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Aletusya de Araújo Benevides*

PROJETO DE PESQUISA

Identidade partilhada: representações e práticas


sociais na Fortaleza turística
(Fortaleza, julho de 2009)

*Doutora em História Social pela Universidade de Campinas (UNICAMP)


SUMÁRIO

Aletusya de Araújo Benevides*......................................................................................1


PROJETO DE PESQUISA.............................................................................................1
Identidade partilhada: representações e práticas sociais na Fortaleza turística .............1
(Fortaleza, julho de 2009)...............................................................................................1
*Doutora em História Social pela Universidade de Campinas (UNICAMP).................1
Análise Teórica...............................................................................................................3
Justificativa.....................................................................................................................9
Objetivo Geral:..............................................................................................................15
Objetivos Específicos....................................................................................................15
Metas.............................................................................................................................16
Metodologia..................................................................................................................16
Referência bibliográfica................................................................................................19

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Benevides, A. A

Análise Teórica

Este projeto alicerça-se na principal proposta contemporânea da História


Cultural que é o decifrar aspectos de uma dada realidade por meio de suas
representações, procurando chegar às formas discursivas e imagéticas pelas
quais indivíduos e coletividades expressam a si próprios e ao mundo. E, neste
sentido, a cultura é compreendida como uma forma de expressão que traduz a
realidade expressa simbolicamente em palavras, discursos e imagens, em
práticas, ações e materialidades, as quais comportam crenças, conceitos, valores
e mitos.
Mas a configuração do campo da História Cultural, como a
compreendemos hoje, é fruto de reorientações epistemológicas em curso desde a
década de 1980. Obviamente, tais reorientações são maturações de conceitos e
formulações desenvolvidos a priori, sobretudo na Etnolologia e Antropologia, como
os estudos sobre as formas de integração social, desenvolvidos por Marcel Mauss
e Émile Durkheim, já no início do século XX. Os estudos de Mauss e Durkheim
introduziram um dos principais conceitos dessa reorientação da História como
ciência, o conceito de Representação transformou o nível cultural na forma de
determinação primária da sociedade, realizadas nos anos de 1980 por Pierre
Goubert e Emanuel Le Roy Ladurie, uma aproximação fundamental entre a
História e a Antropologia Cultural. O ressurgimento no seio da Historiografia Social
do conceito de mentalidade avançava para interpretações sobre a cultura como
elemento chave para o conhecimento de uma realidade traduzida em valores,
idéias, conceitos e explicações sobre o mundo. O vetor por excelência para a
compreensão dessa realidade múltipla figurou-se a partir da interpretação de
práticas e experiências constituídas no cotidiano, sobretudo do sujeito comum,
uma abertura no panorama da chamada História Vista de Baixo.
Benevides, A. A

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O conceito de representação eliminou a separação existente nas
análises tradicionais entre real e não-real, possibilitando um debruçar-se sobre
manifestações que comportam regimes de verossimilhança e não de veracidade.
É a partir das representações que os sujeitos percebem a realidade e pautam
suas ações, portanto funcionam como geradoras de condutas e práticas sociais
que explicam o real e dão sentido ao mundo e, por isso “são portadoras do
simbólico, ou seja, dizem mais do que aquilo que mostram ou enunciam, carregam
sentidos ocultos, que, construídos social e historicamente, se internalizam no
inconsciente coletivo e se apresentam como naturais, dispensando reflexão”
(Pesavento, 2003: 41).
Do conceito de representações deriva um outro conceito que também se
posiciona nessa nova reorientação epistemológica do historiador. O conceito de
Imaginário, como um sistema de representações coletivas, dota-se de
historicidade e, mais que isso, é apreendido como um objeto de entendimento da
realidade humana, capacidade criadora do real que não compreende seu reflexo
ou cópia, mas que é vívida e vivida como uma realidade, talvez a única realidade a
qual podemos nos apropriar. O imaginário que comporta crenças, valores,
verdades, mitos e ideologias é construtor de identidades e, como tal, também
constrói exclusões e unidades pautadas nas diferenças e semelhanças na
percepção de quem é o outro. Representação e imaginário são realidades
construídas historicamente, dando sentido ao universo material, social e cultural e,
como tal, expressos em todas as manifestações humanas. Sentidos que se
impregnam em palavras e gestos, discursos e imagens, coisas e materialidades,
práticas ritualísticas e performances extra-ordinárias, as quais expressam saberes,
fazeres e a própria consciência de si, a identidade de si, produzindo coesão e
conflito.
Com a reorientação voltada para as representações e imaginário, como
categorias epistemológicas de compreensão das múltiplas realidades históricas,
as identidades tornaram-se um dos principais objetos de apreensão das análises
da História Cultural. Não mais circunscrita exclusivamente às categorias de classe,

