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Se voc’ acredita em direitos humanos universais, provavelmente ndo rista. Se todos os seres humanos so merecedores de respeito, io importa quem sejam ou onde vivam, entio ¢ errado traté-los como. meros instrumentos da felicidade coletiva. (Lembre-se da histéria da crianga malnutrida que era mantida em um pordo pelo bem da “cidade da felicidade”) ‘Vocé poderia defender os direitos humanos baseando-se no fato de que, em longo prazo, respeité-los maximiza a utilidace (a feticidade da maioria das pessoas). Ness¢ caso, entretanto, sew motivo para respeitar 0s direitos humanos nao estaria baseado no respeito pelo individuo, mas sim no objetivo de tornac as coisas melhores para 6 maior néimero de pessoas. Uma coisa € condenar o sofrimento de uma erianga porque dle reduz. a felicidade geral e outra é condené-lo por ser moralmente inaceitavel, uma injustiga com a crianga. Seos direitos nao se baseiam na felicidade da maioria das pessoas, qual seria entGo sua base moral? Os libertérios talvez tenham uma resposta: as 'Pess0as nfo deveriam ser usauas como meros instrumentas para a obtengio do bem-estar alheio, porque isso viola odireito fundamental da propriedade desi mesmo. Minha vida, meu trabalho e minha pessoa pertencem a mim ‘€somente a mim. Nao esto a disposigdo da sociedade como om todo. Como jé vimos, no entanto, a ideia de que somos donos de nbs mes- ‘mos, se aplicada de maneira radical, tem implicagdes que apenas um ibertario convicto poderia apoiar: um mercado irrestrito sem a protecao de uma rede de seguranca; um Estado minimo, o que exclui a maioria das medidas para diminuir a desigualdade e promover © bem comum; © uma celebragéo tio completa do consentimento que permita a0 ser ns ‘bumano infligir afrontas & propria dignidade, como o canibalismo on} venda de si mesmo como escravo, Nem mesmo John Locke (1632-1704), 0 grande tedrico defensor dog direitos de propriedade e da limitasao dos poderes do governo, esté de acordo com a nogao de propriedadeilimitada de nés mesmos. Ele repudia atideia de que podemos dispor da nossa vida e da nossa liberdade como guisermos. Entreranto, a teoria de Locke sobre os dircitos inalienaveis invoca Deus, 0 que é um problema para agueles que procuram uma base ‘moral para os direitos que nao se apoie em dogmas religiosos. AQUESTAO BOS DIREITOS PARA KANT Immanuel Kant (1724-1804) apresenta uma proposta alrernativa para a questio dos direitos ¢ deveres, uma das mais poderosas e influentes ja feitas por um fil6sofo. Ela nao se fundamenta na idela de que somos donos de nds mesmos ou na afirmagio de que nossa vida € nossa liber- dade sejam um presente de Deus. Ao contrério: parte da ideia de que somos seres racionais, merecedores de dignidade e respeito, Kant nasceu em 1724, na cidade de Konigsberg, no leste da Prdssia, ‘onde morreu dois meses antes de completar 80 anos, Sua familia tinka posses modestas. O pai fabricava selas¢, tal comoa mulher, eta pietista, membro de uma seita protestante que enfatizava a vida religiosa interior €. pratica da caridade,! Kant descacou-se como aluno da Universidade de Konigsberg, para a qual entrou aos 16 anos. Durante algum tempo trabalhou como professor particular e miais tarde, aos 31 anos, conseguiu seu primero emprego académico como palestrante auténomo, trabalho pelo qual era remunetado de acordo com o nimero de alunos que compareciam a suas palesteas. Ele era popular e dedicado e proferia cerca de vinte palestras or semana, sobre assuntos que incluiam metafisica, légica, ética, dircito, geografia © antropologia, Em 1781, aos 57 anos, Kant publicou seu primeiro liveo importante, A critica da razdo pura, que desafiava a teoria empirica do conhect. 136 Fmento: associada a David Hume e John Locke. Quatro anos mais tarde, jpublicou Fundamentacao da metefisica dos costumes, 0 primeito de Yarios trabalhos sobre filosofia moral. Cinco anos depois da publicagdo de Principios da moral e da iegislagao, de Jeremy Bentham (1780), a Fundamentacao de Kant foi uma critica arrasadora 20 utilitarismo. Kant argumenta que a moral nio diz espeito ao aumento da flicidade ‘ou a qualquer outra finalidade, Ble afirma, ao contrério, que ela esté fandamentada no respeito as pessoas como fins em si mesmas, ‘A Fundamentacdo de Kant foi publicada pouco depois da Revolugao ‘Americana (1776) e antes da Revolugdo Francesa (1789), Em sintonia com o espitito e com o impulso moral daquelas revolucées, ela fornece tuma base consistente para aquilo que 0s revoluciondrios do século XVII denominaram 0s direitos do homem, ¢6s, n0 inicio do XI, chamamos de direitos humanos. A filosofia de Kant nao é facil. Mas no permita que isso se transforme em um empecilho ao sen estudo. O esforgo vale a pena, porque as implica- ges so enormes. A Fundamentagao levanta uma grande questo: Qual lidade? Ao responder a essa pecgunta, faz outra, também extremamente importante: O que é liberdade? As respostas de Kant a essas questdes fazem parte da filosofia moral ara que se preste atencao a ele, Por mais desafiadora que a filosofia de Kant possa parecer 3 primeira vista, ela na verdade esta por tras de gran- de parte do pensamento contemporiineo sabre moral e politica, mesmo ue nao nos demos couta disso. Portanto, ao tentar entender Kant no estamos apenas fazendo um exereicio filoséficos estamos examinando alguns dos pressupostos-chave implicitos em nossa vida piblica, A importancia atribuida por Kant a digaidade hamana define nossas concepsées atuais dos direitos humanos universais. Ademais, seu conceito de liberdade figura em muitos de nossos debates contemposineos sobre justiga. Na introdugao deste livro, destaquei t8s abordagens de justiga. ‘Uma delas, a dos utibitaristas, diz que devemos definir a justiga e determi at a coisa certa a fazer perguntando-nos 0 que maximizara o bem-estar ua felicidade da sociedade como um todo. Uma segunda abordagem a7 associa justiga a liberdade, © pensamento libertério é um exemplo abordagem. Segundo os io justa de ronda e tig @ aguela que tem origem na livre troca de bens e servigos, em um merca sem restrigdes. Regular esse mercado ¢ injusto, dizem eles, porque viola liberdade individual de escotha, De acordo com uma tereira abordagem, jstiga édar pessoas o que elas moralmente merecem, alocando bens para Tecompensar e promover a equidade. Como veremos quando estudarmog Aristoreles ino Capitulo 8), a abordagem fundamentada na virtude rela. ciona a justiga 8 reflexo sobee o que deve ser considerado uma boa vida, Kant repudia a abordagein nimero um (maximizagio do bem-estat|¢ a abordagem mimero trés (valorizacao da vietude). Segondo ele, elas nfo respeitam a liberdade humana, Kant € um grande defensor da aborda {gem niimero dois —aquela que associa justiga e moralidade a liberdade. Contudo, a concepcao de liberdade que ele defende vai muito além da liberdade de escolha que praticamos quando compramos ou vendemos mercadorias no mercado. O que consideramos liberdade de mercado x eseolha do consumidor nao é a verdadeira liberdade, segundo Kant, porque envolve simplesmente a satisfagao de desejos que nao escothemos, Logo chegaremos & concepgo mais exaitada de Kant sobre liberdade. Antes disso, porém, vejamos por que ele acha que os util errados em pensar que justiga e moralidade sejam uma questo de ma- ximizagio da felicidade. (© PROBLEMA COM A MAXIMIZAGAO DA FELICIDADE tismo, Ao basear diveicos em um caleulo sobre 0 que produzica a maior felicidad, argumenta ele, o utiltarismo deixa esses dire tos vuineréveis. Existe ainda um problema mais geave: tentas tomar como base para os principios morais os desejos que porventura tivermos, € uma ‘maneira ecrada de abordara moral. $6 porque uma coisa proporciona prazet as pessoas, iss0 no significa que possa ser considerada correta. O simples fato de a maioria, por maior que seja, concordar com uma deterini- nada lei, ainda que com conviegdo, nao faz com que ela seja uma lei justa. 138 e preferéncias dest: Kant afirma que a moralidade nao deve ser baseada apenas em con- gideracoes empiricas, como interesses, vontades, desejos ¢ preferéncias que as pessoas possam ter em um determinado momento. Esses fatores sao variéveis e contingentes, diz ele, e difcilmente podero servir como pase para principios morais universais — como direitos humanos ni- ‘yersais. Mas o argumento mais fundamental de Kant é o de que basear 0 ios morais em preferéncias e desejos — até mesmo o desejo icidade — seria um entendimento equivocado do que venha a ser dade. O principio utilitarista da felicidade “nfo traz nenhuma ; contribuisao para o estabelecimento da moralidade, visto que fazer um rente de fazer dele um homem bom, Torné-lo astuto nfo €torné-lo virtuoso”.? Fundamentar a moralidade em interesses ua dignidade. Isso nao nos ensina a distingui 0 certo do ercado, mas “apenas a sermos mais espertos”.