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Sentida Homenagem ao

célebre sonêto de
Camilo

Um feixe de testemunhos
insuspeitos sobre o mesmo
Tema, coligidos,
ordenados e glosados por

SANDE BRITO

Coimbra - MCMXXXII
De entrada

Amcius Plato, sed magis amica veritas .

Sócrates – 3.345

Miserium te judico, quia non fuisti misere.

Séneca – 3.378

… Deve o homem contentar-se em sêr estimado


pelo pouco número daqueles que conhecem custo
da desgraça.
Pascal – 7.176
Falam os Santos

O que mete comigo a mão no prato, êsse me há de


trair.
S. Mateus, 26:23

A mão do que me trai está comigo á mesa.

S. Lucas, 21:21
O Célebre sonêto de
Camilo
Amigos cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia !
Supuz que sôbre a terra não havia
Mais ditôso mortal entre os mortais !

Amigos cento e dez tam serviçais,


Tam zelosos das leis da cortesia,
Que, já farto de os vêr, me escapulia
Ás suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoëci profundamente:


Ceguei. Dos cento e déz houve um sòmente
Que não desfez os laços quási rôtos;

- Que vamos nós (diziam) lá fazer ?


Se êle está cego, não nos pode ver !
- Que cento e nove impávidos marôtos !
Os desgraçados é que sabem avaliar os amigos. –
6.714

Ai de ti, quando os teus afetos não fôrem moldados


Pe-las inocentes ilusões duma criança ! – 128

Não dou aprêço nenhum a dedicações inúteis. – 3.514

Em volta da riqueza, da formosura, e dum nome dis-


Tinto, costumam reünir-se muitos amigos … ou, pe-lo
menos, muitos que o parecem … - 3.607

Tudo nêste mundo é imperfeito, sem excepção dos amigos. – 2.554

Trabalho – palavra sagrada que nobilita e


exalta os mais fúteis lavôres do espírito. – 2.534

Camilo Castelo Branco


Têr inimigos parece um género de desgraça ; mas não os têr é
indício certo doutra maior.
P. António Vieira – 3.378
Os sentimentos de amizade devem sêr antes provados por
acções do que lembrados pe-la escrita.
D. Bernardo de Vasconcelos – 6.264
Quando se tem sofrido como eu, e se conhecem os homens e
as coisas da vida, é se desconfiado e duvida-se da felicidade e da
dedicação.
E. Richebourg – 1.295
Houve sempre amigos para tudo.
Fialho – 1.827
Virá o tempo, virão os desenganos, virão as perfídias do amor,
e as brutais lições do egoïsmo universal.
Garret – 6.588
O homem que neste momento está sentado a seu lado, que
reparte com ele e seu pão, e que bebe á sua saúde pelo mêsmo
Copo, será o primeiro que o assassine.
Shakespeare – 4.570
Os bons amigos sam tam raros, que o mais seguro é não acreditar na sua existência.

Experimenta, um dia, os teus amigos: fere-os, nos seus inte-


resses e ambições, ou não lhes afagues a vaidade, e verás quantos te ficam !

Os inimigos sam sempre verdadeiros, e os amigos sam, geral-


mente, falsos. Antes diante da verdade dura e implacável, que
ameaça e persegue, ás claras, outorgando-me o direito da cautela,
do que ao lado da mentira velhaca e traiçoeira, que acarinha e
lisonjeia, destruindo as preocupações e a defêsa, pâra facilitar, um
dia, a prática do crime. A amizade é, muitas vezes, o disfarce dos traidôres.
Há desgraças tam honradas, que tê-las ou padecê-las é vem-
tura; não as têr nem padecer é desgraça.
José Castalia – 3.377 – 3.78

