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Apresentação

E ste é o seu livro de História do Brasil. Nele,


você encontrará os textos que serviram de base para os programas de TV.

Como aproveitar ao máximo este livro?

A primeira coisa que as pessoas que gostam dos livros fazem quando
compram um é folheá-lo sem pressa, sem maiores compromissos.

Sugerimos que você faça isso. Passe os olhos nele despretensiosamente.


Veja como as aulas estão organizadas.

Já nesse primeiro contato, você perceberá que as aulas seguem um


determinado modelo. Todas elas são divididas em seções. Há também algumas
interrupções no texto.

Vejamos o que significa cada uma das seções e o porquê dessas interrupções.

Cada aula é dividida em três seções.

l Na primeira seção, Abertura


Abertura, está enunciado o tema da aula. Muitas
vezes, um documento de época abre essa seção. Leia com atenção esse
documento. Nele estão contidas as questões que serão desenvolvidas no
decorrer da aula. Outras vezes, as aulas começam contando um determinado
caso que se relaciona, de alguma forma, com o tema da aula.

l Na segunda seção, Movimento


Movimento, o tema da aula é desenvolvido. Ali
aparecem os agentes sociais em ação, em movimento. O texto, em geral,
é dividido em três ou quatro itens. Em cada um deles, procura-se explorar
um determinado aspecto do tema. É também nessa seção que o texto sofre
algumas interrupções
interrupções, que têm por objetivo levar você a pensar sobre um
determinado assunto relacionado ao tema da aula:

® Em cada Pausa
Pausa, você encontrará um exercício-desafio para responder.
Consulte seus colegas e companheiros. Comente e discuta suas respostas.
Como diz o ditado, “duas cabeças pensam melhor que uma”...
® Em cada Em Tempo
Tempo, procuramos acrescentar alguma informação que
seja importante para o entendimento do texto. Por exemplo: dados
numéricos, trechos de documentos históricos significativos e assim por
diante.

l Com a terceira seção, Últimas Palavras


Palavras, finalizamos o texto e levamos
você para o tema da próxima aula.

Você vai reparar também que em todas as aulas há algum tipo de


ilustração: mapas, desenhos, fotografias. Todo esse material também
é importante para o seu estudo. Às vezes, uma boa imagem vale por muitas
palavras.

Queremos que você fique atento à interação entre texto e ilustrações.


Há algumas ilustrações que são importantes documentos de uma determinada
época.

É preciso que você as explore em seus mínimos detalhes. Perceba a época


em que a ilustração foi produzida, e guarde na memória o seu autor. Essas
ilustrações são patrimônios da nossa cultura. Cuidar delas e valorizar seus
autores é preservar nosso patrimônio.

Finalizado esse contato inicial com o seu livro, esperamos que você faça
muito bom proveito dele. Aceitamos, de bom grado, críticas, elogios e sugestões.

Os autores

REALIZAÇÃO - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea


do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas.

COORDENAÇÃO GERAL DO PROJETO - Helena Bomeny

CONCEPÇÃO E SUPERVISÃO - Aline Lopes de Lacerda, Américo Freire,


Helena Bomeny, Marly Silva da Motta, Mônica Almeida Kornis

AUTORES DO VOLUME 1 - Américo Freire, Helena Bomeny, Marly Silva da Motta

AUTORES DO VOLUME 2 - Alexandra de Mello e Silva, Alzira Alves de Abreu,


Américo Freire, Celso Castro, Dulce Pandolfi,
Fernando Lattman-Weltman, Letícia Pinheiro,
Marieta de Moraes Ferreira, Mário Grynszpan,
Mônica Almeida Kornis, Mônica Velloso

EDIÇÃO DO TEXTO ORIGINAL: Dora Rocha


A UA UL L AA

19
19
MÓDULO 6
Coronelismo
e mundo rural

Nesta aula A primeira República foi chamada de Repú-


blica dos Fazendeiros ou República dos Coronéis . Coronéis como os pode-
rosos chefes regionais das telenovelas, a exemplo de Ramiro Bastos (Gabriela),
Odorico Paraguaçu (O Bem-Amado) ou Sinhozinho Malta (Roque Santeiro).
Tais figuras disputavam permanentemente o poder, entrando em conflito
com os velhos e poderosos chefes políticos da região e a quase sempre jovem
oposição.
Essas personagens foram e ainda são, em certas regiões (mesmo que de
forma pouco expressiva), figuras presentes na vida social brasileira deste século
e nos ajudam a entender um pouco mais as características de nossa vida política.
Nesta aula, vamos procurar responder à seguinte questão: por que era tão
forte o poder dos coronéis ?

Da Monarquia à República

O poder político das oligarquias estaduais tornou-se uma das principais


características das primeiras décadas republicanas.
Como parte integrante dessas oligarquias estavam os coronéis, que se
originaram na época do Império. Em 1831, para enfrentar as diversas rebeliões
que explodiam em algumas regiões do país e manter a ordem pública, o governo
da Regência criou a Guarda Nacional . No combate à onda de revoltas, deu aos
poderosos de cada localidade do país uma patente militar e uma missão: formar
um “exército” de homens para enfrentar os revoltosos. Seus oficiais eram os
fazendeiros, pessoas influentes, com muitas terras e escravos.
Os coronéis da Guarda Nacional, extinta em 1918, continuaram com essa
denominação - o “coroné” - atribuída espontaneamente pela população àquele
que parecia deter em suas mãos grande parcela do poder político e econômico.
Em outras palavras, aqueles que a polulação via como os ricos e poderosos.
Se as raízes do coronelismo foram sedimentadas no Império, com a Repú-
blica o coronel passou a ter outro papel dentro do novo sistema político.
No Império, as eleições tinham muito pouca importância. O Imperador, ao
escolher o partido político que comporia o gabinete, decidia também que grupo
local venceria as eleições. Na Primeira República, era o controle político do
eleitorado rural que definia a composição e a força das oligarquias estaduais .
O voto passava a ter um novo significado.
Durante a Primeira República (1889 - 1930), o poder dos coronéis esteve A U L A
associado à força eleitoral que eles desempenhavam. Alcançou seu auge de
influência no período que se estende da presidência de Campos Sales às
vésperas da Revolução de 1930. 19

O presidente
Campos Sales
governou com
muita oposição à
sua política
econômica.

Coronelismo: compromisso político e relações sociais

O coronel nem sempre era um grande fazendeiro. Havia os coronéis cuja


base de poder estava nas atividades comerciais, industriais e até no exercício de
algumas profissões liberais.. Mas era, antes de tudo, um chefe político de
reconhecido poder econômico e prestígio junto ao governo estadual, poder esse
que se reveleva na competência para garantir eleições favoráveis aos grupos
situacionistas e fornecer benefícios à sua clientela. Da parte do governo estadual,
cabia dar carta branca ao chefe local governista em todos os assuntos relativos
ao município, inclusive na nomeação de funcionários estaduais do local.
Para ganhar eleições, era preciso ter votos. Surgiram assim os “cabos”
eleitorais, homens que, na condição de intermediários entre o coronel e a
população, eram pagos para alistar eleitores, organizar a massa, mantendo-se
em forma para os pleitos. Tinham o papel de formar um grande “curral”
eleitoral, no qual os candidatos do coronel ou por ele indicados recebiam uma
enxurrada de votos.
Vistos pela própria população como intermediários nas suas relações com
o Estado, os coronéis buscavam uma relação firme e segura como seus protetores
por intermédio da obtenção de empregos, contratação de advogados, providên-
cias médicas ou hospitalares, escolas, socorro nas situações de calamidade (a
exemplo das secas no Nordeste) e proteção contra os inimigos (como os
cangaceiros). Em geral, eram convocados para resolver questões diversas
referentes a limites de propriedades, heranças, pagamentos atrasados, educação
de crianças. Tinham ainda considerável influência na indicação de seus protegi-
dos para cargos públicos, principalmente na esfera municipal.
Era nesse campo que se estabeleciam as relações sociais que teceram o
cotidiano na vida do coronel e da gente das pequenas cidades, em diversas
regiões rurais do Brasil.
A U L A O Brasil da Primeira República − ou República Velha, como seria denomina-
da após 1930 − não era apenas a terra dos coronéis e das oligarquias estaduais.

19 O mundo rural, era também um mundo dos homens e das mulheres de mãos
marcadas pela enxada, pelo machado, pela foice e pelo laço de couro: trabalha-
dores das estâncias do sul, que cuidavam do rebanho, cultivavam o trigo e as
vinhas; lavradores de cafezais, das plantações de cacau e tabaco; volantes dos
seringais e castanheiras do norte; boiadeiros do sertão; lavradores dos canaviais
nordestinos, entre outros.
Muitos eram trabalhadores rurais, sem legislação previdenciária e obriga-
dos a entregar ao proprietário quase a totalidade do fruto do seu trabalho. Junto
a eles, compunham o cenário social pequenos proprietários das zonas rurais e
habitantes das pequenas cidades de fisionomia basicamente rural. Esse povo
formava a maior parte do eleitorado.
Sob o aspecto político, o coronelismo pode ser definido como um sistema de
troca eleitoral − de um lado, proteção e favores, sobretudo econômicos; de outro,
o voto seguro e controlado. Era o “voto de cabresto”.
Porém, esse caráter pacífico das relações coronelísticas não era o único. Além
da barganha, da troca, havia a opressão e a violência, utilizados para captar e
conservar votos, tão empregados e usuais quanto os favores e benefícios.
Em algumas situações, a força das armas era acionada, empregando-se as
polícias particulares formadas por jagunços. Amparados pela autoridade do
coronel, encarregavam-se de “convencer” os eleitores “contrários” ou “indeci-
Clavinote: sos”. Eram as chamadas eleições de clavinote , nas quais os eleitores votavam
pequena carabina sob as vistas do jagunço. Afinal, o voto não era secreto.
Assim, o novo regime, instaurado em 1889 e organizado politicamente na
Constituição de 1891, ao mesmo tempo que permitiu a criação de mecanismos
que favoreceram uma maior descentralização do poder, não favoreceu a criação
de um sistema eleitoral sem vícios e controlado pelo poder público. O voto dos
eleitores − transformado em mercadoria de troca entre os membros da sociedade
daquela época − era manipulado e controlado pelos chefes da política nos
estados e municípios. Essa foi, sem dúvida, uma das marcas da vida política e
social na Primeira República, uma “república de coronéis”.

O tempo Os coronéis, freqüentemente vistos de maneira caricatural como fazendei-


não pára ros, figuras rústicas, brutais e ignorantes, foram personagens da vida política
brasileira que não desapareceram por completo após os anos 30. Muitos
sobrevivem ainda hoje, mesmo que como figuras isoladas.

6
Relendo o texto Exercícios
A U L A

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade. 19
1. Releia D a M o n a r q u i a à R e p ú b l i c a e identifique a origem do termo
“coronel”.

2. Releia Coronelismo: compromisso político e relações sociais e identi-


fique no texto as formas que os coronéis encontraram para se afirmar como
protetores da população.

3. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Leia este texto com muita atenção.

Eleições na Roça
Mário Palmério - Vila dos Confins

João Soares estava com a razão: política só se ganha com muito


dinheiro. A começar com o alistamento, que é trabalhoso e caro:
tem-se que ir atrás do eleitor, convencê-los a se alistarem e
ensinar tudo, até a copiar o requerimento. Cabo de enxada engros-
sa as mãos − o laço de couro cru, machado e foice também. Caneta
e lápis são ferramentas muito delicadas.
A lida é outra: labuta pesada, de sol a sol, nos campos e nos
currais. É marcar o bezerro, é curar bicheira, é rachar pau de
cerca, é esticar arame farpado; roçar invernada, arar o chão,
capinar, colher... E quem perdeu tempo com leitura, com a escrita,
em menino, acaba logo esquecendo-se do pouco que aprendeu. Ler
o quê? Escrever o quê? Mas agora é preciso: a eleição vem aí, e o
título de eleitor rende a estima do patrão, a gente vira pessoa.
Acontece, também, que Pé-de-Meia não quer saber de históri-
as: é cabo eleitoral alistador de gente, pago por cabeça e tem que
mostrar trabalho. Primeiro, a conversa pacienciosa, amaciando
terreno; a luta depois:
“Minha vista anda que é uma barbaridade. E de uns tempos
para cá, apanhei uma tremedeira que a mão não me pára demais
quieta...”
O novato sua, desiste: “Vai não, Pé-de-Meia”.
Mas o cabo é jeitoso: não força, não insiste, espera. Só o tempo
de passar a gastura que a caneta sempre dá no principiante. “Tão
fácil...” O requerimento já está pronto, rascunhado no papel
almaço a lápis fininho, fácil de apagar” João Francisco de Olivei-
ra, abaixo-assinado, brasileiro, residente...”
Depois do jantar, menos cansado, João Francisco tenta de
novo. A mulher está perto, os filhos também. O roceiro lavou as
mãos, a lamparina queima a claridade dobrada, de bom pavio novo.
A U L A Repega o servicinho:
“Sai da frente da luz, menino: Me dá um copo d’água, ô Cota.

19 Qual... minha vista não presta mesmo mais não. Besteira teimar...” Pé-
de-Meia não deixa passar o momento:
“Me dá licença, Seu João.” E pega no mãozão cascudo, pesado. Vai
guiando a bicha para cima e para baixo, vai caminhando com ela por
sobre o papel; (...) “Já varamos um bom eito. Vamos descansar um
pouco: ainda falta o Francisco, falta o ‘de Oliveira’...”
O trabalho não é fácil, não senhor, leva tempo. Mas aos poucos João
Francisco aprende a relaxar a mão, descobre que não carece de fazer
tanta força, já não molha de suor o papel. (...) E, quando o caboclo é ruim
de ensino, Pé-de-Meia é quem enche todo papel, borrando-o de propósi-
to, errando de velhaco, completando um perfeito e indiscutível requeri-
mento de eleitor de roça. Mas quando o caboclo é jeitoso como João
Francisco, Pé-de-Meia prefere carregar-lhe a mão durante o serviço
todo (...).
A pena ringe alto, mais risca bem grosso, bonito... Pelo meio do
caminho, já dono de si, João Francisco acha até de conversar, para
mostrar desembaraço.
“Este é o que é o tal de ‘gê’? Gostei dele: uma simpatia de letra.” E
Pé-de-Meia, solícito: “Pois está ficando um serviço de gente, Seu João.
O senhor até que tem jeito − um letraço! O juiz vai gostar”.
João Soares estava com a razão. Eleição custa dinheiro. Um cabo
eleitoral prático assim como o Pé-de-Meia garantia o serviço, mas
cobrava vinte mil réis por cabeça. E as despesas não ficavam só nisso:
precisa fazer o registro dos eleitores, buscar a certidão de nascimento ou
de casamento fora do município quando o caboclo nasceu fora, entrega
dos títulos. Lá se vai um dinheirão! Depois bóia o pagode. E condução
para muita gente, pois roceiro, quando viaja carrega família toda. A fila
em frente do juiz se reveza, e isso custa mais um ajutório ao Pé-de-Meia,
cuja presença o eleitor exige para assisti-lo na hora de passar o recibo.
Lá está ele, botando coragem no povo.
“Não se afobe, capriche. Você está implicando à toa com o ‘efe’ − a
letra é facinha. Se não decorou direito a voltinha, deixa: o juiz não
repara não...”

Agora faça o que é pedido abaixo.

1. Sublinhe no texto as tarefas que cabiam ao cabo eleitoral Pé-de-Meia.

2. Substitua a expressão em destaque nesta frase por outra que tenha o mesmo
significado: “a eleição vem aí, e o título de eleitor rende a estima do patrão,
a gente vira pessoa ” .

3. As eleições, hoje no Brasil, são muito diferentes daquelas de Eleições na


R o ç a ? Justifique sua resposta.

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AUU
A L AL A

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MÓDULO 6
Expansão cafeeira e
modernização

D urante o Segundo Reinado (1840-1889), o


que sustentava o Império brasileiro era outro “império”: o do café. Veio a
Nesta aula
República e o “rei café” permaneceu, agora como a semente do progresso.
O café trouxe máquinas modernas, indústrias, bancos, ferrovias, grandes
negócios, mas sobretudo divisas, na condição de principal produto de exporta-
ção do país. Ao terminar o século XIX, o Brasil controlava o mercado cafeeiro
mundial. O café era o símbolo do país no exterior. É sobre esse tema que iremos
tratar nesta aula, a partir da seguinte pergunta: qual a importância do café para
a economia brasileira na Primeira República?

A expansão cafeeira

Percorrendo o trajeto do Rio de Janeiro até São Paulo, em 1822, o botânico


francês Auguste de Saint-Hilaire constatou a penetração da lavoura cafeeira no
vale do rio Paraíba . A nova cultura, que recobria os arredores da cidade do Rio
de Janeiro desde o final do século XVIII, começava a avançar pelo território
fluminense e paulista.
Entre 1830 e 1870, a região do vale do Paraíba fluminense e paulista foi a
grande produtora de café no Brasil. No Rio de Janeiro, Vassouras era uma das
cidades cafeeiras mais importantes.
Penetrando pelo vale do Paraíba, a onda verde dos cafezais chegou ao oeste
paulista e à Zona da Mata de Minas Gerais. A partir de 1870, o processo de
expansão da lavoura cafeeira ganhou um poderoso impulso e transformou essas
áreas no centro dinâmico da economia brasileira. Ao mesmo tempo, ocorreu um
processo inverso de decadência na produção de café no vale do Paraíba.
As razões desse declínio foram, principalmente, a escassez de terras pró-
prias para o cultivo, o esgotamento das reservas naturais por um sistema de
exploração descuidado e os métodos de desmatamento sem limites. A cultura do
café, predatória e intinerante, foi assim avançando, com os fazendeiros prosse-
guindo na derrubada de imensas florestas virgens, ricas em madeiras.
Inicialmente o transporte do café, como os demais produtos agrícolas do
país, era feito em lombo de burro. As despesas com o transporte das tropas, por
caminhos cada vez mais distantes, exigiu a introdução das ferrovias. Assim, a
expansão cafeeira deu origem a profundas transformações nos transportes, com
a implantação das primeiras estradas de ferro.
A U L A

20

Durante
muito tempo,
o café − como
produto de
exportação −
serviu de apoio
à economia
brasileira.

Em São Paulo e Minas Gerais, as ferrovias anunciavam a fronteira verde.


Junto delas surgiam cidades.
A expansão cafeeira resultou, portanto, na ampliação das plantações e na
multiplicação dos municípios. No estado de São Paulo, apenas na última década
do século XIX, foram criados 41 municípios, em regiões de povoamento recente.
Para garantir trabalhadores para essa expansão acelerada, a solução encon-
trada pelos cafeicultores paulistas foi contar com o governo para incentivar a
vinda de imigrantes para o trabalho nos cafezais da região. O estado de São
Paulo, e depois o próprio governo da União, tendo em vista a supremacia dos
interesses da cafeicultura paulista, financiavam a passagem de famílias de
imigrantes (especialmente italianos) para o Brasil, sua hospedagem e a viagem
que precisavam fazer em território brasileiro. Já no início do século XX, também
famílias japonesas viriam em grande número para a lavoura cafeeira da região.
Em São Paulo, o sistema de trabalho adotado nos cafezais foi o colonato .
Compreendia uma remuneração fixa para a família de colonos pelo trato de um
determinado número de cafezais. E essa remuneração variava de acordo com o
número de pés de café colhidos e o direito ao plantio de uma roça e à criação de
pequenos animais dentro da propriedade cafeeira.
Já a expansão cafeeira em Minas Gerais e nas áreas mais novas do estado do
Rio de Janeiro beneficiou-se do esvaziamento das antigas áreas cafeeiras do vale
do Paraíba e contou quase sempre com famílias de trabalhadores brasileiros. O
sistema de trabalho adotado nesses estados foi a parceria (divisão dos resulta-
dos da colheita da família do colono com o dono da terra, em geral deduzindo
as despesas feitas pelo proprietário). A parceria também previa o direito da
família de trabalhadores ao plantio de uma roça e à criação de pequenos animais
dentro da propriedade cafeeira.
Crescimento industrial e urbanização A U L A

Na fase republicana, o café foi também o principal responsável pelas rendas


do governo federal, quase todas advindas do imposto de exportação. A supre- 20
macia das oligarquias de São Paulo e de Minas Gerais na política dos governa-
dores fazia com que, de fato, se confundissem os interesses dos cafeicultores e os
interesses do país.
A condição de quase monopólio mundial, que o Brasil detinha, permitia que
o Estado comprasse os excedentes da produção cafeeira em caso de superpro-
dução, evitando a baixa dos preços internacionais. Esse expediente, adotado
pela primeira vez em 1906, seria repetido com freqüência durante toda a Velha
República. Isso fazia da cafeicultura verdadeiramente um “negócio da China”.
Essa prosperidade da economia cafeeira teve efeitos multiplicadores. Direta
ou indiretamente, o crescimento urbano e industrial do país, concentrado nas
áreas cafeeiras desde meados do século XIX, tem a ver com a onda verde dos
cafezais e, em especial, com as atividades de comercialização do café. Em 1907,
as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo já reuniam 49% dos estabelecimentos
industriais do país (33% no Rio de Janeiro e 16% em São Paulo).

O porto de Santos
foi sendo
modernizado
e aparelhado para
atender à
exportação de bens
produzidos na
região Sudeste, e
acabou crescendo
mais que
o porto do
Rio de Janeiro.
O comércio em expansão fez crescer as cidades e, junto, vieram os bancos.
O aumento populacional e a infra-estrutura urbana que se formava permitiram
o surgimento de mercados locais que, desde o final do século XIX, fizeram surgir
inúmeras pequenas manufaturas. Muitas empregavam máquinas e em algumas
trabalhavam dezenas de trabalhadores.
As origens da indústria no Brasil nos levam a uma época anterior a 1888/89
e, portanto, à sociedade escravista do século XIX. Nas primeiras fábricas
brasileiras, trabalhava um número considerável de escravos, muitas vezes ao
lado dos operários livres.
No último ano da Monarquia, em 1889, havia cerca de 600 estabelecimentos
industriais, entre os quais figuravam indústrias de tecidos, de alimentos, de
produtos químicos, de vestuário, de madeira e de metalurgia.
A U L A Na década seguinte, 1890-1899, ocorreu a primeira expansão industrial
significativa. Passamos a importar menos produtos de consumo leve, como

20 vestuário, alimentos, tecidos etc., e mais máquinas e equipamentos industriais.


O setor têxtil era a base da indústria nesse período. As grandes indústrias da
Primeira República seriam, principalmente, do ramo de tecidos.
Ao mesmo tempo em que proliferavam as manufaturas, formavam-se
impérios industriais. Grandes fazendeiros de café entraram para a atividade
fabril, aplicando nesse setor o capital excedente (que sobrava) dos lucros da
comercialização do produto. Cafeicultores de São Paulo, como os Prado e os
Oliveira Penteado, chegaram ao século XX, dedicando-se a bancos, fábricas de
vidro, vestuário e tecelagens. Prósperos comerciantes também começaram a
participar das atividades industriais, como o carioca Eugênio Mariz de Oliveira,
que dirigiu a Tecelagem Votorantim em São Paulo.
Outros grandes capitães de indústria eram imigrantes que nunca precisa-
ram passar pela enxada ou pela fábrica. Deviam sua fortuna inicial ao comércio,
sobretudo de importação.
A ação urbanizadora do café permitiu também a modernização das grandes
cidades. Nelas surgiram bancos e ampliaram-se os portos e os serviços urbanos.
O aparecimento das grandes cidades, à medida que avançava o processo de
urbanização, exigia a realização de uma série de obras − transportes, luz elétrica,
água e esgoto etc. − para cuja execução tornavam-se necessárias grandes somas
de dinheiro, conseguidas basicamente por meio de empréstimos externos
(obtidos fora do país). Muitos dos serviços de grande vulto, ligados à infra-
estrutura urbana que ia se desenvolvendo, pertenciam a empresas estrangeiras.
Uma delas era a canadense Light e Power Co ., proprietária de companhias de
gás, água, esgotos, luz e energia elétrica, transportes urbanos e telefones, no Rio
de Janeiro e em São Paulo. A luz elétrica substituía o lampião a gás, enquanto o
bonde aposentava a tropa de burros na cidade.
Um slogan da época do Império dizia: “o café dará para tudo”.
O Brasil tornou-se uma República e o café afirmou-se como principal
produto econômico do país.
Expandindo-se em ondas verdes, os cafezais ocuparam enormes territórios
no Rio de Janeiro e em São Paulo, Minas Gerais e outros estados. Daí surgiu uma
nova classe dirigente, mais poderosa que os antigos barões do açúcar. Na sua
marcha, o café foi criando cidades e fazendo fortunas.
Em grande parte, o processo de crescimento urbano e industrial brasileiro
esteve, sem dúvida, associado aos caminhos que o café foi percorrendo na região
Centro-Sul do país.

6
O tempo Na Primeira República, o crescimento das atividades industriais ocorreu
não pára dentro de um país agrário: uma república de plantadores.
Sem perder suas características agrárias e somente a partir dos anos 30, o
país viveria um processo de industrialização efetivo, promovido em boa parte
pelo próprio Estado.
Relendo o texto Exercícios
A U L A

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no vocabulário da Unidade e no dicionário. 20
1. Releia A expansão cafeeira e:

a) identifique as razões do declínio da lavoura cafeeira no vale do Paraíba;

b) retire do texto o trecho que trata da importância das ferrovias para a ex-
pansão da lavoura cafeeira;

c) identifique as duas formas de trabalho adotados na lavoura cafeeira.


2. Releia Crescimento industrial e urbanização e:
a) retire do texto o trecho que trata dos investimentos cafeeiros na indústria;

b) retire do texto um trecho que relacione expansão cafeeira e urbanização


urbanização.

3. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Leia com atenção o texto abaixo e faça os exercícios:

(...)“ é o Brasil o país que atualmente produz 3/5 partes do total


desse artigo [o café], e por isso assumiu uma espécie de monopólio; e a
produção de qualquer mercadoria em tais condições faz pesar a imposi-
ção sobre o consumidor, que tem de sujeitar-se aos preços dos mercados
produtores.
A posição de preço de café nos dois últimos anos tem sido lisonjeira.
O aumento progressivo do consumo, a produção diminuta de quase
todos os centros produtores, fizeram subir os preços a quase 80%.
A riqueza incontestavelmente maior em todas as classes ou a
abundância do dinheiro fizeram, apesar dos preços sempre crescentes,
entrar o café no uso doméstico da classe menos abastada e até da
proletária; e hoje pode-se considerar esse gênero como artigo de alimen-
tação necessário para os habitantes de ambos os hemisférios. ”
Fonte: jornal A Província de São Paulo .

1. Extraia do documento o trecho que descreve os fatores que permitiram o


aumento do preço do café.

2. Segundo o documento, quem eram os consumidores do café brasileiro?

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A UA UL L AA

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MÓDULO 6
Panorama da República
Velha - Parte 1

Nesta aula N esta aula e na seguinte vamos fazer um


panorama da Primeira República, conhecer seus presidentes e os principais
acontecimentos políticos, culturais e sociais. Também vamos conhecer al-
guns dos principais intelectuais do período, as idéias e a visão que tinham do
Brasil e sua gente.
A Primeira República estende-se de 1889 a 1930. Teve, ao todo, treze
presidentes. É possível dividi-la em duas fases: a militar e a oligárquica.

A República da Espada

A fase militar é também chamada de República da Espada por ser coman-


dada por militares, e vai de 1889 a 1894. O marechal Deodoro da Fonseca (1889-
1891) esteve à frente do governo provisório que se inicia com a proclamação e,
depois, foi eleito pelo Congresso Constituinte. Por causa de seu autoritarismo,
fechou o congresso. Mas foi deposto, tendo assumido em seu lugar o vice-
presidente, o marechal Floriano Peixoto (1891-1894).
Esses dois primeiros presidentes do Brasil tinham em comum, além de
serem militares, o fato de terem nascido em Alagoas e uma mentalidade
positivista. Isso quer dizer que eram influenciados pelas idéias do filósofo
francês Augusto Comte, chamadas de positivismo.
Tais idéias tinham contribuído muito para a derrubada da Monarquia e
estavam bastante difundidas entre os jovens oficiais do Exército Nacional. Em
poucas palavras podemos dizer que os positivistas preocupavam-se em estabe-
lecer os direitos civis e sociais, como educação e saúde, mas não achavam
importante defender os direitos políticos, como o voto e a organização partidá-
ria. Para eles, o Governo representava a Pátria e sozinho devia proteger as
famílias, como se fosse o pai de todos. O lema positivista Ordem e Progresso ,
inscrito na bandeira republicana, parecia querer impedir as muitas opiniões
sobre a nova ordem estabelecida e contestações contra ela.
Mas nem todos queriam uma República positivista. Havia também os
republicanos conservadores-liberais, que representavam os fazendeiros de
café. Eles formavam a maioria no Congresso Constituinte e influiram na
Constituição republicana defendendo os interesses e privilégios dos donos de
terras e dos negociantes e banqueiros. Foram responsáveis também, pelo nome
oficial: República dos Estados Unidos do Brasil .
Outro grupo, o dos republicanos radicais, liderados por Silva Jardim e Lopes A U L A
Trovão, lutava para assegurar tanto os direitos civis quanto os direitos políticos
do povo. Os radicais eram considerados pelos conservadores como exaltados,
idealistas e até inimigos da ordem, pois queriam, além de saúde e educação 21
fornecidas pelo Estado, o direito a terras para todos.

A Revolução Federalista

Como as províncias, agora chamadas de estados, eram unidades autônomas


e podiam organizar suas próprias Constituições, esses debates ganharam cores
regionais, produzindo, a partir do Rio Grande do Sul, a chamada Revolução
Federalista. O conflito foi ocasionado pela oposição entre os republicanos
históricos, adeptos do positivismo e organizados no Partido Republicano
Riograndense − PRR, e os liberais, do Partido Federalista, que defendiam a
revogação da constituição estadual e a instauração de um governo parlamentar.
Foi uma guerra sangrenta cujo ponto alto ocorreu em 1893, quando colunas
federalistas avançaram sobre Santa Catarina, juntando-se ali aos integrantes da
Revolta da Armada , que haviam ocupado a capital.
A Revolta da Armada resultou da rivalidade entre a Marinha e o Exército.
O almirante Custódio de Melo supunha que iria suceder a Floriano peixoto na
Presidência da República.
Contra essas rebeliões, o governo de Floriano agiu energicamente, graças ao
apoio do Exército e do Partido Republicano Paulista.
Floriano, chamado de “Marechal de Ferro”, consolidou o novo regime e
garantiu a sucessão presidencial que levou ao poder a oligarquia cafeeira. Os
líderes da cafeicultua o haviam sustentado nos momentos decisivos. Em sua
homenagem, a capital de Santa Catarina, Desterro, teve seu nome mudado para
Florianópolis.

Prudente de
Morais foi o
primeiro
presidente civil da
República.

A república oligárquica

A eleição de Prudente de Morais, em 1894, para suceder ao marechal


Floriano Peixoto, marcou o fim dos militares na presidência durante a Primeira
República. Exceção a isso foi o marechal Hermes da Fonseca, eleito para o
período de 1910-1914.
A U L A Natural de Itu (São Paulo) e representante da oligarquia cafeeira, Prudente
de Morais ficou conhecido como “pacificador” por anistiar os rebeldes da

21 Revolução Federalista e da Revolta da Armada. Prudente, porém, enfrentou a


forte oposição dos republicanos exaltados, conhecidos como “jacobinos”, no
Rio de Janeiro. Os jacobinos derivaram seu nome de uma das correntes mais
radicais da Revolução Francesa.
Outro conflito que também abalou seu governo foi a Revolta de Canudos ,
ao norte do sertão da Bahia. Em 1893, ali se formou um povoado com 20 a 30 mil
habitantes liderados por Antônio Conselheiro , que exaltava a religiosidade do
Oligarquia: povo e preparava a volta à Monarquia.
palavra grega que O governo republicano enviou uma expedição de mais de oito mil homens
significa governo que arrasou o arraial em 1897.
de poucas pessoas,
pertencentes a uma
classe ou uma A política dos governadores
família.
A República herdou do Império uma grande dívida externa. Os gastos das
campanhas militares haviam esgotado o Tesouro. A dívida cresceu cerca de 30%
entre 1890 e 1897.
Campos Sales (1898-1901) assumiu a presidência de um país em crise. Antes
mesmo de tomar posse, foi a Londres negociar com a Casa Rothschild um
empréstimo de consolidação da dívida externa brasileira.
Republicano histórico, Campos Sales implementou uma das políticas finan-
ceira mais rigorosas da História da República brasileira. Por isso, deixou o
Palácio do Catete debaixo de manifestações públicas.
Na presidência, implementou a chamada “política dos governadores”, um
federalismo peculiar, baseado em alianças e trocas de favores políticos. Essa
política favorecia a consolidação das oligarquias regionais.
O povo, principalmente do interior, estava submetido ao coronelismo e
ao banditismo. A impunidade e a fraude política marcaram esse período.
Além dos coronéis, havia também a Comissão de Verificação, para garantir
o resultado favorável das eleições. O voto não era secreto e a maioria dos
eleitores estava sujeita à pressão dos chefes políticos.
A República brasileira era dominada por diversas oligarquias estaduais,
principalmente de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
Em 1898, enquanto Santos Dumont encantava a cidade de Paris com seus
balões tripulados, chegava ao Brasil uma nova maravilha: o cinema. Em 1900 é
inaugurada a primeira linha de bonde elétrico.

Rodrigues Alves (1902-1906)

As sucessões presidenciais da jovem república transcorreram em clima


ameno. As famílias de Campos Sales e Rodrigues Alves eram amigas. Uma
grande cordialidade as unia. Também paulista, nascido em Guaratinguetá,
Rodrigues Alves assumiu a presidência da República com um propósito:
fazer do Rio de Janeiro o cartão de visitas do Brasil para atrair o capital
estrangeiro. Para isso, escolheu para prefeito da Capital o engenheiro Fran-
cisco Pereira Passos.
A idéia era dar à cidade a aparência de uma metrópole nos moldes de capital
francesa. O centro da cidade sofreu uma remodelação arquitetônica e urbana
inspirada em Paris.
A U L A

21

Na modernização
do Rio de Janeiro,
foi criada a
Avenida Central,
no coração da
cidade.

Para isso, boa parte da velha cidade colonial foi destruída. As estreitas vielas
sucumbiram para dar lugar às largas avenidas, às modernas lojas, aos cafés
elegantes. Os tradicionais quiosques e os cortiços freqüentados pelo povo
também foram destruídos.
Lado a lado com a remodelação da cidade estava a ação do sanitarista
Oswaldo Cruz que tentava combater as doenças contagiosas que assolavam a
capital na época de verão. Oswaldo Cruz revolucionou a Saúde Pública comba-
tendo a febre amarela e a varíola.
A campanha da vacina obrigatória foi fortemente rejeitada por parte da
população, que se amotinou na chamada Revolta da Vacina (1904).
Mas o “papai grande”, como era chamado, deixou o governo aclamado pelo
povo. A inauguração da Avenida Central (atual Rio Branco) em 15 de novembro
de 1905 foi um evento memorável.

Lima Barreto e a República do Avesso

Conhecido como escritor “maldito” pela intensa crítica que fazia aos diri-
gentes do país, Lima Barreto protestou contra o projeto de modernização da
cidade do Rio de Janeiro, denunciando que a cidade “moderna”, que então se
construía, estava sendo erguida às custas da destruição do que já existia e da
expulsão da população pobre, que já não mais podia circular livremente pelo
centro da cidade. Apenas para construir a Avenida Central foram demolidas
1.681 habitações e quase 20 mil pessoas foram obrigadas a se deslocar para os
subúrbios ou para os morros mais próximos. Um dos morros mais habitados era
o morro da Favela, que acabou dando o nome a todos os demais morros
habitados pelos pobres da cidade.
Para o autor, o governo republicano estimulava a separação de dois mundos
que não podiam viver separados, pois um dependia do outro: o mundo dos
privilegiados e o mundo dos deserdados, ou, nas palavras do próprio autor,
a cidade européia e a cidade indígena . Sobre o ritmo acelerado da reforma
urbana, Lima Barreto escreveu:
A U L A “ Como isso mudou. Então, de uns tempos para cá, parece que essa gente
está doida; botam abaixo, derrubam casas, levantam outras, tapam as

21 ruas, abrem outras... estão doidos. ”


Do livro: Recordações do Escrivão Isaías Caminha .

Lima Barreto valorizava o passado e o presente da História brasileira,


procurando integrar todos os seus elementos, sem distinção racial ou social.
Com seu trabalho de escritor, Lima Barreto conseguia mostrar aos leitores de sua
época, e também aos de hoje, a fragilidade do padrão de civilização imposto
pela República que se iniciava. Segundo o autor, essa era uma República que
se colocava acima de seu povo.

6
O tempo A busca de uma nação brasileira continuaria. De um lado estava o desafio
não pára de encontrar soluções para os problemas nacionais e a intenção de modernizar
a cidade; de outro lado, a preocupação de integrar o homem do campo, com suas
diversas etnias e culturas, na formação do povo brasileiro.

Exercícios Relendo o texto

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade.

1. Releia A República da Espada e responda:


a) por que o período que vai de 1889 a 1894 é chamado de República da
Espada?
b) no início da República três grupos influenciaram a nova constituição: os
positivistas, os conservadores-liberais e os republicanos radicais. Quais
as diferenças entre eles?

2. Releia A Revolução Federalista e responda: em que consistia a política dos


governadores?

3. Releia A república oligárquica e faça uma crítica ao papel do governo


quando tentou “civilizar” a cidade do Rio de Janeiro, e diga:
a) o que o governo fez;

b) como o governo agiu;

c) o que o governo deveria ter feito.

4. Releia Lima Barreto e a República do Avesso e explique a opinião de Lima


Barreto sobre a República do seu tempo: uma República que se colocava
acima de seu povo.