+ Se nossas vontades e nossos desejos nao podem servir de base para a moralidade, 0 que nos resta entdo? Deus seria uma possibilidade. Masessa nio é a resposta de Kant. Embora fosse cristio, Kant ngo fundamenta a moralidade na autoridade divina, Em vee disso, argumenta que podemos atingie 0 principio supremo da moralidade por meio do exercicio daquilo due ele denomina “pura razio prética®, Para sabermos como entender a lei ‘moral deacordo com Kant, vamos agora explorar a intima ligago, como ele a v8, entre nossa capacidade de raciocinio e nossa capacidade de liberdade. Kant diz que somos merecedores de respeito, nao porque somos donos denés mesmos, mas porque somos seres racionais, capazes de pensar; somos também seres autonomos, capazes de agir e escolher livremente. Ele ndo quer dizer que sempre conseguimos agir racionalmente ou ue sempre fazemos nossas escolhas com autonomia. As vezes consegui- 'mos fazer isso, as vezes nfo, O que ele quer dizer é apenas que temos a Capacidade de raciocinar e de ser livres, ¢ que essa capacidade é comam 40s seres humanos. Kant admite que nossa capacidade de raciocinio no é a sinica que ossuimos. Somos capazes também de sentir prazer e dor. Fle reconhece we somos criaturas sencientes, bem como racionais. Kant quer dizer ‘ue respondemos aos noss0s sentidos, aos nossos sentimentos. Entio Bentham estava certo, mas apenas em parte. Ele tinha azo a0 obsere var que gostamos do prazer e no gostamos da dor. Mas estava exradg 40 insistir que prazer ¢ dor sdo “nossos mestres soberanos”. Kant di {ue a razdo pode ser soberana, pelo menos parte do tempo. Quando a razio comanda nossa vontade, no somos levados apenas pelo dese de procurar o prazer e evitar a dor. Nossa capacidade de r da a nossa ca. Paciclade de sermos livres, juntas, essas capacidades nos tornam éinicoye nos distingnem da existéncia meramente animal, Elas nos transformam, «em algo mais do que meras criaturas com petites. © QUE ELIBERDADE? Para entender a filosofia moral de Kant, precisamos saber o que ele en- tende por liberdade, Com frequéncia definimos liberdade como auséncia de obstécnlos para que possamos fazer © que quisermos. Kant discorda, Ele tein uma defini¢ao mais estrita ¢ rigorosa de liberdade. Kant raciocina da seguinte forma: quando nés, como animais buscamos o prazer ou evitamos a dor, na verdade nio estamos agindo livzemente, Estamos agindo como escravos dos nossos apetitese desejos Por qué? Porque, sempre que estamos em busca da satisfagao dos nossos desejos, tudo que fazemos ¢ voltado para alguma finalidade além de n6s. Fago isso para aplacar minha fome, fago aquilo para aliviar minha sede. Suponhamos que eu tenha dividas sobre qual sabor de sorvete pedit chocolate, baunilhe ou café expresso com caramelo crocante? Posso st Por que esteja, dessa forma, exercendo meu direito de liberdade, mas na realidade estou tentando descobrir qual sabor satisfara melhor minhas preferéncias — preferéncias que nao foram escollias minhas, para comego de conversa, Kant nfo afirma que éerrado tentac satisfazer nossas prefe- Féncias. A questo é a seguinte: quando fazemos isso, nao estamos agindo liveemente, mas agindo de acordo com uma determinagio exterior. Na verdade, nfo oprei por meu desejo cle tomar sorvete de café expresso com caramel erocante em vez de baunilha. Simplesmente renho tal desejo. Hii alguns anos, o refrigerante Sprite tinha um slogan publicitério: «Qbedega A sua sede.” O aniincio do Sprite continha (inadvertidamente, x vida) uma inspiragao kantiana. Quando pego uma lara de Ser ica le Pepsi ou de Coca, estou agindo por obediéncia, e no por liberda e Esmn arendendo a um desejo que néo escolhi ter. Estou obedecendo a min! see {As pessoas frequentementediscutem o papel quea natureza ea cultura sémno.comportamento. Estaiaodessjo de omar Sprit (ow outrabebida adocicada) inscrito nos genes ou teria ee sido induzido pela propaganda? Para Kant, essa discussio no vem ao caso. Quer meu dese sea biolo- gicamente determinado, quer seja socialmente condicionado, ele nio é ‘ezdadeiramente live. Para agi ivremente, de acordo com Kant, deve-se agit com autonomia. E agir com autonomia €agir de acordo coma lei que imponho a mim mesmo —e ndo de acordo com os ditames da natureza convengdes sociais. te forma de emender 0 que Kant quer dizer quando fala em agir com autonomia € comparar 0 conceito de autonomia com seu oposto. Kant inventa uma palavra para melhor definir ese contcaste — hetero- nomia. Quando ajo com heteronomia, ajo de acordo com dererminacdes, esterores. Eis um exemplo: quando voce deixa cai uma bola de bilhar, cla nao esta agindo livremente, Sea movimento é comandado pelas leis, dda natureza —nesse caso, a lei da gravidade. Suponhamos que eu caia (ou seja empurrado) do Empire State Building. ‘Ao me espatifar no chao, ninguém diria que estou agindo livrementes ‘meu movimento é comandado pela lei da gravidade, tal como o da bola de bilhar, . Agora, suponhamos que eu caia sobre outra pessoa e a mate. Eu nfo seria moralmente responsivel pela desafortunada morte, niio mais do que @ bola de bilhar teria sido caso ela tivesse caido de uma grande aleura sobre a cabega de alguém. Em nenhum das casos 0 objeto que cai —eu ou a bola de bilhar — esta agindo livremente. Em ambos 0s ¢as0s, 0 objeto ‘ue cai é comandado pela lei da gravidade. E, se ndo existe autonomia, ‘Ho pode haver responsabilidade moral. ; Eis, portanto, a relacdo entre liberdade como autonomia e a concep- $40 de Kant sobre moral. Agir livremente nao é escolher as melhores vat sUstiga formas para atingir determinado fim; é escolher o fim em si — uma escolha que os seres humanos podem fazer e bolas de bilhar (e a maioria dos animais) nao podem. PESSOAS E COISAS So 3h ¢ seu colega de quarto na faculdade the perguata por que voce ainda esta acordado meditando sobze dilemmas morais envolyendo bondes desgovernados. —Porque quero fazer um bom trabalho de ética, —Mas para que vocé quer fazer um bom trabalho? — pergunta co colega, —~ Para conseguir uma boa nota. — Mas por que vost se importa com boas notas? — Porque quero arranjar um emprego em urn banco de investimentos, Mas para que acranjar um emprego.em um banco de investimentos? —Para algum dia me tornar gerente de fundos hedge. — Mas para que voc® quer se tornar gerente de fundos hedge? — Para ganhar muito dinheiro. — Mas para que vocé quer ganhar muito dinheico? — Para poder comer lagosta com frequéncia, algo que gosto de fazer. Afinal, sou uma criatura senciente. E é por isso que estou acordado até agora, pensando em bondes desgovernados. Esse é um exemplo daguilo que Kant chamaria de determinacdo he- tecondmica — fazer alguma coisa por causa de autra coisa, por cause de outra coisa, e assim por diante. Quando agimos de mancira heterondmica, agimos em fungao de finalidades extemnas, Nés somos os instruments, endo os autores, dos objetivos que tentamos alcancar, A concepgo de Kant sobre autonomia & 0 absoluto oposto disso. Quando agimos com autonomia e obedecemos a uma lei que estabe- lecemos para nés mesmos, estamos fazendo algo por fazer algo, como uma finalidade em si mesma. Deixamos de ser insteumentos de desig- nios externos. Essa capaciciade de agir com autonomia é o que confere 1 'g vida humana sua dignidade especial. Ele estabelece a diferenga entre spess0as € coisas. ; Para Kant, 0 respeito & dignidade humana exige que tratemos as pes- soas como fins em si mesmas, Por isso é ercado usar algumas pessoas em prol do bem-estar geral, como prega o utilitarismo, Empurrar o homem ‘coxpualento nos trithosa fim de deter o bonde seria usé-lo como um meio, Jo como um fim em si mesmo. Um utilitarista iluminado poderia recusat-se a empurrar 0 homem pelas consequéncias secundéirias do ato que diminuiriam a felicidade em longo prazo. {Logo as pessoas passariam a ter medo de ficar paradas no alto de pontes etc) ‘Mas Kant argumentaria que esse seria um motivo errado para desistir de empurré-lo, pois a vitima em potencial ainda é tratada como nm instru ‘mento, om objeto, um mero meio para proporcionar a felicidade alheia. Esse raciocinio nao preserva a vida do homem para o seu préprio bem, smas para que outras pessoas passem por pontes sem ter medo. Tudo isso leva 4 questo do que da valor moral a uma ago. Ela nos leva do rigoroso conceito de liberdade de Kant a seu igualmente rigoroso conceito de moralidade, (© QUE £ MORAL? PROCURE 0 MOTIVO De acordo com Kant, 0 valor moral de uma ag30 nao consiste em suas Sonsequéncias, mas aa inteng3o com a qual a agdo é realizada. O que importa é 0 motivo, que deve ser de uma determinada natureza. O que importa é fazer a coisa certa porque & a coisa certa, e ndo por algum Outro motivo exterior a ela, “Uma boa ago ndo ¢ boa devido ao que deta resulta ou por aquilo que ela realiza”, escreve Kant. Ela é boa por si, quer prevaleca quer nao, “Mesmo que (...) essa ago ndo consiga concretizar suas intengOes; que 8pesar de todo o seu esforgo ndo seja bem-sucedida (... ainda assim con- tinuard a brilhar como uma joia, como algo cujo valor Ihe seja inerente.”* Para que uma ago seja moralmente boa, “nao basta q A lei rroral — ela deve ser praticada em pro! da lei mor 13 galmente publica um antincio de pagina inteira no New York Times com Fy seguinte manchete: “A honestidade é a melhor politica, E é também a frais lucrativa.” O texto do ancincio nao deixa davidas sobre o motivo. que confere 0 valor moral a uma ago é 0 dever, o que para Kant ¢ fare a coisa certa pelo motivo certo. Ao afirmar que apenas o cumprimento do dever confere valor mora a uma ago, Kant ainda nao especifica quais sZ0 08 nossos deveres, ainda nao nos diz 0 que © supremo principio de moralidade comand, Estd simplesmente observando que, quando avaliamos o valor moral uma agio, estamos avaliando 0 motivo pelo qual ela ¢ praticada, e n suas consequéncias.