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a identidade é percebida a partir de uma crescente complexificação da realidade


sócio-cultural, cujo principal lócus investigativo é a cidade. Cidade, lugar político
da formação do cidadão, em constante criação e re-criação por múltiplas e
diversificadas personagens urbanas, cujas vivências cotidianas dão-lhe forma,
textura, cores, odores e sentidos. De acordo com Fernanda Tocchetto e Beatriz
Thiesen (2007) a cidade pode ser interpretada como uma construção estratificada,
possibilitando a interpretação de sucessivas camadas de História, a partir da
materialidade que empresta sentido ao olhar do arqueólogo, e que sob a forma de
imagens/representações ganha existência concreta na memória de seus
habitantes. Para Ulpiano Bezerra de Menezes (2006) a cidade não pode ser
interpretada, sob risco de simplificação excessiva de suas problematizações,
como estratos, segmentos ou compartimentos, mas como focos diferentes e
diversificados para a observação da natureza, estrutura, funcionamento e
transformação de uma realidade complexa e dinâmica. Devendo, portanto, ser
interpretada considerando-se a priori suas dimensões como artefato, como um
campo de forças e como um campo de significações.
Como um artefato cultural, a cidade expressa-se através de seus
padrões locacionais, configurações topográficas, equipamentos, coisa fabricada e
socialmente apropriada, produzidas no interior de relações de força e de conflitos,
tensões de natureza territorial econômica, política, social e cultural. A cidade, além
de um artefato socialmente produzido num campo de forças, é também imagem e
representação produzidos por práticas que dão forma e função ao espaço e o
instituem como artefato que, em contrapartida, alimentam as próprias práticas de
sentido. No que aceitamos a máxima “sem as práticas sociais não há significados
sociais. Mas também não há significados sociais sem vetores materiais. (Idem,
ibidem: 37)
A cidade, como um bem culturalmente produzido, é patrimônio
apropriado de forma diversificada, diferenciada e múltipla por seus habitantes.
Vivenciada, sentida e expressa em representações de complexas estruturas
imaginárias, nas quais observa-se a diversidade temporal de seu presente. O

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principal sujeito da cultura é o habitante da cidade, posto que é no seu cotidiano


de habitação, trabalho e lazer que se concretizam as condições mais ideais de sua
fruição, onde “a contigüidade, a possibilidade de reiteração, de continuidade, de
integração de apropriações multiformes e de enraizamento pessoal e comunitário
nos demais traçados da vida corrente” (Idem, ibidem: 40-41). Por isso toda
interpretação sobre a cidade, seja esta uma simples “casca cênica de fruição
estética”, ou mesmo viva no contexto flúido da cultura do trabalho e do cotidiano,
parte do princípio do entendimento deste imaginário inserido nas três dimensões
que se reveste a cidade como um bem culturalmente produzido, o qual tem
matrizes no universo dos sentidos, das identidades e das mentalidades de seus
habitantes.
O universo do cotidiano e do trabalho, entretanto, tem sido mantido fora
da maioria das políticas culturais. Se a cultura do trabalho “engloba ao mesmo
tempo os saberes e o saber-fazer, os conhecimentos técnicos e as relações
sociais no trabalho, os sistemas de representações e dos valores que lhe estão
articulados nas práticas cotidianas” (Lauwe apud Meneses, ibidem: 38), é difícil
compreender a prática de políticas culturais, cuja interpretação sobre a cultura
coloca-a como um segmento de vida à parte, devendo ser mantida seccionada
dos circuitos do cotidiano, purificada das instâncias em que se concretizam as
relações e as práticas sociais ordinárias. Um universo cultural paralelo que em
nada reflete o cotidiano de trabalho, habitação e lazer, uma reduplicação e
superprodução de sentidos que por vezes leva à implosão do significado, uma
cultura apreendida e reproduzida como pertinente exclusivamente à ordem do
simbólico.
Concordando com Ulpiano Bezerra de Menezes, para uma cidade ser
apropriada como um bem culturalmente produzido e a reprodução de sua cultura
vista como um elemento de fruição e até mesmo como um bem para as
modalidades operacionais de mercado como o simbólico, esta cidade deve ser,
primeiramente, boa, como cidade, para seus habitantes. Boa no sentido amplo de
condições de viabilidade econômica, infra-estrutura, habitação etc, mas também

