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Pedro Tiago Ferreira

Recensão de Viagens de Marco Pólo (2012)

O primeiro problema com que o crítico da obra que relata as viagens de Marco Polo ao

Oriente se depara é o de saber que obra analisar; com efeito, segundo Peter Jackson, chegaram aos nossos dias 122 manuscritos, da responsabilidade de copistas diferentes, todos com divergências entre si. 1 As dificuldades surgem logo a propósito do título da obra: na sua língua original francês arcaico com influências do italiano 2 o título tem duas versões: Livre des merveilles du monde e Divisament dou monde, para além do

epíteto por que ficou conhecido, Il Milione. Em inglês, português e espanhol o livro tem títulos semelhantes The travels of Marco Polo, Los viajes de Marco Polo e As viagens de Marco Polo, respectivamente. No entanto, para além do título, cada versão tem diferenças textuais significativas existem omissões e adições, trechos em que a acção é narrada de forma marcadamente diferenciada o que significa que, de texto para texto, nos encontramos perante uma obra diferente, o que implica, por parte do crítico, a necessidade de efectuar uma escolha prévia à da análise da obra: é necessário eleger que obra irá ser analisada. Decidimos utilizar a versão anotada por Cristóvão Colombo por duas razões essenciais: a primeira prende-se com o facto de dominarmos melhor o castelhano do que

o francês, especialmente na sua versão arcaica com influências do italiano; a segunda

tem a ver com a questão da proximidade temporal em relação à publicação do original. Na realidade, e uma vez que a obra já foi, ab initio, adulterada por copistas e tradutores,

logo após a sua feitura, estamos convencidos de que, quanto mais próximo o texto consultado estiver, temporalmente, do original, menos deturpações conterá. Todavia, estamos bem cientes de que o texto analisado não corresponde, integralmente, àquele que foi escrito por Rustichello da Pisa, companheiro de cela de Marco Polo. Por outro lado, em nosso entender, quanto mais antigo for o texto, em princípio, mais fiel será em relação ao original, dado que a passagem do tempo é um dos factores que influencia a convolação do texto de uma determinada obra.

1 Cf. Jackson, 1998, p. 84.

2 Idem.

A nossa opção foi, portanto, tomada a partir dos critérios acima mencionados, até porque não existe, tanto quanto sabemos, uma edição crítica do texto. A fixação de texto a partir dos originais que chegaram até nós seria uma tarefa que em muito ajudaria os intérpretes, dado que forneceria uma base comum a partir da qual todos poderiam desenvolver o seu trabalho; 3 na ausência de tal fixação de texto, o intérprete encontra-se na obrigação de decidir, caso a caso, sobre que versão deverá incidir o seu trabalho. Existe um debate persistente acerca da natureza das Viagens; há quem, por um lado, classifique a obra como sendo literária; por outro lado, existe uma tendência grande para inclui-la naquilo que se denomina por “literatura de viagem”; seria possível, com alguma boa vontade, chamar-lhe uma autobiografia no fundo, o livro narra a vida de Marco Polo. Em nossa opinião, o livro é, pura e simplesmente, tanto uma narração de eventos como uma descrição de pessoas e lugares, sendo que nos parece artificial encaixá-lo em qualquer dos “géneros” pré-definidos acima mencionados. Apesar de não haver critérios uniformemente partilhados por todos os críticos literários, razão pela qual uma obra literária tanto pode ser ficcional como verídica, esteticamente agradável ou desagradável, escrita em verso ou em prosa, existe, na realidade, um critério que, pela nossa parte, nos parece indispensável para se classificar uma obra como sendo literária: o da sua coerência interna. Tal não significa que a coerência tenha que ter um grau qualitativo elevado, ou que o livro tenha que ser plausível Orlando, de Virginia Woolf, por exemplo, tem como personagem principal um homem que, um dia, acorda como mulher e vive durante cerca de quatrocentos anos; a história pode ser absurda e, prima facie, “incoerente”, mas não é a este tipo de coerência que nos referimos; nota-se que a autora tem um plano para a sua obra, que tudo o que é escrito tem uma intenção bem definida e que contribui para o desenlace final. Nas Viagens, por outro lado, mais parece que o autor vai narrando factos e fazendo descrições de forma algo aleatória, preocupando-se apenas em descarregar informação sobre o leitor, sem quaisquer preocupações de coerência interna da obra. É elucidativo, a este respeito, o facto de o livro estar dividido em três partes, 4 sendo que na primeira se fala de cidades e províncias, na segunda de pessoas e eventos e, igualmente, de outras cidades e províncias e, na terceira, contam-se outros eventos, narram-se certos costumes e descrevem-se alguns reinos e regiões. Não há, sequer, uma ordem cronológica precisa

3 Cf. Seixo, Abreu, Cabral e Vieira, 2010, pp. 17-38, para uma explicação sumária acerca das actividades inerentes à fixação de texto. 4 A versão por nós utilizada está dividida em três partes; também aqui parece haver divergência em relação a outras edições.