* Se agirmos por qualquer outro motivo que nao seja o dever, como imteresse proprio, por exemplo, nossa ago nao terd valor moral. Isso se aplica, segundo Kant, ndo apenas ao nosso interesse proprio, mas tam bém a qualquer tentativa de satisfazer nossas vontades ¢ preferéncias, 108808 desejos ¢ apetites. Kant compara morivos como esses — que de- nomina “motivos de inclinagio” —com a motivacio pelo dever. Einsiste no fato de que apenas as ages motivadas pelo dever tém vafor moral. Honestidade. Ela € cdo importante quanto qualquer outro recurso. Porque tum negécio baseado na verdade, na clareza € no valoz justo sera sempre bem-sucedido. E é com esse objetivo que apoiamos o Bercer Business Bureau. Junte-se a nés, E lucre com isso. Kant nao condenaria o Better Business Bureau; € louvavel que se incentive 0 comércio honesto. Entzetanto, existe uma importante dife- tenga moral entre a honestidade pela honestidade e aquela voleada para beneficios de narureza prética. O primeiro caso tem a ver com principios ‘moraiss o segundo, com prudéncia. Kant argumenta que apenas aquele que se baseia em principios alinha-se com a razao do dever, a tnica razio que confere valor moral & acto, Consideremos, ainda, o seguinte exemplo: hé alguns anos, a Unt- vyersidade de Maryland tentou combater um problema generalizado de cola e pediu aos alunos que assinassem termos de compromisso comprometendo-se a no colar. Como incentivo, aqueles que ass ‘orermo ceceberam um eupom de desconto de 10% a 25% para 1n0 comézcio local." Nao se sabe quantos alunos prometeram adio colar de olho no desconto na pizzaria. Mas a maioria de nds concordaria que a honestidade comprada ndo tem valor moral. (Os descontos podem ou nio ter reduzido a incidéncia de cola; a questo moral, no entanto, & saber sea honestidade motivada pelo desconto ou recompense financeica tem valor moral. Kant diria que ndo. Esses casos evidenciam a racionalidade do argumento de Kant de que apenas a motivagio do dever — fazer alguma coisa porque € 0 certo, néo Porque ¢ iri ou conveniente—confere valor moral a uma agao. No entan- ‘0, dois outros exemplos expdem a complexidade do argumento de Kant. O comerciante caleulista e o Better Business Bureau Kant nos dé varios exemplos que evidenciam a diferenca entre dever ¢ inclinagio. Um deles trata de um comerciante prudente. Um fregués inexperiente — digamos, uma erianga — entra em uma mercearia para ‘comprar um pio de forma. O dono da loja poderia cobrar-Ihe um valor mais alto — mais alto do que o normal para um pio de forma —e & crianga nada perceberia. Mas 0 comerciante calcula que, se outras pes- soas descobritem que ele ticou proveito da inocéncia de uma crianga dessa forma, 0 caso poderd chegar ao conhecimento geral ¢ prejudicar sev comércio, Por essa raziio, ele resolve no explorar a crianga e cobra © prego justo. No caso, 0 lojista fez.a coisa certa, porém pelo motive ertado, Sew sinico motivo para agir honestamente em relagdo a crianga foi a protegao da propria repuracdo. O lojista age honestamente apenas pata preservar o proprio interesse, portanto seu ato ao tem valor moral.’ Encontramos uma versio moderna do excmplo de Kant sobre 0 ¢o- merciante prudente na campanha de recrutansento do Better Business Bureau de Nova York. Para conquistar novos men.bros, 0 BBB ocasio~ as 14a Manter-se vivo aver em ajudar os outros? Kant diria que sim. Ble certamente nada vé de Jecrado nas 2¢des motivadas pela compaix3o. No entanto, faz uma distingao fntre 0 fato de ajudar 0s outcos por prazer — porque praticar boas agdes & um ato prazeroso —e ajucl-los por dever. E afirma que uma ago s6 tern ‘lor moral se for motivada pelo dever. A compaixio do akruista “merece Jouvor ¢ incentivo, mas no tem valor mora (© que é preciso para que uma agao tenha valor moral? Kant da O primeiro exemplo envolve nosso dever, segundo Kant, de preservar a propria vida, J que a maioria das pessoas deseja realmente continuar vivendo, esse dever raramente € colocado em discussio. A maioria das precaugdes que tomamos para preservar nossa vida, portanto, ndo tem contetido moral. Afivelar o cinto de seguranga e controlar a taxa de colesterol sio atos de prudéncia, € nfo atos morais, Kant admite que muitas vezes é dificil saber o que motiva as pessoas a agir de uma determinada maneira. E reconhece que as motivagies pelo dever e pela inclinagio podem estar presentes simultancamente. O que ele deixa claro é que apenas a motivagdo pelo dever — fazer algo porque E certo, e ndo porque é agradavel ou conveniente — confere valor moral a uma aga. Ele ilustra esse ponto de vista com 0 exemplo do suicidio, A maioria das pessoas continua a viver porque gosta da vida, e no porque tenla o dever de fazé-lo. Kant cita um caso em que a motivagio do dever é colocada em questo, Ble imagina um individuo desesperan- 5050 e infeliz, vio desesperado que nao deseja mais continuar a viver. Se esse individuo reunir forgas para preservar sua vida, nao por inclinagao, mas por dever, sua ag3o terd valor moral.” Kant no diz que apenas os infelizes podem cumprir 0 dever de preservar sua vida. E possivel amar a vida e ainde assim preservé-la pela razdo certa — ou seja, porque temos o dever de fazé-lo. O desejo de continuar a viver nao elimina o valor moral de preservarmos nossa vida, desde que reconhegamos que temos o dever de preservé-la e que © facamos por esse motivo, uma situacdo como exempli evés que acabe com seu. amor pela humanidade. Ele se transforma em F um misantropo sem simpatia ou compaixdo. No entanto, esse ser sem. coragio abandona sua indiferenca e vem em auxiio dos demais seres bumanos. Sem nenhuma inclinacio para ajudac, cle o faz “apenas em F cumprimento ao dever”. Agora, sim, sua acdo tem valor moral." De certa forma, esse conceito parece um pouco estranho, Esta Kant considesando os misantropos exemplos de moral? Nao exatamen- te, Sentir prazer em fazer a coisa certa niio elimina, necessariamente, seu valor moral. O que importa, segundo Kant, € que a boa acao seja feita por ser a coisa certa — quer isso nos dé prazer, quer nao. O berdi da competi¢ao de soletracto Analisemos um episédio que aconteceu hé alguns anos no concnrso nacional de soletrago em Washington. Pediram a um menino de 13 anos para soletrar ecolalia, palavra que significa uma tendéncia 4 repetir tudo aquilo que se ouve. Embora ele nao tenha soletrado 2 palavra corretamente, os jufzes ndo perceberam o erro, considera- tam a resposta certa e permitiram que ele avancasse na competicao. Quando percebeu que havia errado, 0 menino di se aos juizes e ©Savisou, Foi, entao, eliminado. As manchetes dos jornais do dia se- Suinte considcraram o jovem “um heréi da competigio de soletracio” sua foto apareceu no New York Times. “Os juizes disseram que eu 1a um exemplo de integridade”, disse © menino aos repérteres. Ble disse que parte de sua motivagao teria sido que cle nao queria “se Sentir como um verme”.!2 O misantropo moral Talvez a questio mais dificil para o pensamento de Kant seja 0 que ele con- sidera 0 dever de ajudar o préximo. Algumas pessoas sio altruistas, sentem compaixéo pelos outros. tém prazer em ajudé-los, Para Kant, no entamto, a8 boas ages advindas da compaixdo, “embora corretas e cordiais”, nao em valor moral. Isso pazece contrariar o bom senso, Nao é bom que tenhamos 146 17 Quando li a declaragao do her6i da soletrago logo imaginel o « Kant pensaria a respeito, O fato dea pessoa nfo desejar sentir-se co um verme 6, evidentemente, uma inclinagao, Portanto, se esse foi o tivo pelo qual o menino falou a verdade, seu ato perdeu o valor mo: ‘Mas essa seria uma afiemagao dura demais, Significaria que apenas pessoas insensiveis seriam capazes de praticar atos com algum val moral. Nao acredito que Kant pensasse assim. Sea tinica razio pela qual o menino disse a verdade foi evitar sent se culpado, ou evitar os comentérios negativos que ocorreriam caso. erro fosse descoberto, ai, sim, seu ato no teria valor moral. Mas, le disse a verdade porque sabia que era a coisa certa a fazer, seu a teve valor moral, apesar do prazer ou da satisfagdo que possa ter proporcionado. Desde que tenha feito a coisa certa pelo motivo cert yAL £ 0 PRINCIPIO MORAL SUPREMO? ge moralidade significa agir em fungao do dever, esta saber em que con- jjateo dever. Compreender isso, segundo Kant, é compreendero principio fupremo da mozalidade. Qual éo principio supremo da moralidade? O ‘bjerivo de Kant em Fundamentagio é responder a essa pergunta. ‘Podemos abordar a resposta de Kant yendo como ele correlaciona trés grandes conceitos: moraidade,lberdade erazo, Ble explica esses coneetos pormeio de uma série de antagonismos ou dualismos, Esse processoenvolve ium certo uso de jargio flosofico, mas, se percebermos o paralelo entre 08 segnintes tezmos contrastantes, estaremos no camninko certo para entender ‘losofia moral de Kant, Aqui esto os contrastes que devemos ter em mente: Contraste 1 (moralidade): _dever versus inclinac3o ‘sentir-se bem com isso nao diminui seu valor moral. Contraste 2 (liberdade): ‘autonomia versus heteronomia ‘© mesmo aplica-se ao altruista de Kant. Se ele ajuda os outros sim Contraste 3 (280): imperativos