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Sociologia e Economia Do Trabalho

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Fiscal do Trabalho

Telma Lage – Irineu Zibordi

ÍNDICE Introdução SOCIOLOGIA DO TRABALHO.................................................................. Trabalho.......................................................................................... Trabalho: ação, necessidade, coerção............................................ Divisão social do trabalho: exploração, alienação........................... População e emprego ..................................................................... População ocupada......................................................................... Desemprego e subemprego............................................................ Trabalho profissional e trabalho doméstico (trabalho domiciliar)........ Taylorismo (fordismo)/Toyotismo ................................................... Trabalho artesanal, manufatura, grande indústria........................... Determinismo tecnológico............................................................... Trabalho parcelar e integral............................................................. Empresa.......................................................................................... Poder e decisão na empresa........................................................... Valores do Trabalho (valores e atitudes)......................................... Valor do trabalho; Sistema de assalariamento................................ Psicossociologia do contrato de trabalho ........................................ O Movimento operário, sindicalização e militantismo...................... Greves e conflitos trabalhistas................................................ ECONOMIA DO TRABALHO Conceitos básicos........................................................................... Economistas clássicos .................................................................... Mercado de trabalho.............................. ......................................... Determinação dos salários.............................................................. Curva da oferta de trabalho............................................................. Keynes e o desemprego.................................................................. Tipos de desemprego...................................................................... Desemprego friccionai, estrutural, cíclico........................................ Taxa natural de desemprego........................................................... Mercado de trabalho no Brasil......................................................... Mercado de trabalho formal e informal............................................ A Intervenção governamental: políticas de salário e emprego........ Modelos tradicionais sobre o papel do sindicato............................. Monopólio bilateral e monopsônio ........................................ 27 30 33 34 36 36 37 38 39 40 40 42 43 44 02 03 04 05 06 08 10 10 12 14 15 16 16 18 19 21 23 23 25

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NOÇÕES DE SOCIOLOGIA E ECONOMIA DO TRABALHO INTRODUÇÃO: O que é 'trabalho'? Se respondemos que 'trabalho' é toda "atividade desenvolvida com a finalidade de atender às necessidades humanas", vislumbramos o largo campo de abrangência de tal conceito: as necessidades humanas são as mais variadas e o esforço de atender a elas acompanha o homem como uma maldição ("comer o pão com o suor do rosto"!) ou como uma bênção ("o trabalho dignifica e enobrece o homem!"). Decorre daí que o trabalho pode ser objeto de estudo de várias ciências, e particularmente as ciências humanas - antropologia, história, sociologia, direito, economia (para quem o trabalho é um dos fatores de produção, ao lado do capital e da matéria-prima), psicologia, a ciência política, por exemplo - não podem deixar de considerar o trabalho humano no âmbito de suas investigações. E vamos mais adiante para afirmar que a complexidade do fenômeno exige abordagem interdisciplinar, se pretende chegar a algum resultado. Neste sentido é a sociologia do trabalho que pretende uma visão mais ampla da questão; "Toda e qualquer coletividade de trabalho que apresente traços mínimos de estabilidade (...) pode ser objeto de estudos para a sociologia do trabalho: assim uma empresa industrial como um navio transatlântico ou um barco de pesca, tanto uma grande propriedade em que se pratica a agricultura intensiva quanto uma fazendola em que trabalham alguns empregados com a família do fazendeiro, não só uma grande loja popular, mas também uma lojinha que emprega alguns vendedores, uma oficina de artesão e uma repartição municipal, a tripulação de um avião, que se reveza a intervalos regulares numa linha de navegação aérea ou o pessoal de uma automotriz ..." (FRIEDMANN - 81, p. 37) (Destas considerações já podemos concluir que a regulação do trabalho, através de normas jurídicas, esbarra em sérias dificuldades de ordem prática: como estabelecer normas, genéricas e abstraías, que se apliquem a gamas tão variadas de atividades?)

SOCIOLOGIA DO TRABALHO Vamos entender a sociologia do trabalho "como o estudo, nos diversos aspectos, de todas as coletividades humanas que se constituem graças ao trabalho." (FRIEDMANN - 73, p. 37) Quando falamos em 'coletividades humanas', não estamos esquecendo o indivíduo, somente que à sociologia interessa o estudo do trabalho como fato social, e o resultado da inserção do indivíduo na atividade produtiva, isto é, como o trabalho do homem produz cultura, e como esta cultura 'produz' o homem, transformando-o em sua subjetividade. Por exemplo, vamos observar o trabalho de um torneiro mecânico (Paulo, como o apelida o autor a que recorremos), sob diversos ângulos; técnico, fisiológico, psicológico, social, econômico, como se segue. (1) ângulo técnico: a partir de seu 'posto de trabalho': "este compreende a máquina de Paulo, a força motriz que a alimenta, a disposição intrínseca dos órgãos, a sua relação com as máquinas vizinhas, o
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sistema de alimentação, as intervenções que exigem do operador..." (2) ângulo fisiológico (aspecto da fadiga): o ambiente onde Paulo desenvolve suas atividades possui características de luminosidade, temperatura, ventilação, nível de ruídos etc. que atuarão sobre Paulo, cujo corpo (força muscular, comprimento dos braços, sistema muscular, respiratório, nervoso) deve se adaptar ainda à máquina que ele opera. (3) ângulo psicológico: sob este aspecto indagamos das repercussões do trabalho na 'atividade psíquica de Paulo': qual o grau de satisfação ou de frustração que o trabalho traz para Paulo? Como responde ele (sob ponto de vista afetivo e moral) às oportunidades, aproveitadas ou perdidas de ascensão profissional? Como interferem em sua personalidade as experiências do trabalho? (4) ângulo social: Paulo não passa todo o tempo na empresa; como seu trabalho repercute nas suas relações familiares e sociais? (FRIEDMANN - 73, p. 27). Lembramos que as investigações acerca de Paulo são extensíveis a um grande número de indivíduos que trabalham nas mesmas circunstâncias, já que as unidades de trabalho se organizam de forma semelhante em determinado momento histórico. A sociologia do trabalho investiga ainda outros "problemas da mão-de-obra, migração, imigração, distribuição na coletividade de trabalho, de acordo com as raças, os sexos, a idade etc; a natureza e a distribuição das categorias profissionais em sua relação com a evolução do progresso técnico, o absenteísmo, o rodízio de pessoal (turnover), o desemprego, a aposentadoria...."(FRIEDMANN -73, p. 39) Nesta multiplicidade de situações não se pode perder de vista o homem, como um todo, e sua inserção social através do trabalho.

TRABALHO:

Temo-nos referido a situações de trabalho na sociedade industrial, mas relações de trabalho se estabelecem em toda comunidade, ou sociedade política e, por isto convém analisar mais detidamente o fenômeno do trabalho. Acrescentamos à definição já dada ( primeiro parágrafo da introdução) outras que se prendem ou ao caráter de 'utilidade' gerada pelo trabalho humano ou ao caráter de interação com a natureza. Da primeira corrente temos : " o trabalho é o emprego que faz o homem das suas forças físicas e morais para a produção de riquezas e serviços." (Colson); ou "o trabalho humano consiste em criar utilidade" (Bergson). (Ambos citados por FRIEDMANN - 73, p. 20). E da segunda corrente o expoente mais expressivo é MARX, que enfocou "a relação entre o homem e a natureza na atividade de trabalho". Vejamos um trecho d'O capital: "Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a natureza. (...) Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a natureza externa a ele, e ao modificá-la , ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza." ( MARX - 83, p. 149) Mais adiante Marx distingue o trabalho humano do trabalho organizado de alguns animais, também capaz de produzir utilidades: "Pressupomos o trabalho numa forma que pertence exclusivamente ao homem. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção do favo de suas colméias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. ( ... ) Além do esforço dos órgãos que trabalham, é exigida a vontade orientada a um
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fim, (...) Os elementos simples do processo de trabalho são a atividade orientada a um fim ou o trabalho mesmo, seu objeto e seus meios." É comum chamar o homem que desenvolve o trabalho como descrito acima de homo faber; no entanto é bom que se diga que a complexificação da sociedade industrial trouxe formas de trabalho que não implicam necessariamente "atividades de transformação", tais as atividades do setor de serviços, que se expandiram em grande escala no nosso século. TRABALHO: AÇÃO, NECESSIDADE E COERÇÃO A propósito convém distinguir 'labor' e 'ação', conforme fez HANNAH ARENDT, porque se tanto um como o outro termo se referem à atividade humana, a natureza destas atividades é diferente. De fato a autora mostra que na sociedade grega podia-se distinguir perfeitamente o 'labor' da 'ação'. O labor se desenvolvia no terreno da necessidade humana. Dizia respeito à faina do homem que deve arrancar da natureza os meios de sobrevivência, o alimento, o abrigo, as vestes, as ferramentas de que necessita. Todo homem tem necessidades, e neste sentido está privado da liberdade, mas à medida que se organiza politicamente, ocorre uma separação em classes, quando as classes dominantes relegam às outras classes as tarefas do labor. Estes últimos estariam privados da liberdade, na medida que condenados à busca dos elementos necessários não apenas à satisfação de suas necessidades, mas sobretudo às das classes dominantes. No espaço privado, isto é no espaço domiciliar, é que se desenvolvia o labor. Bem sabemos que o espaço 'privado' é reservado preferencialmente às mulheres e aos serviçais. De fato o labor se identifica na sociedade antiga e na sociedade medieval com o trabalho escravo. Assim é que a 'privação', situação genérica fruto da 'condição humana', passa a certa altura à privação da liberdade de muitos, os destinados ao labor, geralmente no regime de escravidão ou servidão, para o proveito de poucos., os 'cidadãos livres", titulares de poderes políticos, e, portanto, sujeitos de 'ação'. (ARENDT - 81) A ação seria, pois, atividade humana, mas dos 'homens livres', livres do labor, e livres, porque titulares de uma situação jurídica que os diferençava dos escravos, em um primeiro momento, e dos estrangeiros e das mulheres, em um segundo momento, já que estes, mesmo quando não-escravos, estavam desprovidos de direitos políticos. O local da 'ação' é o espaço público, a polis, e novamente aqui aparece a contraposição privado/público, associada à contraposição laboração. Ensina a autora que entre o 'labor' e a 'ação' se intrometeu o 'trabalho', este, diferentemente daqueles, tem um fim, que é um bem, não para uso imediato, mas um valor de troca, uma 'mercadoria', ou seja, algo que se destina às trocas no mercado. Como categoria intermediária está no meio do caminho entre o espaço privado, da 'oikós' (= casa), e da 'polis', já que, se fabricado fora da cidade, deve ser levado ao mercado, na cidade, para ser comercializado. Também o agente do trabalho nem é o escravo, já que sua atividade pressupõe talento e habilidades pessoais, mas também não é o cidadão, titular de direitos políticos. Percebe-se nesta categoria a formação do burguês, que se define como classe, a partir do séc. XVIII. É de grande alcance a análise acima. Por ela percebemos que ao labor/trabalho está associada um elemento de coerção. De fato, da mesma maneira que o escravo, muitos operários desenvolvem com desprazer o seu trabalho, e só o fazem porque sofrem um tipo de coerção, que chamaríamos moral, social ou jurídica. "Do ponto de vista da subjetividade característica do ato do trabalho, temos para nós que o elemento de coação, sentido pelo trabalhador, é específico e diferencia as atividades do trabalho das que lhe são alheias...." (FRIEDMANN - p. 23)
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Aliás, só por exceção percebemos associação entre trabalho & prazer, segundo a fórmula "unir o útil ao agradável". Talvez no trabalho do artista, do escritor, do pintor, ou dos que conseguem grande sintonia entre suas aptidões e sua inserção no mercado se alcance a idéia do trabalho como 'ação' e, portanto, liberdade. "O trabalho é ação quando se alimenta de uma disciplina livremente aceita, como, às vezes, a do artista que realiza uma obra de fôlego, sem ser premido peia necessidade". (FRIEDMANN - 73, p. 23) Associar trabalho & coerção quando as sociedades modernas aboliram de há muito os regimes servis, exige que se caracterize melhor o alcance da 'coerção'. Esta pode ser vista como 'interna', quando é do próprio indivíduo que parte o impulso para o trabalho: novamente nos voltamos para os artistas, que se dedicam com afinco à sua expressão, ou os 'idealistas' que encontram sentido no esforço que desenvolvem.. Mas é a coerção externa - a força física, a persuasão moral, coação econômica - que mobiliza os indivíduos para o trabalho. Da primeira são exemplos os trabalhos forçados, que ainda são admitidos em algumas sociedades; já a pressão social, que desaprova o 'parasita' que não contribui para o processo de produção tem grande importância na sociedade do trabalho, embora seja a 'necessidade econômica' o fator definitivo de coerção que garante os mecanismos de produção. Devemos acrescentar que às necessidades fundamentais (alimentos, vestuário, abrigo), a sociedade de consumo acrescentou necessidades 'artificiais', de bens supérfluos, que no entanto adquiriram enorme importância para o homem moderno. Há aqui uma contradição: a busca de um estilo de vida mais prazeroso, e que inclua direitos à cultura e ao lazer, por um lado enriquece a vida do indivíduo; por outro lado obriga-o a um esforço suplementar - trabalhar mais - para alcançar estes bens. Daí que a diminuição das jornadas de trabalho - mais tempo para o lazer, mais tempo para a família - levam freqüentemente, ao duplo emprego, e ao engajamento dos outros membros da família no trabalho, tudo em nome do aumento de renda/ aumento de consumo, levando, pois, a um círculo vicioso. DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO - EXPLORAÇÃO E ALIENAÇÃO Sabemos que as idéias de organização, coação, disciplina, obrigação estão presentes nas relações de trabalho. Sabemos também que o trabalho moderno levou às últimas conseqüências a 'divisão de trabalho', alimentando o processo de exploração e de alienação. Mas o que representa a 'divisão de trabalho'? Mesmo as sociedades primitivas conhecem uma divisão 'natural' do trabalho, que é a que se dá pela especialização das funções, segundo as habilidades e talentos inatos dos indivíduos. Assim é que os mais lentos se dedicam à pesca, enquanto os mais ágeis/magros á caça, as mulheres ao cuidado dos filhos etc. e a especialização leva a um melhor rendimento, o que se dá em proveito do grupo. Já no modo de produção capitalista, ocorre uma divisão social do trabalho, que consiste na distribuição do capital pêlos vários ramos da produção. Em outras palavras, há uma a locação do capital em atividades diversificadas, para atender a diferentes demandas. Por outro lado esta divisão se estende ao interior do processo de produção, na medida em que é reservado às classes não-proprietárias o trabalho subordinado. Neste segundo sentido a divisão social do trabalho vai além do aspecto técnico (divisão horizontal/ distribuição de tarefas), mas remete a uma divisão social (sentido vertical), a uma hierarquia, que se estabelece entre o capitalista e o trabalhador. De fato na empresa a divisão do trabalho é "planejada, regulada e supervisionada pelo capitalista, já que é um mecanismo que pertence ao capital como sua propriedade privada". Nesse processo às vezes é reservado ao operário apenas a função de apertar um parafuso, o de n. 999, como CHAPLIN mostrou no filme Tempos modernos', resultando dai o estranhamento do trabalho abstrato, uma completa alienação do trabalhador.

