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Relatorio de Estagio- Final

Relatorio de Estagio- Final

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Universidade Federal da Paraíba
Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
Departamento de Psicologia

Relatório de estagio Supervisionado

Psicologia Clínica/ Psicanálise de Crianças

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva
Matrícula: 10213769
Supervisora: Hélida Magalhães
CRP 13/1073

João Pessoa

2008

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIENCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

Relatório de Estágio

Supervisionado

em Psicologia Clínica, realizado
na Clínica de Psicologia

da Universidade Federal da

Paraíba,

Campus I, elaborado pela

aluna

Laysa Renata R. Soares de R. e

Silva,

Matrícula 10213769, sob

supervisão

da professora Hélida

Magalhães,

CRP 13/1073

João Pessoa
2008

Universidade Federal da Paraíba
Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
Departamento de Psicologia
Coordenação do Curso de Graduação em Psicologia

REQUERIMENTO

À coordenação de Estagio Supervisionado do Curso de Psicologia da
Universidade Federal da Paraíba.

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva, aluna regularmente
matriculada no curso de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba, sob
matrícula 10213769, vem solicitar a V. Sa

. a aprovação de seu estágio em
Psicologia Clínica Infantil, realizado na Clínica de Psicologia desta instituição,
sob a supervisão da professora Hélida Magalhães, CRP 13/1073, perfazendo
um total de 554 horas.

Nestes termos pelo deferimento,

João Pessoa, 02 de Setembro de 2008

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva
Matrícula 10213769

Universidade Federal da Paraíba
Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
Departamento de Psicologia
Coordenação do Curso de Graduação em Psicologia

DECLARAÇÃO

Declaro para os devidos fins, junto a Universidade Federal da
Paraíba, que Laysa Renata R. Soares de R. e Silva, matrícula 10213769,
realizou 554 horas de Estágio Supervisionado na área de Psicologia Clínica
Infantil, sob minha supervisão, entre os períodos 2007.2 e 2008.1, tendo como
local de realização Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba,
Campus I.

João Pessoa, 02 de setembro de 2008

Hélida Magalhães
CRP 13/1073

Universidade Federal da Paraíba
Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
Departamento de Psicologia
Coordenação do Curso de Graduação em Psicologia

PARECER

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva, aluna regularmente
matriculada no curso de Formação de Psicólogo da Universidade Federal da
Paraíba, sob matrícula 10213769, realizou 554 horas de Estágio em
Psicologia Clínica Infantil, na Clínica de Psicologia dessa instituição.

Tendo cumprido os objetivos regimentais acadêmicos, somos do
PARECER FAVORÁVEL à sua obtenção do título de PSICÓLOGA.

João Pessoa, 02 de setembro de 2008

Hélida Magalhães
CRP 13/1073

I. IDENTIFICAÇÃO DA INSTITUIÇÃO

Universidade Federal da Paraíba

Campus I- João Pessoa
Reitor: Rômulo Polari

Centro de Ciências Humanas Letras e Artes

Diretor:Lúcio Flávio Vasconcelos

Departamento de Psicologia

Chefe de Departamento: Verônica Luna

Curso de Graduação em Psicologia

Coordenadora: Silvana Carneiro Maciel

Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba

Coordenadora: Zaeth Aguiar do Nascimento
Vice-Coordenadora: Clênia Maria Tolêdo de Santana Gonçalves

Estagiária: Laysa Renata R. Soares de R. e Silva
Área de Estágio: Psicologia Clínica Infantil
Local: Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba

CARACTERIZAÇÃO

A Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba está dividida em
dois blocos, o bloco A e o bloco B.

•Bloco A

Está localizado à esquerda, sendo composto pelas seguintes salas:

Sala 01- Sala de Vídeo
Sala 02- Secretaria
Sala 03- Atendimento Infantil
Sala 04- Sala dos Estagiários
Sala 05- Arquivo da Clínica
Sala 06- Coordenação de Psicologia
Sala 07- Sala de Psicoterapia de Grupo, Supervisão de Estagio e outros
Sala 08- Pesquisa

•Bloco B

Está localizado à direita, sendo composto pelas seguintes salas:

Sala 09- Atendimento Clínico
Sala 10- Sala de Supervisão de Estágio
Sala 11- Atendimento Clínico
Sala 12- Psicodiagnótico
Salas 12,14,15,16 e 17- Atendimento Clínico
Sala 18- Sala de Psicoterapia de Grupo e Supervisão de Estágio
Sala- Atendimento Infantil

Quadro Funcional

Coordenadores, Funcionários, Técnicos e Professores (Supervisores)

Horário de Funcionamento

De Segunda à Sexta, das 08h às 12h e das 13h30min às 17h

Serviços Prestados

Psicoterapia Familiar e de casal, Psicoterapia individual (adulto/
adolescente e infantil), Psicoterapia de Grupo (Adulto/Infantil),

Psicodiagnótico e Orientação Vocacional e Serviço de Escuta
Psicológica (SEP).