5. Dê um novo título a esta aula.


Fazendo a História A U L A

Documento 1
“ Se houvesse liberdade de expressão e respeito aos interesses da 21
maioria da população, a política de Campos Sales, geradora do desem-
prego e da carestia, jamais teria sido posta em prática.
Se houvesse democracia política, a modernização do Rio de Janeiro
seria planejada de forma a não lançar milhares de homens, mulheres e
crianças ao desabrigo.
Se houvesse democracia, a polícia não expulsaria a cacetadas um
sujeito da casa em que morava com a família, enquanto uma turma de
demolição botava as paredes abaixo! E quando ele e outros iguais a ele
perdem a paciência e começam a espancar policiais, são chamados de
violentos e perigosos!
Se o sistema fosse democrático, o governo é que seria vigiado, e não
a multidão...”
José Carlos Pires de Moura. História do Brasil II . São Paulo, 1982,
Marco Editorial, pág. 31.

1. O texto acima fala de dois acontecimentos da República oligárquica. Quais


foram eles? Explique-os.

Documento 2
O texto abaixo foi escrito por um cronista da revista Fon-Fon , muito lida no
início do século.

“ A população do Rio, que, na sua quase unanimidade, felizmente ama


o asseio e a compostura, espera ansiosa pela terminação desse hábito
selvagem e abjeto, que nos impunham as sovaqueiras soadas, e apenas
defendidas por uma simples camisa de meia rota, e enojantemente
suja, pelo nariz do próximo, e do vexame de uma súcia de cafajestes,
em pés no chão (sob o pretexto hipócrita de pobreza, quando o calçado
está hoje a 5$ o par, e há de todos os preços) pelas ruas mais centrais
e limpas de uma grande cidade... Na Europa, ninguém, absolutamente
ninguém, tem a insolência e o despudor de vir para as ruas de Paris,
Berlim, Roma, Lisboa etc., em pés no chão, e desavergonhadamente,
em mangas de camisa.”

1. Você concorda com o autor do texto?

2. Qual é a sua opinião sobre os hábitos da população de sua cidade?

6
A UA UL L AA

22
22
MÓDULO 6
Panorama da República
Velha - Parte 2

Nesta aula V amos concluir o panorama geral da Repú-


blica Velha iniciado na aula anterior. Começamos pela visão que a elite tinha da
população brasileira. Visão essa nada original, pois vinha “enlatada” da Europa,
junto com as mercadorias importadas. Conheceremos mais dois intelectuais
brasileiros que escreveram em defesa da nossa nacionalidade e, no final,
veremos os acontecimentos puseram fim nessa velha, muito velha República.

Alguns ainda se envergonhavam


de seu povo, mas nem todos...

Como vimos na aula passada, no entender da elite e dos intelectuais a ela


ligados, o Brasil deveria ser civilizado segundo os padrões europeus. Esses
intelectuais, influenciados pelas teorias “científicas” da época, adaptavam as
teorias racistas em moda na Europa à sua compreensão do Brasil.
Uma das teorias aceitas era o chamado “darwinismo social”, baseado na
crença da inferioridade dos não brancos. Essa teoria, que tentava reforçar
cientificamente o preconceito racial, servia aos interesses de dominação dos
países industrializados da Europa, que nessa época haviam recolonizado exten-
sas áreas de populações não brancas, em todo o planeta.
Os intelectuais que se deixavam levar por essas idéias achavam difícil
conciliar a mestiçagem, da qual nós brasileiros somos fruto, com a necessidade
de ter idéias positivas sobre a nacionalidade brasileira.
Em outras palavras, se a maioria da população que não era branca, não era
considerada, nesse caso quem era o povo brasileiro ou como formá-lo? E, por
fim, como construir a nação moderna?
Mas nem todos pensavam assim. Entre os mais importantes críticos do
racismo destacou-se o político e jurista fluminense Alberto Torres. Para ele, as
diversas variedades humanas, habitantes do nosso solo, são capazes de atingir
o mais alto grau de aperfeiçoamento moral, e intelectual, atingido por qualquer
outra raça (...) Podemos afirmar, que o negro puro, e o índio puro, são
suceptíveis de se elevar à mais alta cultura . (de O problema Nacional
Brasileiro .)
Alberto Torres defendia, ainda, as riquezas nacionais contra o domínio
externo e afirmava que o brasileiro, salvo restrita faixa de privilegiados, seja ele
branco negro o índio, é o estrangeiro desta terra. (Jornal A Época , 4/12/1915.)
A U L A

22
Monteiro Lobato
criou uma
infinidade de
personagens em
seus livros. Mas
Jeca Tatu
destacou-se por
ser o retrato do
homem do campo
no Brasil.

Monteiro Lobato foi outro importante intelectual brasileiro a defender sua


gente. Imortalizado na literatura infantil pelos personagens do Sítio do Pica-
pau Amarelo , em suas primeiras obras descrevia os hábitos da população rural,
por meio de um personagem que se tornou famoso: o caipira Jeca Tatu.
Entre 1910 e 1915, Monteiro Lobato explicava a situação miserável do
caipira, por sua ignorância e preguiça, pois o Jeca Tatu só obedecia a uma lei, a
lei do menor esforço.
No entanto, a partir de 1918, com a publicação de um novo livro, Urupês,
Lobato procurou reconciliar-se com o caipira, afirmando que o Jeca não é assim,
está assim. Nesse livro, o autor valoriza o caipira, declarando o seguinte:

“ Eu ignorava que eras assim, meu caro Jeca, por motivo de doenças
tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas todo um jardim
zoológico da pior espécie. É essa bicharada cruel que te faz papudo, feio,
molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não... És tudo isso sem
tirar uma vírgula, mas ainda és a melhor coisa desta terra. ”

Monteiro Lobato passou a entender os problemas do homem do campo


como um problema social, e não como um problema racial. A partir de então, ele
se tornou um dos maiores defensores de uma política de saúde para as áreas
rurais. E, junto com ele, outros intelectuais, especialmente os médicos, abraça-
ram a causa do saneamento como bandeira de salvação nacional.

A política do café-com-leite

O governo do presidente Afondo Pena (1906-1909), mineiro de Santa


Bárbara, sacramenta o acordo das oligarquias de Minas Gerais e de São Paulo.
Com a chamada política do café-com-leite , os dois estados apoiavam um único
candidato à Presidência. Antes de ser presidente da República, Afondo Pena
governou o estado de Minas Gerais e deu início à construção de Belo Horizonte.
Na Presidência, a fim de incentivar os negócios e a indústria nacional, elevou as
taxas de importação, dificultando a entrada de produtos estrangeiros. Mas os
imigrantes continuaram a ser bem recebidos: no seu governo entraram os
primeiros japoneses e milhares de sírio-libaneses.
A U L A O grande acontecimento de governo foi a Exposição Nacional de 1908, na
Praia Vermelha (Rio de Janeiro), com o objetivo de atrair turistas e capitais

22 estrangeiros para o país.


No plano internacional, dois brasileiros colocaram o Brasil em evidência:
Santos Dumont e Rui Barbosa.
Em 1906 , Alberto Santos Dumont causou espanto e admiração ao voar em
torno da Torre Eiffel (Paris, França) com um aparelho mais pesado que o ar. Era
o 14-Bis, o primeiro avião inventado.

Santos Dumont
fez voar o seu
14-Bis, em 1906.

Rui Barbosa

Em 1907, na Conferência da Paz, em Haia (Holanda), o delegado brasileiro


Rui Barbosa destaca-se como um dos sete sábios, defendendo a adoção do
arbitramento nos conflitos internacionais e a igualdade das nações na Corte de
Arbitramento. O princípio do arbitramento, já utilizado pelo Brasil em diversas
ocasiões, evita a guerra quando dois países disputam alguma coisa, pois esses
países submetem-se à decisão dos árbitros escolhidos por eles mesmos.

O Convênio de Taubaté (1906)

A produção de café havia aumentado muito e, por causa dessa superprodu-


ção, o preço estava baixo demais. Para solucionar o problema, os governadores
de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, com aprovação do Congresso
Nacional, tomaram empréstimos no exterior para comprar e estocar café. Com
essas medidas, tomadas no que ficou conhecido como Convênio de Taubaté ,
mantinha-se o preço e garantia-se os lucros da oligarquia cafeeira que, afinal,
controlava os destinos do país.
Uma crise política, iniciada com a rejeição ao nome que ele indicou para ser
seu sucessor, desgastou o presidente Afonso Pena e contribuiu para a sua morte,
em 1909. O vice-presidente assumiu a Presidência por dezessete meses, para
completar o mandato.
Nilo Peçanha (1909-1910), natural de Campos (Rio de Janeiro), tentou fazer
um governo equilibrado, sob o lema “paz e amor”. No entanto, foi atacado pelos
partidários dos dois candidatos à presidência da República: o marechal Hermes
da Fonseca e Rui Barbosa. A principal iniciativa do seu governo foi a criação do
Serviço Nacional de Proteção ao Índio sob a direção de Cândido Rondon.
Pela primeira vez, o Brasil viveu o clima de uma campanha eleitoral. Um
grande duelo político se travou entre os “civilistas”, que apoiavam Rui Barbosa,
e os “hermistas”, que apoiavam o Hermes da Fonseca. As eleições foram
fraudadas, como todas as outras, mas houve intensa participação popular.
O marechal Hermes da Fonseca (1910-1914), nascido em São Gabriel (Rio A U L A
Grande do Sul), teve uma imponente recepção ao chegar à Capital para assumir
a Presidência, a 15 de Novembro de 1910.
Contudo, passada uma semana, a baía de Guanabara já se agitava, com a 22
Revolta da Chibata e o levante do Batalhão Naval. As forças legais bombar-
dearam o Batalhão, deixando um saldo de mais de 500 mortos. Os marinheiros
revoltados contra os castigos corporais, ainda vigentes na Armada, foram
atendidos e anistiados, inicialmente, para depois serem fuzilados e deportados.
Assim, foram prontamente sufocadas essas rebeliões.
Na política interna, teve grande destaque o senador Pinheiro Machado,
amigo do presidente. A inabilidade política de ambos, na tentativa de derrubar
oligarquias regionais que não apoiavam o poder central, ocasionou muita
violência e derramamento de sangue, principalmente em Recife e Salvador. E
foi um completo fracasso a chamada política das salvações , com a qual o
presidente Hermes da Fonseca pretendia moralizar o país.
Também nesse governo eclodiram a Revolta do Contestado , numa região
disputada pelos estados de Santa Catarina e Paraná, e a Revolta dos Sertanejos
de Juazeiro (Ceará), região influenciada pelo Padre Cícero. Em ambos os casos,
os camponeses foram duramente reprimidos pelas forças federais.

Já no início do
século, Rondon
penetrava o
interior do país,
fazendo contato
com indígenas, o
que resultou na
fundação do
Serviço Nacional
de Proteção ao
Índio.

O marechal Hermes da Fonseca foi criticado e achincalhado pela imprensa


e pela opinião pública. Tendo falecido sua esposa, Dona Orsina da Fonseca,
casou-se, aos 58 anos, com Nair de Teffé, de 28, que ficara célebre por ser a
primeira mulher caricaturista da imprensa brasileira. Ela foi responsável por um
toque de descontração e modernidade na vida palaciana. O marechal, que
gostava das coisas brasileiras, recebeu um rancho carnavalesco no palácio do
Catete, e deu um sarau no qual a cantora Chiquinha Gonzaga apresentou uma
dança chamada “corta-jaca”, considerada muito indecente. Isso foi motivo de
escândalo para a sociedade da época.
Graças ao marechal, em 1912 o povo brincou dois carnavais. Como o
Visconde do Rio Branco morreu em fevereiro, às vésperas do carnaval, o
governo homenageou o grande ministro, determinando a transferência do
carnaval para abril. Não deu outra! O povo aproveitou não só o carnaval
tradicional de fevereiro como o oficial, em abril.
A U L A Venceslau Brás (1914-1918)

22 O governo desse mineiro, natural de Brazópolis, foi marcado pela guerra e


pela peste. A guerra interna contra os camponeses do Contestado só terminou
em 1916, deixando um saldo de mais de vinte mil mortos.
A Primeira Guerra Mundial, que durou o exato período de seu mandato,
logo trouxe graves dificuldades econômicas para o país. Contudo, possibilitou
certo desenvolvimento da atividade industrial, na tentativa de substituir por
produtos nacionais, aquilo que era comprado no exterior. Aumentaram, tam-
bém, as exportações de alimentos para os países aliados que estavam em guerra:
Inglaterra, França e Estados Unidos.
Só que isso acabou nos custando caro, pois, em outubro de 1917, quatro
navios mercantes brasileiros foram torpedeados por submarinos alemães, le-
vando o presidente Venceslau Brás, a declarar guerra ao Império Alemão.
Porém, a participação brasileira na guerra foi muito modesta. Além de
continuar dando apoio, com alimentos e matérias-primas, seguiram para o
conflito um grupo de aviadores e alguns navios de guerra que fizeram
patrulhamento na costa africana , em 1918.
A peste que assolou o mundo, no final da Segunda Guerra, foi a gripe
espanhola. Só na cidade do Rio de Janeiro morreram cerca de seis mil pessoas.
Durante o governo Venceslau Brás ocorreram também muitas manifesta-
ções populares contra a carestia e os salários baixos. Além de greves em vários
estados, destaca-se a primeira greve geral do país, em São Paulo.

Os trabalhadores
organizavam-se e
faziam seus
congressos.

Delfim Moreira (1918-1919)

Para suceder o presidente Venceslau Brás, foi eleito Rodrigues Alves, que já
ocupara o cargo de 1902 a 1906. O ex-presidente, já com 70 anos, combalido pela
gripe espanhola, faleceu antes de tomar posse. Drama que se repetiu com
Tancredo Neves, em 1985. O vice-presidente eleito, assumiu por um período,de
menos de oito meses, até que se realizou nova eleição.
O curto governo do vice-presidente Delfim Moreira, nascido em Cristina A U L A
(Minas Gerais), ficou conhecido como regência republicana.
A oligarquia cafeeira divergiu a propósito da sucessão, de modo que
resolveu apoiar um candidato que não fosse paulista nem mineiro. 22
Mas ficou acertado que os próximos presidentes seriam um mineiro e, em
seguida, um paulista, como de fato ocorreu, dando origem ao termo política do
café-com-leite .
Nessa eleição, Rui Barbosa foi mais uma vez candidato. Apesar de vencer
nas capitais, onde as pessoas tinham mais liberdade para votar, a vitória coube
a Epitácio Pessoa, que era apoiado pelos coronéis. Nessa época a população rural
era muito maior que a urbana.

A crise da dominação oligárquica

Epitácio Pessoa (1919-1922)

Durante o governo Epitácio Pessoa, que era natural de Umbuzeiro (Paraíba),


foi criada a primeira universidade brasileira, no Rio de Janeiro.
Em São Paulo, realizou-se a Semana de Arte Moderna. Surgiam as primeiras
manifestações feministas que reivindicavam o direito ao voto. Foi criado o
Partido Comunista Brasileiro. Realizou-se uma grande exposição internacional
por ocasião do centenário da Independência.

O movimento tenentista

A grande inovação do governo Epitácio Pessoa foi a nomeação de ministros


civis para os ministérios militares. Essa medida desagradou a oficialidade, que
passou a fazer oposição ao governo. Criou-se, então, no Exército, uma corrente
anti-oligárquica que deu início a uma série de rebeliões militares, que marcaram
os anos 20.
Houve uma conspiração militar, logo sufocada, durante a qual foi preso o ex-
presidente marechal Hermes da Fonseca. Essa atitude desencadeou o levante de
tenentes em vários quartéis. Alguns oficiais do Forte de Copacabana saíram às
ruas para enfrentar as tropas governistas. Dos “Dezoito do Forte”, como ficaram
conhecidos, sobreviveram apenas dois. Esse episódio conferiu imensa simpatia
ao movimento tenentista, e aumentou a oposição ao governo oligárquico.

Artur Bernardes (1922-1926)

Como estava combinado, foi escolhido um mineiro, de Viçosa, para ocupar


a presidência. Esse tipo de eleição, com as cartas marcadas, despertava cada vez
mais a repulsa do povo e, principalmente, do Exército.
No Rio Grande do Sul, eclodiu um violento conflito contra o presidente do
estado, Borges de Medeiros, que se elegera pela quinta vez.
Em São Paulo, em 1924, militares rebeldes tomaram o poder, e a cidade foi
brutalmente bombardeada por tropas federais, até com o uso de aviões, o que
provocou mortes e destruição. Os revoltosos deixaram a capital para evitar mais
danos à população. E, fortalecidos por um contingente que veio do sul, forma-
A U L A ram um grupo, liderado por Luís Carlos Prestes, que ficou conhecido como a
Coluna Prestes , que durante três anos percorreu o país.

22 Artur Bernardes manteve o estado de sítio durante a maior parte de seu


governo. Somente com censura à imprensa, intervenções e violenta repressão
policial foi possível garantir a política do café-com-leite.

Luís Carlos
Prestes e Juarez
Távora também
se juntaram ao
movimento
tenentista.

Washington Luiz (1926-1930)

Natural de Macaé (Rio de Janeiro), o ex-presidente do estado de São Paulo


tornou-se o último presidente da República Velha. Sob o lema “governar é abrir
estradas” fez a ligação Rio-São Paulo.
No final de seu governo, a crise econômica internacional fez despencar o
preço do café. Falida, a oligarquia cafeeira não teve forças para garantir a posse
de mais um presidente. Em 24 de outubro de 1930, o presidente Washington Luís
foi deposto pelas forças da Revolução.

6
O tempo A República no Brasil já nasceu velha. Nasceu de um golpe militar, sem a
não pára menor participação popular. Apesar de ter uma Constituição liberal, manteve o
povo afastado das decisões do poder. A oligarquia cafeeira controlava o país por
intermédio do coronelismo, na área regional; da política dos governadores, na
área estadual; e da política do café-com-leite, na área federal. Isso permaneceu
assim, até que as forças da Revolução de 30 romperam essa dominação.
Relendo o texto Exercícios
A U L A

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade. 22
1. Releia Alguns ainda se envergonhavam de seu povo, mas nem todos... e
explique:
a) a quem interessava a difusão da idéia da superioridade dos brancos;

b) a afirmação de Alberto Torres: “o brasileiro é o estrangeiro desta terra”;

c) como Monteiro Lobato mudou de idéia sobre o Jeca-Tatu.

2. Releia A política do café-com-leite e responda: por que, apesar da super-


produção de café, os fazendeiros continuavam a expandir as plantações?

3. Releia A crise da dominação oligárquica e responda:


a) o que foi o movimento tenentista;

b) como surgiu a Coluna Prestes?

4. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

“ Escrevendo sobre a vida e façanhas de Hubert Hervey, alto funcio-


nário da British South African Chartered Co., o conde Grey acaba
concluindo que o branco, e particularmente o inglês, é o único que sabe
governar, o que lhe outorga direitos indiscutíveis para dominar as
raças de cor, evidentemente inferiores: ‘Provavelmente todo mundo
estará de acordo que um inglês tem direito a considerar que sua forma
de entender o mundo e a vida é melhor do que a de um hotentote, ou
um maori, e ninguém se oporá, em princípio, a que a Inglaterra faça
o possível para impor, a esses selvagens, os critérios e modos de pensar
ingleses, posto que são melhores, e mais elevados. Há alguma possibi-
lidade, por remota que seja, de que num futuro previsível possa
desaparecer o abismo que agora separa os brancos dos negros? Pode
haver alguma dúvida de que o homem branco deve impor, e imporá, sua
civilização superior às raças de cor? ’ ”
Hector H. Bruit
Bruit, O Imperialismo , São Paulo, Editora Atual, 1986. págs. 9-10

Discuta com seus amigos as idéias deste texto, sobre o imperialismo das
nações européias industrializadas e suas conseqüências no Brasil.

6
A UA UL L AA

23
23
MÓDULO 6
Em busca da cidadania

Nesta aula E m aulas anteriores, você percebeu que a


vida política na Primeira República baseava-se fundamentalmente nos acordos
entre os diversos grupos oligárquicos. Não havia grande interesse em assegurar
espaços políticos para a maioria da população. Apesar disso, ocorreram diversos
movimentos populares na cidade e no campo, que apresentaram diferentes
formas de atuação frente à República Oligárquica. Nesta aula estudaremos
alguns dos movimentos mais importantes.

Os movimentos sociais urbanos

No final do século XIX e no início do século XX, a indústria já era uma


realidade marcante em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo. Parcela
considerável dos trabalhadores das indústrias − o operariado − era proveniente
das camadas mais pobres da população urbana.
Como a Constituição de 1891 concedia o direito de voto apenas aos brasilei-
ros natos e alfabetizados, a grande maioria do operariado − formado por estran-
geiros imigrantes e/ou analfabetos − ficava excluída da participação nas eleições.

O Viaduto do Chá e
o Teatro Municipal
mostravam o
desenvolvimento
de São Paulo.
Buscando reagir a essa situação, os trabalhadores se organizaram e se A U L A
rebelaram em defesa de seus direitos, em movimentos nem sempre vitoriosos.
No espaço da cidade, sua posição era a de personagens políticos em busca da
conquista da cidadania. 23
O primeiro partido operário do Brasil surgiu em fevereiro de 1890, no Rio de
Janeiro, numa reunião com cerca de 120 trabalhadores, que decidiram editar o
jornal Echo Popular (echo = eco). No Sul, no Norte, no Nordeste, nessa mesma
época, formavam-se diversos núcleos e grupos socialistas que se
autodenominavam partidos e que publicavam vários jornais operários.
Entre 1890 e 1910, surgiram dezenas de organizações socialistas em várias
regiões do país, mas todas tiveram vida curta. Não existia uma tendência
majoritária que fosse capaz de reunir os diferentes grupos.
Os primeiros anos do século XX representaram o início da ascensão do
movimento operário no Brasil, com o aumento do número de greves, o apare-
cimento dos primeiros sindicatos e o fortalecimento de novos grupos políticos,
em especial os anarquistas. Esses grupos tornaram-se uma tendência majoritá-
ria no conjunto do movimento operário de certas cidades, no estado do Rio de
Janeiro e, principalmente, no de São Paulo. Os anarquistas, imigrantes ou
brasileiros, eram defensores das idéias e das práticas libertárias.

Mas, afinal, o que é ser anarquista?

Ser anarquista é negar e combater a autoridade do Estado ou qualquer forma


de poder ou organização que represente o Estado; é ter uma atitude libertária
individual. Os anarquistas desejavam criar uma sociedade igualitária e frater-
nal, baseada em experiências do tipo comunitário, a exemplo de cooperativas.
Para isso, era necessário organizar os trabalhadores, de forma voluntária, em
associações que garantissem participação e que tivessem níveis de autonomia
entre si.
Numa República que ignorava os operários como agentes políticos, a
liderança anarquista tentava ignorar o Estado. Dentro da corrente anarquista, os
anarco-sindicalistas viam o sindicato como meio e fim da ação libertária e a
greve geral como a arma decisiva, capaz, por si só, de fazer surgir a nova
sociedade igualitária. Portanto, a luta dos anarquistas era uma luta política em
busca de novas formas de organização da sociedade.
No Primeiro Congresso Operário Brasileiro, em 1906, no Rio de Janeiro, os
anarco-sindicalistas dominaram a cena, aprovando a criação da Confederação
Operária Brasileira (COB) contra a proposta dos delegados socialistas de criar
um partido. Ao mesmo tempo, aprovaram a campanha de agitação imediata
contra o serviço militar e pela jornada de trabalho de 8 horas diárias diárias.
Começava a se desenhar a presença marcante dos anarquistas na direção do
movimento operário. A partir de então, os sucessos e insucessos desse movi-
mento teriam sempre a marca do anarquismo.
As comemorações do 1º de Maio de 1907, em São Paulo e em outras cidades,
resultaram numa série de lutas pela jornada de 8 horas de trabalho diário e por
melhores condições de trabalho e de vida para os operários.
Depois de um período de declínio do movimento, o ano de 1912 seria
marcado por várias greves por causa do agravamento das condições de vida dos
trabalhadores. Em São Paulo, no mesmo ano, anarquistas e socialistas criavam
o Comitê de Agitação Contra a Carestia da Vida, que realizava comícios em
vários bairros operários.
A U L A Nos meses de junho e julho de 1917, uma greve geral paralisou completa-
mente a cidade de São Paulo, colocando frente a frente o movimento operário

23 (que era organizado principalmente pelas lideranças anarquistas) e os setores


dominantes (que representavam a repressão do Estado). De um lado, 50 mil
grevistas armados com pedras e protegidos por barricadas; de outro, tropas
armadas com fuzis e metralhadoras.
A greve ganhara dimensões maiores, incorporando outros setores popula-
res. Anarquistas e Governo foram forçados à negociação. Depois, a repressão foi
intensificada. A polícia de São Paulo fechou todas as sedes das ligas e uniões
operárias da cidade. Entre 1919 e 1920, diversos militantes operários anarquistas
foram deportados para seus países.
Apesar disso, na década de 1920 (que estudaremos no próximo módulo), os
trabalhadores urbanos e o movimento operário continuariam no centro da
chamada questão social .

A imprensa
brincava com a
obrigatoriedade da
vacinação.

A revolta da vacina

O Rio de Janeiro do começo do século, sede do governo, era uma cidade


“ bonita e envolvente como uma mulher apaixonada ”, nos dizeres de Benjamin
Constant. Mas apresentava muitos problemas com suas doenças, suas ruas
estreitas e sua “massa desordeira”, que exigiam alguma adaptação aos novos
tempos. Aquela cidade era o Rio de Janeiro popular, repleto de mercados,
biscates e pequenos expedientes para a sobrevivência cotidiana. Para as autori-
dades, era uma realidade que precisava ser mudada. Precisava-se modernizar
a capital da República, apagando da cidade os traços dos tempos coloniais.
Junto com a remodelação urbanística da cidade, o governo Rodrigues Alves
(1902-1906) desenvolveu um programa de saneamento destinado a livrar a
população de doenças, como a peste bubônica e a varíola.
No final de outubro de 1904, por iniciativa de Oswaldo Cruz, Diretor da
Sáude Pública, o Congresso Nacional aprovou a lei que tornava obrigatória a
vacina contra a varíola. A medida tornava-se urgente em função do avanço da
epidemia na cidade: o total de mortos pela varíola alcançou o número de 4.201
naquele mesmo ano.
A U L A

23
Oswaldo Cruz foi
ridicularizado em
várias caricaturas
da época.

Para iniciar a vacinação obrigatória faltava apenas a aprovação do regula-


mento proposto pelo governo ao Congresso Nacional. Os grupos de oposição,
que discordavam do caráter obrigatório da vacinação, passaram a denunciar na
imprensa os termos do regulamento, que permitia aos funcionários do governo
invadir, vistoriar, fiscalizar e demolir casas e construções. Não seriam permiti-
dos recursos à Justiça.
Em importantes jornais da cidade, a oposição denunciava a “ditadura
sanitária” e pregava a suspensão daquela “lei arbitrária e monstruosa”.
A população temia os efeitos de uma vacina que pouco conhecia e estava
revoltada com os métodos pelos quais as autoridades propunham desenvolver
aquele programa de saneamento.
Não tardou muito e, no dia 10 de novembro de 1904, explodia no Rio uma
revolta popular contra a obrigatoriedade da vacina e contra as medidas oficiais
de saneamento. Durante mais de uma semana, as ruas da capital encheram-se
de barricadas. Bondes foram incendiados, lojas depredadas e saqueadas, postes
de iluminação destruídos. As autoridades perderam temporariamente o contro-
le da situação na região central e nos bairros mais densamente habitados por
grupos populares.

Quem eram os revoltosos?

A composição da população rebelada, que variou de acordo com o desenro-


lar dos acontecimentos, reunia operários, inclusive do estado (como marítimos
e trabalhadores dos transportes urbanos), líderes anarquistas e socialistas,
comerciantes, estudantes, militares e aqueles setores identificados pelos pode-
res oficiais como os “desordeiros” − capoeiras, desempregados, vadios, jogado-
res. Isto é, um exército de “excluídos” ou “deserdados” que representavam uma
boa parcela da população.
A presença dos trabalhadores organizados, no entanto, foi significativa pelo
esforço de mobilização do Centro das Classes Operárias , onde se reunia a Liga
Contra a Vacina Obrigatória .
A U L A O governo agiu rapidamente contra a revolta. A polícia e tropas do Exército,
da Marinha e dos Bombeiros enfrentaram a resistência da população em bairros

23 populares do Rio de Janeiro, como a Saúde e o Sacramento.


Após retomar o controle da cidade, o governo prendeu centenas de pessoas
e as despachou para o Acre, onde seriam submetidas a trabalhos forçados.
Segundo dados policiais, a Revolta teve 90 baixas entre os revoltosos: 23 mortos
e 67 feridos. Do total, 36 eram operários. A obrigatoriedade da vacina foi, porém,
temporariamente revogada.

Movimentos sociais rurais

A presença política dos setores populares durante a Primeira República não


se limitou a movimentos organizados dos trabalhadores urbanos e a outras
diversas manifestações de resistência que tiveram como palco a cidade. Na área
rural, os setores populares também se manifestaram de alguma forma.
No final do século XIX, entre 1895 e 1897, milhares de sertanejos liderados
por Antônio Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro , reuniram-se no interior
da Bahia, numa fazenda abandonada que deu origem ao povoado de Belo Monte
ou Arraial de Canudos .

Os revoltosos de
Canudos eram
uma ameaça aos
“coronéis”.

O que levava essa gente a se reunir em Canudos?


Entre outras razões certamente estavam a falta de perspectivas daqueles
homens e mulheres, num mundo rural dominado pelos “coronéis”, e as promes-
sas de salvação feitas por Conselheiro. Para ele, a República era a raiz dos males
que afligiam as populações sertanejas. Em Canudos, a propriedade era coletiva
e não eram pagos impostos ao governo.
O crescimento e a organização dessa comunidade foi aos poucos incomo- A U L A
dando os grandes proprietários rurais e o governo. Em 1897, forças militares
leais ao governo, após três tentativas fracassadas e contando com milhares de
homens, cercou o arraial, bombardeando-o durante horas seguidas. Seu líder foi 23
morto e a população de Canudos, dizimada. Foi sobre esse episódio que Euclides
da Cunha escreveu seu grande livro, Os Sertões .
Os problemas que impulsionaram Canudos e outros movimentos rurais não
tiveram como palco apenas o Nordeste. No sul do país, do início do século XX,
em torno da posse de uma região reclamada pelos estados de Santa Catarina e
do Paraná, ocorreu a Guerra do Contestado .
Na área contestada, rica em erva-mate e madeira, viviam milhares de
pessoas que cultivavam a terra, sem o título de propriedade. Eram posseiros. Por
volta de 1911, duas empresas estrangeiras, interessadas na construção de uma
ferrovia e na instalação de serrarias, passaram a ocupar as terras com o apoio do
governo e dos “coronéis”. Começava o processo de expulsão dos posseiros da
região. Separados de suas terras, rejeitados pela população das cidades, eles
perambulavam sem rumo pelo interior.
Nesse quadro, surgiram os “homens santos”, os “monges”, com os quais o
povo ia procurar a solução para os seus males. Um desses “monges”, que
atuavam também como curandeiros, era José Maria que dizia ser eleito por
Deus para construir, na Terra, um reino divino: a “Monarquia Celeste”.
O centro das tensões era a região de Taquaruçu, onde estavam os escritórios
de uma das empresas estrangeiras (Brazil Railway ). A partir de 1912, algumas
centenas de fiéis do “monge” José Maria fixaram-se ali, dando origem a uma
“aldeia sagrada”.
Logo começaram as perseguições e os ataques do Exército, da polícia e dos
jagunços dos “coronéis”, que obrigaram os fiéis a se dispersarem para o Irani,
outra região contestada.
A morte de José Maria pelas forças governamentais fez com que seus
seguidores se reunissem novamente em Taquaruçu. O grupo inicial de fiéis foi
crescendo, tomando grandes proporções. Os rebeldes passaram a adotar medi-
das mais radicais, como o incêndio de estações e serrarias das empresas na
região. Eles lutavam de forma muito violenta, como numa “guerra santa”, e
assustaram as autoridades civis e militares da época.
Os ataques das tropas oficiais se sucederam e, no final de 1915, a rebelião
sertaneja foi liquidada, restando apenas pequenos grupos esparsos. No ano
seguinte, o último de seus líderes caiu prisioneiro.

6
Todos esses movimentos ocorreram na República das Oligarquias, que se O tempo
mostrou incapaz de integrar os setores populares à vida política do país. não pára
A década de 1920 anunciaria tempos de crise da República Oligárquica. Mas,
apenas a partir da Revolução de 1930 seriam realizadas profundas reformas
políticas, econômicas e sociais, que tiveram como um dos seus principais
objetivos a incorporação das massas trabalhadoras ao projeto político do novo
governo.
Exercícios
A U L A Relendo o texto

23 Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no vocabulário da Unidade ou no dicionário.

1. Releia O s m o v i m e n t o s s o c i a i s u r b a n o s e M a s , a f i n a l , o q u e é s e r
anarquista? e responda: Quem eram os anarquistas? O que eles defen-
diam?

2. Releia A revolta da vacina e extraia do texto trechos que caracterizem a


cidade do Rio de Janeiro nos primeiros tempos da República.

3. Releia A revolta da vacina e Quem eram os revoltosos? e identifique os


setores sociais envolvidos na rebelião.

4. Releia Movimentos sociais rurais e extraia do texto o trecho que trata da


disputa pelas terras da Região do Contestado.

5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Reproduzimos, abaixo, parte do discurso de um líder da Revolta do Contes-


tado. Leia o documento com atenção e faça o que se pede.

Documento A
“ Vocês se acodem comigo para conseguir a cura de suas doenças,
uma idéia, um conselho para seus padecimentos. As autoridades
não fazem nada e não querem que ninguém faça (...) Eles têm
cobiça por terras, por gente, por amigos e por compadres. Os
mandões estão trazendo gente de lá de fora e dão tudo aos
estrangeiros (...) Os gaviões estão chegando e querem os pinti-
nhos. Aprontem-se que vai haver guerra feia. ”
Discurso do Monge José Maria, líder do Contestado,
citado na coleção Nosso Século , Vol. 2, pág. 21

1. Retire do texto as expressões utilizadas pelo monge José Maria que cor-
respondem aos seguintes agentes:

a) governo;

b) Brazil Railway;

c) coronéis;

d) sertanejos.

2. Tomando por base o texto da aula, explique o significado da frase: “ Eles têm
cobiça por terras” .
Agora leia com atenção o memorial de reclamações apresentado pelo A U L A
Comitê de Defesa Proletária (dos operários) durante a greve geral de 1917 e faça
o que se pede.
23
Documento B
“É o seguinte o memorial de reclamações apresentadas pelo Comitê
de Defesa Proletária e que o proletariado continua a sustentar.
Os representantes das ligas operárias, das corporações em greve e
das associações político-sociais que compõem o ‘Comitê’ de Defesa
Proletária, reunidos na noite de 11 de julho, depois de consultadas as
entidades de que fazem parte, expondo as aspirações não só da massa
operária em greve como as aspirações de toda a população angustiada
por prementes necessidades, considerando a insuficiência do Estado no
providenciar de outra forma que não seja pela repressão violenta,
tornam públicos os fins imediatos que a atual agitação se propõe,
formulando da maneira que segue as condições de trabalho que, oportu-
namente, serão examinadas nos seus detalhes:
1º Que sejam postas em liberdade todas as pessoas detidas por motivos
de greve;
2º Que seja respeitado do modo mais absoluto o direito de associação
para os trabalhadores;
3º Que nenhum operário seja dispensado por haver participado ativa
e ostensivamente no movimento grevista;
4º Que seja abolida de fato a exploração do trabalho dos menores de 14
anos nas fábricas, oficinas etc.;
5º Que os trabalhadores com menos de 18 anos não sejam ocupados em
trabalhos noturnos;
6º Que seja abolido o trabalho noturno das mulheres;
7º Aumento de 35% nos salários inferiores a 5$000 e de 25% para os
mais elevados;
8º Que o pagamento dos salários seja efetuado pontualmente, cada 15
dias e, o mais tardar, cinco dias após o vencimento;
9º Que seja garantido aos operários trabalho permanente;
10º Jornada de oito horas e semana inglesa;
11º Aumento de 50% em todo o trabalho extraordinário.
O ‘Comitê’ de Defesa Proletária crê haver encontrado o caminho
para uma solução honesta e possível. Esta solução terá, certamente, o
apoio de todos aqueles que não forem surdos aos protestos da fome. ”
“O que reclamam os operários”, A Plebe, nº 6, 21.7.1917, pág. 3 (AEL). Extraído
do livro A Classe Operária no Brasil 1889-1930 - Documentos, Vol. 1 (Org.
Paulo Sérgio Pinheiro e Michael Mall) Ed. Alfa Omega, SP, 1979.

1. Retire do documento as reclamações que dizem respeito ao tratamento


dispensado aos trabalhadores envolvidos em associações ou em movi-
mentos operários.

2. Destaque as principais reclamações relativas ao trabalho de mulheres e


crianças.

6
A UA UL L AA

24
24
MÓDULO 7
Anos 20, anos de crise

Apresentação A partir da década de 1920, muita coisa co-


do Módulo 7 meçou a mudar na República do Brasil. A marginalização política da maioria da
população, característica da República Oligárquica, era cada vez mais questio-
nada. Era cada vez mais difícil ignorar os novos atores, que insistiam em se fazer
presentes na cena política, assim como suas reivindicações.
Neste módulo vamos conhecer esses novos atores e os caminhos cheios de
conflitos que trilharam. Caminhos autoritários, que apenas em 1942 começariam
a ter seus rumos alterados.
Atores Apesar disso, entre 1920 e 1942, tanto os trabalhadores urbanos quanto seus
sociais ou direitos civis, sociais e políticos estiveram no centro das questões políticas
políticos: daquele tempo. Um tempo marcado pelo crescimento das cidades e da indústria,
indivíduos que pelo fortalecimento do Estado na figura do presidente Getúlio Vargas e pela
agem socialmente incorporação dos trabalhadores urbanos no jogo político.
ou politicamente,
interferindo nos
rumos da
sociedade.

