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Universidade Federal da Paraíba

Centro de Ciências Humanas Letras e Artes


Departamento de Psicologia

Relatório de estagio Supervisionado

Psicologia Clínica/ Psicanálise de Crianças

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva


Matrícula: 10213769
Supervisora: Hélida Magalhães
CRP 13/1073

João Pessoa
2008

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA


CENTRO DE CIENCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

Relatório de Estágio
Supervisionado
em Psicologia Clínica, realizado
na Clínica de Psicologia
da Universidade Federal da
Paraíba,
Campus I, elaborado pela
aluna
Laysa Renata R. Soares de R. e
Silva,
Matrícula 10213769, sob
supervisão
da professora Hélida
Magalhães,
CRP 13/1073
João Pessoa
2008
Universidade Federal da Paraíba
Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
Departamento de Psicologia
Coordenação do Curso de Graduação em Psicologia

REQUERIMENTO

À coordenação de Estagio Supervisionado do Curso de Psicologia da


Universidade Federal da Paraíba.

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva, aluna regularmente


matriculada no curso de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba, sob
matrícula 10213769, vem solicitar a V. Sa. a aprovação de seu estágio em
Psicologia Clínica Infantil, realizado na Clínica de Psicologia desta instituição,
sob a supervisão da professora Hélida Magalhães, CRP 13/1073, perfazendo
um total de 554 horas.

Nestes termos pelo deferimento,

João Pessoa, 02 de Setembro de 2008

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva


Matrícula 10213769
Universidade Federal da Paraíba
Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
Departamento de Psicologia
Coordenação do Curso de Graduação em Psicologia

DECLARAÇÃO

Declaro para os devidos fins, junto a Universidade Federal da


Paraíba, que Laysa Renata R. Soares de R. e Silva, matrícula 10213769,
realizou 554 horas de Estágio Supervisionado na área de Psicologia Clínica
Infantil, sob minha supervisão, entre os períodos 2007.2 e 2008.1, tendo como
local de realização Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba,
Campus I.

João Pessoa, 02 de setembro de 2008

Hélida Magalhães
CRP 13/1073
Universidade Federal da Paraíba
Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
Departamento de Psicologia
Coordenação do Curso de Graduação em Psicologia

PARECER

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva, aluna regularmente


matriculada no curso de Formação de Psicólogo da Universidade Federal da
Paraíba, sob matrícula 10213769, realizou 554 horas de Estágio em
Psicologia Clínica Infantil, na Clínica de Psicologia dessa instituição.

Tendo cumprido os objetivos regimentais acadêmicos, somos do


PARECER FAVORÁVEL à sua obtenção do título de PSICÓLOGA.

João Pessoa, 02 de setembro de 2008

Hélida Magalhães
CRP 13/1073
I. IDENTIFICAÇÃO DA INSTITUIÇÃO

Universidade Federal da Paraíba


Campus I- João Pessoa
Reitor: Rômulo Polari

Centro de Ciências Humanas Letras e Artes


Diretor:Lúcio Flávio Vasconcelos

Departamento de Psicologia
Chefe de Departamento: Verônica Luna

Curso de Graduação em Psicologia


Coordenadora: Silvana Carneiro Maciel

Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba


Coordenadora: Zaeth Aguiar do Nascimento
Vice-Coordenadora: Clênia Maria Tolêdo de Santana Gonçalves

Estagiária: Laysa Renata R. Soares de R. e Silva


Área de Estágio: Psicologia Clínica Infantil
Local: Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba
CARACTERIZAÇÃO

A Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba está dividida em


dois blocos, o bloco A e o bloco B.

• Bloco A

Está localizado à esquerda, sendo composto pelas seguintes salas:

Sala 01- Sala de Vídeo


Sala 02- Secretaria
Sala 03- Atendimento Infantil
Sala 04- Sala dos Estagiários
Sala 05- Arquivo da Clínica
Sala 06- Coordenação de Psicologia
Sala 07- Sala de Psicoterapia de Grupo, Supervisão de Estagio e outros
Sala 08- Pesquisa

• Bloco B

Está localizado à direita, sendo composto pelas seguintes salas:

Sala 09- Atendimento Clínico


Sala 10- Sala de Supervisão de Estágio
Sala 11- Atendimento Clínico
Sala 12- Psicodiagnótico
Salas 12,14,15,16 e 17- Atendimento Clínico
Sala 18- Sala de Psicoterapia de Grupo e Supervisão de Estágio
Sala- Atendimento Infantil

Quadro Funcional
Coordenadores, Funcionários, Técnicos e Professores (Supervisores)

Horário de Funcionamento
De Segunda à Sexta, das 08h às 12h e das 13h30min às 17h

Serviços Prestados
Psicoterapia Familiar e de casal, Psicoterapia individual (adulto/
adolescente e infantil), Psicoterapia de Grupo (Adulto/Infantil),
Psicodiagnótico e Orientação Vocacional e Serviço de Escuta
Psicológica (SEP).
Clientela
Comunidade de universitária (estudantes, professores e servidores) e
comunidade em geral, de faixa etária variada e principalmente de baixa
renda.

Taxa Cobrada
2 a 10% do salário mínimo, conforme as condições de cad cliente.

Equipe de Trabalho
Supervisora: Hélida Magalhães
Estagiários: Laysa Renata R. Soares de R. e Silva e Ilova Anaya
Nasiasene Pombo.
II. CRONOGRAMA DE ATIVIDADES

ATIVIDADES CARGA HORÁRIA

Atendimento Clínico 90hs

Supervisão dos Casos 100hs

Leitura Individual 200hs

Grupo de Estudo Supervisionado 84hs

Elaboração do Relatório
80hs
TOTAL
554hs
Este trabalho não seria possível se não fosse
pela compreensão e atenção da minha
supervisora Hélida Magalhães. Agradeço por
toda paciência, por todo aprendizado e por toda
dedicação .
Em especial, dedico este trabalho às pessoas importantes aos
quais estiveram comigo nos bons e maus momentos. Em particular,
agradeço aos meus avós, maternos & paternos; aos meus apis, Maria
José & Ailson Rosa; aos meus irmãos, Ailson Segundo e Arthur Rosa,
ao meu namorado Olavo; aos meus sogros e cunhados; a meus Tios
Maria & Sigurd Vindenes e as minhas amigas e amigos de todas as
horas. A todos vocês o meu muito obrigado, por dá a minha vida um
sentido a mais.
Sumário

Introdução

I. Uma vida em observação, uma grande invenção: Freud e a

Psicanálise

II. A Psicanálise e seus seguidores

1. Melanie Klein

1.1 Klein e a Técnica do Brincar

2. Donald Winnicott

2.1 O Brincar para Winnicott

3. O Lugar dos Pais na Psicanálise de Criança

4. Fragmentos de um Caso Clínico

Considerações Finais
Apresentação

“(...) há outra coisa que sei. Houve na psicanálise, desde o


começo, uma estreita união entre tratamento e pesquisa, o
conhecimento levava ao sucesso, e era impossível trratar sem
aprender alguma coisa nova, não se adquiria nenhum
esclarecimento sem experimentar sua ação benéfica. Nosso
procedimento analítico é o único em que essa preciosa
conjunção se conservou”. Sigmund Freud

O trabalho em questão abarca os conteúdos relativos a experiência de


estágio supervisionado em Psicologia Clínica, bem como acervo literário das
teorias que orientaram a prática clínica e a constituição do saber.
Durante um ano foi se construindo um trabalho em cima de leituras,
supervisões e atendimentos; assim como um ensaio clínico, os estagiários,
puderam aprender e experenciar o universo peculiar da clínica.
O pensamento que norteou todo esse trabalho se baseia na
abordagem psicanalítica, em especial a Psicanálise de Crianças, com
referencias de autores como Melanie Klein e Donald Winnicott.
A psicanálise de crianças se pauta em um exercício extremamente
delicado e encantador. O brincar dentro do setting terapêutico possibilita que
as crianças possam expressar suas angústias e conflitos internos. Um
trabalho em especial é feito com os pais, a fim de que estes possam
contribuir para a saúde mental de seus filhos.
Trata-se de uma experiência rica e única, para cada caso, cada
sessão, há uma nova experiência. E assim se vai constituindo uma rede de
saber pautados na experiência clínica atrelados ao saber teórico.
Este trabalho se apresenta como um relatório de uma experiência de
um ano em formação clínica em psicanálise. Nele estão inseridas as
abordagens teóricas que nortearam minha prática, bem como o relato de um
caso clínico, fruto do meu trabalho.
I. Uma vida em observação, uma grande invenção: Freud e a Psicanálise

