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“A sentença que decreta a separação, por possuir eficácia
desconstitutiva, produz efeitos a partir de seu trânsito em julgado. No entanto,
tendo sido deferida separação de corpos, os efeitos da sentença retroagem à data
de sua concessão (Lei do Divórcio, art. 8º),”173

explica Maria Berenice Dias.

(Destaques da autora).

A separação judicial, seja ela litigiosa (culposa) ou consensual
(sem discussão da culpa), produz efeitos iguais aos do divórcio, exceto quanto ao
rompimento do vínculo conjugal, que permanece inalterado (art. 1.571, § 1º, do CC).
Há diferenças nos efeitos em relação à pessoa dos cônjuges, aos bens e em relação
aos filhos.

Em relação ao art. 1.576, do CC/02, que preceitua que a
separação judicial põe termo aos deveres de coabitação e fidelidade recíproca e ao
regime de bens, Maria Berenice Dias leciona:

Mais uma vez equivoca-se o legislador. O fim dos
deveres do casamento também não decorre da ação
de separação, mas, da separação de fato. Além disso,
não explicita esse dispositivo se está a falar do momento
em que ação foi intentada, da data da sentença ou do
seu trânsito em julgado. Como a sentença dispõe de
carga eficacial desconstitutiva, só produz o efeito de pôr
fim à sociedade conjugal depois do trânsito em julgado,
sendo de todo descabido que persistam até essa data
deveres conjugais. (Destaques da autora).174

Quando a separação é consensual, há uma concordância com
os termos e condições ajustados pelos consortes, quando da separação. Se é
litigiosa, as partes deverão cumprir o estabelecido pelo juiz, dentro dos parâmeros
legais.

De acordo com Maria Helena Diniz, os principais efeitos

pessoais em relação aos cônjuges são:

173

Op. Cit., p. 287.

174

Idem, p. 288.

72

1) Pôr termo aos deveres recíprocos do casamento,
coabitação, fidelidade e assistência imaterial (CC, art.
1.576), separando, materialmente, os consortes que, em
conseqüência, deixam de residir na mesma casa (CC,
art. 1.575, 1ª parte), readquirindo os ex-cônjuges o
direito de fixarem sozinhos seu domicílio;
2) impedir o cônjuge de continuar a usar o nome do
outro, se declarado culpado pela separação litigiosa.
[...] Tal alteração não pode acarretar evidente prejuízo
para sua identificação; manifesta distinção entre o seu
nome e o dos filhos havidos da união dissolvida; ou dano
grave reconhecido na decisão judicial. Se inocente na
ação,
poderá renunciar a qualquer momento, ao direito
de usar o sobrenome de seu consorte;
3) impossibilitar a realização de novas núpcias, pois a
separação judicial é relativa, já que não dissolve o
vínculo. Há impedimento matrimonial, uma vez que o
separado não pode casar, por ser pessoa já casada (CC,
1.521, VI);
4) autorizar a conversão em divórcio, cumprido um ano
do trânsito em julgado a sentença que decretou a
separação judicial (CF/88, art. 226, § 6º) ou da decisão
concessiva da medida cautelar da separação de corpos;
5) [...]
6) possibilitar, a qualquer tempo, seja qual for a causa
da separação judicial (consensual ou litigiosa), a
reconciliação do casal, restabelecendo a sociedade
conjugal, a qualquer tempo, por ato regular em juízo
(CC, art. 1.577), mediante requerimento nos autos de
separação. (Grifos nossos). 175

O que se depreende da interpretação da norma é que, para os
cônjuges, terminam os deveres do debitum conjugale e o dever de fidelidade. Caio
Mário esclarece que “[...] a Lei nº 6.515/77, declara, por expresso, que a Separação
Judicial põe termo aos deveres de coabitação, fidelidade recíproca e ao regime
matrimonial de bens como se o casamento fosse dissolvido (art. 3º), o que foi objeto
de regra expressa no art. 1.576, de 2002.” 176

Há, na separação judicial, efeitos quanto ao uso do nome: se
o cônjuge for considerado culpado, em sentença de separação, ele só poderá
manter o sobrenome de casado se o cônjuge inocente concordar com sua
manutenção. Outra possibilidade que se apresenta para a permanência do nome de
casado, vem expressa nos incisos do art. 1.578, do CC/02:

175

Op. Cit., pp. 309 - 310.

