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EXEGESE DE MATEUS 6

EXEGESE DE MATEUS 6

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- Trabalho apresentado na Disciplia de Exegese do Novo Testamento, do Curso de Mestrado em Bíblia - Novo Testamento, da FTCB (Faculdade Teológica Cristã do Brasil), em dezembro de 2007.
- Trabalho apresentado na Disciplia de Exegese do Novo Testamento, do Curso de Mestrado em Bíblia - Novo Testamento, da FTCB (Faculdade Teológica Cristã do Brasil), em dezembro de 2007.

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1

FTCB – FACULDADE TEOLÓGICA CRISTÃ DO BRASIL
MESTRADO EM BÍBLIA – NOVO TESTAMENTO
Disciplina: Grego (Exegese do NT Grego)
EXEGESE DE MATEUS 6:1
“Cuidem em não praticar a vossa justiça diante dos homens a fim
de serdes vistos por eles; do contrário, não tendes recompensa junto ao
vosso Pai nos céus”.
Aluno:
Walter Leal Guedes
Brasília, Fevereiro de 2008
Professor:
Sebastião Veiga Gonçalves
2

Grego (Exegese do NT Grego)


EXEGESE DE MATEUS 6:1










Por:
Walter Leal Guedes


Sob a orientação do professor Sebastião Veiga Gonçalves





Brasília, fevereiro de 2008.

Esta obra, denominada “Exegese”, é
caracterizada pela investigação acurada das idéias do
texto grego eclético. Trata-se de um modelo de
exegese, não sendo determinante como única forma
de análise exegética, contendo, ainda, uma análise
teológica. É de grande valia para a análise popular
bem como sua aplicação no dia a dia da Igreja,
considerando uma adequada associação do texto
grego eclético e sua tradução literal com os textos
bíblicos mais comuns em nossos dias.
3

SUMÁRIO

ANÁLISE LINGÜÍSTICA ...................................................................................... 04
Texto Grego (Eclético) ........................................................................................ 04
Delimitação do Texto ......................................................................................... 04
Posicionamento no Contexto .............................................................................. 04
ANÁLISE MANUSCRITOLÓGICA ..................................................................... 07
Leituras Variantes .............................................................................................. 07
Comentário Acerca das Leituras Variantes ..................................................... 07
ANÁLISE MORFOLÓGICA ................................................................................. 09
Classificação Gramatical e Tradução ............................................................... 09
Considerações Gramaticais ................................................................................ 10
ANÁLISE SINTÁTICA .......................................................................................... 12
Diagramação da Relação Sintática de Mateus 6:1 ........................................... 12
Comentário da Relação Sintática ...................................................................... 12
Comentário Conclusivo da Análise Sintática ................................................... 15
Tradução Literal ................................................................................................. 16
Outras Traduções Bíblicas ................................................................................. 16
Comentários sobre as Traduções ...................................................................... 17
REFERÊNCIAS (Bibliografia) ............................................................................... 22







iii
4

EXEGESE DE MATEUS 6:1
“Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos
por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste.”


ANÁLISE LINGÜÍSTICA
Texto Grego (Eclético)
Ecec. ¿.·. [e. ] ·n | etsatecu |n| u +a | +n :et.t | . +:cec).| ·a | a |)ca :a|
:ce : ·e ).a)n |at au ·et :· .t e. +n v., +tc)e | eu s . ¿.·. :aca ·a :a·ct u +a | ·a . |
·et : eu ca|et :.

Delimitação do Texto
As razões do estudo da perícope buscam adequada compreensão:
• A cerca da necessidade de uma introdução a advertências quanto à forma
adequada de se exercer a religiosidade;
• Da necessidade de ligação entre a disposição da Lei lida e ouvida (5:21-48) e as
atitudes práticas, doravante, em relação às três bases da prática da justiça
(religião) para os judeus, que eram as esmolas (6:2-4), a oração (6:5-15) e o
jejum (6:16-18);
• Sobre como ligar a determinação feita no trecho, percebida por meio do verbo
Ecec. ¿.·. (preocupe-se com; cuide de; atente para [a]) no imperativo aos
variados modos práticos do exercício da justiça;
• Do motivo de haver, tão somente em um versículo, tão bem esclarecida
instrução prática sobre o modo de vida cristão, contendo uma instrução
detalhada em forma de imperativo proibitivo, um detalhamento sobre a
motivação errada para a prática da religiosidade e a conseqüente “recompensa”
pela má conduta diante de Deus, ainda que agradável aos homens.
Posicionamento no Contexto
• Quanto “à perícope” anterior: após proferir, em meio ao famoso Sermão do
Monte, a lista das “Bem aventuranças”, seguida das instruções ao modo de vida
dos discípulos (e especialmente deles, cof. 5:1-2) como sal da terra (5:13), luz
do mundo (5:14-16), cumpridores da Lei e dos ensinos dos profetas (5:17-20), e
as instruções orais a cerca do homicídio (5:21-26), do adultério (5:27-32), dos
Segundo versão de ARA
5