Meados do século XIX, em 6 de maio de 1856, nasce Sigismund


Schlomo Freud em Freiberg, na pequena vila de Morávia (atual República
Checa). O filho de pequenos comerciantes judeus veio à luz na posição de
primogênito do terceiro casamento do seu pai, que já tinha uma prole de dois
filhos (20 e 24 anos), frutos da sua primeira união matrimonial. A dinâmica da
família era um pouco incomum para uma criança: “O grande desvendador de
enigmas humanos nasceu entre charadas e confusões suficientes para despertar o
interesse de um psicanalista (GAY, 2002, p.22).”
Seu pai, Jacob Freud, pequeno mercador de Freiberg, enfrentava uma
crise econômica logo após o nascimento de Freud, forçando a família deixar
sua cidade natal, para em 1860, instalaram-se em Viena, cidade na qual
Freud recebeu toda educação e onde viveu por muitas décadas e lá
permanecendo por cinqüenta anos até sua partida para Inglaterra (GAY,
2002).
Em 1873 Freud ingressa na Universidade de Viena, como aluno do
curso de medicina. Em sua autobiografia (FREUD, 1925), revela que não
sentiu alguma predileção especial pela carreira de médico, assume que foi
antes de tudo levado por uma espécie de curiosidade dirigida mais para
preocupações humanas do que para objetivos naturais. Começa a rebelar aí o
seu grande interesse, quase que inato, para a subjetividade humana e seus
enigmas mais profundos. Vê-se desde já - a partir de sua curiosidade latente-
uma teoria que iria revolucionar e mesmo chocar a cultura ocidental vingente,
uma inovadora linha de pensamento que até hoje guia e cativa a atenção de
muitos estudiosos que se interessam pela psiqué humana e suas vicissitudes.
Os ensaios de Goethe sobre a natureza e as teorias evolucionistas de
Darwin o enveredaram para área médica. Entre os anos de 1876 a 1882,
Freud trabalhou no laboratório de fisiologia de Ernst Brücke, e revela em sua
autobiografia: Os vários ramos da medicina propriamente dita, afora a psiquiatria,
não exerciam qualquer atração sobre mim (FREUD,1925,P.17).
No ano de 1882, Freud, já descontente com seus estudos em histologia
do sistema nervoso, abandonou o laboratório de Brücke e ingressou no
Hospital Geral como assistente clínico [Aspirant], sendo promovido logo
depois a médico estagiário ou interno [Sekundararzt] sob orientação de
Meynert (FREUD,1925).
Para Sigmund, a anatomia cerebral não era melhor que a fisiologia,
levando-o a se interessar pelo estudo das doenças nervosas, em função dos
poucos especialistas existentes em Viena, Freud foi auto-didata nesta área.
Naquela época nos estudos de neuropatologia brilhava o nome de Chacort, o
que levou Freud à partir para a capital francesa desenvolver estudos sob sua
supervisão. Nos anos posteriores, enquanto trabalhava como médico
estagiário, publicou uma gama de observações clinicas sobre doenças
orgânicas do sistema nervoso. Enquanto aluno de Charcot no Hospital
Salpêtriere é admitido no seu círculo ao se prontificar para traduzir em alemão
o novo volume de suas conferências (FREUD,1925).
A histeria começa a despertar seu interesse a partir da aproximação
com Chacort - Sigmund definitivamente se encantara com o professor e seu
trabalho - realmente lhes chamou a atenção as suas investigações pelo tema,
o que viria a se constituir mais tarde a base da teoria psicanalítica.
Antes de retornar a Viena e casar com Martha Bernays, em 1886,
firmando-se lá como médico especialista em doenças nervosas, Freud passou
algumas semanas em Berlim a fim de adquirir um pouco de conhecimentos
sobre distúrbios gerais da infância. Anos seguintes publicou várias
monografias sobre paralisias cerebrais unilaterais e bilaterais em crianças
(FREUD, 1925).
O interesse pela hipnose, implicou, naturalmente, o abandono ao
tratamento de doenças nervosas orgânicas. Freud achava altamente sedutor
trabalhar com o hipnotismo. Em 1889, passou algumas semanas em Nancy,
trabalhando com Bernheim a fim de aperfeiçoar sua técnica hipnótica.
Entusiasmado com a nova técnica de hipnose e pelos grandes nomes
que o inspirava (Chacort e Breuer) e influenciado pela visita que fez a
Bernheim em 1889, Freud passou a utilizar o método de Breuer com os seus
próprios pacientes. E após anos de achados sobre casos de histeria, propôs a
Breuer o lançamento de uma publicação conjunta sobre o tema. Então, em
1893, foi lançado “Sobre Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos” e
em 1895, seguiu-se o livro: “Estudos sobre a histeria” (FREUD, 1925).

Enquanto ainda trabalhava no laboratório de Brücke, antes mesmo de


se dirigir a Paris, Freud travara conhecimento com o Dr. Josef Breuer, que lhe
falara sobre um caso bastante peculiar de uma paciente histérica , que tratou
entre anos de 1880 e 1882. Tratava-se de Anna O., caso que Breuer assumiu
posteriormente ser a célula germinativa do conjunto da psicanálise (GAY, 2OO2,
p. 75). Após o retorno à Viena, Freud deu seguimento à sua clínica, ainda sob
a forte influencia das idéias de Breuer. Este entrosamento seria o início da
teoria psicanalítica, mas também o distanciamento e o rompimento dessa
união: Nossas relações logo se tornaram mais estreitas e ele se tornou meu amigo,
ajudando-me em minhas difíceis circunstâncias. Adquirimos o hábito de partilhar
todos os nossos interesses científicos. Nessa relação só eu naturalmente tive a
ganhar. O desenvolvimento da psicanálise, depois, veio a custar-me sua amizade.

Não me foi fácil pagar tal preço, mas não pude fugir a isso (FREUD, 1925- edição
eletrônica das obras psicológicas completas de Sigmund Freud*).
Para Freud, a teoria postulada no seu livro foi despretensiosa e quase
não foi além da descrição direta das observações. Não se preocupou em
determinar sobre a natureza da histeria, mas apenas em lançar luz sobre a
etiologia de seus sintomas. Dessa maneira, seus achados publicados sobre
histeria davam ênfase a significação da vida das emoções e o interesse em
estabelecer distinção entre os atos mentais conscientes e inconscientes.
Neles foram introduzidos um fator dinâmico, supondo que o sintoma surge
através do represamento de um afeto; e um fator econômico, considerando
aquele mesmo sintoma como resultado da transformação de uma quantidade
de energia que de outra maneira teria sido empregada de algum outro modo.
Mais tarde, como resultado do estudo da histeria, pôde-se averiguar a
importância que tem a sexualidade na etiologia das neuroses (FREUD, 1925),
Após décadas de trabalho em conjunto, Freud e Breuer romperam
devido às divergências teóricas. Tais diferenças ideológicas se debruçavam
nas questões correspondentes à etiologia da própria histeria.
* As citações foram retiradas “Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de
Sigmund Freud”.

Enquanto Breuer respondia ao processo mental patogênico utilizando uma


teoria fisiológica, Freud inclinava-se a acreditar em uma etiologia sexual
(FREUD, 1925).
Depois do rompimento com Josef Breuer, Freud segue sozinho com os
estudos sobre a histeria e as disfunções sexuais ligadas a esta neurose. A
psicanálise propriamente dita começa a brotar com o surgimento de uma nova
técnica adotada por ele, chamada associação livre. Freud percebera que a
hipnose não dava conta no tratamento da sintomatologia dos pacientes
(FREUD, 1925).
Com a psicanálise tomando forma, foram surgindo novos conceitos
cruciais para o procedimento da análise e o andamento do tratamento. A
psicanálise passa a adotar o conceito de inconsciente de uma maneira
original: A psicanálise considerava tudo de ordem mental como sendo, em primeiro
lugar, inconsciente; a qualidade ulterior de ‘consciência’ também pode estar presente
ou ainda pode estar ausente (FREUD, 1925- edição eletrônica das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud). Agregados ao conceito de
inconsciente estavam o de recalcamento e de defesa , que constituíam
também uma nova descoberta de Freud nos estudos da histeria e
posteriormente das psiconeuroses. Esses constituem aspectos fundamentais
da psicanálise (FREUD 1925).
Freud defendia a importância da sexualidade nos casos de histeria,
mas como a explicava? Nas suas investigações das causas precipitantes e
subjacentes das neuroses, ele foi levado cada vez mais acreditar na
existência dos conflitos entre os impulsos sexuais do indivíduo e suas
resistências à tais impulsos. Na busca das situações patogênicas e das suas
origens Freud terminou chegando aos primeiros anos da infância. Ou seja, as
causas da neurose estariam ligadas às experiências e traumas sofridos
nesse período, mais tarde, Freud se encontra diante de uma teoria que iria
chocar e indignar mais uma vez o meio científico da época: a teoria da
sexualidade infantil (FREUD,1925).
Antes mesmo de abordar a questão da sexualidade infantil, Freud,
baseado nas suas experiências clínicas e na fala de seus pacientes, propôs
um modelo que explicaria a etiologia da histeria: a teoria da sedução. Tal
teoria defendia que os pacientes histéricos poderiam ter sido abusados
sexualmente pelo pai, ou outra figura masculina durante a infância. Após
alguns tratamentos, Freud percebe ter cometido um terrível erro, e concluiu
que as experiências sexuais relatadas por seus pacientes histéricos eram
antes de tudo, as fantasias destes. Quando me havia refeito, fui capaz de tirar as
conclusões certas da minha descoberta: a saber, que os sintomas neuróticos não
estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas
de desejos, e que, no tocante à neurose, a realidade psíquica era de maior
importância que a realidade material (FREUD,1925- edição eletrônica das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud). Freud sem nem mesmo notar
havia tropeçado no complexo de Édipo. E anos depois, em 1897, postula a
sua teoria sobre este conceito, ao mesmo tempo em que empreende sua
auto-análise (FREUD, 1925).
No seu relato autobiográfico Freud retoma e reforça as questões
sobre as teorias da resistência, do recalque, do inconsciente, da significância
da vida sexual, assim como a importância da experiência infantil são
postulados constituintes da estrutura teórica da psicanálise. Fala também de
um aspecto essencial no tratamento qual seja a relação transferencial, que se
configura justamente numa intensa relação emocional entre o paciente e o
analista. A transferência desse modo constitui uma relação de caráter tanto
positivo quanto negativo imprescindível no processo analítico FREUD, 1925).
Formando o conjunto de conceitos e usando a técnica da associação
livre, Freud conseguiu alcançar algo que parecia não ser de importância
prática alguma, mas que de fato conduziu necessariamente a uma atitude
totalmente nova e uma nova escala de pensamento científico. Freud tornou
possível provar que os sonhos têm significado de origem inconsciente. Neste
momento achava pestes a preste a publicar a sua obra que ele mesmo
considerou ser a mais significativa de todas: A Interpretação dos Sonhos
(FREUD, 1925).
Em 4 de novembro de 1899, foi publicada “A Interpretação dos
Sonhos”, que Freud considerava como sua mais ilustre obra-prima. Por algum
tempo não teve tanta repercussão sendo de pouco interesse geral. Na
evolução do pensamento psicanalítico de Freud, a Interpretação dos Sonhos ocupa o
centro estratégico, e ele sabia disso. É extremamente significativo que estivesse
sido escolhido o sonho com o exemplo mais instrutivo do trabalho mental: sonhar é
uma experiência normal e universal (GAY, 2002, p. 121). Sua preocupação em
abordar não somente sintomas restritos e especializados de cunho neurótico,
como histéricos e obsessivos, foi contemplada nessa obra, pois os sonhos
são experenciados por todos (GAY, 2002).
Freud, em sua obra se aprofunda sobre o conteúdo do inconsciente,
fortemente significativo e representativo que os sonhos rebelam. Afirmará que
ao mesmo tempo que corriqueiros, os sonhos também são misteriosos. Em A
Psicopatologia da Vida Cotidiana, de 1901, Freud reúne as notáveis anedotas
sobre todos os tipos de deslizes e lapsos que também constituem atos
corriqueiros de uma psicopatologia presente nas que Freud gostava de
denominar de pessoas saudáveis (GAY, 2002).
Por muitas décadas, Freud foi de fato alvo de muitas críticas e sua
teoria não havia, até então, alcançado uma repercussão positiva pelos
cientistas da época. Por se tratar de uma linha de pensamento ousada e
chocante para o contexto temporal e histórico em que se inseria, a psicanálise
foi durante muito tempo rejeitada. Em sua autobiografia, relata: Por mais de
dez anos após meu afastamento de Breuer, não tive seguidores. Fiquei
completamente isolado. Em Viena, fui evitado; no exterior, ninguém me deu atenção.
Minha Interpretação de Sonhos, vinda a lume em 1900, mal foi objeto de críticas nas
publicações técnicas (FREUD, 1925). Apesar de ter conquistado muitos adeptos,
até os dias de hoje a psicanálise ainda continua sendo alvo de contestações e
indignações. Por abordar questões mais temerosas e indesejáveis contidas
nos lugares mais obscuros de nossa mente, e por estar constantemente
quebrando tabus. É certo que a psicanálise, inevitavelmente, continuará
causando muitos impactos.
Em 1905 Freud publica ‘Três ensaios sobre a teoria da sexualidade’,
texto no qual defende a idéia de uma sexualidade infantil perversa e
polimorfa, causando, mais uma vez, um furor entre os médicos vienenses da
época. As idéias vigentes proclamavam a ausência de sexualidade e pureza
nas crianças, estavam sendo contestadas.
No ano de 1909, Freud visitou a Universidade norte-americana Clark
University –em Worchester- para apresentar um ciclo de conferências sobre a
psicanálise. Lá recebe título honorário e inaugura o Jahrbuch für
psychoanaytische und psychopathologische Forschungen, com a história do
Pequeno Hans como contribuição inicial para o primeiro número (GAY, 2002).
Nesse mesmo ano (1909) Freud publicou o caso Hans “Análise de uma
Fobia num Menino de Cinco Anos”, e sua repercussão possibilitou mais tarde
a possibilidade de análise em crianças. A ‘neurose infantil’ do Pequeno Hans
corroborava com as idéias encontradas nos pacientes neuróticos adultos de
Freud “todas as vezes rastreado até os mesmos complexos infantis que se
revelariam por trás da fobia de Hans” (GAY, 2002, p. 242). O relatório do
Pequeno Hans servia como complemento ilustrando as conclusões que Freud
já havia esboçado em seus ‘Três Ensaios’ sobre a sexualidade infantil (GAY,
2002).
A análise do pequeno Hans ocorreu através de correspondências que
o pai de Hans escrevia para Freud. No caso pôde-se encontrar elementos
claros de uma neurose precoce, esta aparecia no momento em que o garoto
estava vivenciando seu Édipo. O Caso trazia algumas peculiaridades:
exacerbada curiosidade sobre a sexualidade e seu órgão genital. Hans
também apresentara fobias e sentimentos de ambivalência em relação ao seu
pai. O garoto passou a ter medo de cavalos e tinha uma idéia fixa de que “um
cavalo branco entraria no seu quarto e o morderia”. Essa fobia se desenvolve
durante a vivência edípica: Hans tinha medo que seu pai o punisse, pois
queria a sua mãe só para ele, ao mesmo tempo em que tinha medo de perder
o pai (sentimento de ambivalência).
A publicação do Caso Hans provocou um certo frênesi no meio
científico. Seus críticos previam um futuro dos mais negros ao pequeno Hans
“porque tinham lhe ‘roubado sua inocência’, numa idade tão tenra” (FREUD, 1909,
p. 133) por ter sido submetido a criança à psicanálise tão cedo. Ao contrario
das previsões feitas pela comunidade científica da época, Hans tornara-se um
forte rapaz de 19 anos. Declarou que estava perfeitamente bem e que não sofria de
nenhum problema ou inibição (FREUD, 1909, p.133). Hans havia atravessado
sua puberdade sem nenhum dano (FREUD, 1909).
O caso Hans foi a fundação para que mais tarde pudesse pensar na
possibilidade de analisar crianças, levando conseqüentemente a grandes
descobertas da psicanálise com crianças.
As idéias Freudianas geraram grandes embates e a descoberta da
psicanálise foi , sem dúvida, uma das grandes contribuições das ciências
humanas para a compreensão das psicopatologias e do comportamento
humano.
II. A Psicanálise e seus seguidores

