Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Humanas Letras e Artes Departamento de Psicologia

Relatório de estagio Supervisionado Psicologia Clínica/ Psicanálise de Crianças

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva Matrícula: 10213769 Supervisora: Hélida Magalhães CRP 13/1073

João Pessoa

2008
UNIVERSIDADE FEDERAL DA

PARAÍBA

CENTRO DE CIENCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

Relatório de Supervisionado em na Clínica Paraíba, Campus I, elaborado aluna Psicologia de Clínica,

Estágio realizado

Psicologia da Universidade Federal da pela

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva, Matrícula supervisão da professora Magalhães, CRP 13/1073 Hélida 10213769, sob

João Pessoa 2008 Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Humanas Letras e Artes Departamento de Psicologia Coordenação do Curso de Graduação em Psicologia

REQUERIMENTO

À coordenação de Estagio Supervisionado do Curso de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba. Laysa Renata R. Soares de R. e Silva, aluna regularmente matriculada no curso de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba, sob matrícula 10213769, vem solicitar a V. Sa. a aprovação de seu estágio em Psicologia Clínica Infantil, realizado na Clínica de Psicologia desta instituição, sob a supervisão da professora Hélida Magalhães, CRP 13/1073, perfazendo um total de 554 horas.

Nestes termos pelo deferimento,

João Pessoa, 02 de Setembro de 2008

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva Matrícula 10213769

Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Humanas Letras e Artes Departamento de Psicologia Coordenação do Curso de Graduação em Psicologia

DECLARAÇÃO

Declaro para os devidos fins, junto a Universidade Federal da Paraíba, que Laysa Renata R. Soares de R. e Silva, matrícula 10213769, realizou 554 horas de Estágio Supervisionado na área de Psicologia Clínica Infantil, sob minha supervisão, entre os períodos 2007.2 e 2008.1, tendo como local de realização Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba, Campus I.

João Pessoa, 02 de setembro de 2008

Hélida Magalhães CRP 13/1073

Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Humanas Letras e Artes Departamento de Psicologia Coordenação do Curso de Graduação em Psicologia

PARECER

Laysa Renata R. Soares de R. e Silva, aluna regularmente matriculada no curso de Formação de Psicólogo da Universidade Federal da Paraíba, sob matrícula 10213769, realizou 554 horas de Estágio em Psicologia Clínica Infantil, na Clínica de Psicologia dessa instituição. Tendo cumprido os objetivos regimentais acadêmicos, somos do PARECER FAVORÁVEL à sua obtenção do título de PSICÓLOGA.

João Pessoa, 02 de setembro de 2008

Hélida Magalhães CRP 13/1073

I. IDENTIFICAÇÃO DA INSTITUIÇÃO

Universidade Federal da Paraíba Campus I- João Pessoa Reitor: Rômulo Polari

Centro de Ciências Humanas Letras e Artes Diretor:Lúcio Flávio Vasconcelos

Departamento de Psicologia Chefe de Departamento: Verônica Luna

Curso de Graduação em Psicologia Coordenadora: Silvana Carneiro Maciel

Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba Coordenadora: Zaeth Aguiar do Nascimento Vice-Coordenadora: Clênia Maria Tolêdo de Santana Gonçalves

Estagiária: Laysa Renata R. Soares de R. e Silva Área de Estágio: Psicologia Clínica Infantil Local: Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba

CARACTERIZAÇÃO A Clínica de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba está dividida em dois blocos, o bloco A e o bloco B.

Bloco A

Está localizado à esquerda, sendo composto pelas seguintes salas: Sala 01- Sala de Vídeo Sala 02- Secretaria Sala 03- Atendimento Infantil Sala 04- Sala dos Estagiários Sala 05- Arquivo da Clínica Sala 06- Coordenação de Psicologia Sala 07- Sala de Psicoterapia de Grupo, Supervisão de Estagio e outros Sala 08- Pesquisa

Bloco B

Está localizado à direita, sendo composto pelas seguintes salas: Sala 09- Atendimento Clínico Sala 10- Sala de Supervisão de Estágio Sala 11- Atendimento Clínico Sala 12- Psicodiagnótico Salas 12,14,15,16 e 17- Atendimento Clínico Sala 18- Sala de Psicoterapia de Grupo e Supervisão de Estágio Sala- Atendimento Infantil

Quadro Funcional Coordenadores, Funcionários, Técnicos e Professores (Supervisores) Horário de Funcionamento De Segunda à Sexta, das 08h às 12h e das 13h30min às 17h Serviços Prestados Psicoterapia Familiar e de casal, Psicoterapia individual (adulto/ adolescente e infantil), Psicoterapia de Grupo (Adulto/Infantil),

Psicodiagnótico e Orientação Vocacional e Serviço de Escuta Psicológica (SEP). Clientela Comunidade de universitária (estudantes, professores e servidores) e comunidade em geral, de faixa etária variada e principalmente de baixa renda. Taxa Cobrada 2 a 10% do salário mínimo, conforme as condições de cad cliente. Equipe de Trabalho Supervisora: Hélida Magalhães Estagiários: Laysa Renata R. Soares de R. e Silva e Ilova Anaya Nasiasene Pombo.

II. CRONOGRAMA DE ATIVIDADES

ATIVIDADES

CARGA HORÁRIA

Atendimento Clínico Supervisão dos Casos Leitura Individual Grupo de Estudo Supervisionado Elaboração do Relatório TOTAL

90hs 100hs 200hs 84hs

80hs 554hs

Este trabalho não seria possível se não fosse pela compreensão e atenção da minha supervisora Hélida dedicação . Magalhães. Agradeço por

toda paciência, por todo aprendizado e por toda

Em especial, dedico este trabalho às pessoas importantes aos quais estiveram comigo nos bons e maus momentos. Em particular, agradeço aos meus avós, maternos & paternos; aos meus apis, Maria José & Ailson Rosa; aos meus irmãos, Ailson Segundo e Arthur Rosa, ao meu namorado Olavo; aos meus sogros e cunhados; a meus Tios Maria & Sigurd Vindenes e as minhas amigas e amigos de todas as horas. A todos vocês o meu muito obrigado, por dá a minha vida um sentido a mais.

Sumário

Introdução

I.

Uma vida em observação, uma grande invenção: Freud e a Psicanálise

II. A Psicanálise e seus seguidores

1. Melanie Klein 1.1 Klein e a Técnica do Brincar 2. Donald Winnicott 2.1 O Brincar para Winnicott 3. O Lugar dos Pais na Psicanálise de Criança 4. Fragmentos de um Caso Clínico

Considerações Finais

Apresentação

“(...) há outra coisa que sei. Houve na psicanálise, desde o começo, uma estreita união entre tratamento e pesquisa, o conhecimento levava ao sucesso, e era impossível trratar sem aprender alguma coisa nova, não se adquiria nenhum esclarecimento sem experimentar sua ação benéfica. Nosso procedimento analítico é o único em que essa preciosa conjunção se conservou”. Sigmund Freud

O trabalho em questão abarca os conteúdos relativos a experiência de estágio supervisionado em Psicologia Clínica, bem como acervo literário das teorias que orientaram a prática clínica e a constituição do saber. Durante um ano foi se construindo um trabalho em cima de leituras, supervisões e atendimentos; assim como um ensaio clínico, os estagiários, puderam aprender e experenciar o universo peculiar da clínica. O pensamento que norteou todo esse trabalho se baseia na abordagem psicanalítica, em especial a Psicanálise de Crianças, com referencias de autores como Melanie Klein e Donald Winnicott. A psicanálise de crianças se pauta em um exercício extremamente delicado e encantador. O brincar dentro do setting terapêutico possibilita que as crianças possam expressar suas angústias e conflitos internos. Um trabalho em especial é feito com os pais, a fim de que estes possam contribuir para a saúde mental de seus filhos. Trata-se de uma experiência rica e única, para cada caso, cada sessão, há uma nova experiência. E assim se vai constituindo uma rede de saber pautados na experiência clínica atrelados ao saber teórico. Este trabalho se apresenta como um relatório de uma experiência de um ano em formação clínica em psicanálise. Nele estão inseridas as abordagens teóricas que nortearam minha prática, bem como o relato de um caso clínico, fruto do meu trabalho.

I. Uma vida em observação, uma grande invenção: Freud e a Psicanálise Meados do século XIX, em 6 de maio de 1856, nasce Sigismund Schlomo Freud em Freiberg, na pequena vila de Morávia (atual República Checa). O filho de pequenos comerciantes judeus veio à luz na posição de primogênito do terceiro casamento do seu pai, que já tinha uma prole de dois filhos (20 e 24 anos), frutos da sua primeira união matrimonial. A dinâmica da família era um pouco incomum para uma criança: “O grande desvendador de
enigmas humanos nasceu entre charadas e confusões suficientes para despertar o interesse de um psicanalista (GAY, 2002, p.22).”

Seu pai, Jacob Freud, pequeno mercador de Freiberg, enfrentava uma crise econômica logo após o nascimento de Freud, forçando a família deixar sua cidade natal, para em 1860, instalaram-se em Viena, cidade na qual Freud recebeu toda educação e onde viveu por muitas décadas e lá permanecendo por cinqüenta anos até sua partida para Inglaterra (GAY, 2002). Em 1873 Freud ingressa na Universidade de Viena, como aluno do curso de medicina. Em sua autobiografia (FREUD, 1925), revela que não sentiu alguma predileção especial pela carreira de médico, assume que foi antes de tudo levado por uma espécie de curiosidade dirigida mais para preocupações humanas do que para objetivos naturais. Começa a rebelar aí o seu grande interesse, quase que inato, para a subjetividade humana e seus enigmas mais profundos. Vê-se desde já - a partir de sua curiosidade latenteuma teoria que iria revolucionar e mesmo chocar a cultura ocidental vingente, uma inovadora linha de pensamento que até hoje guia e cativa a atenção de muitos estudiosos que se interessam pela psiqué humana e suas vicissitudes. Os ensaios de Goethe sobre a natureza e as teorias evolucionistas de Darwin o enveredaram para área médica. Entre os anos de 1876 a 1882, Freud trabalhou no laboratório de fisiologia de Ernst Brücke, e revela em sua autobiografia: Os vários ramos da medicina propriamente dita, afora a psiquiatria,
não exerciam qualquer atração sobre mim (FREUD,1925,P.17).

