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Esgotar a vida: cenas de leitura

Por Ana Cristina Chiara
“ Fui um dia cantar em Belo Horizonte e não tirei o boné de Milton da
cabeça e chamei Milton de Milton Renascimento porque parecia ter haido uma
reolução se!ual em Minas" uma irada da era astral" noo horizonte# $Caetano
%eloso&

“ a dança e!iste como perpétuo ponto de 'u(a) *esaparece no pr+prio momento
de sua criação, $André -epec.i&
%ida" esse assombro" esse assomo de e!peri/ncias descon0untadas" de 'lashes" de
'rames" de cortes) %ida" e!peri/ncia do corte) Cortar umbi(o" cortar tare'as" cortar
calorias" cortar pessoas" amores e amizades) %ida" uma palara (rande demais em sua
0usteza de duas s1labas" e!tensa demais para se dar conta" prestar contas" 'azer contas)
Ao contr2rio de 'alar sobre a ida" trato aqui da leitura como modo de es(otar a ida)
Como um aqueiro nas (randes tetas de uma aca" ou uma criança no seio o'erecido da
mãe) 3s(otar a ida nas tetas da literatura)
Fazer da literatura um 'orti'icante no sentido nietzscheano da palara) Aprender
com 4ietzsche a ler como 4ietzsche) Adoecendo na sa5de) 6anhando 'orças na doença)
3!plodindo as carapaças do ser para atin(ir um “não ser mais aquilo," o estado iolento
da ontade de pot/ncia) Aprender a ler com a ale(ria di'1cil de Clarice -ispector
anunciada em Paixão Segundo GH7 “A mim" por e!emplo" o persona(em 6H 'oi dando
pouco a pouco uma ale(ria di'1cil8 mas chama9se ale(ria, $-:;P3C<=R" >?@A" p)B&)
:molar9se na i/ncia de uma “sub0etiidade sacri'icial," de uma “sub0etiidade
abstrata," ectoplasma de sensaçCes" lembranças entrecruzadas" 'icçCes7 corpo recriado
que se (asta numa economia de presençaDaus/ncia que é a do tempo da leitura como um
e!istir num “ punto abstracto" matem2tico" de uma sin(ularidad irtual, $-3P3E:"
FGGA" p) FFH&) -er para limpar os olhos com Macabéa) Aprender com -ourenço
Mutarelli a escorre(ar pelo 'uro da paranoia delirante de um dese0o que escoa sem
encontrar o limite do poss1el) 3star com Mutarelli no descontrole) -er então para
perceber o que Ra5l Antelo de'ine como “ida ali embai!o) :sso não é bom nem ruim)
;implesmente é),
4ão tratarei" portanto" da leitura edi'icante" da educação pela leitura" da 'ormação
do leitor" nem da cidadania" e!amino possibilidades de associar ida e leitura" em
moimentos de abalo" de lembrança e esquecimento" de (asto e de perdas" de
reprodução e desaparecimento
>
" (ozo" 'erida" morte) -er como “dançar em cadeias,"
e!perimentar a “0ouissance, barthesiana" que" ao contr2rio do “plaisir, não é posse" mas
“pura perda,7 “:l se dépenseI que dee ser lido como “ele se (asta," tanto quanto ele se
“des9pensa,&
F
" como quem pensa 'ora de si)
:) 4ietzsche
A leitura de 4ietzsche é um repelão) ;ubmeter a ceriz J 'erocidade de sua pata9
l1n(ua de 'o(o é doloroso) A cabeça d+i continuadamente) -er 4ietzsche é adoecer
esperando a conalescença7 sentir as e!tremidades 'rias do corpo 'ebril" a contração do
estKma(o" a n2usea" a sonol/ncia let2r(ica) 4ietzsche nos atin(e em cheio no que nos é
mais caro7 toda a arquitetura dos alores que nos puseram de pé" que leantaram nossa
'ace em direção a um *eus" alores que nos 'izeram “humanos,7 $Foi o minuto mais
arrogante e mais enganoso da história universal; mas foi apenas um minuto $-)F)" p)
A?&
L
8 alores" como crosta de poeira" depositados em nossa pele de tal modo que se
'undiram ao que 0ul(2amos nosso pr+prio ser) Portanto" não é sem pena que
e!perimentamos " quando o lemos" a es'oladura da carne ia" sem a proteção que a
recobria) 3" por isso" adoecemos) 3m n+s essa doença é 'orça reatia" uma derrota dos
neros diante do que nos parece uma absurda heresia7 a destruição de nossos 2libis)
4ietzsche" por seu lado" também adoece) Contudo" nele a doença não é doentia"
mani'esta9se como pathos a'irmatio" quando o corpo" em estado de alerta" concentra9se
na ontade de superar o estado m+rbido" interre(no quando tudo parece 'alhar) =
metabolismo se desor(aniza com o rodopio louco das 'orças dionis1acas na tensão
