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Nesl'e nú.

nero
Os akpalos: extraterrestres? 6
Animais obedecem a símbolos 18
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36
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40
I A
O gênio maldito de Araraquara
Humor gaúcho
Em busca do mundo invisível
Fuga (conto)
(
48
Só os deuses são filhos de virgens
O gigante que não podia se casar
66
Planeta informações
86
Especial
O DIREITO ESPACIAL 72
.Jornal
Televisão educativa I Ecologia controlada I Desenhis-
tas brasileiros na Europa I Turbulência -1 Venusianos
interessados em arte I Choque de culturas I Proteção
à fauna / Compor como Mozart I Estação no pólo sul I
Congelamento de fetos I Guerra de rãs I A derrota
de Júlio Cesar I Fluido do amor I Nova partícula ele-
mentar I Mariner 10 I Televisão de bolso I Terra es-
fria I Vôo soviético I Queima .das estrelas I Caneta
que traduz I Pioner 11 I Vulcões I Desenho de Tania
Ele mesmo construía seus aparelhos, com o
.próprio dinheiro, ou com a doação do reduzido grupo de
amigos que acreditavam na sua obra
O genio maldito de Araraquara
Frederico De Marco fazia chover, quando queria. Bastava provocar as
nuvens com substâncias por ele inventadas. Antes de Marconi
previu o telégrafo sem fios e a transmissão de energia a distância. Foi
o primeiro brasileiro a pesquisar a parabiose, ou seja
ligar cirurgicamente dois seres para estudar reações e equilíbrios.
Quinze anos após sua morte, é possível fazer um balanço de
sua obra, concluindo que ele foi um incansável pesquisador paralelo, de
valor inestimável. Incompreendido na sua terra e na sua época,
agora é tempo de se reavaliar sua obra, à luz do progresso científico.
Por José Maria Brandão
Fotos do arquivo particular de {oão Evangelista Ferraz
o
consultório modesto instalado num
porão da rua Gonçalves Dias, em
Araraquara, assentava bem com a
figura simples do dr. Frederico De
Marco. Paredes rabiscadas de alto a baixo,
mostravam fórmulas, símbolos e equações.
Mesas repletas de objetos estranhos, prove-
tas, ferramentas, cadernos e um mundo de
coisas. Em meio a essa aparente desordem,
Frederico vivia seus melhores momentos em
constantes buscas, realizando pesquisas e ex-
periências. Contava apenas com o estímulo
e a simpatia de alguns amigos e sofria pro-
fundamente diante da incompreensão da
maioria do povo de sua terra. Assim, iso-
lado, percorreu o mundo das ciências, no-
tadamente da física, desde Galileu até Eins-
tein, criando, teórica e praticamente os mais
variados inventos. Tachado constantemente
de louco e visionário, por muitos, recebeu,
entretanto, o apoio de inúmeros cientistas de
renome internacional.
Frederico De Marco era seguidamente criti-
cado por ser médico e dedicar-se a pesqui-
sas em outros campos da ciência. A despeito
dessas críticas, continuava pesquisando. Sen-
tia irresistível fascínio pela física-matemática,
principalmente pela eletricidade. Encontrava
nesse trabalho uma derivação física. Uma
válvula de escape. Galileo Ferraris, o inven-
tor do campo magnético rodante, descansava
o espírito lendo uma partitura de Beethoven.
Einstein tocava violino. Roberto Meyer, sen-
do médico, criou a lei da conservação da
energia. É, portanto comum, a prática da
higiene mental em trabalho diferente daquele
que habitualmente se faz.
Fascinado pela eletricidade desde criança,
De Marco encontrou teoricamente, a possi-
bilidade da telefonia sem fios, antes de Mar-
coni, segundo depoimentos dos professores
Slater, do Mackenzie College e Shouders, da
24/Personagens extraordinários
Escola Politécnica. Aos oito anos já conhe-
cia a física de Touilet e publicou trabalho
sobre a teoria de Otto von Schron, acompa-
nhado de 25 clichês, na revista Progresso,
do Mackenzie CoJlege. Por ser apenas um
garoto não acreditaram que fosse ele o au-
tor. O professor Barreto achava impossível
uma criança compreender coisas tão abstra-
tas e somente submetendo o menino a um
exame, de surpresa, ficou convencido.
Completados os primeiros estudos, Frede-
rico foi para a Europa onde travou conhe-
cimento com os maiores nomes da ciência.