… do certo e fido amigo


E’ não tremer do seu nenhum perigo.
O dinheiro…
Faz traidôres e falsos amigos.
Camões – 6.524 – 6.528
Assim como dois sacos de terra, roçando-se um com o outro,
lançam de si muito pó, assim a amizade de dois amigos de muita
familiaridade e pouca virtude por tempo se descobrem muitos
feitos e mostram o pó da sua cobiça e deslealdade. Prometem
muito e fazem pouco, alargam ás palavras e espraim-se em cum-
primentos, e quando o tempo das obras, metem-se por dentro mais encolhidos
que um caracol na concha.
Heitor Pinto – 6.957
Também não sabe as leis da amizade o que, ouvindo murmurar
ou detrair do amigo, não acode a defender as sua fama, antes se cala,
que vale o mêsmo nestes têrmos que consentir com o murmurador.
P. Bernardes – 6.96I
O fim da amizade é ter alguém que me seja mais caro do que eu
mêsmo, e pe-la salvação de quem daria alegremente a minha vida.
Só os homens sensatos podem ser amigos; os outros não passam de
Companheiros.
Séneca – 3.477
No tempo feliz muitos enumeráveis amigos teremos; no da
desgraça, sós nos acharemos.
Ovídio – 2.330
Sentar-me-ei junto de vós, enquanto me contardes alguma história
agradável para entreter o tempo.
M. Bertram – 4.535
Ninguém vai a casa dos seus amigos se não na esperança de se
divertir lá, e todos tratam de os deixar e de se pôrem ao fresco
apenas lhes cheira a desgosto.
P. de Cock – 324
A não sêr pe-las honrarias ou pelo dinheiro, os homens não se
sacrificam por ninguém.
M. Maryan – 3.224
Dedicação !…… é o nome que se dá em bons têrmos á espe-
ança ambiciosa.
A. Dumas – 1.526
Não há amigos, quando a vida está em jogo.
Mauricio Boue – 5342

No antigo Egipto, o título de «amigo» era negado ao


sacerdotes.
G. Oncken – 7.439
Infelizmente não se diz (na História) em que lugar do Egipto
viveram os bons amigos.
G. Oncken – 7.483
…… sentimentos nobres e generosos, elevados brios, talvez
uma excessiva sensibilidade, e um espírito fácil em impressionar-se;
graves defeitos para quem desejar viver neste mundo.
Há situações na vida em que, para qualquer lado que a resolução
nos encaminhe, gera-se-nos sempre no ânimo um remorso,
Mais ou menos intenso, por haver abandonado os outros.
No meio da pobreza, no meio da miséria, pode nascer ainda
alegria; mas é preciso que haja um olhar de afeição para a criar…
Júlio Dinis – 2.485 – 2.693-2.413
O terror acabou com os mais santos afetos e, até, com o amor
filial e paterno. Cada qual busca salvar-se a si próprio.
Herculano – 17
Não sabes o que é afronta ou a injustiça cruel que esmaga o
coração nobre e enérgico, se este não pode repeti-la e, sem demora,
com o mal ou com a afronta, vinga-la á luz do sol ! Tu não sabes o
que então se passa na alma desse homem. Cujo inteiro desagravo
consiste em deixar fugir uma lágrima furtiva, e que até, ás vezes,
é obrigado a beijar a mão que o feriu nos seus mais santos afetos.
Não sabes o que isto é…
Herculano – 2.233
As palavras que a amizade dita não sam sempre palavras agra-
dáveis de ouvir.
Frederico Valade – 6.183

Ninguém será o último a ser comido.


Homero
Quando alguém tem pão em sua casa, tem
também, em sua casa, amigos.
-Padre Manuel Bernardes-3377

Se tiveres um braço com destreza,


E os teus olhos mostrarem decisão,
Logo em volta de ti se juntarão
Amigos mais que amigos, com certeza.

Se em teu bôlso houver certa redondeza


Capaz de pôr á roda vinho e pão,
Enquanto isso durar, não faltarão
Amigos de verdade… á tua mesa.

Se entrares numa casa restaurante,


Na qual se junte a flor mais elegante
Das rosas e dos cravos nacionais,
Se tens valor por ti ou por os teus bens,
Logo em breve acharás também que tens
Amigos cento dêz, ou talvez mais.
Vida ditosa e serena chama os amigos, e,
apenas bafeja sôpro adverso, fogem todos (devolant omnes).
-Cicero-3377

Talvez não queiras querer no que eu te digo,


Por-que estás numa fase de inocência
Que não permite, á tua conciência,
Sentir o que se está a passar contigo.

