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Novas Perspectivas sobre o Movimento Migratório - O Lugar do Migrante Brasileiro no Arizona, EUA

Novas Perspectivas sobre o Movimento Migratório - O Lugar do Migrante Brasileiro no Arizona, EUA

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Here's my Final Presentation Essay about the Place of the Brazilian Migrant in Arizona, USA. It's the final version, which can also be found (printed) at Rio de Janeiro State University Library system. It's the original, in Portuguese. I'm working on its translation to English anytime soon.
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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Centro de Educação e Humanidades Faculdade de Formação de Professores Departamento de Geografia

Luciano Dalcol Rodrigues Viana

Novas perspectivas sobre o Movimento Migratório: O Lugar do Migrante Brasileiro no Arizona, EUA

São Gonçalo, RJ 2009

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CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/CEH/D

M614

Viana, Luciano Dalcol Rodrigues Novas perspectivas sobre o movimento migratório : o lugar do migrante brasileiro no Arizona, EUA / Luciano Dalcol Rodrigues Viana. – 2009. 50 f. Orientador : Eduardo Karol. Monografia (Licenciatura em Geografia) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Formação de Professores. 1. Migração - Estados Unidos. 2. Imigrantes -- Estados Unidos -- Historia. I. Karol, Eduardo. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Formação de Professores, Departamento de Geografia.

CDU 325(73)

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Novas perspectivas sobre o Movimento Migratório: O Lugar do Migrante Brasileiro no Arizona, EUA Monografia apresentada, como requisito final para a obtenção do título de Graduação, no Curso de Licenciatura Plena em Geografia da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Banca Examinadora:

____________________________________________________ Prof. MsC. Eduardo Karol (Orientador)

____________________________________________________ Prof. Dr. Andrelino Campos (Orientador)

____________________________________________________ Prof. Dr. Helion Póvoa Neto Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ

____________________________________________________ Prof. Dr. Renato Emerson Nascimento dos Santos Faculdade de Formação de Professores da UERJ

São Gonçalo, RJ 2009

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DEDICATÓRIA

À Deus, que me levou por todos os caminhos, À minha família, pelo suporte incondicional, Aos Shankool1, pelo exemplo de vida, Aos meus mestres, pelo exemplo de dedicação à ciência.

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A família Shankool foi responsável por me proporcionar emprego, casa e uma nova família enquanto permaneci nos EUA, entre 2003 e 2006.

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Solo voy con mi pena Sola va mi condena Correr es mi destino Para burlar la ley Perdido en el corazón De la grande babylon Me dicen el clandestino Por no llevar papel Pa´una ciudad del norte Yo me fui a trabajar Mi vida la deje entre Ceuta y Gibraltar Soy una raya en el mar Fantasma en la ciudad Mi vida va prohibida Dice la autoridad Solo voy con mi pena Sola va mi condena Correr es mi destino Por no llevar papel Perdido en el corazón De la grande babylon Me dicen el clandestino Yo soy el que quiebra ley. Mano Negra clandestina Peruano clandestino Africano clandestino Marijuana ilegal Solo voy con mi pena Sola va mi condena Correr es mi destino Para burlar la ley Perdido en el corazón De la grande babylon Me dicen el clandestino Por no llevar papel Argelino clandestino Nigeriano clandestino Boliviano clandestino Mano Negra ilegal Manu Chao – Clandestino

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Lista de Abreviações e Siglas

ASU BAR FBI HB ICE NAU USCIS

Arizona State University. Bureau of Attorneys Association. Federal Bureau of Investigation. Tipo de visto de trabalho “Home-Business”. Immigration and Customs Enforcement. Nothern Arizona University. United States Customs and Immigration Service.

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SUMÁRIO

Resumo............................................................................................................ Abstract.......................................................................................................... Introdução ...................................................................................................... 1 A MIGRAÇÃO E O LUGAR........................................................................ 1.1 Movimentos migratórios: concepções clássicas e novas visões ........... 1.2 O território e o lugar: categorias que impulsionam outra discussão... 1.3 A identidade e a modernidade................................................................ 1.4 O lugar do migrante............................................................................... 2 LÁ VISTO DAQUI ........................................................................................ 2.1 A construção do ideário de ida: como se vê o mundo de lá ................ 2.2 As redes antes da partida ...................................................................... 2.3 As esperanças que se encontram lá ..................................................... 2.4 O lugar de lá e melhor que o lugar d’aqui .......................................... 3 LÁ VISTO DE LÁ.......................................................................................... 3.1 Chegando lá: moradia, emprego e rede social imediata ..................... 3.2 Novos relacionamentos: brasileiros, hispânicos e americanos .......... 3.3 O sonho brasileiro no Arizona ............................................................. 3.4 Lá como um novo lugar ....................................................................... Considerações Finais ..................................................................................... Referências Bibliográficas ............................................................................ Anexo ..............................................................................................................

07 08 09 11 11 14 16 18 21 21 22 24 26 28 28 30 33 34 37 41 43

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RESUMO Os movimentos migratórios analisados conforme o pensamento clássico deixam à margem realidades muito mais interessantes do que a grandiosidade do fenômeno pode prover ao pesquisador. Com o intuito de ter uma nova visão sobre a problemática, busca-se a compreensão do movimento através do conceito de Lugar na Geografia, e com este, o Lugar do Migrante. Como o movimento incide uma partida e uma chegada, analisa-se o Lugar de Origem do Migrante, onde está a determinação de migrar, e o Lugar de Destino do Migrante, onde o sonho de um outro espaço melhor que a Origem se encontra. Neste trabalho, organizase no primeiro capítulo, a discussão teórica do que é este Lugar para o Migrante, e a visualização de uma nova forma de abordar o movimento migratório. No capítulo seguinte, trabalha-se como a construção do Lugar de Origem leva o migrante a buscar uma realidade diferente da vivida, uma espacialidade que represente os sonhos de uma melhoria da qualidade de vida. Ainda nesta seara, o último capítulo faz uma releitura do que pode ser encontrado e do que é encontrado num outro Lugar. Neste trabalho, buscamos a percepção de tais movimentos pela exemplificação dos brasileiros residentes ou ex-residentes dentro do Estado do Arizona, EUA. A pesquisa fora feita através de correio eletrônico (em anexo) e baseado em uma gama de autores de variadas áreas das ciências sociais, principalmente da Geografia.

Palavras-chave: Migração, Lugar, Brasileiros, Arizona.

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ABSTRACT The studies in migration movements that follow strictly the classic authors leave apart much more interesting realities than the greatness of the phenomenon could give to the researcher. Intending to develop a new concept to the problem, we want to comprehend the movement through the Geographical concept of Place, and with it, the Place of the Migrant. As the movement establishes a beginning and an end, we’ll analyze the Origin Place of the Migrant, where the wandering to migrate is, and the Destiny Place of the Migrant, where the dream of a better place is located. In this present paper, we organized in the first chapter the discussion of theory of what is this Place for the Migrant and the sight of a new way to discuss migration. On the next chapter, we develop the idea of the construction of the Origin Place that takes the Migrant to look forward a new reality, differently from that lived by the Migrant, in a space that could represent the dreams of a better life. On the last chapter, we reread on what can be found and what is found in this another Place. In this paper, we’ll be trying to perceive of these movements through the exemplification of resident and/or exresident Brazilians within the State of Arizona, USA. The research was taken through electronic mail (attached) and based in a large range of authors from different areas of the Social Sciences, mainly from Geography.

Keywords: Migration, Place, Brazilians, Arizona.

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INTRODUÇÃO

O estudo da Geografia das Populações é intrigante. Os movimentos de massa, principalmente quando se pode analisar um ponto ainda em formação, são um processo que aponta para o futuro, como o desabrochar de uma flor. Mais interessante ainda, é quando esse estudo pode ser feito com a experiência pessoal do pesquisador, que viveu e conviveu com os indivíduos pesquisados, compreendendo suas alegrias e frustrações. Uma análise detalhada das proposições clássicas do tema, no entanto, revelou-se distante demais desse processo social, que é muito rico e pouco discutido na Geografia. Se, portanto, a teoria clássica se afasta por demais do migrante, do sujeito/indivíduo espaço-temporal; é necessário propor uma nova perspectiva desta temática, uma nova visão, novas formas de pensar os movimentos migratórios e uma releitura dos agentes destes movimentos e da dinâmica espacial na qual estes se inserem. Uma luz se acende em como compreender tal relacionamento, e assim, faz-se necessário estabelecer um antes e um depois, um momento/espaço de origem, onde esperanças são depositadas num futuro promissor, em uma verdade que se crê. Este antes é construído na mente do migrante desde o momento onde o migrar se torna opção, ao momento onde migrar é a solução e em um segundo momento, onde a chegada determina a realidade do movimento migratório, com as suas imperfeições e suas dinâmicas excludentes. A verdade que se vê é complexa e a marginalização daquele que chega é capaz de permitir uma realização social perversa: aproveita-se da sua vontade de inserção, para criar uma lógica de subordinação excludente. No entanto, o migrante traz de um mundo diferente do que vivemos a semente da esperança. Não é um amanhã imediato, nem um paraíso na terra, mas uma proposta de ver o mundo com outros olhos, mais claros, menos habituados a rotina de um novo Lugar, e com esses olhos, ver que a mudança é exeqüível e que uma outra construção é possível. Aqui, trabalhou-se sob uma pesquisa bibliográfica extenuante, em busca de dados que pudessem se aproximar de algum número, algum quantitativo. O próprio Ministério das Relações Exteriores do Brasil reconhece a imprecisão dos números e o Departamento de Pesquisas Populacionais do Censo dos Estados Unidos também alega que os migrantes principalmente os que se encontram em situação ilegal - não respondem ou respondem

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incorretamente as pesquisas populacionais nos EUA. Independente dos números, o foco deste presente trabalho é a discussão teórica acerca do tema, em principal nas terminologias utilizadas. Sendo assim, divide-se esta monografia em três capítulos principais. O primeiro tem como objetivo a discussão geográfica das categorias a serem utilizadas. A opção do uso do termo Lugar em detrimento do termo Território tem seu motivo, que é a busca da compreensão de um movimento humanista realizado por indivíduos e não por “invasores”, como a imprensa sensacionalista americana geralmente retrata a questão migratória. Ressaltase que a utilização da expressão “novo Lugar” presente em quase todo este trabalho tem significado literal, sem objetivar outras discussões. Concordante com essa temática, trabalhar-se-á com a terminologia “migrante” em prol da observação do sujeito que migra, em prol dos tradicionais termos “emigrante” e “imigrante”. Tal escolha será justificada adiante. A observação de tais fenômenos será compreendida pela espacialização de migrantes brasileiros no estado do Arizona, sudoeste americano. Este recorte espacial segue o princípio que o autor deste trabalho conviveu naquele lugar entre os anos de 2003 e 2006, mantendo ainda hoje certa rede de contatos pelos quais a pesquisa empírica aqui se inicia, mas não se esgota. A Internet funciona como um modo de ativar essa rede nesse momento de pesquisa, e através de emails, foram coletados alguns depoimentos com propósito de ilustrar algumas proposições levantadas. Seguindo esta lógica, o relacionamento da Origem e do Destino do migrante, fica entendido não somente como uma rede social de transposição de territórios, mas numa perspectiva de Lugar. Como este Lugar de Origem pode ser o motor do movimento, ao criar no migrante a esperança de um novo Lugar, um Lá onde as expectativas de melhoria de vida se concretizariam. E por terminar, o terceiro capítulo trata da chegada do migrante neste novo Lugar e como a desconstrução de ilusões se abate sobre este. Desde a adaptação à nova realidade até a discriminação, o Lugar de Destino torna-se um Lugar diferente daquele esperado e, por conseqüência, necessita ser tratado, trabalhado, refeito e com a reconstrução do ideário, fazer renascer as esperanças de uma melhoria de vida. Este presente trabalho é uma busca da compreensão da verdade pela verdade, sem apelos. A descoberta de um novo espaço permite o vislumbre de um novo mundo, do mundo que queremos.

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Capítulo 1: A MIGRAÇÃO E O LUGAR

1.1 Movimentos Migratórios: Concepções Clássicas e Novas Visões

A percepção da formação de colônias de estrangeiros nos países de destino intriga geógrafos, assim como cientistas sociais diversos. De fato, a experiência de vida mostra que esta organização em comunidade no estrangeiro nem sempre é clara, sendo até mesmo inexistente para grande parte dos não-nacionais em outro país. A formação de grupos sociais, quando acontecem, tem um objetivo bem específico, geralmente religioso, cultural ou econômico. Sendo assim, compreender geograficamente o migrante no estrangeiro, deste ponto da problemática, é buscar compreender seu lugar no estrangeiro. Neste capítulo, será feita a reconstrução das posições defendidas nos estudos migratórios, além de estabelecer-se o conflito entre o paradigma instaurado no senso economicista do movimento, em vias de um outro, de cunho social. Neste sentido, é necessário compreender a categoria Lugar nos estudos geográficos e como a transformação deste componente geográfico se daria na experiência migrante. E ainda, entender que o Lugar, como sendo o lócus de identificação do indivíduo, poderia ter algum papel na transformação da rede social migrante no exterior. Os estudos clássicos dentro da teoria dos Movimentos Migratórios caminham sob uma ótica de movimentos impulsionados por fatores – do Lugar de Origem – atraídos por outros fatores – no Lugar de Destino. Tais acepções foram resumidas por JOHNSTON, GREGORY & SMITH2, que afirmam que, dentre os fatores mais marcantes, destaca-se: o movimento (permanente ou semi-permanente) de mudança de residência de um indivíduo ou grupo de pessoas, uma linha (fronteira, borda ou limite político) a ser cruzada e certo corte temporal, no qual, aquela linha seja ultrapassada para o estabelecimento de uma nova área de residência. A escala de análise também deve ser considerada como fator de interpretação do movimento. Outros fatores incluem também distância, forma decisória, organização social dos migrantes, organização política, causa e objetivos.
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JOHNSTON, R. J.; GREGORY, D.; SMITH, D. M. (org.) The Dictionary of Human Geography. Cambridge, Massachussets, EUA: Blackwell Publishers, 3rd ed., 1994. Verbete: Migration.