Dedicou-se à medicina mas continuou a to-
car o "violino de Ingres", as ciências físicas.
Buscando incessantemente, De Marco inven-
tou inúmeros aparelhos e entre eles a pilha
termelétrica com galvanômetro de Wledmain.
Esse aparelho foi utilizado no gabinete de
tsydrologia experimental de Bolonha para
sondar os recessos da retina e suas modifi-
cações correspondentes às atividades cere-
brais. Criou ainda a teoria da maré eletro-
telúrica; a teoria da consciência como inten-
sidade e a microscopia luminescente.
Em 1940 a Imprensa brasileira destacava a
descoberta de Frederico De Marco relativa-
mente à transmissão da energia a distância.
Sabendo que Marconi tinha feito declara-
ções a respeito desse assunto e que até então
permanecia em segredo, na Itália, os estudos
do cientista brasileiro deviam vir a público.
Muitas vezes ocorreu a Frederico iniciar um
estudo, mantendo-se em silêncio e posterior-
mente surgir um outro estudioso que reali-
zava idêntico trabalho. Dessa vez, instado
por amigos, aquiesceu em sair do anonimato
para publicar seu trabalho começado bem
antes de Marconi.
A solução encontrada por Frederico De
Marco, na transmissão de energia a distân-
cia, tinha como base o emprego de ondas
ultracurtas concentradas em trens, intermi-
tentes, etc. Utilizou também uma fonte de
emissão rodante, já usada para outros fins,
por Majoranna, com bom resultado. Tinha
dessa forma, enormes possibilidades eletro-
dinâmicas. Para a captação usou um ressoa-
dor de Hertz, bimetálico com um conden-
sador oscilatório eletrônico inventado por
ele. Espelhos magnéticos e campos de ioni-
zação serviam de barragem às ondas a se-
rem captadas, como na zona de reversão da
atmosfera. O paralelismo entre campo ele-
tromagnético dinâmico e motor, levado à
esfera das ondas intermitentes concentradas
etc., agindo a distância sobre um dispositivo
especial, resolveria, industrialmente, o pro-
blema. Todavia, na época, a construção des-
se dispositivo, no Brasil, era quase impos-
sível. Idealizou assim, dois aparelhos para
transformação de energia ondulatória em
energia eletrodinâmica: um de ordem foto-
elétrica e outro de ordem fotoquímica, que
o professor Mingolà. prontificou-se a cons-
truí-los.
Pensava também num ciclotron poderoso
lançando no espaço partículas elétricas com
velocidades espantosas e concentradas, em
direções estabelecidas. Tesla já tinha feito
algo similar. A General Electric com seu
motor a luz, tinha também dado grande pas-
so nesse sentido. Contudo não foram além
disso, mantendo-se apenas no terreno cien-
tífico e não prático. A energia intra-atômica
nuclear resolveria o problema da energia va-
zia, mas noutro sentido. Segundo afirmava,
"o homem precisa ter o poder de mandar
muito longe de si essa energia. Meus estudos
e experiências visam exatamente a esse ob-
jetivo". Para demonstrar experimentalmente
sua descoberta, tinha dois métodos ao seu al-
cance e ambos altamente convincentes. Bas-
tava deixar o terreno científico e entrar no
industrial. Finalmente, em 1941, obteve o
êxito esperado, conseguindo transmitir a
energia a uma distância superior a quinhen-
tos metros, na presença do povo perplexo
e ainda descrente, da cidade de Araraquara.
Novos conceitos aos
métodos de rejuvenescimento
O processo de rejuvenescimento através de
cirurgia - enxerto de glândulas - revo-
lucionou o mundo, quando difundido por
Sergio Voronov, médico russo, naturalizado
francês e diretor do Laboratório de Cirurgia
Experimental na Escola de Altos Estudos e
no Colégio de França. Voronov baseava-se
nos métodos de Carrel (Aleixo Carrel, ci-
rurgião e fisiologista francês, Prêmio Nobel
- 1912 com o livro O Homem, Esse Des-
conhecido), na prática da transplantação ou
enxertos de tecidos.
Em 1928, os jornais do Brasil anunciavam
que Frederico De Marco, médico formado
na Europa, assistente durante três anos, do
consagrado clínico italiano, professor Augus-
to Murri, apresentava novos métodos à ope-
ração do rejuvenescimento. Suas experiências
o levavam a adotar a parabiose.