categéricos versus plesmente pelo prazer que isso Ihe proporciona, seu ato no tem valor imperativos hipotéticos moral. Mas, se ele reconhece que tem o dever de ajudar outro ser humano} ‘© age em fungao desse dever, af, sim, 0 prazer que possa advir disso nia © desqualifica moralmente, Na peatica, evidentemente, dever e inclinagio com frequéncia coe+ xistem. E quase sempre dificil compreender nossos préprios motivos} mais ainda saber com certeza os motivos das outeas pessoas. K Jéexploramos o primeiro desses contrastes, entre dever ¢ inclinacao. Apenas a motivagio do dever confere valor moral a uma ago. Vejamos se conseguirei explicar os outros dois. O segundo contraste desceeve duas maneiras diferentes de determi- nar minha vontade— de forma autdnoma ou heteronémica. De acordo com Kant, s6 serei livre se minha vontade for determinada de maneira auténoma, comandada por uma lei que eu mesmo meimponho. Repito que costumamos considerar a liberdade a capacidade de fazermos aquilo Que quisermos, de tentar realizar nossos desejos sem impedimentos, Mas Kant langa um grande desafio a esse conceito de liberdade: Se voct io escolhen esses desejos livremente em primeiro lugar, como pode imaginar-se livre ao tentar realizé-los? Kant aborda essa questo a0 Contrapor autonomia ¢ heteronomia. Quando minha vontade é determinada de maneira heterondmica, ela € determinada externamente, ou seja, fora de mim. Entretanto, surge dai uma dificil questo: Se a liberdade significa algo mais do que seguir nao nega isso. Tampouco pensa que somente um misantropo sem co“ ragio possa praticar atos de valor moral. O objetivo principal de seu exemplo do misantropo é isolar a morivagao do dever — para poder vé-la livee da empatia ¢ da compaixao. E, uma vez.que vejamos a mo- tivagio pelo dever, poderemos identificar a caracteristica das nossas boas agdes que thes confere valor moral — ou seja, seu principio, & ndo suas consequéncias. 148 vas ipuscar. Sua funcdo € descobrir como maximizar a utilidade por meio ida satisfacdo dos desejos que porventura tivermos. Kant repudia esse papel subalterno da razo. Para ele, a razio nfo é somente uma escrava das paixdes. Se a razdo fosse apenas isso, diz Kant, estariamos melhor se optssemos pelos instintos.'* O conceito kantiano de razdo — de razao pratica, aquela que tem a ver coma moralidade — nfo 0 de uma razao instrumental, e sim “uma razio pritica pura, que ctia suas leis a priori, a despeito de quaisquer ; objetivos empiricos”.'* meus desejos e minhas inclinacdes, como isso € possivel? Nao seria ty que eu fago motivado por alguim desejo ou inclinagao determinado influéncias externas? A resposta estd longe de ser Gbvia. Kant observa que “tudo na natal teza funciona de acordo com leis", como as da necessidade natural, da fisica, as de causa ¢ efcito.""E isso nos inclui. Afinal de contas, som seres naturais. Os seres humanos nao estdo imunes as leis da natureea, No entanto, se somos capazes de ser livres, devemos ser capazes de agir de acordo com outro tipo de le, leis que nao as da fisica. Kant ar ‘gumenta que toda aso é governada por algum tipo de lei. B, se nossag ages fossem governadlas apenas pelas leis da fisica, nao seriamos difes rentes daquela bola de bilhar do exemplo que vimos. Assim, se somos capazes de ser livres, devemos ser capazes de agir nao apenas de acordo com uma lei que nos tenha sido dada ou imposta, mas de acordo com tuma lei que ourorgamos a nés mesmos. Mas de onde viria essa A tesposta de Kant: da razdo, Nio somos apenas seres sencientes, que obedecem aos estimulos de prazer e dor que recebemos dos nossos sentidos, somos também setes racionais, capazes de pensar. E, se a razdo determina minha vontade, entdo a vontade torna-se o poder de escolher indepen- dentemence dos ditames da natuzeza ou da inclinagao, (Noze-se que Kant no afirma que a razio sempre governa a vontade; ele apenas diz. que, na medida em que son capaz de agit liveemente, de acordo com uma lei que eu mesmo me outorguei, a ra2do deve poder, entio, governar minha vontade) E evidente que Kant nao foi o primeiro fildsofo a sugecir que seres humanos sejam capazes de raciocinar. Mas sua nogio de raaio, assim como suas concepgées de liherdade e moralidade, é especialmente rigo- rosa. Para os fildsofos empiristas, incluindo os utilitaristas, a razio € simplesmeate um instrumento. Ela nos permite identificar 0s meios para que possamos atingir determinados objetivos— objetivos que a razdo em si nao nos fornece. Thomas Hobbes definia a raz3o como a “sentinela dos desejos”. David Hume a chamava de “escrava das paixdes”. Os utilitaristas viam os seres humanos como capaves de raciocinats ‘mas um raciocinio apenas instrumental. A fungio da cazdo, para 08 utilitaristas, ndo é determinar quais so os objetivos que vale a pena IMPERATIVOS CATEGORICOS VERSUS IMPERATIVOS HIPOTETICOS ‘Como pode a razio fazer isso? Kant distingue duas manciras pelas quais a razio pode comandar a vontade, dois tipos diferentes de imperativo. Um tipo de imperativo, talvez o mais familiar, ¢ 0 hipotético, Imperati- vos hipotéticos usam a razdo instrumental; se vocé deseja X, entiio faga Y. Se vocé quer ter uma boa reputacao nos negécios, entdo trate seus clientes honestamente. Kant faz uma comparagao entre os imperativos hipotéticos, que sio sempre condicionais, e um tipo de imperativo incondicional: 0 impera- tivo categorico. “Se a agio for boa apenas como um meio para atingir uma determinada coisa”, escreve Kant, “o imperativo ser hipotético, Sea acdo for boa em sie, portanto, necesséria para uma vontade que, Por si s6, esteja em sintonia com a razdo, © imperativo, nesse caso, sera categérico.”"*O termo categdrico pode parecer um jargao, mas nao esta {Go distante da maneira como costumamos empregié-lo. Por “catego- ico” Kant entende “incondicional”. Assim, quando um pol Categoricamente um suposto escindalo, por exemplo, a negativa no & Meramente enftica; é incondicional — sem deixar margem a interpre- 8g0es. Da mesma forma, um dever ou um direito categérico é aquele ‘ue deve prevalecer em quaisquer circunstancias. Pata Kant, um imperativo categérico comanda, digamos assim, Sategoricamente — sem referéncia a nenhum outro propésito e sem 150 ase depender de nenhum outro propésito, “Ele nao est relacionado com objetivo da agao e seus supostos resultados, ¢ sitn com sua forma e coy © principio do qual ele partiu. Eo que ha de essencialmente posi na acio é a disposi¢io mental, quaisquer que sejam as consequénciag. Somente um imperative categsrico, segundo Kant, pode ser considera: um imperativo da moralidade. Mostra-se, agora, a relagiio entre os trés contrastes paralelos. ser livre no sentido de ser auténomo, é preciso que eu aja a partir um imperativo categérico, e nao a partic de um imperativo hipotético, ‘Surge dai ama questo importante: © que é imperativo categérico e o que ee exige de nés? Kant diz que podemos responder a essa pergunta par tindo da nogdo de “uma lei pritica que deena o comando absoluto, sent quaisquer outcos motivos”.* Pademos responder a essa pergunte a partir da nogio de uma lei que nos considere seres raciouais, independentemente! dos nossos objetivos particulares. Entdo o que é 0 imperativo categérico?. Kant nos apresenta varias versdes ou formulag6es do imperative categorico que, segundo ele, resultam basicamente na mesma coisa, ‘coerente com 0 imperativo categorico? Kant diz. que no, obviamente Jo. Posso entender por que uma falsa promessa nao pode ser coerente mo imperativo categorico ao tentar universalizar a maxima segundo ual eu estou prestes a agir.” {Qual é a maxima nesse caso? Algo assim: “Sempre que uma pessoa estiver realmente necessitada de dinheiro, ela deve pedir um empréstimo ‘com a promessa de quité-lo, mesmo sabendo que isso sera impossivel.” F Se tentarmos universalizar essa maxima ¢, ao mesmo tempo, agir de F scordo com ela, diz Kant, descobriremos uma contradigdo: se todos fzerem falsas promessas sempre que precisarem de dinheito, ninguém E mais acreditaré nessas promessas. Na verdade, ndo haveria promessas; Fa universalizacao da falsa promessa eliminaria a instituigio do cumpri- mento da promessa. Nesse caso, seria indtil ou mesmo irracional tentar conseguir dinheiro fazendo promessas. [sso mostra que fazer promessas falsas 6 moralmente errado, incoerente com 0 imperativo categérico. ‘Algumas pessoas consideram essa versio de Kant para o imperat categ6rico pouco convincente. A férmula da lei universal tem uma certa semelhanga com uma frase que os adultos usam com frequéncia para repreender as criangas que furam fla ou interzompem quem esté falando: 0 que aconteceria se todo mundo agisse assim?” Se todo mundo mentis- s¢,ninguém acreditaria na palavra de outra pessoa, ficariamos em uma situacdo muito pior. Se é isso que Kant quer dizer, ele esté apresentando um argumento primordialmente voltado para consequéncias ~ no estaria rejeitando a falsa promessa por um principio, e sim devido aos is efeitos ou consequéncias negativos que ela pudesse acarretar. 