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PÓVOA NETO3 ao utilizar-se das definições aplicadas pela ONU para o movimento destaca, além dos fatores acima citados, quesitos diretamente relacionados ao fenômeno, caracterizando não como uma decisão do indivíduo, mas uma estruturação social: um paradigma que pode ser conscrito socialmente. Nas estruturas do pensamento do movimento migratório, um dos primeiros autores a organizar os fatores do mesmo foi E. G. Ravenstein, no final do século XIX. O autor formulou aquilo que denominou “leis da migração”, nas quais, subseqüentemente, muitos trabalhos foram baseados4. As leis de Ravenstein estabeleciam que a maioria dos migrantes só vão a distâncias curtas, passo a passo; migrantes que se deslocam por longas distâncias dão preferências a grandes centros comerciais ou industriais, e que, cada corrente migratória produz uma contracorrente compensatória; habitantes urbanos são menos propensos a migração do que aqueles do meio rural; mulheres seriam mais propensas a migração dentro do território de seu país, enquanto homens o fazem mais freqüentemente para fora de seu país; muitos migrantes são adultos e famílias muito dificilmente migram para fora do seu país; as grandes cidades crescem, mais por conta de movimentos migratórios, do que pelo seu crescimento natural. Afirma Ravenstein, ainda: a migração cresce em volume tanto quanto o desenvolvimento da indústria, do comércio e dos transportes, e o movimento é maior em áreas rurais do que em centros de indústria e comércio, e, o que se destaca como mais considerável nessas leis, é que a maior parte dos movimentos migratórios é gerada por situações econômicas interessantes. Compreendida a temporalidade de Ravenstein, percebemos uma visão um tanto economicista do movimento migratório, onde as interpretações clássicas do movimento se baseiam em critérios econômicos e nas motivações atreladas a estes critérios. Leis gerais seriam formadas para explicar fenômenos gerais dos movimentos migratórios sem especificidade. Tais generalizações provocaram acertos em massa para tratamentos em geral de situações migrantes, que de certo, obtiveram relacionamentos diferenciados – relativos ao tempo e ao espaço que ocuparam/migraram – onde os resultados foram variados para grupos nacionais distintos em um mesmo país. Acreditou-se, por algum período, em um tipo ideal de imigrante, em volta aceitável, oras tolerável, até ao repugnante. Tais pensamentos e tratamentos caracterizaram as formas

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POVOA NETO, Helion. Migrações internas e mobilidade do trabalho no Brasil atual: novos desafios para análise. In: HEIDERMANN, Heinz Dieter; SILVA, Sidney Antonio da (org.) Simpósio Internacional Migração: nação, lugar e dinâmicas territoriais (São Paulo, 1999). São Paulo: Ass. Ed. Humanitas, 2007, p. 45-56. 4 JOHNSTON; GREGORY; SMITH, op. cit., nota 1.

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de adaptação de grupos migrantes em determinados lugares e em determinados períodos da movimentação migrante. Os estudos de Raveinstein foram mais tarde complementados pelos pensamentos de Thornthwaite, um climatólogo que aplicou as leis dos gradientes de pressão, justificando os movimentos de atração e repulsão dos migrantes5. Os argumentos de Thornthwaite ajudaram na confecção de uma concepção de migração econômica, baseada neste fator como único e principal dos movimentos autóctones, não forçados por governos ou agentes externos aos grupos migrantes, a ver pelos trabalhos mais recentes, até mesmo em Economia6. Tobler, no entanto, reconhece que “[...] talvez as leis percam sentido durante esses períodos”, quando o autor analisava que, em gráficos matemáticos e em momentos históricos extraordinários, as leis levantadas por Ravenstein e Thornthwaite perdiam validade, como eventualmente no século XIX pela descoberta de ouro no Oeste Americano, pelo que ficou constatado no Censo americano no período de 1935 e 1940 e, finalmente, por conta da Revolução Cubana, no estado da Flórida entre 1955 e 1960. É imprescindível pensar que se a limitação da percepção da problemática pelos autores clássicos da disciplina destina-se a categorizar o movimento como uma conseqüência prioritariamente econômica, decifráveis através de fórmulas matemáticas, buscar-se-ia reduzi-lo a um padrão de percepção que não seja capaz de absorver nem um ínfimo de sua magnitude como movimento social e político7. Muitas outras faces deste movimento poderiam ser expostas aqui, mas o objetivo deste trabalho é chegar a alguma conclusão, que pela limitação imposta, deter-se-á aos aspectos identitários do novo Lugar. Ainda assim, teorias como estas prevaleceram nos estudos migratórios até que novas idéias tivessem surgido. Um dos primeiros trabalhos significativos que trouxe novas percepções da problemática do movimento migratório foi “The Polish Peasant in Europe and America”, por William I. THOMAS e Florian ZNANIECKI, entre os anos de 1918-20. Tal trabalho possibilitou uma nova gama de problemáticas, considerando os aspectos sociais e antropológicos, tais quais, para a Geografia, a problemática da percepção do Lugar para os migrantes (apud PASTORE, 1969). Não desconsiderando o papel dos autores da Escola de
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TOBLER, W. Migration: Ravenstein, Thornwaite and Beyond. Urban Geography [1995]. ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE GEOGRAFIA, 1994 [S.l.], p. 327-343. 6 “Migração é comparável ao fluido de água ou eletricidade – um fluido de ajuste respondendo aos diferenciais de pressão em lados opostos de um encanamento. Essa visão sugere que nenhum nível absoluto de impulsão ou expulsão importa, mas a diferenciação existencial de pressão, de relativa atração dos elementos.” (Ibid.) Ainda que a interpretação destes estudos, e principalmente desta passagem, transcreve-se como a “migração como um fator que resulta num equilíbrio social”, o objetivo desta nota é demonstrar a busca por uma precisão quase mecânica do movimento, “desumanizando” o ato de migrar. 7 SINGER, Paul. Migrações Internas: considerações teóricas sobre o seu estudo [1976]. In: MOURA, Hélio A. de (org.) Migração interna: textos selecionados. Fortaleza: BNB, 1980, p. 211-244.

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Chicago, apoiamo-nos na leitura de Abdelmalek SAYAD com as visões de que os migrantes possam ser muito mais que simples atores passivos das pressões neles exercida. SAYAD8 observou, ao questionar e retratar as experiências de um imigrante argelino na França, que apesar de ter tido certa motivação econômica, este imigrante não seria levado à França se não fossem outros fatores cruciais para a sua movimentação. Pode-se levantar que, os aspectos sociais existentes dentro do Lugar de Origem do migrante, o levam a migrar, a contar desde os antepassados, a uma visão de estagnação do próprio Lugar; uma idealização do Lugar de Destino (neste caso a França, que contribuiu para um imaginário coletivo dos aspectos positivos da migração, sem confrontos com demais ideais); as redes de readaptação, criadas ainda no Lugar de Origem, que permitem certa capacidade de reestruturação na chegada, ainda que insipiente e ineficaz, favorecendo a partida; e, por último, as perspectivas de vida no Lugar de Origem, quando comparadas àquela a ser vivida no Exílio (termo muito bem trabalhado por SAYAD, no qual em árabe leva a diferentes idéias de interpretação), entre outros aspectos. O autor assim compreende que não há um rompimento entre indivíduo e estrutura, trabalhando numa visão de integração destes itens. Então, buscar entender os movimentos migratórios, principalmente aquele produzido internacionalmente, é buscar compreender variáveis significativas do Lugar de Origem e do futuro Lugar de Destino, o restabelecimento de redes sociais capazes de auxiliar (ou não) a permanência no solo estrangeiro. A adaptabilidade de cada indivíduo ao fato de migrar não será compreendida sem que se faça presente à razão pelo qual o movimento da massa se mantenha. E ainda: como ao tratar do movimento migratório sob a ótica do agente do movimento, do migrante, buscar-se-á que termos como “emigrante” e “imigrante”, não são satisfatórios, e por conta disso, aqui utilizar-se-á somente o termo “migrante”. A explicação é simples: “emigrante” e “imigrante” são aqueles que saem de um país e chegam em algum outro país. Seria reproduzir a lógica dos conceitos clássicos, focando o Estado-Nacional emissor e receptor. Com a proposta aqui levantada, o termo “migrante”, onde se foca no sujeito histórico-dialético poder-se-á chegar a alguma outra visão9.

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SAYAD, Abdelmalek. A Imigração: ou Os Paradoxos da Alteridade. São Paulo: EDUSP, 1998. Salvo algum autor utilizado destaque as terminologias “emigrante” ou “imigrante”.

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1.2 O Território E O Lugar: Categorias Que Impulsionam A Uma Outra Discussão

A categoria geográfica de Lugar, quase nunca é utilizada nos estudos migratórios pelo simples fato dos autores preferirem trabalhar a dimensão Estado-Nação e seu comportamento. De fato, este tipo de visão parece condescendente com as visões clássicas dos estudos migratórios de Raveinstein e Thornthwaite, onde o território passaria a ser a terminologia mais apropriada. Ver o Lugar do Migrante implica compreender o migrante, seu entorno e suas visões sobre a nova espacialidade que vive. Ainda assim, pode-se destacar que Godelier teria levantado uma questão sobre o uso do território que se acredita ser plausível na explicação de razões pelas quais se migra: acesso, controle e uso são fatores que não se podem negligenciar no tocante a apropriação do território, e ainda os poderes visíveis e invisíveis que permitem tais acessos, controles e usos. Tais momentos fazem parte do quotidiano das condições de reprodução da vida, tanto quanto dos recursos usados/despendidos (Godelier apud HAESBAERT, 2006)10. O Território passa a ter novas características que são parte do que é extraído deste pelos seus agentes. É indispensável pensar o Território como signo e seus códigos culturais11. Essa visão antropológica remete ao Território a característica da territorialização humana atrelada a semantização do espaço territorial, como sua significação e a idealização daqueles que nele habitam e nele tem seus atos dinâmicos de vida. No entanto, é no Lugar, onde ocorrem as transformações sociais dinâmicas mais diretas do indivíduo. A leitura do trabalho de SANTOS
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permite vários pontos de análise. O Lugar

adquire, então, importância no caráter da compreensão do Espaço Geográfico, além dos limites do Território, ao permitir uma visão das dinâmicas neste inseridas, des-re-construídas.
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O objetivo de demonstrar esta observação de Godelier é permitir que se faça uma real observância no que compete o que é o Território. Autores diversos – como os que Haesbaert (2006) utiliza-se na busca da compreensão do que seria o Território – levantam variadas possibilidades sobre o que seria mister a este termo. Como levantado por Godelier, poder, acesso e uso são primordiais. Neste trabalho, estes elementos tem importância, e concepções clássicas sobre a migração compreendem a falta do poder, do acesso e do uso pleno do Território “estrangeiro” em relação ao Migrante como parte da problemática. Outros conceitos sobre o termo Território existem, mas pela limitação imposta não foram completamente esgotados. 11 “A semantização do território pode explicar-se parcialmente a partir do meio, mas a investigação do meio físico nunca nos permitirá concluir que deve dar-se um tipo determinado de semantização” (HAESBAERT, Rogério. O Mito da Desterritorialização: Do “Fim dos Territórios” à Multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2ª ed., 2006). 12 “A configuração territorial não é o espaço, já que sua realidade vem de sua materialidade, enquanto o espaço reúne a materialidade e a vida que a anima. [...] O espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como um quadro único no qual a história se dá. [...] [E] é o lugar que atribui às técnicas o princípio de realidade histórica, relativizando seu uso, integrando-as num conjunto de vida, retirando-as de sua abstração empírica e lhes atribuindo efetividade histórica”. SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: EDUSP, 2002. p. 58, 62-63.

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A capacidade de influenciar lugares não-contíguos, gerando uma alienação dos processos que ocorrem no Lugar (p.80), também poderia ser vista como uma percepção da rede migratória que SAYAD levanta em seus estudos. Quanto aos eventos, lembra SANTOS que “não há evento sem ator” (p.146), e que “os lugares são, eles próprios expressão atual de experiências e eventos passados e de esperanças no futuro” (p.156). Citando o autor, é o Lugar “a sede da resistência, às vezes involuntária, da sociedade civil” (p. 259)13. Por último, o autor ainda clareia a visão na qual a cidade (e quanto maior esta for), atrai pela exclusão dos indivíduos, ou seja, aqueles que teriam algo a esconder (no caso migrante, sua condição jurídico-legal ou social-identitária), encontram nos labirintos de concreto, oportunidades de estarem e não estarem presentes, de fazerem parte daquela identidade a ser construída, mas ao mesmo tempo, estarem distantes da formalidade, onde “os fracos podem subsistir”14.