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boa no sentido de ser considerada um bem cujos sentidos e valores expressos


nas práticas sociais cotidianas concedem-lhe o diferencial que a identifica
culturalmente, tornando-se boa para ser conhecida pelo autóctone ou pelo turista,
boa para ser contemplada, apropriada pela memória, consumida e praticada.
No Brasil, durante as décadas de 1950 e 1960 as mudanças no modelo
do desenvolvimento brasileiro atrelaram o nacionalismo aos valores da
modernização. As conseqüências desta unificação de pólos puderam ser sentidas
não somente no nível econômico e social, como o processo de migração para as
capitais e a conseqüente valorização do solo urbano, mas também nas políticas
culturais, cuja nova ideologia contrapunha-se às idéias de continuidade e tradição.
As novas diretrizes da política cultural brasileira, sobretudo as de preservação,
procuraram demonstrar uma dada relação intrínseca entre valor cultural e valor
econômico e não apenas o interesse público de preservar valores culturais. Neste
sentido, a atuação de órgãos como IPHAN buscaram nos bens indicadores
culturais, os quais servissem apropriadamente ao novo modelo desenvolvimentista
em curso. As medidas dessas novas diretrizes encontram-se firmadas nos
Compromissos de Brasília de 1970 e de Salvador de 1971 (Cury, 2000), dentre
estas, a convocação dos órgãos responsáveis pelo planejamento do turismo, no
sentido de que voltem suas atenções para os problemas da valorização, utilização
e divulgação dos bens naturais e de valor cultural especialmente protegidos por
Lei; e a convocação da FINEP para iniciar medidas de desenvolvimento da
indústria do turismo, visando a valorização dos monumentos naturais e de valor
cultural. Noutro âmbito, o próprio Centro Nacional de Referência Cultural (1975)
tratava de não eleger símbolos da nação, nem de conhecer e divulgar as tradições
brasileiras, buscando, todavia, indicadores universais para a elaboração de um
modelo de desenvolvimento apropriado às novas demandas nacionais.
Na perspectiva apresentada o turismo é visto como principal mote, e o
tripé cultura, história e capital se articula harmoniosamente, “os autores se
preocupam com a história porque, localizada na paisagem, ela confere densidade
à cultura e assim facilita a ‘venda dos lugares’” (Meneses, 2006: 53). Super

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produções de símbolos, imagens e simulações anacrônicas, voltadas para uma


multiplicidade cultural produzida a partir da rápida circulação de informações para
um público com acelerado ritmo de mudanças. Criação, produção e consumo de
ícones extraterritoriais e transnacionais, onde “o simbólico é um produto cultural
que cria tramas fictícias mais duradouras do que as urdidas pela frágil realidade”
(Ferrara, 1996: 15). A informação torna-se ponto nevrálgico que beneficia o
comércio livre na área de produtos, servindo de vetor na transformação do espaço
urbano e nas formas arquitetônicas e organizacionais deste, transformadas em
inovadoras e arrojadas por meio da modernização tecnológica e gerencial.
Atuando na produção de referenciais universais, a economia
supersimbólica possibilita que seus intérpretes não estejam necessariamente
enraizados em nenhuma cultura distinta do mercado. O requisito básico é que este
intérprete, na condição de turista ou não, seja um consumidor de informação
produzida pelas redes comunicacionais que veiculam significantes do mercado,
rompendo as fronteiras locais ao transformá-los em símbolos extraterritoriais ou
transnacionais de consumo. Por esta análise tem-se imbricadas uma economia de
produção supersimbólica e uma cultura extraterritorial ou transnacional de
consumo, veiculadas pela mídia, que confere ao sujeito a repetição de
experiências em quaisquer plazas de celebração universais.
Interpretar as comunidades de destino como incapazes de articulação e
gerenciamento dos processos de decisão de quaisquer programas de
desenvolvimento é, antes de tudo, renegar a cultura como uma atividade criativa e
em constante processo de resignificação, outorgando à estas comunidades um
papel de passivos receptores da estandardização promovida pelo mercado
globalizado com sua produção de não-lugares. Contrariando tais apocalípticas
assertivas, Latour atenta que “as culturas supostamente em desaparecimento
estão, ao contrário, muito presentes, ativas, vibrantes, inventivas, proliferando em
todas as direções, reinventando seu passado, subvertendo seu próprio exotismo”
(1996: 5). Por outro lado, outorgar à cultura, pura e simplesmente, a tarefa de
equilibrar a dinâmica de correlação de forças que envolvem as relações entre

