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globalização e capitalismo

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GLOBALIZAÇÃO

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CAPITALISMO:

PROCESSO POLÍTICO...

GLOBALIZAÇÃO E CAPITALISMO processo político e relações internacionais

TULLO VIGEVANI Professor de Ciência Política da Unesp e Pesquisador do Cedec

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iscutir as modificações em curso no sistema capitalista em âmbito internacional, ainda que apenas sob o ângulo político, é tarefa por demais gigantesca para ser enfrentada aqui. Porém, tendo em vista o objetivo proposto no título deste artigo, serão apresentadas, sob a forma de notas, algumas questões que parecem ser relevantes, iniciando-se pelos temas mais abrangentes para se chegar aos que atingem diretamente a sociedade brasileira. Serão discutidos a própria definição do mundo pós-guerra fria, a relação entre globalização e economia política, o que será chamado de aporia nas instituições políticas, as dificuldades para a construção de instituições políticas globais e, finalmente, os possíveis novos instrumentos de relações internacionais. DIFICULDADES PARA A DEFINIÇÃO DA NOVA ETAPA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS Um grande número de autores, de longe a maioria dos que têm tratado o tema, considera que o fim da Guerra dos Trinta Anos, com a Paz de Westfália, concluída em 1648, entre imperadores, reis e príncipes católicos e protestantes, foi de grande importância, pois implantou o princípio de que os Estados da Europa deveriam conviver tendo como base os valores de tolerância e de coexistência. O conceito de sociedade internacional parece ter surgido a partir daí. Caducava definitivamente a idéia de uma autoridade externa ao poder temporal, que até então havia sido representada pelo Papa. Colocavam-se as bases para o conceito de soberania do Estado, para o qual, de Bodin a Hobbes, muitos haviam trabalhado. A soberania, na definição aplicada às relações internacionais por Russett e Starr, significa que “não existe qualquer autoridade em condições de determinar ao Estado como agir;

não existe nenhum ator com autoridade legítima para dizer a um Estado o que deve fazer” (Russett e Starr, 1992:99). A partir de então, surge uma questão que persiste até este despertar do século XXI e vincula-se diretamente ao tema que se procura aqui discutir: a da relação de um estado de sociedade vigente dentro do Estado e a de um estado de natureza vigente nas relações entre os Estados. Desde Rousseau, há os que se preocuparam com o tema e têm tentado encontrar respostas. Agora, trata-se de discutir se o mundo pós-guerra fria coloca pressupostos novos que permitam supor a evolução das relações internacionais para uma espécie de sociedade internacional de caráter democrático, ou se, pelo contrário, de acordo com a previsão de Aron, permaneceríamos apenas num sistema interestatal, no qual o tema do poder permanece acima de qualquer outra consideração. O sistema internacional tem sido, ao longo dos séculos, uma associação prática, distinta conceitualmente de uma associação de objetivos. É evidente que, mesmo com guerras, lutas de todo o tipo, existiram regras reciprocamente aceitas. Não apenas regras, mas também convivência, expressa em inúmeras formas, pela interpenetração de valores, pelo comércio, pelas migrações, etc. Os valores da associação de objetivos referem-se à cooperação, isto é, a fins que afetam o poder, o equilíbrio, a riqueza, as concepções de mundo. Neste caso, a cooperação implica interesses compartilhados. Portanto, a cooperação, de acordo com o conceito de associação de objetivos, não pode estar ligada à idéia de constrangimento, nem à idéia de evitar riscos ou perdas maiores, como sugere o conceito contemporâneo de regime internacional (Krasner, 1982). O sistema capitalista, como lhe tem sido próprio ao longo da história, esboça um mundo de