A modernização
do país
prosseguia,
com indústrias
tocadas por
operários cada vez
mais politizados.
O Estado de Sítio era uma medida, prevista na Constituição de 1891, que Nesta
A U L aula
A
permitia ao governo federal (Poder Executivo) suspender quase todos os
direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros e aumentar seu próprio poder.
Para isso, era preciso a aprovação do Poder Legislativo (Câmara e Senado), 24
sempre que se considerasse a ordem pública fortemente ameaçada.
Boa parte dos anos 20 no Brasil, especialmente durante o governo do
presidente Artur Bernardes (1922-1926), foi vivida com o Estado de Sítio
decretado.
Nesta aula vamos tentar entender por que os anos 20 deste século são
lembrados como anos de crise .

Tempo de permanências e mudanças

Na década de 1920, novos personagens começavam a se fazer presentes no


cenário da nossa História e fariam entrar em crise a República Oligárquica e a
ordem constitucional de 1891.
Entretanto, a Constituição de 1891 permaneceu em vigor até 1930. Durante
a década de 1920 foram empossados na Presidência da República, sucessiva-
mente: Epitácio Pessoa (que governou de 1919 a 1922), Artur Bernardes (1922-
1926) e Washington Luís (1926-1930). Todos os três deram prosseguimento à
oolítica dos governadores .
Portanto, permanecia a política do café-com-leite (predomínio das oli-
garquias paulista e mineira), a preponderância dos grandes fazendeiros, em
especial dos cafeicultores paulistas, o coronelismo e a repressão às manifesta-
ções populares.
Além disso, a política econômica desses governantes estava tão direcionada
à proteção dos interesses cafeeiros que quase não se preocupava com o desen-
volvimento das outras atividades econômicas do país. Esse era o caso das
indústrias e das atividades agropecuárias, voltadas para o mercado interno, que
vinham ganhando importância com o crescimento das cidades.
Durante os anos 20, o governo sustentou, de forma permanente, os altos
lucros dos fazendeiros de café, comprando os excedentes do produto nos
negócios com o mercado externo.
Mas, apesar de tudo, a indústria seguia seu curso. Entre 1914 e 1918 ocorreu
uma grande guerra entre os países industrializados da Europa. Como os
interesses europeus se espalhavam por quase todo o mundo, essa guerra ficou
conhecida como Primeira Guerra Mundial.
Durante a guerra, e logo depois dela, ficou quase impossível importar
alguns artigos industrializados da Europa.
Sem a concorrência dos importados, as indústrias brasileiras começaram a
produzir novos artigos e a fabricar mais daqueles que já eram produzidos aqui,
fortalecendo bastante o crescimento industrial.

Crescem as cidades, surgem novos atores sociais

Com o crescimento urbano na década de 1920, vieram à cena dois importan-


tes grupos sociais: o dos empresários industriais e o do operariado urbano.
Desde o início do século, os interesses dos industriais de vários pontos do
país se articulavam no Centro Industrial do Brasil − CIB e no Centro das
Indústrias do Estado do Rio de Janeiro − CIERJ, até então os principais do país.
A U L A Durante os anos 20, aumentaram as associações entre os empresários das
indústrias. Eles perceberam, principalmente após a Primeira Guerra Mundial,

24 que era importante limitar, pela cobrança de impostos, a importação de produ-


tos industrializados concorrentes e, ao mesmo tempo, facilitar a compra no
exterior de máquinas e equipamentos para suas fábricas.
Nesse contexto, foi criado em 1928 o Centro das Indústrias do Estado de São
Paulo − CIESP , que teve atuação destacada na elaboração da política industrial
brasileira nos anos 30.
Também os operários se fizeram presentes, de forma diferente, na cena
política dos anos 10 e 20. Após as grandes greves de 1917 e 1918, intensificou-se
ainda mais a repressão policial sobre os sindicatos e os jornais operários,
especialmente aqueles de orientação anarquista.
Ao mesmo tempo, na década de 20, apareceram as primeiras tentativas do
governo para interferir nas relações de trabalho, com a elaboração de leis.
Datam dos anos 20 as primeiras leis sociais voltadas para o trabalhador ,
como a lei sobre acidentes de trabalho (1919); a lei Elói Chaves, sobre aposenta-
doria (1923); e a Lei de Férias (1926).
Era o reconhecimento de que a questão operária existia e de que os
movimentos dos trabalhadores produziam mudanças. Mas o governo não
pressionava para que as leis fossem colocadas em prática e os empresários
reagiam. Assim, tal legislação pouco alterou a situação da classe operária.
Além disso, na Europa, durante a Primeira Guerra Mundial, uma revolução
feita por operários e camponeses tomou o poder na Rússia em 1917. A chamada
Revolução Russa , liderada pelo Partido Comunista, teve influência nos movi-
mentos operários em todo o mundo.
No Brasil, o Partido Comunista foi criado em 1922 e, desde então, tornou-se
força importante no movimento operário brasileiro, junto dos anarquistas e
socialistas. No entanto, comunistas e socialistas tinham idéias diferentes das
idéias anarquistas sobre a importância dos partidos políticos e das eleições para
os interesses operários.
Em 1928, lideranças operárias, socialistas e comunistas, formaram o Bloco
Operário e Camponês, buscando influir nas eleições que se aproximavam.
Havia grupos de intelectuais que começavam a criticar a ordem oligárquica
dominante e que expressavam, pelas artes plásticas, música e literatura, seu
desejo de mudança. Esses grupos participaram do Movimento Modernista .
Em busca da alma do povo brasileiro, as teorias racistas começaram a perder
adeptos, bem como a imitação pura e simples de tudo que fosse europeu.
Outros intelectuais entendiam que o Brasil precisava de um Estado forte e
intervencionista (com muitos poderes para interferir na vida das pessoas).
Criticando o poder dos coronéis sobre o eleitorado rural e a política dos
governadores , esses intelectuais acreditavam que só um governo forte seria capaz
de guiar o povo e de resolver os problemas do país. A experiência da Primeira
República era, para eles, o melhor exemplo de falência da democracia liberal.
O descontentamento com a política da Primeira República atingia de forma
também marcante alguns grupos de militares do Exército brasileiro. Seus
oficiais, especialmente os mais jovens (os tenentes), lançaram-se num movimen-
to, conhecido como Tenentismo , que promoveu revoltas e rebeliões em vários
estados e cidades do país.
A Revolta do Forte de Copacabana , no Rio de Janeiro, em 1922, marcou
o início do Movimento Tenentista. Numa manifestação pelo cumprimento das
leis constitucionais e pelo fim da corrupção, dezenas de tenentes enfrentaram as
tropas do governo. Dezesseis deles foram mortos.
Dois anos depois (1924) ocorreu novo levante tenentista, desta vez em São A U L A
Paulo, seguido de revoltas em Minas Gerais, Sergipe, Pará e Rio Grande do Sul.
Todas foram sufocadas pelo governo.
Os revoltosos de São Paulo e do Rio Grande do Sul conseguiram fugir e 24
formaram a Coluna Prestes . A Coluna chegou a reunir entre 800 e 1.000
integrantes. Sob a liderança de Luís Carlos Prestes e Miguel Costa, seus
participantes percorreram, durante dois anos, cerca de 24 mil quilômetros pelo
interior do Brasil.
A Coluna Prestes esperava mobilizar a população para uma revolta militar
contra o governo, o que não aconteceu. Nem sempre os integrantes da Coluna
eram bem aceitos ou compreendidos pela população do interior. Tiveram de
enfrentar, também, os ataques das forças governistas e até mesmo dos capangas
dos coronéis. Mas, nas cidades, o prestígio dos revoltosos crescia. Luís Carlos
Prestes era chamado pelos jornais de “O Cavaleiro da Esperança”.

Luís Carlos
Prestes passou a
ser chamado de
“O Cavaleiro da
Esperança”.

Do descontentamento à crise política: a Revolução de 30

Final dos anos 20. O governo Washington Luís chegava ao fim de seu
mandato. Era hora de indicar o sucessor. Como determinava a política do café-
com-leite , era a vez de Minas Gerais indicar o Presidente da República. Porém,
o indicado por Washington Luís foi novamente um paulista − Júlio Prestes.
Era o rompimento entre Minas Gerais e São Paulo. Essa crise abriu espaço
para um candidato de oposição: o gaúcho Getúlio Dorneles Vargas, tendo como
vice o presidente do estado da Paraíba, João Pessoa. Getúlio Vargas e João Pessoa
foram apoiados pela Aliança Liberal , que reunia os partidos republicanos de
Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e da Paraíba.
A U L A O programa de governo da Aliança Liberal incluía o estabelecimento do voto
secreto, a Justiça Eleitoral e a anistia política. Com isso, ela conquistou a simpatia

24 da população das grandes cidades, bem como o apoio dos tenentes. A candida-
tura de Getúlio Vargas agradava também aos interesses das oligarquias ligadas
ao mercado interno, como os pecuaristas mineiros e gaúchos.
Apesar de todo o apoio obtido pela Aliança Liberal, foi mesmo o paulista
Júlio Prestes quem se elegeu, obtendo a maioria dos votos. Como era de costume,
os canditados a deputados em minoria (eleitos pela Aliança Liberal) não tiveram
suas eleições reconhecidas pelo Poder Legislativo.
Não satisfeito, Washington Luís ainda deu apoio à revolta do município de
Princesa, na Paraíba, contra o governo João Pessoa. O assassinato de João Pessoa
precipitou a crise.
A atitude do governo Washington Luís convenceu as oligarquias derrotadas
de que era preciso romper com a ordem constitucional. Antônio Carlos de
Andrada, presidente do estado de Minas Gerais, obteve apoio para a idéia com
as seguintes palavras: “é preciso fazer a revolução antes que o povo a faça ”.
Assim, no dia 3 de outubro de 1930, iniciou-se um movimento político-
militar para a derrubada do Governo.. Diante do crescimento do movimento em
todo país, o Alto Comando das Forças Armadas decidiu interferir e promoveu
a deposição de Washington Luís da Presidência da República.
No dia 23 daquele mesmo mês, Getúlio Vargas chegava ao Rio de Janeiro
como chefe do governo provisório.

O tempo Os acontecimentos que resultaram na queda de Washington Luís e na posse


não pára de Getúlio Vargas como Presidente da República ficaram conhecidos como a
Revolução de 30 . Com ela, rompia-se definitivamente a ordem constitucional
que vigorava desde 1891.
A Aliança Liberal reunia vários setores da sociedade brasileira, unidos pela
crítica à ordem oligárquica, mas bem diferentes entre si. Seria possível ao
governo revolucionário atender a interesses tão diferentes?
Relendo o texto Exercícios
A U L A

Leia novamente o texto desta aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure seu significado, no dicionário ou no vocabulário da Unidade. 24
1. Releia Tempo de permanências e mudanças e identifique uma caracte-
rística de continuidade e outra de mudança da década de 1920.

2. Releia Crescem as cidades, surgem novos atores sociais e identifique


dois novos atores sociais no cenário político dos anos 20.

3. Releia Do descontentamento à crise política: a Revolução de 30 e


reproduza o trecho que descreve o programa político da Aliança Liberal.

4. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Antônio Carlos de Andrada, presidente do estado de Minas Gerais, seria o


sucessor “natural” de Washington Luís, dentro da política do café-com-leite. No
entanto, esse político passou a fazer parte da Aliança Liberal.
E é dele a seguinte frase:

“ Façamos a Revolução, antes que o povo a faça.”

Agora, responda:

1. O que expressa a frase do presidente de Minas Gerais?

2. Por que o povo não deveria fazer a Revolução?

6
A UA UL L AA

25
25
MÓDULO 7
Cidadania: da década
de 1930 ao Estado Novo

Nesta aula O utubro de l930. Podia-se dizer, na época,


que os “gaúchos amarravam seus cavalos no obelisco da Avenida Rio Branco”,
centro do Rio de Janeiro. O poder começava a mudar de mãos. No dia 24 daquele
mês, a Junta Governativa, formada por três militares que haviam deposto o
presidente Washington Luís, entregou o poder a Getúlio Vargas.
No dia 3 de novembro, ao assumir a presidência, Getúlio prometia construir
“ uma pátria nova(...),onde todos os seus filhos sejam iguais” e dizia ainda que
“ a revolução que fizeram foi fruto da vontade do povo, que agora é senhor do seu
destino(...)”.
Pelas ondas das rádios, que funcionavam desde o início dos anos 20, o país
inteiro ouvia Getúlio. Um país cada vez mais urbano, industrial, diferente
daquele dos tempos da República Velha. Um país que aguardava do novo
governo a confirmação das promessas de democracia, liberdade e reformas
políticas e sociais.
Mas eram várias e diferentes as forças políticas que apoiavam o novo
presidente do governo provisório, Getúlio Vargas. A disputa entre essas dife-
rentes forças e seus respectivos projetos de organização social e política do país
são o tema da nossa aula.

Com Washington
Luís, praticamente
termina a
República Velha.
Do governo provisório à Constituição de l934 A U L A

Ao assumir o governo provisório da República, Getúlio Vargas tirou do


poder a oligarquia paulista, fechou o Congresso Nacional, as Assembléias 25
Legislativas estaduais e os partidos políticos; e destituiu os governadores,
nomeando para os estados gente de sua confiança − os interventores. Chegava
ao fim a ordem constitucional de 1891.
A estratégia política de Vargas procurava satisfazer tanto às lideranças
oligárquicas dos diversos estados que o apoiavam quanto aos tenentes, seus
principais aliados na vitória e na consolidação do movimento político-militar de
1930, que o colocaram no poder.
Os tenentes se diziam portadores das bandeiras da moralidade e das
reformas que as massas urbanas tanto desejavam. No entanto, viviam o dilema
de dividir o poder com os velhos políticos das oligarquias, muitos deles
“inimigos de véspera”. Os conflitos e as acomodações que envolviam os “Inimigos da
tenentes e as oligarquias marcaram os primeiros anos do governo provisório. véspera”: gente
Getúlio, por seu lado, tentava equilibrar cada uma das influências, aumen- que, antes, era
tando seu próprio poder. De fato, o que prevaleceu foi a tendência para o inimiga.
fortalecimento do Poder Executivo.
Desse modo, desde os primeiros atos do novo governo, começou a se
constituir um Estado forte e centralizado, cuja presença na vida da população foi
crescente. Um Estado que, ao se organizar, incorporava e dava novo sentido a
antigas reivindicações da sociedade civil.
Ainda em 1930 foram criados o Ministério do Trabalho, da Indústria e do
Comércio; e o da Educação e da Saúde Pública. A criação do Ministério do
Trabalho representava a tentativa do Estado de intervir de fato nas relações
trabalhistas. O governo regulamentou o trabalho feminino e do menor, bem
como a jornada de oito horas − antigas bandeiras de luta do movimento operário.

Getúlio Vargas
surge no cenário
político brasileiro
e ali permanece
durante três
décadas.

Com o tempo, algumas lideranças oligárquicas (de São Paulo, principal-


mente) passaram a defender a volta à normalidade política, com uma Assem-
bléia Constituinte livremente eleita pelo povo. Já os tenentes defendiam a
ditadura como única forma de realizar as reformas necessárias ao país.
Em São Paulo (que tinha um tenente como interventor), os antigos partidos
políticos descontentes formaram uma Frente Única , protestando contra as
manobras de Vargas e exigindo uma nova Constituição para o país.
A U L A

25

A Revolução de 30 Em resposta a essa pressão, em fevereiro de 1932, Vargas dava os primeiros


mostra o caminho passos para a volta da normalidade política, convocando eleições para uma
do Estado Novo, Assembléia Constituinte no ano seguinte. Foi aprovada uma Lei Eleitoral com
rompendo-se importantes medidas, como o voto secreto e obrigatório, a extensão do direito de
a chamada
república
voto para as mulheres e a criação da Justiça Eleitoral. O objetivo dessa lei era
oligárquica. acabar com os freqüentes abusos que ocorriam na República Velha.
As medidas não foram suficientes para impedir que estourasse, em São
Paulo, o movimento armado conhecido como Revolução Constitucionalista,
em 1932. Em três meses de combates, as forças federais derrotaram o movimen-
to. Mas Vargas sabia que apenas as eleições poderiam acalmar os ânimos.
No dia l5 de novembro de l933, começaram os trabalhos da Assembléia
Constituinte, que contava com 254 deputados. Entre eles havia uma única
mulher, eleita por São Paulo. Além dos deputados eleitos por sufrágio univer-
sal, a Assembléia contou com a presença de quarenta representantes classistas,
escolhidos por sindicatos de trabalhadores, de empresários, de profissionais
liberais, de funcionários públicos etc. Mas só os sindicatos organizados e
reconhecidos pelo Ministério do Trabalho tiveram direito a voto.
A nova Constituição foi promulgada em l4 de julho de l934, mantendo a
República Federativa e o regime presidencialista.
O texto constitucional refletia as disputas entre as diferentes forças políticas
da época. A Constituição confirmou o voto secreto e obrigatório para todos os
cidadãos alfabetizados − homens e mulheres − e tinha aspectos inovadores,
como a nacionalização das riquezas do subsolo e das quedas d’água. Na área
trabalhista, foram estabelecidas algumas medidas, como o salário mínimo , a
jornada de oito horas de trabalho e as férias anuais obrigatórias e remuneradas
(no entanto, as leis trabalhistas não eram aplicadas aos trabalhadores rurais).
Apesar da pressão governista, que lutava pela unidade sindical, ficou consagra-
da a pluralidade dos sindicatos e sua liberdade.
Logo após a aprovação da Constituição, Vargas foi eleito presidente da A U L A
República, de forma indireta, pela maioria dos constituintes, para um mandato
de quatro anos.
25
A radicalização do processo político:
integralistas e comunistas roubam a cena

Após a Primeira Guerra Mundial, a crise econômica na Europa fez crescer


os críticos dos antigos valores democráticos e liberais. Os partidos comunistas
acusavam a democracia liberal de injusta, pois ela reconhecia igualdade entre
desiguais, não defendendo os menos favorecidos. Mas, para deter o avanço do
comunismo, surgiam movimentos contra-revolucionários que acusavam a
democracia liberal de ineficiente. Por meio de regimes fortes, propunham
regular, pela força, as relações de classe dentro do capitalismo. Surgiram, assim,
o facismo na Itália e o nazismo na Alemanha.
O Brasil não ficou distante dessa situação internacional. A radicalização
política foi assumindo cores fortes: de um lado o verde-escuro do uniforme
integralista (fascista), de outro, o vermelho das bandeiras comunistas.
A Ação Integralista Brasileira − AIB, criada em outubro de l932, sob o
comando de Plínio Salgado, era inspirada no fascismo europeu e defendia o
fortalecimento do Estado e o autoritarismo. A crise financeira, o desemprego,
as revoltas operárias e as desigualdades sociais só seriam solucionadas com
um Estado forte, baseado num partido único: o partido integralista.
Tendo como lema “Deus, Pátria e Família”, os integralistas receberam apoio
de profissionais liberais, escritores, jornalistas, professores, altos funcionários,
estudantes e oficiais da Marinha e do Exército. Possuíam grande penetração nas
camadas médias e populares e também na juventude.
Em março de l935, foi criada a Aliança Nacional Libertadora − ANL, que
representou uma tentativa do Partido Comunista Brasileiro − PCB de organizar
uma ampla frente política que reunisse as diferentes tendências políticas
descontentes (inclusive as liberais), temerosas com o avanço dos integralistas no
governo Vargas.
A ANL expandiu-se rapidamente e, no meio do ano de l935, já possuía
milhares de núcleos espalhados pelo país. Como os integralistas, recrutava a
maior parte de seus adeptos nas classes médias urbanas, especialmente entre
militares, intelectuais, profissionais liberais e estudantes.
O governo Vargas continuava ignorando a Constituição. Em julho de l935,
a ANL foi considerada ilegal. Suas sedes em todo o país foram ocupadas pelas
forças policiais. O governo federal, sentindo-se ameaçado em seus planos
autoritários, reagia.
Na ilegalidade, a ANL − praticamente reduzida ao Partido Comunista −
partiu para a solução golpista. Em novembro de 1935, sob a liderança do antigo
tenente Luís Carlos Prestes, que acabara de ingressar no Partido Comunista,
organizou um levante em Natal, Recife e Rio de Janeiro: a Intentona Comunis-
ta , assim denominada pelos poderes oficiais.
Sem dispor da lealdade esperada dentro das Forças Armadas e sem bases
populares, o movimento foi derrotado pelo governo. Os comunistas fracassa-
ram em sua tentativa de tomar o poder. A repressão que se seguiu foi violenta.
Foi decretado o Estado de Sítio, que se manteve durante todo o ano de l936. A
Lei de Segurança Nacional foi aplicada: parlamentares foram presos e julgados;
sindicatos foram fechados e suas lideranças, perseguidas; militares e civis foram
A U L A presos e demitidos de suas funções públicas. A perseguição atingiu os liberais
e todos os setores da esquerda. Foi criado um Tribunal de Segurança Nacional

25 que julgava e condenava as pessoas denunciadas por subversão.

O golpe de 37 e o Estado Novo

Enquanto o governo desenvolvia a ação repressiva, teve início a campanha


para a sucessão presidencial. Foram lançadas as candidaturas de Armando de
Sales Oliveira (ex-governador de São Paulo) e de José Américo, teoricamente
candidato da situação, apoiado por Getúlio. Este, no entanto, pretendia continu-
ar no governo e se aproveitou do clima de apreensão e incertezas com a
“ameaça” comunista. Contando com o apoio do chefe do Estado-Maior do
Exército, general Góes Monteiro e do ministro da Guerra, general Eurico Gaspar
Dutra, o presidente preparou um golpe de Estado . Para isso, afastou todos
aqueles que eram contrários a ele, como os interventores que governavam os
estados do Rio Grande do Sul, da Bahia e de Pernambuco.
O pretexto para a realização do golpe foi a descoberta do chamado Plano
Cohen . Elaborado por elementos militares ligados ao governo e ao integralismo,
ele foi apresentado à Nação como um plano dos comunistas para derrubar o
governo. Cresciam as condições políticas para o golpe, que foi apoiado por boa
parcela das Forças Armadas. A democracia estava com seus dias contados.
Na manhã de l0 de novembro de 1937, o Exército cercou o Palácio Monroe,
no Rio de Janeiro, onde funcionava o Senado. Com o apoio das Forças Armadas,
Getúlio fechou o Congresso Nacional e extinguiu os partidos políticos. À noite,
pelo rádio, anunciou o novo Estado e uma nova Constituição para o país. O golpe
foi silencioso; seus opositores já tinham sido calados. Tinha início, naquele
momento, a ditadura do Estado Novo .
A nova Constituição foi outorgada, prevendo a realização de um plebiscito
para que o povo a julgasse. Caso fosse aprovada, uma nova estrutura de governo
e de representação popular deveria ser criada, diferente da antiga forma
(Câmara e Senado). A convocação do povo para esse ato nunca foi feita.
A Constituição de 1937 dava amplos poderes ao Executivo e ao presidente
da República. A carta constitucional acabou com a federação, com a autonomia
dos poderes e submeteu de vez os sindicatos ao controle do Estado.
Contando com um círculo pequeno de auxiliares civis e militares em alguns
postos chaves, Getúlio se empenhou em consolidar o Estado Novo. A vida
política do país, nesse período, foi intensamente dominada por sua presença.
Nascia o “pai dos pobres”.

6
O Estado Novo caracterizou-se pela consolidação de uma tendência à OA tempo
U L A
centralização política que se anunciava desde os anos 20 e que, ao longo do não pára
período, foi ganhando forma.
No Brasil, o Estado Novo foi a concretização desse caminho autoritário e 25
centralizador, em boa parte distante do jogo político tradicional e das forças
sociais. O novo regime aumentou a presença do poder público na economia, com
a legislação trabalhista, a criação de inúmeros órgãos de política econômica e as
primeiras empresas estatais, a exemplo da Companhia Siderúrgica Nacional.

Relendo o texto Exercícios


Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver seu significado, no vocabulário da Unidade ou no dicionário.
l. Releia Do governo provisório à Constituição de 1934 e identifique as
primeiras medidas de Getúlio ao assumir o governo provisório em 1930.
2. Releia Do governo provisório à Constituição de 19 193
3 4 e retire do texto
o trecho que trata das primeiras medidas do governo para regulamentar
as relações trabalhistas.
3. Releia Do governo provisório à Constituição de 1934 e identifique as
três inovações da Lei Eleitoral de l934.
4. Releia A radicalização do processo político... e explique o que era a
ANL e quais as razões de sua criação.
5. Releia O golpe de 37 e o Estado Novo e responda: o que foi o Plano
Cohen?
6. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

“ Nos períodos de crise, como o que atravessamos, a democracia de


partidos, em lugar de oferecer segura oportunidade de crescimen-
to e de progresso (...) ameaça a unidade pátria e põe em perigo a
existência da Nação (...) A organização constitucional de 1934,
vazada nos moldes clássicos do liberalismo e do sistema represen-
tativo evidenciara falhas lamentáveis... ”
Trechos da Proclamação ao povo brasileiro , lida por Getúlio Vargas e
irradiada para todo o país na noite de 10 de novembro de 1937.

Com esse discurso, Getúlio inaugurava o Estado Novo, que se implan-


tava contra a “democracia de partidos” ou o “sistema representativo”.
A partir deste documento e com base no texto desta aula, destaque
algumas características do sistema representativo na Constituição de 1934
que foram abolidas pela Constituição outorgada de 1937.

6
A UA UL L AA

26
26
MÓDULO 7
Crescimento urbano
e industrial dos anos 20
ao Estado Novo

Nesta aula O café foi o principal produto de exportação


durante a República Velha. Os cafeicultores detinham o controle da economia e
do governo. No entanto, a partir da Primeira Guerra Mundial (1914-1918),
enquanto a cafeicultura passava por dificuldades, a atividade industrial se
desenvolvia. Nesta aula vamos saber que modificações ocorreram na economia,
nos anos 20 e 30 e que fatores as determinaram.

Mudanças na economia

Você sabe quais são os setores da economia? São três: primário, secundário
e terciário. O setor primário é aquele que desenvolve atividades rurais e de
extração, destacando-se a agropecuária. O setor secundário é composto pelas
indústrias. Já o setor terciário reúne o comércio e a prestação de serviços.
Até o final da República Velha, o setor primário predominava na economia
brasileira. Café, borracha, açúcar, cacau e algodão, voltados para a exportação,
eram lucrativos, mas dependiam da situação econômica e financeira dos nossos
principais compradores: a Europa e os Estados Unidos.
O setor secundário, também dependente de países estrangeiros, ainda era
insignificante. Nossas indústrias limitavam-se à produção de bens de consumo
como alimentos, calçados e roupas. Para produzi-los, o país precisava importar
os bens de capital , que são as máquinas e os equipamentos necessários à
fabricação dos bens ou produtos para o consumo da população.
Para garantir a manutenção dos lucros dos fazendeiros de café, o governo
contraía empréstimos em outros países, para a compra da produção excedente.
Isso provocava a desvalorização da moeda e dificultava a compra, pela popula-
ção, de produtos importados.
Assim, a indústria nacional − principalmente a de alimentos e a de tecidos
− foi se desenvolvendo para atender ao mercado interno.
Durante a Primeira Guerra Mundial, o número de fábricas quase dobrou,
passando de 7 mil, em 1914, para 13 mil, em 1920.
Um dos fatores que contribuiram para o desenvolvimento industrial no
Brasil foi o rápido crescimento das cidades. O aumento da população nos centros
urbanos incentivou a procura de bens de consumo e, com isso, também
aumentou a necessidade de se conseguir mais matérias-primas, máquinas e
equipamentos para produzi-los.
Como vimos em outras aulas, o estímulo ao desenvolvimento industrial já A U L A
era uma tendência durante e após a Primeira Guerra Mundial, mas foi com a crise
de 1929 que a indústria brasileira começou a crescer.
26

O desenvolvimento
urbano trouxe
modernidades:
primeiro, o bonde
puxados por burros;
depois, o bonde
elétrico.

A crise econômico-financeira mundial de 1929

A crise econômica de 1929 resultou de um processo mundial de superpro-


dução industrial e agrícola, acompanhado de sérios problemas financeiros.
Iniciada nos Estados Unidos, ela atingiu, de forma altamente destrutiva, todo o
sistema capitalista.

Lei da oferta e da procura

Para compreender uma crise de superprodução, precisamos conhecer um


mecanismo básico da economia capitalista: a lei da oferta e da procura . Para
que a economia funcione normalmente, deve haver equilíbrio entre a quantida-
de de bens produzidos e a procura pelos consumidores. Quando há uma oferta
muito maior do que a procura, ocorre a superprodução. Apesar de haver uma
queda dos preços, a produção é tão grande que o mercado não tem condições de
consumir todos esses produtos. Com isso, a mercadoria fica “encalhada”,
provocando sérios problemas.
A crise econômica norte-americana − e, logo depois, a crise internacional −
tem várias explicações.
Durante a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos expandiram sua
produção para suprir os países em guerra, bem como os mercados periféricos
aos quais eles atendiam. Como entrou no conflito somente em 1917, e não sofreu
destruição por ataques em seu território, os Estados Unidos lucraram com a
guerra por causa das exportações, pelos empréstimos para a reconstrução da
Europa e, principalmente, pela conquista de novos mercados. Foi assim que
assumiram a liderança do mundo capitalista.
O Brasil, por exemplo, deixou de ser dependente da Inglaterra e passou
para a esfera de dominação norte-americana.
O grande desenvolvimento tecnológico, com máquinas cada vez mais
sofisticadas, resultou no aumento da produção e da acumulação de capital pelas
grandes empresas. Com máquinas que produziam mais, tornou-se desnecessá-
A U L A rio manter tantos operários e, por isso, aumentou o desemprego. Porém, as
empresas que não possuíam máquinas modernas produziam menos e vendiam

26 mais caro e, assim, acabaram falindo ou sendo compradas pelas maiores.


Por sua vez, as grandes empresas reinvestiram seus lucros no aumento da
produção até que, por causa do desemprego e da saturação do mercado, ocorreu
uma crise de superprodução, ou seja, as indústrias começaram a produzir mais
do que as pessoas conseguiam consumir.
Todo esse processo de superprodução industrial foi acompanhado de um
rápido crescimento agrícola, maior até que o crescimento industrial.
Falências, desemprego e diminuição do poder aquisitivo levaram o pânico
à sociedade norte-americana.
No dia 24 de outubro de 1929 ocorreu a quebra (crack, em inglês) da bolsa
de valores de Nova York (onde as ações das empresas eram negociadas). A crise
tornou-se total e arrastou todo o sistema capitalista.
Em conseqüência, a produção agrícola e industrial caiu em todo o mundo.
Os países industrializados diminuiram as importações e os empréstimos de
capital aos países dependentes, como o Brasil.

Para manter os
preços de
exportação das
sacas de café, o
governo comprava
tudo que
conseguia e...
queimava!

E a superprodução de café?

No Brasil, a produção de café ultrapassou o consumo mundial. Com a crise


de 29, os estoques ficaram encalhados, sem ter compradores. Isso elevou os
prejuízos de muitos cafeicultores e causou o desemprego de inúmeros colonos
que trabalhavam nas fazendas de café. Toda a economia agrícola voltada para
exportação foi atingida pela diminuição dos preços de produtos como o açúcar,
o cacau e o algodão, além do café.
Ao governo e aos empresários no Brasil, a crise de 29 revelou a fragilidade
de nossa economia agro-exportadora (baseada na agricultura para exportação)
e mostrou a necessidade de se favorecer o desenvolvimento da indústria
nacional e a diversificação da economia. A superação dessa crise se deu, no Brasil
e no mundo, pela crescente intervenção do Estado na economia.
Desenvolvimento industrial com ajuda e proteção do Governo A U L A

A crise de 29 abalou a estrutura econômica da República. A queda dos preços


do café, a retração do mercado externo e a diminuição dos empréstimos de 26
capitais determinaram, a partir da Revolução de 1930, a intervenção do Estado
como agente de equilíbrio e diversificação da economia.
Isso significa que a política econômica iniciada com a Revolução de 30 não
desprezou o poder e a influência das oligarquias cafeeiras. Não podemos
esquecer que o café era o principal produto de exportação. Porém, ao mesmo
tempo em que o Governo buscava soluções para o problemas do café, dava
atenção a outros produtos, como o açúcar, a borracha, o cacau, o leite, e adotava
uma política de incentivo à indústria nacional
A partir de 1930, e principalmente a partir de 1937, o governo Vargas lançou
as bases de um novo pacto político, que buscava conciliar os interesses dos
setores dominantes rurais (as oligarquias agrárias) com os interesses dos setores
dominantes urbanos (os empresários industriais), em nome de um projeto de
industrialização.
Para o Governo Vargas, era preciso promover a industrialização para
garantir a segurança nacional e o desenvolvimento econômico do país.
Assim, o Estado passou a proteger as atividades industriais com uma série
de medidas. Por exemplo: facilitou o fornecimento de empréstimos bancários às
indústrias, baixou os impostos sobre bens e equipamentos industriais e favore-
ceu a importação de combustíveis, máquinas e equipamentos de transporte.

O Estado empresário

Com a implantação do Estado Novo, em 1937, o Governo Vargas adotou


uma política econômica mais direta, criando algumas indústrias estatais de bens
de capital ou de “transformação” (ou seja, aquelas que transformam a matéria-
prima a ser utilizada na fabricação de produtos), a fim de criar a base necessária
ao desenvolvimento da indústria nacional.
A partir de 1941, com financiamento norte-american0, o governo foi inaugu-
rando sucessivamente a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Vale
do Rio Doce, a Companhia Nacional de Álcalis e a Fábrica Nacional de Motores.
Com o objetivo de criar a infra-estrutura necessária ao desenvolvimento
dessas e de outras indústrias, o governo aperfeiçoou o transporte marítimo para
trazer o carvão de Santa Catarina e equipou a Estrada de Ferro Central do Brasil
para transportar o minério extraído em Minas Gerais, onde passou a funcionar
a Companhia Vale do Rio Doce.
Outra medida importante foi a criação do Conselho Nacional de Petróleo
que passou a controlar a refinação e a distribuição de combustíveis.

6
De acordo com o que estudamos nesta aula, a industrializacão brasileira foi O tempo
uma meta de governo do presidente Getúlio Vargas (1930-1945). Nesse período, não pára
foram criadas as condições para a implantacão das indústrias de base, favorecen-
do a diversificação da produção industrial. Esse processo continuaria nos anos
seguintes. Mas, apenas nos anos 50, o Brasil deixaria efetivamente de ser um país
agrário, tornando-se predominantemente urbano e industrial.
Exercícios
A U L A Relendo o texto

26 Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade.

1. Releia Mudanças na economia e diga o que significa:


a) indústrias de bens de consumo;
b) indústrias de bens de capital;

2. Releia A crise econômico financeira mundial de 1929 e faça o que se pede:


a) sublinhe a frase que define o que vem a ser crise de superproducão.
b) faça um círculo ao redor do parágrafo que explica o que aconteceu com
a produção do café brasileiro, após a crise de 1929.
c) extraia do texto a frase que demonstra o que a situação decorrente da crise
de 1929 revelou ao governo e aos empresários brasileiros.

3. Releia Desenvolvimento industrial com ajuda e proteção do Governo e


diga quais foram as medidas que o governo Vargas tomou, a partir de 1930,
com o objetivo de proteger a indústria nacional.

4. Releia O Estado empresário e diga quais as indústrias criadas pelo governo


Vargas, após a implantação do Estado Novo.

5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

“ Já não somos um país exclusivamente agrário. Não vamos continuar


esmagados pelo peso das compras de produtos industriais no exterior!
Ferro, carvão e petróleo são a base da emancipação econômica de
qualquer país. Produziremos tudo isso e muito mais.”

Esse trecho de um discurso do presidente Getúlio Vargas fala sobre uma


importante meta de seu governo: a industrialização do país. Freqüentemente
os discursos do presidente Vargas falavam da necessidade de tornar a nossa
economia independente das exportações. Sobre o assunto, responda:

1. De acordo com o discurso do presidente Vargas, qual era o peso que esma-
gava a economia brasileira?

2. De acordo com o discurso do presidente Vargas, que produtos constituíam


a base da emancipacão, quer dizer, da libertação econômica de um país?

3. Qual era o projeto econômico do presidente Vargas para o Brasil?

6
AUU
A L AL A

27
27
MÓDULO 7
Arte e cultura
(1920-1942)

C omo já vimos, o debate intelectual e as


manifestações artísticas, a partir da década de 1920, preocupavam-se em revelar
Nesta aula
para as elites o rosto e a alma do povo brasileiro. Essa tendência representava
uma crítica à república oligárquica que sempre desprezara o povo brasileiro,
não reconhecendo seus protestos e seus direitos.
Conhecer o que se conseguiu revelar sobre o povo brasileiro e quais foram
as novas formas de relacionamento entre Estado e povo, estabelecidas durante
o período 1920-1942, constituem os objetivos desta aula.

A Semana de Arte Moderna: o Brasil como obra de arte

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) provocou um forte impacto sobre


os intelectuais brasileiros, mudando a maneira de se pensar o Brasil. Ao final
dessa guerra, a destruição da Europa revelou a fraqueza da civilização que os
intelectuais brasileiros da Pri-
meira República queriam se-
guir como modelo.
Restava, portanto, voltar
os olhos para nossas próprias
raízes. A vergonha que se ti-
nha do povo brasileiro, por
não ser como o povo europeu,
passou a ser questionada. O
modelo europeu, que antes
era tido como perfeito, reve-
lara-se frágil e decadente.