Clientela

Comunidade de universitária (estudantes, professores e servidores) e
comunidade em geral, de faixa etária variada e principalmente de baixa
renda.

Taxa Cobrada

2 a 10% do salário mínimo, conforme as condições de cad cliente.

Equipe de Trabalho

Supervisora: Hélida Magalhães
Estagiários: Laysa Renata R. Soares de R. e Silva e Ilova Anaya
Nasiasene Pombo.

II. CRONOGRAMA DE ATIVIDADES

ATIVIDADES

CARGA HORÁRIA

Atendimento Clínico

90hs

Supervisão dos Casos

100hs

Leitura Individual

200hs

Grupo de Estudo Supervisionado

84hs

Elaboração do Relatório

TOTAL

80hs

554hs

Este trabalho não seria possível se não fosse
pela compreensão e atenção da minha
supervisora Hélida Magalhães. Agradeço por
toda paciência, por todo aprendizado e por toda
dedicação .

Em especial, dedico este trabalho às pessoas importantes aos
quais estiveram comigo nos bons e maus momentos. Em particular,
agradeço aos meus avós, maternos & paternos; aos meus apis, Maria
José & Ailson Rosa; aos meus irmãos, Ailson Segundo e Arthur Rosa,
ao meu namorado Olavo; aos meus sogros e cunhados; a meus Tios
Maria & Sigurd Vindenes e as minhas amigas e amigos de todas as
horas. A todos vocês o meu muito obrigado, por dá a minha vida um
sentido a mais.

Sumário

Introdução

I.

Uma vida em observação, uma grande invenção: Freud e a

Psicanálise

II. A Psicanálise e seus seguidores

1.Melanie Klein

1.1Klein e a Técnica do Brincar

2.Donald Winnicott

2.1 O Brincar para Winnicott

3.O Lugar dos Pais na Psicanálise de Criança

4. Fragmentos de um Caso Clínico

Considerações Finais

Apresentação

“(...) há outra coisa que sei. Houve na psicanálise, desde o
começo, uma estreita união entre tratamento e pesquisa, o
conhecimento levava ao sucesso, e era impossível trratar sem
aprender alguma coisa nova, não se adquiria nenhum
esclarecimento sem experimentar sua ação benéfica. Nosso
procedimento analítico é o único em que essa preciosa
conjunção se conservou”. Sigmund Freud

O trabalho em questão abarca os conteúdos relativos a experiência de
estágio supervisionado em Psicologia Clínica, bem como acervo literário das
teorias que orientaram a prática clínica e a constituição do saber.
Durante um ano foi se construindo um trabalho em cima de leituras,
supervisões e atendimentos; assim como um ensaio clínico, os estagiários,
puderam aprender e experenciar o universo peculiar da clínica.
O pensamento que norteou todo esse trabalho se baseia na
abordagem psicanalítica, em especial a Psicanálise de Crianças, com
referencias de autores como Melanie Klein e Donald Winnicott.
A psicanálise de crianças se pauta em um exercício extremamente
delicado e encantador. O brincar dentro do setting terapêutico possibilita que
as crianças possam expressar suas angústias e conflitos internos. Um
trabalho em especial é feito com os pais, a fim de que estes possam
contribuir para a saúde mental de seus filhos.
Trata-se de uma experiência rica e única, para cada caso, cada
sessão, há uma nova experiência. E assim se vai constituindo uma rede de
saber pautados na experiência clínica atrelados ao saber teórico.
Este trabalho se apresenta como um relatório de uma experiência de
um ano em formação clínica em psicanálise. Nele estão inseridas as
abordagens teóricas que nortearam minha prática, bem como o relato de um
caso clínico, fruto do meu trabalho.