176

Op. Cit., p. 271.

73

Art. 1578. O cônjuge declarado culpado [...] perde o
direito de usar o sobrenome do outro, [...] se a alteração
não acarretar:
I – evidente prejuízo para sua identidade;
II – manifesta distinção entre o seu nome de família e o
dos filhos havidos da união dissolvida;
III – dano grave reconhecido na decisão judicial.

No que diz respeito à sanção estabelecida ao cônjuge culpado,
em relação ao uso do sobrenome do cônjuge inocente, Maria Berenice Dias tem o
seguinte entendimento:

[...] o culpado pelo fim do casamento fica sujeito a perder
a própria identidade, pois, o uso do nome depende da
benemerência do “inocente” (CC, 1.578). Se foi
reconhecida a sua culpa, só há a possibilidade de
continuar com o nome se, com isso, concordar o “dono”
do nome.
[...] O legislador, ao delegar a um dos cônjuges a
possibilidade de subtrair o nome de quem deixou de o
amar, chancela atitude vingativa. Trata-se de verdadeira
condenação do “culpado” pela separação. A partir do
casamento, o nome de um passa a ser também do outro.
Ou seja – para se ficar com a novidade –, se adota o
marido o nome da mulher, este passa a ser seu nome,
integra sua personalidade. O nome não é mais do outro,
é seu também. O nome adotado com o casamento passa
a ser o nome de família e o seu nome próprio, integrando
seu direito az personalidade. Assim, nada justifica a
perda do nome por vontade de outrem. (destaques da
autora). 177

A separação judicial também produz efeitos patrimoniais. No
que diz respeito aos bens, a separação põe fim ao regime de bens adotado durante
o casamento. Poderá haver acordo entre os cônjuges, homologada pelo juiz, quanto
à partilha dos bens, na separação consensual, ou sua divisão será por ele
deliberada de acordo com o regime adotado pelo casal, na separação litigiosa.
Caio Mário complementa a explanação, comentando que “[...]
revertem a cada um dos separados os bens que não se comunicaram com o
casamento, conforme estabelecido no pacto antenupcial ou por imposição legal.
Terminada a comunhão, partilham-se os que encontravam indivisos. Cessa o direito
hereditário entre os ex-cônjuges.” (Destaque do autor). 178

177

Op. Cit., pp. 111, 129 - 130.

178

Op. Cit., p. 272.

74

Não há óbice a que a partilha ocorra posteriormente à
separação judicial, mas, deverá ser processada nos mesmos autos. Assim prevê o
art. 1.581, do CC, com relação ao divórcio, e o Enunciado nº 255, do Conselho da
Justiça Federal, aprovado na III Jornada de Direito Civil: “ Não é obrigatória a
partilha de bens na separação judicial.”

No magistério de Caio Mário, há esclarecimentos a respeito dos

bens adquiridos durante a separação de fato do casal:

Já incorporadas à Doutrina e Jurisprudência, outrossim,
cabem referências as hipóteses dos bens adquiridos
pendente a separação de fato do casal, cuja
incomunicabilidade já se tem consagrada. Distinguem-se
os bens e as responsabilidades financeiras adquiridos e
assumidos na constância do casamento, nela
indicando a convivência e a comunhão de vida, daqueles
oriundos da existência formal do casamento. Tal
princípio foi indicado no Projeto de Lei nº 6.960/2002
com o objetivo de se evitar enriquecimento ilícito.
(Destaques do autor).179

O art. 1.577, do CC/02 prevê a hipótese do restabelecimento da
relação conjugal. Nesta situação, há o pressuposto de que o regime de bens do
casamento deverá ser mantido. O direito adquirido de terceiros, concernente a
negócios ocorridos tanto na vigência do casamento quanto após sua dissolução,
será mantido.