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“liberdade, igualdade e fraternidade”, mas fica muito longe de poder lhe dar conteúdo real. Com isso, chega-se a uma conclusão importante: o mundo pós-guerra fria sugere um debate que se situa no campo do conceito de associação de objetivos, mas a constante reprodução de valores realistas, ainda que atualizados para adequar-se a um mundo em profunda modificação, permite afirmar que os valores da associação prática persistem em ter maior influência. Isto é perfeitamente aplicável mesmo àquelas questões consideradas globais e reiteradamente citadas como exemplos que consolidariam a tendência inexorável à cooperação: meio ambiente, comércio, direitos humanos, fluxos financeiros e tecnológicos. A indefinição política no campo das relações internacionais tem sido diagnosticada por inúmeros autores e atores significativos. Amorim, ao tentar caracterizar o mundo contemporâneo, reconheceu que o estado de perplexidade atinge o próprio quadro de referência. Decorridos anos depois dos momentos em que a guerra fria pareceria ter chegado ao seu fim (queda do Muro de Berlim ou fim da União Soviética), não surge qualquer definição melhor para a nova etapa do que a indicada pelo nome de pós-guerra fria (Amorim, 1998). Uma indefinição em sentido estrito. GLOBALIZAÇÃO E ECONOMIA POLÍTICA Nesta véspera de século XXI, discute-se muito o termo globalização. A palavra foi cunhada nos anos 80 e vinculava-se à idéia de Estados mercadores, tendo, portanto, uma matriz explicitamente econômica. As definições mais correntes sugerem tratar-se de uma aceleração dos contatos e trocas internacionais, impulsionada pelas questões econômicas e tornada possível pela redução das dimensões espaciais e temporais das relações sociais em conseqüência dos avanços da ciência e da tecnologia. Mesmo aceitando-se a definição, ela caracteriza um dos aspectos da globalização, mas não explica a complexidade do fenômeno e o fato de ele ter se tornado tão significativo no imaginário popular e no senso comum. Decorrida mais de uma década desde a publicação do livro de Rosecrance (1986), que institucionaliza o termo globalização e lhe dá um conteúdo forte, surge a necessidade de relativizar o debate, colocando-o numa perspectiva de longo prazo. A globalização é, sem dúvida, um fenômeno que apresenta características novas. Não passaria de uma atitude reducionista a busca de enquadrá-lo, apenas, como uma expressão contemporânea do desenvolvimento capitalista, que desde suas origens tende a encontrar no mundo inteiro o terreno de sua expansão. Ao mesmo tempo, não é possível desconhecer que a busca de ocupar

espaços cada vez maiores, por interesse econômico, político ou ideológico, é uma tendência que vem de longe, de alguma forma inerente à lógica do poder e, por que não dizê-lo, à lógica socialmente construída do ser humano. Deixando de lado os impérios da Antigüidade e mesmo o caráter inerentemente universal da cristandade papal, tem sido, nos últimos anos, seguidamente lembrado que, a partir dos primórdios dos tempos modernos, existem sinais de contínua expansão do capital. Era esse o papel das caravelas, das companhias de comércio, dos piratas, dos impérios coloniais, do livre comércio. Ainda assim, não pode ser desconhecido o caráter novo do fenômeno da globalização. Ele corresponde a uma base técnica e produtiva antes inexistente, colocando, pela primeira vez na história, os pressupostos para a organização da vida social, em suas diferentes dimensões, a partir de uma escala global. As manifestações factuais são evidentes em si mesmas. A informação é transfronteiriça, sendo que nenhum Estado nacional pode realisticamente limitar. Os valores, mesmo quando têm reconhecidamente origem nacional e cultural, em alguns casos tendem a universalizar-se mais do que outros, menos aptos à aceitação por outras culturas. A tecnologia, que sempre foi universal, estava protegida pela existência de fronteiras nacionais que podiam tornar lenta sua difusão. Hoje, o mercado global e a competitividade obrigam à rápida absorção de tecnologia sob pena de marginalização e aumento da pobreza. Sobretudo a economia, não há nenhum de seus setores que possa desconhecer as formas como vai organizando-se a produção, como vão distribuindose os fluxos de comércio, como alocam-se os recursos financeiros. O índio da floresta amazônica, se quer ver aumentada a sua renda, patenteia produtos verdes que são vendidos, através de organizações não-governamentais dos países ricos ou internacionais, nos mercados dispostos a pagar preços em razão do selo apresentado, valorizado pelo significado que a proteção ambiental tem para partes crescentes dos povos. A noção de capitalismo global não é nova. Tanto liberais como socialistas, tanto conservadores como revolucionários, à medida que se pautam por uma concepção de mundo, tendem a ver esta como tendo características universais. A Revolução Francesa pretendeu que seus valores fossem aqueles válidos para o mundo todo. Os revolucionários russos viam-se como o primeiro elo do socialismo em escala internacional. O livre comércio, na concepção de Ricardo, era benéfico não apenas para a GrãBretanha, mas para o mundo todo; por isso Gladstone pretendeu falar em nome dos interesses universais. Conservadores, liberais e socialistas reconhecem, ao menos em termos de princípio e conceitual, o papel modernizador da expansão supranacional do capital.