1.3 A Identidade E A Modernidade

A questão identitária, inerente a discussão do Lugar, leva a compreensão desse elemento, principalmente sob a ótica de dois autores distintos: Zygmunt BAUMAN e Stuart HALL. Adiante, serão analisados os efeitos da dita identidade pós-moderna e da identidade líquida sobre o Lugar Geográfico. HALL15 compreende a existência de uma atual “crise de identidade” na humanidade pós-moderna, advinda de vários fatores onde o trabalho do autor busca visualizar historicamente os deslocamentos da identidade nos indivíduos. O “eu sociológico” (p. 10-11) é o tal “eu” clássico dos estudos sociológicos que interage com a sociedade por completo, sendo fruto e sendo alimentador de um projeto social complexo e estruturado/estruturador. A grande percepção do autor está em compreender que este indivíduo, e, portanto, que esta identidade, compreendia-se perfeitamente em um projeto histórico-espacial, que talvez
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“Por enquanto, o Lugar – não importa sua dimensão – é, espontaneamente, a sede da resistência, às vezes involuntária, da sociedade civil, mas é possível pensar em elevar esse movimento a desígnios mais amplos e escalas mais altas. Para isso é indispensável insistir na necessidade de um conhecimento sistemático da realidade, mediante o tratamento analítico do território, interrogando-o a propósito de sua própria constituição no momento histórico atual” SANTOS,Ibid. p.259. 14 SANTOS, Ibid., p.322. 15 HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 7ª ed., 2003.

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pudesse citá-lo como um projeto europeu dos séculos XVIII e XIX, onde “a identidade, então, costura (ou, para usar uma metáfora médica, ‘sutura’) o sujeito à estrutura [social]” (p. 12). De fato, para o sujeito pós-moderno, este projeto é só uma fantasia. Ainda que sistemas de significação e representação cultural se multipliquem, ampliam-se também as multiplicidades de identidades possíveis – as quais o migrante poderia se identificar ainda que temporariamente (p. 13). Enquanto o trabalho da Sociologia nos séculos XVIII e XIX caracterizava o sujeito sociológico intrinsecamente envolvido na sociedade, como membro pertencente ao contexto social – como se fosse impossível imaginar este mesmo sujeito fora da sociedade – o indivíduo pós-moderno encontra-se em oposição a este pensamento. A realidade do sujeito pós-moderno cria uma identidade isolacionista, exilada ou alienada, “colocado contra o pano-de-fundo da multidão ou da metrópole anônima e impessoal” (p. 32)16. BAUMAN17 vislumbra que a identidade na era pós-moderna, torna-se fluida. Dentre o observado, pode-se entender que “os fluidos são assim chamados porque não conseguem manter a forma por muito tempo e, a menos que sejam derramados num recipiente apertado, continuam mudando de forma sob a influência até mesmo das menores forças. Num ambiente fluido, não há como saber se o que nos espera é uma enchente ou uma seca – é melhor estar preparado para as duas possibilidades” (p. 57). Compreende o autor que a necessidade por uma busca identitária vem do “desejo de segurança”: ainda que seja um sentimento ambíguo, vazio e cheio de promessas e premonições vagas, este pensamento permite aos migrantes uma possibilidade de ancoração em um espaço sociológico pouco definido, um “entre aqui e ali”, ou como o autor chama, um “nem-um-nem-outro”. BAUMAN também lembra que uma posição fixa traz a sensação de aprisionamento e isolacionismo, sentimentos combatidos pelo modernismo/pós-modernismo (p. 35). Se então, a identidade pós-moderna é tão necessária aos indivíduos e, ao mesmo tempo, tão insipiente na construção de uma saciedade, por uma única fonte, apreende-se a infeliz constatação que a pós-modernidade estabelece-se nos indivíduos através de grandes variáveis, de momentos de identificação, alternados com momentos de busca por essa
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“As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da representação. [...] As culturas nacionais são uma forma distintivamente moderna. A lealdade e a identificação que, numa era pré-moderna ou em sociedades mais tradicionais, eram dadas à tribo, ao povo à religião e à região, foram transferidas, gradualmente, nas sociedades ocidentais, à cultura nacional. As diferenças regionais e étnicas foram gradualmente sendo colocadas, de forma subordinada, sob aquilo que Gellner chama de ‘teto político’ do Estado-Nação, que se tornou, assim, uma fonte poderosa de significados para as identidades culturais modernas” HALL, 2003, p. 48-49. 17 BAUMAN, Zygmunt. Identidade: Entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

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identificação – e o que mais poderia destacar-se: existiriam momentos de aceitação, de luta, e de negação de identidades. BAUMAN trabalha com a idéia que as identidades poderiam também ser criadas por grupos mais poderosos ou mais influentes, naqueles onde o poder e/ou a influência lhes falta: uma identidade criada pelo grupo mais influente dentro da sociedade, ditaria o tipo de identidade que os menos influentes teriam, gerando formas de ver aquele grupo menos favorecido e, principalmente, formas de lidar com o grupo menos favorecido. Compreende-se que nestes fatores não cabem as escolhas feitas pelos menos favorecidos, mas a imposição daqueles que influem ante aos demais sujeitos na sociedade. BAUMAN18 acredita que os “sem-Estado”, ou “sans-papiers”, dividem as mesmas mazelas, ou até situações ainda mais constrangedoras. O trecho acima nos traz a compreensão de que os migrantes, principalmente os ilegais, compartilhariam desta mesma problemática. Ainda sobre a identidade, TORRES19 escreve, referindo-se ao estudo de Edward Said20 que o hibridismo de culturas é um fator predominante nas nações modernas – o que gera as propostas de estudos em multiculturalismo – no que a autora denomina as “formas outras de contar”.

1.4 O Lugar do Migrante

Os autores citados aqui descrevem uma outra forma de ver o espaço geográfico, em busca de uma percepção dual de uma problemática referente aos estudos migratórios. De um lado, a percepção economicista dos estudiosos clássicos acarretaria em uma aproximação teórica de um mundo sem fronteiras, de adequação de matérias e de trabalhadores, em uma profunda crença na ordem perfeita, ou como diria SANTOS21, um “Mundo tal como nos
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“[...] Outra categoria que está encontrando o mesmo destino são os refugiados – os sem-Estado, os sans-papiers –, os desterritorializados num mundo de soberania territorialmente assentada. Ao mesmo tempo em que compartilham a situação da subclasse, eles, acima de todas as privações, têm negado o direito à presença física dentro de um território sob lei soberana, exceto nos [...] campos para refugiados ou pessoas em busca de asilo a fim de distingui-los do espaço em que os outros, as pessoas ‘normais’, ‘perfeitas’, vivem e se movimentam” BAUMAN, Ibid, p. 46. 19 “[...] Segundo Said, é, em grande medida, devido aos impérios que as culturas se envolvem umas com as outras, gerando as culturas híbridas, heterogêneas, das nações modernas. Esse dado é particularmente pertinente em se tratando dos estudos sobre multiculturalismo, já que esse é, sem dúvida, o paradigma com o qual teremos de lidar aqui: o entrecruzamento de histórias nacionais, a partir da conquista, da migração e das diásporas dos povos sobre o planeta, gera ‘formas outras de contar’” TORRES, Sonia. Nosotros in USA: literatura, etnografia e geografias de resistência. Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro: 2001, p. 11, grifo da autora. 20 Refere-se a obra Culture and Imperialism, 1994. 21 SANTOS, Milton. Por Uma Outra Globalização: Do Pensamento Único À Consciência Universal. Rio de Janeiro: Record, 13ª ed., 2006.

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fazem crer”. Por outro lado, a crítica às visões clássicas, permite questionar tal perfeição e uma cortina de mentiras cai, quando se analisa a verdade dos migrantes, sua re-organização e estruturação, e quando se coloca em seu Lugar, revendo todas as suas estruturas sociais. A este momento, descobrimos o “Mundo como ele é”. Tais momentos, descritos pelos teóricos clássicos, pertencem a uma lógica espacial interessante e da qual não se deve fazer uma crítica infundada. O problema de tais teorias é que estas persistem até hoje, em campos diversos (como a citada Economia), em busca da compreensão de eventos sociais, através somente de fórmulas, com soluções matemáticas para circunstâncias abstratas. TOBLER (1994) levantou tais questões, como sendo práticas de Estados-Nacionais (a criação de agências governamentais específicas para o tratamento do sujeito-migrante; políticas públicas, cotas, “loterias” e todo um arcabouço estatal e algumas vezes interministerial/intersecretarial), em prol da defesa de seus territórios (algumas obras citam a defesa militar, outros alfandegária, etc.). Tais argumentos ganharam mais força após os incidentes de 11 de Setembro de 2001 nos EUA quando, por conta de uma política de segurança, voltou-se a aplicar antigos pensamentos em novos problemas. Todavia, existe uma percepção de que o mundo é livre, que as fronteiras não existem. Essa fábula do mundo globalizado, vendido e retransmitido a todos os cidadãos do mundo, alude uma inverdade onde somente o capital tem tido essa possibilidade: ainda se sonha com um mundo onde haja a livre circulação de pessoas e onde indivíduos possam estar em busca de melhores oportunidades de vida onde queiram. Por essa razão, muitos ainda abandonam seus Lugares de Origem em busca de novos espaços, de novas identificações. Ao encontrarem-se nestes novos Lugares, os migrantes se deparam com a realidade de políticas de exclusão, com formas sociais segregadoras e estratégias de repulsão. Neste momento, os migrantes buscam, através de seus pares, formas de reestruturação social e construção de um novo arcabouço, uma rede de solidariedade capaz de auxiliar na manutenção naquele novo Lugar. Mesmo que se esteja tratando de nacionais, de indivíduos excluídos da grande massa social, ainda aqui se encontram formas hierárquicas de controle, dominação, exclusão: aprende-se a perversidade da globalização. Edward Said, comentando sobre a obra de Samuel Huntington 22 no The Nation em 200123, levantava, que a concepção de um mundo em choque, ainda mais um choque “civilizatório”, é uma visão um tanto superficial da realidade do mundo para uma obra que se permitia considerar como representativa de toda a política global séria, nos anos seguintes.
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HUNTINGTON, Samuel. O Choque das Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997. Cf. http://www.thenation.com/doc/20011022/said, acessado em 27 de Outubro de 2005.

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De fato, Huntington permitiu a elaboração de pensamentos, políticas e ações baseadas em um sistema determinista de práticas “civilizatórias”, onde de certa forma se percebe um subjugo pelas “civilizações” claramente superiores, como a norte-americana e a européia. A observação de Said diz, sobre a presença de mulçumanos na Europa, que “se deve conceder que o Islã não está mais posicionado nas margens do Ocidente, mas no seu centro. Mas o que há de tão aterrorizante sobre esta presença?”. Guardando a temporalidade deste texto, escrito logo após os incidentes em 11 de Setembro de 2001, a pergunta de Said se refaz em relação aos migrantes nos EUA – o que tanto amedronta a presença migrante? BROWNE24 pergunta-se o contrário: “Precisamos de uma Imigração em Massa?” é o título de sua obra, que perpassa afirmações ora baseadas em Huntington, ora em discursos que lembram proposições anti-sionistas da Alemanha nazista. AUSTER25 combate a idéia do multiculturalismo, que poderia levar ao “suicídio” da nação. Considera-se que tais proposições são alarmistas e não buscam de fato um estudo que compreenda o fenômeno em sua integridade. De fato, DINNERSTEIN & REIMERS26, em um longo trabalho de compreensão do processo migratório nos EUA, compreendem que houve momentos na história daquele país onde alguns migrantes foram queridos em detrimento a outros. As diferenciações entre migrantes eram basicamente relativos à sua origem e a sua adaptabilidade a cultura norteamericana. Os autores ainda lembram que a discriminação não era somente racial, mas cultural, quando inferiorizava-se a cultura do outro. Percebem-se claramente esta prática quanto aos migrantes advindos pelo “sul da fronteira”, neste caso, os latino-americanos. Em busca de uma outra globalização, a Geografia, compreende as estruturas excludentes, como inerentes a um sistema capitalista destrutivo e endêmico em sua formação, e em simpatia com os migrantes brasileiros pelo mundo, entende a dificuldade de adaptação e do refazer o Lugar no estrangeiro.

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BROWNE, Anthony. Do We Need Mass Immigration?: The economic, demographic, environmental, social and developmental arguments against large-scale net immigration to Britain. Londres: Civitas: Institute for the Study of Civil Society, 2002. 25 AUSTER, Lawrence. The Path to National Suicide: An Essay on Immigration and Multiculturalism. Charles Town, WV, EUA: Old Line Press, 1990. 26 DINNERSTEIN, Leonard; REIMERS, David M. Ethinic Americans: A History of Immigration. Nova York: Columbia University Press, 4th ed., 1999.