Com relação ao dever de sustento, Maria Helena Diniz ensina:

Na separação consensual [...], o marido poderá
estipular que pagará pensão alimentícia à mulher, se ela
não tiver meios de sobrevivência. Nos casos de
separação litigiosa, tal pensão, fixada pelo juiz,
segundo os critérios do art. 1.694, deve ser prestada
pelo cônjuge declarado culpado por ela, se o outro
precisar, apresentando-se como uma espécie de sanção
civil (CC, art. 1.702), constituindo-se como “alimentos
indenizatórios”. Havendo reciprocidade de culpa,
ambos perderão direito a alimentos. E, se um dos
cônjuges, separado judicialmente, vier a precisar de
alimentos, o outro deverá prestá-los, mediante pensão a
ser fixada pelo juiz, caso não tenha sido considerado
responsável pela separação judicial. Mas, se o foi e não
tiver parente em condições de fornecê-los, nem
capacidade laborativa [...], o ex-cônjuge será obrigado a
assegurá-los, pagando o valor fixado judicialmente,

179

Idem, ibidem.

75

indispensável à sobrevivência (CC, art. 1.704, parágrafo
único). (Destaques nossos). 180

O dever de prestar alimentos ao ex-cônjuge extingue-se nas
situações previstas nos arts. 1.707 a 1.709, do CC: com a dispensa do cônjuge
credor aos alimentos; com seu casamento, união estável ou concubinato; se houver
comportamento indigno de sua parte (Nelson Nery e Rosa Maria181

entendem que,

neste caso, aplica-se o disposto no art. 1.814, I e II, do CC) e com sua morte.
Maria Berenice Dias entende que, na redação do art. 1.704, do
CC/02, “ [...] volta o legislador à carga contra o culpado pelo fim do casamento, ao
garantir, de modo explícito, somente ao cônjuge inocente (CC, 1.702) alimentos que
lhe permitam educação e mantença da mesma condição social.” (Destaques da
autora).182

Por outro lado, a autora aprecia a norma que concede
alimentos também ao cônjuge culpado pelo fim do casamento:

Merece aplausos a novidade, que afasta o conteúdo
punitivo da obrigação alimentar e atenta à dignidade da
pessoa humana. Cuida-se de responsabilidade residual
imposta ao cônjuge e companheiro inocentes, na
hipótese de o culpado encontrar-se em situação de
absoluta necessidade. Essa foi a fórmula encontrada
pelo legislador para desobrigar o Estado que, em última
instância, tem a responsabilidade de socorrer os
desafortunados, transferindo esse ônus ao ex-cônjuge
ou ex-companheiro.183

Ainda no que tange aos efeitos patrimoniais, atualmente,
considera-se a possibilidade de que a separação litigiosa possa dar origem a
indenização por perdas e danos. Maria Helena Diniz leciona sobre a matéria:

Se litigiosa a separação, dá origem à indenização por
perdas e danos, em face de prejuízos morais ou
patrimoniais sofridos pelo cônjuge inocente. Deveras,
pode haver dano moral e patrimonial por não-
cumprimento dos deveres conjugais, lesivo ao direito da
personalidade de um dos consortes; logo, este poderá

180

Op. Cit., pp. 313 - 314.

181

Op. Cit., p. 932.

182

Op. Cit., p. 111.

183

Idem, p. 462.

76

pleitear, cumulativamente, com o pedido de separação,
judicial, indenização pelo gravame sofrido, que lhe
prejudicou a saúde física ou mental, causou sua desonra
ou o submeteu a injúria ou a humilhações. Tal pretensão
condenatória, visando reparação de dano moral e
material, poderá até mesmo ser deduzida na
reconvenção. Pela identidade de “causa petendi”, nada
impede que o juízo de família venha a decidir os pedidos
cumulados.184

No mesmo sentido, Caio Mário afirma que “[...] poderá ainda
ocorrer a indenização por perdas e danos (dano patrimonial e dano moral), em face
do prejuízo sofrido pelo cônjuge inocente.” (Destaques do autor).185
Maria Berenice Dias explica que são diferentes a obrigação

alimentar e a indenização por danos morais:

