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ic ‘BAKHIIN i CONCEITOS- CHAVE BETH BRAIT _ editorat REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS r Amon, M. O pesguisador e seu outro: Bakhtin nas Cigncias Humanas, Sio Paulo: Musa, Baxstin, M. La poétique de Dostotévski. Pais: Seuil, 1970. . Formes du temps et du chronotope. In: ____. Esthétique et théorie du Paris: Gallimard, 1978. « Les études littéraires aujourd’hui, In: . Exthétique de la creation Paris: Gallimard, 1984. A culeura popular na Idade Média e no Renascimento. © contexto de Francois Raby Sao Paulo: Hucitec, 1987. ___.. Bitétiea da eriagio verbal, S30 Paulo: Martins Fontes, 1992. Bratt, B. Estilo, In: ‘Tovorov, ‘T. Mikhail Bakbtine: le principe dialogique. Paris: Seuil, 1981 4 (org.). Bakhtin: conceitos-chave. Sao Paulo: Contexto, 2005. Dialogo Renata Coelho Marchezan ‘A vida [..J no afeta um enunciado de fora; ela penetra ¢ exerce influéncia num enunciado de dentro, enquanto unidade comunhao da cexisténcia que circunda os falantes ¢ unidade e comunhao de julgumen- tos de valor essencialmente sociais, nascendo deste todo sem 0 qual nenhum enunciado inteligivel é possivel. A enunciagio esté na fronteira entre a vida e 0 aspecto verbal do enunciado; ela, por assim dizer, bombeia energia de uma situacio da vida para o discurso verbal, ela dé a qualquer coisa lingiisticamente estavel o seu momento hist6rico vivo, © ‘seu carater tinico. Finalmente, o enunciado reflete a interagao social do falante, do ouvinte ¢ do herdi como 0 produto ¢ a fixagao, no material verbal, de um ato de comunicagio viva entre eles. (Waloshinov/Bakbtin) Do DIALOGO COMO CONCEITO Nos estudos do Circulo de Bakhtin, afirma-se a caracteristica dialégica da linguagem. Diante disso, é razoavel afirmar que, entre seus conceitos-chave, destaca-se 0 didlogo. Caberia, pois, aponté-lo e, em obra dedicada ao assunto, apresentar uma definigao do termo, quem sabe ja lida, ja ouvida? Talvez se consiga algo mais, depois de uma certa convivéncia com o conceito. Um bom comego ¢ introduzir aquela citagio ecedora, abriu caminhos ¢ que, assim, nos animou a explori- fossemos os primeiros: “Um didlogo no sistema de Bakhtin é um oriundo da expe- riéncia passfvel de servir de paradigma econémico para uma teoria que abarque dimensGes mais globais’.! Que a citagao seja ainda instigante! Nio para nos reter na discussao sobre a oportunidade do emprego dos termos “Sistema”, “paradigma”, e das vozes que repercutem, mas a fim de colocar- mos 0 foco na economia teérica sugerida e em sua produtividade. As “dimensGes mais globais”, a que se refere mais diretamente a citagao, dizem respeito 4 comunicacao, mas se pode manter a mesma proposi¢ao para o Ambito da linguagem — e considerar a mesma economia tedrica —, uma vez que a comunicacéo é a esséncia da linguagem na reflexio bakhtiniana, que considera ficcional? a Lingiifstica que abstrai a comunica- Ao, tanto a que o faz para ressaltar sua fungao expressiva, quanto a que renuncia a ela para conformar um objeto cientifico mais homogéneo. Assim, o didlogo interessa aos dois dominios de reflexao, tanto & comu- nicago quanto a linguagem, quando ¢ caso de distingui-los, tarefa ingrata, ho contexto bakhtiniano, em que h4 uma profusio de termos, e de suas tradugées, que se relacionam, se articulam. Nessa trama teédrica, é mais sensato ¢ fecundo selecionar um fio, impossivel outra escolha, ¢ segui-lo, na tentativa de obter uma amostra relevante. E no Ambito da linguagem que insistimos, na afirmacao de seu cardter dialégico, que aponta para a consideragio do diélogo como uma boa amostra, um conceito-fonte irradiador e organizador da reflexao — como nos confirma 0 trecho a seguir -, que, além de explicar porque celebra 0 didlogo, também ajuda a defini-lo como a alternancia entre enunciados, entre acabamentos, ou seja, entre sujeitos falantes, entre diferentes posicionamentos. O didlogo, por