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Capítulo 2: LÁ VISTO DAQUI

2.1 A Construção Do Ideário De Ida: Como Se Vê O Mundo De Lá

Há muito, o Brasil era visto como um país receptor de migrantes internacionais. No entanto, após mudanças significativas nos números que representam a chegada e saída de migrantes, a contar principalmente dos anos 1980, percebeu-se que o Brasil tornou-se um país de emissão e não somente de recepção de migrantes. Recentemente, órgãos competentes de políticas públicas desta alçada confirmaram ser o Brasil um país de emigrantes 27. Calcados nas teorias clássicas, os estudos levantados permitiram uma personificação dos emigrantes brasileiros como aqueles que contribuem através do envio de divisas28. Tal retrato economicista, apoiado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil (MRE), permite notar que os brasileiros migrantes “bem sucedidos”, recebem apoio, acompanhamento e atenção das autoridades de origem, enquanto aqueles em situação irregular ou “mal sucedidos” são relegados ao abandono e esquecimento. Na contramão desta constatação enfadonha, brasileiros deslocam-se para os EUA em busca de vários sonhos: financeiro/econômico, social, político. O imaginário de uma sociedade perfeita ou melhor do que o Lugar de Origem perpassa a mente dos migrantes. Há necessidade do qualitativo – o sonho migrante só se instaura quando, dentro das possibilidades de sobrevida no Lugar de Origem, a saída se torna uma alternativa viável29. No estudo de PASTORE30, quando se analisava Brasília, compreendeu-se que o estado relativo de satisfação influenciava o deslocamento até aquele novo ambiente, e com as circunstâncias favoráveis ou não, a satisfação seria, novamente, a responsável pela manutenção do migrante no novo Lugar31. Tais variantes tinham como estrutura os
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Ainda há fluxo de chegada de migrantes no Brasil, mas conforme FIRMEZA (2007), desde a última década, o fluxo de saída de brasileiros é maior que o número de chegada de estrangeiros. 28 FIRMEZA, George Torquato. Brasileiros no Exterior. FUNAG, Brasília, 2007. 29 MATA, Milton da. Urbanização e migrações internas [1973]. In: MOURA, Hélio A. de (org.) Migração interna: textos selecionados. Fortaleza: BNB, 1980, p. 807-844. Cf. PASTORE, José. Brasília: A cidade e o homem: uma investigação sociológica sobre os processos de migração, adaptação e planejamento urbano. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1969. 30 PASTORE, Ibid. 31 Não ignora-se que as visões de SAYAD levantem outra percepção desta dinâmica migratória, mas as observações de PASTORE são também enriquecedoras ao debate.

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julgamentos de valor do migrante em relação às condições encontradas no novo Lugar. Podese compreender que tais julgamentos referem-se, de forma simplificada, a modelos comparativos: o migrante julga o Aqui e o Lá, ou seja, o que Aqui tem de melhor e o que Lá pode oferecer. Tais comparações, no entanto, não implicam em valores econômicos somente. Algumas observações podem levantar outros fatores (morais, sociais, ou quaisquer outros), forçando uma visão além da clássica. Os estudos anteriormente citados, feitos sobre essa dinâmica, caminham por diferentes perspectivas, na visão do que esperar do Lugar de Destino, ainda no Lugar de Origem. Não é nesse conformismo, de que a motivação é simplesmente econômica, que este estudo se baseia. Na verdade, busca-se a compreensão de que a manutenção da qualidade de vida seja o motivador real maior, ainda que possa ser constatado que, em alguns casos, esta melhoria da qualidade de vida32, de forma específica, concreta, não seja perceptível. Sendo assim, a tal melhoria é atrelada a valores que possam estar de certa forma em maior importância para o migrante e, assim, quantitativamente, terem menor valor econômico. A abstração de valores, nestes casos, permite uma dinâmica ainda mais complexa, a qual esse estudo não tem o objetivo de abranger por completo, senão por efeito de análise diferenciada dos demais estudos clássicos do tema.

2.2 As Redes Antes Da Partida

Contando com estudos já realizados33, percebe-se uma ênfase maior a redes sociais familiares, onde, por comunicação através de familiares diretos (de primeira grau, como filhos/as, pais, irmãos/ãs; de segundo grau, como tios/as, primos/as, sobrinhos/as) ou membros de círculos sociais no Lugar de Origem (como amigos, vizinhos, conhecidos de uma forma geral), são estabelecidos os fatores motivacionais para ida ao Lugar de Destino. De fato, redes assim são visíveis em Lugares de Destino que possuem historicidade mais antiga e número considerável de indivíduos para que esses contatos se concretizem. A estes Lugares de Destino, com essas especificidades, chama-se comumente de “colônias de
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Acreditando-se que por “qualidade de vida” o indivíduo também busque segurança física, melhores redes de educação, lazer, cultura e outros aspectos que não são somente mensuráveis economicamente. 33 Cf. REIS, Rosana Rocha; SALES, Teresa (org.) Cenas do Brasil Migrante. São Paulo: Boitempo, 1999.

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imigrantes”. Este termo não será utilizado neste trabalho, por não adequar-se a realidade dos migrantes brasileiros no estado do Arizona, EUA. Ainda assim, redes sociais familiares, que incluem membros diretos e membros de círculos sociais próximos, têm pouca ou nenhuma influência fora de aglomerados de migrantes. Um fator determinante da migração brasileira nos EUA é sua formação histórica34, onde se observa três grandes aglomerados (nos estados de Massachussets, Flórida e Califórnia), mas o fato de mais de 40% dos migrantes brasileiros no exterior estarem concentrados naquele país35 permite questionar até que ponto tais redes sociais familiares são responsáveis pela migração. Este estudo tenta concentrar-se em um único estado, o do Arizona, onde as redes familiares ainda são pífias, se comparados com outros estados americanos. Com uma população estimada entre quatro e cinco mil brasileiros ali residentes 36, o Arizona possui como atrativo, a concentração de resorts de luxo sem a necessária mão-de-obra qualificada, para determinadas funções. “Agências de intercâmbio” (verdadeiras agências de emprego) instaladas em diversas cidades do Brasil, permitiram uma maior visibilidade daquele espaço como atrativo de uma migração de brasileiros qualificados ou semi-qualificados em busca de um tipo de sonho americano. O baixo custo de vida, uma boa qualidade de vida, a ampla utilização da língua espanhola (mais de 25% dos lares no estado, bem como vários serviços públicos, utilizam alguma outra língua que não o inglês37, em 2000) em associação com uma população americana mais tolerante a migração (mais de 30% do estado é de origem hispana/latina e mais de 12% são nascidos fora dos EUA38, em 2006), e ainda, a quase ausência do frio e da neve no inverno, atraem alguns brasileiros. Ainda é insignificante a quantidade de brasileiros que seguem para o Arizona, se comparados aos que ficam pela Flórida, Califórnia ou Massachussets. Ainda assim pode-se considerar uma tendência. Vale lembrar, que tais “agências de intercâmbio” oferecem oportunidades que a migração por meio ilegal não permitiria, ou seja, garantia de emprego, moradia e documentos (visto consular prévio e contrato formal de trabalho, locação de residência, Social Security
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Cf. REIS & SALLES, Ibid. FUSCO, Wilson. Migração e Redes Sociais: a distribuição de brasileiros em outros países e suas estratégias de entrada e permanência. In: MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES – Subsecretaria-Geral das Comunidades Brasileiras no Exterior. Brasileiros no Mundo: I Conferência sobre as Comunidades Brasileiras no Exterior. Rio de Janeiro: FUNAG, 2008, p.159-180. 36 Estimativa do autor. 37 Cf. http://quickfacts.census.gov/qfd/states/04000.html, acessado em 30/12/2008 Cf. ref. anterior 38 Cf. ref. anterior
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25
Number, que é o Cartão de Seguridade Social), além da possibilidade de obter carteira de identidade/habilitação nos EUA. Esse tipo de Agenciamento tem feito com que a minoria dos brasileiros no Arizona encontre-se do outro lado da lei. Ainda assim, redes de apoio a migração ilegal no Brasil (os chamados “coyotes”), utilizam como uma das rotas preferenciais, a travessia do Deserto de Sonora (ao sul do estado) como possível entrada entre o México e os EUA. Alguns desses ilegais presentes no Arizona encontram-se de passagem, muitas das vezes com destino já acertado para outros estados, definidos antes da saída do Brasil.

2.3 As Esperanças Que Se Encontram Lá

A construção do ideário americano, ainda no Brasil, pelo contato com a experiência daqueles que lá já estiveram, pode neutralizar qualquer diferença sócio-econômica que venha a ser encontrada naquele país. Migrantes brasileiros que se destinam ao Arizona, na maioria dos casos, não detêm nenhuma ou quase nenhuma informação sobre o que podem encontrar no local de Destino. As imagens trazidas geralmente refletem clichês hollywoodianos, haja visto que o Arizona é composto basicamente de clima desértico, vegetação arbórea e cactácea, de sociedade extremamente “mexicanizada” (TORRES, 2001), e de miscigenações que descaracterizam o estado como um “típico estado sulista americano”. Aliás, americanos naturais do Arizona denominam-se como do Sudoeste Americano, conjuntamente com a Califórnia, Novo México, Nevada, Colorado e outros. Esta diferenciação ajuda-os a redefinir seu papel e sua posição diante de vários aspectos, inclusive os sociais. Tais antagonismos, visíveis em WEBER (2002a, 2002b) e KNAUSS (2004) em relação à sociedade brasileira (DAMATTA, 1984) refletem-se sobre as obras culturais, principalmente as cinematográficas. As produções cinematográficas mascaram para brasileiros e outros migrantes no Arizona as diferentes realidades possíveis naquele estado. O fato de ter uma organização espacial diferenciada do Lugar de Origem buscam o consolo e a esperança de encontrar carvalhos e gramados verdes. Mas não será esse o único motivo ou esperança que se vai encontrar nesse novo Lugar. Um motivo importante seria o baixo custo de vida (o custo do valor de um imóvel no estado é ligeiramente acima da média nacional - menos de US$ 2.000,00 de diferença -

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enquanto, comparado com a Califórnia, essa diferença é de quase US$ 100.000,0039). Não é uma volta as concepções tradicionais da migração, mas uma constatação simples. O custo de vida nos EUA difere, e muito, do mesmo custo no Brasil. A realidade de fatos e dinâmicas cotidianas diferenciadas antes mesmo da chegada no Arizona, faz com que grande parte dos migrantes busque algum tipo de contato com pessoas que vivam naquele Lugar – não necessariamente brasileiros. O sítio de relacionamentos “ORKUT40” é um exemplo. Em uma pequena pesquisa, foram encontrados nove grupos de relacionamento com palavras que envolvam “brasileiros no exterior” e “Arizona” (ou “Phoenix”41). De forma simplificada, o custo de vida no Arizona pode ser mais barato do que aquele na Califórnia. As “agências de intercâmbio” geralmente apresentam o Arizona como sendo um lugar mais calmo que a Califórnia e mais seguro. As fotos geralmente apresentadas em encontros e reuniões, mostram uma Phoenix “verde”42, onde os resorts, que os contratados irão trabalhar, são cheios de jardins, árvores, lembrando uma quase paisagem tropical. Tais elementos, justificados geralmente pelos contratantes americanos presentes às agências, nos “períodos de contratação”, permitem florear ainda mais esta fantasia. Os brasileiros aqui contratados adquirem esperanças sob várias formas. A imagem que se vende: o salário pretendido (já saem do Brasil sabendo o quanto irão ganhar em carta assinada pelo contratante), a certeza de moradia (o contrato é pré-acordado entre a empresa contratante e o trabalhador contratado)43, entre outras “maravilhas”; são postas diante de um indivíduo sedento por mudança, por experiência, por vivência no exterior44. Adiciona-se o elemento profissional (aperfeiçoamento da língua inglesa, “imprescindível” no mercado de trabalho no Brasil), a experiência de vida no exterior e os elementos familiares (já que grande parte desses trabalhadores é jovem, entre 18 e 35 anos45, e alguns ainda mantêm-se convivendo com os genitores aonde a ida aos EUA lhes dará “independência”).

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Cf. ref. 30 www.orkut.com.br 41 Seriam estes grupos: “I live in Arizona”, “Phoenix, AZ” – estas, apesar de não serem diretamente ligadas aos brasileiros, tinham tópicos em português, por brasileiros residentes ali; “Tô com saudades do Brasil”; “Noite Latina na Axis/Radius” – que é uma discoteca muito famosa em Scottsdale; “Brasileiros no Exterior”; duas comunidades com o nome de “Brasileiros no Arizona”, e outras duas com o nome “Brasileiros nos EUA”, acessados em 29/12/2008. 42 Phoenix, capital do Arizona, tem muitos campos de golf (185) em comparação com a maioria das cidades dos EUA. Cf. http://www.phoenixgolfsource.com, acessado em 29/12/08. 43 Estas afirmativas não são contrárias ao que já foi afirmado, já que as categorias mencionadas são indispensáveis na reprodução básica da vida no exterior, e se comparados aos padrões dos migrantes antes da partida, ficam de certa forma aquém a alguns indivíduos mais possuídos aqui no Brasil. 44 PASTORE (1964) trata desse “ânimo” em migrar no livro aqui já citado. 45 São as idades limites para o visto do tipo HB (“Home-Business”), que é o visto de trabalho. Variam-se entre H1B e H2B, de acordo com o pedido do empregador. Ao todo, são quase 100 tipos diferentes de visto possíveis emitidos pelos órgãos consulares dos EUA.