A obrigação de pagamento de alimentos, que subsiste
após o rompimento do casamento e da união estável,
não dispõe de natureza indenizatória, ainda que o
“quantum” da verba alimentar esteja condicionado à
identificação da culpa do credor (CC, 1.694, § 2º). O
“inocente” perceberá alimentos em montante que lhe
permita viver de modo compatível com sua condição
social, inclusive para atender às necessidades de sua
educação (CC, 1.694). Já quem agiu com culpa, faz jus
a alimentos se não tiver aptidão para o trabalho nem
parentes em condições de prestá-los. Ainda assim, os
alimentos serão fixados em valor que garanta somente o
indispensável à subsistência
(CC, 1.704, parágrafo
único). (Destaques da autora).186

A autora187

entende que o dever de alimentos não é uma
condenação por danos morais. O encargo de prover alimentos deriva do trinômio
necessidade-possibilidade-proporcionalidade; tanto que, também o cônjuge culpado
tem direito a pleiteá-los. Além disso, sempre há a possibilidade de revisão e
exoneração de alimentos, o que não ocorre na responsabilidade civil.
Apesar de não haver alteração em relação ao vínculo de
filiação, a separação judicial produz alguns efeitos relativos aos filhos.
O primeiro efeito ocorre em relação à guarda: os filhos menores
e os maiores incapazes (de acordo com o art. 1.590, do CC), passarão a viver sob a

184

Op. Cit., pp. 314 - 315.

185

Op. Cit., p. 272.

186

Op. Cit., p. 117.

187

Idem, ibidem.

77

guarda de um dos cônjuges. No caso da separação consensual, de acordo com o
art. 1.583, do CC, os cônjuges são livres para escolher sobre a guarda dos filhos e,
se não houver razões para decisão contrária (art. 1.586, do CC), o juiz homologará o
pedido do casal.

Na separação litigiosa, se o casal não entrar em acordo a
respeito da fixação da guarda dos filhos, fica o juiz obrigado a atribuí-la àquele que
tiver melhores condições para exercê-la. Caso seja constatado que nem o pai ou a
mãe possui condições de prover bom lar para os filhos, o juiz poderá deferir a
guarda a uma terceira pessoa “ [...] que revele compatibilidade com a natureza da
medida, de preferência levando em conta o grau de parentesco e relação de
afinidade e afetividade, de acordo com o previsto em lei específica.” (art. 1.584,
parágrafo único, do CC).

Maria Berenice Dias leciona sobre a matéria:

Solvido o relacionamento dos pais, nada interfere no
poder familiar com relação aos filhos (CC, 1.632). O
exercício do encargo familiar não é inerente à
convivência dos cônjuges ou companheiros.
[...] Deixando os pais de viver sob o mesmo teto, é
mister definir na companhia de quem vão morar os filhos
que estão sujeitos ao poder familiar.
[...] No Código Civil de 1916, o casamento não se
dissolvia. Ocorrendo o desquite, os filhos menores
ficavam com o cônjuge inocente.
[...] A Constituição Federal, ao consagrar o princípio da
igualdade e assegurar ao homem e à mulher os mesmos
direitos e deveres referentes à sociedade conjugal (CF,
226, § 5º), baniu discriminações, produzindo reflexos
significativos no poder familiar.
[...] O Código Civil olvidou-se de incorporar o princípio do
melhor interesse (da criança). (Destaques da autora). 188

Venosa189

entende que o juiz deverá determinar a atribuição da
guarda de filhos menores, valendo-se de bom senso ao analisar o caso concreto. A
idéia central é a de que a guarda dos filhos deverá ser decidida tendo como objetivo
causar o menor prejuízo moral aos menores, ou seja, no maior interesse das
crianças. O autor prossegue, apontando seus ensinamentos sobre o significado do
termo "as melhores condições", mencionado no art. 1.584, do CC/02:

188

Op. Cit., pp. 380, 391 - 392.

189

Op.Cit., p. 188.