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Mercado, Política e Organização Social, é negligenciar a reorganização produtiva


e internacional e as conseqüências do acúmulo de riquezas, as quais promovem a
recriação de signos de exclusão, promovendo conflitos “culturais, religiosos,
lingüísticos e raciais [resultando em] xenofobias, etnocentrismos, racismos,
fundamentalismos, radicalismos, violências” (Ianni, 1996: 25).
Ao se colocar a análise do Imaginário como meio legítimo para a
compreensão do aspecto fragmentário das cidades, afirma-se também que tais
representações podem implicar nas políticas governamentais, criando
oportunidades de desenvolvimento e de inserção social, e que a viabilização da
participação efetiva dos atores sociais está condicionada ao acesso à informação
e capacidade de gerenciamento da mesma em função de seus dispositivos
culturais e organizacionais. Menos que apontar valores, identidades e
representações de mundo como categorias conflitantes, a proposta é perceber a
informação e organização social, presentes nas comunidades de destinos
turísticos, como mecanismos potenciais de integração dos arranjos sociais e
culturais locais no processo de desenvolvimento da cidade.

Justificativa

A inserção do Ceará no cenário turístico internacional, durante a década


de 1980, foi acompanhada de profundas transformações estéticas na fisiografia
urbana de Fortaleza. Tais transformações pautaram-se na perspectiva de
desenvolvimento de uma cultura supersimbólica, a qual pudesse fornecer novos
referenciais identitários de cidadania, de consumo e de produção cultural
integrados à universalidade do mercado de significantes extraterritoriais e
transnacionais.

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Com as políticas econômicas implantadas a partir do Plano de


Mudanças do Governo Tasso Jereissati (1987-1990) e o Plano Plurianual de Ciro
Ferreira Gomes (1991-1994), que colocaram o turismo como eixo de propulsão da
economia cearense, três foram os meios objetivos das políticas econômicas do
Estado: produção de uma economia supersimbólica, priorização do potencial
turístico litorâneo, produção cultural atrelada a bens de consumo da indústria, com
base na dinâmica informacional dos meios de comunicação. Estes três modelos
de política pública modificaram consideravelmente toda uma estética urbana local
e impulsionaram, como era o principal objetivo, um mercado cultural integrado à
produção de bens de consumo não duráveis. Uma das conseqüências, em termos
da própria cultura, é que tanto manifestações populares, com características de
grande impulsividade regional, bem como a própria permanência das diversas
comunidades de pescadores na faixa litorânea e adjacências, foram, cada vez
mais, objeto de readequação. Com manifestações culturais contidas e
comunidades remanejadas para as periferias, as novas diretrizes imputaram uma
“limpeza” nos espaços considerados prioritários para o turismo. Toda a faixa
litorânea, desde o Mucuripe até a Praia Formosa, passando pela Praia de Iracema
- caracterizada como centro histórico de Fortaleza - tornou-se objeto principal das
intervenções urbanísticas promovidas pelo Estado, Prefeitura e iniciativa privada,
que objetivaram a requalificação urbana e social, favorecendo o desenvolvimento
de políticas culturais capazes de proporcionar a “reinvenção de sensibilidades
comuns de todas as formas de expressão artísticas”1, a partir da integração de
novas tecnologias comunicacionais à produção cultural e intelectual da classe
média de Fortaleza, base infra-estrutural para atração do capital estrangeiro. Uma
virtualização da estética urbana da cidade pelo poder político local, funcionando
como meio de criação de uma cultura supersimbólica.
O Plano de Desenvolvimento Cultural do Estado, posto em prática nos
anos de 1995/1996, foi pensado como um recurso para a formação de um novo

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Secretaria da Cultura e Desporto do Estado do Ceará (SECULT). Plano de
Desenvolvimento Cultural 1995/ 1996. Sem referência de Publicação.