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2.4 O Lugar De Lá É Melhor Que O Lugar dAqui

Todo esse esforço de des-re-construção dos Lugares, nos ideais dos jovens migrantes, permite uma configuração típica dentro do pensamento miltoniano, de um “como nos fazem crer”. Na elaboração deste trabalho, percebe-se que mais e mais indivíduos são levados a crer que o Lá é melhor do que o Aqui; e o Lugar de Destino passa a ser a única opção, ainda que o Lugar de Origem pudesse satisfazê-los de forma direta e indireta. A troca ou mudança para um novo Lugar de Destino, como vontade e possibilidade de alteração dos padrões de vida, trazem experiências, ora frustrantes, ora solidárias. Como SAYAD (1998) e PASTORE (1969) levantaram, ainda que quantitativamente as frustrações tenham sido maiores, qualitativamente a satisfação dos que obtiveram sucesso – ou em um termo bem “americanizado”, os vencedores – terão força diante do sonho de fazer uma outra América. Uma América desconhecida, mas que não pode ser tão diferente quanto a América dos sonhos hollywoodianos, tampouco é um lugar como Aqui. Por ser Lá, não importando como Lá seja, a ida é sempre melhor que a permanência. Com o objetivo de tornar este trabalho mais condescendente com o empirismo dos migrantes, buscou-se restabelecer uma rede social que o autor havia participado quando viveu na região metropolitana de Phoenix, Arizona, entre os anos 2003 e 2006. Foi elaborado um email padrão (Anexo I) que buscava reestabelecer esse contato, buscando um ponto de confiança onde relatos pudessem refletir o máximo da realidade dos indivíduos-migrantes. Do total enviado de 155 emails, incluindo a postagem do citado email em dez comunidades supracitadas (na nota 41) da “rede social” ORKUT, obteve-se três respostas. Relatos tratam de um sonho, que poderia ter sido adiado, mas não esquecido. Um relato especificamente trata de uma persistência, reconhecendo que a permanência no local de Origem já não traria a satisfação necessária ao futuro migrante. No relato, G. 46 levanta que, ainda que tivesse emprego “bom”, persistiria o desejo de migrar como forma de encontrar um novo espaço de realização de sonhos. A concretização teria sido atrasada um pouco, por conta de um relacionamento amoroso que, tão logo demonstrou-se instável, reacendeu o desejo e reforçou a decisão de migrar. T. também conta que o seu sonho teve início na infância, quando teve a chance de fazer uma viagem à Disney World (Orlando, Florida) e outros destinos. A partir daquele
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Utiliza-se somente a inicial dos nomes dos migrantes na pesquisa.

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momento, segundo sua narração, “[..] fiquei fascinada pelo país e pela língua. Assim que voltei ao Brasil, quis logo começar a aprender inglês, e aos 14 só lia em inglês, mesmo sem entender metade dos livros! Sempre quis vir para cá passar mais tempo, mas minha família não permitia [...]”. Em contradição com os jovens migrantes de visto HB, T. teve sua ida auxiliada por familiares (uma tia que fazia pós-doutorado), ainda assim sem definição de estadia prolongada. Percebe-se na história contada pela migrante, uma intenção de mudar ainda muito cedo e uma persistência nesse desejo. E assim, caminha-se para a percepção de um movimento que carrega em si a essência dos indivíduos que nele participam: as experiências e frustrações são postas de lado, na busca de um novo espaço de realizações, algo mais do que as “expectativas temporais socialmente determinadas” de MERTON47. A percepção do movimento, como uma estrutura social, temporal e espacial, é o que faz a humanização de uma lógica desumana, falsa, que pretende iludir indivíduos, em prol de um mundo que se vê, uma globalização como nos fazem crer.

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MERTON apud SALES, Teresa. Identidade Étnica entre Imigrantes Brasileiros na Região de Boston, EUA. In: REIS, Rosana Rocha; SALES, Teresa (org.) Cenas do Brasil Migrante. São Paulo: Boitempo, 1999, p. 17-44.

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Capítulo 3: LÁ VISTO DE LÁ

3.1 Chegando Lá: Moradia, Emprego e Rede Social Imediata

A construção da imagem do Lugar de Destino, ainda no Lugar de Origem, permite uma aceitação de diferenciações do plano original de sociedade a se inserir, e tais amenidades que antes eram o motivo de aceitação da diferença entre essas idéias, tornam-se por si próprias as únicas estruturas tangíveis entre o que se busca e o que se obtém. O projeto migratório do indivíduo encontra uma lacuna entre o que se diz ser Lá e o que é Lá, e com isso, a busca da satisfação reestrutura-se para adequar-se ao que foi conseguido, numa espécie de aceitação da nova realidade. Tal aceitação perpassa os fatores positivos encontrados no novo Lugar, mas os negativos também e assim como a aceitação dos fatores positivos deixados no Lugar de Origem, antes negligenciados em prol do projeto de migrar. ZHOU48 compreende que há um momento de assimilação da população migrante no contexto da sociedade em que se insere e, eventualmente, a absorção de valores sociais, econômicos e culturais, ainda que outros estudos levantados, também pelo autor, contradigam tais pensamentos. A verdade está na percepção de cada caso e independe do indivíduo migrante, mas do contexto social de onde se origina o migrante e para onde, como e quando o migrante chega no Lugar de Destino. As redes sociais migratórias do tipo familiar, como comentado, permitem ao migrante estabelecer-se quando ainda no Lugar de Origem, e antes de sair deste, na medida que o migrante sabe ou tem a possibilidade de saber, onde irá morar, trabalhar e se relacionar. Com o migrante de “agência de intercâmbio”, esta certeza é ainda maior, já que são firmados contratos e os documentos pertinentes – visto e autorização da United States Customs and Immigration Services (USCIS, Serviço de Alfândega e Imigração dos EUA, sigla em inglês), que são firmados antes da partida.

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ZHOU, Min. Immigrants in the US Economy. In: MASSEY, Douglas S.; TAYLOR, J. Edward (org.) Internacional Migration: Prospects and Policies in a Global Market. Oxford University Press, Londres, 2004.

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O sistema de trabalho de migrantes, através de “agências”, tem um pequeno ponto de crueldade: enquanto a “agência” e a empresa contratante são responsáveis e providenciam algum tipo de moradia, muitas das vezes tal moradia não é gratuita, sendo pactuada de acordo com a necessidade do contratante, geralmente fugindo do escopo do que o migrante será capaz de manter, em vista do custo, da distância ou de ambos. Sendo assim, mesmo com o emprego garantido, o migrante pode se encontrar em uma situação de exploração máxima. O salário, as leis trabalhistas, a condição legal atrelada ao empregador, tornam-se facetas de um momento de chegada a uma terra estranha, a um Lugar que já começa a se mostrar hostil. Como a forma de remuneração do trabalho é diferente nos EUA em relação ao Brasil, cai-se na ilusão de que se poderá “fazer a América” bem rápido. De fato, ignora-se a realidade do custo de vida e a diferença cultural entre o Aqui e o Lá, que necessita ser ajustado pelo migrante. Adapta-se melhor a esta lógica o migrante que compreende a diferença identitária dos indivíduos que o cercam e, com eles, assimila o novo espaço a ser vivido. No tocante às leis trabalhistas, vale lembrar, que no estado do Arizona são estabelecidos: um piso salarial um pouco acima do federal; possibilidade de férias remuneradas (após um ano de trabalho e a critério do empregador) e previdência social federal – que no caso dos migrantes, é vedada. Em verdade, constata-se que os trabalhadores são postos de lado, os sindicados são insipientes, ineficazes e desencorajados pelo governo de uma forma geral. Aqueles que caminham na compreensão de um movimento social são simplesmente expurgados das sociedades receptoras49. De fato, a presença migrante enseja uma dinâmica interessante, ainda que marginalizante. Essa presença em um espaço urbano possibilita a redução direta do custo de vida50, já que pode ser notada nos EUA a baixa renda dos latinos ali residentes 51. É aterrorizante a constatação de que entre 10 e 15 milhões de pessoas naquele país se encontram em situação migratória irregular, contabilizando uma massa humana crescente e em constante empobrecimento relativo. E quando o migrante sai do Brasil em busca do empregador americano, se depara com uma forma de controle que é não só a o dos órgãos competentes – USCIS, Federal Bureau of
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Cf. www.dailymail.co.uk/news/article-1085759/Economic-benefits-mass-immigration-close-zero--Lords-told.html, acessado em 14 de Novembro de 2008. 50 Cf. ZOLBERG, Aristide R. Bounded States in a Global Market: The Uses of International Labor Migrations. In: BORDIEU, Pierre; COLEMAN, James S. (org.) Social Theory for a Changing Society. Westview Press, Nova York, 1991. 51 Cf. KOCHHAR, Rakesh. Sharp Decline in Income for Non-Citizen Immigrant Households, 2006-07. Washington, D. C.: Pew Hispanic Center, 2008. Disponível no endereço www.pewhispanic.org.

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Investigation (FBI, ou Escritório Federal de Investigação, em inglês), Immigration and Customs Enforcement (ICE, ou Reforço Imigratório e Aduaneiro, em inglês), a polícia da cidade e do condado – mas também do empregador. É conhecido que o papel do Estado foucaultiano seja assim e a corporação pós-moderna caminha para esse controle mais efetivo e incisivo sobre o trabalhador. Entretanto, as condições do migrante sob visto HB nos EUA determinam que, se o migrante ausentar-se do trabalho sem justificativa, o empregador é obrigado a notificar o USCIS, que emitirá o pedido de extradição e deportação. Esta informação não é dada anteriormente a chegada aos EUA na maioria dos casos. Esse arcabouço de estruturas marginalizantes, faz com que o migrante perceba que o sonho de uma América para todos, não se reflete na realidade excludente daquele país. Se, então, a estrutura apresentada não permite flexibilidades e adaptações ao viver do migrante, faz-se necessário, se não vital, buscar um espaço onde a realidade possa ser refeita, ao menos, onde possa ser confortável e possibilite um rearranjo dos planos que trarão a satisfação no novo Lugar.

3.2 Novos Relacionamentos: Brasileiros, Hispânicos e Americanos

Ao migrante cabe compreender, então, que a transformação que passará da saída do Lugar de Origem e suas estruturas sociais, ao Lugar de Destino, são de extrema importância, neste último, como estratégia de readaptação. Permite-se este pensamento: o adaptar-se é necessário Lá, ainda que esta adaptação não requeira o se entregar àquela lógica, mas, sim de se integrar a mesma. A esta integração, os limites individuais geram respostas diversas (de como este tecido social foi feito/refeito). Existem aqueles que, no Arizona, pela dificuldade da barreira lingüística, se permitem estar numa rede muito diminuta de indivíduos falantes da mesma língua – brasileiros e lusófonos. Tais indivíduos encontram uma possibilidade extremamente limitada de apoio, ainda mais em um estado onde brasileiros são poucos, pouco articulados e pouco influentes. São incipientes as empresas de brasileiros no estado52, de modo que, têm uma grande

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Numa pequena busca no portal local do Yahoo! Phoenix foram encontradas 15 empresas – restaurantes, clínicas de dermatologia e academias de lutas. Cf. http://local.yahoo.com/results?p=brazilian&fr=&sortby=&csz=Phoenix% 2C+AZ&flnstr=&flsstr =&ppg_nm=1&pg_nm=2&xargs=&start =10, acessado em 29/12/2008.

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vantagem aqueles que mesmo não dominando a língua espanhola, se aventuram com as redes de relacionamento hispânicas. A maioria não-branca no estado do Arizona é de etnia hispânica, detendo uma possibilidade muito maior de obter informações acerca de moradia de baixo custo, alimentos e localização de toda uma rede de serviços que não é disponibilizada aos migrantes quando chegam. Grande parte dos serviços prestados no estado do Arizona pode ser obtida em espanhol, se não, com algum tipo de tradutor disponível (algum funcionário que fale ambas as línguas ou até mesmo um migrante que se dispõe a ajudar). A rede de contatos hispânica é mais solidária que a brasileira no Arizona, mais por conta da historicidade daquele grupo social do que realmente um fator de “repulsa” que alguns brasileiros dizem haver entre nacionais. O domínio da língua inglesa permite uma dinâmica social mais ampliada, possibilitando o diálogo entre o migrante e o contratador, ainda que sobre o migrante estejam todos os demais agentes repressores. O que precisa ficar claro é que alguns contratos de trabalho assinados, ainda no Brasil, podem ser categorizados como perversos, escravizando o migrante e impossibilitando o retorno antes de seu prazo final. Negociações feitas nos EUA poderiam levar a uma demissão com extradição ou a uma revisão das propostas de trabalho do migrante com redefinição de tarefas, mas, geralmente acontece o primeiro caso. Tais experiências foram simplificadamente citadas, com base em relatos coletados. A fluência do inglês permite ao migrante, ainda, conhecer como funcionam aspectos culturais da sociedade americana e a aproximar seu novo Lugar ao sonho americano, ainda que distante, do sonho pretendido na partida. A capacidade de relacionamento com americanos anglófonos admite, por exemplo, compreender os códigos de relacionamento e os signos culturais, as leis e regulamentos, o espaço e a história do Lugar de Destino. Essa compreensão mostra-se como vital para a construção de um novo Lugar, entre o Aqui e o Lá. Por questões de afinidade, brasileiros com domínio da língua local, jamais se isolarão dos demais brasileiros. É estimulado um calendário com comemorações típicas do Brasil, como o Brazilian Day, em Nova York (todos os anos, na semana da Independência do Brasil), shows artísticos e diversos eventos esportivos. A presença de artistas brasileiros é rara no Arizona, mas não é difícil ver “caravanas” ou organização de encontros em algum estado vizinho onde haja algum tipo de evento cultural brasileiro (geralmente, à Califórnia).Brasileiros que falam inglês, geralmente estendem suas atividades culturais entre os americanos, independente de suas origens étnicas.