Com as privações
da Primeira
Guerra Mundial,
o Brasil aumentou
seu parque
industrial.
A U L A A intelectualidade brasileira promoveu, em 1922, em São Paulo, a Semana
de Arte Moderna . Expondo quadros, recitando poesias, fazendo apresentações

27 musicais etc., os artistas participantes revelaram ao público que era possível


fazer uma arte moderna (e, portanto, em dia com as novas tendências européias)
verdadeiramente nacional. Com esse espírito, os modernistas trouxeram temáticas
nacionais para o centro de suas obras, valorizando o povo brasileiro.
A Semana de 22 foi um escândalo, pois rompeu com velhas fórmulas a que
todos estavam acostumados, modificando a linguagem, as formas de expressão
visual, o gosto musical, contestando todas as regras existentes. O poeta Oswald
de Andrade, por exemplo, se recusava a usar a linguagem pomposa, apreciada
pela elite, adotando uma linguagem simples, cheia de gírias e expressões
populares, como podemos ver neste poema:

No Baile da Corte
Foi o Conde d‘Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de suri
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê, bebê, pitá e caí.

A Semana de 22 contribuiu para que a arte brasileira ganhasse característi-


cas próprias, mostrando cenas típicas da paisagem e do povo brasileiro. Assim,
enquanto Cândido Portinari pintava cenas dos retirantes da seca, Di Cavalcanti
retratava as mulatas brasileiras e Tarsila do Amaral mostrava os rostos da classe
operária em frente às chaminés da grande indústria (ver Volume 1, pág. 84 ).

Mulata com gato


preto, quadro de
Di Cavalcanti.
A literatura buscava nossas raízes históricas. O índio, o caipira, o negro, os A U L A
trabalhadores do campo e da cidade passaram a ocupar o primeiro plano dos
romances publicados pelos modernistas. Foi assim com o personagem que deu
nome ao livro de Mário de Andrade, Macunaíma , publicado em 1928. 27
Macunaíma representava a síntese do Brasil: nasce negro, mas se comporta
como índio e, em determinado momento de sua história, torna-se branco por
efeito de magia. Viajando por diversas regiões do Brasil, Macunaíma consegue
adaptar-se a todos os hábitos (do norte e do sul, do campo e da cidade).
Apresentando-se como a mistura de todos os elementos do povo brasileiro,
Macunaíma encarna o herói (ou anti-herói) nacional, ou seja : o homem comum.

Batizado de
Macunaíma,
quadro de Tarsila
do Amaral.

Outros escritores chamaram a atenção para os graves problemas nacionais.


O baiano Jorge Amado publicou livros enfatizando a vida dos pescadores e dos
plantadores de cacau ou dos meninos de rua de Salvador. Merece destaque a
obra de Graciliano Ramos, Vidas Secas , publicada em 1938. O livro relata a dura
vida do sertanejo nordestino, maltratado pela seca e pela falta de perspectivas.
Durante aqueles anos, como definia Oswald de Andrade, “Tupy or not
Tupy”, ou seja, “ser ou não ser brasileiro” era a grande questão. Conhecer o
brasileiro comum e com ele se identificar estava no centro das preocupações dos
intelectuais. Desistia-se de tentar ser “europeu”.
Assim, a agitação intelectual que marcou o período foi algo mais do que um
simples movimento de idéias. Ela foi também um movimento político que
contestava o velho governo e as velhas regras que predominaram até os anos 20,
contribuindo para reforçar o sentimento de urgência, de crítica à omissão do
Estado na solução dos problemas nacionais.

Intelectuais, foliões e sambistas no contexto da Revolução de 30

A Revolução de 30 representou, para essa elite intelectual, a oportunidade


de ampliar sua participação na vida política brasileira. Atento a toda essa
movimentação, o chefe de governo recém-empossado, Getúlio Vargas, aproxi-
mou-se desses intelectuais e incorporou muitos deles ao seu governo, dando-
A U L A

27

Tropica
Tropicall , quadro
de Anita Malfati.

lhes importantes cargos na administração pública. E Vargas procurou manter


sob seu controle as demais manifestações culturais da população brasileira, a fim
de facilitar uma maior aproximação de seu governo com as camadas populares.
Um bom exemplo disso foi a oficialização do carnaval.
Desde o século XVIII, quando foi introduzido no Brasil, o carnaval era uma
das mais importantes manifestações culturais do povo brasileiro. Até 1930, o
Estado não se intrometia nos três dias de festa, embora as escolas de samba não
tivessem obtido da polícia, até 1933, licença para realizar seus desfiles. Durante
o governo Vargas, essa situação foi modificada com a criação dos departamentos
de turismo nos estados.
A partir de 1933, o carnaval da cidade do Rio de Janeiro passou a ser
programado pela Prefeitura, em seu Departamento de Turismo. Esse órgão
ficava responsável pela organização dos desfiles de corso, ranchos e blocos,
pelas batalhas de confete, pelos bailes e pelos banhos de mar à fantasia.
Como resultado dessa medida, ao longo dos anos 30, um novo espetáculo
do carnaval carioca foi ganhando forma: o desfile das escolas de samba. No go-
verno Vargas, essas agremiações representaram importante canal de comunica-
ção com as camadas pobres. Tanto que, em 1933, diante da ameaça de despejo
de 7 mil moradores do morro do Salgueiro, a escola azul e branca chefiou a luta,
intercedendo junto ao governo, que deu ganho de causa aos moradores.
Pouco a pouco, o samba foi ganhando destaque no cenário musical. O
aumento do número de estações de rádio e a difusão das gravações em disco
contribuíram de forma decisiva, desde os anos 20, para o sucesso de artistas que
vinham das camadas populares urbanas. Nos anos 30, alguns músicos já eram
ídolos populares, entre eles, Noel Rosa, Francisco Alves, Vicente Celestino,
Carmem Miranda e Araci de Almeida, além de Orlando Dias, conhecido como
o “cantor das multidões”.

Censura e propaganda: a política cultural do Estado Novo

Desde 1937, com o estabelecimento do Estado Novo, o governo Vargas


passou a controlar a produção cultural brasileira. Tudo aquilo que o governo
considerava prejudicial à sua imagem era censurado. Mas divulgou e até
oficializou as manifestações culturais que podiam legitimar o governo e promo-
ver sua aproximação com a população.
Para atingir tal objetivo, o governo criou o Departamento de Imprensa e A U L A
Propaganda, o DIP, com a função de controlar os meios de comunicação e as
manifestações populares, além de promover manifestações culturais com o
patrocínio do Estado. Entre as ações do DIP destaca-se a censura a jornais, livros 27
e músicas considerados prejudiciais ao governo.
No rádio, foi criada a Hora do Brasil , que passou a transmitir diariamente,
das 19 às 20 horas, notícias sobre as realizações do governo. Para firmar uma
imagem favorável perante a população, o Estado Novo criou o Dia da Música
Popular Brasileira (3 de janeiro). Nesse dia, músicos de destaque (que não
tinham suas músicas censuradas) eram chamados para participar das comemo-
rações promovidas pelo governo. Na década de 1930, o rádio já era um fenômeno
de massa, cujas informações alcançavam a mais ampla divulgação, o que
justificou a intervenção do governo nesse veículo de comunicação.
Com relação à política educacional, o governo Vargas ampliou a rede
pública de ensino, criando os cursos secundários e os profissionalizantes. Datam
dessa época, também, as primeiras universidades: Universidade de São Paulo
(USP), estadual, e a Universidade do Distrito Federal (UDF), federal, que se
transformaria na Universidade do Brasil.
A nova rede de escolas era controlada diretamente pelo Ministério da
Educação e da Saúde, que determinava que o ensino fosse feito em língua
portuguesa e obedecesse aos currículos elaborados para todo o país.
Complementando essas medidas foi organizada a Comissão Nacional do
Livro Escolar, com o objetivo de editar livros didáticos e de censurar aqueles que
expressavam “pessimismo ou dúvida quanto ao futuro da raça brasileira”. A
educação física e o canto orfeônico tornaram-se obrigátorios em todas as escolas
do país. Tais medidas permitiram que as datas cívicas, como os dias da
Independência, do trabalho, da proclamação da República, da bandeira etc.,
passassem a ser comemorados com grandes desfiles, animados por corais e
espetáculos coreográficos, que exaltavam a “grandeza” do Estado Novo.

À medida que se agravava a crise da república oligárquica , os intelectuais O tempo


foram ganhando cada vez mais importância no cenário nacional, contribuindo não pára
com suas idéias e, ao mesmo tempo, atuando junto ao Estado nas novas
instituições que se criavam. A partir da Revolução de 30, a presença dos
intelectuais na esfera do poder político tornou-se cada vez mais intensa. Por sua
vez, o processo de centralização política e de intervenção do Estado em todos os
setores da vida nacional, inclusive no campo cultural e intelectual, atingiu o auge
com a implantação do Estado Novo em 1937.
Como veremos em aulas posteriores, novas transformações políticas, como
a redemocratização do país, aliadas a outros acontecimentos, como o surgimento
da televisão, iriam provocar mudanças profundas no quadro cultural brasileiro.
Exercícios
A U L A Relendo o texto

27 Releia o texto da aula e procure as palavras que você não entendeu, no


vocabulário da Unidade ou no dicionário.

1. Releia a poesia de Oswald de Andrade, (em A Semana de Arte Moderna :


o Brasil como obra de arte ) e procure concluir por que a elite paulista
ficou escandalizada com aquela linguagem.

2. Dentre os livros publicados nas décadas de 1920 e 1930 (citados em A Se-


mana de Arte Moderna de 1922... ) selecione aquele cujo assunto você
considera mais interessante. Justifique sua resposta.

3. Retire do texto de Intelectuais, foliões e sambistas no contexto da Re-


volução de 30 o trecho que revela o motivo do interesse do governo Vargas
em oficializar o carnaval.

4. Retire do texto de Censura e propaganda: a política cultural do Estado


Novo as atividades mais perseguidas pela censura do Departamento de
Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo.

5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Tupy or not Tupy


Eis a questão

Estes versos de Oswald de Andrade fazem uma paródia (uma imitação


engraçada) de um famoso verso do escritor inglês William Shakespeare: To
be or not to be/This is the question (que se lê mais ou menos assim: “tu bi
or not tu bi/dis is de qüéstion”; e quer dizer: “Ser ou não ser/Eis a questão”).
O nome “tupy” identifica um dos povos indígenas nativos do Brasil −
aquele que habitava o litoral na época da chegada dos portugueses. O que
você acha que o escritor modernista queria dizer com esses versos?

6
AUU
A L AL A

28
28
Estado e sociedade MÓDULO 7

(1920-1942)

A década de 30 caracterizou-se por uma mu-


dança nas relações entre o Estado, as classes trabalhadoras e os empresários.
Nesta aula
O Estado, atuando como árbitro das questões que envolviam patrões e
empregados, aprovou várias leis trabalhistas que se consolidaram como
direitos sociais conquistados pelos trabalhadores, mas nem sempre eram
plenamente aceitos pelos empresários.
Nesta aula vamos buscar compreender as mudanças que ocorreram nas
relações entre Estado, empresários e trabalhadores, nesse período marcado pela
implantação do corporativismo sindical.

Em busca do pacto social: 1930-1935

As classes trabalhadoras receberam a vitória da Revolução de 30 com


esperançosa alegria. O novo governo se propunha a realizar as reformas
econômicas, sociais e políticas necessárias ao país. Para Getúlio Vargas, os
problemas morais e materiais da vida moderna exigiam a ação do Estado,
“ obrigando-o a intervir mais diretamente como órgão de coordenação e dire-
ção ” na vida econômica e social.
A partir da Revolução de 30, podemos dividir em duas fases a ação do Estado
em relação às classes trabalhadoras. A primeira fase, de 1930 a 1935, caracteri-
zou-se por ampla atividade legislativa e pela reformulação de pontos importan-
tes da legislação. A segunda fase, de 1935 a 1942, foi marcada pela repressão,
associada ao processo de integração dos sindicatos ao Estado.
A criação do Ministério do Trabalho, em novembro de 1930, foi o primeiro
sinal do novo governo para demonstrar que encarava a questão social de
maneira diferente. Os órgãos de representação operária, que até 1930 tiveram
vida e organização autônomas, passaram a ser regulamentados pela nova
legislação sindical.
Em março de 1931, a Lei de Sindicalização regulamentou os sindicatos
patronais e operários e definiu o sindicato como órgão consultivo e de colabo-
ração com o poder público . Com ela surgiram os representantes do Ministério
com a função de assistir às assembléias e examinar as finanças das organizações.
Para receber os benefícios da legislação social era preciso que os sindicatos
fossem reconhecidos pelo Ministério. Por isso, com o objetivo de combater os
sindicatos independentes, o Estado tentou trazer as associações operárias para
A U L A perto dele. Vieram as reações dos trabalhadores e do meio empresarial. Em 1931,
apenas 39 sindicatos de trabalhadores encontravam-se reconhecidos em todo o

28 país. No ano seguinte, o número subiu para 116. Mas esses números eram
pequenos se comparados ao número de sindicatos existentes. Assim, as organi-
zações independentes resistiram, denunciaram, mas também fizeram greves
exigindo que os patrões cumprissem os direitos sociais.
O ano de 1933 trouxe algumas mudanças. A repressão aos sindicatos
diminuiu. Paralelamente, o governo regulamentou a Lei de Férias e instituiu a
carteira profissional (1932). Esse documento passou a ser necessário tanto para
a associação em um sindicato quanto para o direito de férias e a apresentação de
queixas ao Ministério. Tratava-se de um instrumento de controle, mas também
de uma garantia dos direitos. As antigas carteiras emitidas pelos sindicatos
deixaram de ter validade.

O operariado se
unia em seus
poderosos
sindicatos

Os comunistas, mesmo atuando no interior dos sindicatos ligados ao


Ministério, procuravam sustentar a política independente da classe operária,
tentando manter sua autonomia a todo custo. Aproveitando-se do clima de
“abertura”, gerado pela convocação da Assembléia Constituinte, conseguiram
eleger um representante ligado ao Partido Comunista Brasileiro.
Os empresários industriais tiveram no período 1930-32 uma posição hostil
em relação ao Governo, que aos poucos foi se transformando em apoio.
Desde 1933, a tendência dominante passou a ser a aproximação com o
Governo, principalmente por intermédio da Federação das Indústrias do Estado
de São Paulo − FIESP, apoiada pela Confederação Nacional da Indústria − CNI
e pela Federação das Indústrias de Minas Gerais − FIMG. No período 1933-34,
em São Paulo, a sindicalização das classes patronais cresceu bastante.
Além disso, a FIESP era permanentemente consultada pelo Ministério do
Trabalho para fornecer auxílio aos anteprojetos de leis sociais. Nesse processo,
era comum a atuação do patronato no sentido de atrasar ao máximo a regula-
mentação de algumas leis. A reforma da Lei de Acidentes do Trabalho, prevendo
indenizações, por exemplo, levou alguns anos até ser regulamentada em 1935.
O mesmo aconteceu com a Lei de Férias.
Ao mesmo tempo em que aderiam à estrutura sindical corporativa oficial, A U L A
os industriais buscavam influenciar a política econômica do governo. A partici-
pação de empresários em institutos, comissões e conselhos criados pelo governo
foram exemplos dessa tentativa. 28
A Constituição aprovada em julho de 1934 confirmou o espírito corpora-
tivista até então adotado, prevendo a regulamentação de todas as profissões.
Foram estabelecidas diversas medidas, tais como o salário mínimo, a jornada de
oito horas, férias anuais e a Justiça do Trabalho. O direito de greve, no entanto,
não foi reconhecido. Consagraram-se, entretanto, os princípios do pluralismo e
da autonomia sindical, contrários à política governamental, mas que atendiam
às pressões do patronato.
Em oposição ao espírito que orientou os trabalhos na Assembléia Consti-
tuinte, um decreto do Governo reafirmou a vinculação dos sindicatos ao
Ministério do Trabalho.
O pluralismo sindical foi limitado pela lei, que o tornava praticamente
inviável. Além disso, muitas correntes do movimento operário eram contra o
pluralismo, pois achavam que isso dividia suas lutas e reivindicações.
Deste modo, mesmo com a aprovação da Constituição, a tendência
centralizadora do governo aumentou. O poder central passou a desenvolver
uma ação cada vez mais repressiva, embora na própria Constituição estivesse
escrito que o Estado era democrático.
Foram feitas intervenções nos sindicatos que reivindicaram ou organizaram
greves, com invasão policial e destruição das sedes, espancamentos e prisões.
Na Câmara dos Deputados, as arbitrariedades da polícia eram denunciadas por
algumas lideranças.
A repressão do Ministério do Trabalho, que atuava junto com a polícia, dava
cores mais fortes à situação. Ao mesmo tempo, as manifestações e os choques
violentos entre militantes integralistas e comunistas indicavam o grau de
mobilização e radicalização política da época.

Tempos de silêncio: 1935 - 1942

Em abril de 1935, o Governo lançou a Lei de Segurança Nacional, definindo


os crimes contra a ordem política e social. Somado a isso, o fechamento da
Aliança Nacional Libertadora (ANL) e o fracasso da Intentona Comunista, em
novembro, tornaram a repressão implacável e a resistência quase impossível.
Em setembro de 1936, com a criação do Tribunal de Segurança Nacional,
ligado à Justiça Militar, prisões se sucederam, sindicatos foram devassados. As
direções suspeitas foram cassadas e os sindicatos independentes, definitiva-
mente fechados. Ao mesmo tempo, o Ministério do Trabalho criou o Estatuto
Padrão que estabeleceu um único modelo de vida associativa dos sindicatos.
Em 1935, inaugurou-se um novo quadro nas relações entre o Estado e as
classes trabalhadoras. A questão social passou a ser definida como uma
questão de segurança nacional . O alvo maior do discurso oficial acusatório
foram os comunistas. A ação independente dos sindicatos tornou-se impossível.
Um longo período de silêncio iniciou-se em 1935, reforçou-se em 1937 com
o Estado Novo, e estendeu-se até 1942.
Durante o Estado Novo, em julho de 1939, o Governo estabeleceu uma nova
lei de sindicalização, aumentando o controle ministerial. Ao mesmo tempo, o
Estatuto Padrão foi aperfeiçoado e, com ele, o Ministério passou a ter total
controle financeiro dos sindicatos e o poder de administrá-los.
A U L A No ano seguinte, era lançado o decreto que criou o Imposto Sindical ,
estabelecendo que todo empregado, sindicalizado ou não, pagaria obrigatoria-

28 mente um imposto sindical anual ao seu sindicato, no valor de um dia de


trabalho. Esses recursos gigantescos seriam utilizados para tornar os sindicatos
atrativos para a maioria teoricamente representada por eles, oferecendo diver-
sos serviços como cooperativas de crédito e de consumo, escolas, assistência
médica, entre outros benefícios.
Depois de controlados os sindicatos, o governo partiu para uma nova ação
legislativa, que incluiu a regulamentação do salário mínimo e da Justiça do
Trabalho. Toda essa legislação seria reunida, em 1943, na Consolidação das Leis
do Trabalho (CLT).

O tempo O Estado brasileiro pós-1930 buscou, com as leis sociais, o estabelecimento


não pára de um pacto que se traduzia num acordo em que os trabalhadores trocavam os
benefícios da legislação por obediência política e adesão à proposta oficial. O
acesso aos direitos sociais só era permitido aos trabalhadores legalmente
sindicalizados. Esta era uma condição para a cidadania.
No entanto, os trabalhadores e suas lideranças colocaram-se como elemen-
tos a serem levados em conta no jogo político. Reivindicaram outras formas de
cidadania, resistindo ao corporativismo, nas ruas e nos sindicatos, e lutando, ao
mesmo tempo, dentro dos sindicatos legais vinculados ao Ministério.
O Estado pós-1930, utilizando-se da repressão e do silêncio forçado a partir
de 1935, garantiu − apesar de tudo − direitos sociais que atenderam a algumas
das antigas reivindicações do movimento operário. Esses direitos abriram
caminho para uma nova relação entre Estado e classe trabalhadora a partir de
1942. Mas isso é assunto para nossas próximas aulas.

Exercícios Relendo o texto

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no vocabulário da Unidade e no dicionário.

1. Releia Em busca do pacto social: 1930-1935 e identifique o que a Cons-


tituição de 1934 estabeleceu com relação à legislação trabalhista.

2. Releia Em busca do pacto social: 1930-1935 e responda: Qual a condição


estabelecida pelo governo para que os trabalhadores se beneficiassem da
legislação social?
3. Releia Em busca do pacto social: 1930-1935 e sublinhe o trecho que trata A U L A
da função da carteira profissional para os trabalhadores.

4. Releia Tempos de silêncio: 1935 - 1942 e identifique duas características 28


da relação Estado-classes trabalhadoras nesse período.

5. Releia T e m p o s d e s i l ê n c i o : 1 9 3 5 - 1 9 4 2 e explique o que é o Imposto


Sindical.

6. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Leia este documento com atenção:

Exposição de Motivos que acompanhou a Lei de Sindicalização


Decreto N º 19.770, de 19/03/31.
“Com a criação dos sindicatos profissionais moldados em regras
uniformes e precisas, dá-se às aspirações dos trabalhadores e às
necessidades dos patrões expressão legal normal e autorizada. O
arbítrio, tanto de uns como de outros, gera a desconfiança, é causa
de descontentamento, produz atritos que estalam em greves e
lockouts. Os Sindicatos ou Associações de Classe serão os pára- Lockout:
choques dessas tendências antagônicas. Os salários mínimos, os palavra de origem
regimes e as horas de trabalho serão assuntos de sua prerrogativa inglesa, que
imediata, sob as vistas cautelosas do Estado”. significa
“coligação de
Este é um trecho da “Exposição de Motivos” em que o Ministro do patrões que, em
Trabalho procurava justificar a necessidade da Lei de Sindicalização, que resposta à ameaça
estabelecia um enquadramento da organização e da vida sindical no Estado. de greve dos
funcionários,
1. De acordo com esse documento, quais eram os motivos das greves e lock- fecham seus
outs? estabelecimentos”.

2. Como a Lei de Sindicalização definiu os Sindicatos?

3. De acordo comesse documento, quem deveria atuar como árbitro das


questões entre trabalhadores e empresários?

6
A UA UL L AA

29
29
MÓDULO 8
Da vida à História

Apresentação E stamos começando o estudo de mais um


do Módulo 8 período de nossa história recente. Entre 1942 e 1961, o Brasil viveu anos de crise,
especialmente crises políticas: a renúncia de Getúlio Vargas e o fim do Estado
Novo (1945), o suicídio de Vargas (1954), os levantes militares contra a posse de
Juscelino Kubitschek (1955).
Mas foram também anos de crença e de esperança. Esperança no petróleo,
que era nosso, nas cantoras do rádio, que uniam corações de norte a sul, no
progresso de cinqüenta anos em cinco.
Foi, antes de mais nada, um tempo no qual os partidos políticos e a
democracia representativa, pela primeira vez, responderam de fato pelo jogo
político. Pode-se dizer que, tanto as crises políticas quanto a esperança surgiram,
de certo modo, da vivência política dessa novidade.
Anos de crise, anos de crença. Vamos a eles.

6
Nesta aula Nesta aula vamos estudar as relações entre o governo e a sociedade da crise
do Estado Novo até o final do segundo governo Vargas (1942-1954). Vamos
tentar compreender como foi construída a popularidade de Getúlio Vargas, que,
mesmo à frente de dois golpes de Estado (em 1930 e 1937) e da ditadura do
Estado Novo (1937 a 1945), da qual foi deposto, acabou chegando à Presidência
em 1950, com maioria absoluta de votos − em eleições livres. Vamos conhecer
também as redefinições legais da cidadania brasileira ocorridas nesse período,
a partir da elaboração de uma nova constituição em 1946.

O mundo em guerra

A Segunda Guerra Mundial foi um conflito armado de grandes proporções,


maiores ainda que a Primeira Guerra Mundial, e durou de 1939 a 1945. Seu início
ocorreu a partir de ações expansionistas por parte da Alemanha, governada por
Adolf Hitler, sobre países da Europa. Em agosto de 1939, Hitler firmou o Pacto
de Não-Agressão com a União Soviética, preparando o ataque alemão à Polônia
no mês seguinte. Esse fato, provocou a reação imediata da Inglaterra e da França, A U L A
que declararam guerra à Alemanha. Mais tarde, a União Soviética também se
apossaria da parte oriental da Polônia.
Em 1940, a Itália entra no conflito ao lado da Alemanha, e o Japão junta-se 29
a essas duas nações, formando a aliança conhecida como Eixo . Os países do Eixo
tinham em comum governos fortes, centralizados e autoritários.
No caso da Alemanha, o pensamento político do governo, além de totalitário
(pois pretendia controlar não apenas as ações mas também as opiniões e
convicções de todos os alemães), tinha um caráter racista, especialmente em
relação aos judeus, e ficou conhecido como nazismo . Na Itália, governada por
Mussolini, esse conteúdo totalitário do pensamento político dominante mani-
festou-se no fascismo . Por tal razão, há referências à Segunda Guerrra Mundial
como sendo a luta contra o nazi-fascismo .
Os Estados Unidos entraram na guerra ao lado da Inglaterra e da França e
formou-se assim o grupo dos Aliados , a partir de 1941. A guerra assumiu,
então, um caráter de luta contra o totalitarismo e pela liberdade .
No mesmo ano, a invasão da União Soviética pela Alemanha modificou o
panorama da guerra. A partir da agressão alemã, a União Soviética se aproxi-
mou dos países Aliados, o que, a curto prazo, representou um dos acontecimen-
tos que levariam à derrota dos países do Eixo.
O Brasil havia se declarado neutro e alguns membros do governo de Getúlio
Vargas (Estado Novo) pareciam simpatizar com as idéias do fascismo italiano.
Por causa disso, o país passou a sofrer pressões internas e externas (dos Estados
Unidos) para entrar na guerra junto com os Aliados.
Getúlio Vargas negociou com os norte-americanos um empréstimo e a
tecnologia para construir a Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redon-
da, em troca da participação na Segunda Guerra, no que obteve sucesso. A
concordância norte-americana em financiar Volta Redonda resultou de fatores
de natureza política. Entre as formas de colaboração que os Estados Unidos
receberiam do Brasil, estava a utilização de bases aéreas em alguns estados do
Nordeste, para as tropas norte-americanas.

Este quadro, que


mostra Getúlio
Vargas com o
presidente norte-
americano
Roosevelt, faz
lembrar que, para
entrar na guerra, o
Brasil obteve
financiamento
para construir a
Companhia
Siderúrgica
Nacional.
A U L A Em agosto de 1942, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália e, dois anos
depois, enviou uma força composta por soldados brasileiros: a FEB (Força

29 Expedicionária Brasileira), à Europa. A importância desse fato para os rumos da


História do Brasil é o motivo de marcarmos 1942 como o início desta aula.
Esta canção foi feita em homenagem aos soldados brasileiros − conhecidos
como “pracinhas” − que foram lutar na Segunda Guerra Mundial.

Por mais terras que percorra


Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Sem que leve por divisa
Esse V que simboliza
A vitória que virá.
Nossa vitória final
Que é mira do meu fusil
A ração do meu bornal
A água do meu cantil
As asas do meu ideal
A glória do meu Brasil (...)
Canção do Expedicionário
de Guilherme de Almeida e Spartaco Rossi

A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, com a vitória dos Aliados.


Após a guerra, começou a acontecer uma disputa entre os Estados Unidos e a
União Soviética por áreas de influência no mundo. Foi o período da Guerra
Fria , assim chamado porque, apesar do clima de conflito, não havia confronto
armado entre as duas potências.

A invenção do trabalhismo

“ No sentimento dos trabalhadores brasileiros, a palavra do presidente


Vargas tem uma ressonância mais profunda que todas as outras. É a voz de um
amigo. É o ensinamento de um guia . ” (trecho do discurso de Alexandre
Marcondes Filho, ministro do Trabalho, em 1943.)
Foi especialmente nos últimos anos do Estado Novo (1942-1945) que
Getúlio Vargas consolidou sua imagem de “pai dos pobres”, de amigo e guia
dos trabalhadores.
Para tanto, utilizou-se especialmente do rádio. Desde 1942, um novo
ministro do Trabalho, Alexandre Marcondes Filho, passou a ocupar diariamen-
te um espaço no rádio, em chamadas rápidas, e semanalmente, com um
programa especial. Nessas transmissões, enaltecia a figura do presidente, ao
mesmo tempo em que divulgava e explicava os novos direitos dos trabalhado-
res. Assim ocorreu, por exemplo, com a decretação da Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT) em 1943.
Os direitos sociais e os ganhos salariais dos trabalhadores eram, na teoria e
na prática getulista, descritos como uma dádiva, como uma doação do governo,
representado pela figura do presidente. Nessa versão, desaparecia a história das
lutas sociais dos trabalhadores brasileiros e de seus sindicatos livres na Primeira
República. Não havia conquistas, apenas “presentes”, “doações”.
E, de fato, como o sindicalismo independente fora silenciado desde 1935 e
já que se estava numa situação de ausência de qualquer direito social, essas
medidas do governo conquistaram milhares de trabalhadores. Nos comícios de A U L A
1º de maio, nas festas cívicas promovidas pelo Governo, nas datas em que ele
fazia discursos aos trabalhadores (Natal, Ano Novo), o presidente encontrava
um público fiel, atento e confiante. 29
No período de 1942 a 1945, também o Ministério do Trabalho redefiniu a
política repressiva, colocada em prática desde 1935, e passou a incentivar os
sindicatos oficiais a serem efetivamente locais de representação dos interesses
dos trabalhadores e não apenas “sindicatos de papel”. Nascia o trabalhismo .
Desse modo, o ano de 1942, além de marcar a entrada do Brasil na Segunda
Guerra Mundial, assinala uma mudança de estratégia política do Estado Novo,
especialmente em relação aos trabalhadores. A entrada de Alexandre Marcondes
Filho no Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio é um exemplo dessa
mudança. Durante a sua gestão, Marcondes Filho contribuiu de forma definitiva
para a construção da imagem “paternal” do presidente Vargas junto aos
trabalhadores e para a criação do trabalhismo como pensamento político, que,
em 1945, daria origem ao Partido Trabalhista Brasileiro − PTB.
A Carteira de Trabalho que conhecemos hoje, criada durante o governo
Vargas, em 1932, foi valorizada nessa fase do ministro Marcondes. É dele o texto
de apresentação que há em todas as carteiras de trabalho até hoje. Síntese da
política do tempo, essa apresentração destaca, ao mesmo tempo, o papel
desempenhado pela carteira de trabalho como instrumento de controle da vida
dos trabalhadores e como garantia de seus direitos.

A volta das liberdades democráticas

Laurindo voltou
Coberto de glória
Trazendo garboso no peito
A cruz da vitória (...)
As duas divisas que ele ganhou mereceu
Conheço os princípios que Laurindo sempre defendeu
Amigo da verdade
Defensor da igualdade
Dizem que no morro vai haver transformação
Camarada Laurindo
Estamos à sua disposição
Cabo Laurindo , samba de Haroldo Lobo,
gravado por Jorge Veiga, em 1945

Muito divulgado na época, esse samba fala da volta de um soldado brasileiro


após o fim da guerra. O retorno dos pracinhas veio dar maior força à luta interna
de muitos brasileiros pelas liberdades democráticas . Afinal, muitos haviam
morrido e os que voltaram tinham arriscado a vida na luta contra regimes
autoritários fora do Brasil. Haviam conhecido idéias novas a respeito da
democracia, do direito à liberdade e da luta pela igualdade em outros países.
Portanto “ia haver transformação ”, como dizia a letra do samba...
A transformação acabou realmente ocorrendo e não foi apenas por causa da
volta dos pracinhas com sua história de luta contra o fascismo. No Brasil, havia
sido percorrido todo um caminho de resistência contra o Estado Novo e suas
medidas autoritárias. Além disso, especialmente após 1942, setores da socieda-
de brasileira tinham conseguido abrir espaços para a manifestação de opiniões
A U L A e de crítica ao Estado Novo, embora fossem limitados pela repressão e pela
censura. Nesse ano, foi fundada a Sociedade dos Amigos da América, para lutar

29 contra a ditadura de Getúlio Vargas e, em 1943, um documento escrito por


políticos de Minas Gerais (que ficou conhecido como o “Manifesto dos Minei-
ros”) dizia o seguinte:

“Se lutamos contra o fascismo (...) para que a liberdade e


a democracia sejam restituídas a todos os povos, certamente
não pedimos demais reclamando para nós os mesmos direitos
e garantias(...) Queremos liberdade de pensamento, sobre-
tudo pensamento político.”

A campanha contra o governo cresceu e, em fevereiro de 1945, Getúlio


Vargas cedeu. Finalmente, convocou eleições livres para o final daquele ano. Em
abril, deu anistia para os presos por crimes políticos e permitiu o funcionamento
de todos os partidos.

O brigadeiro
Eduardo Gomes
tentou, por
duas vezes, ser
eleito presidente,
pela UDN.

Mesmo antes da liberdade partidária, em fevereiro, um grupo de oposição


formado por políticos liberais, ligados aos interesses dos exportadores e de parte
da classe média descontente com Getúlio, fundou a União Democrática Nacional
− UDN. Esse partido declarava-se contra o comunismo e tinha grande simpatia
pela política dos Estados Unidos. O candidato à Presidência pela UDN foi o
brigadeiro Eduardo Gomes, militar que havia participado da Revolta do Forte
de Copacabana, em 1922.
Getúlio Vargas reagiu habilmente e convocou chefes políticos leais a ele para
criar um outro grande partido: o Partido Social Democrático − PSD, que lançou
a candidatura à Presidência do general Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra
do Governo Getúlio Vargas.
Ao mesmo tempo, os ventos da liberdade abriram espaço para um partido
que havia ficado 23 anos proibido: o Partido Comunista Brasileiro - PCB, que
tinha entre seus militantes trabalhadores sindicalizados e intelectuais, e resol-
veu apoiar Getúlio Vargas, por sua política nacionalista e pela participação
na guerra contra o nazi-fascismo.
No segundo semestre de 1945, Vargas dirigiu a criação de outro partido para
apoiá-lo: o Partido Trabalhista Brasileiro − PTB, com apoio do Ministério do
Trabalho e dos sindicatos governistas. O PTB fazia parte de um projeto de
Getúlio Vargas para criar um grande partido de massa que desse continuidade
à sua política, com o apoio dos trabalhadores, apoio esse que havia conquistado
ao longo de seu governo.
Com as candidaturas presidenciais já lançadas (oficialmente o governo A U L A
apoiava o general Eurico Gaspar Dutra, do PSD), o PTB, unido ao PCB, fez a
campanha para que Getúlio Vargas continuasse no poder, enquanto se reunia
uma Assembléia Nacional Constituinte livremente eleita. Essa campanha ficou 29
conhecida como queremismo . A oposição desconfiava que Getúlio planejava
apoiar-se na campanha para lançar a si mesmo como canditado à Presidência.
Assim, os opositores de Getúlio, com o apoio do Exército − que temia a
aliança do PTB com o PCB −, conseguiram fazer com que Getúlio renunciasse e
desistisse de sua candidatura à Presidência.
Getúlio continuou a apoiar o general Dutra, do PSD, que graças ao seu apoio
venceu com 55% dos votos, contra 35% do brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN,
e 10% de Yedo Fiúza, do PCB.
Junto ao novo governo, elegeu-se também uma Assembéia Nacional Cons-
tituinte, que consagrou o direito universal do voto secreto a homens e mulheres
alfabetizados, o direito de greve, o pluripartidarismo e a estrutura sindical
corporativa herdada do Estado Novo. A Carta Constitucional de 1946 permane-
ceria em vigor até 1964.

Getúlio criara a
imagem de “pai
dos pobres” e o
povo o adorava.

“Bota o retrato do velho outra vez”

Dutra realizou um governo de tendências mais conservadoras que o espe-


rado, perdendo seus aliados eleitorais, inclusive Vargas. Alinhando-se com os
Estados Unidos na Guerra Fria , o governo Dutra colocou o PCB outra vez na
ilegalidade e rompeu relações diplomáticas com a União Soviética. Além disso,
os direitos sociais e os interesses dos trabalhadores perdiam o caráter de
prioridade que tiveram nos últimos anos do Estado Novo.
Por tudo isso, a campanha para a sucessão presidencial desenvolveu-se
numa situação de impopularidade do governo Dutra. Os candidatos à Presidên-
cia eram o brigadeiro Eduardo Gomes, pela UDN, e Getúlio Vargas, pelo PTB
(coligado ao PSP e apoiado pelo clandestino, mas atuante, PCB). O PSD teve
como candidato Cristiano Machado. Em 1950, Getúlio Vargas foi eleito Presiden-
te com 48,7% do total de votos. Voltou ao Palácio do Catete (sede do Governo)
“nos braços do povo...”
Vargas assumiu em 1951 e deu início ao seu segundo governo, marcado por
uma política econômica nacionalista, mas que não perdia de vista o capital
estrangeiro. Getúlio buscava atrair investimentos estrangeiros para que, junto
com os empresários nacionais, fosse impulsionada a indústria brasileira.
Para estimular a indústria, Getúlio criou leis que aumentavam os impostos
de entrada de produtos estrangeiros, o que desagradou profundamente aos
A U L A empresários brasileiros ligados ao comércio e à exportação. E, em 1953, criou a
Petrobrás, consagrando o monopólio estatal do petróleo.

29 No plano político-social, manteve o estilo que o havia transformado no “pai


dos pobres” e “protetor dos trabalhadores”. No entanto, a alta do custo de vida
ameaçava essa imagem.