o primeiro livro narra os eventos cronologicamente mas o segundo livro começa por falar do Rei Khan e de eventos que, supostamente, deveriam ter acontecido durante o livro primeiro , o que nos leva a afirmar que o livro não tem coerência literária por não ser, precisamente, uma obra de literatura. Tal não significa, no entanto, que o livro não seja coerente; o que não é é literariamente coerente, o que o afasta da literatura literária mas o aproxima da literatura de viagem. Com efeito, há uma preocupação muito grande em dar o máximo de informação possível ao leitor. Contudo, não nos parece, igualmente, que o livro caia nesta classificação, se a mesma for entendida num sentido restrito, dado que a informação descrita não é rigorosa, não no sentido de ser verídica ou não esta é uma questão que não nos interessa abordar , mas sim porque o leitor, baseando-se somente nas descrições de Polo, não consegue descortinar exactamente onde fica cada um dos sítios mencionados o leitor contemporâneo de Polo, sem acesso aos mapas de que dispomos hoje em dia. Para além disso, há uma linha muito fina entre a realidade e a imaginação do autor a narração de episódios como o banquete de Khan ou o dos assassinos do Velho das Montanhas é tão fantástica que é mais provável que sejam fruto da imaginação do que narração de factos , o que frustra o objectivo da literatura de viagem, que é o de dar a conhecer ao putativo viajante aquilo que o espera, caso ele decida seguir os passos do autor. Esta componente de fantasia aproxima a obra do género literário que, todavia, não tem que ser ficcional; por outro lado, a incoerência interna afasta-a da literatura, e a narração de certos locais verídicos, bem como de acontecimentos históricos, aproxima-a da literatura de viagem. Por estas razões, em nossa opinião, não faz sentido confinar as Viagens a uma classificação estanque; as Viagens são um conjunto de contos, que podem ter sido presenciados por Marco Polo ou somente ouvidos por ele, verdadeiros ou fictícios o conto do monte que se moveu através de uma oração dá a entender que o autor quis, efectivamente, narrar tanto acontecimentos verdadeiros como lendas que aconteceram em determinados locais, uns mais reais do que outros não nos parece, por exemplo, que tenha existido um “paraíso” na terra para onde o Velho das Montanhas enviava os mancebos com o intuito de os converter em assassinos , contados com o objectivo, primordialmente, de entreter quem os lesse, mas sem as preocupações próprias dos autores literários em criar uma história com um mínimo de coerência e que faça um mínimo de sentido. A obra narrada por Polo, escrita por Rustichello da Pisa, e copiada por diversos copistas nas mais variadas línguas tem como objectivo dar a conhecer uma espécie de admirável mundo

novo, mundo esse que tem, para cativar o leitor, de apresentar certas características fantásticas, mas que não tem que ser apresentado de forma linear e ordeira, o que é típico das histórias literárias, devido ao facto de não estarmos perante uma história literária; as Viagens relatam a realidade, embora esteja em aberto saber se essa realidade corresponde ao que Polo efectivamente viu ou ao que lhe contaram muito provavelmente será um misto dos dois; em todo o caso, essa realidade é polvilhada pela imaginação do autor, o que se explica pelo facto de este ter querido elaborar um relato de lugares e pessoas verídicos onde, por vezes, se passassem coisas fantásticas. Curiosamente, o que mais despertou a atenção da crítica não foram, sequer, os aspectos “fantásticos” da narrativa – aqueles que são inverosímeis por terem uma componente “sobrenatural” –, mas sim os aspectos que contrariam algumas das concepções que os europeus tinham sobre os asiáticos. Conforme Jackson refere, “it has recently been proposed that the incredulity he met with on his return to Venice sprang from an unwillingness to accept his depiction of a highly organized and hospitable Mongol empire that ran counter to the traditional Western Christian view of the 'barbarian’”. 5 Isto equivale a dizer que as pessoas estariam, em princípio, preparadas para alguma fantasia, própria da fé católica, mas não para acreditar em algo tão inverosímil como o facto de Polo descrever a sociedade Mongol como sendo, no essencial, igual à europeia. Gostaríamos, para concluir, de fazer uma breve referência à forma como a religião é tratada nesta obra. Advertindo para o facto de haver disparidades entre versões diferentes, na versão por nós consultada o Islão é referido de forma muito negativa, sendo adjectivado como “la ley del abominable Mahoma”; 6 os seus seguidores são descritos como assassinos no já referido episódio do monte: “dijeron a los cristianos que habitaban bajo su dominio que trasladasen en el nombre de Cristo ese monte o se convirtiesen todos a Mahoma; si no, perecerían todos por la espada.” 7 O Velho das Montanhas e os seus súbditos eram igualmente seguidores de Maomé. 8 Logo no início da obra, o próprio Khan parece disposto a acreditar que “los dioses de los tártaros eran demonios”, 9 pedindo ao pai e ao tio de Polo que falassem com o Papa de modo a que este enviasse cem letrados cristãos que lhe explicassem a