sua clareza ¢ simplicidade, é a forma cléssica da ‘comunicagio verbal. Cada réplica, por mais breve e fragmentéria {que seja, possui um acabamento especifico que expressa a posigo do locutor, sendo posstvel responder, sendo possivel tomar, com relagio a essa réplica, uma posigao responsiva. Bem apropriada a um contexto de crftica a abstracéo, & neutralidade, a forma clissica é também do rés-do-ch’o; uma terminologia nada complica- 116 ) até popular, que a obra bakhtiniana, como mostra a citagao, faz reviver, itivando o reconhecimento da reciprocidade entre 0 eu e 0 outro, presente m cada réplica, em cada enunciado, que compreende o verdadeiro didlo- {B0, 0 didlogo “real”, concreto, nao aquele que jé se fez letra morta, decorada ‘Mmecanicamente, repetida sem razdo, sem vontade. Didlogo e enunciado ‘si, assim, dois conceitos interdependentes.‘ O enunciado de um sujeito ppresenta-se de maneira acabada permitindo/provocando, como resposta, 0 enunciado do outro; a réplica, no entanto, é apenas relativamente acabada, parte que é de uma temporalidade mais extensa, de um didlogo social mais amplo e dinamico. Considerado dessa maneira o didlogo, nao é dificil acompanhar a ex- tensao do conceito para a linguagem em geral, para a pertinéncia do reco- nhecimento de seu carater dialégico, para o entendimento de que qualquer desempenho verbal é constitu{do numa relagio, numa alternancia de vozes. Nao é também dificil recortar uma citagao que estimule esse aproveitamen- to do conceito: O didlogo, no sentido estrito do rermo, nao constitui, é claro, sendo uma das formas, é verdade que das mais importantes, da interagio verbal. Mas pode-se compreender a palavra “diélogo” num sentido amplo, isto é, nfo apenas como a comunicagio em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicagéo verbal, de qualquer tipo que seja.’ DA CONVERSA DO COTIDIANO A OBRA ESCRITA E claro — e produtivo, conforme se quer enfatizar aqui — 0 convite a aplicagio do didlogo para a compreensio da linguagem verbal® como um todo, de modo a consideré-la sempre como um acontecimento en- tre sujeitos. Como € recorrente, e imprescindivel, nao somente nos estudos lingiifsticos, mas nas Ciéncias Humanas em geral, a reflexao bakhtiniana retine sujeito, tempo e espago — ¢ o didlogo o mostra de maneira modelar —, mas, diferente- mente de outras perspectivas, Ihes conserva ¢ releva a constituigao histérica, social e cultural, também explorada por meio do conceito de crondtopo. 7 A afirmagao a seguir, que, & primeira vista, parece contradizer as anterior» res, valoriza e acentua a diversidade dos didlogos, dos crondétopos que o§ motivam € em que ocorrem: [Lu] A relagao existente entre as réplicas de tal didlogo [o didlogo real (conversa comum, discussao cientifica, controvérsia politica, ete.)] oferece 0 aspecto externo mais evidente ¢ mais simples da relacio dialégica, Nao obstante, a relagio dialégica nao coincide de modo algum com a relagio existente entre as réplicas de um didlogo real, por ser mais extensa, mais variada e mais complexa. Dois enunciados, separados um do outro no espago ¢ no tempo € que nada sabem um do outro, revelam-se em relagio dialégica mediante uma confrontagio do sentido, desde que haja alguma convergéncia do sentido (ainda que seja algo insignificante em comum no tema, no ponto de vista, etc.).” Sem recuo ao convite, 0 reconhecimento das propriedades do didlogo permite apreender a linguagem viva, em ato, nao apenas para a afirmacao de sua base comum, para a necessétia identificacio de suas invariances — desde que sem desvios para a reificagéo —, mas também para a caracterizagao de seus diferentes modos de existéncia. Nao se considera, pois, um grande didlogo geral, sem feigdes, mas uma diversidade de didlogos, traduziveis em especificidades de estilo® e género, que os particularizam ¢ localizam em pré- ticas sociais cotidianas ¢ em esferas de atividade mais