criatia $con'erir seus pre'2cios&) M dos per1odos de doença que sur(em seus liros7 a
e!peri/ncia da doença pode le29lo J e!peri/ncia da sa5de7 Um ser tipicamente
mórbido não pode ficar são, menos ainda curarse a si mesmo; para algu!m
tipicamente são,ao contr"rio, o estar enfermo pode ser at! um en!rgico estimulante ao
viver, ao maisviver# $e fato, assim me parece agora a%uele longo tempo de doen&a $)))&
>
A partir da su(estão do t1tulo “3s(otar a ida7 cenas de leitura, tomado de empréstimo ao liro de André
-epec.i “A(otar -a danza7 per'ormance N pol1tica del moimiento,
F
C') -eNla Perrone9Moisés em com Roland Barthes) ;ão Paulo7 Martins Fontes" FG>F" p) OH
L
Ptilizamos as se(uintes abreiaturas para as obras de Friedrich 4ietzsche7 4)<) Q ' nascimento da
trag!dia8 6) C) Q ( gaia ci)ncia8 R) 9 (ssim falava *aratustra8 B) M Q Para al!m do +em e do ,al8 6) M)
Q Genealogia da moral8 Cr) :d) Q -rep.sculo dos /dolos8 C) S) Q ' caso 0agner8 3) H) Q 1cce homo8 A)
C) Q ' anticristo8 %) P) 9 2ontade de pot)ncia8 C) :) 9 -onsidera&3es extempor4neas8 H) d) H) Q Humano,
demasiado humano 5 um livro para esp/ritos livres8 -) F) Q ' livro do filósofo)
fi6 da minha vontade de sa.de, e de vida, a minha filosofia $)))& o instinto de auto
restabelecimento proibiume uma filosofia da pobre6a e do des4nimo### $3) H)" p) FB&)
A leitura ser2" então" en'rentar o labirinto onde proli'era o sentido9m2scara de
outra m2scara que mascara outra# Adotar a atitude de recusa" não acreditar que al(o se
esconde atr2s da m2scara" desencadeia a pot/ncia de metamor'ose $detr2s da m2scara"
Raratustra ri&) 4ão querer deter a massa discursia" pois nela sopra o ento quente do
deserto" de onde" o pensador incendia alores" apontando9lhes a bai!a ori(em humana"
demasiada" humana) = leitor o'erece9lhe" ainda ressentido" a outra 'ace J bo'etada
colérica7 1 tapando as narinas atravessei com desalento todo o ontem e o ho7e; na
verdade, o ontem e o ho7e empestam o populacho de pena $R)" p) OL& Riscos de
a'o(amento) = leitor dee superar sua condição" dee e!ceder9se" abandonar o ale da
lamentação" e subir J montanha de ar rare'eito) <ornar9se um dos pares) Para tanto"
e!ercitar duas qualidades essenciais7 a altiez da 2(uia e a prud/ncia da serpente"
animais diletos do 'il+so'o bailarino)
4ietzsche ensina a ler) 3 como 4ietzsche l/T 4ietzsche l/ aos solaancos $como
quem morde e cospe 'o(o)))&) =s 'amosos par2(ra'os curtos U na impaci/ncia contra a
mediania) 4uma se(unda apreciação $tomando9se distVncia&" eri'ica9se que nele se
e!erce a leitura como um 0o(o de desmonta(ens" deslocamentos" cruzamentos"
subordinaçCes" hierarquização" aloração7 a leitura atia) A 'erocidade de 4ietzsche
olta9se contra a leitura passia) Aquela que l/ em con'ormidade com aquilo que l/) ;eu
rechaço U detesto todos os ociosos %ue l)em $R) p) LG& U dee ser entendido como
recusa J passiidade) Campo de leitura onde o leitor est2 submisso a uma hierarquia 02
con'erida de alores7 ' erudito %ue no fundo não fa6 senão 8revirar9 livros $)))& acaba
por perder totalmente a faculdade de pensar por si# Se não revira, não pensa# 1le
responde a um est/mulo :; a um pensamento lido<, %uando pensa ; por fim reage
somente# ' erudito dedica sua inteira energia ao aprovar e reprovar, = cr/tica ao 7"
pensado ; ele próprio 7" não pensa### ' instinto de autodefesa embotouse nele; de
outro modo se protegeria dos livros $)))& $3) H)" p) HA&)
Para 4ietzsche" a leitura atia reconhece a instabilidade da erdade na natureza
meta'+rica do conceito7 ' %ue ! então a verdade> Uma multidão movente de met"foras,
de meton/mias, de antropomorfismos, W)))X as verdades são ilus3es %ue nós es%uecemos
%ue o são, met"foras %ue foram usadas e %ue perderam sua for&a sens/vel, moedas %ue
perderam seu cunho e %ue a partir de então entram em considera&ão, 7" não como
moeda, mas apenas como metal $-) F)" p) ?H&) A prud/ncia na atiidade ledora dee"
então" reelar o modo pelo qual se 'az a cunha(em e recuperar o caminho de olta do