I. Uma vida em observação, uma grande invenção: Freud e a Psicanálise

Meados do século XIX, em 6 de maio de 1856, nasce Sigismund
Schlomo Freud em Freiberg, na pequena vila de Morávia (atual República
Checa). O filho de pequenos comerciantes judeus veio à luz na posição de
primogênito do terceiro casamento do seu pai, que já tinha uma prole de dois
filhos (20 e 24 anos), frutos da sua primeira união matrimonial. A dinâmica da
família era um pouco incomum para uma criança: “O grande desvendador de
enigmas humanos nasceu entre charadas e confusões suficientes para despertar o
interesse de um psicanalista (GAY, 2002, p.22).”
Seu pai, Jacob Freud, pequeno mercador de Freiberg, enfrentava uma
crise econômica logo após o nascimento de Freud, forçando a família deixar
sua cidade natal, para em 1860, instalaram-se em Viena, cidade na qual
Freud recebeu toda educação e onde viveu por muitas décadas e lá
permanecendo por cinqüenta anos até sua partida para Inglaterra (GAY,
2002).

Em 1873 Freud ingressa na Universidade de Viena, como aluno do
curso de medicina. Em sua autobiografia (FREUD, 1925), revela que não
sentiu alguma predileção especial pela carreira de médico, assume que foi
antes de tudo levado por uma espécie de curiosidade dirigida mais para
preocupações humanas do que para objetivos naturais. Começa a rebelar aí o
seu grande interesse, quase que inato, para a subjetividade humana e seus
enigmas mais profundos. Vê-se desde já - a partir de sua curiosidade latente-
uma teoria que iria revolucionar e mesmo chocar a cultura ocidental vingente,
uma inovadora linha de pensamento que até hoje guia e cativa a atenção de
muitos estudiosos que se interessam pela psiqué humana e suas vicissitudes.
Os ensaios de Goethe sobre a natureza e as teorias evolucionistas de
Darwin o enveredaram para área médica. Entre os anos de 1876 a 1882,
Freud trabalhou no laboratório de fisiologia de Ernst Brücke, e revela em sua
autobiografia: Os vários ramos da medicina propriamente dita, afora a psiquiatria,
não exerciam qualquer atração sobre mim (FREUD,1925,P.17).

No ano de 1882, Freud, já descontente com seus estudos em histologia
do sistema nervoso, abandonou o laboratório de Brücke e ingressou no
Hospital Geral como assistente clínico [Aspirant], sendo promovido logo
depois a médico estagiário ou interno [Sekundararzt] sob orientação de
Meynert (FREUD,1925).

Para Sigmund, a anatomia cerebral não era melhor que a fisiologia,
levando-o a se interessar pelo estudo das doenças nervosas, em função dos
poucos especialistas existentes em Viena, Freud foi auto-didata nesta área.
Naquela época nos estudos de neuropatologia brilhava o nome de Chacort, o
que levou Freud à partir para a capital francesa desenvolver estudos sob sua
supervisão. Nos anos posteriores, enquanto trabalhava como médico
estagiário, publicou uma gama de observações clinicas sobre doenças
orgânicas do sistema nervoso. Enquanto aluno de Charcot no Hospital
Salpêtriere é admitido no seu círculo ao se prontificar para traduzir em alemão
o novo volume de suas conferências (FREUD,1925).
A histeria começa a despertar seu interesse a partir da aproximação
com Chacort - Sigmund definitivamente se encantara com o professor e seu
trabalho - realmente lhes chamou a atenção as suas investigações pelo tema,
o que viria a se constituir mais tarde a base da teoria psicanalítica.
Antes de retornar a Viena e casar com Martha Bernays, em 1886,
firmando-se lá como médico especialista em doenças nervosas, Freud passou
algumas semanas em Berlim a fim de adquirir um pouco de conhecimentos
sobre distúrbios gerais da infância. Anos seguintes publicou várias
monografias sobre paralisias cerebrais unilaterais e bilaterais em crianças
(FREUD, 1925).

O interesse pela hipnose, implicou, naturalmente, o abandono ao
tratamento de doenças nervosas orgânicas. Freud achava altamente sedutor
trabalhar com o hipnotismo. Em 1889, passou algumas semanas em Nancy,
trabalhando com Bernheim a fim de aperfeiçoar sua técnica hipnótica.
Entusiasmado com a nova técnica de hipnose e pelos grandes nomes
que o inspirava (Chacort e Breuer) e influenciado pela visita que fez a
Bernheim em 1889, Freud passou a utilizar o método de Breuer com os seus
próprios pacientes. E após anos de achados sobre casos de histeria, propôs a
Breuer o lançamento de uma publicação conjunta sobre o tema. Então, em

1893, foi lançado “Sobre Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos” e
em 1895, seguiu-se o livro: “Estudos sobre a histeria” (FREUD, 1925).