sistematizadas. Dos DIALOGOS AOS GENEROS Entende-se que os didlogos sociais nao se repetem de maneira absoluta, mas nao sao completamente novos, reiteram marcas histéricas € sociais, que caracterizam uma dada cultura, uma dada sociedade. Por meio do con- ceito de género, apreende-se a relativa estabilidade dos didlogos sociais, ou seja, assimilam-se as formas pregnantes que manifestam as razoabilidades (¢ também a constitui¢ao) do contexto sécio-histérico e cultural. Assim se configura o desafio a que se propée responder com a nogao de género: aprender a reiteragao na diversidade, organizar a multiplicidade buscando © comum, sem cair em abstragdes dessoradas de vida. Longe disso, ¢ a prépria dinamica ¢ heterogeneidade social que podem explicar os géneros. 8 Nessa inter-relagiio entre eonceitos, assinalamos o didlogo, agora em. telagio com o género, como o conceito fomentador e organizador da lexio, como a unidade de base necessdria e primordial, requerida por itin,” para a classificagao dos géneros. Muitas vezes aproveitado fora do nbito da reflexao dialdgica, o préprio conceito de género é, antes, caracte- com base no didlogo. A distingao entre género primdrio ¢ género uunddrio — que, emprestada a outros dominios, pode ser considerada pouco ypecifica ou operacional — retoma, respectivamente, as duas maneiras de se nsiderar o didlogo, a que jd fizemos men¢io: em stricto sensu, o didlogo stidiano, espontaneo, e, com base nele, o didlogo mais extenso e complexo ie constitui todo e qualquer enunciado. A atencao dedicada ao romance’ nao encobre a importancia também nferida ao género primério, inclusive para o estudo do préprio romance, ujas caracter(sticas prosaicas, o tom nfo elevado, o aproximam da lingua- em comum e, defende Bakhtin, o deixam 4 margem da classificagao cl4s- ica dos géneros, sem existéncia oficial.'" O didlogo nao é, assim, tao-somente uma metéfora! na reflexdo, resulta- lo da transferéncia de um termo de um dominio semantico a outro que, nao endo o seu habitual, nele se destaca e atua. Trata-se de considerar, conjunta- ente, os didlogos no sentido mais estrito do termo e os didlogos no sentido plo de condicao dialégica da linguagem. Os didlogos que experimentamos nsfvel e concretamente, no dia-a-dia, so assimilados por géneros mais com- jlexos, os secundarios, que se desenvolvem mediante uma alternancia dife- nte entre sujeitos, nao imediata ou espontinea, menos evidente. Nestes éneros, os didlogos sao mais fortemente estabilizados, institucionalizados, ‘mas continuam a receber dos didlogos cotidianos, mais permedveis a mudan- {gas sociais, 0 alimento de mudanga e transformagao. Base, entao, da constituigao e da dinamica dos outros géneros, os didlo- gos do cotidiano, os géneros primarios, constituem o cerne da linguagem. Proposigao que se desenvolve no estudo sobre o romance — tanto no exame da complexa dialogizacao das falas dos herdis em Dostoiévski, quanto na andlise da incorporagao da linguagem popular em Rabelais —, e também na reflexiio sobre a producio artistica de um modo geral, como mostra, j4 pelo titulo, a aproximacao entre Discurso na vida e discurso na arte: sobre pottica sociolégica, em que se examinam os “enunciados da fala da vida e das ages 119 — cotidianas, porque em val fala jd estiio et da forma artistica”."? aeRO Segundo o estudo, hé entre os participantes do didlogo, tanto na vida quanto na arte, uma parte que nao é explicitada, uma parte presumida, que compreende valores comuns para os membros de uma dada sociedade, Este é 0 mote da reflexao. O didlogo na vida cotidiana nao verbaliza o que é presumido pelo evento que o integra: por exemplo, o horizonte comum dos falantes, sua gestualidade, sua entoagao. Também nao reafirma os valo- nes sociais consentidos: “Um julgamento de valor social que tenha forga pertence A propria vida e desta posigao organiza a prépria forma de um ‘enunciado e sua entoacio; mas de