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Há, portanto, alienação quando o trabalhador não se reconhece no fruto de seu trabalho, como acontece no modo de produção capitalista, onde "nenhum trabalhador individual produz uma mercadoria; cada trabalhador é apenas um componente do trabalhador coletivo, a soma de todas as atividades especializadas." (DICIONÁRIO MARXISTA - p. 113) Obs. Fala-se ainda em 'divisão internacional do trabalho', que atingiria os países, de modo a que cada um identifique as “vantagens comparativas”(*), isto é, os setores da produção aos quais é vantajoso se dedicar. "Será que os Estados Unidos se devem especializar em computadores, comprando carros aos japoneses e petróleo à OPEP? Tal poderia ser o padrão de produção eficiente, de acordo com o qual cada região produzisse segundo a sua vantagem comparativa." (SAMUELSON/NORDHAUS - 88, p. 65) Paralelo ao conceito de alienação aparece o de exploração. Para MARX sendo o trabalho o principal fator de produção de riquezas, e sendo a remuneração do trabalho inferior ao preço que o capitalista obtém no mercado pela mercadoria, essa diferença, a mais-valia, é que proporcionaria lucro ao empregador. Em outras palavras: "Marx definiu a exploração como a diferença entre o contribuição do trabalhador para a produção e o salário por ele obtido. Devido ao trabalho ser, na perspectiva marxista, a única fonte de tudo aquilo que é produzido, todos os lucros, juros e rendas não passariam de exploração do trabalho." (SAMUELSON/NORDHAUS - 88, p.727) POPULAÇÃO E EMPREGO Se a população total de um país depende dos processos de produção, nem toda ela está diretamente envolvida com esse processo. Daí ser importante identificar na população total, aquela parcela economicamente ativa, isto é, diretamente envolvida nos processos de produção e que chamamos População Econômica Ativa: P E A; em seguida vamos diferençá-la da parcela da população que está inativa; entre os inativos encontram-se aqueles que por serem bastante jovens (crianças) ou velhos (aposentados, inválidos etc.) ou ainda por pertencerem a determinados segmentos sociais (mulheres, ricos, ou extremamente pobres, mendigos) estão alijados do mercado de trabalho e não procuram por emprego. Já entre os ativos encontram-se todos que, considerados aptos a trabalhar, estão empregados ou à procura de emprego. Neste momento convém fazer uma observação: o trabalho em sua complexidade é alvo de diferentes enfoques. Sob enfoque jurídico, distingue-se o contrato de trabalho lato sensu, que envolve a prestação de serviços ou a produção de um bem, mas com autonomia, e que é regulado pelo Código Civil contrato de empreitada, contrato de prestação de serviços - do contrato de trabalho stricto _______________________ (*) 'Vantagem comparativa' é um referencial de que um país lança mão para decidir da conveniência de exportar ou importar um determinado bem. A vantagem absoluta diz respeito à produção a custos mais baixos, a vantagem comparativa à distribuição a preços mais baixos. Daí que "um país deve especializar-se na exportação dos bens que produz a preços relativamente mais baixos, e importar aqueles em que seu custo de produção é relativamente mais alto."(SAMuELSON/NORDHAUS - p. 1136) sensu, por conta alheia, com subordinação, ou contrato que gera vínculo de emprego e está definido na CLT, art. 442 e ss., c/c art. 2° e art. 3° , que definem empregador e empregado. Isto porque em sede de sociologia e economia do trabalho estes critérios não são levados em conta, considerando-se
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empregado, toda pessoa que desenvolve atividade remunerada, num lapso de tempo determinado, por conta própria ou por conta alheia. Para maior clareza, vejamos o que diz um sociólogo: "Se o emprego pode ser definido como o conjunto das formas de atividade remunerada durante dado período, em compensação o não- emprego assume diversas formas bem distintas. Poder-se-iam enumerar as seguintes: o não-emprego resultante de incapacidade física (quer em forma absoluta como ocorre na infância e na velhice, quer em forma relativa, como em caso de acidente ou moléstia); o que resulta do parasitismo (certas formas de renda, a vida às expensas de outros indivíduos ou grupos); o que decorre da ausência de oferta de trabalho (desemprego); o que é imposto por certas instituições (obrigações militares, coletividades religiosas)". (NAVILLE in FRIEDMANN - 73) Algumas dessas formas levam ao enquadramento do indivíduo na população ativa (o desempregado devido a ausência de oferta de trabalho), e outros na inativa (os que não estão disputando um lugar no mercado de trabalho). Entre os ativos há que fazer uma distinção entre os alceados no setor produtivo e aqueles do setor improdutivo. Atenção à distinção entre setor produtivo e improdutivo, mais fácil de perceber no início da revolução industrial: ali se via claramente os assalariados cujo trabalho se prendia diretamente à produção de mercadorias, ao setor produtivo: eram os empregados das fábricas e indústrias; enquanto os assalariados que desenvolviam atividades administrativas ou aquelas ligadas à distribuição, estariam no setor improdutivo. Empregados domésticos e funcionários públicos seriam exemplos de assalariados improdutivos. (Também nas fábricas era possível distinguir-se os blue collars - os operários de macacões azuis, e, portanto produtivos, dos white collars, funcionários de escritório e, portanto, improdutivos.) "Improdutivos embora possam ser úteis (e até indispensáveis) são os trabalhos que não concorrem diretamente para a produção de valores (no sentido econômico). "(NAVILLE, in FRIEDMANN - 73, p. 175).

No quadro abaixo, percebemos melhor a distribuição da população: } população inativa População total } população ativa (P E A) } setor não-produtivo MARX diz a respeito: "se os trabalhadores produtivos são os que são pagos pelo capital e trabalhadores improdutivos os que são pagos pelo rendimento, é evidente que a classe produtiva se relaciona com a improdutiva como o capital com o rendimento." E acrescenta: "que bela organização faz suar uma jovem operária durante doze horas numa fábrica, para que o dono possa empregar, para seu serviço pessoal, e com uma parte do salário não pago a ela (a mais-valia), a irmã dela como criada, seu irmão como valet de chambre e o seu primo como soldado ou policial". Porém as relações de trabalho se complicaram muito desde então e já não se pode perceber com tanta nitidez a diferença entre trabalho produtivo e improdutivo, seja pelo crescimento do setor de serviços, (hoje se fala em indústria do lazer, indústria da beleza, indústria da saúde, com referência a serviços vendidos como mercadorias); seja porque o Estado meteu-se em atividades produtivas (haja vista as
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} setor produtivo

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sociedades de economia mista e as empresas públicas) e assim há empregados públicos no setor produtivo.) Essa distinção é muito importante; "O equilíbrio e desenvolvimento da economia exigem uma proporcionalidade ótima entre as populações produtivas e as populações improdutivas. No nível da economia nacional, as incidências dessa relação se estendem em todos os sentidos: elas têm um aspecto demográfico (classes de idade produtiva), financeiro (custo da educação e da aposentadoria), econômico (equilíbrio geral da produção, do consumo e da acumulação)." (NAVILLE, in FRIEDMANN 73, p. 177) POPULAÇÃO OCUPADA A já referida complexificação do mercado de trabalho que, aliás, nunca apresentou nas sociedades tardiamente industrializadas como a brasileira a homogeneidade percebida nos países industrializados, já que a modernização entre nós não chegou a todos os setores e convivem formas arcaicas com formas modernas de apropriação da mão-de-obra, levou ao desenvolvimento de conceitos mais capazes de retratar a nossa realidade. Assim temos que, no âmbito do IBGE, a Pesquisa Mensal de Emprego - PME - trabalha com os seguintes parâmetros: a) Trabalho: considera-se como trabalho o exercício de • ocupação econômica remunerada em dinheiro, produtos ou somente em benefícios (morada, alimentação, vestuário etc.) • ocupação econômica sem remuneração, exercida normalmente pelo menos durante quinze horas por semana, ajudando membro da unidade domiciliar em sua atividade econômica, ou em ajuda a instituições religiosas, beneficentes ou de cooperativismo, ou ainda, como aprendiz ou estagiário. b) Pessoas ocupadas - Consideram-se como ocupadas na semana de referência as pessoas que, nesse período ou em parte dele, trabalharam, ou tinham trabalho, mas não trabalharam, como, por exemplo, pessoas em férias. c) Pessoas desocupadas - consideram-se como pessoas desocupadas aquelas que não tinham trabalho na semana de referência, mas que estavam dispostas a trabalhar e que, para isto, tomaram alguma providência efetiva para conseguir trabalho ( no período de referência). d) Pessoas economicamente ativas - PEA - Consideram-se como economicamente ativas as pessoas ocupadas e desocupadas. OBSERVAÇÕES: • As definições acima foram estabelecidas para uma determinada pesquisa (P M E) e os parâmetros temporais - idade mínima para integrar a PEA, intervalo de tempo em que o pesquisado esteve ocupado ou procurando por emprego etc. - podem sofrer variações. • Entre as pessoas ocupadas se encontram os trabalhadores por conta própria, empregadores, biscateiros e não apenas empregados.

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• As definições jurídicas (de empregado, empregador, autônomo não coincidem necessariamente com as definições para efeito de pesquisa). • Pesquisas como a PME não alcançam o desemprego oculto pelo trabalho precário, ou pelo desalento (ver definições abaixo) Pesquisa de Emprego e Desemprego - PED, também levada a efeito pelo IBGE, considera: • Desemprego aberto: pessoas de dez anos ou mais que procuraram trabalho de maneira efetiva nos trinta dias anteriores ao da entrevista e não exerceram nenhum trabalho nos últimos sete dias. • Desemprego oculto pelo trabalho precário: pessoas de dez anos ou mais que realizam de forma irregular algum trabalho remunerado ou pessoas que realizam trabalho não-remunerado a negócios de parentes e que procuraram mudar de trabalho nos trinta dias anteriores ao da entrevista ou que, não tendo procurado nesse período, o fizeram até doze meses atrás. • Desemprego oculto pelo desalento e outros. - pessoas que não possuem trabalho e nem procuraram nos últimos trinta dias por desestímulos do mercado de trabalho ou por circunstâncias fortuitas, mas apresentaram procura efetiva de trabalho nos últimos doze meses. DESEMPREGO E SUBEMPREGO Das considerações acima já temos idéia do que aparece nas estatísticas como desemprego. Os órgãos de pesquisa americanos (*) adotam os seguintes parâmetros: "As pessoas com um posto de trabalho encontram-se empregadas; as pessoas sem um posto de trabalho, mas que procuram trabalho encontram-se desempregadas; as pessoas que não têm um posto de trabalho e não procuram trabalho encontram-se fora da população ativa. A taxa de desemprego corresponde ao número de desempregados dividido pela população ativa total. (SAMUELSON/NORDHAUS - 88, p. 253) (*) Sobre os critérios brasileiros ver o item anterior Obs. Não confundir o conceito de 'desemprego aberto' (ver acima), com a taxa de desemprego aberto: taxa de desemprego aberto é o quociente do número de desempregados dividido pelo total da população economicamente ativa. O subemprego é a situação em que "o emprego de uma pessoa é inadequado em relação a determinadas normas ou a empregos alternativos, tomando como parâmetro a qualificação deste indivíduo ( em termos de experiência ou treinamento de trabalho". Estão nesta situação as pessoas que trabalham involuntariamente jornada inferior à sua disponibilidade e que gostariam de trabalhar mais, além daquelas que desempenham tarefas aquém de seu preparo. Entre os subempregados estão os que percebem remuneração muito abaixo de padrões aceitáveis, que afeta trabalhadores não-registrados (trabalho precário),mas que ainda assim compõem a população ativa de um país.

TRABALHO PROFISSIONAL E TRABALHO DOMESTICO (TRABALHO DOMICILIAR)
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Verificamos que o trabalho 'produtivo' seria aquele diretamente envolvido na produção de mercadorias (e, portanto remunerado pelo capital), enquanto o trabalho doméstico se enquadra como 'improdutivo', remunerado pelo rendimento. (Aliás, a definição de trabalho doméstico na lei brasileira considera este aspecto, senão vejamos: Lei 5859/72 - Art. 1° : Ao empregado doméstico, assim considerado aquele que presta serviços de natureza contínua e de finalidade não lucrativa à pessoa ou à família, no âmbito residencial destas, aplica-se esta lei.) De maneira que a expressão trabalho doméstico é usada entre nós, para designar o trabalho prestado pelo empregado no âmbito residencial de seu empregador; já trabalho domiciliar refere o trabalho prestado no âmbito residencial do empregado para seu empregador, nos termos do art. 6°, CLT: "Não se distingue entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador e o executado no domicílio do empregado, desde que esteja caracterizada a relação de emprego." Para melhor entender a situação devemos mais uma vez recuar ao momento histórico da mudança no modo de produção feudal para o capitalista. Os artesãos, como veremos adiante, por serem trabalhadores livres, mantiveram autonomia advinda da posse dos meios de produção e da detenção de um saber, até que entre eles e os consumidores se interpusesse o comerciante. Neste momento, mesmo trabalhando em seu domicílio, à medida que produzia sob encomenda para apenas um 'cliente', o mercador, perde autonomia e se torna subordinado. Este processo se aprofunda quando o mercador passa a fornecer matéria-prima, ferramentas, determinar o preço, e termina pela transferência do 'artesão', agora subordinado, para a oficina, ou fábrica, ou seja, o trabalho domiciliar por conta alheia passa a ser exceção. Interessante notar que a revolução tecnológica voltou a admitir o trabalho domiciliar em duas situações bastante diferentes: (primeira) o uso de computadores permite que muitas atividades sejam desenvolvidas no domicílio do empregado, ligado on Une à empresa; (segunda) as formas de terceirização do trabalho retiram o trabalhador da grande empresa, e o distribuem pelas pequenas empresas fornecedoras daquela, no mundo inteiro, ou nas palavras de HARVEY: "Curiosamente o desenvolvimento de novas tecnologias gerou excedentes de força de trabalho que tornaram o retorno de estratégias absolutas de extração de mais-valia mais viável, mesmo nos países de capitalismo avançados. O que talvez seja mais inesperado é o modo como as tecnologias de produção e as novas formas coordenantes de organização permitiram o retorno dos sistemas de trabalho domiciliar, familiar e paternalista, que Marx tendia a supor que sairiam do negócio ou seriam reduzidos a condições de exploração cruel e de esforço desumanizante a ponto de se tornarem intoleráveis sob o capitalismo avançado. O retorno da superexploração em Nova Iorque e Los Angeles, do trabalho em casa e do teletransporte, bem como o enorme crescimento das práticas de trabalho do setor informal por todo o mundo capitalista avançado, representa de fato uma visão bem sombria da história supostamente progressista do capitalismo."(HARVEY - 92, p. 175) A este novo sistema tem-se chamado toyotismo, em oposição ao fordismo/taylorismo, conforme veremos adiante. Por outro lado, a divisão social do trabalho, "que era muito mais nítida até o início do séc. XIX", vai se tomar menos nítida à medida que as oficinas evoluem para a grande empresa, cujos organogramas apresentam enorme ramificação das posições mais altas às mais baixas na pirâmide hierárquica. Dessa maneira as categorias trabalho qualificado/trabalho não qualificado são melhor entendidas no seio da antiga oficina onde ainda não era possível prever "a natureza e as quantidades da fabricação. Nestas condições a "empresa não tem unidade real" e nela coexistem dois mundos: o da fabricação , onde o operário
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qualificado possuía ampla autonomia de decisão, e o da gestão, inteiramente reservado, na quase totalidade dos casos, à iniciativa patronal." (NAVILLE in FRIEDMANN - p. 447). Desta forma, a qualificação prendia-se menos à execução de tarefas e mais ao grau de experiência do operário, capaz de tomar decisões e dirigir o trabalho. Assim estabelecia-se uma hierarquia entre os operários que deviam percorrer os degraus da aprendizagem, sob a direção do oficial, o mais qualificado, até que ele próprio fosse ascendendo às posições que implicavam autonomia e poder decisório; a escala compreendia, portanto, os auxiliares, os aprendizes e os oficiais ou mestres. Tal sistema desaparece à medida que as condições técnicas e econômicas da produção tornam-se previsíveis e mais estáveis; quando quantidades e tempos podem ser medidos com precisão e a empresa passa a ser planejada. As decisões são retiradas dos trabalhadores, porque passam a ser técnicas, e os ofícios são substituídos por postos de trabalho. A concluir que a organização da empresa determinou a passagem do trabalho profissional ao trabalho técnico. Agora não cabe mais falar em operário qualificado, senão em 'operário especializado', "sujeitos à organização centralizada do trabalho. O operário especializado se define pelo posto de trabalho, dispensa a habilidade valorizada nas manufaturas, já que sua grande virtude seria a "aptidão para adaptar-se às condições de produção mecanizada e em grande série." (NAVILLE - p. 454). De fato, o posto de trabalho é a unidade em função da qual são os operários distribuídos. Assim, primeiro se definem os postos e depois os instrumentos que permitirão a adaptação do operário ao posto. Somente se pode falar em necessidades fisiológicas e psicológicas do operário especializado com relação aos instrumentos que o tornam adequado ao posto. O posto, este é intocável por se prender à organização. TAYLORISMO (FORDISMO)/ TOYOTISMO A expressão "administração científica do trabalho" se associa com freqüência ao nome de Taylor, que estudou os deslocamentos, os gestos, os movimentos enfim, que os trabalhadores desenvolviam na execução de suas tarefas, e a partir da decomposição destas tarefas em suas etapas mais simples, propôs uma distribuição racional de máquinas e operários de forma a obter um máximo de rendimento e uma mínima perda de tempo. Muitos entendem que este processo significou a expropriação do saber operário em proveito da organização, e implicou perda de qualquer autonomia do operário 'qualificado'. Sob o lema "os trabalhadores não são pagos para pensar, senão para executar", exacerbava-se o parcelamento do trabalho e entronizava-se o cronômetro como instrumento de medição de eficiência. O taylorismo é freqüentemente associado ao fordismo, já que na fábrica de automóveis inaugurada em 1914, em Dearbon, Michigan, Henry Ford adotou a linha automática de montagem, e a remuneração de cinco dólares/oito horas trabalho/dia, que quebrou a resistência dos operários ao novo sistema. O fordismo, aliás, foi atém do taylorismo, pois, conforme HARVEY, Ford teria percebido que produção de massas significava consumo de massas, e salários mais altos e mais tempo de lazer tornavam o trabalhador em consumidor: ampliava-se assim o potencial do mercado consumidor interno. O fordismo deve ser entendido também como amplo arranjo entre capital, trabalho e Estado, em que cada uma dessas instituições ( a empresa privada, pelo capital; os sindicatos, pelo trabalho) assumiu novos papéis exigidos pela democracia de massas. Por este arranjo, o Estado equalizava as condições de concorrência pela imposição de legislação trabalhista, que, a um tempo atendia antigas
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reivindicações da classe trabalhadora, e esvaziava o movimento sindical; a organização de um sistema previdenciário que socorresse os trabalhadores, nos momentos de desemprego, doença ou velhice, aprimorava esta estratégia. Os sindicatos, por outro lado, aceitaram este arranjo, na medida que inaugurava-se período de prosperidade para a classe trabalhadora, e eram eles ainda a instância intermediadora entre o capital e o trabalho. Enfim tal equilíbrio "tenso, porém firme" durou até que a nova ordem mundial globalizada colocasse outros desafios. O toyotismo vem a ser o modelo que surgiu com esta nova ordem. Prega o downsizing, pretende uma focalização da empresa em sua atividade-fim, o que importa em terceirização das atividades-meio, e conseqüentemente redução do número de empregados próprios. Supõe igualmente redução dos espaços físicos de instalação, já que trabalha com estoques reduzidos, esperando receber as encomendas de seus fornecedores just-ín-time, somente no momento em que for utilizar tais suprimentos. Este sistema se beneficia da agilidade proporcionada ao sistema de telecomunicações pela informática, e corresponde ao paradigma de produção flexível. Os ganhos de produtividade são notáveis, e a capacidade de atender a um mercado globalizado, decisiva para o sucesso do modelo. As formas de administração mais horizontais, supondo parcerias e contratos civis, também são inovadoras do formato vertical, piramidal, do sistema fordista.