1. Melanie Klein

“Essa mulher, que reconheceu inteiramente a contribuição de


Freud, inclusive a pulsão de morte, esteve na origem tanto do
fundamento analítico da prática dos tratamentos com crianças
quanto de uma grande corrente da psicanálise, em que a clinica
do narcisismo chegou a seu auge” .
M.-C.
Thomas

Há mais de um século, em 30 de marco de 1882, nasceu em Viena


Melanie Reizes, originária de família judia.
Aos 17 anos fica noiva do engenheiro Arthur Klein, com quem casou e
teve seus filhos: Melita –futura psicanalista- e Hans, que teve uma morte
precoce em um acidente de carro aos 26 anos de idade.
Entre os anos de 1907-1914, Melanie Klein passou por momentos
conturbados, se submetendo a inúmeros tratamentos em decorrência de
depressão, relacionada com a morte do seu filho mais velho Hans.
No ano de 1914 , Klein aos 32 anos de idade, teve seu terceiro filho
Erich, que passaria à posterioridade conhecido por Fritz, em seus primeiros
trabalhos psicanalíticos; pouco depois morre sua mãe, a senhora Reizes, a
quem era encarregada de cuidar da casa dos Klein. Neste mesmo ano
Melanie Klein conhece a psicanálise ao ler O Sonho e sua Interpretação
(Über den Traum, 1901), de Sigmund Freud.
Em 1916, ainda em Budapeste, começou sua análise com Sandor
Ferenczi*, personagem responsável pelo engajamento de Melanie Klein na
Psicanálise, posteriormente.

* Ferenczi foi o primeiro a me apresentar a psicanálise. Ele me fez também compreender a sua
essência e significados reais. Seu sentimento forte e direto pelo que é inconsciente e pelo simbolismo,
e o extraordinário rapport que tinha com a mente das crianças, exerceram uma influência duradoura
sobre a minha compreensão da psicologia da criança pequena. M. Klein
Ferenczi percebeu sua habilidade e grande capacidade na compreensão de
crianças e a encorajou em seu projeto de se dedicar à psicanálise, mais
particularmente com crianças. Klein tornou-se, então, membro da Sociedade
Psicanalítica, onde publicou duas observações sobre o desenvolvimento de
um menino -seu filho Erich- (THOMAS, 1995).
Em decorrência dos conturbados contextos políticos da época Melanie
Klein mudou-se para Alemanha, convidada por Karl Abraham. Em Berlim
prosseguiu com seus estudos em psicanálise durante cinco anos. Em 1926,
depois da morte de Abraham recebe um convite por Ernest Jones para viver
em Londres – Inglaterra- onde permaneceu até o fim da sua vida (THOMAS,
1995).
A psicanálise de Melanie Klein passou por três grandes momentos
distintos: O primeiro momento se deu com a publicação de The Psycho-
Analisys of Children em 1932. Neste texto, estabeleceu os fundamentos da
análise de crianças e delineou o complexo de Édipo e o superego até as
raízes primitivas de seu desenvolvimento; no seu segundo momento
fundamentou questões sobre o conceito da posição depressiva e dos
mecanismos de defesa maníaca, publicado em seus artigos “A contribution to
the Psychogenisis of the Maniac Depressive States”, em 1934, e “Mourning
and its Relation to Maniac Depressive States” (1940); Em seu terceiro
momento Melanie Klein descreve sobre o estádio mais primitivo titulado por
ela de ‘posição esquizo-paranóide’, descrito em seu artigo “Notes on some
Schizoid Mechanisms” (1946) e em seu livro Envy and Gratitude, em 1957
(SEGAL, 1975).
Klein iniciou sua carreira trabalhando em análise com crianças,
introduziu uma prática original, ao introduzir a técnica do brincar, na qual seria
possível ter acesso aos conflitos e fantasias das crianças. Insistiu em explorar
o inconsciente infantil, tal qual numa análise de um adulto. Isto lhe permitiu
observar que as crianças desenvolvem uma neurose de transferência análoga
a dos adultos. A partir do material inconsciente da criança pôde desenvolver
posteriormente suas teorias que as norteou ao longo de sua carreira:
complexo de Édipo precoce, superego precoce, mecanismos de defesa
primitivos, organizados em torno de uma angústia principal e uma relação de
objetos internos e externos. Para Klein as fantasias inconscientes são os
elementos básicos para a realidade psíquica (BLEICHMAR; BLEICHMAR,
1992).
Embora Melanie Klein tenha tomado a teoria Freudiana como ponto de
partida, sua experiência levou-a desenvolver hipóteses que possibilitaram a
inventar uma teoria original. O conflito mental deixa de ser uma luta entre a
pulsão sexual versus defesa e passa a ser entre sentimentos de amor e de
ódio que se enfrentam com vínculos com os objetos. A metapsicologia
Kleiniana elabora todo o principio da constituição do eu, do narcisismo
primário e, depois, secundário sob os termos fase esquizo-paranóide e
posição depressiva (BLEICHMAR; BLEICHMAR, 1992).
Ao postular suas primeiras hipóteses, Melanie Klein, a partir de suas
observações, re-elabora os conceitos clássicos do Édipo e do superego de
Freud: ao contrário do que se pensava anteriormente, que o complexo de
Édipo tinha início em torno de três ou quatro anos de idade, Melanie Klein
notou que mesmo em crianças de dois anos e meio havia manifestação de
fantasias e ansiedades edipianas. Além disso, Melanie Klein observou que o
superego apareceu muito mais cedo do que seria de esperar a partir da teoria
clássica, e pareceu possuir características bastante selvagens –orais, uretrais
e anais. Ela destacou também o papel importante que a agressão
desempenha para o desenvolvimento psíquico precoce e para a vida do
sujeito. As pulsões agressivas são de fundamental importância nos primeiros
anos da vida psicológica, principalmente no vínculo com a mãe (BLEICHMAR;
BLEICHMAR, 1992).
Melanie Klein muda o conceito de fases libidinais, ao afirmar que, nas
crianças pequenas, observa uma mescla de pulsões orais e genitais que se
sobrepõem a partir das primeiras relações de objetos. A fase libidinal deixa de
seguir um sistema de desenvolvimento cronológico e tempos depois passa a
ser chamada de ‘posições’, seguindo um conceito mais dinâmico e menos
cronológico. A partir de tal afirmação, que as pulsões orais estão misturadas
precocemente com as genitais, implica adiantar a triangulação edipiana a
estágios pré-genitais do desenvolvimento. E nesse seguimento de
pensamento surge a idéia de Édipo precoce, quando a sexualidade contém
agressão. Produzindo uma idéia de culpa, essas reações de angústia, dor e
culpa se relaciona coma idéia de superego precoce. Foi possível constatar
isso em seus casos clínicos, como por exemplo em Rita, de dois anos e nove
meses, em seu pavor nocturnus, se sentia ameaçada por uma mãe e um pai
que morderiam seus órgãos genitais e destruiriam seus bebês. O medo dessas
imagos dos pais paralisava seu brincar e suas atividades. Do mesmo modo,
superegos severos foram exibidos por outros pacientes (SEGAL, 1975, p.14).
Em sua teoria das posições (1932-1946), Melanie Klein a descreve em
duas: a esquizo-paranóide e posição depressiva. Essa teoria explica o vínculo
da criança com a realidade externa e interna. A relação do bebê com o seio
da mãe – primeiro vínculo oral- está no cerne deste desenvolvimento. O
conceito de posição, que substitui a idéia do desenvolvimento libidinal de
Freud e Abraham, é baseado nas pulsões que estão misturadas e se ordenam
ao redor das relações de objetos, juntamente com suas fantasias e angústias.
Essa é uma teoria interpessoal, onde a relação com a realidade se estabelece
através da interação entre os objetos situados no mundo interno e externo a
partir dos mecanismos de identificação projetiva e a projeção. “Na posição
esquizo-paranóide, os objetos serão distorcidos e fantásticos, como resultado da
dissociação e da projeção neles de pulsões libidinais e tanáticas. Na posição
depressiva, os objetos, tanto internos como externos, estarão integrados e mais de
acordo com o principio de realidade” (BLEICHMAR;BLEICHMAR, p. 94, 1992).
Em 1957, Klein desenvolveu a Teoria da Inveja, situada em seu livro
Envy and Gratitude, nele descreve noções da inveja e gratidão. Conclui a
inveja primária como uma pulsão agressiva sentida pelo bebê em relação ao
seio da mãe. A criança sente o desejo de danificar os aspectos bons e
protetores que o seio materno oferece. A inveja e a gratidão são fatores
dinâmicos no âmbito das interações psíquicas, existentes desde o
nascimento. Esta relação de interação com meio externo (seio da mãe) , em
parte, determina as características das relações de objeto precoces
(BLEICHMAR;BLEICHMAR, 1992).
As teorias e hipóteses Kleiniana foram desenvolvidas por ela ao longo
de sua experiência clínica através das observações de seus pequenos
pacientes. A partir de seu método investigativo, trouxe para psicanálise teorias
inovadoras de um seguimento, até então, inexplorado na área. A psicanálise
infantil floresce a partir das suas contribuições e estudos. Melanie Klein traz
para a psicanálise uma grande ferramenta - que talvez sem ela, seria inviável
a análise de criança- onde seus pequenos pacientes poderiam falar das suas
angústias e fantasias: a Técnica do Brincar.