modo algum tem necessidade de encon- rar uma express4o apropriada no contetido do discurso”." A significagio do didlogo depende diretamente da situagio, que, assim, pode-se dizer, tam- bém o constitu. Essa fntima dependéncia expée claramente a natureza so- cial do didlogo cotidiano, e se mostra exemplar para o entendimento da linguagem como um todo, af inclufda a linguagem artistica. E. por esse caminho, ou seja, a partir da reflexao sobre o didlogo primario, especifican- do-lhe as rafzes embrenhadas na sociedade, que 0 estudo caracteriza a obra de arte ¢ responde & proposigio da autonomia da obra de arte. A considera- 40 da arte sem seus lagos sociais, fora da vida, é 0 fundamento de duas abordagens da arte, ambas identificadas e criticadas pelo estudo: a que re- duz a obra a um objeto, convertendo-a em um artefato e, até, em um fetiche; e a que define a obra como expresso de uma individualidade do autor ou do contemplador.'* Do DIALOGO DO COTIDIANO A OBRA DE ARTE. Do GENERO PRIMARIO AO GENERO SECUNDARIO. - Do EXEMPLAR A PARTICULAR RELAGAO ENTRE A OBRA DE ARTE E A SOCIEDADE O exemplar nao é, obviamente, assimilado tal qual pelos géneros artis- ticos. A dependéncia destes em relagio a situagao social em que so produ- ridos é relativa, Nao & a mesma que caracteriza os didlogos do cotidiano € também nao é a mesma que configura os enunciados de outras esferas da 120 ente submetidas a injungées, réplicas e ra- Blptosds, cientificas. O que é pressuposto socialmente, o j4-conhecido, o j4-admitido, nao é petido diretamente no contetido da obra de arte, nao é reproduzido em Ja tematica; é, sim, incorporado em sua forma artistica, que “libera o ntetido de suas amarras com a ciéncia ¢ com a ética e permite que o tor-criador se torne um elemento constitutive da forma’." A negacao da ftonomia da arte, o estudo nfo vincula, portanto, uma rejeicao da forma; nfatiza, a0 contrério, sua importancia para a consideragao da estética. Nao trata, porém, da forma do material, nem da forma dessubstancializada, as da forma forjada pelo trabalho social, pelos valores da época af inclu- {dos os juizos estéticos -, modulada pela entoagio, pela inflexao das vozes, Cujo exame revela significados, posicionamentos sociais: Quando uma pessoa entoa e gesticula, ela assume uma posigio social ativa com respeito a certos valores especificos ¢ esta posicéo € condicionada pelas préprias bases de sua existéncia social. E pre- cisamente este aspecto objetivo e sociolégico da entoagio ¢ do _gesto — € nao 0 subjetivo ou psicolégico — que deveria interessar os te6ricos das diferentes artes, uma vez que é aqui que residem as forcas da arte responséveis pela criatividade estética e que criam ¢ onganizam a forma artistica."” O estudo argumenta que a tarefa do estudioso da arte seria compreen- der o didlogo especial que ela realiza e de que participam 0 autor, o heréi, o contemplador. No trabalho dedicado a Dostoiévski, Bakhtin critica, j4 no inicio, os estudos que desconsideram a forma artistica, a arquiteténica das obras, tanto os conteudfsticos, que se aplicam a discussao apaixonada dos contetidos filosdficos expostos pelos herdis, convertidos, entio, em filésofos auténomos; quanto os de cunho psicolégico, que procuram lo- calizar as diferentes vozes dos herdis no universo tinico da consciéncia do autor. Ambas sao perspectivas monolégicas, pois ou promovem um mo- nélogo filoséfico ou tragam um psiquismo uno e tinico. As crfticas ilumi- nam a andlise (e vice-versa, certamente), que depreende das obras de Dostoiéyski uma forma artistica inovadora configurada pela polifonia: uma multiplicidade de consciéncias eq com quem 0 autor dialoga. ipolentes ¢ imisctveis dos herdis, 121 A arquitetnica artistica denota valores sociais, posicionamentos pro- movidos pela vida social e em resposta a ela. Para Bakhtin, no caso das obras de Dostoiévski, a polifonia — a forma artistica produzida — manifesta uma Juta contra a coisificagao do homem: “Com imensa perspicacia, Dostoiévski conseguiu perceber a penetragao dessa desvalorizacao coisificante do ho- mem em todos os poros da vida de sua época e nos prdprios fundamentos do pensamento humano”."