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SAMIZDAT24

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2 anos de Revista SAMIZDAT, Henry Alfred Bugalho

Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Giulia Moon

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
Papai Noel volta para casa, Antonio Luiz M. C. Costa

CONTOS
Fogete pa Lua, Carlos Davissara
Um copo de café, Caio Rudá
O Natal de Josefa, Joaquim Bispo
Açúcar, por favor, Wellington Souza
O bilhete literário, Ju Blasina
Os docinhos do Vercidino, Volmar Camargo Junior
O Rei dos Judeus, Henry Alfred Bugalho
Êxtase, José Guilherme Vereza
Quando não se sabe ter, Léo Borges
A dama da Lapa, Giselle Natsu Sato

TRADUÇÃO
O Presente dos Magos, O. Henry

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA
A vampiro dado não se olham os dentes, Volmar Camargo Junior

CRÔNICA
Padres de calendário, Maria de Fátima Santos
O fantasma dos Natais passados, Volmar Camargo Junior
O que servir no Natal?, Ju Blasina

POESIA
O nada, Ju Blasina
Jardim japonês, Wellington Souza
Laboratório Poético: presença (cortinas), Volmar Camargo Junior
Domingo, dia santo, Maria de Fátima Santos
Poemas, Mariana Valle
Big Bangs, Dênis Moura

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT
2 anos de Revista SAMIZDAT, Henry Alfred Bugalho

Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Giulia Moon

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
Papai Noel volta para casa, Antonio Luiz M. C. Costa

CONTOS
Fogete pa Lua, Carlos Davissara
Um copo de café, Caio Rudá
O Natal de Josefa, Joaquim Bispo
Açúcar, por favor, Wellington Souza
O bilhete literário, Ju Blasina
Os docinhos do Vercidino, Volmar Camargo Junior
O Rei dos Judeus, Henry Alfred Bugalho
Êxtase, José Guilherme Vereza
Quando não se sabe ter, Léo Borges
A dama da Lapa, Giselle Natsu Sato

TRADUÇÃO
O Presente dos Magos, O. Henry

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA
A vampiro dado não se olham os dentes, Volmar Camargo Junior

CRÔNICA
Padres de calendário, Maria de Fátima Santos
O fantasma dos Natais passados, Volmar Camargo Junior
O que servir no Natal?, Ju Blasina

POESIA
O nada, Ju Blasina
Jardim japonês, Wellington Souza
Laboratório Poético: presença (cortinas), Volmar Camargo Junior
Domingo, dia santo, Maria de Fátima Santos
Poemas, Mariana Valle
Big Bangs, Dênis Moura

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT

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SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com

24
janeiro 2010 ano II
ficina

O Presente dos Magos

o olhar de O. Henry sobre a vida cotidiana

SAMIZDAT 24
janeiro de 2010
Edição, Capa e Diagramação: Henry Alfred Bugalho Edição de Imagens: Volmar Camargo Junior Henry Alfred Bugalho Revisão Geral Maria de Fátima Santos Volmar Camargo Junior Caio Rudá Assessoria de Imprensa Mariana Valle Autores Caio Rudá Carlos Davissara Dênis Moura Giselle Natsu Sato Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Guilherme Vereza Jú Blasina Léo Borges Maria de Fátima Santos Mariana Valle Volmar Camargo Junior Wellington Souza Textos de: Antonio Luiz M. C. Costa O. Henry

Editorial
A chegada de um novo ano é sempre tempo de fazer o balanço do que se fez, e planejar o que se pretende fazer. Há aqueles que decidem parar de fumar, casar, comprar a casa própria, conseguir um emprego melhor... Tais metas são individuais e geralmente a realização delas depende de fatores externos, além do nosso controle, pois a vida é imprevisível, repleta de surpresas, uma roda viva sempre a nos elevar ou a nos rebaixar a seu bel-prazer. Nós, escritores, também temos nossas metas literárias: concluir (ou começar) um romance, ganhar algum concurso, ser publicado, fazer sucesso, ou simplesmente escrever, escrever sempre. Quais são suas metas? E, mais importante, o que você pretende fazer de concreto para realizá-las? Projetos não valem nada sem ação, por isto, desejo a todos vocês muito sucesso em 2010, mas também muito trabalho, pois é a essência de toda conquista.

Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons. Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons. Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Commons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112). As idéias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista.

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Sumário
2 anos de Revista SAMIZDAT
Henry Alfred Bugalho

5 8

PoR quE SAMIZDAT?
Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA Giulia Moon AuToR EM LÍNGuA PoRTuGuESA Papai Noel volta para casa
Antonio Luiz M. C. Costa

10 16

CoNToS Fogete pa Lua
Caio Rudá

Carlos Davissara

20 24 28 31 34 36 40 42 44

um copo de café o Natal de Josefa
Joaquim Bispo

Açúcar, por favor
Wellington Souza Ju Blasina

o bilhete literário os docinhos do Vercidino
Volmar Camargo Junior Henry Alfred Bugalho José Guilherme Vereza Léo Borges

o Rei dos Judeus Êxtase

quando não se sabe ter

A dama da Lapa

Giselle Natsu Sato

48

TRADuÇÃo o Presente dos Magos
O. Henry

52

RECoMENDAÇÃo DE LEITuRA A vampiro dado não se olham os dentes
Volmar Camargo Junior

58

CRÔNICA Padres de calendário
Maria de Fátima Santos Volmar Camargo Junior Ju Blasina

62 66 68

o fantasma dos Natais passados o que servir no Natal?

PoESIA o nada

Ju Blasina Wellington Souza Volmar Camargo Junior

70 71 72 73 74 75

Jardim japonês

Laboratório Poético: presença (cortinas) Domingo, dia santo Poemas
Mariana Valle Dênis Moura

Maria de Fátima Santos

Big Bangs

SoBRE oS AuToRES DA SAMIZDAT

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Mensagem de Aniversário
Em nossa época, dois anos é uma eternidade. Vivemos a era da velocidade, da instantaneidade, da efemeridade, da futilidade. Se Baudelaire definia a Modernidade como o apogeu da moda e do passageiro, quando tudo era e deveria ser substituído pela próxima novidade, a Pós-Modernidade nada mais é que a hipérbole desta definição. O que antes era mensurado em milênios, séculos ou décadas, hoje é contado em minutos, segundos, ou frações destes. A notícia de uma hora atrás é notícia velha. A novidade de ontem é obsoleta. O lançamento de hoje amanhã estará nas pontas-de-estoque. Tudo passa tão rápido e em tamanha quantidade que, nem se dedicássemos 24 horas de nossos dias para descobrir as novidades, seria impossível abarcar tudo. Se já me surpreendi quando do primeiro aniversário da Revista SAMIZDAT, muito mais me surpreende ainda estarmos por aqui.

Henry Alfred Bugalho

2 anos de
Revista SAMIZDAT

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Em 2009, a revista passou por mudanças silenciosas: autores que nos acompanhavam desde as primeiras edições deram lugar a outros, perdíamos por um lado, mas ganhávamos por outro. Renovação, reinvenção... Mas a SAMIZDAT, que a princípio havia causado um certo burburinho no submundo da Literatura em português, tornou-se, por sua vez, notícia velha. Prosseguimos porque nos divertimos, apesar da esmagadora sensação de falarmos para ouvidos surdos.

Quem nos lê? Quem está do outro lado? Existe alguém para além dos caracteres e palavras que ansiosos rabiscamos para lançá-los ao mundo? Não temos certezas, mas possuímos alguns dados. Nestes dois anos, mais de 65 mil leitores passaram por aqui, 32 mil deles baixaram alguma das edições em .PDF da SAMIZDAT, somos 18 autores fixos e publicamos aproximadamente 750 textos, entre contos, crônicas, poemas, artigos, resenhas e entrevistas, dando a nossa humilde

contribuição, gratuita e com a melhor qualidade que nossos talentos permitem, para a cultura lusófona. Dois anos... E como somos teimosos, persistentes, ou simplesmente não sabemos quando desistir, acredito que outros anos ainda virão. Desejo meus parabéns a todos que tornam a Revista SAMIZDAT possível, autores e leitores, pois a trilha é árdua, mas a paisagem é bela!

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SAMIZDAT janeiro de 2010

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De longe, sem se O homem respondeu: virar, o lugar onde

a boa Literatura
– Kane.

é fabricada

ficina
www.oficinaeditora.com
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A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como uma das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

http://www.flickr.com/photos/tym/247265947/sizes/o/

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Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

Inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprimir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas logo

se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiam, fazer parte da máquina administrativa - que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo -, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas idéias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exemplo de um samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat?
A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos - como TV ,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em questão de minutos. A serem obrigados a burlar a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substituam o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Giulia Moon
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Entrevista

Giulia Moon, autora do romance Kaori: Perfume de vampira, e de mais uma porção de contos tendo como protagonistas as criaturas mais badaladas da atualidade, fala à SAMIZDAT sobre ela mesma, sobre a diferença de escrever um conto e um romance, sobre os clichês da literatura de horror - e como não cair em suas armadilhas, e, é claro, sobre vampiros. Saiba mais sobre Giulia Moon em seu blog Phases da Lua (http://phasesdalua.blogspot.com). Sobre o romance Kaori, visite a página da obra na Giz Editorial.

SAMIZDAT — Fale-nos um pouco de você, enquanto cidadã paulistana: quem é você, enquanto não está escrevendo ficção? Conte-nos um pouco de sua trajetória até publicar seus primeiros livros. GIULIA MOON — Eu sempre tive habilidade para desenhar, herança do meu pai, seu Kazuo, que pintava à mão os painéis nas fachadas de cinemas paulista-

nos lá pelos idos dos anos sessenta e setenta. Com o tempo, esse tipo de atividade foi desaparecendo, pois os cinemas passaram a usar apenas letreiros luminosos nas fachadas. Lembro-me perfeitamente de meu pai pintando enormes painéis com as imagens do 2001: Uma Odisséia no Espaço, Sol Vermelho, O Dólar Furado e muitos e muitos filmes. Ele ampliava, com a ajuda de um episcópio, as

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SAMIZDAT janeiro de 2010

imagens dos posters oficiais e depois os coloria no galpão que ficava nos fundos da minha casa. E deixava que eu pegasse pincéis velhos e restos de tinta para brincar. Quando era adolescente, desenhei mangás e quadrinhos que serviam apenas para divertir os amigos. Nessa época comecei também a escrever contos, que também ficaram engavetados, pois nunca imaginei que poderia um dia publicá-los. Depois entrei numa faculdade de Comunicações, a FAAP, e me especializei em Publicidade e Propaganda. Fiz estágio em algumas agências e acabei trabalhando como diretora de arte na área de Promoção e Merchandising durante muitos anos. Nesse período fiz alguns trabalhos interessantes, como a criação dos personagens da Marisol, Lilica Ripilica e Tigor T. Tigre. Como publicitária, exerci várias funções: direção de arte, ilustração, direção de criação. Em 2000, eu me encontrava meio entediada com os rumos da minha vida profissional. Havia conseguido um certo sucesso, mas não via muitas perspectivas além disso. Eu lia muito, principalmente livros de FC, Fantasia e Horror, e estava fascinada pelos livros da Anne Rice. Havia escrito, ainda como um simples passatempo, um conto de

vampiros compridão, chamado A Dama Branca. Numa noite, navegando à toa pela internet, coloquei num buscador a palavra “vampiro”. Surgiu um site brasileiro chamado Mundo Vampyr de fãs de vampiros. Comecei a explorar o site e, entre outras coisas, encontrei uma seção de contos. Resolvi então escrever um conto, “Um Tédio de Matar”, uma história curtinha, do tamanho dos que estavam publicados lá, e enviei para o webmaster. Recebi quase em seguida um convite para participar de um grupo de discussão no Yahoo, a Tinta Rubra, composto de escritores amadores de contos de vampiros, pois o webmaster era o moderador do grupo. Foi assim que comecei a escrever regularmente nas minhas horas vagas. A Tinta Rubra trouxe também a oportunidade de mostrar o meu trabalho para um público mais amplo, fora do círculo de familiares e de amigos, e percebi então que talvez eu pudesse ambicionar algo maior do que simples passatempo na área literária. Acabei lançando o meu primeiro livro, uma coletânea de contos chamada Luar de Vampiros (Scortecci, 2003) graças ao incentivo dos participantes do grupo e, de lá para cá, tenho mantido uma produção constante, com mais dois livros de contos: Vampiros no Espelho & Outros Seres Obscuros

(Landy, 2004) e A DamaMorcega (Landy, 2006). Este ano lancei o meu primeiro romance, Kaori: Perfume de Vampira pela Giz Editorial. SAMIZDAT — Giulia Moon é, segundo fontes seguras (rsrs) um nome artístico. Como é o seu nome de batismo, e por que a opção pela adoção de um pseudônimo? Você publica textos como “você mesma”, diferentes dos textos escritos como Giulia Moon? GIULIA — O meu nome real é Sueli Tsumori. “Giulia Moon” é um nickname que adotei quando entrei na Tinta Rubra. Ao invés de escolher, como os outros, um nome romeno vampiresco com títulos de nobreza como “condessa” e “lady”, reuni dois nomes curtos que tivessem algum tipo de significado para mim. Eu sempre gostei do nome “Giulia”, porque soava sensual, gracioso e fácil de ser pronunciado. E “Moon”, porque sou uma apaixonada pela lua, adoro ficar devaneando sob uma lua cheia ou ler histórias que envolvam noites de luar – além de achar a grafia de “moon” muito legal, com os “o”s lado a lado, lembrando dois olhos arregalados de espanto. Quando lancei o primeiro livro, não havia razão para assinar de outra forma, já que a maioria dos meus leitores me conhe-

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cia como “Giulia Moon”. E assim ficou. Nunca publiquei nada como Sueli, pois Giulia continua sendo, pelo menos para mim, o meu lado vampiresco, noturno, aventureiro – enfim, o meu eu que passava as noites teclando com amigos soturnos e escrevendo contos cruéis na Tinta Rubra. SAMIZDAT — Os vampiros são um dos temas que, de tempos em tempos, voltam a ser moda. A que você atribui este fascínio que temos por estas criaturas? GIULIA — Acho que as pessoas gostam de vampiros porque são, em primeiro lugar, vilões com um bom layout. São parecidos com os seres humanos, têm as vantagens da juventude eterna, imortalidade, dons psíquicos, força física. É um monstro que tem um arsenal de armas variado: a força, o poder psíquico, a sedução, a esperteza. Pode agir com a “mão pesada” ou com sutileza, dependendo da situação. Mas também pode ser sentimental, frágil, enfim, pode ter todas as fraquezas da mente humana, pois já foram humanos um dia. Para o autor, é um personagem muito estimulante, e isso faz com que o produto da criação tenha grandes chances de ficar bom. E, para o leitor, é aquele vilão (ou vilã) bonitão, sacana e malvado que adoramos

odiar. Vilões assim sempre fizeram sucesso, pois adoramos esses contrastes: beleza com maldade, delicadeza com crueldade, e assim por diante. SAMIZDAT — Com tantos autores, nacionais e estrangeiros, abordando o vampirismo, é possível fugir de certos clichês do gênero, ou ao fazê-lo corre-se o risco de descaracterizar o tema? GIULIA — Bem, não existe uma lei que diga que tais e tais características são obrigatórias para um personagem vampiro. Acho que depende do bom senso de cada autor. Um bom senso que o faça reconhecer que, sem algumas características básicas, o seu personagem não é um vampiro, mas alguma outra criatura. Os vampiros do meu livro Kaori são os vampiros clássicos: predadores, bebem sangue (e só sangue), não andam a luz do dia, têm muita força e capacidade de se regenerar de ferimentos. Mas já escrevi contos em que os vampiros são seres microscópicos, por exemplo. Os clichês ruins são apenas aqueles que são mal trabalhados pelo autor. SAMIZDAT — Muitos autores da nova geração encantaram-se com os vampiros por causa dos jogos de RPG, especial-

mente “Vampiro: a Máscara” (publicado no Brasil pela Devir). Você pertence a este grupo ou seu interesse é anterior? Qual foi sua inspiração inicial? GIULIA — A minha inspiração inicial veio da literatura, do cinema e dos mangás. Só joguei RPG uma única vez, com alguns amigos. Eu adorei! É um jogo incrível, que faz uso de imaginação, de atenção, de perspicácia e é, antes de tudo, uma grande diversão. Mas mesmo àquela época eu não tinha tempo para frequentar as sessões de RPG e por isso não me tornei uma praticante. Tenho muitos leitores RPGistas e alguns deles estão até usando personagens dos meus livros para jogar. Deve ser bem interessante assistir Kaori, Kodo, Mimi e Missora inseridos num jogo de RPG! SAMIZDAT — Em seu Kaori: perfume de vampira, você narra a história paralelamente em duas épocas e lugares diferentes: no Japão da Era Tokugawa, e na São Paulo contemporânea. É evidente que a porção moderna do enredo depende muito dos eventos narrados na parte do século XVIII. Mesmo assim, como foi o processo de escrita? Como você montou o romance? Foi escrito da forma como se apresen-

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SAMIZDAT janeiro de 2010

ta, ou foram feitas duas tramas, e amarradas posteriormente? GIULIA — Na verdade, eu tinha duas histórias na cabeça desde o início, e fui escrevendo as duas ao mesmo tempo, para que os detalhes de ambas fossem se entrelaçando. Pois mesmo que a história atual dependa mais da trama do passado do que o contrário, a forma de narrar o passado dependia também do que o leitor já sabia que ia acontecer no futuro. Por exemplo, todo mundo sabia que Kaori não morreria, pois ela reaparece na São Paulo de 2008. Mas a narrativa tinha que manter o leitor em suspense quando ela corria perigo no passado. Às vezes, eu escrevia dois ou três capítulos no presente para depois voltar ao passado e vice-versa. Noutras vezes eu reescrevia alguns trechos para que se moldasse melhor à trama paralela. Foi um trabalho de verdadeiro artesanato, tecendo, cortando, costurando. SAMIZDAT — Os protagonistas Kaori e Samuel aparecem em uma outra narrativa - um conto - segundo uma nota do romance. Quem veio primeiro: o conto ou o romance? Há outros personagens reincidentes, em outros contos? Você se sente tentada a escrever uma saga de três, quatro

ou sete romances? GIULIA — Inicialmente, o conto “Dragões Tatuados”, com Kaori e Samuel, fazia parte do esboço de romance que eu estava planejando. Quando recebi o convite de Ednei Procópio, editor da Giz Editorial, para fazer parte da coletânea “Amor Vampiro”, tive a idéia de usar esse trecho para um conto, pois ele mostrava de uma forma interessante algumas facetas do amor de uma vampira. O conto fez sucesso e acabou abrindo caminho para a publicação posterior do romance.

