Você está na página 1de 49

1

AS ORIENTAÇÕES CURRICULARES PARA A EDUCAÇÃO


PRÉ-ESCOLAR:
- PERSPECTIVAS SOBREEDUCAÇÃO MULTICULTURAL E PARA A
CIDADANIA,
ÉTICA E DEONTOLOGIA PROFISSIONAL NA EDUCAÇÃO DE
INFÂNCIA
2

Escola Superior de Educação de


Coimbra
Docente: Doutor Fernando Ramos
Deontologia As Orientações Curriculares
Profissional para a Educação Pré-
Educação escolar:
Multicultural e
para a Cidadania - Perspectivas sobre Educação
Multicultural e para a Cidadania, Ética e
Deontologia na Educação de Infância

Educação de Infância
Discente: Angela Martins
Coimbra, Setembro de 2009
2

Perto de dois terços da massa do cérebro humano encontram-se


no córtex cerebral, que é o centro da intuição e da razão. O
homem evoluiu de maneira gregária: apreciamos a companhia
dos outros; preocupamo-nos com os outros. Cooperamos. O
altruísmo faz parte de nós. Decifrámos brilhantemente alguns
dos esquemas da natureza. Temos motivação suficiente para
trabalharmos juntos. (…) De um ponto de vista supra-terrestre, a
nossa civilização mundial está a fracassar na sua mais
importante tarefa: preservar as vidas e o bem-estar dos cidadãos
do planeta. Não deveríamos em cada nação, com firmeza,
modificações fundamentais no modo tradicional de fazer as
coisas, remodelar profundamente as instituições económicas,
políticas, sociais e religiosas?

A história humana pode ser vista como um lento acordar do ser


humano para a consciência de pertencer a um grupo mais vasto.
Inicialmente a nossa lealdade ia para nós próprios e para aqueles
que nos eram próximos; depois alargou-se aos bandos de
caçadores nómadas, depois às tribos, às pequenas colónias, às
cidades-estado, às nações. Alargámos o círculo do nosso amor.
Organizamos aquilo a que se chama superpotências, que incluem
3

pequenos grupos de pessoas com antecedentes étnicos e


culturais divergentes trabalhando de certa maneira em conjunto.
É certamente uma experiência humanizante e formadora do
carácter. Se tivermos de sobreviver, a nossa lealdade tem de se
alargar até incluir toda a comunidade humana, o inteiro planeta.

(in Cosmos, Carl Sagan)

ÍNDICE

INTRODUÇÃO------------------------------------------------------------------------------------------------
-------------------5
ENQUADRAMENTO GERAL DO
TRABALHO------------------------------------------------------------------------------8
1. A TEMÁTICA DOS VALORES AO LONGO DAS
OCEPE--------------------------------------------------------------9

1.1. OS VALORES E A ÁREA DE FORMAÇÃO PESSOAL E


SOCIAL-----------------------------------------------10
1.2. O PAPEL DA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR NA EDUCAÇÃO PARA OS
VALORES--------------------------11
1.3. O PROJECTO EDUCATIVO E OS
VALORES----------------------------------------------------------------------11
1.4. A IMPORTÂNCIA DOS VALORES SUBJACENTES AO CONTEXTO
RELACIONAL------------------------12
1.5. AS
ATITUDES-----------------------------------------------------------------------------------------------------
----13
2. A TEMÁTICA DA EDUCAÇÃO MULTICULTURAL E PARA A CIDADANIA AO
LONGO DAS OCEPE------15
2

2.1. EDUCAÇÃO PARA A BIBLIOGRAFIA-----------------------------------------------------------------------------------------------


CIDADANIA--------------------------------------------------------------------------------18 ------------------42
2.2.EDUCAÇÃO
ANEXOS-------------------------------------------------------------------------------------------------------
MULTICULTURAL------------------------------------------------------------------------------------21
3. A DIMENSÃO ÉTICA E DEONTOLÓGICA DA EDUCAÇÃO DE ------------------43
INFÂNCIA--------------------------------------27
3.1. AS OCEPE E A DIMENSÃO ÉTICA E DEONTOLÓGICA DA EDUCAÇÃO DE
INFÂNCIA-----------------27
3.2. ENQUADRAMENTO LEGAL PARA A DIMENSÃO ÉTICA E DEONTOLÓGICA DA
EDUCAÇÃO DE
INFÂNCIA-------------------------------------------------------------------------------------------------
----------------30
3.2.1. LEI N.º 46/86 DE 14 DE OUTUBRO (LEI DE BASES DO SISTEMA EDUCATIVO)
------------------------30
3.2.2. DECRETO-LEI N.º 15/2007 DE 19 DE JANEIRO (ALTERAÇÃO DO ESTATUTO DA
CARREIRA DE DOCENTE)
------------------------------------------------------------------------------------------------------
---31
3.2.3. LEI N.º 5/97 DE 10 DE FEVEREIRO (LEI-QUADRO DA EDUCAÇÃO PRÉ-
ESCOLAR---------------------31
3.2.4. DECRETO-LEI N.º 240/2001 DE 30 DE AGOSTO (PERFIL GERAL DE
DESEMPENHO PROFISSIONAL DO EDUCADOR DE INFÂNCIA E DOS PROFESSORES DO
ENSINO BÁSICO E SECUNDÁRIO) ---------------------33
3.2.5. DECRETO-LEI N.º 241/2001 (PERFIL ESPECÍFICO DE DESEMPENHO
PROFISSIONAL DO EDUCADOR DE
INFÂNCIA)------------------------------------------------------------------------------------------
-----------34
3.3. PROPOSTAS DE CÓDIGOS DE CONDUTA ÉTICA PARA A EDUCAÇÃO DE
INFÂNCIA-----------------35
3.3.1. A CARTA DE PRINCÍPIOS DOS ASSOCIADOS DA ASSOCIAÇÃO DE
PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO DE INFÂNCIA PARA A TOMADA DE DECISÃO
ETICAMENTE SITUADA--------------------------------------------37
3.3.2. O CÓDIGO DE CONDUTA ÉTICA DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL PARA A
EDUCAÇÃO DE CRIANÇAS
PEQUENAS----------------------------------------------------------------------------------------------------
---------------38

CONCLUSÕES
FINAIS---------------------------------------------------------------------------------------------------------
40
2

Educação Pré-escolar nos apresentam relativamente às


INTRODUÇÃO
temáticas da educação multicultural e para a cidadania
bem como para as temáticas da ética, da deontologia e dos
Este trabalho surge no âmbito das disciplinas de Educação valores a a fim de perspectivar o enquadramento da
Multicultural e para a Cidadania e Deontologia Profissional, educação de infância no nosso país relativamente a essas
do curso de Educação de Infância. temáticas.

Apresenta uma análise ao documento orientador do ensino


pré-escolar em Portugal intitulado, Orientações
Curriculares para a Educação Pré-escolar, no que diz
respeito às temáticas da educação multicultural, da
educação para a cidadania e da educação para os valores.
Este trabalho pretende também analisar o documento
acima referido no que concerne à deontologia e aos
aspectos éticos da educação de infância.

Apresenta-se também uma análise sucinta de alguns


documentos legislativos que no nosso país, juntamente
com as Orientações Curriculares para a Educação Pré-
escolar, enquadram a docência da educação de infância.

No final do trabalho apresenta-se uma análise de dois


códigos de conduta ética para os educadores de infância
como exemplo do que já se fez a esse respeito no universo
da educação de infância, dando especial atenção às
questões problemáticas, princípios e ideais que estiveram
na origem destes documentos.

Espera conseguir-se apresentar uma análise concisa e


reflexiva sobre o que as Orientações curriculares para a
3

Apresenta-se também neste ponto uma análise de alguns


documentos legislativos que enquadram a educação de
infância em Portugal, relativamente a essas temáticas.

Ainda no terceiro ponto apresentam-se duas propostas de


códigos para a conduta ética e deontológica do educador a
fim de compreender o que já se fez a esse respeito e
ENQUADRAMENTO GERAL DO TRABALHO porque, como não existe nenhum código ético com carácter
normativo no nosso país; esses documentos constituem
referências para as decisões éticas e deontológicas de
O trabalho está organizado em três pontos fundamentais.
muitos educadores de infância.
Assim sendo, no primeiro ponto apresenta-se uma
perspectiva geral do que as Orientações curriculares nos As análises foram efectuadas com base numa pesquisa de
dizem acerca da temática dos valores, realizando para esse termos que ao longo das Orientações Curriculares
fim uma pesquisa do termo valores ao longo de todas as poderiam remeter para as temáticas que se pretendeu
Orientações Curriculares. abordar neste trabalho.

No segundo ponto analisam-se as Orientações Curriculares Efectuou-se depois uma análise dessas temáticas ao longo
no que concerne às temáticas da educação para a das Orientações Curriculares, tendo em conta as
cidadania e da educação multicultural, apresentando-se referências que estas fazem aos diferentes termos que se
uma perspectiva geral do que o documento pode dizer pretendeu pesquisar, apresentando-se, sempre que
relativamente a essas temáticas, efectuando-se para esse pareceu pertinente, algumas inferências de carácter
fim uma pesquisa dos termos cidadania e multicultural bem reflexivo.
como de outros termos que poderão remeter para essas
temáticas. A selecção dos termos pesquisados baseou-se na
pertinência destes dentro das temáticas do trabalho mas
O terceiro ponto analisa as Orientações Curriculares também tendo em conta o próprio texto e designações das
relativamente às temáticas da ética e da deontologia Orientações Curriculares pois, por vezes, foi preciso
profissional do educador de infância, apresentando-se uma perspectivar e enquadrar a pesquisa dentro da
análise transversal das Orientações a esse respeito. especificidade do documento, tentando-se encontrar
1

termos que pudessem estar conectados com o termo que Cultura 15,18,19,20,21,22,32,47,48,52,54,55,63,65,66,67,
se pretendia pesquisar a fim de expandir a análise. Contexto social 72,84,87,93
22,42,52,80
Democrática 15,20,36,37,42,45,53
Apresenta-se, em seguida uma tabela que indica os termos Desenvolvimento 15,20,42,52,53,62
Deveres 52
que se pesquisou, ao longo da Orientações Curriculares, Diferença 19,54
bem como o número da página das Orientações Direitos 52
Curriculares onde aparecem referenciados1. Diversidade 13,63,76,82,83,88
Educação para a 15, 20,20,20,55,55
cidadania
Educação 54,55
multicultural
Escola inclusiva 19,20,90
Espírito crítico 16,22,51,55,78,83
Formação 20,21,37,49,51,53,55,72,78,79,84
pessoal e social
Grupo 14,14,19,25,26,27,34,35,36,37,38,39,40,41,42,44,
Tabela 1 - Termos pesquisados ao longo das OCEPE 45,49,50,52,53,
Grupo social 54,55,60,62,64,66,67,68,71,75,78,84,85,87,90,91
15,20,36,81
(Continuação da Tabela 1)
CONCEITO NÚMERO DA PÁGINA Identidade 21,54,66
Abordagem 31,33 Influência social 77
sistémica e Interacção social 19,51
ecológica
Avaliação 14,25,27,37,44,46,48,93 Igualdade de 15,17,18,26,54,90
Atitude 36,69,72,82,85,91 oportunidades
Atitudes 47,49,51,52,54,55,60,83,90,91 Intencionalidade 14,25,5593,94
Cidadão 21, 51 Moral 78
Cidadania 7,15,20,55 Meio social 21,23, 33, 34,39,79,81,91
Colaboração 16,22,23,28,37,38,41,45,46,62,88 Organização 53,54
Comunidade 7,16,20,22,23,27,33,38,43,44,45,62,68,70
Conflito 37, 54 Pertença 54
Profissional 7,13,14,25,41,94
Pluralidade 15,20
1Pode acontecer que os termos apareçam noutras páginas das OCEPE Reflexão 26,27,30,38,44,46,56,74,78,83,90,93
além das indicadas na tabela pois só se registou o número da página Regras 90
que tinha esse termo quando havia ligação entre o termo e as temáticas Respeito 15,18,19,20,36,54,62,66,86,90
deste trabalho. Pertença 36,54
2

Ser autónomo, 15,20,21,48


livre e solidário

Socialização 34, 51,59


Sociedade 15,20,21,33,43,48,51
Tolerância 54
Valores 43,49,51,52, 54,55,78,93
Vida social 7,81,90
3

Com o objectivo de analisar o que as Orientações


Curriculares para a Educação Pré-escolar (OCEPE)2 nos
indicam a respeito da temática da educação para os
valores, procedeu a uma pesquisa do termo valores ao
longo de todas as OCEPE.