“Saio da vida para entrar na História”

A popularidade de Vargas recebeu um grande golpe quando, em 1953, foi


deflagrada uma greve em São Paulo, reivindicando aumento salarial para os
trabalhadores. A greve começara com os operários da indústria de tecidos,
apoiados, em seguida, por metalúrgicos, gráficos, ferroviários, motoristas e por
outras categorias. O governo de São Paulo reprimiu duramente a greve, o que
enfureceu a população. Houve quebra-quebra, feridos e muitos presos.
À imprensa de oposição a Getúlio, em especial o jornal O Estado de S. Paulo
e a rádio Globo , juntaram-se os políticos da UDN e os militares que temiam o
comunismo. Carlos Lacerda, deputado federal pela UDN e jornalista de A
Tribuna da Imprensa desenvolvia uma campanha diária de denúncias − com-
provadas ou não − em artigos contra o governo de Getúlio. Lacerda pedia, nos
jornais, no rádio e na TV, que os militares dessem um golpe e retirassem o
presidente do poder.
Isolado politicamente, muito combatido pela imprensa, sem controle de seu
governo, Getúlio tentou reconduzir sua política para uma direção mais popular,
concedendo um amplo reajuste ao salário mínimo, corroído pela inflação, em 1º
de maio de 1954. Com isso, aumentaram ainda mais as desconfianças dos setores
conservadores.
Um atentado contra o major Rubens Vaz, militar da Aeronáutica que estava
ao lado de Carlos Lacerda, em Copacabana, marcou o fim de Getúlio. As
investigações do crime chegaram até o chefe da guarda pessoal do presidente,
Gregório Fortunato, conhecido como o “anjo negro”. Gregório foi preso, mas os
discursos de Lacerda envolviam o próprio Getúlio na ação criminosa.
A campanha contra Getúlio cresceu. E ele foi ficando cada vez mais isolado,
sem voz na imprensa, sem apoio dos políticos.
Pressionado por militares, que pediram abertamente a sua renúncia, e pela
bancada da UDN no Congresso, que todos os dias discursava contra o presiden-
te; abandonado por muitos dos que o apoiavam, inclusive pelo PSD, Getúlio
afirmou que só sairia morto do Palácio do Catete.
E na manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio suicidou-se com um tiro no
coração. Na sua carta-testamento dirigida ao povo brasileiro, dizia:
“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-
se e novamente se desencadeiam sobre mim.
Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me
dão o direito de defesa .(...)
Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será vossa bandeira
de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa
consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. (...) Eu vos
dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio.
Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da
vida para entrar na História.
Getúlio Vargas”

6
O suicídio de Getúlio Vargas levantou o povo contra os inimigos do OA tempo
U L A
presidente. Lacerda teve de fugir, os jornais de oposição tiveram seus caminhões não pára
incendiados, a Embaixada dos Estados Unidos foi apedrejada... De repente, a
indignação tomou conta do país... 29
Um golpe, que parecia em marcha, capitaneado pela UDN, foi barrado. A
história tomou outro rumo e, de alguma forma, os que viriam a governar o país
nos anos seguintes precisariam mostrar um bom convívio com a memória do
presidente Vargas.

Relendo o texto Exercícios


Leia mais uma vez o texto da aula. Sublinhe as palavras que não entendeu
e procure seu significado, no vocabulário da Unidade ou no dicionário.

1. Releia O mundo em guerra e identifique os países que faziam parte do Eixo,


na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
2. Releia A invenção do trabalhismo e retire do discurso de Alexandre Mar-
condes uma frase que mostre a imagem do presidente Vargas que o governo
queria passar para os trabalhadores.
3. Releia A volta das liberdades democráticas e sublinhe na letra da canção
Cabo Laurindo uma frase que mostre a esperança de mudanças na política
brasileira, com o fim da Segunda Guerra Mundial e a volta dos pracinhas.
4. Releia “ B o t a o r e t r a t o d o v e l h o o u t r a v e z ” e destaque o trecho que
identifica os fatores da impopularidade do governo Dutra.
5. Releia “Saio da vida para entrar na H istória ” e sublinhe no texto da
“carta-testamento” uma frase em que Getúlio Vargas indica a atuação das
oposições no período final de seu governo (1954).
6. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Abra a sua Carteira de Trabalho na parte inicial. Caso você não tenha, peça
emprestado a de alguém.

1. Procure, logo no começo da Carteira, o texto assinado pelo ministro Alexan-


dre Marcondes Filho.
2. Leia esse texto com muita atenção. Ele foi escrito entre os anos de 1942 e 1945,
período da História do Brasil ao qual nos referimos nesta aula.
3. Retire do texto uma frase que mostre a intenção do governo em ter o controle
da vida profissional do trabalhador por meio da Carteira de Trabalho.
4. Retire do texto uma frase que mostre a intenção do governo em garantir os
direitos sociais do trabalhador com a Carteira de Trabalho.

6
A UA UL L AA

30
30
MÓDULO 8
Caminhos da
industrialização

Nesta aula S abemos que, desde o início do século XX,


nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, vinham-se instalando indústrias
para atender não apenas à expansão da economia cafeeira como também ao lento
mas crescente processo de urbanização dessas áreas. Nos anos 30 e 40, a
sociedade brasileira era ainda basicamente rural, mas colocaria a industrializa-
ção do país como uma importante meta a alcançar. Quais as alternativas
adotadas pelo Estado brasileiro, no período compreendido entre 1942 e 1961,
para promover a industrialização?
Nesta aula mostraremos os diversos projetos para industrializar o Brasil, os
projetos vencedores e os resultados econômico-sociais desse processo, realizado
principalmente por intermédio da intervenção do Estado.

O nacionalismo varguista

A atuação do Estado como agente econômico é, sem dúvida, algo típico da


história contemporânea do Brasil. A década de 1930 foi um marco, pois o Estado
que resultou da Revolução de 30 teve como um dos seus objetivos fazer da
cidade e da indústria (ou seja, do pólo urbano-industrial) o eixo da economia.
Nesse período, foram implantadas as indústrias de bens de produção ou
indústrias de base, favorecendo o empresariado industrial brasileiro, que con-
seguiu garantir junto ao Estado o atendimento de seus interesses.
Durante o Estado Novo (1937-1945) o empresariado consolidou um novo
estilo de participação política, de tipo corporativo, marcando sua presença em
órgãos públicos como o Conselho Federal de Comércio Exterior (CFCE) e o
Conselho Técnico de Economia e Finanças (CTEF). Por sua atuação no interior
desses órgãos, os empresários industriais conseguiram promover seus interes-
ses e divulgar suas idéias, especialmente as que defendiam o desenvolvimento
industrial como a única saída para a fraqueza da economia do país − baseada até
então na exportação de produtos agrícolas e na importação de produtos indus-
trializados. Eles consideravam necessário um Estado forte, que protegesse a
indústria nacional e garantisse o bem-estar social da Nação.
Pouco a pouco, essas idéias ganharam lugar de destaque no pensamento e
na ação do governo federal, que passou a direcionar sua política econômica para
a industrialização do país, voltando-se para a expansão das atividades ligadas
às necessidades do mercado interno.
Chamado a assumir a tarefa de implantar a indústria de base, o Estado não A U L A
só coordenaria a economia como se tornaria um investidor, um empresário.
Até o início da década de 1930, a estrutura industrial brasileira estava
organizada em torno do setor de bens de consumo corrente , isto é, tecidos, 30
alimentação e vestuário. Para implantar um setor de bens de produção −
siderurgia, energia, transportes −, era necessário conseguir recursos para com-
prar insumos básicos e equipamentos (máquinas, ferramentas etc).
Grande parte desses recursos foram conseguidos com a exportação de
produtos agrícolas, principalmente do café. Assim, o Estado transformava-se
em investidor das indústrias de base, ao mesmo tempo em que fazia leis para
organizar a economia em geral.
Durante o Estado Novo, a política de Getúlio Vargas caracterizou-se pelo
nacionalismo e pelo intervencionismo. Dava-se maior importância à exploração
das riquezas nacionais, sem, no entanto, incomodar as empresas estrangeiras
que já estavam no país. Ao mesmo tempo, o Estado passou a participar
diretamente de determinadas áreas produtivas.
Ignorando as dificuldades econômicas, mas atento às possibilidades de
negociar com os países envolvidos na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o
governo brasileiro publicou, em 1940, um ambicioso Plano Qüinqüenal (du-
ração de cinco anos), que previa, entre outros projetos, a construção de uma
grande usina siderúrgica. A instalação dessa usina quebraria o monopólio da
produção de aço que os Estados Unidos e a Europa possuíam, permitindo que,
em caso de guerra, o Brasil pudesse desenvolver uma indústria independente e,
em tempos de paz, pudesse contar com infra-estrutura para sua própria
indústria mecânica.
Em 1941, foi iniciada a contrução da Companhia Siderúrgica Nacional − CSN
(Usina Siderúrgica de Volta Redonda), com capital público nacional e finan-
ciamento do governo dos Estados Unidos, interessado em contar com a partici-
pação brasileira na guerra contra o nazi-fascismo. A Usina começou a produzir
em 1946 e contribuiu para diminuir a importação de ferro e aço a partir de 1956.

Com a construção
da Usina de
Volta Redonda,
da Companhia
Siderúrgica
Nacional, o Brasil
passou a diminuir
sua importação de
ferro e aço.
A U L A Em 1943, inaugurou-se a Fábrica Nacional de Motores − FNM, primeira
empresa brasileira a fabricar veículos, em vez de apenas montá-los. A Compa-

30 nhia Vale do Rio Doce (1942), a Companhia Nacional de Álcalis (1943) e a


Companhia Hidrelétrica do São Francisco (1945) são, junto com a CSN, alguns
exemplos de empresas públicas, criadas durante o período, que possibilitaram
uma industrialização acelerada.

Inaugurada em
1942, a
Companhia Vale
do Rio Doce
dominava o
comércio de
minério de ferro e
outros minerais.

Muitas dessas indústrias forneciam bens e serviços a preços baixos, tornan-


do possível ao setor privado economizar nos custos de produção e continuar
investindo nos setores tradicionais (na indústria de bens de consumo corrente).
Mesmo temendo o excesso de intervencionismo do Estado, o setor privado era
bastante beneficiado pela política econômica e trabalhista do governo varguista.
Durante o governo do general Eurico Dutra (1951-1954), sob influência da
onda liberal resultante do fim da Segunda Guerra, houve uma diminuição da
intervenção do Estado na economia. Políticos mais conservadores defendiam
menor ênfase na indústria de bens de produção e maior liberdade comercial,
para reintegrar o Brasil no mercado internacional.
Com o segundo Governo Vargas (1951-1954), a industrialização acelerada
voltou a ser considerada elemento essencial para promover o desenvolvimento
econômico e social do Brasil. E o Estado deveria ser, mais uma vez, o condutor
desse processo. Marcada por um forte nacionalismo, a política econômica
promovida por Getúlio mudou a direção que havia sido dada pelo governo
Dutra e voltou a dar prioridade às indústrias de base (ferro e aço, química,
equipamentos e material ferroviário, indústria elétrica) e de infra-estrutura
(energia, transportes, comunicações).
No entanto, era impossível conseguir recursos suficientes para esses setores
dentro do país; precisava-se buscar recursos externos. As posições nacionalistas
de Getúlio Vargas entraram em conflito com aqueles que defendiam a abertura
ao capital estrangeiro para promover o desenvolvimento econômico.
Dentre as iniciativas nacionalistas voltadas para o desenvolvimento inde-
pendente do país, incluía-se o projeto de criação da Petrobrás, que foi apresen-
tado ao Congresso Nacional, junto com o Programa do Petróleo Nacional, em
dezembro de 1951. O projeto de lei propunha a exploração do petróleo por uma
nova empresa de economia mista, com maior poder de decisão do Estado.
Tal projeto, que só foi aprovado quase dois anos mais tarde, provocou um A U L A
forte debate entre nacionalistas e estrangeiristas (defensores da entrada de
capital externo). Os lucrativos negócios da empresa americana Standart Oil,
instalada no Brasil, estavam ameaçados. A “batalha do petróleo” agitou o país; 30
a campanha “O Petróleo é Nosso ” ganhou as ruas e mobilizou a população em
comícios e manifestações a favor do monopólio da Petrobrás, que finalmente foi
criada em outubro de 1953.
Apesar da criação da Petrobrás nesse ano e do Banco Nacional de Desenvol-
vimento Econômico (BNDE) em 1952 − para promover a melhoria da infra-
estrutura industrial −, o debate entre nacionalismo e estrangeirismo não acabou
no governo Vargas. A industrialização continuou sendo a opção de desenvolvi-
mento, mas a maneira de promovê-la não foi a mesma dos anos 40.

O desenvolvimentismo de JK

Durante o governo de Juscelino Kubitscheck (1956-1960), o processo de


industrialização teve nova orientação. No início do governo, foi anunciado o
Plano de Metas , que teve como objetivo modernizar o Brasil e cumprir o lema
da campanha de JK: “50 anos em 5 ”. Isto é, cinqüenta anos de progresso em
cinco anos de governo. Se, por um lado, houve uma abertura ao capital
estrangeiro, opondo-se nesse sentido ao governo anterior, por outro lado o
intervencionismo governamental não foi eliminado.

Belo Horizonte,
fundada em 1897,
sofreu grandes
modificações,
quando JK
governou Minas
Gerais.

Uma das características do governo de JK foi o planejamento, que estabele-


ceu metas industriais a serem cumpridas nos cinco anos de mandato, supervi-
sionadas de perto por órgãos já existentes (BNDE - Banco Nacional de Desenvol-
vimento Econômico, CACEX - Carteira de Comércio Exterior) e por outros,
criados pelo presidente e subordinados ao Conselho de Desenvolvimento,
também criado por ele.
A U L A

30

A primeira fábrica
de carros de
passeio no Brasil
foi a Volkswagen.

A indústria brasileira contou, nesse período, com a participação de capital


nacional e estrangeiro, público e privado, divididos em três grupos:

l o capital privado nacional continuou investido na produção de bens de


consumo corrente ;

l o capital estrangeiro destinou-se sobretudo à produção de bens de con-


sumo duráveis , especialmente a indústria automobilística;

l o capital estatal continuou a financiar a indústria de base , o que signi-


fivava um estímulo para os outros dois.

Na euforia desenvolvimentista , como ficou conhecida a rápida expansão


industrial e de consumo brasileira, o Estado atuou como o principal agente
econômico, interferindo continuamente na orientação dos investimentos, por
meio do planejamento, sem deixar de ser um importante produtor direto nos
setores estratégicos (indústria de base e infra-estrutura).
Entre 1955 e 1961 entraram no país mais de 2 milhões de dólares dirigidos
a áreas prioritárias do Plano de Metas, como indústria automobilística, constru-
ção de estradas (Belém−Brasília), transportes aéreos, eletricidade (usinas de Três
Marias e Furnas) e aço. Mas foi a indústria de automóveis que mais se destacou.
Iniciada com investimentos alemães (Volkswagen) e franceses (Simca), a produ-
ção do carro nacional cresceu de 30.542 unidades, em 1957, para 133.041, em
1960. Era a febre do crescimento. JK era considerado “ o homem que substituiu
o burro pelo jipe ”, fazendo o país entrar na era da modernidade.

6
Os anos JK trouxeram euforia, crença e desenvolvimento. Porém deixaram OA tempo
U L A
algumas heranças que logo se revelaram complicadas. Brasília, a nova capital do não pára
país, foi construída durante o governo JK, sendo inaugurada em 21 de abril de
1960, como meta-síntese de JK. Nesse momento, grande parte das metas havia 30
sido alcançada, e a sociedade brasileira já não era basicamente rural. Porém, o
aumento da inflação, a concentração dos lucros industriais nas mãos de um
pequeno número de empresários de alguns setores industriais, assim como a
alta dívida externa, começaram a provocar um grande descontentamento em
boa parte da população brasileira.
Não foram apenas as questões econômicas que marcaram o período JK como
um período relevante; no campo cultural e político, também aconteceram muitas
mudanças, associadas ao crescimento das cidades e ao desenvolvimento indus-
trial. Mas, para entendê-las, você vai ter de esperar nossas próximas aulas.

Relendo o texto Exercícios


Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no vocabulário da Unidade e no dicionário.

1. Releia O nacionalismo varguista e identifique:

a) qual setor industrial foi valorizado nos dois governos de Getúlio Vargas;

b) de que modo o Estado interferiu na economia;

c) qual era a posição de nacionalistas e estrangeiristas;

d) de que maneira o empresariado foi favorecido pela política econômica


desse período.

2. Releia O desenvolvimentismo de JK e identifique:

a) qual o setor industrial mais valorizado por JK;

b) de que forma o Estado interferiu na economia;

c) algumas características do Plano de Metas;

d) de que forma ocorreu a participação do capital estrangeiro.

3. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Leia com atenção os documentos que vêm em seguida, sublinhe as palavras


que não entender e procure descobrir o que elas significam.
A U L A Documento A

30 “ Petróleo é energia, que tem que ser vendida pelo preço mais barato
possível, a fim de facilitar a produção de todas as demais riquezas.
Petróleo é a base da economia e da defesa militar de um país. Não há
como, na indústria do petróleo, se associarem o Estado e os particulares.
Se a indústria do petróleo visa lucros comerciais, perde o seu caráter,
deixa de ser interessante para os capitais privados. É uma injustiça
social entregar o privilégio da indústria do petróleo a alguns, mesmo
sob a forma de ações de uma sociedade mista. O petróleo pertence à
nação, que há de dividi-lo igualmente por todos os seus filhos.”
Trecho do pronunciamento do general Horta Barbosa, durante a Campanha
“O Petróleo é Nosso”, em 1947.

Documento B

“ A viagem que realizei pelos Estados Unidos e pela Europa, convocando


todos os homens de capitais particulares para virem colaborar nessa
tarefa [desenvolver o Brasil], deu os frutos que esperava, porque, só
neste ano, em indústrias, em investimentos novos por capitais estran-
geiros, já somamos 232 milhões de dólares contra 70 milhões apenas no
ano passado. Essa política foi pregada por mim na viagem que realizei
e, mais do que isto, no acolhimento que venho dando a todos os homens
de empresa que querem trazer os seus capitais para o Brasil, não para
explorar o nosso território e sim contribuir para o enriquecimento e o
bem-estar de todos os brasileiros.”
Trecho de um discurso do presidente Juscelino Kubitschek, em 1956.

1. Identifique no documento A:

a) a importância do petróleo na visão do general (Para que serve o petróleo,


o que ele significa para o país?);

b) a posição do autor em relação ao investimento do capital privado na


indústria do petróleo (retire de trechos do texto).

2. Para o autor do documento A, quem deve explorar o petróleo?

3. Identifique no documento B:

a) qual a política pregada por JK na viagem à Europa e aos Eestados Unidos;

b) como JK via a participação do capital estrangeiro na economia brasileira.

4. Qual a diferença entre as opiniões do general Horta Barbosa e do presidente


Juscelino Kubitscheck?

6
AUU
A L AL A

31
31
Arte e cultura MÓDULO 8

(1942-1961)

V amos estudar a vida cultural da sociedade


brasileira nas décadas de 1940 e 1950, com o objetivo de responder à esta questão:
Nesta aula
num tempo de valorização da participação do povo na política, como se
manifestava a cultura popular?

Um novo tempo para a cultura brasileira

A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial e as mudanças


políticas internas após 1945 marcaram um novo momento para a cultura
brasileira. A volta dos soldados reforçou a luta pelo fim do regime autoritário do
Estado Novo e por maior participação popular.
O governo afrouxou o controle, antes rígido, sobre as manifestações cultu-
rais, que acompanhavam as novas atitudes políticas (eleições, novos partidos,
legalização do PCB, elaboração de uma nova Constituição − desta vez de forma
democrática...).
Nesse mesmo período, os Estados Unidos, em tempos de Guerra Fria ,
queria garantir uma área de influência também cultural no Brasil e entrava no
mercado brasileiro com toda força, com a música e o cinema americanos
transformados em poderosas indústrias culturais. Nesse momento, surgia uma
proposta de auxílio mútuo entre as diversas nações americanas (o
panamericanismo ). Sob a justificativa da solidariedade entre os países do
continente, os interesses nacionais norte-americanos se faziam cada vez mais
presentes na América Latina e na vida brasileira.
No Brasil esses anos foram, principalmente, tempos de rádio. O rádio era
a grande janela aberta para o mundo: trazia informação e diversão, formava
opinião, ligava o país de norte a sul − assim como diz a canção das Cantoras do
Rádio:

Nós somos as cantoras do rádio


(...)
Nossa canção cruzando o espaço azul
Vai reunindo
Num grande abraço
Corações de norte a sul
A U L A “Este programa pertence a vocês”

31 Ela é fã da Emilinha
Não sai do César de Alencar
Grita o nome do Cauby (ihhh...)
E depois de desmaiar
Pega a Revista do Rádio
E começa a se abanar.
Fanzoca do Rádio , de Miguel Gustavo

A letra dessa canção zomba do fanatismo de algumas ouvintes de rádio e fala


de grandes ídolos musicais da época (Emilinha Borba e Cauby Peixoto). Fala
também do mais famoso programa de auditório da Rádio Nacional no Rio de
Janeiro − o Programa César de Alencar − e da publicação que acompanhava
todo esse sucesso: a Revista do Rádio .
E o que fazia esses programas de rádio tão populares? O principal motivo
é que eles abriam espaço às pessoas, num momento em que participar se
tornava cada vez mais importante.
Os ouvintes participavam, assistindo aos programas nos auditórios sempre
lotados das emissoras de rádio, ou por correspondência, votando nas eleições
que eram promovidas para “reis” ou “rainhas” do rádio. Mas também se
sentiam participantes apenas escutando o apresentador do programa, que, a
cada minuto, se dirigia aos ouvintes, como dizia a música de abertura do
Programa César de Alencar: “ esse programa pertence a vocês!” .
O rádio era um meio de comunicação eficiente. Sabendo disso, o poder
público utilizava-se dele para transmitir as falas oficiais do governo no progra-
ma A Hora do Brasil , transmitido por todas as emissoras. Pelo rádio, procu-
rava-se chegar às regiões mais distantes do país, com a informação e as idéias que
se queriam difundir.

César de Alencar e
Marlene: duas
figuras
extremamente
populares
por causa
dos programas
de rádio.
Além dos programas musicais, das notícias e das transmissões oficiais do A U L A
governo, o rádio se popularizou com as novelas, como O Direito de Nascer . Em
1945, a Rádio Nacional no Rio de Janeiro (conhecida como “A Rádio das
Multidões”) transmitia, diariamente, catorze novelas. As famílias se reuniam 31
em torno do rádio e, em muitas casas, o aparelho era um acompanhante que
ficava ligado, sempre presente, o dia todo.
Durante os jogos de futebol das Copas do Mundo desse período, e mesmo
nos jogos nacionais, o rádio era companheiro inseparável dos torcedores.
Quantos brasileiros não choraram, junto com os locutores, em 1950, no último
jogo contra o Uruguai, quando, jogando em casa, no Maracanã, o Brasil perdeu
a Copa? E quantos não comemoraram, agarrados a seu rádio, o sucesso de 1958?
Assim, nessas duas décadas, o rádio foi se tornando fundamental para a
criação de uma cultura brasileira, ou melhor, de uma cultura nacional. Formava
opinião, proporcionava prazer e diversão, ligava o país de norte a sul.
Mas, em termos de diversão popular, o cinema nacional não ficava atrás...

“Os reis do riso”

“ Fazemos comédia − o pior tipo de comédia (...) o disparate vulgar,


combinado com um pouco de sexo e frases de duplo sentido. Influência
do baixo teatro e do radiologismo mais ruim.”
Artigo de Salvyano Cavalcanti de Paiva na revista Scena Muda , 1952.

Apesar do desprezo dos críticos, como percebemos por esse trecho do artigo
de Salvyano Cavalcanti, o cinema brasileiro passou a conhecer um tempo de
glória com as chanchadas da Atlântida. As chanchadas eram filmes cheios de
cenas de fazer rir, sustentadas pelo talento de atores como Grande Otelo,
Oscarito, Zé Trindade, José Lewgoy, entre tantos outros. Era um tipo de filme
muito popular, e o público lotava as salas de cinema para se divertir com as
comédias, sempre com muita música, cenas de amor e também com críticas
alegres à vida política e cotidiana do povo brasileiro.

Grande Otelo e
Oscarito
participaram de
várias chanchadas
da Atlântida.

Assim como a programação das emissoras de rádio populares, as chancha-


das atendiam ao gosto de um amplo público e influenciavam todo o país, criando
ídolos e divulgando um tipo de humor bem carioca.
A U L A O Rio de Janeiro levava, pelo rádio e pelo cinema, a cultura da cidade (ainda
capital federal) para grande parte do país. Havia produção cultural em outras

31 cidades, mas, nesse tempo, nada tinha a força e a expressão da Atlântida ou da


Rádio Nacional, ambas empresas cariocas.
Junto ao cinema, e no mesmo estilo de comédia musicada, estava o teatro
de revista . Era uma mistura de circo, cabaré, espetáculo musical e comédia de
costumes − o “teatro rebolado” (como era também conhecido) trazia para o palco
a crítica social e política. O público ria do humor debochado e se divertia com
os números musicais, que em geral tratavam de temas da realidade popular:
falta d’água, carestia, corrupção. Atrizes como Dercy Gonçalves, Virgínia Lane,
Renata Fronzi, entre muitas outras, fizeram sucesso no palco do teatro de revista,
no qual a beleza, o talento e o luxo das coristas levavam um grande público a
esses espetáculos.
Paralelamente, acontecia a entrada do cinema americano, com os musicais
de Hollywood. As estrelas e os galãs norte-americanos passaram a povoar os
sonhos de brasileiros e brasileiras...
Junto com o cinema, veio também a música, a moda e a divulgação do ideal
americano de vida (o chiclete, a Coca-Cola). Mas, para muitos brasileiros, ficar
“americanizado” era uma ofensa... em termos de cultura.

O cinema
nacional ganhou
seu primeiro
prêmio
internacional
com o filme
O Cangaceiro.

Meu Brasil brasileiro

Brasil, meu Brasil brasileiro,


Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
(...)
Oi, abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no Congado
Brasil, Brasil (...)
Aquarela do Brasil , de Ary Barroso,
gravada pela primeira vez em 29/05/1942.

O período de 1942 a 1961 caracterizou-se pela valorização da cultura


popular . Os últimos anos do Estado Novo já haviam dado destaque à cultura
popular, em especial às manifestações afro-brasileiras.
No clima de maior liberdade, após 1945, passava a ser importante para o A U L A
Brasil assumir não apenas seu lado mestiço, mas seu lado nordestino, e o seu
lado caipira. Afinal, o Brasil não era só Rio de Janeiro... e isso não poderia ser
ignorado num tempo em que o apoio popular era importante! 31
Ritmos do Nordeste (como o baião, o xote), assim como as duplas caipiras,
foram levados pelo rádio até o Centro-Sul do país. Era o tempo de muitos
sucessos de Luiz Gonzaga, de Jararaca e Ratinho, de Alvarenga e Ranchinho:
todos nas ondas do rádio!
A literatura de cordel , muito popular no Nordeste, tornava conhecidas as
figuras e as situações políticas que misturavam humor e fantasia, zombaria e
louvação. Esse gênero nordestino de literatura cresceu e aumentou o número de
exemplares impressos. Exemplo disso foram os livretos contando a morte de
Getúlio Vargas no Palácio do Catete, que chegaram a vender mais de 50 mil
cópias. Juntando Juscelino Kubitschek, Lampião, o diabo e Padre Cícero, os
cordelistas cantavam e narravam histórias e fatos.
Nesse período, as elites intelectuais brasileiras também apostaram num
projeto nacional para a cultura. Temas clássicos da cultura brasileira foram
levados para o cinema pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz (fundada
em 1949, em São Paulo). O Teatro Brasileiro de Comédia (TBC, fundado em 1948)
montou peças de autores nacionais, consagrando atores e atrizes como Fernanda
Montenegro, Paulo Autran, Tônia Carrero, Sérgio Cardoso, Cacilda Becker,
Walmor Chagas, entre outros. Muitos desses artistas se tornariam populares
astros da televisão, anos mais tarde.
Na música, em 1958, foi lançado um disco que se tornou o ponto de partida
para o movimento da bossa nova : Elizete Cardoso − famosa pelos sucessos que
cantava no rádio − gravou Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius de
Moraes, acompanhada por João Gilberto, na época um desconhecido para o
grande público. Iniciava-se, assim, um novo momento para a cultura musical
brasileira.
E esse novo momento cultural, não apenas para a música, seria marcado,
fundamentalmente, pela televisão.

“ Senhoras e senhores telespectadores, boa noite. A PRF 3 TV − Emis- O tempo


sora Associada de São Paulo − orgulhosamente apresenta, neste momen- não pára
to, o primeiro programa de televisão da América Latina.”

Eram dez horas da noite do dia 18 de setembro de 1950, em São Paulo, e o


Brasil se tornava o quarto país do mundo a ter televisão. E a televisão havia sido
inventada há apenas catorze anos!
Mas o grande sucesso e a popularização ocorreu a partir dos anos 60, quando
a magia da televisão conquistou os lares brasileiros. Assim como o rádio, a
televisão incorporou as manifestações da cultura popular, transformou essas
manifestações e sofreu transformações por causa delas.
Exercícios
A U L A Relendo o texto

31 Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure o seu significado, no vocabulário da Unidade ou no dicionário.

1. Releia Um novo tempo para a cultura brasileira . Sublinhe na letra da


canção Cantoras do Rádio uma frase que destaque o papel do rádio como
elemento de integração nacional.

2. Releia “Este programa pertence a vocês ” e cite uma razão para que os
programas de auditório no rádio fossem tão populares nas décadas de 1940
e 1950.

3. Releia “ O s r e i s d o r i s o ” e identifique a que tipo de filme o jornalista


Salvyano Cavalcanti estava se referindo ao escrever sua crítica.

4. Releia Meu Brasil brasileiro e sublinhe na letra da música (documento de


época) uma frase que mostre o novo valor dado à cultura popular afro-
brasileira no período 1942/1961.

5. Dê um novo título ao texto desta aula.

Fazendo a História

1. Escreva um pequeno texto sobre o período histórico tratado por esta aula,
utilizando as seguintes expressões:

− rádio:

− integração nacional:

− informação:

− diversão:

6
AUU
A L AL A

32
32
MÓDULO 8
Os anos dourados

J uscelino Kubitschek elegeu-se presidente


promentendo mudar o país, modernizá-lo, desenvovê-lo num curto espaço de
Nesta aula
tempo − 5 anos. Como seria possível num momento de grave crise, provocada
pelo suicídio de Getúlio Vargas, resgatar o otimismo e a esperança e governar
dentro da legalidade?
Nesta aula teremos uma noção da situação internacional naquele momento;
de como JK tornou possível o seu projeto desenvolvimentista e de como a
sociedade reagiu a todas essas mudanças.

A década de 1950 e a bipolarização do mundo

No decorrer da década de 1950, o Brasil sofreu influência de um processo de


divisão do mundo em duas áreas de influência. É a chamada bipolarização .
Conseqüência da Guerra Fria , que correspondia ao conflito ideológico
entre os Estados Unidos e a União Soviética, a bipolarização dividiu os países em
dois “mundos”: o capitalista e o socialista.

Nesta caricatura,
os soviéticos
encaram seus
inimigos na
Guerra Fria como
generais nazistas.
A U L A O mundo capitalista era composto pelas chamadas democracias liberais . A
liderança norte-americana em termos político-militar e econômico tornava-se

32 inquestionável. A integração do Brasil a esse contexto ocorreu durante o


governo do general Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), quando o país rompeu
relações diplomáticas com a União Soviética e o Partido Comunista Brasileiro foi
colocado na ilegalidade.
Já o mundo socialista, sob liderança (também inquestionável) da União
Soviética, era integrado pelas chamadas democracias populares .
Na Europa Oriental, ficaram sob influência soviética a Polônia, a Bulgária,
a Romênia, a Checoslováquia, a Hungria, a República Democrática Alemã e a
Albânia; na Ásia, a República Popular da China, a Coréia do Norte e o Vietnã do
Norte; na América Central, Cuba.
Em termos econômicos, essa bipolarização produziu outro tipo de divisão:
os países ricos, desenvolvidos ou do Primeiro Mundo, e os países pobres,
subdesenvolvidos, ou do Terceiro Mundo. Apesar do esforço desenvolvimentista
do governo JK, nosso país continuou integrado ao bloco do Terceiro Mundo.

A viabilização dos objetivos de JK

O governo JK passou para a História como um momento de estabilidade


política e de grande crescimento econômico. Já vimos, na aula 29, como o modelo
desenvolvimentista foi adotado e quais os problemas que ele apresentou, nos
últimos anos do mandato de JK. Mas, sem dúvida alguma, ele conseguiu
contaminar a população com otimismo e euforia, a partir de seu famoso lema
“50 anos em 5”.
Ao assumir a Presidência, Juscelino encontrou um país ainda perturbado
pelo suicídio de Getúlio Vargas (1954). A UDN e alguns setores militares foram
incansáveis na oposição à posse de JK, acusando-o de receber apoio dos
comunistas e identificando-o ao getulismo , tendência que tentavam exterminar
da política nacional.
Em meio à turbulência política e social era preciso garantir um mínimo de
estabilidade e de consenso que permitisse governar. Apesar das pressões do
empresariado para a diminuição da interferência do Estado na economia, das
greves do início do período, das crises militares e da oposição radical da UDN,
a política de negociação de JK tornou possível a estabilidade.
Assim, a política econômica do governo, que se abriu para o capital externo,
foi bem aceita por vários setores da sociedade brasileira.
Nessa época, os trabalhadores viram a possibilidade, que nem sempre se
concretizou, de fazer parte dos consumidores dos novos produtos que invadi-
ram o mercado brasileiro. Ao mesmo tempo, foram criados empregos por causa
da expansão do parque industrial e da melhoria dos serviços urbanos.
A política desenvolvimentista também beneficiou as Forças Armadas, que
contaram com aumento de recursos financeiros. Isso permitiu uma melhoria nos
recursos bélicos (armamentos), assim como nos transportes e nas comunicações.
Além disso, muitos oficiais das Forças Armadas ocuparam posições importan-
tes no Poder Executivo. Aqueles envolvidos em tentativas de golpe foram
anistiados e não deixaram de ser promovidos.
A esquerda, duramente perseguida nos governos anteriores, era tratada
com tolerância por JK. O PCB, considerado partido ilegal desde 1947, atuava
junto aos sindicatos. Muitos de seus membros participavam abertamente de
manifestações e negociações.
Com relação à oposição udenista, que insistia em denunciar escândalos da A U L A
administração pública e tentava impedir a aprovação dos projetos do Executivo,
JK procurava manter uma posição conciliadora e pacífica.
Finalmente, para colocar em prática o Plano de Metas, as relações do 32
Executivo com o Legislativo tinham de ser as melhores possíveis. Afinal, o
Congresso tinha o controle do orçamento do país, e podia derrubar vetos
presidenciais e criar as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs).
A aliança PSD-PTB foi fundamental nessa relação, já que a maioria dos
parlamentares era desses partidos e, portanto, quase sempre mostrava-se
favorável aos projetos do Executivo.
Mas os órgãos criados e mobilizados pelo Executivo formaram uma “admi-
nistração paralela”, o que conferiu uma grande capacidade de planejamento e
independência ao Executivo em relação ao Legislativo. Esses órgãos estavam
sob o controle direto da Presidência da República. O planejamento feito por
técnicos desses órgãos tornou fácil a aprovação financeira no Congresso, e isso
acabou reforçando os poderes do Executivo.

Plano Piloto de
Brasília: seu
desenho lembra
um avião, com as
asas norte e sul.

Brasília: “a síntese de todas as metas”

O maior símbolo do otimismo dos anos que ficaram conhecidos como “anos
dourados” foi, sem dúvida, a construção de Brasília − a nova capital do Brasil,
a partir de 1960.
JK dizia ter se resolvido pela criação da nova capital em um comício, quando
um popular lhe perguntara: “Já que o senhor se declara disposto a cumprir
integralmente a Constituição, desejava saber se irá pôr em prática aquele
dispositivo da Carta Magna que determina a transferência da capital da
República para o planalto goiano. ” Juscelino respondeu que sim, e transformou
Brasília em sua meta-síntese , fechando o programa de Metas.
Construir Brasília não significou apenas criar muitos empregos, nem provo-
car uma onda migratória de brasileiros, que, além de construir uma nova cidade,
esperavam conseguir uma vida melhor na nova capital. Brasília transformou-se
num símbolo dos “50 anos em 5”. Construí-la era prova de coragem, audácia,
ousadia...
Porém, sempre existe o outro lado da moeda. Construir Brasília nos custou
muito caro. Os gastos com as obras foram altos. Sua manutenção tornou-se
excessivamente cara. A inflação elevada ao final do governo JK teve na constru-
ção de Brasilía um dos seus principais estimuladores.
No dia 21 de abril de 1960, a cidade idealizada por JK e projetada pelos
arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa foi inaugurada com muita festa e
euforia.
A U L A A sociedade e a cultura dos “anos dourados”

32 Os anos do governo JK foram de enfervescência social e cultural. Um estilo


moderno de vida estava invadindo as casas da classe média. Novidades, como
enceradeiras, liquidificadores, panelas de pressão, vitrolas (eletrolas) de alta
fidelidade e televisores logo provocaram mudanças de comportamento.
A presença da música e do cinema norte-americano influenciava nossa
cultura. Nas grandes cidades, cada vez mais adotava-se o “ american way of life” ,
quer dizer, o jeito americano de viver.
Os jovens “moderninhos” copiavam os maneirismos próprios de uma
“junventude transviada” norte-americana: correr de lambreta, usar jaqueta de
couro e topetes caídos na testa. As moças, de calça comprida, dançavam o rock
and roll e o twist . Lutavam por mais liberdades, sem, contudo, romper com estilo
“moça de família” e casadoira.
Coca-Cola, chicletes e cigarros tornam-se produtos de consumo, indispen-
sáveis para essa turma que ainda não se preocupava com as calorias nem com
o câncer de pulmão. Nessa época, ainda não se conheciam os malefícios do
açúcar e do fumo.
As poderosas indústrias fonográficas e cinematográficas dos Estados Uni-
dos invadiram as cidades com músicas e filmes norte-americanos, mas havia
reações nacionalistas.
A música, o teatro e até mesmo o cinema brasileiro tornam-se, mais do que
nunca, ativos e revolucionários.
Exemplo disso é a bossa nova , uma revolucionária mistura de jazz com
samba e música clássica, que revelou ao mundo grandes nomes da música
brasileira como Vinícius de Moraes, Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra,
Ronaldo Bôscoli, entre outros. O novo estilo, considerado inicialmente um ritmo
sofisticado demais, impôs-se pelo talento de seus compositores e intérpretes que
cantavam acompanhados apenas de violão.

