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Trabalho de Concepções de História: Historiografia Antiga Leandro Campos de Medeiros Matrícula 113027313

Análise historiográfica sobre Heródoto e Tucídides

Introdução:

Heródoto e Tucídides sempre serviram de referência para a historiografia ocidental, desde o mundo grego clássico até o nosso mundo moderno. O status que adquiriram provavelmente deve muito ao fato de terem sido precursores no registro

daquilo que hoje chamamos de História (não por acaso que Heródoto, ao vir primeiro, ficou conhecido como o “pai da história”) e sendo, portanto, os primeiros daqueles que futuramente viriam a ser chamados de historiadores. No entanto, seria um erro limitar

a importância desses dois historiadores apenas ao fato de terem sido inovadores. Os

estilos de Heródoto e Tucídides - curiosamente bem distintos, apesar da proximidade que tiveram no tempo e no espaço - serviram de orientação para incontáveis historiadores depois deles. Apesar de apresentarem narrativas com características notadamente peculiares a um ou ao outro, ambos mantiveram seu prestígio no passar dos séculos - ora mais, ora menos -, deixando um legado que efetivamente influenciou os rumos que a historiografia iria tomar. Este trabalho visa construir uma análise comparativa entre as historiografias

de Heródoto e Tucídides, utilizando-se de outros estudos já elaborados sobre o tema.

A análise irá se nortear por dois pontos importantes no estudo de historiografias: o

escopo e o método.

Parte 1: Escopo

A análise de escopo abordará a abrangência e o foco dos conteúdos produzidos por Heródoto e Tucídides. Antes de apontarmos as especificidades de cada autor, analisaremos o que eles têm em comum. Em primeiro lugar, é importante observarmos que os delimitadores de suas obras são definidos, evidentemente, pelas matérias de cujas memórias eles queriam preservar, nomeadamente, as guerras - greco-persa em Heródoto e do Peloponeso, em Tucídides. O fato de ambos os autores centrarem suas narrativas pelo aspecto da guerra tem algumas implicações inevitáveis. A maior implicação no âmbito do escopo é, provavelmente, nos tipos de personagens que formarão as narrativas. A maior atenção não será dada para os cidadãos comuns ou de outros segmentos que formavam a maior parte da civilização grega, mas para os homens com maior poder de decisão e influência nos cursos das guerras, muitas vezes membros das aristocracias locais. Esse fato, no que tange aos aspectos social e político, já seleciona um foco para as narrativas (ainda que em graus diferentes entre

Heródoto e Tucídides, como será detalhado posteriormente). Além disso, o aspecto geográfico da narrativa também sofre grande influência das guerras estudadas, sendo mais abordadas as regiões que estiveram direta ou indiretamente relacionadas aos conflitos. Em segundo lugar, é também importante atentarmos para as matérias-primas que possibilitaram as narrativas. Em ambos os casos, houve uma forte dependência de fontes orais, pela escassez de documentos escritos que pudessem fornecer informações precisas e bem fundamentadas. O problema no registro de fontes orais é que ele geralmente não fornece o mesmo nível de confiabilidade que investigações de outras fontes mais incontestáveis, tais como documentos oficiais e vestígios arqueológicos. Como veremos mais à frente, isso viria a se tornar a raiz da maior parte das críticas que Heródoto e Tucídides viriam a sofrer, especialmente entre os historiadores modernos que, não superando o fato de a oralidade ter predominado no mundo antigo, se frustravam com a falta de fontes que eles considerariam confiáveis. Sobre isso, Luiz Costa Lima chama a atenção para o que Moses I. Finley criticava na perspectiva histórica moderna referente aos estudos de fontes antigas:

Finley considerava a impropriedade da concepção de história

que se elaborara desde finais do século XVII, com sua ênfase no confronto das fontes e na verificação de sua autenticidade, a qual não era minorada pelos achados arqueológicos, pois estes, ainda que se acrescentem às fontes escritas, não fornecem um ‘esquema conceitual teoricamente fundamentado’.”

“(

)

Apesar de tanto Heródoto quanto Tucídides terem se utilizado abundantemente de fontes orais, eles se divergiram consideravelmente na maneira de buscá-las e utilizá-las para criarem os universos que iriam narrar. Nesse quesito, veremos que fica evidente uma ousadia muito maior em Heródoto, sendo que nenhum outro estudo elaborado sobre o assunto parece discordar disso.