Enquanto ainda trabalhava no laboratório de Brücke, antes mesmo de
se dirigir a Paris, Freud travara conhecimento com o Dr. Josef Breuer, que lhe
falara sobre um caso bastante peculiar de uma paciente histérica , que tratou
entre anos de 1880 e 1882. Tratava-se de Anna O., caso que Breuer assumiu
posteriormente ser a célula germinativa do conjunto da psicanálise (GAY, 2OO2,
p. 75). Após o retorno à Viena, Freud deu seguimento à sua clínica, ainda sob
a forte influencia das idéias de Breuer. Este entrosamento seria o início da
teoria psicanalítica, mas também o distanciamento e o rompimento dessa
união: Nossas relações logo se tornaram mais estreitas e ele se tornou meu amigo,
ajudando-me em minhas difíceis circunstâncias. Adquirimos o hábito de partilhar
todos os nossos interesses científicos. Nessa relação só eu naturalmente tive a
ganhar. O desenvolvimento da psicanálise, depois, veio a custar-me sua amizade.

Não me foi fácil pagar tal preço, mas não pude fugir a isso (FREUD, 1925- edição
eletrônica das obras psicológicas completas de Sigmund Freud*).
Para Freud, a teoria postulada no seu livro foi despretensiosa e quase
não foi além da descrição direta das observações. Não se preocupou em
determinar sobre a natureza da histeria, mas apenas em lançar luz sobre a
etiologia de seus sintomas. Dessa maneira, seus achados publicados sobre
histeria davam ênfase a significação da vida das emoções e o interesse em
estabelecer distinção entre os atos mentais conscientes e inconscientes.
Neles foram introduzidos um fator dinâmico, supondo que o sintoma surge
através do represamento de um afeto; e um fator econômico, considerando
aquele mesmo sintoma como resultado da transformação de uma quantidade
de energia que de outra maneira teria sido empregada de algum outro modo.
Mais tarde, como resultado do estudo da histeria, pôde-se averiguar a
importância que tem a sexualidade na etiologia das neuroses (FREUD, 1925),
Após décadas de trabalho em conjunto, Freud e Breuer romperam
devido às divergências teóricas. Tais diferenças ideológicas se debruçavam
nas questões correspondentes à etiologia da própria histeria.

* As citações foram retiradas “Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de
Sigmund Freud”.

Enquanto Breuer respondia ao processo mental patogênico utilizando uma
teoria fisiológica, Freud inclinava-se a acreditar em uma etiologia sexual
(FREUD, 1925).

Depois do rompimento com Josef Breuer, Freud segue sozinho com os
estudos sobre a histeria e as disfunções sexuais ligadas a esta neurose. A
psicanálise propriamente dita começa a brotar com o surgimento de uma nova
técnica adotada por ele, chamada associação livre. Freud percebera que a
hipnose não dava conta no tratamento da sintomatologia dos pacientes
(FREUD, 1925).

Com a psicanálise tomando forma, foram surgindo novos conceitos
cruciais para o procedimento da análise e o andamento do tratamento. A
psicanálise passa a adotar o conceito de inconsciente de uma maneira
original: A psicanálise considerava tudo de ordem mental como sendo, em primeiro
lugar, inconsciente; a qualidade ulterior de ‘consciência’ também pode estar presente
ou ainda pode estar ausente (FREUD, 1925- edição eletrônica das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud). Agregados ao conceito de
inconsciente estavam o de recalcamento e de defesa , que constituíam
também uma nova descoberta de Freud nos estudos da histeria e
posteriormente das psiconeuroses. Esses constituem aspectos fundamentais
da psicanálise (FREUD 1925).
Freud defendia a importância da sexualidade nos casos de histeria,
mas como a explicava? Nas suas investigações das causas precipitantes e
subjacentes das neuroses, ele foi levado cada vez mais acreditar na
existência dos conflitos entre os impulsos sexuais do indivíduo e suas
resistências à tais impulsos. Na busca das situações patogênicas e das suas
origens Freud terminou chegando aos primeiros anos da infância. Ou seja, as
causas da neurose estariam ligadas às experiências e traumas sofridos
nesse período, mais tarde, Freud se encontra diante de uma teoria que iria