juramentos (5:33-37), da vingança (5:38-42) e do amor ao próximo (5:43-48),
mais precisamente no versículo 5:48, o Senhor determina aos discípulos o que
para nós, hoje, se requerido por alguém, pode soar com ar de grande
pretencionismo, de arrogância até, ou seja, é exigida deles perfeição, mas não
qualquer perfeição, se não, tal qual à perfeição do Pai do Céu. E é com relação a
todo esse trecho (cap. 5) que o versículo 6:1 atua como um desfecho realmente
perfeito, em outras palavras, embora todas as atitudes práticas determinadas
anteriormente digam respeito às relações entre os homens, é para com Deus que
a verdadeira justiça deve ser exercitada.
• Quanto “à perícope” posterior
1
: o texto delimitado introduz, como já dito, por
meio de uma severa determinação proibitiva, uma seção de determinações
pormenorizadas a respeito da conduta adequada dos discípulos de Jesus quanto à
prática da esmola, da oração e do jejum (pilares da religiosidade judaica).
Anteriormente, pois, o Senhor já havia instruído aos discípulos quanto à
necessidade de que sua justiça excedesse, “em muito”, a dos escribas e fariseus
(5:20). Agora, ao darem esmolas, não devem alardear o feito como costume dos
hipócritas
2
(6:2). Na oração, do mesmo modo, ao discípulo é instruído que o
faça em secreto, de modo a não ser visto pelos homens, mas tão somente por
Deus, diferentemente do que é comum entre os hipócritas (5:6-8). Na prática do
jejum, de igual modo, o discípulo tem de proceder contrariamente aos
hipócritas, que fazem questão de demonstrar a todos os homens que o estão
fazendo (6:16-18). A afirmação de Jesus, por três vezes (6:2,5,16), de que
“certamente eles (os hipócritas) já receberam a recompensa” em virtude da
forma como sua justiça é praticada combina, perfeitamente, com a exposição da
conseqüência pelo exercício inadequado da justiça feita em 6:1, ou seja, Jesus
afirma, com outros termos, que esses hipócritas “não têm recompensa junto do
Pai Celeste”. Praticam uma justiça, ou exercem uma religiosidade inútil. E não
só inútil, mas prejudicial.

1
As expressões – “à perícope” – encontram-se entre aspas, nos dois itens, referente à anterior e à
posterior, pelo fato de a ligação do trecho delimitado não se desligar definitivamente de todas as
perícopes relacionadas com o tema tratado em 6:1. Portanto, a relação não se limita às perícopes
imediatamente anterior e posterior, mas sim, a um considerável conjunto de perícopes que não convém
(nem podem) ser desvinculadas uma da outra.
2
“Hipócritas” são todos os religiosos judaicos que procedem inapropriadamente tal qual referido por
Jesus.
6

• Na perícope delimitada espera-se encontrar suficiente conteúdo que justifique a
avaliação de um versículo só, privilegiando o que há gramaticalmente
justificável, para que seja comprovada a existência de uma importante e
particular ordenança. Ainda, fazer a devida associação dessa ordenança com o
restante do exposto em todo o Sermão do Monte, por todo o Primeiro Grande
Discurso do Evangelho de Mateus e, não negligenciando a sua importância
relacionada com todo o Evangelho de Mateus, numa instância mais imediata, e
com todo o Novo Testamento, numa instância mais ampla. E tudo isso buscando
harmonizar a perícope em questão com todo o contexto bíblico, ou seja, a Bíblia
considerada de Gênesis a Apocalipse.



















7


ANÁLISE MANUSCRITOLÓGICA
Leituras Variantes
• Texto Eclético – NA 27
3

Ecec. ¿.·. [e. ] ·n | etsatecu |n| u +a | +n :et.t | . +:cec).| ·a | a |)ca :a| :ce : ·e
).a)n |at au ·et :· .t e. +n v., +tc)e | eu s . ¿.·. :aca ·a :a·ct u +a | ·a . | ·et :
eu ca|et :.
• Textus Receptus
4

Ecec. ¿.·. e. ·n | . ì.n+ecu |n| u +a | +n :et.t | . +:cec).| ·a | a |)ca :a|, :ce : ·e
).a)n |at au ·et :· .t e. +n v., +tc)e | eu s . ¿.·. :aca ·a :a·ct u +a | ·a . | ·et :
eu ca|et :.
Comentário Acerca das Leituras Variantes
A uma grossa vista não se vê considerável diferença entre um texto e outro, nem
mesmo quanto à pontuação bem como a acentuação no Textus Receptus.
O primeiro diferencial é percebido no fato de a conjunção δε, no Texto Eclético,
estar entre colchetes. Nestle-Aland e UBS usam esse recurso, ou seja, apresentam
fragmentos de palavras ou palavras inteiras, entre colchetes, indicando que a posição de
tais palavras no texto é questionada. δε é uma conjunção adversativa, pospositiva,
também usada aditivamente como “e” (Mt 1:2-16, na Genealogia, várias vezes);
também como “mas”, onde o Léxico até sugere sua aplicação em Mt 6:1. Pode indicar
apenas transição como “ora” ou “então” (conf. Mc 5:11; Lc 3:21; 1ªCo 16:12); “isto
é” (Rm 3:22; 1ªCo 10:11; Fp 2:8); e ainda há outras possibilidades. Deste modo,
considerando o motivo de utilização dos colchetes, ou seja, a dúvida quanto à posição
da palavra na frase, é possível que se admita que ela ficaria bem abrindo o versículo,

3
Novum Testamentum Graece Nestle-Aland, 4ª edição, também conhecido como NA27 (27ª edição da
UBS [United Bible Societes]), o texto grego mais aceito e recomendado nos círculos acadêmicos.
4
“Em 1516, Erasmo de Rotterdam publicou um texto grego (chamado Textus Receptus), do Novo
Testamento que, apesar de muitas imperfeições e limitações, foi usado para as futuras e famosas
traduções de Lutero (alemão), Tyndale (inglês), Pierre Olivetan (francês), Nicolaas van Winghe
(holandês, católico), Giovani Diodati (italiano). Até os autores da conhecida versão para o espanhol,
Casiodoro de Reina e Cipriano de Valera; bem como o autor da tradicional versão para a nossa língua
(cerca de 200 anos mais tarde), João F. de Almeida (português), serviram-se do Texto Receptus (e da
leitura de traduções em outras línguas), para a produção de suas obras”.
http://www.bibliakingjames.com.br/asp/historia.asp
8