conceito J ima(em" da ima(em J perspectia pela qual 'oi tomada) M esse o sentido de
sua (enealo(ia) Ao deselar" portanto" a natureza meta'+rica da lin(ua(em conceitual"
ao desmiti'icar sua operação le(isladora que transmuda “interpretaçCes, em “erdades,8
4ietzsche" com a leeza de Raratustra" dar2 o salto mortal" constituindo a lin(ua(em
'ilos+'ica como lin(ua(em art1stica" arrebentando9lhes os limites" con'undindo9lhes os
“corpus,7 a alegria de mentir ! est!tica $-) F)" p) >GO&)
A capacidade de leitura atia ie da dupla condição destruiçãoDconstrução)
*estruição dos pressupostos anteriores" a recusa da repetição opera" por cortes" na
hist+ria do pensamento) Construção" atraés da produção atiadora da di'erença) 3 a
di'erença em 4ietzsche é lin(ua(em" é 'orma $Raratustra" esse admirador das
apar/ncias&) 4ietzsche é um escritor) 3le demanda um leitor escritor" portanto) ;e(undo
-eon Eossoitch" 4ietzsche liberta a Filoso'ia dos si(nos seris pela inau(uração dos
si(nos ale(res U sua metamor'ose meta'+rica) = uso das met2'oras em 4ietzsche é
cr1tico" a coisa inesperada, era realmente a coisa mais inesperada $6) C)" p) O&) %ariam"
podendo ser topol+(icas $o alto e o bai!o&" zoom+r'icas $a serpente" a 2(uia" o macaco"
o leão" o camelo" a aranha" a rã&" do dom1nio da F1sica $'orça" ener(ia" reação&" ou
epi'Vnicas $*ion1sios" Apolo" o Cruci'icado&" 'ormando uma 'loresta de si(nos onde o
leitor dee penetrar com prud/ncia e ale(ria) Prud/ncia $e não medo& para não se dei!ar
paralisar pela beleza" a bele6a ! dif/cil? defendamonos da bele6a $C) S) p) >?9FG&)
Ale(ria que nasce da superação do aturdimento inicial e prepara o esp1rito lire) Altiez
'eroz7 da luta pela exist)ncia com os cornos e os dentes de um predador $-) F)" p) ?G&)
<e!to e leitor 'ormam um campo de 'orças" tensCes" em que as ontades em ação"
num e noutro" são 'lechas disparadas em con'lito" intera(em" criando instabilidades
iolentas" possibilitando noos horizontes) Abalo" matiz" acréscimo" suplemento"
iol/ncia" deturpação" produção de outras met2'oras) A leitura atia é um manancial de
si(nos ale(res que superam a seridão) = leitor reconhece" então" que a leitura não
prescinde de escritura" não prescinde de sin(ularidade) A leitura também é a inscrição de
um corpo" “suas al(ias,7 ! preciso não ter nervos, ! preciso ter um ventre feli6 $3) H)" p)
B@&)
A leitura atia U que dei!ou de lado o mito do desinteresse e da 'inalidade" o mito
do id/ntico" da mani'estação da coisa em9si U reconhece9se como lin(ua(em e" como
lin(ua(em" é di'erença) -er" portanto" na di'erença" com a di'erença" com os di'erentes"
sem indi'erença U “a (aia ci/ncia,) A “bela diacronia, dos te!tos7 prazer re'inado que é
acompanhar a 'ala de um esteta 'az aançar o pensamento) 3stados tensos do corpo 9
4ietzsche) PKr 4ietzsche em perspectia é situ29lo numa Alemanha combalida
moralmente" abur(uesada" 'l2cida" onde essa oz de 'o(o atuaa) <raz/9lo para os
nossos dias é per(untar como a razão apai!onada pode atuar num unierso obtuso U
cen2rio da deserti'icação da alma) 4ietzsche oci'era) 4ietzsche escandaliza $BastaY&)
4ietzsche repudia)
::) -ispector
-er Clarice com Clarice" como aenturar9se no sil/ncio) <rata9se de desape(o J
e!pressão para penetrar no desconhecido da palara" metamor'ose do leitor na
substVncia branca da palara) 3m Paixão segundo GH " Clarice -ispector a'ronta ao
limite o ape(o ao indiidualismo do =cidente" não é J toa que conoca o leitor para
entrar num minarete $o quarto deD da empre(ada& onde transcorre a cena de leitura por
um ritual de cortes das camadas super'iciais do e(o até atin(ir a idéia de neutro $a
substVncia branca&" a idéia de $con& 'usão com o e!terior) Carlos Mendes de ;ouza
aponta nessa escritura uma “in'inita circularidade em todas as cate(orizaçCes do dentro
e do 'ora, $;ouza"sDd" p) B?G&) 6H est2 reirada por dentro no 'ora" no e!terior" na
circunstVncia) = e!terior" por sua ez" é canibalizado na 'orma da barata) A idéia do
sacri'1cio do em si mesmo como /!tase $relembro Bataille em seu liro ( 1xperi)ncia