No ano de 1882, Freud, já descontente com seus estudos em histologia do sistema nervoso, abandonou o laboratório de Brücke e ingressou no Hospital Geral como assistente clínico [Aspirant], sendo promovido logo depois a médico estagiário ou interno [Sekundararzt] sob orientação de Meynert (FREUD,1925). Para Sigmund, a anatomia cerebral não era melhor que a fisiologia, levando-o a se interessar pelo estudo das doenças nervosas, em função dos poucos especialistas existentes em Viena, Freud foi auto-didata nesta área. Naquela época nos estudos de neuropatologia brilhava o nome de Chacort, o que levou Freud à partir para a capital francesa desenvolver estudos sob sua supervisão. Nos anos posteriores, enquanto trabalhava como médico estagiário, publicou uma gama de observações clinicas sobre doenças orgânicas do sistema nervoso. Enquanto aluno de Charcot no Hospital Salpêtriere é admitido no seu círculo ao se prontificar para traduzir em alemão o novo volume de suas conferências (FREUD,1925). A histeria começa a despertar seu interesse a partir da aproximação com Chacort - Sigmund definitivamente se encantara com o professor e seu trabalho - realmente lhes chamou a atenção as suas investigações pelo tema, o que viria a se constituir mais tarde a base da teoria psicanalítica. Antes de retornar a Viena e casar com Martha Bernays, em 1886, firmando-se lá como médico especialista em doenças nervosas, Freud passou algumas semanas em Berlim a fim de adquirir um pouco de conhecimentos sobre distúrbios gerais da infância. Anos seguintes publicou várias monografias sobre paralisias cerebrais unilaterais e bilaterais em crianças (FREUD, 1925). O interesse pela hipnose, implicou, naturalmente, o abandono ao tratamento de doenças nervosas orgânicas. Freud achava altamente sedutor trabalhar com o hipnotismo. Em 1889, passou algumas semanas em Nancy, trabalhando com Bernheim a fim de aperfeiçoar sua técnica hipnótica. Entusiasmado com a nova técnica de hipnose e pelos grandes nomes que o inspirava (Chacort e Breuer) e influenciado pela visita que fez a Bernheim em 1889, Freud passou a utilizar o método de Breuer com os seus próprios pacientes. E após anos de achados sobre casos de histeria, propôs a Breuer o lançamento de uma publicação conjunta sobre o tema. Então, em

1893, foi lançado “Sobre Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos” e em 1895, seguiu-se o livro: “Estudos sobre a histeria” (FREUD, 1925).

Enquanto ainda trabalhava no laboratório de Brücke, antes mesmo de se dirigir a Paris, Freud travara conhecimento com o Dr. Josef Breuer, que lhe falara sobre um caso bastante peculiar de uma paciente histérica , que tratou entre anos de 1880 e 1882. Tratava-se de Anna O., caso que Breuer assumiu posteriormente ser a célula germinativa do conjunto da psicanálise (GAY, 2OO2, p. 75). Após o retorno à Viena, Freud deu seguimento à sua clínica, ainda sob a forte influencia das idéias de Breuer. Este entrosamento seria o início da teoria psicanalítica, mas também o distanciamento e o rompimento dessa união: Nossas relações logo se tornaram mais estreitas e ele se tornou meu amigo,
ajudando-me em minhas difíceis circunstâncias. Adquirimos o hábito de partilhar todos os nossos interesses científicos. Nessa relação só eu naturalmente tive a ganhar. O desenvolvimento da psicanálise, depois, veio a custar-me sua amizade. Não me foi fácil pagar tal preço, mas não pude fugir a isso (FREUD, 1925- edição

eletrônica das obras psicológicas completas de Sigmund Freud*). Para Freud, a teoria postulada no seu livro foi despretensiosa e quase não foi além da descrição direta das observações. Não se preocupou em determinar sobre a natureza da histeria, mas apenas em lançar luz sobre a etiologia de seus sintomas. Dessa maneira, seus achados publicados sobre histeria davam ênfase a significação da vida das emoções e o interesse em estabelecer distinção entre os atos mentais conscientes e inconscientes. Neles foram introduzidos um fator dinâmico, supondo que o sintoma surge através do represamento de um afeto; e um fator econômico, considerando aquele mesmo sintoma como resultado da transformação de uma quantidade de energia que de outra maneira teria sido empregada de algum outro modo. Mais tarde, como resultado do estudo da histeria, pôde-se averiguar a importância que tem a sexualidade na etiologia das neuroses (FREUD, 1925), Após décadas de trabalho em conjunto, Freud e Breuer romperam devido às divergências teóricas. Tais diferenças ideológicas se debruçavam nas questões correspondentes à etiologia da própria histeria.

* As citações foram retiradas “Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud”.

Enquanto Breuer respondia ao processo mental patogênico utilizando uma teoria fisiológica, Freud inclinava-se a acreditar em uma etiologia sexual (FREUD, 1925). Depois do rompimento com Josef Breuer, Freud segue sozinho com os estudos sobre a histeria e as disfunções sexuais ligadas a esta neurose. A psicanálise propriamente dita começa a brotar com o surgimento de uma nova técnica adotada por ele, chamada associação livre. Freud percebera que a hipnose não dava conta no tratamento da sintomatologia dos pacientes (FREUD, 1925). Com a psicanálise tomando forma, foram surgindo novos conceitos cruciais para o procedimento da análise e o andamento do tratamento. A psicanálise passa a adotar o conceito de inconsciente de uma maneira original: A psicanálise considerava tudo de ordem mental como sendo, em primeiro
lugar, inconsciente; a qualidade ulterior de ‘consciência’ também pode estar presente ou ainda pode estar ausente (FREUD, 1925- edição eletrônica das obras

psicológicas completas de Sigmund Freud). Agregados ao conceito de inconsciente estavam o de recalcamento e de defesa , que constituíam também uma nova descoberta de Freud nos estudos da histeria e posteriormente das psiconeuroses. Esses constituem aspectos fundamentais da psicanálise (FREUD 1925). Freud defendia a importância da sexualidade nos casos de histeria, mas como a explicava? Nas suas investigações das causas precipitantes e subjacentes das neuroses, ele foi levado cada vez mais acreditar na existência dos conflitos entre os impulsos sexuais do indivíduo e suas resistências à tais impulsos. Na busca das situações patogênicas e das suas origens Freud terminou chegando aos primeiros anos da infância. Ou seja, as causas da neurose estariam ligadas às experiências e traumas sofridos nesse período, mais tarde, Freud se encontra diante de uma teoria que iria

chocar e indignar mais uma vez o meio científico da época: a teoria da sexualidade infantil (FREUD,1925). Antes mesmo de abordar a questão da sexualidade infantil, Freud, baseado nas suas experiências clínicas e na fala de seus pacientes, propôs um modelo que explicaria a etiologia da histeria: a teoria da sedução. Tal teoria defendia que os pacientes histéricos poderiam ter sido abusados sexualmente pelo pai, ou outra figura masculina durante a infância. Após alguns tratamentos, Freud percebe ter cometido um terrível erro, e concluiu que as experiências sexuais relatadas por seus pacientes histéricos eram antes de tudo, as fantasias destes. Quando me havia refeito, fui capaz de tirar as
conclusões certas da minha descoberta: a saber, que os sintomas neuróticos não estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos, e que, no tocante à neurose, a realidade psíquica era de maior importância que a realidade material (FREUD,1925- edição eletrônica das obras

psicológicas completas de Sigmund Freud). Freud sem nem mesmo notar havia tropeçado no complexo de Édipo. E anos depois, em 1897, postula a sua teoria sobre este conceito, ao mesmo tempo em que empreende sua auto-análise (FREUD, 1925). No seu relato autobiográfico Freud retoma e reforça as questões sobre as teorias da resistência, do recalque, do inconsciente, da significância da vida sexual, assim como a importância da experiência infantil são postulados constituintes da estrutura teórica da psicanálise. Fala também de um aspecto essencial no tratamento qual seja a relação transferencial, que se configura justamente numa intensa relação emocional entre o paciente e o analista. A transferência desse modo constitui uma relação de caráter tanto positivo quanto negativo imprescindível no processo analítico FREUD, 1925). Formando o conjunto de conceitos e usando a técnica da associação livre, Freud conseguiu alcançar algo que parecia não ser de importância prática alguma, mas que de fato conduziu necessariamente a uma atitude totalmente nova e uma nova escala de pensamento científico. Freud tornou possível provar que os sonhos têm significado de origem inconsciente. Neste momento achava pestes a (FREUD, 1925). preste a publicar a sua obra que ele mesmo considerou ser a mais significativa de todas: A Interpretação dos Sonhos

Em 4 de novembro de 1899, foi publicada

“A Interpretação dos

Sonhos”, que Freud considerava como sua mais ilustre obra-prima. Por algum tempo não teve tanta repercussão sendo de pouco interesse geral. Na
evolução do pensamento psicanalítico de Freud, a Interpretação dos Sonhos ocupa o centro estratégico, e ele sabia disso. É extremamente significativo que estivesse sido escolhido o sonho com o exemplo mais instrutivo do trabalho mental: sonhar é uma experiência normal e universal (GAY, 2002, p. 121). Sua preocupação em

abordar não somente sintomas restritos e especializados de cunho neurótico, como histéricos e obsessivos, foi contemplada nessa obra, pois os sonhos são experenciados por todos (GAY, 2002). Freud, em sua obra se aprofunda sobre o conteúdo do inconsciente, fortemente significativo e representativo que os sonhos rebelam. Afirmará que ao mesmo tempo que corriqueiros, os sonhos também são misteriosos. Em A Psicopatologia da Vida Cotidiana, de 1901, Freud reúne as notáveis anedotas sobre todos os tipos de deslizes e lapsos que também constituem atos corriqueiros de uma psicopatologia presente nas que Freud gostava de denominar de pessoas saudáveis (GAY, 2002). Por muitas décadas, Freud foi de fato alvo de muitas críticas e sua teoria não havia, até então, alcançado uma repercussão positiva pelos cientistas da época. Por se tratar de uma linha de pensamento ousada e chocante para o contexto temporal e histórico em que se inseria, a psicanálise foi durante muito tempo rejeitada. Em sua autobiografia, relata: Por mais de
dez anos após meu afastamento de Breuer, não tive seguidores. Fiquei completamente isolado. Em Viena, fui evitado; no exterior, ninguém me deu atenção. Minha Interpretação de Sonhos, vinda a lume em 1900, mal foi objeto de críticas nas publicações técnicas (FREUD, 1925). Apesar de ter conquistado muitos adeptos,

até os dias de hoje a psicanálise ainda continua sendo alvo de contestações e indignações. Por abordar questões mais temerosas e indesejáveis contidas nos lugares mais obscuros de nossa mente, e por estar constantemente quebrando tabus. É certo que a psicanálise, inevitavelmente, continuará causando muitos impactos. Em 1905 Freud publica ‘Três ensaios sobre a teoria da sexualidade’, texto no qual defende a idéia de uma sexualidade infantil perversa e polimorfa, causando, mais uma vez, um furor entre os médicos vienenses da

época. As idéias vigentes proclamavam a ausência de sexualidade e pureza nas crianças, estavam sendo contestadas. No ano de 1909, Freud visitou a Universidade norte-americana Clark University –em Worchester- para apresentar um ciclo de conferências sobre a psicanálise. Lá recebe título honorário e inaugura o Jahrbuch für psychoanaytische und psychopathologische Forschungen, com a história do Pequeno Hans como contribuição inicial para o primeiro número (GAY, 2002). Nesse mesmo ano (1909) Freud publicou o caso Hans “Análise de uma Fobia num Menino de Cinco Anos”, e sua repercussão possibilitou mais tarde a possibilidade de análise em crianças. A ‘neurose infantil’ do Pequeno Hans corroborava com as idéias encontradas nos pacientes neuróticos adultos de
Freud “todas as vezes rastreado até os mesmos complexos infantis que se revelariam por trás da fobia de Hans” (GAY, 2002, p. 242).