embora conjunções não sejam os tipos de palavras mais adequados para se iniciar uma
sentença. Todavia, entendendo que Mt 6:1 sucede a uma seqüência de instruções para a
vida dos discípulos, após tantas ordenanças, uma sentença do tipo “Então, cuide em...”,
ou ainda “Ora, atente para...” não pode ser desprezada.
Por fim, e bem mais relevante, destaca-se a utilização da palavra . ì.n+ecu |n|
(esmola; com 13 ocorrências no N.T., além desta variante textual) pelo Textus Receptus,
enquanto o Texto Eclético empregou etsatecu |n| (justiça; com 91 ocorrências no N.T.,
mais 3 variações textuais). Em destaque, na transcrição dos textos gregos, acima, as
palavras foram sublinhadas. O que o tradutor para os Textus Receptus fez foi uma
substituição do termo justiça por esmola. Numa superficial avaliação, pela concordância
do termo com sua posterior ocorrência no versículo seguinte, a aplicação do termo
esmola parece ser adequada. Todavia, isso quebra definitivamente a ligação do trecho
(6:1) com o restante do texto previamente estabelecido aqui, ou seja, com as perícopes
6:2-4; 5-8; 16-18, respectivamente. Ora, nossa perícope previamente demarcada (6:1)
diz respeito ao trato dos judeus para com o que consideravam ser a forma mais
adequada de praticarem sua religiosidade, baseada na esmola, na oração e no jejum.
Com o emprego do termo esmola ao invés de justiça a ligação de 6:1 passa a limitar-se
tão somente ao trecho subseqüente que se refere às esmolas (6:2-4), desvinculando-se
completamente dos trechos reservados para tratar da oração e do jejum. Ainda, o
isolamento das perícopes (6:5-8; 16-18) faria delas intervalos de esclarecimentos um
tanto quanto sem sentido. Não que as instruções a esse respeito não continuassem
válidas, mas as deixariam sem uma razão lógica se considerados critérios técnicos
mínimos para a elaboração de uma narrativa, ou de uma “pregação”, o que parece ser o
caso dos sinóticos. Assim, para todo o restante deste trabalho, tudo quanto será
considerado diz respeito à avaliação de acordo com o Texto Eclético (etsatecu |n| =
justiça), entendendo que o emprego do termo esmola pelo Textus Receptus é
completamente inapropriado para o texto em questão.





9

ANÁLISE MORFOLÓGICA
Classificação Gramatical e Tradução
:cec. ¿.·. – verbo, imperativo, presente, ativo, 2ª pés. plural para :cec. ¿a; cuide em.
[e. ] – conjunção coordenativa (ou adversativa) para e.; mas, ora.
·n | – artigo definido, acusativo, feminino, singular para e ; a.
etsatecu |n| – substantivo acusativo, feminino, singular para etsatecu |n; justiça.
u +a | – pronome genitivo, feminino, na 2ª pessoa do plural para cu ; vossa.
+n – partícula negativa para +n ; não.
:et.t | – verbo infinitivo, presente, na voz ativa para :et. a; fazer.
. +:cec).| – preposição genitiva para . +:cec).|; à vista de.
·a | – artigo definido, genitivo, masculino, plural para e ; os.
a |)ca :a| – substantivo genitivo, masculino, plural para a |)ca:e:; homens.
:ce : – preposição acusativa para :ce :; para.
·e – artigo definido, acusativo, neutro, singular para e ; o.
).a)n |at – verbo infinitivo, aoristo, na voz passiva, acusativo para ).a e+at; ser visto.
au ·et : – pronome masculino, dativo, na 3ª pessoa do plural para au ·e :; (por) eles.
.t – conjunção subordinativa para .t ; se.
e. – conj. subordinativa (coordenativa) para .t ; e.
+n – partícula negativa para +n ; não.
v. – partícula enfática, enclítica sentencial para v.
5
;
+tc)e | – substantivo acusativo, masculino, singular para +tc)e :; pagamento.
eu s – partícula negativa (advérbio de negação) para eu ; não.
. ¿.·. – verbo presente do indicativo, na voz ativa, da 2ª pessoa do plural de . ¿a; tendes.
:aca – preposição dativa para :aca ; com.
·a – artigo definido, dativo, masculino, singular para e ; o.
:a·ct – substantivo dativo, masculino, singular para :a·n c; Pai.
u +a | – pronome genitivo, na 2ª pessoa do plural para cu ; vosso.
·a – artigo definido, dativo, masculino, singular para e ; o.
. | – preposição dativa para . |; em.
·et : – artigo definido, dativo, masculino, plural para e ; os.
eu ca|et :– substantivo dativo, masculino, plural para eu ca|e :; céus.

5
v. v. v. v. freqüentemente pode deixar de ser traduzida. As traduções mais freqüentes, no entanto, são
ainda que, pelo menos; mesmo assim, por certo; se de fato, assim como, se é que; de outra forma; pelo
contrário; para não dizer, quanto mais. Sempre associada a outras partículas, sentenças ou pronomes.
Toda a sentença .t e. +n v.,
literalmente, se e não..., melhor
traduz-se por: do contrário.
10