5 Cf. Jackson, 1998, p. 82.

6 Polo, 1992, p. 18.

7 Idem, p. 21.

8 Idem, pp. 28 e 29.

9 Idem, p. 11.

doutrina da Igreja e lhe demonstrassem porque razão a fé cristã era superior às outras. O Budismo e o Hinduísmo também não são retratados de forma favorável, sendo os seus seguidores descritos por Polo como idólatras. Existe uma explicação plausível para este tipo de atitude: não só Polo era cristão como o público-alvo da obra era cristão, o que poderá ter afectado a imparcialidade que se esperaria de um autor de um livro de viagens; uma vez mais se demonstra que, mais do que estar preocupado em narrar tudo exactamente como aconteceu, Polo procurou transmitir uma ideia deste mundo novo que correspondesse à realidade sendo, contudo, simultaneamente polvilhada com alguns aspectos fantásticos e outros discriminatórios para com a fé destes povos. O favorecimento de que a fé cristã beneficia é bem patente no episódio em que Khan, após derrotar o seu tio Nayam, um rebelde cristão, impõe silêncio aos muçulmanos e aos judeus que, após a derrota de Nayam, começaram a insultar os cristãos que com ele tinham vindo. Segundo o autor, Khan terá dito o seguinte: “Nayam, que fue traidor a su señor y rebelde contra la justicia, imploraba la ayuda de vuestro Dios en su maldad, pero vuestro dios, que es bueno, no quiso favorecer sus crímenes. Por tanto, ordeno a todos los judíos y sarracenos que ninguno de ellos por esta razón se atreva a blasfemar de la Cruz del Señor y vuestro Dios.” 10 Assim sendo, o próprio Khan, tido pelos ocidentais como um bárbaro, é retratado como defensor da fé cristã. Em suma, não nos parece que estejamos perante uma obra literária ou uma obra de literatura de viagens; esta obra é um misto entre ambas. Tem traços autobiográficos muito marcantes, ficando em aberto a questão sobre se esta autobiografia é real, fictícia, ou parcialmente real e ficcional. Reservamos uma última palavra para a discussão acerca do facto de Polo ter, ou não, chegado à China. Em nossa opinião, não há forma de, realmente, o saber. Todas as provas que sustentam quer a posição de que ele lá esteve, quer a posição contrária, são retiradas do(s) texto(s) da(s) sua(s) obra(s) pelo que, na realidade, o intérprete pode escolher a versão que mais lhe convenha na defesa da sua posição pessoal. É um facto que há omissões características da cultura chinesa em todos os manuscritos conhecidos; por outro lado, consta que o manuscrito original terá perecido, bem como outras cópias que, por lhe serem temporalmente próximas, seriam mais fidedignas, pelo que é possível que o autor tenha mencionado as tais características chinesas que estão omissas das versões que conhecemos. Isto dito, entendemos que esta discussão não tem razão de ser dado que, para os propósitos da

10 Idem, p. 71.

criação e da análise das Viagens, é diferente se o seu autor realmente esteve na China ou, a esse propósito, em qualquer parte da Ásia. Por razões acima expostas, cremos que é claro que não há qualquer intenção em reproduzir um relato fidedigno da Ásia; Polo, ou quem escreveu as Viagens em seu nome, não era um historiador; várias das coisas que são relatadas são invenção pura. Algumas são facilmente identificáveis, outras são discutíveis dado o “véu de mistério” que, na altura, rodeava a Ásia, que os Ocidentais acreditavam ser um sítio habitado por monstros. Terá Polo chegado à China? Não sabemos, nunca o iremos saber através de uma análise textual, mas uma obra, literária ou não, autobiográfica ou não, sendo literatura de viagens ou não, ou sendo um misto deste três géneros não tem que ser fidedigna; o autor não está vinculado por qualquer juramento de verdade e, por isso, a polémica da chegada de Polo à China ou a qualquer dos sítios que ele reivindica ter visitado é irrelevante para a questão do valor da obra, que deve ser analisada pelos seus méritos e não segundo um qualquer padrão de veracidade.

Referências:

Jackson, Peter (1998), «Marco Polo and His 'Travels'» Bulletin of the School of Oriental and African Studies, University of London, Vol. 61, nº 1, Londres: Cambridge University Press, pp. 82-101.

Polo, Marco; edição preparada por Juan Gil (1992), El libro de Marco Polo. Las apostillas a la Historia natural de Plinio el Viejo, Madrid: Alianza.

Seixo, Maria Alzira; Abreu, Graça; Cabral, Eunice; Vieira, Agripina Carriço (2010), «Respostas breves a perguntas comuns», Memória descritiva. Da fixação do texto para a edição ne varietur da obra de António Lobo Antunes, Lisboa: D. Quixote, pp. 17-38.