O relatório do

Pequeno Hans servia como complemento ilustrando as conclusões que Freud já havia esboçado em seus ‘Três Ensaios’ sobre a sexualidade infantil (GAY, 2002). A análise do pequeno Hans ocorreu através de correspondências que o pai de Hans escrevia para Freud. No caso pôde-se encontrar elementos claros de uma neurose precoce, esta aparecia no momento em que o garoto estava vivenciando seu Édipo. O Caso trazia algumas peculiaridades: exacerbada curiosidade sobre a sexualidade e seu órgão genital. Hans também apresentara fobias e sentimentos de ambivalência em relação ao seu pai. O garoto passou a ter medo de cavalos e tinha uma idéia fixa de que “um
cavalo branco entraria no seu quarto e o morderia”. Essa fobia se desenvolve

durante a vivência edípica: Hans tinha medo que seu pai o punisse, pois queria a sua mãe só para ele, ao mesmo tempo em que tinha medo de perder o pai (sentimento de ambivalência). A publicação do Caso Hans provocou um certo frênesi no meio científico. Seus críticos previam um futuro dos mais negros ao pequeno Hans
“porque tinham lhe ‘roubado sua inocência’, numa idade tão tenra” (FREUD, 1909,

p. 133) por ter sido submetido a criança à psicanálise tão cedo. Ao contrario das previsões feitas pela comunidade científica da época, Hans tornara-se um
forte rapaz de 19 anos. Declarou que estava perfeitamente bem e que não sofria de

nenhum problema ou inibição (FREUD, 1909, p.133). Hans havia atravessado

sua puberdade sem nenhum dano (FREUD, 1909). O caso Hans foi a fundação para que mais tarde pudesse pensar na possibilidade de analisar crianças, levando conseqüentemente a grandes descobertas da psicanálise com crianças. As idéias Freudianas geraram grandes embates e a descoberta da psicanálise foi , sem dúvida, uma das grandes contribuições das ciências humanas para a compreensão das psicopatologias e do comportamento humano.

II. A Psicanálise e seus seguidores 1. Melanie Klein

“Essa mulher, que reconheceu inteiramente a contribuição de Freud, inclusive a pulsão de morte, esteve na origem tanto do fundamento analítico da prática dos tratamentos com crianças quanto de uma grande corrente da psicanálise, em que a clinica do narcisismo chegou a seu auge” . M.-C. Thomas

Há mais de um século, em 30 de marco de 1882, nasceu em Viena Melanie Reizes, originária de família judia. Aos 17 anos fica noiva do engenheiro Arthur Klein, com quem casou e teve seus filhos: Melita –futura psicanalista- e Hans, que teve uma morte precoce em um acidente de carro aos 26 anos de idade. Entre os anos de 1907-1914, Melanie Klein passou por momentos conturbados, se submetendo a inúmeros tratamentos em decorrência de depressão, relacionada com a morte do seu filho mais velho Hans. No ano de 1914 , Klein aos 32 anos de idade, teve seu terceiro filho Erich, que passaria à posterioridade conhecido por Fritz, em seus primeiros trabalhos psicanalíticos; pouco depois morre sua mãe, a senhora Reizes, a quem era encarregada de cuidar da casa dos Klein. Neste mesmo ano Melanie Klein conhece a psicanálise ao ler O Sonho e sua Interpretação (Über den Traum, 1901), de Sigmund Freud. Em 1916, ainda em Budapeste, começou sua análise com Sandor Ferenczi*, personagem responsável pelo engajamento de Melanie Klein na Psicanálise, posteriormente.

* Ferenczi foi o primeiro a me apresentar a psicanálise. Ele me fez também compreender a sua essência e significados reais. Seu sentimento forte e direto pelo que é inconsciente e pelo simbolismo, e o extraordinário rapport que tinha com a mente das crianças, exerceram uma influência duradoura sobre a minha compreensão da psicologia da criança pequena. M. Klein

Ferenczi percebeu sua habilidade e grande capacidade na compreensão de crianças e a encorajou em seu projeto de se dedicar à psicanálise, mais particularmente com crianças. Klein tornou-se, então, membro da Sociedade Psicanalítica, onde publicou duas observações sobre o desenvolvimento de um menino -seu filho Erich- (THOMAS, 1995). Em decorrência dos conturbados contextos políticos da época Melanie Klein mudou-se para Alemanha, convidada por Karl Abraham. Em Berlim prosseguiu com seus estudos em psicanálise durante cinco anos. Em 1926, depois da morte de Abraham recebe um convite por Ernest Jones para viver em Londres – Inglaterra- onde permaneceu até o fim da sua vida (THOMAS, 1995). A psicanálise de Melanie Klein passou por três grandes momentos distintos: O primeiro momento se deu com a publicação de The PsychoAnalisys of Children em 1932. Neste texto, estabeleceu os fundamentos da análise de crianças e delineou o complexo de Édipo e o superego até as raízes primitivas de seu desenvolvimento; no seu segundo momento fundamentou questões sobre o conceito da posição depressiva e dos mecanismos de defesa maníaca, publicado em seus artigos “A contribution to the Psychogenisis of the Maniac Depressive States”, em 1934, e “Mourning and its Relation to Maniac Depressive States” (1940); Em seu terceiro momento Melanie Klein descreve sobre o estádio mais primitivo titulado por ela de ‘posição esquizo-paranóide’, descrito em seu artigo “Notes on some Schizoid Mechanisms” (1946) e em seu livro Envy and Gratitude, em 1957 (SEGAL, 1975). Klein iniciou sua carreira trabalhando em análise com crianças, introduziu uma prática original, ao introduzir a técnica do brincar, na qual seria possível ter acesso aos conflitos e fantasias das crianças. Insistiu em explorar o inconsciente infantil, tal qual numa análise de um adulto. Isto lhe permitiu observar que as crianças desenvolvem uma neurose de transferência análoga a dos adultos. A partir do material inconsciente da criança pôde desenvolver posteriormente suas teorias que as norteou ao longo de sua carreira: complexo de Édipo precoce, superego precoce, mecanismos de defesa primitivos, organizados em torno de uma angústia principal e uma relação de objetos internos e externos. Para Klein as fantasias inconscientes são os

elementos básicos para a realidade psíquica (BLEICHMAR; BLEICHMAR, 1992). Embora Melanie Klein tenha tomado a teoria Freudiana como ponto de partida, sua experiência levou-a desenvolver hipóteses que possibilitaram a inventar uma teoria original. O conflito mental deixa de ser uma luta entre a pulsão sexual versus defesa e passa a ser entre sentimentos de amor e de ódio que se enfrentam com vínculos com os objetos. A metapsicologia Kleiniana elabora todo o principio da constituição do eu, do narcisismo primário e, depois, secundário sob os termos fase esquizo-paranóide e posição depressiva (BLEICHMAR; BLEICHMAR, 1992). Ao postular suas primeiras hipóteses, Melanie Klein, a partir de suas observações, re-elabora os conceitos clássicos do Édipo e do superego de Freud: ao contrário do que se pensava anteriormente, que o complexo de Édipo tinha início em torno de três ou quatro anos de idade, Melanie Klein notou que mesmo em crianças de dois anos e meio havia manifestação de fantasias e ansiedades edipianas. Além disso, Melanie Klein observou que o superego apareceu muito mais cedo do que seria de esperar a partir da teoria clássica, e pareceu possuir características bastante selvagens –orais, uretrais e anais. Ela destacou também o papel importante que a agressão desempenha para o desenvolvimento psíquico precoce e para a vida do sujeito. As pulsões agressivas são de fundamental importância nos primeiros anos da vida psicológica, principalmente no vínculo com a mãe (BLEICHMAR; BLEICHMAR, 1992). Melanie Klein muda o conceito de fases libidinais, ao afirmar que, nas crianças pequenas, observa uma mescla de pulsões orais e genitais que se sobrepõem a partir das primeiras relações de objetos. A fase libidinal deixa de seguir um sistema de desenvolvimento cronológico e tempos depois passa a ser chamada de ‘posições’, seguindo um conceito mais dinâmico e menos cronológico. A partir de tal afirmação, que as pulsões orais estão misturadas precocemente com as genitais, implica adiantar a triangulação edipiana a estágios pré-genitais do desenvolvimento. E nesse seguimento de pensamento surge a idéia de Édipo precoce, quando a sexualidade contém agressão. Produzindo uma idéia de culpa, essas reações de angústia, dor e culpa se relaciona coma idéia de superego precoce. Foi possível constatar

isso em seus casos clínicos, como por exemplo em Rita, de dois anos e nove meses, em seu pavor nocturnus, se sentia ameaçada por uma mãe e um pai que morderiam seus órgãos genitais e destruiriam seus bebês. O medo dessas
imagos dos pais paralisava seu brincar e suas atividades. Do mesmo modo, superegos severos foram exibidos por outros pacientes (SEGAL, 1975, p.14).