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Com o fim da Primeira Guerra Mundial, a hegemonia do sentimento pacifista levou à criação de estruturas internacionais particularmente preocupadas com a paz, o desarmamento, a busca de banir as guerras para sempre. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, além da criação de estruturas políticas de caráter internacional, constituise um sistema, de Bretton Woods, que, de fato, permitiu o amadurecimento das condições da globalização. Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (Bird), Acordo Geral de Comércio e Tarifas (Gatt), com todos os seus problemas, constituem um instrumento poderoso neste processo. O fim da guerra fria, durante a qual o bloco chamado socialista permaneceu em boa medida fora das regras válidas para o mundo capitalista, permitiu visualizar este papel mais claramente. Mesmo permanecendo fora da Organização Mundial do Comércio (OMC), Rússia e China vão se adequando mais e mais às regras do mundo capitalista, em que os Estados Unidos são o pólo hegemônico. A globalização representa, portanto, a vitória dos princípios liberais. Repete-se, no sentido de tentar prevenir malentendidos, a idéia em si de globalização, ou ao menos os elementos constitutivos dela, que estão presentes em diferentes formas de pensamento político. Trata-se dos impérios da Antigüidade, da cristandade, do liberalismo, do conservadorismo, do socialismo. A vitória dos princípios liberais reside nas formas como a globalização se apresenta na última década do século XX e, certamente, na primeira do século XXI. O livre comércio, o livre fluxo dos investimentos, as privatizações, a diminuição do Estado e a desregulamentação dos mercados financeiros correspondem a uma visão de mundo e não a uma conseqüência inexorável e predeterminada da expansão do capital. APORIA NAS INSTITUIÇÕES POLÍTICAS Aporia é definida pelo dicionário como “dificuldade, de ordem racional, que parece decorrer exclusivamente de um raciocínio ou de conteúdo dele” (Holanda Ferreira, 1974:118). Por que este recurso de linguagem? É o que será visto neste item, com a discussão dos paradoxos da política na atual etapa histórica e em sua referência às relações internacionais. Também no campo da política, as formas que o capitalismo vem tomando têm impactos crescentes. Poder-seia pensar a questão da política no mundo da globalização como um regime internacional. Para Krasner, trata-se de “princípios, normas, regras e procedimentos de decisão em relação aos quais convergem as expectativas dos atores de um determinado setor” (Krasner, 1991:134). Da mesma forma que a política, também a democracia e as