0 Imperativo categorico I: Universalize sua maxima A primeira versio é o que Kant denomina férmuta da lei universal: “Aja apenas segundo um determinado prinejpio que, na sua opiniao, deveria Kant considera uma “maxima” o preceito jo que propicia a cazao para a agao de uma pessoa. Na verdar de, isso significa que s6 devemos agir de acordo com os principios que podemos universalizar sem entrar em contradigo, Para ver o que Kant quer dizer com esse teste reconhecidamente abstrato, consideremos uma uestéo moral concreta: £ sempre certo fazer uma promessa sabendo de antemio que nao poderemos cumpri-la? Suponhamos que eu precise desesperadamente de dinheiro e que the esa um empréstimo. Sei muito bem que nao podecei quitar essa divida tao cedo. Seria moralmente aceitavel conseguir o empréstimo fazendo uma falsa promessa de que devolveria 0 dinheiro em pouco tempo, ptO- ‘messa essa que sei que nao poderei cumprir? Uma falsa promessa poderia ‘io estamos especulando sobre as possiveis, sso € um teste para verificar se nossa maxima esta de 2cordo com o imperativo categérico. Uma falsa promessa nao é moral- ‘mente errada porque, de modo geral, subverte a confianga social fembora isso possa ser verdade). Fla é errada porque, ao fazé-la, priorizamos Rossas necessidades ¢ nossos desejos {nese caso, de dinheiro) em relag3o 12 tsa as necessidades ¢ aos desejos de todos os outros. O teste da universa laagao conduz a um importante questionamento moral: € uma for de verificar se 0 que estamos a ponto de fazer coloca nossos interes, € nossas circunstancias especiais acima das de qualquer outra pessoa, Imperativo categorico I: Trate as pessoas como fins em si mesmas A forga moral do imperativo categérico fica mais claea na segunda formulagao de Kant, a concep¢ao da humanidade como um fim. Kant introduz.a segunda versio do imperativo categérico da seguinte formas ‘do podemos fundamentar a lei moral em interesses, propdsitos ox ob. jetivos particulares, porque no caso ela 36 seria relativa a pessoa cujos objetivos estivessem em questdo. “Mas suponhamos que exisca alguma coisa cuja existéncia tenha em si um valor absoluto”, como fm em si mesma, “Entéo nisso, e apenas nisso, haveria terreno para um possivel imperativo categérico.” © que poderia ter um valor absoluto, como um fim em si mesmo? A resposta de Kant: a humanidade. “Eu digo que o homem, e em geral todo ser racional, existe como um fim em si mesmo, ¢ nao meramente como um meio que possa ser usado de forma arbitréria por essa ou aque- Ja vontade.”* Essa é a diferenga fundamental, Jembra-nos Kant, entre Pessoas e coisas. Pessoas so seres racionais. Nao tém apenas um valor relativo: tém muito mais, tém um valor absoluto, um valor intrinseco, Ou seja, os seres racionais tém dignidade. Essa linha de raciocinio conduz Kant & segunda formulago do impera- tivo categorico: “Aja de forma a tratar a humanidade, seja na sua pessoa seja na pessoa de outrem, nunca como um simples meio, mas sempre a0 ‘mesmo tempo como um fim.” Essa é a concepgao da humanidade como um firm em si mesma, Analisemos novamente a falsa promessa. A segunda formulae do imperative categérico nos mostra, de um Angulo um pouco diferente, por que ela é errada, Quando prometo pagar the o dinheiro que espe~ ro conseguir emprestado sabendo que néo poderei fazé-lo, eu o esto manipulando, Eu 0 estou usando como um meio paca resolver mew 18 problema financeiro e ndo o estou tratando como um fim em si mesmo, respeito. epenenaiah Eiinteressante notas que tanto ¢ homieidio quanto o suicido séo incompativeis com 0 imperativo cate- gérico, e pela mesma razdo. Frequentemente consideramos 0 homicidio eo sucidio agdes radicalmente diferentes, moralmente falando, Matar tum individuo tira-Ihe a vida contra sua vomtade, enquanto 0 suicidio & ‘opsto da pessoa que o comete. Mas a nogio de Kant de tratar a huma- nidade como um fim coloca homi io no mesmo patamat, Seeu cometer um assassinato, estarei tirando a vida de alguém visando a algum intetesse préprio — roubar um banco, consolidar meu poder politico ou dar vaza0 4 minha raiva. Uso a vitima como um meio e deixo de respeitar sua humanidade como um fim. Essa € a razao pela qual 0 homicidio viola 0 imperativo categérico, Para Kant, o suicidio viola o imperativo categérico da mesma maneira. Se ponho um fim & minha vida para escapar de alguma condigo dolorose, {sou usando a mim mesmo como um meio de aliviar meu sofrimento. No entanto, como Kant nos lembra, um individuo nao é uma algo a ser usado meramente como um meio”. Nao tenho mais direito de ispor da humanidade em mim mesmo do que em outea pessoa, Para Kant, suicidio ¢ homicidio séo errados pelo mesmo motivo. Ambos tcatam as Pessoas como coisas ¢ nao respeitam a humanidade como um fim em si* © exemplo do suicidio evidencia uma caracteristica peculiar daquilo que Kant considera 0 dever de respeitar os demais seres humanos. Para Kant, 0 autorrespeito e o respeito a0 proximo partem de um mesmo € tinico principio. © dever do respeito € um dever que temos para com as essoas como seres racionais, que tém humanidade, sejam elas quem forem. Existe uma diferenga entre respeitoeoutras formas de ligagdo humana, Amor, empatia, solidariedade e companheirismo so sentimentos morais ue nos aproximam mais de determinadas pessoas do que de outras, Mas a razdo pela qual devemos respeitar a dignidade dos individuos ada tem a ver com algo sobre cles em particular. O respeito kantiano é diferente do amor. E diferente da empatia. E diferente da solidariedade € do companheirismo. Essas razées para se importar com as outras pessoas 1s ¢stdo relacionadas com quem elas so. Amamos 103505 cOnjuges ¢ os membros da nossa familia ¢ temos empatia com as pessoas com as quaig ‘nos identificamos. Somos solidrios aos nossos amigos e companheizos, O respeito kantiano, no entanto, € 0 respeito pela humanidade era si, pela capacidade racional que todos possuimos. Isso explica por que a violagao do respeito de uma pessoa por si mesma é tio condenavel quanto a violacio do zespeito pelo préximo. E explica também por que ipio kantiano do respeito aplica-se as doutzinas dos direitos hue manos universais, Para Kant, ajustiga obriga-nos a preservar 0s direitos humanos de todos, independentemente de onde vivam ou do gran de conhecimento que temos deles, simplesmesite porque sio sezes humanos, seres racionais e, portanto, merecedores de respeito, MORALIDADE € LIBERDADE Podemos agora perceber a relagio, segundo a concepgao de Kant, entee obediéncia a lei moral, A le: moral consiste em um imperativo categérico, um principio que exige que tratemos as pessoas com respeite, como fins em si mesmas, $6 agimos livremente quando agimos de acordo com 0 impezativo categsrico. Iss0 acontece porque sempre que agimos segundo um imperative hipotético agimos em pro! de algum interesse ou objetivo externo, Mas nesse caso nao somos verdadeiramente livres; nossa vontade nio é determinada por nds, sim por forgas externas — por nossas necessi- dades circunstanciais ou por vontades e desejos que porventura teahamos. $8 podemos escapar dos ditames da narureza ¢ das circunstancias se agirmos com autonomia, segundo uma lei que impomos a n6s mesmos. Tal Jei nao pode ser condicionada por nossas vontades ¢ nossos desejos parti- calares. Assim, a rigidas nogdes de Kant sobre liberdade ¢ moralidade si0 interligadas. Agirlivremente, ou sea, de forma autbnoma,¢ agit moralmente, de acordo com o imperativo categoria, sio, na verdade, a mesma coisa, Essa concepgio de moralidade e liberdade leva Kanta sua critica contun™ dente do utiicarismo. A tentativa de basear a moralidade em algun interesse ou desejo particular (tal como felicidade ou utilidade) estava destinada ao fracass0. “Porque aquilo a que cles se referem jamais foi dever, mas apenas anecessidade de agira partir de um determinado interesse.” Mas qualquer principio baseado no interesse “jamais passou de ur principio condicionado a algo externo ¢ ndo poderia ser considerado uma lei moral PERGUNTAS PARA KANT ‘A flosofia moral de Kant é poderosa e convincente, mas pode ser dificil éecompreender, principalmente & primeira vista, Se vocé conseguiu me F acompanhar até este ponto, pode ser que vrias questdes Ihe tenham ocorrido. Eis quatro questées particularmente importantes: QUESTAO 1: O imperativo categérico de Kart ensina-nosa tratar todos os individuos cons respeito, como um firn em si mesmos. Nao seria isso praticamente a mesma coisa que a Regra de Quro? (“Faca aos outros ‘que deseja que os outros facam a voce.”) RESPOSTA: Nio. A Regra de Ouro depende de fatos contingentes que variam de acordo com a forma como cada um gostaria de ser tratado. O imperativo categorico obriga-nos a abstrair essas contingéncias e a respeitar as pessoas como seres racionais, independentemente do que elas possam desejar em uma determinada situagio. Suponhamos que voce tome conhecimento da morte de seu irmao em tum acidente de carro. Sua mie idosa, em estado delicado em uma casa de epouso, pede noticias dele, Voc® fica dividido entre contar-the a verdade ou poupé-ta do choque ¢ do softimento, Qual é coisa cesta a fazer? A Como voeé gostaria que © tratassem em. ago semelhante?” A resposta, evidentemente, é muito subje- tiva, Algumas pessoas prefeririam que as poupassem da dura realidade ‘Quando estivessem vulnerdveis, jd outras gostariam de saber a verdade, Por mais dolorosa que fosse. Portanto, vocé pode muito bem concluir ‘we, caso estivesse no lugar da sua mie, preferiria ignorar a verdade. 