® Essa percepgao, esse posicionamento, nao € expresso 4 maneira de en- saio, manifesta-se no contetido, sim, e também na propria forma artistica, na configuracao dos herdis, na relagio de sua voz com a voz do autor, Segundo Bakhtin, Dostoiévski nao objetifica o herdi, “nao fala do herdi mas com o her6i”,” nao confere ao herdi uma existéncia prévia, acabada, una. E como se lhe fossem imputadas uma voz propria e, desse modo, uma existéncia independente do autor, uma autoconsciéncia dialogizada, que “em todos os seus momentos esté voltada para fora, dirige-se intensamente a si, a um outro, a um terceiro”.” O herdi, o homem, nao € objeto de teflexao, de representacao, é 0 “sujeito do apelo”." O didlogo é 0 fundamen- to dessa reflex4o, que continua: [...] Representar 0 homem interior como 0 entendia Dostoiévski 36 é possivel representando a comunicagio dele com um outro. Somente na comunicagio, na interaséo do homem com o homem revela-se 0 “homem no homem”, para outros ou pata si mesmo. Compreende-se perfeitamente que no centro do mundo artistico de Dostoiévski deve estar situado 0 didlogo, ¢ o didlogo nao como meio, mas como fim, Aqui o dislogo nfo ¢ limiar da ago mas a prépria agio. Tampouco ¢ um meio de revelagéo, de descobrimen- to do cardter como que acabado do homem. Nao, aqui 0 homem no apenas se revela exteriormente como se torna, pela primeira vez, aquilo que é, repetimos, nio s6 para os outros mas também, para si mesmo.” E desse modo que 0 escritor” se revela para Bakhtin e — no didlogo em tom entusiasmado com as obras de Dostoiévski, revela-se o proprio Bakhtin, o “homem no homem”, a palavra sobre a palavra — depreendem-se a arquitet6nica da reflexao bakhtiniana, 0 seu conceito de didlogo, que carac- teriza 0 falante como “sujeito do apelo”, da consciéncia dialogizada, consti- 122 tiniano, como reagao do eu ao outro, como “reacao da palavra a pala- de outrem”, como ponto de tensao entre 0 eu € 0 outro, entre circulos valores, entre forgas sociais. A essa perspectiva, interessa nao a palavra siva e solitéria, mas a palavra na atuagZo complexa ¢ heterogénea dos ujeitos sociais, vinculada a situagies, a falas passadas ¢ antecipadas. DAS FRONTEIRAS DO DIALOGO A despeito de sua complexidade e dinamicidade, e, como as formas da Iingua, também os didlogos, os modos de “reagio da palavra a palavra”, de transmissio da palavra de outrem, passam por processos de ramaticalizagéo, socialmente, reconhecidos, utilizados, obedecidos, re- ctiados. No aprendizado da escrita, as formas gramaticais consagradas a essa funcionalidade so logo ensinadas na representagao de didlogos. Com base nessas formas, identifica-se, por exemplo, na propaganda’ rrogacio, e uma resposta, que a atende: “Em 97, a Telebrés teve o me- or desempenho da sua historia. Entao por que privatizar? Para alguém idar da telefonia, enquanto o governo se dedica & satide e educagao”. Embaixo dos dizeres, ao modo de assinatura, de responsabilidade pelo texto, esto os logotipos da Telebrds, do Ministério das Comunicagées e do projeto Brasil em Agio. 123 07 A TELEBRAS EVE O MELHOR DESEMPENHO DA SUA HISTORIA. ENTAO POR QUE PRIVATIZAR? Para alguém cuidar da telefonia, enquanto 0 governo se dedica a satide e educacao. a ey rears ‘A obediéncia as regras formais nao é suficiente para caracterizar a se- giigncia como um didlogo da maneira que o considera a perspectiva bakhtiniana; trata-se, sim, de um didlogo retérico. Uma pergunta feita por quem tem, de antemfo, a resposta e a apresenta a setvico da afirmagio de um posicionamento; no caso, assumido pelo governo, em conjunto pelas trés assinaturas. O governo é 0 autor” do texto, mas fala de/por si mesmo em