A fim de facilitar a compreensão da pesquisa e análise


efectuada considerou-se importante subdividir as
referências relacionadas como termo valores em quatro
secções: Os valores e a Área de Formação Pessoal e Social;
O papel da educação pré-escolar na educação para os
valores; O projecto educativo e os valores e A importância
dos valores subjacentes ao contexto relacional.

Optou-se por estas secções porque dizem respeito às


temáticas que têm mais referências para o termo valores
ao longo das OCEPE.

Como ao longo da pesquisa para o termo valores se


verificou uma estreita relação com o termo atitudes;
pensou-se ser importante pesquisar o termo atitudes e
analisar o que as OCEPE nos dizem relativamente a essa
“ (…) não existem verdades sagradas, todas as asserções devem temática e da sua ligação aos valores.
ser cuidadosamente examinadas com espírito crítico, os
argumentos de autoridade não têm valor (…) tudo aquilo que 1.1.OS VALORES E A ÁREA DE FORMAÇÃO PESSOAL E
estiver em contradição com os factos tem de ser afastado ou SOCIAL
revisto.”
(in Cosmos, Carl Sagan) 2 Por razões práticas, a partir deste ponto do trabalho, usar-se-á este
acrónimo para designar o documento Orientações Curriculares para a
1. A TEMÁTICA DOS VALORES AO LONGO DAS OCEPE Educação Pré-escolar.
2

Não obstante ser considerada uma área integradora, a Área


As OCEPE prevêem uma área de conteúdo intitulada “ Área da Formação pessoal e Social é considerada também “ (…)
da Formação Pessoal e Social” referente a um processo que uma área transversal, dado que todas as componentes
deverá favorecer “ (…) a aquisição de espírito crítico e a curriculares deverão contribuir para promover nos alunos
interiorização de valores espirituais, estéticos, morais e atitudes e valores que lhes permitam tornarem-se cidadãos
cívicos” (p. 51). conscientes e solidários, capacitando-os para resolução de
problemas da vida” (p. 51).
A Área de Formação Pessoal e Social é vista pela OCEPE
uma área integradora de todas as outras pois é É interessante verificar que ao longo do texto das OCEPE
considerado que as atitudes e os valores se desenvolvem existe sempre uma preocupação em apresentar o processo
na criança quer na forma como se relaciona consigo, quer educativo como algo global devendo todas as áreas
com os outros quer com o mundo, atravessando nestes contribuir para o desenvolvimento pessoal e social das
processos de relação conteúdos relativos aos vários crianças (daí considerarem a Área de Formação Pessoal e
Domínios da Área de Expressão e Comunicação e da Área Social como uma área transversal e integradora).
do Conhecimento do Mundo.
Exemplo concreto desta abordagem transversal acontece
Aliás, “ (…) ao diferenciar esta área, as Orientações na secção intitulada domínio da Expressão Motora aquando
Curriculares pretendem acentuar a sua importância e da referência aos jogos de movimentos que “ (…) com
sublinhar as finalidades formativas da socialização que regras progressivamente mais complexas são ocasiões de
marca uma tradição da educação pré-escolar em Portugal, controlo motor e de socialização, de compreensão e
perspectivando com área integradora que enquadra e dá aceitação de regras e alargamento da linguagem” (p. 59).
suporte a todas as outras” (p. 51).
Outro exemplo dessa inter-ligação será quando, no domínio
Assim “ A formação Pessoal e Social integra todas as outras da Expressão Plástica as OCEPE fazem referência à
áreas pois tem a ver com a forma como a criança se importância do conhecimento de regras necessárias para
relaciona consigo própria, com os outros e com o mundo, cuidar dos diferentes materiais: “ (…) o cuidado com os
num processo que implica o desenvolvimento de atitudes e materiais e a responsabilização pelo material colectivo,
valores atravessando a Área de Expressão e Comunicação bem como o respeito pelo trabalho dos outros, relaciona-se
com os seus diferentes domínios e a Área de Conhecimento com o desenvolvimento pessoal e social” (p. 62).
do Mundo” (p. 49).
3

Assim, ao diferenciar a Área de Formação Pessoal e Social e educação pré-escolar é uma fase basilar da educação onde
ao considerá-la integradora e transversal, as OCEPE se e começam a erigir os valores; não se pode pois
evidenciam a importância que esta assume no processo descurar o papel que esta assume na formação social e
educativo. pessoal das crianças.

As OCEPE consideram que os valores não se “ (…)


“ensinam”, mas que se vivem na acção conjunta e nas
1.2. O PAPEL DA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR relações com os outros” (p. 53). Pois é durante esse
NA EDUCAÇÃO PARA OS VALORES
processo de “ inter-relação que a criança vai aprendendo a
atribuir valor a comportamentos e atitudes seus e dos
outros” (p. 52).
As OCEPE reconhecem que é no seio da família e no seu
meio sociocultural mais imediato que a criança inicia o seu As OCEPE consideram que a educação para os valores se
desenvolvimento pessoal e social, “ (…) constituindo a realiza “ (…) em situação, num processo pessoal e social
educação pré-escolar um contexto educativo mais alargado de procura de bem próprio e bem colectivo” (p. 52).
que vai permitir à criança interagir com outros adultos e
crianças que têm, possivelmente, valores diferentes dos
que interiorizou no seu meio de origem” (p. 52).
1.3. O PROJECTO EDUCATIVO E OS VALORES
Desta forma, “ (…) ao possibilitar a interacção com
diferentes valores e perspectivas, a educação pré-escolar Embora a educação pré-escolar em Portugal admita vários
constitui um contexto favorável para que a criança vá tipos de modalidade, nomeadamente a rede privada, a
aprendendo a tomar consciência de si e do ouro” (p. 52). rede pública e instituições particulares de solidariedade
Daqui se depreende a importância que a educação pré- social; todas as instituições deverão possuir um documento
escolar assume na educação para os valores. onde se explicite os valores e as intenções educativas da
Na verdade, a Lei-Quadro da Educação Pré-escolar instituição: “ (…) o projecto educativo do estabelecimento
estabelece no princípio geral que a “ (…) educação pré- deverá explicitar de forma coerente, valores e intenções
escolar é a primeira etapa da educação básica no processo educativas, formas previstas para concretizar esses valores
de educação ao longo da vida (…)” (p. 15) ; assim sendo a e intenções (…) e os meios da sua realização” (p. 43).
1

É de referir no entanto, que embora exista grande 1.4. A IMPORTÂNCIA DOS VALORES SUBJACENTES AO
variabilidade de instituições que oferecem os serviços de CONTEXTO RELACIONAL
educação pré-escolar em Portugal; todos deverão ter em
consideração os documentos legislativos publicados em As OCEPE alertam para a importância que têm os valores
Diário da República no que concerne à educação pré- que cada educador veicula nas suas práticas, nas inter-
escolar e que as próprias OCEPE são uma referência relações que estabelece com cada criança e com o grupo e
comum para todos os educadores da Rede Nacional de na forma como apoia as relações entre as crianças.
Educação Pré-escolar, pelo que todas as instituições
deverão ir ao encontro dos valores manifestos nestes Na verdade “ são os valores subjacentes à prática do
documentos. educador e o modo como os concretiza no quotidiano do
jardim-de-infância, que permitem que a educação pré-
As OCEPE consideram ainda que os pais têm “ (…) o direito escolar seja um contexto social e relacional facilitador da
de conhecer, escolher e contribuir para a resposta educação para os valores” (p. 52).
educativa que desejam para os seus filhos ” (p. 43).
Assim “ a relação que o educador estabelece com cada
Caberá pois aos pais decidir se os valores explicitados no criança, a forma como a valoriza e respeita, estimula e
projecto educativo da instituição vão ao encontro dos seus encoraja os seus progressos, contribuem para a auto-
próprios valores e intenções educativas. estima da criança e constituem um exemplo para as
Além disso as OCEPE prevêem a participação dos pais no relações que as crianças estabelecerão entre si.” (p.
projecto educativo do estabelecimento a fim de ajudar a 52,53).
garantir que este se adequa às necessidades das famílias e As OCEPE enfatizam o papel crucial que o educador tem na
da comunidade: “ (…) haverá que assegurar a articulação aprendizagem dos valores considerando que essa
entre o estabelecimento educativo e as famílias, no sentido aprendizagem “ (…) decorre do respeito que o educador
de encontrar, num determinado contexto social, as manifesta por cada criança e pela sua cultura (p. 54).
respostas mais adequadas para as crianças e as famílias,
cabendo aos pais participar na elaboração do projecto Na verdade, a intencionalidade que caracteriza a acção
educativo do estabelecimento” (p. 23). educativa do educador exige que este reflicta sobre a sua
2

acção e também “sobre os valores e intenções que lhe suscitarão a necessidade de debate e negociação, de modo
estão subjacentes” (p. 93). a fomentar atitudes de tolerância, compreensão do outro,
respeito pela diferença” (p. 54).
Devido à natureza do contexto eminentemente relacional
da educação pré-escolar, cada criança pode (e deve) ter O debate de diferentes perspectivas e valores pode
uma participação activa3 na vida do grupo nomeadamente confrontar a criança “ (…) com questões que não são de
ao nível da elaboração, negociação de regras, distribuição resposta imediata, mas que a levam a reflectir no como e
equitativa de tarefas, colaborando para o bem-estar no porquê” (p. 78).
colectivo: “ (…) estas são vivências de valores
democráticos, tais como a participação, a justiça, a Esse debate sobre “diferentes perspectivas e valores
responsabilização, a cooperação…” (p. 54). constitui a base do desenvolvimento moral que está
subjacente à Área de Formação Pessoal e social” (p. 78).
As OCEPE acentuam o papel fundamental que essas
vivências de valores têm na educação para a cidadania As OCEPE fazem ainda uma referência aos valores estéticos
considerando mesmo que esta se baseia “ (…) na aquisição considerando que se por um lado “as vivências
de um espírito crítico e na interiorização de valores” (p. proporcionadas pela participação na organização do
55). ambiente educativo e pela aprendizagem em grupo
contribuem para a tomada de consciência de valores
A vida em grupo implica “ (…) o confronto de opiniões e a espirituais e éticos, a organização material deste ambiente
solução de conflitos que permite uma primeira tomada de deverá favorecer os valores estéticos” (p. 55), alertando
consciência de perspectivas e valores diferentes, que para “ a importância de que o ambiente educativo (…)
corresponda a critérios estéticos que favoreçam a
educação do gosto” (p. 55).
3 Fala-se hoje em pedagogia-em-participação, perspectiva que “
entende a acção em educação de infância como a criação de espaços e
tempos pedagógicos onde a ética das relações e interacções permite
desenvolver actividades e projectos que, porque valorizam a
experiência, os saberes e culturas das crianças em diálogo como os
saberes e as culturas dos adultos, permite aos aprendentes viver,
conhecer, significar e criar”. (in, Cadernos de Educação de Infância, n.º 1.5. AS ATITUDES
86 de Abril de 2009, p. 8).
2