Considerações Gramaticais
O verbo :cec. ¿.·. (cuide em [para]; guardai-vos, tenham o cuidado, prestem
atenção) no imperativo expressa uma ordem. É compreensível, em meio a uma seção
inteira de instruções relacionadas ao viver cristão, que uma “determinação”, nesses
termos, seja feita. Dos outros três verbos da perícope, o segundo, :et.t | (fazer)
encontra-se em sua forma infinitiva, preservando o tempo presente e a voz ativa com
relação ao sujeito, sendo indispensável a sua análise em conjunto com o substantivo
relacionado (etsatecu |n| = justiça), para que não fique sem sentido; o terceiro,
).a)n |at (ser visto), também na sua forma infinitiva, é alterado por ser um aoristo, bem
como, por ser conjugado na voz passiva com relação ao sujeito, sendo o único verbo da
sentença exprimindo o fato de o sujeito sofrer a ação, motivo pelo qual merece destaque
pela ênfase no interesse que o sujeito deve desprezar por ser a parte condenável de toda
a advertência que está sendo feita (agir de determinado modo com o fim de ser visto
[com bons olhos; ser agradáveis] pelos homens e não por Deus, que é o Verdadeiro
Recompensador); o quarto e último verbo da perícope, . ¿.·. (tendes), trás de volta o
presente na voz ativa, sendo o presente do indicativo, indicando uma ação contínua ou
num estado incompleto, chamada ainda de ação durativa ou linear (o Pai que está nos
céus é o Recompensador agora e eternamente). Ainda cabe outra consideração quanto
ao emprego do verbo . ¿.·. (no presente do indicativo); a qualidade da ação, que é a
idéia dos tempos verbais, segundo o estudo gramatical da língua grega, dá conta de que
mesmo no indicativo a idéia temporal é secundária. Normalmente, o tempo presente
indica uma ação incompleta ou continuada, carecendo de uma avaliação associada ao
contexto de sua escrita ou de sua fala, podendo ser denominada de ação durativa ou
linear. Assim, o “não tendes” do texto pode significar, se avaliado em um contexto
mais amplo, que os hipócritas tanto não têm recompensa de Deus agora como não terão
posteriormente, também.
Ainda, com relação ao verbo :cec. ¿a (:cec. ¿.·. em seu modo imperativo, no
tempo presente e na voz ativa para a 2ª pessoa do plural, como está em nossa perícope),
que pode significar prestar atenção, estar preocupado com, cuidar de, dar atenção a,
ser cuidadoso, estar vigilante, consideradas suas possíveis variações, percebe-se uma
quantidade significativa de seu emprego nos sinóticos, exclusivamente por Mateus e
Lucas (10 vezes, sendo 6 delas em Mateus). Mateus emprega este verbo no imperativo
por cinco vezes, todas elas em instruções dadas pelo próprio Jesus a seus discípulos
11

(6:1; 7:15; 10:17; 16:6,11). Ora, tão incisiva instrução de cautela, em forma de
determinação, assevera a vigilância que se faz necessária para que, especificamente no
caso que estamos avaliando, no decurso da prática de nossa religião, não caiamos no
relaxo ou na armadilha de ver algo interessante em agirmos para demonstrar nossa
justiça para as pessoas que nos cercam, quando só devemos demonstrar tal empenho ao
Pai do céu, que é quem verdadeiramente recompensa aos fiéis por suas obras de justiça.
O sujeito do texto em questão está oculto, embora não tenhamos dúvida de se
tratarem dos discípulos de Jesus (5:1-2). A eles (os discípulos) é feita a recomenda. E a
asseveração da ordenança se destaca, também, pela repetição do advérbio de negação
por três vezes na perícope (+n duas vezes; e eu s uma vez). Essas negativas enfatizam a
ordenança e a eventual conseqüência de sua desobediência, afirmando literalmente:
“não façam... se não... não receberão!” – o que faz do texto em questão um trecho
auto-explicativo e que não suscita divergências consideráveis de interpretação.
O objeto direto do texto ·n | etsatecu |n| [u +a |] (a vossa justiça),
adequadamente relacionado ao imperativo :cec. ¿.·., amparados pelo verbo secundário
(subordinado ou auxiliar) :et.t | e sua partícula de negação +n , traduzível por “cuide em
não fazer a justiça [vossa]”, apontam a raiz do texto, sobre a qual, o restante da
sentença irá se basear para o desenvolvimento de toda a idéia. Todavia, a esse respeito,
esse estudo receberá uma atenção maior na análise sintática, mais adiante.











12

ANÁLISE SINTÁTICA
Diagramação da Relação Sintática de Mateus 6:1

Comentário da Relação Sintática
O versículo em questão é dividido em duas partes (frases). No caso, aqui, o que
caracteriza essa divisão são as colocações dos verbos :cec. ¿.·. e . ¿.·.,
respectivamente, abrindo cada uma das frases da perícope. E isto o diagrama a cima
evidencia bem. Se a frase inicial do texto abre com a determinação “cuide para”, a
frase complementar abre com o “tendes”, deixando claro que o que cumpre ou não a
determinação feita tem ou não uma recompensa pela obediência ou desobediência à
determinação. Analisemos, então, cada uma das frases:


[e. ]
(X)
:cec. ¿.·.
. ¿.·. +tc)e |
e.
eu s
:et.t |
:aca ·a :a·ct
(X) (:cec. ¿.·.)
.t
·n | etsatecu |n|
+n
:ce : ·e
u +a |
+n
u +a |
).a)n |at
·a
v.
. +:cec).| ·a | a |)ca :a|
au ·et :
. | ·et : eu ca|et :
[e. ]
(X)
:cec. ¿.·.
. ¿.·. +tc)e |
e.
eu s
:et.t |
:aca ·a :a·ct
(X) (:cec. ¿.·.)
.t
·n | etsatecu |n|
+n
:ce : ·e
u +a |
+n
u +a |
).a)n |at
·a
v.
. +:cec).| ·a | a |)ca :a|
au ·et :
. | ·et : eu ca|et :
Ecec. ¿.·. [e. ] ·n | etsatecu |n| u +a | +n :et.t | . +:cec).| ·a | a |)ca :a| :ce : ·e
).a)n |at au ·et :· / Cuide para não fazer a vossa justiça diante dos homens a fim de
serdes vistos por eles;
Algumas observações precisam ser feitas.
• O verbo no imperativo está determinando e justificando a razão de existência da
instrução;
• A ocorrência de um verbo (:et.t |) auxiliar antes do objeto direto;
13