Como objeto de pesquisas, serviu a para-
biose para muitas finalidades fisiológicas e
biológicas. Dentre os estudiosos mais no-
táveis, destacám-se: Morpurgo, na Itália;
Ehrlich e Saurbrucj, na Alemanha e Talles,
no Brasil. De Marco também realizou inú-
meros trabalhos sobre esse assunto, tanto no
Brasil, como na Itália e Alemanha.
Quando se fala em parabiose é natural lem-
brar-se de simbiose (vida conjunta que re-
presenta um intercâmbio de necessidades e
interesses comuns. A simbiose é mais evi-
dente na vida vegetal, especialmente nos lí-
quens, cogumelos (Bary, 1879), até a enxer-
De Marco/25
tia simbiótica nas plantas mais desenvolvidas.
O conceito de simbiose abrange vasto cam-
po da fisiologia comparada e é quase uni-
versal na sinfonia econômica dos seres vivos
e até mesmo entre vivos e mortos (vermes).
O parasitismo utilitário é outro aspecto des-
sas estranhas associações biológicas. Muito
conhecido é o caso de irmãos siameses (dois
seres ligados um ao outro, por qualquer par-
te do corpo), ficando célebre a cirurgia pra-
ticada por Doyen, na França e· por Chapot-
Prevost, no Brasil, procedendo o desliga-
mento. A operação inversa é designada por
parabiose.
As conclusões de Frederico De Marco se
apoiavam, de modo especial, na vida sim-
biótica dos xifópagos. O caso considerado
teratológico pela natureza, seria transfor-
mado pela ciência em método preparatório
de enxerto do órgão são, no órgão decaden-
te para depois se processar a separação das
duas vidas. Esse processo eliminaria as difi-
culdades encontradas por Voronov quanto
aos enxertos de órgãos humanos. O cientista
francês (naturalizado) procurou contornar
tais obstáculos valendo-se de macacos que
mais se aproximam da morfologia humana.
Porém, como os orangotangos são raros e
de elevado preço, a solução se afigurava in-
viável. Aplicando o novo método, De Marco
utilizou cobaias e obteve pleno êxito. Uma
cobaia velha rejuvenesceu, ficou mais bonita
recoberta de pêlos luzidios e espantosamente
desenvolvida. Inicialmente a nova emagre-
ceu um pouco, recobrando contudo, logo
depois, o seu vigor primitivo.
Frederico De Marco comunicou sua desco-
berta a Voronov e este desestimulou-o, afir-
mando que tal experiência poderia ter valor
fisiológico de curiosidade, nunca porém, na
prática humana. Mais tarde, entretanto, re-
tratou-se, reconhecendo que as experiências
26/Personagens extraordinários
com animais poderiam oferecer excelentes
resultados nos casos da terapêutica humana.
Negada permissão
para experiências humanas
A parabiose, como se sabe, não é um fato
natural. f: produto do homem, criando um
artefato experimental. Ligar dois seres cirur-
gicamente corresponde a realizar uma sim-
biose experimental. Alexandre Volta sobre-
pôs discos metálicos para construir a pilha
elétrica. Os cientistas ligaram seres com se-
res para estudar os efeitos e obtiveram re-
sultados fecundos. Quando se ligam cirur-
gicamente dois animais, pode-se verificar
relativo equilíbrio entre as partes, havendo,
geralmente, benefício recíproco. Às vezes
um se torna a esponja do outro, mas a en-
tropia sempre rege os intercâmbios, por mais
desequilibrados que sejam. Quando surgem
incompatibilidades, torna-se indispensável a
separação, porém esses casos ocorrem ra-
ramente.
Após realizar várias experiências com ani-
mais e ter ouvido as opiniões de Voronov
(enxertia parabiótica); Stinach; Houssay e
Carlos Foá, Frederico De Marco tentou in-
troduzir o método no campo humano. Os
maiores expoentes no assunto não viam óbi-
ces de ordem científica para essa experiên-
da. Outros, contudo, interpunham obstá-
culos de toda espécie. A priori, opôs-se
Fernando Magalhães ( é d i ~ o   escritor e
professor da Faculdade de Medicina do Rio
de Janeiro - membro de inúmeras associa-
ções científicas, no Brasil e outros países),
entretanto, verificando uma prova concreta,
ficou vivamente impressionado. Frederico se
propôs a realizar uma prova humana, no
hospital da Faculdade de Medicina, ligado à
Santa Casa de Curitib_a, onde lecionava. Es-
tando tudo acertado, o magnífico reitor pro-
fessor Vítor do Amaral telegrafou ao pro- .
fessor Miguel Couto solicitando sua opinião.