Em sua teoria das posições (1932-1946), Melanie Klein a descreve em duas: a esquizo-paranóide e posição depressiva. Essa teoria explica o vínculo da criança com a realidade externa e interna. A relação do bebê com o seio da mãe – primeiro vínculo oral- está no cerne deste desenvolvimento. O conceito de posição, que substitui a idéia do desenvolvimento libidinal de Freud e Abraham, é baseado nas pulsões que estão misturadas e se ordenam ao redor das relações de objetos, juntamente com suas fantasias e angústias. Essa é uma teoria interpessoal, onde a relação com a realidade se estabelece através da interação entre os objetos situados no mundo interno e externo a partir dos mecanismos de identificação projetiva e a projeção. “Na posição
esquizo-paranóide, os objetos serão distorcidos e fantásticos, como resultado da dissociação e da projeção neles de pulsões libidinais e tanáticas. Na posição depressiva, os objetos, tanto internos como externos, estarão integrados e mais de acordo com o principio de realidade” (BLEICHMAR;BLEICHMAR, p. 94, 1992).

Em 1957, Klein desenvolveu a Teoria da Inveja, situada em seu livro Envy and Gratitude, nele descreve noções da inveja e gratidão. Conclui a inveja primária como uma pulsão agressiva sentida pelo bebê em relação ao seio da mãe. A criança sente o desejo de danificar os aspectos bons e protetores que o seio materno oferece. A inveja e a gratidão são fatores dinâmicos no âmbito das interações psíquicas, existentes desde o nascimento. Esta relação de interação com meio externo (seio da mãe) , em parte, determina as características das relações de objeto precoces
(BLEICHMAR;BLEICHMAR, 1992).

As teorias e hipóteses Kleiniana foram desenvolvidas por ela ao longo de sua experiência clínica através das observações de seus pequenos pacientes. A partir de seu método investigativo, trouxe para psicanálise teorias inovadoras de um seguimento, até então, inexplorado na área. A psicanálise infantil floresce a partir das suas contribuições e estudos. Melanie Klein traz para a psicanálise uma grande ferramenta - que talvez sem ela, seria inviável

a análise de criança- onde seus pequenos pacientes poderiam falar das suas angústias e fantasias: a Técnica do Brincar. 1.1 Klein e a Técnica do Brincar

Minha pratica com as crianças, assim como os adultos, e toda a minha contribuição para a teoria psicanalítica derivam da técnica do brincar. M. Klein

Na década de 1920, quando Melanie Klein começou a analisar crianças, descobriu uma nova ferramenta para conduzir a análise de crianças: A técnica do Brincar (play technique). “Inspirada nas observações de Freud
(1920) quanto ao brincar da criança com carretel, Melanie Klein viu que o brincar da criança poderia representar simbolicamente suas ansiedades e fantasias” (SEGAL,

1975, p.13). Já que não se pode exigir que as crianças pequenas façam associações livres, utilizou o brincar como ferramenta de expressão simbólica dos pequenos. Através dessa técnica foi possível descobrir o rico mundo de fantasia inconsciente e das relações de objeto da criança. Em ‘A Psicanálise de Criança’ Melanie Klein relata: a natureza mais primitiva da mente da criança
torna necessário encontrar uma técnica analítica especialmente adaptada a ela, e isso nos encontramos na análise do brincar. Por meio da análise do brincar, ganhamos acesso as fixações e experiências mais profundamente reprimidas da criança e tornamo-nos assim capazes de exercer uma influência radical sobre o seu desenvolvimento (KLEIN, 1997, p.35).

A técnica psicanalítica do jogo infantil foi o ponto de partida para as teorias postulada por Klein. A partir do jogo, as dramatizações, expressões verbais e sonhos entram como material significativo, podendo-se explorar sistematicamente as fantasias e angústias conscientes e inconscientes existentes nas crianças. O jogo para Klein não tem uma função educadora – assim como o era para Hugh Helmunth, psicanalista que implementou o jogo na psicoterapia com um critério didático e re-educacional. A importância do brincar para Klein consiste em permitir que as angústias e fantasias

inconscientes se expressem para que o analista a explorem, interpretem e compreendam para transmitir ao paciente o que ocorre com o seu psiqué. Para Klein, o brincar adquire um estatuto de compreensão metafórica, tem a dignidade do sonho, tem sua configuração, lugar de condensação por excelência: No brincar, as crianças representam simbolicamente fantasias, desejos
e experiências. Para isso empregam a linguagem, o modo de expressão arcaico, filogeneticamente adquirido, com que os sonhos nos familiarizam (KLEIN apud

THOMAS, 1995). Tendo o mesmo estatuto simbólico dos sonhos, o brincar permitiria o acesso ao inconsciente infantil: o aparelho psíquico da criança pequena tem um
alto nível de tensão: a angústia muito presente, muito intensa, não pode ser administrada pela aparelhagem do eu, o principio do prazer; as representações só avançam por essa opacidade deslocando-se passo a passo, palavra por palavra. A associação das representações, isto é, a condensação, é difícil por causa dessa angustia, é só se realiza num modo de expressão particular: O Brincar (THOMAS, p.

143, 1995). As idéias de Klein em relação à psicanálise de crianças não eram as únicas existentes em sua época, apesar de ter sido única em ousadia e em inovação. Quando Klein situa a importância desse brincar foi possível fundamentar seu trabalho psicanalítico no tratamento com crianças. Esse ato acarretou o enfrentamento de divergências de pensamento entre Melanie Klein e Ana Freud que tinha concepções de cunho educacional em se tratando de psicanálise infantil em sua psicologia do ego. Ao fundamentar analiticamente o trabalho com crianças, Melanie Klein rompeu com a educação. Em seu trabalho “Simposium of Child-analysis” publicado em 1927 Klein defende com entusiasmo suas opiniões sobre a natureza da psicanálise da criança, se opondo a visão idealizada por Ana Freud. Essa turbulência e divergência teórica provocou a formação de duas escolas de psicanálise a Escola de Viena e Escola Inglesa, a escola Kleiniana versus a psicologia do ego de Ana Freud. Klein acredita veemente que a análise de crianças é possivelmente análoga a do adulto. Afirma que a neurose de transferência se desenvolve do mesmo modo, o que varia é apenas a forma de comunicação, que se dá

através dos jogos, onde a criança expressa seus conflitos inconscientes. O papel do analista é de interpretar, em profundidade, todo material associativo que o paciente revela no brincar. Em contrapartida, Ana Freud afirmava uma concepção diferente da mente infantil e de sua abordagem no processo analítico, considerando que na infância as crianças não desenvolvem a neurose de transferência com o terapeuta, pois suas transferências estão ainda diretamente ligadas aos pais reais. Para Ana Freud a função do terapeuta consistia em apenas reforçar os aspectos positivos do vínculo, em um nível reeducativo e de orientação. Enquanto Klein acreditava na existência de um superego precoce, em torno dois ou três anos de idade, Ana Freud, concorda que o que existe é a necessidade- durante a análise- de reforçar o superego, que seria fraco nas crianças (BLEICHMAR;BLEICHMAR, 1995). Acreditando em suas observações e elaborando hipóteses a partir de suas experiências clínicas com crianças, fizeram Klein criar, ao longo de sua existência enquanto analista, uma inovadora e revolucionária teoria na psicanálise de crianças. A posição de principio que colocou brincar no cerne da
formação do inconsciente permitiu a Melanie Klein fazer descobertas (THOMAS,

p.147, 1995).

Donald Winnicott
“Por aquele tempo, eu começava minha carreira de pediatra clinico , e poderão imaginar a emoção que eu sentia ao ver que nos inúmeros casos que tratava nos hospitais, os pais dos pacientes- pessoas geralmente não instruídas- confirmavam todas as teorias psicanalíticas que começavam a significar algo para mim, através da minha própria análise”. Donald Winnicott

Em 7 de abril de 1896, Plymouth, Inglaterra, nasce Donald Woods Winnicott, futuro médico pediatra e psicanalista iniciou sua carreira no Hospital Londrino Paddigton Chidrens’s Hospital, onde exerceu sua carreira durante quarenta anos. Em 1935 tornou-se membro da Sociedade Britânica de Psicanálise e no mesmo ano iniciou sua análise com Melanie Klein, com quem por muito tempo compartilhou seus estudos em psicanálise. Mais tarde, as divergências teóricas e técnicas em relação a Melanie Klein, resultou no empobrecimento de seus laços. No contexto psicanalítico fervente da época havia três grandes divisões no que diz respeito às influências teóricas: os seguidores de Klein, os seus contestadores- os anna -freudianos- e os do Middle Group; Winnicott se situava neste último. Ao longo de sua carreira, Winnicott enfatizou a influência do meio ambiente no desenvolvimento psíquico humano, focalizando, sobretudo a mãe, como autora principal dessa interação. As falhas ambientais eram apontadas como a mais importante causa da etiologia dos quadros psicopatológicos. A da relação mãe-bebê, serviria de base para futuras relações do bebê com outros objetos. Ancorado nessas idéias Winnicott propôs um modelo terapêutico voltado a oferecer, na análise, uma situação emocional favorável, tornando possível ao paciente se desenvolveu sanando as falhas originais da relação.

Essa situação originária vivida na relação da mãe com o seu bebê, foi um dos aspectos centrais para Winnicott, e paa tanto, propôs a noção de holding. O holding, ou sustentação, foi adotado por Winnicott para descrever uma conduta emocional da mãe em relação ao seu filho: a conduta de sustentação, situadas em torno dos êxitos e fracassos, são relacionadas aos diferentes graus de perturbação psíquica. Para Winnicott, a criança nasce comum certo potencial e provida de uma tendência para o desenvolvimento, e é o exercício materno que virá a oferecer um holding adequado para que as condições inatas do bebê alcancem um desenvolvimento otimamente desejado. Em sua teoria tanto há uma função fisiológica quanto física (BLEICHMAR;BLEICHMAR, 1995).
A sustentação protege contra a afronta fisiológica; leva em conta a sensibilidade epidérmica da criança- tato, temperatura, sensibilidade auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade às quedas (ação da gravidade)- assim como o fato de que a criança desconhece a existência de tudo o que não seja ela própria; inclui toda a rotina de cuidados ao longo do dia e da noite, que nunca é a mesma em duas crianças diversas, pois faz parte delas e não há duas crianças iguais; deste modo, acompanha as mudanças quase imperceptíveis que, dia a dia, vão tendo lugar no crescimento e desenvolvimento da criança, mudanças tanto físicas como psicológicas (WINNICOTT, apud, BLEICHMAR;BLEICHMAR, 1960, p.56).