• O objeto direto na frase (etsatecu |n|) está acompanhado de um elemento
especificador (u +a |) que não permite confundir a justiça em questão com
nenhuma outra, ou seja, trata-se da justiça vossa, melhor dizendo, da justiça dos
discípulos. É essa justiça que os discípulos têm de ter o cuidado de não praticar
de modo condenável. Essa, como uma terceira forma de prática de justiça
(sabemos que há uma justiça de Deus; conf. 5:20, onde se vê que há uma justiça
dos escribas e fariseus e, essa “terceira” que deve ser praticada de modo a ser
superior à “segunda”). Esse trecho das escrituras ecoa no restante dela levando-
nos ao entendimento de que podemos ser justos sim, que tanto podemos quanto
devemos praticar atos de justiça sim, sendo que o condenável é a exposição de
tais práticas com o intuito de nos auto-promover, requerendo algum mérito pela
manifestação pública desses atos, que só devem ser percebidos por Deus;
• O verbo auxiliar que precede o objeto direto carrega uma partícula de negação
(+n ) que ampara e justifica a determinação que abre a frase (não fazer), além de
ligá-lo a uma explicação pormenorizada, nada genérica, sobre o “como ou o
onde não fazer”, ou seja, diante dos homens. No diagrama, nota-se o
apontamento de tal classificação por meio de um modificador sem idéia verbal,
antes, o modificador serve para esclarecer que algo (a justiça dos discípulos) não
pode ser feita de certa forma (diante dos homens);
• Ainda ligado ao verbo auxiliar, dessa vez por um modificador semi-verbal (já
que trás consigo outro verbo – infinitivo – na sentença [).a)n |at = serdes
vistos]), o modificador trás a idéia de que há uma intenção a ser evitada diante
dos homens, quanto à prática da justiça, trata-se de não fazer diante dos homens
com o fim de ser visto por eles;
Sendo assim, a frase: “Cuide para não fazer a vossa justiça diante dos homens a
fim de serdes vistos por eles” – constitui-se na parte notória e primordial da perícope.
Nela, estão contidas a determinação proibitiva a ser cumprida e a especificação a
respeito do que é o ato condenável. A justiça tem de ser feita pelos discípulos. E tem de
ser bem feita, de modo a exceder, e em muito, a dos religiosos hipócritas comuns à
época e ao local em questão.
Se a primeira frase da perícope, então, traz a determinação, a segunda, que
passaremos a ver agora, traz a conseqüência da obediência ou não à determinação:
14


Vamos às considerações:
• O ponto alto após o pronome au ·et :· (por eles) marca o final da primeira frase
da perícope;
• A partir daí, todo o conteúdo compõe a segunda frase; a conjunção subordinativa
e. (e), que segundo o diagrama é coordenativa, ligando a primeira à segunda
frase, precisa ser associada à outra conjunção subordinativa .t (se) e à partícula
de negação +n (não), que por sua vez carrega consigo a partícula enfática
sentencial v. que embora não sendo traduzida aqui, pelo diagrama, nota-se a
ênfase e o cuidado em preservá-la, como asseveradora da negativa. Pelo
diagrama, todavia, é necessário certo esforço para reunir as quatro partículas,
separadas pelo único verbo da frase (. ¿.·.) e a providencial repetição gráfica do
sujeito oculto [(X) = os discípulos] e do imperativo da perícope (:cec. ¿.·.).
Como visto mais a cima, a reunião das quatro partículas de forma coordenada,
considerando o contexto da frase como um todo, justifica uma tradução que
sugere “se não” ou, como sendo preferida aqui, “do contrário”;
• O único verbo da frase (tendes) liga o objeto direto da frase que ficou isolado
(recompensa). Todavia, o verbo, carrega dois modificadores no diagrama, o
primeiro sem idéia verbal, e o segundo com modificador verbal. No segundo
caso, o conectivo .t (se), que passa pela simbólica repetição do sujeito e do
imperativo do texto liga-o à enfática negativa +n v., não para que tenha ares de
ação condicional hipotética, mas consecutiva, o que equivale dizer que,
invariavelmente, se o sujeito não agir conforme o que está sendo determinado,
[e. ]
(X)
:cec. ¿.·.
. ¿.·. +tc)e |
e.
eu s
:et.t |
:aca ·a :a·ct
(X) (:cec. ¿.·.)
.t
·n | etsatecu |n|
+n
:ce : ·e
u +a |
+n
u +a |
).a)n |at
·a
v.
. +:cec).| ·a | a |)ca :a|
au ·et :
. | ·et : eu ca|et :
A segunda frase da perícope, então, diz:
.t e. +n v., +tc)e | eu s . ¿.·. :aca ·a :a·ct u +a | ·a . | ·et : eu ca|et :. / “do
contrário, não tendes recompensa junto ao vosso Pai que está nos céus”.
e.
15