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ideário urbano. À idéia do desenvolvimento de uma classe média consumidora de


bens culturais seguiu-se a necessidade de fomentar uma tradição disposta sobre
novos alicerces, os quais viessem a glorificar uma Fortaleza “moderna” diferente
da Fortaleza pobre, que de tempos em tempos é assolada pela miséria prescrita
pelas secas no interior do Estado, levando para a capital levas de miseráveis
flagelados que desnudam a cidade no que há de mais tenebrosa em sua
realidade: sua péssima distribuição de renda e de saber.
O rompimento com os parâmetros políticos, sociais e econômicos
vigentes à época anterior às gestões empresariais, fora enfatizado em discursos
de homogeneidade econômica e cultural. Entretanto, era necessário unir às
propostas de racionalidade cultural, instaurada sobre a estética de consumo de
bens abstratos, uma renovação da estética arquitetônica, cuja mnemesis fosse
perpetuada a cada olhar. Um novo parâmetro de cultura e história a fornecer os
sentidos necessários para a formação de uma identidade baseada nos valores de
consumo, para uma economia que se requer globalizada.
As transformações em curso desde a década de 1960, sofrem a partir
dos anos de 1980 uma aceleração promovida pelo Estado e iniciativa privada,
objetivando a consolidação de espaços para o lazer e o turismo, procurando dar
mostras de um “novo tempo” a erguer-se sobre os alicerces da cultura e de uma
estética universais, “modernas”, e que posteriormente foram normatizadas pelo
PDDU-For de 1992.
Mas o histórico litorâneo de Fortaleza não data da década de 1960,
como argumentam alguns historiadores e arquitetos. Fortaleza, bem como tantas
cidades litorâneas, sempre tiveram buliçosos e constantes os fluxos em suas
praias, como espaço de moradia e de trabalho serviu ao gosto de pescadores,
comerciantes e gentes plurais que entre a terra e o mar reproduziam uma
Fortaleza provinciana e simplória. Mas a predominância de habitações mais
simples, bem como do trabalho braçal na orla não compactuavam com o mise-en-
scène da modernidade urbana que começou a se processar a partir de 1960. A
construção da avenida Beira-Mar na mesma década, pelo prefeito Cordeiro Neto,

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já era uma demanda da elite econômica e política local que buscava ampliar as
atividades de mercado locais. Para a orla foram canalizados os maiores
investimentos imobiliários, uma especulação jamais empreendida na capital,
deflagrando um enorme impacto social e ambiental, cuja visibilidade pôde ser
sentida em curto espaço de tempo, a partir da favelização de sua circunvizinhança
e o quase desaparecimento da pesca artesal. Estes homens e mulheres que
figuravam no quadro litorâneo da chamada “Fortaleza provinciana” foram
remanejados para o morro de Santa Tereza, Serviluz e Titan, formando
verdadeiros bolsões de miséria, desprovidos de infra-estrutura básica e
deficientes, quando existente, os serviços de saúde e educação. Mas ao passo
que os novos investimentos procuravam romper com a história de tradições em
essência regionais, a economia supersimbólica resgatava uma estética tradicional,
cujo apelo à bucolidade e ao saber-fazer do artesão-pescador servirão de ícone-
matriz para a publicidade turística.
O caráter de universalidade urbana em que se funda Fortaleza, a partir
dos projetos de re-qualificação urbanística, encontra-se presente no nível
simbólico como “agora” ou “fórum” funcionando como um centro de concentração
e fomentação pública, trabalhando as atribuições da cidade num contexto espacial
elaborado e projetado para ser uma plaza de celebração e de vida social. Um
espaço que deve proporcionar o “pleno exercício da cidadania”, uma vez que o
seu “nível local” concorre para a produção cultural apoiada na metaforização da
história, a qual se fez presente durante décadas, agora redesenhada para acolher
a nova tradição que, aos poucos, vai se instaurando à medida das novas técnicas
de produção cultural e da nova subjetividade decorrente das relações de troca por
estas estabelecidas.
Ao “redesenhar as tradições”, “realçar edifícios velhos e lhes dar
sentidos”, “fazer a máquina supersimbólica”, “mostrar a riqueza e a variabilidade
de seus aspectos e interpretações para o maior número de pessoas possível”,
dilui-se o passado cultural e histórico e a subjetividade deles proveniente, num
presente caleidoscópio de referenciais universais apontados para o mercado da