Winnicott afirma que para existir o holding, mãe vivencia uma preocupação materna primária.Conceito fundamental que consiste na preparação emocional da mãe, e esta se dá nos últimos meses de gravidez, tornando-se suficientemente sensibilizada para desempenhar o seu papel e dá o suporte que o bebê precisa. Esse conceito consiste no estado ideal psicológico da mãe para proporcionar ao seu bebê um holding adequado. Graças a esse estado de sensibilização, a mãe adquire uma capacidade particular para se identificar com as necessidades do bebê.

Gradualmente, esse estado passa a ser o de uma sensibilidade exacerbada durante e principalmente ao final da gravidez. Sua duração é de algumas semanas após o nascimento do bebe. Dificilmente as mães o recordam depois que o ultrapassaram. Eu daria um passo a mais e diria que a memória das mães a esse respeito tende a ser reprimida (WINNICOTT, p.401, 2000).

Winnicott afirma que tal estado de sensibilidade exacerbada que a mãe se encontra neste período, é quase um estado patológico esquizofrênico (seria no caso de não existir uma gravidez), mas no contexto da gestação e alguns meses após o parto, é de fundamental importância na instalação de uma identificação materna com o bebê, para torná-la uma mãe suficientemente-boa. Uma vez alcançado o Estado de preocupação materna primária, mãe e bebê experiementam uma relação única e harmoniosa. A mãe suficientemente-boa protege o bebê. Das intrusões do meio e lhe fornece o apoio necessário ao seu pleno desenvolvimento. Quando a mãe consegue proporcionar um apoio ótimo para o bebê, a mãe desempenhando seu papel sobre a função ambiente. E conseguindo uma identificação estreita com o seu filho, atendendo suas necessidades, é chamada de mãe suficientemente boa. Essa mãe representa o ambiente suficientemente bom, um fator crucial Esse self para uma vida psíquica e física fundamentadas em suas tendências inatas (ARCANGIOLI, 1995). frágil da criança recém-nascida, clama por um suporte adequado, a mãe tem o papel de ‘ego auxiliar’. Quando esse ego provido pela mãe é insuficiente, a criança recorre a construção de um falso ego, denominado por Winnicott de falso self. Essa mãe incapaz de se identificar com as necessidades primárias de seu filho é denominada por Winnicott de ‘mãe insuficientemente boa’, que corresponde não a uma pessoa, mas à
ausência de alguém cujo apego à criança seja simplesmente comum (ARCANGIOLI, p.187, 1995).

Por

outro

lado, se

desempenhar

o

papel

da

‘mãe

suficientemente boa’ permitirá que o bebê comece a ‘existir’, a construir um ego próprio e a se organizar psiquicamente. O ‘núcleo do self verdadeiro’ se constitui quando o ambiente proporcionado pela mãe é suficientemente bom. Segundo Winnicott, o

verdadeiro self é a pessoa que é eu e apenas eu, ou seja, a pessoa que se
constrói, fundamentalmente, a partir de suas tendências inatas (ARCANGIOLI,

p.186, 1995). O verdadeiro self manifesta-se através de gestos espontâneos, a espontaneidade constitui o self verdadeiro em ação. Somente o self verdadeiro pode ser criador e ser sentido como real (ARCANGIOLI, 1995).
A mãe ‘boa’ é a que responde a onipotência do lactante e, de certo modo, dá-lhe sentido. Isto de faz repetidamente. O self verdadeiro começa a adquirir vida, através da forca que a mãe, ao cumprir as expressões da onipotência infantil, dá ao ego débil da criança. A mãe que não é ‘boa’ é incapaz de cumprir a onipotência da criança, pelo que repetidamente deixa de responder ao gesto da mesma; em seu lugar, coloca seu próprio gesto, cujo sentido depende da submissão ou acatamento do mesmo por parte da criança. Esta submissão constitui a primeira fase do self falso e é própria da incapacidade materna para interpretar as necessidades da criança (WINNICOTT, apud BLEICHMAR;BLEICHMAR, p. 224;225, 1995).

Winnicott propôs vários conceitos que vieram enriquecer a sua teoria, conceitos originais e importantes baseados numa prática extensa. Outro deles se refere aos fenômenos e objetos transcionais.

É MUITÍSSIMO CONHECIDO

o fato de que os bebês, logo após o

nascimento, tendem a usar punhos, dedos e polegares para estimular a zona erógena oral a fim de satisfazer os instintos ligados a esta, e também quando estão em momentos de relacionamento tranqüilo. Sabemos ainda que após alguns meses os bebês de ambos os sexos passam a gostar de brincar com bonecas, e que a maioria das mães permite que seus bebês adotem algum objeto especial, e espera que eles se tornem ‘viciados’ nesses objetos, por assim dizer. (WINNICOTT,p. 316, 2OOO)

A partir das suas observações clínicas, Winnicott percebeu que haveria uma relação entre os hábitos corriqueiros dos bebês para satisfazer seus instintos da zona oral (levar o polegar à boca, por exemplo); e mais tarde, de adotar um objeto como sendo um objeto especial -de grande estima por eles. Entre estes os ‘hábitos’ Winnicott postula, o que seria de uma ordem

fenomenal, que haveria uma ponte

de intermediação constituída pela

“primeira posse não-ego” denominados “fenômenos e objetos transicionais”. O conceito de objeto ou fenômeno transicional recebe três usos diferentes, a saber: o primeiro de natureza evolutiva, outro, relacionados às angústias de separação e às defesas contra elas (com um caráter defensivo), e, por último, um espaço dentro da psiqué do sujeito. A idéia e função desses fenômenos estão atreladas com a saúde mental. Todavia, em certas condições desfavoráveis o objeto transicional também pode ter uma evolução patológica (BLEICHMAR;BLEICHMAR, 1995). O objeto transicional desempenha um papel fundamental para o processo de maturação do bebê, na medida em que se apresenta como um objeto que pode preencher o espaço em situações de angústia, como por exemplo, separar-se da mãe na hora de dormir. Além disso, serve para que o bebê possa experimentar seus limites mentais em relação ao que é interno e externo a ele, assim como tem a função de delimitar os limites corporais:
quando a criança manipula o ursinho, adquire sensações que servem para estabelecer seus limites corporais. O objeto transicional está situado em uma zona intermediaria, na qual a criança se exercita na experimentação com objetos que, mesmo que estejam fora, sente como partes de si mesma.

(BLEICHMAR;BLEICHMAR, p. 227, 1995). Ocupando um lugar de ilusão, o objeto transicional, diferentemente do seio materno, que não está disponível o tempo todo, é conservado pela criança e solicitado quando lhe convém. A criança incorpora a noção de que tem o seio materno, mas ele não o pertence, logo, faz uso do objeto de intermediação e o elege para acalmar e o defender de suas angústias. Sendo assim, também desempenha o papel na elaboração dos sentimentos de perda, quando está separado da mãe. Há um sentimento de ambivalência no tocante à relação com o objeto transicional, no momento em que pode ser alvo de amor, mas como também alvo de agressão, quando sua relação é de ódio. Esse trato de agressividade para com o objeto também é fundamental, no momento em que serve como uma maneira da criança neutralizar sua agressão, o que pode ter um fim construtivo.

O objeto transicional se mantém pela vida afora como lugar das experiências intensas no campo da arte, da religião, e da imaginação: Esta
zona intermediaria da experiência, inquestionada, no que tange à sua pertinência à realidade interior e exterior (compartilhada), constitui a maior parte da experiência da criança, e é conservada ao longo de toda a vida, dentro das intensas experiências próprias da arte, religião e viver imaginativo, assim como do trabalho cientifico

(WINNICOTT, apud BLEICHMAR;BLEICHMAR, p. 229, 1995). Winnicott também afirma que o objeto transicional é susceptível de ter uma evolução patológica, podendo se expressar na forma de fetichismo, da adição e do roubo, o que constituem substitutos do primitivo objeto e outros transicional. Winnicott acredita que tais quadros patológicos no vínculo, e pela dificuldade emocional no contato entre outros. Segundo Winnicott, o processo de aceitação da realidade jamais se completa, sendo assim sempre haverá uma tensão onde o ser humano relaciona sua realidade externa com sua realidade interna,e o que proporciona o alívio dessa tensão corresponde à área intermediária de experiências, a qual não é submetida a questionamentos (arte, religião, etc.). Tal região intermediária se manifesta de modo direto na área do brincar da criança (WINNICOTT,2000).

problemas, podem se dar em função das falhas maternas, pela inconstância

2.1 O Brincar para Winnicott

O brincar apresenta-se como uma grande aquisição da teoria do desenvolvimento emocional de Winnicott. Ao brincar, o bebê/criança/adulto estabelece uma ponte entre o mundo interno e o mundo externo com e através do espaço transicional. Para Winnicott, a qualidade do brincar na terceira áreaos fenômenos transicionaisé sinônimo de viver criativamente, e constitui a matriz da experiência self que se estende por toda vida. Transposto para a relação analítica, o brincar constitui-se na definitiva realização da psicoterapia, pois é somente através do brincar que o self é descoberto e fortalecido (ABRAM, 2000).

Em suas observações de bebês e crianças, Winnicott percebeu a importância e a função do brincar, especialmente com relação à psicoterapia e a busca e a descoberta do self. O brincar sempre foi um aspecto de sua técnica na clínica: o jogo das espátulas e o jogo dos rabiscos, estão dentre suas técnicas utilizadas, tais jogos contribuíram para a compreensão da natureza do objeto transicional no desenvolvimento do bebê. Para Winnicott, a qualidade do brincar serviria como um indicador do desenvolvimento e do sentimento de ser do bebê: Ao classificar uma série de
casos podemos fazer uso de uma escala: na ponta normal dessa escala encontramos o jogo, que é uma simples e prazerosa dramatização da vida do mundo interno: na ponta anormal da escala temos o jogo de que faz parte uma negação do mundo interno, sendo o jogo, nesse caso, sempre compulsivo, exaltado, conduzido pela ansiedade, e mais voltado para a exploração dos sentidos do que da alegria (WINNICOTT, apud ABRAM, p.56).

O brincar é uma atividade saudável, e o prazer do brincar é um fator de garantia da saúde da criança que cresce. O fator criativo e de imaginação dentro da brincadeira possibilita que a criança crie um modo de vida particular, o ser vivencia o seu self verdadeiro. Para Winnicott, o brincar seria o portão de entrada para o inconsciente e teria a função de autorevelação, assim como os sonhos são para Freud. Quando publicou no ano de 1968 seu estudo “The Use of an Object and Relating through Identifications”, Winnicott menciona a importância do fator agressão no brincar: é importante expor que a criança valoriza a constatação
de que o ódio e os impulsos agressivos podem ser manifestados em um ambiente já conhecido, em que haja uma resposta de ódio ou violência por parte desse ambiente. A criança perceberá que um bom ambiente será capaz de tolerar os sentimentos agressivos se estes forem expressos de uma forma razoavelmente aceitável (WINNICOTT, apud ABRAM, p.58).