O grande médico respondeu que desconhecia
a parabiose. Sabendo-se da probidade de Mi-
guel Couto, foi fácil interpretar que ele en-
tendia o fato como à margem da órbita mé-
dica. Diante disso não foi dada continuidade
à experiência.
Mais tarde De Marco sentiu que em Arara-
quara tinha condições de realizar a expe-
riência. Expondo a questão ao desembarga-
dor Manoel Carlos, registrado em São Paulo,
este sugeriu fosse encaminhado relatório à
Sociedade de Medicina Legal e Criminolo-
gia, solicitando, não apenas opinião, mas,
sobretudo, permissão para executar a expe-
riência no homem. A resposta foi negativa,
mais por motivos jurídicos que propriamen-
te científicos, embora Carlos Foá, na ocasião
em São Paulo, aprovasse a idéia. De Marco
mantinha fixa essa idéia e sempre que apre-
sentava oportunidade retornava ao assunto.
Foi assim que em Paris insistiu no tema
(Press Medicale).
Na realidade, nesse jogo de "pode não po-
de", o Brasil perdeu a oportunidade de as-
sumir o pioneirismo nesse campo. Os russos
tomaram a dianteira e puseram a questão
no prato da medicina extrema. O cientista
brasileiro lamentava profundamente esse fato
e quando entrevistado, dizia: "f: necessária
a abertura de campo, em nosso Brasil, para
quem esteja aparelhado e com mais auto-
ridade para aplicàr no homem a parabiose,
seja como método de estudos preliminares,
seja como técnica de aplicação clínica. Só
assim será possível a competição com os
russos".
A aplicação da parabiose pode ser tempo-
rária, isto é, pode-se ligar e desligar, ocor-
rendo com isso perigo relativo. A ligação
Brasil perdeu ocasião de ser pioneiro
O homem De Marco era. às vezes. alegre
e extrovertido. O relax das duras experiências era obtido
através de um bom jogo debochas
permanente só deverá servir para os casos
irreversíveis. Se Salomão ao invés de inge-
rir sangue de crianças, pudesse enxertar um
bebê em seu corpo, por algum tempo, os
resultados teriam sido mais palpáveis e me-
nos sangrentos.
Fótons que se
materializam em elétrons
Pesquisando os mais variados campos da
ciência, Frederico De Marco realizou em
Araraquani, em 1944, importante experiên-
cia sobre o efeito da colisão de fótons. Essa
experiência despertou, inclusive, o interesse
de Einstein, demonstrado através de carta
enviada ao cientista brasileiro. Conseguindo
bons resultados nesse trabalho, De Marco
remeteu nota prévia à Academia Brasileira
de Ciências; à Science Academy, de Wash-
ington e também à entidade congênere, de
Buenos Aires, salientando que embora de-
pendendo de experiências de suma precisão,
"trata-se de uma nova tentativa experimen-
tal , que talvez encerre um vasto e promissor
programa de indagações sobre a natureza da
luz (fótons).
Dizia ainda, que "a interdependência entre
a matéria e a luz, entre corpúsculos e radia-
ções propriamente ditas, está bem definida
pela teoria e pela experiência, formando um
dos mais fascinantes capítulos da física de
nossos dias que confina no princípio da
identidade da-matéria e da energia. Há uma
equivalência entre elétrons que se transfor-
mam em fótons e fótons que se materializam
em elétrons".
O próprio cientista admite considerações di-
versas, resultantes dessas experiências. Ob-
jeções vagas não eliminam as dúvidas de
que na realidade a formação dessas enti-
dades necessita de fatores heterogêneos. Se,
De Marco/29
por exemplo, a matéria for bombardeada
com raios gama, não se pode afirmar que
esses raios se transformem, fatalmente, pois
tem-se a JTiatéria bombardeada, contendo
esses elementos corpusculares. Parece existir
na física certa contradição entre a interpreta-
ção dada à materialização dos fótons por
raios gama e aquela oferecida por Einstein
em efeito fotelétrico. Na primeira, o fóton
com raios gama se materializa, enquanto na
segunda, a luz simplesmente desloca um elé-
tron. Citando Broglie, De Marco diz que o
cientista não esconde seu pensamento a esse
respeito, quando afirma: "Parece provável
que se algum dia surgir uma teoria ampla-
mente satisfatória sobre a natureza do fóton
se construir, ela se baseará nos pontos de-
fendidos pelo cientista brasileiro"
Energias desiguais
em conflito
Segundo afirmações de Frederico De Marco.