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indústria da produção cultural. A inserção dessa nova pragmática será apropriada


pelos sujeitos, os quais agenciarão outras formas relacionais econômicas, sociais,
cívicas e de pertencimento, que retornarão aos significantes, movimentando a
máquina semiótica e interiorizada do mercado. Não que estes sujeitos
contextualizem-se ingenuamente no processo de reapropriação, reinvenção das
sensibilidades, muito pelo contrário, políticas econômico-culturais só obtêm o grau
de incursão social objetivado porque determinados segmentos da sociedade, por
diversas maneiras e razões, contemplavam a mesma subjetividade e proposição
cultural espaço-temporal de relações múltiplas, comunicacionais e universais.
O que aparentemente é visto como a encarnação da “democratização
da cultura” complementa outra demanda do poder público local: a qualificação
intelectual da classe média para a produção e consumo de bens de caráter
universalizante. Esta proposição remete-nos às observações feitas por Fausto Nilo
no que tange às transformações operacionalizadas no centro da cidade de
Fortaleza, pensadas a partir da incorporação, ao discurso da modernidade urbana,
de uma idéia de “naturalidade” e “autenticidade” são incorporadas ao discurso de
“modernização” urbana, ou seja, assim como a Praia de Iracema e o Mucuripe
perderam “naturalmente” seus referenciais simbólicos e o centro da cidade está
inscrito no mesmo dilema, coube ao poder público apropriar-se da história-
memória urbana controlando e definindo seus novos marcos referenciais.
Portanto, os espaços turísticos, como os praticados na cidade, são interpretados e
canonizados como a salvação e o instrumento a realizar a síntese entre
identidade, contextualidade histórica e potencialização econômica.
Concentrar o máximo de referenciais e produtos num mesmo espaço
urbano, fazer convergir toda a população para a plaza de celebração
contextualizada no mercado de bens de consumo culturais. À cidade com a sua
história contraditória e cheia de percalços indesejáveis, sobrepõe-se a arquitetura
urbana planejada sob alicerces únicos, voltados para o consumo, proporcionando
uma forma mais contemporaneizada de civismo que se constitui única e
exclusivamente no mercado.

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Benevides, A. A

A pesca artesanal em Fortaleza não se constitui mais uma das


principais atividades praticadas na cidade pelas famílias mais pobres locais. A arte
de fazer a embarcação e os artefatos de pesca, o conhecimento sobre a
sazonalidade das espécies de peixe, a prática da localização de cardumes sem
ajuda de GPS todos estes saberes estão desaparecendo à medida do incremento
de novas técnicas de pesca industrial e de políticas de exclusão das populações
mais pobres na consulta e gerenciamento dos projetos de desenvolvimento locais.
As experiências passadas demonstram que a não participação das comunidades
nos projetos de desenvolvimento turístico, consulta e gerenciamento destas
atividades, aumentou a exclusão social e piorou o Índice de Desenvolvimento
Humano nas regiões implantadas. Não só programas de capacitação, articulação
e consolidação de institucionalidades são vieses para se estimular a inclusão
social, o exercício da cidadania e a ampliação e diversificação das atividades
econômicas e eficiência da gestão pública, mas também o imaginário formado por
estas coletividades. A compreensão do imaginário de populações destituídas de
seu ambiente original e reassentadas em novos e, na maioria das vezes, distantes
lugares possibilita identificar a subjetividade contida na experiência destes
deslocamentos, na perda dos referenciais de trabalho, lazer e cidadania e traduzir
aspectos da cidade, possibilitando compreendê-la como fragmentária,
heterogênea e plena de descontinuidades.
É no sentido de procurar compreender a cidade a partir de suas três
dimensões, como artefato, campo de forças e imagem que esse projeto se
alicerça e se justifica. Fortaleza é um artefato de complexa fisiografia, sobretudo
no que diz respeito às políticas de preservação do patrimônio material e imaterial
urbano; esta mesma fisiografia é reproduzida e produtora de conflitos entre
práticas sociais adversas, que entrechocam tradições enraizadas em um tempo de
reprodução lento e outras criadas para serem novos referenciais de cidadania,
criando universos distintos numa produção de sentidos fragmentária, porém
dinâmica e em eterna atualização. Por isso pensar Fortaleza tendo como
perspectiva seus artefatos urbanos tanto o patrimônio edificado quando os