instituições do Estado parecem sofrer um intenso processo de homogeneização. Percorrendo o mundo – países ricos ou pobres –, parece que boa parte da agenda institucional e econômica se repete, ainda que em patamares exasperadamente diferentes. Certamente, podem ser encontrados regimes internacionais em qualquer período histórico. A seu modo, Westfália também constitui um regime internacional, ao organizar as relações de paz e de guerra entre os povos europeus. A idéia contemporânea de regime internacional ganha, porém, conotações específicas que aplicam-se a diferentes temas, entre outros os da política. Trata-se hoje de constituir regras de tipo supranacional, sem desconhecer a permanência do valor soberania nacional. A idéia liga-se à capacidade que alguns ou muitos atores têm de elaborar procedimentos que, por consenso ou por coação, acabam reconhecidos como de interesse geral. Um deles é o valor democracia. Esta idéia liga-se à possibilidade de universalizar valores, na linguagem contemporânea, de globalizá-los e estes seriam apropriados por nações, Estados, classes. O reconhecimento tem várias razões; uma delas é a convicção, outra é a busca de evitar prejuízos. De qualquer forma, não haveria o constrangimento da guerra, como houve ao longo de toda a história humana. Ou melhor, constrangimento haveria pelos riscos implícitos a ficar externo aos princípios hegemônicos. A globalização do capitalismo produz, como um de seus resultados, a universalização de valores que pouco significavam para inúmeras culturas. Além dos valores relativos à economia, universalizam-se outros no campo da moral e da política. Democracia, direitos humanos, direitos sociais, liberdade, meio ambiente, direitos da mulher, direitos das minorias, individualismo. As assimetrias, o poder, a capacidade de gerar valores e cultura, ao que se soma o espírito missionário, são todas referências que ajudam a compreender por que alguns itens tornam-se universais e outros não. Porém, esta explicação não é suficiente. O consenso resulta da possibilidade de oferecer benefícios a quem adere aos valores oferecidos. Ao mesmo tempo, fator explicativo notável é o fato de que o poder gera atração em si mesmo, mas nesta etapa histórica isto ganha conotações específicas. No século XIX e em quase todo o século XX, as alianças tinham o significado de obter a proteção de um mais fraco pelo mais forte. No fim do século XX, a adesão a determinados valores significa, obviamente, a tentativa de não ficar marginalizado no sistema internacional, mas significa também a possibilidade, mesmo se modesta, de influenciá-lo. O regime democrático de um país sugere uma determinada possibilidade de comportamento frente a outros países que não aquele permitido simplesmente

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pelas relações de poder, militar ou econômico. Isto é, a participação de diferentes atores nas diversas instâncias das relações internacionais pode fazer com que estas sejam atingidas por inputs diferenciados (por exemplo, o papel dos meios de comunicação na formação da agenda internacional ou a presença de atores privados, não estatais, a qual pode pesar na determinação das políticas dos próprios Estados ou de outros Estados). Vistas as questões relativas à universalização de valores, vejamos o que se quer apontar com a idéia de aporia nas instituições políticas. A liberdade e a democracia, como ensina o pensamento político liberal clássico, são os instrumentos para alcançar o bem comum. Estes instrumentos tomam a sua forma material por intermédio do Estado. Para toda teoria democrática, o Estado materializa a vontade do povo. Em outros termos, para a existência efetiva da democracia, o Estado tem que ser o Estado de direito, com o respeito à vontade da maioria, respeitadas as minorias. Mesmo na perspectiva liberal de Estado mínimo, a democracia é vital para o pleno exercício das liberdades e para permitir o bem comum. Dito isso, cabe acrescentar que, aparentemente, a globalização, como visto, eleva a níveis inusitados o valor democracia. A aporia reside no fato de que, justamente no momento em que este valor pareceria expandir-se para os mais longínquos recantos da Terra, o papel do Estado como lugar apropriado de exercício da democracia parece enfraquecer-se. Portanto, a aporia está no surgimento de uma contradição aparentemente insolúvel: de um lado, fortalece-se o valor democracia; e, de outro, esta perde significado à medida que o seu lugar próprio de exercício, o Estado, debilita-se. Num exemplo simplificador, quando a vontade popular demonstra-se apta a condicionar o Estado, este definha e torna-se incapaz de levar à frente as tarefas que lhe são próprias, como a de garantir um bem-estar mínimo para todos, de promover o desenvolvimento, etc. AS INSTITUIÇÕES POLÍTICAS Os problemas apresentados nos itens anteriores sugerem a necessidade de adequação das instituições políticas para a etapa em curso. O desenho político-institucional que se apresenta hegemônico parece defasado em relação às novas realidades. Como afirmado no primeiro item, a fase alcançada pelo capitalismo tem sido discutida no que tange às suas conseqüências econômicas, mas pouco tem sido debatida nos outros campos. A adaptação das instituições nos planos nacional e internacional vem se desenvolvendo a passos de tartaruga. Há debates no que se refere a algumas organizações internacionais, como as Nações Unidas. Há algum debate,