387 Para Kant, no entanto, essa nao é a pergunta certa a fazer. O que, importa ndo é como vocé (ou sua mae) poderia sentir-se em tais cir. ccunstancias, mas o que significa tratar as pessoas como sores raciona ancrecedores de respeito. Esse é um caso no qual a compaixio indicar um caminho e o respeito kantiano, outro. Do ponto de vista do imperativo categérico, mentir para sua mae por se preocupar com } seus sentimentos seria usi-la de forma questiondvel como um meio: pata.a prOpria satisfagao, em vez de respeité-la como um set racional, QUESTAO a: Kant parece sugerir que cumprir um dever e agir com: autonomia sao exatamente a mesma coisa. Mas como isso pode ser?. Agir de acordo com o dever significa ter de obedecer a uma lei. Como! pode a obediéncia a uma lei ser compativel com a liberdade? RESPOSTA: Dever e autonomia s6 caminham juntos em um caso espes: cial — quando sou 0 autor da lei a qual tenho o dever de obedecet:} Minha dignidade como pessoa livre nao consiste em submeter-me ali moral, mas em ser o autor “dessa mesma ei (..¢ subordinar-me aela apenas nessa situacao”, Quando obedecemos ao imperativo categérieo, obedecemos a uma lei que escolhemos. “A dignidade do homem com siste precisamente em sua capacidade de criar leis universais, embora apenas sob a condigao de estar, ele também, sujeito as leis que criou."™* QUESTAO 3: Se autonomia significa agir de acordo com tema lei que’ criei para mim mesmo, 0 que garante que todas as pessoas escolherio a mesma lei moral? Se 0 imperativo categdrico é produto da minba vontade, isso nao significa que pessoas diferentes terao imperativos categéricos diferentes? Kant parece crer que todos seguimos a mesma: lei moral. Mas como ele pode ter certeza de que pessoas diferentes n0 raciocinardo de maneira diferente, o que ocasionaria uma diversidade: de leis morais? juando optamos pela lei moral, no fazemos escothas como pessoas individuais que somos, mas como seres racionais, av | participam daquilo que Kant considera “pura razao pratica”, Portant0y 158 é ecrado considerar que a lei moral depende de nés como individvos, E-claro que, se partirmas de nossos interesses, nossos desejos e nossas finalidades particulares, poderemos chegar a principios diferentes. ‘Mas esses serao principios prudentes, e nao principios morais. Na medida em que exercitamos a pura razo pritica, nés nos afastamos de nossos interesses pasticulares. Isso significa que todo aquele que praticar a pura razdo pratica chegara & mesma conclusdo— chegaré a um imperativo categ6rico (e inico universal), “Assim, a escolha livree aescolha baseada em leis morais so essencialmente a mesma coisa.”®” Questho 4: Kant afirma que, se moralidade significa mais do que uma questdo de célculo pritico, ela deve seguir os padrées do imperativo categdrico. Mas como podemos saber se a mioralidade existe indopen- dentemente do exercicio do poder e dos interesses? E. posstvel ter certeza de que somos capazes de agir com autonomia e liberdade? O que acon- teceria se os cientistas descobrissen: (por meio de exames de imagem do cérebro, por exemplo, ou pela neuroci jira) que, na verdade, nao temos liberdade de escolha? Isso refutaria a flosofia moral de Kart? RESPOSTA: A liberdade de escolha nao é algo que possa ser com provado ou negado pela ciéncia, A moralidade tampouco, E verdade Quando levanto a mao para votar, minha agio pode ser explicada pelo uso de misculos, neurdnios, sinapses e células. Mas pode tam- bem ser explicada em termos de ideias ¢ crengas. Kant diz. que no podemos deixar de compreender a nds mesmos de ambos os portos de vista — 0 do dominio empirico da fisica e da biologia e o do dominio inteligente” da faculdade humana de agir livremente. Para responder a essa questo de forma mais abrangente, devo falar lum pouco mais sobre esses dois pontos de vista, Ha duas perspectivas das quais podemos considerar a faculdade humana de agir ¢ as leis ue comandam nossos atos. Bis como Kant as descreve: 159 ‘Um ser racional (.) pode obscevar-se de dois pontos de vista diferentes paca, a partir deles, conhecer as leis que governam (..} todas as suas agdes. Ele pode considerar-se primesramente — j8 que pertence ao mundo senstvel —governado pela les da natuteza (heteronomial ¢,ena segundo lugar — 8 que pertence 0 mundo inteligente —, governado pelas leis que, sendo independentes da natureza, nio so empiticas mas se baseiam apenas na raz30.* A diferenga entee essas duas perspectivas equivale aos quatro con- trastes que ja discutimos: Contraste 1 (moralidade) Contraste 2 (liberdade): Contraste 3 (razao): dever versus inclinacao ‘autonomia versus heteronomia imperativos categsricos versus imperativos hipotéticos ‘dominio inteligivel versus dominio sensivel Contraste 4 (pontos de vista): Como um ser natural, pestengo ao mundo sensi sto dererminadas pelas leis da natureza e pelas regularidades de causa € efeito. Esse é o aspecto da agio humana que a fisica, a biologia e a neurociéncia conseguem descrever. Como um ser racional, hebito ura mundo inteligivel. Assim, independo das eis da natureza, sou auténomo, capaz de agir de acordo com uma lei que decteto pata mim mesmo. Kantafirma que s6 posso me considerar livre a partir desse segundo pomto de vista (inteligive), “porque ser livre é nao depender de derecminacoes do mundo sensivel(¢ isso € 0 que a raziio deve sempre atribuir a si mesma]"2? Se eu fosse apenas um ser empirico, nao seria livres todo exercicio da vontade seria condicionado a algum interesse ou desejo, Tovla escolha teria por base a heteronomia, seria comandads pela busca de alguma lade. Minha vontade jamais poderia ser a causa primeitas ela poderia ser apenas o efeito de alguma causa anterior, o instrumento de algum impalso on inclinagio. Na medida em que nos consideramos livees, nio poclemos nos consi derar meros seres empiricos. “Quando nos consideramos livres, estamos Minhas agdes 160 nos tornando membros do mundo inteligivel, reconhecendo a autonomia dda vontade assim como sua consequéncia — a moralidade.”° Entdo — para voltarmos pergunta — como & possivel existirem smperativos categ6ricos? Simplesmente porque “a nogdo de liberdade orna-me parte do mundo inteligivel”.' A ideia de que podemos agir livremente, assumic 2 responsabilidade moral por nossos atos ¢ fazer com que as outras pessoas se responsabilizem moralmente por seus atos requer qué nos vejamos nesta perspectiva — do ponto de vista do agente, endo meramente de um objeto, Se vocé realmente resiste a essa ideia, alegando que liberdade humana e a responsabil ilusBes descabidas, Kant no poderia consideré-to errado em princi ‘Mas seria dificil, ou quase impossivel, que nds nos compreendéssemos, ‘que encontrassemos algum sentido para nossas vidas, sem alguma concepcdo de liberdade e moralidade. E essa concepe4o, segundo Kant, ‘compromete-nos com dois pontos de vista —o do agente e o do objeto. E,uma vez que vocé entenda a importéncia desse quadro, verd por que iéncia jamais podera provar ou negat a possibilidade da liberdade. Lemmbre-se de que Kant admie que nao somios apenas seres cacionais. Nao habitamos apenas o mundo inteligivel. Se fossemos apenas seres cacionais, sem nos submeter as leis e necessidades da natureza, todos 0s nossos atos “seriam invariavelmente coerentes com a autonomia da vontade”.*fé que somos parte, simultaneamente, de ambos os dominios — o da necessidade € 0 da liberdacle — existird sempre uma lacuna potencial entre o que faze- mos e 0 que devenos fazer, entre como as coisas sio e como deveriam ser, Outca forma de abordar esse ponto é dizer que a moralidade nio é ‘mpirica, Ela mantém certa distancia do mundo. Bla faz um julgamento do Mundo. A ciéncia nao é capaz, apesar de todo 0 seu poder e discer dese ocupar das questdes morais, porque atua no dominio do se “Nogar a liberdade”, escreve Kant, “é tdo impossivel paraa mais ab: trusa filosofia quanto para a mais simpies raziio humana.”*"Isso também is |, como Kant poderia ter acrescentado, para a neurociéncia iva, por mais sofisticada que ela seja. A citncia pode investigar a Ratureza e indagar sobre 0 mundo empirico, mas no pode responder © questéies morais ou negar o livre-a porque a moralidade ¢ a 161 liberdade ndo sdo conceitos empiricos. Nao podemos provar que el ‘existem, mas também nao podemos explicar nossa vida moral sem parti do pressuposto de que elas existem. gua luxtiia e seus desejos”.*(Por motivos que abordaremos em seguida, Kant acredita que o casamento eleva 0 sexo ao consideri-lo algo que vai além do pzazer fisico, relacionando-o com a dignidade humana.) ‘Quanto & guestio da moralidade ou imoralidade da prostituigao, Kant pergunta em que condigdes 0 uso das nossas faculdades sexuais, ‘staria de acordo com a moralidade. Sua resposta, nessa e em outras situagdes, € que ndo deveriamos tratar os outros — ou a nés mesmos. —corno meros objetos. Nao estamos 4 disposigo de nés mesmnos. Em radical oposicéo & concepeio libertaria de que somos os donos de nés mesmos, Kant insiste no fato de que isso ndo é verdade. O requisito moral para que tratemos as pessoas como finalidades, em vez de trata- las como meros meios, limita a maneira de tratarmos nosso corpo e nés ‘mesmos. “O homem no pode dispor de si mesmo porque nao é um ‘objeto, tampouco sna propriedade."