O termo atitudes aparece correlacionado algumas vezes apenas conhecimentos, mas também atitudes e saber-
com o termo valores considerando-se a esse respeito que “ fazer” (p. 47).
(…) todas as componentes curriculares deverão contribuir
para promover nos alunos atitudes e valores que lhes Tal como foi referido a respeito dos valores, as OCEPE
permitam tornarem-se cidadãos conscientes e solidários, consideram que é “na inter-relação que a criança vai
capacitando-os para a resolução dos problemas da vida” aprendendo a atribuir valor a comportamentos e atitudes
(p. 51). seus e dos outros, conhecendo, reconhecendo e
diferenciando modos de interagir” (p. 52).
Ainda a esse respeito, as OCEPE referem que o processo a
desenvolver na Área de Formação Pessoal e Social “ (…) Mais uma vez as OCEPE fazem referência a importância da
implica o desenvolvimento de atitudes e valores (…) num vida em grupo, ao confronto de opiniões, à solução
processo integrado que envolve todas as áreas de conjunta de conflitos como forma de suscitar a “ (…)
conteúdo” (p. 49). necessidade de debate e negociação, de modo a fomentar
atitudes de tolerância, compreensão do outro e respeito
Reflectindo essa perspectiva global e transversal do pela diferença” (p. 54).
processo educativo, as OCEPE consideram que “Todas as
componentes curriculares deverão contribuir para As OCEPE alertam também para a importância de iniciar na
promovermos alunos atitudes e valores que lhes permitam educação pré-escolar o desenvolvimento de uma “atitude
tornar cidadãos conscientes e solidários, capacitando-os crítica face aos meios audiovisuais” considerando a
para a resolução dos problemas da vida” (p. 51). educação para os media como “ (…) uma das vertentes das
Formação Pessoal e Social e do Conhecimento do Mundo”
Exemplo prático da transversalidade e globalidade do (p. 72).
processo educativo verifica-se, por exemplo, na Área do
Conhecimento do Mundo que deverá desenvolver “ (…) O desenvolvimento dessa atitude crítica face aos media
atitudes de relação com os outros, de cuidados consigo deve iniciar-se assim ainda no pré-escolar. Tal desiderato
próprio, de respeito pelo ambiente e pela cultura” (p. 83, compreende-se visto o enorme impacto e a vasta influência
84), envolvendo assim diferentes áreas e domínios. que os media podem exercer nas crianças, mesmos nas
mais pequenas.
As OCEPE pressupõem também que as áreas de conteúdo
devem incluir “ (…) diferentes tipos de aprendizagem, não
3

“ As fronteiras nacionais são pouco evidentes quando do espaço se observa a


Terra: é difícil apoiar entusiasmos fanáticos, sejam eles étnicos, religiosos ou
nacionalistas, quando ante nós o nosso planeta surge como um frágil e
evanescente crescente azulado, prestes a tornar-se um ponto indiscernível no
meio do bastião, da cidadela das estrelas.”

(in Cosmos, Carl Sagan)


1

2. A TEMÁTICA EDUCAÇÃO MULTICULTURAL E PARA A A expressão “educação para a cidadania” aparece seis
CIDADANIA vezes em todo o texto das OCEPE mas existem várias
AO LONGO DAS OCEPE afirmações que de uma forma mais ou menos directa
remetem para a educação para a cidadania.
Com vista a uma análise mais profunda sobre as A educação para a cidadania assume particular importância
referências das OCEPE a respeito da educação multicultural no contexto das OCEPE.
e para a cidadania; pesquisou-se além da expressão
“educação para a cidadania” e “educação multicultural” os Logo na nota de abertura das OCEPE, Teresa Vasconcelos,
termos e expressões: abordagem sistémica e ecológica, refere-se à importância que a educação para a cidadania
cidadão, colaboração, comunidade, contexto social, assume na educação pré-escolar referindo que as OCEPE “
democrática, desenvolvimento pessoal e social, deveres, (…) poderão contribuir para que a educação pré-escolar de
direitos, formação pessoal e social, escola inclusiva, grupo, qualidade se torne motor de cidadania, alicerce de uma
grupo social, interacção social, meio social, organização vida social, emocional e intelectual, que sejam um todo
social, participação, pertença, espírito crítico regras, ser integrado e dinâmico para todas as crianças portuguesas e
autónomo, livre e solidário, socialização, sociedade e vida não apenas para algumas” (p. 7).
social, entre outros4.
Essa importância pode também constatar-se na última
Apresenta-se de seguida um texto que pretende reunir e afirmação do princípio geral definido na Lei-Quadro da
contextualizar as pesquisas efectuadas no texto das OCEPE Educação Pré-Escolar que estabelece como finalidade da
referentes aos termos acima apresentados, educação pré-escolar a “ (…) plena inserção (da criança)
perspectivando-os de forma integrada de modo a que o na sociedade como ser autónomo, livre e solidário” (p. 15).
texto possa reflectir a importância que a educação
Também o primeiro objectivo geral pedagógico, definido
multicultural e para a cidadania assume nas OCEPE.
por essa mesma lei, relaciona-se com a última afirmação
2.1. EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA do princípio geral e visa “Promover o desenvolvimento
pessoal e social da criança com base em experiências de
vida democrática numa perspectiva de educação para a
4 Para uma maior clareza dos termos pesquisados vide a Tabela 1, nas cidadania” (p. 15).
páginas 7 e 8 deste documento.
2

O segundo objectivo geral concretiza também a última As OCEPE fazem referência a importância do processo de
afirmação do princípio geral indicando que a educação pré- resolução de problemas como forma de desenvolver o
escolar deve “Fomentar a inserção da criança em grupos espírito crítico: “ (…) neste processo de resolução de
sociais diversos, no respeito pela pluralidade das culturas, problemas não se trata de apoiar as soluções consideradas
favorecendo uma progressiva consciência como membro correctas, mas de estimular as razões da solução, de forma
da sociedade” (p. 15). a fomentar o desenvolvimento do raciocínio e do espírito
crítico. O confronto das diferentes respostas e formas de
As OCEPE referem que a educação para a cidadania é “ (…) solução permite que cada acriança vá construindo noções
baseada na aquisição de um espírito crítico e da mais precisas e elaboradas da realidade” (p. 78).
interiorização de valores pressupõe conhecimentos e
atitudes que poderão iniciar-se na educação pré-escolar As OCEPE referem ainda que “A resolução de problemas
através da abordagem de temas transversais, tais como: constitui uma situação de aprendizagem que deverá
educação multicultural, educação sexual, educação para a atravessar todas as áreas e domínios em que a criança
saúde, educação para a prevenção de acidentes” (p. 55). será confrontada com questões que não são de resposta
imediata, mas que a levam a reflectir no como e no
As OCEPE consideram que a aquisição de um espírito crítico porquê. Assim, por exemplo, o debate de diferentes
é a base da educação para a cidadania a par da perspectivas e valores constitui a base do desenvolvimento
interiorização de valores. moral que está na subjacente à Área de Formação Pessoal
A Área de Formação Pessoal e Social, onde as questões da e Social” (p. 78).
educação para a cidadania e para os valores assumem um As OCEPE sugerem algumas temáticas que poderão ser
maior relevo, afigura-se como “ (…) um processo que exploradas com vista a uma educação para a cidadania,
deverá favorecer, de acordo com as fases do considerado que essa educação “ (…) pressupõe
desenvolvimento, a aquisição de espírito crítico e a conhecimentos e atitudes que poderão iniciar-se na
interiorização de valores (…)” (p. 51). educação pré-escolar através da abordagem de temas
Mas todas as áreas de conteúdo referidas nas OCEPE transversais, tais como: educação multicultural, educação
deverão “Despertar a curiosidade e o pensamento crítico” sexual, educação para a saúde, educação para a
(p. 16) o que constitui aliás um objectivo pedagógico para a prevenção de acidentes, educação do consumidor” (p. 55).
educação pré-escolar.
3

Durante a pesquisa e análise efectuada constatou-se que o uma abordagem sistémica e ecológica da educação pré-
termo “democrática” aparece nas OCEPE várias vezes escolar” (p. 31).
associado à temática da educação para a cidadania.
Esta perspectiva “ (…) considera que o indivíduo em
Essa estreita relação entre os termos “democrática” e desenvolvimento interage com diferentes sistemas” (p.
“cidadania” é espelhada desde logo no primeiro objectivo 33).
geral pedagógico definido para a e educação pré-escolar:
“Promover o desenvolvimento pessoal e social da criança As OCEPE, corroborando essa perspectiva, referem que “
com base em experiências de vida democrática numa (…) o ser humano se desenvolve num processo de
perspectiva de educação para a cidadania” (p. 15). interacção social”, sendo que “ nesta perspectiva a criança
desempenha um papel activo na sua interacção com o
Na secção das OCEPE intitulada como “Fundamentos e meio (p. 19) “sendo influenciado (a criança) e influenciando
Organização das Orientações Curriculares” refere-se que “ o meio que o rodeia” (p. 51).
(…) no sentido da educação para a cidadania, as
Orientações Curriculares dão particular importância à As OCEPE consideram, portanto que é emersa nos
Organização do Ambiente Educativo como contexto de vida diferentes contextos sociais e na interacção com outros
democrática em que as crianças participam, onde que a criança vai construir referências morais, reconhecer
contactam e aprendem a respeitar diferentes culturas” (p. os direitos e deveres para si mesma e para com os outros e
20). edificar os seus valores: “ (…) é nos contextos sociais em
que vive, nas relações e interacções com os outros, que a
As OCEPE consideram assim que o ambiente educativo criança vai interiormente construindo referências que lhe
constitui um contexto, por excelência, de vida democrática, permitem compreender o que está certo e errado, o que
exigindo por isso uma organização intencional por parte do pode e não pode fazer, os direitos e deveres para consigo e
educador. para com os outros” (p. 51, 52).

Assim a fim de encontrar as repostas mais adequadas à Assim “ a criança constrói o seu desenvolvimento e
população que frequenta a educação pré-escolar, a aprendizagem, de forma articulada, em interacção com os
organização do ambiente educativo deve ter em conta “ outros e com o meio” (p. 34).
(…) diferentes níveis em interacção, o que aponta para
2

É no seio do grupo onde a criança está inserida que directa (…) para a construção do processo educativo” e “
desenvolve os processos de interacção mais imediatos. (…) prever o que se vai fazer, tomar consciência do que foi
realizado" são condições da organização democrática do
Assim, “Enquanto vivência num grupo social alargado, a grupo (p. 37).
educação pré-escolar deverá promover a aprendizagem da
vida democrática” (p. 36). Assim, a participação na vida democrática do grupo “ (…)
permite construir uma autonomia colectiva que passa por
Essa aprendizagem “ (…) implica que o educador uma organização social participada em que as regras,
proporcione condições para a formação do grupo, criando elaboradas e negociadas por todos, são compreendidas
situações diversificadas de conhecimento, atenção e pelo grupo, que se compromete a aceitá-las; também a
respeito pelo outro” (p. 36). decisão colectiva sobre as tarefas necessárias ao bom
A organização democrática do grupo constitui a base da funcionamento do grupo são equitativamente distribuídas,
Área de Formação Pessoal e Social sendo que “ (…) a colaborando cada um para o bem-estar colectivo” (p. 53,
participação democrática na vida do grupo é um meio 54).
fundamental de formação pessoal e social (p. 37). Na verdade, é este processo participação e decisão
O grupo proporciona, então, “ (…) o contexto imediato de colectiva que permite às crianças “ (…) vivências de
interacção social e de relação entre adultos e crianças e valores democráticos, tais como a participação, a justiça, a
entre crianças que constitui a base do processo educativo” responsabilização, a cooperação” (p. 54).
(p. 33,34). Além disso “ O planeamento realizado com a participação
A autonomia de cada criança desenvolve-se à medida que das crianças, permite ao grupo beneficiar da sua
assume responsabilidades, individuais e colectivas no seio diversidade, das capacidades e competências de cada
do grupo e “ (…) este processo de desenvolvimento criança, num processo de partilha facilitador de
pessoal e social decorre da partilha de poder entre o aprendizagem e do desenvolvimento de todas e de cada
educador, as crianças e o grupo (p. 53). uma” (p. 26).