no Espelho & Outros Seres Obscuros. Enfim, eu já estava delineando o universo de Kaori há algum tempo. Quanto à saga, não sei se haverá tantos romances, mas estou escrevendo mais um livro dentro desse universo, pois sinto que ainda há muito nele a ser explorado. SAMIZDAT — Sabemos que você era, essencialmente, uma narradora de contos. Como você define a diferença de escrever em um e em outro gênero? GIULIA — A diferença mesmo é de fôlego. Assim como num conto a sua capacidade de síntese é posta à prova, num romance você precisa se dedicar a pesquisar, a se aprofundar e a detalhar. Um romance é um trabalho árduo, braçal, e de imensa concentração. Mas também é a ponte para uma ligação mais intensa e apaixonada com o leitor. Os contos são um exercício de imaginação, de criatividade, de habilidade. Um romance é, além de tudo isso, uma prova de resistência, de persistência e de foco. SAMIZDAT — Você já tem um público fiel? Como seus leitores receberam o romance? Você tem algum feedback de seus leitores? É importante saber a opinião de

Kaori já havia aparecido antes em dois ou três contos, alguns apenas como coadjuvante. A idéia dos famélicos já tinha sido lançada num conto chamado “Parasitas!”, o vampwatcher já havia aparecido no conto “Mil e Trezentos Vampiros”, ambos publicados na minha coletânea Vampiros

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quem nos lê, mas até que ponto você escreve para seu público, e em que medida você se mantém fiel ao que você quer escrever? GIULIA — Os meus leitores receberam Kaori com festa. Acho que todo mundo que me conhece já me perguntou, em algum momento, por que eu não escrevia um romance, pois muitos dos meus contos tinham aquele jeitão de pedaços de algo maior. Senti, por parte desse público, uma grande alegria com a chegada de Kaori, uma recepção tão calorosa que até me surpreendeu. Por outro lado, com a publicação de Kaori, o número de leitores aumentou muito. Tenho recebido mensagens entusiasmadas comentando sobre o livro e os personagens. O engraçado é que eles leram Kaori, em média, em três dias, o que é surpreendente para um livro com quase quatrocentas páginas. Isso é um forte indício de que o livro cumpre bem a sua função de divertir e entreter o leitor, e estou bastante satisfeita com isso. Quanto a escrever para o leitor, tenho a sorte de pertencer à grande fatia da população que adora se divertir com a leitura. Não acho que sou muito diferente da maioria dos leitores, por isso, sempre escrevo para mim mesma. Se não estou gostando do que escrevo, eu

me entedio e não consigo ir adiante. SAMIZDAT — Há um evidente trabalho de pesquisa sobre o folclore japonês em Kaori. Quanto tempo levou esse processo? A que fontes você recorreu? Há um ponto onde entra alguma “licença poética”, ou você se manteve fiel à tradição? GIULIA — A maior parte da minha pesquisa concentrou-se na História do Japão, que eu pouco conhecia, nem tanto para colocar dados no romance, mas para situar os personagens, seu comportamento, o ambiente em que vivem, na minha própria cabeça. As criaturas míticas de Kaori são bastante conhecidas pelos japoneses, é como se usasse Saci e Iara do folclore brasileiro, portanto não foi preciso muita pesquisa. Eu já conhecia os tengus e o nekomata de livros japoneses, mangás e filmes e só procurei me certificar de alguns poucos detalhes. Para isso recorri a consultas a sites que tratam do folclore japonês na internet. Quanto à fidelidade às lendas, no caso dos tengus de Kaori, usei apenas a forma visual original e brinquei com a idéia de uma criatura fantástica fazer uso da imagem de outra, pois eles não são tengus de verdade, e sim vampiros que se apropriam dessa lenda para

incutirem temor às pessoas ingênuas da região. Quanto ao nekomata, mantive a maioria das características originais como as duas caudas, a possessão de cadáveres, etc. SAMIZDAT — Você tem algum projeto em andamento? Pode nos falar um pouco a respeito? GIULIA — Afora alguns convites para coletâneas, estou começando a escrever um novo romance dentro do universo de Kaori. Não posso detalhar muito a respeito, pois as idéias ainda estão se formando na minha cabeça, e tudo o que eu disser aqui pode mudar no instante seguinte. Pretendo mergulhar completamente nesse projeto a partir do início do ano, por isso devo “desaparecer” durante alguns meses para dedicar todo o meu tempo ao novo livro. Em 2010, completo dez anos como escritora, por isso quero iniciar o ano com força total!

Coordenação da entrevista: Volmar Camargo Junior Perguntas feitas por: Volmar Camargo Junior Henry Alfred Bugalho Fátima Romani

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SAMIZDAT janeiro de 2010

nome de “O Canto da Ele tinha diante de si sua visão ao concertista. Sereia de Bach”, já que a bela melodia sempre se mostrava como um fatal e irresistível convite ao além-túmulo.

a mais difícil das missões:

cumprir a vontade de Deus

Quase um ano após o início das mortes, passava pela região um viajante austríaco, excepcional estudante de música, chamado Wolfgang Amadeus Mozart. Quando soube da maldição, não se alarmou, disse apenas que gostaria de ouvir o tal concerto fúnebre e de conhecer o seu autor. Foi alertado de que a história era verdadeira, de que as pessoas já não queriam mais estudar música, e ele poderia ser o próximo, e o dia fatal estava se aproximando... Nada disso o espantou.

chão a partitura do final Aquela mesma figura cade uma recente compodavérica, que levara tansição sua – a primeira a tos a sucumbir, apontava- lembrar que estava em lhe seus terríveis olhos harmonia com a música ausentes. E como todos os inacabada de Bach. Teroutros, também Mozart minando, viu que a perna www.oficinaeditora.com paralisou-se. Junto à ima- já estava livre. Correu o gem macabra, sentiu o mais rápido que pôde, cheiro da putrefação. As sem olhar para trás. O náuseas dominaram-no, som de sua composição o que o fez libertar-se da servia de trilha sonora paralisia, caindo de joepara a fuga, enquanto lhos a largos vômitos. Em ele pensava como, até o meio a engasgos, tosses e momento, aquela música ânsias, ouviu a frase mor- nunca havia lhe parecido tal: “Termine a música”. tão viva e tão mórbida. Prometeu não mais tocáConfuso, desnortela. ado, Mozart tentou se

ficina

O Rei dos

Judeus
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át

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levantar apoiando-se no órgão, que sua mão atravessou como se nada ali estivesse. Caiu sobre o vômito, começando a recobrar a razão e tentando afastar-se daquele Dia vinte e oito, “Toca- prenúncio da morte. De bruços sobre a terra, ta e Fuga em Ré Menor”, sentiu algo prendendo-o tudo como haviam dito, pelo e lá estavaHenry Alfred BugAlHo pé. Não teve coraMozart dentro do cemitério. Com os gem de olhar para ver o olhos fechados, deixava-se que era. E novamente a voz suave suplicou: “Terextasiar com as compomine a música”. Fazendo sições de Johann Sebasuma desesperada oração tian Bach, num estado mental, tateou o solo até de euforia sobrenatural. encontrar uma pedra Subitamente, o som se pontiaguda. Com ela, extinguiu. O jovem despertou do transe e dirigiu começou a desenhar no

No dia seguinte, o jovem Mozart já não se encontrava pela cidade. “Mais um levado pelo Canto da Sereia de Bach”, diziam. Contudo, soubese na hospedaria que ele havia partido durante a madrugada, são e salvo, após o sinistro concerto. No cemitério, ao invés do esperado músico morto, foi encontrada apenas uma inscrição na terra, parecida com o trecho de alguma partitura. Desde então, não se noticiou mais vítimas do “Canto da Sereia de Bach”.

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Autor em Língua Portuguesa

Papai Noel volta para casa
Antonio Luiz M. C. Costa

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Só a barba branca era de verdade. A roupa vermelha era um artifício ridículo, a pança não passava de enchimento. Até um dos olhos azuis por trás dos óculos de aros finos e dourados – também falsos – era de vidro. E ainda mais fingidos que tudo isso ficaram os hoho-hos, depois de penar com o calor fora do comum do Rio de Janeiro nessa véspera de Natal. Data odiosa, maldita. Os supostos ajudantes de Papai Noel, dois negros magros e sorumbáticos, sacolejavam no banco às suas costas. Como de costume, não abriam o bico, mas o velho sabia que eles ansiavam ainda mais por chegar em casa. Estavam todos suados, exaustos e de saco cheio. Mesmo depois de distribuir todos os brinquedinhos. Ao menos, a palhaçada acabara. Enfrentar de novo aquela criançada toda, só no ano que vem. Sua querida velha sempre o chamava de pessimista, mas ele sabia ser apenas realista. Conhecera bem demais a natureza humana, mais do que muitos outros idosos da mesma geração. Tivera dias de grandeza, caíra na miséria e passara a de-

pender desse humilhante bico de fim de ano para equilibrar as contas e ter um mínimo de conforto. Mas o pior de tudo era ter de fazer isso a serviço do concorrente que o tirara do negócio. Da primeira vez que o desgraçado mandou o mensageiro lhe oferecer o biscate – idéia do seu novo sócio-executivo, soube depois –, quase foi lá cuspir na compassiva e generosa fachada do manda-chuva, mais fingida que a pose de bom velhinho que queria obrigálo a representar. Se fosse chamado de anti-semita, azar. Era velho demais para tentar ser politicamente correto. A muito custo, a esposa o convencera a aceitar até que as coisas melhorassem. Melhorassem! Acaso ela não entendia que iam de mal a pior e que não viveriam para sempre? E ter de desperdiçar o que lhe restava de vida promovendo o mais desleal de seus inimigos?

ele, era feito de germânica Schadenfreude, o sentimento de alegria pela desgraça alheia tão conhecido de seu povo. Seu empregador não ia bem, os problemas continuaram a piorar desde o ano anterior. Nunca o vira tão nervoso e rabugento. A globalização agora só dava dores de cabeça ao patrão que antes tanto a elogiava. Um concorrente árabe lhe tirava mercados, usando as mesmas táticas brutais e inescrupulosas com as quais roubara os clientes de tantos negócios menores. Até aqueles indianos de fala mansa, que pareciam tão ingênuos e inofensivos, já o comiam pelas beiradas. A família brigava e se dividia, cada um exigindo sua parte para fundar o próprio negócio. Seus podres vinham à tona, os esqueletos despencavam dos armários.

Melhor, o poderoso sócio-executivo, sem o qual o maldito déspota jamais teria chegado onde cheMas agora o vento fresco gou, controlava cada vez mais as operações e mal da noite já o animava e lhe dava atenção. Negoas inevitáveis sacudidas ciava abertamente com do veículo não o incomodavam, nem lhe inter- os concorrentes e até mesmo nas datas comerompiam os devaneios. Quase conseguia se sentir morativas da fundação da casa esquecia-se de menotimista. Boa parte do cionar o nome do patrão seu leve sorriso, admitia

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e fundador, do qual cada vez menos clientes se lembravam. Nessa época do ano, ria-se o falso Papai Noel, até o palhaço de vermelho era mais popular. O patrão tivera mais um daqueles hediondos ataques de ira e ciúme e tentara demiti-lo de uma vez por todas. Mas o executivo-chefe arquivou o memorando, chamou o velho caolho em particular, pediu-lhe desculpas pelo mau comportamento do sócio, elogiou seu trabalho e agradeceu antecipadamente os lucros que continuaria a lhe trazer. Até prometeu um aumento. Continuava a ser um trabalho odioso, mas os momentos divertidos estavam se tornando mais freqüentes. E tinha de dar o braço a torcer à esposa: graças a seus sagazes conselhos de paciência, as coisas começavam a melhorar. Além de lhe deixar acumular uma pequena reserva, o bico lhe dera oportunidade de sair de casa, exercitar suas faculdades e as de seus ajudantes, manter contatos, fazer novos amigos e conquistar um punhado de fãs e clientes ocasionais. Já pensava em reabrir

o negócio. Anteontem à noite, naquele boteco à beira-mar, conversara confidencialmente com antigos rivais e eles se mostraram receptivos à idéia de uma nova sociedade. O safado do grego estava ainda mais falido do que ele, mas também queria voltar à ativa e tinha muita experiência. Sua velha amiga irlandesa também vinha sondando o mercado, tinha um punhado de bons clientes e estava disposta a contribuir. O baiano, único da velha guarda a manter seu ponto, também se interessou por ampliar os horizontes. Um trovão distante o fez se lembrar da conversa do filho com um cineasta entusiasmado na história da família. Se desse certo, seria uma ótima propaganda. Ao contrário do pretensioso concorrente, o falso Papai Noel sabia não ser imortal. O fim podia não estar distante. Mas agora quase podia jurar que haveria de brilhar de novo antes desse dia chegar, e seu filho também. Todos iam ver! Ah, sim. Precisava se trocar antes de chegar em casa. No ano passado, se esquecera e o porteiro quase perdera o fôlego de tanto rir. Ficara com

vontade de lhe dar uns tabefes, mas acabou por rir com ele. Estava ridículo, teve de admitir. Mas este ano, não. Era hora de recuperar a dignidade. Sentiu mais um sacolejo forte, ao atravessar outra inesperada corrente de jato. Olhou em volta, calculou que já havia cruzado o Círculo Ártico e procurou um lugar para pousar o trenó. Aquilo ali em baixo eram as geleiras da Groenlândia, a montanha devia o Gunnbjørn. Puxou as rédeas e conduziu o time de oito renas nessa direção, até encontrar um platô adequado. O Papai Noel de mentirinha apeou-se do falso trenó e esticou as pernas cansadas. Admirou a paisagem noturna, o suave brilho da aurora boreal, o silvo do vento gelado, os poucos flocos de neve que lhe tocavam as bochechas rosadas. Apreciou a sensação familiar. Estava quase em casa, longe do inferno das selvas, savanas e metrópoles tropicais onde tivera de distribuir milhões de malditos presentes. Só faltava uma coisinha. Disse aos ajudantes para descerem e os dois negros o obedeceram, animados pela primeira vez

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O lugar onde
naquela noite. Começaria por eles. Arregaçou a manga, tocou o bracelete mágico, sussurrou sílabas misteriosas e os dois voltaram a ser corvos e lhe pousaram nos ombros. Logo teriam de retornar à tarefa de conferir se as crianças se comportariam bem ou mal, mas teriam uma merecida semana de férias. E ele tinha razões para esperar que em poucos anos poderia voltar a lhes confiar missões mais importantes. Os dias de tirania de Javé e Mammon estavam contados. Zeus, Morrigan e Oxalá se uniriam à sua luta. Mais um gesto mágico. O trenó voador transformou-se em enorme lança de arremesso, poderosa e infalível. Outro. As oito renas se fundiram em um único e espantoso animal, um enorme cavalo de oito patas. Terceiro gesto. A ridícula fantasia vermelha transformou-se em uma armadura imponente e completa e o corpo retornou à sua majestosa estatura verdadeira. O olho de vidro lhe caiu da órbita ampliada, enquanto os corvos erguiam vôo. O velho recolocou a ameaçadora venda negra, empunhou a lança e montou. Com um relinchar impressionante, o colossal Sleipnir ganhou os céus, seguido pelos fiéis Hugin e Munin. Sua velocidade espantosa sacudiu as geleiras desertas com um estrondo sônico, pouco antes de alcançar Bifröst, o portal entre os dois mundos. O leal porteiro o reconheceu e fez soar a trombeta Giallarhorn, como nos velhos tempos. O rei agradeceu a Heimdall com um acenar de cabeça, enquanto as valquírias convergiam de todas as direções para formar a guarda de honra e escoltar o soberano ao Valhalla. Frigg, Thor e toda Asgard o esperavam para abrir a festa de Yule, o solstício de inverno. Odin sentiu-se em casa.
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a boa Literatura
é fabricada
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Antônio Luiz M.C. Costa é editor e colunista da revista CartaCapital, contista, romancista e referência no Brasil entre autores de Ficção Especulativa. Leia aqui a entrevista que o autor concedeu à SAMIZDAT, em outubro de 2009.

ficina
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Contos

FoGETE PA LuA
Carlos Davissara

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Os filhos de Dona Ritinha eram terríveis. Depois que o marido sumiu com outra, ficou complicado segurar as rédeas das crianças. Katelyn era a mais velha, depois vinha Maycon, o do meio, e Bianca, a caçula. Os três irmãos traziam muita dor de cabeça à mãe, mas, independente disso, eram a felicidade da mulher. “Meus filhos são tudo pra mim”, não se cansava de dizer. Com seus vinte e nove anos – aparentando quarenta –, Dona Ritinha se virava como Deus permitia. Vez por outra, lavava roupas, fazia bijuterias... Até tirava uns trocados, mas era difícil levar a vida. Sem muita escolha, começou a ensinar Katelyn nos afazeres domésticos. E, com apenas seus oito anos, a menina já limpava boa parte do barraco em que viviam e também ajudava a supervisionar os irmãos, que auxiliavam apenas nas tarefas mais simples. Maycon, com sua meia dúzia de anos, tirava o pó da maneira que achava certo. Já Bianca tornou-se uma habilidosa arrastadora de coisas que, em sua maioria, existiam há muito mais tempo que os seus cinco aninhos de idade. Assim levavam a vida: com o pouco que Deus dava, mas sempre ajudando uns aos outros. Em suas muitas tentativas de conseguir melhor emprego, Dona Ritinha finalmente teve

retorno. A entrevista foi marcada, e a felicidade só não foi maior por conta de um detalhe: com quem ela deixaria as crianças? Sem nenhum parente próximo, não tinha a quem recorrer. Nunca teve proximidade com os vizinhos, não confiava neles. Pensava, pensava e não achava solução, via-se num beco sem saída. No dia da entrevista, Dona Ritinha chamou a filha mais velha: – A mãe vai sair, mas não vai demorar. Cuida dos seus irmãos direitinho e, se alguém chamar, não abre a porta. Finge que não tem ninguém em casa, tá bom? Fica com Deus e vê se não mexe onde não deve! – Mas, mãe... – Sem choradeira! Vou ver uma coisa boa pra nós, filha. Se comporta que a mãe não demora. Beijou a menina, trancou a porta e, com o coração na mão, foi à entrevista. *** – Pára de brigar! – Katelyn gritava com os irmãos. – É ele, Kate! – acusou Bianca, chorosa. – Pára, Maycon! – Katelyn gritou mais alto. – É ela, Kate! – retrucou

Maycon, com voz de indignação. – Pára, Bia! – berrou Katelyn. Ao último grito, Bianca entortou a cara e começou a chorar. Dirigiu-se a seu local da amargura: debaixo da mesa. Katelyn foi atrás, agora, com voz suave: – Bia, não chora. Era só brincadeira... Eu não briguei com você, não... – Sai! – gritou Bianca. – Ó, vamos brincar de fazer uma surpresa pra mãe? Hein? Daí, quando ela voltar, vai ficar feliz com a gente! – falou Katelyn, tentando entusiasmar a caçula. – Sai! – desta vez, Bianca gritou com tanta força que ficou vermelha. – Tá bom, então, eu vou brincar com o Maycon. Ô, Maycon – chamou –, vamos brincar de fazer uma surpresa pra mãe? – Brincar de surpresa? Vamos – disse, meio desconfiado, o menino. – E o que a gente pode fazer pra mãe ficar bem feliz? – perguntou Katelyn. – Um foguete – quem respondeu foi a caçula, ainda com lágrimas nos olhos, mas com o choro nervoso transformado em pequenos soluços. – Isso, Bia! Que legal! A gente viu o foguete na televisão

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aquele dia, né? – Saía um fogo bem grandão – disse Maycon, enquanto abria os braços. – E a mãe gostou! – Ela falou que ia para a lua um dia! – exclamou Katelyn, sorrindo. – A gente faz o foguete e vai hoje, quando ela chegar! – Ê!!! – gritou Bianca, saindo correndo de seu canto da amargura. Quase no mesmo instante, já voltava arrastando uma caixa de papelão. – É o foguete – disse, colocando a caixa na frente dos irmãos. – Legal, Bia! – aprovou, Katelyn. – Só que tem que ser mais grande, senão a mãe não cabe. Vem, ajuda aqui – pediu apoio enquanto puxava a caixa que, dentro, já tinha o irmão fazendo sons dos mais fantasiosos foguetes. Além de terríveis, os filhos de Dona Ritinha eram criativos, muito criativos. O que começou apenas com uma caixa de papelão resultou numa engenhosa nave espacial para quatro tripulantes, formada por caixas, vassouras, cobertores, um ferro de passar roupa e panelas. – Põe isso aqui também – sugeriu Maycon, com uma antiga torneira na mão. – Pra beber água. – É mesmo, Maycon, na lua também deve dar sede – concluiu, alegre, a irmã mais velha.