* Em discuss6es contemporaneas sobre a moralidade sexu: ‘que invocam os direitos de autonomia argumentam que os in doveriam ser livres para decidir sozinhos que uso gostariam de fazer do seu proprio corpo. Mas nao é isso que Kant define como autono- mia. Paradoxalmente, a concepgao de Kant sobre autonomia impée ites ao tipo de tratamento que podemos dar a nds mesmos. Recordemos: para que eu seja autnomo, é preciso que seja governado or uma lei que outorgo a mim mesmo — 0 imperative categérico. E © imperativo categdrico exige que eu trate as pessoas (incluindo a mim ‘mesino) com respeito — como finalidade, e no como um simples meio. Assim, segundo Kant, para que tenhamos auonomia é necessario que ‘os ttatemos com respeito € que no transformemos nosso corpo em ‘ero objeto. Nao podemos utilizé-lo como bem entendermos. © comércio de rins nao era comum na época de Kant, mas os ricos ‘Compravam dentes dos pobres para fazer implantes. (Transplante de den- tes, um desenho do caricaturista inglés Thomas Rowlandson, do século XVII, mostra um consultério de dentista onde um cirurgifo extrai os dentes de um limpador de chaminés enquanto mulheres icas aguardam Delos implantes.) Kant considerava essa prética uma viclacao dos direitos bumanos. Uma pessoa “nao tem o direito de vender um membro, nem SEXO, MENTIRAS E POLITICA Um dos meios de explorar a filosofia moral de Kane é ver como ele ou a algumas questdes coner: aplicagao — sexo, mentiras e politica. Os filasofos nem sempre so a melhores autoridades na demonstragio pratica de suas teorias. No cas de Kant, entretanto, as aplicagdes sdo interessantes e também po iluminar sua flosofia como um todo. A argumentacao de Kant contra 0 sexo casual A opinido de Kant sobre a moralidade sexual é tradicional e conservadora. Ele se ope a qualquer pritica sexual que ndo seja a relagao entre marido emuiher, Saber se todas as nogdes de Kant sobre sexo realmente derivam de sua flosofia moral néo é to importante quanto a ideia implicita que] elas retletem — de que ndo somos donos de nds mesmos e nio podemos4 dispor totalmente de nés mesmos, Ele repudia 0 sexo casual (no caso, 0§ sexo fora do casamento}, ainda que consensual, com base no fato de € degradante para ambos os parceiros, eransformando-os em objetos. 0: sexo casual condendvel, acredita ele, porque diz respeito apenas & sa tisfagao de um desejo sexual e nao respeita 0 parceiro como ser humano. © desejo que um homem sente por uma mulher nfo é governado pelo fato de que ela é um ser humano, mas pelo faro de ela ser mulher; a cle ‘iGo importa que ela seja um ser humano: 0 objeto de scu descjo é apenas ‘sexo da mulher. Mesmno quando 0 sexo casual proporciona satisfagio miitua 408 patceiros, “um esta desonrando a natureza humana do outro. Eles transformam a humanidade em um instrumento para a satistagao é¢! rez 163 sequer um de seus dentes”.»” Fazer isso 6 tratar a si mesmo como um ‘objeto, um mero recurso ou um instrumento de lucro. Kant considerava a prostituigdo inaceitvel pelo mesmo motivo, “Per. titir-se ser usado, com fins lucratives, para que outra pessoa satisfaga 08 prdprios desejos sexuais, fazer de si mesmo um objeto de desejo fazer de si mesmo uma coisa por meio da qual ouvras pessoas saciam seus apetites, como se estivesser aplacando a fome com um bile.” Og seres humanos “nao tém o direito de oferecer o préprio corpo com fing Jucrativos, como objeto de uso para a satisfagio de desejos sexuais”. Isso transforma a pessoa em uma simples coisa, em um objeto de uso. “O prinefpio moral bisico por tris disso € que o homem ndo é propriedade de si mesmo, portanto nao pode fazer 0 que quiser do prdprio corpo." O reptidio de Kant prostituigio e a0 sexo casual aumenta o contraste entre sua concepsio de autonomia —o livre arbitrio de um ser racional — € 08 atos individuais de consentimento, A lei moral & qual chegamos por meio do exercicio de nossa vontade requer que tratemos a humanidade—~ 1n6s mesmos ¢ todas as outras pessoas — nunca somente como um mei mas como uma finalidade em si, Embora esse requisito moral se baseie na autonomia, ele condena certos atos entre adultos, ainda que consentidos, que no estejam de acordo com 0 autorrespeito e a dignidade humana. Kant conclui que apenas 0 sexo no casamento pode evitar “a degrada- ‘¢30 da humanidade”. O sexo entre duas pessoas $6 no as transforma em objetos quando elas se entregam uma 3 outra integralmente, endo apenas fazem uso de suas capacidades sexuais. A sexualidade s6 significa “uma unido de seres humanos” quando ambos os parceiros compartilham entre si “suas pessoas, seus corpos e suas almas, na alegria e na tristeza, e em todos 0s aspectos”.”Kant nao afirma que todo casamento seja realmente uma uniiio assim. E pode estar errado ao considerar que anides desse tipo jamais possam ocorrer fora do casamento ou que relacdes sexuais, fora do casamento envolvam nada além da mera satisfacdo sexual. Mas sua opinido sobre sexo enfatiza a diferenga entre duas ideias que so muitas vezes confundidas nas discussdes atuais — entre uma ética de 164 E errado mentir para um assassinot Kant é muito rigoroso quanto & mentira. Em Fundamentacao, a mentira Go principal exemplo do comportamento imoral. Mas suponhamos que tumna amiga esteja escondida em sua casa e um assassino bata 4 sua porta procurando por ela, Nao seria certo mentir para 0 assassino? Kant diz que nao. O dever de dizer a verdade deve prevalecer, independentemente das consequéncias, Benjamin Constant, um fil6sofo francés contemporéneo de Kant, combatea essa atitude intransigente, O dever de falar a verdade s6 se aplica, alegou Constant, aqueles que merecem a verdade, 0 que certa- mente nfo € o caso do criminoso. Kant respondeu alegando que mentie paza 0 criminoso é ecrado nao porque isso 0 prejudique, mas porque jola o principio do que é correto: “A veracidade das afirmagdes que no podem ser evitadas é um dever formal do homem para com todos os demais, embora isso possa prejudicé-lo ou prejudicar outra pessoa.” Sem davida, permite que um criminoso pratique suas perversidades é uma grande “desvantagem”. Lembremo-nos, no entanto, de que para Kant a moralidade ndo diz respeito as consequéncias, e sim aos principios, Nao podemos controlar as consequéncias de nossos atos — nesse caso, © fato de dizermos a verdade — porque as consequéncias estao ligadas & contingéncia. Até onde vocé sabe, sua amiga, temendo que o assassino estivesse a caminho, pode jd ter escapado pela porta dos fundos. E voc’ deve dizer a verdade, afirma Kant, nao porque o criminoso merega ouvi-la ou porque uma mentira 0 prejudicaria em suas intengdes. O fato é que a ‘mentira — qualquer mentira — “corrompe a pripria esséncia daquilo que E certo (..) a verdade {honestidade) em todas as declaracdes & portanto, ‘uma lei sageada e incondicional da razio, que no admite qualquer forma detransigéncia.”* Esse posicionamento parece estranho e radical. Com toda certeza, no teriamos o dever moral de contar a um soldado nazista que Anne Frank sua familia estavam escondidas no sétio de uma casa. Kant para que se fale a verdade ao criminoso é uma aplicagio errénca do iniperativo categdrico ou uma prova de seu absurdo. 165 republican discutiu com um dos advogados de Clinton, Gregory Craig, questionou a veracidade da declaragao do presidente, que negava ter tidg, “relagdes sexuais”: SENADOR REPUBLICANO BOB INGLIS: Dr. Craig, ele mentiu para © povo americano quando disse: “Eu nunca tive relagdes sexuais com aquela mulher?” Ele mentiu? ‘CRAIG: Ele cectamente levou as pessoas a conclusdes equivocadas « enganon.,. INGLIS: Espere ai. Ele mentiu? CRAIG: Paza © povo americano... Fez.com que tirasse conclusdes equivocadas e nao lhe contou a verdade naquele momento, INGLIS: Certo, ent&o o senhor nao pode se basear... E 0 presidente insistiu pessoalmente... no fato de que nenhum artificio deveria ser empregado para obstcuir a simples verdade moral. Ele mentia ara o povo americano quando disse: “Eu nunca tive relagdes sexuais com aquela mulher: CRAIG: Ele no acredita que tenha mentido devido & forma como... Deixe-me explicar que... Deixe que eu explique, senhor senador. Fle acha que nao mentiu? CRAIG: Nao, ele acha que ndo mentiu porque sua concepgdo de sexo € a definigdo que consta no diciondrio. © senhor pode até néo concordar, mas, no entender dele, a definigio ndo cra. INGLIS: OK, eu entendo esse argumento. CRAIG: OK, INGLIS: E incrivel. O senhor comparece agora perante nds ¢ retira todas as suas... suas desculpas. ‘CRAIG: Nao. INGLIS: O senhor as esté retirando, no esté? CRAIG: Nao, nao estou. INGLIS: Porque agora o senhor yoltou & argumentagio... Existem varios arguientos que podem ser usados aqui Um deles é 0 de que ele ndo teve relagies sexuais com ela, Foi sexo oral, nao foi sexo de verdade. isso que 0 senhor estd aqui para nos dizer hoje? Que cle nio teve selagdes sexuaais com Monica Lewinsky? 168 CRAIG: O que ele disse a0 povo americano foi que ele nao teve re~ ages sexuais, E compreendo que o senhor nao goste disso, se- nados, porque... 