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Benevides, A. A

estratos supersimbólicos, a partir do imaginário formado pelas comunidades de


pescadores artesanais, transformados em ícone-matriz após a inserção do Ceará
na economia de mercado internacional, é uma forma de preencher lacunas na
historiografia local, que apesar de objetivar o imaginário como tema de estudo,
raramente é possível observá-lo em suas imbricações com as demais dimensões
da cidade. Com outra ênfase, este projeto propõe um pensar sobre a cidade, suas
lógicas de condutas e práticas sociais a partir da convergência de ações e
métodos voltados para a identificação de possíveis interações, geradas a partir de
diferentes e múltiplas competências, cujas atividades predominantes são, de um
lado, de aprovisionamento, de outro, de ordem urbano-industrial e informacional-
global.

Objetivo Geral:

Identificar as expressividades e significâncias dos remanescentes


pescadores artesanais de Fortaleza, no que tange às representações que estes
fazem sobre a cidade, como dimensão material e como espaço de reprodução de
sua identidade.

Objetivos Específicos

• Apreender as formas de apropriação e representação da


realidade cotidiana na cidade de Fortaleza.
• Identificar as formas de construção e transmissão do
conhecimento, ainda pertinentes nas comunidades de
pescadores artesanais em Fortaleza.
• Analisar a justaposição dos níveis hierárquicos que configuram as
relações sociais nas comunidades de pescadores artesanais,
compreendidas como estratégias construtoras e normatizadoras.
Benevides, A. A

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• Identificar as implicações que as transformações na fisiografia
urbana de Fortaleza, patrimônio histórico edificado e estratos
supersimbólicos contidos nos equipamentos de atração turística,
tiveram para as remanescentes comunidades de pescadores
artesanais.

Metas

• Produção de artigos científicos e apresentação dos mesmos em


simpósios e congressos locais, nacionais e internacionais.
• Publicação de 1 livro e exposição das entrevistas já editadas.
• Doação do material produzido para as instituições representativas
das comunidades de pescadores artesanais de Fortaleza.

Metodologia

A Pesquisa Participante (etnografia) e a História Oral, como abordagens


investigativas, possibilitam estabelecer conhecimentos sobre as interações e as
regras constituídas entre as sociedades e o meio-ambiente em que atuam,
manifestos no cotidiano de representações firmadas por laços de pertencimento.
A Pesquisa Participante (etnografia) à primeira vista pode apresentar-se
como uma contradição à abordagem institucional do desenvolvimento, entretanto,
o interesse na abordagem comparativa é um interesse na abordagem holística de
uma determinada interação, ação ou resposta de um dado grupo em relação a um
todo daquela sociedade. O que num primeiro momento pode parecer reações
contraditórias e conflitantes a um mesmo fenômeno, envolve na verdade
interações particularmente ligadas às instituições, tanto no que diz respeito às
comunidades de destino quanto aos seguimentos emissores, expressas nas
formas de organização de um dado capital social e cultural e suas representações.

