitia ao doente falar com liberdade e com plena consciência, sem necessidade de se entregar a um sono artificial. Um século depois de Puységur, e na mais pura tradição do Iluminismo, Freud reatualizou, assim, a grande idéia da liberdade do homem e de seu direito à fala, destruindo de um só golpe as teses de Charcot e Bernheim. O primeiro só utilizava a hipnose para fins de demonstração, e o segundo só fornecia tratamento ao preço de enterrar o doente na sugestão. Afastando-se das duas escolas, Freud foi o único estudioso de sua época a inventar um tratamento que, libertando o enfermo dos últimos resquícios de um magnetismo transformado em hipnotismo e sugestão, propunha uma filosofia da liberdade, baseada no reconhecimento do inconsciente e de sua via real: o sonho*.

CATARSE

Catarse: Palavra grega utilizada por Aristóteles para designar o processo de purgação ou eliminação das paixões que se produz no espectador quando, no teatro, ele assiste à representação de uma tragédia. O termo foi retomado por Sigmund Freud e Josef Breuer*, que, nos Estudos sobre a histeria, chamam de método catártico o procedimento terapêutico pelo qual um sujeito consegue eliminar seus afetos patogênicos e então ab-reagi-los, revivendo os acontecimentos traumáticos a que eles estão ligados. Fazia séculos que a noção de catarse era objeto de uma discussão interminável, tanto no campo da estética quanto no da filosofia. Em 1857, Jacob Bernays (1824 -1881), tio de Martha Bernays, futura mulher de Sigmund Freud, publicou um livro de medicina sobre o assunto. Opondo-se a Lessing (1729 -1781), que dera ao termo uma interpretação moral, fazendo da catarse um “expurgo” ou uma “purificação”, Bernays sublinhou que Aristóteles, filho de médico, havia-se inspirado no corpus hipocrático. Daí a idéia de que o tratamento devia fazer surgir o elemento opressivo, para provocar um alívio, em vez de fazê-lo regredir através de uma transformação ética do sujeito. Tratava-se de fazer com que saísse do sujeito, através da fala, um segredo patogênico, consciente ou inconsciente, que o deixava em um estado de alienação.

Entre 1857 e 1880, foi publicado sobre essa idéia um número considerável de trabalhos em língua alemã, inspirados no de Bernays. Em Viena, onde grassava o niilismo terapêutico, as teses de Bernays foram submetidas a diversos exames críticos, e foi na esteira dessa grande onda da catarse que Josef Breuer e Sigmund Freud, ambos marcados pelo ensino aristotélico de Franz Brentano*, recorreram a essa idéia. Esta surgiu em sua pena pela primeira vez em 1893, juntamente com a de ab-reação*, na “Comunicação preliminar” que, dois anos depois, serviria de capítulo inaugural para os Estudos sobre a histeria: “A reação do sujeito que sofre algum prejuízo só tem um efeito realmente ‘catártico’ quando é de fato adequada, como na vingança. Mas o ser humano encontra na linguagem um equivalente do ato, equivalente graças ao qual o afeto pode ser ‘ab-reagido’ mais ou menos da mesma maneira.” Como sublinhou Albert Hirschmüller em 1978, fazia muito tempo que os dois autores empregavam esse termo. No entanto, foi a Breuer que coube a invenção do método. Freud o utilizou, por sua vez, no tratamento de Emmy von N. (Fanny Moser*). Na França, também Pierre Janet* tinha inventado, mais ou menos na mesma época, um método muito próximo desse – recordação de uma lembrança e ab-reação –, ao qual dera o nome de dissociação verbal ou desinfecção moral. Assim, ele reivindicou uma prioridade para sua invenção. Foi por isso que, para evitar uma disputa pela prioridade entre Paris e Viena, Breuer, instigado por Freud, apresentou o caso Anna O. (Bertha Pappenheim*) como sendo o protótipo de um tratamento catártico. Os trabalhos da historiografia* acadêmica, inaugurados por Henri F. Ellenberger* e prosseguidos por Hirschmüller, permitiram que se restabelecesse a verdade a respeito desse caso princeps. Além dessa querela de prioridade, existe uma diferença radical entre o procedimento de Janet e o de Breuer. Ainda que, em ambos os casos, o médico interrogue o paciente sob hipnose para ganhar acesso às representações inconscientes, Janet procede por sugestão*, sem investigar o evento inicial que responde pelo efeito patogênico, ao passo que Breuer, ao contrário, procura o elemento original para ligá-lo aos afetos e provocar a ab-reação. Do ponto de vista teórico, portanto, são poucas as semelhanças existentes entre os dois métodos. Na história da psicanálise, o método catártico deriva do campo do hipnotismo. Foi ao se desligar progressivamente da prática da hipnose, entre 1880 e 1895, que Freud passou pela catarse, para inventar o método psicanalítico propriamente dito, baseado na associação livre*, ou seja, na fala e na linguagem.
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PILARES TEÓRICOS:

Inconsciente Complexo de Édipo Resistência Recalque Sexualidade

INCONSCIENTE:

Na linguagem corrente, o termo inconsciente é utilizado como adjetivo, para designar o conjunto dos processos mentais que não são conscientemente pensados. Pode também ser empregado como substantivo, com uma conotação pejorativa, para falar de um indivíduo irresponsável ou louco, incapaz de prestar contas de seus atos. Conceitualmente empregado em língua inglesa pela primeira vez em 1751 (com a significação de inconsciência), pelo jurista escocês Henry Home Kames (1696-1782), o termo inconsciente foi depois vulgarizado na Alemanha, no período romântico, e definido como um reservatório de imagens mentais e uma fonte de paixões cujo conteúdo escapa à consciência. Introduzido na língua francesa por volta de 1860 (com a significação de vida inconsciente) pelo escritor suíço Henri Amiel (1821-1881), foi incluído no Dictionnaire de l’Académie Française em 1878. Em psicanálise, o inconsciente é um lugar desconhecido pela consciência: uma “outra cena”. Na primeira tópica* elaborada por Sigmund Freud, trata-se de uma instância ou um sistema (Ics) constituído por conteúdos recalcados que escapam às outras instâncias, o pré-consciente* e o consciente* (Pcs-Cs). Na segunda tópica, deixa de ser uma instância, passando a servir para qualificar o isso* (Id) e, em grande parte, o eu* (Ego) e o supereu* (Superego).

COMPLEXO de ÉDIPO:

Correlato do complexo de castração* e da existência da diferença sexual* e das gerações*, o complexo de Édipo é uma noção tão central em Psicanálise quanto a universalidade da interdição do incesto* a que está ligado. Sua invenção deve-se a Sigmund Freud, que pensou, através do vocábulo Öedipuskomplex, num complexo ligado ao personagem de Édipo, criado por Sófocles. O complexo de Édipo é a representação inconsciente pela qual se exprime o desejo* sexual ou amoroso da criança pelo genitor do sexo oposto e sua hostilidade para com o genitor do mesmo sexo. Essa representação pode inverter-se e exprimir o amor pelo genitor do mesmo sexo e ódio pelo sexo oposto. Chama-se Édipo à primeira representação, Édipo invertido à segunda, e Édipo completo à mescla das duas. O complexo de Édipo aparece entre os 3 e os 5 anos de idade. Seu declínio marca a entrada num período de latência, e sua resolução após a puberdade concretiza-se num novo tipo de escolha de objeto. Na história da psicanálise, a palavra Édipo acabou substituindo a expressão Complexo de Édipo. Nesse sentido, o Édipo designa, ao mesmo tempo, o complexo definido por Freud e o mito fundador sobre o qual repousa a doutrina psicanalítica como a elucidação das relações do ser humano com suas origens e sua genealogia familiar e histórica. Em psicanálise, a questão do Édipo pode ser abordada de duas maneiras diferentes, conforme nos coloquemos no ponto de vista do complexo (e portanto, da clínica) ou no ponto de vista da interpretação do mito. Segundo a tese canônica, o complexo de Édipo está ligado à fase (estádio*) fálica da sexualidade infantil. Aparece quando o menino (por volta dos 2 ou 3 anos) começa a sentir sensações voluptuosas. Apaixonado pela mãe, ele quer possuí-la, colocando-se como rival do pai, outrora admirado. Mas adota igualmente a posição inversa: ternura em relação ao pai e hostilidade para com a mãe. Há então, ao mesmo tempo que um Édipo, um “Édipo invertido”. E essas duas posições – positiva e negativa – perante cada genitor são complementares e constituem o Édipo completo, exposto por Freud em seu livo O eu e o isso* (O Ego e o Id). O complexo de Édipo desaparece com o complexo de castração*: o menino reconhece então na figura paterna o obstáculo à realização de seus desejos. Abandona o investimento* feito na mãe e evolui para uma identificação* com o pai, a qual lhe permite, mais tarde, uma outra escolha de objeto e novas identificações: ele se desliga da mãe (desaparecimento do complexo de Édipo) para escolher um objeto do mesmo sexo dela. Ao Édipo, Freud acrescenta a tese da libido* única, de essência masculina, que cria uma dissimetria entre as organizações edipianas feminina e masculina. Se o menino sai do Édipo através da angústia de castração, a menina ingressa nele pela descoberta da castração e pela inveja do pênis. Nela, o complexo se manifesta pelo desejo de ter um filho do pai. Ao contrário do menino, a menina desliga-se de um objeto do mesmo sexo (a mãe) por outro de sexo diferente (o pai). Não há, portanto, um paralelismo exato entre o Édipo masculino e seu

homólogo feminino. Não obstante, existe uma simetria, uma vez que nos dois sexos o apego à mãe é o elemento comum e o primeiro.

RESISTÊNCIA:

Termo empregado em psicanálise para designar o conjunto das reações de um analisando cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise. O processo da resistência participou, tanto quanto a transferência*, do nascimento da psicanálise. Só que esteve ainda mais diretamente associado a ele. Com efeito, Freud empregou essa palavra assim que esbarrou nas primeiras dificuldades na prática da hipnose e da sugestão, chegando até a reconhecer como “legítimas” as resistências dos pacientes confrontados com a “tirania da sugestão”. A passagem para o método psicanalítico certamente não pôs fim às resistências, mas elas mudaram de estatuto. Tornaram-se passíveis de interpretação* e, portanto, passíveis de ser superadas. A princípio Freud julgou ser possível transpor o obstáculo da resistência que se manifestava na forma do desrespeito à regra fundamental*, explicando seu conteúdo ao paciente com insistência e convicção. Num segundo tempo, ele passou a considerar a resistência como um dado clínico, sintoma do que está recalcado. Assim, ela passou a participar do processo de recalque* e a depender tanto da interpretação quanto a transferência, sob cuja forma freqüentemente se manifesta. No contexto de sua segunda tópica, Freud identificou cinco formas de resistência: três delas têm sua sede no eu* (Ego), uma no isso* (Id), e a última, no supereu* (Superego). As resistências ligadas ao Ego podem manifestar-se sob a forma do recalque como tal, sob a da resistência da transferência, ou ainda como um lucro secundário ligado à persistência da neurose, sendo a cura vivida como um perigo para o Ego. A resistência cuja sede encontra-se no Id leva à compulsão à repetição. Pode ser superada quando o sujeito integra uma interpretação (elaboração*). A resistência do Superego exprime-se em termos de culpa inconsciente e necessidade de punição.

RECALQUE:

Na linguagem comum, a palavra recalque designa o ato de fazer recuar ou de rechaçar alguém ou alguma coisa. Assim é empregada com respeito a pessoas a quem se quer recusar o acesso a um país ou a um recinto específico. Para Sigmund Freud, o recalque designa o processo que visa manter no inconsciente todas as idéias e representações ligadas às pulsões e cuja realização, produtora de prazer, afetaria o equilíbrio do funcionamento psicológico do indivíduo, transformando-se em fonte de desprazer. Em outras palavras, todos os impulsos inconscientes que poderiam perturbar o consciente, são por este censurados e recalcados para o interior do inconsciente, evitando-se assim o desconforto que causariam ao indivíduo. O recalque não lida com as pulsões em si, mas com seus representantes, imagens ou idéias, os quais, apesar de recalcados, continuam ainda no inconsciente, sob a forma de derivados ainda mais prontos a retornar para o consciente, na medida em que se localizam na periferia do inconsciente. O recalque de um representante da pulsão nunca é definitivo, portanto. Continua sempre ativo, daí um grande dispêndio energético. O recalque constitui, para a pulsão e seus representantes, um meio termo entre a fuga (resposta apropriada às excitações externas) e a condenação (que seria o apanágio do Superego). Distinguimos três tempos constitutivos do recalque: (1) o recalque propriamente dito, ou recalque a posteriori; (2) o recalque originário; e (3) o retorno do recalcado nas formações do inconsciente. O retorno do recalcado, terceiro tempo do recalque, manifesta-se sob a forma de sintomas – sonhos*, esquecimentos e outros atos falhos* –, considerados por Freud como formações de compromisso. O recalque só se separa nitidamente do Ego pelas resistências do recalque, ao passo que, através do Id, pode comunicar-se com ele.