78

[...] somente em situações excepcionalíssimas o menor
de tenra idade deve ser afastado da mãe, a qual, por
natureza, deve cuidar da criança. nem sempre, por outro
lado, as melhores condições financeiras de um dos
cônjuges representarão melhores condições de guarda
do menor. O carinho, o afeto, o meio social, o local da
residência, a educação, a escola e, evidentemente,
também as condições econômicas, devem ser levados
em consideração pelo magistrado, que deve valer-se de
profissionais auxiliares para ter diante de si um quadro
claro da situação do lar dos cônjuges.
[...] É importante, também, que o menor seja ouvido, se
já tiver idade de maior compreensão, bem como os pais,
parentes próximos e pessoas relacionadas com o
casal.190

Com esses comentários, é possível concluir, quanto à guarda

dos filhos, como nos ensina Venosa, que

[...] nada impede ao juiz que defira a guarda a ambos os
cônjuges, mormente se existe acordo entre eles. o difícil,
justamente, é chegar-se a um acordo no calor de uma
separação. A guarda, porém, pode ser alterada no
futuro, quando os espíritos estiverem mais apaziguados.
Não resta dúvida de que a solução da guarda
compartilhada é um meio de manter os laços entre pais e
filhos, tão importantes no desenvolvimento da criança e
do adolescente.191

CONCLUSÃO

Após extensiva pesquisa a respeito do tema proposto, é
possível concluir que a atribuição da culpa, como fundamento para o pedido de
separação judicial, recebe muitas críticas dos doutrinadores.
As críticas têm início com a consideração de ser um retrocesso
a manutenção desse critério no Código Civil de 2002. Isso deve-se ao fato de que,

190

Idem, p. 189.

191

Idem, p. 191.

79

ainda na vigência plena do CC/1916 e da Lei do Divórcio, o art. 5º da Lei do Divórcio
e as reiteradas decisões judiciais já dispensavam a averiguação da responsabilidade
para a decretação da separação judicial, pois o julgador atentava para a
insuportabilidade da vida em comum.

Com o advento do CC/02, porém, houve a manutenção da
separação com base na culpa. Esse fato não se coadunava com os entendimentos
doutrinário e jurisprudencial da época. Antes da nova codificação, o entendimento
era o de que, uma vez manifestada a intenção das partes em não mais manterem o
relacionamento, e configurada a impossibilidade da vida em comum, a separação
poderia ser decretada, sem o reconhecimento da culpa dos cônjuges: o julgador
observava a insuportabilidade da vida em comum ou a impossibilidade de
reconciliação, solucionando a demanda como se fora uma separação-remédio. (p.
397- Cahali). Essa dispensa da apuração da culpa representou uma expressiva
evolução no Direito de Família.

Com a possibilidade jurídica de se obter a separação pelas vias
da separação-remédio ou pelo princípio da ruptura da vida em comum, a discussão
da culpa (na modalidade de separação-sanção), veio, progressivamente, sendo
dispensada. A diretriz da decretação da separação judicial, desde que ambos os
cônjuges tivessem o propósito de se separar, era a insuportabilidade da vida em
comum. (p. 189 a 194 – Arnoldo Wald).

Quanto aos efeitos da separação-sanção, na prática, somente
os alimentos podem ser considerados elementos de relevo, pois, as outras sanções
foram mitigadas (uso do nome, guarda dos filhos).

Assim, o que se percebe é que, apesar da previsão legal sobre
a necessidade da comprovação da culpa de um dos cônjuges, quando há a falência
do casamento (art. 1.572, caput, do CC), os doutrinadores e os julgadores entendem
que a separação deve ser decretada com fulcro nos arts. 1.572, § 1º e 1.573, par.
único, ou seja, sem a atribuição de culpa a um dos consortes. Essa atitude facilita a
dissolução do casamento, pois, mediante a simples comprovação da ruptura da vida
em comum há mais de um ano, não há qualquer necessidade de questionamento
sobre a culpa. Além disso, o divórcio direto também pode ser concedido, desde que
cumprido o requisito temporal: separação de fato por dois anos, ininterruptos.

80

Ora, se o casamento pode ser desfeito facilmente pelo divórcio
e, sempre sem discussão da culpa, não é coerente resistir à opção mais branda para
se obter a separação. Afinal, o Direito não possui as ferramentas necessárias para
manter unidas as pessoas que não mais se amam, que chegam a se repudiar.
(Cahali, 400).