À esquerda,
Orfeu do
Carnaval, filme
que adaptou
Orfeu da
Conceição (de
Vinícius de
Morais).
À direita,
Carlos Lyra e
Nara Leão,
no início da
bossa nova.

Imagine uma peça de teatro escrita por Vinicius de Moraes com músicas de
Tom Jobim e cenários de Oscar Niemeyer: era Orfeu da Conceição, grande
sucesso de 1956. Nesse mesmo ano, Maria Clara Machado lançou seus Cadernos
de Teatros que incentivavam a criação de grupos amadores. Outras peças A U L A
famosas desse período foram Eles não usam black tie de Gianfrancesco Guanieri
e O pagador de promessa de Dias Gomes. Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha,
lançou os grandes sucessos Mão na luva e Rasga coração; e Augusto Boal ganhou 32
o primeiro prêmio Molière (de teatro), em 1963.
No cinema, como já se viu as chanchadas da Atlândida revelaram ao mundo
grandes humoristas como Grande Otelo e Oscarito. Jô Soares fez sua estréia em
1959, no filme “O homem do sputinik”. Chico Anísio já fazia o povo rir pela TV,
a partir de 1960.
O cinema de arte contou com grandes lançamentos de Nelson Pereira dos
Santos, Roberto Santos e Ruy Guerra. Em 1962, o filme O pagador de promessa,
do diretor Anselmo Duarte, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes.
Com os filmes de Gláuber Rocha, (Deus e o diabo na terra do sol, Terra em
transe e outros) o cinema de arte passou por uma revolução de linguagem e de
temas que o caracterizou como Cinema Novo .
A grande liberdade que reinava no país, permitiu a crítica social e incentivou
a produção artística. Havia certo orgulho romântico de ser brasileiro, e um
espírito de luta e otimismo.
Os estudantes ligados à União Nacional dos Estudantes − UNE fundaram o
Centro Popular de Cultura − CPC, que pretendia levar cultura e conscientização
política para os trabalhadores, por intermédio da arte. Apoiando os estudantes,
estavam artistas e intelectuais.
Destacaram-se no cenário internacional feitos como o de Maria Ester Bueno,
que venceu o campeonato de tênis de Wimbledon em 1957; a conquista da Copa
do Mundo pela Seleção Brasileira de Futebol, em 1958; o título de campeão
Mundial de Boxe, na categoria “peso galo”, conquistado por Eder Jofre, em 1960
e a eleição da Miss Universo Ieda Maria Vargas, em 1963.

6
A euforia não duraria muito. A política desenvolvimentista resolvera alguns O tempo
problemas, adiara outros tantos e criara novos. Entre estes últimos estava o não pára
aumento da concentração de renda na região Sudeste e a inflação, que ameaçava
escapar ao controle. Na periferia de Brasília, a miséria das cidades satélites
expunha o outro lado da modernidade alcançada.
As crises, temporariamente adiadas, reapareceram já no fim do governo de
JK. A aliança PSD-PTB começou a “balançar”, com o grande crescimento dos
petebistas, que ameaçaram o tradicional domínio do PSD. Cresceu, também, a
participação dos militares, solicitados pelos políticos civis que consideravam as
manifestações populares, no campo e na cidade, como atividades que podiam
destruir a ordem. A campanha eleitoral para a sucessão do presidente Kubitscheck
substituiu o otimismo pelo moralismo do candidato Jânio Quadros, que se
mostrou como “aquele que poderia acabar com o caos no país”.
No próximo módulo, você vai ver como a esperança dos “anos dourados”
virou radicalização na década de 60 e quais as alternativas que os conflitos sociais
colocaram para a política e a economia brasileira.
Exercícios
A U L A Relendo o texto

32 Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade.

1. Releia A década de 1950 e a “bipolarização” do mundo e explique o que


foi a bipolarização do mundo?

2. Releia A viabilização dos objetivos de JK e responda de que maneira JK


agiu para alcançar seus objetivos em relação aos segmentos abaixo:
a) capital externo;
b) trabalhadores;
c) Congresso Nacional.

3. Releia Brasília: “a síntese de todas as metas” e A sociedade e a cultura


dos anos dourados e explique por que havia certo orgulho romântico de ser
brasileiro.

4. Dê um novo título a esta aula.

Refazendo a História

Funeral de um lavrador
De João Cabral de Melo Neto

Esta cova em que estás


Com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho
Nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
Não é cova grande
É cova medida
É a terra que querias ver dividida
É uma cova grande
Para teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo
É uma cova grande
Para teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo
É uma cova grande
Para tua carne pouca
Mas a terra dada não se abre a boca

Este poema, que foi musicado por Chico Buarque, mostra como a produção
cultural dos anos dourados ia fundo nos problemas sociais. Qual é a grande
questão colocada nesses versos?

6
AUU
A L AL A

33
33
Da esperança MÓDULO 9

à repressão

O presidente Juscelino Kubitschek fora elei- Apresentação


to pelo voto popular, cumprira integralmente seu mandato e passara a faixa do Módulo 9
presidencial para outro presidente eleito. Porém, o novo presidente, Jânio
Quadros, renuncia e assume vice-presidente João Goulart (ou Jango, como
ficou mais conhecido). Mas seus poderes são limitados pelo parlamentarismo.
Quando se torna presidente de fato, é deposto. Rompida a constituição de 1946,
com a deposição de João Goulart, as promessas de rápido retorno à ordem
democrática não se concretizaram.
Nesta aula, vamos buscar entender como se deu esse processo e como se
estruturou no Brasil a ditadura militar, na sua fase inicial, entre 1964 e 1969.

O fim da República Democrática Nesta aula


Jânio Quadros foi eleito com a maior votação obtida, até então, por um
político brasileiro. No entanto, só fez descontentar seus eleitores, nos poucos
meses em que ocupou a Presidência.

Varre,varre, vassourinha.
Varre toda a bandalheira,
Que o povo já está cansado
De sofrer desta maneira
Jânio Quadros é a esperança
deste povo abandonado (...)
Música da campanha de
Jânio para a Presidência.

Com a inflação em alta, manteve os salários congelados e cortou subsídios


à agricultura, o que provocou uma grande alta nos preços dos alimentos.
Decretou a ilegalidade de rifas e bingos, proibiu as brigas de galos e liberou as
corridas de cavalo apenas aos domingos; adotou uniforme “safári” nas reparti-
ções públicas e, veja só, proibiu o desfile de maiô em concursos de beleza e o uso
de biquini nas praias!
A U L A Reatando relações diplomáticas com a União Soviética, e condecorando o
guerrilheiro Che Guevara, então ministro de Cuba, Jânio Quadros indignou as

33 elites que o apoiavam, e também os norte-americanos.


Sofrendo oposição até de seu partido, a UDN, o presidente renunciou ao
cargo, em agosto de 1961.
Contrariamente às suas expectativas, nenhum setor da sociedade tentou
convencê-lo a permanecer no cargo. Sua renúncia foi aceita, e o Congresso
declarou vaga a Presidência da República.

O governo de João Goulart (1961-1964)

Quando Jânio Quadros renunciou, o vice-presidente estava fora do País, em


visita oficial à China. E, por causa de seu passado getulista e de sua aproximação
com as forças populares, teve de negociar sua posse. Alguns setores da direita,
parlamentares e ministros militares, tentaram impedir que se cumprisse a
Constituição, mas o governador do Rio Grande do Sul, na época, Leonel Brizola,
com o apoio do Terceiro Exército, lançou a Campanha da Legalidade para
garantir a posse de João Goulart.
Por meio de um acordo que evitou a guerra civil, foi instaurado o regime
parlamentarista. Assim, Jango teria seus poderes diminuídos, pois no parla-
mentarismo quem governa de fato é o Congresso, com o Primeiro Ministro.
Posteriormente, haveria um plebiscito, para que a população decidisse pela
continuidade ou não do regime parlamentarista.
No dia 7 de setembro de 1961, João Goulart tomou posse, juntamente com
o primeiro ministro Tancredo Neves. Mas o clima de golpe que impusera o
regime parlamentarista gerou descontentamento e tornou o regime impopular.
O plebiscito teve de ser antecipado e, assim, no dia 6 de janeiro de 1963, a
população disse “não” ao parlamentarismo e restabeleceu o presidencialismo.
A inflação, agravada pela crise administrativa e política, castigava dura-
mente a população. O presidente João Goulart tentava implementar reformas de
base, mas o Congresso, cuja maioria parlamentar representava os interesses das
elites, se opôs a essas reformas. Medidas para conter a remessa para o exterior
de lucros das empresas estrangeiras passaram a sofrer a oposição dos Estados
Unidos e dos grupos ligados ao capital internacional. A criação da Superinten-
dência Nacional de Abastecimento − SUNAB, para controlar o abastecimento e
fiscalizar os preços, descontentava o empresariado.
Jango, então, radicalizou: buscou apoio da população, incentivando pas-
seatas e manifestações. Sindicalistas, trabalhadores, donas de casa, estudantes,
artistas e intelectuais, todo mundo se manifestava. As forças que o apoiavam
eram os trabalhadores urbanos, ligados aos sindicatos, e as ligas camponesas
lideradas por Francisco Julião, e mais: estudantes, intelectuais e militares
nacionalistas. Os pequenos e médios proprietários rurais e industriais, que
produziam para o mercado interno, também apoiam as propostas reformistas de
Jango. Entre os parlamentares estavam grupos dissidentes do PSD, da UDN, do
Partido Democrata Cristão − PDC e a Frente Parlamentarista Nacional − FPN.
No dia 13 de março de 1964, num grande comício realizado na Central do
Brasil, no Rio de Janeiro, Jango anunciou o tabelamento dos aluguéis e a
encampação das refinarias de petróleo estrangeiras, passando-as para o controle
da Petrobras. Falou das reformas de base , que poderiam melhorar a vida de
milhões de trabalhadores. Prometeu fazer a reforma agrária e as reformas fiscal,
bancária e administrativa.
A U L A

33

O comício na
Central do Brasil,
no Rio de Janeiro,
disparou a reação
dos oponentes
a Jango.

Principalmente a reforma agrária, devido à desapropriação dos latifúndios


improdutivos, mediante indenização, desencadeou grande reação, por repre-
sentar uma mudança no direito de propriedade.
Alguns dias mais tarde, em São Paulo, as forças conservadoras manifesta-
ram sua desaprovação, com a organização de uma grande passeata anti-
comunista denominada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”.
Embora Jango não fosse comunista, nesse momento de radicalização, e com
a polarização capitalismo/comunismo, a Igreja Católica manifestou-se contra as
reformas, pois temia que o país caísse na órbita soviética, na qual não havia
liberdade religiosa.
A oposição a Jango também se desenvolvia no plano internacional. No final
de março, o governo norte-americano aprovou uma operação contra o governo
brasileiro. A operação “Brother Sam” (irmão Sam) não precisou ser ativada, mas
uma frota americana estava estacionada no litoral do Nordeste, pronta para
apoiar os golpistas, caso houvesse resistência.

Revolução

Em 31 de março de 1964, as tropas comandadas pelo general Olímpio


Mourão Filho deslocaram-se de Minas Gerais para o Rio de Janeiro. Altos chefes
militares, políticos, governadores, empresários e setores da classe média apoia-
vam abertamente a deposição do Presidente da República.
Grupos nacionalistas e de esquerda, pegos de surpresa com a movimenta-
ção militar, não esboçaram nenhuma reação. Algumas tentativas de oposição
por parte de estudantes e sindicalistas não foram suficientes para reverter a
situação. O presidente João Goulart, que se encontrava na cidade do Rio de
Janeiro, seguiu para Brasília e, logo depois, para Porto Alegre.
Surgiu uma proposta de resistência, feita pelo ex-governador do Rio de
Grande do Sul, Leonel Brizola. Mas a proposta foi rejeitada pelo presidente, que
não desejava “derramamento de sangue”.
O Congresso Nacional, já dominado por políticos favoráveis ao golpe,
pronunciou-se: em 2 de abril de 1964 declarou vaga a Presidência da República
e indicou interinamente para o cargo o deputado Ranieri Mazzilli, presidente da
Câmara dos Deputados.
A U L A João Goulart, que nesse dia ainda se encontrava em território nacional,
exilou-se no Uruguai. O governo dos Estados Unidos, que vinha apoiando a

33 conspiração, reconheceu imediatamente a nova situação.


O novo presidente da República − Ranieri Mazzilli − era uma figura
decorativa. O poder de fato era exercido por um Comando Supremo da
Revolução , composto pelo almirante Augusto Rademaker, pelo general Costa
e Silva e pelo brigadeiro Correia de Melo. O Ato Institucional nº 1, imposto à
nação no dia 9 de abril, afirmava que “a revolução vitoriosa se investe no exercício
do Poder Constitucional” e dava às Forças Armadas “a responsibilidade da
restauração da ordem interna e do combate à corrupção”. As garantias constituicionais
foram suspensas por seis meses e uma forte repressão tomou conta do país.
Foram fechadas várias organizações consideradas “subversivas” − UNE, CGT,
Ligas Camponesas, entre outras. Políticos e lideranças estudantis e sindicais
também considerados subversivos foram perseguidos e presos. Iniciaram-se as
primeiras cassações de direitos políticos e os exílios.
No dia 11 de abril, a auto-intitulada “Revolução” dá o golpe de misericórdia:
com um Congresso totalmente mutilado por cassações e exílios, impõe a
aprovação da escolha do marechal Castelo Branco para completar o período
presidencial que iniciara com Jânio Quadros, em 1961.

Duros x moderados: o governo Castelo Branco (1964-1967)

Mas, afinal, quem eram esses militares que assumiram o poder em abril de
1964? Eram, na sua maioria, membros da oficialidade, formados no pós-guerra,
em meio ao clima da Guerra Fria . Muito deles passaram pelos cursos da Escola
Superior de Guerra − ESG, criada em 1949, seguindo um modelo norte-america-
no, com o objetivo de preparar as elites civis e militares para resolver questões
relativas ao planejamento e à segurança nacional.
A segurança nacional era entendida como a mobilização de todos os
recursos nacionais contra as possíveis ameaças externas, mas, principalmente,
contra os inimigos internos, que eram identificados como “comunistas subver-
sivos”, naqueles tempos de Guerra Fria.
Depois da queda de Jango, a tarefa de organização do novo poder começou
a colocar frente a frente as posições de grupos, dentro das Forças Armadas, que
não possuíam as mesmas idéias a respeito dos rumos do movimento. De um
lado, estava o grupo mais moderado, com aspirações liberais; de outro, a
chamada linha dura que, acreditando travar uma “guerra revolucionária”,
desejava perseguições e o “endurecimento” cada vez maior do governo.
Foi nesse contexto que se desenvolveu o governo Castelo Branco. Em 1965,
com a vitória da oposição nas eleições para importantes governos, como os de
Minas Gerais, (Israel Pinheiro) e da Guanabara (Negrão de Lima), os setores da
linha dura levaram o governo a editar o Ato Institucional nº 2.
Além da prorrogação do mandato presidencial, esse Ato permitia que o
presidente fechasse o Congresso, realizasse novas cassações e, principalmente,
dissolvesse os antigos partidos políticos. Surgiram, dessa maneira, a Aliança
Nacional Renovadora − ARENA, que deveria servir de apoio ao governo, e o
Movimento Democrático Brasileiro − MDB, que faria a oposição consentida, isto
é, aceita pelo governo.
O quadro político foi agravado por novas medidas autoritárias, como o Ato
Institucional nº 3 (determinando a escolha indireta dos governadores de estado),
o Ato Institucional nº 4 (estabelecendo as condições em que a nova Cons-
tituição seria votada pelo Congresso) e a indicação do general Costa e Silva, A U L A
ministro do Exército, para suceder ao marechal Castelo Branco.
Tal situação frustrou as expectativas de antigos aliados civis do golpe, que
acreditavam poder participar mais intensamente das decisões políticas. 33
Alguns órgãos de imprensa, que haviam apoiado o movimento de 64,
começaram a denunciar as violências e as perseguições, como o jornal carioca
Correio da Manhã. Aos poucos, esse órgãos foram sendo atingidos pela censura.
As promessas de devolver o país à democracia não se cumpriam.
Além das transformações jurídico-políticas ocorreram mudanças na econo-
mia. Combater a inflação e recuperar a confiança dos investidores e credores
internacionais passaram a ser prioridades.
Para atingir esses objetivos, ainda em 1964 foi lançado o Plano de Ação
Econômica do Governo − PAEG, coordenado por Roberto Campos. O país se
abriria para as empresas multinacionais, que iriam gerar empregos e progresso.
O governo brasileiro, para colocar esse plano em prática, contou com o apoio
do governo norte-americano, que tinha um programa de ajuda aos países
subdesenvolvidos chamado Aliança para o Progresso . Com empréstimos dos
Estados Unidos, com a diminuição dos gastos públicos e com a contenção
salarial, o governo pretendia acabar com a crise econômica brasileira.
Já que a ação dos sindicatos estava limitada pela política de cassação e
repressão do governo militar, os trabalhadores acabaram perdendo boa parte do
seu poder aquisitivo. Foi criada a correção monetária , que estimulou as
cadernetas de poupança e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço − FGTS,
que permitiu o investimento na construção de moradias (embora tenha sido
construída apenas uma pequena quantidade de conjuntos habitacionais) pelo
Banco Nacional de Habitação − BNH. O FGTS também tinha o objetivo de
extinguir determinados mecanismos que garantiam a estabilidade no emprego.
Com o aumento dos juros e os estímulos à exportação, foram beneficiados
bancos particulares e o parque industrial privado. Mas muitas pequenas e
médias empresas não suportaram a concorrência das grandes e acabaram
fechando suas portas.
Era a retomada da oligopolização (controle de setores do mercado por
algumas poucas empresas que fazem acordo sobre os preços) e do processo de
concentração de riqueza.

O fechamento do regime: o governo Costa e Silva (1967-1969)

Quando assumiu o governo em 1967, o general Costa e Silva tinha sua


autoridade garantida pela supremacia do Poder Executivo sobre o Legislativo e
o Judiciário, e pela existência da Lei de Segurança Nacional. Além disso, as
assessorias dadas pelo Alto Comando e Estado Maior das Forças Armadas e pelo
Serviço Nacional de Informação − SNI, garantiam as informações necessárias
para a fiscalização da vida nacional.
Apesar das medidas radicais e autoritárias da linha dura , a sociedade
começou a reagir. À oposição consentida do MDB, somaram-se setores sociais
pertencentes às classes médias urbanas (incluindo-se aqui alguns grupos ante-
riormente comprometidos com o golpe), setores do movimento estudantil,
operários e parte da Igreja Católica.
Já rompido com a “Revolução”, o ex-governador da Guanabara Carlos
Lacerda lançou, em 1967, a Frente Ampla. Contando com apoio dos ex-presiden-
tes Juscelino Kubitschek e João Goulart, exigia uma anistia ampla , uma nova
A U L A Constituição e o restabelecimento das eleições diretas para todos os níveis. No
entanto, a heterogeneidade dos componentes e a reação militar levaram a Frente

33 Ampla ao fracasso.
Em 1968, protestando contra a política educacional, o corte de verbas, a
diminuição dos salários dos professores, a redução do número de vagas, o
incentivo ao ensino particular com verbas públicas, e opondo-se ao próprio
governo, os estudantes realizaram diversas manifestações em várias capitais. O
ponto máximo da mobilização dos jovens ocorreria em junho, por causa do
assassinato do estudante Edson Luís, pela polícia.
No dia 26 de junho de 1968, o Rio de Janeiro assistiu à Passeata dos Cem
Mil . Milhares de pessoas saíram às ruas, na maior manifestação contra o
governo desde 64. Artistas, intelectuais, estudantes, padres, freiras, professo-
res, funcionários públicos, jornalistas e mães exigiam a libertação dos jovens
presos. A classe média saía às ruas para mostrar sua insatisfação. O governo
relutava em negociar e respondia com evasivas.
Naquele momento em que os protestos contra o regime não paravam, a
oposição consentida do MDB no Congresso passou a ser mais agressiva em suas
acusações ao governo. Aí surgiu a gota d’água para o fechamento do regime.
Um discurso do deputado carioca Márcio Moreira Alves, do MDB, pregan-
do o boicote popular ao desfile de 7 setembro, provocou irritação nas Forças
Armadas e levou o governo a exigir que o Congresso punisse o deputado. Mas
o Congresso recusou o pedido de licença para processá-lo. No dia seguinte, 13
de dezembro, o presidente Costa e Silva assinou o Ato Institucional nº 5, que
fechou o Congresso por tempo indeterminado, cassou diversos mandatos e
levou mais gente para a cadeia. Era o fechamento completo do regime .

6
O tempo Com a “Revolução” de abril de 1964, foi implatado no Brasil um novo
não pára projeto de Estado, privilegiando a manutenção da ordem, o desenvolvimento
econômico capitalista e o controle dos movimentos sociais. Para atingir esses
objetivos, os líderes militares mostraram-se dispostos a sacrificar qualquer
noção de direito, de cidadania e de Estado de Direito vigente no país.
No ano de 1968, o termômetro da mobilização social atingiu graus intolerá-
veis para as autoridades. A violência do Ato Institucional nº 5 significou o início
dos “anos de chumbo”.
Em agosto de 1969, com a doença de Costa e Silva, que sofreu um derrame
cerebral, o vice-presidente, o civil Pedro Aleixo, foi impedido de assumir a
presidência por sua posição contrária ao Ato Institucional nº 5. Os três ministros
militares formaram, então, uma junta militar e assumiram o governo.
A violenta repressão e a censura que se abateu sobre o país impediram a
participação política da sociedade. Assim, alguns grupos partiram para o
caminho da clandestinidade e da luta armada. Organizações guerrilheiras,
formadas por diferentes grupos radicais de esquerda, passaram a realizar
assaltos a bancos, como forma de obter dinheiro e armas para a luta, e a
seqüestrar embaixadores estrangeiros, com o objetivo de denunciar o governo
e obter a libertação de presos políticos que iam para outros países, exilados.
Iniciou-se uma verdadeira guerra entre as forças militares e os grupos da
esquerda armada.
Foi nesse contexto de crise que se deu a escolha do general Emílio Garrastazu
Médici para o governar o Brasil.
Relendo o texto Exercícios
A U L A
Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade. 33
1. Releia O fim da república democrática e explique:
a) o que foi a Campanha da Legalidade;
b) o acordo que evitou a guerra civil e garantiu a posse de Jango.
2. Releia Revolução e responda:
a) que setores apoiaram a deposição de Jango?
b) com que Ato as Forças Armadas se responsabilizaram pela manutenção
da ordem interna e do combate à corrupção?
3. Releia Duros x moderados: o governo Castelo Branco (1964-1967) e diga
que medidas práticas foram tomadas com o Ato Institucional nº 2?
4. Releia O fechamento do regime: o governo Costa e Silva (1967-1969) e
explique as manifestações estudantis de 1968.
5. Dê um novo título a esta aula.

Refazendo a História
Marcha da quarta-feira de cinzas
Letra de Vinicius de Moraes e música de Carlos Lyra
Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe
Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Nesse poema, Vinicius de Moraes, lamentava o fim do período democrá-
tico, comparando-o ao carnaval. No entanto, previa que, em breve, voltaria
a esperança. Infelizmente, ele não viveu para ver esse dia feliz.
Em sua opinião, que esperança era essa, e quais seriam essas promessas
de luz a que Vinicius se referia?
A UA UL L AA

34
34
MÓDULO 9
Os anos de chumbo

Nesta aula O s chamados “anos de chumbo” desenvol-


veram-se sob a inspiração da linha dura, do Ato Institucional nº 5 e da ideologia
da “segurança nacional”. Com Médici no poder, o país passou por uma das
mais duras fases de restrição política da História da República.
Em nome do desenvolvimento dizia-se ser necessária a segurança, e por
segurança subentendia-se a eliminação de qualquer tipo de oposição.
Nesta aula vamos entender melhor esse período difícil da nossa História, e
ver que, apesar de tudo, a resistência achou brechas para se manifestar.

“Milagre” econômico

Os governos militares se propunham a realizar um gigantesco esforço de


desenvolvimento, baseado na associação das empresas nacionais com empresas
multinacionais. Prometendo estabilidade política ao capital estrangeiro, foram
atraídos empréstimos para grandes obras e novos investimentos.
Foi assim que, durante o regime militar, aumentou vária vezes o Produto
Interno Bruto (PIB), que é o valor de tudo que se produz no país. Esse desen-
volvimento recebeu o nome de “milagre”, transformando a economia brasileira
na oitava do mundo.
O aumento da riqueza produzida no país resultou em melhoria de vida para
uma parcela da população: a classe média. Os salários, no entanto, foram
contidos, e ninguém podia reivindicar nada.
Nessa época, apesar da crescente industrialização, o quadro social agravou-
se com o aumento de favelas, de menores abandonados, de violência urbana...
E tudo isso num país que se desenvolvia a olhos vistos.
O ministro da Fazenda Delfim Neto explicava que era preciso “fazer o bolo
crescer” para, depois, reparti-lo. Mas até o presidente reconhecia: “A economia
vai bem, mas o povo vai mal.”

Brasil, ame-o ou deixe-o

As empresas multinacionais queriam garantias de que os seus investimen-


tos não seriam encampados se houvesse uma revolução socialista, ou seja, se
houvesse subversão da ordem capitalista. Com a doutrina da “segurança
nacional e desenvolvimento”, os militares, aliados ao alto empresariado, conse- A U L A
guiram a estabilidade política nescessária. Essa doutrina, que visava garantir a
soberania nacional, o progresso, a paz social e a democracia, vai crescendo por
causa da concentração de poderes nas mãos do presidente militar e por causa das 34
campanhas de controle, repressão e propaganda do regime.

Criados pelo
governo, estes
lemas eram
divulgados pelo
país inteiro.

Por trás da doutrina, que estava escrita em um programa, existia uma


ideologia da “segurança nacional”. Mas estaria o Brasil ameaçado por alguma
potência estrangeira? Não. O que corria risco era o sistema capitalista, as
propriedades, as empresas, os lucros fáceis. Nesse momento em que o capitalis-
mo estava sendo ameaçado pelo socialismo, era preciso defendê-lo.

Repressão

O governo do presidente Emílio Garrastazu Médici é o ápice dessa ideolo-


gia, que apesar de falar em paz social e democracia, levava o Estado ao
aperfeiçoamento máximo dos mecanismos de defesa interna. Por meio da
repressão violenta, os grupos armados foram aniquilados. Os que combatiam o
regime eram chamados de “terroristas” e “subversivos”. Quando presos, per-
diam qualquer direito político ou humano.

A propaganda

O Brasil de Médici não era apenas grande, era gigantesco. O próprio


presidente dizia: “Ninguém segura este país”. Além das obras monumentais,
como a ponte Rio-Niterói e a rodovia Transamazônica, o governo estendeu o
mar territorial brasileiro para 200 milhas. Na comemoração dos 150 anos da
Independência, foram trasladados, com muita pompa, os restos mortais de
D. Pedro I que estavam em Portugal.
Em 1970, com a conquista do tricampeonato mundial de futebol, no México,
os órgãos de propaganda montaram a imagem do “país que vai pra frente”, e
utilizavam músicas como ‘Eu te amo meu Brasil, meu coração é verde, amarelo,
azul anil” e “Moro num País tropical, abençoado por Deus e bonito por
naturesa”. E quem não concordasse, que se mudasse! No exterior, era grande a
colônia de brasileiros exilados por motivos políticos.
A U L A Censura, nunca mais!

34 Desde o golpe de 64, estava difícil para trabalhadores e políticos criticarem


o governo. A censura mandava recolher jornais, acabar com programas de rádio,
e proibia a encenação de peças de teatro. No entanto, os operários ainda se
organizavam e protestavam. Mas, depois do Ato Institucional nº 5, isso se
tornou impossível. Para que ninguém contestasse essa imagem que se queria
fazer do governo e do país, era preciso manter sob controle os meios de
comunicação, as artes, os sindicatos e até os professores.

O movimento
estudantil entrou
em conflito com a
polícia e com
outras forças da
repressão.

No governo Médici foi instituída a censura prévia . Tudo que se lia, via ou
ouvia, tinha de ser autorizado pelo Departamento de Censura Federal. Os filmes
sofriam cortes; peças de teatro eram modificadas, e até se alteravam letras de
músicas. A liberdade de imprensa foi tolhida de tal modo que, dentro da redação
de jornais e revistas, havia censores.
Os livros considerados subversivos foram retirados das bibliotecas e livra-
rias. Disciplinas como Filosofia e História , que são tão importantes para o
desenvolvimento do pensamento e da crítica, foram simplesmente eliminadas
dos currículos escolares. Em seu lugar foi introduzida uma disciplina chamada
Estudos Sociais, que misturava a história oficial e geografia, e Educação Moral
e Cívica, cujo objetivo era a doutrinação dos estudantes.
A ampliação da violência e do controle da imprensa e das artes provocou um
clima de tensão e de insegurança. Por isso, muitos artistas e intelectuais tiveram
de sair do país, e os que ficaram foram perseguidos, além de terem sua liberdade
de criação limitada pela censura e pelo medo da prisão.
Geraldo Vandré
escreveu a música
Para não dizer que
não falei de flores.
Pra não dizer que não falei de flores A U L A

Apesar da censura e das perseguições, a cultura resistia. Com a peça


Liberdade, Liberdade, de Millôr Fernandes, o teatro continuava a evocar a 34
liberdade de pensamento e de criação artística. Mas, no final dos anos 60 e nos
anos 70, a música acabaria por se tornar a grande trincheira de resistência ao
autoritatismo. Paralelamente ao sucesso da Jovem Guarda, com Roberto Carlos
e Erasmo Carlos (influenciados pelo rock e pelos Beatles), destacam-se jovens
compositores que faziam música de protesto: Chico Buarque, Edu Lobo, Milton
Nascimento, Geraldo Vandré, entre outros. Influenciados pela bossa nova e pelo
samba, utilizavam os festivais de música, o teatro e o cinema para resistir.
A música que transcrevemos abaixo ficou conhecida como um hino da
resistência e oposição ao regime militar, e era sempre cantada em manifestações
públicas.
Pra não dizer que não falei de flores
De Geraldo Vandré
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas, marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão
Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos, de arma na mão
Nos quartéis lhes ensinam antigas lições
De morrer pela Pátria e viver sem razão
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente e a História na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
Um movimento que marcou época nos anos de 1967 e 1968 foi a Tropicália .
Caracterizou-se pelo espírito irreverente, popular, de cantar as coisas do Brasil.
Os tropicalistas eram, em sua maioria, baianos: Caetano Veloso, Gilberto
Gil, Tomzé, Capinam, e o piauiense Torquato Neto. Buscavam a comunicação
direta com o povo, e falavam a sua linguagem, com ironia e bom humor. Além
das letras, também inovavam na harmonia e na utilização da guitarra elétrica.
Alguns conservadores achavam que eles iriam descaracterizar a música brasilei-
ra ao utilizar instrumentos eletrônicos. O Programa do Chacrinha , transmitido
pela televisão, popularizou o movimento. Pela primeira vez o povo aparecia na
“telinha” e se reconhecia.
A U L A

34 Caetano Veloso,
Rita Lee,
Maria Bethânia,
e outros artistas
formavam o grupo
tropicalista.

A reação de parte da juventude ao que acontecia no Brasil e no mundo −


as guerras, o consumismo, as injustiças sociais, a violência, a opressão e a
repressão política − expressou-se numa postura de rebeldia. Muitos jovens
passaram a incorporar a maneira de viver dos “ hippies” que, na Europa e nos
Estados Unidos, chocavam as pessoas mais conservadoras, com seus cabelos
compridos, suas roupas extravagantes e sua defesa do amor livre. A música de
Caetano Veloso É Proibido Proibir expressa bem o protesto dos jovens que, nos
anos 60 e 70, se rebelaram contra a repressão sob todas as formas e defendiam
a liberdade como filosofia de vida.

6
O tempo Para se legitimar, ou seja, para ser aceito pelo povo, o regime militar
não pára precisaria ter sucesso em desenvolver o país e dar melhores condições de vida
à população. Embora conseguisse sufocar qualquer oposição, a ditadura não
conseguiu superar suas próprias contradições. A partir de 1973, num cenário de
crise internacional pela alta dos preços do petróleo e alta dos juros, o “bolo
econômico” parou de crescer, sem que o povo tivesse recebido sua “fatia”.
Iniciou-se, então, um longo e gradual processo de abertura política.

Exercícios Relendo o texto

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade.

1. Releia “Milagre” econômico explique o que foi esse milagre.

2. Releia Brasil, ame-o ou deixe-o e responda:


a) por que o Ato Institucional nº 5 significou o endurecimento do regime?
b) de que maneira a propaganda ajudava a estabilizar o regime?

3. Releia Censura, nunca mais! e Pra não dizer que não falei de flores e
explique de que forma a censura afetou a produção cultural do país.

4. Dê um novo título a esta aula.


Refazendo a História A U L A

O documento a seguir é um telex enviado pelo jornalista Ruy Mesquita ao


ministro da justiça Alfredo Buzaid, e que circulou na imprensa como um grito 34
de revolta pela humilhação da censura, que a impedia de exercer seu papel de
informar:

Sr. Ministro:

Da Polícia Federal recebemos o seguinte aviso:

“De ordem do Sr. Ministro da Justiça, fica expressamente proibida


a publicação de: notícias, comentários, entrevistas ou critérios (sic) de
qualquer natureza (sic) abertura política ou democratização ou assun-
tos correlatos (sic); anistia a cassados (sic) ou revisão parcial de seus
processos; críticas ou comentários ou editoriais desfavoráveis sobre a
situação econômico-financeira; ou problema sucessório e suas implica-
ções. As ordens acima transmitidas atingem quaisquer pessoas, inclu-
sive as que já foram ministros de Estado ou ocuparam altas posições ou
funções em quaisquer atividades públicas. Fica igualmente proibido
pelo Sr. Ministro da Justiça a entrevista de Roberto Campos”.

Senhor Ministro, ao tomar conhecimento dessas ordens emanadas de


V. S., o meu sentimento foi de profunda humilhação e vergonha. Senti
vergonha, Senhor Ministro, pelo Brasil, degradado à condição de uma
republiqueta de banana ou de uma Uganda qualquer por um governo
que acaba de perder a compostura.
Parece incrível que os que decretam hoje o ostracismo forçado dos
próprios companheiros de revolução, que ocuparam ontem cargos em
que se encontram hoje, não cogitem cinco minutos do julgamento da
História. O senhor, Senhor Ministro, deixará de sê-lo um dia. Todos os
que estão hoje no poder dele baixarão um dia e, então, Senhor Ministro,
como aconteceu na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini, ou na
Rússia de Stalim, o Brasil ficará sabendo a verdadeira história deste
período em que a revolução de 64 abandonou os rumos traçados pelo seu
maior líder, o marechal Castelo Branco, para enveredar pelos rumos de
um caudilhismo militar que já está fora de moda, inclusive nas repúbli-
cas hispano-americanas.
Cheio de vergonha por ver meu país degradado a essa condição,
subscrevo-me humilhado,

Ruy Mesquita,diretor do Jornal da Tarde e de O Estado de São Paulo.

Cópias ao Ministro Leitão de Abreu.


Cópias aos líderes da ARENA e do MDB, na Câmara e no Senado.
São Paulo, 20 de setembro de 1972.

Agora, responda: o que esse documento revela sobre a “revolução” de 1964?

6
A UA UL L AA

35
35
MÓDULO 9
Amanhã há de ser
outro dia

Nesta aula O s primeiros anos da década de 1970 foram


de grande euforia. Entre 1970 e 1973, a economia brasileira cresceu em torno de
10% ao ano! Era o “milagre” brasileiro. Após anos de uma dura recessão, o país
vivia sob uma inflação baixa. De maneira nunca vista, cresciam a produção
industrial e as exportações. Consolidava-se a sociedade de consumo. A classe
média passava a ter carro, casa própria, eletrodomésticos e lazer.
Nesta aula, vamos ver como a crise internacional do petróleo veio abalar a
economia nacional e os índices de crescimento, sob os governos Geisel e
Figueiredo. Veremos também que, com a crise econômica, ficou mais difícil
manter a repressão política. Iniciou-se, então, uma distensão lenta e gradual.

Do “milagre” à crise

Os técnicos tomaram conta da economia do Brasil. Muitos haviam se


formado pela Escola Superior de Guerra (ESG), que desde os anos 50 vinha se
preocupando em discutir a realidade brasileira e formar profissionais capazes de
planejar e apresentar soluções para os problemas brasileiros. Crescia também a
força dos cursos universitários. Os salários daqueles que possuíam curso
superior eram bem melhores e todos alimentavam o sonho da universidade ,
principalmente entre a classe média.
O setor estatal foi fortalecido e crescia, baseado na facilidade dos emprésti-
mos externos. Nesse momento, as empresas estatais tinham como meta tornar-
se lucrativas. O capital estrangeiro aumentou enormemente o seu investimento,
com a instalação das multinacionais . E os juros da dívida externa estavam lá
embaixo...
A rede de rodovias aumentou. Grandes projetos de hidrelétricas (Itaipu) e
a ocupação da Amazônia (construção da rodovia Transamazônica) tornaram-se
prioridades do governo, Surgiram supermercados e shopping centers . Tudo
parecia confirmar o slogan “Ninguém segura este país”, divulgado pelo gover-
no e repetido por todos que viam seu padrão de vida melhorar.
Entre 1970 e 1973, o rápido crescimento das exportações brasileiras conse-
guiu equilibrar a balança comercial, aumentando as exportações em 40% ao ano.
Já o processo de concentração da renda negava aquilo que os técnicos do governo
costumavam afirmar, isto é, que era preciso esperar o bolo crescer para dividi-
lo. O bolo cresceu, mas... não foi dividido!
As bolsas de valores aumentaram seu movimento, criando uma febre de A U L A
especulação e o desejo de enriquecer rapidamente. Nos bancos, vários investi-
mentos foram oferecidos na forma de ações, letras de câmbio e certificados de
depósito bancário. Esses investimentos eram papéis que funcionavam como 35
uma espécie de empréstimo dos clientes aos bancos, que por sua vez investiam
e pagavam os clientes com juros. Começava o que ficou conhecido como
ciranda financeira .