SEXUALIDADE:

A idéia de sexualidade é de tamanha importância na doutrina psicanalítica que, com justa razão, pôde-se afirmar que todo o edifício freudiano assentava-se sobre ela. Como conseqüência,

a idéia aceita de que os psicanalistas dariam uma significação sexual a qualquer ato da vida, a qualquer gesto, a qualquer palavra, levou os adversário de Sigmund Freud a fazerem de sua doutrina a expressão de um pansexualismo* (“explicar tudo através do sexo”). Na verdade, as coisas não são tão simples assim. Todos os cientistas do fim do século XIX preocupavam-se com a questão da sexualidade, na qual viam uma determinação fundamental da atividade humana. Assim, faziam da sexualidade uma evidência e do fator sexual a causa primária da gênese dos sintomas neuróticos. Daí a criação da sexologia* como ciência biológica e natural do comportamento sexual. Impregnado das mesmas interrogações que seus contemporâneos, Freud, no entanto, foi o único dentre eles a inventar não a prova do fenômeno sexual, mas uma nova conceituação, capaz de traduzir, nomear ou até construir essa prova. Por isso, ele efetuou uma verdadeira ruptura teórica (ou epistemológica) com a sexologia, estendendo a noção de sexualidade a uma disposição psíquica universal e extirpando-a de seu fundamento biológico, anatômico e genital, para fazer dela a própria essência da atividade humana. Portanto, é menos a sexualidade em si mesma que importa na doutrina freudiana do que o conjunto conceitual que permite representá-la: a pulsão*, a libido*, o apoio* e a bissexualidade*. A elaboração dessa nova constituição foi iniciada a partir de uma experiência clínica pautada na escuta do sujeito. Freud não inventou uma terminologia particular para distinguir os dois grandes campos da sexualidade: a determinação anatômica, por um lado, e a representação social ou subjetiva, por outro. Não obstante, por sua nova concepção, ele mostrou que a sexualidade tanto era uma representação ou uma construção mental quanto o lugar de uma diferença anatômica. Em conseqüência disso, sua doutrina transformou totalmente a visão que a sociedade ocidental tinha da sexualidade e da história da sexualidade em geral. --------------------------------------------------INSTRUMENTOS ANALÍTICOS:

Associação Livre Atos Falhos (Lapsos) Sonhos

ASSOCIAÇÃO LIVRE:

Ferramenta que caracteriza a REGRA FUNDAMENTAL constitutiva da situação analítica, segundo a qual o paciente deve esforçar-se por dizer tudo o que lhe vier à cabeça, principalmente aquilo que se sentir tentado a omitir, seja por que razão for. O método das associações livres (das idéias), ou da livre associação, permite atingir com maior facilidade, segundo Freud, os elementos que estão em condições de liberar os afetos, as lembranças e as representações. Para tanto, é preciso convidar os pacientes a se deixarem levar e “exigir” deles que não deixem de revelar um só pensamento ou idéia, a pretexto de o acharem vergonhoso ou doloroso.

ATOS FALHOS (Lapsos):

Ato pelo qual o sujeito, a despeito de si mesmo, substitui um projeto ao qual visa deliberadamente por uma ação ou uma conduta imprevistas. Tal como em relação ao lapso, Sigmund Freud foi o primeiro, a partir de A interpretação dos sonhos*, a atribuir uma verdadeira significação ao ato falho, mostrando que é preciso relacionálo aos motivos inconscientes de quem o comete. O ato falho ou acidental torna-se equivalente a um sintoma, na medida em que é um compromisso entre a intenção consciente do sujeito e seu desejo inconsciente.

SONHOS:

Fenômeno psíquico que se produz durante o sono, o sonho é predominantemente constituído por imagens e representações cujo aparecimento e ordenação escapam ao controle consciente do sonhador.

Por extensão, em especial a partir do século XVIII, o termo designa também uma atividade consciente que consiste em imaginar situações cujo desenrolar desconhece as limitações da realidade sinônima de visão, devaneio, idealização ou fantasia*, em suas acepções mais corriqueiras. Sigmund Freud foi o primeiro a conceber um método de interpretação dos sonhos baseado não em referências estranhas ao sonhador, mas nas livres associações que este pode fazer, uma vez desperto, a partir do relato de seu sonho. A Professora Doutora Lúcia Santaella (PUC-SP), a mais importante professora de semiologia peirceana do país, afirma que só começou realmente a entender a semiologia quando foi instigada a ler, em seus anos de formação, a magistral obra de Sigmund Freud: “A interpretação dos sonhos” (Editora Imago, São Paulo). -----------------------------------------------------------------------CONSIDERAÇÃO FINAL: Psicanálise e Auto-Avaliação

A auto-avaliação não deve ser uma atividade esporádica, sasonal ou incidental, muito menos deve ser considerada por poucos critérios arbitrários. Deve ser um estado mental constante, não somente no ambiente de trabalho, mas em todos os aspectos da vida racional, desperta e atuante. A PSICANÁLISE é a única psicoterapia científica, e sofre a concorrência de 500 escolas de psicoterapia, distribuídas em quase todos os países do mundo. É o melhor método para o auto-conhecimento, e portanto é perseguida por todos os sistemas ditatoriais que combatem a liberdade individual. A PSICANÁLISE É A MELHOR FERRAMENTA PARA A AUTO-AVALIAÇÃO. Continua sendo o método mais eficaz, de longo prazo, para o tratamento de todas as afecções psíquicas.

BIBLIOGRAFIA:

ROUDINESCO, E. e PLON, M. DICIONÁRIO DE PSICANÁLISE, 1ª edição, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1998.

A Integral da Obra Psicológica de Freud, Editora Imago, São Paulo.

LAPLANCHE, J. VOCABULÁRIO DA PSICANÁLISE Laplanche e Pontalis, 4ª edição, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2001. ---------------------------------------------------------------------------

Sigmund Freud
Introdução
Sigmund Freud, foi um médico austríaco conhecido por ser o fundador da psicanálise - um método de investigação da mente humana, um conjunto de teorias sobre o funcionamento da vida mental. O método psicanalítico de Freud, enfatizava a importância do inconsciente para a compreensão de comportamentos anormais e a importância da primeira infância (sexualidade infantil), na formação da personalidade. Esses elementos novos, e controversos, introduzidos por Freud na psicologia, causaram e causam ainda hoje, críticas e rejeições por parte de psicólogos e psiquiatras que advogam uma abordagem da "ciência pura" (cientistas de laboratório). Todavia, os que defendem a importância da psicologia prática (aplicada ao comportamento), apoiam as idéias de Freud. De qualquer modo, a influência da psicanálise se faz sentir, hoje, nas obras de muitos escritores, nas ciências humanas, no próprio estilo de vida e nos costumes do século XX, inclusive na liberdade com que se discute os problemas sexuais. E, ainda, ao tornar possível uma compreensão maior da infância, a psicanálise permitiu que pais e professores buscassem práticas mais adequadas na educação das crianças, melhorando a interação entre elas e os adultos que lhes são significativos.Vamos, então, percorrer, neste texto, o caminho de Freud para a realização da Psicanálise: um caminho intimamente ligado com sua própria vida. Freud é chamado "Pai da Psicanálise".

A Biografia de Sigmund Freud (1856 - 1939)
Sigismund Schlomo Freud, nasceu em 6 de maio de 1856, na pequena vila Morávia de Freiberg. Primeiro de oito filhos do segundo casamento de Jacob Kallamon Freud (41 anos), com Amália (21 anos). Seus pais eram judeus e Freud ingressou no pacto judaico foi circuncidado - em 13 de maio de 1856. Sigismund abreviará seu nome para Sigmund em 1877. Sua família o chamará pelo diminutivo Sigi. Os dois filhos do primeiro casamento de Jacob, Emanuel e Philipp, eram seus vizinhos. Freud lembrará de John, seu sobrinho, filho de Emanuel, como o "companheiro de suas estrepolias" e bem como das brincadeiras

cruéis que faziam com Pauline, irmã de John. A educação de Sigmund é dada com ajuda de uma ama, cujo nome é Nannie e a quem Sigmund realmente adora. Ela ensina-lhe hábitos higiênicos, empregando termos grosseiros, alternando com ele estímulos erógenos e maus tratos. Sigismund sabe-se, é a criança querida de sua mãe. Em 1859, os Freud partem para Leipzig. Na viagem de trem, á noite, Sigismund se assusta com os bicos de gás iluminados que lhe evocam as "alma que queimam no inferno", das quais lhe falava Nannie. Deste incidente então, provém sua fobia por viagens de trem. No ano seguinte mudam-se para um bairro pobre de Viena tradicionalmente habitado por judeus, com os dois filhos, Sigismund e Anna – um filho, Julius, morrera em Freiberg, em 1858, aos sete meses. Sigismund tem sentimentos de culpa pela morte deseja desse "rival". Entre 1860 e 1866, Freud foi "presenteado" com o nascimento de quatro irmãs - Rose, Marie, Adolfine e Pauline- e com o nascimento de seu irmão caçula Alexander. O início da vida em Viena - onde Freud se instala e fica- é um período negro para Sigismund pois tem que enfrentar a pobreza, o nascimento dos irmãos, as mudanças freqüentes de residências, e a perda de sua vida livre e feliz no campo. Seu pai não era uma pessoa que facilitasse as coisas. Ele era um pequeno comerciante de lãs sem recursos suficientes para enfrentar o mundo industrializado à sua volta. Era, no entanto, amável, generoso e convicto dos dotes excepcionais do filho Sigismund. Essa expectativa em torno de Freud desenvolveria sua autoconfiança, mas por ser considerado um privilegiado eramlhe exigidas responsabilidades, "À sua inteligência, foi dada uma tarefa da qual nunca recuou, até que, 40 anos mais tarde, encontrou a solução de uma forma, que tornou seu nome imortal". (Kupfer 1989, 17). Os sentimentos de Freud em relação a seu pai, no entanto, eram intrincados. Duas passagens se fazem importantes: A primeira, por volta de 1864, quando Sigismund urina voluntariamente no quarto dos pais e diante deles. Ao repreendê-lo, seu pai diz: "Não se fará nada deste menino". Esta maldição freqüentará por muito tempo os sonhos de Freud, estimulando assim sua ambição. A segunda é quando, durante um passeio seu pai lhe conta que, quando rapaz, dando uma volta pelas ruas de Freiberg, um cristão lhe havia arrancando o gorro da cabeça, atirou no estrume e gritou: "Judeu, fora da calçada" e ele saíra da calçada e apanhara o gorro. Contou isso para mostrar ao filho que a vida havia melhorado para os judeus na Áustria. Sigismund, porém, decepcionou-se com o pai, pois deste esperava atitudes heróicas e o considerava um "homem grande e forte". Freud recebe as primeiras lições de sua mãe, e depois de seu pai. Cabe dizer aqui que sua mãe foi provavelmente entre todas as mulheres com que Freud conviveu, a mais importante; A influência que exerceu sobre sua vida interior foi sólida e decisiva. Ela exercia mesmo um poder sobre Freud. "Durante toda a sua vida de analista, ele reconheceu a importância crucial da mãe para o desenvolvimento da criança" (Gay 1997, 458), porém afirma, sempre, que para ele, a mulher era um continente inexplorado – Mulher, O Continente Negro (Gay 1997, 454). Aos 9 anos (1865), ingressa no liceu municipal, onde recebe um ensino, cujos os fundamentos eram as Humanidades (latim, grego, literatura alemã, línguas, matemática e ciências naturais). Forma-se em 1873 e depois ingressa na Universidade de Viena, no curso de medicina. É partidário da "Filosofia da natureza" embora atraído pelas teorias de Darwin. Em 1872, apaixona-se pela primeira vez por Gisela Fluss. A família de Freud vivia na penúria, ajudada por seus avós maternos, mas para dar ao jovem Sigismund uma educação