depois do fastígio da mecânica ondulatória,
qualquer teoria puramente corpuscular não
pode conter nenhum fator capaz de definir
sua freqüência, e daí a razão de se associar
a idéia da periodicidade. Se, realmente, en-
tre ondas e corpúsculos não há senão a dife-
rença das "duas caras complementares, de
uma realidade igual", por que não experi-
mentar com os fótons, livremente, e fazê-los
chocar, cruzar, etc., entre si, respeitando-se,
porém, as leis das transformações energé-
ticas mencionadas por Einstein?
A materialização dos raios gama, que são
fótons, pode ocorrer independentemente do
processo dos relativos níveis de energia e do
princípio de correspondência. Raman, físico
indiano, já tinha se aproximado um pouco
nesse sentido. O mesmo pode acontecer com
outros fótons, sem que haja, necessariamen-
30/ Personagens extraordinários
te, impactos com matéria, deixando assim, a
dúvida de que não houve a conversão puni,
direta e absoluta, do fóton em matéria pre-
existente.
Prosseguindo em seus estudos, Frederico
acreditava em nova perspectiva, segundo a
qual , certos fótons poderão condensar-se em
massa e em eletricidade, obedecendo ao dua-
lismo da física, não sendo sempre necessário
respeitar o formalismo real já conhecido.
Um fóton poderá ter um antifóton que não
será, obrigatoriamente, um ente conhecido,
podendo mesmo diluir-se pelas paragens por
onde andaram Pauli e Fermi e muitos ou-
tros roedores de átomos, dos tempos mo-
dernos. Não deve ficar implícito, entretanto,
que cada fóton possa voltar a ser uma uni-
dade de matéria atômica. Poderá ser uma
fração que escapará por muito tempo ao po-
der de apreensão experimental.
Tal idéia, puramente conceituai, não influi
sobre este assunto cardial que é o de rever-
ter o fenômeno de materialização sem inter-
ferência de matéria golpeada pelos fótons.
Admitem-se fótons de maior massa, isto é,
de diferentes grandezas. É claro que o fóton
produzido pela destruição de posítron seja
maior que o do fóton de um elétron. É pos-
sível que no impacto (colisão) de fótons
contra fótons para fazer recuar um raio pre-
mido pelo outro, tenha necessidade de ener-
gias desiguais em conflito e talvez predeter-
minadas. Na lâmpada comum de luz elé-
trica, qual seria a inversão do processo? Não
pode haver outro caminho: o impacto de luz
contra luz, pois a cobra não pode engolir a
si mesma.
O choque dos fótons deve operar-se em am-
biente neutro incapaz de reagir e modificm
a clareza ou a evidência da demonstração a
dar. Talvez a solução do dispositivo ideal
esteja na combinação de aparelhos e, sobre·
tudo, na manobra estratégica necessária pa-
ra produzir o efeito desejado no vácuo, em
tubo hermeticamente fechado, procedendo
depois a operação de removê-lo, recolocan-
do-o em um ambiente onde se possa iden-
tificar o efeito ou medir a energia das "ca-
ras" (contadores proporcionais)
Usina de energia
cósmica no Brasil
É evidente que uma câmara de expansão
de Wilson, contendo ar, não poderia ser di-
retamente utilizada para esse fim, esclarece
o cientista Frederico De ,Marco. Como nu-
ma cidade do interior (Araraquara), não se
pode competir com os grandes centros cien-
tíficos, De Marco apelou para Raman, Eins-
tein, Dempster, Dirac, Thibaut, B!ackett,
Fermi e outros e recorreu à Academia   r a ~
sileira de Ciências, sem preocupações de
vencer ou ser vencido. Sua experiência com
dois tubos de raios X contrapostos, focali-
zados em tubo de vácuo, distante de metais
e blindado com chumbo, é bastante interes-
sante, pois o choque de dois raios aumenta
a carga do tubo, não na mesma proporção
da soma de duas cargas, aplicada sucessiva-
mente e isolada pelo tempo não convergente,
porém, iguais. Frederico De Marco insistia
em afirmar que todos os esforços de ordem
experimental ainda exigiam controle rigoroso
de experimentação mais perfeita.