uma pré-determinada conseqüência será inevitável. Já o primeiro modificador,
sem idéia verbal, modifica a sentença tendes recompensa para não tendes
recompensa, pela ligação ao advérbio de negação (segundo o diagrama) eu s.
• A expressão :aca ·a :a·ct (junto ao Pai) complementa o modificador, ou seja,
para os discípulos é enfatizado que eles não têm recompensa junto ao Pai, ainda
que possam vir a ter entre os homens diante os quais os atos de justiça sejam
praticados. Mas, o Pai também é sucedido de outro modificador, também sem
idéia verbal;
• Primeiro, o Pai ao qual Jesus se refere não é qualquer pai; certamente não se
trata do pai dos hipócritas (conf. Jo 8:44), antes, trata-se do Pai dos discípulos
([u +a |] vosso Pai). Mas, para que esse Pai ainda não seja confundido com o pai
natural de cada discípulo, o modificador no diagrama liga o Pai à pormenorizada
informação de que se trata do Pai ·a . | ·et : eu ca|et : (que está nos céus).
Comentário Conclusivo da Análise Sintática
Pela predominância de verbos na voz ativa (dos quatro, três deles estão na voz
ativa), entende-se que o próprio sujeito (ainda que oculto), os discípulos, exerçam as
ações contidas na instrução de Jesus. São eles que têm de cuidar, que têm de fazer
adequadamente e que têm de ter conforme seu procedimento. A instrução do Senhor é
dada, mas são os discípulos que se encarregam de executar a ordem tal qual o estipulado
pelo Mestre.
De modo intrínseco, no entanto, há que se esperar uma ação de Deus (o Pai dos
discípulos que está nos céus), e os modificadores sem idéia verbal que estão presentes
no diagrama servem perfeitamente para dar essa idéia. Esses modificadores, ligados um
ao outro, que por sua vez estão ligados ao verbo e ao objeto direto da segunda frase
(tendes recompensa), nem teriam maiores razões de existência, se não, para deixar claro
que a recompensa verdadeira e útil que se pode esperar será a entregue pelo Pai que está
nos céus, e não pelos homens eventualmente expectadores dos discípulos quando do
exercício de sua religiosidade.



16

Tradução Literal
“Cuide em ora a justiça vossa não fazer à vista de os homens para o ser vistos
por eles se e não pagamento não tendes com o Pai vosso o em os céus.”
(Conforme o Novo Testamento Interlinear)
6
:
“Tende cuidado de a justiça vossa não fazer diante de as pessoas para serdes
vistos por elas; se e não (=do contrário), recompensa não tendes junto a o Pai vosso o
(que está) em os céus.”
Outras Traduções Bíblicas
ARA – Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes
vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste.
ARC – Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por
eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus.
ACF – Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por
eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus.
NTLH – Tenham o cuidado de não praticarem os seus deveres religiosos em público a
fim de serem vistos pelos outros. Se vocês agirem assim, não receberão nenhuma
recompensa do Pai de vocês, que está no céu.
BJ – Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por
eles. Do contrário, não recebereis recompensa junto ao vosso Pai que está nos céus.
TEB – Guardai-vos de praticar vossa religião diante dos homens para atrair os seus
olhares; do contrário, não haverá nenhuma recompensa para vós da parte do vosso Pai
que está nos céus.
TVAMS
7
– Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, com o fim de
serdes vistos por eles, doutra sorte não sereis remunerados pelo vosso Pai, que está nos
céus.
BEP
8
– Prestem atenção! Não pratiquem a justiça de vocês diante dos homens, só para
serem elogiados por eles. Fazendo assim, vocês não terão a recompensa do Pai de vocês
que está no céu.
NVI – “Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para
serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai
celestial.
NIV – "Be careful not to do your 'acts of righteousness' before men, to be seen by them.
If you do, you will have no reward from your Father in heaven.
RVR95
9
– Guardaos de hacer vuestra justicia delante de los hombres para ser vistos por
ellos; de otra manera no tendréis recompensa de vuestro Padre que está en los cielos.


6
Novo Testamento Interlinear. Sociedade Bíblica do Brasil. 1ª Ed. 2004.
7
Tradução da Vulgata Anotada pelo Pe. Matos Soares. 5ª ed. No Brasil, 1957.
8
Bíblia Edição Pastoral. Editora Paulus.
9
Reina Valera Edição Revisada 1995.
17

Comentário sobre as Traduções
A fim de partirmos para um comentário que vise apresentar o que seja mais
próximo do que se acredita ter sido escrito originalmente, após considerar os contextos
imediatos e mais amplos que circundam a perícope, antes de comentar as versões
bíblicas mais comuns, vejamos, mais uma vez, uma tradução literal conforme a tradução
léxica das palavras do texto grego eclético, associadas às análises lingüística,
manuscritológica, morfológica e sintática:
“Cuidem em não praticar a vossa justiça diante dos homens a fim de serdes
vistos por eles; do contrário, não tendes recompensa junto ao vosso Pai nos céus”.
Crendo ser essa a tradução mais literal possível segundo o cruzamento das
informações de que dispomos, vejamos as coincidências e discordâncias relacionadas às
onze traduções bíblicas que apresentamos a cima.
Das onze versões apresentadas, sete iniciam a perícope com o imperativo
guardai-vos; duas com tenham o cuidado (igual à NIV “be careful” = seja cuidadoso);
e, apenas uma um tanto destoante, a Edição Pastoral, que abre a perícope com o
imperativo excessivamente enfático “prestem atenção!” (com exclamação mesmo).
Assim, pois, para com a proposta tradução literal que abre o verso com o cuidem, não há
uma considerável discrepância que suscite algum debate, já que teologicamente o texto
não sofre qualquer ingerência e os vocábulos empregados surgem como sinônimos, em
português, para o termo grego utilizado pelo autor.
O outro termo a ser considerado diz respeito ao emprego da palavra justiça por
cinco das onze versões; religião e deveres religiosos por duas versões; e, boas obras e
atos de retidão por outras duas. Até aí não surge grande motivo para debates, a menos
que não se considere como atos de justiça ou de retidão e boas obras um bom sinônimo
para religiosidade. E não é o que parece. Pelo contrário, todos esses termos ligam-se
adequadamente à esmola, à oração e ao jejum, que são os pilares da religiosidade dos
judeus, para quem o Senhor Jesus está dirigindo suas instruções, uma vez que não se
contava nenhum gentio entre seus discípulos. Porém, duas das onze versões (ARC e
ACF), priorizando a informação colhida no Textus Receptus, empregaram a palavra
esmola como sendo o ato a não ser praticado diante das pessoas. Como visto mais
acima, tal palavra liga a perícope delimitada à instrução quanto a dádiva de esmola (Mt
6:2-4), mas não a liga à instrução quanto à oração (Mt 6:5-8) nem quanto à instrução
relacionada ao jejum (Mt 6:16-18). Os motivos pelos quais essa ligação se faz
18