completa os pais não pouparam sacrifícios. Apesar de habitarem um pequeno apartamento, comparado ao tamanho da família, para Freud foi destinado um pequeno cômodo para seu uso exclusivo. As únicas despesas extraordinárias da família, são reservadas aos estudos de Sigismund e suas necessidades, ou vontades sempre prevaleciam. A educação foi ferramenta fundamental para Fruem, pois representava a possibilidade de ascensão social, a possibilidade de fazer parte do círculo de vienenses cultos e realizar sua ambição: acrescentar algo novo ao conhecimento humano. Em 1876, Freud começa suas primeiras pesquisas no Instituto de Anatomia comparada do Professor Karl Klaus. Daí decide-se tornar um cientista natural, desistindo assim da Faculdade de Direito. Neste mesmo ano, ingressa como aluno pesquisador no Instituto de Filosofia do Professor Ernst Brücke. Por sua influência, Freud abandona a "filosofia da natureza" e passa a dedicar-se a um materialismo cientifico e positivista, que visa a reduzir o ser vivo a mecanismos físicopsiquicos. Brücke, primeiro mestre de Freud, juntamente com Jacob, convence Freud a abandonar a carreira de pesquisa pura. Saindo então do laboratório, e já formado em medicina (1881) Freud ingressa no Hospital Geral de Viena. Trabalha de início em várias especialidades, mas a relação com Meynert, especialista em anatomia do cérebro, destaca-se. A princípio são relações amistosas, porém quando Freud, mais tarde expõe suas idéias sobre as causas da histeria, contrárias as idéias vigentes na Neuropatologia da época, são interrompidas. Meynert foi seu segundo mestre, mas por desavenças teóricas Freud o abandona. Em 1884 Freud destrói todas as suas anotações dos últimos quatorze anos, além de cartas, manuscritos e notas científicas. Entre as cartas, foram poupadas apenas as familiares. Esse gesto seria repetido por ele em 1938, quando se preparava para deixar Viena e seguir para a Inglaterra, porém todo material seria resgatado por Ana Freud, do cesto de lixo. "Freud tinha pouca fé no empreendimento bibliográfico" (Gay, 1997, 13) Por esta época, Freud faz pesquisas sobre a cocaína que por ele é considerada um remédio contra a depressão. Até hoje paira uma dúvida: "Freud era viciado em cocaína e elaborou suas teorias psicanalíticas sob influência desta droga, ou seu emprego da cocaína foi moderado e, ao final, inócuo?"(GAY, 1997, 1S). Por questões práticas - maiores possibilidades de ganhos - Freud escolhe dedicar-se aos estudos das doenças nervosas, ou seja, à Neuropatologia. Em 1885, Freud foi à Paris, interessado em conhecer os trabalhos de Charcot, um nome que "resplandecia ao longe, dentro da Neuropatologia". Isso faz com que entre em cena, o terceiro de seus mestres. Charcot desenvolvia pesquisa sobre hesteria .Freud por esta época, seguiu os cursos "fascinantes" e as autópsias, que o prepararam para adotar a teria da sedação sexual das crianças pelos adultos. Entretanto os trabalhos franceses de medicina legal se limitavam às conseqüências físicas das sevícias sexuais: Freud inovará, interessando-se pelas conseqüências psicológicas sobre o desenvolvimento da criança e do adolescente e sobre o estabelecimento da neurose adulta. Entusiasma-se com a concepção de histeria de Charcot e com o tratamento hipnótico do qual se torna defensor. Freud se converteu em um advogado de Charcot, continuou a difundir suas idéias mas em sua autobiografia, 40 anos mais tarde, Freud comenta a respeito da obra do mestre francês: "nem tudo o que nos ensinou se mantém de pé..." (Kupfer, 1989, 25). Mais uma vez pode se notar o movimento freudiano de abandono de mestres. Em março de 1886, Freud abre seu consultório, tendo como clientela principal, os

neuróticos e usa como tratamento a hipnose. No mesmo ano casa-se com Martha Bernays, de quem estava noivo há quatro anos. Nesse período estava em curso uma amizade, que viria a ser significativa na vida de Freud. Nos anos em que trabalhou no laboratório de Brücke, Freud conheceu Joseph Breuer, fisiologista e médico de sucesso, a quem passou a admirar e que tornou-se seu amigo. Durante anos, compartilharam todo interesse científico, o que seria muito importante para Freud. Porém, o desenvolvimento da Psicanálise viria separar Freud de seu quarto mestre, também por desavenças teóricas. Freud e Breuer escreveram juntos uma obra chamada "Estudos sobre a histeria". No entanto discordavam num ponto: para Freud, a origem, e a causa da histeria eram de natureza sexual e com isso Breuer não concordava. Aos poucos foram se distanciando até não ser mais possível manter a amizade. Em 1887, Freud trava conhecimento com Wilhelm Fliess jovem médico com o qual manterá uma correspondência quase diária por anos. Fliess era um otorrinolaringologista de Berlim, interessado em descobrir a relação entre certas doenças e a sexualidade. Freud ao desenvolver da teoria da Psicanálise viria a ter mais inimigos e menos amigos do que gostaria. Fliess passou a ser o amigo de que Freud precisava, pois ele era ouvinte, confidente, incentivador, companheiro e não se chocava com nada. Talvez o "isolamento de ambos, como médicos subversivos, apenas aumentou a afinidade entre eles" (Gay, 1997, 68). Fliess demonstrava uma sólida compreensão das teorias de Freud e dava-lhe apoio e idéias, inclusive acerca da teoria da sexualidade infantil. De início, as cartas continham idéias e reflexões científicas. Mais tarde, porém, passou a escrever cartas pessoais onde tentava refletir sobre coisas de sua vida à luz das idéias que ele vinha construindo sobre o psiquismo, as quais discutia freqüentemente com Fliess. Dentre elas: a histeria, as obsessões e fobias, neuroses, o fenômeno da transfer6encia, a teoria da sexualidade. Freud, por essa época, andava "atormentado" com sua "Psicologia para neurologistas". Em agosto de 1895, escreve a Fliess dizendo ter conseguido entender a defesa patológica e, com isso, muitos processos psicológicos.(GAY 1997, 90) No ano seguinte, morre seu pai Jacob. Sigmund é profundamente afetado. Nesse ano fala pela primeira vez de noções do aparelho psíquico, de pré consciente, zonas erógenas e possui quase definitivamente a psicologia do sonho. Em 1897, abandona a teoria da sedução e fornece o conceito de "libido". Começa sua auto- análise sistemática, buscando suas recordações de infância. Anuncia a descoberta do complexo de Édipo. Em 1898 fala pela primeira vez da existência de uma sexualidade infantil autônoma, e troca a técnica da concentração pela das associações livres. Em 1899 decide publicar sua auto- análise e, portanto, seu livro sobre os sonhos. Em 1900 trabalha uma teoria da sexualidade e da libido. Analisa seus lapsos, esquecimentos, atos falhos, escolha de números e pseudônimos. Neste ano, publica o livro que lançaria publicamente a Psicanálise- A Interpretação dos Sonhos- (auto análise). Um dos benefícios de sua auto - análise foi desvendar a necessidade que tinha de um "mestre". E foi pela interpretação de um sonho que Freud pode superar de modo definitivo a falta de um mestre. "Não preciso de professores. Cabe ao meu verdadeiro pai me ajudar. Na verdade, não quero ninguém acima de mim. Salvo aquele que me fez" (Kupfer 1989, 28). O ultimo encontro de Freud com Fliess foi em 1900. Os dois brigaram violentamente. Fliess acusa Freud de Ter-lhe "roubado" a idéia da bissexualidade psíquica fundamental de todos os seres humanos. Continuaram a se corresponder, mas cada vez menos. "Fliess havia desempenhado um papel de destaque na pré- história da Psicanálise, mas quando a

história da Psicanálise se desenvolveu, após 1900, sua participação foi ínfima" (Gay 1997, 108). Freud em 1901, torna-se professor e organizador de uma instituição voltada à divulgação da Psicanálise e à formação de analistas. Em 1908 esta instituição se transformará na Sociedade Psicanalítica de Viena. A partir do surgimento da Psicanálise, a vida de Freud passou sem maiores desvios. Em 1902, Freud agrupou em torno de si alguns discípulos, como: O Rank, A Adler, W. Stekel e C.G.Jung. Porém à medida que a instituição analítica se expandia e se organizava, rupturas e cisões aconteciam entre Freud e seus discípulos. Ele se separou de Adler (1911) e O.Rank em (1924). Em 6 de maio de 1906, Freud completou 50 anos. A idéia da velhice parecia oprimi-lo, mas o ritmo de seu trabalho desmentia essa preocupação. Em 1909, foi convidado a fazer uma série de conferências nos EUA, sobre a Psicanálise. Em 1910 fundou a Associação Psicanalítica Internacional. A partir de 1920 aconteceu uma reviravolta importante na teoria freudiana, com a introdução da pulsão de morte e do novo modelo de aparelho psíquico: o ego, o id e o superego. Também a partir desse ano, Freud dedicou-se aos grandes problemas da civilização dentro de uma perspectiva psicanalítica. O primeiro sinal de câncer no maxilar surgiu em 1923, e o obrigou a uma sofrida operação à qual se seguiram outras 32 intervenções. Nesta mesma época morre um de seus netos preferidos. A esses episódios acrescenta-se a guerra . Mesmo acometido da doença, continua a receber pacientes até quase perto de sua morte. Destes alguns se tornaram psicanalistas e contribuíram para a expansão da Psicanálise. De fato, os últimos anos de vida de Freud não foram fáceis, tendo transcorrido esses anos sob o nazismo e os antecedente da II Guerra Mundial. A perseguição imposta aos judeus de Viena não o poupou, embora o seu nome brilhasse como nenhum outro e sua fama já tivesse corrido mundo. Po isso, em 1938, ele se vê obrigado a deixar Viena e mudar-se para Londres. Extraordinário criador de idéias, investigador incansável, sempre tolerante com as fragilidades do ser humano em que reconhecia um permanente desamparo fundamental, brilhante defensor da prioridade das emoções para explicar o comportamento humano, jamais se deixava desviar-se do caminho da busca das verdades; não as verdades estabelecidas, fixas e definitivas, mas aquelas que levavam a um eterno buscar, a uma investigação permanente e desafiadora, a um infinito vir a ser. Somente sua morte interrompeu esta fulgurante e trabalhosa trajetória. Somente a morte fez cessar aquilo que se tornou a marca desta trajetória, inclusive em referência ao objetivo nuclear do trabalho clínico psicanalítico: o movimento psíquico. Em maio de 1939, alguns meses antes da sua morte, Freud escreveu uma carta ao amigo Charles Berg, na qual admitia que "a Psicanálise talvez nunca chegasse a se tornar popular, que um homem do povo não poderia compreendê-la nem ao menos aceitá-la" (Kupfer, 1989). Enganou-se. Neste mesmo ano de 1939, em 23 de Setembro, Freud morre, em Londres, aos 83 anos.

A Psicanálise
Etimologia: Psychoanalyse, vocábulo forjado por Sigmund Freud, do radical psycho-, já documentado em inúmeras palavras em grego clássico na forma psykho- (psykhogonia, 'origem da alma', psykhopompós, 'aquele que conduz a alma', psykhoedes, 'da natureza da alma etc.). Do gr. Psykhé, 'sopro de vida, alento, alma, vida, ser vivo, alma humana,

entendimento, conhecimento, sentimento, desejo, e de análise, ver'. Psicanálise passou a ser então, a análise da mente. O termo psicanálise é usado para se referir a uma teoria, a um método de investigação e a uma prática profissional. Enquanto teoria, caracteriza-se por um conjunto de conhecimentos sistematizados sobre o funcionamento da vida psíquica. A Psicanálise, enquanto método de investigação, caracteriza-se pelo método interpretativo, que busca o significado oculto daquilo que é manifesto através de ações e palavras ou através das produções imaginárias, como os sonhos, os delírios, as associações livres. A prática profissional, refere-se à forma de tratamento psicológico. (a analise) que visa a cura ou o autoconhecimento. Compreender a Psicanálise significa percorrer novamente o trajeto pessoal de Freud, desde a origem dessa ciência e durante grande parte de seu desenvolvimento. Grande parte da produção do método psicanalítico foi baseado em experiências pessoais de Freud. Para melhor compreendermos a Psicanálise, é preciso também, repetir, a nível pessoal, a primeira experiência de Freud e descobrir as regiões obscuras da vida psíquica, vencendo resistências interiores, pois, se a psicanálise foi realizada por Freud, "não é uma aquisição definitiva da humanidade, mas tem que ser realizada de novo por cada paciente e por cada psicanalista".

A gestação da Psicanálise
As teorias cientificas surgem influenciadas pelas condições de vida social, nos seus aspectos econômicos, políticos, culturais, etc. São produtos históricos criados por homens concretos, que vivem o seu tempo e contribuem ou alteram radicalmente o desenvolvimento da Ciência. Sigmund Freud foi um médico que alterou radicalmente o modo de pensar a vida psíquica. Freud ousou colocar os "processos misteriosos" do psiquismo, sua regiões obscuras, isto é, as fantasias os sonhos, os esquecimentos, a interioridade do homem, como problemas científicos. A investigação sistemática desses problemas levou Freud à criação da Psicanálise. Freud após terminar o curso de medicina em 1881 especializou-se, em Paris, em Neurologia (parte da medicina que estuda doenças do sistema nervoso); clinicava nesta área. Tornou-se aluno do Dr.Charcot, que acreditava que as doenças mentais eram originadas de certos fatos passados na infância, e para a cura dos pacientes ele usava a hipnose (estado de sono profundo, no qual o paciente age por sugestão externa). Charcot teria influência decisiva sobre Freud. De volta à Viena Freud se associa com Josef Breuer, médico e cientista, que também foi importante para a continuidade das investigações. Freud e Breuer hipnotizavam seus pacientes de modo que contassem fatos de sua infância. Esse relato provocava dois efeitos: fornecia dados que auxiliavam os médicos no diagnóstico da doença e na libertavam o paciente de suas angústias, agitações e ansiedades. Os doutores chamaram essa libertação de Catarse. Notaram, porém, que essa cura era transitória. Logo apareciam outros sintomas de perturbação. Freud e Breuer trabalharam juntos em alguns casos sem empregar a hipnose. Após terem captado totalmente a confiança do paciente, levavam no a relatar seu passado em estado normal. Dentre muitas observações, pode-se notar o fenômeno da transferência afetiva, ou seja, quase sempre o paciente transferia ao médico suas emoções, ora afeiçoando-se a ele, ora aborrecendo-se com ele. Durante algum tempo, os dois colegas trabalharam juntos mas logo suas idéias começaram a divergir muito e foi preciso que se separassem. Freud foi modificando a

técnica de Breuer; abandonou a hipnose, porque nem todos os pacientes se prestavam a ser hipnotizados, desenvolveu a técnica da concentração, na qual a rememoração sistemática era feita por meio da conversação normal, e por fim abandonou as perguntas para se confiar por completo à fala desordenada do paciente. E com isto foi nascendo o Método Psicanalítico, que é composto por três técnicas: associação livre, análise dos sonhos, análise dos atos falhos.