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Ainda que o visto HB não permita a matrícula em uma instituição de ensino, cursos livres não são considerados uma forma de atrelamento a estas instituições. Bibliotecas públicas não são somente pontos de utilização de internet de forma gratuita, mas são também espaços de apreensão do novo, através de livros, revistas, jornais e ainda através de palestras e debates. Espaços públicos se tornam fontes quase inesgotáveis de compreensão do Lugar de Destino, e ainda que o migrante desconheça a historicidade do Lugar ao chegar, permite-se apreendê-la de forma quase impulsiva. Buscar compreender esse Lugar pode ser uma tarefa longa, mas prazerosa, quando o migrante decide por viver o Lugar de Destino. E com a compreensão do Lugar, acompanha-se a compreensão dos códigos e das leis. O que a maior parte, se não a totalidade, dos migrantes desconhecem é que os vistos HB são prorrogáveis, extensíveis a outros empregadores que preencham os pré-requisitos necessários estabelecidos pela USCIS. Dos vários advogados especializados em Direito Imigratório existentes no estado (120 estão cadastrados no sítio do Bureau of Attorneys Association ou BAR53 - equivalente a Ordem dos Advogados do Brasil), alguns ainda trabalham pro labore, dependendo do caso. Vale lembrar que a legislação americana obriga que a primeira entrevista com um advogado de imigração seja gratuita até que o migrante aceite e o advogado concorde com o caso/cliente. Como exemplo cita-se o Condado de Maricopa, onde duas instituições oferecem serviços legais para casos de migração, de forma gratuita54. Acordos de moradia podem ser feitos com maior facilidade e a custos menores, pelos migrantes que dominam a língua local, já que americanos têm certo receio em dividir moradia com não-falantes do inglês. No sudeste do Condado de Maricopa, assim como na cidade de Flagstaff, localizam-se as duas maiores universidades do estado (Arizona State University – ASU e a Northern Arizona University – NAU,), onde uma população estudantil, no entorno dessas instituições, contribui para preços de moradia ligeiramente mais baixos (considerando a divisão das despesas dos moradores do imóvel). Ainda na região metropolitana de Phoenix, outras instituições de nível superior, assim como as Faculdades Comunitárias do Condado de Maricopa, criam outras pequenas zonas de menor custo de moradia.

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Cf. www.azbar.org, acessado em 29/12/08. São elas o Serviço Social Católico e o “Friendly House” (Casa Amiga). Fonte: www.azbar.org, acessado em 29/12/08.

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3.3 O Sonho Brasileiro No Arizona

Desta forma, os brasileiros no estado do Arizona apropriam-se das estruturas oferecidas para concretizarem seus sonhos e desejos. Não se apresenta um espírito aventureiro por si só, tampouco foge-se de grandes calamidades. A estrutura social dos brasileiros no Arizona reflete o papel geral da migração, como a busca de uma melhoria da qualidade de vida. Tal melhoria perpassa, como dito, aos conceitos próprios de cada migrante e a análise de cada historicidade levaria a compreensão de que a identificação com o espaço seria feita de forma única por cada migrante. Tal estrutura de pesquisa fora levantada por SAYAD e muito bem trabalhada por aquele autor, mas, como o escopo desta presente pesquisa é a percepção do uso de conceitos geográficos diante das problemáticas encontradas neste exemplo, ampliam-se as possibilidades da continuidade deste estudo no futuro, quando caminham adiante novas estruturas de análise e de pesquisa. Se porventura forem concebidos elementos mensuráveis, a partir do ponto que são concretizáveis pelos migrantes no Lugar de Destino, veremos que o sonho brasileiro nos EUA e mais especificamente no Arizona, caminha pelo viés da solidificação de uma vida de classe média – aquisição de bens móveis e imóveis – e ainda, o de estabelecimento em uma “terra de oportunidades”55. Grande parte dos brasileiros que se mantém no Arizona encontram-se casados, alguns com filhos nascidos56 nos EUA. Não caberá neste estudo a avaliação da proposição do casamento – se por relacionamento tradicional ou se por conveniência (casamento para o Green Card57). Ainda assim, percebe-se pelos relatos que as notícias referentes a casamentos, nascimentos e na mesma proporção, aquisição de veículos e imóveis, são de grande importância para serem transmitidas aos familiares que ficaram no Brasil58. Em menor grau de importância ou talvez freqüência, os relatos de novos empregos e de conclusões de cursos são noticiados para o Brasil. Outros relatos apontaram um volume menor de notificações de mudanças de emprego, haja vista que a dinâmica empregatícia nos EUA mostra-se bem diferente da realidade
55

Cf. Anexo I. Tais elementos mensuráveis representam uma faceta economicista deste estudo, mas por buscar além, tais aspectos não são tomados como únicas formas de apreender o movimento migratório como sendo somente o da busca de mais bens materiais, mas pela percepção de que haja algo mais do que somente uma satisfação financeira. 56 São chamados “Anchor-Babies” aqueles que têm filhos nascidos nos EUA com intuito de conseguir a não-deportação. Sobre este fenômeno, ver SALES, 1999. 57 Green Card é o apelido que se dá ao Cartão de Residência de Estrangeiros nos EUA, emitido pelo USCIS. 58 Em algumas comunidades mais organizadas nos EUA, estes fatos têm grande importância em pequenos tablóides e outras formas de comunicação social da “colônia de imigrantes”. Sobre este fato, ver SALES, 1999, p. 20.

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brasileira e, com isso, os membros familiares que se encontram distantes desta realidade encontrarem dificuldade em compreender e aceitar essa diferença. Geralmente a aquisição de bens é a “moeda de troca”, quando se compara os relatos entre brasileiros nos EUA e seus familiares no Brasil, estabelecendo-se uma certa quantificação da qualidade de vida Aqui e Lá. A facilidade de aquisição de produtos eletroeletrônicos nos EUA e de gêneros alimentícios no Brasil, seguem como temas comuns entre as conversas através da Internet ou do telefone. O modo preferido de comunicação entre Brasil e EUA é através dos meios eletrônicos. De fato, foi quase unânime a observação de que as mazelas do dia-a-dia no Arizona não são reportadas. Algumas destas o são somente para pessoas de maior consideração e apego na família (como pai ou mãe), mas definitivamente são esquecidas quando se trata de membros mais antigos da família (como avós). Mas ainda assim, fatores que permitem uma reestruturação do migrante – as redes sociais, as falhas legais, a adequação no novo Lugar – fazem do Arizona uma esperança espacializada. A história futura dirá se este Lugar poderá se tornar uma nova base de recepção de brasileiros nos EUA, o qual poderá contar com estruturas sociais mais fundamentadas, se assim for.

3.4 Lá Como Um Novo Lugar

Ultimamente, o sonho migrante brasileiro no Arizona, em especial no condado de Maricopa (no qual a região metropolitana de Phoenix se inclui), tem encontrado mais um agravante: o Xerife Joe Arpaio conseguiu aprovação do Comitê de Segurança Pública para que se possa verificar o status legal de qualquer transeunte, sob qualquer alegação59. Segundo o Xerife, tal procedimento vem ao encontro a uma prática crescente na nação em prol de um melhor controle dos imigrantes ilegais60 e da redução da criminalidade. Somando-se a um quadro atual, onde a escolha da governadora do estado do Arizona, Janet Napolitano para o cargo de Secretária do Departamento de Segurança Doméstica
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“Panel: Stop Arpaio from Immigration Enforcement”, em http://www.azcentral.com/private/cleanprint/?1230455219834, acessado em 27/12/08. O Xerife tem se utilizado do programa federal 287(g), treinando seu pessoal para tais abordagens conforme critérios da USCIS. “Opinion: State of Fear”, Editorial do New York Times em 08 de Dezembro de 2008. Cf. http://www.nytimes.com/2008 / 12/08/opinion/08mon2.html?ref=opinion, acessado em 27/12/08.

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indicaria uma política migratória a ser adotada pelos EUA no governo Obama, poderíamos desafiar as expectativas de grupos pró-imigrantes em um futuro otimista por essência61. Napolitano já esteve entre a adoção de políticas pró-imigrantes e contrárias aos mesmos e a indicação desta governadora para um cargo de renome pode mudar o foco da atuação da problemática pela esfera da União62. Basta lembrar que no próprio estado do Arizona, com o apoio da governadora, o Xerife Arpaio começou sua política de repressão migratória beirando preceitos racistas63. Observa-se cada vez mais o aumento no número de deportações64, o que caminha para a conclusão que a sociedade americana é cada vez mais excludente e xenófoba65. A questão da melhoria da qualidade de vida desses migrantes encontra uma nova variante, na consideração de que policiais locais podem checar status migratório e manter sob custódia por até 48 horas até a chegada de algum agente federal. Ainda que se considere que o status dos migrantes em sua maioria fosse legal, tal embaraço, acompanhado da insegurança daqueles que não o são, podem levar a um stress social e provocar uma repulsa por este Lugar. Não há como negar tal fator. Na contramão, pensando no momento da saída do Brasil, pensa-se em várias possibilidades, vários “a fazer” em uma terra relacionada com a esperança e a vontade de melhorar de qualidade de vida. De fato, uma mudança espacial como esta, nesta dimensão, necessita de um propulsor considerável que faça mover uma massa de indivíduos a uma distância considerável. Percebe-se também que a estrutura financeira do migrante antes de partir é importante, mas não determinante em alguns casos. As capacidades de adaptação e de fixação são imprescindíveis ao migrante brasileiro no Arizona, em conformidade com a adaptação do seu sonho até então vivido em esperança no Brasil, para o sonho confrontado com a realidade, vivida no Arizona. A essas capacidades, permite-se uma compreensão de como o migrante sobrevive neste novo espaço e caminha para a compreensão de uma dinâmica além do indivíduo – deste com o espaço e com outros indivíduos. Chega-se a um novo Lugar, o Lugar de Destino. Este Lugar só existe por uma combinação de fatores, mas destacam-se a capacidade de vivência deste espaço com uma dinâmica do espaço vivido, onde as relações sociais se dão

61 62

Cf. http://www.nytimes.com/2008/12/08/opinion/08mon2.html?ref=opinion, acessado em 27/12/2008. Cf. http://www.tucsoncitizen.com/altss/printstory/frontpage/103288, acessado em 23/11/2008. 63 HERNÁNDES, David Manuel. Pursuant to Deportation: Latinos and Immigrant Detention. In: LATINO STUDIES 2008. Los Angeles: Palgrave Macmillan, 2008, p. 35-63. Disponível em http://www.palgrave-journals.com/lst. 64 Cf. http://www.boston.com/news/local/breaking_news/2008/11/immigration_off_1.html, acessado em 07/11/ 2008. 65 Cf. http://www.newsweek.com/id/176420/output/print, acessado em 27/12/2008.

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e ocorre a construção de uma historicidade nova, de uma sociedade híbrida, de uma cultura associativa. E esperanças existem. São pequenos atos cotidianos que mudam uma realidade como a encontrada66, não somente por brasileiros, mas por migrantes latino-americanos em geral, em quase toda parte nos EUA. Brasileiros no Arizona, mexicanos no Texas, cubanos na Flórida, marroquinos na Espanha, argelinos na França, bolivianos no Brasil. A realidade é excludente, mas o migrante se faz presente, incomodando uma ordem social alienada. O migrante faz, na sociedade na qual se insere, pensar e refletir sobre o seu papel, sua origem e seu futuro. Sendo o ato de migrar motivado pela melhoria da qualidade de vida e tendo o migrante o poder de observar o óbvio de forma nova, é pela visão do migrante67 que uma sociedade pode buscar compreender-se e lutar contra as verdadeiras desigualdades, toda e qualquer uma. Uma visão economicista reduziria esta capacidade e seria um desperdício de oportunidade na construção de um mundo que gostaríamos que fosse. Em busca de uma satisfação, o migrante cede e busca, aceita e luta, combate e é combatido diariamente. E da construção das migalhas que lhe são cedidas, é refeita a sociedade, não a brasileira, não a americana, mas uma nova, entre o Aqui e o Lá. Dentro desse espírito de necessidade e solidariedade, o migrante trabalha para uma nova proposta de sociedade, ainda que a desconheça, caminha-se para uma outra globalização, daquela que se espera, daquela que se constrói pelos indivíduos em busca de uma solidariedade contra as mazelas do capital excludente. O Lugar de Lá é o Lugar da Esperança.

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Algumas experiências, inclusive no Arizona, buscam a compreensão do fenômeno migratório de forma mais humanista. Conferem-se premiações a tais iniciativas, como visto em http://www.azcentral.com/community/tempe/articles/2008/ 12/11/20081211ar-immigration1213.html, acessado em 27/12/2008. 67 PEIXOTO, Nelson Brissac. O Olhar Estrangeiro. In: NOVAES, Adauto; et al. O Olhar. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho, caminhou-se com a visão de que o movimento migratório não pode ser compreendido somente por seus números ou por suas estatísticas. Muito se esconde por trás dos indivíduos que compõem esses números e por conta disso, busca-se a compreensão do espaço vivido por essas pessoas. A pesquisa em movimentos migratórios apresenta várias dificuldades, inclusive as estatísticas. Brasileiros, assim como outros migrantes, tendem a não serem claramente classificados em censos e sob um discurso de melhoria da qualidade de vida dos migrantes, institutos de pesquisa ou até mesmo, a academia, se incumbem de apresentar uma classificação desumanizada para tais indivíduos. A não aceitação dos termos geralmente utilizados nessas pesquisas, trouxe a tona a impersonalidade e a frieza de uma lógica que permeia o meio científico, ao desumanizar o humano e dar clareza a uma tônica capitalista excludente, justificando vários discursos, clichês, propostas, leis e principalmente atos. Uma das propostas deste trabalho é desmistificar qualquer idéia que possa considerar o indivíduo migrante a ser levado a mover-se simplesmente pelo fator econômico. Acreditase na existência de algo mais do que isso. É necessário que haja algo além disso. Dentro dessa lógica, o trabalho de busca por uma terminologia que englobe tais momentos, além da percepção capitalista clássica, leva ao encontro do termo “Lugar” na Geografia, onde o espaço se encontra, autenticamente, como um ponto de vivência e realização do ser humano. Caminha-se para a compreensão de cada ser é um componente da humanidade. Muito mais do que só um espaço, o Lugar é a realização de um ato humano onde o ser acredita neste espaço e faz uma reflexão de si, sob sua identificação. Se então o Lugar é o ente de estudo, torna-se necessário conceber que para o migrante haja dois lugares: o de partida, de identidade primária ou o Aqui; e o de seguimento, de adequação, de destino ou o de Lá. Ambos estão ligados, seja através de uma rede propriamente dita, onde o encontro se dá eventualmente através de indivíduos e/ou de informações, seja também, por dentro do próprio indivíduo, já que d’Aqui se levam coisas para Lá.