A construção foi arquitetada próxima à porta por onde Dona Ritinha havia saído. O foguete era um conjunto de bugigangas que ocupava boa parte do cômodo. Ao seu lado, foi improvisado um pequeno letreiro: “FOGETE PA LUA”, feito por Katelyn com esmalte de unhas. O trabalho durou a manhã inteira, mas ainda não estava terminado. – A gente tá se esquecendo de uma coisa... – insinuou Katelyn. – O quê, Kate? – os irmãos perguntaram quase que simultaneamente. – Lembra do “fogo bem grandão”, Maycon? – ela indagou. – É... – o menino respondeu com olhar de quem recebe uma revelação divina. – Fogo bem grandão! Fogo bem grandão! – Bianca repetia em forte coro, ao que os outros se juntaram num empolgado refrão. E enquanto saíam, felizes, à procura da última parte do foguete, Dona Ritinha, triste, iniciava seu trajeto de volta, ainda desempregada e sem fazer a menor ideia da surpresa que os filhos haviam lhe planejado. *** A primeira coisa perto de “fogo bem grandão” que as crianças conseguiram foi uma

singela chama de palito de fósforo. – Isso é nada de nada – indignou-se Katelyn. – Não serve. – E agora? – questionou Bianca. – Vamos procurar outra coisa – respondeu Katelyn. – Mas, tem que ser grande. Maycon, com um leve sorriso e os olhos arregalados, virou-se para as irmãs. – O fogão da mãe! – falou, empolgado. Os três correram até a cozinha e se juntaram para arrastar o fogão. Logo perceberam que a tarefa era impossível para eles, não tinham a força necessária. – E agora? – era Bianca, novamente. – E agora? E agora? – imitou-a Katelyn, enquanto olhava ao seu redor. – Já sei! A gente leva só o botijão de gás! – exclamou, eufórica. – Vai ser a turbina do foguete! – Turbina, turbina! – Maycon e Bianca iniciaram um novo coro. Fazendo grande esforço, Katelyn tentava soltar a chave da mangueira do gás. – Está muita dura – reclamou aos irmãos. Pouco depois, teve uma ideia. Foi até a pia, pegou uma faca e, com ela, cortou a mangueira.

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– Agora sim! – falou e sorriu, satisfeita. Assim que o corte foi feito, pôde-se ouvir um pequeno e constante chiado sendo emitido pelo botijão. Além disso, um cheiro estranho começou a infestar o ar. – Turbina fedida! – reclamou Bianca, fazendo uma careta. Não sem dificuldades, os três arrastaram a “turbina” até o foguete. O odor desagradável tornava a tarefa mais penosa, mas a vontade de ver a mãe contente era maior. Encaixaram o botijão na parte traseira da nave espacial. O resto de mangueira pendia como um pavio, pronto para ser aceso. O cheiro forte inundava o ar quando as crianças ouviram o barulho do portão. As três começavam a se sentir mal e Bianca deixava escapar uma tosse seca. – Bia, a mãe chegou – aler-

tou Katelyn. – Fica quieta agora pra gente fazer surpresa. E, Maycon, entra logo no foguete – começou a sussurrar. – Quando a mãe abrir a porta, eu acendo o fogo da turbina, falo pra ela subir rapidinho na nave e a gente vai pra lua! Katelyn segurou a caixa de fósforos na expectativa, enquanto Dona Ritinha pegava a chave. A menina fez um sinal para os irmãos abafarem o que não sabia se era tosse ou risos. Dona Ritinha abriu a porta e, espantada, percebeu o forte odor que dominava o lugar. – Meu Deus, que cheiro de... A fala não foi terminada. Katelyn riscou o fósforo e acendeu a turbina do “FOGETE PA LUA”. A decolagem foi tão rápida que quase não houve tempo de Dona Ritinha subir à nave. A família elevou-se pelo céu deixando como rastro uma bela

cauda de fogo. A explosão de lançamento foi de tal maneira intensa que o barulho pôde ser ouvido a quilômetros de distância. O barraco foi totalmente dizimado, levando consigo várias moradias vizinhas, tomadas por um violento incêndio. Dona Ritinha ficou extremamente feliz com a surpresa planejada pelos filhos. Via sua casa destruída, mas não se importava – estar na lua compensava tudo. Os três irmãos alegraram-se ao perceber o sucesso do plano. Chegando ao destino, a mulher comentou que a viagem tinha lhe dado sede. As crianças entreolharam-se e sorriram. Maycon mostrou a antiga torneira que se lembraram de levar. Satisfeita, Dona Ritinha beijou os filhos e decidiu que não mais sairiam dali. A lua era o lugar deles.

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Contos

Caio Rudá

um copo de café
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Quando eu contava uns 23 anos, constatei que de brasileiro eu só tinha a nacionalidade impressa nos documentos. Os fatos sempre estiveram ao alcance da minha percepção, claros como água que brota na nascente: averso a praia, caipirinha e a todos os outros aspectos que formam o arquétipo tupiniquim. Contudo, foi com um elemento não muito denunciador que caí em pura epifania. Perceber que, de todas as pessoas que conhecia, só eu nunca havia tomado um copo de café foi uma experiência iluminadora. Nenhum modo de preparo ou derivado do produto genuinamente brasileiro me apetecia; nem puro, com leite, expresso, cappuccino, forte, fraco, amargo, com açúcar, com creme, nem balas, sorvete ou bolo. Absolutamente nada. Não pude evitar certo sentimento de exclusão, que estava mais para não-adequação – um estrangeiro dentro do meu próprio país. Precisava descobrir, então, minha verdadeira pátria, a mãe zelosa que abraça ao filho carente de cuidados e com a qual eu plenamente me identificasse, vivendo em exemplar harmonia, bem como deve ser entre um aborígene e sua terra nativa. Engraçado como as bebidas são perfeitos mecanismos de revelação. Análoga à comprovação de não-brasilidade foi a descoberta de minha pátria de espírito. Minha ontogênese certamente gritava alto evidenciando meus gostos pelo que tinha origem naquela próspera ilha européia, mas eu parecia

não ouvir. Preparando-me para uma noite em vigília, sentado no escritório e absorto no vapor que emergia do conteúdo da xícara, veio-me o cair da ficha. Mais do que um simples passatempo de quem trabalha pensando, o chá era um item que simbolizava uma adolescência ouvindo rock and roll britânico e rindo do humor inigualável dos Monty Python. Dali em diante, inglês convicto. O que me fez compreender, aliás, o porquê de meu ódio ao irritante sotaque paulista, com seus erres retroflexos. A pronúncia britânica do inglês era mais leve sem o peso dos erres. Literalmente num futuro do pretérito, mudei-me para a Inglaterra, quando abriram lá duas vagas, na empresa em que trabalhava. Morar na terra da rainha não teve como causa única a recente constatação, em relação linear. Na verdade, esse sempre fora um sonho desde meados da adolescência, reforçado pelos acontecimentos últimos. Enfim na Inglaterra, era como se eu tivesse aportado em lugar seguro, após longa viagem por terras estranhas. Desse adjetivo, aliás, deve vir o substantivo “estrangeiro”, aquele que vem de terras estranhas. Mas isso não passa de mera especulação etimológica. De todo modo, apesar das iniciais dificuldades com o idioma, pois tinha uma fluência que deixava a desejar em pequenos pontos, minha adaptação corria bem. Não tive problemas com a imigração por ter já o passaporte português, o que ainda me poupou de muita

burocracia e eventuais constrangimentos. Quanto aos costumes, esses eu tirei de letra. Não senti falta da comida nem da hospitalidade do brasileiro, que para mim nunca foi nada além de assanhamento ou, quem sabe, um exemplo de sublimação a ser estudado pelos psicanalistas. Também o frio não me assustou muito, e dava graças a Deus por não enfrentar aquele calor insuportável do verão dos trópicos. Passou-se um ano e por fim estava inteiramente estabelecido, com moradia própria, um modesto círculo de amizades e pequenas diversões. Aconteceu que, certo dia, recém-saído do expediente, entrei num pub para beber algo e descontar na bola de sinuca a raiva que estava de um superior meu no trabalho. Sentei e mandei vir uma cerveja, de preferência da mais vagabunda para me deixar logo embriagado e talvez esquecer a tarde. Por total azar, que mais tarde eu entenderia por sorte, o desgraçado estava lá também, a poucos metros, tomando qualquer coisa que não pude precisar e assistindo a um jogo de futebol tampouco interessante. Não sei se pelo efeito de três garrafas já consumidas ou sóbria, embora irracional, vontade de vingar-me, pensei seriamente em levantar e encher a cara da criatura de porrada ou, nem eu sabia que era capaz de idéias tão perversas, cortar-lhe o pescoço com um caco de vidro proveniente de uma garrafada prévia. Tive os pensamentos inter-

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rompidos por gritos raivosos ou apenas aliviosos de gol. Aproveitei a confusão que se instalara naquele recinto acanhado e tomei a direção da saída, mas antes ouvi uma voz que me chamava. Óbvio, não podia ser alguém além de mim. Virei, num gesto maquinal. Ele acenou, gritou meu nome novamente e finalizou, “venha cá”. Fui ao seu encontro já sem a vontade de rasgar-lhe a goela. Cumprimentamo-nos e ele disse que não me esperava por lá, que era cliente há tempos e nunca me vira. “Entrei por acaso”, foi o que consegui responder. Em seguida, como se entendesse tal acaso pediu-me desculpas pelo que havia dito mais cedo. Explicou-me que tinha de mostrar sua autoridade ante os demais subordinados, afinal era o chefe, que se não se impusesse o escritório viraria uma bagunça. “Nada funciona sem hierarquia bem definida”, encerrou. Algo em seu modo de falar ou na expressão me fez crer que ele estava sendo sincero no que dizia. Tudo aquilo me soou não tanto como um pedido de desculpas por arrependimento, mas um meio de ilustrar como as coisas funcionam na empresa. Com a naturalidade com que me punha tudo isso, percebi que era intrínseca ao bom inglês a aparente rispidez nas relações de trabalho. Aceitei, enfim tinha sido um erro meu. Entendi minha raiva mais como uma defesa contra admitir que no Brasil tivesse sido diferente. Não havia motivo, portanto, para fazê-lo sangrar até a

morte. A conversa fluiu como se fossemos velhos amigos que se reencontravam após anos de separação. Falei do Brasil e ele demonstrou interesse, o que me fez gastar mais tempo do que poderia imaginar narrando o dia-a-dia de um típico carioca. Ficou surpreso quando disse que não ia muito à praia e perguntou, então, pelas garotas. “The girls”, com um gesto de volúpia na face, e acrescentou dizendo que eram as mais bonitas do planeta. Discordei, alegando sonhar em casar-me com uma inglesa loira ou morena, “whatever”, mas que tivesse os olhos azuis. Ele brincou: “você me importa uma brasileira bem gostosa e eu lhe apresento uma autêntica inglesa. Nosso pacto”. Concordei e assim encerramos nosso papo, ele deixando uma generosa gorjeta para o atendente e saindo com o terno de tweed num dos ombros. Duas semanas depois voltamos a nos encontrar, dessa vez num bar em Covent Garden, ele acompanhado de uma belíssima loira cujos seios, mesmo cobertos por um suéter preto, esbanjavam sensualidade. Eu pensava comigo, “lucky bastard”. Fomos apresentados e então soube que não se tratava de sua namorada. Ao sentarmos todos na mesa ele disse: “nosso pacto”. Lembrei daquele dia no pub. Eu achara que ele estivesse brincando. Mais tarde, enquanto a loira tinha ido ao banheiro expliquei-lhe as dificuldades de “importar um brasileira”. Sua resposta foi simples: “sou casado, você não.”. Entendi que não havia

obrigações de minha parte em nosso pacto, mas ele quisera fazer-me um favor. Com a loira apontando à porta do banheiro feminino, encerramos o assunto e quando ela sentou-se de volta estávamos fingindo tratar de trabalho. E assim a conversa tomou os rumos que deveria, a loira rindo a cada deixa minha. Já ensaiava perguntar a meu amigo se ela era alguma espécie de acompanhante, caso ela se retirasse da mesa novamente. Mas, ao contrário, permaneceu lá, cada vez mais interessada na conversação. Passado um par de horas, ele levantou-se, de súbito, e despediu-se de nós. Com o celular numa das mãos, nos acenou fazendo cara de “que pena”, como se dissesse “aconteceu um imprevisto” ou algo semelhante. Perguntou-me ainda antes de sair se eu podia levar a loira em casa depois. Respondi que sim, sem na hora importar-me como. Continuamos a conversar, intermitentemente sorvendo algum líquido. Com a saída de meu companheiro, ares mais íntimos se instalaram naquela mesa e nossas considerações a três sobre assuntos triviais deram lugar a perguntas mais pessoais. Confirmei que, de alguma maneira, ela estava interessada em mim. Foi com nenhuma surpresa que ela recebeu meu “sou brasileiro”. Confessou-me: “seu sotaque é uma graça”, o que explicou aquele sorriso constante durante minhas falas. Ademais, acresceu: “sou apaixonada pelo Brasil, o calor, as

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comidas, os sucos, o carnaval e especialmente os homens”. Após uma frase como essa, não poderíamos parar em outro lugar que não em meu pequeno apartamento, o palco de minha primeira noite de amor européia. A partir dali, só pude agradecer ao meu companheiro. E só de pensar que eu quisera lhe dar umas boas bofetadas... De todo modo, nos meses que se seguiram eu e a loira namoramos até que um ano e meio desde aquela noite em Covent Garden resolvemos nos casar, apesar dos conselhos. As pessoas não aceitavam que eu pudesse me atrelar até o fim da vida a uma mulher que tinha levado para a cama logo no primeiro encontro. Cheguei a discutir com meu companheiro, o mesmo que havia me apresentado minha então noiva. Não dei ouvidos a ninguém e a nada que não ao desejo cego de acordar sempre ao lado de uma inglesa bela e sensual. Foi uma cerimônia simples, e saímos em lua-demel para o Brasil, pedido dela. Eu retornava após a partida nada nostálgica. Ela ia em sua segunda vez. Na anterior, havia experimentado apenas o Rio. Sua real cobiça era Salvador. Chegamos num domingo e fomos nos hospedar num hotel na orla. Durante uma semana, visitamos praticamente todas as praias entre a Barra e uma Itapuã que nem de longe lembrava a de Vinícius. À noite, nosso itinerário compreendia alguns dos melhores bares e restaurantes do boêmio Rio Vermelho. Na semana seguinte interromperíamos a parte ro-

mântica do passeio, e iríamos conhecer os principais pontos turísticos da cidade, acompanhados por uns velhos amigos. Foi no sábado seguinte que encontramos o vizinho do 201 dos tempos de Brasil. Ele se mudara para o condomínio apenas seis meses antes de eu partir, e nossa convivência se limitava a preguiçosos cumprimentos. Admito, custou-me reconhecê-lo. Tal foi que ele quem primeiro acenou naquele final de tarde no Museu de Arte Moderna, sediado no Solar do Unhão. Devolvi com um sorriso desconfiado, ainda sem saber exatamente de quem se tratava. Somente quando ele aproximou-se e desferiu um sonoro “olá, vizinho” soube quem era a figura. Apresentei o vizinho à loira e logo estávamos os três conversando. Seu inglês era ótimo. Contou, em seguida, que passara dois anos no exterior. Tinha ido por conta própria trabalhar, talvez num daqueles empregos para estrangeiros de limpador ou cozinheiro. Não ousei perguntar. Ao retornar, comprou uma câmera profissional. Fotógrafo: essa era a profissão dele, o que só vim descobrir nessa conversa – nossa primeira, aliás. Engraçado, era como se eu estivesse conversando com uma outra pessoa e não com o vizinho pouco simpático de anos atrás. Certamente um biênio de Canadá lhe fizera bem. A noite veio e ainda debatíamos sobre artes. O vizinho era modesto. Demorou até confessar que eram suas as fotografias em exposição no Solar. Não lembro se me des-

culpei pela gafe. Só lembro de estar encantado a cada moldura. No estacionamento do Museu, que projetava-se para o mar, músicos ofereciam seus acordes e refinada técnica aos orixás. Terminamos o encontro ao som dos instrumentos da jazz jam session, sob o céu negro e pontilhado de estrelas, e com a bela vista noturna da Baía de Todos os Santos. Era segunda-feira de manhã quando deixei o hotel para ir à casa de câmbio e resolver alguns assuntos urgentes do trabalho. Na ocasião, disse à loira que provavelmente só retornaria à tarde, que ela almoçasse lá pelo hotel. Tomei um táxi e parti rumo ao Pelourinho. É fato, havia outros locais de troca, mas queria aproveitar para dar uma breve volta pelas ruas do centro histórico soteropolitano. Não sei em que parte do percurso, mas vinte minutos após ter partido, ocorreu-me que tinha esquecido as malditas libras para trocar. Pedi ao taxista que retornasse. Ele, feliz por ver crescerem seus lucros, atendeu e em mais vinte minutos estava de volta ao hotel. Subi ao apartamento apressadamente, entrei e, ainda na sala, senti o ar tenso. Ao avançar até o quarto, ouvi gritos femininos e então recebi uma bordoada numa das têmporas. Antes de cair desacordado, uma vaga lembrança da loira semi-nua entre lençóis e um vulto conhecido escapando pela porta que eu deixara aberta.