Ainda com base no magistério de vários doutrinadores (Yussef
Cahali, Arnoldo Wald, Sílvio Venosa, dentre outros), o ideal seria que se mantivesse
a linha mais sintética, anterior ao Código Civil de 2002 (linha esta já solidificada no
entendimento jurisprudencial e doutrinário): conservar a redação do art. 1.572, do
CC/02 (que traz a regra geral das separações) e eliminar o art. 1.573, que se
mostra deveras retrógrado.

Em outras palavras, primeiramente, o legislador deveria cuidar
da consideração da insuportabilidade da vida em comum e, posteriormente, agregar
o fato que lhe deu origem: nesse ponto, o fato seria inexpressivo, por si só, ou um
simples sintoma da já evidenciada crise conjugal.

Prosseguindo nesse entendimento, os fatos culposos descritos
em lei deveriam ser vistos como a tradução de um fato geral, fato este que constitui
a causa verdadeira da separação. Assim, na grande maioria dos casos, é impossível
(e desnecessário) identificar o verdadeiro responsável pela separação do casal.
Outro ponto que merece destaque no entendimento doutrinário
é o fato de que, com a redação do art. 1.573, do CC/02, caracteriza-se uma
intromissão do Estado na esfera íntima do casal, pois, uma vez findo o vínculo
afetivo, não caberia ao Estado procurar culpas para justificar a ocorrência,
afrontando o Princípio da Dignidade Humana. Nessas situações, o que se espera do
Estado é que ele tenha um papel protetor, sem invadir a intimidade das partes, ou
seja, que chancele a decisão do casal, colocando fim ao casamento no qual há,
certamente, muita mágoa, discussão e ressentimentos. (MBD, 284)
Maria Berenice Dias (p.284) faz severa crítica sobre este tema,
asseverando que “[...] a ingerência determinada pela lei na vida dos cônjuges,
obrigando um a revelar a intimidade do outro para que imponha o juiz a pecha de
culpado ao réu, é visivelmente inconstitucional. Não tem sentido averiguar a culpa,

81

com motivação de ordem íntima, psíquica, quando a conduta pode ser apenas
sintoma do fim.”

Em razão de haver vedação legal à referência da causa da
separação na sentença de conversão de separação em divórcio (art. 1.580, do
CC/02), a apuração da culpa como fundamento para a separação é totalmente
desgastante para o casal, sem contar a dilação probatória e o ônus para o Judiciário
em razão da demora do processo.

Neste passo, o direito não acompanhou as alterações já
sedimentadas anteriormente, não se atribuiu no ordenamento, pelo menos
expressamente, valor à intimidade das partes, à celeridade processual e à
simplificação dos procedimentos.

Está a doutrina laborando intensamente para implantar esta
nova visão, independente e desvinculada da aferição da culpa nas separações
litigiosas, pois, há outras possibilidades de composição dos danos eventualmente
sofridos por um dos cônjuges, ainda na esfera civil.

Esse trabalho tem sido árduo, cercado pelo inconformismo
doutrinário e pela prática jurisdicional no sentido de abolir definitivamente a
discussão da culpa na esfera da separação judicial.

Finalizando, trazemos à colação um trecho do acórdão
prolatado pelo Desembargador José Carlos Teixeira Giorgis, com o qual
concordamos, pois sintetiza todas as idéias apresentadas no presente trabalho:

É remansoso o entendimento de que descabe a
discussão da culpa para a investigação do responsável
pela erosão da sociedade conjugal. A vitimização de um
dos cônjuges não produz qualquer seqüela prática, seja
quanto à guarda dos filhos, partilha de bens ou
alimentos, apenas objetivando a satisfação pessoal,
mesmo porque difícil definir o verdadeiro
responsável pela deterioração da arquitetura
matrimonial,
não sendo razoável que o Estado invada a
privacidade do casal para apontar aquele que, muitas
vezes, nem é o autor da fragilização do afeto. A análise
dos restos de um consórcio amoroso, pelo Judiciário,
não deve levar à degradação pública de um dos
parceiros, pois os fatos íntimos que caracterizam o
casamento se abrigam na preservação da dignidade
humana, princípio solar que sustenta o ordenamento
nacional. (TJRS, 7ª Câm.Cív., AC 70005834916, j.
02.04.2003). (Destaques nossos).