chocar e indignar mais uma vez o meio científico da época: a teoria da
sexualidade infantil (FREUD,1925).
Antes mesmo de abordar a questão da sexualidade infantil, Freud,
baseado nas suas experiências clínicas e na fala de seus pacientes, propôs
um modelo que explicaria a etiologia da histeria: a teoria da sedução. Tal
teoria defendia que os pacientes histéricos poderiam ter sido abusados
sexualmente pelo pai, ou outra figura masculina durante a infância. Após
alguns tratamentos, Freud percebe ter cometido um terrível erro, e concluiu
que as experiências sexuais relatadas por seus pacientes histéricos eram
antes de tudo, as fantasias destes. Quando me havia refeito, fui capaz de tirar as
conclusões certas da minha descoberta: a saber, que os sintomas neuróticos não
estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas
de desejos, e que, no tocante à neurose, a realidade psíquica era de maior
importância que a realidade material (FREUD,1925- edição eletrônica das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud). Freud sem nem mesmo notar
havia tropeçado no complexo de Édipo. E anos depois, em 1897, postula a
sua teoria sobre este conceito, ao mesmo tempo em que empreende sua
auto-análise (FREUD, 1925).

No seu relato autobiográfico Freud retoma e reforça as questões
sobre as teorias da resistência, do recalque, do inconsciente, da significância
da vida sexual, assim como a importância da experiência infantil são
postulados constituintes da estrutura teórica da psicanálise. Fala também de
um aspecto essencial no tratamento qual seja a relação transferencial, que se
configura justamente numa intensa relação emocional entre o paciente e o
analista. A transferência desse modo constitui uma relação de caráter tanto
positivo quanto negativo imprescindível no processo analítico FREUD, 1925).
Formando o conjunto de conceitos e usando a técnica da associação
livre, Freud conseguiu alcançar algo que parecia não ser de importância
prática alguma, mas que de fato conduziu necessariamente a uma atitude
totalmente nova e uma nova escala de pensamento científico. Freud tornou
possível provar que os sonhos têm significado de origem inconsciente. Neste
momento achava pestes a preste a publicar a sua obra que ele mesmo
considerou ser a mais significativa de todas: A Interpretação dos Sonhos
(FREUD, 1925).

Em 4 de novembro de 1899, foi publicada “A Interpretação dos
Sonhos”, que Freud considerava como sua mais ilustre obra-prima. Por algum
tempo não teve tanta repercussão sendo de pouco interesse geral. Na
evolução do pensamento psicanalítico de Freud, a Interpretação dos Sonhos ocupa o
centro estratégico, e ele sabia disso. É extremamente significativo que estivesse
sido escolhido o sonho com o exemplo mais instrutivo do trabalho mental: sonhar é
uma experiência normal e universal (GAY, 2002, p. 121). Sua preocupação em
abordar não somente sintomas restritos e especializados de cunho neurótico,
como histéricos e obsessivos, foi contemplada nessa obra, pois os sonhos
são experenciados por todos (GAY, 2002).
Freud, em sua obra se aprofunda sobre o conteúdo do inconsciente,
fortemente significativo e representativo que os sonhos rebelam. Afirmará que
ao mesmo tempo que corriqueiros, os sonhos também são misteriosos. Em A
Psicopatologia da Vida Cotidiana, de 1901, Freud reúne as notáveis anedotas
sobre todos os tipos de deslizes e lapsos que também constituem atos
corriqueiros de uma psicopatologia presente nas que Freud gostava de
denominar de pessoas saudáveis (GAY, 2002).
Por muitas décadas, Freud foi de fato alvo de muitas críticas e sua
teoria não havia, até então, alcançado uma repercussão positiva pelos
cientistas da época. Por se tratar de uma linha de pensamento ousada e
chocante para o contexto temporal e histórico em que se inseria, a psicanálise
foi durante muito tempo rejeitada. Em sua autobiografia, relata: Por mais de
dez anos após meu afastamento de Breuer, não tive seguidores. Fiquei
completamente isolado. Em Viena, fui evitado; no exterior, ninguém me deu atenção.
Minha Interpretação de Sonhos, vinda a lume em 1900, mal foi objeto de críticas nas
publicações técnicas (FREUD, 1925). Apesar de ter conquistado muitos adeptos,
até os dias de hoje a psicanálise ainda continua sendo alvo de contestações e
indignações. Por abordar questões mais temerosas e indesejáveis contidas
nos lugares mais obscuros de nossa mente, e por estar constantemente
quebrando tabus. É certo que a psicanálise, inevitavelmente, continuará
causando muitos impactos.