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Valores e sonhos intangíveis são levados para Lá e compõem o arquivo permanente do ser humano, que lhe traz lembranças e experiências para sua satisfação pessoal. Tais valores não podem ser considerados somente sob a ótica econômica, pois, a estruturação da felicidade e realização, no pensamento do migrante, podem ir muito além disso. A chegada no Lugar de Destino muda essas percepções. Se antes o Lá era imaginado, agora ele é tangível e com isso, caminha para o lado da admiração, do arrependimento ou ambos. A constatação, pelo migrante da realidade diferente daquela desejada ou esperada, pode levar a uma nova noção do que é o plano de pertencimento a um novo Lugar e, com isso, a constatação de que o plano original não pode mais ser concluído, em sua plenitude, conforme desejado a priori. Na busca de uma adequação entre o planejado antes e o encontrado depois, o migrante permite-se novamente sonhar dentro de outra realidade apresentada e, com isso, adaptar-se ao novo Lugar, criando, entre o Aqui e o Lá “original”, um hibridismo entre o seu Lugar de Origem e o Lugar de Destino encontrado. Assim, ao se conceber o Lugar como o espaço de construção do indivíduo, tem-se o entendimento de que o próprio Lugar está em constante mudança, maleável por conter em si a identidade do indivíduo que o compõe. Tal maleabilidade é compreendida pela contemporaneidade e a necessidade de transfigurar-se, indivíduo e espaço, naquilo que os projetos pensados por estes entes são concretizados. A inconsistência da identidade humana permite que os Lugares, sejam quais forem, trabalhem em dinâmicas sociais e temporais não coincidentes. Uma visão de que o tempo poderia ser relativizado, também na composição do Lugar de Destino, se comparado ao Lugar de Origem, caminha para uma conclusão na qual as redes sociais não são sempre presentes, permitindo o migrante absorver também o novo e fazer do Lugar de Destino, um outro lugar, que não é a réplica da Origem, mas uma visão diferenciada desta no Destino. O poder de visão do Migrante lhe dá a capacidade de recriar uma estrutura marginalizante em uma sociedade que observa o seu âmago e suas contradições. Políticas públicas, que compreendem a perceptividade do migrante às problemáticas sociais, adquirem um tom mais humano, o que permite ainda o debate da alteridade. Pela visão do outro, o migrante se vê como não igual, mas também um não diferente. O princípio do posicionamento humanista deveria prevalecer onde a presença migrante é aceita. Nos anais da História Americana é possível constatar que, em certos momentos, os migrantes foram bem aceitos e, independentemente de uma política estatal, a discriminação, a humilhação e a rejeição não foram explicitadas àqueles nascidos fora do Lugar de Destino.

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Ainda houve situações em que se rotulavam tipos ideais (migrantes desejados ou rejeitados), onde a política decidia quem viria, mas a sociedade ainda não estava preparada para tal. Uma rápida análise do que passam os brasileiros no estado americano do Arizona, onde a proximidade com a fronteira mexicana faz com que a sociedade tenha uma tolerância bem diferente daquela encontrada em outros estados, permite uma percepção do que foi aqui levantado. Se um migrante tem a capacidade de transformar seu meio social, em uma terra onde poucos são os que compartilham sua condição de origem/destino, pode também visualizar como as transformações sociais respeitariam sua tentativa de concretização do plano original sonhado, na saída do Lugar de Origem. Muitas são as expectativas, desde a efetivação de uma vitória singular até a projeção de uma imagem de renome que viesse a ilustrar meios de comunicação de massa, que os fatos mostram o contrário. Haja vista a capacidade de adaptação do ser humano, um novo Lugar seria necessário, não pelo simples fato de sobrevivência, mas pelo objetivo de concretização de sonhos, de esperanças, de vontades. A satisfação em migrar encontraria um meio termo, entre o que se espera e o que se obtêm e a esse meio termo o migrante teria bases para alçar uma nova esperança no Lugar de Destino. Chegar nesse novo Lugar traz uma nova visão de mundo, onde mais atores sociais contribuem para a construção do ser social migrante. Uma concepção de mundo que se amplia e permite a absorção pelo migrante de dinâmicas sociais diferentes, se não contrastantes, daquelas trazidas da Origem. A capacidade de adaptação do migrante se consolida na resposta a dois questionamentos: Até que ponto o migrante permite-se atrelar ao novo sistema social? E até que ponto este novo sistema social estaria sendo buscado pelo migrante? Se o estudo dos movimentos migratórios tem contribuído para um movimento “sem indivíduos” – ao invés de um estudo de indivíduos inseridos no movimento migratório –, a nova perspectiva, partindo do Lugar, traria uma verdade à tona: as contribuições dos migrantes são maiores e mais produtivas, no que se refere a imagem do Lugar de Destino, quando se faz daquele uma espacialidade da esperança. Uma possibilidade de transformar todo o entendimento do porquê migrar, estaria na funcionalidade da construção do novo Lugar, onde este traria em si, os elementos da esperança para aqueles que conectados a rede migratória, encher-se-iam de novos sonhos, novas esperanças. Se essa esperança na chegada não for palpável, a certeza de uma nova forma de organizar a vida, de reorganizar-se, pode trazer ao migrante uma outra esperança, até então não encontrada no Lugar de Origem, a vida refeita segundo os princípios da igualdade e da

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democracia. Em um momento, o migrante pode rever sua própria cultura e em vista da cultura nova, estabelecer uma ponte entre o que considera sustentável de ambas, gerando, em seu novo espaço, um novo traço cultural, entre o Aqui e o Lá. Uma nova forma de ver o mundo, permite que o migrante tenha uma nova forma de ver a esperança e possa contar com outra expectativa de futuro, onde sua integração se dê por completo, onde sua aceitação Aqui e Lá seja sustentada não somente pelos seus sonhos, mas, também, pelo suor de seu caminhar. Constrói-se, então, uma outra espacialidade, não somente pautada nos Lugares, mas no Mundo. Uma outra globalização. .

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ANEXO

A. Correspondências e mensagens eletrônicas enviadas/recebidas, por ordem de envio/recebimento.

1. Primeira correspondência, enviada a 155 destinatários, além da postagem em forma de mensagem em nove comunidades68 da rede de relacionamentos ORKUT, entre os dias 15 e 20 de dezembro de 2008.

Oi (nome)! Eu estou finalmente terminando minha graduação em Geografia na UERJ, e preciso terminar minha monografia... e estava precisando DA SUA AJUDA! Minha monografia é sobre a vida dos brasileiros nos EUA, e eu gostaria de contar com a sua ajuda... preciso do seu depoimento! Pode ajudar? Quer ajudar? Então me manda um email (lucianodalcol@yahoo.com.br) me contando a sua vida nos EUA! Dois pontos são cruciais para mim: 1) Como foi a sua ida? Não quero saber se você foi legal ou ilegalmente – o importante pra mim é saber como foi a DECISÃO de ir. Você decidiu sozinho/a? Como você foi (através de amigos, parentes, agência de trabalho)? Quanto tempo demorou, do momento de decisão ao momento de partida? Como foram os primeiros dias na América?; e 2) Como foi que você se organizou aí? Tem amigos? Fez amigos? Onde morou na primeira vez? Como foi o primeiro emprego? Passou dificuldades? (Se quiser e puder, me conte?) Se considera americanizado? Se sente bem, tranqüilo, seguro (não só no sentido contrário a violência, mas também no sentido de conforto) morando nos EUA?. Outras coisas também são interessantes como: Sente saudades? Planeja voltar para o Brasil? Quando? Conhece outros brasileiros? Se relaciona com eles? Prefere se relacionar com algum grupo específico? Freqüenta Igreja? Qual? Ao invés de me responder uma a uma das perguntas, me escreva um texto. Não precisa responder todas elas. Prefiro um depoimento. Se quiser me mandar um email com algumas histórias, e se depois lembrar de outras, pode mandar. Aliás pode ficar mandando sempre, porque esse também vai ser meu tema de Mestrado :) Não é nada demais, até porque não quero fazer questionários, não tenho necessidade de ter número x ou y de entrevistados... O que quero é uma "amostra qualitativa" onde eu busco relatos de brasileiros nos EUA. Minha pesquisa é sobre como os brasileiros se rearrumam. Em Boston, tem uma comunidade grande. Em Phoenix, quase nenhum. Então preciso que você me dê o seu depoimento em 2 momentos: antes de ir, e assim que chegou (os dois primeiros anos).
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“I live in Arizona”, “Phoenix, AZ”; “Tô com saudades do Brasil”; “Noite Latina na Axis/Radius”; “Brasileiros no Exterior”; duas comunidades com o nome de “Brasileiros no Arizona”, e outras duas com o nome “Brasileiros nos EUA”.

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Sei que só esses dois momentos dão muito pano pra manga, mas o objetivo não é escrever TODOS os acontecimentos, somente aqueles que você considera mais importante. Então, preciso de um parágrafo de como foi a sua ida: quando surgiu a idéia, se você já conhecia alguém nos EUA antes de ir, como foi a preparação, a decisão (foi individual ou decidida em família/amigos?), como foi a forma encontrada de ida. Um outro, preciso que você me diga como foi a decisão de ficar: como foram os primeiros dias, meses nos EUA, como você se relacionou com outras pessoas, como você se sentia morando nos EUA, quais foram as facilidades e dificuldades encontradas. Espero que este seja realmente o seu email. Beijao! Merry Christmas and Happy New Year! :) Luciano

2. Em 15 de Dezembro de 2008, a resposta de F. abaixo, através da rede de relacionamentos ORKUT:

Olá, acabei de ver sua mensagem... Fiquei em Phoenix por 3 meses, pois meu namorado mora lá... então a decisão foi justamente pra estar ao lado dele...fui sozinha.O que mais me chocou com relação a cultura, foram experiências com negros...que me trataram de forma diferente, e também de não poder andar em determinados bairros que só tem negros pra não ter problemas... Não trabalhei, mas tenho amigos lá... americanos, não encontrei brasileiros nesse tempo que fiquei lá... só depois fuçando em comunidades que fiz amizades com uns.. mas não conheço pessoalmente ainda. A vida lá me pareceu segura comparando-se ao Brasil... emprego/violência (dependendo do bairro aonde mora), e considero a cultura deles muito parecida à brasileira por isso acho que é até fácil se adaptar... também descobri um supermercado que vende produtos brasileiros então isso também ajudou muito... o transporte público não é dos melhores, mas também as pessoas conseguem comprar carro com maior facilidade do que aqui no Brasil... planejo estar sempre voltando ao Brasil o máximo de vezes possível, pois amo o pais e só o deixarei por causa do meu namorado. Enfim, espero ter ajudado...boa sorte em sua dissertação. Esta mensagem foi enviada por ♥ F