@nterior& pode ser aliada J estranha metamor'ose da mulher na substVncia e!tra1da do
corpo da barata) 3sse deir in9si(ni'icVncia consome o tempo da enunciação" hom+lo(o
ao tempo da leitura) <ambém o leitor precisa sucumbir J cat2base da persona(em)
-irar9se de si mesmo" do em si mesmo" do “in5til de si mesmo," do ape(o e(+latra J
opinião" para a'inal 'azer a ida neutra assomar7 “A ida se me é" e eu não entendo o
que di(o) 3 então adoro"9999“ $-:;P3C<=R" >?@A" p)F>O&)
A pai!ão de 6H é passar a 'aca" zerar a reza" comer a barata" enquanto se (asta
numa cena e!t2tica" a ida se es(otando em (rito mudo) Como quem pare a si mesmo
num parto cont1nuo" 2(ua ia escorrendo" 2(ua de placenta" plVncton" no seu sentido
lato" de or(anismo a(abundo que se(ue a corrente) 6H est2 se entre(ando" a narração
e!ecuta a reunião da e!peri/ncia com o conhecimento" é nesse sentido" retomado por
A(amben" que al(uns cr1ticos apontam o car2ter epi'Vnico de seus te!tos mais e!tremos)
3!peri/ncia de um contato sem anteparos com o deslimitado da ida7 “<al contato
intenso lhe proporciona a sacralização do tempo e do espaço" da natureza e da pr+pria
e!ist/ncia humana" 'azendo que na presença hoc tempore da horizontalidade concreta e
hist+rica se instaure e!atamente a presença in illo tempore da erticalidade m1tica das
ori(ens, $Fernando Bastos" p)A?&) 4a cena de leitura" per'ormatiza9se a erti(em da
queda motio constante da literatura de Clarice" queda sem 'im $nem 'inalidade&" a
mulher est2 se perdendo nas “eid/ncias da isão, $6H" >GA&" sem eitar a brecha e o
erro7 “3 não me esquecer ao começar o trabalho" de me preparar para errar) 4ão
esquecer que o erro muitas ezes se haia tornado meu caminho) <odas as ezes em que
não daa certo o que eu pensaa ou sentia Q é que se 'azia en'im uma brecha" e" se antes
eu tiesse tido cora(em" 02 teria entrado por ela), $6H">G?&)
-er com Clarice para atin(ir o “inis1el hist+rico, $de Barthes& que costura
surdamente a luta de classes $patrão Z empre(ado&" escamoteado também nas cartas9
cartomantes lidas para Macabéa" a ida inis1el" a ida nua) *aid -apou0ade" ao
estudar a relação de imbricação da reli(iosidade no mundo laico capitalista dos 3stados
Pnidos" a'irma7 “:###< a caridade não sup3e nenhuma simpatia por um su7eito, mas fa6
do outro o ob7eto de um cuidado# :###< ela se pretende medicinal ou curativa, pois só
pode ter acesso a ob7etos %ue reclamam sua Afor&a de trabalhoB $-apou0ade" FGGH7 OO&)
4o entanto" Clarice" ao encenar n[( hora da 1strela um narrador homem que não ai
“lacrime7ar piegas," recusa a caridade para ienciar o con'ronto a(Knico entre a
repulsa e a simpatia" entre a crueldade e o amor diante da pobreza e do desamparo de
Macabéa" sem se dei!ar capturar numa rede de bons sentimentos) :sto porque a
nordestina dee permanecer como espanto para o pensamento) Ao se per(untar sobre
Macabéa" o narrador não poder2 'ech29la num conceito apenas7 se a pobreza dela era
“'eia e prom/scua, $-ispector" Clarice) 'p# cit#7 FA&" ela também “vivia de si mesma,
$-ispector" Clarice) 'p# cit#7 HB&" o que prooca ineit2el desconcerto diante dessa
alteridade irredut1el" pois a nordestina tinha em si mesma uma certa “flor fresca,
$-ispector" Clarice) 'p# cit#7 HO&) A perple!idade do narrador diante da possibilidade de
momentos (loriosos em meio a toda mesquinhez de um cotidiano apa(ado" su0o" pobre"
pode passar a ser a perple!idade do leitor7 “%uem sabe achava %ue havia uma
gloria6inha em viver>, $-ispector" Clarice) 'p# cit#7 LH&) Clarice -ispector coloca o
leitor não diante de uma pobreza que i(uala a todos" mas dobra9o J eid/ncia de uma
sub0etiidade como 'r2(il 'lor" e esse olhar trocado com a moça a(onizante olta9se para
a pr+pria 'ra(ilidade de quem l/" a 'ra(ilidade dos que possuem muito) *ei!emos" a
nordestina ouindo m5sicas cl2ssicas na r2dio M3C)
Ao leitor de Clarice cabe também tomar distVncia do apelo sedutor de Clarice
para não cair de boca no limite t/nue entre abalo" perda de si e auto9a0uda Cabe a tare'a