Em 1905 Freud publica ‘Três ensaios sobre a teoria da sexualidade’,
texto no qual defende a idéia de uma sexualidade infantil perversa e
polimorfa, causando, mais uma vez, um furor entre os médicos vienenses da

época. As idéias vigentes proclamavam a ausência de sexualidade e pureza
nas crianças, estavam sendo contestadas.
No ano de 1909, Freud visitou a Universidade norte-americana Clark
University –em Worchester- para apresentar um ciclo de conferências sobre a
psicanálise. Lá recebe título honorário e inaugura o Jahrbuch für
psychoanaytische und psychopathologische Forschungen, com a história do
Pequeno Hans como contribuição inicial para o primeiro número (GAY, 2002).
Nesse mesmo ano (1909) Freud publicou o caso Hans “Análise de uma
Fobia num Menino de Cinco Anos”, e sua repercussão possibilitou mais tarde
a possibilidade de análise em crianças. A ‘neurose infantil’ do Pequeno Hans
corroborava com as idéias encontradas nos pacientes neuróticos adultos de

Freud “todas as vezes rastreado até os mesmos complexos infantis que se
revelariam por trás da fobia de Hans” (GAY, 2002, p. 242). O relatório do
Pequeno Hans servia como complemento ilustrando as conclusões que Freud
já havia esboçado em seus ‘Três Ensaios’ sobre a sexualidade infantil (GAY,
2002).

A análise do pequeno Hans ocorreu através de correspondências que
o pai de Hans escrevia para Freud. No caso pôde-se encontrar elementos
claros de uma neurose precoce, esta aparecia no momento em que o garoto
estava vivenciando seu Édipo. O Caso trazia algumas peculiaridades:
exacerbada curiosidade sobre a sexualidade e seu órgão genital. Hans
também apresentara fobias e sentimentos de ambivalência em relação ao seu
pai. O garoto passou a ter medo de cavalos e tinha uma idéia fixa de que “um
cavalo branco entraria no seu quarto e o morderia”. Essa fobia se desenvolve
durante a vivência edípica: Hans tinha medo que seu pai o punisse, pois
queria a sua mãe só para ele, ao mesmo tempo em que tinha medo de perder
o pai (sentimento de ambivalência).
A publicação do Caso Hans provocou um certo frênesi no meio
científico. Seus críticos previam um futuro dos mais negros ao pequeno Hans
“porque tinham lhe ‘roubado sua inocência’, numa idade tão tenra” (FREUD, 1909,
p. 133) por ter sido submetido a criança à psicanálise tão cedo. Ao contrario
das previsões feitas pela comunidade científica da época, Hans tornara-se um
forte rapaz de 19 anos. Declarou que estava perfeitamente bem e que não sofria de

nenhum problema ou inibição (FREUD, 1909, p.133). Hans havia atravessado
sua puberdade sem nenhum dano (FREUD, 1909).
O caso Hans foi a fundação para que mais tarde pudesse pensar na
possibilidade de analisar crianças, levando conseqüentemente a grandes
descobertas da psicanálise com crianças.
As idéias Freudianas geraram grandes embates e a descoberta da
psicanálise foi , sem dúvida, uma das grandes contribuições das ciências
humanas para a compreensão das psicopatologias e do comportamento
humano.

II. A Psicanálise e seus seguidores

1. Melanie Klein

“Essa mulher, que reconheceu inteiramente a contribuição de
Freud, inclusive a pulsão de morte, esteve na origem tanto do
fundamento analítico da prática dos tratamentos com crianças
quanto de uma grande corrente da psicanálise, em que a clinica
do narcisismo chegou a seu auge” .

M.-C.