Escopo em Heródoto:

Heródoto sempre despertou um fascínio especial através de sua obra, fazendo com que suas Histórias fossem frequentemente associadas a leituras agradáveis e prazerosas. Parte desse feito certamente se deve ao seu abrangente escopo. Heródoto leva o leitor aos mais diversos extremos do mundo então conhecido, não somente em nomes e ideias, mas com descrições detalhadas de terras e povos. E embora o nível de detalhes impressione nos seus relatos oculares, Heródoto não se limita apenas ao que presenciou pessoalmente em seu tempo, mas registra acontecimentos desde as eras mais remotas, fazendo com que o mundo das Histórias se tornasse um universo extremamente rico e extenso. É sobre isso que Arnaldo Momigliano tratava quando escreveu:

“(

daquilo que era muito antigo quanto do que era bastante recente,

e tanto do que era grego quanto do que era estrangeiro. As implicações de sua decisão foram enormes.”

ele ampliou a abrangência de sua crítica ao exame tanto

)

Essa ampla abrangência adotada por Heródoto, somada à sua preocupação em descrever e compreender as tradições e costumes das diferentes sociedades antigas, rendeu-lhe o adjetivo de historiador humanista. O estilo que ele cria, portanto, não era o de simplesmente registrar os “feitos maravilhosos e admiráveis” dos homens, apesar do que ele mesmo aspirava nas primeiras palavras de sua obra, mas vai além disso: ele inaugura uma vertente que mais tarde seria identificada como história da civilização. Mas o extenso escopo de Heródoto também conhecia limites. Ele evitava observações que iam de encontro às tradições e mitos gregos. Quando deveria mencionar algum relato que não estava de acordo com esses princípios, ele o fazia com evidente ressalva e sem muita veemência. Ele não escrevia como alguém que pudesse ser taxado de religioso ou que tivesse sido influenciado pelas crenças, mas demonstrava um claro cuidado ao abordar questões envolvendo temas mitológicos, jamais tomando uma postura cética e definitiva sobre qualquer assunto dessa natureza. Momigliano também comenta sobre isso:

“(

abstinha de dizer certas coisas porque seria ofensivo aos deuses

Sobre outros argumentos, religiosos ou profanos, ele

fazê-lo. (

o fogo ardente da incredulidade estava ausente nele. Ele se

)

)

admitiu que falava apenas porque era impelido a assim fazê-lo pelo

próprio andamento de seu discurso.”

Escopo em Tucídides:

Tucídides tem uma abordagem bem diferente de Heródoto no que tange a escopo, por várias razões. A principal delas é certamente uma consequência das exigências de seu método (que serão discutidas mais detalhadamente adiante), onde ele procura evitar o registro de fatos muito antigos e que impossibilitariam um testemunho direto. Ao fazer isso, ele reduz o seu escopo temporal significativamente. Geograficamente, ele também não se compara a Heródoto, tanto pela necessidade quanto pela experiência. Tucídides tinha o objetivo de registrar uma guerra entre gregos, onde os povos bárbaros se limitariam a papeis de coadjuvantes e deveriam, assim, ficar na periferia da narrativa. Além disso, acredita-se que ele não tenha viajado tanto quanto Heródoto, de maneira que, ainda que ele almejasse ampliar seu escopo geográfico, ele não poderia fazê-lo sem desrespeitar a sua metodologia de experiência direta.

Há ainda uma significativa peculiaridade no foco de Tucídides, que é a perspectiva política. Enquanto o humanista Heródoto detalhava povos e cenários, Tucídides parece se preocupar mais com os círculos políticos e as decisões estratégicas que se desenrolam na guerra. Isso limita ainda mais a abrangência da sua narrativa, conforme explica Momigliano:

“A premissa seguinte de que os acontecimentos com os quais

se deve lidar são os acontecimentos políticos afunila ainda mais

a seleção de fatos significativos mesmo no presente. (

biografias ficam, por definição, excluídas: as ações humanas ou são políticas ou são nada.”

Meras

)

Seu estilo de escrita inaugurava uma vertente que muitos chamariam de história política, e logo seria seguida por uma infinidade de sucessores. Tucídides ainda viria a ser interpretado como um historiador filósofo, devido a suas recorrentes observações sobre a natureza humana. De fato, Tucídides parecia analisar a mente humana como portadora de uma natureza imutável, de modo que o estudo da sua influência nas sociedades e nas decisões políticas poderia servir como orientação para situações similares que viessem a acontecer recorrentemente no futuro. Sobre isso, François Hartog escreveu:

não se trata mais de preservar do esquecimento as ações

valorosas, mas de transmitir às gerações futuras um instrumento

de inteligibilidade de seu próprio presente. A Guerra do Peloponeso

é portadora de imortalidade em si mesma, por si mesma, para si mesma.”