Winnicott introduziu para a psicanálise uma literatura voltada para relação mãe-bebê, que até então não se havia explorado com tanta veemência. A importância dada ao meio ambiente, tendo a mãe como principal objeto de identificação do bebê, assim como sua descoberta sobre a existência de um objeto transicional foram de muita valia para o entendimento da relação simbiótica (mãe-bebê), introduzindo para o contexto psicanalítico da época um novo campo a ser explorado. Assim como Klein, fundamentou

em sua técnica

a importância do brincar, e a utilizou com ferramenta

fundamental em suas ricas experiências analíticas. Winnicott em suas obras e durante toda sua carreira, mostrou uma psicanálise simples e leve, fazia questão em ser simplório em seus escritos. Este grande e simples homem trouxe um trabalho de grande valia, seus estudos e técnicas psicanalítica hoje, juntamente com os de Klein, são os mais utilizados na prática da psicanálise da criança.

3. O Lugar dos Pais na Psicanálise de Criança

A implicação dos pais no tratamento da criança é um fator fundamental para o andamento da psicanálise. Tendo em vista que, de fato, os pais atuam na transferência dos mesmos, tornando-se uma peça indispensável. Para Rosenberg, não há como omitir o papel do adulto no andamento do processo de análise, uma vez que não se da apenas ao nível do mundo
fantasmático, mas entra sim, ao nível da realidade, com todo o seu peso: deles depende aos honorários, a interrupção do tratamento, a mudança de analista, etc

(ROSENBERG, p.52, 2002). Assim, Rosenberg elucida algumas questões que implicam também o comprometimento dos pais de ordem consciente e inconsciente no tratamento do seu filho. Muitas vezes, o sintoma da criança está atrelado aos sintomas de seus pais, ao iniciar o processo de análise com a criança, é natural que aconteça um movimento dentro desse núcleo familiar. Isto, pode trazer um certo incômodo, o que provoca muitas vezes a desistência do tratamento por parte deles, e não da criança. Nesse momento, é preciso chamar os pais para dentro da terapia- o que não implica em uma análise com eles, mesmo que isso seja necessário- dessa forma poder-se-ia confrontar os conflitos existentes, o que possibilitaria um grande avanço no processo terapêutico da criança.
O tratamento é da criança e é com ela que fundamentalmente trabalhamos. No entanto, os pais (ou um deles) entram no exato momento em que, devido ao peso que o intersubjetivo tem na formação do sintoma ou na estruturação das neuroses, faz-se necessário que algo também se modifique no inconsciente de um ou de ambos progenitores, ou algo de sua relação. Ao incluí-los na sessão, pensa-se em produzir um efeito analítico que permita a continuação da análise da criança (ROCENBERG, p.55, 2002).

Então, como se daria essa psicanálise com crianças? Rosenberg propõem que é fundamental escutar a criança como o sujeito do seu próprio discurso, ao invés de acreditar que está sendo falada pelo Outro. Pois não é sempre correto afirmar que a origem de um sintoma vem do discurso dos

seus parentais. No entanto, pode haver momentos nos quais a criança faz menção a tais sintomas. Muitas vezes é difícil para que os pais aceitem a mudança nas crianças, nessa hora é preciso que o psicanalista esteja atendo a isso, para que possa fazer suas intervenções, a fim de converter a situação. Só assim torna possível que os pais se confrontarem com seus desejos e recalques (ROSENBERG, 2002). Quando trabalhamos numa análise de crianças, temos que ter em mente que não trabalhamos sozinhos. Junto com os sintomas da criança, estão os sintomas parentais não resolvidos. O processo da análise infantil, certamente provocará algum desconforto no pai ou na mãe, ou nos dois. O papel do psicanalista seria de abarcar todas essas questões intervindo e manejando quando for necessário. Dessa maneira, é conveniente dizer que a implicação dos pais no tratamento infantil é peça fundamental para a evolução da análise da criança. Cabe ao psicanalista ter ciência da importância que é a participação dos parentais no processo da cura.

4. Fragmentos de um Caso Clínico

Uma Breve Introdução

Dentre os atendimentos que realizei durante este último ano de estágio, o primeiro de um aprendizado em experiência clínica na psicanálise com crianças, faço menção a este caso em particular por ter sido o mais duradouro e com aspectos mais relevantes e intrigantes experenciado por mim. Como sendo o início de uma jornada psicanalítica, encontrei diversas dificuldades no manejo ao longo das sessões realizadas. Creio que compartilhar tais sentimentos de insegurança e de inexperiência também fazem parte de todo aprendizado árduo e compensador que nós da área da psicologia e psicanálise encontramos. Como ato altruísta e também por querer compartilhar tais inseguranças, como própria necessidade de me sentir mais confortável, me disponho vagar um pouco sobre o que foi vivenciado por mim pessoalmente, pois acredito que ao compartilhar tais sentimentos também estarei contribuindo, de uma certa maneira, para os futuros estagiários, que com certeza, pela inexperiência e pouca idade, irão sentir o mesmo. Em outras palavras, seria conveniente dizer que não estamos sozinhos neste barco. Gostaria também de compartilhar um pouco das minhas idéias em relação à psicanálise, antes mesmo de me debruçar no caso clínico construído por mim e pelo meu paciente, digo isso, pois, um caso não é puramente o que o nosso paciente nos traz, ele é soma de todas impressões, fantasias, vivenciadas pelo psicoterapeuta e pelo paciente. Como tudo que passa pelo campo subjetivo, seja na linguagem, seja nos sonhos e até mesmo em nossos atos corriqueiros, são representados em nossa mente por uma metáfora. Não seria diferente na psicanálise, ou nada adiantaria se fosse. Diria até que seria impossível fazer um movimento diferente, pois tudo que passa por nossa impressão subjetiva, torna-se algo nosso, uma interpretação pessoal, no entanto, muito verídica. A psicanálise é uma área de conhecimento muito mais subjetiva do que qualquer outro campo da ciência humana, ela se estende até às entranhas do

nosso obscuro inconsciente a fim de entender e explicar o que acontece com a nossa mente, objetivamente falando. Ela afirma, e creio piamente nisso, que nossas atitudes, até mesmo as mais simples, não são respostas de um mero acaso, ou automatismo. Somos seres complexos, pensantes, capazes de refletir e nossos atos são sempre resposta de algo já experenciado desde de nossa tenra infância, mesmo que disso não tenhamos consciência disso. Melhor assim que não tenhamos consciência de tudo, afinal de contas, nossa mente não usaria de mecanismos de defesas se não fossem necessários. Mas temos que ter cuidado para que não difamemos tal pensamento, pois, como diz sabiamente Freud “às vezes um charuto é apenas um charuto”. Podemos inserir a psicanálise no cerne de qualquer campo onde se insira a subjetividade humana (no campo das artes, da ciência). Ou melhor, nós seres humanos tendemos a investir, por uma questão de necessidade, psiquicamente falando, em algumas áreas onde possamos canalizar todas as nossas questões, que por hora nos trazem um certo tipo de sofrimento, que é inerente a qualquer ser humano. Como diz Winnicott, essas áreas passam pelo campo do “inquestionável”, um movimento “absoluto” onde podemos empregar e tentar explicar o que é inexplicável para nós. O ser humano está sempre em busca, precisamos de energia que nos mova, é como um movimento das pulsões, como diria Freud. Procuramos sempre ir em busca de um sentido para nossas vidas, mesmo que não saibamos conscientemente disso, e é essa pulsão que nos faz viver. A obscuridade de nossas mentes nos faz mover para ir buscar algo do campo do impossível, esse “campo do impossível” é necessário para que possamos está sempre investindo. Nosso desejo inesgotável e nunca saciável é uma condição necessária para nos mantermos vivos. Não sei se estou sendo prudente ao divagar sobre tantos aspectos da nossa subjetividade neste trabalho, mas creio que para mim seja primordial falar um pouco das minhas concepções em relação à subjetividade humana, afim de que eu mesmo possa dá um rumo original a este meu trabalho, já que é um relato de uma experiência clínica do meu estágio. E como dito anteriormente, sinto que seja mais que necessário compartilhar algumas de minhas idéias, ou melhor, conhecimento. das minhas concepções acerca de tal

A História de Teodoro Os pais de Teodoro*, Seu Breno e Dona Marta, vieram à clínica de

psicologia com a queixa de que o filho desde que se mudou para a nova escola, não se adapta à rotina do colégio, além de ser alvo de bullying e de gozações das mais cruéis pelos colegas de sala. Trata-se de um garoto de 12 anos de idade, aparentemente saudável e bem apresentável. Como único filho da família, as atenções são voltadas para ele, de uma maneira exacerbada. Sua mãe teve uma gravidez atordoada e delicada, com o prognóstico do seu estado considerado grave e com ameaça da perda do bebê ou da mãe durante o parto. Dada essas circunstâncias difíceis, a mãe de Teodoro sempre o protegeu excessivamente. Desde o nascimento o bebê entre os pais, num colchão no chão, para que ele não caísse e que nada de mal acontecesse ao mesmo. Seus pais, entretanto, relataram que ele sempre foi uma criança saudável, comunicativa e que na sua antiga escola não havia problema, e pelo contrário, era uma criança bastante conhecida no colégio e que mantinha amizade com todo mundo. Na nossa primeira entrevista, os pais falaram algo interessante para entender a queixa: “Teodoro é um menino muito comunicativo, ele vai fazer de tudo para agradá-la”, assim o fez Teodoro de maneira quase constante, salvo algumas situações em que demonstrava ser um menino bastante antipático e artificial.

Os nome são fictícios a fim de preservar a privacidade do cliente.