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Contos

o Natal de Josefa
Joaquim Bispo

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Nesse ano, Josefa meteu-se num autocarro Expresso e foi passar o Natal à terra – uma aldeia do interior beirão. Preferiu não levar o carro e ir tranquilamente sentada a ver a paisagem e a recordar os tempos de faculdade, quando vinha à terra todos os quinze dias. Era o primeiro Natal que ia passar sozinha. O marido morrera havia cinco anos e este ano o filho casara e fora passar a quadra com os sogros. Sentiase um pouco triste e resolvera aceitar esse estado de espírito, interiorizando-o e cultivando-o com recordações dos tempos felizes. Por isso viera passar o Natal à terra. A casa que ali mantinha, e aonde ia umas três ou quatro vezes por ano, pareceu-lhe mais silenciosa que habitualmente. Arejou-a, varreu-a e deu-lhe uma arrumadela. Cada móvel, cada divisão lhe traziam à memória um episódio conjugal, uma piada do filho. Fez um chá, comeu umas tostas com compota e deitou-se. A cama parecia molhada, de tão fria. Embrulhou os pés num xaile velho e demorou ainda um bom bocado a adormecer. O dia seguinte, véspera de Natal, amanheceu escuro e frio. Josefa foi à mercearia comprar leite, pão e umas coisas para o jantar. O almoço foi frugal e saiu a seguir, para tomar um descafeinado. Não encontrou ninguém conhecido, só gente nova. Em tempos, não dava um passo sem encontrar alguém de família. Voltou para casa, sem saber
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como ocupar o tempo. Se calhar, não tinha sido boa ideia vir este ano à terra! Deambulou pelas divisões silenciosas, a olhar as fotografias cinzentas: aqui jovem, com o marido, no casamento dum primo; ali sorridente com «os seus homens» numa visita a Cáceres; mais além o pai aprumado numa farda do tempo da tropa. Lá fora, começara a cair uma chuvinha miúda. Josefa ficou um bocado a olhar a rua vazia e a ver as gotículas de chuva a formarem pequenos veios na vidraça. Assim eram os seus dias a escorrerem, não sabia para onde. Cozeu umas batatas com grelos e uma posta de corvina. Há dez, quinze anos, teria feito também uma boa sopa de feijão com hortaliça, uma perna de borrego e umas rabanadas. Agora, tudo lhe fazia mal. Comeu o peixe com pouca vontade. Não lhe sabia a nada. Deixou metade da posta. Acendeu o lume na lareira da cozinha e sentou-se a olhar as línguas das chamas que consumiam mansamente os cavacos com que as ia alimentando. Assim a sua vida se ia consumindo, placidamente, sem dramas, sem objectivo. Aguentou-se por ali a cabecear, a fazer horas para a missa do galo. Junto ao adro, o cheiro a madeira queimada, tão familiar, fêla lembrar-se dos antigos natais, quando ir conviver e aquecer-se junto à fogueira de Natal era uma festa. Passou pelo bando de

rapazes que, indiferentes à chuva miudinha e gelada, mantinham uma algazarra regada a vinho, junto aos madeiros em chamas, entrou na igreja logo reconhecida, e sentou-se junto à coxia. Lá estavam, parados no tempo, os santos da sua meninice – Santo António, a Sra. das Dores, S. Sebastião, o Coração de Jesus. Durante toda a missa foi recordando alguns episódios ligados a esta igreja da sua terra – o crisma, o casamento da tia Matilde, o baptizado do primeiro sobrinho, um dos primeiros afogueamentos quando reparou que um rapaz mais velho olhava para ela de uma forma especial. Quando o celebrante levantou a hóstia, Josefa sentiu-se muito desamparada. Intimamente implorou: – Sejas tu quem fores, ajudame; ajuda-me, por favor! A missa acabou. Josefa ficou ainda um pouco, ajoelhada, em recolhimento. Aproveitando a porta aberta pelas pessoas que iam saindo, entrou na igreja um gatinho ainda pequeno, molhado e enregelado, a abrigar-se do tempo hostil. Era malhado de preto e branco, parecia confuso e miava debilmente, entre o receio e o queixume. Foi caminhando pela coxia central, enquanto o seu miado se tornava mais suplicante, sobressaindo por cima da vozearia lá de fora. Josefa ouviu-o, mas, muito imersa no seu espírito, demorou a surpreender-se. Quando olhou, o gatinho parara a miar e a olhar para ela.

Josefa ficou paralisada a olhar para aqueles olhos azulados e vítreos, como se lhe custasse a perceber o que via. Depois, pegando no gatinho, aconchegou-o contra o peito, por dentro do sobretudo, e desatou a soluçar convulsivamente. As lágrimas rebentaram incontroladamente, como se estivessem há muito represadas. Pouco depois, o gatinho, confortado pelo calor do corpo de Josefa, começou a ronronar. Josefa olhou em volta. Cristo crucificado estava desfalecido no seu martírio, a Sra. das Dores e S. Sebastião olhavam os céus. Deu com os olhos nos olhos do Menino Jesus, que estava ao colo de S. António e sorria. Pareceulhe que afastou o olhar, quando ela o fixou, e que a olhava, se ela desviava o olhar. Entretanto, alguém tocou no braço de Josefa: – Então vizinha, deixe lá isso, que hoje já é dia de Natal. Venha comigo que eu também vou para os seus lados. Lá foi Josefa, sem ouvir a conversa da vizinha, com o gatinho junto ao peito, tão apaziguada como nos dias felizes, tão realizada como quando regressara a casa com o seu filho acabado de nascer, ao colo.

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Contos

Wellington Souza

Açúcar, por favor
“Nossa! achei que eu estava fodido. Mas ver esta tua chapinha tirou um pouco do meu pesar em ter esquecido o guarda-chuva em casa.” Esboçou ficar brava, mas queria sorrir. A expressão que resultou foi de quaseindignação. “Sorte sua seu cabelo ser à prova d’água”, respondeu. “Está certo, empatou: um a um. Mas está bem incômodo aqui, vamos ali ao Caffee desempatar isso. Deixe eu te pagar um café, vai.” “É claro que não.” “Não deveria aceitar, não. Mas já que tudo está uma merda, vamos lá.” “É, tudo estava uma merda mesmo.” Fomos. Sentamos. Deixei que ela pedisse primeiro, depois pedi apenas um expresso e frisei para não adoçarem. “Sem açúcar?”, perguntou depois que o garçom acabara de anotar o pedido e se foi. Sinal de discrição, notei. “É. Depois que a diabetes levou meu pai, não me dou mais com açucares...” “Ah, tem medo de ter isso também...” “Não. Percebi que o açúcar nada mais é que uma
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Ela para ao meu lado, procurando abrigo contra a chuva debaixo de um toldo de loja.

“Tudo bem, então, cada um paga o seu.”

maquiagem para disfarçar o amargo que a existência é. Por isso, nada mais de açucares. Se eu viesse aqui e começasse a falar o quanto eu amo MPB e a voz do Toquinho me fascina, estaria adoçando minha natureza taciturna. E você, certamente, preferiria. Mas cansa viver na casa de doce. Além do mais, quando teu dedo estiver gordinho, a bruxa vem devorar-te.” “E é possível suportar tudo sem açúcar. Não sei se gostaria de escutar esse papinho, não gosto de MPB, acho todos uns plagiadores. A começar pelo Chico: as letras dele são todas francesas, pode ver. Aprendeu a fazer poesia ouvindo isso com a família, depois aprendeu a dedilhar... daí

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copiar um pouco de samba e misturar a isso e pronto, virou gênio. Gosto de música instrumental, Baden Powell... mas ninguém escuta isso hoje em dia...” “Realmente, ninguém.” “É dos namorados ali do canto”, um garçom grita para o outro. Chega nosso pedido. Café com chantilly e biscoitos para ela e o meu já descrevi. Antes de ele partir, ela lhe informa que não somos namorados e sorri para mim, procurando aprovação na informação. Sorvo. “Realmente, ninguém mais ouve música instrumental desse quilate. Mas você conversa sobre isso com todos que conhece?” “Não. Minha mãe me acha meio estranha. Escuto sozinha no meu quarto, e ela não gosta de ficar sozinha nem de ficar escutando isso e pede para eu ficar na sala vendo tevê com ela. Moramos só nós duas num apê, então levo meu emepetrês e um livro e ficamos assim. Ela não gosta, mas é melhor que a solidão total. Gosto de ler também os clássicos que compro em sebos. Estou te falando porque sei que não me achará estranha. Sei lá.” “Por que você falou para o garçon que não somos namorados, se não sabemos ainda? Vai que já somos mas estamos por descobrir.” “Ah, para. Sei lá, achei por bem esclarecer.” “Então, quer ser minha namorada?”

“Já estou namorando...” “E ele sabe disso que você me falou? da companhia à velha mãe e do Baden.” “Não.” “Ah... Você se adoça para ele então. É normal. Anormal é ser assim, como estamos. Não quer viver sem açúcar?” “E dá certo? Quer dizer, não sei. Sinto como já te conhecesse há muito tempo. Quase que me lembro de nossa infância compartilhada no escorregador, no trenzinho. Ou nos olhando e sorrindo e gargalhando na gangorra do parquinho.” “Também sinto isso. Acho que é porque estamos nus. E quanto à pergunta ‘se daria certo’ também não sei. Já tentei isso por duas vezes e nada. Mas prefiro ir tentando a viver disfarçando o gosto... mais cedo ou mais tarde temos que sentilo verdadeiro, sem maquiagem sem nada. Daí sim será amargo e intragável. Agora estamos apenas sendo nós mesmos e mais nada. Nem de nomes precisamos, nem de nada que é coercitivo. A única coisa que precisamos é tentarmos.” “Nem percebi que não sei teu nome ainda... nem te disse o meu...” “Quer me namorar?” “Já não estamos?” e pega na minha mão. “Agora tenho que voltar para o escritório, já passou meu horário de almoço. Quer almoçar em casa dia desses? Faço lasanha de espinafre, gosta?”

“Nunca provei.” “Olha Curumim, meu número é esse e minha me chama por esse nome. Ligue-me hoje às oito horas, está bem! O que você vai fazer agora?” “Está marcado, também gosta de ficar no telefone por horas, é? Agora vou até o meu apartamento e escrever como conheci a mulher... sou escritor, escrevo para colunas e sites de revistas que poucos lêem.” “Está bem, terá muito tempo para me contar!” Vamos até a porta, a chuva apertou mais. Carros andam de farol aceso. “Engraçado como estava tudo uma merda e agora não está mais.” Nos beijamos. Beijamos mais. Compramos um guarda-chuva. Beijamos. “Agora vou mesmo, não tente me beijar novamente senão não saio daqui.” Beijinhos de peixe. “Vá pela sombra, Curuminha.” “Às oito. Não esqueça”, grita e é guardada pela chuva. “Oito” grito e pisco o olho para ninguém. Vai. Eu entro, peço uma caneta e arranco um guardanapo. Nada me vem, o espaço que antes achava infinito está todo dela. “Garçom, outro café, por favor.” “Sem açúcar de novo?” “Não. Normal. Este ultimo estava horrível.”

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De longe, sem se O homem respondeu: virar, o lugar onde

a boa Literatura
– Kane.

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ficina
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A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como uma das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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o bilhete literário
Ju Blasina

Contos

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O lugar onde
Na parede, o bilhete - congelado no tempo. Ela lembra o momento, o exato momento em que o viu – ninguém esquece o começo do fim. Algo assim, não passa em branco, até as memórias tem cor. Nem mesmo o bilhete era branco – post it amarelo - impossível ignorálo. Ela bem que tentou, por 5 minutos ou 50 anos permaneceu ali, em pé, olhando fixamente, sem reação... O amarelo, sinalizador de agonia, prendeu toda a sua atenção, mas afinal, essa era a intenção. Ler ou não ler? Eis a questão. Post it amarelo escrito a mão. Muita cor pra pouco papel. Muito papel pra poucas palavras. Muitas palavras pra pouco sentido. Muito sentido pra pouca coragem. Muita coragem pra ler – o tal bilhete: Ela leu uma única vez e as palavras ecoaram em sua cabeça – zunido, tontura, angustia, amargura. Com certeza o bilhete mais literário que alguém já produziu!Um paradoxo: algo assim, tão banal causar estranhamento total - jamais antes existiu! Lagrimas rolavam de seus olhos secos. Ela permanecia imóvel, exceto pelos movimentos autônomos de seu corpo – o tremer, respirar, o doer, repensar. Dias se passaram até que ela à rua saiu. Conduzida não gentilmente por homens de branco. Foi posta num casaco branco, num carro branco. A mente em branco exceto pelo bilhete amarelo. Era tarde, muito tarde quando ela enfim falou – mexeu os lábios emudecidos pelo tempo, nem lembrava como fazê-lo; a voz muito fraca. Ninguém mais lembrava o fato, ninguém ouviu ou entendeu bem o porquê, mas foi ao ver um cigarro aceso, a chama amarela caindo em brasa, que ela enfim murmurou baixinho: “...mas ele nem fumava...”

a boa Literatura
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Contos

os docinhos do Vercidino
Volmar Camargo Junior

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Ermenegilda de Castro foi a mulher mais bonita nascida na Vila da Pereira. Quando tinha seus quinze, dezesseis anos, muitos rapazes, filhos de estancieiros de toda parte, vinham fazer-lhe a côrte e oferecer mundos e fundos. O pai, Coronel Tibúrcio de Castro, era muito exigente, e sabia o quanto valia a preciosidade que tinha em casa. Então, quando aparecia um filho de fazendeiro rico, pensava que o próximo podia ser ainda mais. Tudo em nome do bem-estar de sua princesa. A Ermenegilda, ou Menê, que era como todos a chamavam, longe de se incomodar com as exigências do pai, ficava muito feliz de ter seu casamento adiado indefinidamente. Na época, só tinha olhos para Vercidino, o moço negro que trabalhava de auxiliar na padaria. Naquele tempo, eram poucas as pessoas que tinham instrução. A Menê estava se preparando para ser normalista no colégio das freiras em Cruz Alta. Com o pretexto de exercitar o ofício de professora, pediu ao pai se poderia alfabetizar algumas pessoas dali da Vila mesmo. Entre os alunos, deu o nome de Vercidino da Conceição, o padeirinho. Começaram as aulas na varanda da casa do Coronel. O padeiro, não sabendo como agradar a professorihttp://www.flickr.com/photos/outofthebox27/2255722055/sizes/l/

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nha, deslumbrado com sua a beleza, e ainda mais com a atenção que esta lhe dispensava, e mais do que tudo com os olhares lânguidos e os sorrisos de canto de boca e aquelas arrumadinhas da mecha de cabelo atrás da orelha que ela fazia, trazia para a família os pães fresquinhos feitos por ele mesmo. E para a fessora, um doce da confeitaria. Sem ter pai, nem mãe, nem maiores gastos consigo, Vercidino empenhava o salário inteiro com o patrão, levando agrados ao Coronel e à Menê. Em menos de um ano, as visitas dos herdeiros de estância foram diminuindo até cessarem de vez. Não porque a moça estivesse a perder seus encantos, que aliás só aumentavam com a boa administração do Coronel, já que, mais do que os belos olhos da moça, o que o alimentava o apetite dos pretendentes eram os tantos milhares de cabeças de gado do velho, mas porque as repetidas recusas por parte da moça tornaram-se uma lenda local. A única coisa que Menê não recusava eram os regalos de seu aluno preferido. O Vercidino aprendeu a ler e a fazer cálculos, e nesse mesmo tempo, já sabia ler tão bem, em silêncio e em voz alta, quanto qual-

quer pessoa estudada. Os agrados à professorinha, à medida que ele se tornava mais e mais empenhado em fazê-la feliz, tanto mais ela os aceitasse, mais finos e deliciosos eram os quitutes que ele preparava com as próprias mãos. Acabou por ele próprio juntar dinheiro o suficiente e encomendar da Capital um livro de receitas de doces portugueses. À vila não restava dúvida: era o mais puro exemplo da falta de amor próprio da herdeira, da falta de cuidados do pai que permitia a uma moça tão linda e rica andar com um pobre-coitado como o padeirinho. Contudo, chegou um ponto em que a Menê não conseguia mais mover-se sem ajuda: tornara-se uma jovem de lindos olhos verdes, de sedosos cabelos louros cacheados, e pesando quase duzentos quilos. Foi então que, num certo dia, sem que ninguém percebesse, a moça reclamou de dores muito fortes no ventre. Chamaram o médico de Cruz Alta, a benzedeira, o padre, e ninguém conseguia fazer com que ela parasse de sentir dores. Até que, para a surpresa de todos, a cama onde ela estava foi inundada por uma água que, além de Menê, que era instruída, ninguém soube de onde vinha.

Já havia até um princípio de rebuliço entre as boassenhoras da cidade, dizendo que o padeirinho preparara algum doce estragado, ou até coisa pior: que envenenara a coitadinha. Mas os mexericos só terminaram (mas que virou assunto para quase um século depois, que é o que estamos fazendo agora, nesse exato momento) quando, de dentro do quarto da moça enferma, ouviu-se um choro estridente e forte como o de um touro, o choro do mulatinho de quase cinco quilos que a filha do Coronel acabara de dar à luz. Vercidino, coitado, foi o único que não pode aproveitar a festa que o Coronel mandou preparar para receber a Vila toda. Apavorado, pensando que sua amada professorinha morria por causa de seus docinhos, correu para o mato com uma corda e só não se enforcou porque ouviu alguém chamando: “Ô padeirinho! Anda, rapaz! Teu filho nasceu!”