82

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http://www.ibdfam.org.br/public/artigos.aspx?codigo=277. Apud, DIAS, Maria
Berenice, op. cit., p. 305.

SARTORI, Fernando. A culpa como causa da separação e seus efeitos. Internet,
acesso

em

15/08/2008,

disponível

em

www.flaviotartuce.adv.br/secoes/artigosc/Sartori_Culpa.doc .

SCALQUETTE, Ana Cláudia Silva . Para Aprender Direito. Família e Sucessões. 4ª
ed. São Paulo: Barros, Fisher e Associados, 2007.

VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil. Direito de Família. 8ª. ed. São Paulo: Atlas,
2008.

85

WALD, Arnoldo. Curso de Direito Civil Brasileiro. O Novo Direito de Família. 16ª ed.
São Paulo: Saraiva, 2005.

ANEXO A

PROJETO DE LEI Nº 2.285, DE 2007

Dispõe sobre o Estatuto das Famílias.

CAPÍTULO IV

86

DA DISSOLUÇÃO DA ENTIDADE FAMILIAR

SEÇÃO I

DA AÇÃO DE DIVÓRCIO

Art. 168. A ação de divórcio pode ser intentada por qualquer um dos cônjuges ou
por ambos.
§ 1.º O cônjuge acometido de doença mental ou transtorno psíquico será
representado por curador, ascendente ou irmão.
§ 2.º A inicial deverá ser acompanhada da certidão de casamento e certidão de
nascimento dos filhos.

Art. 169. Não tendo havido prévia separação, deve a inicial:
I – indicar a data da separação de fato;
II – identificar o regime de convivência com os filhos menores;
III – declinar a dispensa dos alimentos ou a necessidade de um dos cônjuges de
percebê-los;
IV – indicar o valor dos alimentos necessários à mantença dos filhos.

Art. 170. Ao receber a inicial, o juiz deve apreciar o pedido liminar de alimentos
provisórios.

Art. 171. Havendo filhos menores ou incapazes, deverá ser designada audiência
conciliatória.

Art. 172. No divórcio consensual, não existindo filhos menores ou incapazes, ou
estando judicialmente decididas as questões a eles relativas, é dispensável a
realização de audiência.

SEÇÃO II

DA SEPARAÇÃO

Art. 173. Qualquer dos cônjuges pode propor a ação de separação.

87

Art. 174. Qualquer dos cônjuges, conviventes ou parceiros pode propor a ação de
separação de corpos.
§ 1.º A parte autora pode pleitear, justificadamente, sua permanência no lar ou
requerer o afastamento da parte-ré.
§ 2.º Havendo alegação da prática de violência doméstica, aplica-se a legislação
especial.

Art. 175. Na inicial da ação de separação deve a parte autora:
I – indicar o regime de convivência com os filhos menores;
II – declarar que dispensa alimentos ou comprovar a necessidade de percebê-los;
III – indicar o valor dos alimentos necessários à mantença dos filhos.
Parágrafo único. A ação deve ser instruída com a certidão de casamento ou
contrato de convivência, se existir, e a certidão de nascimento dos filhos.

Art. 176. Ao receber a petição inicial, o juiz deve apreciar o pedido de separação de
corpos e decidir sobre os alimentos.
Parágrafo único. Não evidenciada a possibilidade de risco à vida ou a saúde das
partes e dos filhos, o juiz pode designar audiência de justificação ou de conciliação
para decidir sobre a separação de corpos.

Art. 177. Comparecendo a parte-ré e concordando com a separação de corpos,
pode a ação prosseguir quanto aos pontos em que inexista consenso.

CAPÍTULO V

DOS ALIMENTOS

SEÇÃO I

DA AÇÃO DE ALIMENTOS

Art. 178. Na ação de alimentos, o autor deve:
I – comprovar a obrigação alimentar ou trazer os indícios da responsabilidade do
alimentante em prover-lhe o sustento;
II – declinar as necessidades do alimentando;

88

III – indicar as possibilidades do alimentante.