Seu Breno parece ser uma pessoa de difícil convivência, mostra-se que é muito invasivo e rígido na educação de seu filho. Os encontros que tive com os pais, eram marcados pela predominância da fala do pai e uma passividade

extrema da mãe. Breno praticamente não dava espaço para ela falar, e esta se colocava sempre numa condição passiva. Além disso o porte físico avantajado de Breno fazia juz a sua conduta espaçosa e invasiva. A mãe sempre esteve “exageradamente” presente nas atividades de seu filho. Praticamente fazia suas tarefas da escola e estudava com ele para as provas até o momento. Além disso, a mãe sempre o acompanhou em todas as atividades, sem conseguir descolar do filho, ficando completamente à sua mercê. Uma mãe superprotetora e ao mesmo tempo inexpressiva, quase inexistente. Diante de um pai avassalador e narcísico, a mãe fica sempre à parte. Durante o processo, a mãe precisou mudar seu horário do trabalho, o que implicou ter que se afastar um pouco de Teodoro, deixando-o em pânico. Diante disso, seus pais me procuraram para falar da dificuldade que o filho estava sentindo e da sua angústia em ter que se afastar durante mais tempo da mãe. O pai, numa das sessões relata ter, crescido em meio de muitas mulheres, e ter tido tem uma relação maternal com suas duas tias que criou junto com sua mãe. A figura materna não aparece na sua dinâmica familiar. Seu Breno é professor, trabalha os três turnos para poder manter o padrão de vida que oferece ao seu filho. Visto o seu salário ser insuficiente. A mãe e as tias de Breno ajudam nos custos da educação e afins. Mesmo não tendo condição financeira suficiente, seu Narciso adota um padrão de vida elevado para sua família e aceita ajuda de suas tias e sua mãe. Os pais se preocupam por Teodoro ser muito sozinho, não tem amigos na escola e onde mora não tem meninos com a mesma idade para que ele possa brincar. A mãe comenta que desde criança ele passa muito tempo sozinho em casa, e, muitas vezes, ela chegou a pedir ao porteiro do edifício para checar se tudo está bem, hábito mantido pelos pais até o presente. Outras queixa versa sobre o desempenho escolar de Teodoro e seu baixo rendimento segundo a mãe. Durante as provas ele fica muito desligado, não se concentra, e não consegue bons resultados. O pai comenta que fica muito furioso com esse fracasso escolar e, demonstra sua raiva e desgosto com esse isso.

Certa vez os pais comentaram que Teodoro havia pressionado uma caneta contra seu braço até se ferir, esta auto-agressão ocorrera após ter se dado mal em um exame de matemática. Outro episódio ocorrido em sala de aula, foi ter tumultuado o exame de ciências, perturbando o ambiente. No final de uma sessão com Teodoro, seus pais foram me comunicaram um fato que os deixou preocupados, e então, eles relataram que Teodoro estava com uma “namoradinha”, a mesma menina que um dia lhe ignorou, como diria sua mãe, “lhe humilhou”. Os pais do menino estavam preocupados não somente porque o filho era novo demais para esse tipo de relação, mas principalmente porque este tirado escondido de sua mãe suas jóias – um anel e uma corrente- para presentear a namoradinha. A mãe contara que essa menina já havia desdenhado de seu filho, uma vez que marcaram para ir ao parque de diversão, e lá ficara com os seus colegas de sala ignorando-o completamente. Diz a mãe comenta que ele escreve alguns textos em seu caderno, relacionados sentimentos que tem pelos seus colegas. Em mais uma das entrevistas com os pais, seu pai trouxe um conteúdo bastante interessante: Teodoro havia desenhado numa folha uma figura humana muito grande, segundo o pai, um gigante; e aos pés deste gigante estavam um monte pessoas bem pequenas sendo afogadas pelas lágrimas que caiam dos olhos do gigante. Esse gigante estava também fumando- vale salientar que seu Breno é fumante. Ao ver este desenho, o pai disse que logo se identificou com o mesmo, dizendo ao filho que o gigante era ele, mas que não havia gostado, pois ele estava muito feio. Teodoro responde que a figura no desenho era Deus. E seu pai retrucou, que não podia ser Deus, pois Deus não fuma, então logo Teodoro de imediato apaga o cigarro do desenho. E continuou dizendo: “é Deus chorando pela tristeza do mundo”. Esse desenho de fato mostra o caráter narcisista do pai de Teodoro, e como o garoto o representa. Essa figura tão invasiva que é vista como o grande gigante chorão. Pode-se notar que o modelo familiar é confuso e pouco estruturante para o garoto. A figura do pai tenta obscurecer a existência da mãe e do próprio filho. A passividade e a cumplicidade da mãe a torna quase inexistente. E Teodoro se perde em meio de todo esse quadro conturbado.

As Sessões com Teodoro

No primeiro encontro, Teodoro demonstrou ser um garoto bem articulado, inteligente. No seu discurso notava-se uma forte influência paterna. As suas idéias não me pareciam ser dele, eram mais uma reprodução do modelo do pai visivelmente incorporada por ele. Sendo assim, dava a impressão de se mostrar mais como uma caricatura de adulto com uma eloqüência artificial para um garoto da sua idade. Ao relatar sobre a escola, quando pontuei tal questão, disse que se sentia humilhado em relação aos seus colegas. Quais as razões disso perguntei-lhe ao que respondeu: “acho que é porque eu falo muita besteira, que sou gordo e que eles tem uma cabeça ‘mais avançada’ do que eu, eles já têm paqueras e falam em namoro”. E ainda acrescentou “se eu falar muita besteira aqui você pode me dá um toque”. Assegurei-lhe que aqui, ele poderia falar besteira, que podia também ser ele mesmo. Disse-me que estava sendo muito poder desabafar tudo. O garoto pareceu o tempo todo querer me agradar e mostrar ser uma pessoa simpática. Característica esta que persistiu ao longo de todos as sessões, salvo algumas exceções, nas quais exercitava seu humor sádico e desagradável, muitas vezes até desconcertante. Ao perguntar-lhe o que gostaria de fazer na sessão, respondeu que gostava de jogar vídeo game, mas de tanto o pai falar que jogar vídeo game não era uma atividade saudável, que pode ficar “viciado”. E ainda acrescentou: “o vídeo game não leva a nada”. Teodoro diz que deixou de jogar, sem aparentemente contestar, pareceu conformado. Na sessão seguinte, ao conversarmos sobre o colégio, ele diz que está “mais ou menos”. Explorei o que queria dizer: “como assim mais ou menos?” este disse: “hoje os meus colegas me desrespeitaram, zoaram de mim só porque eu falei gesticulando, daí fui para coordenação reclamar e a coordenadora me disse que iria averiguar. E quando a coordenação

averiguou, me disse que eu também revidava”. Seu comportamento oscilava entre vítima e algoz de sua própria angústia. Sobre a sua relação com a família, disse-me ser um garoto privilegiado, pois, mesmo seus pais não tendo condições de sustentá-lo , sua avó ajuda nas despesas pagando a escola: “se ela não ajudasse, estaria estudando em um colégio Estadual” (...) “assim sobra mais dinheiro para meus pais comprarem coisas para mim”. Mais uma vez aparece um discurso não elaborado por ele, mas por ele incorporado como se a fala demonstrasse que ele tivesse plena consciência de tudo. Em uma sessão, quando mexia nos brinquedos, encontrou um que o chamou muita atenção, e logo, decidiu brincar. Eram pequenas peças de animais, cercas e homens em miniatura, como um Zoológico. Ao brincar disse: “eu gosto desse tipo de brincadeira, mas os meninos do colégio, acham criancice” (...) “eles só querem jogar playstation” e ainda acrescentou: “eu gosto de organizar o jogo todo e depois desmontar”. Na seguinte sessão continuou com a mesma brincadeira. Em um certo momento da sessão, Teodoro começa a falar de artes, de história, enfim de temas cultos, que não são comuns ou muito do interesse de um garoto de 12 anos. Teodoro repete assim a fala do pai, que é professor de história e mais uma vez expressa os seus “discursos prontos”, marca de todas as sessões. Na terceira sessão, ao perguntar-lhe como estava na escola, disse-me que estava muito bom, pois os colegas não tinham zoado dele. Procurei saber porque ele achava que os colegas mudaram em relação a ele. Prontamente respondeu que achava que era porque dessa vez ele tinha esperado a professora a falar, para que então falasse algo. Mais uma vez nas nossas conversas, faz uso de palavras difíceis, com frases bem articuladas, e um vocabulário avançado. Então pontuei que ele, na sessão, não precisaria usar esses termos difíceis, que ele era apenas um garoto de 12 anos. Respondeu-me e repete em voz alta e com certo ar de gozação : “eu sou apenas um garoto de 12 anos”. Ao longo de todas as sessões, sempre se mostrou curioso ao meu respeito, perguntando minha opinião sobre alguns assuntos, sobre meus gostos, etc. Não respondia diretamente as suas perguntas, e enfatizava que

ali era o lugar para falar dele, e não de mim. Mas ele parecia não entender (ou se recusava), e sempre refazia os questionamentos. Disse a mãe que eu dava “fora” nele, quando me perguntava algo. Teodoro parece negar as diferenças, mostra ignorar que na situação ele é cliente, deseja mais querer me tratar como igual e por vezes superior. Parecia difícil para ele “não dominar” o ambiente, ser ele mesmo e se colocar no lugar de quem não sabe de tudo, sem ficar emburrado. Em relação ao episódio da mudança de horário do trabalho da sua mãe, Teodoro nunca falou de sua angústia em relação a este fato. Quando eu pontuava sobre isto, vinha com um discurso pronto, e dizia “ah! Vai ser ruim, né? agora ela não vai poder me ajudar nas tarefas, mas eu tenho que me acostumar”. No entanto, mostrava-se muito agitado e inquieto, por mais que quisesse demonstrar tranqüilidade. A partir desse momento, começava a revelar sua insegurança e fragilidade. Como foi dito anteriormente, o garoto fazia questão de me agradar, costumava me presentear (me trouxe um ovo da páscoa), me elogiando e se comportando como um “bom menino educado”. Entretanto, em alguns momentos ele tentava me provocar, e querer me “desconcertar”. Tal comportamento parecia claramente a expressão de sentimentos ambivalentes que tal como em casa e na escola, ocorriam também na sessão. Teodoro revelava ser um menino desagradável, assim como os seus colegas de turma o achavam: Em uma das sessões ele começara a ter crises de risos, depois de ter pontuado que ele estava agitado. Seus risos mais pareciam risos de deboche. Perguntei-lhe o motivo de tanto riso, e me respondeu: “às vezes, quando sinto vontade de chorar, ou estou triste, eu sorrio, não sei porque. Uma vez minha tia-avó estava cirurgiada, e quando olhei para ela me deu vontade de rir”. O seu “ataque histérico” faz-nos reportar ao conceito de defesa maníaca desenvolvido por Melanie Klein para compreender as angústias depressivas. Teodoro não podia expressar sua afetividade de forma natural, modelos e as exigências dos pais só tinham lugar para um tipo de afeto, o da negação dos afetos. Outro dia, imitou, ao mesmo tempo em que sorria debochadamente, fazia os meus gestos quando anuncio o término da sessão, e repetiu a mesma frase que costumava falar: “Teodoro, o nosso tempo por hoje está