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O lugar onde

a boa Literatura
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Contos

14 de Nisan, ano 3790 do calendário hebreu Jerusalém, Judéia
Sim! Agora eu percebo claramente! É agora que os céus se abrem e os anjos descem para me suspender? Onde? Onde está o meu refúgio e a minha salvação, meu Pai? E as promessas com as quais Você me convenceu? Aguda sensação de dor por todo meu corpo. Meus pulsos doem, meus pés também. Alguém está puxando o meu polegar do pé. Um cão. Sou o repasto das aves de rapina e dos cães selvagens. Prometeus crucificado. Em breve, o abutre de Deus pousará sobre mim para devorar meu fígado. — Saia daqui, seu animal repugnante! — o soldado romano repele com sua lança o animal — Desculpai-me, vossa majestade. Estes cães não mais vos importunarão!

Henry Alfred Bugalho

O Rei dos Judeus
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Sim! Vocês podem zombar e rir de mim. Eu sou o bode expiatório; vocês, romanos, são incapazes de compreender o destino dos hebreus. Nós nascemos para o cativeiro e para a morte. Nossa história é marcada pelo sangue dos nossos ancestrais; é na morte que nós renascemos e buscamos forças para persistir. Vocês estão certos, sou um rei, mas não deste mundo. Abaixo, estão Maria, João, Salomé e minha mãe. O meu Reino não é daqui, pois, se fosse, os meus seguidores teriam morrido por mim. Ó Jerusalém, que mata os seus profetas! Ó cidade maldita, assentada sobre a nação mais infeliz do mundo. Serva ignóbil do invasor; verme de Sião; de vós exala o odor repugnante da carnificina; de vós exala o enxofre da corrupção. Vós, que foste a morada do rei, convertestes-vos nesta imundície que repele o olhar. Quisera eu estar mil vezes voltado para o monte Gerizin, local santo dos samaritanos, ou para Roma, a capital fétida dos pagãos, a morrer tendo-vos como panorama. É em vós que habita os corações endurecidos dos fariseus, a ganância dos saduceus, a intolerância e a soberba dos escribas; é em vós que reside toda a sorte de bandidos e assassinos; bêbedos e prostitutas. Ó Jerusalém, ó cidadela pútrida. Foram muitos os dias que vaguei por estas ruas nojentas, rodeado por traidores e sacerdotes vorazes pela minha execução. Não encon-

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trei nenhum ouvido cativo, nenhuma alma disposta a seguir-me até o mais profundo dos abismos. Aqueles em quem depositei minha confiança fugiram. Melhor para eles! Não estão agora dependurados por cravos como eu! Como dói o peso do abandono, mais do que o peso do meu próprio corpo que devo suspender agora para conseguir respirar. Eu cria que minhas palavras eram como ar para eles, mas não! Meus ensinamentos eram como manjares, que num dia se come e dele se farta, noutro, porém, se na ausência deste quitute, apenas o pão basta. Só que eu não posso deixar de respirar o Reino, pois ele sou eu. Renegar o que eu disse seria renegar a mim mesmo. Na verdade, a minha atual condição é apenas a devida conclusão da minha tortuosa missão. Meses, anos, passaram como raios que rasgam o céu em noite de tempestade. Ninguém vê de onde vêm, tampouco onde caem. Tão rápido quanto estes relâmpagos sou eu. Do dia em que saí da minha vila até o momento em que cheguei em Jerusalém não se passaram muitas estações. Vivi menos primaveras do que gostaria; no entanto, penei demais nesta vida amarga. Deus me cumulou de belas palavras e do poder para inculcar fé nas pessoas mais humildes e ignorantes. Elas me seguiram até o dia em que isto lhes foi conveniente. Morrer por uma crença nunca foi

nem jamais será agradável a pessoa alguma. Apenas profetas e loucos sacrificam-se por um causa. E eu, o que sou? Profeta ou louco? Olho para os soldados que me crucificaram e sinto compaixão por eles; amoos, não dissimuladamente, mas com toda a sinceridade do meu coração. Olho para os sacerdotes que me maldizem e os amo; olho para João e Salomé, caros amigos, para Maria, adorada esposa, para minha mãe, e o meu peito se incendeia. Talvez seja o ar que entra rasgando com dificuldade nos meus pulmões. (É tão difícil inspirar nesta posição!). Mas talvez seja a flama do amor, a qual eu vim alimentando durante toda a minha vida. No início, eu temia o seu poder, mas fui obrigado a reconhecê-la como a minha maior arma. Se eu odiasse, eu não estaria aqui. Se eu odiasse, eu não estaria morrendo, mas sim matando. Se eu quisesse mal àqueles que me querem mal, tudo seria diferente. Mas eu amo! Amo as pessoas e os animais, o sol, a lua, a terra e as espigas que crescem no campo. Amo esta cruz que me mata! Talvez eu a ame mais do que tudo, porque, para mim, ela é libertação! Fui iludido. Não há hostes celestiais para me receber no paraíso; não há som de trombetas. Não há nada. Um vazio me invade; um vazio mais forte que o amor. Estamos perto do fim. Acredito que, se alguém um dia se lembrar

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Contos
de mim, ele possa aprender uma lição: toda profecia, cedo ou tarde, se realiza. Eu sou o bode expiatório. Mas não purifico pecado algum, nem do meu povo, nem dos meus amigos, nem sequer os meus próprios. O único pecado que carrego sobre mim é o de falar a verdade. O maior de todos os pecados! Meu Pai me esqueceu. Desviou seus olhos de mim e me deixou para morrer. Não sou o único; companheiros meus agonizam ao meu redor. Não só eles, estes soldados, os sacerdotes, meus amigos e familiares, toda a Jerusalém, agonizam. O fim está próximo e não haverá clemência para nenhum deles. Deus se disfarçou de ovelha, mas Ele é um lobo! Ele me fez acreditar que nos amava, obrigou-me a mentir para o povo, mas somente agora eu percebo: Deus criou um mundo imperfeito para nos castigar. Somos crianças levadas sofrendo uma severa punição. Não há anjos nos protegendo porque não merecemos. Nosso destino é o sofrimento. No fim, há somente a morte. Triste constatação, a mais pesarosa de todas. Basta desta vida! Não posso suportar mais! — Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Extraído da obra “O Rei dos Judeus”

ÊXTASE

José Guilherme Vereza

Julio comprou um binóculo. Só para assistir mais de perto o que o edifício em frente ao seu oferecia de tipos e situações. A estréia do binóculo foi desastrosa. Viu uma senhora mudando a roupa e ao perceber que estava sendo observada, a velha abriu-se num exibicionismo agressivo e constrangedor. Julio atirou o binóculo pela janela. Jurou a si mesmo extirpar o vício que colocava remorso, vergonha e fraqueza, juntos, embolados na boca do estômago. O ato impulsivo de puro arrependimento fazia parte de um ritual, que tinha início em palpitações, excitações, ansiedade, clímax e desaguava, sempre, em ânsias indigestas. Aos engulhos, livrou-se da imagem da velha. Mas Julio não se emendava. Passada a ressaca, resgatou o binóculo entre as folhagens do jardim do prédio, sem um arranhão na lente. Sinal de que a qualquer momento, a função poderia recomeçar. Não com a velha na mira, mas com outras atrações. Descobriu um paraplégico que gostava de bolinar a enfermeira. Dessa vez não se tratava de alguém que avançara na idade, mas de um quase quarentão bonitão, condenado pelo destino a rodar pra lá e pra cá com sua cadeira num cubículo pouco mais digno que uma jaula no zoológico. A enfermeira aparecia toda terça-feira, para ajudar nas tarefas básicas,

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Era tudo tão evidente, que Julio percebia o ronronar da mulher sentada de cócoras em cada braço da cadeira, movimentando seu pélvis de cima para baixo bem no rosto do homem. Os braços potentes do paraplégico empurravam o corpo da enfermeira já totalmente nua para si, mãos enterradas nos glúteos, como que quisesse se deixar asfixiar e acabar para sempre aquela busca incessante pelo que não existia mais. Julio não se contentava em ver o que via. Imaginava. Classificou o paraplégico

Um dia, quem apareceu na porta de Julio? A enfermeira. -Com licença, o senhor não é o sujeito que fica de binóculo espiando o que eu faço com meu cliente Julio se encheu de coragem. - Sou eu mesmo. Aliás, era eu mesmo. Joguei o binóculo no lixo. Nada acontecia de novo naquelas janelas. - Pois é. Por causa disso, meu cliente está deprimido. Não se interessa mais por mim... - Lamento... mas espiar os outros não estava me fazendo bem.

- Na verdade, não sou enfermeira. Nem ele é meu cliente, nem paraplégico. Somos casados e alugamos de um amigo aquela quitinete, toda terça-feira. Julio silenciou. Nem uma pálpebra mexeu. A mulher se desculpou, agradeceu e saiu enxugando as lágrimas. Terça seguinte, Julio comprou outro binóculo. E diante das suas lentes, viu um casal exuberante, fazendo o amor dos amores, em cima de uma cadeira de rodas. Com direito a uma cúmplice piscada de olhos da enfermeira. Ou melhor, da mulher em êxtase.

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arrumação, refeições, banho e satisfações íntimas sempre indiscretas. Não cuidavam os amantes de preservar a privacidade e cometiam o sexo possível em grandes performances a poucos metros de lentes curiosas.

como um potencial suicida, que sonhava morrer gloriosamente tentando dar marcha ré à vida, retornando ao lugar de onde nunca deveria ter saído.

A mulher começou a soluçar.

Contos

Léo Borges

quando não se sabe ter
A tia Irene, que ia com pouca frequência às festas natalinas da família, não parava de choramingar por mais aquela injustiça. Em meio aos soluços, ela murmurava que era exatamente por causa desses aborrecimentos que sumia quando os festejos de fim-de-ano se aproximavam. Sem dinheiro para comprar presentes para todas as crianças, ela procurava passar a imagem de boa tia agraciando apenas o filho mais novo, ou o menos rebelde, do casal que estivesse sediando o encontro. Mas o espírito natalino não lhe sorria e a coisa nunca saía como esperava. Remoeu o Natal de 1995, quando deu uma cueca com a estampa do Batman para o filho da prima Zuleica. Antes mesmo da chegada do novo ano, entretanto, soube que a peça virara proteção de frio para o canário-da-terra na varanda. Zuleica tentou explicar o fato dizendo que por causa da disputa dos filhos para usá-la, achou melhor atribuir à cueca uma nova (e cômica) serventia, colocando-a no ponto mais alto da casa para que os meninos, temporariamente, a esquecessem. O argumento, porém, não convenceu tia Irene que, ao ver a figura estilizada do morcego adornando a gaiola do passarinho, ficou extremamente ressentida e desapareceu Reapareceu no fim de 2002, quando o filho da Eleonora, um garoto muito possessivo, ganhou da esforçada tia um conjunto de lápis de cor. Tia Irene acreditou que, com esse presente, agradaria a mais de uma criança, apostando num improvável gesto de altruísmo de Gustavo para com os irmãos e primos. Para sua tristeza, o garoto não apenas não dividiu como entrou numa áspera briga com os outros meninos que queriam emprestados os lápis. Por fim, um deles ainda escreveu na parede a infame frase: “a bruxa da tia Irene só deu presente pro Guto”. Tia Irene ficou horhttp://www.flickr.com/photos/82967513@N00/2632642514/sizes/l/

nos Natais seguintes.

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rorizada com o rabisco, mas raiva mesmo quem sentiu foi Eleonora. Nem tanto pelo teor do manuscrito, mas mais por ele ter sido feito na sala recém-pintada. Porém, nada suplantava o que vinha ocorrendo no Natal daquele ano. Romeu, o filho de Silmara, era um garoto pacato e jamais dera indícios de que criaria problemas com qualquer presente que recebesse. Imbuída de uma imensa vontade de reverter o quadro de insatisfações, tia Irene viu que ele era o menino ideal para encerrar, de uma vez, todos os contratempos. Sua certeza, contudo, mesmo amparada pelo belo histórico do garoto, conhecido pelo completo desapego material, falhara: curiosamente, esta falta de ambição de Romeu a feriu mais do que em todas as outras ocasiões. – Eu vi a meia que dei para o Romeu jogada embaixo da cama, babada, destruída... ele deu a meia para o cão! – queixava-se com a mãe do menino, que se aproximara do sofá onde a tia estava. – Em nenhum Natal eu vi tamanha falta de consideração. Perguntei nervosa: “porque você deu a meia para o Bilico?”. Falei para ele que o bicho havia levado a meia para debaixo da cama e que a destroçara por lá mesmo. E Romeu disse apenas: “a meia não é minha”. Ele ignorou o presente como quem ignora

o nada. Silmara lembrou-se de ter visto o cachorro andando pelo corredor com uma meia rasgada na boca, mas, para surpresa geral, quando ouviu o que havia ocorrido com seu filho, reagiu de modo totalmente contrário ao da desconsolada tia. – Ele está melhorando, ele está melhorando! Graças a Deus! – disse com as mãos erguidas e sentou-se ao lado da melancólica tia. A cena possuía contornos hilários, com a mãe comemorando uma aparente rejeição do filho e a tia invadida de tristeza justamente por isso. – Silmara, porque você debocha de mim? Porque você ri quando estou triste? Sempre quis agradar as crianças desta família e nunca consegui. Romeu era minha última esperança. Logo ele, um garoto educado, que não é egoísta como os outros. Por que isso? Silmara, tentando conter um pouco a sua alegria, viu que teria de dar alguma explicação àquela mulher que via nos presentes a única forma de conseguir carinho dos mais jovens. A mãe de Romeu pôs as mãos no ombro de Irene e, com paciência, abriu o coração: – Tia, eu vou te contar uma coisa. A senhora pode até não acreditar, mas é verdade. O Romeu é um garoto especial: ele não sabe ter.

Nunca soube. E não falo em sentido figurado, ele simplesmente não conhece a própria aquisição. – Que isso, Silmara, que história é essa? Não precisa escarnecer do meu humilde presente inventando idiotices. Não tenho dinheiro para grandes mimos, você bem sabe. Se pudesse, dava um videogame. Mas minha aposentadoria é irrisória... – Não é isso, tia. Certamente Romeu teria adorado o presente se compreendesse o que é ganhar um. No seu estranho entender, a meia que a senhora deu era de todos e não apenas dele. Silmara revelou que descobrira o problema poucos anos atrás, quando recheava com guloseimas o porta-lanche de Romeu e o mandava para a escolinha. Ao descobrir que quem comia os biscoitos eram seus amiguinhos, ficou zangada. – Romeu, esse lanche era seu! Porque você o deu para os meninos da sala? Eles te ameaçaram? Roubaram seu lanche? – Não, mamãe. Eles pegaram porque estavam com fome. Ela odiava essas respostas. Mas, constrangimento mesmo foi quando Silmara teve de correr atrás de alguns pedintes que receberam de Romeu boa parte da comida que havia na despensa da casa. Nesta ocasião, a mãe do generoso

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menino, aos gritos, ainda conseguiu recuperar com os mendigos um pacote de açúcar, algumas laranjas e duas latas de ervilha. – Por que você faz isso? Não somos ricos! Não vê que me entristece? – Se estou feliz e eles também, por que só a senhora se magoa? Como forma de castigo pelo feito, Romeu ficou proibido de brincar com Bilico por três dias, já que, como os pais sabiam, parar de fornecer mesada seria uma inócua punição. Silmara falou também sobre os momentos de tensão que teve de superar para mostrar aos outros que Romeu não era um retardado. – Estão pegando tudo do seu filho! Ele é um idiota! – Não! Ele não é um idiota, ele só não sabe ter! Mas é difícil pessoas como vocês, consumistas e egoístas natos, entenderem! – explodia. No fundo, porém, ela queria que ele agisse como seus detratores: que soubesse obter, ter e manter. Tudo seria melhor. Tia Irene pensou que Silmara estivesse bêbada, mas logo descartou esta hipótese, pois a sobrinha não apresentava hálito de álcool. Estaria o pernil da ceia estragado e, com isso, causando delírios na mãe de Romeu? Lembrou-se, contudo, que ela própria também o comera e que,

mesmo assim, mantinha sua sanidade. O problema, então, seria o forte remédio que Silmara vinha tomando para combater a insônia. Talvez fosse este o ladrão da saúde mental daquela mulher. Só isso poderia justificar a invenção de tão estapafúrdia história. – Como não sabe ter, Silmara? Ele não fala, por um acaso, “meus pais” quando se refere a vocês numa conversa com outras pessoas? – Não, Irene, não fala. O mais perto que ele consegue chegar de exclusividade é através do pronome “nosso”. Romeu crê, dentro dessa sua completa ingenuidade, que todos têm ou deveriam ter de tudo, e não uma única pessoa. Nesse momento, Silmara mudou de expressão. Um laço de tristeza quis dominá-la. – A professora do Romeu disse que ele precisava de ajuda especializada. Alguém que o fizesse entender o significado das palavras “meu” e “minha”. Ele até sabe pronunciá-las, mas desconhece o que querem dizer. Na reunião com os pais de alunos, a diretora disse que uma criança alfabetizada como o meu filho já deveria saber distinguir o “ter” do “não ter”. Com oito anos de idade ele não poderia continuar confundindo coisas tão antagônicas. Alguns estranhavam as

duas conversando com expressões tão mutantes: ora tia Irene chorando convulsivamente com Silmara rindo, ora tia Irene pensativa com Silmara fazendo cara de tristeza. Mas, todos achavam que eram as emoções do Natal e a expectativa do ano novo que estavam mexendo com a cabeça de ambas. Não havia outro motivo para nesgas de apatia, afinal, havia luzes piscantes, presépios bem montados, encontro de familiares distantes e comida em abundância naquele lar. – E por que você ficou feliz quando eu reproduzi a resposta do Romeu? Por que você disse que ele está melhorando? Quando eu te contei o que ele disse pra mim, “a meia não é minha”, você vibrou... – questionou Irene, querendo entender onde estava a lógica naquela alegria. O sorriso voltou ao rosto da mãe: – Não vê? Romeu parece ter entendido, por meio da negação, o que é ter. Quando disse “não é minha”, ele percebeu que algo pode, de modo inverso, ser seu. Não sei como a senhora fez isso, mas a meia despertou algo nele, algo que até então não existia. Tia Irene estava definitivamente espantada. Procurou Romeu com os olhos e o encontrou servindo doces a alguns convidados. O que era uma cena