0 senhor vai considerar essa resposta uma defesa técnica ou uma resposta capciosa, evasiva. Mas a relagao sexual € definida em todos os diciondrios de determinada maneira, € ele ndo teve esse tipo de contato com Monica Lewinsk; ele enganou 0 povo americano? Sim. Isso foi errado? Sim. Foi censurdvel? Sim. O advogado do presidente admitiu, como Clinton admitica anterior- mente, que 0 relacionamento com a estagisria fora errado, imprOprio ¢ censurivel, e que as declaragoes do presidente sobre o assunto “confun- diram e enganaram” o povo. A dinica coisa que ele se recusou a admitir foi o fato de o presidente ter mentido, O que estava em jogo nessa cecusa? A explicacao nao pode ser apenas a justficativa legal de que a mentica sob juramento, em depoimento ou no tribunal, é passivel de acusagao de perjtrio. A declaragio em questao no fora feita sob jusamento, mas em um pronunciamento transmitido pela televiséo para 0 povo americano. Ainda assim, tanto o senador republicano que interrogava Clinton quanto 0 advogado do presidente sabiam que algo importante estava em jogo a0 decidir se Clinton havia mentido ou se havia apenas dissirmulado ¢ levado as pessoas a conclu- sbes errdneas. A arrebatada discussio sobre a palavca “mentira” est deacordo cam a concepgio kantiana de que existe uma diferenga moral relevamte entre a mentira e a dissimulagio. Mas qual seria essa diferenca? Sem divida, a intengo é a mesma em ambos 05 casos. Se eu minto para o assassino & minha porta ou se me esquivo com uma evasiva, a intencio é levé-lo a acreditar que minha amiga nio esté escondida em minha casa. E, na teoria moral de Kant, © que importa 6 a intencao, 0 motivo, Acho que a diferenga a seguinte: uma desculpa evasiva cuidadosa- ‘mente estudada respeita o dever de dizer a verdade de uma forma que a ‘mentira categérica nao faz. Qualquer pessoa que se preocupe em elaborar ‘uma declaragio enganosa, porém tecnicamente verdadeira, em situagdes 169 ‘as quais uma simples mentira resolveria o problema, demonstra, embora| indiretamente, respeito pela lei mo: Uma verdade enganosa tem dois motivos, ¢ nao um s6. Se eu sim. plesmente mentir para 0 assassino, estazei agindo por um s6 motivo — proteger minha amiga, Se eu disser a0 assassino que vi minha amiga .g mercado ha pouco, estarei agindo por dois motivos — proteger minha amiga e, a0 mesmo tempo, manter 0 dever de falar a verdade. Em ambos 6s casos, estarei tentando atingir um objetivo louvével: proteger minha amiga. Mas apenas no segundo caso estarei buscando esse objetivo de acordo com a motivacio do dever. Algumas pessoas podem argumentar que, como uma mentira, uma declaragao tecnicamente verdadeica, porém enganosa, nao pode ser universalizada sem que constitua ume contradigio. No entanto, consi- decemos a diferenca: se todos mentissem diante de ium assassino A sua Porta ou um escandalo sexual embaragoso, ninguém mais acreditaria nessas declaragSes, tornando-as intiteis. © mesmo no pode ser dito das evasivas. Se todas as pessoas que se encontrassem em uma situagio perigosa ou embaragosa conseguissem elaborar evasivas cuidadosas, as Pessoas no necessariamente deixariam de acreditar nelas, Ao contrario, aprenderiam, como os advogados, a avaliar essas declaragdes com os olhos voltados para seu sentido literal. Foi exatamente isso que acontecen quando a imprensa e © pablico tomaram conhecimento das negativas cuidadosamente elaboradas por Clinton, Kant ndo quer dizer necessariamente que essa situagdo, em que as pessoas analisam as negativas dos politicos em seu sentido literal, seia de alguma forma melhor do que se ninguém acreditasse de fato nos po- liticos. Esse seria um argumento “consequencialista”. O que Kant quer nnos mostear, na verdade, é que uma declaragao enganosa mas ainda assim verdadeiza ndo coage ou manipuia o ouvinte da mesma forma que o faz, uma mentira categériea. Existe sempre a possibilidade de que um ouvinte atento possa descobrir a verdade. Assim, pode-se concluir que, de acordo com a teoria moral te Kant declaragdes verdadeiras porém evasivas — para um assassino A nossa porta, para um censor prussiano ov para um promotor especial — so 170 Diferentemente de Aristételes, Bentham e Mil ; 7 trabalho importante sobre ceoria politica, apenas alguns ensaios. Ainda assim, a concepgio de moralidade e liberdade que emerge de seus escritos sobre ética contém poderosas implicagdes para a justiga. Embora Kant io tenha deralhado tais implicagies, a teoria politica que cle defende repudia o utilitarismo em favor de uma teoria de justiga fundamentada ‘em um contrato social. s purase simples ndo coralmente permissiveis de uma forma que me go. Woce pode pensar que eu tive muito trabalho para resgatar Kant de a posi¢ao implat é par passasino pode nio ser, afinaf de contas, defensivel. Mas a distingo entre urna mentira categOrica e uma verdade evasiva ajuda teoria moral de Kant, Erraz 8 tona uma surpreendente semelhanga entre Bill Clinton ¢ 0 austero moralista de Konigsberg. Seu argumento de que é errado mentir para lustear a Kant e a justiga Kant nifo escreveu um Primeiramente, Kant repudia o utilitarismo nfo apenas como uma base para a moralidade pessoal, mas também como uma base para a lei. Em seu entender, uma Constituigdo justa tem como objetivo harmonizar a liberdade de cada individuo com a liberdade de todos os demais. Isso nada tem a ver com a maximizagao da utilidade, que “no deve, em hipétese alguma, interferir” na deter minagao dos direitos basicos. Jé que 8 pessoas “ttm visdes diferentes da finalidade empitica da felicidade cm que ela consiste”, a utilidade no pode ser a base da justiga © dos direitos. Por que no? Porque basear os direitos na utilidade exigiria que 4 sociedade afirmasse ou endossasse uma concepgao de Felicidade em detrimento de outras. Bascar a Constituigao em uma determinada con- cepcao de felicidade (como a concepcio da maioria) imporia a algumas Pessoas os valores de outras ¢ ndo respeitaria 6 direito que cada um tem de lutar pelos préprios objetivos. “Ninguém pode obrigar-me a ser feliz, Segundo sua concepsio do bem-estar alhieio”, escreve Kant, “porque cada lum deve buscar sua felicidade da maneira que achar conveniente, desde ue ro infrinja a liberdade dos outros” de fazer o mesmo.* in ‘Uma segunda caracteristica importante da teoria politica de Kant que ela fandamenta a justica e 08 Notas 4, Vee Christine M. Korsgaard, “Introduction”, Immanel Kant, Grosndivork of the “Metaphysics of Morals [Fundamentaito da metafisica dos costumes] (Cambridge, Cambridge University Press, 19971 pp. 2. Immanuel Kant, Groundivork of the Metaphysics of Morals (1785), teadugio para oinglés de 1. J.Paton (Nova York, Harper Torchbooks, 1964), p.442, Visto ‘que 0s kites usarso vérias edigdes de Groundwork de Kant, cito 0s mimeros ‘padedo das paginas da edigio publicada pela Royal Prussian Academy de Ber ‘A maioria das edigdes contemporineas de Growndwork usa essas referéncias. @ Kant que se debrugaram sobre contratos sociais, dentre eles Loci argumentam que 0 governo legitimo fundamenta-se em um cont social entre homens e mulheres que, em uma determinada ocasia decidem entre si quais principios deverdo governar sua vid: Kant vé o contrato de outra forma. Embora o governo k ser fundamentado em um contrato original, “nao devemos, de formal alguma, presumir que tal contrat (..) zealmente exista como um fato, a sp porque isso seria impossivel”, Kant afirma que o contrato original ni Salem p90 6 real sim imaginario-® E Dew ee fornaagio da concep de Kanta Leas Stanek, Por que devemos fundamentar uma Constituigojusta em um contra: 7: bide, p. 397 em vez de fundament 8, Hubert B. Herring, “Discounts for Honesty”, New York Times, 9 de margo de 1997, 9. Kant, Groundwork, p. 398. 10, 1bidem. 1, Tbidem. 12 “Mispeller Isa Spelling Bee Hero” (UPD, New York Times, 9 de junho de 1983. 13, Kant, Groundwork, p. 412. 14, Ibidem, p. 395. 15, Kantusa essa frase emum ensaio escrito virios anos aps Grosmdiwork, Ver Immanuel Kant, “On the Common Saying: This May Be True in Theory, But Does Not Apply in Practice’ (1793), etm Haus Reiss ed., Kons Political Writings, radusio para 0 inglés de H. B, Nisbet (Cambridge, Cambridge Press, 1970), p. 73- 16, Kant, Growrdwork, p. 414. 7. Ibidem, p. 416. idem, p. 425. Ver cambém pp. 419-20, la em um contraio real? A primei iment, na histéria remota das nagdes, que um contrato social tenha sido feito de fato. A segunda razao é filosdfica: principios morais nao podem derivar apenas de fatos empiricos. Da mesma forma que a lei moral no pode ter como base os interesses ou desejos dos individuos, os prinefpios de justiga néo podem se fundamentar nos interesses ou desejos de uma comunidade, (O simples fato de um grupo de pessoas ter elaborado uma Constituigéo no passado no basta para que essa Constituigo seja considerada justa, Que tipo de contrato imaginétio poderia evitar esse problema? Kant simplesmente 0 chama de ‘uma ideta de razdo, que nio obstante tem uma inegavel realidade prética, porque ela pode forgar cada legislador a enquadrar suas leis de forma que elas paresam ter sido criadas pela vontade undnime de uma na¢4o inteira” ¢ obrigar cada cidadao a respeita- -las “como se ele houvesse concordado com elas”, Kant conclui que e38® ato imaginario de consenso coletivo “é o teste de legitimidade de todas as leis piblicas”” Kant nao nos disse como seria esse contrato imaginario, ou a que print pos de justia ele daria origem. Quase dois séculos mais tarde, um filésof0 politico americano, John Rawls, tentaria responder a essas perguntas. em, p43, 26. idem, p. 440. 2. Abidens,p. 447 28. Ibidem, p. 452.