O Método Psicanalítico Técnica da Associação livre
Nos primeiros contatos com o paciente, Freud procurava ganhar confiança. Depois de algum tempo, este era submetido à associação livre, que consistia em fazer com que o paciente ficasse em uma situação de completo repouso. Geralmente, o doente deitava-se em um divã, que ficava em uma sala silenciosa, na penumbra, tendo o médico por de trás de sua cabeceira, portanto, sem encará-lo. Freud pedia ao paciente que fosse relatando em voz alta todos os fatos de sua vida dos quais podia se lembrar, sem ter que seguir uma ordem lógica ou cronológica. Esta técnica chamou-se de associação, pois Freud pedia aos seus pacientes que mencionassem os fatos conforme lhes ocorressem, conforme fossem se associando uns aos outros em suas mentes. Chama-se associação livre porque o psicanalista não sugere o assunto a ser abordado, deixa o paciente falar à vontade, livremente. Freud, ao submeter os pacientes a esta técnica, notou que estes faziam pausas no decorrer de seus relatos. A essas pausas, em que o doente parecia ter dificuldade de se lembrar dos fatos, Freud chamou de resistência e explicou resultarem do desejo do paciente de ocultar algo ao psicanalista ou a si mesmo. O estudo das resistências foi importante para a descoberta da causa de sintomas que afligiam o paciente, ou seja, para fazer um melhor diagnóstico de sua doença mental. Após submeter-se a técnica da associação livre, o doente podia sentir-se aliviado ou, ao contrário, passar por fortes crises emocionais ao reviver fatos passados de sua vida. O emprego da associação livre, portanto, oferece dois resultado: faz a catarse de alguns sintomas e auxilia o psicanalista a descobrir as causas da perturbação mental (diagnóstico).

Técnica de análise dos sonhos
Freud achou de grande importância a análise do sonho, pois poderia melhor compreender a mente de uma pessoa. Sendo assim pedia sempre a seus pacientes que lhe relatassem seus sonhos. Certos aspectos da mente das pessoas ficavam mais conhecidos pela interpretação que Freud fazia de seus sonhos. Em 1900, foi publicado o mais famoso dos livros de Freud: A Interpretação dos Sonhos. Deve-se a esta obra a introdução do método da associação, que tornou possível o estudo interpretativo do sonho, definido por Freud como a estrada real para o inconsciente. "O sonho é a realização de um desejo", Essa é a fórmula fundamental de Freud. Essa é a função do sonho. Propriedades do sonho: a) A facilidade com que ele é esquecido, tão logo ocorre o retorno à vigília.

b) O predomínio das imagens e, em particular das imagens visuais sobre os elementos de natureza conceitual, caracterizando-se, assim, o sonho como expressão do processo regressivo. c) Seu conteúdo significativo redigido em nível metafórico e impondo trabalho de interpretação. d) Nele mobilizam-se experiências inacessíveis à evocação quando em estado de vigília. Níveis do sonho: Freud distinguiu, no sonho, o conteúdo manifesto e o conteúdo latente, isto é, as idéias oníricas encobertas. O conteúdo manifesto é o sonho tal como relatado. O conteúdo latente é o seu sentido oculto, sentido que justifica o processamento da análise interpretativa. Mecanismos do sonho: Freud distinguiu cinco mecanismos mobilizados na construção do sonho. São eles: a condensação, a dramatização, o simbolismo, o deslocamento e a elaboração secundária. Por condensação se entende o processo segundo o qual o conteúdo latente se expressa sinteticamente no conteúdo manifesto. Por deslocamento se entende o processo pelo qual a carga afetiva se destaca do seu objeto anormal para fixar-se num objeto acessório. A dramatização consiste no processo através do qual os conteúdos conceituais são substituídos por imagens visuais. A simbolização se distingue da dramatização por dois caracteres fundamentais. Em primeiro lugar, enquanto a dramatização parte do abstrato para o concreto, do conceito para a imagem, a simbolização parte do concreto para o concreto, da imagem para outra imagem. E por fim, a elaboração secundária se revela como o processo, pelo qual, à medida que se aproxima a vigília, se introduz nas produções oníricas uma lógica mais ou menos artificial, que visa a preparar o reajuste do indivíduo às condições da realidade. Técnica da análise dos atos falhos: Freud e outro psicólogos denominam de atos falhos os esquecimentos, os lapsos de linguagem, enfim, certos atos que praticamos sem que tivéssemos a intenção de praticá-los. Estes atos são atribuídos simplesmente ao acaso, mas neles percebe-se um significado, negando-lhes a condição de acidentais. Foi proposto por Freud a classificação dos atos falhos em três grupos: (a) atos sintomático; (b) atos perturbados; (c) atos inibidos. Por ato sintomático entende o ato que se cumpre sem recalque. O ato perturbado caracteriza-se como aquele que só se cumpriu parcialmente, em face de um recalque incompleto. Finalmente, o ato inibido é o que resulta de uma situação de conflito, na qual ocorre recalcamento total ou completo. Dentro da perspectiva psicanalítica que sustenta a continuidade entre o normal e o patológico, afirma-se que os atos sintomáticos são freqüentes no homem normal. Os atos perturbados resultam de uma intersecção de forças. Estes atos podem ser de visão, de audição e de gesto. Cabe ressaltar os erros de memória. Já o ato inibido tanto se manifesta no domínio cognitivo (esquecimento) como no domínio motor (paralisia). Sobre o esquecimento, a originalidade de Freud consistiu em propor a tese do esquecimento ativo, isto é, de um esquecimento estratégico, envolvendo material dotado de alto poder de erosão.

Ab-reação, Insight, Repetição
O progresso através da terapia psicanalítica é habitualmente atribuído a três experiências principais: ab - reação, insight das dificuldades e as constantes repetições de seus conflitos e de suas reações a eles. Um paciente tem ab - reação quando exprime livremente uma emoção reprimida ou torna a viver uma experiência emocional intensa, como se fosse uma espécie de limpeza emocional – uma catarse. Um paciente tem insight quando entende quais são as raízes do conflito. Às vezes, chega ao insight ao conseguir lembrar-se de uma experiência reprimida, mas é errada a idéia de que a cura psicanalítica resulta geralmente da recordação repentina, de um único episódio dramático Insight e a ab - reação devem atuar simultaneamente: o paciente precisa compreender seus sentimentos e sentir o que compreende. A reorientação nunca é apenas intelectual. Pela repetição o paciente fica suficientemente forte para enfrentar sem deformação a ameaça de toda situação original de conflito e a reagir a ela, sem uma excessiva angústia. O resultado final que se exige de uma boa psicanálise é uma modificação profunda da personalidade, que permita ao paciente enfrentar os seus problemas com um fundamento realista, sem lançar mãos dos sintomas que o fizeram iniciar o tratamento e que lhe permita uma vida mais agradável e mais rica. Em vez de depender do comportamento defensivo, o paciente passa a depender do comportamento adaptativo.

A Doutrina Psicanalítica
Durante o período de doze anos Freud foi o único que usou, para tratamento de distúrbio nervosos, este método especial de que é autor. Tal método exige muito tato, penetração de julgamento, calma e paciência. Trabalhando com dedicação e persistência, cuidando de seus doentes e observando pessoas sãs, Freud tornou-se um grande conhecedor da mente humana, sobre a qual reuniu uma vasta documentação. Julgou-se, pois, capacitado para publicar uma doutrina psicológica completamente nova, explicando o funcionamento da mente humana e o desenvolvimento da personalidade. Atualmente, a palavra Psicanálise é mais empregada neste sentido- como a doutrina freudiana que explica o funcionamento da mente humana. A doutrina psicanalítica deriva todos os processos mentais (exceto os que dependem da recepção de estímulos externos) de um jogo de forças psíquicas instintivas representadas por imagens ou idéias e suas respectivas cargas emocionais, além de enfatizar os aspectos psicossexuais. A princípio sua doutrina foi mal recebida, e suas obras passaram despercebidas. Porém, aos poucos o número de pessoas interessadas em suas descobertas foi aumentando até ser fundada a Associação Psicanalítica Internacional, chefiada por Jung. Sua doutrina difundiu-se por todo o mundo, mesmo antes de seu falecimento em 1939, em Londres onde Freud se refugiara quando perseguido pelos nazistas, por ser judeu. Atualmente notamos que a Psicanálise influência vários campos da atividade humana, principalmente a Psiquiatria (ramo da medicina que trata das doenças mentais). É grande também o número de psicanalistas dedicados a aplicação da Psicanálise á educação da infância. É comum imaginarmos a Psicanálise acontecendo num consultório com um paciente deitado num divã, até porque esta tem sido tradicionalmente, a sua prática. Porém, coexistindo com isto, é possível observar o esforço de estudiosos no sentido de ampliar o raio de contribuição da psicanálise aos fenômenos de grupos, às práticas institucionais e à compreensão de fenômenos sociais, como a violência e a delinqüência, por

exemplo. Portanto, além das contribuições para a revisão de práticas profissionais, buscando, por exemplo, um atendimento ao doente mental que supere o isolamento dos manicômios, a maior contribuição da Psicanálise é indicar que o mais importante na sociedade não é a representação que ela faz de si, ou suas manifestações mais elevadas, mas aquilo que está além dessas aparências. Isto é, a angústia difusa, o aumento do racismo, a vitimização das crianças, o terrorismo. Em sua, a Psicanálise nos faz ver aquilo que mais nos incomoda: a possibilidade constante de dissociação dos vínculos sociais. Muitos adeptos da teoria psicanalítica, deram continuidade aos seus trabalhos sem modificar os ensinamentos de Freud. Estes são chamados de psicanalistas ortodoxos como: Ana Freud, Ernest Jones, Karl Abraham etc. A maioria, porém, mantém-se fiel em alguns pontos, alterando outros. Estes são chamados revisionistas ou neofreudianos como: Erich Fromm, Harry S.Sullvan, Karen Horney, etc.

A Libido
Observando seus pacientes, Freud pode constatar que a causa da doença mental neles apresentada era sempre provinda de um problema sexual. Observou, também, as personalidades normais, podendo assim concluir que "o comportamento humano é orientado pelo impulso sexual". A esse impulso Freud dá o nome de libido (palavra feminina que significa prazer). A libido constitui uma força de grande alcance na personalidade humana; é um impulso fundamental ou fonte de energia.

A estrutura do aparelho psíquico 1º Teoria sobre a estrutura do aparelho psíquico
Em 1900, no livro A interpretação dos sonhos, Freud apresenta a primeira concepção sobre a estrutura e funcionamento da personalidade. Essa teoria refere-se à existência de três sistemas ou instâncias psíquicas: inconsciente, pré - consciente e consciente. Inconsciente: Para entender a teoria de Freud, é importante aceitar a existência dos fenômenos mentais inconscientes. São fenômenos que se realizam em nossas mentes sem que o saibamos. Eles nos passam despercebidos, nós os ignoramos. Já se afirmava, antes de Freud, a existência da vida mental inconsciente. Ele, porém, teve o mérito de: fornecer meios, para conhecer a vida mental inconsciente; as técnicas psicanalíticas (a associação livre, a análise dos sonhos e a análise dos atos falhos) afirmar que os atos inconscientes têm grande influência na direção de nosso comportamento na orientação de nossas ações. Por exemplo, podemos ignorar a existência em nós de emoções, tendências e impulsos, os quais, na realidade, estão influenciando fortemente as nossas vidas. Pré-consciente ou subconsciente: Há fenômenos que não estão se passando agora em nossa mente, mas que são do nosso conhecimento. Sabemos da existência dos mesmos, podemos chamá-los à nossa mente quando quisermos ou necessitarmos. Podemos reviver, em certos momentos, muitos fatos que se passaram conosco, nos quais não estamos continuamente pensando; evocamos lembranças, emoções, etc. Estes fatos, tanto os que estão agora se processando em nossa mente como aqueles que poderíamos evocar neste momento.

(consciente e pré consciente), são fatos de nosso domínio e conhecimento. Temos consciência de sua realização. Consciente: Há fenômenos mentais que se estão processando e deles temos conhecimento imediato. Por exemplo: Tomamos conhecimento dos pensamentos, das percepções, das emoções que estão se processando agora em nossa mente.