Quando em 1946, alguns jornais de São
Paulo estamparam manchete na primeira
página: "Bomba atômica em São Paulo",
muita gente ficou espantada. O fato entre-
tanto colocava novamente em evidência o
nome e a capacidade do cientista Frederico
De Marco. Por determinação do presidente
da República e através do Estado-maior do
Exército e Serviço Nacional de Defesa, Fre-
Seus estudos sobre raios cósmicos eram arrojados
32/Personagens extraordinários
derico De Marco e Mauro Ricardo Lehmann
foram incumbidos de apresentar seus estu-
dos sobre energia nuclear, aos militares res-
ponsáveis pelo comando dos. órgãos de de-
fesa. Recomendou ainda, o presidente da
República, a continuação desses estudos,
considerados"como a mais arrojada iniç.ia-
tiva, no terreno da física atomística", pelos
professores L Lopes, lente de física teórica
da Faculdade Nacional de Filosofia, João
Cardoso, catedrático de física-química e
Costa Ribeiro, lente de física superior, da
mesma faculdade.
A exploração do campo relativo à produção
de força cósmica, no Brasil, apresentava as-
pectos altamente positivos diante da facili-
dade de se encontrar urânio e tório, em gran-
de quantidade, em inúmeras regiões brasi-
leiras, a ponto de provocar a cobiça por
parte de grandes potências. Um geólogo e
mineralogista destacou a existência de enor-
me jazida de pechblenda com alto teor de
urânio, entre Ubá e Pomba, no Estado de
Minas. Avaliou tais depósitos em cerca de
trinta mil toneladas de minério bruto. Ou-
tra jazida foi assinalada na ilha de Bananal.
Esta porém, contendo pouca quantidade de
mineral. A pechblenda tem sido encontrada
seguidamente em todo o Estado de Goiás e
Minas, principalmente na região do rio Ara-
guaia. O tório também é descoberto com
freqüência, misturado com as areias das
praias, no Norte do país.
Segundo demonstração feita pelos cientistas
brasileiros, em torno da produção de ener-
gia cósmica, o processo representava uma
síntese dos métodos utilizados pelos norte-
americanos, ingleses e franceses, porém, já
corrigidos os defeitos, bastante conhecidos
dos estudiosos brasileiros. Dessa forma não
haveria perda de t   ~ p o e tampouco gastos
inúteis. Afirmavam ainda De Marco e Leh-
mano que o Brasil tinha condições para pro-
duzir a energia atômica com um custo cem
vezes menor que nos Estados Unidos.
Destacavam também os jornais da época
(outubro de 1946), que o plano completo
para a instalação de grandes laboratórios,
numa capital do Brasil, estava quase pronto
para ser entregue ao Estado-maior do Exér-
cito e que a planta vinha sendo elaborada
por técnicos de gabarito. Nesse plano pre-
viam a mobilização geral. dos cientistas e es-
tudiosos de todo o país para um trabalho
conjugado. Garantiam os noticiaristas que
aproximadamente mil pessoas já estavam
colaborando ativamente, na consecução do
programa preconizado pelas Forças Arma-
das. Dentre essas pessoas, três ocupavam po-
sição de destaque: Frederico De Marco, R.
Argentiéri e Mauro Ricardo Lehmann.
Fabricação
de chuvas
Com essa gigantesca usina de energia cós-
mica, o Brasil pretendia transformar-se nnm
dos países vanguardeiros da civilização con-
temporânea, igualando-se às grandes potên-
cias. Aliás, em 13 de novembro de 1937,
R. Argentiéri, em artigo publicado em di-
versos jornais, antevia a possibilidade do
Brasil se projetar no campo da energia cós-
mica. O texto original desse artigo sofreu
profundos cortes por parte da censura insta-
lada pelo movimento getulista.