necessária já foram comentadas mais a cima, todavia, reforça-se a máxima de que as
instruções do Mestre para com a vida de oração e jejum praticamente perderiam seu
sentido, caso fossem separadas da perícope aqui analisada. Isso faz com que essas duas
versões (ARC e ACF), ao menos com relação a esse trecho das Escrituras, nos sejam
consideradas menos apropriadas.
Das onze versões examinadas, nove falam que é diante dos homens que não se
deve praticar a justiça. A NTLH diz que os atos não devem ser praticados em público; e
a NVI diz que é diante dos outros. Como o termo grego empregado é a |)ca :a|, que
pode ser traduzido por pessoas, seres humanos, dentre outros termos semelhantes, não é
notada, aqui, uma disparidade considerável para que se debata a possibilidade de
interpretações dúbias.
Nove das onze versões sugerem que o condenável é a intenção de serem vistos
pelas pessoas, quando da prática da justiça. Mas, a TEB condena a prática da justiça
para atrair os seus olhares, ou os olhares dos homens, claro. Realmente, a tentativa de
atrair os olhares dos homens para que fosse prestada a devida (ou indevida) atenção
quando do exercício da prática religiosa é que foi condenado por Jesus deliberadamente.
Os “toques de trombetas” (6:2) no momento de dar esmolas, as orações “em pé nas
sinagogas e nos cantos das praças” (6:5), bem como os “rostos contristados e
desfigurados” quando dos momentos de jejum (6:16), claramente identificados por
Jesus como sendo com o mero fim de atrair os olhares das demais pessoas, é que lhes
valeu o adjetivo de hipócritas e de terem suas atitudes condenadas e utilizadas como “o
modelo” de como não se deve proceder, para que a justiça dos discípulos de Jesus
viesse a exceder em muito a dos escribas e fariseus. Assim, embora sendo a tradução da
TEB, aqui, um pouco destoante da maioria das versões (9 de 11), há que se admitir que
ela trouxe, ao invés de discórdias e discussões, uma ótima contribuição para
compreensão da instrução de Jesus que leva em conta toda a prática da religiosidade,
abrangendo a esmola, a oração e o jejum, com a mesma instrução e, conseqüentemente,
com a mesma advertência quanto à punição. Se observada a fidelidade lingüística, a
TEB pode ser acusada de ter agido de modo a priorizar mais a questão teológica do que
a gramatical, já que os termos gregos da perícope não apresentam nenhuma expressão
que se traduza por “atrair”. Mas, a Edição Pastoral foi ainda mais além. Onde a
maioria traduziu “para serem vistos”, ela traduziu por “para serem elogiados”. Assim,
se a TEB terá dificuldades para justificar o emprego de atrair, o que dizer das
dificuldades da BEP para justificar o emprego de elogiados? O que a Bíblia Edição
19

Pastoral fez foi uma espécie de “adiantamento” de interpretação de expressão. Sim, pois
se a preocupação dos hipócritas é, antes, a de chamar a atenção dos presentes para que
os vejam exercendo a sua justiça, o mínimo que se pode esperar é que eles almejem
algum reconhecimento do público em virtude das obras demonstradas. O termo grego
traduzido por serdes vistos ().a)n |at, de ).a e+at), não sugere essa possibilidade de
tradução (elogiados), assim, as questões de traduções, lingüísticas e gramaticais, mais
uma vez, foram negligenciadas para que a questão teológica ganhasse a primazia. É
preciso admitir, ainda, que o só esperar elogios das pessoas pode significar pouco,
estendendo-se à espera de alguma recompensa material, moral, política, “eclesiástica” e
etc. Daí, pela fertilidade da mente humana, as possibilidades de adendos e substituições
de umas palavras, no grego, para outras no português, afim de “melhorar” o
entendimento da Escritura pode vir a nos distanciar demais do que os autores canônicos
inicialmente redigiram. Não é uma heresia a tradução da BEP, longe disso. Até,
semelhantemente à TEB, traz uma boa contribuição para interpretação do texto avaliado
em um contexto mais amplo. Todavia, isso não apaga o fato de o tradutor ter feito não
somente uma tradução textual, mas sim, apresentado sua interpretação – pessoal – do
texto em questão. Nessas empreitadas, às vezes eles agem bem, mas às vezes, nem
tanto.
Passando para a segunda parte do versículo, temos que das onze versões, cinco
delas abrem a sentença com as expressões doutra sorte, ou do contrário; quatro dizem
se agirem assim, ou fazendo assim; mas duas delas (ARC e ACF), de modo até
“desafinado”, abrem a frase com “aliás”, no que leva os leitores a crerem que, com
relação à primeira parte da perícope, é certo que os discípulos agiram exatamente como
Jesus lhes instruiu para não agirem. Essa opção do tradutor, semelhante a outras tantas
opções de outros tantos tradutores, servem para que captemos as suas intenções, melhor,
para que o flagremos colocando na tradução o que venha ser a sua interpretação
pessoal
10
. Neste caso, especificamente, o que se pode dizer é que a interpretação foi, no
mínimo, desastrosa. Diferentemente de outros casos analisados mais a cima, aqui, o
emprego de uma simples palavra trás uma modificação de sentido ao texto. Como já
dito, é válido repetir, o emprego de “aliás” para abrir essa segunda parte do versículo
colocou a primeira parte como sendo uma advertência inútil. Talvez, e isso é tão