Thomas

Há mais de um século, em 30 de marco de 1882, nasceu em Viena
Melanie Reizes, originária de família judia.
Aos 17 anos fica noiva do engenheiro Arthur Klein, com quem casou e
teve seus filhos: Melita –futura psicanalista- e Hans, que teve uma morte
precoce em um acidente de carro aos 26 anos de idade.
Entre os anos de 1907-1914, Melanie Klein passou por momentos
conturbados, se submetendo a inúmeros tratamentos em decorrência de
depressão, relacionada com a morte do seu filho mais velho Hans.
No ano de 1914 , Klein aos 32 anos de idade, teve seu terceiro filho
Erich, que passaria à posterioridade conhecido por Fritz, em seus primeiros
trabalhos psicanalíticos; pouco depois morre sua mãe, a senhora Reizes, a
quem era encarregada de cuidar da casa dos Klein. Neste mesmo ano
Melanie Klein conhece a psicanálise ao ler O Sonho e sua Interpretação
(Über den Traum, 1901), de Sigmund Freud.
Em 1916, ainda em Budapeste, começou sua análise com Sandor

Ferenczi*, personagem responsável pelo engajamento de Melanie Klein na
Psicanálise, posteriormente.

* Ferenczi foi o primeiro a me apresentar a psicanálise. Ele me fez também compreender a sua
essência e significados reais. Seu sentimento forte e direto pelo que é inconsciente e pelo simbolismo,
e o extraordinário rapport que tinha com a mente das crianças, exerceram uma influência duradoura
sobre a minha compreensão da psicologia da criança pequena. M. Klein

Ferenczi percebeu sua habilidade e grande capacidade na compreensão de
crianças e a encorajou em seu projeto de se dedicar à psicanálise, mais
particularmente com crianças. Klein tornou-se, então, membro da Sociedade
Psicanalítica, onde publicou duas observações sobre o desenvolvimento de
um menino -seu filho Erich- (THOMAS, 1995).
Em decorrência dos conturbados contextos políticos da época Melanie
Klein mudou-se para Alemanha, convidada por Karl Abraham. Em Berlim
prosseguiu com seus estudos em psicanálise durante cinco anos. Em 1926,
depois da morte de Abraham recebe um convite por Ernest Jones para viver
em Londres – Inglaterra- onde permaneceu até o fim da sua vida (THOMAS,
1995).

A psicanálise de Melanie Klein passou por três grandes momentos
distintos: O primeiro momento se deu com a publicação de The Psycho-
Analisys of Children em 1932. Neste texto, estabeleceu os fundamentos da
análise de crianças e delineou o complexo de Édipo e o superego até as
raízes primitivas de seu desenvolvimento; no seu segundo momento
fundamentou questões sobre o conceito da posição depressiva e dos
mecanismos de defesa maníaca, publicado em seus artigos “A contribution to
the Psychogenisis of the Maniac Depressive States”, em 1934, e “Mourning
and its Relation to Maniac Depressive States” (1940); Em seu terceiro
momento Melanie Klein descreve sobre o estádio mais primitivo titulado por
ela de ‘posição esquizo-paranóide’, descrito em seu artigo “Notes on some
Schizoid Mechanisms” (1946) e em seu livro Envy and Gratitude, em 1957
(SEGAL, 1975).

Klein iniciou sua carreira trabalhando em análise com crianças,
introduziu uma prática original, ao introduzir a técnica do brincar, na qual seria
possível ter acesso aos conflitos e fantasias das crianças. Insistiu em explorar
o inconsciente infantil, tal qual numa análise de um adulto. Isto lhe permitiu
observar que as crianças desenvolvem uma neurose de transferência análoga
a dos adultos. A partir do material inconsciente da criança pôde desenvolver
posteriormente suas teorias que as norteou ao longo de sua carreira:
complexo de Édipo precoce, superego precoce, mecanismos de defesa
primitivos, organizados em torno de uma angústia principal e uma relação de
objetos internos e externos. Para Klein as fantasias inconscientes são os

elementos básicos para a realidade psíquica (BLEICHMAR; BLEICHMAR,
1992).

Embora Melanie Klein tenha tomado a teoria Freudiana como ponto de
partida, sua experiência levou-a desenvolver hipóteses que possibilitaram a
inventar uma teoria original. O conflito mental deixa de ser uma luta entre a
pulsão sexual versus defesa e passa a ser entre sentimentos de amor e de
ódio que se enfrentam com vínculos com os objetos. A metapsicologia
Kleiniana elabora todo o principio da constituição do eu, do narcisismo
primário e, depois, secundário sob os termos fase esquizo-paranóide e
posição depressiva (BLEICHMAR; BLEICHMAR, 1992).
Ao postular suas primeiras hipóteses, Melanie Klein, a partir de suas
observações, re-elabora os conceitos clássicos do Édipo e do superego de
Freud: ao contrário do que se pensava anteriormente, que o complexo de
Édipo tinha início em torno de três ou quatro anos de idade, Melanie Klein
notou que mesmo em crianças de dois anos e meio havia manifestação de
fantasias e ansiedades edipianas. Além disso, Melanie Klein observou que o
superego apareceu muito mais cedo do que seria de esperar a partir da teoria
clássica, e pareceu possuir características bastante selvagens –orais, uretrais
e anais. Ela destacou também o papel importante que a agressão
desempenha para o desenvolvimento psíquico precoce e para a vida do
sujeito. As pulsões agressivas são de fundamental importância nos primeiros
anos da vida psicológica, principalmente no vínculo com a mãe (BLEICHMAR;
BLEICHMAR, 1992).

Melanie Klein muda o conceito de fases libidinais, ao afirmar que, nas
crianças pequenas, observa uma mescla de pulsões orais e genitais que se
sobrepõem a partir das primeiras relações de objetos. A fase libidinal deixa de
seguir um sistema de desenvolvimento cronológico e tempos depois passa a
ser chamada de ‘posições’, seguindo um conceito mais dinâmico e menos
cronológico. A partir de tal afirmação, que as pulsões orais estão misturadas
precocemente com as genitais, implica adiantar a triangulação edipiana a
estágios pré-genitais do desenvolvimento. E nesse seguimento de
pensamento surge a idéia de Édipo precoce, quando a sexualidade contém
agressão. Produzindo uma idéia de culpa, essas reações de angústia, dor e
culpa se relaciona coma idéia de superego precoce. Foi possível constatar

isso em seus casos clínicos, como por exemplo em Rita, de dois anos e nove
meses, em seu pavor nocturnus, se sentia ameaçada por uma mãe e um pai
que morderiam seus órgãos genitais e destruiriam seus bebês. O medo dessas
imagos dos pais paralisava seu brincar e suas atividades. Do mesmo modo,
superegos severos foram exibidos por outros pacientes (SEGAL, 1975, p.14).
Em sua teoria das posições (1932-1946), Melanie Klein a descreve em
duas: a esquizo-paranóide e posição depressiva. Essa teoria explica o vínculo
da criança com a realidade externa e interna. A relação do bebê com o seio
da mãe – primeiro vínculo oral- está no cerne deste desenvolvimento. O
conceito de posição, que substitui a idéia do desenvolvimento libidinal de
Freud e Abraham, é baseado nas pulsões que estão misturadas e se ordenam
ao redor das relações de objetos, juntamente com suas fantasias e angústias.
Essa é uma teoria interpessoal, onde a relação com a realidade se estabelece
através da interação entre os objetos situados no mundo interno e externo a
partir dos mecanismos de identificação projetiva e a projeção. “Na posição
esquizo-paranóide, os objetos serão distorcidos e fantásticos, como resultado da
dissociação e da projeção neles de pulsões libidinais e tanáticas. Na posição
depressiva, os objetos, tanto internos como externos, estarão integrados e mais de
acordo com o principio de realidade” (BLEICHMAR;BLEICHMAR, p. 94, 1992).

Em 1957, Klein desenvolveu a Teoria da Inveja, situada em seu livro
Envy and Gratitude, nele descreve noções da inveja e gratidão. Conclui a
inveja primária como uma pulsão agressiva sentida pelo bebê em relação ao
seio da mãe. A criança sente o desejo de danificar os aspectos bons e
protetores que o seio materno oferece. A inveja e a gratidão são fatores
dinâmicos no âmbito das interações psíquicas, existentes desde o
nascimento. Esta relação de interação com meio externo (seio da mãe) , em
parte, determina as características das relações de objeto precoces

(BLEICHMAR;BLEICHMAR, 1992).

As teorias e hipóteses Kleiniana foram desenvolvidas por ela ao longo
de sua experiência clínica através das observações de seus pequenos
pacientes. A partir de seu método investigativo, trouxe para psicanálise teorias
inovadoras de um seguimento, até então, inexplorado na área. A psicanálise
infantil floresce a partir das suas contribuições e estudos. Melanie Klein traz
para a psicanálise uma grande ferramenta - que talvez sem ela, seria inviável

a análise de criança- onde seus pequenos pacientes poderiam falar das suas
angústias e fantasias: a Técnica do Brincar.

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