1.1 Klein e a Técnica do Brincar

Minha pratica com as crianças, assim como os adultos, e


toda a minha contribuição para a teoria psicanalítica derivam
da técnica do brincar.
M. Klein

Na década de 1920, quando Melanie Klein começou a analisar


crianças, descobriu uma nova ferramenta para conduzir a análise de crianças:
A técnica do Brincar (play technique). “Inspirada nas observações de Freud
(1920) quanto ao brincar da criança com carretel, Melanie Klein viu que o brincar da
criança poderia representar simbolicamente suas ansiedades e fantasias” (SEGAL,
1975, p.13). Já que não se pode exigir que as crianças pequenas façam
associações livres, utilizou o brincar como ferramenta de expressão simbólica
dos pequenos. Através dessa técnica foi possível descobrir o rico mundo de
fantasia inconsciente e das relações de objeto da criança. Em ‘A Psicanálise
de Criança’ Melanie Klein relata: a natureza mais primitiva da mente da criança
torna necessário encontrar uma técnica analítica especialmente adaptada a ela, e
isso nos encontramos na análise do brincar. Por meio da análise do brincar,
ganhamos acesso as fixações e experiências mais profundamente reprimidas da
criança e tornamo-nos assim capazes de exercer uma influência radical sobre o seu
desenvolvimento (KLEIN, 1997, p.35).
A técnica psicanalítica do jogo infantil foi o ponto de partida para as
teorias postulada por Klein. A partir do jogo, as dramatizações, expressões
verbais e sonhos entram como material significativo, podendo-se explorar
sistematicamente as fantasias e angústias conscientes e inconscientes
existentes nas crianças. O jogo para Klein não tem uma função educadora –
assim como o era para Hugh Helmunth, psicanalista que implementou o jogo
na psicoterapia com um critério didático e re-educacional. A importância do
brincar para Klein consiste em permitir que as angústias e fantasias
inconscientes se expressem para que o analista a explorem, interpretem e
compreendam para transmitir ao paciente o que ocorre com o seu psiqué.
Para Klein, o brincar adquire um estatuto de compreensão metafórica,
tem a dignidade do sonho, tem sua configuração, lugar de condensação por
excelência: No brincar, as crianças representam simbolicamente fantasias, desejos
e experiências. Para isso empregam a linguagem, o modo de expressão arcaico,
filogeneticamente adquirido, com que os sonhos nos familiarizam (KLEIN apud
THOMAS, 1995).
Tendo o mesmo estatuto simbólico dos sonhos, o brincar permitiria o
acesso ao inconsciente infantil: o aparelho psíquico da criança pequena tem um
alto nível de tensão: a angústia muito presente, muito intensa, não pode ser
administrada pela aparelhagem do eu, o principio do prazer; as representações só
avançam por essa opacidade deslocando-se passo a passo, palavra por palavra. A
associação das representações, isto é, a condensação, é difícil por causa dessa
angustia, é só se realiza num modo de expressão particular: O Brincar (THOMAS, p.
143, 1995).
As idéias de Klein em relação à psicanálise de crianças não eram as
únicas existentes em sua época, apesar de ter sido única em ousadia e em
inovação. Quando Klein situa a importância desse brincar foi possível
fundamentar seu trabalho psicanalítico no tratamento com crianças. Esse ato
acarretou o enfrentamento de divergências de pensamento entre Melanie
Klein e Ana Freud que tinha concepções de cunho educacional em se
tratando de psicanálise infantil em sua psicologia do ego. Ao fundamentar
analiticamente o trabalho com crianças, Melanie Klein rompeu com a
educação.
Em seu trabalho “Simposium of Child-analysis” publicado em 1927
Klein defende com entusiasmo suas opiniões sobre a natureza da psicanálise
da criança, se opondo a visão idealizada por Ana Freud. Essa turbulência e
divergência teórica provocou a formação de duas escolas de psicanálise a
Escola de Viena e Escola Inglesa, a escola Kleiniana versus a psicologia do
ego de Ana Freud.
Klein acredita veemente que a análise de crianças é possivelmente
análoga a do adulto. Afirma que a neurose de transferência se desenvolve do
mesmo modo, o que varia é apenas a forma de comunicação, que se dá
através dos jogos, onde a criança expressa seus conflitos inconscientes. O
papel do analista é de interpretar, em profundidade, todo material associativo
que o paciente revela no brincar. Em contrapartida, Ana Freud afirmava uma
concepção diferente da mente infantil e de sua abordagem no processo
analítico, considerando que na infância as crianças não desenvolvem a
neurose de transferência com o terapeuta, pois suas transferências estão
ainda diretamente ligadas aos pais reais. Para Ana Freud a função do
terapeuta consistia em apenas reforçar os aspectos positivos do vínculo, em
um nível reeducativo e de orientação.
Enquanto Klein acreditava na existência de um superego precoce, em
torno dois ou três anos de idade, Ana Freud, concorda que o que existe é a
necessidade- durante a análise- de reforçar o superego, que seria fraco nas
crianças (BLEICHMAR;BLEICHMAR, 1995).
Acreditando em suas observações e elaborando hipóteses a partir de
suas experiências clínicas com crianças, fizeram Klein criar, ao longo de sua
existência enquanto analista, uma inovadora e revolucionária teoria na
psicanálise de crianças. A posição de principio que colocou brincar no cerne da
formação do inconsciente permitiu a Melanie Klein fazer descobertas (THOMAS,
p.147, 1995).
Donald Winnicott

“Por aquele tempo, eu começava minha carreira de pediatra


clinico , e poderão imaginar a emoção que eu sentia ao ver que
nos inúmeros casos que tratava nos hospitais, os pais dos
pacientes- pessoas geralmente não instruídas- confirmavam
todas as teorias psicanalíticas que começavam a significar algo
para mim, através da minha própria análise”.
Donald Winnicott

Em 7 de abril de 1896, Plymouth, Inglaterra, nasce Donald Woods


Winnicott, futuro médico pediatra e psicanalista iniciou sua carreira no
Hospital Londrino Paddigton Chidrens’s Hospital, onde exerceu sua carreira
durante quarenta anos. Em 1935 tornou-se membro da Sociedade Britânica
de Psicanálise e no mesmo ano iniciou sua análise com Melanie Klein, com
quem por muito tempo compartilhou seus estudos em psicanálise. Mais tarde,
as divergências teóricas e técnicas em relação a Melanie Klein, resultou no
empobrecimento de seus laços. No contexto psicanalítico fervente da época
havia três grandes divisões no que diz respeito às influências teóricas: os
seguidores de Klein, os seus contestadores- os anna -freudianos- e os do
Middle Group; Winnicott se situava neste último.
Ao longo de sua carreira, Winnicott enfatizou a influência do meio
ambiente no desenvolvimento psíquico humano, focalizando, sobretudo a
mãe, como autora principal dessa interação. As falhas ambientais eram
apontadas como a mais importante causa da etiologia dos quadros
psicopatológicos. A da relação mãe-bebê, serviria de base para futuras
relações do bebê com outros objetos. Ancorado nessas idéias Winnicott
propôs um modelo terapêutico voltado a oferecer, na análise, uma situação
emocional favorável, tornando possível ao paciente se desenvolveu sanando
as falhas originais da relação.
Essa situação originária vivida na relação da mãe com o seu bebê, foi
um dos aspectos centrais para Winnicott, e paa tanto, propôs a noção de
holding.
O holding, ou sustentação, foi adotado por Winnicott para descrever
uma conduta emocional da mãe em relação ao seu filho: a conduta de
sustentação, situadas em torno dos êxitos e fracassos, são relacionadas aos
diferentes graus de perturbação psíquica. Para Winnicott, a criança nasce
comum certo potencial e provida de uma tendência para o desenvolvimento, e
é o exercício materno que virá a oferecer um holding adequado para que as
condições inatas do bebê alcancem um desenvolvimento otimamente
desejado. Em sua teoria tanto há uma função fisiológica quanto física
(BLEICHMAR;BLEICHMAR, 1995).

A sustentação protege contra a afronta fisiológica; leva em conta a


sensibilidade epidérmica da criança- tato, temperatura, sensibilidade
auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade às quedas (ação da
gravidade)- assim como o fato de que a criança desconhece a
existência de tudo o que não seja ela própria; inclui toda a rotina de
cuidados ao longo do dia e da noite, que nunca é a mesma em duas
crianças diversas, pois faz parte delas e não há duas crianças iguais;
deste modo, acompanha as mudanças quase imperceptíveis que, dia a
dia, vão tendo lugar no crescimento e desenvolvimento da criança,
mudanças tanto físicas como psicológicas (WINNICOTT, apud,
BLEICHMAR;BLEICHMAR, 1960, p.56).