Mas, se um dia, por teu maiór castigo,


A desgraça te dér clarividência,
Nem com lanternas de alta transparência
Encontrarás a sobra de um amigo.

O tempo de ilusões… depressa passa !


E, quem cair no abismo da desgraça,
Verá fugir de si quem mais se unia.

Por mim, já tive as horas confirmantes….


Amigos dos mais ricos, e abundantes
Eu já contei. Vaidades que eu sentia !
E a verdade verdadeira acoocordada há seis
mil anos no fundo do seu pôço, a rir, a rir, a rir, que
já não pode ter as ilhargas. Coitada da pobre verdade !

-Alexandre Herculano- 3009

Também, em tempos idos, não supuz


Que os homens fôssem isto que estou vendo…
Nem quantas coisas más (que mal entendo)
Se escondem nas penumbras duma cruz.

Também eu não sonhei que houvesse Luz


Nos poços em que a luz se está fazendo…
Mas as chamas, que ao vivo estou sofrendo,
Ensinaram-me o que a fala não traduz.

Antes de vêr as fábricas de loucos,


E que a vida vai sendo gasta, aos poucos
Num reduto que ás honras ludibria,

Pobre tôlo que eu era em tal Judeia!…


Tal sistema de caça á mente alheia
Supuz que sobre a terra não havia.
As amizades nunca passam de alianças que
o interesse, na hora inquieta da defesa, ou na
hora sófrega do assalto, ata apressadamente
com um cordel apressado, e que estalam ao
menor embate da rivalidade ou do orgulho.

- Eça de Queiróz – 2784

Antes de eu perceber que as amizades


Podem trair incautos pensamentos,
E que nunca deixou de haver conventos
Ao serviço do mêdo ás qualidades;

Antes de vêr caprichos e vaidades


Torturando quem tinha sentimentos,
E que o mundo tolera os instrumentos
Com que se encobre um mar de crueldades;

Antes de sêr forçado a reumatismos


E a venenos tomados entre abismos,
E ás dores de que troças canibais;

Onde morava então… eu não sabia !


E supunha que o mundo não teria
Mais ditôso mortal entre os mortais !
Aqueles que ele protegêra fôram os mésmos
que o derribaram, sem que le ao menos tivesse
o direito de lhes chamar ingratos.

-Victor Hugo- 4536

Enquanto em minha voz houvera brilho


E, na carteira, fundos prestimosos,
Fui sempre tendo amigos carinhosos,
Como se eu fôra deles pai ou filho.

Mas, depois que a manobra dum sarilho


Me empurrou a domínios tenebrosos,
Que mirram braços sãos e vigorosos,
Todos fogem do miséro empecilho…

Contudo, fez ministros, senadores,


Ajudou a formar alguns doutores,
Mas não vendeu seus filhos nem seus Pais !

E, como tal capricho é crime horrendo,


Cá das sombras ao longe, estou eu vendo
Amigos cento e dez tam, serviçais…
Acautela-te bem daquêles que te rodeiam, e
desconfia.
Luigi Motta- 1744

Na tua convivência social


Não acharás maior elevação
Do que aquela que eu vi, na multidão
De amigos, neste enorme Carnaval.

Dispunham uns… de farto capital;


Uns outros… de esmerada ilustração;
Uns e outros… da eterna condição
Que vale as honras deste pedestal.

Jogam-me hoje pedradas contundentes


Alguns que, pâra darem pasto aos dentes,
Recorrêram á minha economia.

Nesse tempo, captando os meus afetos,


Eram todos tam listos, tam corretos,
Tam zelosos das leis da cortesia!...
Ajuda-te a ti mesmo ; depois todo o mundo
te ajudará.

-Nietzche-1852

Enquanto me sentiram influência


E valor, dalgum modo aproveitável,
Não me faltou assédio respeitável,
Que me envolvia em tratos de excelência.