10
Quando se diz pessoal, como aqui, referindo-se à interpretações de textos bíblicos, não
necessariamente a referência é feita a uma pessoa em especial, particularmente. Antes, e é o que
ocorre na maioria das vezes, a referência é feita a um grupo de tradutores.
20

especulativo quanto a tentativa de concertar a tradução feita, se ao final da frase, ou no
início dela, a expressão “agindo assim” fosse adicionada – ou não fosse negligenciada
– tal falta, tão grave, não viesse a ser observada. Trata-se, aqui, de um aparato
dificultador para a interpretação do texto bíblico, onde se vê a possibilidade até da
manutenção, por parte de alguns, da personificação de um Deus irado, castigador, contra
a qual – personificação – Martinho Lutero se levantou. Isso pela interpretação, se
considerado literalmente o exposto por essas duas versões, de que, independente da
forma de agir para com a instrução dada pelo Mestre, de qualquer modo, “aliás”, a
devida punição já está previamente estabelecida. De mais desanimador, ainda, é a
constatação de que, ao menos a ARC, é uma das versões bíblicas mais populares do
Brasil nos dias atuais, principalmente entre os crentes ligados aos grupos chamados de
Pentecostais.
Agora, bem mais polêmica, ainda, é a frase que se segue, onde +tc)e | eu s . ¿.·.
traduz-se literalmente por recompensa não tendes (ou, não tendes recompensa). Quanto
ao termo recompensa, usado por sete das onze versões, ou galardão, usado por outras
três, ou ainda, remuneração por uma delas (Pe. Matos Soares), não há qualquer
problema, já que recompensa, galardão ou remuneração são sinônimos perfeitos. O
problema aqui é bem mais sério, e diz respeito ao tempo verbal empregado pelas onze
traduções analisadas para o verbo “ter”, que se no grego está no tempo presente – do
indicativo – nas versões que estudamos aqui aparece no futuro. Certamente há uma
fortíssima influência de cunho escatológico para justificar esse caso. No passado, tanto
para teólogos europeus quanto norte americanos, a hoje falida linha Pós-milenista era
fortemente considerada, sendo que, atualmente – e já há bastante tempo – as linhas Pré-
milenista e Dispensacionalista é que são praticamente dominantes. O que se conclui
disso é que, inevitavelmente, todos esses intérpretes ou grupos de intérpretes
priorizavam a idéia de recompensa estritamente pós morte em relação à obediência ou
não às instruções bíblicas. A tradução que dá conta de uma recompensa que os
discípulos “não terão”, da parte do Pai que está no céu, destoa, por exemplo, da
declaração de Jesus afirmando: “Em verdade vos digo que eles já receberam a
recompensa.” repetida por três vezes (6:2, 5, 16), respectivamente, relacionada à forma
errada de se praticar a esmola, a oração e o jejum. Assim, em se traduzindo a declaração
do grego, literalmente como foi escrito, teremos que o Pai que está nos céus está
recompensando os hipócritas no exato momento em que eles estão procedendo
inadequadamente. O verbo . ¿.·. (tendes) no presente do indicativo, como já abordado
21

mais a cima, indica uma ação contínua ou num estado incompleto (durativa ou linear),
que muito bem pode indicar, para o caso em questão, uma recompensa que os discípulos
receberão futuramente, porém, mais que isso, ele também indica que tal recompensa já
pode estar sendo entregue – ou não – exatamente no momento da obediência – ou
negligência – do discípulo para com a ordem dada pelo Senhor. Atualmente, pois, muito
provavelmente só os Amilenistas fariam questão de preservar para o texto o verbo
tendes no presente do indicativo, crendo estarem os discípulos sendo recompensados
imediatamente, pelo Pai que está nos céus, por meio de bênçãos espirituais (não
necessariamente materiais, naturais ou palpáveis, conforme Ef 1:3) instantaneamente,
primeiro e, futuramente também, preservando a noção escatológica geral que possa
prever tal recompensa para a Glória futura depois do fim dos tempos, não
exclusivamente, mas tão somente admissível tanto quanto as recompensas imediatas. É
bem verdade que o Néo-pentecostalismo pendeu para um extremo bem mais
“agressivo”, transformando em algo absolutamente imediato, material e palpável as
recompensas pela “adequada” prática da religiosidade ou demonstração de “fé”, o que é
outro equívoco (este, bem mais prejudicial que o primeiro). De qualquer forma, para
isso (melhor interpretação), especificamente, recursos como a exegese estão à
disposição dos elaboradores de sermões, ou seja, para que ao se depararem com textos
como este, onde a totalidade das versões correntes levam à crença de que o que temos
nos está sendo colocado de modo indiscutível, ainda cabe uma mais acurada
investigação. Assim, no caso analisado aqui, tendo que todas as nossas versões
modernas possíveis apresentam as recompensas pela desobediência somente para o
futuro (talvez pós morte), advertências precisam ser feitas para que se entenda que o
texto em questão, comparado com outros tantos, dão contas de que as recompensas
tanto pela obediência quanto pela desobediência, podem ser recebidas imediatamente
também, ainda que essas possam nos passar despercebidas, não sendo vistas, tocadas,
sentidas ou ouvidas, ou seja, tratando-se tão somente de bênçãos espirituais – ou a falta
delas – nos céus.
O final do versículo não suscita divergências quanto à tradução, apresentando
como O Recompensador o Pai que está nos céus, ou seja, Deus. E fecha-se toda a
sentença da perícope com a máxima de que a religiosidade não pode ser praticada com o
fim de se mostrar para as pessoas no intuito de aguardar qualquer recompensa da parte
delas, se não, de Deus, e tanto para o futuro quanto imediatamente.

22

REFERÊNCIAS (Bibliografia)
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