2º Teoria sobre a estrutura do aparelho psíquico
Entre 1920 e 1923, Freud remodela a teoria do aparelho psíquico e introduz os conceitos de id, ego e superego para referir-se aos três sistemas da personalidade. É importante considerar que estes sistemas não existem enquanto uma estrutura em si, mas são sempre habitados pelo conjunto de experiência pessoais e particulares de cada um, que se constitui como sujeito em sua relação com o outro e em determinadas circunstâncias sociais. Id: Há na nossa personalidade, uma parte irracional ou animal. Essa parte biológica, hereditária, irracional, que existe em todas as pessoas procura sempre satisfazer nossa libido, os nossos impulsos sexuais. Freud chamou-a de Id. Esse impulsos do Id, na sua maioria, são inconscientes, passam despercebidos, são por nós ignorados. Superego: Desde que nascemos, vivemos em um grupo social do qual vamos recebendo influências constantes. Desse grupo vamos absorvendo, aos poucos, idéias morais, religiosas, regras de conduta, etc.; que vão constituir uma força em nossa personalidade. E essa força adquirida lentamente por influência de nossa vida em sociedade, é que Freud chama de Superego. O Id e o Superego são forças opostas, em constante conflito. O Superego, quase é contrário à satisfação da natureza animal, enquanto o Id procura satisfazê-la. Essa luta entre Id e Superego, não é percebida por nós, na maioria das vezes. Ego: É quem procura manter o equilíbrio entre as forças opostas, Id e Superego, é a nossa razão, a nossa inteligência, à qual Freud chama de Ego. O Ego tenta resolver o constante conflito entre Id e o Superego. Numa pessoa normal, o conflito é resolvido com êxito. Quando o nosso Ego consegue o equilíbrio entre as duas forças, nossa saúde mental é considerada normal. Mas, no momento em que o Ego não consegue mais manter essa harmonia, aparecem os distúrbios mentais. ------=_NextPart_000_9ef_7665$6ca2 Content-Type: text/html; name="FREUD PERSONALIDADE E EDUCAÇÃO.htm" Content-Transfer-Encoding: 8bit ContentDisposition: attachment; filename="FREUD - PERSONALIDADE E EDUCAÇÃO.htm"

Desenvolvimento da Personalidade
Freud explica nosso desenvolvimento emocional, dizendo que o ser humano passa por diferentes períodos desde que nasce, até alcançar a adolescência. Em cada um desses períodos, a libido toma uma direção característica. As fases da libido, ou as mudanças de uma fase para outra, ocorre tão gradativamente que uma fase se confunde com a seguinte e as duas se superpõem.

Período narcisista - no início da vida, a criança dirige sua libido para seu próprio corpo. Ela ama a si mesma. Suas reações emocionais, dependem principalmente de seu bem-estar ou de seu mal-estar físico. É egocêntrica. Esta fase é chamada auto-erótica: nela, a criança busca prazer em seu próprio corpo, chupa o dedo, suga os próprios lábios, etc.. Este período recebe o nome de narcisista devido à lenda grega de um jovem muito formoso -Narciso- que se apaixona pela própria imagem refletida nas águas. Período edipiano - nesta fase, a criança dirige a sua libido para o progenitor do sexo oposto, manifestando hostilidade para o progenitor do mesmo sexo. Ainda, a criança se identifica com o genitor do mesmo sexo. A menina, portanto, ama seu pai e hostiliza a sua mãe. Da mesma forma, o menino ama sua mãe e manifesta hostilidade para com o pai. Os psicanalistas explicam os fatos do período edipiano da seguinte maneira: o menino, por exemplo, ama a mãe e, percebendo que ela tem uma afeição especial pelo pai, vai procurar tornar-se igual a ele para merecer também o amor da mãe. É neste período que cada qual adota o papel sexual para toda a vida. Seguidores de Freud afirmam que essa preferência baseada no sexo, que existe dentro do lar, não se dá somente em relação a criança para com os progenitores, mas também destes para com a criança do sexo oposto. Este período é chamado edipiano por causa da lenda grega em que Édipo, jovem príncipe, assassina seu pai para casar-se com a mãe. Período de latência sexual - Depois das dificuldades da fase edipiana, a criança passa para um período mais calmo. Esse período corresponde aos anos da escola primária, em que a criança se ocupará em adquirir habilidades, valores e papéis culturalmente aceitos. Ele é denominado de latência, porque os impulsos são impedidos de se manifestar. Neste período, a energia dos impulsos é desviada de seu uso sexual e dirigida para outras finalidades, processo esse chamado de sublimação. A sublimação tem importante papel no desenvolvimento do homem civilizado e nas realizações culturais. Período da puberdade - Há autores que intercalam, entre o período de latência e a adolescência, a fase da puberdade. Essa fase, de duração aproximada de dois anos, se inicia mais cedo para as meninas que para os meninos. É a época das grandes modificações físicas e, principalmente, de grande desenvolvimento dos órgãos sexuais. Nesta fase, o jovem inicia sua libertação emocional dos progenitores. A principal característica da puberdade, também chamada homossexual, é a ligação afetiva que se estabelece entre jovens do mesmo sexo e de idade aproximada. É a idade em que as meninas têm sua "amiga predileta" e os meninos tem seu "companheiro inseparável", com os quais trocam confidências. Adolescência - nesta fase, a libido do jovem se dirige a um adolescente do sexo oposto. Essa ligação emocional heterossexual, fora da família, vais exigir a emancipação do adolescente de seus pais. A separação emocional ocasiona, pelo menos por algum tempo, rejeição, ressentimentos e hostilidades contra os pais e outras autoridades. Esta é uma fase difícil não só para o adolescente mas, também, para os pais que querem retardar essa libertação. Há casos em que o desenvolvimento emocional não se processa normalmente, não apresenta essa seqüência de fases devido a fatores biológicos ou condições ambientais.

Casos de anormalidade na evolução emocional: a fixação e a regressão

Fixação- Freud chama de fixação a parada que uma pessoa pode apresentar em uma determinada fase. Estaciona-se o desenvolvimento emocional, embora continuem a se processar o desenvolvimento físico e intelectual. Vejamos o caso de uma menina de três anos, cuja a mãe morre e o pai a entrega a avó. O ambiente emocional em que esta criança vivia, se transtorna por completo. Ela perde a afeição materna, e de certo modo perde também o afeto do pai, pois este é quem iria lhe auxiliar a passar do período narcisista (em que se encontra), ao período edipiano. Seu desenvolvimento físico e intelectual parece se processar normalmente, mas seu comportamento emocional continua igual ao de uma criança de menos de três anos. Sua libido continua ligada ao seu próprio corpo, em vez de dirigir-se a seu pai, que dela se distancia cada vez mais. Permanece egocêntrica, preocupada com seu bem estar ou mal-estar físico, e com seus objetos pessoais, visivelmente indiferente com o bem estar das pessoas com quem vive e de quem espera receber cuidados. Torna-se narcisista, egoísta e isolada. Tem dificuldades em manter amizades e em conservar um namorado. Regressão - Outra anormalidade que se pode verificar no desenvolvimento da personalidade, é depois de se ter atingido certa fase, regressar a fase anterior. Vejamos o exemplo de uma criança que tem seu desenvolvimento normal até a idade escolar, em que estará no período de latência. Nessa ocasião, o ambiente afetivo de seu lar é grandemente modificado com o nascimento de um irmãozinho. A criança de quem falamos, e que, até os 8 anos, se mostrava bem ajustada, começa a se sentir insegura emocionalmente. ( Será que seus pais continuam a querer-lhe bem depois do nascimento do nenê?). A grande modificação em seu ambiente emocional, leva-a a desajustar-se. Não se sentindo satisfeita emocionalmente, deseja, obter satisfação como a conseguia fazer no período em que tinha atenção dos pais voltada só para si mesmo; então passa a se comportar como antes: volta a molhar o leito, chora alto, chupa o dedo, pede para tomar leite na mamadeira, fica novamente apegada aos adultos, exige ser carregada no colo, não quer mais ir à escola etc. Regrediu, assim, ao período narcisista.

Mecanismos de Defesa
A percepção de um acontecimento, do mundo externo ou do mundo interno, pode ser algo muito constrangedor, doloroso, desorganizador. Para evitar este desprazer, a pessoa "deforma" ou suprime a realidade - deixa de registrar percepções externas, afasta determinados conteúdos psíquicos, interfere no pensamento. São vários os mecanismos que o indivíduo pode usar para realizar esta deformação da realidade, chamados de mecanismos de defesa. São processos realizados pelo ego e são inconscientes. Esta defesa é uma operação pela o qual o ego tenta equilibrar duas forças opostas existentes em nossa personalidade: O Id - força biológica, natural, que procura satisfazer nossos impulsos sexuais - e o Superego - força social adquirida, que procura impedir a satisfação da libido. Nossa razão, ou nosso ego, poderá harmonizar os conflitos de várias maneiras. Vejamos alguns dos modos de equilíbrio entre essas duas forças. Repressão é o "dinamismo" que comumente usamos para acomodar a oposição entre nossas tendências naturais e nossa consciência moral, que às julga más e socialmente indesejáveis. Esse 'dinamismo" consiste em não admitir a existência das tendências do Id,

não pensar nelas, ignorá-las , torná-las inconscientes. Como exemplo, podemos citar uma pessoa que tenha agressividade para com seu pai, esta poderá reprimir este antagonismo, recalcá-lo; ela não admitirá a existência do mesmo, conseguirá torná-la inconsciente. Essa tendência não desaparecerá totalmente, mas continuará a existir e procurará se manifestar no pensamento, procurando passar para o nível consciente. Os impulsos reprimidos conseguirão se manifestar, algumas vezes, através dos sonhos; e outras vezes, quando estamos acordados, através dos atos falhos; e também, em estado de intoxicação. Atos falhos são aqueles que praticamos aparentemente sem querer e de modo inexplicável. É comum cometermos enganos, trocarmos palavras, esquecer objetos, etc. Os atos falhos são causados pelos impulsos reprimidos que procuram se descarregar de qualquer modo, mesmo interferindo em nossas ações não submetidas a repressão. De acordo com Freud, os atos falhos devem ser atentamente observados pelo psicanalista, pois são sintomáticos, possuem um valor revelador de alguma coisa que o paciente procura ocultar. Podemos citar como exemplo de ato falho, o seguinte caso: Um presidente da Câmara austríaca, ao abrir a sessão, numa noite em que todos temiam um escândalo, disse: "Senhores deputados, está encerrada a sessão" em vez de "está aberta a sessão". È freqüente perdemos objetos que nos foram dados por pessoas de quem não gostamos, enganarmos com o itinerário ou perdemos a condução quando vamos aborrecidos a algum lugar. Sonhos: as tendências recalcadas procuram se manifestar enquanto dormimos através de nossos sonhos; entretanto são tão condenáveis que precisam se "camuflarem" para se manifestarem. Um rapaz, por exemplo, que tem conseguido recalcar sua agressividade para com seu pai, poderá sonhar que agrediu uma pessoa adulta, ou que algum colega agrediu seu pai. Atrás do conteúdo manifesto de um sonho, está seu conteúdo latente que se obtém pela interpretação psicanalítica. Intoxicações: em caso de intoxicação alcoólica, o indivíduo pode demonstrar tendências libidinais ou agressivas, que ele próprio desconhece quando sóbria. Isto também é válido com outros tóxicos. Racionalização é o "dinamismo" pelo qual a nossa inteligência apresenta razões socialmente aceitáveis para nossas ações que, na realidade, foram motivadas pelos impulsos do Id. Racionalizar é inventar pretextos, razões para desculpar diante da sociedade e de nós mesmos os nossos atos cujos motivos reais percebemos. Por exemplo: Um rapaz compra um carro, realizando uma despesa exagerada em relação a sua situação financeira e as suas necessidades profissionais, porém tranqüiliza sua consciência e justifica-se diante dos outros, afirmando que o carro vai ser muito útil para seu trabalho e facilitará as atividades de suas irmãs e de seus pais já idosos. Na realidade, o que ele desejava eram as vantagens que o automóvel apresentava para seus passeios e suas "conquistas". Ninguém se vê livre da racionalização, porém quanto mais inteligente e mais dominadora for a pessoa, mais se valerá desse processo. Esse mecanismo de defesa é empregado pelos ditadores que, para atingir seus fins, iludem a seu povo e a si mesmos. A finalidade da racionalização é manter o auto respeito e reduzir as tensões resultantes da frustração e dos sentimentos de culpa.