A participação das crianças no planeamento e avaliação da Assim, inseridas activamente num grupo as crianças
organização do grupo “(…) fá-las contribuir de forma podem ter muitas de experiências de vida democrática
nomeadamente “ (…) através de oportunidades de
3

cooperação, decisão em comum de regras colectivas Na verdade “ (…) a vida em grupo implica o confronto de
indispensáveis à vida social e distribuição de tarefas opiniões e a solução de conflitos que permite uma primeira
necessárias à vida colectiva” (p. 36). tomada de consciência de perspectivas e valores
diferentes, que suscitarão a necessidade de debate e de
As OCEPE referem que as normas e regras indispensáveis à negociação, de modo a fomentar atitudes de tolerância,
vida em grupo “ (…) terão de ser explicadas e compreensão do outro, respeito pela diferença” (p. 54).
compreendidas pelas crianças” (p. 36) até porque “ (…)
adquirem maior força e sentido se todo o grupo participar As OCEPE fazem referência à importância do trabalho em
na sua elaboração, bem como na distribuição de tarefas pares e em pequenos grupos uma vez que as crianças “
necessárias à vida colectiva” (p. 36). (…) tem oportunidade de confrontar os seus pontos de
vista e de colaborar na resolução de problemas ou
As OCEPE indicam que ao finalizar a educação pré-escolar, dificuldades colocadas numa tarefa comum” (p. 35).
a criança deverá “ (…) ser capaz de aceitar e seguir regras
de convivência e de vida social, colaborando na O educador deve estar particularmente atento a estas
organização do grupo” (p. 90). situações de debate em grupo e pode mesmo propor
situações problemáticas, permitindo que “ (…) as crianças
A existência de alguns instrumentos como “ (…) o quadro encontrem as suas próprias soluções e que as debatam
de presenças, quadro de tarefas e outros podem facilitar a com outra criança, num grupo, ou mesmo com todo o
organização e a tomada de consciência de pertença e, grupo, apoiando a explicitação do porquê da resposta e
ainda, a atenção e o respeito pelo outro” (p. 36). estando atento a que todas as crianças tenha,
O grupo afigura-se também como um espaço que permite “ oportunidades de participar no processo de reflexão” (p.
(…) à criança confrontar-se com opiniões e posições 78).
diferentes das suas, experimentar situações de conflito” (p. As OCEPE alertam também para o papel crucial que as
37). atitudes do educador e o modo como interage com as
Cabe ao educador apoiar “ as tentativas de negociação e crianças têm na aprendizagem da vida democrática, sendo
resolução de conflitos, favorecendo ainda oportunidades de que “ (…) a relação individualiza que o educador
colaboração” (p. 37). estabelece com cada criança é facilitadora da sua inserção
no grupo e das relações com as outras crianças” (p. 37).
4

Assim, cabe ao educador diversificar “ (…) as De facto, a participação de adultos “ (…) na realização de
oportunidades educativas, ao favorecer uma aprendizagem oportunidades educativas planeadas pelo educador é uma
cooperada em que cada criança se desenvolve e aprende, forma de alargar as interacções das crianças e de
contribuindo para o desenvolvimento e aprendizagem das enriquecer o processo educativo” (p. 27)
outras “ (p. 35,36).
Além disso a colaboração entre a instituição e os pais e a
Mas também a instituição pré-escolar, no seu todo, deve comunidade para além dos efeitos que tem na educação
promover a participação das crianças na dinâmica das crianças tem ainda “ (…) consequências no
institucional, alargando a organização democrática do desenvolvimento e aprendizagem dos adultos” (p. 23).
grupo, ampliando-a “ (…) num contexto social mais
alargado” (p. 42). É interessante constatar que as OCEPE consideram que os
efeitos da comunicação e da participação com outros
Espera-se que os estabelecimentos de ensino pré-escolar adultos “ (…) se manifestam a curto prazo, mas que são
tenham uma gestão democrática (o que aliás se pretende particularmente importantes a médio e longo prazo” (p.
para todo os outros níveis de ensino também) e que 46).
permitam a “ (…) participação dos pais e dos
representantes de outros parceiros em órgãos de direcção O educador tem um papel crucial na promoção do
do estabelecimento” (p. 45). envolvimento dos pais e de outros parceiros educativos por
isso deve estar consciente da importância e das
O projecto educativo deve prever “ (…) a participação de potencialidade inerentes a essa participação logo cabe a si
outros parceiros da comunidade que podem contribuir para encontrar “ (…) as melhores formas de motivar a
melhorar a resposta educativa proporcionada às crianças participação dos pais, tendo em conta que as crianças são
(p. 44). mediadoras dessa relação” (p. 46).

A fim de facilitar essa interacção e colaboração da O educador terá pois que reflectir sobre “ (…) o nível e as
instituição com a família a e a comunidade, sendo aliás formas de participação desejáveis e as iniciativas a
objectivo pedagógico da educação pré-escolar: “ Incentivar desenvolver, num processo que vai sendo corrigido e
a participação das famílias no processo educativo e ajustado de acordo com a avaliação realizada” (p. 46).
estabelecer relações de efectiva colaboração com a
comunidade” (p. 16).
5

É interessante constatar que as OCEPE se assumem como “ Assim se assinala a importância da “ (…) colaboração com
(…) espelho daquilo que hoje sabemos que a educação pré- a família (…) e a participação dos pais no projecto
escolar deve proporcionar às crianças, isto é, reflexo educativo (…) como meios de esclarecimento e de
daquilo que a sociedade, no seu todo, pede à educação compreensão do trabalho educativo que se realiza na
pré-escolar” (p. 7). educação pré-escolar” (p. 45) reflectindo uma filosofia de
cooperação, de partilha e de cidadania que subjaz ao longo
Aliás na elaboração das OCEPE esteve um grupo de todas as OCEPE.
heterogéneo de pessoas não só profissionais ligados à
educação mas também representantes de pais e técnicos
de administração central e local, por exemplo. Esta
construção conjunta reflecte a filosofia de cooperação, de
participação e de cidadania que subjaz ao longo de todas
as OCEPE.

Não obstante a preocupação das OCEPE em ir ao encontro


daquilo que a sociedade pede à educação pré-escolar 5; 2.2. A EDUCAÇÃO MULTICULTURAL
estas reconhecem que existe “ (…) alguma dificuldade por
parte da sociedade em compreender as finalidades,
funções e benefícios da educação pré-escolar” (p. 42). Ao longo das OCEPE a expressão “educação multicultural”
aparece referenciada duas vezes, ambas contextualizadas
Daí que realcem necessidade de comunicação e de relação na secção referente à Área de Formação Pessoal e Social.
com as famílias visto que a “ (…) família e a instituição de
pré-escolar são dois contextos sociais que contribuem para Na verdade, consta-se que as OCEPE não apresentam a
a educação da mesma criança” (p. 43). educação multicultural como um fim em si mesmo mas
apresentam-na como meio para desenvolver outras
temáticas.

5 Refira-se que as OCEPE foram publicadas em 1997 e que, o que a Assim a primeira referência textual de “educação
sociedade de então pedia à educação pré-escolar poderá não ser multicultural” surge associada à expressão “igualdade de
exactamente aquilo que exige na actualidade.
oportunidades” considerando-se que “ É numa perspectiva
2

de educação multicultural que se constrói uma maior relativamente aos termos acima referidos, tentando
igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, apresentar a informação de forma integrada6.
entre indivíduos de diferentes classes sociais e etnias” (p.
54, 55). Enquadrando-se as OCEPE num referencial teórico sócio-
construtivista, consideram que é no seio do grupo que as
A segunda referência textual da expressão “educação crianças participam, contactam e podem aprender a
multicultural” aparece associada a expressão “edução para respeitar diferentes culturas tomando ao mesmo tempo
a cidadania”, considerando a educação multicultural como consciência da sua identidade, diferença e cultura.
um exemplo de um tema transversal que poderá iniciar-se
na educação pré-escolar: “ (…) a educação para a A educação pré-escolar assume como princípio
cidadania, baseada na aquisição de um espírito crítico e da pedagógico: “Fomentar a inserção da criança em grupos
interiorização de valores, pressupõe conhecimentos e sociais diversos, no respeito pela pluralidade das culturas,
atitudes que poderão iniciar-se (…) através de temas favorecendo uma progressiva consciência como membro
transversais, tais como: educação multicultural (…) ” (p. da sociedade” (p. 15).
55). As OCEPE consideram que é nesta interacção com o outro,
Embora as OCEPE só referiam textualmente duas vezes a que é diferente, que a criança toma consciência da sua
expressão “educação multicultural” existem outras própria diferença “O desenvolvimento da identidade passa
referências que dizem respeito a esta temática. pelo reconhecimento das características individuais e pela
compreensão das capacidades e limitações próprias de
A fim de compreender melhor o que este documento cada um, quaisquer que elas sejam. O respeito pela
expressa relacionado a temática da educação multicultural diferença que valoriza a diversidade de contributos
pesquisou-se também os termos diferença, identidade, individuais para o enriquecimento do grupo, favorece a
pluralidade, igualdade de oportunidades, educação construção da identidade, a auto-estima e o sentimento de
intercultural e culturas.

O texto seguinte apresenta uma súmula das pesquisas 6 Note-se que a pesquisa apresenta apenas as citações que
efectuadas, ao longo de todo o texto das OCEPE, possuem os termos e que simultaneamente se correlacionam
com a temática da edução multicultural.
3

pertencer a um grupo, facilitando também o É de referir que as OCEPE utilizam o termo diferença em
desenvolvimento colectivo” (p. 54). vez do termo diversidade7. Fez-se uma pesquisa para o
termo diversidade embora este termo surja várias vezes ao
Assim, a vida em grupo “ (…) permite uma primeira longo do texto das OCEPE não aparece relacionado com a
tomada de consciência de perspectivas e valores diferentes temática da educação multicultural.
que suscitarão (…) atitudes de tolerância, compreensão do
outro, respeito pela diferença” (p. 54). As OCEPE asseguram ainda que o respeito pela diferença “
(…) inclui as crianças que se afastam dos padrões
Para que cada criança possa encarar a sua diferença (e a “normais”, devendo a educação pré-escolar dar reposta a
dos outros) de uma forma positiva e natural, cabe ao todas e cada uma das crianças” (p. 19).
educador “ respeitar e valorizar as características
individuais da criança, a sua diferença” (p. 19). As OCEPE não especificam no entanto o que consideram
como “padrão normal”. Parece que o uso dessa expressão