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O lugar onde
incomum, mas possível, de uma criança muito bem educada, logo ganhou outra perspectiva: havia ali um ser humano completamente diferente. Diferença esta que, com alguma tolerância, soava bonita e inocente a um menino, mas que seria verdadeira catástrofe quando este se visse adulto. Que tipo de marido ele seria se não soubesse ter uma mulher? Isso sem falar no sofrimento pelo qual passaria para conseguir emprego e juntar dinheiro. Era terrível constatar, mas ele precisava, urgentemente, abrir sua cabeça para o ter, pois, de outra forma, se tornaria uma aberração. – Depois de uma bateria de exames – continuou Silmara –, concluíram que não havia tratamento médico possível. Alguns pedagogos afirmaram, inclusive, que nunca viram nada igual, a não ser em estudos de tribos indígenas primitivas. Se tivéssemos sorte, segundo eles, a única coisa que poderia fazê-lo melhorar seria o passar do tempo. Só Deus sabe o quanto rezei para que esse momento chegasse, o dia em que meu filho, finalmente, aprenderia a proteger seu patrimônio e descobriria, então, que seu lanche é mesmo seu, que seus pais são seus, que sua roupa é sua, seus presentes são seus e... sua meia... – Silmara emocionou-se –, que sua meia, dada por sua tia querida, é sua! Tia Irene abraçou Silmara, se levantaram e foram ligeiras até o quarto onde tudo acontecera. No trajeto, esbarraram em alguns parentes que ignoravam aquela incrível história, permanecendo imersos em seus próprios casos, tecendo esquecíveis comentários sobre assuntos hipoteticamente felizes. Felicidade mesmo foi o que Silmara experimentou quando viu o presente dilacerado. Ali ela decretou que aquela caminha bege e o roto pé de meia repousando solitário sob ela deveriam ser preservados como símbolos de uma grande mudança, pelo menos até o ano novo. – Tia Irene, neste Natal você me deu um presente muito maior do que essa meia, muito maior que qualquer outro. Você, de algum modo, trouxe o meu Romeu ao convívio social. Tia Irene encheu-se de vaidade e satisfação. Sem gastar quase nada com um presente, ela finalmente acertou. Ficou muito orgulhosa com a chance que criou – quem sabe um pequeno milagre de Natal – para que seu sobrinho pudesse vir a ter, enfim, inúmeras coisas, só suas, na vida.

a boa Literatura
é fabricada
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ficina
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Contos

Giselle Natsu Sato

A dama da Lapa
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Lapa. Bairro carioca do Rio de Janeiro, território livre da malandragem, resistência do “Bota-abaixo”, operação promovida pelo prefeito Pereira Passos. Vã tentativa de exterminar os cortiços apinhados de biscateiros, jogadores e excluídos. Os intelectuais reúnem-se nos bares locais. Freqüentam o Colosso, o Viena Budapeste, o Capela e tantos outros na Mem de Sá, principal via dos acontecimentos. Na esquina do Lavradio, rufiões, prostitutas e cafetões sussurram as últimas peripécias de Madame Satã. Escutam-se histórias sobre os alemães farreando nos sobrados com as mulatas. Verdadeiras farras regadas a bebidas importadas. “Polaquinhas” verdadeiras mesclamse às gaúchas de olhos claros nos bordéis de luxo. Dizem que o melhor pertence à Madame Clessi. Os cabarés com vedetes e cantores estão lotados e o Rio de Janeiro é uma festa. A paradisíaca Baía de Guanabara e Copacabana são os cartões postais para gente de todo o mundo. Impossível resistir à noite. Saboreando uma boa caninha, de pé no canto

mais escuro do balcão, Doutor José, ouve a voz arrastada de Catarina. O som monótono, insistente, repetindo a mesma ladainha: — Te amarei eternamente pelos bares da vida. Serei sua sombra, nunca te deixarei. Afastei seus amigos, tua mulher te abandonou com vergonha das bebedeiras. José pediu um duplo, entornou depressa e bateu o copo no balcão:

enxugou o suor na manga da camisa, disfarçou e cambaleou até a mesa de sinuca. O português olhava daquele jeito, de quem vê a desgraça diariamente, afogada em um copo de bebida: — Doutor José, não se martirize desta forma. Que pendenga está tirando seu juízo? O doutor precisa descansar, está abatido, descorado...

— Amigo, não tens no— Vai começar o torção do meu sofrimento. mento. Mais um, capricha Nem quero falar, prefiro sem pena. Estou ficando beber até esta louculouco, ouvindo vozes e ra passar. — o dono do assombrações. estabelecimento e ouvinte dos clientes habituais ser— Seu doutor, um viu a terceira dose, quase homem letrado falando a contragosto. estas coisas chega a dar arrupios Bentinho espiava de longe, tinha o dom da O grito do dono do bar vidência, herança da avó calou Bentinho, ajudante africana. O doutor não do bar e simpatizante de estava doido. No canJosé, generoso nas gorjeto do salão, a figura de tas. Catarina assombrava a mente entorpecida. Neste — Este moleque fala demais doutor, eu mesmo instante sabendo que era observada, fazia pose em vou servi-lo. Xispa daqui cima do balcão de bebie vá limpar as mesas. das. Vestido negro, decote Abusado! Toma tenência expondo a pele clara, ou te boto na rua! boca pintada em verme— Manoel, deixe o me- lho rubro, o riso delicioso nino. Ele não fez por mal. em olhares lânguidos, Vou terminar os dias no cheios de promessas. O hospício — o homem mocinho reconheceu de

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imediato a puta mais bonita da Lapa. Requisitada, festejada, pomo de discórdia de melhores amigos. Jóias, roupas e viagens. Tudo era pouco para a exigente Catarina. Fazia os homens ajoelharem-se aos seus pés para desprezálos logo adiante. Maldosa mulher da noite, sem dono ou senhor, fazia o que bem queria e não respeitava nem a polícia. Corria à boca miúda a amizade íntima com o famoso transformista, o tal com a alcunha do malvado. Quando conheceu José, foi amor à primeira vista. Desespero e agonia, a obsessão destruiu Catarina, tornando-a ciumenta. Esqueceu a vida para tomar conta de todos os passos do amante. José não agüentou as cobranças, escândalos e desmandos da mulher. Terminou o romance e conquistou a pior inimiga. Dando voltas em torno da mesa de bilhar, debruçava-se sobre o amante: — Amanhã vamos às corridas no Jóquei Clube. Infelizmente sou seu amuleto de azar. Pobre querido, cada dia mais

endividado... José xingou irritado, após errar a jogada fácil. Os amigos caçoaram a má sorte. Catarina bebericava do copo de José. — Lembra, meu amado? Nossos beijos intermináveis... Tão gostoso! Você lambia minha boca, bebia meu gosto, cheio de desejo... Quanta loucura fizemos! José suava frio, visualizava Catarina nua, expondo os seios brancos como leite, torcendo os bicos de cereja. Era assim que ele os chamava. Convidando dengosa para o amor “Vem, vem sentir sua florzinha branca meu amor. Vem...” O homem estava cansado, ajeitou a gravata e alisou os cabelos com os dedos. Podia ouvir claramente a voz da amante, suspirando: — Lembra quando me conheceu? Gritou aos quatro ventos que eu era a mulher da sua vida. Fiz de você meu dono e senhor, desprezei todos os outros. Fui viver em cortiços, abortei teus filhos, perdi a beleza e você me abandonou na sarjeta. — ela fez um carinho no rosto de José — Não adianta padre nem

feiticeiro, não obedeço a ninguém além do meu desejo. O instante em que me apunhalou libertou meu espírito para te seguir. Sou teu castigo, assim como a cachaça que te obriga a viver pelos bares. José era um molambo bêbado no meio dos últimos fregueses. Não queria voltar para a casa vazia, cheia de lembranças. Dormir era sinônimo de sonhos eróticos com a defunta. Sexo vívido e extenuante. Acordava com os lençóis molhados. O gozo reprimido e envergonhado. O cheiro de Catarina impregnando o quarto era uma tortura. Podia sentir o corpo macio deslizando, roçando provocante. Desejava a textura da pele nas mãos vazias. Entrava em uma espécie de transe e perdia-se na ilusão, tateava o escuro procurando sentir a amante. Algumas vezes ela parecia tão real. Imaginava que faziam sexo dias e dias. José passava quase uma semana sumido do trabalho. Quando dava por si, parecia um morto-vivo, olheiras profundas, sem banho ou comida decente. Por mais que a odiasse, tinha uma atração louca, sensual, um ardor imoral. Deseja-

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va a morta o tempo inteiro, não tinha um segundo em que ela não estivesse em seus pensamentos. Atormentado, rememorou a briga fatal. A navalha de Catarina brilhando na escuridão, o sangue manchando o estofamento do carro, as ameaças até último suspiro. Depois o remorso, medo de ser preso e a idéia de empurrar o carro morro abaixo. Explosão e isenção de qualquer suspeita. José tomou mais um gole e mandou a defunta pros quintos: — Não me arrependo, seu fim foi o alívio de meio mundo. Bentinho, pressentindo o perigo, pegou José pelo braço — Doutor, eu sei o que o senhor está passando. Posso ajudar. É a mulher diaba que está te atormentando. José arregalou os olhos — Consegue ver a bruxa? Eu não suporto mais viver assim, prefiro a boa hora da morte. — Não diga isto doutor, seja forte, não se entregue Catarina, irritada com a intromissão, de um só golpe derrubou a prate-

leira de bebidas — É muito tarde meu amigo, muito tarde e estou cansado. Perdi as forças. A dor aguda atravessou o peito de José. Sentiu náuseas fortíssimas e a visão tornou-se cada vez mais turva. Escorregou até o chão amparado por Bentinho, tocou a serragem que cobria o piso com carinho e sorriu. Riu a risada dos ébrios. Enfartou, para deleite da alma penada que o aguardava na esquina. Alguns juram que ainda hoje escutam as discussões dos amantes pelas encruzilhadas das ruas escuras. O som dos passos de Cataria, ressoando nos paralelepípedos, assombra as madrugadas dos boêmios e contribuem para o folclore local, tornando o lugar ainda mais atraente.

Um detetive...
Uma loira gostosa...

Um assassinato...
E o pau comendo entre as máfias italiana e chinesa.

O COvil dos inOCentes
www.covildosinocentes.blogspot.com

(revisão – V .)

nota: Um delírio, um conto soprado pela inspiração de Nelson Rodrigues, ainda que nem em sonhos, chegue aos seus pés. A homenagem ao mestre, com carinho.

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Tradução

o presente dos Magos
O. Henry
trad.: Henry Alfred Bugalho

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Um dólar e oitenta e sete centavos. Isto era tudo. E sessenta deles eram em moedas de um centavo. Centavos economizados um ou dois por vez regateando com o merceeiro e com o açougueiro até corar as bochechas com a silenciosa imputação de parcimônia presente na proximidade de tais negociações. Della refez a conta três vezes. Um dólar e oitenta e sete centavos. E o próximo dia seria o Natal. Claramente não havia nada mais para fazer a não ser afundar no sofazinho esgarçado e esganiçar. E foi o que Della fez. O que instiga a reflexão moral que a vida é feita de soluços, choramingos e sorrisos, com choramingos predominando.
http://communio.stblogs.org/Magi%20Bartolo%20de%20Fredi.jpg

que nenhum dedo mortal apertaria. Ali também havia um cartão trazendo o nome “Sr. James Dillingham Young.” O “Dillingham” havia sido acrescido durante um período anterior de prosperidade quando seu possuidor estava ganhando 30 dólares por semana. Agora, quando a renda havia encolhido para U$ 20, eles estavam pensando seriamente em contraí-lo para um modesto e despretensioso D. Mas sempre que o Sr. James Dillingham Young vinha para casa e chegava ao apartamento, ele era chamado “Jim” e abraçado com força pela Sra. James Dillingham Young, já apresentada a você como Della. O que é tudo muito bom. Della concluiu seu choro e cuidou de suas bochechas com o pó-de-arroz. Ela ficou perto da janela e olhou entediadamente o gato cinza caminhando sobre a cerca cinza num quintal cinza. Amanhã seria o dia de Natal e ela tinha apenas U$ 1,87 para comprar um presente para Jim. Ela havia economizado cada centavo que pôde por meses, com este resultado. Vinte dólares por semana não duram muito. As despesas haviam sido maiores do que

ela calculara. Elas sempre são. Apenas U$ 1,87 para comprar um presente para Jim. Seu Jim. Muitas horas felizes ela havia gastado planejando algo legal para ele. Algo fino, raro e valioso — algo que se aproximasse um pouco da honra de merecer ser possuído por Jim. Havia um espelho comprido entre as janelas da sala. Talvez você já tenha visto destes espelhos num apartamento de oito dólares ao mês. Uma pessoa magra e ágil pode, ao observar seu reflexo numa rápida sequência de tiras longitudinais, obter uma quase precisa concepção de sua aparência. Della, sendo esguia, havia dominado a arte. De repente, ela precipitou-se desde a janela e estacou diante do espelho. Seus olhos resplandeciam, mas sua face havia perdido a cor dentro de vinte segundos. Rapidamente, ela havia desprendido o cabelo e deixado-o cair em sua plena extensão. Agora, havia duas possessões das quais ambos os James Dillingham Youngs se orgulhavam. Uma era o relógio de ouro de Jim, que havia sido do pai e do avô dele. A outra era o cabelo de Della. Caso a

Enquanto a dona da casa gradualmente transpunha o primeiro estágio para o segundo, dê uma espiada na casa. Um apartamento mobiliado a U$ 8 por semana. Ele não se encaixaria exatamente na descrição de indigência, mas certamente caminhava a passos largos para o grupo dos mendicantes. No vestíbulo abaixo, havia uma caixa de correio na qual nenhuma carta chegava e uma campainha

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rainha de Sheba vivesse no apartamento do outro lado do poço de ventilação, bastaria Della estender o cabelo na janela para secar para depreciar as jóias e dons de Sua Majestade. Caso o Rei Salomão fosse o faxineiro, com todos seus tesouros empilhados no porão, bastaria Jim puxar o relógio toda vez que passasse, para vê-lo arrancar a barba de inveja. Então, agora o cabelo de Della pendia oscilando e brilhando como uma cascada de águas castanhas. Atingia para baixo do joelho e quase a recobria como uma veste. E então ela o prendeu novamente com nervosismo e pressa. Por um instante, ela hesitou e permaneceu imóvel enquanto uma ou duas lágrimas respingavam no desgastado tapete vermelho. Vestiu o velho casaco marrom; vestiu o velho chapéu marrom. Com um rodopiar de saias e com o cintilante brilho ainda nos olhos, ela lançou-se porta afora e escada abaixo para a rua. Onde ela parou, lia-se a placa: “Mme. Sofronie. Artigos capilares de todos os tipos.” Della correu um andar para cima e se deteve, arfando. Madame, gran-

de, branca demais, cálida, dificilmente aparentaria ser a “Sofronie”. — Você comprará meu cabelo? — perguntou Della. — Eu compro cabelo — disse Madame.— Tire seu chapéu e vamos dar uma olhada nele. Fluiu para baixo a cascata castanha. — Vinte dólares — disse Madame, erguendo a massa com uma mão habilidosa. — Pague-me rapidamente — disse Della. Ó, e as duas horas seguintes passaram voando. Desculpe-me pela metáfora gasta. Ela estava esquadrinhando as lojas por um presente para Jim. Finalmente, ela encontrou. Ele havia sido feito para Jim, e para ninguém mais. Não havia nenhum outro semelhante em nenhuma das lojas, e ela as havia virado de cabeça para baixo. Era uma corrente de platina simples e casta em seu design, apropriadamente proclamando seu valor pela própria substância e não por ornamentação meretrícia — como todas as boas coisas deveriam ser. Era até mesmo merecedora

d’O Relógio. Assim que a viu, ela sabia que deveria ser de Jim. Era como ele. Quietude e valor — a descrição se aplicava a ambos. Tomaram dela vinte e um dólares, e ela se apressou para casa com os 87 centavos. Com aquela corrente em seu relógio, Jim poderia ficar apropriadamente ansioso quanto às horas em qualquer companhia. Grandioso como era o relógio, ele às vezes consultava-o furtivamente por causa da velha tira de couro que usava no lugar de uma corrente. Quando Della chegou em casa, sua intoxicação deu lugar a um pouco de prudência e razão. Ela pegou o encaracolador, acendeu-o e esmeirou-se em reparar o estrago feito pela generosidade acrescida de amor. Que é sempre uma tarefa tremenda, queridos amigos — uma tarefa hercúlea. Dentro de quarenta minutos, sua cabeça estava coberta por pequenos, rentes cachos que a faziam se assemelhar maravilhosamente a um ocioso colegial. Ela olhou seu reflexo no longo espelho, cuidadosa e criticamente. — Se Jim não me matar — ela disse para si — antes que me deite um segun-

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do olhar, ele dirá que me pareço como uma corista de Coney Island. Mas o que eu podia fazer — oh! O que podia fazer com um dólar e oitenta e sete centavos? Às sete horas, o café estava pronto e a frigideira estava no forno quente e pronta para cozinhar as costeletas. Jim nunca se atrasava. Della enrolou a corrente em sua mão e sentou-se no canto da mesa perto da porta por onde ele sempre entrava. Então, ouviu os passos dele na escada subindo o primeiro lance, e ela empalideceu por um instante. Ela tinha o hábito de recitar uma pequena prece silenciosa para as coisas mais simples do dia-a-dia, e agora ela sussurrou:— Por favor, Deus, faça com que ele ainda me ache bela. A porta se abriu, Jim entrou e a fechou. Ele parecia magro e muito sério. Pobre sujeito, ele tinha apenas vinte e dois anos — e ter o fardo de uma família! Ele precisava de um novo casaco e não usava luvas. Jim parou diante da porta, imóvel como um setter ao farejar a caça. Seus olhos estavam fixos

em Della, e neles havia uma expressão que ela não conseguia interpretar, e que a aterrorizava. Não era raiva, nem surpresa, nem desaprovação, nem terror, nem um dos sentimentos para os quais ela estava se preparando. Ele apenas a encarava fixamente com uma expressão peculiar em seu rosto. Della se contorceu desde a mesa em direção a ele. — Jim, querido — ela gritou — não me olhe deste jeito. Eu cortei meu cabelo e o vendi porque eu não conseguiria viver sem lhe dar um presente de Natal. Ele crescerá novamente — você não se importa, não é? Tive de fazê-lo. Meu cabelo cresce incrivelmente rápido. Diga “Feliz Natal!” Jim, e sejamos felizes. Você não sabe que belo — que lindo presente eu comprei para você. — Você cortou o cabelo? — perguntou Jim, laboriosamente, como se ele não estivesse se dando conta do fato patente mesmo após o mais pesado trabalho mental. — Cortei-o e o vendi — disse Della.— Você não gosta de mim tanto quanto antes, de algum modo? Sou eu sem meu cabelo, não

sou? Jim olhou para a sala com curiosidade. — Você disse que seu cabelo se foi? — ele disse, com um ar quase de idiotia. — Não precisa procurar por ele — disse Della.— Foi vendido, eu lhe disse — vendido. É Véspera de Natal, rapaz. Seja bom para mim, pois vendi-o por você. Talvez os cabelos da minha cabeça estejam contados — ela prosseguiu com uma súbita séria doçura — mas ninguém poderá contar meu amor por você. Devo preparar as costeletas, Jim? Jim pareceu despertar rapidamente de seu transe. Ele abraçou sua Della. Por dez segundos, vamos abordar com discreto escrutínio uma matéria inconsequente sob outra ótica. Oito dólares por semana ou um milhão ao ano — qual é a diferença? Um matemático ou alguém sagaz lhe daria a resposta errada. Os magos trouxeram bens valiosos, mas este não estava entre eles. Esta asserção negra logo será iluminada posteriormente. Jim tirou um pacote do bolso do seu casaco e o lançou sobre a mesa.