quase her+ica de não sucumbir ao chamamento amoroso" ao endereçamento sedutor7
“enquanto escreer e 'alar ou ter de 'in(ir que al(uém est2 se(urando a minha mão,
$-ispector" p)>@& ) = e'eito9persona(em pede a mão de al(uém para se(urar porque
sabe a imin/ncia de morrer) = leitor dee recusar a mão estendida para conse(uir" sem
consolo" che(ar com ela ao (ozo neutro" sem ter para aonde oltar) = sentido dessa
leitura seria então “arrebent$o&ar com a ida di2ria, $-ispector" p)>B&" (asto sem
utilidade) 6H o'erta um pecado in5til7 “ <oma o que i" lira9me de minha in5til isão"
e de meu pecado in5til), $-ispector" p)>B&)
:::) Mutarelli
3oco nome tesarac, a partir da de'inição do poeta que cunhou a palara $;hel
;ilerstein&" no sentido de “2cuo) Pm eento tão brutal e aterrador que trans'orma a
ida," = e'eito tesarac nos compromete colocando9nos como ob0etos de um azio
ca+tico preenchido de 'antasmas materiais) <esarac decorre do 'ato de que a realidade
contemporVnea est2 recoberta da p2tina do arti'icial" azio prenhe de ima(ens" de onde
insur(e o acaso como sintoma do absurdo" num clima paran+ico que lea o indi1duo ao
e!erc1cio de deci'ração de modo obsessio" es(otante e tendente ao 'racasso) A cena de
leitura de -ourenço Mutarelli com di'erentes modulaçCes pCe em !eque essas
“emer(/ncias do arti'1cio,W>X" em narratias presas ao ran(er de dentes do maquinismo
da ida presente que esbarram no absurdo e na paran+ia" quando os dentes da m2quina
(ripam desarran0ados por uma ocorr/ncia do acaso" um “'uro, na rotina" compondo uma
das obras mais interessantes e bem escritas da literatura brasileira recente)
As persona(ens de Mutarelli são" em sua maioria" leitores paran+icos)
Frequentemente submetidas ao es'orço de leitura de uma mensa(em cripto(ra'ada" que
nada lhes reela dos seus impasses e!istenciais" desestabilizadas em mais e mais
d5idas e impotentes diante do desmascaramento de uma rotina que s+ 'az recobrir de
aparente l+(ica o absurdo real" e!pCem em seus corpos e mentes in'elicitados a inersão
que conerte o realismo conencional em cruel realismo7 “são as emer(/ncias do
arti'icial no natural que con'i(uram a it+ria do real Wproli'eranteX sobre o 'ict1cio e o
'racasso do mascaramento do arti'1cio em natureza, $R=;;3<7 >?A?" p)AG&) *esenhista
de hist+rias em quadrinhos" o unierso 'iccional de -ourenço Mutarelli mistura
ima(in2rio urbano aos cacoetes das narratias 0uenis contemporVneas) <rata9se" se
posso dizer assim" da “arte de $re&produzir e'eitos sem causa,
H
) ;uas hist+rias são
H
\o(o com o t1tulo de um romance de Mutarelli A Arte de produzir e'eito sem causa $;ão
Paulo7Companhia das -etras" FGGA)
urdidas com temas estranhos de inasCes de corpos" aliens" 3<s eDou clones das
persona(ens e de 'enKmenos “cient1'icos9sobrenaturais," narradas com melancolia
dis'arçada por uma ironia “tar0a preta," dores a(udas" sentimento do eanescer da
e!peri/ncia) Pma espécie de tesarac ao in'inito arrasta o leitor para o limiar de uma
cena" onde nem entra" nem sai" tornando9se um oNeur ameaçado) = leitor de Mutarelli
de'ronta9se deste modo com cat2rticos processos de liberação de ener(ia mental e
a'etia en(olido nesta m2quina de lin(ua(em acionada por uma consci/ncia a(uda e
desen'reada" por citaçCes liter2rias" cinemato(r2'icas" da cultura de massa e dos h2bitos
mentais contemporVneos) “Fotorrealismo 'ant2stico," como *ie(o Assis a'irma na
contracapa de ' (stronauta ou livre associa&ão de um homem no espa&o" eni(mas sem
solução" humor e derrisão cCberpunD são os componentes desta cena de escrita)
Muitas narratias de Mutarelli trabalham com uma situação p+s9traum2tica
trampolim para o desencadeamento de um del1rio paran+ico) 4o romance" ( arte de
produ6ir efeito sem causa" \osé -opes Rodri(ues \r) retorna J casa do pai" depois de ter
sido tra1do pela esposa com um ami(o do 'ilho adolescente) 4a casa do pai" com todas
as ressonVncias poss1eis de um entrecruzamento com ( ,etamorfose e -arta ao pai"