7 O termo diversidade remete para a diferença como “uma


variação no todo”. A esse respeito, Gould, diz que “(…) o modelo
de Full House ensina a dar valor à variação para seu próprio
proveito, por razões que se prendem com a teoria evolucionista e
com a ontologia da natureza, e não por falha de pensamento
lamentável, que aceita todas as crenças no raciocínio absurdo de
que discordar é desrespeitar. A excelência é uma gama de
diferenças, e não um ponto. Cada localização desta gama de
pode ser ocupada por um representante excelente ou
inadequado – e temos de lutar pela excelência em cada umas
dessas localizações variadas. Numa sociedade levada a impor,
muitas vezes inconscientemente, uma mediocridade uniforme a
uma riqueza de excelência anterior, uma sociedade em que o
McDonald`s roubou o lugar ao jantar e o hipermercado eliminou
o comércio tradicional, a compreensão e a defesa das gamas
completas como sendo realidades naturais podem ajudar a
estancar a maré e a preservar a rica matéria-prima de todo o
sistema em desenvolvimento: a própria variação.” (in Full House, a
Difusão da Excelência de Platão a Darwin)
4

poderá levantar algumas questões pois o que é normal Esta afirmação remete para uma discussão pertinente visto
para umas culturas pode não o ser para outras. Além disso que nos níveis seguintes de ensino muitas vezes parece
o termo padrão remete para algo comum, igual; algo que ficar “esquecida” a necessidade de continuar a respeitar a
na realidade não existe pois a diferença, é de facto, o mais diferença, o ritmo de aprendizagem e o percurso individual
normal e é o cada vez mais nas suas escolas. de cada aluno, usando-se na prática estratégias de ensino,
aprendizagem e avaliação iguais para todos.
Subentendem-se nesta busca para dar resposta a todas e a
cada uma das crianças, o conceito de escola inclusiva, O conceito de pedagogia diferenciada é referenciado várias
sendo que “ (…) a educação pré-escolar deverá adoptar vezes ao longo das OCEPE, o que revela a importância que
uma pedagogia diferenciada, centrada na cooperação, que é dada a este tipo de pedagogia na educação pré-escolar,
inclua todas as crianças, aceita as diferenças, apoie a assim: “(…) a educação pré-escolar deverá adoptar a
aprendizagem, responda às necessidades individuais” (p. prática de uma pedagogia diferenciada, centrada na
19). cooperação, que inclua todas as crianças, aceita as
diferenças, apoie a aprendizagem, responda às
As OCEPE falam-nos também de uma progressão face à necessidade individuais” (p. 19).
perspectiva anterior de integração pois “ (…) mesmo as
crianças diagnosticadas como tendo “necessidades Esse respeito e valorização pela individualidade da criança,
educativas especiais” são incluídas no grupo e beneficiam pela sua diferença, está previsto num dos objectivos
das oportunidades educativas que são proporcionadas a pedagógicos da Lei-Quadro “ estimular o desenvolvimento
todos” (p. 19). global da criança, no respeito pelas suas características
individuais, desenvolvimento que implica aprendizagens
Será interessante fazer referência a uma afirmação das significativas e diferenciadas” (p. 18).
OCEPE relativamente ao conceito de escola inclusiva e da
pedagogia diferenciada “ (…) seria talvez securizante para As OCEPE alertam para a importância de partir sempre dos
educadora e professores do 1.º ciclo que estivesse saberes da criança, respeitando a sua cultura de modo a
estabelecido onde uns “largam” e os outros “pegam”, que as aprendizagens sejam significativas: a educação pré-
contudo esta perspectiva estaria em contradição com o escolar deve (…) partir do que as crianças já sabem, da sua
conceito de escola inclusiva e de pedagogia diferenciada cultura e sabres próprios” (p. 19) sendo que hoje em dia “
que, estando presente na educação pré-escolar, deve (…) já não se procura compensar o meio familiar, mas
existir nos outros níveis do sistema” (p. 90). partir dele e ter em conta a (s) cultura (s) de que as
5

crianças são oriundas, para que a educação pré-escolar se Como já foi referido neste documento, a expressão
possa tornar mediadora entre as culturas de origem das educação multicultural surge associada nas OCEPE à
crianças e a cultura de que terão de se apropriar para expressão igualdade de oportunidades. A fim de
terem uma aprendizagem com sucesso” (p. 22). compreender melhor essa interligação pesquisou-se
também essa expressão ao longo do texto das OCEPE.
Assim, “Este processo educativo encara a criança como
sujeito de aprendizagem, tendo em conta o que cada uma Relativamente a essa expressão as OCEPE referem que é
já sabe e a sua cultura, para lhe permitir aceder a uma um princípio pedagógico da educação pré-escolar “ (…)
cultura que se por designar por “Escolar” (…)” (p. 46) contribuir para a igualdade de oportunidade no acesso à
dando oportunidade à criança para se familiarizar (…) com escola e para o sucesso da aprendizagem” (p. 15).
um contexto culturalmente rico e estimulante que desperte
a curiosidade e desejo de aprender” (p. 93). Daqui se subentende que a educação pré-escolar deve
proporcionar a todas as crianças condições necessárias
O educador tem pois um papel crucial na transmissão de para que as crianças continuarem a aprender “ (…) importa
valores que se revelam no respeito que “ manifesta por que na educação pré-escolar as crianças aprendam a
cada criança e pela sua cultura” (p. 54). prender” (p. 17).

Cabe também ao educador ajudar a criança a desenvolver Mas para que a educação pré-escolar possa contribuir para
o sentido de identidade sendo que este passa pelo “ (…) uma maior igualdade de oportunidades, as OCEPE “ (…)
reconhecimento das características individuais e pela acentuam a importância de uma pedagogia estruturada, o
compreensão das capacidades e limitações próprias de que implica uma organização intencional e sistemática do
cada um, quaisquer que estas sejam” (p. 54). processo pedagógico” (p. 19)

A par disso o educador deve também ajudar a criança a “ Assim cabe ao educador planear e avaliar o processo
(…) reconhecer laços de pertença social e cultural, educativo a fim de analisar os efeitos reais no
respeitando outras culturas” (p. 54) pois tal processo desenvolvimento e na aprendizagem das crianças,
facilita também o desenvolvimento da identidade de cada proporcionando “ (…) um ambiente estimulante de
criança. desenvolvimento e promova aprendizagens significativas
de diversificadas que contribuam para uma maior
igualdade de oportunidades” (p. 26)
6

Para que essa igualdade de oportunidades se verifique assume nas OCEPE um significado e âmbito diferente ou
deverá existir “ (…) a aceitação da diferença sexual, social mais restrito.
e étnica” ao longo de um “ processo educativo que
respeita diferentes maneiras de ser e de saber, para dar A utilização das duas expressões nas OCEPE poderá ser
sentido à aquisição de novos saberes e culturas” (p. 54). tradutora do que acontece no plano educativo em geral
visto que ainda se observa a coexistência das duas
É nessa perspectiva educativa multicultural que “ (…) se expressões para designar o mesmo processo, embora,
constrói uma maior igualdade de oportunidades entre como já foi dito, a tendência actual seja utilizar a expressão
mulheres e homens, entre indivíduos de diferentes classes educação intercultural.
sociais e de diferentes etnias (p. 54, 55).

Além da expressão educação multicultural pesquisou-se


também a expressão educação intercultural; designação
que aliás parece ser cada vez mais usada actualmente em
detrimento da expressão educação multicultural.

Assim, ao longo das OCEPE apenas existe uma referência


textual para a expressão “educação intercultural” e surge
no “Domínio da linguagem oral e abordagem à escrita”
aparecendo associada ao respeito pelas diferentes línguas
e culturas:

“O respeito pelas línguas e culturas das crianças é uma


forma de edução intercultural” (p. 66).

Esta aparência isolada da expressão não permite


compreender se aparece nas OCEPE como sinónimo da
expressão “educação multicultural” citada duas vezes nas
OCEPE e contextualizada de forma mais abrangente na
Área de Formação Pessoal e Social ou se a expressão
7

“ Algo dentro de nós reconhece o Cosmo como sua casa. Somos


feitos de cinza estelar, a nossa origem e evolução estão ligadas a
acontecimentos cósmicos distantes. A exploração do Universo é
uma viagem de auto-descoberta. Já o sabiam os antigos
construtores de mitos: somos filhos do céu e da Terra. Desde que
iniciamos a ocupação do planeta acumulámos uma perigosa
bagagem no decurso da nossa evolução: propensões hereditárias
à agressão, submissão a chefes e hostilidade para com os
estranhos, que põem em perigo a nossa própria sobrevivência.
Mas, em contrapartida também ganhámos a compaixão pelos
outros, o amor pelos nossos filhos e pelos filhos dos nossos filho,
um desejo de aprender a partir da História e uma inteligência
apaixonada sempre a tentar chegar mais longe – tudo
instrumentos de sobrevivência e prosperidade. Quais os aspectos
da nossa natureza que irão prevalecer – não o sabemos (…)”.

(in Cosmos, Carl Sagan)

3. A DIMENSÃO ÉTICA E DEONTOLÓGICA


DA EDUCAÇÃO DE INFÂNCIA

Com o objectivo de compreender o que as OCEPE nos


dizem relativamente à temática da dimensão ética e
deontologia da profissão de educador de infância
pesquisaram-se alguns termos que podem remeter para
essa temática, nomeadamente: Ética, Deontologia,
Identidade profissional, Profissionalismo, Integridade,
2

Respeito, Responsabilidade, Privacidade, Sigilo profissional, No entanto, apesar de nas OCEPE não existirem referências
Coerência Profissional, Trabalho em equipa, Reflexão, directas aos termos ética e deontologia, tal não significa
Atitude. que não haja neste documento afirmações que remetam,
para essas temáticas.
A pesquisa revelou que os termos Ética, Deontologia,
Profissionalismo, Integridade, Privacidade e as expressões Seguidamente neste trabalho, apresenta-se um resumo da
Identidade profissional e Sigilo profissional não são pesquisa e análise efectuadas para os termos que poderão,
referidas ao longo das OCEPE. ao longo das OCEPE, remeter para essas temáticas.

As OCEPE assumem-se como (…) um conjunto de princípios Posteriormente apresenta-se uma análise sucinta de alguns
para a apoiar o educador nas decisões sobre a prática, ou documentos legislativos, relativamente à temática da ética
seja, para conduzir o processo educativo a desenvolver e deontologia profissional, sendo que esses documentos
comas crianças” (p. 13), destinando-se pois “ (…) à legislativos, uma vez que, juntamente com as OCEPE,
organização da componente educativa” (p. 13). constituem as principais referências legislativas que
enquadram a educação de infância em Portugal.
Ao debruçarem-se sobre questões práticas essencialmente
organizativas do processo de ensino; as questões relativas Por último, nesta secção do trabalho apresenta-se uma
à dimensão ética e à profissionalidade da educação de análise sucinta de dois documentos que representam duas
infância não são uma prioridade ao longo das OCEPE. propostas de códigos de conduta ética para a educação de
infância: o Código de Conduta Ética da Associação Nacional
Pensa-se aliás que a definição do Perfil geral de para a Educação de Crianças Pequenas e a Carta de
desempenho profissional do educador de infância e dos Princípios dos Associados da Associação de Profissionais de
professores dos ensino básico e secundário e do Perfil de Educação de Infância para a tomada de decisão eticamente
desempenho específico do educador de infância definidos situada.
nos Decretos-Lei n.º 240/2001 e 241/2001
respectivamente, veio ajudar a definir mais explicitamente
a dimensão profissional, social e ética do educador de
infância, campo que as OCEPE, publicadas no ano de 1997 3.1. AS OCEPE E A DIMENSÃO ÉTICA E DEONTOLÓGICA
DA EDUCAÇÃO DE INFÂNCIA
não se propuseram então a abranger.
2