Em suma: "A evolução profissional da indústria, por conseguinte, pode ser descrita como a passagem de uma fase A, caracterizada pela ação autônoma do operário qualificado, a uma fase B, em que a predominância da organização centralizada do trabalho se alia à manutenção do trabalho de execução direta, e a uma fase C, que surge quando só indiretamente as tarefas operárias se ligam à produção." (TOURAINE in FRIEDMANN -73, p. 451) Os autores procuram deixar claro que a identificação de fases A, B e C na organização do processo produtivo na empresa não devem ser vistas como etapas que se sucedem no tempo. Ao contrário, essas etapas convivem ou se superpõem. Dessa maneira embora entre nós o termo profissional atraia o adjetivo 'liberal', formando a expressão 'profissional liberal', que designa médicos, dentistas, engenheiros, arquitetos, e um sem-número de outros prestadores de serviço geralmente autônomos, devemos entender a profissionalização como uma especialização adquirida através de treinamento fora (nas escolas proflssionalizantes), ou dentro da empresa, de maneira a trazer alguma uniformidade ao desempenho de uma função, A 'profissionalização' tende a garantir o "acesso do assalariado a um determinado status de maneira precisa, estendido ao maior número possível de aspectos da vida do trabalho e garantido pela lei, pelas convenções coletivas, e pêlos contratos de empresa."(NAVILLE, p.272) Obs. (No art. 511, § 2° da CLT, há definição de categoria profissional; e categorias diferenciadas § 3° - lembramos que as profissões liberais tendem a se organizar em 'ordens', como a Ordem dos Advogados do Brasil, e outras assemelhadas).

TRABALHO ARTESANAL, MANUFATURA E GRANDE INDÚSTRIA

O artesão se define como categoria a partir do século XII, na Europa. Nesta época "as populações medievais procuram se abastecer fora das áreas do feudo e do mosteiro, adquirindo em feiras e mercados, além dos domínios senhoriais, artigos e mercadorias de que esses domínios não dispunham ou que se tornam
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insuficientes para atender a novas exigências da vida urbana"(PIMENTA - 57, p. 112). O artesão, que não é mais servo, porém homem livre, é um trabalhador autônomo, proprietário dos meios de produção. E assim se conserva, até que as vantagens do associacionismo acabam por atraí-lo para as corporações de ofícios. De fato estas se organizaram, a partir do séc. XI, em torno de interesses de mútuo assistencialismo, conquista do mercado através da 'lealdade da fabricação, e excelência dos produtos', conforme se vê de alguns estatutos das primeiras corporações. Joaquim PIMENTA informa que "já no séc. XIII, acentuava-se no seio das corporações uma tendência oligárquica entre os mestres ou patrões, para fazerem da mestria um patrimônio doméstico, hereditário, de pais para filhos. (...) Na Inglaterra, a qualidade de um membro de uma gilda constituía um direito de nascimento ou herança. O mesmo se verifica, mais cedo ou mais tarde, nos centros urbanos de outros países, proporcionalmente com a monopolização, pelas corporações, dos ofícios e dos mercados."(PIMENTA - 64, p. 117) Se recuamos no tempo, é porque o sistema da grande indústria tem alguma cousa das corporações, como se vê: "Desde que se passa às corporações do grande comércio e da indústria, aparecem desigualdades profundas, e, quando se trata de banqueiros e de industriais de tecidos, a organização se realiza sob o regime capitalista; os mestres, a miúdo agrupados em companhias, são grandes personagens, burgueses ricos e políticos influentes, separados por um fosso, largo e permanente, daqueles que eles empregam." (PIMENTA - 64, p. 119)” Nos séculos seguintes, já sob regime de liberdade de trabalho, as corporações evoluem para as fábricas, sistema em que os comerciantes, ou mercadores, monopolizam a força de trabalho dos artesãos, na medida que lhes fornece a matéria-prima e compram toda sua produção Uma profunda mudança ocorre neste processo: o artesão perde contato com o consumidor. Entre ele e o mercado interpõe-se o comerciante, que será seu único cliente, e, em seguida, seu patrão. A fábrica representaria mais um avanço neste processo: de fato, o deslocamento do artesão de seu domicílio para a fábrica, onde se reúnem artesãos de diferentes ramos da indústria, implica organização de todo "processus da produção; concentra em um corpo único e disciplinado operários de natureza diversa, graças às relações recíprocas de hierarquia e subordinação que ela lhes impõe; ela os reúne em suas oficinas, põe à disposição deles todo um arsenal de instrumentos de produção mecânica...", ao que acrescentamos, promove a divisão do trabalho, separando os mais fáceis, desqualificados, dos que exigem maior engenhosidade, com um grande ganho de produtividade. No entanto é a emergência do Estado moderno, Estado territorialmente centralizado, concomitante com a revolução industrial e com a revolução política, que se criam as condições para o surgimento da grande indústria. Diz PIMENTA que esta surgiria "da reunião de fatores que se entrelaçam e se completam na técnica de produção moderna", entre eles o aperfeiçoamento das máquinas, introdução de minérios, como ferro, manganês, bauxita etc.; novas fontes de energia, além da água e vento, como a hulha, o petróleo, a eletricidade etc; e o desenvolvimento da técnica, impulsionada pelas descobertas da Química, da Física, permitindo definitiva intervenção na natureza. A grande indústria, portanto, se insere num sistema econômico, o capitalismo, e assume uma forma de organização técnico-administrativa, que é a empresa. São suas características: 1° Posse privada de toda e qualquer espécie de valores, entre eles os meios de produção: matérias-primas, máquinas, fábricas ou locais de trabalho; 2° Produção centralizada sob direção única e em escala sempre crescente ou sem limites além dos que determinam as condições de mercado;
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3° Concentração nos locais de produção de centenas ou milhares de trabalhadores subordinados a um mesmo regime de disciplina, os quais, por força de contratos individuais ou convenções coletivas de trabalho, prestam serviços mediante remuneração ou salário." (PIMENTA - p. 129)

DETERMINISMO TECNOLÓGICO

Este impressionante desenvolvimento da indústria, que parecia ter criado uma dinâmica própria, que escapava ao planejamento político e econômico levou à formulação de uma teoria da evolução da técnica, semelhante à teoria da evolução das espécies de Darwin: "...dos gestos e das ferramentas manuais elementares teriam saído as ferramentas polivalentes e o trabalho associado; em seguida a combinação de ferramentas teriam permitido a construção de máquinas simples e complexas, graças à adjunção de uma força motora autônoma. Enfim, a coordenação mecânica de uma série de máquinas automatizadas asseguraria a produção continuada." (NAVILLE & ROLLE, in FRIEDMANN-88, p. 410) "A evolução da técnica obedeceria, pois, a um esquema inspirado no darwinismo: as funções mais necessárias desenvolveriam órgãos mecânicos apropriados, as combinações mecânicas mais 'aptas' sobreviveriam às que se mostrassem menos eficazes, e a diferenciação dos tipos de instrumentação redundaria em famílias de máquinas aparentadas pelo jogo de certos funcionamentos. Enfim, as máquinas tenderiam a tornar-se cada vez mais autônomas, graças a mecanismos de auto-regulagem correspondentes a equilíbrio homeostáticos. De acordo com essa concepção, o meio social representaria, em relação à evolução tecnológica, um papel assaz passivo: impor-lhe-ia limites e condições de utilização, porém nada mais." (FRIEDMANN - p. 403)

TRABALHO PARCELAR E INTEGRAL

A introdução de tecnologia na linha de produção, e a busca de produtividade e de maior eficiência, fez que o "trabalho fosse reduzido a parcelas, cada operário repetindo indefinidamente um número limitado de gestos" , o que sugere a "habilidade degradada em rapidez de gestos elementares; repetição cíclica de gestos estereotipados; manipulação e direção de máquinas cada vez mais complexas, produtivas e possantes." (NAVILLE in FRIEDMANN - p. 430) O trabalho parcelar, por sua vez, deve ser realizado em seqüência, que aproveite da melhor maneira o tempo de cada empregado; isto suscitou a necessidade de integração das máquinas e das tarefas. Tais processos de parcelamento e integração funcionaram bem, a ponto de BABBAGE ter enunciado, em meados do séc. XIX, o princípio dos múltiplos comuns: "Quando, de acordo com a natureza do produto de cada manufatura, está fixado o número de processos entre os quais é mais vantajoso dividir o trabalho, assim como o número de indivíduos empregados, todas as outras manufaturas que não empregarem um múltiplo direto deste número, produzirão o artigo por um custo mais elevado." Um exemplo ajuda a entender melhor: "Suponhamos a fabricação de um produto que exija três operações sucessivas 1) à mão, por parte de um operário especializado que faz 30 unidades por hora; 2) em máquina automática, por um operário especializado que produz 1000 unidades por semana; 3) em máquina semiautomática, que produz 400 unidades por semana. Para empregar plenamente esses três operários e suas máquinas , será preciso produzir por semana um número de unidades que seja múltiplo de 30, 400, 1000, sob pena de não empregar plenamente homens e máquinas. Nesse caso o menor número será 6000, que assegurará o pleno emprego de 6 máquinas automáticas,
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15 máquinas semi-automáticas e 200 operários especializados."(NAVILLE in FRIEDMANN -p.439)” Fácil constatar que a produção integrada implica produção em grande escala; mas não é a última etapa do processo de divisão do trabalho, já que breve a integração das máquinas totalmente automáticas vão permitir "um fluxo contínuo de produção, ainda mais rápido e sem que a divisão das tarefas individuais esteja ligada a produções unitárias por indivíduo." ((NAVILLE in FRIEDMANN - p. 439)