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Benevides, A. A

A História Oral, como método de investigação científica, incide sobre a


análise holística da cultura vista como um sistema de significados próprios das
socialidades humanas, trabalhando os atores sociais como objeto e sujeito do
processo de desenvolvimento do conhecimento. Sujeitos e objetos plurais,
apreendidos em sua narrativa que “abre a possibilidade de produzir uma história
que será sempre política, porque inserida no seu tempo e comprometida com ele
[...] na esperança de estarmos, de alguma maneira com nosso trabalho ajudando
a construir o futuro, numa perspectiva transformadora” (Fenelon, 1983:15)
A História Oral como micro-análise sócio-cultural das redes e relações
estabelecidas na comunidade, terá como foco primário os setores integrantes da
comunidade de pescadores de Fortaleza, e, sobretudo, os diretamente ligados à
Capatazia Z-8 a priori compreendida como uma instituição representativa formal
que expressa as demandas legítimas de seus detentores. No que se pretende
apreender as materialidades, suas diretrizes, as formas de coordenação das
ações e as representações mentais que regulamentam a vida daquela
comunidade. A Pesquisa Participante, com abordagem comparativa ajuda na
interpretação da co-relação existente entre os aspectos da vida cultural, social e
econômica, considerando-se que “as respostas encontradas por sociedades locais
para a manutenção de seus modos de vida dependem das relações estabelecidas
com o sistema dominante e destacam-se como reflexões importantes para a
compreensão da inserção da lógica utilizada por pescadores artesanais no que diz
respeito aos recursos naturais per eles apropriados” (Chamy, 2005: 9)
Neste procedimento de pesquisa, o uso da metodologia da História Oral
é fundamental. As pesquisas realizadas durante o mestrado e o doutorado, bem
como no desenvolvimento do projeto sobre etnoconhecimento da comunidade de
Tatajuba - município de Camocim, revelaram como fundamentais as experiências
de vida dos sujeitos sociais para se compreender a historicidade dos processos
sociais, políticos e econômicos ali presentes. Um trabalho analítico de apreensão

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de significados presentes nas narrativas de eventos e acontecimentos, os quais
revelam a importância da subjetividade e a riqueza de conteúdo explicitadas nas
Benevides, A. A

diferenças entre os depoimentos que constituem um mosaico de significâncias


múltiplas. A História Oral possibilita a construção e o diálogo entre os vários
sujeitos sociais entrecruzando contextos diferenciados dentro de uma mesma
realidade espaço-temporal como a família e a comunidade, na valorização do
sujeito como homem, mulher, trabalhador e cidadão.
A abordagem oral implica necessariamente pensar os sujeitos sociais
dentro de suas práticas, considerando suas trajetórias de vida como
representativas de uma cultura que se alicerça a partir de redes sociais de
solidariedade e de conhecimento, as quais implicam um saber fazer específico.
Neste sentido, o diálogo com a comunidade permite o conhecimento de um
universo revelado pelo outro, suas experiências, aspirações, crenças e valores os
quais formam um imaginário de representações coletivas que dão sentido ao
mundo ao redor de si. Este sistema de representações coletivas “tanto dá a idéia
de que se trata da construção de um mundo paralelo de sinais que se constrói
sobre a realidade, como aponta para o fato de que essa construção é social e
histórica” (Pesavento, 2003: 43). Essa construção de sentido expresso por
palavras e discursos, materialidades e coisas, práticas e ritos comporta crenças,
mitos e ideologias é construtor de identidades e exclusões que hierarquizam e
apontam semelhanças e diferenças no social.
Tendo em vista que “o principal paradoxo da História Oral e das
memórias é de fato que as fontes são pessoas, não documentos” (Portelli,
1997:15), o pesquisador participa ativamente da produção documental. O
historiador, à medida que procura organizar o mosaico de historicidades, vê-se a
todo instante confrontado com o novo, por vezes um outro impactante que o faz
reconhecer os limites de sua interpretação, a composição narrativa que
compreende o exercício de estruturação deste mosaico revela o aspecto dialógico
deste fazer.

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A História Oral é uma produção documental fundamentada em
memórias e, como tal, sujeita às inexatidões de suas leituras sobre o passado.
Memória, como um fenômeno histórico, é uma representação afetiva feita a partir
Benevides, A. A

do presente, na qual “toda recordação tende a objectivar-se numa narrativa


coerente que, em retrospectiva, domestica o aleatório, o casual, os efeitos
perversos do real-passado quando este foi presente, actuando como se, no
caminho, não existissem buracos negros deixados pelo esquecimento” (Catroga,
2001: 43). Por isso mesmo, pela representação paralela do mundo, a História Oral
é tão importante para a construção do pensamento, para o fazer história, porque
as representações construídas sobre o mundo fazem com que os sujeitos
percebam, vivenciem e pautem sua existência, firmando-se como matrizes que
geram práticas e condutas sociais, sendo elas próprias explicações do real. As
representações são verossimilhanças do real, cujo papel da História Cultural e
Social é o de apropriar-se delas na perspectiva de decifrar a realidade, tentando
chegar às formas discursivas e imagéticas expressas pelos sujeitos, a si próprios
e ao mundo.

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