“(

)

Parte 2: Método

A análise metodológica se concentra na maneira pela qual Heródoto e Tucídides elaboraram suas narrativas. Seus métodos são bem distintos entre si, de modo que esse foi o principal aspecto de divergência nas críticas que receberiam nos séculos seguintes. Tucídides acabou por influenciar um número maior de gerações de historiadores, servindo de referência para muitos críticos e sendo para eles o primeiro exemplo de historiador confiável, enquanto Heródoto, por muito tempo, foi colocado em segundo plano e até chamado de mentiroso. Embora de características distintas, tanto Heródoto quanto Tucídides se apoiavam em suas metodologias para se distanciarem da antiga literatura. O que os torna inovadores é o fato de deliberadamente elaborarem uma forma de registro que os distanciassem dos então predominantes relatos gregos, chegando até a fazerem críticas explícitas aos poemas homéricos. Eles não foram os primeiros gregos a

contestarem os relatos antigos, mas foram os primeiros a apresentarem uma narrativa com uma abordagem alternativa, contendo um maior senso crítico e uma desconfiada preocupação com as fontes, numa tentativa de estabelecer um registro mais fiel dos acontecimentos. Como bem explorado por Costa Lima, Heródoto e Tucídides se separam de Homero por uma linha tênue e nebulosa, mas certamente existente. Ele usa fragmentos de um ensaio de J. L. Moles para discutir essa ideia:

ambos os escritores também se vêem como comprometidos

em um projeto que se distingue do da tradição poética por sua

tentativa de estabelecer a verdade factual e em distingui-la da ‘inverdade’ ou ‘falsidade’ textual.”

“(

)

Nesse aspecto metodológico de buscar os fatos, Heródoto foi certamente menos corajoso que Tucídides. Enquanto o segundo geralmente afirmava, com convicção, informações e acontecimentos que considerava precisos, o primeiro apresentava diversas possibilidades de verdade ao leitor, deixando várias questões em aberto e, no máximo, apresentando um parecer pessoal acerca delas. Como veremos

a seguir, essa diferença foi fundamental na crítica e no reconhecimento que cada autor conquistaria nos séculos posteriores.

Método em Heródoto:

Heródoto apresenta um estilo bem peculiar de registrar muito mais do que criticar. Várias vezes ele cita versões diferentes para um mesmo acontecimento, sem ousar afirmar qual deles é o verdadeiro. Embora ele eventualmente expresse uma opinião de quais relatos julga mais confiáveis, ele evita descartar outros depoimentos,

a menos que possa ter testemunhado o evento com os próprios olhos. Essa postura

contida certamente acaba por conservar vários relatos falsos ou parcialmente fictícios, fazendo com que os compromissos com a verdade de vários historiadores posteriores a Heródoto os levassem a fazerem um mau julgamento a seu respeito. Costa Lima

escreve:

“Heródoto tinha o cuidado de não confundir o que pensava com o que lhe haviam dito, ora recusando o que registrara, ora declarando haver outras opiniões, ora dando o seu endosso. Uma figura assim deslizante não parecia muito recomendável ao que se passara a exigir do historiador.”

Mas a mais grave das críticas ao seu método não está na apresentação de relatos conflitantes ou pouco confiáveis, e sim na obscura forma com que Heródoto selecionava esses relatos, sem uma sistematização ou previsibilidade. Momigliano nota a sua inconstância no julgamento das fontes e a sua aparente ingenuidade na

crítica que fazia acerca dos relatos. O que parece evidente é que Heródoto se baseava muito nas fontes orais que obtinha, mas a forma com que ele selecionava essas fontes e o julgamento que ele apresentava com relação a elas eram, aparentemente, de critérios totalmente subjetivos. Ficava a cargo do próprio Heródoto afirmar o quanto ele confiava na autoridade da fonte para que fosse possível fazer uma avaliação de sua confiabilidade. Diante da dificuldade dos futuros leitores em determinar o que deveria ser tomado como mais verdadeiro, Hartog menciona uma curiosa solução proposta por Voltaire:

“Voltaire, no capítulo intitulado ‘Da História de Heródoto’, propõe uma solução: ‘Quase tudo que ele contou dando fé aos estrangeiros é fabuloso; mas tudo que ele viu é verdadeiro’. Escolhe ele assim o olho contra a orelha ( )”

É claro que tamanha simplificação chega a ser maldosa, mas a sugestão de Voltaire demonstra o quanto a desconfiança em Heródoto se tornou grande diante da impossibilidade de se compreender plenamente sua técnica de seleção. Ainda assim, Heródoto iria garantir a sua imortalidade por ter dado o passo decisivo que fundaria a história e afastaria a verdade da boca dos poetas. Ele estabeleceu um método crítico - por mais obscuro que fosse - que procurava confrontar relatos conflitantes, de maneira imparcial e humilde, numa tentativa de não permitir que escapassem as memórias dos acontecimentos passados. Nas palavras de Momigliano:

“Se há um ensinamento transcendental em sua narrativa, é o da medida em todas as coisas. O método de Heródoto é o do homem que não quer suprimir o que não está em seu poder entender ou corrigir; ao mesmo tempo permite à humanidade - ou a uma boa parte dela - espelhar-se em seu relato.”