Fabricar chuvas tem sido uma constante
preocupação de inúmeros cientistas. Nos
Estados Unidos, por exemplo, destacaram-se
Schaeffer e Langmuir. No Brasil quando se
fala em chuva artificial, imediatamente ocor-
re o nome de J anot Pacheco, popularmente
conhecido por "Manda-chuva". Todavia,
poucas pessoas sabem que o pioneiro nesse
campo foi Frederico De Marco. Aliás, essa
prioridade foi proclamada, inclusive, pelo
professor italiano, Luiz Santomauro, meteo-
rologista do Observatório Astronômico de
Brera (Milão), em conferência pronunciada
no Instituto Lombardo de Ciência Facy e
Rouleau.
Desde 1914 De Marco vinha cogitando de
fazer chover e, em 191 7, estando em Bue-
nos Aires, realizou os primeiros ensaios, com
ar líquido.
Somente em 1940 voltou a efetuar novas ex-
periências, procurando aperfeiçoar seus mé-
todos, nesse espaço de tempo. Inicialmente
utilizou aviões teco-teco para lançar subs-
tâncias especiais, sobre as nuvens carrega-
das. Essa prática foi adotada também pelos
norte-americanos, em 1946, havendo assim,
coincidência com os métodos de Frederico.
Rojão para
provocar as nuvens
Apenas os processos eram diferentes. Lang-
muir usou anidrido carbônico solidificado a
79 graus abaixo de zero, ou seja o conhe-
cido gelo seco. Como nessa ocasião De Mar-
co não conseguia o gelo seco, em São Paulo,
lançou mão de outras substâncias: ar líqui-
do, iodeto de prata, nitrato de sódio etc. Em-
bora não contasse com os recursos dos ame-
ricanos e até enfrentando sérios problemas,
Frederico De Marco fabricou chuva.
Prosseguindo, De Marco concluiu que ata-
car as nuvens por meio de aviões não pro-
duzia resultados amplamente satisfatórios e
oferecia perigo. :b normal o piloto fugir das
nuvens escuras, porque geralmente estão em
turbulência. Atravessá-las é tarefa difícil e
muito çerigosa. Em 1947, um piloto da RAF
que acompanhava Frederico no ataque às
nuvens, ficou em apuros para escapar de
De Marco/33
uma tempestade causada pela provocação da
chuva. Um ano mais tarde, outro piloto ati-
rou inadvertidamente, sobre as nuvens, to-
da a substância utilizada para provocá-las
(o processo deveria ser realizado em eta-
pas) e, em conseqüência, desabou sobre São
Paulo violenta chuva de pedras com blocos
de até dois quilos. Segundo esclarecimentos
de De Marco, o ataque às nuvens, em meios
térmicos, produz melhores resultados. Desse
ataque, segue violenta reação adiabática e
desta nasce a chuva. O processo sob o pon-
to de vista físico se afigura simples, entre-
tanto, a prática é complexa e sujeita a fa-
tores instáveis.
Além desses problemas, Frederico se ressen-
tia, também, da falta de maiores recursos fi-
nanceiros e, principalmente de apoio. Quan-
tas vezes ele lembrava do apelo que lhe
fizera, certa ocasião, um prefeito do interior
paulista, no sentido de debelar a seca que
assolava a região, não sendo atendido. De
Marco tinha a solução científica, porém, ne-
cessitava de um avião para aplicá-la e esse
aparelho tão simples lhe foi negado. Esbar-
rou no desinteresse total demonstrado pelos
aeroclubes e inclusive pelo próprio Governo
do Estado.