Winnicott afirma que para existir o holding, mãe vivencia uma


preocupação materna primária.Conceito fundamental que consiste na
preparação emocional da mãe, e esta se dá nos últimos meses de gravidez,
tornando-se suficientemente sensibilizada para desempenhar o seu papel e
dá o suporte que o bebê precisa. Esse conceito consiste no estado ideal
psicológico da mãe para proporcionar ao seu bebê um holding adequado.
Graças a esse estado de sensibilização, a mãe adquire uma capacidade
particular para se identificar com as necessidades do bebê.
Gradualmente, esse estado passa a ser o de uma sensibilidade
exacerbada durante e principalmente ao final da gravidez.
Sua duração é de algumas semanas após o nascimento do bebe.
Dificilmente as mães o recordam depois que o ultrapassaram.
Eu daria um passo a mais e diria que a memória das mães a esse
respeito tende a ser reprimida (WINNICOTT, p.401, 2000).

Winnicott afirma que tal estado de sensibilidade exacerbada que a mãe


se encontra neste período, é quase um estado patológico esquizofrênico
(seria no caso de não existir uma gravidez), mas no contexto da gestação e
alguns meses após o parto, é de fundamental importância na instalação de
uma identificação materna com o bebê, para torná-la uma mãe
suficientemente-boa.
Uma vez alcançado o Estado de preocupação materna primária, mãe e
bebê experiementam uma relação única e harmoniosa. A mãe
suficientemente-boa protege o bebê. Das intrusões do meio e lhe fornece o
apoio necessário ao seu pleno desenvolvimento.
Quando a mãe consegue proporcionar um apoio ótimo para o bebê, a
mãe desempenhando seu papel sobre a função ambiente. E conseguindo
uma identificação estreita com o seu filho, atendendo suas necessidades, é
chamada de mãe suficientemente boa. Essa mãe representa o ambiente
suficientemente bom, um fator crucial para uma vida psíquica e física
fundamentadas em suas tendências inatas (ARCANGIOLI, 1995).
Esse self frágil da criança recém-nascida, clama por um suporte
adequado, a mãe tem o papel de ‘ego auxiliar’. Quando esse ego provido pela
mãe é insuficiente, a criança recorre a construção de um falso ego,
denominado por Winnicott de falso self. Essa mãe incapaz de se identificar
com as necessidades primárias de seu filho é denominada por Winnicott de
‘mãe insuficientemente boa’, que corresponde não a uma pessoa, mas à
ausência de alguém cujo apego à criança seja simplesmente comum (ARCANGIOLI,
p.187, 1995). Por outro lado, se desempenhar o papel da ‘mãe
suficientemente boa’ permitirá que o bebê comece a ‘existir’, a construir um
ego próprio e a se organizar psiquicamente.
O ‘núcleo do self verdadeiro’ se constitui quando o ambiente
proporcionado pela mãe é suficientemente bom. Segundo Winnicott, o
verdadeiro self é a pessoa que é eu e apenas eu, ou seja, a pessoa que se
constrói, fundamentalmente, a partir de suas tendências inatas (ARCANGIOLI,
p.186, 1995). O verdadeiro self manifesta-se através de gestos espontâneos,
a espontaneidade constitui o self verdadeiro em ação. Somente o self
verdadeiro pode ser criador e ser sentido como real (ARCANGIOLI, 1995).

A mãe ‘boa’ é a que responde a onipotência do lactante e, de certo modo, dá-lhe sentido.
Isto de faz repetidamente. O self verdadeiro começa a adquirir vida, através da forca que a
mãe, ao cumprir as expressões da onipotência infantil, dá ao ego débil da criança.
A mãe que não é ‘boa’ é incapaz de cumprir a onipotência da criança, pelo que
repetidamente deixa de responder ao gesto da mesma; em seu lugar, coloca seu próprio
gesto, cujo sentido depende da submissão ou acatamento do mesmo por parte da criança.
Esta submissão constitui a primeira fase do self falso e é própria da incapacidade materna
para interpretar as necessidades da criança (WINNICOTT, apud
BLEICHMAR;BLEICHMAR, p. 224;225, 1995).

Winnicott propôs vários conceitos que vieram enriquecer a sua teoria,


conceitos originais e importantes baseados numa prática extensa. Outro
deles se refere aos fenômenos e objetos transcionais.

É MUITÍSSIMO CONHECIDO o fato de que os bebês, logo após o


nascimento, tendem a usar punhos, dedos e polegares para estimular a
zona erógena oral a fim de satisfazer os instintos ligados a esta, e também
quando estão em momentos de relacionamento tranqüilo. Sabemos ainda
que após alguns meses os bebês de ambos os sexos passam a gostar de
brincar com bonecas, e que a maioria das mães permite que seus bebês
adotem algum objeto especial, e espera que eles se tornem ‘viciados’
nesses objetos, por assim dizer. (WINNICOTT,p. 316, 2OOO)

A partir das suas observações clínicas, Winnicott percebeu que haveria


uma relação entre os hábitos corriqueiros dos bebês para satisfazer seus
instintos da zona oral (levar o polegar à boca, por exemplo); e mais tarde, de
adotar um objeto como sendo um objeto especial -de grande estima por eles.
Entre estes os ‘hábitos’ Winnicott postula, o que seria de uma ordem
fenomenal, que haveria uma ponte de intermediação constituída pela
“primeira posse não-ego” denominados “fenômenos e objetos transicionais”.
O conceito de objeto ou fenômeno transicional recebe três usos
diferentes, a saber: o primeiro de natureza evolutiva, outro, relacionados às
angústias de separação e às defesas contra elas (com um caráter defensivo),
e, por último, um espaço dentro da psiqué do sujeito. A idéia e função desses
fenômenos estão atreladas com a saúde mental. Todavia, em certas
condições desfavoráveis o objeto transicional também pode ter uma evolução
patológica (BLEICHMAR;BLEICHMAR, 1995).
O objeto transicional desempenha um papel fundamental para o
processo de maturação do bebê, na medida em que se apresenta como um
objeto que pode preencher o espaço em situações de angústia, como por
exemplo, separar-se da mãe na hora de dormir. Além disso, serve para que o
bebê possa experimentar seus limites mentais em relação ao que é interno e
externo a ele, assim como tem a função de delimitar os limites corporais:
quando a criança manipula o ursinho, adquire sensações que servem para
estabelecer seus limites corporais. O objeto transicional está situado em uma zona
intermediaria, na qual a criança se exercita na experimentação com objetos que,
mesmo que estejam fora, sente como partes de si mesma.
(BLEICHMAR;BLEICHMAR, p. 227, 1995).
Ocupando um lugar de ilusão, o objeto transicional, diferentemente do
seio materno, que não está disponível o tempo todo, é conservado pela
criança e solicitado quando lhe convém. A criança incorpora a noção de que
tem o seio materno, mas ele não o pertence, logo, faz uso do objeto de
intermediação e o elege para acalmar e o defender de suas angústias. Sendo
assim, também desempenha o papel na elaboração dos sentimentos de
perda, quando está separado da mãe.
Há um sentimento de ambivalência no tocante à relação com o objeto
transicional, no momento em que pode ser alvo de amor, mas como também
alvo de agressão, quando sua relação é de ódio. Esse trato de agressividade
para com o objeto também é fundamental, no momento em que serve como
uma maneira da criança neutralizar sua agressão, o que pode ter um fim
construtivo.
O objeto transicional se mantém pela vida afora como lugar das
experiências intensas no campo da arte, da religião, e da imaginação: Esta
zona intermediaria da experiência, inquestionada, no que tange à sua pertinência à
realidade interior e exterior (compartilhada), constitui a maior parte da experiência da
criança, e é conservada ao longo de toda a vida, dentro das intensas experiências
próprias da arte, religião e viver imaginativo, assim como do trabalho cientifico
(WINNICOTT, apud BLEICHMAR;BLEICHMAR, p. 229, 1995).
Winnicott também afirma que o objeto transicional é susceptível de ter
uma evolução patológica, podendo se expressar na forma de fetichismo, da
adição e do roubo, o que constituem substitutos do primitivo objeto
transicional. Winnicott acredita que tais quadros patológicos e outros
problemas, podem se dar em função das falhas maternas, pela inconstância
no vínculo, e pela dificuldade emocional no contato entre outros.
Segundo Winnicott, o processo de aceitação da realidade jamais se
completa, sendo assim sempre haverá uma tensão onde o ser humano
relaciona sua realidade externa com sua realidade interna,e o que
proporciona o alívio dessa tensão corresponde à área intermediária de
experiências, a qual não é submetida a questionamentos (arte, religião, etc.).
Tal região intermediária se manifesta de modo direto na área do brincar da
criança (WINNICOTT,2000).