Projeção é atribuir aos outros nossos próprios desejos e impulsos. As tendências indesejáveis, cuja manifestação em nossas ações não podemos permitir e cuja existência em nós não podemos em absoluto admitir, vão influir consideravelmente no modo de interpretarmos o comportamento de outras pessoas, ou seja serão projetados em outros indivíduos. Por exemplo: uma senhora que encontra defeitos em todas as pessoas, que julga más todas as ações alheias, está sendo influenciada por seus impulsos reprimidos, cuja existência não pode admitir em si. Outro exemplo: em visita ao jardim zoológico com seu avô, um garoto aproximou-se da jaula dos leões e, ouvindo o rugir de uma das feras, puxou o velho pela manga dizendo-lhe "Vamos vovô, que o senhor está com medo!" . Conversão: Freud explicou que, muitas vezes, não conseguimos harmonizar os impulsos do Id, com o nosso superego através de outros mecanismos. Sendo assim , a luta, o conflito entre essas duas forças se converterá em um sintoma físico; paralisia, dores de cabeça, perturbações digestivas, etc. No século XX, a medicina mudou seu modo de encarar certos problemas: os médicos atualmente, não consideram o corpo como algo isolado da mente. Aceitam que o estado da mente influi no corpo e vice-versa; existindo uma inter-relação entre corpo e mente. Este conceito difere do conceito de antigamente, quando os estudiosos consideravam separadamente esses dois componentes do indivíduo. A medicina atual é, então, psicossomática, ou seja, corpo e mente estão muito ligados; não podemos, então, considerar nosso corpo saudável, quando há problemas emocionais. Assim como, quando há uma doença física, nos tornamos indivíduos pessimistas, deprimidos, etc. Corpo e mente são dois elementos que se interinfluenciam. Conversão é, portanto, a transformação de conflitos emocionais em sintomas físicos e vice - versa. Dr. Arthur Ramos, diz no livro "A criança problema", que muitos de seus problemas emocionais, podem se converter em tiques. Tiques são contrações que o indivíduo realiza automaticamente, sem nenhuma finalidade e sem perceber. É comun nas escolas, crianças apresentando tiques, os quais são causados por conversões de conflitos emocionais. Sublimação é a satisfação modificada dos impulsos naturais, em atos socialmente mais aceitáveis. São três os tipos de sublimição: A - Mudança de objetos - Neste caso, a ação desejada realiza-se totalmente dirigindo-se a um objeto diferente. Exemplos: 1) Um empregado satisfaz seu impulso de agredir o patrão, dando um murro na mesa ou um pontapé no caixote. 2) O povo muito oprimido por um ditador, reúne-se em praça pública para discursar e depois queima ou apedreja o retrato de seu opressor. Nestes dois exemplos, o desejo de agressão foi satisfeito, sem grandes conseqüências anti-sociais por ter havido a mudança no objeto da satisfação do mesmo. Outro exemplo em que os impulsos naturais são satisfeitos sem desrespeitos às convergências sociais: Um cavalheiro aproxima-se de uma jovem senhora e sente o desejo natural de acariciá-la; satisfaz esse impulso acariciando uma criança que a acompanha. B - Mudança de reação - Neste caso, a ação desejada é substituída por outra que se dirige ao mesmo objeto. Exemplo: 1) Um empregado satisfaz seu desejo de dar um soco em seu

patrão, agredindo-o somente com palavras. 2)Um cavalheiro satisfaz seu desejo de acariciar uma jovem dama oferecendo-lhe um ramo de flores, etc. C - Mudança de objeto e de reação - Os psicanalistas afirmam que uma pessoa pode satisfazer seus desejos naturais entregando se a arte, a religião, as obras sociais, etc. A sublimação tem importante papel no desenvolvimento do homem civilizado e nas realizações culturais. É o mecanismo de defesa mais recomendado em Educação. Formação reativa: o ego procura afastar o desejo que vai em determinada direção, e, para isto, o indivíduo adota uma atitude oposta a este desejo. Um bom exemplo são as atitudes exageradas, ternura excessiva, super – proteção, que escondem o seu oposto, no caso, um desejo agressivo intenso. Aquilo que aparece (a atitude0 visa esconder do próprio indivíduo suas verdadeiras motivações (o desejo), para preservá-lo de uma descoberta acerca de si mesmo que poderia ser bastante dolorosa. É o caso da mãe que superprotege o filho, do qual tem muita raiva porque atribui a ele muitas de suas dificuldades pessoais. Para muitas destas mães, pode ser aterrador admitir essa agressividade em relação ao filho. Transferência: Toda relação psicoterapêutica é uma relação social, pois inclui o relacionamento entre paciente e terapeuta. No tratamento psicanalítico, as atitudes do paciente em relação ao médico adquirem importância para a verificação de seu progresso. Mais cedo ou mais tarde, durante a análise, o paciente desenvolve fortes reações emocionais ligadas ao analista. Admira-o às vezes em uma sessão, e em outra, o analista é desprezado. Esta tendência que o paciente tem de fazer de seu analista, objeto de suas reações emocionais, chama-se transferência e a interpretação desta, embora seja um tópico controvertido, é um dos fundamentos da terapia psicanalítica. De acordo com a teoria, o paciente vê no terapeuta atitudes semelhantes às dos seus pais, dos seus irmãos, ou irmãs embora o terapeuta possa ser diferente de seus familiares. As transferências, podem ou não incluir percepções falsas; freqüentemente, o paciente apenas exprime, com relação ao analista, sentimentos que já teve por pessoas importantes em sua vida. A partir desses sentimentos apresentados, o analista consegue interpretar a natureza dos impulsos que foram deslocados em sua direção. Teoria do Chiste: O chiste ou trocadilho representa produção psíquica muito próxima, em sua estrutura e em suas funções, dos processos do sonho. A diferença decorre do sentido social do chiste, por oposição ao sonho, marcado por caráter estritamente individual. Mas o paralelismo se revela no tocante aos processo de elaboração, pois que, em ambas, ganham relevo os mecanismos do deslocamento e da condensação. Freud distinguiu dois tipos fundamentais de chiste: o inofensivo e o tendencioso. Este por sua vez, se subdivide-se em dois grupos: os que se caracterizam por sentido agressivo e os que se definem como obscenos. Ambos - os agressivos e os obscenos - caracterizam-se como processamentos catárticos, isto é, como processamentos que possibilitam a redução de tensão. Quanto aos chistes inofensivos, o que os caracteriza é o fato de que neles a gratificação é intrínseca. A propósito da natureza do prazer que se obtém por meio do chiste inofensivo, Freud explica através do conceito de economia do esforço psíquico.

Teoria da Cultura: A problemática sociocultural está presente em três obras fundamentais de Freud - Totem e Tabu (1912-1913); Psicologia Coletiva e Análise do Ego; O mal - estar na civilização. Em Totem e Tabu o tema é a origem da sociedade. Freud parte de teses acerca da constituição dos grupos humanos primitivos, nos quais se consagra a figura paterna e sua autoridade é aceita sem restrições. Em Psicologia Coletiva e Análise do Ego, Freud se aplica à análise das razões que determinam a formação e a persistência dos grupos humanos. Propõe que os processos de associação teriam fundamentos na libido dessexualizada, o que implica na necessidade de consagrar um chefe, que funcionaria como objeto comum de vinculação afetiva. E finalmente no Mal - Estar da Civilização, Freud tenta responder à pergunta: é possível a felicidade, considerado o fato de que a sociedade impõe uma drástica redução das satisfações individuais? Como se poderá conciliar o impulso inato para a destruição, para a agressão, com a paz, igualmente desejada por todos? Freud considera que existem duas alternativas: (a) a do escoamento das pulsões agressivas para o exterior, atingindo outros grupos humanos, e essa alternativa implica na perpetuação da guerra: (b) a da interiorização do impulso destrutivo, com esmagamento do ego pelo superego e produção de intenso sentimento de culpa e profunda ansiedade. Ambas as alternativas conduzem, afinal, a conseqüências pessimistas: a de que Eros possa dominar o seu eterno inimigo, Tânato, o que Freud considera como impossível. Teoria da Neurose: Para a Psicanálise, está presente nos indivíduos "normais" e "anormais" as mesmas estruturas de personalidades e as mesmas estruturas de conteúdos que, se mais ou menos "ativadas", são responsáveis pelos distúrbios nos indivíduos. Essas estruturas são as estruturas neuróticas e psicóticas. Os sintomas da Neurose - distúrbio de aspectos da personalidade - são a expressão simbólica de um conflito psíquico que tem suas raízes na história infantil do indivíduo. Neurose Obsessiva leva a comportamentos compulsivos (lavar as mãos com uma freqüência não usual), ter idéias obsedantes (imaginar que está sendo perseguido por alguém, e ao mesmo tempo, ocorre uma luta contra esses pensamentos e dúvidas quanto ao que faz e ao que fez). Neurose fóbica ou histeria de angústia: a angústia é fixada, de modo mais ou menos estável num objeto exterior, isto é, o sintoma central é a fobia. Fobia de altura, de animais, de ficar sozinho, etc. (associada a conflitos infantis de ordem sexual). Neurose histérica ou histeria de conversão: o conflito psíquico simboliza-se nos sintomas corporais de modo ocasional, isto é, como crises. Por exemplo: crise de choro com teatralidade ou sintomas que se apresentam de modo duradouro, como a paralisia de um membro, a úlcera, etc. Neurose traumática: os sintomas: pensar obsessivamente no acontecimento traumatizante, perturbações de sono, etc., aparecem após um choque emotivo do indivíduo, ligado a uma experiência em que ele correu risco de vida.

Psicose - distúrbio de personalidade total - apresenta uma intensa perturbação do indivíduo na relação com a realidade. Acontece uma ruptura entre o ego e a realidade, ficando o ego sob domínio do id, isto é, dos impulsos. Na evolução da doença, o ego reconstrói a realidade de acordo com os desejos do id. Paranóia: psicose que se caracteriza por um delírio mais ou menos sistematizado, articulado sobre um ou vários temas. Não existe deterioração da capacidade intelectual. Aqui se incluem os delírios de perseguição, de

grandeza. Esquizofrenia: caracteriza-se pelo afastamento da realidade - o indivíduo entra num processo de centramento de si mesmo, no seu mundo interior ficando progressivamente entregue as suas fantasias. Manifesta incoerência do pensamento, das ações e da afetividade. Acentuam-se os delírios e estes são mal sistematizados. A característica fundamental da esquizofrenia, é apresentar um quadro progressivo, que leva a uma deterioração intelectual e afetiva. Mania e Melancolia ou Psicose maníaco depressiva: caracteriza-se pela oscilação entre o estado de extrema euforia (mania) e estados depressivos (melancolia). Na depressão, o indivíduo pode negar-se ao contato com o outro, não se preocupa com cuidados pessoais (higiene, apresentação pessoal) e pode mesmo, em casos mais graves, buscar o suicídio.

Freud e a Educação
A educação é tema que perpassa toda obra de Freud, e sempre foi para ele motivo de análise e reflexão. Não se encontra uma obra específica dedicada ao tema educação, mas pode-se encontrar, em textos que abordam outras questões, uma conexão entre a educação e idéias de Freud que foram produzidas para compor sua teoria psicanalítica: ao construir um determinado conceito psicanalítico, Freud refletia as conseqüências dessa conceituação sobre o seu modo de pensar a cultura, a sociedade e a educação, encaminhando o que era particularidade do funcionamento psíquico e o que era fruto das influências educativas recebidas pelo indivíduo. Desta forma, torna-se necessário conhecer a teoria freudiana para estabelecer uma conexão dela com a educação. O que precisa ficar claro é que não existe uma pedagogia analítica ou uma psicanálise aplicada à educação, ou seja, uma construção de métodos e de instrumentos de trabalho de inspiração psicanalítica que se apliquem à situação de ensino propriamente dita. O que se espera, é que o professor, através do conhecimento da teoria freudiana, possa refletir , apropriar-se das idéias e delas tirar proveito para seu fazer diário em sala de aula. Mas não se pretende criar uma nova disciplina, a Pedagogia Psicanalítica e nem transformar professores em analistas. As idéias freudianas sobre a educação, inspiradas pela psicanálise, eram de certa forma "desditas" por ele, ou seja, eram sempre questionadas: O educador deve promover a sublimação, mas como se a sublimação é inconsciente? Deve esclarecer as crianças sobre a sexualidade, mesmo que estas não dêem ouvidos por tecerem suas próprias explicações de acordo com o momento sexual que se encontram? O educador tem que se reconciliar com a criança que há dentro dele, pois como afirma em "Múltiplos interesses da Psicanálise", mais particularmente na seção intitulada "Interesse Pedagógico": "Só pode ser pedagogo aquele que se encontrar capacitado para penetrar na alma infantil. Nós, os adultos, não compreendemos nossa própria infância" (Kupfer 1989, 12). Os adultos esquecem de como foi ser criança. Freud disse em uma de suas últimas obras: "educar, ao lado de governar e psicanalisar é uma profissão impossível." (Kupfer 1989, 12). Esse pensamento mostra uma desilusão de Freud à educação. Impossível, não é, no entanto, sinônimo de irrealizável, mas indica principalmente a idéia de algo que não pode ser jamais integralmente alcançado: o domínio, a direção e o controle estão na base de qualquer sistema pedagógico. O que se pode concluir, então, é que a Psicanálise não serve como fundamento pedagógico, não serve como princípio organizador de um sistema ou de uma metodologia educacional.

Apesar de todas tentativas de pós freudianos tentarem aplicar a psicanálise à educação, o que tudo indica é que não obtiveram sucesso, e que até hoje "a psicanálise é convocada apenas para selecionar crianças para classes especiais, ou seja, para estigmatizá-las e segregá-las do convívio com os demais" (Kupfer1989, 71). É preciso buscar um ponto de equilíbrio em que o educador possa beneficiar-se do saber psicanalítico sem, contudo, abandonar a especificidade de seu papel, ou mesmo propor-se a uma sistematização desse saber em uma pedagogia analítica. Objetivo de transmitir a psicanálise ao educador é para que esta possa produzir efeito de natureza diversa na postura do professor, e não para que este aplique o conhecimento no trato com os alunos. Freud enfatiza que, na relação professor – aluno, não são os conteúdos cognitivos, mas as relações afetivas, ou o campo, que se estabelecem entre o aluno e o professor e que estabelecem as condições para o aprender, sejam quais forem os conteúdos. O educador inspirado por idéias psicanalíticas renuncia a uma atividade excessivamente programada, instituída, controlada com rigor obsessivo. Aprende que pode organizar seu saber, mas não tem controle sobre os efeitos que produz sobre o seus alunos, sobre as repercussões inconscientes de sua presença e de seus ensinamentos. Pode-se dizer, por isso, que a Psicanálise pode transmitir ao educador, uma ética, um modo de ver e entender sua prática educativa. É um saber que pode gerar, dependendo, naturalmente, das possibilidades subjetivas de cada educador, uma posição, uma filosofia d trabalho, uma maneira de formar seu pensamento. De fato, o que se conclui, é que o encontro da psicanálise com a educação continua sendo um desafio.