terceira pessoa —* “enquanto o governo [ele] se dedica & satide ¢ educa- ao” , como se, nao ele proprio, mas um outro Ihe conferisse a atribuicio. No contexto da propaganda, como um todo, esse texto-manchete ¢ reiterado, detalhado, exemplificado, ilustrado. O texto-manchete e as assi~ naturas mostram-se sobre um fundo amarelo, com uma moldura verde, que continua margeando a outra pagina, incluindo na composicao da pro- paganda uma cena que exemplifica, nas cores da bandeira brasileira, 0 aten- dimento & satide e A educacao: a foto de um menino sorridente, de unifors me, com uma bola, um brago quebrado, mas bem cuidado. Sobreposto na parte de baixo da imagem do estudante, um outro tex= to acrescenta informagées, detalha o “desempenho inyejdvel” da Telebras, © investimento recorde nos servicos brasileiros de telecomunicagées; ex _Didlogo RENATA COELHO MARCHEZAN forgos, ainda de acordo com o texto, insuficientes em face da demanda e das necessidades de modernizagao de um pafs que cresce a cada dia. Abai- xo, na margem, conclui-se, de maneira resumida: “Telebrds. Privatizar para acompanhar o Brasil”. O slogan da vez, parte do programa mais geral do governo da época, que poderia também ser sintetizado: “Privatizar € bom para o pais”. A propaganda participa do debate da época (que leitura farfamos se nao pudéssemos retomé-lo?). E uma resposta as vozes contrarias 4 privatizacao, que recrudesceram no caso de uma estatal nao-deficitéria, com bom de- sempenho. O texto publicitério apropria-se dessa reagao ¢ contra-argumenta. O posicionamento contrério a privatizagao ¢ 0 mote e estd explicitado na propria propaganda, mais particularmente no enunciado destacado, que compoe a pergunta anunciada, mas figura, ali, refutado pela tama do tex- to, regulado pelo contrapeso prometido: dedicagao & satide e & educagao. Rompem-se fronteiras, toma-se a outra voz, para domind-la em terreno proprio. O texto é bem arquitetado, mas, obviamente, isso nao lhe garante pleno éxito junto a seus interlocutores; pode provocar ecos de identifica Gao, sim, mas também de refutagao, hesitagao. Ecos, que continuam a soar, certamente de maneira menos intensa, nos ouvidos de hoje, ocupados tam- ém com outras manchetes, outros didlogos, outras conversas. DE CONVERSA EM CONVERSA _ Com direito a uma pequena chamada, a Folha de S.Paulo, de 9 de feve- iro de 2006, publica em pagina interna?” Furlan diz. que presidente nao bebe ha 40 dias Do enviado especial a Argel A dieta que levou Luiz Inacio Lula da Silva a perder 12 quilos em {quatro meses tem privado o presidente de mais uma coisa, além de massas ¢ doces: a bebida. Numa conversa informal ontem com jomnalistas, o ministro do Desenvolvimento, Luiz, Fernando Furlan, " afirmou que Lula esté abstémio hé cerca de 40 dis “No avilio agora, s6 Coca Light ¢ sorvete”, brincou o ministro, quando contava sobre como tina sido a viagem de nove horas no OO —— teen de Brasilia a Argel. “Ele vem seguindo & risea 0 regime dele, inclusive esté abstémio ha cerca de 40 dias”, disse. Nos tiltimos meses, o presidente esté feliz com os quilos a menos ¢ toca no assunto sempre que pode, com ministros e auxiliares. Na semana passada, disse ao ministro Antonio Palocci (Fazenda) que cle precisava emagrecer: “Como eu, que estou com corpinho de _toureiro espanol”, brincou. A nova inconfidéncia sobre esse ingrediente da dieta de Lula acon- tece menos de dois anos depois de uma das maiores polémicas da _ histéria do Brasil sobre seus Iideres ¢ bebidas. Em maio de 2004, 0 correspondente do New York Times no Rio de Jancito, Lary Rohter, publicou uma reportagem segundo a qual 0 pats estava “preocupado com o habito de beber” do presi- dente. Em reacdo, 0 governo chegou a cassar 0 visto de permanén- cia no pais do jornalista norte-americano, mas, apés a repercussio negativa do caso, recuou da decisio. [.] (PDt) O texto termina com comentirios sobre a dieta das proteinas do