Como já se referiu não existe nas OCEPE referências Assim, analisando os diferentes objectivos poderá inferir-se
textuais para os termos ética e deontologia. sobre que conduta ética e deontológica é esperada ao
educador de infância de modo a poder levar a acabo esses
No entanto, considera-se que ao longo das OCEPE se mesmos objectivos.
podem retirar algumas inferências que remetem para essa
temática. Assim o artigo 10.º da referida lei estabelece como
Objectivos da educação pré-escolar:
Com esse fim pesquisaram-se os termos atitudes
(enquanto reveladoras de valores e conduta ética do
“a) Promover o desenvolvimento pessoal e social da criança com
educador); avaliação e reflexão (enquanto processos base em experiências de vida democrática numa perspectiva de
fundamentais para situar, analisar e melhorar a conduta educação para a cidadania;
ética e deontológica do educador); intencionalidade b) Fomentar a inserção da criança em grupos sociais diversos, no
respeito pela pluralidade das culturas, favorecendo uma
(enquanto processo que deve orientar toda a prática do
progressiva consciência do seu papel como membro da
educador); respeito (enquanto atitude fundamental do sociedade;
educador perante a criança, família, colegas e c) Contribuir para a igualdade de oportunidades no acesso à
comunidade); colaboração (enquanto atitude fundamental escola e para o sucesso da aprendizagem;
d) Estimular o desenvolvimento global de cada criança, no
na relação com as crianças, famílias, colegas e
respeito pelas suas características individuais, incutindo
comunidade). comportamentos que favoreçam aprendizagens significativas e
diversificadas;
Apresenta-se seguidamente um texto que reúne a pesquisa e) Desenvolver a expressão e a comunicação através da
e a análise efectuadas nas OCEPE relativamente a esses utilização de linguagens múltiplas como meios de relação, de
termos apresentando-as de forma integrada a fim de informação, de sensibilização estética e de compreensão do
mundo;
compreender o que as OCEPE nos poderão dizer a respeito f) Despertar a curiosidade e o pensamento crítico;
da conduta ética e deontológica do educador. g) Proporcionar a cada criança condições de bem-estar e de
segurança, designadamente no âmbito da saúde individual e
As OCEPE partem do pressuposto que os objectivos colectiva;
enunciados na Lei-Quadro da Educação Pré-escolar (Lei n.º h) Proceder à despistagem de inadaptações, deficiências e
precocidades, promovendo a melhor orientação e
5/97) são as intenções que devem orientar a prática encaminhamento da criança;
profissional do educador de infância. i) Incentivar a participação das famílias no processo educativo e
3

estabelecer relações de efectiva colaboração com a As OCEPE alertam para o facto de que “ (…) são os valores
comunidade.” subjacentes à prática do educador e o modo como os
concretiza no quotidiano do jardim-de-infância, que
permite que a educação pré-escolar seja um contexto
Analisando de forma global e sintética os objectivos pode social e relacional facilitador da educação para os valores”
inferir-se que o educador deverá promover aprendizagens (p. 52).
e uma socialização baseada numa vida de grupo
cooperativa, num ambiente seguro e saudável, que O educador deve ter sempre consciente que os seus
promova o desenvolvimento holístico da criança, valores e a sua conduta ética constituem exemplos para
incentivando a aprendizagem participada, a curiosidade e o todas as crianças, mas e que também terão influência nas
pensamento crítico; respeitando sempre a dignidade, a relações que estabelece com as famílias, colegas e com a
singularidade, potencialidades e os direitos de todas as comunidade.
crianças; não discriminando nenhuma criança em nenhum
Também na relação que estabelece com a família e com a
aspecto da sua diferença; garantindo que as crianças com
comunidade, o educador deverá ter preocupações éticas,
necessidades especiais têm o acompanhamento
sendo que deverá respeitar as famílias, comunidade e
necessário; promovendo a participação activa dos pais e da
promover participação destas no processo educativo. Cabe
comunidade no processo educativo, respeitando e
também ao educador encontrar os meios mais adequados
valorizando a cultura de cada criança.
para facilitar a colaboração desses parceiros educativos
As OCEPE referem de forma explícita que as atitudes e os sendo que tal “ (…) implica uma reflexão por parte do
valores do educador são exemplos para todas as crianças. educador e da equipa sobre o nível e formas de
participação desejáveis” (p. 46).
Assim, a respeito da aprendizagem da vida democrática, as
OCEPE referem que “A atitude do educador e a forma como Essa participação também poderá contribuir para que
se relaciona comas crianças desempenha um papel família, comunidade e sociedade em geral compreendam
fundamental no processo” (p. 36). Também “ (…) o melhor os meandros da profissão do educador de infância
respeito que o educador manifesta por cada criança e pela que enquanto profissão iminentemente afectivo-relacional
sua cultura” (p. 54) condiciona a aprendizagem de valores (em parte devido ao trabalho com crianças tão pequenas);
por parte das crianças. exige constantemente ao educador decisões de cariz não
só pedagógico mas também ético e moral.
4

Colaborando, as famílias e a comunidade poderão valorizar Esta capacidade de reflexão e postura crítica do educador
o trabalho do educador. face às suas práticas é tão ou mais importante se se tiver
em consideração que na educação pré-escolar o educador
Nesse sentido, para o educador, as OCEPE afirmam-se é construtor e gestor do currículo8 e que, se por um lado tal
como sendo “espelho da sua “coerência profissional”, lhe confere uma autonomia grau de liberdade elevados; por
permitindo uma maior afirmação social da educação pré- outro lhe exige um grande sentido de responsabilidade.
escolar” (p. 7)
Daí a importância dessa postura reflexiva, quer em relação
Essa coerência profissional passa pela intencionalidade do à prática pedagógica desenvolvida quer em relação à
processo educativo que deve caracterizar a intervenção do dimensão mais pessoal e valorativa do processo educativo.
educador de infância. Essa reflexão deverá também incidir sobre a conduta ética
Essa intencionalidade “ (…) decorre do processo reflexivo do educador quer na sua relação com as crianças, quer
de observação, planeamento, acção e avaliação com as famílias, quer com colegas e quer com comunidade
desenvolvido pelo educador, de forma a adequar a sua Uma atitude reflexiva face às suas práticas é essencial para
prática às necessidades das crianças” (p. 14) e exige que compreender os efeitos da prática na educação da criança
(…) o educador reflicta sobre a sua acção e a forma como a bem como para analisar o seu desempenho interpessoal
adequa às necessidades das crianças e, ainda, sobre os com as crianças, com as famílias, pessoal educativo e com
valores e intenções que lhe estão subjacentes” (p. 93). a comunidade.
Esse processo reflexivo permite ao educador “ (…) tomar
consciência do processo realizado e dos seus efeitos.” (p.
93).

A avaliação permite ao educador “ (…) ir corrigido e


adequando o processo educativo” (p. 94) desenvolvido.
8 Na verdade, as próprias OCEPE não se assumem como currículo mas
Todo este processo de avaliação e reflexão define a como um documento orientador “ (…) que constitui uma base de
intencionalidade da acção do educador. reflexão individual e colectiva com o objectivo de permitir aos
educadores situar as suas opções educativas e adequar práticas mais
adequadas ao contexto educativo e ao grupo de crianças” (p. 31).
5

de desempenho profissional do educador de infância) e o


Decreto-Lei n.º 15/2007 (Estatuto da Carreira de Docente
dos educadores de infância e dos professores dos ensino
básico e secundário).

Apresenta-se em seguida uma análise sucinta para cada


um dos documentos legislativos acima referidos.

3.2.1 LEI N.º 46/86 DE 14 DE OUTUBRO


(LEI DE BASES DO SISTEMA EDUCATIVO)

Ao longo de todo o enunciado desta lei não está


referenciado o termo ética nem o termo deontologia.

Apesar disso, existem algumas referências que poderão


remeter para essas temáticas.
3.2.ENQUADRAMENTO LEGAL PARA A DIMENSÃO ÉTICA E Apresenta-se em seguida uma análise sucinta do que nesta
DEONTOLÓGICA DA EDUCAÇÃO DE INFÂNCIA lei poderá dizer sobre essas temáticas, sendo que a
pesquisa incide apenas no universo da educação infância.

Os documentos legislativos que se considerou ser mais Assim na secção I desta lei, destinada à educação pré-
relevante analisar em relação às questões da ética e da escolar, no artigo 5.º, considera-se como objectivo da
deontologia profissional na educação de infância foram a educação pré-escolar “ Desenvolver a formação moral da
Lei n.º 46/86 (Lei de Bases do Sistema Educativo), a Lei n.º criança o sentido da responsabilidade, associado ao da
5/97 (Lei-quadro da Educação Pré-escolar), o Decreto-Lei liberdade”. Caberá, então, ao educador, favorecer o
n.º 240/2001 (Perfil geral de desempenho profissional do desenvolvimento moral da criança.
educador de infância e dos professores dos ensino básico e
secundário), o Decreto-Lei n.º 241/2001 (Perfil especifico
2

Considerando que o desenvolvimento moral acontece na formação inicial numa perspectiva de educação
interacção social; o educador aprece aqui como sendo permanente”.
mediador desse desenvolvimento moral que ocorre na
inter-relação. A conduta moral e ética do educador será O educador deve procurar manter-se informado e
fundamental para o desenvolvimento moral das crianças. O actualizado, com especial incidência na área da pedagogia.
educador deverá estar consciente de que constitui uma A formação inicial deve também estimular uma “ (…)
referência moral e social. atitude simultaneamente crítica e actuante” (alínea f); art.
No capítulo IV, o artigo 30.º (Princípios gerais de formação 30.º) pois é importante que o educador possa reflectir
de educadores e professores), alinha a) refere-se à criticamente sobre as práticas desenvolvidas e sobre os
importância de se facultar aos educadores e professores contextos educativos a fim de provocar mudanças
uma formação inicial que lhes proporcione “ (…) a significativas quer na sua acção quer nos contextos onde
formação pessoal e social adequadas ao exercício da actua.
função”. Espera-se então que essa formação inicial seja
Essa formação inicial de base é muito importante dada a uma”Formação participada que conduza a uma prática
exigência de natureza profundamente inter-relacional da reflexiva e continuada de auto-informação e auto-
educação de infância que faz do educador um ser em aprendizagem”, (alínea h); art. 30.º) promovendo “a
constante interacção não só com as crianças, mas também inovação e a investigação, nomeadamente em relação com
com as famílias e a comunidade. a actividade educativa” (alínea g); art. 30.º).

Cabe ao educador conseguir articular o seu eu pessoal com


o seu eu profissional, conduzindo a sua prática em
consonância com as suas crenças, saberes e valores mas
respeitando sempre os outros com vista ao bem-estar
comum.

A alinha b) desse mesmo artigo, aponta para importância


3.2.2. DECRETO-LEI N.º 15/2007 DE 19 DE JANEIRO
da formação contínua “(…) que complemente e actualize a
(ALTERAÇÃO DA ESTATUTO DA CARREIRA DE DOCENTE)
2

avaliando-se, favorecendo deste modo o seu


desenvolvimento profissional e pessoal.
Neste documento legislativo o artigo 10.º apresenta os
deveres gerais do docente e destacar-se-iam os seguintes No Subcapítulo II (Condições progressão e acesso na
deveres: carreira), o artigo 40.º considera a “vertente profissional e
ética” como uma das dimensões que a avaliação de
desempenho dos docentes deve ter em consideração,
“a) Orientar o exercício das suas funções pelos princípios
sendo que esta avaliação deve, entre outras finalidades “
do rigor, da isenção, da justiça e da equidade;
(…) proporcionar orientações para o desenvolvimento
“c) Colaborar com todos os intervenientes no processo
educativo, favorecendo a criação de laços de cooperação pessoal e profissional num quadro de reconhecimento do
e o desenvolvimento de relações de respeito e mérito e da excelência”.
reconhecimento mútuo, em especial entre docentes,
No capÍtulo III (Formação), artigo 13.º considera-se que a
alunos, encarregados de educação e pessoal não
docente”; formação inicial dos docentes deve “ (…) dotar os
d) Actualizar e aperfeiçoar os seus conhecimentos, candidatos à profissão das competências e conhecimentos
capacidades e competências, numa perspectiva de científicos e técnicos e pedagógicos de base para o
aprendizagem ao longo da vida, de desenvolvimento desempenho profissional da pratica docente” tendo em
pessoal e profissional e de aperfeiçoamento do seu conta, nomeadamente a dimensão “Profissional e ética”.
desempenho; auto-avaliação e participar nas actividades
de avaliação da escola.” O novo Estatuto da carreira de docente conduziu também
uma alteração ao Decreto-lei n.º 249/92 (Regime jurídico
da formação continua) acrescentou-se ao artigo 6.º a
Perspectivando os deveres acima destacados em termos temática da “formação ética e deontológica” como tema
das questões éticas e deontológicas, pode dizer-se de sobre a qual as acções de formação contínua devem incidir.
forma sucinta, que é dever do docente conduzir as suas
práticas de forma íntegra, isenta, justa e coerente;
fomentar a cooperação, a partilha e participação de todos
3.2.3. LEI N.º 5/97 DE 10 DE FEVEREIRO
os intervenientes do processo educativo; evidenciar
(LEI-QUADRO DA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR)
atitudes de respeito e confiança para com todos; cuidar da
sua formação contínua, actualizando conhecimentos, auto-
2