de Ea'.a" com Burrou(hs" que aparece cripto(ra'ado no fait divers de um assassinato"
\r) ai9se metamor'oseando de homem adulto em espécie larar" quase um natimorto
$t1tulo de outro romance do autor& com todos os sintomas corporais da psicose
paran+ica7 e!trema sudorese" taquicardia" dores de cabeça" prostração mas também
insKnia" a sensação do corpo cindido $p)@F&" tremores" percepção distorcida$>>?&)
A 'icção de Mutarelli e!pCe cartas $de baralho" de tarK" de mensa(ens dos maços
de ci(arro& que con'undem o real com a pro0eção ines(ot2el de ima(ens aparentemente
sem controle" mas paranoicamente encadeadas com l+(ica de modo a criar a ilusão de
uma totalidade 'echada e absurda" 'alsa coer/ncia cu0a 'orça constr+i uma par2bola
in'inita e circular como as ima(ens dos supl1cios do mundo ctKnico) 4ão se trata de
associaçCes lires como nos pro(ramas surrealistas" aqui herança aleat+ria paran+ico9
dada transtorna tudo) Pm Fort9 *a" um esconde9mostra" uma construção ri(orosa e
an2rquica) -oucura pro(ramada por so't]ares demon1acos) 3m -ourenço Mutarelli as
persona(ens" quando não espiam pelos buracos" en'iam9se neles)
^uando o leitor é e!posto a esse cont2(io com a miséria dos transtornos mentais
contemporVneos $e mais comuns do que se pode pensar&" também ele pode escorre(ar
por um 'uro" ao entrar nessa cabeça decorada por uma ima(inação estranha e
inquietante" podendo dizer 0unto com o pr+prio quadrinista7 “A1 ele começa$ou& a
ba(unçar a minha cabeça e a 'oder com meus pensamentos))), $MP<AR3--:" ,undo
pet" p) ??&) = leitor pode arriscar o método cr1tico9paran+ico de um modo mais
consciente para poder ienciar a miséria9tesarac reproduzida nas narratias)
3!perimentar essa ima(inação delirante como se e!perimenta a dor de terminaçCes
nerosas in'lamadas dei!ando que a lucidez Qparan+ica descortine a cena
contemporVnea como punctum bartesiano" como um 'ei!e de luz e dor a(udas)
3m >?LL" *ali leu a tese de \acques -acan que aparecera no ano precedente" um
te!to 2rduo" consa(rado ao estudo da paran+ia) *esta leitura iria nascer o método
cr1tico9paran+ico" que *ali apresenta em dois escritos 'undamentais “A conquista do
irracional, e “4oas consideraçCes (erais a respeito do 'enKmeno paran+ico do ponto
de ista surrealista,
B
) ;e Freud reconhece que a paran+ia não é dem/ncia" mas inte(ra a
cate(oria de “loucuras," a cr1tica da literatura" depois de Maurice Blanchot" parte da
premissa de que" como corpo doente" di(o" pererso" a literatura pode inte(rar" como
irmã siamesa da paran+ia" a lista aberta destas “loucuras,)
A cr1tica da literatura pode escorre(ar de modo eu'+rico pela paran+ia quando se
obri(a a restabelecer uma rede de si(ni'icados onde tudo est2 li(ado ao discurso anterior
e “de 'ora," como ozes anteriores J escritura " e!perimentando certo prazer petri'icado)
=u 'icar presa dentro da m2quina da 'icção e sustentar isCes internas" 'raturas +sseas"
abscessos que 'orçam de dentro para 'ora" 'is(am a membrana realidadeD'icção sem
arrebentar" (ozo histérico) *e um modo ou de outro" a cr1tica estar2 sempre condenada
ao 'racasso da deci'ração total da rede interna ou e!terna da escritura) As palaras
colam9se umas Js outras" como 'rames numa edição) = es'orço em apa(ar o nome da
coisa des(asta enormemente) =u o ape(o ao nome da coisa des(asta enormemente) A
cr1tica acorda" a'inal" do del1rio sem 0anelas ou portas para abrir" presa dentro de sua
pr+pria 'icção)
;alador *ali e!orta “Peço ao cr1tico de arte7 o que acha de tal ou tal obra no
momento do seu /!taseT Mas" primeiramente" coloque9se em /!tase para responder9
me), $*ali" AA&) 3is a terceira ia do método cr1tico9paran+ico) A cadeia de si(ni'icantes
que learam *ali ao método cr1ticoQparan+ico pode ser resumida7 mi(alhas de pão
machucam o cotoelo do menino ;alador *omin(o Felipe \acinto *ali i *om_nech"
enquanto ele mira o quadro ( Eendeira de %ermeer
@
" cu0a a(ulha" manuseada pela
B
*A-:" ;alador) Sim ou a paranóia? m!todo cr/ticoparanóico e outros textos) $>?O>&) Rio de
\aneiro7AR<34=%A" >?OH" p) ?)