Art. 179. Ao despachar a inicial, o juiz deve fixar alimentos provisórios e encaminhar
as partes à conciliação, ou designar audiência de instrução e julgamento.
§ 1.º Os alimentos provisórios são devidos e devem ser pagos desde a data da
fixação.
§ 2.º Quando da citação, deve o réu ser cientificado da incidência da multa de 10%,
sempre que incorrer em mora de quinze dias.

Art. 180 Se o devedor for funcionário público, civil ou militar, empregado da iniciativa
privada, perceber rendimentos provenientes de vínculo empregatício, ou for
aposentado, o juiz deve fixar os alimentos em percentual dos seus ganhos.
Parágrafo único. O desconto dos alimentos será feito dos rendimentos do
alimentante, independentemente de requerimento do credor, salvo acordo.

Art. 181. Na audiência de instrução e julgamento o juiz colherá o depoimento das
partes.
§ 1.º Apresentada a contestação, oral ou escrita, havendo prova testemunhal, o juiz
ouvirá a testemunha, independentemente do rol.
§ 2.º Ouvidas as partes e o Ministério Público, o juiz proferirá a sentença na
audiência ou no prazo máximo de dez dias.

Art. 182. Da sentença que fixa, revisa ou exonera alimentos cabe recurso somente
com efeito devolutivo.
Parágrafo único. Justificadamente, o juiz, ou o relator, pode agregar efeito
suspensivo ao recurso.

Art. 183. Fixados alimentos definitivos em valor superior aos provisórios, cabe o
pagamento da diferença desde a data da fixação. Caso os alimentos fixados em
definitivo sejam em valor inferior aos provisórios, não há compensação, não
dispondo a decisão de efeito retroativo.

89

Art. 184. Na ação de oferta de alimentos, o juiz não está adstrito ao valor oferecido
pelo autor.

Art. 185. Cabe ação revisional quando os alimentos foram fixados sem atender ao
critério da proporcionalidade ou quando houver alteração nas condições das partes.

Art. 186. A ação de alimentos pode ser cumulada com qualquer demanda que
envolva questões de ordem familiar entre as partes.

Art. 187. Havendo mais de um obrigado, é possível mover a ação contra todos,
ainda que o dever alimentar de alguns dos réus seja de natureza subsidiária ou
complementar.
Parágrafo único. A obrigação de cada um dos alimentantes deve ser
individualizada.

Art. 188. O empregador, o órgão público ou privado responsável pelo pagamento do
salário, benefício ou provento, no prazo de até quinze dias, tem o dever de:
I – proceder ao desconto dos alimentos;
II – encaminhar a juízo cópia dos seis últimos contracheques ou recibos de
pagamento do salário;
III – informar imediatamente quando ocorrer a rescisão do contrato de trabalho ou a
cessação do vínculo laboral.

Art. 189. Rescindido o contrato de trabalho do alimentante, serão colocadas à
disposição do juízo 30% de quaisquer verbas, rescisórias ou não, percebidas por ato
voluntário do ex-empregador ou por decisão judicial.
§ 1.º Desse crédito, mensalmente, será liberado, em favor dos alimentandos, o valor
do pensionamento, até que os alimentos passem a ser pagos por outra fonte
pagadora.
§ 2.º Eventual saldo será colocado à disposição do alimentante.

90

Art. 190. Fixada em percentual sobre os rendimentos do alimentante, a verba
alimentar, salvo ajuste diverso, incide sobre:
I - a totalidade dos rendimentos percebidos a qualquer título, excluídos apenas os
descontos obrigatórios, reembolso de despesas e diárias;
II - o 13º salário, adicional de férias, gratificações, abonos, horas extras e vantagens
recebidas a qualquer título.

Art. 191. A cessação do vínculo laboral não torna ilíquida a obrigação,
correspondendo os alimentos, neste caso, ao último valor descontado.

Art. 192. Os alimentos podem ser descontados de aluguéis e de outras rendas ou
rendimentos do alimentante, a serem pagos diretamente ao credor.

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