A teoria da sexualidade como em tema transversal
Apesar de Freud afirmar, em carta a um amigo , que a Psicanálise talvez nunca se tornasse popular, vemos hoje que, de alguma forma, ela, está implícita ou explicitamente em várias áreas de ciências humanas - sociologia, literatura, artes, estudo das religiões, etc. - e no próprio estilo de vida e nos costumes do século XX, inclusive e, talvez, mais claramente, no que diz respeito à liberdade e à preocupação em relação aos problemas sexuais. As discussões acerca desta temática tem se intensificado por ser considerada importante na formação global do indivíduo. Por isso, desde a década de 80 é que vem aumentando os trabalhos na área da sexualidade nas escolas. Esses trabalhos culminaram com a inclusão da sexualidade como tema transversal proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, em 1997, pelo MEC, com o nome "Orientação sexual". A sexualidade tem grande importância no desenvolvimento e na vida psíquica das pessoas, pois independentemente da potencialidade reprodutiva, relaciona-se com a busca do prazer, necessidade fundamental dos seres humanos. Neste sentido, se manifesta desde o nascimento até a morte, de formas diferentes a cada etapa, sendo construída ao longo da vida e marcada pela história, cultura, ciência, assim como pelos afetos e sentimentos. A proposta de Orientação Sexual considera a sexualidade nas dimensões biológica, psíquica e sociocultural. As formulações conceituais sobre a sexualidade infantil feitas por Freud, no começo deste século, ainda não são conhecidas ou aceitas por parte dos profissionais que se ocupam de crianças, inclusive educadores, mas as questões que envolvem a sexualidade são bastante atuais e presentes no cotidiano destes profissionais. Por isso faz-se necessária a adoção, por esses profissionais, de uma postura, dentro das escolas, em face as

manifestações da sexualidade dos alunos. Daí, a proposta de trabalho, que legitima o papel e delimita a atuação do educador neste campo, com a finalidade de contribuir para o bem estar das crianças e dos jovens na vivência de sua sexualidade atual e futura. Este encontro da "Teoria da sexualidade" freudiana com a atuação do educador se constitui, sem dúvida, num desafio. Que cada interessado tome como seu esse desafio!

Teoria da sexualidade
Freud, em suas investigações, descobriu que a grande maioria de pensamentos e desejos reprimidos referiam-se a conflitos de ordem sexual, localizados nos primeiros anos de vida dos indivíduos, isto é, que na vida infantil estavam as experiências de caráter traumático, reprimidas, que se configuravam como origem dos sintomas atuais. As descobertas colocam a sexualidade no centro da vida psíquica, e é postulada a existência da sexualidade infantil. Estas afirmações tiveram profundas repercussões na sociedade puritana da época, pela concepção vigente da infância como "inocente". Os principais aspectos destas descobertas são: A função sexual existe desde o princípio da vida, logo após o nascimento, e não só a partir da puberdade como afirmavam as idéias dominantes. O período de desenvolvimento da sexualidade é longo e complexo até chegar à sexualidade adulta. A libido, nas palavras de Freud, é "a energia dos instintos sexuais e só deles." No processo de desenvolvimento psicossexual, o indivíduo tem, nos primeiros anos de vida, a função sexual ligada a sobrevivência, e portanto o prazer é encontrado no próprio corpo. O corpo é erotizado, e há um desenvolvimento progressivo que levou Freud a postular as fases do desenvolvimento sexual As Fases do Desenvolvimento Sexual Fase oral (de 0 a 18 meses). Durante o primeiro ano e meio de vida, aproximadamente, os lábios, a boca e a língua são os principais órgãos de prazer e satisfação da criança: seus desejos e satisfações são orais. Essa afirmação baseia-se na análise clínica de crianças de mais idade e de adultos; é possível também observar no dia - a - dia a importância, para a criança dessa idade e mesmo mais velhas, de atos como sugar, pôr coisas na boca e morder, como fonte de prazer. Se as necessidades forem satisfeitas, a pessoa crescerá de maneira psicologicamente saudável; se não o forem, seu ego será imperfeito. Por exemplo, se as necessidades orais forem frustradas durante esse período, por desmame prematuro, do afastamento rigoroso de todos os objetos para sugar (incluindo o polegar), o ego poderá ser incapaz de superar os desejos orais frustrados. Alguns psicanalistas atribuem o alcoolismo, por exemplo, a frustrações na fase oral. Fase anal (de 18 meses a 3 anos). No ano e meio seguinte, época em que a criança está sendo ensinada a controlar as fezes e a urina, sua atenção se focaliza no funcionamento anal. Por isso, a região anal torna-se o centro de experiências frustradoras e compensadoras. Os pais aprovam e recompensam a criança por uma defecação no local e momento adequados, e procuram desestimular a mesma atividade em circunstâncias inadequadas. Sensações de prazer e desprazer associam-se tanto com a expulsão como com a retenção das fezes, e esses processos fisiológicos, bem como as fezes em si, são objetos do mais intenso interesse da

criança. Se, durante este segundo estágio, sobrevierem muitas frustrações, devidas a um treino excessivamente severo do controle dos esfíncteres, o ego poderá ser prejudicado em seu desenvolvimento. Psicanalistas atribuem a avareza, a exagerada preocupação com a limpeza e a meticulosidade (no adulto) a frustrações ocorridas na fase anal. Esses traços constituem a chamada personalidade anal. A avareza ou sovinice, isto é, o prazer no acúmulo e guarda de bens, poderia ter-se originado do prazer que a criança experimentou ao reter as fezes. A exagerada preocupação com a limpeza e a ordem (tanto no plano material quanto mental) tem sido relacionada com exigências excessivas de limpeza que os pais fazem às crianças nessa idade. Fase fálica (de 3 a 7 anos). Por volta do final do terceiro ano de vida, o papel sexual principal começa a ser assumido pelos órgão genitais e, em regra, é por eles mantido até a vida adulta. Essa fase do desenvolvimento sexual recebeu o nome de fálica (falo = pênis), pois o pênis é o principal objeto de interesse para a criança de ambos os sexos. Nesta fase, merecem menção algumas manifestações do impulso sexual. Uma delas é o interesse pelas diferenças anatômicas entre os sexos. A criança deseja ver os genitais da outra, bem como mostrar os seus. Sua curiosidade é exibicionismo, naturalmente, incluem outras parte do corpo, bem como outras funções orgânicas. Durante esse período, a criança se interessa também pelo papel que o pai desempenha na procriação, pelas atividades sexuais dos pais, pela origem dos bebês-- temas freqüentes de suas fantasias. Nesse sentido, admoestações excessivas e punitivas sobre os interesses e atividades sexuais teriam efeitos negativos na posterior identificação sexual. De acordo com a concepção freudiana, impotência sexual, frigidez, exibicionismo e homossexualidade são consideradas deficiência do ego derivadas do período fálico. É ainda nessa fase que aparecem o Complexo de Édipo e de castração. Os psicanalistas chamam de complexo de Édipo a atração da criança pelo progenitor do sexo oposto, que ocorre aproximadamente dos 3 aos 5 anos. Nesse período configura-se o fenômeno da identificação com o progenitor do mesmo sexo. Os psicanalistas explicam os fatos do período fálico da seguinte maneira: a criança ama o progenitor do sexo oposto; percebendo, porém, que este tem uma afeição especial pelo progenitor do mesmo sexo que ela, procura assemelhar-se a este último, identificar-se com ele, para também merecer o amor do progenitor do sexo oposto. Uma menina, portanto, gosta muito de seu pai e percebe que este tem especial afeição para com sua mãe. Então, para merecer o amor do pai, procura identificar-se com a mãe, imitando-a (usando sapato de salto, batom, ocupando-se das tarefas maternas etc.). Esta menina, vivendo num lar harmonioso, tornarse-á bem feminina Transpondo, porém, a mesma situação para um lar em que o marido deprecie a esposa, a filha deste casal - que ama o pai e quer sua afeição - não procurará identificar-se com a mãe, a quem não julga bom modelo. Para evitar parecer-se com ela, poderá tornar-se uma personalidade com características masculinas. A mesma situação repetir-se á, analogamente, com o menino. É neste período que cada um assumirá sua identidade sexual para toda a vida. Segundo Freud, o complexo de Édipo é reprimido no menino e convertido em angústia de castração. Na imaginação infantil, o pai, inicialmente amado, passa a ser temido, pois o menino receia que, por ciúme, seu progenitor queira realmente tirar-lhe os órgãos sexuais. No final desta fase, sobrevêm a repressão da hostilidade para com o pai e do amor pela mãe. Freud, porém, não explicou o desenvolvimento das meninas tão explicitamente quanto o dos meninos. Todos nós comumente esquecemos os interesses sexuais de nossa infância, quando adultos. As

lembranças desses interesses são reprimidas, não aflorando ao nível da consciência. Tanto nos meninos quanto nas meninas, outra conseqüência do desenvolvimento edipiano é o desenvolvimento da consciência moral ou do superego. Ao identificar-se com os pais, a criança adquire seus padrões, seus valores. Ela aceita, como regras de ação, fazer o que os pais aprovem a evitar o que eles condenam. Quando a criança transgride essas normas, uma "voz interior" condena-a e a faz sentir-se culpada. A obediência aos padrões morais dos pais alivia seu medo de perder o amor deles, a mais séria das ameaças. A fase fálica apresenta grande tensão e dificuldades para a criança. "Sua solução é importante para o desenvolvimento normal, e os desvios em sua resolução estão atrás de quase todas as dificuldades neuróticas dos adultos de nossa cultura". Para Freud e seus adeptos, aspectos extremamente significativos de nosso desenvolvimento pessoal e emocional são determinados durante os primeiros sete anos de nossa vida. Práticas inadequadas de educação das crianças resultarão em prejuízo para o seu ajustamento quando adultos. A personalidade adulta é grandemente afetada pelas experiências emocionais da infância ou, em outras palavras, pela qualidade da interação entre a criança e os adultos significativos para ela. (A esse respeito, Fruem afirmou: "a criança é pai do homem".) Fase de latência (de 7 a 12 anos). Após as fases oral, anal e fálica, segue-se a de latência, aproximadamente entre 7 e 12 anos. Esse período corresponde aos anos de escola de primeiro grau, quando a criança estará voltada para a aquisição de habilidades, valores e papéis culturalmente aceitos. Em relação á fálica, esta fase parece ser bem mais calma; e é chamada de latência porque os impulsos são impedidos de se manifestar. Nesta fase aparecem na criança barreiras mentais, impedindo as manifestações da libido, barreiras essas que Freud identificou como repugnância, vergonha e moralidade. O impulso dirige-se para finalidades culturais: domínio da leitura, da escrita e de muitas outras habilidades. Nesta fase é nítida a separação entre meninos e meninas e a rivalidade entre os dois grupos. Depois da puberdade (que ocorre aproximadamente dos 12 aos 14 anos para as meninas e dos 14 aos 16 anos para os meninos), começa a fase adulta, que é conhecida como genital. Fase genital (idade adulta). Segundo Freud, nesta fase, a libido, através da atividade sexual normal, é descarregada em um ser humano do sexo oposto. É a fase dos interesses heterossexuais. Explicando alguns conceitos: É necessário esclarecer alguns aspectos que permitem compreender os dados e informações colocados até aqui, de um modo dinâmico sem considerá-los descobertas cristalizadas. 1) No processo terapêutico e de postulação teórica, Freud, inicialmente entendia como reais os fatos relatados por seus pacientes. Posteriormente descobriu que esses relatos poderiam ser imaginados, mas assumindo a mesma força e conseqüências de uma situação real. Aquilo que, para o indivíduo, assume valor de realidade é a realidade psíquica. 2) O funcionamento psíquico é concebido a partir de três ponto de vista: o econômico (existe uma quantidade de energia que "alimenta" os processos psíquicos), o tópico (o aparelho psíquico é constituído de um número de sistemas que são diferenciados quanto sua natureza e modo de funcionamento, o que permite considerá-lo como "lugar" psíquico)

e o dinâmico (no interior do psiquismo existem forças que entram em conflito e estão, permanentemente, ativas. A origem dessas forças é a pulsão). E compreender os processos e fenômenos psíquicos é considerar os três pontos de vistas simultaneamente. 3) A pulsão Força, no limite entre o orgânico e o psíquico, que impulsiona o indivíduo a executar uma ação para resolver uma tensão orgânica. A pulsão é um elo entre o somático e o psíquico. Em sua última teoria das pulsões Freud concebeu duas categorias de pulsões em oposição fundamental: "Tanatos", a pulsão de morte que tende à redução completa das tensões, pode ser autodestrutiva ou estar dirigida para fora e se manifestar como pulsão agressiva ou destrutiva e "Eros", a pulsão de vida, que tende a estabelecer e conservar a unidade e existência do organismo. ----------------------------------------------Os mecanismos de defesa Importantes para nosso desenvolvimento emocional, uma vez que são ações que cuidam da integridade do Ego quando não conseguimos lidar com situações que consideramos ameaçadoras. Atuam num nível subconsciente ou inconsciente e são a solução que encontramos ao nível da consciência para resolver as angústias. Os mecanismos de defesa mais importante são:

Negação: O paciente não percebe o que acontece ou percebe e foge da realidade. Por exemplo, ao receber um diagnósico de doença séria.