2.1 O Brincar para Winnicott

O brincar apresenta-se como uma grande aquisição da teoria do


desenvolvimento emocional de Winnicott. Ao brincar, o bebê/criança/adulto
estabelece uma ponte entre o mundo interno e o mundo externo com e
através do espaço transicional. Para Winnicott, a qualidade do brincar na
terceira área- os fenômenos transicionais- é sinônimo de viver
criativamente, e constitui a matriz da experiência self que se estende por
toda vida. Transposto para a relação analítica, o brincar constitui-se na
definitiva realização da psicoterapia, pois é somente através do brincar que
o self é descoberto e fortalecido (ABRAM, 2000).
Em suas observações de bebês e crianças, Winnicott percebeu a
importância e a função do brincar, especialmente com relação à psicoterapia
e a busca e a descoberta do self. O brincar sempre foi um aspecto de sua
técnica na clínica: o jogo das espátulas e o jogo dos rabiscos, estão dentre
suas técnicas utilizadas, tais jogos contribuíram para a compreensão da
natureza do objeto transicional no desenvolvimento do bebê.
Para Winnicott, a qualidade do brincar serviria como um indicador do
desenvolvimento e do sentimento de ser do bebê: Ao classificar uma série de
casos podemos fazer uso de uma escala: na ponta normal dessa escala
encontramos o jogo, que é uma simples e prazerosa dramatização da vida do
mundo interno: na ponta anormal da escala temos o jogo de que faz parte uma
negação do mundo interno, sendo o jogo, nesse caso, sempre compulsivo, exaltado,
conduzido pela ansiedade, e mais voltado para a exploração dos sentidos do que da
alegria (WINNICOTT, apud ABRAM, p.56).
O brincar é uma atividade saudável, e o prazer do brincar é um fator de
garantia da saúde da criança que cresce. O fator criativo e de imaginação
dentro da brincadeira possibilita que a criança crie um modo de vida
particular, o ser vivencia o seu self verdadeiro. Para Winnicott, o brincar
seria o portão de entrada para o inconsciente e teria a função de auto-
revelação, assim como os sonhos são para Freud.
Quando publicou no ano de 1968 seu estudo “The Use of an Object
and Relating through Identifications”, Winnicott menciona a importância do
fator agressão no brincar: é importante expor que a criança valoriza a constatação
de que o ódio e os impulsos agressivos podem ser manifestados em um ambiente já
conhecido, em que haja uma resposta de ódio ou violência por parte desse
ambiente. A criança perceberá que um bom ambiente será capaz de tolerar os
sentimentos agressivos se estes forem expressos de uma forma razoavelmente
aceitável (WINNICOTT, apud ABRAM, p.58).
Winnicott introduziu para a psicanálise uma literatura voltada para
relação mãe-bebê, que até então não se havia explorado com tanta
veemência. A importância dada ao meio ambiente, tendo a mãe como
principal objeto de identificação do bebê, assim como sua descoberta sobre a
existência de um objeto transicional foram de muita valia para o entendimento
da relação simbiótica (mãe-bebê), introduzindo para o contexto psicanalítico
da época um novo campo a ser explorado. Assim como Klein, fundamentou
em sua técnica a importância do brincar, e a utilizou com ferramenta
fundamental em suas ricas experiências analíticas. Winnicott em suas obras
e durante toda sua carreira, mostrou uma psicanálise simples e leve, fazia
questão em ser simplório em seus escritos. Este grande e simples homem
trouxe um trabalho de grande valia, seus estudos e técnicas psicanalítica
hoje, juntamente com os de Klein, são os mais utilizados na prática da
psicanálise da criança.

3. O Lugar dos Pais na Psicanálise de Criança


A implicação dos pais no tratamento da criança é um fator fundamental
para o andamento da psicanálise. Tendo em vista que, de fato, os pais atuam
na transferência dos mesmos, tornando-se uma peça indispensável.
Para Rosenberg, não há como omitir o papel do adulto no andamento
do processo de análise, uma vez que não se da apenas ao nível do mundo
fantasmático, mas entra sim, ao nível da realidade, com todo o seu peso: deles
depende aos honorários, a interrupção do tratamento, a mudança de analista, etc
(ROSENBERG, p.52, 2002). Assim, Rosenberg elucida algumas questões que
implicam também o comprometimento dos pais de ordem consciente e
inconsciente no tratamento do seu filho.
Muitas vezes, o sintoma da criança está atrelado aos sintomas de seus
pais, ao iniciar o processo de análise com a criança, é natural que aconteça
um movimento dentro desse núcleo familiar. Isto, pode trazer um certo
incômodo, o que provoca muitas vezes a desistência do tratamento por parte
deles, e não da criança. Nesse momento, é preciso chamar os pais para
dentro da terapia- o que não implica em uma análise com eles, mesmo que
isso seja necessário- dessa forma poder-se-ia confrontar os conflitos
existentes, o que possibilitaria um grande avanço no processo terapêutico da
criança.

O tratamento é da criança e é com ela que fundamentalmente


trabalhamos. No entanto, os pais (ou um deles) entram no exato
momento em que, devido ao peso que o intersubjetivo tem na formação
do sintoma ou na estruturação das neuroses, faz-se necessário que algo
também se modifique no inconsciente de um ou de ambos progenitores,
ou algo de sua relação. Ao incluí-los na sessão, pensa-se em produzir
um efeito analítico que permita a continuação da análise da criança
(ROCENBERG, p.55, 2002).

Então, como se daria essa psicanálise com crianças? Rosenberg


propõem que é fundamental escutar a criança como o sujeito do seu próprio
discurso, ao invés de acreditar que está sendo falada pelo Outro. Pois não é
sempre correto afirmar que a origem de um sintoma vem do discurso dos
seus parentais. No entanto, pode haver momentos nos quais a criança faz
menção a tais sintomas.
Muitas vezes é difícil para que os pais aceitem a mudança nas
crianças, nessa hora é preciso que o psicanalista esteja atendo a isso, para
que possa fazer suas intervenções, a fim de converter a situação. Só assim
torna possível que os pais se confrontarem com seus desejos e recalques
(ROSENBERG, 2002).
Quando trabalhamos numa análise de crianças, temos que ter em
mente que não trabalhamos sozinhos. Junto com os sintomas da criança,
estão os sintomas parentais não resolvidos. O processo da análise infantil,
certamente provocará algum desconforto no pai ou na mãe, ou nos dois. O
papel do psicanalista seria de abarcar todas essas questões intervindo e
manejando quando for necessário.
Dessa maneira, é conveniente dizer que a implicação dos pais no
tratamento infantil é peça fundamental para a evolução da análise da criança.
Cabe ao psicanalista ter ciência da importância que é a participação dos
parentais no processo da cura.
4. Fragmentos de um Caso Clínico

Uma Breve Introdução

Dentre os atendimentos que realizei durante este último ano de estágio,


o primeiro de um aprendizado em experiência clínica na psicanálise com
crianças, faço menção a este caso em particular por ter sido o mais duradouro
e com aspectos mais relevantes e intrigantes experenciado por mim. Como
sendo o início de uma jornada psicanalítica, encontrei diversas dificuldades no
manejo ao longo das sessões realizadas.
Creio que compartilhar tais sentimentos de insegurança e de
inexperiência também fazem parte de todo aprendizado árduo e compensador
que nós da área da psicologia e psicanálise encontramos. Como ato altruísta
e também por querer compartilhar tais inseguranças, como própria
necessidade de me sentir mais confortável, me disponho vagar um pouco
sobre o que foi vivenciado por mim pessoalmente, pois acredito que ao
compartilhar tais sentimentos também estarei contribuindo, de uma certa
maneira, para os futuros estagiários, que com certeza, pela inexperiência e
pouca idade, irão sentir o mesmo. Em outras palavras, seria conveniente dizer
que não estamos sozinhos neste barco.
Gostaria também de compartilhar um pouco das minhas idéias em
relação à psicanálise, antes mesmo de me debruçar no caso clínico
construído por mim e pelo meu paciente, digo isso, pois, um caso não é
puramente o que o nosso paciente nos traz, ele é soma de todas impressões,
fantasias, vivenciadas pelo psicoterapeuta e pelo paciente. Como tudo que
passa pelo campo subjetivo, seja na linguagem, seja nos sonhos e até mesmo
em nossos atos corriqueiros, são representados em nossa mente por uma
metáfora. Não seria diferente na psicanálise, ou nada adiantaria se fosse.
Diria até que seria impossível fazer um movimento diferente, pois tudo que
passa por nossa impressão subjetiva, torna-se algo nosso, uma interpretação
pessoal, no entanto, muito verídica.
A psicanálise é uma área de conhecimento muito mais subjetiva do que
qualquer outro campo da ciência humana, ela se estende até às entranhas do
nosso obscuro inconsciente a fim de entender e explicar o que acontece com
a nossa mente, objetivamente falando. Ela afirma, e creio piamente nisso, que
nossas atitudes, até mesmo as mais simples, não são respostas de um mero
acaso, ou automatismo. Somos seres complexos, pensantes, capazes de
refletir e nossos atos são sempre resposta de algo já experenciado desde de
nossa tenra infância, mesmo que disso não tenhamos consciência disso.
Melhor assim que não tenhamos consciência de tudo, afinal de contas, nossa
mente não usaria de mecanismos de defesas se não fossem necessários.
Mas temos que ter cuidado para que não difamemos tal pensamento, pois,
como diz sabiamente Freud “às vezes um charuto é apenas um charuto”.
Podemos inserir a psicanálise no cerne de qualquer campo onde se
insira a subjetividade humana (no campo das artes, da ciência). Ou melhor,
nós seres humanos tendemos a investir, por uma questão de necessidade,
psiquicamente falando, em algumas áreas onde possamos canalizar todas as
nossas questões, que por hora nos trazem um certo tipo de sofrimento, que é
inerente a qualquer ser humano. Como diz Winnicott, essas áreas passam
pelo campo do “inquestionável”, um movimento “absoluto” onde podemos
empregar e tentar explicar o que é inexplicável para nós.
O ser humano está sempre em busca, precisamos de energia que nos
mova, é como um movimento das pulsões, como diria Freud. Procuramos
sempre ir em busca de um sentido para nossas vidas, mesmo que não
saibamos conscientemente disso, e é essa pulsão que nos faz viver.
A obscuridade de nossas mentes nos faz mover para ir buscar algo do
campo do impossível, esse “campo do impossível” é necessário para que
possamos está sempre investindo. Nosso desejo inesgotável e nunca saciável
é uma condição necessária para nos mantermos vivos.
Não sei se estou sendo prudente ao divagar sobre tantos aspectos da
nossa subjetividade neste trabalho, mas creio que para mim seja primordial
falar um pouco das minhas concepções em relação à subjetividade humana,
afim de que eu mesmo possa dá um rumo original a este meu trabalho, já
que é um relato de uma experiência clínica do meu estágio. E como dito
anteriormente, sinto que seja mais que necessário compartilhar algumas de
minhas idéias, ou melhor, das minhas concepções acerca de tal
conhecimento.
• A História de Teodoro

Os pais de Teodoro*, Seu Breno e Dona Marta, vieram à clínica de


psicologia com a queixa de que o filho desde que se mudou para a nova
escola, não se adapta à rotina do colégio, além de ser alvo de bullying e de
gozações das mais cruéis pelos colegas de sala.
Trata-se de um garoto de 12 anos de idade, aparentemente saudável e
bem apresentável. Como único filho da família, as atenções são voltadas para
ele, de uma maneira exacerbada.
Sua mãe teve uma gravidez atordoada e delicada, com o prognóstico do
seu estado considerado grave e com ameaça da perda do bebê ou da mãe
durante o parto. Dada essas circunstâncias difíceis, a mãe de Teodoro
sempre o protegeu excessivamente. Desde o nascimento o bebê entre os
pais, num colchão no chão, para que ele não caísse e que nada de mal
acontecesse ao mesmo.
Seus pais, entretanto, relataram que ele sempre foi uma criança
saudável, comunicativa e que na sua antiga escola não havia problema, e
pelo contrário, era uma criança bastante conhecida no colégio e que mantinha
amizade com todo mundo. Na nossa primeira entrevista, os pais falaram algo
interessante para entender a queixa: “Teodoro é um menino muito
comunicativo, ele vai fazer de tudo para agradá-la”, assim o fez Teodoro de
maneira quase constante, salvo algumas situações em que demonstrava ser
um menino bastante antipático e artificial.

• Os nome são fictícios a fim de preservar a privacidade do cliente.