inclusive no Brasil, sobre como adaptar o Estado, nos planos econômico e político, ao estágio da globalização. Porém, não há debates significativamente amplos sobre as formas da institucionalidade política e democrática em si mesmas. Há na literatura inúmeros debates sobre o papel das organizações não-governamentais, nacionais ou internacionais, como instrumentos de expressão da vontade de segmentos do povo. As organizações internacionais, assim como representam os Estados, o Parlamento, os partidos e as eleições, também dão forma à democracia no seu locus clássico que é o próprio Estado. O estágio alcançado pelo capitalismo sugere, exatamente, a necessidade, se se quer preservar um papel central à vontade popular, de instituições que possam controlar os atores privados, utilizando suas competências, mas sujeitando-os à soberania popular, seja esta exercida no plano nacional ou no internacional. Alguns autores indicam, como resposta para o impasse, a idéia de democracia cosmopolita. Para Held (1993:56), “uma estrutura cosmopolita de democracia, admitindo que seja possível indicar claramente as suas características, poderia ter os recursos organizativos – procedurais, jurídicos, institucionais e militares – em condições de modificar a dinâmica da produção e da distribuição dos recursos, em condições de criar e aplicar normas na era contemporânea”. Para pensar esta estrutura, colocam-se alguns pressupostos, pelo momento de difícil equacionamento: um deles é o da relação entre globalização e diversidade cultural; outro é o do próprio entendimento de política. Muito dificilmente um entendimento cosmopolita de democracia poderá derivar da extensão do atual constitucionalismo nacional para um constitucionalismo internacional. Esta perspectiva lembra as dúvidas de Rousseau no que tange à delegação de poderes aos representantes. Portanto, os problemas ligados à praticabilidade da vontade de todos ganham dimensão relevante. Falk (1993) sugere a necessidade de estudos relativos à representação global, inclusive no quadro das Nações Unidas. Porém, como se sabe, sugestões como estas não eliminam as preocupações relativas à capacidade dos mais fortes condicionarem de algum modo a formação da vontade da maioria. ADEQUAÇÃO DOS INSTRUMENTOS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS Na dinâmica atual do capitalismo, deve-se verificar quais os possíveis instrumentos de que podem lançar mão os Estados para posicionar-se no cenário internacional. Também neste caso não é correta a afirmação de que tudo está mudando. Para as relações internacionais, devem ser considerados os tempos longos e os ciclos prolongados. Há, porém, sinais visíveis de novos instrumentos que

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podem ser utilizados, ainda quando muitos dos anteriores mantenham sua validade. Diante da perplexidade sugerida pelas diferentes opiniões sobre a estruturação internacional pós-Guerra Fria, é certo que os paradigmas Leste-Oeste e Norte-Sul parecem modificar-se profundamente; e, do mesmo modo, a idéia de interesse nacional. Este subsiste e é um elemento estruturante, mas seria perigoso acreditar que não tenha características novas, que devem ser adequadamente interpretadas, até para agir ativamente em defesa deste mesmo interesse. De acordo com Lafer e Fonseca (1994), a globalização não elimina os temas da hegemonia e da desigualdade, mas os torna mais complexos. É precisamente a compreensão exata desta complexidade, de seu significado e das possíveis formas de atuação nestas circunstâncias que vai se tornando o tema decisivo nesta etapa. Nas relações internacionais, a desigualdade de poder faz com que instrumentos de ação semelhantes possam, às vezes, produzir resultados diferentes. Portanto, a questão proposta, a da existência ou não de instrumentos novos a serem utilizados no mundo pós-guerra fria, exige cuidado. Devem-se evitar conclusões apressadas, do tipo daquelas que afirmam que a crise do Estado implica a inviabilização da ação diplomática e de uma política exterior de defesa dos interesses nacionais. O nó da questão reside em compreender como coloca-se hoje o interesse nacional e como atuar da melhor maneira para sua preservação. Esta idéia não menospreza o fenômeno da globalização, não desconhece a nova dinâmica do capitalismo, nem deixa de perceber que a hegemonia do processo em curso é liberal. Reconhece a existência crescentemente importante de interesses universais, mas reconhece que podem ser instrumentalizados, dificultado o desenvolvimento político, social e econômico dos setores mais débeis da humanidade. Um passo para o reconhecimento, por parte do Estado nacional, da existência de novos instrumentos de política internacional pode ser dado se houver uma explícita compreensão de que os atores atuantes são múltiplos e possuidores de legitimidade. Isto tampouco é de todo novo. Há muito sabe-se que interesses setoriais, privados, corporativos, de classe e regionais contribuem na formação de políticas. Trata-se agora de seu surgimento na esfera pública, nem sempre mediada pelas instituições nacionais. Significativo: os atores atuantes, por diferentes razões, desenvolvem capacidades próprias, com possibilidade de influenciar na vontade interna de outros povos. Muitas vezes isto deve-se ao tipo de tema objeto de interesse, quando tem a ver com as pautas globais. Foi dito que a desigualdade de poder faz com que instrumentos semelhantes produzam resultados diferentes. A ação de atores