EMPRESA

Quando afirmamos que "empresa é a atividade econômica organizada", não dizemos muito, mas conseguimos abarcar uma diversidade muito grande de empreendimentos. De fato, a dinâmica da economia capitalista encontrou na livre iniciativa, na livre concorrência, na liberdade de contratar, enfim na democracia liberal, maneiras as mais diversificadas de combinar os fatores de produção - capital, trabalho, matéria-prima - com vistas à obtenção de lucratividade. (Assim sendo não perdemos de vista na caracterização da empresa, para efeito da sociologia do trabalho, o aspecto coletivo, afastando as atividades levadas a efeito individualmente, como a do barbeiro, dono das ferramentas de seu negócio, que desenvolve sozinho, dispensando o trabalho alheio. Da mesma forma o proprietário que arrenda suas terras, não nos interessa como empresário. É necessária a criação de oportunidades de trabalho para caracterizar a empresa econômica). Tais processos levam ao desenho da empresa moderna que abarca além da fabricação, "a concepção, a preparação, o abastecimento, o controle e acondicionamento."(NAVILLE - p. 439) Por outro lado a empresa é um 'centro de trocas', de matérias-primas por produtos, de valores, de trabalho, e isto implica que, sem perder sua centralidade, está ela voltada para a coletividade, com quem estabelece relações complexas. Se, primitivamente podia-se observar na estrutura da empresa alguma semelhança com o formato piramidal de instituições mais antigas, como o exército, a igreja, ou a família; (por isto que o chamado modelo paternalista representou "uma tentativa para transpor uma forma de autoridade de um grupo a outro". (LOBSTEIN in FRIEDMANN, p. 58), mais recentemente este jogo foi invertido e é a organização da empresa, suas formas de autoridade que têm servido de inspiração a outras instituições. Além do setor produtivo - atividade-fim da empresa - há o setor administrativo, de controle, planejamento, manutenção. Sabemos que outras divisões vão aparecer na empresa: setor financeiro e setor produtivo; proprietários e controladores; mas sabemos que a evolução da empresa ora atenua, ora acentua essas divisões. (A divisão entre setor produtivo e não-produtivo, por exemplo, tornou-se cada vez mais atenuada, como esclarecemos adiante). De antemão devemos registrar o movimentos em direção à concentração de empresas e estabelecimentos*1 observável em todos os países industrializados. Tal concentração que se explica pela necessidade de fabricação em massa, e pelo uso de fontes de energia que exigem recursos técnicos e econômicos consideráveis, mostrou-se, no entanto, "desigual segundo os ramos, irregular segundo a situação econômica e, o mais das vezes, limitada em seu grau." (TOURAINE - p. 12) Já o estabelecimento é a unidade técnica - fábrica, escritório, loja de venda, depósito etc. - ou "um complexo de bens corpóreos e incorpóreos", através dos quais se manifesta a empresa. Para melhor perceber a diferença basta lembrar que uma mesma empresa pode operar através de diversos estabelecimentos.
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Assim as empresas dirigidas à produção de bens de consumo não duráveis (confecções, padarias, transportes rodoviários) não sofrem necessariamente concentração; já as indústrias de base, minas e metalurgia, automobilística, as estradas-de-ferro, empreiteiras de serviços públicos, apresentam acentuada ____________________________ *1 Empresa é a organização econômica, é a atividade do empresário, mas não é um centro de imputação jurídica, a despeito de o art. 2°, da CLT, dizer que "considera-se empregador a empresa..."; na verdade, a empresa se reveste de alguma das formas de sociedade comercial previstas no Código Civil, e é a pessoa jurídica, ou física, o centro de imputação jurídica, isto é, que responde por direitos e deveres na ordem jurídica. concentração, o que se expressa economicamente no fato de pequeno número de empresas ser detentora de parcelas leoninas - superiores a 50% - do capital nacional. "A concentração é tão grande que as decisões tomadas pelas grandíssimas empresas - ligadas, como se verá aos bancos - influem no conjunto da vida econômica do país." (TOURAINE - p. 21) Mas como se deu tal concentração? Apontamos pelo menos um mecanismo que favoreceu o processo concentracionista: Sociedade anônima: a forma de organização em sociedades anônimas - sociedades que reúnem os donos de ações (cada ação representa uma fração do capital da empresa, são livremente negociadas em bolsas de valores e geram direitos de propriedade a seus titulares, entre os quais a percepção de dividendos, e às vezes, conforme o estatuto da empresa e a legislação das S/A, de voto nas assembléias) - foi a preferida pelas empresas destinadas a tocar empreendimentos que exigiam grandes capitais (construção de obras públicas, siderurgia, minas, estradas de ferro, navegação marítima). "A sociedade anônima com efeito é a fórmula jurídica mais consentânea com a organização das grandes empresas (...). Tais sociedades não são apenas as mais importantes: são também aquelas cujo crescimento é o mais fácil. Elas comandam, mais do que as outras, os três principais mecanismos de expansão: a) reinvestimento: os lucros gerados são usados para expandir os negócios. b) aumentos de capital: as empresas oferecem lotes de novas ações nas bolsas, como forma de expansão do capital. c) controle de outras sociedades: os processos de fusão, incorporação de outras empresas foi conduzido quase sempre pelas S/A." (TOURAINE in FRIEDMANN - p. 23) Resta mencionar que os processos de concentração - (horizontal, quando uma empresa acaba por incorporar as demais que atuam no mesmo ramo; 'e vertical, que consiste no controle de toda linha de produção, i.é., a empresa procura incorporar seus fornecedores, e seus distribuidores) - podem degenerar em formas de 'trustes, cartéis, monopólios'*2 que, dada a real possibilidade de extrapolar os limites econômicos e atingir a interesses sociais e políticos, têm sofrido tentativas de controle por parte do Estado. ___________________________ *2"O truste é constituído pela transferência dos capitais de diversas sociedades para um agente fiduciário (trustee) que lhe assegura a gestão. (...) O holdíng é uma sociedade formada para a posse de ações de outras sociedades, sem que ela mesma exerça atividade industrial. A finalidade dos cartéis já é diferente: estes não visam a organizar a produção, senão a eliminar a concorrência por um acordo de venda. Industrial e financeiramente os membros de um cartel continuam independentes, mas entendem-se para fixar preços e práticas de venda ... Quando a distribuição do mercado se faz geograficamente, por uma verdadeira partilha do mundo, cria-se um cartel regional cujo organismo de
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venda amiúde se chama poo/." (TOURAINE, in FRIEDMANN, p. 27) PODER E DECISÃO NA EMPRESA Do exposto acima salta à vista o processo de divórcio entre propriedade e controle na empresa. Ora, quando a administração é confiada a trustes, quando se formam cartéis, e pois, os problemas administrativos da empresa extrapolam as considerações de ordem interna e tornam-se questões estratégicas que são decididas independentemente de considerações sobre a capacidade de produção e as leis do mercado sucumbem aos arranjos econômico-políticos. Por outro lado o formato de sociedades anônimas, que implica pulverização do capital entre milhares de acionistas, opera divórcio entre propriedade e controle, na medida que os pequenos acionistas jamais comparecem às assembléias deliberativas - são os proprietários ausentes (absentee owners ) - que delegam o poder de decisão a um pequeno número de dirigentes. E pergunta TOURAINE: quem são esses dirigentes? Administradores, financistas, técnicos, burocratas? A resposta é bastante variada: "o grupo dos administradores - exerçam ou não - funções de direção na sociedade -" possui ampla faculdade de manipulação dos direitos do capital. Isto porque há vários mecanismos lícitos de controle da participação dos acionistas minoritários nas instâncias decisórias, tais como classes de ações sem direito de voto, e outras classes com direito a voto privilegiado. Também se joga com a distribuição dos lucros sob forma de dividendos, na medida que os conselhos de administração podem criar as mais variadas formas de remuneração, seja qualitativamente, ordem de preferência, seja quantitativamente, o percentual do lucro a ser distribuído entre uma classe ou outra de ações. Os financistas terão maior importância no controle e direção das empresas, quando estas buscam nos bancos capital para seu financiamento. Há que fazer uma diferenciação quando os bancos são agentes públicos, ou seja, quando seu capital pertence majoritariamente ao Estado e atuam segundo políticas públicas. Os técnicos adquirem certa importância face sobretudo à natureza da empresa, e a conjuntura política, mas devemos lembrar que as funções não-técnicas - econômicas, financeiras, políticas - parecem essenciais nos centros decisórios da empresa. VALORES DO TRABALHO (VALORES E ATITUDES) A determinação do valor/preço dos trabalhos é objeto de estudo da Economia. Aí se observa que as diferenças salariais se explicam pela diferente qualificação dos candidatos a empregos e pelo investimento em 'capital humano'; pêlos diferenciais compensatórios; pela existência de segmentos não- concorrenciais; pela existência de discriminação, e até pela repercussão de políticas governamentais, por exemplo, restringindo a imigração, todas essas variáveis influenciando na diferenciação de salários observada no mercado de trabalho. (Ver na seção "Determinação dos salários", adiante) Em sede de Sociologia do Trabalho, no entanto, procuramos, nos grupos sociais, resposta a indagações do tipo: "Quais ocupações ou empregos lhe parecem mais atraentes; quais trazem a melhor relação tarefas agradáveis/boa remuneração?" Enfim queremos saber qual a atitude do grupo social em relação ao trabalho; queremos saber quais são as profissões que implicam prestígio social; que são consideradas nobres, e, daí, justificam retribuição financeira condizente; (lembrando que se o prestígio
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não se avalia diretamente por sua apreciação monetária, o fato de possibilitar maiores ganhos reforça o prestígio). Ou, nas palavras de Roger GIROD, autor a que nos reportamos nesta seção: "O principal resultado das pesquisas (...) é indicar a ordem em que as pessoas colocam as profissões, levando em conta, simultânea e indissociavelmente, a cotação de que as profissões gozam no quadro da sociedade atual, a condição social geralmente concedida a seus membros e as qualidades psíquicas que se lhe atribuem."(GIROD in FRIEDMANN, p.119)” De interesse registrar que pesquisas levadas a efeito em diferentes países (Alemanha, Austrália, Nova Zelândia, por exemplo) apresentam impressionante coincidência relativamente às profissões colocadas a partir do topo da pirâmide social até sua base; e mais coincidem as que estão nos extremos. Queremos dizer que há grande concordância acerca das profissões que gozam de melhor cotação e daquelas que, contrariamente, são desfavorecidas socialmente; (já a dispersão de opiniões é maior relativamente às que se colocam no ponto intermediário). Essas opiniões refletiriam a mesma estrutura das empresas no sistema industrial moderno. Ou seja, no topo da pirâmide de prestígio, os dirigentes dos grandes negócios, (no topo dos organogramas das empresas estão seus diretores); em seguida viriam os que desempenham funções de responsabilidade, que permitem dar ordens e orientações a outrem (como os chefes, os gerentes, superintendentes nas empresas); um degrau abaixo os técnicos, que dispõem de um valor de conhecimento; em seguida os que estão mais próximos dos chefes (o pessoal de escritório) e, por fim, os operários e trabalhadores manuais. Este esquema se repete quando se trata das ocupações relativas ao Estado: ministros dos tribunais superiores, ou dos órgãos da administração pública encontram-se no topo do prestígio, em posição superior mesmo aos diretores de grandes empresas privadas. Aliás o tamanho da empresa influi na cotação da profissão: um gerente de grande empresa, pode estar em igualdade de condições com um diretor-proprietário de uma empresa média; "os pequenos comerciantes dispõem-se mais ou menos no nível dos empregados, ou abaixo deles, quando se trata de artesãos, como os cabeleireiros." (GIROD - p. 121) Outras profissões: agricultores; disputam espaço (na pirâmide do prestígio) com os pequenos comerciantes, e os empregados qualificados; empregos manuais conhecem graduação, conforme o ganho, a estabilidade no emprego que trazem, ou com a qualificação que exige; de qualquer forma "os empregos em serviços estão classificados abaixo dos ofícios manuais mais penosos'. (GIROD - p. 121) De quais critérios lançam mão as pessoas para efetuar a "classificação" das profissões? São apontados, para justificar as mais prestigiosas: a natureza do trabalho "de grandíssimo valor social, indispensáveis à coletividade; exigem vastos conhecimentos (...) responsabilidades e inteligência; ensejam necessariamente muita independência e são executados em locais agradáveis;" a renda e o prestígio social são citados com menor freqüência. O autor adianta que, para justificar o baixo prestígio de outras profissões, as respostas se mostram confusas e inconsistentes, referindo por vezes a falta de qualificação, o rendimento pequeno, mas também o nível de educação dos colegas de trabalho. Na realidade o que se pode observar da comparação dos dados tabulados é que aparece uma dicotomia matéria/espírito; profissões manuais /profissões intelectuais; corpo/cabeça determinante na distribuição das profissões pela pirâmide do prestígio. (Cabe ainda observar que o desprestígio das profissões manuais vem desde a Antiguidade, passando pela Idade Média, onde as classes privilegiadas sempre foram poupadas do trabalho manual, havendo mesmo profissões indignas dos nobres. Os burgueses alteraram esta percepção, na medida que se enriqueceram a partir do comércio, mas lidando diretamente com a produção, em grande escala
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manual. Pode-se dizer que, o enriquecimento e a condição de autonomia serviram como critérios 'enobrecedores' do trabalho). Concluímos para afirmar que a atitude em relação ao valor do trabalho, que usa a clivagem trabalho manual/ trabalho não manual "serve para desqualificar a obra - e também, indiretamente a pessoa - de extensas categorias de trabalhadores e para legitimar, por meio de raciocínios aparentemente defensáveis, a prática que consiste em recusar a estas camadas um grau de bem-estar material e cultural igual ao dos demais. Há homens cujo trabalho vale menos do que o dos outros porque não possui uma virtude misteriosa que procede do espírito."(GIROD - p. 125) De maneira que o valor social do trabalho, i.é., o tanto que tal trabalho repercute no bem-estar da coletividade, só por exceção serve de critério à determinação da atitude em relação às profissões.

SISTEMA DE ASSALARIAMENTO SALÁRIO INDIVIDUAL & SALÁRIO SOCIAL (Salário mínimo)

Na seção anterior examinamos o 'valor subjetivo do trabalho' (como a sociedade valora determinadas profissões); nesta, veremos o valor objetivo, ou seja, o salário atribuído pelo 'mercado' às diferentes profissões. "O salário, de certos pontos de vista é um rendimento. Os rendimentos são o conjunto dos meios, monetários ou não, que permitem a uma população abastecer-se no mercado, de acordo com suas necessidades solváveis."(NAVILLE in FRIEDMANN - p. 133) Mas vamos encarar o salário, tal como se deu nos primórdios da revolução industrial, como a contraprestação devida ao trabalhador pelo empregador que contrata sua força de trabalho. Sob este enfoque, bastante objetivo, verificamos que o sistema de assalariamento comporta duas modalidades principais, que admitem variantes 'mistas': a primeira é o salário por unidade de tempo, que pode ser a hora (empregado horista, que recebe pelo número de horas à disposição do tomador de serviços), o dia, a semana ou o mês). Não resta dúvida de que é a mais comum na indústria moderna, onde a eficiência depende menos das habilidades pessoais dos trabalhadores, e mais do processo de produção geralmente bastante automatizado. A segunda modalidade é o pagamento pêlos resultados: a remuneração estaria vinculada à quantidade/qualidade do produto, gerado pelo esforço do trabalhador. Tal modalidade se admite quando há uma padronização do bem a ser produzido e serve de incentivo à produtividade do trabalhador, embora apresente o inconveniente da irregularidade ou incerteza do rendimento ao longo do tempo. Exemplo de modalidade mista, seria o trabalho por tarefa/hora, que levaria em conta tanto a quantidade, quanto a unidade de tempo. O ordenamento jurídico brasileiro admite quaisquer destas espécies, embora sobre elas recaiam normas de ordem pública, protetoras da saúde do trabalhador, e garantidoras de remunerações mínimas. NAVILLE apresenta uma evolução destes sistemas, paralelamente à evolução da técnica industrial: Trabalho com máquinas-ferramentas clássicas (trabalho remunerado por peças, já que a produção depende do desempenho individual do operário, que deve ajustar seu ritmo de trabalho). Máquinas-ferramentas agrupadas por oficina, para produção em série - (neste caso o rendimento coletivo é que conta; a distribuição do trabalho é feita pelo chefe da oficina; calcula-se o pagamento por hora).
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Trabalho em linha de montagem - já que os operários estão submetidos a um mesmo ritmo, a produtividade depende da coordenação do trabalho. Acentua-se a absorção do rendimento individual, pelo coletivo; os salários-base tendem à uniformidade. Trabalho com máquinas automáticas e conjuntos automatizados. Como a máquina 'faz-tudo', as tarefas de controle, vigilância e manutenção assumem grande importância, embora não estejam diretamente ligadas ao trabalho produtivo. (Ver definição na seção 'População e emprego'). Aqui o salário mensal é o mais freqüente, e representa uma quantidade não-elástica (não sujeita a variações dependente de outras variáveis).