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— Não faça mal juízo de mim, Dell — ele disse.— Eu não acho que haja algo de errado com o seu corte de cabelo, ou depilação, ou xampu que pudesse me fazer gostar menos da minha garota. Mas, se você desembalar aquele pacote, verá porque você me desconcertou, a princípio. Dedos brancos e ágeis rasgaram o cordão e o papel. Então, um extático grito de alegria; então, credo! uma rápida mudança feminina para pranto histérico e lamentos, necessitando o emprego imediato de todos os poderes reconfortantes do senhor do apartamento. Pois lá jaziam os Pentes — um conjunto de pentes que Della havia admirado desde há muito numa vitrina da Broadway. Lindos pentes, puro casco de tartaruga, bordas com pedras preciosas — no exato matiz para usar num belo cabelo evanescente. Eram pentes caros, ela sabia, e o coração dela havia simplesmente desejado e ansiado por eles sem a mínina esperança de possuí-los. E agora eles eram dela, mas as tranças que os adornos ambicionados adornariam não mais existiam. Mas ela os abraçou con-

tra o colo e, mais tarde, ela foi capaz de olhar para cima com olhar opaco, sorrir e dizer:— Meu cabelo cresce tão rapidamente, Jim! Então Della saltou como um pequeno gato chamuscado e gritou — Oh! Oh! Jim ainda não havia visto seu lindo presente. Ansiosamente, ela o estendeu na palma aberta. O opaco metal precioso parecia reluzir com o reflexo do espírito brilhante e ardente dela. — Não é uma extravagância, Jim? Eu a cacei por toda a cidade para encontrá-la. Você terá de ver as horas cem vezes ao dia agora. Dê-me o seu relógio. Quero ver como ele fica nela. Ao invés de obedecer, Jim deixou-se cair no sofá, pôs suas mãos atrás da cabeça e sorriu. — Dell — ele disse — vamos pôr nossos presentes de Natal de lado e deixá-los lá por um tempo. Eles são bons demais para usarmos agora. Vendi o relógio para conseguir o dinheiro para comprar seus pentes. E agora que tal preparar as costeletas? Os magos, como você sabe, são homens sábios —

homens maravilhosamente sábios — que trouxeram presentes para o bebê na manjedoura. Eles inventaram a arte de dar presentes de Natal. Sendo sábios, seus presentes eram, sem dúvida, sábios, possivelmente tendo o privilégio de troca em caso de duplicação. E aqui eu desengonçadamente relatei a você a crônica desinteressante de duas crianças tolas num apartamento que, sem sabedoria, sacrificaram um pelo outro os maiores tesouros da casa deles. Mas, uma última palavra para os sábios destes dias, seja dito que, de todos os que dão presentes, estes dois foram os mais sábios. De todos que dão e recebem presentes, tais são os mais sábios. Em qualquer lugar, eles são os mais sábios. Eles são os magos.

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O. Henry (1862-1910) era o pseudônimo usado por William Sydney Porter, um dos maiores contistas americanos do século e um dos autores mais populares do seu tempo. Nasceu na Carolina do Norte de família culta e abastada. A mãe morreu tuberculosa quando ele tinha três anos. Criado por uma tia, começou como aprendiz de boticário aos quinze anos e emigrou depois para o Texas, com sintomas de tuberculose. Casou e empregouse como caixa num Banco, tentando ao mesmo tempo escrever comédia. Comprou um jornal, The Rolling Stone, que faliu pouco depois. Porter foi acusado de desfalque no Banco e fugiu para as Honduras, de onde regressou passados três anos para a cabeceira de sua mulher moribunda. Preso durante quatro anos numa penitenciária do Ohio, começou a escrever sob o pseudônimo de O. Henry. Saído da prisão, passou a viver em Nova Iorque, e embora extremamente popular, viveu o resto da vida recluso, no terror de ser reconhecido como William Sydney Porter, acabando por morrer alcoólico e na miséria. O. Henry foi autor original e fecundo, chegando a escrever praticamente um conto por semana. Entre suas obras estão “As sendas do destino”, “No coração do Oeste” e “A voz da cidade”. Fonte: http://www.releituras. com/ohenry_menu.asp

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Recomendação de Leitura

A vampiro dado
não se olham os dentes
Volmar Camargo Junior

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Kaori: Perfume de Vampira GIULIA MOON São Paulo: Giz Editorial, 2009 http://www.gizeditorial.com.br

Dia desses, participei de um sorteio na comunidade do Orkut Escritores de Fantasia, um de vários que acontecem por lá, em que um autor que publica, e queira fazer um marketing do seu livro publicado, sorteia um ou mais de um exemplar da obra entre os membros do grupo. Eu até nem gostava , e ficava fazendo pirraça dos sorteios... mas, pra calar a minha boca, Papai do Céu, o Capeta, ou o Conde Drácula (através da Ana Cristina Rodrigues, escritora, colaboradora da SAMIZDAT e moderadora da referida comunidade, que me deu um baita xingão) me intuiu a parar de fazer birra com quem quer se divulgar, e entrar logo na brincadeira. Entrei, e, pra ficar ainda mais arrependido de ser um idiota escroto, fui contemplado. O prêmio: um exemplar autografado do romance Kaori – perfume de vampira, da escritora paulistana Giulia Moon. Só tinha um porém: eu não gosto de vampiros. Desde os idos tempos da adolescência, em que atravessava as madrugadas jogando RPG – mais mestrando que jogando – alimentava uma antipatia por essas criaturas vis, mesquinhas, ardilosas,

dissimuladas e traiçoeiras. Apreciava mais dilacerá-los com as garras dos lobisomens que eu “encenava”. Isso, é claro, quando não preferia sagas medievais, ambientadas em terras distantes, onde a paisagem fosse dominada por dragões, magos, cavaleiros de armadura e guerreiras usando roupas feitas de tiras de couro presas por rebites. Uhhh! Mas, então, vieram Giulia Moon e sua Kaori. “Vampiros orientais... hum...”, eu pensei. Tratava-se da história de uma vampira oriental, e isso já me deixou um tanto mais receptivo: nos tempos em que era RPGista de segunda a segunda, também era otaku (tá... nem tanto...), e achava bacana a idéia que os nipônicos tinham dos vampiros e criaturas sobrenaturais em geral. Em especial, o mangá Vampire Princess Miyu, ou, no original, Kyuuketsuki Miyu. E minha suspeita não era em vão. Em alguns pontos, Kaori e Miyu são bastante semelhantes. A propósito, a expressão “kyuketsuki” é uma das mais repetidas ao longo do romance. Contudo, ter pontos em comum com Miyu, foi bastante positivo: antes mesmo de eu começar a ler, para mim, a protagonista já tinha um rosto. O problema foi se livrar das imagens que me vinham à cabeça durante a leitura: em vez de moldar um filminho

mental, criei um anime. Kaori: perfume de vampira é um romance narrado, paralela e alternadamente, em duas épocas e lugares distintos: Japão, durante o Período Tokugawa, de meados do século XVII até meados do século XIX; São Paulo, durante alguns dias do ano de 2008. Mesmo sendo os protagonistas diferentes em momentos distintos da história, a figura central da trama é, como o título já deixa bem claro, Kaori. Na porção “oriental” do romance, temos a narração de duzentos anos, alguns passados ao largo, outros, especialmente os últimos, observados mais detidamente. Por isso mesmo, tudo é mais lento, mais delicado, mais sutil, ao mesmo tempo em que é mais assustador, mais sangrento, mais bizarro, mais... exótico. Conta-se um pouco de Kaori ainda “viva” e depois, em sua existência como uma desmorta (um outro termo recorrente no romance, que achei bem colocado), seus percalços para se acostumar à não-vida, as primeiras necessidades e as situações conflituosas de estar-se tornando, paulatinamente, em uma kyuketsuki: uma vampira. Na metade “ocidental”, uma narrativa muito peculiar, ágil e “geográfica” a partir da visão de um observador de vampiros, ou, melhor dizendo, de um vampwatcher

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chamado Samuel Jouza (não, não é Souza, não! É Jouza... descendente de um povo do leste europeu...) atuando pelas ruas da capital paulista. E quando eu digo “pelas ruas”, estou sendo preciso: só não acompanhei a narrativa no Google Maps porque não quis (assim espero...). A autora situou sua ficção calcada no espaço urbano – e suburbano - contemporâneo de São Paulo. E, como se pode esperar, em um cenário que anda a mil, a narrativa anda a mil: carros, motos, socos, pontapés, pistolas, tocaias, correrias e perseguições de cães-homens (gostei deles!), tramas envolvendo até alguns níveis da administração federal (hehehe... eu adorei a burocracia do Instituto Brasileiro de Estudo de Fenômenos Fantásticos... ri muito comparando o IBEFF à empresa pública em que trabalho...). Para o meu paladar ficcional, a porção oriental do livro é muito mais atraente. Nela, temos um mundo à parte. Para mim, mesmo o país dos xóguns histórico é tão alienígena (no melhor sentido) quanto a Terra Média. O Japão, ou a parte dele que conhecemos em Kaori é, de fato, um mundo fantástico, onde as criaturas do folclore japonês ganham vida, papéis, falas, e peso dramático. Mesmo que haja uma tendência para o terror, com uma dose bem... vermelha do melhor

fetichismo sexual oriental, referido na obra como A Velha Arte, para mim foi como ler uma boa novela de Fantasia. Jogar-se em um ambiente fantástico, conviver com criaturas fantásticas, em que as regras do mundo são permeadas por leis extrafísicas é o papel do Maravilhoso na ficção, e disso, tanto a Fantasia quanto o Terror compartilham. Talvez por isso, por essa criação/ recriação do universo e das leis que o regem, a autora tenha – a meu ver – acertado mais a mão na Montanha dos Tengus do que na Avenida Paulista. Acho notável a diferença da narrativa de uma e da outra das “porções” da trama. Enquanto em São Paulo os personagens ganharam da autora falas “típicas”, buscando um coloquialismo, talvez, um pouco forçado, na porção nipônica, mesmo a fala dos personagens mais comuns e secundários ganha ares de “contos de fada”, ou, melhor ainda, da narração de uma lenda, ou de uma história muito antiga, em um país muito, muito distante. E, é claro, com uma finesse erótica, e umas relações de amore-ódio entre protagonistas e antagonistas que, sinceramente, me surpreenderam. Além disso, é nesse ambiente que a autora desenvolve melhor seus personagens. Tanto que é nele que conhe-

cemos (e depois, reencontramos), um dos guerreiros mais interessantes que já conheci: Wakabara Kodo. Não sei por que, não consegui captar essas relações, esse “tom místico”, esse interesse por desvendar mais intimamente os personagens na parte contemporânea da história. Provavelmente, porque essa fosse a intenção da autora. No fim das contas, levei mais tempo do que queria levar para ler o romance. E isso é bom. Às vezes, eu lia apenas um capítulo, e refletia por um ou dois dias. É, garantidamente, uma boa diversão para quem aprecia o gênero. Há algumas coisas, como eu mencionei antes, que não apreciei; outras, em que reconheci na Giulia (ou Sueli) uma tendência para a narrativa psicológica, coisa que não é fácil de fazer, e bem fácil de se perder. E, nessa questão, ela foi bem feliz. Eu, como não sou desonesto com ninguém, devo admitir: essa obra não me deixou mais simpático aos vampiros do que eu era antes de tê-la lido. Maaaaas... conseguiu me deixar muito (e por muito, entenda-se muito mesmo) interessado, e talvez um pouquinho seduzido, por kyuketsukis. Por uma, em especial. Ai, aquela tatuagem de dragão...

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como uma das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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Crônica

Maria de Fátima Santos

Padres de calendário*
* Adaptação muito livre de uma crónica apresentada no 3ºDesafio - http://literaturadecamara.sites.uol.com.br/

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A notícia dá conta de um calendário que tem em cada folha um padre. E eu leio e penso que é apenas um modo de actuar neste mundo de imagem. É até um método comum na Igreja Católica que nunca reprovou, antes pelo contrário, passar a papel os seus “santinhos”. A notícia não me pareceu de molde a mais reflexão e muito menos a ser mote para crónica. No entanto, a curiosidade falou mais forte e indaguei na Net: queria ver que padres eram esses. E juro que estarreci com a beleza dos moços. Um calendário: doze meses, doze homens belos, um a seguir ao outro. Doze homens castos desde o mês das Janeiras até ao Natal. Doze padres soberbos: homens da mais pura beleza que Deus deu. Padres da Igreja onde um dia tomei baptismo e confessei pecados, e o sincero espanto do meu eu profundo, e uma plêiade de interrogações e ecos. Eu que deixei de saber rezar há muito, vi-me a pedir: Senhor, afasta este cálice dos meus olhos; que Deus me valha, e na falta d’Ele, que me acudam fadas

ou duendes, mas não me deixes memória destes doze acólitos, diáconos e padres. Ainda tentei desvalorizar a intensidade desse meu sentir, lembrando a história de um outro calendário com senhoras entradas na idade. Engano, que as folhas de Janeiro a Dezembro com senhoras meio despidas a mostrarem os seus atributos na cozinha, não teriam a vitalidade de veículo de mensagem que eu pressentia nas folhas deste calendário a cheirar a beato. E desatei a teclar a crónica que ora vos mostro. Doze padres a ilustrarem os meses e vendem-se calendários desses em solo do Vaticano a esgotar tiragens! Leva decerto a palma aos calendários de belos pares de mamas que forram as paredes da oficina de qualquer sapateiro ou outrem que tenha em boa estima a oficina. E eu a imaginar a reacção do turista que entra e sai da Capela Sistina. O calendário é dirigido a ele: como diz a notícia, em cada fotografia vem um informativo aos turistas que visitam o Vaticano. O devoto, desprendido na sua condição de turista, a ser confrontado com cada um dos retratos e o seu

conjunto: doze meses, cada mês um padre. Doze padres soberbos. Terá o turista ficado perplexo e apreensivo, a olhar em volta folheando sem saber se aquilo é coisa de Deus se do Diabo. E ter-se-á benzido num gesto de afugentar conspícuos pensamentos, ou de ser perdoado dos que lhe vão surgindo. Terá, decerto, rezado aos deuses da cristandade romana e apostólica e católica, ou que sejam outros os deuses e outra a irmandade, terá orado, estupefacto ao constatar que nem um dos fotografados, um que seja, esteja orando, de joelhos, ou prostrado em unção da fronte sobre o solo santo de uma Igreja. Doze rapazes na força da idade. Doze futuros bispos. Doze potenciais cardeais. Um deles poderá ser, quem sabe de futuros, o chefe da Igreja. E se é verdade, que uns tantos aparecem de paramentos brancos e doirados, rendas e chapéus, que todos envergam batina e colarinho branco, mais parece que os terão posto no intuito de despertar, a quem os olhe, o apelo a que se lhes trate com carinho o corpo, que se presume casto, ungido apenas pelos líquidos baptismais e outros igual-

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E eu, interrogando-me da intenção de quem colocou no mercado aquele material, imagino que o devoto turista há-de ter sentido o ferrete do pecado ao enfrentar os olhares de cada um dos padres daquele calendário. Terá clamado perdão a cada folhear, e na dúvida do préstimo para o espírito que teria aquele papel impresso, terá deixado pejada de retratos a Praça de São Pedro. Uma pena, que aqueles belos moços tenham sido assim espezinhados. E constato que, via Net, a notícia foi divulgada a todo o recanto. Andará meio mundo a enviar FW, e outros tantos a fazer cópias pirata: um clique, um jacto de tinta, e ali está o calendário estendido sobre a mesa de trabalho, resguardado por um vidro, ou colado na porta do frigorífico. Nem já é necessário ir ao santo solo do Vaticano para que cada um adquira a obra-prima que é o calendário.

Os mais devotos hão-de dependurar as doze folhas aos pés do leito em que repousam, e perante ele farão a oração da noite. E estará aqui a lógica desta divulgação inusitada dos padres mais garbosos, carinhas larocas da Igreja: a finalidade inalienável deste calendário será fomentar a prece, zelar pela salvação das nossas almas. Oraremos a olhar em cada mês um moço, a per-

correr-lhe o rosto e o que demais possamos ver-lhe na foto; faremos oração imaginando-o a nosso lado, de mãos postas, a orar connosco. Uma vez por noite, doze meses, e ficaremos com um lugar cativo no Paraíso. Ou talvez no Vaticano ande algum louco à solta, que disponibiliza pelo mundo os mais belos exemplares dos seus padres e diáconos, futuros bispos e papas, apenas para arrecadar uns cobres.

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mente santos. Nem se lhes associa, na santidade que é devida a cada homem da Igreja, salivares ou outros líquidos, que não seja o leite que lhes terá escorrido nos cantos da boca ao mamar, cada um deles, o maternal seio.

Ou, quem sabe, o alvo da promoção da padralhada mais jovem através do calendário, seja o de ir fazendo o caminho, avisando o povo, que a Igreja está mudando, que se preparem as beatas para um destes dias ser preciso que ajeitem paramentos nas suas sacristias: umas emendas nas mangas, um descer de bainhas, uns acrescentos nas opas, um entremeio de renda, com cachinhos de uvas e anjinhos: é que os padres que substituírem os que estão agora no activo, nem terão barriga, nem serão baixinhos. Moços na força da vida, habituados ao ginásio e ao jogging, hão-de querer passar para outra hora a missa das seis da tarde, por via de que não empecilhe com o horário do squash. E confesso que o calendário me sugere que a Igreja seria decerto outra, mais pujante, mais cheia de devotos nem só nos dias santos, se no supremo magistério estivesse um daqueles garbosos homens tipo Gary Grant já grisalho, já octogenário, mas que desse gosto ver falando, lá do alto daquela janelinha, ao seu povo. Um charmoso a transportar o ceptro em atitude triunfante e não de molde que a sua função mais se assemelhe à de um cajado.