@
a rendeira absolutamente absorida em seu trabalho minucioso" manipulando cuidadosamente pinos e
'ios coloridos) 3ste pequeno quadro do Museu do -oure" de apenas F> ! FHcm" não por nada 'oi
considerado por Renoir a pintura mais bela do mundo7 os 2rios pontos de luz des'ocados são um dos
0oem retratada" é o ob0eto per'urante9concreto numa cena cheia de curas abstrato9
ornamentais) Adulto" ;alador *ali ai buscar o mesmo (ozo per'urante no chi're do
rinoceronte" pintar2 uma série deles" num deslocamento que 'oi da a(ulha da rendeira ao
chi're do rinoceronte de *`rer (*`rer" Ehinoceros" (raure" >B>B&" o método" (erado da
a(udeza desse si(ni'icante per'urante" recupera onde d+i o dod+i" recupera o balbucio
contra o apa(amento total do sentido" contra a (rande ne(rura" a escuridão total" a lesão
do luminoso" o “pas de pas," o não do não) A per'uração da pele constitui um dos si(nos
nodais do método cr1tico paran+ico) As ima(ens da per'uração" os 'uros" criam uma
cadeia associatia cu0a renda tecida enole a possibilidade de desdobramentos" de
dobras" de tranças" de transes)
A obsessão pelos lo(aritmos, em -acan e em *ali" assim como as mensa(ens
cripto(ra'adas de -ourenço Mutarelli" comproam a estrutura l+(ico9delirante de suas
'icçCes per'urantes) Chi're a(udo do monstruoso animal" o rinoceronte9eleito" o ob0eto
per'urante" 'ere a retina do leitor das narratias desoladas de Mutarelli) 4o entanto" não
se trata" como aderte ;alador *ali sobre o seu método" de del1rios on1ricos" pass1eis
de serem interpretados J luz das combinaçCes associatias da psicolo(ia dos sonhos"
trata9se" ao contr2rio" de uma concretude resistente" uma materialidade paquidérmica de
desolação e dor) = realismo" neste caso" não recobre de p2tina ilusionista o corpo
escrito" antes dei!a brotarem as 'eridas abertas" a carne e!posta a e “a 'issura do
dese0o,) ;ade conoca o leitor a um es'orço ainda) Mais ainda" diria -acan do dese0o"
'undado numa “não reciprocidade absoluta, $-ACA4" p)OAB&)
A leitura cr1tico9 paran+ica cripto(ra'a9se “delirante," sobre os restos de0etados
pelo (rande (ozo da escritura eis aqui uma questão" uma proocação7 o que pode a
escritura e!cretada se não 'azer a cr1tica re(ur(itar a massa empurrada (oela abai!o
pelas 'ormas do 'alsoT Pelo 'aloDmãoD escrita do artista" do autorT 3" por conse(uinte de
um leitorT
;ão o es(oto e o es(otamento de nossos belos edi'1cios de palaras7 a crise da
cr1tica) :mplosão das leituras interpretatias e das possibilidades de interaçCes
intelectuais) 3nlouqueçamos de ez" se0amos paran+icos ou porno(r2'icos" como queria
o poeta" até a 5ltima (ota do san(ue da criação) -5ci'er abanar2 o rabo contente)
melhores e!emplos da interpretação da luz conduzida por %ermeer e que tanto a(radou os
impressionistas)
<ransluci'eraçCes nos campos do saber9doutor) Brilhos sutis" a'o(amentos" (ol'adas"
Kmitos" paradas card1acas) Repetir e repartir o “(ozo manco, do “'etiche ne(ro,
O
)
^uando a ida se trans'orma em “ Escotomas. Formas abstratas” $Mutarelli"
p)>B@&) Aquilo tudo que era arte erbal" literatura" concretude e a'eto" alta pot/ncia do
amor ao nome" aquilo que queria “mapear a dor e o descontrole, perde o sentido" por
'orça das cone!Ces abstrato9te+ricas da rede de leituras" da superposição de hip+teses"
de citaçCes" de pro0eçCes narc1sicas" de impressionismos" de ri(or te+rico" eis a 'ratura