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Registramos, que a fixação 'objetiva' do salário - sua tradução em um preço não dispensa os elementos subjetivos, como já salientado, - o interesse, a satisfação, o prestígio ou status. Aliás, característica da evolução da sociedade industrial, (que foi acompanhada pela evolução da democracia liberal, em direção a uma democracia de massas que reclama a extensão de direitos políticos e sociais ao conjunto da população), foi o deslocamento do salário de individual (retribuição do trabalho prestado e, portanto, guardando certa simetria ou comutatividade trabalho/salário), para o salário social, assim entendido o salário que deve satisfazer às necessidades 'sociais' (de acesso à cultura, à educação, ao lazer) do trabalhador, e não apenas àquelas de subsistência. Esse imbricamento entre economia e política - a economia enfatizando a fixação dos salários pelas leis de mercado e a política propondo fixar legalmente níveis mínimos de salários (a fixação de jornadas máximas faz parte deste disciplinamento) - supõe um acordo político em escala nacional, através do qual a previdência pública assume prestações como salário-família, seguro-doença, seguro-acidente, aposentadoria etc que de alguma maneira se refletem no salário do trabalhador. Enfim pode-se dizer que além do aspecto econômico - fixação do salário através das leis de mercado, (que levam em consideração elementos exteriores ao trabalho, ou seja, transporte, descanso, férias etc.) e em instrumento de contrato individual ou de negociação coletiva cujos sujeitos são apenas empregados e empregadores, eventualmente representados por seus sindicatos - a fixação dos salários implica um aspecto político, um pacto social, que reflete o nível mínimo de bem-estar que determinada sociedade quer garantir a seus trabalhadores. É claro que o salário mínimo legal e as demais normas de ordem pública que regem as relações de trabalho são as manifestações deste pacto. Observação: Fala-se ainda em salário nominal e salário real; o primeiro é o montante do salário expresso na moeda local; já o salário real reflete o poder aquisitivo do dinheiro, isto é, os preços relativos do salário e dos demais bens. Essa dissociação advém exatamente da intervenção dos Estados no mercado, que às vezes se ajusta, através da inflação, caso que se pode ter alto salário nominal, mas de baixo poder aquisitivo, portanto baixo salário real.

PSICOSSOCIOLOGIA DO CONTRATO DE TRABALHO

Já examinamos os aspectos objetivos e subjetivos do salário. Verificamos que os aspectos subjetivos, como admitido nas análises econômicas, interferem no 'valor' do trabalho ( aproveitamos a ambigüidade da palavra 'valor' para usá-la em seus dois sentidos, objetivo, igual a preço, e subjetivo, igual a prestígio). Mas como o trabalhador se sente (psicologicamente) quando vê que a fixação de seu salário depende menos de seu desempenho individual - salário individual, do que da política de salários? Em outras palavras, "Dir-se-ia, em suma, paradoxalmente, que a valorização relativa dos elementos sociais
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da remuneração do salariado acarreta relativa desvalorização dos elementos ligados ao trabalho individual." (NAVILLE in FRIEDMANN - p. 146) Isto porque, sendo sua única riqueza a sua habilidade no desempenho de uma profissão, sentia-se o trabalhador promovido quando o mercado reconhecia e remunerava diferenciadamente seu talento. De fato, ideal seria que a 'parcela social' do trabalho se somasse à parcela individual, sendo a primeira de fixação coletiva, e a segunda, individual. Tal não se dá. Pesquisas mostram que cada vez mais o salário global cresce em função das parcelas sociais (os chamados encargos sociais), que oneram as folhas de pagamento, mas não chegam diretamente ao bolso do trabalhador. Mas não é uma questão simples: a impessoalidade das tarefas nas empresas, dispensam habilidades pessoais, e, portanto, diferenciações individuais de trabalho. Além do que toda o gerenciamento do trabalho na indústria direcionou-se no sentido da produção coletiva, e na prática dos salários mensais, com base em critérios genérica e abstratamente previsto - para trabalho igual, salário igual. É o setor de serviços, em constante expansão que vai permitir maiores diferenciações. MOVIMENTO OPERÁRIO; SINDICALIZAÇÃO E MILITANTISMO Preferimos localizar o 'movimento operário' na sociedade industrial, a despeito de enxergar no sistema das corporações medievais, sobretudo tardiamente, práticas de assistência mútua, e alguma organização em tomo de interesses corporativos que se assemelham ao movimento sindical. Porém, nas corporações, mestres, companheiros e aprendizes, firmavam lado a lado para se defender sobretudo da concorrência. Ora, o movimento operário, ao contrário, supõe o conflito dentro do empreendimento, já que pretende identificar um interesse de classe, no caso da classe operária, frente aos interesses do patrão. (Abrimos parêntese para lembrar que o modelo sindical não por acaso denominado corporativo, se aproxima desta idéia de comunhão de interesses entre patrões e empregados, em torno da promoção dos valores da nacionalidade, como diz a Carta dei Lavoro (de 1927 - Itália) "o complexo da produção é unitário do ponto de vista nacional" e a organização privada da produção é de interesse nacional"). Por outro lado, se situamos o movimento operário na sociedade industrial, devemos ressalvar que os princípios consagradores do individualismo, próprios do liberalismo, doutrina que afirmou os direitos civis à propriedade e à liberdade de contratar, não eram compatíveis com a defesa coletiva de interesses. Ou seja, entendia-se que a defesa de direitos coletivos implicava cerceamento dos direitos individuais, motivo pelo qual o associacionismo foi considerado crime e crime grave! (Delito de conspiração na Inglaterra, cuja sanção era pena de morte, proibido pela Lei Lê Chapeilier, em França, só em 1824 foram as "union frades" toleradas na Inglaterra e sessenta anos mais tarde na França). Daí que são apontadas três fases na afirmação do sindicalismo: a primeira de proibição; a segunda de tolerância e a terceira de reconhecimento. A fase de tolerância reflete o fracasso da estratégia de repressão pura e simples, a ferro e fogo, do movimento operário. De fato, as condições de vida da classe operária se tornaram tão precárias, que só a assistência mútua nos momentos de desemprego ou incapacidade para o trabalho, bastante comuns por sinal, podiam trazer algum alento à situação de indigência e miséria dos obreiros. Muitas sociedades eram secretas, e cedo passaram da atitude assistencialista a uma atitude reivindicatória de direitos e melhores condições de vida, dirigida ora ao Estado, ora aos patrões. (Se o principal instrumento de luta era a greve, havia outros como a sabotagem e o boicote).

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Muitos pensadores inclusive da classe dirigente - e até empresários, como R. Owen - manifestaram solidariedade à luta dos operários, embora a maioria deles dirigisse seus discursos aos próprios pares, tentando convencê-los a mitigar as situações por demais ofensivas à dignidade humana, tais como a exploração do trabalho de crianças e mulheres, o exagero de jornadas de trabalho que minavam a saúde do trabalhador, o salário vil que mal dava para a reprodução da força de trabalho. Foram por isto chamadas socialistas utópicos, já que pensavam em distribuição de renda sem luta aberta entre capital e trabalho. De qualquer forma, em desafio às duras leis, os operários insistiram em coletivizar a luta e foram aparecendo instrumentos como convenções coletivas, que representaram importantes vitórias de classe, e do pensamento democrático, que tem um de seus pilares na "solução pacífica das controvérsias". Era hora do reconhecimento da legitimidade da defesa coletiva de interesse, que se manifesta no Trade Union Act, de 1871, na Inglaterra; na Lei Waldeck-Rousseau, de 1884, na França; no Clayton Act, de 1914, nos EUA; e até em sede constitucional, haja vista a Constituição do México de 1917, e a de Weimar (Alemanha), de 1919. Verificamos que desde as suas origens o movimento sindical ora desempenhava uma função assistencialista, ora uma função de defesa dos interesses profissionais de seus associados, ora uma função política, de reivindicação de direitos para a classe operária, caso em que os interesses ultrapassavam a categoria e atingiam toda classe. Daí que ainda hoje temos o sindicalismo cuja ação se direciona aos interesses mais imediatos dos associados e ligados ao exercício da profissão ( melhores salários, melhores condições de trabalho) e os que se engajam em luta política de fazer a classe trabalhadora participar efetivamente do poder (sindicalismo revolucionário). A partir da regulação do movimento sindical, podemos identificar sistemas que se polarizam em torno da liberdade de associação, que deve ser examinada face ao Estado (liberdade de criação e autonomia política e administrativa), em relação às empresas e em relação aos trabalhadores (liberdade de associação e de não-associação). Relativamente liberdade em face do Estado, temos sistemas jurídicos que impõem a unidade sindical e os de pluralidade. A pluralidade sindical implica liberdade sindical face ao Estado, ou nos termos da Convenção 87, da OIT, "assegura aos trabalhadores e empregadores, sem distinção de qualquer espécie, o direito de constituir, sem autorização prévia, organizações que julgarem convenientes. (ROMITA - p. 221) Neste caso podemos ter organização por profissão, indústria, categoria, ou empresa, em qualquer base geográfica, ou seja, de âmbito do município ( quantas se mostrarem convenientes a juízo dos interessados), dos Estados, do país, e até internacionais. Já a unicidade sindical resulta da imposição legal de um sindicato por categoria profissional, numa determinada base territorial; (há quem fale em unidade sindical, mas tal expressão deve ser reservada aos sistemas, como o alemão, em que a unidade decorre de escolha espontânea dos interessados, que optam por se fortalecer a partir de atuação unitária. Em outras palavras a atuação centrada resultaria de estratégia política e, não, de imposição legal). Na realidade, como assevera ROMITA, "há três tipos de sindicato único: o previsto nos regimes corporativos (Itália, de Mussolini; Portugal, de Salazar; Brasil, até hoje); o adotado pêlos países do bloco socialista; e o dos países cujos sindicatos foram organizados sobre base unitária, conservando o caráter de movimento espontâneo e independente perante o Estado." (ROMITA - 91, p. 231)

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(Consultar o art. 8° , da CF, e os art.s 511 e ss., da CLT, que define categoria econômica (empregadores), categoria profissional (empregados) e categoria diferenciada.)

GREVES E CONFLITOS TRABALHISTAS Os conflitos de trabalho apresentam geralmente natureza de conflitos coletivos, já que envolvem interesses de classe, seja da classe capitalista, detentora dos meios de produção, seja das classes trabalhadores, que prestam serviço de maneira subordinada aos empregadores. Tais conflitos trabalhistas conhecem diferentes formas de composição: a autocomposição, quando as partes se entendem diretamente, na busca de acordo que ponha fim ao conflito; heterocomposição, quando um terceiro, não interessado, é chamado para intermediar o conflito e propor/impor uma solução; e a autodefesa, quando as partes como quê medem forças para resolver suas pendências. A autocomposição se dá através da negociação coletiva, quando os interessados, diretamente ou através de seus sindicatos, firmam acordos ou convenções coletivas. Já a heterocomposição tanto pode se dar por via jurisdicional - as partes ajuízam dissídio coletivo e pedem a intervenção do Estadojuiz, para que, através de uma sentença, dê solução às divergências, ou por via de arbitramento, quando elegem um árbitro e este, com maior liberdade que o juiz, sugere uma saída para a crise. Já a greve, que é uma forma de autodefesa, é o instrumento mais antigo e mais eficaz de convencimento do capitalista: sob pressão da greve, suspensa a produção, deve medir qual situação lhe traz maiores prejuízos, o prolongamento da paralisação das atividades, ou o atendimento a reivindicações de seus empregados, que sempre implicam mais encargos financeiros e econômicos. Interessante que o modo de encarar a greve nos sistemas político-jurídicos conheceu as mesmas fases experimentadas pelo movimento sindical: proibição, tolerância, reconhecimento. Ou na clássica tipologia de CALAMANDREI: "a) greve-delito: concepção paternalista e autoritária do Estado, ou seja, regimes corporativos aparelhados de órgãos destinados a solucionar por via impositiva os conflitos coletivos de trabalho (competência normativa dos tribunais do trabalho) b) greve-liberdade: concepção liberal do Estado, que se desinteressa da greve, tida por fato socialmente indiferente, sujeita a punição apenas quando enseja violência, ou atos de perturbação da ordem pública (...) c) greve-direito: concepção social-democrática do Estado - a greve é considerada socialmente útil e é protegida pelo ordenamento jurídico." (ROMITA-91,p.251) Notamos que o caráter coletivo e sua tendência a se manifestar espontaneamente tornam difícil o aprisionamento ou enquadramento da greve em diplomas legais ou tipologias doutrinárias. A exemplo citamos, com base em ROMITA:
⇒ ⇒ ⇒

Segundo a extensão (greves parciais, generalizadas, gerais) Segundo o âmbito (greves de empresa, greves setoriais, greves por categorias) Segundo a origem (greves sindicais, greves espontâneas)

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conteúdo das reivindicações (greves defensiva; preventivas; de reivindicação; de solidariedade ou de apoio; de luto; de protesto; de demonstração, de advertência. Segundo as táticas empregadas (greves ativas ou clássicas; greves brancas ou de ocupação do local de trabalho; greves intermitentes; greves setoriais; greves em pontos-chave).

Há ainda considerações sobre greves atípicas, que implicam não a paralisação do trabalho, mas atitudes que afeiam a produção, como seja a greve de braços caídos (os operários ficam diante de seus postos, sem trabalhar; operação-padrão, quando os procedimentos previstos no regulamento são cumpridos com zelo total, prejudicando o rendimento; greves relâmpago; greve-tampão e tantas outras formas sugeridas pelas circunstâncias.

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ECONOMIA DO TRABALHO Conceito Básico Microeconomia x macroeconomia A microeconomia estuda os mecanismos de mercado e sua repercussão sobre os preços dos insumos considerados individualmente. A oscilação dos preço do açúcar em função de um aumento da produção, por exemplo; a fixação dos salários de determinada categoria etc. Já a macroeconomia se preocupa com a Economia como um todo: o nível da produção; a participação de salários e capital no Produto Interno Bruto; as taxas de emprego e desemprego; a inflação, o balanço entre importação/exportação. A macroeconomia tem-se constituído no núcleo dos programas políticos, já que os governantes dispõem de instrumentos de intervenção no mercado determinantes da produção e da distribuição de renda nos países. Por exemplo, a política fiscal (cobrança de impostos, equilíbrio receitas/despesas públicas) refletem sobre a produção nacional, bem como a política monetária (controle da oferta de moeda) que influi na fixação dos juros. Já as políticas salariais (que tanto podem ser no sentido de livre negociação entre as partes, possível na situação de pleno emprego, como no sentido de fixar legalmente os salários, têm influência nas taxas de desemprego e concentração de renda). Os instrumentos de fixação do câmbio, por sua vez, também são determinantes das relações comerciais externas, e podem ser usados para manter o equilíbrio na balança de pagamentos (relação importação/exportação). É claro que essas variáveis interagem e a melhoria de um indicador implica em piora de outro, de maneira que a busca do ponto ótimo (que é aquele conforme aos princípios políticos insculpidos na Constituição) é responsabilidade dos governos.  Produto Nacional Bruto:

É a soma de todos os bens e serviços produzidos num país, durante um ano. Essa soma, em que se considera o valor de mercado dos bens e serviços, fornece o PNB nominal; se descontamos a inflação no período, temos o PNB real. Em uma economia aberta, o PNB exclui a parcela da produção de bens e serviços que, mesmo tendo sido gerada no país, resultou do emprego de recursos de não-residentes. Por outro lado, inclui a parcela dos bens e serviços que, mesmo produzida fora do país, resultou da utilização de recursos de propriedade de residentes no país.  Produto Interno Bruto (PIB):

É a soma de todos os bens e serviços finais produzidos dentro do país, independentemente da nacionalidade dos proprietários das unidades produtoras desses bens e serviços. (Exclui as transações intermediárias e é medido a preços de mercado.) A diferença entre o PNB e o PIB corresponde á renda líquida enviada ou recebida do exterior. Quando o PNB é menor que o PIB, significa que o país remete para o exterior mais renda do que recebe; neste caso excluindo-se do PI B a renda líquida enviada ao exterior, obtém-se o PNB.  Ciclos econômicos:

O PNB dos países não se mantém constante, mas às vezes mostra crescimento em anos seguidos, para recuar em seguida a pontos mais baixos de crescimento, até novo ponto de inflexão. Esses
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períodos de crescimento, seguidos de 'encolhimento', constituem os ciclos econômicos, que acompanham a história do capitalismo, tendo, no entanto, se tornado menos agudos da década de 30 para cá. Talvez pelo melhor domínio das variáveis macroeconômicas.  Produto Nacional Líquido:

É obtido descontando-se do PNB as amortizações, ou seja, o que se gasta com juros e depreciação dos bens de capital.  Produto potencial:

Já se sabe que crescimento muito acentuado do PNB, que supõe crescimento da produção e pleno emprego, gera inflação. Por isto que produto potencial significa a taxa máxima de crescimento do PNB sustentável sem inflação.  Oferta agregada:

Diz respeito à quantidade de bens e serviços que as empresas podem oferecer, e depende dos recursos de capital (nível de poupança e bens de capital), dos recursos de trabalho (quantitativa e qualitativamente considerado) e dos recursos naturais e tecnológicos disponíveis numa economia.  Demanda agregada: (ou Procura agregada):

Diz respeito à quantidade de bens e serviços que os consumidores estão propensos a adquirir, e depende da quantidade de moeda em poder dos agentes econômicos (consumidores, empresas, governos), das despesas e impostos a que estão sujeitos e de outras variáveis).  Elasticidade:

Conceito que indica a reação de uma variável a modificações em outra variável. Assim a elasticidade de X, relativamente a Y, indica a variação percentual em X a cada variação de unidade percentual em Y.  Elasticidade da oferta:

A variação da quantidade de uma mercadoria oferecida no mercado, a partir da variação em seu preço, é a medida da elasticidade da oferta de tal mercadoria: se o aumento de 1% no preço de uma mercadoria, implica no aumento de 2% da quantidade da mercadoria oferecida no mercado, então a elasticidade da oferta tem valor 2.  Oferta perfeitamente elástica:

Uma mudança infinitesimal no preço provoca uma mudança infinitamente grande na quantidade oferecida. Oferta relativamente elástica: Uma mudança no preço resulta numa mudança mais do que proporcional na quantidade oferecida.  Elasticidade unitária:

A cada variação unitária no preço corresponde variação unitária na quantidade oferecida.  Oferta relativamente inelástica:
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Uma variação no preço, implica variação menos que proporcional na oferta.  Oferta completamente inelástica:

Uma variação no preço não resulta em variação na quantidade oferecida.  Elasticidade da demanda (ou da procura):

A variação no preço de uma mercadoria implica variação na demanda por esta mercadoria. O coeficiente ou a medida da elasticidade da demanda é obtido dividindo a variação da quantidade procurada, pela variação no preço. (No numerador, a diferença entre os valores antigos e novos da demanda; no denominador a diferença entre os preços antigos e os novos)  Rigidez:

Incapacidade de um sistema econômico de responder prontamente às mudanças na demanda e na tecnologia.  Rigidez de salários:

Refere-se à resistência dos salários baixarem, mesmo em situação de altas taxas de desemprego. Tal rigidez se deve ao fato de as políticas salariais não tolerarem a redução dos salários, aos obstáculos à despedida, à atuação dos sindicatos, aos acordos e convenções coletivas que têm prazo determinado de eficácia; à resistência dos empregados a aceitarem salários abaixo da expectativa, além de outros fatores.  Rigidez de preços:

Nos sistemas de concorrência imperfeita, ou onde há monopólios, cartéis, trustes, ou políticas de controle, os preços não reagem à diminuição da procura.

Produto marginal:

"O produto marginal de um fator de produção é o produto suplementar, ou o produto acrescentado por uma unidade suplementar desse fator, enquanto os outros fatores se mantêm constantes. O produto marginal do trabalho é o produto suplementar que se obtém quando se acrescenta uma unidade de trabalho, mantendo-se constantes todos os outros fatores. De modo idêntico o produto marginal da terra é o incremento do produto total resultante de uma unidade adicional da terra, mantendo-se constantes todos os outros fatores - e assim por diante para qualquer fator."(SAMUELSON/NORDHAUS - 90, p. 720). Propensão marginal a consumir (PMC): Refere-se ao consumo adicional, provocado pelo aumento da renda. É medida dividindo-se a variação no consumo, pela variação na renda disponível. Propensão marginal a poupar (PMP): Indica a disposição de aumentar a poupança, provocada pelo aumento do rendimento. É medida pelo quociente entre a variação na poupança e a variação na renda disponível. Observação.

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Os gráficos são instrumentos indispensáveis à teoria econômica, "tão indispensáveis como o martelo ao carpinteiro". Por isto recomendamos ao estudioso desta matéria o estudo dos gráficos.

ECONOMISTAS CLÁSSICOS Economia e trabalho são conceitos estreitamente ligados. De fato a economia pretende descrever a interação entre os fatores de produção - capital, trabalho e matéria-prima, nas sociedades políticas. Notemos que o pensamento econômico somente se desenvolveu com a definição das instituições próprias do Estado moderno, Estado de direito, que abraça o princípio da isonomia jurídica, e o respeito aos direitos individuais, inclusive e, sobretudo, o direito de propriedade. Ora, se somamos aos direitos, as liberdades, (livre iniciativa, livre concorrência, liberdade de contratar, liberdade de trabalhar) obtemos as variáveis que são estudadas pela Economia. A Economia do Trabalho se volta para a variável trabalho de maneira preponderante (força de trabalho; população economicamente ativa; valor do trabalho; desemprego; salários; interação entre estas variáveis e as demais etc.) Neste sentido a obra de ADAM SMITH - publicada em 1776 , An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of the Nations, freqüentemente referida como "A riqueza das nações" - representa um marco histórico. Contemporâneo dos flsiocratas, acreditava nas vantagens dos regimes político de liberdades, mas professava ainda mais fé nos mecanismos do mercado, (na mão invisível) – que substituiriam com vantagem as políticas dos governantes, ou as boas intenções individuais, no propósito de tornar ricas as nações. São suas palavras: "Cada indivíduo tenta aplicar seu capital de modo que ele renda o máximo possível. Geralmente o indivíduo não tem em vista a melhoria do interesse geral (bem comum), nem sabe em que medida é o que está a promover, procurando tão somente a sua própria segurança, o seu ganho pessoal. Ele é conduzido desse modo por uma mão invisível, na promoção de um fim que não fazia parte de suas intenções iniciais. Na perseguição de seus interesses, o indivíduo está freqüentemente a beneficiar a sociedade de um modo mais eficaz do que quando pretende fazêlo intencionalmente". A obra de SMITH obteve êxito imediato, devido à agudeza de suas observações sobre o funcionamento da economia e também ao fato de que as idéias de liberalização da economia agradavam à burguesia industrial interessada em fugir aos controles impostos por políticas mercantilistas. No entanto, sabia o autor que a mão invisível somente funcionaria bem, nos sistemas onde houvesse concorrência perfeita*3 Com isto se quer dizer que os produtores, na busca de seu lucro individual, deveriam atender à demanda da sociedade. Mas sua produção teria de se dar na medida exata, nem mais, nem menos: um aumento da produção, ou da oferta, acarretaria uma baixa nos preços, enquanto a escassez, num primeiro momento determinaria alta do preço - incremento da procura, mas num segundo uma maior oferta ( outros produtores dirigir-se-iam àquele setor do mercado). "O delicado mecanismo dessa mão invisível agiria também nos mercados dos fatores de produção, propiciando harmonia sempre que os fatores procurassem o maior ganho possível." (Dicionário econômico - p.545) ____________________________ *3 "Apenas existe concorrência perfeita quando nenhum agricultor, negociante ou trabalhador constitui uma parcela suficientemente grande do mercado total para ter qualquer influência pessoal sobre o preço de mercado. Por outro lado quando os cereais, mercadorias ou trabalho tiverem uma dimensão tal que produzam apreciáveis efeitos nos preços de mercado, então é porque instalou-se a
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concorrência imperfeita, sendo, que, neste caso, as virtudes da 'mão invisível' aparecem bem atenuadas." (SAMUELSON/NORDHAUS - 88, p. 55). Outro economista inglês da maior relevância é DAVID RICARDO. Projetou-se sobretudo pela obra Princípios de Economia Política e Tributação (The Principies of Political Economy and Taxation), onde manifesta sua crença de que "determinar as leis que regulam a distribuição da produção econômica é o principal desafio da Economia Política." "Sua teoria do valor era, essencialmente, uma teoria da quantidade de trabalho. Pôs de lado os bens 'escassos'( isto é, que não se reproduziam) e se concentrou na massa de bens que podem ser aumentados pela indústria humana, procurando demonstrar que os valores de troca dos bens serão proporcionais às quantidades de valor neles incorporados (inclusive a mão-de-obra armazenada, sob a forma de maquinaria etc) "( Dicionário de Economia - p. 512). Essas idéias bastante simplificadas foram desenvolvidas mais tarde levando em conta os produtos que incorporavam em proporção e quantidades variáveis capital e força de trabalho. Analisemos a afirmação de Ricardo de que "O preço do milho não é alto por se pagar uma renda; pagase, sim, uma renda porque o preço do milho é elevado." Com isto, quer ele dizer que os fatores inelásticos - cuja quantidade não pode variar, como a terra, por exemplo - têm seu preço derivado, ou dependente dos produtos finais destinados ao consumo. Assim o preço que o consumidor está disposto a pagar pelo pão, determina o preço que o padeiro está disposto a pagar pelo trigo; o preço deste determina o preço da terra adequada à produção do trigo. Já o valor da mão-de-obra - fator trabalho seria determinado pela quantidade de capital disponível e pela quantidade de mão-de-obra disponível: "Não pode haver aumento no valor de trabalho sem uma queda nos lucros." De fato, para Ricardo "o aspecto mais importante da economia era a lei da repartição do produto nacional entre as classes fundamentais da sociedade: os salários para os trabalhadores, os lucros para os capitalistas e as rendas para os proprietários de terras. Uma vez que o bolo social não podia crescer ilimitadamente, ele salientava que aquilo que ia para uma classe social tinha de ser tirado às outras." (SAMUELSON/NORDHAUS - p.943) Suas idéias levavam à conclusão de que à medida que a população crescesse, aumentaria a procura por alimentos; este aumento da demanda (lado da procura) acarretaria o aumento do preço dos alimentos, e daí dos preços dos salários (haveria maior procura de mão-de-obra), e das rendas das proprietários de terra. Logo diminuiria o lucro dos capitalistas. Com isto, Ricardo negava as idéias de Adam SMITH, da auto-regulação harmônica do mercado - e confirmava a Lei de Say. segundo a qual "a oferta cria sua própria demanda". Isto corresponde ao princípio macroeconômico que considera a superprodução impossível, e reafirma a tendência da economia para o pleno emprego. RICARDO exerceu grande influência no pensamento econômico; MARX o considerava o maior dos economistas clássicos, e desenvolveu muitas de suas idéias. Marx e Ricardo Embora inspirado no princípio geral de RICARDO de que "os preços relativos são determinados pelo tempo de trabalho incorporado ao produto" MARX foi além em sua teoria do valor-trabalho, na medida que distinguiu trabalho abstraio, trabalho socialmente necessário, destinado à produção de mercadorias - e que produz valor – do trabalho concreto, particular, que produz valor de uso. A ausência desta distinção impediu que Ricardo compreendesse a função do dinheiro - retribuição do trabalho abstraio, e o considerasse "um simples expediente para o processo de circulação"; assim reafirma a Lei de SAY ( o necessário equilíbrio entre oferta e procura no plano social (...)". Outra conseqüência é a conclusão equivocada de que a quantidade de dinheiro em circulação é que determinaria o nível de preços. Diferentemente para MARX, o nível de preços é que determinaria a quantidade de dinheiro em circulação...
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Thomas Malthus MALTHUS impressionou-se com notícias de que na América a população dobrava a cada 25 anos. E a partir daí formulou uma teoria econômica com base no crescimento da população, que dar-se- ia em proporção geométrica - 2, 4, 8, 16, 32....- o que contrastaria com a capacidade de crescimento da produção de alimentos, (rígida devido à impossibilidade de aumentar infinitamente a área cultivável) que cresceria em proporção aritmética - 1, 2, 3, 4, 5 - tornando a perspectiva da escassez uma questão premente. Tais idéias, simplistas na medida que não levavam em conta a possibilidade de melhorar a produção através de tecnologia, tiveram grande influência, inclusive no sentido de inibir as políticas assistencialistas à pobreza ( fatores de controle da população seriam a fome, a doença, a guerra) e a ação dos sindicatos: afinal, melhorando o salário dos trabalhadores eles tenderiam a ter mais filhos o que redundaria em aumento da população... Cabe registrar que, embora Malthus tenha revisto suas idéias iniciais, há registro de escolas de pensamento neomalthusianas nos dias atuais, de onde derivam conceitos como da explosão demográfica nos países pobres. Na realidade as taxas de crescimento têm sido inferiores às previsões catastróficas, e o aumento do PIB dos países pobres tem sido acompanhado de diminuição das taxas de crescimento populacional. Observações: A idéia dos mecanismos de mercado, também chamados de 'livre iniciativa', em ambiente de 'livre concorrência' ou 'capitalismo concorrencial com base na propriedade privada', nunca mais foram abandonados pêlos economistas, seja para defendê-los, seja para atacá-los. De forma que conhecemos hoje economias de mercado, onde entrega-se à mão invisível a tarefa de racionalizar a economia; as economias de direção central, onde, ao contrário, atribui-se ao governo a tarefa de regular a economia; e os sistemas de economia mista, "na qual as instituições, públicas e privadas, exercem, simultaneamente, o controle econômico"; as primeiras através da livre iniciativa e livre contratação, e as segundas através de normas reguladoras da atuação de produtores e consumidores, políticas monetárias e fiscais.