2. Em 7 de Janeiro de 2009, a resposta de G. abaixo:

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Oi Lu!!! Agora que vi seu email dizendo que era só antes de ir e dos primeiros 2 anos... Sai escrevendo sem me toar... Bom vou te mandar mesmo assim, sei que você fará algum proveito do que eu escrevi, mesmo se saiu do requerimento!! Ok?! To doente, com muita gripe e pisei num espinho domingo e meu pé ta todo inflamado, por isso to com preguiça de refazer... Mas faça bom proveito da minha historia!!! Beijão grande e não tira onda com as merdas que escrevi não viu! Hahahah!! Beijão e boa sorte!! Feliz ano Novo!!! G. (arquivo anexo com o depoimento, reproduzido abaixo) Oi Lu!! Vou contar a minha historia de como vim para nos Estados Unidos… mas vou escrever em português... Com erros de gramática com certeza, mas deixo pra você corrigir ok!? Eu e minhas amigas na mesa de uma lanchonete em Natal jogando conversa fiada.. e tudo começou com uma brincadeira de morar nos Estados Unidos… parecia um sonho tão distante ha um tempo atrás. Porque sempre tive vontade de morar no exterior, aprender uma nova língua… de saber como é morar num lugar desconhecido. Bom… começamos a falar de morar nos Estados Unidos e daí eu levei a sério o papo. Eu tinha 24 anos e estava me formando em Administração de Empresas, trabalhava como caixa no Banco Itaú (o que eu não era um emprego ruim para minha idade, mas não gostava de ser caixa, primeiro pela pressão em atender a fila rápido, e segundo por ter que pagar quando eu dava diferença de caixa). Eu e minha amiga Lorena decidimos vir pra os Estados Unidos em Julho de 2004. Tinha uma amiga de faculdade que me deu o maior apoio a ficar com a família dela que já morava aqui, a mãe, o irmão e irmã. Acho que não teria vindo se não tivesse alguém pra me orientar e receber aqui. Eles eram o meu apoio, meu ponto de referência. Planejei tudo pra vir e ficar com a família da minha amiga em Phoenix AZ ate eu começar a trabalhar… Tirei o visto que foi moleza, especialmente porque ainda estava na faculdade e tinha uma renda boa do meu trabalho. Fui ao consulado e disse que vinha passar as ferias na Disney. Minha amiga fez o mesmo. Já ia pedir demissão do meu trabalho, quando eu dei uma diferença de caixa de 1.000 reais no trabalho, tava louca procurando e sei que sempre colocava o dinheiro antes de colocar no cofre, sempre colocava debaixo do meu computador. Dai o rapaz da limpeza achou e não devolveu. Ficou com o dinheiro, o banco não tinha câmeras, não tinha como provar e sabíamos que tinha sido ele que tinha pegado, porque ele tinha comprado uma bicicleta novinha no outro dia. Enfim… não pude falar nada pra ele… o banco queria que eu pagasse a diferença e eu me recusei, foi ai que eu recebi minha demissão. O que foi ótimo pra mim, porque eu recebi um dinheiro até bom, que foi o que me sustentou no início da minha vida nos Estados Unidos. No dia da minha demissão minha gerente chegou pra mim e disse que eu poderia anda mudar essa situação... que eu já estava sendo observada para ocupar um cargo de tesoureira.. e que eu poderia pagar a diferença e continuar a minha carreira no banco. Eu pensei... mas eu cheguei a conclusão que não queria passar a minha vida presa a um banco, com medo de olhar o mundo lá for a e que aquela era a minha oportunidade de sair da empresa (que me abrigava a pagar um dinheiro que eles sabiam quem tinha pego, só que não tinha provas), mas que mesmo assim eu seria quem tinha que arcar com o pagamento! Disse Bye Bye pro banco e peguei minha carta de demissão feliz da vida! Era minha liberdade! Comprei as passagens pra vir pros Estados Unidos… passagem marcada. Sai com um cliente do banco 1 mês antes de viajar e me apaixonei… dai ele fez minha cabeça pra eu ficar... fiquei com ele, cancelei minha

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passagem. Nesse período a minha amiga que vinha também conheceu alguém e desistiu de vir. Passaram 3 meses, vi que tinha feito uma besteira, que aquele não era o amor da minha vida… fiz minhas malas e vim embora. Isso aconteceu em Outubro de 2004. Nessa época já tinha gastado parte do meu dinheiro e vim pra os Estados Unidos com $2.300 dólares. Minha mãe era contra a minha vinda… não só ela como muita gente… ouvi muito que eu ia voltar em alguns meses com o rabinho entre as pernas, ouvi desse jeitinho... e guardei... não falei nada e vim enfrentar a minha batalha nos Estados Unidos. Cheguei aqui 05 de Outubro de 2004. Adorei a experiência da primeira impressão, tudo bonito, organizado, limpo… amei as comidas! Só comia McDonalds por semanas, não poder se barato, mas por ser gostoso e barato!!! Comprei meu carro velho por 1.500, mas mesmo assim eu adorava aquele carro! Amei dirigir automático! Achava o máximo! Escrevia cartas pra minha mãe contando como era aqui, nunca mandei as cartas… acho que era só uma forma de desabafar, de contar minha experiência… não sabia falar quase nada em Inglês, nunca tinha tido um contato com Americano antes de chegar aqui e foi tudo muito estranho… meu vocabulário em inglês era ótimo (estudei muito em casa alguns meses antes da minha viagem), mas meu inglês travava quando eu ia falar. Achei um trabalho como babysitter, ganhava somente 8 dólares a hora e a família não era legal comigo. Ela me colocava pra fazer um monte de coisas que não era minha responsabilidade. Nunca cuidei de bebê na minha vida… nunca troquei 1 frauda se quer no Brasil, nem dos meus primos menores… eu me lembro minha mãe pedindo e eu dizia não!! Aqui foi minha primeira vez... limpei bunda de nenê por 8 dólares a hora! Mas estava feliz… momentos de solidão começaram a chegar… escrevia… chorava… e sentia muitas saudades!!! Mas tentava superar, ficava alguns dias super deprimida… aquela dor no coração! Mas nunca desisti! Quando decidi vir pros Estados Unidos sabia que não seria fácil, ate falava que se fosse preciso fazer faxina eu faria! Bom… realmente não foi fácil, mas fazer faxina só agüentei por 2 dias… não mais que isso! Oh trabalho difícil!!! Depois desses 2 dias nunca mais eu fiz! Preferi ser nanny aqui… comecei a trabalhar pra outra família, muito rica, em tratavam bem. Eu ganhava $10 a hora, mas eu trabalhava 50 horas por semana. Nunca fiz tanto dinheiro na vida, nem no banco não ganhava $2.000 ao mês!!! Já tive épocas ganhando $3.000 ao mês como nanny. Porque comecei a ganhar mais a hora... e trabalhava de dia e fazia babysitter a noite… Trabalhei com muitas famílias maravilhosas, que me tratavam como se fosse filha deles, eles me davam abraços tão apertados e eu chorava depois que saia da casa deles… sentindo falta da minha família… achava super legal ser tratada dessa forma, especialmente por ser babá dos filhos deles... as pessoas tem menos discriminação aqui com certeza! A parte mais difícil que eu acho em morar aqui no início foi não saber falar inglês… mas ate hoje continuo achando que essa parte é a mais difícil. No inicio eu não sabia me comunicar com americanos… meu inglês era péssimo! Me lembro uma vez que eu fui na biblioteca usar a internet (antes de ter um computador em casa) e eu saí da biblioteca chorando porque eu não sabia perguntar como eu fazia pra usar a internet da biblioteca! Foi muito difícil no inicio! Muito frustrante! Mas ate hoje acho que esse continua [sendo] meu maior desafio… falo inglês fluente, mas tenho sotaque mesmo depois dos anos… e como vim pra cá aos 24 anos, e não fui a nenhuma escola aqui, meu inglês melhorou muito, mas não ficou perfeito… e isso acho que ainda é frustrante pra mim, especialmente na minha carreira. Pensei muitas vezes em desistir… me lembro uma vez que só tinha 1 dólar no bolso… chorando, chorando… dizendo que ia embora… amigos aqui são valiosos. Contei muito com a ajuda de amigos pra me

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estender… dar a volta por cima e começar de novo. Mas já ajudei muito também… acho que aqui a gente aprende mais a ser solidário. Não tenho família aqui, mas meus amigos e eu somos uma grande família... sempre fomos... me lembro ter no meu quarto quando eu cheguei aqui somente um colchão no chão e uma caixa de papelão virada fazendo um criado mudo pra eu colocar meu despertador… não foi fácil renunciar a minha vida, trabalho e bem-estar no Brasil… minha vida lá não era ruim de jeito nenhum… mas não era o suficiente pra mim. Hoje sou casada, tenho um marido Americano maravilho que eu amo mais que tudo. Tenho a minha casa própria, que é a casa dos meus sonhos e muito mais! E olho pra trás e fico orgulhosa de não ter desistido, que vi demais acontecer com amigos meus. Olho pra trás e fico orgulhosa o que conquistei. Foi difícil, doeu demais… muitas noites de depressão e em claro... Mas valeu cada coisinha... foi tudo um aprendizado! Hoje sou fotografa, fiz algumas classes na faculdade. Participei de workshops, de seminários e estou entrando no segundo ano da minha carreira. Estou muito feliz e estou começando a colher resultados maravilhosos do meu trabalho. Tudo isso claro, porque eu tive a sorte de encontrar o meu marido, que me apóia e me ajuda com tudo. E me sinto abençoada por estar aqui, por ter a vida que tenho… não tenho planos nenhum de morar no Brasil de novo... saudades da família tenho, mas sei que eles vão vir aqui, minha mãe já veio aqui umas 4 vezes... e amo morar nos Estados Unidos. Amigos brasileiros tenho demais aqui e acho que é isso que faz a minha vida aqui ser mais fácil… ter sempre ao redor essa alegria e falar português. Mas tenho também amigos americanos, e não falo mal dos Estados Unidos de jeito nenhum! Esse é o pais que eu quero viver! Brasil só nas ferias!

3. Em 12 de Janeiro de 2009, a resposta de T. abaixo:

Minha experiência nos EUA Vim aos EUA pela primeira vez aos 10 anos -- o passeio turístico de praxe: NY, DC, Miami e Orlando. Fiquei fascinada pelo país e pela língua. Assim que voltei ao Brasil, quis logo começar a aprender inglês, e aos 14, só lia em inglês, mesmo sem entender metade dos livros! Sempre quis vir para cá passar mais tempo, mas minha família não permitia. Na época que minhas amigas fizeram intercambio, nem pensar. Quando terminei o colegial tinha uma tia que morava em Connecticut (fazendo Post-Doc), e, muito amiga de minha prima, meus pais deixaram eu vir passar 6 meses. Cursei 1 semestre de faculdade no Brasil, tranquei, e de malas prontas, por uma razão ou outra, não pude mais passar os 6 meses planejados com minha tia -- somente 1 ou 2. Já pronta para vir, meus pais decidiram me mandar por intercambio mesmo -- que foi uma idéia maravilhosa para mim! Passei quase 2 meses com minha tia, e vi que lá só falaria português. Morei por um ano com uma família em Michigan (1990-91), e voltei ao High School -- só pela experiência. Nem pensei em ficar, pois sei que meus pais não permitiriam. Então voltei ao Brasil e retomei a faculdade. Alguns meses depois li sobre uma bolsa de estudos através do IBEU do Rio e o Institute of International Education nos EUA -- fui até a primeira reunião "escondida" de meus pais :) Me inscrevi, e fui um dos 18 estudantes selecionados naquele ano. Fiz todos os

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testes para ingressar na faculdade americana (SAT, TOEFL, Achievement Tests), e consegui bolsas parciais em várias universidades (este processo durou um ano, então foram 2 anos de volta ao Brasil entre intercâmbio e College nos EUA). Escolhi a mais em conta, um Liberal Arts College em Massachusetts. Para mim foi um sonho realizado. Para minha família, um suplício -- sofri muitas chantagens emocionais, mas no final meus pais aceitaram, e até pagaram o resto que a bolsa não cobria. Comecei em setembro de 1993, e recomecei do zero -queria a experiência completa, sem trazer nenhum crédito dos 2 anos e meio cursados no Brasil. Tive também a grande oportunidade de passar meu terceiro ano em Paris. A língua não foi problema -- já falava inglês fluente. E desde o primeiro dia, já me senti em casa! No meu ultimo ano, não fazia a menor idéia para onde iria depois de formada -- queria ficar, e voltar ao Brasil só de ferias. Desisti de fazer mestrado (tinha sido aceita em Yale), e fui trabalhar por 2 anos na agora defunta Lehman Bros. em NYC. Trabalho de cão, sem direito a feriados, fins de semana, e ficava até altas horas da noite. Sabia que não queria mais continuar na área financeira depois que o programa terminasse. Decidi seguir outro sonho: tentar minha vida na área de cinema. Para não ficar ilegal, vim para Los Angeles para fazer meu mestrado na UCLA, e devido aos contatos que fiz, consegui estágios em vários estúdios. Depois de formada trabalhei num mini-estúdio, na área de distribuição e marketing internacional. Quando esta fechou as portas, consegui um emprego num dos grandes estúdios, onde estou ate agora. Não totalmente satisfeita na minha posição (trabalho nas capas dos DVDs vendidos no mercado internacional), mas por aqui fico ate conseguir algo melhor. No meio desta historia, em 2002 conheci meu marido, um americano filho de holandeses (que por incrível que pareça, tem ate parentes no Brasil), e estamos casados ha 4 anos, com um filho de 1 ano. Não tenho planos de voltar a morar no Brasil. Meu marido tem pânico da violência, e nem gosta ir de ferias comigo -- not much fun for him, por não falar a língua, e nem minha família fala inglês. Fui da ultima vez em novembro passado -- passei somente uma semana lá para apresentar meu filho à família. Lógico que sinto saudades de minha família e da COMIDA! Mas meu sonho de morar aqui para sempre se tornou realidade! Já cheguei falando inglês fluente e nunca passei necessidade -- tive períodos de incerteza se conseguiria ficar ou não (nunca ficaria ilegal), mas sempre no final tudo deu certo. Hoje sou residente permanente, e em breve vou aplicar para a cidadania. Hoje em dia me sinto mais confortável aqui, do que no Brasil. O que mais resta: - Meu contato com brasileiros sempre foi limitado. Através do orkut consegui fazer varias amizades com outras brasileiras casadas com americanos e com filhos -- então temos muito em comum. - Não acreditamos em religião organizada, então não freqüentamos igreja. - Quanto a amigos, o problema de fazer amizades estudando é que depois de formados, cada um vai para um lugar diferente. Amigos de verdade estão todos longes. O resto, só mesmo conhecidos no trabalho. Depois do nascimento de meu filho, participo de um grupo de mães, todas americanas, e tenho feito amizades neste circulo. É isso ai! Se quiser saber mais, É só me perguntar! Abraços, T.

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