paran+ica e!posta pela 'icção" eis a impossibilidade da cr1tica" seu tesarac ca+tico) 3 os
nomes das coisas com que o autor batizou a criação ão sendo esquecidos aos poucos"
em 'aor de um nome s+" o nome coiso em substituição J coisa" captura na lin(ua(em
a'2sica da in'elicitada persona(em que tendo di'iculdades em se lembrar dos nomes das
coisas" contenta9se com a palara95nica coisa$o&) A perda da especi'icidade e
sin(ularidade de cada nome" a 'unção de nomear" dar nomes aos bois" torna9se a
caricatura de um sorriso" um es(ar de morte por en(as(o) Re(urto'a(ia) Morte da
criação) “3!istem muitas 'ormas de a'asia) A a'asia é a surdez e a ce(ueira Js palaras,
$ Mutarelli" p)>B@&)
%) Final
^uem é oc/ meu hip+crita leitor" meu semelhante" meu irmão $Baudelaire&T
4ietzsche" Clarice" -ourenço sabem que esse leitor não nasceu ainda) 3" nesse sentido"
obra deles é proped/utica7 a obra criar2 seu pr+prio leitor $c') “*o (rande anelo," R)" p)
>O>&) -eitor capaz de abandonar o manto de crenças anti(as e" superando o caos inicial
U momento de cat2stro'e U" é capaz de reescreer a hist+ria da sua leitura) Aquele que
pre'erir as robustas $ale(res& entranhas Js entranhas 'ri(ori'icadas das rãs pensadoras e
opuser o moimento J paralisia" e a dança J ci/ncia" que souber ler tendo pedras sob a
l1n(ua" quem puder passar pelo sabbat" escorre(ar pelo tesarac" quem souber dançar em
cadeias) -eitor que descarnou a carapaça psicol+(ica e transirou barata" ou se dei!ou
escorrer pelo 'uro do real es'olando a super'1cie da pele)
-eitor que" se(undo Ra5l Antelo" saber2 moer9se com soberana ele(Vncia “ na
medida em que a ele(Vncia soberana é amar a sin(ularidade" ponto e!tremo em que
ele(Vncia e liberdade ciil tornam9se sinKnimos" 'orças en'rentadas ao totalitarismo ))),
$A4<3-="FG>G" p)>@&
Compreenderam9meT
O
-ACA4" \acques) “Eant com ;ade, :n) 3scritos) <rad) %era Ribeiro) Rio de \aneiro7Rahar" >??A) $OO@9
AGL&
aaa
Re'er/ncias biblio(r2'icas7
A4<3-=" Ra5l) ,aria com ,arcel $uchamp nos trópicos) Belo9Horizonte7 3d)
PFM6" FG>G" p)>@
*3-3PR3" 6) Fiet6sche e a filosofia) Rio de \aneiro7 3d) Rio" >?O@)
bbbb) “Pensamento nKmade, c “;obre a ontade de pot/ncia e o eterno retorno,) :n7
Por %ue Fiet6sche> Rio de \aneiro7 Achiamé" sDd)
E=;;=%:<CH" -eon) Signos e poderes em Fiet6sche) ;ão Paulo7 dtica" >?O?)
-:;P3C<=R" Clarice) ( Paixão segundo GH# Rio de \aneiro7 3d) ;abi2" >?@A)
4:3<R;CH3" F) ' anticristo) <rd) <aares Fernandes) -isboa7 3d) 3uropa9América"
>?OO)
bbbb) (ssim falava *aratustra) <rad) 3duardo 4unes Fonseca) ;ão Paulo7 Hemus" sDd)
bbbb) 1cce homo? como algu!m se torna o %ue !) F ed) <rad) Paulo César de ;ouza)
;ão Paulo7 Companhia das -etras" >??B)
bbbb) ( gaia ci)ncia) <rad) Paulo César de ;ouza) ;ão Paulo7 Companhia das -etras"
FGGF)
bbbb) Genealogia da moral? uma pol)mica) <rad) Paulo César de ;ouza) ;ão Paulo7
Companhia das -etras" >??A)
bbbb) ' livro do filósofo) <rad) Ana -obo) Porto7 Rés 3ditora" >?AH)
bbbb)' nascimento da trag!dia ou Helenismo e pessimismo) F ed) <rad) \) 6uinsbur()
;ão Paulo7 Companhia das -etras" >??F)
bbbb) 's pensadores) $seleção de 6erard -ebrun&) L ed) <rad) e notas de Rubens
Rodri(ues <orres Filho) P+s9pre'2cio de Antonio Candido) ;ão Paulo7 Abril
Cultural" >?AL)
bbbb) Seconde consid!ration intempestive) <rad) Henri Albert) Paris7 Flammarion" >?AA)