Embora no texto desta lei não exista referências textuais saber próprio da profissão, apoiado na investigação e
para os termos ética e deontologia, considera-se que o na reflexão partilhada da prática educativa e
artigo 10.º desta lei ao estabelecer os objectivos da enquadrado em orientações de política educativa
para cuja definição contribui activamente;
educação pré-escolar encerra todo um conjunto de
b) Exerce a sua actividade profissional na escola,
referências que remetem para a conduta ética e
entendida como uma instituição educativa, à qual
profissional do educador.
está socialmente cometida a responsabilidade
específica de garantir a todos, numa perspectiva de
No ponto 3.1. deste trabalho já se analisaram esses
escola inclusiva, um conjunto de aprendizagens de
mesmos objectivos, perspectivando-os em termos das
natureza diversa, designado por currículo, que, num
questões éticas e deontológicas para que estes poderão dado momento e no quadro de uma construção social
remeter pelo que não se debruçará aqui sobre esse negociada e assumida como temporária, é
assunto. reconhecido como necessidade e direito de todos
para o seu desenvolvimento integral;
c) Fomenta o desenvolvimento da autonomia dos
3.2.4. DECRETO-LEI N.º 240/2001 DE 30 DE AGOSTO alunos e a sua plena inclusão na sociedade, tendo em
(PERFIL GERAL DE DESEMPENHO PROFISSIONAL DO EDUCADOR
conta o carácter complexo e diferenciado das
DE INFÂNCIA E DOS PROFESSORES DO ENSINO BÁSICO E
aprendizagens escolares;
SECUNDÁRIO)
d) Promove a qualidade dos contextos de inserção do
Este decreto-lei define em Anexo, na secção II, a processo educativo, de modo a garantir o bem-estar
Dimensão profissional, social e ética dos docentes: dos alunos e o desenvolvimento de todas as
componentes da sua identidade individual e cultural;
“1 - O professor promove aprendizagens curriculares, e) Identifica ponderadamente e respeita as
fundamentando a sua prática profissional num saber diferenças culturais e pessoais dos alunos e demais
específico resultante da produção e uso de diversos membros da comunidade educativa, valorizando os
saberes integrados em função das acções concretas da diferentes saberes e culturas e combatendo
mesma prática, social e eticamente situada. processos de exclusão e discriminação;
2 - No âmbito do disposto no número anterior, o f) Manifesta capacidade relacional e de comunicação,
professor: bem como equilíbrio emocional, nas várias
a) Assume-se como um profissional de educação, com a circunstâncias da sua actividade profissional;
função específica de ensinar, pelo que recorre ao g) Assume a dimensão cívica e formativa das suas
2

funções, com as inerentes exigências éticas e Neste decreto-lei o ponto que parece aludir mais para as
deontológicas que lhe estão associadas.” questões éticas e deontológicas será o ponto n.º 4 onde se
Analisando sucintamente o texto acima transcrito, no que refere que no âmbito da relação e da acção educativa, o
respeita à questões éticas e profissionais, poderá dizer-se educador de infância:
que o docente deve estar consciente da dimensão social, “a) Relaciona-se com as crianças de forma a favorecer a
profissional e ética da sua profissão; perspectivando-se necessária segurança afectiva e a promover a sua
como parte de um todo, onde há partilha de um saber autonomia;
profissional próprio; deve também estar consciente que b) Promove o envolvimento da criança em actividades e
está integrado numa instituição com função social que visa em projectos da iniciativa desta, do grupo, do educador
ou de iniciativa conjunta, desenvolvendo-os
garantir o acesso a todos a um currículo que é necessidade
individualmente, em pequenos grupos e no grande grupo,
e direito de todos; que deve contribuir para a inclusão de
no âmbito da escola e da comunidade;
todos, respeitando e valorizando as diferenças,
c) Fomenta a cooperação entre as crianças, garantindo
combatendo a exclusão e a discriminação e desenvolvendo que todas se sintam valorizadas e integradas no grupo;
as suas competências em direcção à sua autonomia, tendo d) Envolve as famílias e a comunidade nos projectos a
particular atenção ao contexto onde se desenvolve a desenvolver;
prática e que condiciona o desenvolvimento dos alunos que
deve ser global. Para levar a cabo estas missões e) Apoia e fomenta o desenvolvimento afectivo,
educativas, formativas, cívicas e sociais: o docente emocional e social de cada criança e do grupo;
manifestará capacidade relacional e de comunicação bem f) Estimula a curiosidade da criança pelo que a rodeia,
como cuidará do seu equilíbrio emocional para poder promovendo a sua capacidade de identificação e
desempenhar as suas várias dimensões. resolução de problemas;
g) Fomenta nas crianças capacidades de realização de
tarefas e disposições para aprender;
3.2.5. DECRETO-LEI N.º 241/2001 h) Promove o desenvolvimento pessoal, social e cívico
(PERFIL ESPECÍFICO DE DESEMPENHO PROFISSIONAL DO numa perspectiva de educação para a cidadania.”
EDUCADOR DE INFÂNCIA)
Analisando de forma sucinta o texto acima, poderá dizer-se
No anexo n.º 1 deste decreto-lei é definido o Perfil
que mais uma vez se acentuam aspectos como a
específico de desempenho profissional do educador de
necessidade do educador desenvolver uma acção
infância.
2

educativa holística; de incentivar o espírito critico e a


problematização; tendo em conta uma perspectiva de
educação para a cidadania, que fomente a cooperação, o
respeito e a valorização de cada criança, num ambiente
seguro, afectivo, estimulante que promova a autonomia da
criança.
Repare-se pois, nos vários pontos de convergência que
existem nos diferentes documentos legislativos, aqui muito
sucintamente analisados, no que pode remeter para as 1.1. PROPOSTAS DE CÓDIGOS DE CONDUTA ÉTICA
PARA A EDUCAÇÃO DE INFÂNCIA
questões éticas e deontológicas do educador de infância.
Anote-se porém que muita da legislação analisada denota A profissão de educador de infância apresenta um conjunto
um carácter muito abrangente, dando “orientações gerais de singularidades que remetem para o que se pode
para um a conduta ética e responsável”; sendo as designar como profissionalidade específica do educador de
especificações essencialmente práticas e objectivas, muitas infância.
escassas. Essas singularidades passam, em parte, por prestar serviço
Numa profissão onde afloram com frequência dilemas a crianças muito pequenas que apresentam um elevado
éticos nas circunstâncias quotidianas; talvez fosse grau de vulnerabilidade; pela exigência de globalidade na
importante existir um código ético-deontológico que acção educativa (ainda mais que nas outros níveis de
orientasse o educador nas suas decisões diárias. ensino); pelas características do campo profissional da
educação de infância em que, por exemplo, a presença do
Estado é menor do que nos outros níveis de ensino (refira-
se se que o educador é o autor e o gestor do seu currículo);
pelas características do processo educativo e das tarefas
da educação de infância que se caracterizam por uma
grande diversidade e por um âmbito muito alargado,
exigindo ao educador conciliar num processo educativo,
eminentemente interactivo, a prestação de cuidados (tão
2

importante, especialmente quanto menores são as conjunto de competências de relação, por um lado com a
crianças) e a componente educativa; e pelo próprio criança (que resultam também do desenvolvimento da
contexto educativo que apresenta uma heterogeneidade e capacidade de se ver a si próprio enquanto pessoa que
complexidade muito elevadas. interage), por outro com a cultura e a sua influência no
Estas singularidades reflectem-se também no que se pode conjunto de valores, atitudes e crenças relativas às
designar como conhecimento profissional dos educadores práticas educativas” (Coelho, Ana, 2001, p. 150).
de infância. Tem sido muito difícil identificar o A definição do Perfil geral de desempenho profissional do
conhecimento profissional de base, em parte devido à educador de infância e dos professores do ensino básico e
multidisciplinaridade que o caracteriza e ao domínio social secundário e do Perfil específico de desempenho
partilhado de alguns saberes. Na verdade, o trabalho do profissional do educador de infância pelos Decreto-Lei n.º
educador “ (…) está muito ligado a práticas culturais e 240/2001 e n.º 241/2001, respectivamente, veio colmatar a
estreitamento arreigado a valores” (Coelho, Ana, 2001, p. falta de enquadramento específico que existia para esta
149). profissão, ao mesmo que assume a especificidade do
Assim sendo, será pois de estranhar “ (…) que aspectos desempenho profissional do educador de infância.
relativos às políticas educacionais e à dimensão ética No entanto, a não existência legal de um código
estejam tão ausentes da discussão acerca dos deontológico parece ser uma lacuna que assume particular
conhecimentos que os educadores deverão possuir relevância devido ao contexto específico da profissão de
(Coelho, Ana, 2001, p. 149). educador de infância.
Poderá dizer-se que o conhecimento profissional dos A esse propósito, Júlia Formosinho, em entrevista à revista
educadores é também “ um saber de tipo ético” Cadernos de educação de infância comenta que “ A
(Sarmento, 1999, p.86, citado em Coelho, Ana, 2001). necessidade de um código deontológico parece ser mais
Devido ao carácter profundamente inter-relacional e à sentida pelos educadores de infância do que por outros
vulnerabilidade e dependência da criança face ao adulto, o profissionais. Poderá perguntar-se porquê? Seria
exercício da profissão de educador de infância “ (…) está interessante fazer uma pesquisa para responder à
intimamente ligado com a mobilização de competências questão”9.
que se inscrevem no domínio dos valores, ultrapassando a
racionalidade instrumental (…). A dimensão ética do saber 9 in, Cadernos de Educação de Infância, n.º 86 de Abril de 2009.
e da profissão requer pois que o educador desenvolva um
3

A APEI10 lançou um documento intitulado Carta de situada”13, “perspectivando-a como expressão dos seus
princípios dos associados da APEI para a tomada de associados que assumem como referência deontológica” 14.
decisão eticamente situada11 assumindo-a como uma
referência deontológica para os seus associados. Esse documento considera que o “ desenvolvimento da
identidade dos seus associados e os seus estatutos
A NAYEC12 propôs também um código de conduta ética, contemplam a dimensão ética como vertente fundamental
reconhecendo que “ muitas das decisões quotidianas dessa identidade”.
dirigidas àqueles que trabalham com crianças pequenas
são de natureza ética e moral”. Com esse fim, a APEI considera essencial que os seus
Devido à importância que estes dois documentos associados desenvolvam “uma reflexão profunda e
apresentam no contexto da educação de infância; permanente acerca do carácter ético das profissões ligadas
apresenta-se em seguida uma breve análise destes à Educação de Infância”, sendo que essa reflexão assume
documentos. uma pertinência elevada tendo em conta a “ sociedade
plural em que se cruzam diferentes valores” e devido à
1.1.1.A CARTA DE PRINCÍPIOS DOS ASSOCIADOS DA ausência de “reflexão explícita sobre deontologia”;
ASSOCIAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO DE
também a complexidade das situações educativas, sociais
INFÂNCIA PARA A TOMADA DE DECISÃO ETICAMENTE
e profissionais exige, cada vez mais a “procura de
SITUADA
referências de dimensão ética”. Além disso a própria
sociedade coloca em relevo “a vertente ética do pensar e
Em Dezembro de 2007, a APEI, publica uma Carta de
Princípios “para a tomada de decisão eticamente
13 Vide em anexos, a hiperligação para uma versão on-line deste
documento.

14 Este documento foi elaborado por um grupo de trabalho com


vários elementos, com o contributo de um grupo de alunos da
10 Associação de Profissionais de educação de Infância.
ESE de Lisboa, no âmbito de a disciplina de Ética e Deontologia
11 in Cadernos de Educação de Infância, n.º 82 de Dezembro de 2007. Profissional.