Exemplo de obra
gigantesca, a
hidrelétrica de
Itaipu gastou
milhões de dólares
em sua
construção.

O “milagre” brasileiro não durou muito. A partir de 1973, uma crise


internacional mudaria os rumos do “milagre”, junto com as contradições da
política econômica do período, que aumentava cada vez mais a dependência do
Brasil em relação à economia internacional.
Era o momento de rever planos e estratégias. O Estado brasileiro procurava
legitimar sua ação política (com a eliminação da oposição e a linha dura ) com
o lema “ segurança nacional e desenvolvimento” .
Em nome da segurança nacional, os cidadãos perdiam sua liberdade políti-
ca, mas ganhavam desenvolvimento econômico. O “milagre” econômico serviu
de apoio ao lema da ditadura, que procurou sempre divulgar dados e estatísticas
técnicas para demonstrar o crescimento do país. Porém, seus problemas surgi-
ram logo, e pioraram com a situação internacional.

A crise do petróleo

Quando, em 1973, os países árabes, responsáveis pela maior parte da


produção de petróleo, se reuniram na Organização dos Países Exportadores de
Petróleo − OPEP e decidiram aumentar os preços do produto, a situação
brasileira ficou complicada. A principal fonte de energia do mundo tornou-se
cara e gerou uma crise mundial.
Em 1974, a OPEP triplicou o preço mundial do petróleo. O Brasil passou a
enfrentar graves dificuldades, pois na época importava 80% do petróleo consu-
mido e tinha uma indústria automobilística em expansão.
A U L A Os juros da dívida externa subiram demais e as exportações brasileiras
caíram. Era o fim do “milagre”. Em 1977, foram adotadas medidas para conter

35 o consumo dos combustíveis derivados de petróleo. Passou a haver racionamen-


to, fechando-se os postos de abastecimento à noite, nos fins de semana e nos
feriados.
O “milagre” econômico da década de 1970 ajudou o governo militar a
justificar o seu poder, e não se pode negar o crescimento econômico, especial-
mente do parque industrial nacional. Os ministérios e equipes do governo,
ocupados por especialistas em determinados assuntos, construíram um poder
de técnicos − a tecnocracia . A conjuntura internacional ajudou, combinada com
os interesses do empresariado nacional e o apoio da classe média, satisfeita com
seu próprio crescimento. No entanto, os programas sociais não tiveram sucesso.
O Movimento Brasileiro de Alfabetização − MOBRAL, a reforma agrária, o Plano
Nacional de Saúde não conseguiram cumprir seus objetivos. A década de 1980
não chegou com otimismo.

O governo Ernesto Geisel (1974-1979)

Escolhido indiretamente para exercer a Presidência da República, o general


Geisel assumiu o poder quando o “milagre” brasileiro já mostrava sinais de
crise. Com o objetivo de dar continuidade ao desenvolvimentismo, foi lançado
o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (2º PNB), que dava prioridade
ao setor energético.
Grandes projetos foram iniciados nesse governo: a usina nuclear de Angra
dos Reis, fruto de um acordo entre o Brasil e a Alemanha; os pólos industriais
de Carajás e Trombetas; e o Pro-Álcool, que desenvolveu um novo tipo de
combustível para veículos − o álcool hidratado . Esses projetos tornaram-se
incompatíveis com a dívida externa, que se tornara bem grande.
Por outro lado, as aplicações no mercado financeiro ofereciam mais vanta-
gens do que os investimentos na produção.
O 2º PNB não foi muito bem sucedido. O fantasma da crise voltou a assustar
os brasileiros e não havia santo que aparecesse para fazer milagres.

Abertura política lenta e gradual

Em termos políticos, a escolha do general Geisel significava uma vitória dos


grupos moderados, que pensavam em devolver o poder aos civis gradualmente.
É claro que os efeitos da crise econômica e as novas pressões dos vários setores
da sociedade também contribuiram para o processo de abertura política.
Os trabalhadores, em 1978, desencadearam inúmeras greves, duramente
reprimidas pela polícia. No entanto, os próprios empresários perceberam que
era melhor conversar com os líderes sindicais do que com os representantes do
governo.
Na região do ABC, em São Paulo, onde se concentravam as indústrias
automobilísticas, o movimento grevista dos metalúrgicos, liderados por Luís
Inácio da Silva, o Lula, deu início à reorganização dos trabalhadores.
O caminho, porém, seria difícil. Os militares da linha dura não concordavam
com a política de abertura. Ações repressivas, que culminaram com os assassi-
natos do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho, colocaram
em questão a autoridade do presidente e provocaram a indignação da sociedade.
A U L A

Outro exemplo de
obra gigantesca:
35
a usina nuclear
Angra I.

A reação foi imediata: impôs-se um duro golpe aos setores radicais do próprio
governo, com a demissão do comandante do Segundo Exército e do próprio
ministro do Exército.

Os pacotes eleitorais

A abertura política do presidente Geisel, no entanto, foi bastante segura. Em


1976, o ministro da Justiça Armando Falcão baixou uma lei que criou o horário
gratuito de propaganda eleitoral e, ao mesmo tempo, limitou o acesso da
oposição ao rádio e à televisão. Os candidatos somente podiam dizer o nome, o
número, a sigla partidária e o cargo que disputavam. Além disso, o tempo para
cada partido era proporcional ao número de cargos que já ocupava no Senado,
na Câmara, nas Assembléias estaduais e municipais.
De acordo com a Lei Eleitoral, o número de deputados federais a que cada
estado tinha direito variava conforme o número de eleitores. O estado que
tivesse mais eleitores teria mais deputados. Esse era o caso de São Paulo, que
tinha direito a noventa deputados.
O mapa das eleições de 1974 mostrou que o governo ganhara nas zonas
rurais, onde predominavam os “currais eleitorais”, e perdia nas cidades onde a
população era mais politizada.

O pacote de abril

O chamado “pacote de abril”, baixado em 1977, tratou de garantir a


permanência das linhas mestras do regime. Tratava-se de um conjunto de
emendas constitucionais e decretos-leis, que promovia a reforma do Poder
Judiciário e do Poder Legislativo.
Por esse pacote, o número de deputados federais passou a ser proporcional
ao número de habitantes, incluindo crianças e analfabetos, e não mais ao número
de eleitores. Os territórios, como Roraima e Amapá, onde o governo sempre
ganhava, tinham direito a um deputado, e passaram a ter direito a dois. E os
estados teriam direito a ter, no mínimo, oito deputados e, no máximo, 55.
Dessa forma, em São Paulo seriam necessários 200 mil votos para eleger um
deputado, enquanto no Acre, apenas 8.750 votos seriam suficientes.
Certa vez, num debate na televisão, um candidato da oposição comentou:
A U L A “ Agora só falta o governo decretar que o voto a seu favor vale dois, e que o voto para
a oposição vale um”. A verdade é que o voto de um eleitor acreano passou a valer

35 o voto de 23 eleitores paulistas.


O pacote de abril também fez modificações no Colégio Eleitoral − que era
composto pelos membros do Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e
Senado) e pelos representantes das Assembléias dos estados − para escolha do
presidente, ampliação do mandato presidencial para seis anos e criação dos
chamados “senadores biônicos”. Esses senadores, sem serem eleitos, eram
indicados pelo governo.
Graças a essas medidas para prolongar o regime, o governo conseguiu
manter maioria no Congresso nas eleições de 1978, embora a oposição tivesse
arrebanhado a maioria absoluta dos votos.
Somente após garantir-se a transição, com a escolha de outro militar para
governar por mais seis anos, é que foram revogados o Ato Institucional nº 5 e a
censura, no final do governo Geisel. O projeto de abertura política lenta e gradual
do presidente Geisel estava garantido.

O governo João Figueiredo (1979-1985)

Em março de 1979, assumiu a presidência o ex-chefe do Serviço Nacional de


Informações (SNI) do governo Geisel, general João Figueiredo, após um período
de campanha que o obrigou a percorrer o país de ponta a ponta, num exercício
de democracia que, até então, nenhum presidente do período militar havia feito.
Afirmando ter a mão estendida à conciliação, Figueiredo se propôs a dar
continuidade − ainda lenta e gradual − ao processo de abertura.
A reforma partidária, com uma nova lei orgânica dos partidos, permitiu a
volta do pluripartidarismo. A ARENA e o MDB trocaram de nome, passando
a chamar-se Partido Democrático Social − PDS e Partido do Movimento Demo-
crático Brasileiro − PMDB. Também foram registrados o Partido dos Trabalha-
dores − PT, o Partido Trabalhista Brasileiro − PTB e o Partido Democrático
Trabalhista − PDT. O objetivo dessa reforma era reforçar o partido do governo,
dividindo a oposição.
O presidente Figueiredo baixou outro “pacote eleitoral” em 1981, proibindo
as coligações, ou seja, a união de partidos para apoiar um mesmo candidato.
Cada partido deveria ter chapa completa de candidatos, e o voto seria vinculado.
Isso quer dizer que o eleitor só podia votar em candidatos do mesmo partido.
Em junho de 1982, outro “pacote” exigia a fidelidade partidária, isto é,
obrigava os parlamentares a votar conforme a determinação da direção do
partido. E, para impedir que a oposição, com maioria no Congresso, fizesse
modificações na Constituição, as emendas só poderiam ser aprovadas por dois
terços dos congressistas.
A convocação, em 1982, de eleições diretas para todos os níveis, exceto para
presidente, movimentou todo o país, embora nas grandes cidades não houvesse
eleições para prefeito, pois eram consideradas áreas de segurança nacional .
Com o fim do Ato Institucional nº 5 e o abrandamento da Lei de Segurança
Nacional, os movimentos populares intensificaram-se. Surgiram organizações
como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra , o Movimento Popular
de Saúde , os Grupos de União e Consciência Negra, União das Nações Indíge-
nas , as Comissões de Mulheres , além de haver um incremento dos movimentos
pastorais, sindicais e de partidos políticos.
A anistia foi aprovada em 28 de agosto de 1979.
A U L A
GOVERNOS DO REGIME MILITAR
RANIERI MAZZILLI − Presidente da Câmara, assumiu o governo de 2 a 15
de abril de 1964, por determinação do Congresso.
CASTELO BRANCO − De 15 de abril de 1964 a 15 de março de 1967. Como
35
chefe da “revolução”, pretendia normalizar a situação política, restabelecer os
processos democráticos normais, e garantir a eleição presidencial prevista
para 1965. Seu mandato, porém, foi prorrogado pelo Ato Institucional nº 2 que
estabeleceu, também, a eleição indireta para presidente da República e gover-
nadores dos estados.
COSTA E SILVA − De 15 de março de 1967 a 31 de agosto de 1969. Afastou-
se do governo por que sofreu um derrame cerebral, vindo a falecer em 17 de
dezembro de 1969. Em 13 de dezembro de 1968, foi baixado o Ato Institucional
nº 5, que teve como conseqüência o endurecimento do regime.
JUNTA MILITAR − De 31 de agosto a 10 de outubro de 1969. Essa junta era
composta pelos ministros militares: general Lira Tavares, do Exército; almi-
rante Augusto Rademaker, da Marinha e brigadeiro Sousa Melo, da Aeronáu-
tica.
EMÍLIO MÉDICI − De 10 de outubro de 1969 a 15 de março de 1974. Foi a fase
mais dura do regime, caracterizada pela violenta repressão e pelo chamado
“milagre” brasileiro na economia.
ERNESTO GEISEL − De 15 de março de 1974 a l5 de março de 1979. Iniciou
a abertura política, com a emenda constitucional aprovada em 13 de outubro
de 1978, para começar a vigorar a partir de 1º de janeiro de 1979. Essa emenda
revogou os Atos Institucionais e Complementares.
JOÃO FIGUEIREDO − De 15 de março de 1979 a 15 de março de 1985. Passou
o governo a um civil, eleito pelo Colégio Eleitoral.

A década de 1970 terminou com um Brasil bem diferente do que começara. O tempo
No plano econômico, a euforia deu lugar à crise; e no plano político, os anos de não pára
chumbo cederam espaço para um pouco de liberdade. Em dezembro de 1978, foi
revogado o Ato Institucional nº 5, o mais importante instrumento de repressão
política. A partir daí, veio a certeza de que o regime autoritário se esgotara e de
que era chegada a hora da democracia.
No plano político, a década de 1980 representou um momento decisivo na
História brasileira. O regime militar − pressionado tanto pela crise econômica
como pela capacidade de organização da sociedade − foi sendo obrigado a abrir
mão do poder. As campanhas pela anistia e pelas diretas já tiveram um papel
significativo nesse processo de democratização do Estado.
O primeiro governo da Nova República teve de enfrentar a grave crise
econômica, com inflação em alta, e a crise social, com desemprego, miséria, falta
de assistência à população. No campo político conseguiu que fosse mudada a
legislação autoritária, por meio de uma nova Constituição.

Relendo o texto Exercícios


Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade.

1. Releia Do milagre à crise e explique:


a) de que maneira o regime autoritário legitimava sua ação política;
b) de que forma a crise internacional do petróleo afetou o milagre brasileiro.
A U L A 2. Releia O governo Ernesto Geisel (1974-1979) e explique por que o caminho
da abertura democrática foi difícil.

35 3. Releia Os pacotes eleitorais e O governo João Figueiredo (1979-1985), e


explique o objetivo das inúmeras reformas eleitorais feitas nos governos
Geisel e Figueiredo:
4. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Este samba de Chico Buarque, composto em 1978, é considerado o “hino da


abertura”. Leia-o e responda às questões propostas.

Apesar de você Você que inventou a tristeza


De Chico Buarque Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Hoje você é quem manda Cada lágrima rolada
Falou tá falado Nesse meu penar
Não tem discussão
A minha gente hoje anda Apesar de você
Falando de lado Amanhã há de ser
E olhando pro chão, viu Outro dia
Você que inventou esse estado Inda pago pra ver
E inventou de inventar O jardim florescer
Toda a escuridão Qual você não queria
Você que inventou o pecado Você vai se amargar
Esqueceu-se de inventar Vendo o dia raiar
O perdão Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Apesar de você Que esse dia há de vir
Amanhã há de ser Antes que você pensa
Outro dia
Eu pergunto a você Apesar de você
Onde vai se esconder Amanhã há de ser outro dia
Da enorme euforia Você vai ter que ver
Como vai proibir A manhã renascer
Quando o galo insistir E esbanjar poesia
Em cantar Como vai se explicar
Água nova brotando Vendo o céu clarear
E a gente se amando De repente, impunemente
Sem parar Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Quando chegar o momento Na sua frente
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro Amanhã há de ser
Todo esse amor reprimido Outro dia
Esse grito contido Você vai se dar mal
Este samba no escuro Etc. e tal.

1. Quem é o “você” do poema?


2. Como é o “você”?
3. Quais os temas abordados pelo autor?
4. O que significa o estribilho “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”?
5. Na sua opinião, o autor tinha uma atitude otimista ou pessimista diante do
quadro político?
6
AUU
A L AL A

36
36
A hora e a vez MÓDULO 10

da democracia

N este módulo estamos falando de uma his- Apresentação


tória que todos nós vivemos. Uma história que, de certa forma, ainda está em do Módulo 10
construção. Refletir sobre o tempo presente, sobre uma história da qual todos
nós participamos, é uma ótima oportunidade para entender melhor o nosso país
e o mundo em que vivemos.

6
Com a revogação do Ato Institucional nº 5, no final do governo Geisel, a Nesta aula
sociedade passava a ter mais liberdade e crescia a organização política e a
mobilização. Nesta aula estudaremos o processo de redemocratização, também
chamado de abertura política , e a transição do governo militar para o governo
civil. Vamos enfocar a participação popular em duas campanhas memoráveis:
a da Anistia e a das Diretas Já.
A pergunta que fica no ar é: quem redemocratizou o país foi o governo ou
o povo? Boa leitura!

A abertura política

Quando se fala em abertura política faz-se referência ao conjunto das


medidas governamentais e, também, à crescente participação da sociedade, que
permitiu a passagem do regime militar para o regime democrático.
A volta ao regime democrático foi conseguida de forma lenta e gradual,
tendo havido sempre uma tendência natural do regime militar em procurar
prolongar o controle do Estado. Paralelamente, ocorreu a natural pressa da
sociedade civil em retomar o governo, pela participação política e eleitoral,.
Quando assumiu a Presidência da República, João Batista Figueiredo com-
prometeu-se com o processo de redemocratização, ao dizer: “ Reafirmo meu
inabalável propósito (...) de fazer deste país um democracia ”. E afirmou, de
forma enfática e pitoresca, que mandaria “prender e arrebentar” quem fosse
contra a abertura política.
A crise do “milagre” econômico gerou consciência e mobilização popular,
expressas pelo comportamento do eleitorado − que votou quase maciçamente
A U L A nos candidatos da oposição nas eleições realizadas em 1974, 1978 e 1982 − e pelo
ressurgimento dos movimentos de massa, a exemplo de passeatas, concentra-

36 ções, abaixo-assinados e greves.

A União
Nacional dos
− UNE,
Estudantes−
Estudantes
fechada pelo
governo,
reapareceu
em 1979.

As entidades de classe reapareceram no cenário político: os sindicatos, as


associações de professores e de estudantes. A União Nacional dos Estudantes −
UNE foi recriada em 1979, e os debates políticos ressurgiram nas reuniões anuais
da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência − SBPC.
O parque industrial moderno gerou também um sindicalismo moderno e
atuante que, em 1978 e 1979, mobilizou os trabalhadores contra o arrocho
salarial, as más condições de trabalho, a inflação e a carestia, resultando na
criação do Partidos dos Trabalhadores − PT.
As greves que tiveram incício nos centros industriais mais importantes,
como o ABC paulista, ampliaram-se até os setores de prestação de serviços,
como o professorado e o funcionalismo públicos. Tais greves constituiram-se na
mais importante forma de contestação do regime e de conscientização das
classes trabalhadoras, que passaram a entender mais de economia e de política,
e a reivindicar os seus direitos de modo organizado e pacífico.
De forma pioneira, e apesar da reação de setores do governo, os metalúrgicos
conseguiram negociar diretamente com os empregadores um aumento salarial
de 63%, contrariando a norma da política salarial da época, que atribuía
exclusivamente ao governo federal a competência de fixar a política salarial.
A mobilização crescente dos trabalhadores contribuiu não só para a moder-
nização política, como também para as relações de produção. Os trabalhadores
passaram a dialogar com os patrões por intermédio das Comissões de Fábricas,
e das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes − CIPAs, o que contribuiu
para o aumento da produtividade e para a diminuição dos acidentes de trabalho
e dos índices de poluição.
Com seus setores progressistas, a Igreja Católica também participou desse
processo de desenvolvimento social. Em 1975, foi criada a Comissão Pastoral da
Terra, que estimulou a formação das Comunidades Eclesiais de Base. Seu
objetivo era ler o Evangelho a partir da vida; e a vida, a partir do Evangelho. Isso
levou à discussão de problemas sentidos pelos trabalhadores, pelos pobres e
pelos excluídos. Essas Comunidades passaram a dar voz aos que não tinham
voz; a democratizar a discussão dos problemas e a desenvolver lideranças.
A campanha da Anistia A U L A

Desde os primeiros dias do regime militar em 1964, já se pedia anistia . E


durante todos os anos seguintes, essa reivindicação surgiu numerosas vezes. 36
Diversos projetos foram apresentados no Congresso, e muitos comitês e orga-
nizações populares mobilizaram-se pela anistia, principalmente no exterior.
Em 1978, a mobilização popular e a pressão da política por direitos humanos
do presidente norte-americano Jimmy Carter fizeram o governo brasileiro se
decidir por um projeto de anistia parcial , para evitar confrontos diretos com
a chamada linha dura do regime.
O senador da oposição Teotônio Vilela viajou pelo país, visitando presos
políticos e pregando a ampliação do projeto que recebeu muitas emendas que
não foram aprovadas.
Desse modo, os guerrilheiros foram excluídos da anistia, e não foram
reconhecidos os direitos daqueles que perderam cargos e patentes por motivos
políticos. A anistia também beneficiava policiais e militares que haviam come-
tido violências contra presos políticos.
No dia 28 de agosto de 1979, com as galerias do Congresso tomadas pelo
público, aprovou-se a anistia, que permitiu a retomada das atividades políticas
de diversas lideranças cassadas e o retorno ao país de líderes oposicionistas
representativos, como Miguel Arraes, Leonel Brizola e Luiz Carlos Prestes.

Com a abertura,
tornou-se possível
até fazer
caricaturas como
esta, que mostra
os deputados
Ulisses Guimarães
e Francelino
Pereira em luta.

A campanha das Diretas Já

Em 1980, o regime militar restabeleceu as eleições diretas para governado-


res de estado . Realizadas as eleições, em 1982, partidos políticos de oposição
venceram as eleições nos estados de São Paulo (PMDB) e Rio de Janeiro (PDT).
Por causa dessas duas vitórias e da participação eleitoral crescente, a
possibilidade de eleições diretas para a Presidência da República tornava-se
uma possibilidade real e concreta. Em 1983, iniciou-se a campanha pelas eleições
diretas chamada de Diretas Já . Essa campanha permitiu que se reunisse um
número significativo de lideranças políticas, como Tancredo Neves, Ulysses
Guimarães, Teotônio Vilela, Franco Montoro, Leonel Brizola e Lula, em torno de
uma mesma proposta política.
A U L A O deputado Dante de Oliveira apresentou, então, uma emenda constitu-
cional que restabelecia as eleições diretas para presidente e vice-presidente da

36 República já em 1985. A emenda deveria ser votada no dia 25 de abril de 1984.


Grandes concentrações populares serviram para divulgar em todo o país a
reivindicação das Diretas Já . O povo saiu às ruas vestido de amarelo, a cor da
campanha, com camisetas, adesivos e bandeiras. Foram organizados os
“panelaços” e “buzinaços”, que eram convocações para que todos fizessem o
maior barulho possivel, batendo panelas, tocando a buzina dos carros, soltando
rojões, gritando “Diretas Já”.
Numerosas manifestações públicas transcorriam na mais perfeita ordem e
terminavam com o Hino Nacional, cantado por todos de mãos dadas e erguidas,
o que demonstrava a união do povo. Num clima de grande emoção, chegou-se
às gigantescas manifestações de mais de um milhão de pessoas, como as
ocorridas no Rio de Janeiro e São Paulo.
Alguns setores do governo, que temiam ser derrotados na sucessão de
Figueiredo por voto direto, usaram de artifícios até violentos para impedir a
aprovação das eleições diretas. Às vésperas da votação pelo Congresso Nacional
foram decretadas medidas de emergência que tentavam reprimir manifestações
populares (sob o comando do general Newton Cruz), impunham a censura a
todas as notícias procedentes de Brasília e proibiam o televisionamento da
sessão do Congresso.
Nesse clima, a emenda Dante de Oliveira não obteve os votos necessários
para sua aprovação.

A luta continua − A eleição de Tancredo Neves

Foi nesse momento que as lideranças oposicionistas perceberam que,


mantendo-se a pressão popular da campanha pelas Diretas Já , o próprio
sistema eleitoral vigente no regime militar poderia servir de caminho para a
eleição de um presidente da República de oposição.
O PDS apresentou como candidato Paulo Maluf, ex-governador de São
Paulo, enquanto o PMDB lançou a candidatura do governador de Minas Gerais
Tancredos Neves, que viria a concorrer como candidato da Aliança Democrá-
tica − aliança de partidos formada pelo PMDB e pelo recém-criado Partido da
Frente-Liberal (PFL), nascido de forte dissidência nas fileiras do PDS.
O Colégio Eleitoral − constituído pelos membros do Congresso Nacional e
representantes das Assembléias Estaduais − por 480 votos, num total de 686
membros, elegeu o candidato da Aliança Democrática em 15 de janeiro de 1985.
A vitória de Tancredo Neves encerrou o ciclo de governo militares no Brasil
de forma pacífica, ao contrário do acontecido em outros países (por exemplo, na
Argentina e em Portugal), nos quais a transição do autoritarismo para a
democracia processou-se de forma violenta e traumática.
Com a morte do presidente eleito Tancredo Neves, em 21 de abril de 1985,
o vice-presidente eleito José Sarney assumiu a Presidência, iniciando o período
denominado Nova República .

6
A posse do vice-presidente José Sarney transcorreu em absoluta normalida- OA tempo
U L A
de, confirmando o desejo popular de restabelecimento pleno da democracia. não pára
No entanto, durante o governo Sarney, o povo brasileiro teve de enfrentar
duras provas: a inflação atingiu níveis insuportáveis, trazendo a recessão, o 36
desemprego e a fome.

Relendo o texto Exercícios


Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade.
1 Releia A abertura política e faça o que se pede.
a) Descreva o movimento sindical na época da abertura;
b) Como as Comunidades Eclesiais de Base contribuiram para o desenvol-
vimento social?
2. Releia Campanha da Anistia e responda quais as características da anistia
concedida pelo governo, em 1979?
3. Releia A campanha das Diretas Já e responda como foi a mobilização da
sociedade pelas eleições diretas para presidente?
4. Releia A luta continua − a eleição de Tancredo Neves e responda: a rejei-
ção, pelo Congresso, da emenda Dante de Oliveira significou o fim da cam-
panha pelas eleições diretas?
5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

“ Frustrou-se a esperança de milhões. Uma compacta minoria de maus


parlamentares disse não à vontade que seu próprio povo soube expressar
com transparência, firmeza e ordem. Nunca a sociedade brasileira se
ergueu com tal vulto, nunca um movimento se irradiou de modo tão
amplo nem o curso da História se apresentou assim palpitante e
inconfundível. Em poucos meses a campanha pelas Diretas Já dissolveu
fronteiras de todo tipo para imantar o espírito dos brasileiros numa
torrente serena, profunda, irrefreável. Um povo sempre acusado de
abulia e de inaptidão para a vida pública ofereceu o espetáculo de seu Abulia:
próprio talento para se organizar e manifestar com responsabilidade, doença que
energia e imaginação”. provoca a
Folha de São Paulo , 26 de abril de 1984 diminuição
da vontade.
1. Quem são os maus parlamentares a que o texto se refere?
2. Por que você acha que o povo brasileiro sempre foi acusado de abulia e de
inaptidão para a vida pública?
3. Por que o voto é tão importante?

6
A UA UL L AA

37
37
MÓDULO 10
A Nova República

Nesta aula Em 1985, depois de 21 anos, o Brasil tinha novamente um governante civil.
Os movimentos sociais estavam conseguindo a redemocratização do país e o
restabelecimento dos direitos civis.
Nesta aula veremos como o novo regime democrático se firmou, depois da
elaboração da Constituição mais moderna e democrática que já tivemos.

A herança de Tancredo Neves

“José Sarney Com a posse do presidente José Sarney, eleito vice-presidente na chapa
era o presidente encabeçada por Tancredo Neves, iniciou-se a fase da história republicana
do PDS. brasileira conhecida como Nova República.
O rompimento A expressão “Nova República” foi cunhada pelo então governador de Minas
aconteceu quando a Gerais, Tancredo Neves, ao se lançar candidato à Presidência da República, com
maioria da direção o significado de compromisso com a superação definitiva do regime militar, por
do PDS desaprovou meio do pleno restabelecimento do regime democrático.
a idéia de se Na formação do governo da Nova República refletia-se a complexa “enge-
realizar uma prévia nharia política” executada pelo presidente Tancredo Neves no sentido de
eleitoral, da qual constituir uma equipe administrativa comprometida em dar continuidade ao
participariam todos processo de redemocratização. Por essa razão, o ministério do presidente José
os filiados ao Sarney era constituído pelos mesmos ministros que haviam sido convidados por
partido, para ver Tancredo Neves.
qual era o A posse do vice-presidente eleito − quando problemas de saúde impediram
candidato preferido: Tancredo Neves de assumir a Presidência da República − foi mais um passo na
Paulo Maluf , direção da construção de uma ordem democrática no país.
Aureliano Chaves ou
Mário Andreazza.”
Flávio Rangel. Eliminando o “entulho autoritário”
Jornal do Brasil
23 de abril de1985 A Nova República tinha dois objetivos políticos a curto prazo: primeiro, o de
revogar as leis que vinham do regime militar, chamadas pelo então senador
Fernando Henrique Cardoso de “entulho autoritário”; o segundo objetivo,
consistia na eleição de uma Assembléia Nacional Constituinte para a elabora-
ção de uma Constituição que restabelecesse o Estado de Direito.
Em maio de 1985, o presidente José Sarney enviou ao Congresso Nacional
um conjunto de projetos de lei para começar a constituir uma ordem jurídica
democrática e, ao mesmo tempo, criar condições para uma ampla participação A U L A
política da sociedade na escolha da futura Assembléia Nacional Constituinte.
Entre essas medidas, que foram transformadas em lei pelo Congresso Nacional,
destacam-se as seguintes: 37
l restabelecimento das eleições diretas para presidente da República, vice-
presidente e para prefeitos das capitais, das áreas consideradas de seguran-
ça nacional e das estâncias hidrominerais;

l liberalização das atividades sindicais;

l concessão do direito de votos aos analfabetos;

l legalização dos partidos políticos, permitindo-se, assim, que organizações


como o Partido Comunista Brasileiro − PCB e o Partido Comunista do Brasil
− PC do B disputassem as eleições;

l revogação da Lei Falcão, promulgada em 1976, que estabelecia inúmeras


restrições ao uso dos meios de comunicação nas campanhas eleitorais.

As eleições de 15 de novembro de 1985, para prefeitos das capitais dos


estados e de 201 cidades, realizaram-se dentro da nova legislação. Um ano
depois, em 15 de novembro de 1986, foram eleitos os novos governadores
estaduais e os deputados e senadores. Essa eleição foi muito importante, pois
foram escolhidos os parlamentares que iriam formar a Assembléia Nacional
Constituinte e elaborar a nova Constituição brasileira.

Durante muitos
anos, o deputado
Ulisses Guimarães
foi presidente da
Câmara dos
Deputados,
fazendo oposição
ao governo.
No entanto, até a promulgação da nova Constituição, a Nova República era
ainda um período intermediário entre o regime autoritário dos militares e a
democracia plena. O presidente da República continuou com poderes concen-
trados, como o de baixar decretos-leis, utilizar o decurso de prazo para aprovar
projetos no Congresso ou determinar medidas de emergência.
Também as Forças Armadas, por causa dos dispositivos legais ainda em
vigor, continuaram a reprimir conflitos internos e a intervir no processo político,
ainda que discretamente. Um exemplo trágico foi a invasão da Companhia
Siderúrgica Nacional por tropas do Exército para reprimir uma greve, em 1988,
o que resultou na morte de três metalúrgicos.
A U L A A nova Constituição

37 Os meses de elaboração do novo texto constitucional, que iria substituir a


ordem jurídica herdada do regime militar, permitiram que houvesse um amplo
debate público sobre as características do regime democrático a ser definido
naquele texto.

Com a chamada
Constituição
Cidadã, o povo
podia tirar
definitivamente a
“mordaça” da
repressão e
expressar-se como
membro ativo da
sociedade.

A Constituição foi promulgada no dia 5 de outubro de 1988, tendo sido


chamada pelo deputado Ulysses Guimarães, presidente da Assembléia Nacio-
nal Constituinte, de Constituição Cidadã .
Com essa afirmação, o deputado Ulysses Guimarães enfatizou o caráter de
instrumento de defesa do cidadão, e não do Estado, do novo texto constitucional.
Essa Constituição destinava-se, portanto, a instituir um Estado democrá-
tico de direito , que se define como sendo um regime político com as seguintes
características:

l o direito, expresso nas leis votadas pelos representantes eleitos pelo povo,
constitui o instrumento regulador das relações políticas, econômicas e
sociais na sociedade;

l a estrutura do Estado brasileiro e o funcionamento e limites da atuação dos


três poderes da República, isto é, do Executivo, do Legislativo e do Judici-
ário, acham-se expressos no texto da Constituição, fazendo com que o go-
vernante só possa fazer aquilo que se encontra autorizado em lei.

No Estado democrático de direito , a Constituição também procura assegu-


rar o exercício dos direitos sociais e individuais, da liberdade, da segurança, do
bem-estar, do desenvolvimento, da igualdade e da justiça, como valores supre-
mos da sociedade.
A Constituição de 1988 refletiu o avanço ocorrido no país, principalmente no
que se refere à extensão de direitos sociais e políticos a todos os cidadãos e às
minorias. Reconheceu-se, também, os direitos e deveres coletivos, além dos
individuais.
Na nova Constituição criaram-se novos recursos que, ao lado do habeas- A U L A
corpus e do mandado de segurança, permitem que os cidadãos façam valer os
seus direitos, como é o caso do mandato de injunção, do habeas-data e da ação
civil pública. 37
As reivindicações dos trabalhadores, embora não atendidas em sua totalida-
de, significaram um grande avanço. Entre as conquistas dos trabalhadores, a
Constituição de 1988 apresenta as seguintes:

l a jornada semanal de trabalho diminuiu de 48 para 44 horas; as horas-extras


devem ser pagas com acréscimo de 50%, no mínimo;

l o trabalhador demitido tem direito a uma indenização igual a 40% do seu


Fundo de Garantia;

l abono de um salário mínimo por ano para os trabalhadores que recebem


menos de dois salários por mês (PIS);

l abono de férias, equivalente a 33% do salário que o trabalhador recebe;

l todos os trabalhadores têm o direito de fazer greve;

l a licença maternidade passou de 90 para 120 dias, e a licença paternidade é


de 5 dias;

l os aposentados têm direito ao 13º salário, ao salário mínimo, e todos os seus


ganhos devem ser reajustados da mesma forma que os salários dos trabalha-
dores em atividade.

PA RT I C I P E DA S E L E I Ç Õ E S
P ELA CONSTITUIÇÃO DE 1988, TODAS AS PESSOAS MAIORES DE 16 ANOS
PODEM VOTAR . E O VOTO É OBRIGATÓRIO A PARTIR DOS 18 ANOS .
A LÉM DE ESCOLHER CONSCIENTEMENTE O SEU CANDIDATO, AS PESSOA PODEM
PARTICIPAR DO PROCESSO ELEITORAL DE OUTRAS MANEIRAS :

® TRABALHANDO NA CAMPANHA DO PARTIDO DE SUA PREFERÊNCIA;

® AJUDANDO NA CAMPANHA DOS CANDIDATOS ESCOLHIDOS ;

® CONVENCENDO AMIGOS E PARENTES A VOTAR A FAVOR DA MAIORIA DA


POPULAÇÃO , SOBRETUDO DOS MAIS POBRES ;

® ALERTANDO AS PESSOAS PARA QUE NÃO VOTEM POR SIMPATIA PESSOAL , EM


TROCA DE FAVORES OU PROMESSAS , POR DINHEIRO OU PRESENTES. O VOTO
DEVE SER LIVRE , CONSCIENTE E A FAVOR DOS QUE ESTÃO DO LADO DA JUSTIÇA
SOCIAL , DOS DIREITOS DOS POBRES E DO BEM -ESTAR DE TODOS.

Frei Betto
Betto, OSPB
Introdução à Política Brasileira, Editora Ática, São Paulo, pág. 71
A U L A A revisão constitucional

37 A Constituição de 1988 estabeleceu, portanto, normas para a organização do


Estado, definiu os direitos dos cidadãos e estabeleceu suas garantias constitu-
cionais. Entretanto, muitas críticas têm sido feitas ao texto constitucional, pois
ele trata de assuntos que não são de natureza constitucional, uma vez que
refletem pressões de diferentes grupos da sociedade que, com isto, levaram suas
reivindicações corporativas até o nível de direitos constitucionais.
Empresários, funcionários públicos, sindicalistas e outros grupos sociais
tiveram sucesso em colocar suas demandas no texto constitucional, o que tem
dificultado a própria realização de objetivos constitucionais maiores.
Entre as dificuldades encontradas na aplicação do texto constitucional
vigente, e que serão objetos da reforma constitucional, encontram-se os dispo-
sitivos constitucionais relativos ao sistema tributário, à previdência social, à
estabilidade dos servidores públicos, às empresas estatais, ao poder judiciário e
ao sistema de governo e ao sistema eleitoral.
De qualquer modo, a Constituição de 1988 criou condições para a constru-
ção de um regime político livre e democrático , prevendo inclusive a sua
própria reforma para corrigir, precisamente, defeitos encontrados na aplicação
dos seus dispositivos.

O tempo A Nova República começou com graves problemas, apesar da esperança e


não pára da mobilização. O presidente não foi eleito pelo voto popular. E o escolhido pelo
Colégio Eleitoral, que contava com a simpatia do povo, veio a falecer.
Durante o governo Sarney, foi possível remover o “entulho autoritário”,
redemocratizando-se o país de modo pleno, principalmente com a Nova Cons-
tituição.
Mas, se foram restabelecidos os direitos políticos, os problemas econômicos
continuaram a penalizar a população.

Exercícios Relendo o texto

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade

1. Releia A herança de Tancredo Neves e explique o significado da expressão


“Nova República”:

2. Releia Eliminando o “entulho autoritário” e explique o que era esse


“entulho autoritário” que precisava ser removido.