chegando ao fim”. Nesse momento, realmente fiquei desconcertada e não sabia como manejar. Esses deboches se repetiram mais vezes em outras sessões. A contra-transferência negativa foi identificada e pude compreender o que se passava entre nós. Quando ocorreu o recesso de duas semanas, período entre os semestres letivos, avisei a ele com antecedência, e com todo cuidado, entreguei-lhe um cartão com a data do seu retorno. No dia da sessão ele não comparece a sessão, e tampouco na sessão seguinte. Após as duas faltas consecutivas, falei com a mãe, que alegou ter pensado que ainda estava em recesso, e que não recebera nenhum cartão de retorno. Na sessão com Teodoro, ao explorar sua resistência (na verdade raiva pela pausa das sessões) me respondeu que tinha perdido o cartão e que pensava que eu ainda estava de recesso. Após este fato, ele não parecia não vir com vontade às sessões, e vez por outra cometia uma falta, durante certo tempo. Mostrava-se desinteressado nos jogos, chegando dizer que estava enjoado dos mesmos. Antes as sessões eram ricas e sempre que não queria jogar os jogos disponíveis, improvisava uma brincadeira. Ao pontuar-lhe a sua resistência, o seu silêncio nas sessões , ele parou, pensou e começou a fazer confissões:

Teodoro: eu ando falando muito palavrão, sei que é errado, mas não consigo me conter. . Terapeuta: Porque você acha que não deve falar palavrão? Teodoro: ah, falar palavrão não é legal, mas não consigo me segurar. Se você fala no meio da rua um palavrão, é um pouco constrangedor alguém vir e reclamar com você, né?! Tem lugar que você pode falar e outros que você não pode, mas é melhor não falar, né?! Terapeuta: E onde você pode falar palavrão? Teodoro: ah, na escola todo mundo fala. Terapeuta: então parece que na escola pode falar palavrão, por que lá é aceito.

Em seguida silencia e depois continua a falar: “eu também sou muito fofoqueiro, assim, quando alguém fala algum segredo para mim, eu seu que não devo contar, mas conto, é maior do que eu, sabe?”. Falei para ele que agir assim parecia contraditório, pois ao mesmo tempo que alguém lhe dá confiança, algo que ele almeja, ele simplesmente quebra a confiança do outro. Responde-me: “ah, é porque é maior que eu, não consigo segurar”. E continuou a falar: “eu também às vezes minto muito”. Explorei o tema, ao que ele diz: “assim, eu aumento as coisas, sabe? Tipo assim, se está todo mundo falando sobre jogos – tem um tio meu que tem uma loja de jogos- daí, aumento, falo que meu tio tem um monte de jogos legais e que eu sempre vou lá jogar”.Faço uma observação dizendo-lhe que parece que ele quer impressionar os outros, mostrar algo mais. Esse assunto poderíamos retomar na próxima sessão, pois a mesma já havia terminado. Na sessão seguinte, ele falta e a mãe justifica por telefone dizendo que ele não iria poder comparecer, pois havia cortado os próprios cílios. O processo psicoterápico de Teodoro continua regularmente, mas um novo elemento deverá influenciar no tratamento. O desligamento que acontecerá com o fim do estágio supervisionado. Sessões com os pais estão ocorrendo para a passagem do caso a outra psicóloga que então assumirá sem que haja solução de continuidade.

Considerações sobre o Caso: As poucas sessões realizadas com Teodoro leva-nos a supor que ele apresenta grandes dificuldades na construção da sua identidade. Se encontra numa situação na qual torna-se difícil exprimir seu verdadeiro Self. Em seus diálogos observa-se com freqüência, um discurso apropriado do outro, quase um padrão repetitivo do discurso do pai, usando sempre lógica, boa consciência e eloqüência. Diante disso, não consegue sair da sombra do seu pai, que o “invade” e que o inibe. Preso nesse complexo paterno, Teodoro, nas sessões, incorpora um “personagem” de um garoto agradável, inteligente e esperto. Entretanto, não consegue ter sucesso na sua vida social, é alvo freqüente de gozação e

exclusão, sobretudo com os colegas da escola. Nas sessões sempre considera ser o dominador, tentando manter a relação com a terapeuta de igual para igual. Na escola, ele é o bobão. Teodoro é um garoto muito só, não consegue fazer amizades, em especial com pessoas da sua mesma faixa etária. Dessa maneira, se vê preso na sua relação com o seu núcleo familiar, que extrapola o limite de sua individualidade.Tal situação impele dele ser um garoto com ações espontâneas e criativas. Alguns indícios de elaboração se rebelou nas sessões ao demonstrar criatividade e improviso nos jogos e brincadeiras. Ao jogar, Teodoro demonstrava sempre preocupado em ganhar, mesmo que para isso tivesse que trapacear nos jogos ou mudar as regras para lhe favorecer. Muitas vezes, quando se via perdendo, se frustrava e mostrava o desinteresse pelo jogo, muitas vezes até “bagunçava” a brincadeira. Manipulador, não conseguia suportar a frustração de perder e acabava o jogo. Ainda muito colado à sua mãe e ele também, torna sua relação muito infantilizada. Quanto ao pai narcisista e invasivo, ele não consegue sair da sua sombra. A terapia provavelmente lhe proporcionará boas mudanças, remanejamentos psíquicos que poderá se beneficiar para deslocar da sombra dos seus pais, e conseguir se articular por ele mesmo, tornando-se um garoto espontâneo e saudável.

Resumo de outros Casos atendidos

CASO I INICIAS: W.N.L.O IDADE:9 SEXO: M

O caso havia sido encaminhado para mim por uma estagiária, pois, em virtude do encerramento do estágio, não poderia dar seguimento ao tratamento. A mãe procurou atendimento na clínica, pois se queixava que o filho andava com medo de tudo, principalmente, medo de ficar sozinho. O garoto tinha um rendimento escolar muito bom, era bem comunicativo, espontâneo e inteligente. Não tinha uma relação constante com o pai, este abandonara a mãe quando soube da gravidez. A terapia transcorreu em bons moldes, W. parecia estar indo bem nas sessões. Embora achasse que não se tratasse de caso urgente de terapia, a psicoterapia iria ajudá-lo a vencer seus medos e ajudar na sua questão em relação com seus parentais. Desde o começo, a mãe parecia não querer investir mais no tratamento do seu filho, e se queixava nas entrevistas de ter que repetir tudo o que já falara para a outra psicóloga, embora eu pontuasse que era importante que ela o repetisse, agora para mim. Acredito que a desistência e o não envolvimento com a terapia decorreu muito desse fator, mas também por uma questão financeira.

Caso II Inicias: W. P. M Idade:10 Sexo:M

A avó procurou atendimento na Clínica, trazendo como queixa de W. a dificuldade em estabelecer laços sociais, como também ter sido rejeitado pela própria mãe. Sua avó se preocupava com o estado psíquico do garoto, e já havia procurado alguns médicos para que lhe desse algum diagnóstico. W. sofreu um ataque epilético quando tinha 1 ano de idade, e, segundo os médicos, deixou seqüelas: o garoto tinha um problema grave de visão, só conseguia enxergar de muito perto. Além disso, o garoto também apresentava tiques nervosos. O garoto desenhava muito bem, e todos os finais das sessões eram dedicadas aos seus desenhos, os quais fazia com extrema facilidade e qualidade admirável. Ao jogar durante as sessões, embora me convidasse para participar, W. parecia não se importar muito com minha presença, e praticamente não interagia comigo nos jogos, embora quisesse me ter por perto. Sempre foi difícil conseguir convencer a W. que o tempo da sessão havia acabado, e, por mais que eu repetisse, teimava em não me ouvir. Outro fator curioso era que ele sempre pedia para levar os brinquedos para casa e sempre insistia para que eu permitisse. Embora as sessões se mostarssem muito ricas, e W. estivesse empolgado com o tratamento, sua avó decidiu em tirá-lo, pois, não tinha condições financeiras de trazê-lo semanalmente. Além do mais, havia conseguido uma vaga para ele em outra instituição perto de sua casa, onde ele poderia realizar o tratamento. De fato tratava-se de um caso bastante delicado, que urgia por um tratamento psicólogo. W. tinha um desenvolvimento emocional primitivo, e não conseguia laços sociais. Infelizmente, não foi possível prosseguir com o caso.

Considerações Finais

Vivenciar a clínica em psicologia é uma experiência única. Encarar a prática não é um trabalho simples e nem fácil, a cada dia, a cada sessão, existe uma superação e uma construção de si mesmo, enquanto pessoa e enquanto aprendiz. É um trabalho que precisa ser lapidado, dedicado e acreditado por aquele que o exercita. Acredito e admiro a psicanálise e é nela que me apoio quando tento buscar respostas, quando tento entender os mais complexos e simples artifícios que nossa mente utiliza. E é nela que me apoio quando exerço meu papel dentro da psicoterapia. Esse trabalho resume a escolha que fiz durante esses cinco anos de formação acadêmica. Se resume a uma área que me encantou e que escolhi para minha vida. Escolhi a psicanálise, e seguirei com ela.

REFERÊNCIAS

ARCANGIOLI, A.- M. Introdução à obra de Winnicott. In NASIO,J-D. Introdução as obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995. p. 186-187. BLEICHMAR;BLEICHMAR. A psicanálise depois de Freud. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992. cap. 5, 6,11. FREUD, S. A etiologia da Histeria. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v.3 FREUD, S. Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v.10. FREUD, S. Minhas teses sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v.7. FREUD, S. Um estudo autobiográfico. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 20. GAY, P. Freud: uma vida para o nosso tempo. 15.ed. São Paulo: Companhia das Letras 2002, cap. 1, 2, 3. KLEIN, M. A psicanálise de Criança, Imago, 1997. cap.1. ROSENBERG, A.M.S. O lugar dos pais na psicanálise de crianças. São Paulo:Ed. Escuta, 1994. p. 52-55. SEGAL, H. Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago, 1975. THOMAS, M-C. Introdução à obra de Melanie Klein. In: NASIO, J.-D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

WINNICOTT, D. W. Da pediatria a psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000. cap. 18,24.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful