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JEAN

DELUMEAU

A CIVILIZACÃO DO RENASCIMENTO

'

Volume

11

1984

Editorial Estampa

Lisboa

Titulo original:

 

La

Civilisation de

la Renaissance

Ilustração

da capa:

V énus

e Marte

(pormenor) de

Sandro Botticelli.

National

Gallery, Londres.

Capa

de

 

Soares Rocha

 

Tradução

de

Manuel

Ruas

 

Copyright

 

B.

Arthaud, Paris,

1964

Editorial Estampa,

Lda., Lisboa,

1984

para

a

língua

portUguesa

íNDICE

 

Volume

Il

Cap.

X -

Os sonhos

do

Renascimento

.

.

..

9

 

-Cruzada

e Império:

mitos moribundos

 

9

-

A

miragem

dos países

maravilhosos

.

.

.

.

..

10

-

O enfraquecimento das

esperanças messiânicas

 

13

-

Sonhos de

ricos:

poesias

pastoris

e mitologia

15

-Sonhos

de pobres:

o pafs

da

cocanha

...

18

-

Os

pe sadelos

do

Renascimento ...

19

-Leonardo,

Rabelais

e Fausto

.

.

.

.

.

.

.

.

..

21

-

A «Utopia»

de Thomas More

.

22

-

De

Te lema a

Bensalém

.

.

.

.

...

.

.

.

.

.

.

.

25

-

As utopia s: recusa do

presente, premonição do

futuro

 

29

Cap.

XI -

Indivídu o

e liberdade

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

..

37

-As

grandes personalidades e

o

seu

meio natural

 

37

 

-Personalidade

fora

de série

.

.

..

 

39

 

-A

Fama

.

43

 

-

O

romantismo

do

Renascimento

.

.

.

.

.

.

.

.

..

45

-Um pessimismo metafísico

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

..

51

-

Astrologia e

destino individual.

O

homem

mágico

 

56

-

O

difícil nascimento

da liberdade

58

Cap .

XII

-A

criança e

a

instrução

.

.

.

.

..

61

 

-

O

novo lugar

da criança

na

iconografia

61

-

Crescente interesse

pela criança

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

..

64

-

Inexistência

de ruptura entre

o ensino

medieval

e

o

do

Re-

 

nascimento

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

..

.

.

.

.

.

..

67

 

-

A abertura das faculdades

das artes

à

corrente humanista ...

70

-

O

declínio

das

universidades

.

.

.

.

.

.

.

.

..

72

-

O ritmo

novo da

vida escolar

.

.

.

.

.

.

.

..

75

Cap.

XIII -

A

educação, a

mulher e

o

humanismo

77

 

-

Uma

reacção contra

a anarquia

medieval

...

 

77

-

A

escolarização

das

classes superiores

da sociedade

80

 

7

83 - A preocupação da educação . . . . . . . . . .
83
-
A
preocupação
da
educação
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
-
A
lenta
promoção
da
mulher
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
88
-Amor e beleza :
a influência
do
neoplatonismo
92
95
-Reabilitação
do casamento
.
.
..
99
Cap.
XIV-
Renascimento
e paganismo
99
-
O erotismo
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
..
101
-
Os
«Paduanos»
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
-
Um
106
«século inspirado»
.
.
.
.
..
-Um sincretismo religioso e moral
..
109
-
O
nu
sa grado .
.
.
.
.
.
.
.
..
113
-
Espírito
crítico
e consciência cristã
116
Cap.
XV -
Da feitiçaria
à
ciência ...
123
-
As
feiticeiras
.
.
.
.
.
.
.
.
..
123
-
As
contradições
125
do Renascimento
-
O
peso
do
passado
.
.
..
128
133
-
O
humanismo
e
a
ciência ...
química .
.
..
136
-Da geografia
à
138
-
Progresso
na
.física
.
.
.
.
..
-
141
Evolução decisiva
em álgebra
-
Revolução
em astronomia
.
.
.
.
.
.
144
-
As componentes
de
uma
mentalidade nova
147
-
do Renascimento
148
Três mensagens
Quadros
cronológicos
.
151
lndice documental
.
..
219
Orientação bibliográfica
337
lndice das
gravuras
...
381
8

CAPíTULO

X

OS

SONHOS

DO RENASCIMENTO

 

Os

homens

do Renascimento

fizeram

muitos

projectos.

Esse

período,

em

muitos aspectos

realista,

que engendrou

Commynes, Maquiavel

e Gui-

cciardini,

que viu

o saque

de

Roma

e

o

desenvolvimento

do tráfico

de

Negros,

foi

uma das

idades de

ouro

da utopia.

A necessidade

de

evasão

era

mais sentida

talvez por

haver

uma medida

mais exacta

do

mundo

circundante e por

se

conhecer

melhor a

face quotidiana

do homem. Mas

era

preciso abandonar

certas

miragens da

Idade Média: daí

a

necessidade

de novas

construções imaginárias.

 
 

O

mito

da cruzada

estava

moribundo, passara

o tempo

das

grandes

cavalgadas

à

Terra

Santa

e das

peregrinações

de

«pastorinhos».

A cruzada

sobrevivera

ainda depois

do fim

do século

XIV, mudando

de aspecto:

era

defensiva.

esforçando-se

em vão

-em Nicópolis

em

1396 e

em Varna

em

1444- por travar o

avanço turco. Só

em Lepanto, em

1571,

e ,

mais

ainda.

em Viena,

em

1683,

viria

a

sofrer o

golpe final.

Mas havia

ainda

alguns

espíritos quiméricos que

sonhavam

com

acções

esplendorosas no

Oriente

e

com

a

impossível

reconquista

de Constantinopla

ou

de

Jeru-

salém:

Pio

II,

Carlos

VIII

e,

mais

tarde,

o

Padre

Joseph,

confidente

de

Richelieu.

Mas

Pio

II

morreu

desanimado

em

Ancona,

em

1464, antes

de

embarcar;

Carlos

VIII,

que tomara

 

o título

de

«imperador

de Cons-

tantinopla»,

teve

dificuldades

para

se

livrar

do vespeiro

italiano

e voltar

a França;

e, quanto ao

Padre

Joseph, encontrou

um

chefe

para

a cruzada

-o duque de Nevers- mas não achou tropas. Francisco

I

não

hesitou

em

aliar-se

aos

Turcos,

cujos barcos

se

acolheram

a

Toulon.

Sisto

V

sonhou,

muito prosaicamente,

entre

as

re5gatar ao sultão

os

lugares

santos.

Veneza,

guerras, comerciava

com

os

Turcos

e chegou

a

ter

relações cul-

turais com

Constantinopla,

onde

Gentile Bellini,

enviado

em

missão ofi-

cial ao

Oriente

em

1479, pintou

o retrato

de

Maomé II.

É

certo que no

Ocidente

se receava

o vizinho

de leste,

mas

não

se

ignorava que

no

país

dos

Otomanos

havia

uma

relativa

tolerância

religiosa,

como

se

não

ignorava

que,

em

certos casos,

os

ministros

do sultão

eram

cristãos rene-

9

 

udnN

e

(IUC

a

admin i ·tração d o G r ã o

Tu r co

n ã o

era

mais injusta que

á rvores de perfumado olor, e tantos outros reinos imaginários,

tudo

11 dll~ in in11gll~

tio

l sh o . Consi d eremos um diálog o

bem re velador , ima-

iss o

se diluiu. Era preciso reconhecer a evidência: as regiões longínquas

ltllllldn

 

por

um

an

ni mo

do

f im

do

século

XVI,

entre dois

pes c a dores

não eram como antes se imaginara. O império do Preste João, onde se

ve tu::t.ia no s dt:st:on solados,

l '

nu m

pe odo de

fome,

com o governo

do

doge

j ulgava correr um

dos

rios

do paraíso terrestre,

era

afinal

a

modesta

da ar is t ocracia loca l:

 

Etiópia , onde

uma

expedição

portuguesa

teve ,

nos

anos

de

1540,

difi-

 

c uldades para

conter a

pressão

muçulmana.

As

Antilhas

não eram

as

 

Mari n o

·

Co mo

Deus

não

quer

que

o

domínio

do

tiran o

pese

«ilhas afortunadas» e até causaram decepção. Em vão se buscou a norte

dt:mus iado no mu n do, preparou , para fazer

justiça , o

Turco e

o grande

do México as sete cidades de Cibola; e o Eldorado pôs-se em fuga, cada

s ul ho.

 

vez mais para o coração da Amazónia, perseguido pelos aventureiros

Ve tt o rc -

Es se

rapina o que eles já roubaram e prepara-lhes guerra

 

espanhóis,

alemães

ou

ingleses

que

se

obstinavam

em

procurá-lo.

Foi

t:

so frim e nt os

pa.ra

lhes dar

uma boa trancada na cabeça .

 

preciso

corrigir os mapas

e levar

em

linha de

conta os descobrimentos.

Ma rino- Seremos então

seus

irmãos

muito queridos

e

hão-de

vir

No início do século XV o «rio Oceano» passou a ser um mar aberto

a pa nh a radas .

r co nnosco,

de

rabo ao léu, caranguejos moles, lavagantes e dou-

que rodeava a Índia. No primeiro decénio do século XVI a Amética -principalmente a do Sul - começou a figurar nos mapa~. Cem anos

Ve ttore- Já não hão-de chamar aos pobres nem carnudos, nem

depc;>is já Cipangu e as cinco ou sete mil ilhas afortunadas se tinham afun -

ma rica s, nem

ladrões nem

cães,

e não voltarão

a

cuspir-lhes na cara ...

dado para sempre no Pacífico de Magalhães e de Drake . Os cartógrafos

 

e os navegadores, porém, .iá conheciam o Japão,

as Filipinas, as Malu-

A cruzada,

com

tudo

aquilo

que

tinha

de

êxodo messiânico, de

cas; e, no Índico, encontravam também Madagáscar. Evidentemente que

nhado cerca de

1600: os erros de longitude

são vários e a América seten-

e ntusiasmo sagrado, de desejo de exotismo e de ambições delirantes, é portanto um sonho do qual os homens do Renascimento estão a acor-

não custa apontar a dedo todas as insuficiências de certo mapa dese-

dar, principalmente depois da conquista de Granada em 1492 .

trional, para lá da Nova França e do Novo México, é uma terra incognita

«Quando, nos séculos XIV e XV, a cruzada ainda sobrevivia, a Cris- t a ndade estava decisivamente ferida na sua organicidade de carne» (P. Alphandéry). Com efeito, o Ocidente medieval sonhara um imperador bio e poderoso, defensor do nome cristão, árbitro dos povos, gover- n a dor do mundo em pleno acordo com o soberano pontífice Novo D a vid, recebia do pap a «a coro a de glória» que o punha «acima de todas a s potências do mundO>>. Ora a realidade do Renascimento é absolutamen-

que ninguém sabe onde e como termina a norte. Continua-se a acreditar numa grande terra antárctica habitada; e será Cook a desmentir a sua existência. O interior dos continentes é ainda mal conhecido: atribui-se ao Nilo e ao Congo uma nascente comum. Mas nada disto impede que em cem anos tenham sido feitos imensos progressos que obrigaram o homem ocidental a um esforço de realismo sem precedentes . Os países lendários tinham cedido o lugar a um Novo Mundo que, é claro, t inha

te diferente: o imperador , quase sempre alemão , ora é receado e odiado

as suas riquezas mas que,

com os seus desertos , as suas montanhas . o seu

o ra é simplesmente desprezado . Na maior parte da Europa, as nações cris-

infindável

espaço,

opunha

ao

europeu

uma

resistência

mais

física que

t ã s não param de fazer guerra umas às ou t r a s. O papa está muito entretido com o seu pequeno Estado peninsular. E, por fim, o século XVI assiste à conclusão lógica dos cismas anteriores e das cruzadas anti -hussitas; a Eu- r opa católica quebra-se ení duas metades de igual força : os cristãos que continuam fiéis a Roma e os cristãos reformados são, doravante, inimi- gos. É , realmente, o fim do messianismo imperial.

human,a. Fora já necessário corrigir os números de Ptolomeu para a medida da circunferência terrestre e aumentar os mapas para neles colo- car um incomensurável Pacífico. Mas sabia-se, por outro lado, que o mar não entrava em ebulição nas regiões quentes e que o Equador era habi- tável. Entrara-se em contacto com civilizações cuia existência nunca fora suspeitada: a fecunda Iiçã~ americana.

.

 

É

bem

certo que

a

América , tal

como

se

apresentava,

podia dar

 

*

lugar a sonhos.

Os soldados

de

Cortez,

ao aproximar-se do México e

 

depois, ao entrar na cidade , fica r am estupefactos. Leia-se o testemunho

O século XVI vê também dissolver-se aos poucos esses países mara-

de Berna! Diaz del Castillo, companheiro de Cortez:

«Quando vimos

vil hosos que , como miragens, tinham atrafdo os Europeus para fora da

[a

7

de

Novembro de

1519]

aquela be la estrada calcetada que ia direita

E uropa :

a

«ilha das

sete

cidades» onde se podia apanhar areia repleta

ao México , e todas aquelas ci dades e aldeias construídas umas na laguna ,

de ouro, essa Cipangu onde, segundo Marco Polo, que nunca lá foi,

e

em

terra

outras , ficámos

adm ir a dos , dizendo que t udo

aquilo se asse-

«O ou ro a bunda além de tudo quanto se possa imaginar» e onde «as casas

melhava às cidades encantadas de

que

fa la

o

livro

de

Amadis.

Torres ,

têm t elhado de ouro» , esses milhares de ilhas do mar de Cipangu, com

templos,

edifícios de

pedra

e

c al

constru ídos

e m

cima

de. água :

os

nossos

 

10

11

soldados j 11lguvam

estar

sonhando.

E

ninguém

se

espante por

eu dizer

isto,

pois

uinda

estou a

dizer pouco

e

não

sei

como

exprimir-me: estáva-

IIIOS

a

ver

uma coisa

que nunca

for a

vista

nem

contada

nem

sonhada.»

Cortez e nviou

a Carlos

V os tesouros

recebidos

de Montezuma;

Dürer

viu -os

em Antuérpia. E

também

Dürer julgou estar

a

sonhar:

«Também

vi

- escreve -

as

coisas que

do

novo

país do

ouro

foram enviadas ao

r

i:

um

sol todo

de

ouro,

de

uma toesa

de largura;

e,

do

mesmo modo,

uma lua

toda

de prata

do

mesmo

tamanho;

e também

duas

salas

cheias

de armaduras

 

do mesmo

género;

e

ainda

todos

os tipos

de

armas deles,

c~cudos,

bombardas, espantosas armas

de defesa,

curiosos

vestidos, indu-

mentárias

nocturnas

e todos

os géneros

de

coisas espantosas,

para usos

variados,

muito

mais

dignas

de

admiração

que

quaisquer

outras coisas

de espantar

.

E

nunca na

minha

vida

vi

nada

que tanto me

alegrasse o

coração como

estas coisas, pois vi admiráveis produtos

do artifício humano

e

fiquei espantado

com

o

subtil

engenho

dos homens dos

países

exóticos.»

 

Em

1520

ainda

se

não

suspeitava da existência do

Peru,

que reservava

surpresas

ainda maiores.

Em

Cuzco,

no jardim anexo

ao templo do

Sol,

tudo era

de ouro

e prata.

«Ali

se

via

(tudo feito com

esses metais

pre-

ciosos)

todas as

espéCies

de plantas,

flores, árvores,

animais pequenos e

grandes,

bravos

e mansos,

bichos

rastejantes

como

serpentes,

lagartos,

caracóis

e

ainda borboletas

e

aves

de todos

os tamanhos,

estando cada

uma

de~sas

maravilhas

no lugar

mais conforme

à natureza daquilo

que

representava.»

 
 

Mas,

uma

vez

delapidados

os

tesouros

dos

Aztecas

e

dos

Incas.

ficou-se perante

a América real, que

se teve

de atravessar,

de colonizar,

de converter,

de explorar,

e

não

sem grandes

esforços.

Nos

meados

do

século

XVI as

índias

Orientais

e Ocidentais tinham

assumido

o

seu

verdadeiro aspecto.

Camões

passou dezoito

anos fora da

Europa

-viveu

em Goa,

em Macau,

em Moçambique -,

mas não

o fez

por gosto . Depois

de

numa

rixa, no

dia

do

Corpo

de

Deus de

1552,

ter

ferido

um

funcio-

nário da

corte, não

pôde escapar a

severo

castigo senão

embarcando

para

a

índia' como

 

soldado

raso.

Para

Cervantes,

no início

do século

XVII, a

América

não

era

o paraíso.

Chama-lhe,

nas

Novelas

Exemplares,

«refúgio

ordinário dos

espanhóis

desesperados,

igreja

dos falidos,

salvo-

-conduto

dos

desses

tavolageiros

que

os conhecedores

homicidas, bipmbo batoteiros, negaça

denominam de

das mulheres

livres,

salvação especial

de

uma

minoria

e engodo da

maioria».

 
 

Mas

ao

pessimismo

de Cervantes

opõe-se,

de

certo modo, o ·optimismo

dos que,

não

podendo

encontrar

na

América

fabulosas

riquezas,

encon-

traram,

ao menos,

o

«bom

selvagem»- mito

chamado

a

longa carreira .

É

conhecida

a célebre

passagem

de

Montaigne

em que

ele compara os

índios

e os

Europeus:

«No

que respeita

à devoção,

à observância

das

leis,

à bondade ,

à liberalidade,

à lealdade

e

à franqueza,

bem nos

serviu não

os

igualar: perderam-se

por essa vantagem e

foram

vendidos e

atraiçoados

oor

si

próprios».

Um

espanhol contemporâneo de

Cervantes

e

de Mon-

12

taigne, Maneio Serra

não

se cansava

de

louvar os

Incas:

«Governavam

tão

sabiamente

os

se~s

domínios

-

escreve -

que

não

havia

lá ladrões,

nem

devassos,

nem

vadios,

nem

mulheres

adúlteras,

a

imoralidade

estava proscrita e

todos tinham o

seu ofício

honesto.»

 
 

*

 

O século

XVI,

que fez

diss~lver-se

a miragem das

ilhas afortunadas,

deu também um

golpe

muito severo

nas tenazes

esperanças messiânicas

da

Idade Média.

 

Santo Agostinho,

no fim

da Antiguidade,

tinha distin-

guido

a

cidade terrestre

e a

cidade

celeste:

esta

estava sujeita

a

uma

longa

e

difícil

«peregrinação»

neste

mundo

inferior,

em

cujo

interior

era cativa

e

estranha. Mas a

distinção

entre

ambas

essas cidades levan-

tava

um

problema: quando

viria

a cidade onde

«o

amor-próprio

(vai até)

ao desprezo de Deus>>

a dar lugar

à

cidade onde

«o

amor de Deus

(vai até)

ao

desprezo

de

si

próprio»?

Joachim

de

Flore

(que

morreu

em

1202)

respondeu

a

isso.

Dividia

 

a

história

da

Humanidade

em

 

três

épocas.

A primeira,

a

do

Pai,

do

Antigo

Testamento

e

da

família,

fora carnal;

a

segunda,

do Filho,

do

Evangelho e

do sacerdócio,

era

ao

mesmo

tempo

carnal

e

espiritual;

a terceira,

do Espírito

e

das

ordens religiosas, seria

puramente espiritual.

O

ano

de

1260

seria

o início

da

terceira

época.

A esperança no

derruir próximo de

um mundo

clerical

ao

mesmo tempo

ímpio,

racional

e

sensual foi

ainda

por

muito

tempo,

depois

da morte

de

Joachim

de

Flore,

o esteio

de

monges mendicantes, suspeitos

ou

heré-

ticos

-

 

recordemos

Savonarola

e, mais

ainda, certos

ramos descendentes

da ordem

franciscana-,

e

de gente

pobre

que deles

recebia influência.

O

receio

muito

difundido entre os

séculos

XIV

e XVI,

de

um

iminente

Juízo

Fi~al

impediu que

esse estado de

espírito

se

desvanecesse.

Mas

a

Reforma

orientou-o

numa

nova

direcção,

a

do

anabaptismo,

e,

mais

exactamente;

a

do anabaptismo

violento,

pois

que

houve

um

anabap-

tismo pacífico

e pacifista que

sobreviveu

às crises

do século

XVI.

 

Thomas Müntzer

entra

em

cena por volta

de

1520.

Nascido

em

1485,

foi estudante

em Leipzig e

assistiu

à

«disputa»

célebre que em

1519

opôs

nessa

cidade Lutero

a

Johann

Eck

*.

Aderiu

a Lutero, mas

não

por muito

tempo.

Bem

depressa

começou

a

achar

muito

conservadora

e

muito

efeminada

a teologia da

«menina Martinha» , a

quem censurava o

mostrar

um Cristo

«doce

como

o mel».

Em

sua opinião,

era

preciso,

pelo

con-

trário,

acentuar

a rudeza

da

cruz

e

o

carácter

heróico de

uma

que

devia

dar ao

cristão

«a

coragem e

a força

de fazer

o

impossível».

Engels

achou

que Müntzer

tinha

apenas

«uma

máscara bíblica».

Apresentou-o,

face

ao

 

«reformador

burguês

Luterm>,

como

o primeiro

«revolucionário

plebeu»

dos tempos modernos .

A

realidade parece

bem

diferente. Müntzer

pertence

muito

mais

à

Idade Média;

a

sua esperança

era

a

mesma de

Joachim de

Flore.

Tal

como este

-e isto é essencial-,

acreditava

na

proximidade

do

fim \ dos

tempos

e

no

advento

da

época

da·

ceifa.

Os

13

«eleitos» tinham, então ,

de reunir-se,

de

romper com

o

mundo

e com

a

Igreja

corrompida.

Era

tempo

de separar

o

trigo

do joio.

Essa comuni-

dade

de

«santos» ,

na

qual

se

entrava livremente

mediante o

baptismo

adulto, poderia

contentar-se

com ignorar,

tanto

quanto possível,

o mundo

dos

pec a dor es.

Mas Münt zer e

os

seus amigos,

os

«profetas

de Zwickam>,

achavam que

os

«ímpi os»

oprimiam os

«eleitos»

de

uma

forma intolerável

e

que

os

pobres,

os

preferidos

do Senhor,

viam barrado

o caminho

do

Evangelho

e

da

pela

sua:

condiÇão

de

miséria.

Proclamando que

«um

ímpio não

tem

o

direito

de

viver

se

levantar obstáculos aos

homens pios»,

considerando-se

«espada

de

Gedeão»,

Müntzer

chamou

os

humildes

à

revolta.

Confiou-lhes

a

tarefa

de

fazer

triunfar

a

verdadeira

e

de

exterminar os inimigos

de

os ricos e

o clero.

Teve assim

um

papel primacial

na

«guerra

Deus, isto é, camponesa»

que

devastou

uma parte

da Ale-

manha,

em especial a

Saxónia

e

a Turingia,

em

1525.

Os camponeses

foram

esmagados e

dizimados

e Müntzer

foi

torturado

e supliciado.

 
 

Mas

o

anabaptismo

voltou

à

violência

em 1533-1535: foi

a tragédia

de

Münster.

Um

peleiro

da

Suábia,

Melchior

Hoffmann, inicialmente ga-

nho

pelo luteranismo e

depois convertido

ao

 

anabaptismo,

refugiou-se em

1529

em Estrasburgo,

onde começou

a

profetizar

e a

fazer-se passar

por

um segundo

Elias.

Anunciava

o

fim

do

mundo

para

o

ano

de

1533,

dizendo

que

Estrasburgo

seria

a

nova

Jerusalém.

 

Arriscando-se

a

ser

preso,

refugiou-se

nos

Países

Baixos,

onde,

devido

à

sua

pregação,

se

formaram

os

primeiros

grupos

de

anabaptistas holandeses com

o nome

de

«melchioritas».

Chegado

o

ano

de

1533,

Melchior

Hoffmann voltou

a

Estrasburgo

para ali

assistir

ao fim

do

mundo: foi

então preso e

preso

ficou

até

morrer em

1543.

Hoffmann

limitava-se

a anunciar

a iminente

justiça divina,

mas

dois

dos

seus

discípulos,

Jan

Matthijs,

padeiro de

Harlem,

e

Jan

de

Leyden, alfaiate,

resolveram ajudar

Deus

nessa obra

liquidando o mundo

dos pecadores. Com

o auxílio de

anabaptistas expulsos

dos

Países

Baixos, tomaram

Münster,

na

Vestefália (1534)

e

igrejas

o poder em bibliotecas.

e

O

bispo

e

senhor

da

cidade

pilharam conventos, rebelde pôs-lhe

cerco

e, depois

de

Jan

Matthijs

ter

sido morto

durante

uma

surtida,

Jan

de

Leyden proclamou-se rei

da nova

Sião,

dizendo-se

investido

da missão

de

conquistar todos

os países

do mundo .

A poligamia

bíblica

e

a

comunhão

geral

de

bens

foram instituídas na

cidade cercada,

indescritível

atmosfera de

terror e

delírio. Depois de

onde reinava uma horríveis combates,

as tropas

do

bispo

entraram

em

Münste.r

a

24

de

Junho de

1535.

Os chefes anabaptistas foram executados depois de sofrerem

cruéis suplícios

e

os

seus

cadáveres

foram metidos

em gaiolas

de

ferro,

suspensas,

 

para

aviso ; do

alto

de

uma torre.

 
 

O

milenarismo

não

desapareceu

completamente

 

depois

destes

dois

dramáticos

episódios.

Viria

a reaparecer como

fenómeno

colectivo, em

modo menor,

na Inglaterra de

Cromwell e

dos princípios

da Restauração;

e

o «profetismo»

que

se

apoderou

da

população reformada

de

Cévennes

época da

guerra·· da liga

de

Augsburgo

não deixa de

ter

certa relação

14

o m

ele.

Por

outro

lado,

pensadores

isolados

do

Renascimento

como

G uillaume

Postei,

espírito

irénico

 

e sincrético,

e,

especialmente,

Cam-

panella,

continuaram

a

crer

na

iminente realização

do

reino de

Deus .

Na

Cidade

do

Sol,

Campanella

conciliou,

curiosamente,

 

as esperanças

messiânicas e

a

utopia platónica. Mas,

no fim

de contas,

a

esperança no

próxi mo advento

da

cidade

celeste não

se

recompôs

das

duas

grandes

derrot as

dos anabaptistas de

1525

 

e

1535.

Foi

preciso reconhecer

-eis

aqui

outra lição

de

realismo

comparável àquela que

a

América · deu

aos

Europ eus

do século

XVI-

que

a

cidade terrestre, apesar

de todas

as

suas taras, tinha vida

bastante

resistente.

As

decepções

dos anabaptistas

violentos

terão,

talvez,

contribuído

para

fazer

dissipar

o

receio

do

Juí zo

Final,

receio tão

vivo

no início

dos

tempos modernos e

que tantos

vestí gios deixou

na

pintura

da

época.

De qualquer maneira,

é

sintomático

que David

Joris,

outro anabaptista

célebre

do

século XVI

(1501-1556),

ma s

com carácter

e doutrina

pacíficos, proclamando-se o

terceiro

David

da

história- o segundo e o maior teria sido Jesus

Cristo-,

tenha espiri-

tualizado

e

interiorizado

a

apocalíptica

dos melchioritas.

 

De então em

dia.nte

os anabaptistas

não procurariam mais que

fazer

reinar

o espírito

da cidade

celeste

-espírito

de

caridade -

nos

seus

pequenos grupos,

separados

das

Igrejas

oficiais.

 
 

*