presi- te, os exercicios fisicos adotados ¢ a boa satide de que goza. O que nos interessa aqui, no entanto, além da satide do presidente, sao, no trecho acima, falas do ministro. Elas foram puxadas do evento em que foram confiadas. O préprio enunciado nos diz que se tratava de uma “conversa informal com jomnalistas”, c, conforme avalia, um momento de brincadeiras (“No avitio agora, s6 Coca Light e sorvete’, brincou o ministro [...]”). Entre os participantes de um didlogo informal, que se pode vincular aos chamadbs géneros intimos, so atenuadas as convengoes culturais ¢ é dis- pensada a atenco a hierarquias ¢ a diferentes papéis sociais, Desse relaxa- mento de regras ¢ coergoes sociais, derivam a descontragio, a confianca, a expectativa de boa vontade. No caso em andlise, recomposto com aspas, 0 didlogo informal é trans- posto em outro género, as palavras do ministro passam a limitar com os enunciados alhcios, que se pode atribuir a um jornalista (PDL, enviado espe- cial a Argel); perdem a relacao estreita, espontinea, que certamente tinham com 0 evento em que despertaram, ¢ com os outros enunciados que nstituiram. Ganham o status de noticia, que, por definigao do género, hem o relato de acontecimentos da atualidade ¢ de interesse ptiblico. privado ao piblico, um caminho explorado pela noticia. De conversa Os enunciados ora de seu acontecimento primério, espontineo, a face, em que, a qualquer indicio de resposta do interlocutor, podiam Esse terceiro participante nao é, conforme jé dissemos, aquele intimo, ituado face a face, quase em fusao com 0 locutor, e também nao se carac- iza da maneira mais ou menos homogénea ¢ seleta como se definem os tabelecidas e circunscritas.*! ‘Tiata-se de um auditério plural; o enunciado em anilise, no entanto, no parece considerd-lo desse modo, mas como uma coletividade homogénea, toda ela interessada nas confidéncias (inconfidéncias?) do ministro, divulgadas por jornalistas (inconfidentes?). O enunciado, portanto, nao antevé ou ndo se preocupa com eventuais reagdes diversificadas de seus interlocutores, uma yez que nao as prenuncia em forma de uma “dramaticidade”” interna. Sem pejo, sem conflito, dé como de interesse piblico e comum o que revela € como apropriado o tom brincalhao que emprega. A considerar-lhe um ptiblico plural, a noticia pode ter gerado respostas diversificadas: esquecimento, desinteresse, menosprezo, reprovagio, indig- nagio, identificacao, preocupagao em relacdo ao autor ¢/ou aos “herdis”. E ~ até zombaria, como a publicada no dia seguinte em trecho do Painel, espa- "co bem descontraido do mesmo jornal, que também interpreta o semblante do ministro, como uma possivel resposta ao que fora divulgado: Ressaca brava Senador governista comenta declaragéo do ministro do Desenvol- vimento: “O presidente esta sem beber, mas o Furlan parece ter inaugurado o bar do Aerolula”. Chateado com a repercussio de D7 suas palavras sobre a abstingncia presidencial, Furlan passou o dia de cara amarrada.” i A fala informal e sua entoago — que transpostas para géneros formais, oficiais, tradicionais, desencadeiam um processo renovador e destruidor —"' configuram, em nosso tempo, os prdprios géneros do jornalismo institu: cional. A quebra das hicrarquias, das formalidades, das barreiras — também as definigdes de certo ¢ errado, de verdadeiro e falso -, nao é, obviamente, absoluta, mas relativa 4 vida social, de um modo geral, e & esfera do jorna- lismo, em particular. Sua apreciagao depende também do assunto em pau- ta, scu espaco de divulgacao suas circunstancias. A noticia, de carona com o ministro, traz de volta as paginas do jornal a reportagem de Larry Rohter, baseada na qual qualifica as falas do ministro como uma “nova inconfidéncia”. Obedecendo as regras do género, sem nomear-se, mas, evidenciando-se por meio de modalizagdes, 0 autor da noticia relembra os desdobramentos polémicos da reportagem e Ihes