3. Releia A nova Constituição e cite os avanços sociais mais importantes da


Constituição de 1988.
A U L A
4. Releia A revisão constitucional e responda por que surgiram dificuldades
na aplicação de alguns textos constitucionais?
37
5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Documento A

“ A Nova República é o que veio depois da luta, depois da ditadura


militar, e principalmente, depois dos acordos políticos que condicionaram
a transição. Ela começou, apesar do Colégio Eleitoral e das eleições
indiretas, da agonia e morte de Tancredo, como uma esperança forte de
mudança. O povo retomou o seu hino, sua bandeira, sua vontade de
sonhar. A televisão glamourizou tudo isso e repetiu sem cessar a boa Glamourizar:
nova, até convencer a quase todos que tudo ia dar certo. Não deu. Ao fazer uma imagem
menos, não tudo; na verdade, muito pouco”. romântica,
Flavio Koutzii (org./apresentação). Nova República: um balanço . São Paulo, atraente,
Editora L&PM, 1986, pág. 5. encantadora.

1. Na sua opinião, o que não deu certo na Nova República?

2. Faça uma crítica ao papel da televisão, expresso no texto.

Documento B

Constituição da República Federativa do Brasil


Artigo 5 − Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
I − homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos
desta Constituição;
(...)
XLI − a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e
liberdades fundamentais;
XLII − a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível,
sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei;
(...)

3. “As diferenças de raça, cor, sexo, condição social e econômica não mudam
a natureza das pessoas, nem criam espécies diferentes de seres humanos.”
Levando em conta essa afirmação e mais o que está garantido pela Consti-
tuição, faça uma redação sobre os Direitos Humanos.

6
A UA UL L AA

38
38
MÓDULO 10
Inflação:
diagnósticos e terapias

Nesta aula P oliticamente a Nova República avançava,


com a remoção do “entulho autoritário” e o surgimento de novos grupos
organizados em torno de questões importantes, como a ecologia, os direitos do
consumidor, a atuação das donas-de-casa etc.
A economia, no entanto, estava indo de mal a pior, com a atividade
industrial em baixa e a inflação em alta.
Nesta aula veremos como o governo tentou conter a inflação por meio de
planos sucessivos − terapias − que não deram certo. Talvez a explicação das
causas − diagnóstico − estivesse equivocada. A questão é saber por quê?
Como todos nós passamos por esse período e aprendemos um pouco sobre
economia com os noticiários, as compras, as trocas de moedas, não será difícil
responder.

Inflação: os diagnósticos

Inflação, você sabe muito bem, é o aumento constante e geral dos preços, o
que provoca a perda do poder de compra que a moeda possui.
No início da década de 1980, mais precisamente entre 198l e 1983, o país
mergulhara na sua crise econômica mais grave, resultante do modelo de
desenvolvimento do regime militar.
O governo João Figueiredo procurou combater a inflação com uma política
que procurava reduzir a atividade econômica, porque, dessa forma, ao diminuir
a massa salarial, o governo achava que os preços tenderiam a subir menos, por
falta de compradores. O governo foi, assim, o agente direto da recessão dos
primeiros anos da década de 1980.
Quando se iniciou o governo do presidente José Sarney, em março de 1985,
a situação econcômica do país vinha se recuperando da recessão . O grande
impulso proveniente das exportações permitiu que a economia brasileira reto-
masse o crescimento. A queda das importações e o aumento das exportações
fizeram com que houvesse um saldo de 13,1 bilhões de dólares na balança
comercial, permitindo que o Brasil pagasse os juros de sua dívida externa. As
reservas externas brasileiras chegaram a 9 bilhões de dólares.
O país encontrava-se, portanto, em situação um pouco mais confortável,
podendo até prescindir do Fundo Monetário Internacional − FMI e procurar
acordos diretos com os bancos credores privados.
A U L A

EXPORTAR É A SOLUÇÃO? 38
“ Essa política econômica voltada para a exportação provoca, entre
outras coisas, duas conseqüências graves: aumenta a pobreza do povo e
enriquece ainda mais as multinacionais. Aumenta a pobreza porque não
há interesse em favorecer o mercado interno; a produção é para ser
vendida em dólar. Não havendo interesse em ampliar o mercado interno,
não há interesse em aumentar os salários dos trabalhadores brasileiros.
Ao contrário, quanto menos ganhar o trabalhador brasileiro, mais
barato fica o custo de produção das mercadorias vendidas lá fora e,
portanto, maior o lucro das empresas”.

Frei Betto
Betto, OSPB
Introdução à Política Brasileira, Editora Ática, São Paulo, pág. 57)

Entretanto, a economia interna encontrava-se prisioneira da inflação, que


subiu a 223,8% ao ano, em 1984, e a 235,5% ao ano, em 1985. Iniciou-se, então
um período no qual o governo iria procurar solucionar o problema inflacionário
por meio de intervenções na economia, embutidas em sucessivos planos.
A primeira tentativa de controlar a inflação foi feita com o corte de 10% do
orçamento da União e o congelamento de contratos de empréstimos, pretenden-
do-se, assim, equilibrar a receita e a despesa da administração pública. Atingin-
do esse equilíbrio, não haveria mais necessidade de o governo federal recorrer
à emissão de papel-moeda e a empréstimos de curto prazo, ambos alimentadores
da inflação. A falta de controle da inflação e a conseqüente perda de poder
aquisitivo dos salários provocaram greves no campo e nas cidades, durante o
ano de 1985 e início de 1986.
A política de austeridade foi contestada por forças políticas que davam
sustentação ao governo, que, finalmente, em agosto de 1985, substituiu o
ministro da Fazenda Francisco Dornelles e mudou a orientação da política
econômica.
No final de 1985, ganhava força uma nova teoria sobre a inflação brasileira.
Para alguns economistas, ela era decorrente de fatores variados, entre os quais
o fato de predominarem poucas indústrias grandes, em alguns setores da
economia. Tais indústrias, por quase não terem concorrentes, preferiam aumen-
tar seus preços, mantendo grandes lucros com poucos compradores, em vez de
aumentar suas vendas.
Outra razão apontada pelos economistas para a inflação era o constante
desequilíbrio nas contas do governo , que para saldar suas dívidas era obrigado
a emitir moeda e títulos.
Finalmente, afirmava-se que a inflação brasileira possuía também um
componente inercial . Com “inercial”, os economistas queriam dizer que no
Brasil todos já contavam com a inflação e, com ou sem razão, aumentavam seus
preços a toda virada de mês. Criava-se uma cultura inflacionária no país, ou
seja, as pessoas passaram a se habituar e mesmo a tirar proveito da inflação.
A U L A Inflação: as terapias

38 O Plano Cruzado

A inflação continuava a crescer e, em janeiro de 1986, atingiu a cifra de


17,5%. O governo adotou uma política econômica oposta, baseada na tese de que
era falsa a suposição quanto à contenção das atividades econômicas e à redução
do déficit público resultarem na queda da inflação. Os defensores da nova
política econômica sustentavam que a diminuição do ritmo inflacionário somen-
te poderia ter resultado com uma terapia de choque, que acabasse com a correção
monetária e estabelecesse uma moeda forte, em substituição ao Cruzeiro.
Dirigida pelo ministro da Fazenda Dílson Funaro, a nova equipe econômica
elaborou o Plano Cruzado , anunciado pelo presidente José Sarney em 28 de
fevereiro de 1986, visando o combate à inflação e a estabilidade da economia. A
moeda foi substituída de Cruzeiro para Cruzado , e promoveu-se um congela-
mento de preços e salários. Logo, o plano recebeu apoio estusiástico da popula-
ção e parte dela organizou-se, incentivada pelo presidente, para fiscalizar o
congelamento de preços nos supermercados. Surgiam os “fiscais do Sarney”.

No Plano Cruzado,
cada cidadão que
fosse a um
supermercado, ou a
algum outro tipo de
loja, podia se
transformar num
“fiscal do Sarney”,
denunciando
aumentos abusivos
de preço.

O Plano Cruzado também tomava as seguintes medidas: extinção da


correção monetária, reajuste automático dos salários (sempre que a inflação
acumulada atingisse 20%) e criava o seguro-desemprego.
O resultados mais imediatos do Plano Cruzado foram a mobilização da
sociedade no combate aos preços abusivos e a drástica redução da inflação, com
a conseqüente valorização real dos salários. O congelamento de preços, por sua
vez, provocou uma corrida ao consumo, a baixa nas ofertas de produtos, a
prática da cobrança de ágio e a desativação da atividade econômica produtora,
acompanhada do aumento nos índices de desemprego.
Em julho de 1986, o governo anunciou um conjunto de medidas, conhecidas
como “cruzadinho”, que tinham por objetivo corrigir a crise do Plano Cruzado,
instituindo um empréstimo compulsório na compra de carros, de gasolina e
álcool, de dólares para viagens e passagens aéreas para o exterior.
O equilíbrio das contas pretendido pelo governo não foi atingido, pois não
houve aumento significativo das importações.
No último semestre de 1986, o Plano Cruzado já demonstrara sua fragilida- A U L A
de. Realizadas as eleições de 15 de novembro de 1986, o governo viu-se obrigado
a aumentar as tarifas públicas e os impostos indiretos, defasados. Isso contribuiu
para que a inflação fosse realimentada e fechasse o ano em 450%. 38
A crise das contas externas levou o Brasil a declarar moratória , em fevereiro
de 1987. Assim, suspendia unilateralmente e por tempo indeterminado o
pagamento dos juros referentes às dívidas com os bancos credores.

O Plano Bresser

O ministro Dílson Funaro acabou sendo substituido pelo ministro Bresser


Pereira, que propôs um novo plano de combate à crise econômica e à inflação.
O Plano Bresser , como o Plano Cruzado, fracassou em seu objetivos, apro-
fundando a crise econômica e social.

O Plano Verão

Em janeiro de 1989, a inflação aproximava-se de 1.000% ao ano, fazendo com


que o governo anunciasse um novo plano econômico, chamado Plano Verão ,
o qual recuperava algumas características do Plano Cruzado.
O Plano Verão estabeleceu um novo congelamento de preços; criou uma
nova moeda, o Cruzado Novo ; extinguiu as Obrigações do Tesouro Nacional
(OTN); elevou os juros bancários para conter o aumento do consumo.
Como aconteceu com o Plano Cruzado, o Plano Verão provocou o
desabastecimento, a cobrança de ágio, o crescimento da inflação, o desemprego.

Brasil, mostra a tua cara

Nesses anos de grande sofrimento para milhões de brasileiros, marcados


pelo desemprego, pela miséria, pela fome, pela presença de crianças de rua, em
1988 um poeta se levantou como a “voz dos oprimidos”. Cazuza − com seus
versos irados e, ao mesmo tempo, cheios de amor − é o intérprete de seu tempo.

Brasil
De Cazuza
Não me convidaram prá essa festa pobre Ver TV a cores na taba de um índio
Que os homens armaram prá me convencer Programada só prá dizer sim,sim...
A pagar sem ver toda essa droga Brasil, mostra a tua cara
Que já vem malhada antes de eu nascer Quero ver quem paga
Não me ofereceram nem um cigarro Prá gente ficar assim
Fiquei na porta estacionando os carros Brasil, qual é o teu negócio
Não me elegeram chefe de nada O nome do teu sócio, confia em mim
O meu cartão de crédito é uma navalha Grande Pátria desimportante
Não me sortearam a garota do Fantástico Em nenhum instante eu vou te trair
Não me subornaram, será que é o meu fim Confia em mim. Confia em mim, Brasil!

6
OA tempo
U L A Não foi à toa, portanto, que alguns economistas chamaram os anos 80 de
não pára “década perdida” no Brasil. A economia brasileira viveu anos de estagnação e

38 de inflação. A dívida externa praticamente dobrou e os investimentos externos


baixaram de 1.750 bilhões de dólares, em 1981, para 400 milhões de dólares, em
1989. A inflação passou de cerca de 100% ao ano, no início da década, para 1.700%
ao ano, em 1989. O resultado de tudo isso foi o empobrecimento de grande
parcela da população.
Em 1989, depois de quase 30 anos, ocorreram eleições presidenciais no
Brasil. Os candidatos apresentaram propostas para combater a crise. Mas qual
seria o caminho da retomada do desenvolvimento? Novos planos econômicos?
Fortalecer ou reduzir o papel do Estado na economia? O país poderia passar por
um rápido processo de modernização e alcançar os países do Primeiro Mundo?
Essas quetões estavam na cabeça dos brasileiros, quando Fernando Collor de
Mello foi eleito presidente da República. Um novo programa econômico seria
posto em prática: o Plano Collor .

6
Exercícios Relendo o texto

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade.

1. Releia Inflação: os diagnósticos e faça o que se pede:


a) relacione as explicações ou diagnósticos dessa doença da economia cha-
mada inflação;
b) Faça uma crítica ao combate da inflação no governo Figueiredo.

2. Releia Inflação: as terapias e faça uma lista das medidas econômicas do


Plano Cruzado:

3. Releia Brasil, mostra a tua cara e dê a sua interpretação sobre:


l essa festa pobre;
l essa droga que já vem malhada antes de eu nascer ;
l ver TV a cores na taba de um índio/programada só pra dizer sim, sim...

4. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

“ O Brasil está hoje à mercê do sistema financeiro internacional,


controlado pelos países centrais, sob a batuta dos Estados Unidos e,
agora, particularmente do Fundo Monetário Internacional − FMI.
A política econômica do governo consiste essencialmente em adminis-
trar a dívida externa. Todas as decisões importantes se subordinam a
esse propósito; “rolar a dívida”, isto é, empurrá-la para frente e para A U L A
cima a espera de dias melhores. Praticamente, o país chegou a um ponto
em que não é mais o governo brasileiro que administra a dívida, mas é
a dívida que administra o governo. De fato, as principais medidas 38
relacionadas com a política econômica não são tomadas a partir das
necessidades e interesses do país e das aspirações da sua população, mas
em função das exigências da dívida externa e dos banqueiros internaci- Rolar a
onais credores do Brasil. E, a partir de 1983, com a auditoria do FMI. dívida: na
Para pagar as amortizações, e os juros, o Brasil faz novos emprésti- impossibilidade de
mos e fica devendo mais. Assim, a administração da dívida consiste pagar,são feitos
basicamente na sua renegociação permanente, sob condições impostas novos contratos,
e controladas pelos banqueiros. Como o Brasil já deve muito e precisa com mais prazo e
levantar no exterior cerca de 18 a 20 bilhões de dólares por ano, para incorporação dos
fechar o balanço de pagamentos, os banqueiros, mais receosos e caute- juros devidos.
losos, impõe condições mais rigorosas. Entre outras, emprestam di-
nheiro para novos projetos e exigem que parte do empréstimo seja Amortização:
aplicado na compra de máquinas, aparelhos e equipamentos de suas pagamento de
indústrias, mesmo que haja empresas no Brasil que fabriquem tais parte da dívida.
produtos. Assim, o Brasil se obriga a fazer novos projetos, muitos
deles desnecessários ou não urgentes, e gasta o que não tem naquilo
que não precisa, tal o grau de subordinação aos 'donos' do poder
econômico e do financeiro mundial. ”
Argemiro J. Brum
Brum, Por que o Brasil foi ao Fundo , Editora Vozes, Petrópolis,
1983, págs. 60-70

Depois de ler esse texto, e considerando tudo o que você aprendeu nas aulas
anteriores, tente responder estas questões:

1. Que duplo sentido há na expressão “o Brasil foi ao Fundo?

2. Pelo que você entendeu, qual é o papel do FMI?

3. Que condição é imposta pelos banqueiros para novos empréstimos?

4. Explique com suas palavras a frase “o Brasil gasta o que não tem naquilo que
não precisa”.

6
A UA UL L AA

39
39
MÓDULO 10
Um país
em construção

Nesta aula A década de 1980 foi decisiva na História


brasileira. Em meio a uma grave crise econômica, a sociedade lutou pela
liberdade e pela cidadania. Nova Constituição foi aprovada. Finalmente, após
trinta anos, foram realizadas eleições diretas para presidente. Enfim, deram-se
passos fundamentais para a construção da democracia brasileira.
Mas, e agora? Que caminhos seguir? Será que conseguiremos consolidar
nossas instituições democráticas e, ao mesmo tempo, combater as enormes
desigualdades que marcam a sociedade brasileira? O Brasil dos anos 90 tem
convivido com essa questão.
Nesta aula vamos acompanhar como, nos últimos anos, temos procurado
conciliar democracia, solidariedade e justiça. Será que estamos passando no teste?

A campanha das
Diretas Já
mobilizou o
Brasil inteiro.

Apogeu e crise do governo Collor (1990-1992)

Encerrado o primeiro governo da Nova República, finalmente o Brasil


assistiu em l989, depois de quase trinta anos, a uma eleição direta para Presidên-
cia. Cinco anos depois da campanha das Diretas Já , num clima de euforia
desconhecido pelas gerações mais novas, o povo compareceu às urnas para
escolher seu candidato. As eleições de l989 foram uma grande festa democrática
vivida pelo país.
Dentre as diversas candidaturas apresentadas nas eleições, apenas duas A U L A
foram para o segundo turno: a do ex-governador de Alagoas Fernando Collor
de Mello, do Partido da Reconstrução Nacional − PRN, e a do ex-líder sindical
e deputado Luiz Inácio “Lula” da Silva, do Partido dos Trabalhadores − PT. 39
Tendo como principal bandeira a defesa da moralidade pública e o combate
à corrupção, Fernando Collor foi eleito com uma votação de cerca de 35 milhões
de votos.
O novo governo chegava ao poder cercado de enorme expectativa. A
inflação atingia níveis insuportáveis (84% ao mês, em março de l990). O mercado
agitava-se com a possibilidade de um novo choque na economia.
No dia da posse, com as instituições financeiras fechadas, editou-se o Plano
Collor − a mais drástica intervenção do Estado na economia brasileira, até então.
Em meio a outras medidas, entre as quais a volta do nome Cruzeiro para a
moeda nacional, o Plano Collor, ou Plano Brasil Novo, retirou de circulação l00
bilhões de dólares e estabeleceu o bloqueio dos cruzeiros , limitando os saques
à poupança, às contas e aplicações a 50 cruzeiros.
A economia foi profundamente abalada pelo Plano. Houve uma drástica
redução da produção. A recessão econômica aprofundou-se. O desemprego nas
grandes cidades aumentou.
Apesar dessas medidas, a inflação não havia sido domada. Durante o ano
de l990, a inflação alcançou um total acumulado de l.l98%.
Além do Plano Collor, o novo governo anunciou um amplo programa de
reforma do Estado, que previa o fechamento de diversos órgãos públicos e a
demissão ou afastamento de cerca de 360 mil servidores, além de um programa
de privatização das empresas estatais.
Essas medidas enquadravam-se na visão do governo para reduzir o tama-
nho do Estado e reorientá-lo para aquelas que deveriam ser suas atividades
básicas: educação , saúde , habitação e transportes. Na prática, a reforma do
Estado − feita de forma desorganizada e sem critérios definidos − gerou grave
desestruturação em vários setores do serviço público.
E, juntamente com as questões econômicas, o governo enfrentou problemas
de relacionamento com o Congresso. Collor elegeu-se sem apoio dos maiores
partidos políticos e, apenas no ano de l992, com as reformas ministeriais,
procurou obter apoio maior de partidos importantes no Congresso, como o PFL
e o PDS.
O presidente, até aquele momento, acreditava que com sua presença diária
nos meios de comunicação de massa poderia obter o apoio necessário a seu
governo. Utilizando-se de um estilo “espetacular”, com vôos de jato, corridas de
jet-ski, aventuras na floresta Amazônica, Collor buscava criar uma imagem de
herói, capaz de enfrentar todos os problemas.
Logo o presidente percebeu que não era possível governar o país sem o
apoio dos partidos políticos e de setores organizados da sociedade. No entanto,
no exato momento em que procurava recompor-se com parte da classe política,
Collor enfrentou a mais séria crise do seu governo, que teve como resultado o
impeachment , isto é, seu afastamento das funções de presidente da República.

Estes foram os principais momentos da crise até o impeachment.

l Maio de 92 − Denúncias de Pedro Collor (irmão do presidente) acusando


o tesoureiro da campanha presidencial de Collor (Paulo César Farias − en-
volvido em diversas irregularidades) de ser testa-de-ferro de Fernando
Collor de Mello em negócios financeiros ilícitos.
A U L A l Junho de 92 − O Congresso instalou uma Comissão Parlamentar de In-
quérito (CPI) com o objetivo de averiguar as denúncias de Pedro Collor.

39 Constatou-se que contas do presidente e de sua família eram pagas por


cheques-fantasmas emitidos por P. C. Farias e seus funcionários.

l Agosto de 92 − Aprovado o relatório final da CPI que apontava o envolvi-


mento de Collor em diversos crimes.

l 29 de setembro de 92 − Aprovado o processo que tornava admissível


o impeachment na Câmara dos Deputados. Resultado: 441 votos a favor e
38 contra. Collor foi afastado até o julgamento final pelo Senado; iniciava-se
o governo do presidente em exercício Itamar Franco.

l Dezembro de 92 − Aprovado no Senado o impeachment do presidente


Fernando Collor de Mello.
Durante esse longo processo ocorreu uma intensa mobilização da socieda-
de, que passou a exigir a moralização da atividade política e o afastamento
imediato do Presidente. Surgiu o movimento Pela ética na política . As ruas e
praças das grandes cidades brasileiras foram ocupadas por estudantes que
pintavam o rosto com as cores da bandeira nacional, expressando sua indigna-
ção em relação aos esquemas de corrupção revelados pela imprensa e sua
vontade de estar presente na construção de um novo país.
No final de l992 terminava a Era Collor. O país vivera uma nova aula de
cidadania. Pela primeira vez na História, um presidente sofria o impeachment.
A crise política fora resolvida dentro das regras constitucionais. Não houve
ameaças de golpe. A democracia brasileira passara por um duro teste.

Democracia e organização
O primeiro presidente brasileiro eleito diretamente após tanto tempo, havia
sido afastado do poder. Chegara a hora de reconstruir o país e recuperar a
confiança da população nos homens públicos.
Tendo em vista essas preocupações, o novo governo, presidido por Itamar
Franco, tratou de buscar apoio dos partidos políticos para formar um governo
forte, com sustentação no Congresso e na opinião pública. Para isso, convocou
políticos e personalidades de diferentes visões para constituir um governo de
coalizão. Ao mesmo tempo, procurou estabelecer uma política de bom relacio-
namento com o Congresso Nacional para viabilizar seus projetos.
Enquanto o governo procurava acertar os rumos de suas políticas (combate
à inflação, reorientação do programa de privatização e enfrentamento de
problemas sociais), novas denúncias abalaram mais uma vez a República
brasileira durante o ano de 1993. Diversos parlamentares foram acusados de
envolvimento na manipulação de verbas no orçamento da União, beneficando
empreiteiras e desviando recursos para entidades ligadas a eles. Era o escândalo
da “máfia do orçamento”. Mais uma vez, a opinião pública mobilizou-se para
exigir uma imediata investigação e punição para os culpados.
No final do ano, foi instalada uma Comissão Parlamentar de Inquérito
(“CPI do Orçamento”), que iniciou um processo cujo resultado, no ano seguinte,
seria cassação de alguns parlamentares. Apesar do esforço do Congresso em
afastar parlamentares denunciados por corrupção, a imagem da instituição
ficou bastante abalada para grande parcela da sociedade.
Nesse quadro de construção da democracia , a busca por uma conduta A U L A
baseada em princípios éticos vem ganhando força em diversos aspectos da vida
nacional.
Um exemplo disso foi a sentença da juíza Denise Frossard, mandando 39
prender os mais famosos bicheiros cariocas (acusados de formação de quadrilha)
em maio de 1993.
Esse fato revela que o Poder Judiciário também tem demonstrado que é
necessário romper o círculo vicioso de violência e impunidade que tem marcado
as grandes cidades brasileiras.
Mas os esforços de enfrentar as graves questões brasileiras não se desenvol-
vem apenas nos órgãos públicos. Especialmente a partir dos anos 80 têm surgido
centenas de organizações não governamentais (ONGs) que buscam atuar em
diversas áreas, muitas vezes em conjunto com o poder público. Há atualmente
no Brasil organizações que lutam pelos direitos dos negros, das mulheres, das
crianças, das vítimas da AIDS e em defesa da ecologia.
Nesse processo de auto-organização da sociedade brasileira, foi criado, em
1993, um dos mais importantes movimentos de solidariedade da história do
país: a Campanha contra a Fome .
A Campanha contra a Fome − como ficou popularmente conhecida a Ação
da Cidadania Contra a Miséria e pela Vida − surgiu no contexto do
Movimento pela Ética na Política , coordenado por diversos grupos da
sociedade civil em apoio ao impeachment do presidente Fernando Collor.
Num encontro que reuniu, no início de 1993, grupos civis e entidades não
governamentais, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, propôs uma
mobilização em caráter de emergência contra a fome e a miséria. Em abril, teve
início a campanha.
O movimento ganhou força em todo o país e ainda naquele ano já estavam
em funcionamento cerca de mil comitês, mobilizando diversos setores da
sociedade. A campanha motivou ainda a criação do Conselho Nacional de
Segurança Alimentar − CONSEA, formado por membros do governo federal e
representantes da sociedade civil, e presidido pelo Bispo de Duque de Caxias
(Rio de Janeiro) Dom Mauro Morelli.
Na visão do sociólogo Betinho, os resultados do movimento representaram
uma resposta positiva da sociedade, abrindo caminho para mudanças na
política e no comportamento do eleitorado, e, ao mesmo tempo, ofereceram
novas perspectivas para a democracia em nosso país e para a construção de
uma nova cidadania .
Itamar Franco
conciliou as
forças políticas
e passou a faixa
presidencial para
Fernando Henrique
Cardoso.
A U L A O Brasil do Real

39 Depois de nomear quatro ministros da Fazenda, em sete meses de governo,


em maio de 1993, o presidente Itamar Franco nomeou o senador Fernando
Henrique Cardoso para o cargo. O novo ministro assumiu a pasta, preocupado
em ordenar a política governamental com o objetivo de estabilizar a economia,
derrubar a inflação e terminar com o déficit público, isto é, fazer com que o
governo gastasse somente a quantia que pudesse arrecadar.
O plano de estabilização econômica do ministro Fernando Henrique Cardo-
so iria atingir seus objetivos depois de meses de implantação da nova política,
que não se resumiu em medidas imediatistas, pois foi implementada progres-
sivamente, e sua etapa mais significativa foi a entrada em vigor da nova moeda,
o Real , em julho de 1994.
A sucessão do presidente Itamar Franco teve como tema central a defesa ou
não da continuidade da política de estabilização econômica e a manutenção dos
critérios de moralidade no trato da coisa pública.
Em 15 de novembro de 1994, foi eleito o sucessor do presidente Itamar
Franco, o senador Fernando Henrique Cardoso, que tomou posse em 1º de
janeiro de 1995, com o compromisso de dar continuidade ao programa de
estabilização econômica, principal bandeira de sua campanha eleitoral.

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O tempo Assim, chegamos ao Brasil dos anos 90. E que país é esse? Certamente um
não pára país de contrastes e de velhos problemas. Porém, ao que tudo indica, um país
que busca um novo caminho, não mais marcado pela exclusão da maior parte da
sociedade mas pelo desejo de integrar todos os brasileiros e todas as brasileiras
na construção de um novo Brasil.

Exercícios Relendo o texto

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade.

1. Releia Apogeu e crise do governo Collor (1990-1992) e faça o que se pede:

a) Identifique um problema econômico e um problema político enfrentado


pelo governo Collor:

b) Cite um fator que tenha levado ao impeachment do Presidente Collor.

2. Releia Democracia e organização e identifique dois movimentos que


marcaram o esforço de construção da democracia em nosso país.

3. Dê um novo título a esta aula.


Fazendo a História A U L A

Meu país 39
De Moraes Moreira

Meu país tem futebol


Deu Garrincha e deu Pelé
Meu país tem muito sol
E haja fé, e haja fé
Meu país é um continente
Não tem mais tempo a perder
Tá crescendo em sua gente
A vontade de vencer
Contra a fome e a miséria
Que é visível no caminho
Nossa luta será séria
Seremos todos Betinho
Dando fim à violência
O homem será feliz
No plano da consciência
Cortando o mal pela raiz

Luz, queremos luz


Pra quem conduz
O destino de uma Nação
Diz, cantando, diz
Que ser feliz
É um direito que é do cidadão

Meu país tem carnaval


Carmem Miranda e Noel
Meu país é sem igual
Eu boto minhas mãos pro céu
Meu país é um gigante
Que do sono despertou
Hoje é bom que a gente plante
Pra amanhã colher amor

1. Extraia desse poema as ações que você considera importantes para a cons-
trução de um Brasil melhor.

6
A UA UL L AA

40
40
MÓDULO 10
O Brasil e a nova
ordem mundial

Nesta aula P ara concluir o nosso curso de História do


Brasil, vamos estudar as mudanças que estão ocorrendo no mundo, e como
nosso país está sendo afetado por elas.

A internacionalização da economia

Nos últimos trinta anos, ocorreram transformações radicais em todo o


mundo. Na economia, deixou de existir a antiga divisão entre países dominan-
tes , industrializados e países dependentes , produtores de matérias-primas e
gêneros agrícolas.
O fenômeno que alterou a própria natureza da economia mundial, deveu-
se ao fato de que as grandes empresas, em busca de mão-de-obra mais barata,
transferiram parte do seu parque produtivo para os países em desenvolvimento,
entre eles o Brasil.

Eletrodomésticos,
carros e outros
produtos
passaram a fazer
parte integrante
da vida brasileira.
Houve aquilo que os economistas chamam de “internacionalização do A U L A
processo produtivo”, que teve como conseqüência a abertura de novas áreas de
industrialização em diversas regiões. A mais importante delas se encontra no
Sudeste da Ásia, constituída por países conhecidos como os “tigres asiáticos”. 40
(Coréia do Sul, Cingapura e Hong-Kong).
Ao mesmo tempo, rompiam-se na Europa velhas barreiras comerciais e
tarifárias, surgindo a Comunidade Econômica Européia.

Esta potente
antena de
telecomunicações
simboliza, aqui, a
velocidade com
que as
informações
correm neste final
de século.

A revolução tecnológica

Contudo, o fenômeno mais significativo nos anos posteriores ao término da


Segunda Guerra Mundial, e que ocorreu no cenário mundial, foi a revolução
tecnológica . Tal fenômeno veio substituir a Revolução Industrial. Essa revolu-
ção tecnológica vem tendo profundas conseqüências sociais e culturais. Carac-
teriza-se pelo predomínio da informação, tendo sido abandonados os velhos
processos produtivos, substituídos pela capacidade científica e pela criação de
novas técnicas e novos produtos.
O centro de decisão da economia mundial, antes concentrado nos Estados
Unidos, dispersou-se em um grupo de nações. A potência militarmente mais
poderosa, os Estados Unidos, passou a dividir o poderio econômico com outros
países, como a Alemanha, o Japão e as nações que são membros da Comunidade
Econômica Européia − CEE.

O Muro de Berlim

Esses anos presenciaram, também, o desenrolar e o final da Guerra Fria e as


corridas armamentista, nuclear e espacial, entre os Estados Unidos e a União
Soviética.
O símbolo da disputa ideológica entre o capitalismo e o comunismo foi o
Muro de Berlim. O Muro foi construído em 1961, para separar as partes da cidade
de Berlim que, após a Segunda Guerrra Mundial, ficaram sob a esfera de
influência dos dois países responsáveis pela derrota final do nazismo, em 1945.
A progressiva superioridade militar dos Estados Unidos e o agravamento
da crise econômica na União Soviética permitiram que houvesse um movimento
de aproximação entre os dois países em torno da necessidade de se evitar uma
guerra nuclear.
A U L A A Perestroika e a Glasnost

40 Na tentativa de solucionar a crise interna, o líder soviético Mikhail


Gorbatchev, que chegou ao poder em 1985, iniciou um processo de reforma
econômica conhecido como Perestroika .
Entretanto, seu governo percebeu que para estimular a criatividade e a livre
iniciativa era também nescessária a reforma política. Iniciou assim, um processo
de abertura chamado Glasnost , que quer dizer descongelamento. Esse processo
levou a maiores questionamentos por parte dos cidadãos soviéticos e dos países
sob o domínio comunista.
Em 1989, a revolução explodiu na Polônia, na Hungria, na Alemanha
Oriental e na Checoslováquia. Cansados do domínio soviético, da falta de
liberdade e dos problemas econômicos, homens e mulheres desses países saíram
às ruas e derrubaram seus governantes.
A revolução, em pouco tempo, espalhou-se para todos os países comunistas
na Europa, e a própria União Soviética deixou de existir. Em novembro de 1991,
o Muro de Berlim foi derrubado e a Alemanha, reunificada.
Todo esse rápido processo mudou a face do mundo. O fim da União Soviética
fez com que terminasse a Guerra Fria. Iniciou-se uma era de otimismo, de
integração econômica e política − a era da globalização .
Apesar disso, uma forte tendência de fragmentação política se fez sentir em
diversos países, onde movimentos étnicos, religiosos e nacionalistas queriam, e
querem, preservar sua identidade e conquistar seu espaço.
Outra grave questão contemporânea é o aumento constante do desempre-
go no mundo industrializado. Apenas no ano de 1993, cerca de 35 milhões de
trabalhadores ficaram sem ocupação nos países mais ricos. O avanço tecnológico
e as novas técnicas de organização das empresas geraram aumento da produção
com menor número de trabalhadores. Esse aumento do desemprego tem
contribuído, inclusive, para o surgimento de grupos racistas e nazistas, que
tendem a culpar os imigrantes estrangeiros pela falta de empregos na Europa.

A nova ordem

O Brasil recebeu influxos políticos, econômicos e culturais desse contexto


que se modificava. O desaparecimento da União Soviética obrigou, também, a
uma reavaliação do projeto socialista, fazendo com que fosse mudada a sigla do
Partido Comunista Brasileiro − PCB para Partido Popular Socialista − PPS.
Nos antigos países comunistas do Leste Europeu, em vez do totalitarismo
e da implantação da economia de mercado, em vez da economia planificada, a
democracia liberal lançou as bases para a construção das respostas para a
reorganização política e econômica dessas nações.
A mesma coisa aconteceu nos países do Terceiro Mundo, entre eles o Brasil,
que substituíram os regimes autoritários por democracias liberais e iniciaram a
liberação de suas economias, com a privatização de empresas estatais e a
aceitação das leis do mercado.
O Brasil enfrenta esse cenário mundial como um de seus novos atores,
sintonizado com os sinais dos novos tempos. Ao longo das últimas décadas, o
Brasil construíu uma base material significativa. E, com o restabelecimento da
democracia, diferentes setores sociais começaram a expressar-se com mais
autonomia. A redução de certas tarifas de importação − que obriga a qualificação
e o aumento da produção nacional − e o processo de privatização de empresas
que representam ônus para o Estado − pois retiram recursos que deveriam ser A U L A
aplicados nas funções básicas do poder público −, representam passos que
conduzem à integração brasileira na nova ordem mundial .
Outro aspecto da presença brasileira no esforço para integrar-se à globalização 40
da economia é o processo de integração regional . A estruturação do Mercado
Comum do Sul − Mercosul , em 1993, que reúne Brasil, Argentina, Uruguai e
Paraguai, iniciou uma crescente troca comercial entre os países integrantes.
A possibilidade da participação de outros países latino-americanos nesse
processo de integração de economias nacionais faz crer que a superação de
fronteiras e barreiras tarifárias e comerciais constituirão a marca da ordem
mundial no século XXI.

Vivemos agora, como muitos países, anos de reconstrução. De um lado O tempo


procura-se criar novas formas de cooperação e solidariedade, como no caso da não pára
Campanha Contra a Fome e pela Cidadania. Por outro, cresce entre os brasileiros
a consciência de que nossos gravíssimos problemas sociais apenas serão resol-
vidos com a manutenção e o fortalecimento da democracia. Daí os movimentos
recentes que combatem a corrupção e exigem uma atitude digna e construtiva
por parte dos governantes.
Para concluir, esperamos que, ao longo do curso, você possa ter percebido
que faz parte da História que todos estamos fazendo com nosso trabalho, nossos
sentimentos, nosso pensamento, nossa ação.
Parabéns!
Exercícios
A U L A Relendo o texto

40 Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu e
procure ver o que elas significam, no dicionário e no vocabulário da Unidade.

1. Releia A internacionalização da economia e explique o papel das multi-


nacionais nos países subdesenvolvidos.

2. Releia A revolução tecnológica e responda:


a) Quais as características da nova revolução?

b) De que maneira o Brasil poderá chegar a essa revolução?

3. Releia O Muro de Berlim e responda o que aconteceu no Leste Europeu após


a Perestroika e a Glasnost?

4. Releia A nova ordem e dê a sua opinião crítica sobre a integração do Brasil


na nova ordem mundial, no que se refere:
l ao Mercosul;
l à privatização das empresas estatais;
l à importação de produtos estrangeiros.

5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

O documento abaixo é um dos depoimentos que o sociólogo Herbert de


Souza (Betinho) vem fazendo por este país afora, na defesa da Campanha da
Ação da Cidadania Contra a Miséria e pela Vida . Essa campanha representa
uma nova forma de fazer política e construir, no dia-a-dia, a democracia em
nosso país. Leia-o com atenção e faça o que se pede:

“ O Brasil foi produzindo, ao longo da História, a riqueza e a pobreza.


Mas nós nos acostumamos com a pobreza como se ela fosse um fato
absolutamente natural. (...) A Ação da Cidadania contra a Miséria e
Pela Vida é um movimento que quer recriar o Brasil e que depende,
essencialmente, da confiança que cada um deve ter não em mim, não
no outro, mas em si mesmo, na cidadania, na ação solidária e
conjunta para transformar a realidade. Esta ação da cidadania, na
verdade, aposta na consciência, aposta na mudança de visão que vai
se transformar em ação e, finalmente, virar comida, emprego, mora-
dia, sociedade, instituições, democracia. ”
Herbert de Souza (Betinho), 1993

1. Relembrando o que você viu nesta última aula sobre a reconstrução do


Brasil, e juntando tudo isso com esse texto de Herbert de Souza, diga o que
você acha que pode fazer para participar da construção de um Brasil melhor?