Racionalização: Aqui a inteligência é usada para avalizar a "desculpa" que encontramos para lidar com a angústia.

Intelectualização: O paciente tudo sabe, leu tudo a respeito de suas neuras, sempre acompanha uma novidade surgida sobre o assunto.

Projeção: Que coloca nos outros o cerne de seus conflitos (como os homofóbicos, que possuem características homossexuais, as percebem, mas não as aceitam).

Sublimação: Desvio de ideias perturbadoras em direção a uma "via" aceitável para mascarar o que causa a repressão.

Introjeção: Procedimento um tanto oposto à projeção, porque tudo que agrada é introjetado.

Identificação: O indivíduo assimila um aspecto ou uma característica de outro e se transforma, total ou parcialmente, no outro. Pensei no personagem Dâmaso Salcede, de "Os Maias".

Formação Reativa: Quando o procedimento e os sentimentos externados são opostos aos verdadeiros impulsos, se os julgamos inconfessáveis.

Isolamento: Interrupção de contato, e para usar uma definição técnica, "ruptura das conexões associativas de um pensamento ou de uma ação".

Anulação: Ação que desfaz o dano que o paciente imagina que pode ser causado pelos seus mais profundos desejos.

Deslocamento: A famosa imagem de se aborrecer no trabalho e chutar o cachorro ao chegar em casa pela frustração não-resolvida.

Idealização: Atribuir a uma pessoa qualidades nem sempre existentes que a tornariam um ser especial.

Conversão: Resolver um conflito interior por meio de somatização.

Regressão: Voltar a um nível anterior de desenvolvimento quando a frustração devolve a pessoa a etapas já ultrapassadas.

Repressão: Esquecer ou recalcar um sentimento ou desejo inorportuno.

Substituição: O inconsciente encontra substituto para satisfazer, no imaginário, um desejo.

Fantasia: Situação mental que substitui um desejo que não pode se satifeito no real.Exemplo clássico a fantasia durante o ato sexual,usando outros parceiros imaginários.

Compensação: Quando uma "deficiência" é compensada por outro aspecto da personalidade passa a ser considerado um trunfo.

Expiação: É um processo psíquico em que o paciente precisa "expiar o erro" e quer "pagar pelo seu erro" imediatamente.

Resistência: Resistência ao trabalho terapêutico, onde o paciente não permite que venham à tona angústias esquecidas.

Transferência: Repetição, no momento presente, de atitudes emocionais da infância do paciente, em relação aos pais ou pessoas que o rodeavam.

Contratransferência: Resposta do terapeuta à transferência do paciente ou a atitude inconsciente do terapeuta perante o paciente.

Recalque: Aparente corte de sentimentos e desejos que continuam presentes na vida psíquica do paciente.

** Agradeço ao Dr. David Rajz, psiquiatra radicado aqui no Rio e amigo de muitos anos, que acompanhou a elaboração desse parágrafo e me ajudou a repassar o seu conteúdo.

** Vale lembrar que os mecanismos de defesa quando expostos ou percebidos devem ser acolhidos como coadjuvantes do tratamento, não olhados de forma negativa. São eles que "temperam" nossa sanidade. Sem um recalquezinho aqui, uma transferênciazinha ali, uma racionalizaçãozinha acolá, seríamos todos e, em especial as crianças, irremediavelmente neurotizados. ----------------------------------------------

O papel da fantasia no Sintoma Infantil

Por Dalila Pereira de Sousa1 Palavras chave: desenvolvimento infantil, fantasia e Sintoma Infantil. Resumo: Neste artigo tenho como meta compreender um pouco a respeito do desenvolvimento infantil, com o intuito de saber qual o papel da fantasia no Sintoma Infantil, qual o seu real propósito. Dialogar com autores que mostrem o direcionamento, o caminho do psicanalista diante do Sintoma Infantil. Para tanto, é preciso compreender como se dá o desenvolvimento do ser humano e qual o papel do Outro nessa grande aventura, que é se tornar um sujeito de desejo sendo na medida do possível um sujeito autônomo. Primeiramente é preciso entender o desenvolvimento infantil. Esse é um tema em que podemos visualizar por várias vertentes, diversos saberes se ocupam deste assunto. Jerusalinsky(1988) é psicanalista, mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e doutor em Educação e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP). Além disso, é membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre e da Association Lacaniènne Internationale, mostra em um de seus trabalhos a diversidade de conceitos para compreender o desenvolvimento infantil, como: a evolução do tônus muscular responsável pelo desenvolvimento motor reflexos e esquemas de ação, dependência e independência, integração do ego, maturação neurológica dentre outros. Entretanto, Jerusalinsky (p.21,1988) diz que na verdade “... o que se desenvolve são as funções e não o sujeito”. Porém para que essas funções se desenvolvam é preciso que algo maior aconteça da ordem do desejo,

anterior ao desenvolvimento motor. É preciso que uma dimensão mental seja instaurada e coloque o sujeito a trabalho da busca de seu desenvolvimento. Trata-se segundo Jerusalinsky (1988) de uma dimensão propriamente psíquica, que organizará e dará contorno ao objeto. Essa dimensão psíquica embora, seja de ordem físico-biológica, modificará, por exemplo, a organização do tônus muscular. Jerusalinsky formula: A organização do tônus muscular não depende somente de sinergias e automatismos neurofisiológicos, mas sim do tipo de tratamento que o Outro na posição materna outorgue aos estímulos internos que assediam a criança. (Jerusalinsky, p. 22. 1988). Portanto, é indiscutível a importância do olhar do Outro para a sobrevivência humana. O indivíduo da espécie humana é, segundo Jerusalinsky (1988), um deficiente instintivo. Para o sujeito, estar inscrito no desejo do Outro, no discurso do Outro, é uma condição imprescindível para sua sobrevivência; a partir de então a pulsão poderá desempenhar seu papel. O bebê fica então à mercê dos cuidados do Outro, exposto às suas necessidades sem nenhum meio ou recurso próprio para satisfazer suas necessidades, nada em seu sistema neurológico pode eliminar seu mal-estar. O ser humano não tem escapatória depende do Outro para sobreviver, e será nessa dependência que irá se constituir enquanto sujeito de desejo. Nessa relação dual onde ao mesmo tempo em que ele se vê completo colado em seu tutor, ele deverá descolar de suas fantasias, viver suas faltas para então se constituir sujeito de desejo. Assim define Jerusalinsky a condição humana: Para os estímulos internos, a criança não tem escapatória, somente poderá operar uma tentativa de resolução através do outro ser humano tutelar. È por isso que o objeto humano é constituído pelo outro. O que define para esse objeto seu campo de alteridade e, portanto a alienação do sujeito a respeito dele. Este objeto, no imaginário constitui-se como idealizado e no real, como impossível. (Jerusalinsky, p. 22. 1988). Freud constata, segundo Jerusalinsky (1989), que no homem existe algo que, não se trata da pulsão, mas sim as fantasias originárias. Relacionando a relação entre fantasia e desejo. Segundo Laplanche (1990) a fantasia nada mais é que a “... transcrição imaginária do desígnio primordial de toda e qualquer pulsão, desígnio que implica de imediato um objeto específico, a investida instintual é necessariamente sentida como uma fantasia que, seja qual for seu conteúdo”. Deste modo podemos interpretar que tudo que é consciente no sujeito em algum momento foi inconsciente, para Isaac (1990) somos frutos de nossas fantasias. Para cada operação mental existe uma fantasia subjacente. O sujeito biológico está em ligado ao sujeito da fantasia. O bebê irá experimentar através de sua relação de completude com sua mãe, a experiência da satisfação original. Deste modo, na ausência dessa satisfação o bebê sob uma forma alucinada, buscará de forma incessante seu objeto de desejo. Estaria então, neste ponto, o surgimento das fantasias mais fundamentais? Segundo Issac: As fantasias mais fundamentais seriam aquelas que tendem a reencontrar os objetos alucinatórios vinculados às primeiras experiências do fluxo e da resolução do desejo... A fantasia encontraria sua origem na satisfação alucinaria do desejo, reproduzindo o bebê sob a forma alucinada, na ausência do objeto real, a experiência de satisfação original. (Isaac, p. 77,78. 1990).

Para Freud o papel da mãe é sedutor, quando ela se põe a cuidar de seu bebê ela: lava, coloca fraldas e faz muitas carícias em sua criança, neste momento as zonas erógenas acabam por serem privilegiadas, a pele, o ânus as genitais. Essas regiões biologicamente quando acariciadas provocam prazer, assim serão pontos para atraírem o desejo do sujeito, e também a fantasia materna. Segundo Laplanche (1990) essa seria uma modalidade da fantasia originária. Este acaba por situar a origem da fantasia e sua ligação com o desejo. Para a psicanálise a fantasia ocupa um lugar de grande importância dentro dos processos de análise do sujeito, segundo Freud a fantasia é um fio condutor para a história do sujeito uma porta para inconsciente. Para Freud2 a fantasia é definida em termos de estrutura de linguagem; onde o papel do outro é central. Há primeira vista pode parecer que para a psicanálise a análise de uma criança é um complicador. Portanto, diante dos Sintomas Infantis qual a posição da psicanálise? Veremos que os caminhos percorridos por Freud em sua primeira análise de uma criança no Caso do Pequeno Hans3 a compreensão das fantasias são um fio condutor que funciona de maneira que conduz as verdadeiras lembranças infantis. Para Freud (1987) as fantasias são descritas como fachadas psíquicas, obstruindo o caminho para as lembranças infantis. Ainda Freud: As fantasias servem ao mesmo tempo à tendência de refinar as lembranças, de sublimá-las. São feitas de coisas ouvidas e utilizadas subseqüentemente; assim elas combinam coisas que foram ouvidas e coisa que foram experimentadas; acontecimentos passados (da história dos pais e dos ancestrais) e coisas que a pessoa viu. (Freud, p.336.1976). Os Sintomas Infantis a princípio podem parecer um grande enigma, mas com uma função muito distinta endereço certo surge com um papel definido dentro do contexto familiar. Para Freud e para Lacan o Sintoma nada mais é que uma forma de apelo ao pai. E a fantasia é uma leitura que a criança faz da falta do Outro, nessa história o medo de não corresponder ao que o Outro demanda dele, traz à ameaça de devoração4, e como recurso o apelo ao nome do pai. A criança espera que o pai interfira nessa relação para que ela consiga “criar” uma identidade, mas o pai falha e com isso ela fantasia uma saída. Ela então faz Sintoma. Deste modo, terá seu desejo reconhecido e o reconhecimento do desejo. A criança vive a angústia do enigma do desejo do Outro, o Sintoma é uma resposta pessoal a esse enigma. Ao elaborar o Sintoma ela se vê fora do risco de ser devorada, acaba por elaborar uma explicação para a falta do Outro, somente deste modo ela poderá se situar enquanto um sujeito de desejo, diferente do grande Outro, esse ficará no campo da fantasia. Para que todo esse processo de transformação ocorra é preciso que o terceiro se apresente e garanta o afastamento da mãe e para que o desejo dessa mãe possa ser desviado do filho. O esperado é que a função paterna venha a falhar assim, pois segundo Bernardino (p.59) na falha paterna a organização sintomática virá em defesa de um mínimo de subjetividade, e ficará oscilando entre fazer objeto imaginário de gozo do Outro e destituir-se deste lugar através dos fracassos do Outro. Ainda em Jerusalinsky, citado por Bernardino (p.59) “O Sintoma é a tentativa elementar, mas desesperada, de sustentar um mínimo de subjetividade diante do imperativo do Outro”. No Sintoma a criança, segundo Bernardino (p.60), “coloca do dedo na ferida, no ponto cego da posição de seus pais, principalmente da mãe face ao desejo”. A criança na construção do Sintoma se apropria do discurso dos pais ou principalmente da mãe, e delata o insuportável desta relação, mostrando qual o lugar da criança em sua “fantasmática5”. Como poderia então o psicanalista intervir na construção do Sintoma da criança, se a criança é

portadora da questão do Outro? Seria possível desvincular essas questões da relação triangular mãe_filho_pai entrar na singularidade em uma análise? Para Bernardino (p.61) é uma condição de a infância ser dependente absoluto da fantasia do Outro, para que somente assim pode ter um lugar para os seus significantes. Ele só irá se construir a partir destas referências. Na psicanálise o papel do analista é através de uma neurose de transferência produzir uma neurose para o analista, dando lugar a esse Sintoma. Nesse caminho a criança montará uma saída edípica mais criativa, não podemos simplesmente arrancá-lo do sujeito o sintoma tem a função de primeiramente diminuir a angústia do sujeito.

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