MERCADO DE TRABALHO A palavra mercado pressupõe contratos de compra e venda, implica troca, permuta, transferência da titularidade de bens e direitos. O objeto dessas transações seriam bens/mercadorias, que circulariam entre aqueles com capacidade de negociar. Poderíamos considerar a força de trabalho como uma mercadoria, livremente transacionável no mercado, a constituir o mercado de trabalho? Não resta dúvidas de que o escravo era objeto de contratos de compra e venda, e, portanto assemelhava-se a mercadoria. Porém nos regimes que aboliram as formas de escravidão e servidão, por incompatíveis com a dignidade humana, torna-se impróprio tratar a força de trabalho como mercadoria, na medida que, diferentemente das outras espécies de mercadorias, ela não se desprende de seu titular, o próprio homem. Neste caso, comprar ou alugar a força de trabalho, ou a mão-de-obra, equivaleria a transacionar com o próprio sujeito. No entanto, à parte este discurso politicamente correto, o pensamento econômico que se desenvolveu na sociedade industrial, considera, para fins de dedução das leis da economia, a força de trabalho como mercadoria, cujo preço oscilaria segundo as leis de mercado, sujeito embora às peculiaridades que veremos abaixo. Antes convém mencionar que, além de estudar o comportamento do trabalho como fator de produção, estavam os economistas impressionados com o estado de miséria das classes
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trabalhadoras, e se indagavam se tal situação decorreria de inexoráveis leis 'naturais' e qual seria o resultado da fixação de salários por motivos exteriores às leis de mercado. À parte as divergências entre os economistas, todos entendiam que havia um referencial em torno do qual o valor do salário gravitava, que seria a necessidade de a subsistência. Enunciada como a 'lei de ferro dos salários' indicava uma tendência, nos regimes capitalistas, de redução dos salários a um nível que somente garantisse a subsistência . Observações históricas parecem desmentir essa tese: "num país bem dotado de tecnologia, capital e recursos naturais, este salário de equilíbrio, determinado pela concorrência pode ser até bastante confortável Deste modo se chega a um princípio importante: se a concorrência no mercado de trabalho fosse realmente perfeita, nos países avançados não se registraria necessariamente qualquer tendência para os salários descerem ao nível de subsistência." SAMUELSON/NORDHAUS - p.772) DETERMINAÇÃO DOS SALÁRIOS É difícil fixar referenciais para descrever o funcionamento do mercado de trabalho. Por isto começamos por examinar o crescimento no preço do trabalho (aumento de salário), em situação de concorrência perfeita (ver....) Nesta situação tarefas iguais, e trabalhadores igualmente qualificados para executar essas tarefas, levariam ao equilíbrio nos salários em algum ponto. Tal equilíbrio se manteria na medida em que nenhum empregador estaria disposto a pagar mais a um determinado indivíduo, do que pagava aos outros por serviço idêntico; da mesma forma nenhum empregado se disporia a trabalhar por menos do que o salário de mercado. (Note-se que estamos nos referindo ao salário real, poder de compra do salário, e não ao salário nominal, ou expresso em moeda.). Este salário de equilíbrio para determinada categoria haverá de ser necessariamente próximo ao nível de subsistência, como enunciava a "lei de ferro dos salários"? Já vimos que não: abundância de recursos naturais, bom estoque de capital, e qualificação dos trabalhadores, podem empurrar para cima o nível de equilíbrio dos salários. Mas, neste caso, por que as populações dos locais onde o salário é mais baixo não migrariam para aquelas economias pujantes , onde obteriam melhores salários? A resposta é que de fato aparece o movimento migratório e se faz neste sentido, como se observa nos EUA, e o aumento da oferta de mão-de-obra levaria ao rebaixamento do valor dos salários, em segmentos concorrenciais (ver abaixo). São as políticas de controle da imigração que interviriam neste fluxo. Se falamos em políticas de controle da oferta de mão-de-obra (restrições ao fluxo migratório), saímos do ambiente de concorrência perfeita; o mercado de trabalho sempre foi dos mais afetados por externalidades (fatores externos que perturbam as condições de concorrência perfeita). Mas 'sempre que há uma limitação da oferta de trabalho (enquanto os demais fatores produtivos mantêm-se constantes), haverá tendência ao aumento de salários. (Há outras externalidades que influem no mercado de trabalho; discriminação por motivos de raça, de sexo, de idade, avanços tecnológicos, migração, fatores climáticos etc). Mas, mantida constante a população, os seguintes fatores influem sobre a oferta de trabalho: a) a população total; b) a parcela da população que faz parte da População Economicamente Ativa (PEA); c) a duração do trabalho (i.é., o número de horas trabalhadas, numa unidade de tempo); d) a produtividade dos trabalhadores (quantidade e qualidade do trabalho executado).
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(com base em SAMUELSON/NORDHAUS, p. 763) Relativamente ao item a), devemos observar que a participação das mulheres na PEA aumentou espetacularmente nas últimas décadas (em meadas dos anos 60, 40%; em meados da década de 80, 53%, nos EUA, mas o fenômeno tem características universais). (É claro que não devemos procurar a causa desta expansão nas leis econômicas, mas em fatores sociais - mudança do papel social da mulher) Da maior importância é o estudo do efeito do aumento dos salários na oferta de trabalho. A princípio a conclusão - lógica, de que um aumento dos salários levaria ao aumento dos itens b) e c) acima, não se confirma inteiramente, dado à opção renda/lazer, que o trabalhador deve fazer. Pode ser que o aumento do salário/hora o leve a trabalhar mais horas ( o tempo de ociosidade tornar-se-ia relativamente mais caro: "quanto estou deixando de ganhar, quando me recuso a fazer horas-extras ou a trabalhar no fim-de-semana ?"). Mas pode acontecer também que salários mais altos provoquem recuo na oferta de trabalho; primeiro porque, na medida que um dos cônjuges ganha mais, o outro pode abandonar o próprio posto de trabalho, para dedicar-se à família, por exemplo; e, também porque o próprio indivíduo ganhando mais se autorize a desfrutar mais, querer mais tempo livre, no fim-desemana e nas férias, antecipar a aposentadoria etc. Para concluir: se o aumento de salário provoca aumento da oferta de trabalho (mais trabalho) temos o efeito substituição, já quando esta elevação de salários implica diminuição da disponibilidade temos o efeito rendimento. O mercado de trabalho apresenta outros aspectos determinantes dos salários que devem ser consideradas Há tarefas que são mais penosas que outras; e há tarefas que são particularmente atraentes ou cômodas para as pessoas. Os trabalhos que envolvem insalubridade, periculosidade, penosidade, o trabalho noturno tendem a ser melhor remunerados para compensar o desconforto são os diferenciais de compensação. (Como exemplo temos o trabalho nas minas, em exploração de petróleo, em usinas nucleares...) Do outro lado, os trabalhos "agradáveis" como os de escritório, apresentam níveis salariais mais baixos. Outras diferenças podem ser observadas a partir do próprio trabalhador. Há pessoas que investiram tempo e dinheiro em sua formação profissional. A formação de médicos, advogados, engenheiros é um processo demorado e caro, representa investimento em capital humano, e a remuneração destes profissionais em parte representa salário e em parte rendimento deste capital ("capital humano é conceito que designa o estoque de conhecimento útil e valioso obtido através de processo de educação e formação") (SAMUELSON/NORDHAUS - p.768) Além destes profissionais que ocupam nichos melhor remunerados o mercado, há que considerar as situações excepcionais de pessoas que, devido a suas qualificações raras atletas excepcionais, artistas, professores, enfim muitas atividades vêem surgir esses profissionais raros - atingem tão grande valor no mercado, que suas remunerações são tidas como "renda econômica pura'. Também há que considerar os grupos não concorrentes no mercado de trabalho; trata-se de constatar que muitas atividades não são intercambiáveis entre os diversos trabalhadores; isto é, se há demanda por cozinheiros, músicos não servem para atender a esta demanda; músicos e cozinheiros são grupos não concorrentes no mercado de trabalho. É intuitivo que quanto mais especializado é o trabalho menos concorrência há entre grupos diversos; e quanto menos especializado, maior a concorrência. O fato de ser o mercado de trabalho bastante segmentado - existência de diferenças entre os trabalhadores, mais ou menos preparados; existência de diferenciais compensatórios; existência de grupos não concorrentes etc. - não é bastante para explicar a situação desfavorável de alguns segmentos - mulheres,
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negros e outras etnias - com menores salários e taxas mais altas de desemprego, no mercado de trabalho. Neste caso, constata-se discriminação que pode ser assim conceituada: "...quando a diferença de remunerações resulta simplesmente de uma característica pessoal irrelevante, como, por exemplo, a raça, o sexo ou a religião, chamamos-lhe discriminação." (SAMUELSON/NORDHAUS - p. 773) CURVA DA OFERTA DE TRABALHO Levando em conta as variáveis acima apontadas, se desenhamos a curva da oferta de trabalho ( no eixo das ordenadas - vertical ou Y), o valor dos salários; nas abscissas (horizontal, ou X), a quantidade de trabalho (na unidade de tempo), verificamos que o aumento do salário a partir de um certo ponto provoca uma flexão para trás da curva da oferta! Isto é, à medida que o salário sobe, há propensão a trabalhar mais horas ( a curva se projeta para a direita em resposta ao efeito substituição) até um ponto em que um aumento ainda maior dos salários leva à diminuição das horas trabalhadas - a curva da oferta flete para trás, indicando que o 'efeito rendimento' prevalece sobre o 'efeito substituição'. KEYNES E O DESEMPREGO Diferentemente dos economistas clássicos, que acreditavam tender a economia para o pleno emprego, e de MARX, que estudou o desemprego em função do capital, concluindo que o 'exército natural de reserva' (população desempregada) fazia parte da estratégia de apropriação da mais valia ( principal fonte de acumulação do capital, KEYNES estudou o desemprego em função da oferta, da propensão a consumir, e do volume de investimento, concluindo que o a economia podia atingir equilíbrio entre oferta/procura num alto nível de desemprego. De fato, tendo publicado sua Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro - General Theory of Employment, Interest and Money - na década de 30, quando a grande depressão e, o desemprego em grande escala assustava o mundo industrializado, KEYNES ofereceu nova descrição do funcionamento da economia, com base nas seguintes proposições: 1a) "Desemprego em uma economia de mercado - ...uma economia de mercado poderia não ter forças vigorosas que a movimentassem em direção ao pleno emprego; na verdade poderia alcançar equilíbrio com desemprego em grande escala. 2a) A causa do desemprego. - Keynes argumentava que o desemprego em grande escala é o resultado de gastos excessivamente baixos em bens e serviços. Em outras palavras, desemprego reflete uma insuficiência de demanda agregada. 3°) A cura para o desemprego - Para curar o desemprego a demanda agregada deveria ser aumentada. A melhor maneira de fazer isto, argumentava Keynes, é pelo aumento de gastos governamentais. (WONACOTT & WONACOTT - p. 106) A demanda agregada seria uma combinação de: a) gastos em consumo pessoal; b) demanda por investimentos; c) gastos governamentais em bens e serviços; d) exportações líquidas) (WONACOTT - p. 108)

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A insuficiência da demanda agregada é fruto de um círculo vicioso; empresários fecham suas fábricas, porque não conseguem vender de maneira a garantir lucros; empregados são despedidos; diminui a propensão a consumir; o que se reflete em fechamento de mais fábricas, redução da produção, mais desemprego. As pessoas preferem poupar a consumir, assustadas com a crise. Ora, um aumento induzido da demanda - aumento dos gastos governamentais, por exemplo – permitiria que as fábricas voltassem a utilizar equipamentos ociosos, e a contratar empregados. Este aquecimento da economia não geraria aumento de preços, já que significaria aproveitamento da capacidade ociosa. O aumento da produção geraria aumento no Produto Interno , e permitiria mais investimentos, passando agora a um círculo virtuoso. À medida que a economia fosse se aproximando .da sua capacidade, o nível de desemprego diminuiria. O aumento de preços só viria quando a demanda fosse maior que a capacidade de produção. Neste momento aumentos na demanda causariam inflação. A teoria de KEYNES teve enorme aceitação e serviu de orientação a governos às voltas com o problema do desemprego. Trata-se de análise macroeconômica - "que trata o comportamento global da economia, o produto, o rendimento, os preços e o desemprego. (A microeconomia aborda os comportamentos individuais dos elementos econômicos - como a determinação do preço de um produto ou o comportamento de um único consumidor ou de uma única empresa). (SAMUELSON/NORDHAUS - p. 1127)

TIPOS DE DESEMPREGO Sabemos que as taxas de desemprego só refletem aquela parcela da população economicamente ativa em situação involuntária de desemprego. Isto é, para que uma pessoa seja considerada desempregada é necessário que ela tenha procurado emprego num lapso de tempo imediatamente anterior à pesquisa. Por isto que a teoria de Keynes pode explicar uma situação paradoxal frente às teorias anteriores: como podia haver ao mesmo tempo postos de trabalho vagos e pessoas em situação de desemprego involuntário? Vimos que para as teorias clássicas os salários se deslocariam para baixo na curva de oferta, até que fosse atingida a situação de equilíbrio. Há motivos para que isto não ocorra, além dos já examinados (diversidade do mercado, com segmentos não-concorrenciais, aumento da PEA em relação à população total; efeito rendimento e efeito substituição etc.) e um deles é a rigidez dos salários. Ressalvado o fato de que a ciência econômica não conseguiu ainda responder à indagação; "por que os salários não diminuem quando há postos de trabalho vagos?" algumas 'fontes de rigidez' dos salários podem ser apontadas. Salários são fruto de difíceis acordos individuais ou coletivos entre patrões e empregados e, muitas vezes, fixados em convenções ou acordos coletivos, com a intermediação, portanto dos sindicatos representantes das categorias profissionais (empregados) e econômicas (empregadores). Por outro lado há níveis salariais fixados em lei - salário mínimo, salário mínimo profissional, além de outras medidas que impedem redução salarial). Daí que as atividades onde há uma organização sindical forte impede, para o bem e para o mal, ajuste automático, ao sabor das leis do mercado. (Também as políticas governamentais, que restringem o fluxo migratório, representaria intervenção nos mecanismos de ajuste automático). Outra variável que escapa às leis da economia, é o fato de certos segmentos sociais, mulheres, negros, jovens, apresentarem taxas de desemprego mais altas (e níveis de remuneração mais baixos) que os demais. Neste caso há discriminação racial, sexual ou de outro tipo. Dizemos que há discriminação, quando um determinado segmento social encontra-se em desvantagem no mercado de trabalho, devido a uma característica pessoal irrelevante em termos de produtividade, que pode ser a raça, o sexo, a religião etc.
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DESEMPREGO FRICCIONAI, ESTRUTURAL e CÍCLICO Quando se indaga aos desempregados por que estão nesta situação, as respostas podem ser diferentes. Daí identificar-se tipos de desemprego que são:

Desemprego friccionai: quando o desempregado abandonou um emprego, em busca de outro melhor, ou porque mudou de cidade, ou porque quer se dedicar mais aos filhos - isto é, quando de alguma forma há uma voluntariedade na situação, diz-se que tal desemprego é friccionai. Também chamado de desemprego normal, "ocorre por desajuste ou falta de mobilidade entre a oferta e a procura", isto é, há empregados buscando postos de trabalho e empregadores procurando por empregados, mas eles levam um tempo a se encontrar. ("Em certas atividades como a agricultura e a hotelaria pode ocorrer o desemprego sazonal, limitado a certas épocas do ano, devido aos ciclos naturais e previsíveis). Desemprego estrutural: o dinamismo da economia leva ao esgotamento de atividades econômicas - lembramos as fábricas de velas, quando desenvolvida a lâmpada elétrica - e surgimento de outras; é preciso um tempo para que a mão-de-obra deslocada das atividades em declínio se encaminhe para aquelas em ascensão; o desemprego causado por este desajuste é chamado estrutural.

O desemprego estrutural é às vezes chamado desemprego tecnológico, por originar-se em mudança de tecnologia de produção ou nos padrões de demanda dos consumidores (tornando obsoletas certas profissões e fazendo surgir outras). Grande número de trabalhadores pode ficar desempregado a curto prazo, enquanto uma minoria especializada é beneficiada pela valorização de sua mão-de-obra.

Desemprego cíclico: diferentemente do desemprego estrutural que se localiza em algumas atividades, ou em algumas regiões, o desemprego cíclico atinge a economia como um todo. Ocorre nos períodos de recessão, e é tão mais grave, quanto mais extenso. "O desemprego cíclico revelase quando o equilíbrio global do mercado de trabalho revela desaproveitamento da mão-de-obra." (SAMUESLSON/NORDHAUS - p. 261).