Quiçá tenha o calendário por único fito angariar novos adeptos para o sacerdócio. Uma mensagem contida em cada foto, do tipo: “você ficará bonito como noviço”. Ou, mais prosaico, mas mais incisivo: “seja um deles”. E ficar, assim, a Igreja com os mais jovens, saudáveis e belos homens de cada novo lote. Ou, vendo a coisa noutro prisma, talvez tenham feito os rapazes apenas serem

isco para angariar a devoção de moças jeitosas, belos cus e mamas, e assim dotar os locais de culto de beatas à altura dos seus padres: substituir nas funções as tradicionais mulheres viúvas ou esposas mal casadas e solteironas feias. Venham pois mais calendários com moços padres e, porque não, uma primeira edição com fotos de freiras criteriosamente escolhidas…

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Crônica

o fantasma dos Natais passados
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Volmar Camargo Junior

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Mais uma vez, o clássico A Christmas Carol, de Charles Dickens (1), vai para as telas (2) pela batuta da Disney Pictures; a mais recente teve sua estréia mundial no último dia 6 de novembro. Neste, quem substitui o Lima Duarte (3) - e os outros quarenta ou cinquenta atores, incluindo o Tio Patinhas... - no papel do velho avarento Ebenezer Scrooge é Jim Carrey. Ou, mais especificamente, sua versão digital. É que nesta versão, além das caretas naturais, Carrey contará com a tecnologia empregada nas animações de A lenda de Beowulf e O Expresso Polar. Todos os três utilizaram atores para “animar” personagens digitais que são vagamente parecidos com os atores que fazem seus movimentos. Outro ponto em comum entre as três películas é a direção de Robert Zemeckis, que parece ter tomado gosto pela coisa. Essa tecnologia é um troço muito doido, mas é interessante de se ver: é desenho animado, mas quem titereia o boneco é um ator, através de uma técnica chamada motion capture (4)- relativamente recente no cinema, mas bem conhecida dos jogos de luta 3D como o jurássico Virtua Fighter, do falecido Sega Saturn, ou os jogos da série Tekken.

A animação de Os fantasmas de Scrooge é extremamente bem-acabada e realista. O que é um tanto assustador: os filmes estão cada vez mais se entregando à computação gráfica, que deixou há tempos de ser apenas para os efeitos especiais. Agora, pode-se criar... qualquer coisa! O fato de haver um Jim Carrey para fazer as caretas de Scrooge (que são versões das mesmas caretas de Conde Olaf, que são versões das mesmas das do Grinch, das do Máskara, das do Ace Ventura...) é um luxo, praticamente desnecessário. Tivessem botado os animadores geeks a pendurar os sensores pelo corpo e contracenar com os cenários verdes, a Disney pouparia os milhões pagos ao elenco de estrelas. Depois, o presidente da Disney (o Tio Patinhas?) reclama que seus orçamentos estouram...(5).

A GUI

Henry Alfred Bugalho

Nova York
para Mãos-de-VAca
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O Guia do Viajante Inteligente

_______________ crédito da imagem: http:// disneyportugal.files.wordpress.com/2009/05/christmas_carol.jpg

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Crônica

Ju Blasina

o que servir no Natal?
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Ah, o Natal! Época de paz, amor, união... E lista de presentes, amigo-secreto do filho, do marido, da filha adolescente na escola, na aula de inglês, na academia... Minha nossa, tem amigo secreto até no orkut! Surge amigo que não acaba mais! E o que comprar para quem mal se conhece se já é difícil acertar na mosca com aqueles que se conhece bem? Sempre tem aquela pessoa que abre o seu presente — aquele que você levou horas procurando, precisou enfrentar a última semana de corre-corre nas lojas e teve que pagar o-que-foi-preciso-paraagradar-a-chata — e, em vez de dar pulos de alegria, faz aquela “cara de paisagem”. E então você diz: — Se não gostou pode trocar, meu bem, eu te mando a notinha. E ela responde: — Capaz (se for gaúcha), não precisa, eu amei! — mas dois dias depois te liga, cobrando a tal notinha. Quer coisa mais “natalinamente” tradicional do que isso? Que tal a ceia de Natal? Ah, a ceia de Natal! Começa com o bom e velho cabo-de-guerra natalino — este ano nós passamos lá ou eles vêm para cá? — e isso costuma demorar... Mas, adivinha só: você venceu o cabo-de-guerra natalino,

parabéns! Este ano, o natal será por sua conta e risco! Quem costuma ocupar o assento do convidado, que se delicia com as iguarias e guloseimas tão fartas e harmonicamente distribuídas sobre a mesa, mal sabe o trabalho que dá preparar este banquete. Mais difícil ainda é decidir o que preparar para a ceia de natal — além é claro da boa e tradicional ave natalina. Sempre tem o fulaninho que não come vegetais, as crianças que tem pânico de uva-passa e a mais nova namorada do filho que você descobre — quando tudo já está preparado — ser vegetariana! Solução: põe ela sentada entre as crianças e o fulaninho. E só ela fazer a triagem do prato deles e todo mundo fica satisfeito! A cozinheira corre, se esmera, acaba se atrasando para se arrumar — momento em que o marido reclama e, para lhe dar razão, os convidados chegam — “malditos convidados”, pensa ela, mandando todo seu espírito natalino para o forno junto ao peru, que a esta hora já apitou e ninguém se deu conta. Enfim está tudo pronto, ela olha orgulhosa para a mesa, per-fei-ta, e libera a horda bárbara ao ataque, liderada pelo seu próprio marido — louco de fome,

pois o expulsaram da cozinha quatro vezes! Quando chega a hora da sobremesa ela sente até uma dorzinha no coração, ao ver a velocidade com que é consumida sua tortaobra-de-arte — aquela que levou doze horas para ficar pronta, como ela enfatiza a noite inteira — não durou mais de doze segundos depois do ataque das formigas-super-desenvolvidasvestidas-de-gente. A ceia só não acaba mais rápido do que o décimo terceiro, que quando você pensa que veio, já foi, mas ao contrário dele, o gostinho que fica é a satisfação de ver a mesa cheia, não só de comida, mas de amigos e felicidade! E então? Já decidiu o que servir em sua ceia de Natal? Vai mandar fazer? Que seja! Só não se esqueça de servir uma boa dose de bom humor, antes, depois e principalmente durante as refeições: você vai precisar! E tenham todos um Feliz Natal!

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o Nada
Ju Blasina
Guardo relógios parados E no silêncio repousa o tic-tac eterno Guardo calendários antigos E já desfolhados Meus dias passam invisíveis Benditos grilhões metafóricos! Trago-os sempre comigo Em segredo Tento prender-me ao tempo Ao fechar dos olhos Vejo o passar dos dias distantes Latentes, num breve lampejo A incerteza me congela Interminável... Suspiro Temo perder-me no tempo. Só A ânsia palpitante me remete À vidas (mal) passadas E a dor que ancoro ao peito Tanto aperta que me aporta Temo por nada Ao completar a rota cíclica E encontrar — triste — certeza: Nada é tudo E nada mais é que O que restou por fim O que sobrou de mim (?) Sem sentido Vou seguindo Levado a esmo Temo por nada Ser um dia (Longínquo — Espero) Vago neste intrépido mar revolto Movido ao sabor das dúvidas Tão salobras

Poesia

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Jardim japonês
Wellington Souza
Ela sentia-se só mesmo comigo ao lado; sentado buscando-a nos olhos não conseguia trazê-la de volta ao mundo tátil. Pousei minha mão sobre a sua, nossos dedos formaram uma grade no banco e nem isso a libertou. Recolhi, então, de lado, a minha pequenez. Pensei em sair, deixá-la... Permaneci. Queria ficar sozinho também,
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ali. ... O mindinho dela buscou o meu e ficamos enfim a sós.

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Poesia

Laboratório Poético: presença (cortinas)
Volmar Camargo Junior

coisa indefinível oculta em cortinas branca vaporosa mercurial atravessa uma a uma as caprichosas barreiras erguidas caprichosamente só para contê-la levanta-se em silêncio aos poucos sem pressa envolve tudo depois que se ergue só sua solidez sua nudez ela inteira é tudo o mundo submete-se a ela o mundo do visível

o mundo do crível o mundo do possível tudo tudo é consumido pela neblina pela brancura una da neblina pela nudez inteira da neblina pela impassividade paciente irredutível indivisível intangível da neblina tudo toda a existência resume-se a uma presença vaga indistinta indefinível oculta em cortinas mercurial vaporosa e branca

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Domingo, dia santo
Maria de Fátima Santos

Em nome do Pai e do Filho A pia com uma pinguinha lá no fundo E ela aspergindo água pelo rosto Domingo, dia do Santo A igreja à pinha As famílias muito unidas E ela Sem mais do que a cadela no adro,à espera Chovia que Deus dava Águas de Janeiro Esfriara tanto

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo Ensopada de água e de caminho Ave Maria, balbucia Como se rezando Esfrega uma mão na outra De mãos postas Ela que semelha orando Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo
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Sentada na pontinha de um banco

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Poesia

poemas
Mariana Valle
5 sentidos
Me enrosco que gosto no teu corpo desnudo não escuto o mundo pois me inundo

Pegadas
Caminho na praia e deixo minhas pegadas na areia, marcas indeléveis no caminho da vida. Muitas vezes profundas, doloridas, por vezes suaves e sutis. Mas as marcas estão lá, como prova do que passei. Pé ante pé, cada vez com mais dedos. Assim vou chegando a meu destino. Ninguém pode alcançá-lo por mim. Só eu posso pisar. Dois corpos nunca ocupam o mesmo lugar. Eu perco o sono e por vezes brigo e choro por causa da areia à frente, e das pegadas atrás, por causa dos pés a meu lado. Não importa. Um dia a onda vai me apagar.

de tua pele e gemidos meus cinco sentidos só vêem você

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Big Bangs
Dênis Moura
‘Microcosmacro’ “Ao olhar num microscópio de fundo, As moléculas, átomos, os ‘quarks’... Com as lentes do meu ‘neurar’ fecundo Mergulho no ínfimo mais e mais. ‘Big Bangs’ sociais “Ao olhar p’ras artimanhas no Mundo, O homem e as máquinas que ele faz, Com as lentes do meu ‘neurar’ fecundo Percebo a humanidade mais e mais. Conecto-me agora às ‘ciberredes’, Desafiando espaços sociais, Vejo que o virtual unir dos homens, Democracia milenar nos traz. Mas pra que direta democracia, Se a representativa nos apraz? Questiona quem o Mundo gerencia. Mas a maioria acorda tenaz E os microcosmos de cada homem Explodem em ‘Big Bangs’ sociais.” Empunho agora um telescópio Desafiando espaçostemporais E no fim do Universo vejo a Terra Na curva-luz, de bilênios atrás. Acoplo lentes do ‘neurar’ fecundo Em raios não curváveis como a luz. Assim, no telescópio e microscópio, No macro vejo-me dentro de um átomo, No micro outro universo me reluz.”
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Poesia

Submerjo do macro mais e mais

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SAMIZDAT
Edição, diagramação e capa
Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”. Mora, atualmente, em Nova York, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha. henrybugalho@gmail.com www.maosdevaca.com

SOBRE OS AUTORES DA

Henry Alfred Bugalho

Edição de imagens
Inconformado com a própria inaptidão para dizer algo sem ser através de subterfúgios, abdicou de parte de suas horas diárias de sono, tentando domar a sintaxe e adestrar a semântica. Depois de perambular pelo Rio Grande do Sul, acampou-se na brumosa, fria, úmida, às vezes assustadora – mas cercada por um cenário natural de extrema beleza – Canela, na Serra Gaúcha. Amargo e frio, cálido e doce, descendente de judeus poloneses, ciganos uruguaios, indígenas missioneiros, pêlos-duros do Planalto Médio, é brasileiro, gaúcho, e, quando ninguém está vendo, torcedor do Grêmio Futebol Porto-alegrense. Autor dos blogs “Um resto de café frio” e “Bah!”.
v.camargo.junior@gmail.com http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

Volmar Camargo Junior

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Por um amor não correspondido, a carioca de Copacabana começou a poetar aos 12 anos. Veio o beijo e o príncipe virou sapo. Mas a poesia virou sua amante. Fez oficina literária e deu pra encharcar o papel com erotismo. E também com seu choro. Em reação à hipocrisia e ao machismo da sociedade. Atuou como jornalista em várias empresas, mas foi na TV Globo onde aprimorou as técnicas de redação e ficção. E hoje as usa para contar suas próprias histórias. Algumas publicadas em seu primeiro livro e outras divulgadas nos links listados em seu blog pessoal: www.marianavalle.com

Mariana Valle

Colaboração
Paulistano de pia, cearence de mar e poeta de amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto o ciberespaço, mais com bits de imaginação que com telescópios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e a igualdade, com um giz na mão e uma pistola na outra. É Tecnólogo a sonhar com Telemática social, com a democracia participativa eletrônica, onde o povo eleja menos e decida mais. Publica estes dias sua primeira obra, um Romance de Ficção Científica, e deixa engavetadas suas apunhaladas poesias. É feito de bits, links e teia pra que não desmaterialize, o clique, o blogue e o leia!

Dênis Moura

Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor público e amante da literatura. Formado em Comunicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas “Retratos Urbanos” em 2008 pela Editora Andross.

Léo Borges

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Assessoria de imprensa

Nasceu em Lagos, Algarve, Portugla em 1948. Viveu a adolescência em Angola e reside em Lagos. Licenciada em Física, é aposentada de professora do Ensino Secundário. Já participou na SAMIZDAT e por afazeres de vida afastou-se. Tem poemas em diversas antologias, e publicou em Janeiro de 2009 um livrinho com pequenas histórias, aquelas que lhe voam no teclado: Papoilas de Janeiro é o título, com ilustrações de TCA do blogue http://abstractoconcreto. blogspot.com/ Muito material está publicado nos blogues e www.intervalos.blogspot.com e http://tristeabsurda.blogspot.com/ Escreve pelo gosto de deixar que as palavras vão fazendo vida. Escreve pelo gozo.

Maria de Fátima Santos

Autora de Meninas Malvadas, A Pequena Bailarina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine apenas como uma contadora de histórias carioca. Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes, funcionando como um eficiente panorama da sociedade em que vivemos.

Giselle Sato

Paulistano, mas morou também em Ribeirão Preto, onde cursou economia na Universidade de São Paulo. Hoje, reside novamente no bairro em que nasceu. Participou das antologias do concurso Nacional de Contos da Cidade de Porto Seguro e do Poetas de Gaveta/USP. Escreve poemas, contos, crônicas e ensaios literários em um blog (Hiper-link), na revista digital SAMIZDAT e no portal Sociedade Literária. “Escrever é um modo de ser outro ser”.

Wellington Souza

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SAMIZDAT janeiro de 2010

Paulistano, filho de nordestinos, desenhista desde sempre, artista plástico formado, escritor. Começou sua vida profissional como educador e, desde então, já deixou seu rastro por ONG’s, Escolas e Centros Culturais, através de trabalhos artísticos e pedagógicos – experiências que têm forte influência sobre seus escritos. Atualmente, organiza oficinas de ilustração para crianças, estuda pós-graduação em História da Arte e escreve para publicações na internet.
carloseducador@hotmail.com http://desnome.blogspot.com

Carlos Davissara

Gaúcha de Porto Alegre. Não gosta de mensurar a vida em números (idade, peso, altura, salário). Não se julga muito sã e coleciona papéis - alguns afirmam que é bióloga, mestre em fisiologia animal e etc, mas ela os nega dizendo-se escritora e ponto final. Disso não resta dúvida, mas como nem sempre uma palavra sincera basta, voltou à faculdade como estudante de letras, de onde obterá mais papéis para aumentar a sua pilha. É cronista do Caderno Mulher (Jornal Agora - Rio Grande - RS), mantém atualizado seu blog “P+ 2 T” e participa de fóruns e oficinas virtuais, além de projetos secretos sustentados à base de chocolate e vinho, nas madrugadas da vida.

Jú Blasina

Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licenciado recente em História da Arte, experimenta agora o prazer da escrita, em Lisboa. episcopum@hotmail.com

Joaquim Bispo

www.revistasamizdat.com

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Publicitário, redator, executivo, professor, aluno, marido, pai, filho, cunhado, tio, sobrinho, genro, sogro, amigo, botafoguense, tijucano, lebloniano, neopaulistano, escritor, leitor, eleitor, metido a cozinheiro, guloso, nem gordo nem magro, motorista categoria B, pedestre, caminhante, viajante, sedentário, telespectador, pilhado, zen, carnívoro, beatlemaníaco, cinemeiro, desafinado, sinfônico, acústico, capricorniano, calorento, alérgico a ditaduras, sonhador, delirante, insone, objetivo, subjetivo, pragmático, enérgico, banana, introspectivo, extrovertido, goleiro, blogueiro, colunista do Bolsa de Mulher, colaborador do Mundo Mundano, tem livro publicado, conto premiado, teve texto encenado no teatro, fez roteiros para televisão, criou uma infinidade de comerciais e aprendeu que aproveitar a vida intensamente é ser de tudo um muito. Samizdat é seu mais recente energético..

Bahiano do interior, hoje mora na capital. Estuda Psicologia na Universidade Federal da Bahia e espera um dia entender o ser humano. Enquanto isso não acontece, vai escrevendo a vida, decodificando o enigma da existência. Não tem livro publicado, prêmio, reconhecimento e sequer duas décadas de vida. Mas como consolo, um potencial asseverado pela mãe.

Caio Rudá

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SAMIZDAT janeiro de 2010

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José Guilherme Vereza

O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/

ficina
www.samizdat-pt.blogspot.com www.revistasamizdat.com 81

www.oficinaeditora.com

Também nesta edição, textos de
Caio Rudá Carlos Davissara Dênis Moura
http://www.flickr.com/photos/macrorain/3206892324/sizes/l/

Jú Blasina Léo Borges Maria de Fátima Santos Mariana Valle Volmar Camargo Junior Wellington Souza

Giselle Natsu Sato Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Guilherme Vereza

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SAMIZDAT janeiro de 2010

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