12 National Association for the Education of Young Children.


2

do agir, nas profissões com incidência nos destinos Assim os princípios que a APEI elege para “alicerçar a
humanos”. procura ética” são: a competência (teórico/prática, em
permanente construção); a responsabilidade (para dar a
Repare-se que os propósitos que APEI considera estarem reposta mais correcta possível no sentido do bem dos
na base da elaboração deste documento reflectem o vazio outros; o que exige mobilizarão pessoal atenta e solicita), a
que existe no domínio da reflexão ética e deontológica integridade (conduta honesta, justa e coerente) e o
reconhecendo, no entanto, a importância que tal reflexão respeito (reconhecer, defender e promover a dignidade
assume no contexto complexo e plural da sociedade actual. humana).
Na elaboração da Carta de Princípios a APEI tomou em O compromisso dos associados da APEI em “mobilizar a
consideração, nomeadamente a “ reflexão filosófica no procura do sentido ético no seu agir pessoal e profissional”
domínio da ética (…), a Declaração dos Direitos humanos e passa pelos cinco seguintes domínios: compromisso com as
dos direitos da criança e Declarações que visam o crianças; compromisso com as famílias; compromisso
reconhecimento de minorias”. com a equipa de trabalho e entidade empregadora;
A carta propõe-se a “afirmar a profissionalidade enquanto compromisso com a comunidade e compromisso com a
prática reflexiva, numa perspectiva ética; contribuir para sociedade.
uma cultura de responsabilidade; (…) estimular os Esses compromissos são alicerçados “num modo de
profissionais a tomar consciência das situações (…) a funcionamento pessoal” que exige ao profissional uma
avaliar e ponderar (…) para agir de modo adequado, justo atitude interior que tem em conta valores e uma conduta
e correcto; (…) constituir um documento que propicie a “que reúna atenção, respeito e confiança nos outros”; que
interrogação crítica das práticas tendo em vista o bem do cuide do seu “ bem-estar físico e psicológico (…) e modo
outro e o bem comum; consciencializar os profissionais de comunicar”; que procure na sua prática “ uma
de educação de infância de que o poder que tem é a articulação dialógica ente o eu pessoal e o eu profissional
possibilidade de influenciar e transformar e de que o seu ”; que cuide da sua formação continua e que tenha uma
modo de agir tem necessariamente consequências (…); atitude investigativa afim de uma actualização pedagógica
propiciar (…) um reequacionamento permanente e permanente; que trabalhe em equipa; que tenha
pessoal dos princípios (…), ampliá-los e a situar a consciência de que é uma referência e que aceite os seus
respectiva exigência”.
3

limites e dificuldades, tentando superá-los de modo a Esse código resulta de em conjunto de estudos
responder com a qualidade às exigências das profissão. desenvolvidos por esta associação desde o ano de 1979 e é
considerado como “(…) a living document that would
Repare-se pois na complexidade dos compromissos always reflect the field`s current understanding of how
assumidos, que contemplam várias dimensões e que early chilhood educators can best serve young children and
exigem que o profissional de educação infantil cuide quer their families”16.
do seu eu pessoal quer do seu eu profissional, articulando
estas dimensões, numa perspectiva ética, humanística, O objectivo principal do Código de Conduto Ética da NAYEC
participativa com vista a uma educação de qualidade. é providenciar aos educadores de infância um documento
orientador para a sua conduta moral.
Considera-se, pois, que esta Carta de Princípios poderá ser
muito relevante em parte devido à sua abrangência e O código considera que “os padrões de comportamento
estruturação organizativa mas sobretudo porque lança para ético na infância estão baseados no compromisso com
discussão questões éticas e deontológicas, que assumem valores essenciais profundamente enraizados na
uma relevância fulcral no universo da educação de concepção de infância” 17.
infância, apesar de primarem por uma ausência silenciosa
(mas incomodativa) nos espaços de reflexão. Assim, tendo em conta esses valores, o código apresenta
seis princípios que resumidamente passam por valorizar a
infância; fundamentar o trabalho com conhecimentos sobre
1.1.2.O CÓDIGO DE CONDUTA ÉTICA DA o desenvolvimento infantil; valorizar e incentivar a
ASSOCIAÇÃO NACIONAL PARA A EDUCAÇÃO DE interacção criança-família; reconhecer a importância de
CRIANÇAS PEQUENAS entender o contexto familiar e cultural da criança como
forma de conhecimento desta; assumir que cada criança é
única, respeitando-a na sua dignidade, singularidade e
A primeira versão do código de conduta ética da NAYEC
aparece em 1989, tendo sido revista em Abril de 200515.
16 in, Beyond the Journal, Young Children on the Web, disponível em
http://www.journal.naeyc.org/btj/200411/FreemanEthics.pdf .

17 in, Cadernos de Educação de Infância, n.º 52 de 1999, p. 33-


15 Vide em anexos uma hiperligação para uma versão do documento. 35.
2

valor; desenvolver um contexto inter-relacional com problemas e dilemas éticos que surgem no dia-a-dia do
baseado em atitudes de confiança, respeito e atenção. educador.

O código apresenta as responsabilidades éticas do Existe aliás, na versão revista do Código publicada em
educador em quatro secções: Responsabilidades éticas 2005, um aumento considerável na listagem de Ideais e
para com as crianças; Responsabilidades éticas para com Princípios face à versão anterior.
as famílias; Responsabilidades éticas para com os colegas,
apresentando esta secção três alinhas: A- Talvez esse aumento seja um reflexo da continuidade de
Responsabilidades para com a equipa de trabalho; B- reflexão sobre as questões éticas na profissão de educação
Responsabilidades par com as entidades empregadoras e C de infância mas também poderá reflectir as novas
-Responsabilidades para com os empregados; e exigências éticas e morais colocadas por contextos
Responsabilidades éticas para com a comunidade e a educativos cada vez mais plurais e complexos.
sociedade. Considera-se que este documento encerra em si um grande
Para cada área há uma pequena introdução às potencial de reflexão para o educador de infância e que
responsabilidades primárias dos educadores nesse âmbito este deve estudá-lo, revê-lo e tê-lo em consideração nas
e enuncia-se um conjunto de ideais, que reflectem as práticas que desenvolve com vista a uma conduta ética
intenções que deverão estar subjacentes à prática responsável.
pedagógica do educador, seguidos de um conjunto de
princípios, direccionados mais para acção, que descrevem
as práticas requeridas, não desejáveis ou permitidas.

Assim em cada secção é apresentada uma lista de ideais e


uma lista de princípios que o educador deve considerar
como orientação para sua conduta ética e deontológica.

Refere-se que estas listas de ideais são exaustivas,


denotando um processo longo de estudo, de reflexão e
análise; prevendo muitas situações relacionadas com
3

Ao concluir este trabalho a autora sente que conseguiu


alcançar, de forma geral, os objectivos a que se propôs
mas também sente que muito ainda há para analisar e
reflectir no âmbito das temáticas deste trabalho.

Pensa-se que este trabalho permitiu à autora perspectivar


e reconceptualizar saberes e competências que de uma
forma mais ou menos estruturada foram abordados e
explorados ao longo do curso de Educação de Infância que
agora está prestes a concluir.

Desta forma este trabalho constituiu-se também como


epílogo do seu percurso académico.

Tal fez com que a aluna pudesse reconceptualizar esse


mesmo percurso; um pouco porque ao exigir uma análise
generalizada e reflexiva das OCEPE, este trabalho levou
aluna a rever este documento tão fundamental no universo
da Educação de Infância.

Mas este trabalho levantou sobretudo questões na mente


da aluna; questões que remetem para a sua própria
formação pessoal e social e profissional pois são grandes os
desafios e as exigências que se colocam ao educador de
infância e parecem tanto maiores quanto maior a
CONCLUSÕES FINAIS consciência que o educador tem da sua missão.

Educar para os valores não é fácil; não é algo que se abra


um manual e se “ensine” ou se carregue numa tecla e de
que se faça download; é muito mais humano do que isso e
2

começa indubitavelmente no próprio ser humano que o Educar para a interculturalidade e para a cidadania passa
educador é. E é aí que reside o maior dificuldade mas por valorizar a diversidade (cultural e biológica) da espécie
também o maior desafio. humana e, sobretudo, pelo respeito profundo pela
Dignidade de cada ser humano, sabendo que esse processo
A acção educativa começa de dentro para fora (de mim valorativo começa no interior ético que existe dentro de
para os outros). Cabe ao educador cuidar da sua própria cada docente.
formação e investigar, avaliar, reflectir para agir em
consonância com as orientações apresentadas pelas OCEPE Reconheçamo-nos pois nas palavras sapientes de Sagan:
e documentos legislativos mas também em consonância “Somos uma espécie tão rara como ameaçada; cada um de
com os seus próprios valores; estando consciente que, nós, do ponto de vista cósmico, é precioso. Se um ser
mesmo partindo de si, terá sempre em vista o bem do humano discorda de vós, deixem-no viver. Nos cem mil
outro. milhões de galáxias não encontrarão outro igual.”

A análise efectuada aos vários documentos indica que a


educação para a cidadania e para a educação multicultural
Coimbra, 9 de Setembro de 2009
são temáticas frequentes. Já as questões para a ética e
deontologia parecem permanecer mais obscuras.

Tal facto parece de todo contraditório face à realidade


desta profissão que, com as suas especificidades, assume
uma dimensão ética tão preeminente.

A autora considera que estas questões deveriam situar-se


na nervura central da formação do educador de infância e
não no limbo18.

18 Veja-se o exemplo concreto da nossa escola onde a disciplina


de Deontologia Profissional é opcional.
2

BIBLIOGRAFIA

Referências literárias:

COELHO, Ana Maria Sarmento - Educação e cuidados em creche:


conceptualizações de um grupo de educadoras (2004) Tese de
Doutoramento sob orientação da Prof. Doutora Gabriela Correia de
Castro Portugal . Aveiro : A. Coelho.

CRAVEIRO, CLARA; Formosinho, João. Orientações curriculares para a


educação pré-escolar e identidade profissional dos educadores de
infância. Saber e educar. N.º 7 , p. 9-27, 2002.

Código de conduta ética da Associação Nacional para a educação de


Crianças Pequenas (NAYEC), in Cadernos d Educação de infância, n.º p.
52,33-35, 1999.

GOULD, Stephen Jay. Full House, A difusão da Excelência de Platão a


Darwin (2000). 1.ª ed. Lisboa: Gradiva.

PORTUGAL. Ministério da Educação. Departamento da Educação Básica.


Núcleo de Educação Pré-Escolar (2002). Orientações Curriculares para a
Educação Pré-Escolar. 2ª ed. Lisboa: ME. DEB.

SAGAN, Carl. Cosmos. Lisboa: Gradiva.

Referências electrónicas (via Internet):


3

www.nayec.org
www.apei.pt
www.cidadania-educação.pt
www.aps.pt

Documentos legislativos:
Decreto-lei 240/2001. D.R. I Série - A. N.º 201 (30-08-2001)
Decreto-lei 241/ 2001. D.R. I Série - A. N.º 201 (30-08-2001)
Decreto-lei n.º 15/2007. D.R. 1.ª Série. N.º 14 (19-01-2007)
Lei n.º 5/97. D.R. I Série – A. N.º 34 (10-02-1997)
Lei n.º 46/86. D.R. I Série. N.º 237 (14-10-1986)

ANEXOS

- Carta de princípios dos associados da APEI para a tomada


de decisão eticamente situada, disponível em:

http://www.uma.pt/grmendes/index.php?
option=com_docman&task=doc_view&gid=79

- Código de conduta ética para a associação nacional para


a educação de crianças pequenas, disponível em:

http://208.118.177.216/about/positions/pdf/PSETH05.pdf
2

- Orientações curriculares para a educação pré-escolar,


disponível em:

http://www.oei.es/inicial/curriculum/orientacoes_portugal.pdf