confe- re cardter histérico. Quer fornecer, assim, importancia, motivo e ocasiao para ativar nova (semelhante) contenda, em que, entretanto, nao dé a sua cara a bater, e sim a do ministro. Do DIALOGO NA VIDA AO DIALOGO NA TEORIA Das fronteiras do didlogo, de conversa em conversa, 0 didlogo, algado a conceito paradigmitico, revela, na relagdo que mantém com outros conceitos, a “coeréncia” da reflexdo bakhtiniana, néo sem razo designada “dialogismo”. O didlogo fundamenta ¢ também instru a consideracao da linguagem m ato, que constitui ¢ movimenta a vida social, que surge como réplica social ¢ contra a réplica que consegue antever. Guarda em relacao & lingua- gem, assim entendida, estreita “adequacio”. Da vida a teoria, o didlogo, de maneira recursiva, ¢ identificado na acio entre interlocutores, entre autor e leitor, entre autor ¢ herdi, entre herdis, entre diferentes sujeitos sociais, que, em espacos ¢ tempos diversos, tomam a palavra ou tém a palavra re- presentada, ressignificada, O ponto de vista dialégico nao cria um objeto ideal, de sujeito ausente, a ser tratado a distancia; orienta, antes, o estudioso a participar do jogo, a 128 , COMO Yozes a Compreender, com as quais ¢ » ele também, a um outro ausente, reificado. npreender as re vivas de que surge e em ae atua, de vivencid-las, , depois — de volta ao seu cronétopo, ao presente e as fronteiras da lexio tedrica, sem confundir seus posicionamentos ¢ a especificidade de atividade ~, examinar 0 texto de fora, com a visio de um todo.** O didlogo instrui a perspectiva de andlise, ao mesmo tempo que nomeia proprio “objeto” e, a despeito de outras reverberagdes semanticas — de que e tenta proteger a metalinguagem mais abstrata ¢ arbitrdria —, auxilia o estu- ioso da linguagem, que também o experimenta na vida, a contornar 0 ismo entre a teoria ¢ a vida.” O emprego dos termos “teoria” e “concei- )”, no contexto bakhtiniano, solicita esse esforco. Notas Clark; Holquist, 1998, p. 238. Bakhtin, 1997, p. 290. ‘dem, p. 294. Em inglés: “Because of its simplicity and clarity, dialogue is a classic form of speech communication. Each rejoinder, regardless of how brief and abrupt, has a specific quality of completion that expresses a particular position of the speaker, to which one may respond or may. assume, with respect to it, a responsive position.” (Bakhtin, 1986, p. 72). ‘De que este texto nao esquece, apenas privilegia o conceito de didlogo como fio condutor de sua reflexao. Bakhtin, Voloshinov, 1979, p. 109. Em inglés: “Dialogue, in the narrow sense of the word, is, of course, only one of the forms ~ a very important form, to be sure — of verbal interaction. But dialogue can also be understood in a broader sense, meaning not only direct, face-to-face, vocalized verbal communication between persons, but also verbal communication of any type whatsoever.” (Voloshinov, 1986, p. 95). E, embora se trate principalmente da linguagem verbal, as linguagens no-verbais também sio acolhidas nas reflexdes. 7 Bakhtin, 1997, p. 354. * Sobre estilo, de que nao se trata aqui, ver Brait (2005). * Bakhtin, 197, p. 284 0 romance em seu todo é um enunciado, da mesma forma que a réplica do didlogo cotidiano ou a carta pessoal (sao fenémenos da mesma natureza); 0 que diferencia o romance ¢ ser um enun- ciado secundirio (complexo).” (Idem, p. 281). "Nos dominios estabelecidos pela grande liveratura clissica ~ em que os diferentes géneros se completam organicamente ~, nao hé lugar para receber 0 insurgente romance (Bakhtin, 1988). 129 Bost i be aoneltin (9 entos que configura, respectivamente, os chamados objetivismo abstrato e subjetivismo 1988, p. 61. jov, Bakhtin, 2001, p. 10. Bion, J. L. As asticias da enuncic Folha de S.Paulo, 9 € 10 fev. 2006. jovquist, M. Dialagism: Bakhtin and his world. 2. ed. Routledge: London, 2002. Veja, Sio Paulo, 29 abr. 1998. Votosuinov, V.N. 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