Método em Tucídides:

Tucídides é o historiador da política, do aqui e do agora. Altamente crítico e questionador, ele evita ao máximo trabalhar com relatos antigos, pois “seria impossível obter informações claras devido ao lapso de tempo”. Para Tucídides, não há espaço para relatos improváveis, apenas a narrativa do que realmente se passou - segundo experiência própria, fontes muito próximas, ou pura lógica aplicada a observações evidentes. Nesse processo, cabe ao leitor confiar no historiador, aceitando que ele não registra eventos fantasiosos e, assim, deixando-o eximido de explicitar suas fontes. Esse raciocínio é muito bem exposto por Momigliano:

“Antes de tudo, ele nunca se contentava em simplesmente registrar

algo sem assumir responsabilidade pelo que registrava. (

)

Em

segundo lugar, ele rara vez indicava com detalhes as fontes de suas informações. Ele queria ser digno de confiança. Tendo imposto limites geográficos e cronológicos bastante severos à sua obra, ele achava que podia pedir aos seus leitores um voto de confiança.”

Esse método de estabelecer um foco bem definido e num escopo bem delimitado deu a Tucídides as maiores honras entre aqueles historiadores que primavam pela busca da verdade nos fatos. No entanto, ele não escapou dos olhos mais objetivistas, que exigem uma imparcialidade incondicional nas narrativas. O fato de ele mesmo, Tucídides, ter sido um ator na história que narrava - e, consequentemente, ter sido exposto a todo tipo de sentimento humano que a ocasião proporcionava - em nada o favorecia nas críticas daqueles que defendiam a necessidade de afastar os historiadores de seus objetos de estudo. Aí está, aliás, uma

exigência contraditória - e aparentemente irreconciliável - ao que Tucídides considerava de fundamental importância, que era justamente aproximar os relatos à experiência direta do historiador. Em última análise, Tucídides conquistou a confiança de que precisava para que seus relatos fossem tomados como verdadeiros, mas não a confiança de quem exige que se conte toda a verdade. Se por uma lado o seu testemunho é confiável, por outro ele é acusado de uma arbitrária seleção sujeitada a paixões e preferências pessoais. Nesse aspecto, uma ênfase especial é dada aos famosos discursos transcritos por toda a Guerra do Peloponeso. De certa forma, os discursos são uma característica diferenciadora da obra de Tucídides, conferindo mais vida à sua narrativa e aumentando a sensação de proximidade do leitor com a história. Esses discursos, é claro, longe de poderem ser tomados como perfeitas transcrições do que fora dito, ainda assim carregavam, na visão da maior parte dos críticos, um grande senso do tipo de pronunciamento que realmente deveria estar sendo usado no momento. No entanto,

é difícil sustentar que Tucídides tenha registrado todos os discursos mais relevantes com a ênfase que cada um mereceria. A parcialidade do autor na forma como se deu

a seleção foi o principal ponto fraco do seu método, se tornando o alvo das correntes mais objetivistas. Costa Lima resume bem:

“Em síntese, o problema com as falas dos personagens não está em sua ‘elegância artística’, muito menos em que buscassem fixar traços de suas personalidades, mas, simplesmente, na seletividade arbitrária que operam.”

Todavia, ao contrário de Heródoto, que teve opositores logo nos primeiros anos de seu legado, Tucídides passaria muito tempo sendo praticamente incontestado. A maior parte das críticas que sofreu se deu apenas a partir do objetivismo mais radical

da era moderna. Até lá, a maioria dos historiadores o viram como uma referência de historiador da verdade.

Conclusão:

Podemos notar uma notável discrepância de estilos: em linhas gerais, enquanto Heródoto tem um escopo abrangente e uma crítica limitada, Tucídides tem um escopo limitado e uma crítica desenvolvida. O fato de se tratarem de dois homens que poderiam muito bem ter convivido juntos mostra o quanto a percepção histórica está sujeita a fortes variações de paradigma. Isso não significa, no entanto, que a escrita da história deva ser encarada tal como ordinárias obras literárias, nem que ela deva ser abordada como um tema de menor importância entre as ciências humanas. Significa, somente, que os registros da história tendem a se acumular em obras tão diversas e numerosas quanto as próprias experiências humanas; obras tão interessantes e incríveis quanto as de Heródoto e de Tucídides.

Referências Bibliográficas:

● Costa Lima, L., “História. Ficção. Literatura”, Companhia Das Letras, 2006;

● Momigliano, A., “As raízes clássicas da historiografia moderna”, EDUSC, 2004;

● Hartog, F., “O espelho de Heródoto. Ensaio sobre a representação do outro”, Belo Horizonte Editora UFMG, 1999