privados – organizações não-governamentais, associações empresariais, sindicatos, grupos regionais, minorias étnicas – pode, como é próprio da democracia, compor um todo que, de algum modo, contribui para a política externa. Dependerá da capacidade do Estado fazer com que as atuações particulares colaborem para o interesse nacional ou o debilitem. O Estado continua com sua centralidade reconhecida. Para agir mais eficientemente, deve ter instrumentos para perceber quais as áreas nas quais lógicas não estatais ganham importância. Em outros termos, a pauta de algumas negociações internacionais, o direcionamento da opinião pública, parte substancial das propostas, ainda que endossadas pelos governos, surgem da capacidade que grupos de interesses manifestam na defesa de seus objetivos. Isto implica repensar a política exterior, ao menos quanto às formas de sua implementação. Por exemplo, em temas como direitos humanos, meio ambiente e comércio, a desigualdade de poder pode ser em parte compensada pela adequada participação dos atores interessados, em outras palavras, pela mobilização social, que ganha certo peso no mundo globalizado em razão da discutida valorização de valores. Na série de conferências internacionais patrocinadas pelas Nações Unidas nos anos 90 – meio ambiente, direitos humanos, população, mulher, políticas sociais, habitat – a lógica interestatal de poder esteve presente, mas os grupos não-governamentais tiveram papel relevante. No mundo pós-guerra fria, este papel poderá vir a ser potencializado e suas conseqüências ainda não são bem avaliadas. Foi dito anteriormente que se alguma coisa em relação à globalização não é adequadamente debatida, é a questão da alocação do poder político num contexto de debilitamento do Estado. Por isso mesmo, a responsabilidade de última instância do poder público continua. Ao mesmo tempo, os Estados com a vontade política de maximizar suas posições buscam alavancar a ação social em função de seus próprios objetivos. Para que isso seja eficaz, exigem-se credibilidade e, ao mesmo tempo, efetiva autonomia frente ao próprio Estado. Isto é, as ações de política internacional de atores não estatais devem ser efetivas, de acordo com projetos próprios. A complexidade da questão não pode ignorar os perigos implícitos e explícitos. Em outros termos, a capacidade nacional de influenciar a opinião pública de outros países, questão relevante na globalização, passa a ser um instrumento de política exterior. Para esse objetivo, a ação do Estado é reconhecidamente insuficiente. A capacitação para levar, a médio e a longo prazos, atores não-governamentais e subnacionais a atuarem na cena externa é a novidade possível para a adequação dos

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instrumentos de política exterior. Esta participação tampouco seria inédita, mas sim o seria o reconhecimento de que esta atuação passa a ser parte constitutiva das relações externas do Estado. BREVE CONCLUSÃO A inexistência de um estado de sociedade nas relações internacionais (apenas de um estado de natureza) poderia ser atenuada pela gradativa incorporação de outros atores, além dos estatais. Esta perspectiva abre-se no estágio atual, ainda que com o risco de reprodução das velhas estratégias de poder. Saber atuar no cenário internacional implica não desconhecer os novos caminhos. A associação prática, uma globalização em razão de interesses, é a fotografia do atual estágio. O debate sugerido sobre o papel da política – sobre as instituições que surgem como necessárias no século XXI – permitiria vislumbrar os caminhos percorríveis para levar à associação de objetivos. Esta, em última instância, está subentendida pelo termo globalização. Em suas formas atuais, porém, estamos longe de qualquer aproximação dos valores de liberdade, igualdade e fraternidade. Do mesmo modo, parece que nos afastamos mais um pouco dos valores da

justiça, e as assimetrias reproduzem antigas formas de dominação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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