Seu Breno parece ser uma pessoa de difícil convivência, mostra-se que é
muito invasivo e rígido na educação de seu filho. Os encontros que tive com
os pais, eram marcados pela predominância da fala do pai e uma passividade
extrema da mãe. Breno praticamente não dava espaço para ela falar, e esta
se colocava sempre numa condição passiva. Além disso o porte físico
avantajado de Breno fazia juz a sua conduta espaçosa e invasiva.
A mãe sempre esteve “exageradamente” presente nas atividades de seu
filho. Praticamente fazia suas tarefas da escola e estudava com ele para as
provas até o momento. Além disso, a mãe sempre o acompanhou em todas
as atividades, sem conseguir descolar do filho, ficando completamente à sua
mercê. Uma mãe superprotetora e ao mesmo tempo inexpressiva, quase
inexistente. Diante de um pai avassalador e narcísico, a mãe fica sempre à
parte.
Durante o processo, a mãe precisou mudar seu horário do trabalho, o
que implicou ter que se afastar um pouco de Teodoro, deixando-o em pânico.
Diante disso, seus pais me procuraram para falar da dificuldade que o filho
estava sentindo e da sua angústia em ter que se afastar durante mais tempo
da mãe.
O pai, numa das sessões relata ter, crescido em meio de muitas
mulheres, e ter tido tem uma relação maternal com suas duas tias que criou
junto com sua mãe. A figura materna não aparece na sua dinâmica familiar.
Seu Breno é professor, trabalha os três turnos para poder manter o
padrão de vida que oferece ao seu filho. Visto o seu salário ser insuficiente.
A mãe e as tias de Breno ajudam nos custos da educação e afins. Mesmo não
tendo condição financeira suficiente, seu Narciso adota um padrão de vida
elevado para sua família e aceita ajuda de suas tias e sua mãe.
Os pais se preocupam por Teodoro ser muito sozinho, não tem amigos
na escola e onde mora não tem meninos com a mesma idade para que ele
possa brincar. A mãe comenta que desde criança ele passa muito tempo
sozinho em casa, e, muitas vezes, ela chegou a pedir ao porteiro do edifício
para checar se tudo está bem, hábito mantido pelos pais até o presente.
Outras queixa versa sobre o desempenho escolar de Teodoro e seu baixo
rendimento segundo a mãe. Durante as provas ele fica muito desligado, não
se concentra, e não consegue bons resultados. O pai comenta que fica muito
furioso com esse fracasso escolar e, demonstra sua raiva e desgosto com
esse isso.
Certa vez os pais comentaram que Teodoro havia pressionado uma
caneta contra seu braço até se ferir, esta auto-agressão ocorrera após ter se
dado mal em um exame de matemática. Outro episódio ocorrido em sala de
aula, foi ter tumultuado o exame de ciências, perturbando o ambiente.
No final de uma sessão com Teodoro, seus pais foram me comunicaram
um fato que os deixou preocupados, e então, eles relataram que Teodoro
estava com uma “namoradinha”, a mesma menina que um dia lhe ignorou,
como diria sua mãe, “lhe humilhou”. Os pais do menino estavam preocupados
não somente porque o filho era novo demais para esse tipo de relação, mas
principalmente porque este tirado escondido de sua mãe suas jóias – um anel
e uma corrente- para presentear a namoradinha.
A mãe contara que essa menina já havia desdenhado de seu filho, uma
vez que marcaram para ir ao parque de diversão, e lá ficara com os seus
colegas de sala ignorando-o completamente. Diz a mãe comenta que ele
escreve alguns textos em seu caderno, relacionados sentimentos que tem
pelos seus colegas.
Em mais uma das entrevistas com os pais, seu pai trouxe um conteúdo
bastante interessante: Teodoro havia desenhado numa folha uma figura
humana muito grande, segundo o pai, um gigante; e aos pés deste gigante
estavam um monte pessoas bem pequenas sendo afogadas pelas lágrimas
que caiam dos olhos do gigante. Esse gigante estava também fumando- vale
salientar que seu Breno é fumante. Ao ver este desenho, o pai disse que logo
se identificou com o mesmo, dizendo ao filho que o gigante era ele, mas que
não havia gostado, pois ele estava muito feio. Teodoro responde que a figura
no desenho era Deus. E seu pai retrucou, que não podia ser Deus, pois Deus
não fuma, então logo Teodoro de imediato apaga o cigarro do desenho. E
continuou dizendo: “é Deus chorando pela tristeza do mundo”.
Esse desenho de fato mostra o caráter narcisista do pai de Teodoro, e
como o garoto o representa. Essa figura tão invasiva que é vista como o
grande gigante chorão. Pode-se notar que o modelo familiar é confuso e
pouco estruturante para o garoto. A figura do pai tenta obscurecer a existência
da mãe e do próprio filho. A passividade e a cumplicidade da mãe a torna
quase inexistente. E Teodoro se perde em meio de todo esse quadro
conturbado.
• As Sessões com Teodoro

No primeiro encontro, Teodoro demonstrou ser um garoto bem articulado,


inteligente. No seu discurso notava-se uma forte influência paterna. As suas
idéias não me pareciam ser dele, eram mais uma reprodução do modelo do
pai visivelmente incorporada por ele. Sendo assim, dava a impressão de se
mostrar mais como uma caricatura de adulto com uma eloqüência artificial
para um garoto da sua idade.
Ao relatar sobre a escola, quando pontuei tal questão, disse que se sentia
humilhado em relação aos seus colegas. Quais as razões disso perguntei-lhe
ao que respondeu: “acho que é porque eu falo muita besteira, que sou gordo
e que eles tem uma cabeça ‘mais avançada’ do que eu, eles já têm paqueras
e falam em namoro”. E ainda acrescentou “se eu falar muita besteira aqui
você pode me dá um toque”. Assegurei-lhe que aqui, ele poderia falar
besteira, que podia também ser ele mesmo. Disse-me que estava sendo
muito poder desabafar tudo.
O garoto pareceu o tempo todo querer me agradar e mostrar ser uma
pessoa simpática. Característica esta que persistiu ao longo de todos as
sessões, salvo algumas exceções, nas quais exercitava seu humor sádico e
desagradável, muitas vezes até desconcertante.
Ao perguntar-lhe o que gostaria de fazer na sessão, respondeu que
gostava de jogar vídeo game, mas de tanto o pai falar que jogar vídeo game
não era uma atividade saudável, que pode ficar “viciado”. E ainda
acrescentou: “o vídeo game não leva a nada”. Teodoro diz que deixou de
jogar, sem aparentemente contestar, pareceu conformado.
Na sessão seguinte, ao conversarmos sobre o colégio, ele diz que está
“mais ou menos”. Explorei o que queria dizer: “como assim mais ou menos?”
este disse: “hoje os meus colegas me desrespeitaram, zoaram de mim só
porque eu falei gesticulando, daí fui para coordenação reclamar e a
coordenadora me disse que iria averiguar. E quando a coordenação
averiguou, me disse que eu também revidava”. Seu comportamento oscilava
entre vítima e algoz de sua própria angústia.
Sobre a sua relação com a família, disse-me ser um garoto privilegiado,
pois, mesmo seus pais não tendo condições de sustentá-lo , sua avó ajuda
nas despesas pagando a escola: “se ela não ajudasse, estaria estudando em
um colégio Estadual” (...) “assim sobra mais dinheiro para meus pais
comprarem coisas para mim”. Mais uma vez aparece um discurso não
elaborado por ele, mas por ele incorporado como se a fala demonstrasse que
ele tivesse plena consciência de tudo.
Em uma sessão, quando mexia nos brinquedos, encontrou um que o
chamou muita atenção, e logo, decidiu brincar. Eram pequenas peças de
animais, cercas e homens em miniatura, como um Zoológico. Ao brincar
disse: “eu gosto desse tipo de brincadeira, mas os meninos do colégio, acham
criancice” (...) “eles só querem jogar playstation” e ainda acrescentou: “eu
gosto de organizar o jogo todo e depois desmontar”. Na seguinte sessão
continuou com a mesma brincadeira.
Em um certo momento da sessão, Teodoro começa a falar de artes, de
história, enfim de temas cultos, que não são comuns ou muito do interesse de
um garoto de 12 anos. Teodoro repete assim a fala do pai, que é professor de
história e mais uma vez expressa os seus “discursos prontos”, marca de todas
as sessões.
Na terceira sessão, ao perguntar-lhe como estava na escola, disse-me
que estava muito bom, pois os colegas não tinham zoado dele. Procurei saber
porque ele achava que os colegas mudaram em relação a ele. Prontamente
respondeu que achava que era porque dessa vez ele tinha esperado a
professora a falar, para que então falasse algo.
Mais uma vez nas nossas conversas, faz uso de palavras difíceis, com
frases bem articuladas, e um vocabulário avançado. Então pontuei que ele,
na sessão, não precisaria usar esses termos difíceis, que ele era apenas um
garoto de 12 anos. Respondeu-me e repete em voz alta e com certo ar de
gozação : “eu sou apenas um garoto de 12 anos”.
Ao longo de todas as sessões, sempre se mostrou curioso ao meu
respeito, perguntando minha opinião sobre alguns assuntos, sobre meus
gostos, etc. Não respondia diretamente as suas perguntas, e enfatizava que
ali era o lugar para falar dele, e não de mim. Mas ele parecia não entender (ou
se recusava), e sempre refazia os questionamentos. Disse a mãe que eu dava
“fora” nele, quando me perguntava algo. Teodoro parece negar as diferenças,
mostra ignorar que na situação ele é cliente, deseja mais querer me tratar
como igual e por vezes superior. Parecia difícil para ele “não dominar” o
ambiente, ser ele mesmo e se colocar no lugar de quem não sabe de tudo,
sem ficar emburrado.
Em relação ao episódio da mudança de horário do trabalho da sua
mãe, Teodoro nunca falou de sua angústia em relação a este fato. Quando eu
pontuava sobre isto, vinha com um discurso pronto, e dizia “ah! Vai ser ruim,
né? agora ela não vai poder me ajudar nas tarefas, mas eu tenho que me
acostumar”. No entanto, mostrava-se muito agitado e inquieto, por mais que
quisesse demonstrar tranqüilidade. A partir desse momento, começava a
revelar sua insegurança e fragilidade.
Como foi dito anteriormente, o garoto fazia questão de me agradar,
costumava me presentear (me trouxe um ovo da páscoa), me elogiando e se
comportando como um “bom menino educado”. Entretanto, em alguns
momentos ele tentava me provocar, e querer me “desconcertar”. Tal
comportamento parecia claramente a expressão de sentimentos ambivalentes
que tal como em casa e na escola, ocorriam também na sessão.
Teodoro revelava ser um menino desagradável, assim como os seus
colegas de turma o achavam: Em uma das sessões ele começara a ter crises
de risos, depois de ter pontuado que ele estava agitado. Seus risos mais
pareciam risos de deboche. Perguntei-lhe o motivo de tanto riso, e me
respondeu: “às vezes, quando sinto vontade de chorar, ou estou triste, eu
sorrio, não sei porque. Uma vez minha tia-avó estava cirurgiada, e quando
olhei para ela me deu vontade de rir”. O seu “ataque histérico” faz-nos
reportar ao conceito de defesa maníaca desenvolvido por Melanie Klein para
compreender as angústias depressivas. Teodoro não podia expressar sua
afetividade de forma natural, modelos e as exigências dos pais só tinham
lugar para um tipo de afeto, o da negação dos afetos.
Outro dia, imitou, ao mesmo tempo em que sorria debochadamente,
fazia os meus gestos quando anuncio o término da sessão, e repetiu a
mesma frase que costumava falar: “Teodoro, o nosso tempo por hoje está
chegando ao fim”. Nesse momento, realmente fiquei desconcertada e não
sabia como manejar. Esses deboches se repetiram mais vezes em outras
sessões. A contra-transferência negativa foi identificada e pude compreender
o que se passava entre nós.
Quando ocorreu o recesso de duas semanas, período entre os
semestres letivos, avisei a ele com antecedência, e com todo cuidado,
entreguei-lhe um cartão com a data do seu retorno. No dia da sessão ele não
comparece a sessão, e tampouco na sessão seguinte. Após as duas faltas
consecutivas, falei com a mãe, que alegou ter pensado que ainda estava em
recesso, e que não recebera nenhum cartão de retorno. Na sessão com
Teodoro, ao explorar sua resistência (na verdade raiva pela pausa das
sessões) me respondeu que tinha perdido o cartão e que pensava que eu
ainda estava de recesso.
Após este fato, ele não parecia não vir com vontade às sessões, e vez
por outra cometia uma falta, durante certo tempo. Mostrava-se desinteressado
nos jogos, chegando dizer que estava enjoado dos mesmos. Antes as
sessões eram ricas e sempre que não queria jogar os jogos disponíveis,
improvisava uma brincadeira.
Ao pontuar-lhe a sua resistência, o seu silêncio nas sessões , ele
parou, pensou e começou a fazer confissões:

Teodoro: eu ando falando muito palavrão, sei que é errado, mas


não consigo me conter. .
Terapeuta: Porque você acha que não deve falar palavrão?
Teodoro: ah, falar palavrão não é legal, mas não consigo me
segurar. Se você fala no meio da rua um palavrão, é um pouco
constrangedor alguém vir e reclamar com você, né?! Tem lugar
que você pode falar e outros que você não pode, mas é melhor
não falar, né?!
Terapeuta: E onde você pode falar palavrão?
Teodoro: ah, na escola todo mundo fala.
Terapeuta: então parece que na escola pode falar palavrão, por
que lá é aceito.
Em seguida silencia e depois continua a falar: “eu também sou muito
fofoqueiro, assim, quando alguém fala algum segredo para mim, eu seu que
não devo contar, mas conto, é maior do que eu, sabe?”. Falei para ele que
agir assim parecia contraditório, pois ao mesmo tempo que alguém lhe dá
confiança, algo que ele almeja, ele simplesmente quebra a confiança do outro.
Responde-me: “ah, é porque é maior que eu, não consigo segurar”. E
continuou a falar: “eu também às vezes minto muito”. Explorei o tema, ao que
ele diz: “assim, eu aumento as coisas, sabe? Tipo assim, se está todo mundo
falando sobre jogos – tem um tio meu que tem uma loja de jogos- daí,
aumento, falo que meu tio tem um monte de jogos legais e que eu sempre
vou lá jogar”.Faço uma observação dizendo-lhe que parece que ele quer
impressionar os outros, mostrar algo mais. Esse assunto poderíamos retomar
na próxima sessão, pois a mesma já havia terminado. Na sessão seguinte, ele
falta e a mãe justifica por telefone dizendo que ele não iria poder comparecer,
pois havia cortado os próprios cílios.
O processo psicoterápico de Teodoro continua regularmente, mas um
novo elemento deverá influenciar no tratamento. O desligamento que
acontecerá com o fim do estágio supervisionado. Sessões com os pais estão
ocorrendo para a passagem do caso a outra psicóloga que então assumirá
sem que haja solução de continuidade.

Considerações sobre o Caso:

As poucas sessões realizadas com Teodoro leva-nos a supor que ele


apresenta grandes dificuldades na construção da sua identidade. Se encontra
numa situação na qual torna-se difícil exprimir seu verdadeiro Self. Em seus
diálogos observa-se com freqüência, um discurso apropriado do outro, quase
um padrão repetitivo do discurso do pai, usando sempre lógica, boa
consciência e eloqüência. Diante disso, não consegue sair da sombra do seu
pai, que o “invade” e que o inibe.
Preso nesse complexo paterno, Teodoro, nas sessões, incorpora um
“personagem” de um garoto agradável, inteligente e esperto. Entretanto, não
consegue ter sucesso na sua vida social, é alvo freqüente de gozação e
exclusão, sobretudo com os colegas da escola. Nas sessões sempre
considera ser o dominador, tentando manter a relação com a terapeuta de
igual para igual. Na escola, ele é o bobão.
Teodoro é um garoto muito só, não consegue fazer amizades, em
especial com pessoas da sua mesma faixa etária. Dessa maneira, se vê preso
na sua relação com o seu núcleo familiar, que extrapola o limite de sua
individualidade.Tal situação impele dele ser um garoto com ações
espontâneas e criativas. Alguns indícios de elaboração se rebelou nas
sessões ao demonstrar criatividade e improviso nos jogos e brincadeiras.
Ao jogar, Teodoro demonstrava sempre preocupado em ganhar,
mesmo que para isso tivesse que trapacear nos jogos ou mudar as regras
para lhe favorecer. Muitas vezes, quando se via perdendo, se frustrava e
mostrava o desinteresse pelo jogo, muitas vezes até “bagunçava” a
brincadeira. Manipulador, não conseguia suportar a frustração de perder e
acabava o jogo.
Ainda muito colado à sua mãe e ele também, torna sua relação muito
infantilizada. Quanto ao pai narcisista e invasivo, ele não consegue sair da
sua sombra.
A terapia provavelmente lhe proporcionará boas mudanças,
remanejamentos psíquicos que poderá se beneficiar para deslocar da sombra
dos seus pais, e conseguir se articular por ele mesmo, tornando-se um garoto
espontâneo e saudável.
Resumo de outros Casos atendidos

CASO I

INICIAS: W.N.L.O
IDADE:9
SEXO: M

O caso havia sido encaminhado para mim por uma estagiária, pois, em
virtude do encerramento do estágio, não poderia dar seguimento ao
tratamento. A mãe procurou atendimento na clínica, pois se queixava que o
filho andava com medo de tudo, principalmente, medo de ficar sozinho.
O garoto tinha um rendimento escolar muito bom, era bem
comunicativo, espontâneo e inteligente. Não tinha uma relação constante com
o pai, este abandonara a mãe quando soube da gravidez.
A terapia transcorreu em bons moldes, W. parecia estar indo bem nas
sessões. Embora achasse que não se tratasse de caso urgente de terapia, a
psicoterapia iria ajudá-lo a vencer seus medos e ajudar na sua questão em
relação com seus parentais.
Desde o começo, a mãe parecia não querer investir mais no tratamento
do seu filho, e se queixava nas entrevistas de ter que repetir tudo o que já
falara para a outra psicóloga, embora eu pontuasse que era importante que
ela o repetisse, agora para mim.
Acredito que a desistência e o não envolvimento com a terapia
decorreu muito desse fator, mas também por uma questão financeira.
Caso II

Inicias: W. P. M
Idade:10
Sexo:M

A avó procurou atendimento na Clínica, trazendo como queixa de W. a


dificuldade em estabelecer laços sociais, como também ter sido rejeitado pela
própria mãe. Sua avó se preocupava com o estado psíquico do garoto, e já
havia procurado alguns médicos para que lhe desse algum diagnóstico.
W. sofreu um ataque epilético quando tinha 1 ano de idade, e, segundo os
médicos, deixou seqüelas: o garoto tinha um problema grave de visão, só
conseguia enxergar de muito perto. Além disso, o garoto também apresentava
tiques nervosos.
O garoto desenhava muito bem, e todos os finais das sessões eram
dedicadas aos seus desenhos, os quais fazia com extrema facilidade e
qualidade admirável. Ao jogar durante as sessões, embora me convidasse
para participar, W. parecia não se importar muito com minha presença, e
praticamente não interagia comigo nos jogos, embora quisesse me ter por
perto.
Sempre foi difícil conseguir convencer a W. que o tempo da sessão havia
acabado, e, por mais que eu repetisse, teimava em não me ouvir. Outro fator
curioso era que ele sempre pedia para levar os brinquedos para casa e
sempre insistia para que eu permitisse.
Embora as sessões se mostarssem muito ricas, e W. estivesse empolgado
com o tratamento, sua avó decidiu em tirá-lo, pois, não tinha condições
financeiras de trazê-lo semanalmente. Além do mais, havia conseguido uma
vaga para ele em outra instituição perto de sua casa, onde ele poderia realizar
o tratamento.
De fato tratava-se de um caso bastante delicado, que urgia por um
tratamento psicólogo. W. tinha um desenvolvimento emocional primitivo, e não
conseguia laços sociais. Infelizmente, não foi possível prosseguir com o caso.
Considerações Finais

Vivenciar a clínica em psicologia é uma experiência única. Encarar a


prática não é um trabalho simples e nem fácil, a cada dia, a cada sessão,
existe uma superação e uma construção de si mesmo, enquanto pessoa e
enquanto aprendiz. É um trabalho que precisa ser lapidado, dedicado e
acreditado por aquele que o exercita.
Acredito e admiro a psicanálise e é nela que me apoio quando tento
buscar respostas, quando tento entender os mais complexos e simples
artifícios que nossa mente utiliza. E é nela que me apoio quando exerço meu
papel dentro da psicoterapia.
Esse trabalho resume a escolha que fiz durante esses cinco anos de
formação acadêmica. Se resume a uma área que me encantou e que escolhi
para minha vida.
Escolhi a psicanálise, e seguirei com ela.
REFERÊNCIAS

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FREUD, S. A etiologia da Histeria. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v.3

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THOMAS, M-C. Introdução à obra de Melanie Klein. In: NASIO, J.-D.


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Dolto e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.
WINNICOTT, D. W. Da pediatria a psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000.
cap. 18,24.