Diante desses problemas, Frederico abando-
nou a idéia do avião, planificando e criando
um foguete, relativamente simples e de baixo
custo. O foguete funcionava à base de hi-
drogênio e em sua chama ( 1 3 70°C), in-
jetava 300 g de iodeto de prata. Essa subs-
tância, passando ao estado de vapor, tem a
capacidade de se elevar ao ar e de conden-
sar-se instantaneamente, num fluxo de partí-
culas submicroscópicas. Tais partículas che-
gam até as nuvens e se comportam como
núcleos de condensação, formando pesadís-
simos cristais de gelo que vão caindo e se
desmanchando e atingem o solo sob forma
No alto desta torre (hoje derrubada) estavam as caixas
negras que captavam os raios cósmicos
Eu era criança e De Marco era Ull• mito em mi-
nha terra, Araraquara. Estranho mito. Vinte e
cinco anos atrás, uma cidade dC> interior era uma
ilha isolada do mundo. Telefones de manil•e/a, um
ou dois jornais que chegavam diariamente, as pou-
cas re1•istas existentes, o rádio. Transporte: dois
trens diários para São Paulo. Fechada em si mes-
ma, a cidade, como todas as outras, era um poço
de preconceitos. Natural que De Marco fosse olha-
do estranhamente. Lembro-me bem de sua figura:
baixo, gordo, cabelos compridos, grisalhos, sempre
arrepiados. O que interessa a aparência? De Mar-
co era médico, mas sua clientela era particular,
apenas os que confiavam nele. Grande parte da
população o via como um bruxo, louco, alguém
para ser mantido a distância. Com o tempo, o mito
De Marco atet:uou. A imprensa paulista, carioca
e estrangeira dando intensa cobertura ao cientista
serviu para mostrar o valor daquele pesquisador
isolado, lutando com os próprios recursos e contra
a incompreensão geral. Criança ainda, eu era co-
roinha na matriz. Um dia, o vigário me deu a cha-
ve da torre e pediu que "acompanhasse o doutO/
De Marco", para ajudá-lo. Subimos à torre da
igreja. Era um dos pontos mais altos da cidade. Na
torre (a igreja não existe mais, foi destruída pelo
progresso, para construírem uma matriz moder-
nosa) havia uma cúpula de zinco. Ali, De Marco
instalou uma caixa preta, fechada. Era parte de
sua pesquisa sobre raios cósmicos, trabalho tam-
bém pioneiro no Brasil. Eu o encontrei anos mais
tarde, fins de 59, começo de 60. Eu já era então
repórter do jornal última Hora e fui encarregado
de fazer uma entrevista com um cientista. Quando
cheguei ao hotel, era De Marco. Foi a última en-
trevista que ele deu a um jornal de São Paulo. Me-
ses depois, morria. Para mim, De Marco foi um
gênio maldito. É necessário compreender aqui o
sentido em que usamos maldito, em Planeta. É o
de inteligência à margem, homem fora do comum,
incompreendido. Um homem· do futuro, vivendo
no presente.
Ignácio de Loyola
de chuva.
Experiências realizadas no Novo México,
nos Estados Unidos e em Araraquara, Bra-
sil, mostraram resultados positivos, "indi-
cando que muito em breve o homem terá a
chuva quando desejar, através de um enge-
nho e de substâncias de preços acessíveis".
Aplicando a
medicina na Itália
As andanças de Frederico pelos caminhos
da ciência física não faziam interromper
seus avanços dentro do campo biológ1co.
Cada paciente era sempre um caso novo a
merecer especial dedicação e profunda aná-
lise. Daí, o acerto de seus diagnósticos. Na
própria Itália ele demonstrou sua capacidade
como médico, cuidando de "Gabrielino", fi-
lho do notável poeta Gabriel d'Annunzio. O
moço estava desenganado. Restava a tenta-
tiva de uma intervenção cirúrgica, recomen-
dada por uma junta médica. Os diagnósticos
e exames indicavam um tumor no cérebro e
mesmo com a operação, eram remotas as
esperanças de s-alvá-lo. Gabriel d' Annunzio
desesperado lembrou-se de Frederico De
Marco que nessa ocasião se encontrava na
Itália. Sabia ter sido ele um dos mais re-
nomados assistentes de Augusto Murri, fa-
moso clínico italiano_. Imediatamente man-
dou buscá-lo em seu hidroavião. De Marco
examinou o rapaz e entendeu desnecessária
a intervenção cirúrgica e sem perda de tem-
po deu início a intenso tratamento clínico
e poucos dias depois, "Gabrielino" estava
completamente restabelecido. D' Annunzio
exultante agradeceu publicamente o médico
brasileiro, dizendo entre outras coisas: "Pa-
receu-me, pelo nome, filho del mio Abruzzo.
Esguio e acerbo. Duro e leal". Esse fato teve
enorme repercussão na Itália, a ponto de
De Marco/35
ser convidado para dirigir um dos mais im-
portantes hospitais de Bolonha. Frederico
não aceitou, unicamente para não perder sua
condição de brasileiro, pois embora não fos-
se compreendido no Brasil, ele amava esse
país, acima de tudo. E amou até a morte,
ocorrida no dia 23 de junho de 1960. Mor-
reu pobre, cumprindo sua nobre missão den-
tro do lema que ele mesmo traçou: "Jamais)
usufruirei vantagens financeiras dos meus in-
ventos e descobertas. Sou um intérprete de
Deus. Um intermediário entre Ele e a huma-
nidade. O resto não importa". ~   ;