TAXA NATURAL DE DESEMPREGO Compreendemos que uma economia encontra-se equilibrada quando o mercado de trabalho e o mercado dos produtos atingiram um ponto em que não há tendência para aumento de preços ou de salários. Ou seja, se a taxa de inflação e a taxa de desemprego apresentam-se estáveis, sem oscilar para mais ou para menos dizemos que a economia está em equilíbrio. A taxa de desemprego verificada neste cenário é a taxa natural de desemprego. Ensinam os economistas: "Numa economia moderna, preocupada em evitar taxas de inflação elevadas, a taxa natural de desemprego é a taxa mais baixa que pode ser mantida, representando, assim, o nível mais elevado de emprego possível de sustentar e correspondendo ao nível de produto potencial de uma nação." (SAMUELSON /NORDHAUS - p. 263) Seria desejável que a taxa natural de desemprego fosse igual a zero, ou próxima disto. Mas é quase impossível que isto aconteça. Nas economias modernas, de grande dinamismo, haverá sempre uma taxa de desemprego friccionai (pessoas que acabam de atingir idade para entrar no mercado de trabalho e estão à procura do primeiro emprego; ou querem trocar de emprego; que corresponde a 2% ou 3% da PEA, a que se deve acrescentar o desemprego estrutural, pessoas que acabam de perder o emprego e estão aguardando outra oportunidade. Números válidos para os EUA, onde , mesmo em situação de pleno emprego, 3 ou 4% da população encontrar-se-ia desempregada.
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Repetimos, nem para KEYNES, que definia o pleno emprego, como o ponto no qual a demanda agregada não pode mais provocar aumentos de empregos e da produção, nem para BEVERIDGE que definiu o pleno emprego com "situação na qual há mais postos de trabalho vagos que pessoas desempregadas, os salários são justos, e os desempregados podem conseguir emprego com facilidade" o pleno emprego significava taxa de desemprego igual a zero. Para KEYNES, había una distinción crucial entre el desempleo voluntário y el involuntário, y su concepcíón dei pleno empleo apuntaba a Ia eliminación dei involuntário." ( In El empleo en el mundo 1996/7 - Revista da OIT, p. 15) É claro que é interesse dos países manter baixas taxas de desemprego natural, e quando ela se encontra elevada, - e tem havido uma tendência neste sentido - algumas medidas podem ser tomadas: ⇒ "Melhorar os serviços de informação do mercado de trabalho", de modo a promover encontros' entre os que procuram empregos e os postos de trabalho disponíveis. ⇒ "Cursos de qualificação profissional" ⇒ "Criação de empregos no setor público" ⇒ Diminuição dos 'custos' do empregado, para o empregador; isto é, diminuição dos encargos sociais incidentes sobre as folhas de pagamento. (Com base em SAMUELSON/NORHAUS - p. 267) Relativamente ao último item, convém frisar que as medidas de liberalização, flexibilização, desregulação do mercado de trabalho não têm sido acompanhadas de pronta repercussão nas taxas de desemprego. (Haja vista experiência espanhola e argentina de criação de contratos temporários de trabalho, revogadas pelo efeitos indesejáveis que produziu, (restrição dos créditos ao trabalhador; aumento da litigiosidade trabalhista, com sobrecarga do Judiciário) sem atingir as metas propostas. Já a criação de postos de trabalho pelo governo, sobretudo direcionado aos segmentos mais afetados pelo desemprego - jovens, negros, mulheres - tem sido sugerida, mas concorrendo com as medidas de 'enxugamento' do setor público, que aconselham o contrário. Na verdade, acreditam muitos economistas que estas medidas têm baixíssima repercussão nos índices de desemprego. Parece que só o crescimento da economia pode gerar mais empregos. MERCADO DE TRABALHO NO BRASIL O mercado de trabalho, no Brasil, apresenta peculiaridades, como de resto as apresentam os países periféricos (em relação ao Primeiro Mundo, ou países de industrialização avançada). A princípio observa-se uma grande heterogeneidade, seja distribuição da população pêlos setores primário agricultura, secundário - indústria; e terciário - serviços, seja em termos de determinação dos salários (grande diferença entre o mínimo e os maiores salários), seja em relação à proteção legal, que atinge os alceados nos setores mais modernos e urbanos, mas deixa ao desabrigo bóias-frias, biscateiros, e uma grande quantidade de hipossuficientes, tidos como autônomos, eventuais, ou desempregados. Ultimamente as taxas de desemprego mudaram de patamar, passando de históricos 5%, ou menos, para mais de 8%. (Ver metodologia da pesquisa em outra seção). De qualquer forma o deslocamento da PEA do setor primário para o secundário e deste para o terciário é uma realidade. Por outro lado a exposição à globalização - abertura dos mercados, e o esforço concomitante para controlar a inflação, além do salto tecnológicos que leva ao aumento da produtividade, com diminuição dos postos de trabalho, têm afetado duramente os países em desenvolvimento. Na próxima seção conheceremos melhor deste mercado.
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MERCADO DE TRABALHO FORMAL E INFORMAL O modo de produção na sociedade industrial deslocou o peso da produção do setor primário agricultura, para o setor secundário - indústria; (num terceiro momento houve expressivo crescimento do setor terciário - de serviços). A expansão do setor secundário foi acompanhada de acelerado processo de migração dos campos para a cidade, e, nas épocas de pleno emprego, grande parte da população economicamente ativa PEA, estava empregada no setor secundário da economia. Sabemos que à medida que as economias se expandiam, inclusive para além-fronteiras, como se deu na intensificação da colonização, e aumentava a concorrência, os Estados trataram de intervir nas relações de produção através de legislação, que diminuíam as tensões sociais, garantindo um mínimo de direitos aos trabalhadores empregados, e providenciando sistemas previdenciários para os casos de desemprego, velhice, aposentadoria e doença, por um lado, e diminuindo o ímpeto do sindicalismo, por outro. Políticos e empresários cedo perceberam as vantagens de mensurar as variáveis envolvidas na produção - número de empregados, de desempregados, distribuição por faixa etária, e por sexo das postos de trabalho, valor dos salários nas diversas atividades, jornada de trabalho, incidência de acidentes, quantidade de matéria-prima, energia consumida, maquinário, mercadorias produzidas etc – até para melhor desenvolver políticas de planejamento. Ora, nos estados europeus pioneiramente industrializados, relatórios feitos por encomenda do governo ou dos empresários, e até de estudiosos passaram a gerar quantitativos e séries estatísticas que sugeriam um painel confiável do mundo do trabalho. Tais procedimentos resultaram numa metodologia de pesquisa, levada a efeitos ora pelo Estado, ora por agentes econômicos, com diferentes propósitos. No entanto a simples transposição desta metodologia para os países periféricos, ou de industrialização tardia, como o Brasil, não surtiu os mesmos efeitos: é que a simples contraposição empregados/desempregados, por exemplo, numa pesquisa de desemprego, esbarrava na heterogeneidade do mercado de trabalho brasileiro, que apresentava - e apresenta - formas de inserção no mercado de trabalho que nem permitem caracterizar o indivíduo como empregado, nem como desempregado. O biscateiro, por exemplo, não é empregado, na medida que não tem vínculo com nenhum empregador, geralmente não está matriculado na Previdência, e nem recolhe impostos; mas também gera alguma renda, o que impede de considerá-lo simplesmente desempregado (categoria que supõe não ter o trabalhador percebido nenhuma renda num certo intervalo de tempo definido pela pesquisa). O fato de haver nas economias dos países subdesenvolvidos (ou em desenvolvimento, como se tem dito, sem nenhum rigor conceituai), uma clivagem entre setor moderno, (o setor industrial, com sistemas organizacionais semelhantes àqueles dos países desenvolvidos) ao lado de um setor tradicional (onde se encontram os empregados rurais e domésticos, por exemplo), não é suficiente para descrever todas as formas de trabalho e apropriação da mão-de-obra há o trabalho familiar, os bóias-frias, os subempregados, os autônomos, cuja empresa se resume à própria força de trabalho, alugada aqui e acolá etc. que levou os teóricos a experimentar outra abordagem e falar em "mercado formal" e "mercado informal" de trabalho. O mercado formal compreende o setor moderno, é claro, onde há perfeito controle estatístico, e conformidade às normas jurídicas - registro dos empregados, quando da admissão e da dispensa,
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recolhimento de contribuições previdenciárias e tributárias, obediência às normas administrativas relativas às condições de trabalho etc. -, sendo possível ao Estado mensurar corretamente os indicadores sociais e econômicos ali alojados, (No setor tradicional, não há uma adesão pronta à esses padrões e o controle sempre foi mais precário). Já o mercado informal - "que é como uma girafa, difícil de descrever, mas fácil de reconhecer", conforme um economista citado por CACCIAMALI - reflete a "heterogeneidade do mercado de trabalho como resultado de um crescimento das atividades modernas inferior ao crescimento da disponibilidade de trabalho" situação agravada nos ano 80/90, pela "expulsão dos trabalhadores formais (desemprego) para a situação de informalidade, com uma passagem pela situação de desemprego aberto". (DEDECCA-11) Em termos teóricos se observa que no "estabelecimento informal não há separação entre capital e trabalho."( CACCIAMALI - 89) A mesma autora esclarece: no setor informal, "o produtor direto é proprietário dos instrumentos de trabalho e/ou estoque de bens para a realização e se insere na produção sob a forma simultânea de patrão e empregado; emprega a si mesmo e pode lançar mão de trabalho familiar ou de ajudantes como extensão de seu próprio trabalho; obrigatoriamente participa diretamente da produção (de bens ou serviços) e conjuga esta atividade com aquela de gestão." A autora faz ainda distinção entre setor informal e economia submersa como se vê no seguinte quadro: Relações de Produções Economia registrada Economia submersa Assalariados não-registrados Pequenos produtores; mão-de-

Setor formal Assalariados registrados funcionários públicos Setor informal Pequenos produtores; mão-deobra familiar e ajudantes; trabalho própria e doméstico

por conta própria e ajudantes; serviços domésticos, (Registrado)

obra familiar e ajudantes; trabalho por conta ajudantes; serviço (Não-registrado)

Obs. A economia submersa, caracterizada pelo não-registro de suas atividades, isto é, escapa ao poder fiscal do Estado, abriga o trabalho informal, mas este último aparece também no setor registrado. É importante frisar que a existência de um setor informal, que já responde por metade da PEA, se, por um lado, contribui para o dinamismo da economia, por outro lado significa perda de receita fiscal pelo Estado, e aumento das despesas, haja vista a seguridade social prestar amparo a contribuintes e nãocontribuintes. Ver art.194.CF/88.

A INTERVENÇÃO GOVERNAMENTAL; POLÍTICA SALARIAL E POLÍTICA DE EMPREGO

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As democracias liberais romperam enfraquecidas o séc. XX: haja vista a IGuerra Mundial, as experiências totalitárias à esquerda (Revolução Russa de 1917) e à direita (fascismo e nazismo na Europa) e, além das crises políticas a crise econômica da década de 30, a recessão levando desespero e desemprego a lares burgueses e operários. A resposta ao esgotamento do modelo liberal e à incapacidade do mercado de distribuir renda e aplacar reivindicações das massas politizadas foi o modelo de Estado conhecido por Estado do Bem-Estar, Estado Providência, ou Estado Social. Nesta nova ordem o Estado assume papel ativo - políticas keynesianas - e usa instrumentos como a política fiscal, política monetária, política de rendimentos, para intervir no mercado e atingir alguns objetivos. Sob este enfoque o salário não é deixado a flutuar no mercado, como uma mercadoria qualquer, mas são fixados patamares mínimos, por lei. Também as jornadas, o trabalho extraordinário, o trabalho noturno, as férias, o repouso semanal sofrem regulamentação. A cessação do contrato de trabalho se reveste de obstáculos, e gera direitos de indenização. Há ainda direitos previdenciários ligados ao contrato de trabalho. Na verdade a maioria dos países se preocupou em estender esta rede de proteção ao trabalhador, mas com algumas variantes. Enquanto nos países industrializados, com sindicatos fortes, coube a estes importante papel na fixação das condições de trabalho, através dos instrumentos de acordo e convenção coletiva, países houve que preferiram a intervenção direta do Estado, através do Poder Legislativo (leis), Poder Executivo (regulamentos, portarias, instruções normativas, etc. e órgãos de fiscalização) e Poder Judiciário ( poder normativo da Justiça do Trabalho). O Brasil é exemplo deste último modelo, que prevaleceu desde a década de 30, reforçado com a CLT, na década de 40. Lembramos que a CLT foi recepcionada pelas Constituições que se lhe seguiram (1946; 1967; EC 1969; 1988). No entanto, sob impacto da globalização, e do salto tecnológico que mudou o mundo do trabalho da década de 70 para cá, a última constituição introduziu o princípio de flexibilização dos direitos do trabalho, através de negociação coletiva. (CF, art. 7°, inc. VI, XIII e XIV). Pode-se afirmar que as relações coletivas de trabalho voltam a merecer grande importância, a negociação coletiva passa a ser o instrumento privilegiado de composição dos conflitos - art. 114 § 1°, Instrução Normativa n° 4 do TST, e os dissídios coletivos (§ 2°, só se frustrar a negociação coletiva). Também a "relação de emprego protegida contra despedida arbitrária, ou sem justa causa" de que fala o inc. l, do art. 7°, da CF, é entendida como de caráter político. Isto é, cabe ao governo tomar medidas políticas que visem ao crescimento econômico e desta maneira movimentem a economia em direção ao pleno emprego. Aí se compreendem também medidas como o seguro-desemprego, os programas de qualificação da mão-de-obra, e outras medidas de caráter previdenciário.

MODELOS TRADICIONAIS SOBRE O PAPEL DOS SINDICATOS Quando se fala em papel e modelo dos sindicatos, o que se tem em vista é a alternativa de concentrar as reivindicações nos interesses imediatos da classe trabalhadora (melhores salários, melhores condições de trabalho) ou numa luta mais ampla que tenha por objetivo a participação da classe trabalhadora no poder político. No primeiro caso, temos um sindicato de resultados, que restringe sua atuação ao âmbito das relações de trabalho, e cujos protagonistas são empregados e empregadores, considerados como agentes econômicos. No segundo caso há uma atuação ideológica, o plano de ação ultrapassas os portões da
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fábrica e se estende à arena política; as reivindicações são estendidas ao Estado e empregados e empregadores são vistos como agentes políticos. Pode-se apontar ainda o sindicato corporativista, existente nos regimes totalitários, onde a luta de classes é negada, submetidos que são os interesses de classe ao interesse maior da nação. O sindicato assistencialista, que presta serviços de natureza previdenciária e social, encontra aqui seu espaço mais completo de atuação, embora este papel seja assumido pêlos sindicatos, qualquer que seja sua orientação ideológica. Da tensão entre sindicato e empresas surgiram algumas formas de kita que devem ser lembradas, tais eram as estratégias adotadas pelas empresas para enfraquecer os sindicatos, ou pêlos sindicatos para aumentar o poder de controle sobre a contratação de trabalhadores pelas empresas. Vejamos "as principais armas utilizadas pêlos patrões na sua luta contra os sindicatos", nos EUA: ⇒ "despedimento discriminatório dos trabalhadores sindicalizados ⇒ a lista negra (continha nomes dos líderes sindicais que não deviam ser contratados) ⇒ lock out

a cláusula prévia pela qual o empregado se comprometia a não aderir a nenhum sindicato (yellow dog contracts)

⇒ espionagem dos trabalhadores ⇒ guardas armados e indivíduos contratados para furar greves; ⇒ conspiração dos comerciantes, da polícia e juizes contra os organizadores de greves ⇒ os sindicatos de empresas ⇒ os mandatos judiciais" (SAMUELSON/NORDHAUS- 73, p. 786). Também os sindicatos desenvolvem estratégias para aumentar seu poder depressão junto às empresas. Sem dúvida o controle da admissão dos empregados é ponto fundamental. Daí as cláusulas closed shop que impõem a uma empresa a contratação apenas dos trabalhadores filiados a determinado sindicato. MONOPÓLIO BILATERAL E MONOPSÔNIO Nas economias industrializadas e, sobretudo a partir do fordismo, empresas e sindicatos se tornaram instituições poderosas, as vezes com milhares de empregados e filiados. Nestas situações há verdadeiro cabo-de-guerra entre estes agentes políticos, estabelecendo-se monopólio bilateral, quando as empresas detêm o monopólio do poder de contratar, de oferecer postos de trabalho; e o sindicato detém o poder de fornecer a mão-de-obra necessária. Já, em pequenas cidades ou regiões isoladas, pode acontecer de haver apenas uma empresa, onde devem trabalhar todos que estão 'a procura de um emprego. São estas as situações de monopsônio, onde só há um agente comprador. (Monopólio = vendedor único; monopsônio = comprador único). Somente a aglutinação dos trabalhadores em um sindicato pode vir a restabelecer as condições de normalidade na negociação de condições de trabalho e salário.

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Fiscal do Trabalho Bibliografia:

Telma Lage – Irineu Zibordi

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