Tinha amigos com tanta permanência,


Que o meu tempo seria insuportável,
Se a tôdos respondêsse ao modo afável
Da sua tam afável convivência.

Devem-me, alguns, rendosas posições;


E slavei, de bem graves situações,
A muitos, a quem eu então valia.

Emfim: eu tive amigos tam decentes


Tam tenos, tam gentisn tam permanentes,
Que, já farto de os vêr, me escapulia.
Talvez os leitores já estivessem imaginando
que este homem trouxera ainda quatro amigos
para a adversidade, sem serem livros.
Custa-me desengana-los ; mas não trouxe.

-Júlio Diniz-2360

Contei amigos, entre os mais graúdos,


Uns cento e déz (afora as miüdezs),
Com tantas aturadas gentilezas,
Que só podem cantar-se em versos mundos…

Quando viram quen ferros ponteagudos,


Da minha vida e bens fizeramm prêsas,
Acudindo aos meus rogos e tristezas,
Enviaram-me cento e dez escudos…

Tantos e tais amigos, desde então,


Eu recomendo á nova geração
Que procura as verdades imortais;

E, de Deus me concede o senso erquido,


Aqui trago este preito, que é devido
Ás suas curvaturas vertebrais.
O filosofo suíço que escreveu… «As pedras
falarão» … devia ter acrescentado: «Quando
compreenderão os homens a sua linguagem?...

-Pierre de Coulevain- 4378

As pedras falam ! Fala a Natureza !


Fala a noite, as estrelas e o luar !
Fala tudo o que a mim me faz falar…
E o que é sentido dá-nos mais certeza.

Falam covas que embargam a fraqueza,


Falam rios que correm para o mar;
Mas a vista que passa, sem olhar,
Não vê pedras falando com clareza…

Também eu não vi cedros nem montanhas,


Nem as teias formadas por aranhas,
Fazendo luz na massa inconsciente…

Contudo, vim sentir-lhes traduações,


Quando depois das doces ilusões,
Um dia adoeci profundamente.
O poder que tem a força para ordenar que um
amigo de infância traia a outro e o renegue, e
é obedecido, facilmente se faz obedecer em toda
a parte onde o pão e a vida estão em jogo, e
onde não subsiste nem lealdade nem honre.

-Mark Twaine- 2756

Amigos?!...-Não existem neste abismo,


Por-que o Terror matou as amizades.
Todos erguem, no altar das realidades,
Sacrifícios ás leis do Comodismo

É este o verdadeiro cataclismo


Que ao homem faz perder as qualidades;
E, por mais que se troçam as verdades,
Ninguém sofre um alheio reumatismo.

Doos meus amigos (santas criaturas !)


Um só terá pensado nas torturas
Que, as´ocultas, me matam lentamente.

Ó cumplices comparsas do que se passa!


A quantos faz doer minha desgraça?
-Ceguei! Dos cento e dez houve um somente.
Um sacerdote, vendo-o, passou de largo.
Um Levita, vendo-o, passou-o de largo.
Um samaritano, vendo-o acudiu-lhe e valeu-lhe.
……Qual destes três te parece que foi o próximo daquele
que caiu nas mãos dos salteadores ?

-S.Lucas- x: 30-36

Amigos?!... Este nome traz enganos !


-? Que poderá chamar-se a quem assiste
Aos tratos a que um homem não resiste
Sem a ajuda dos samaritanos?

-? Pensaram, porventura, os mais humanos,


Num engenho que aos olhos faz despiste,
Disfarçando a tortura, que hoje existe,
Mais velhaca do que há trezentos anos ?

Contudo, indiferenças presumidas


Passam por onde um cêrco esconde vidas
Aos olhos de imbecis e laparôtos…

Amigos?! – Os meus ossos, num braseiro,


Alvíçaras prometem ao primeiro
Que não desfez os laços quási rôtos !
O mundo que frequentava é assim feito:
fogem as simpatias quando a fortuna foge.

-João da Mota Prego- 4066

Bem sei que isto não é bom de ouvir,


Por-que todos se julgam mais perfeitos;
Mas, a verdade rija dos conceito,
Quando a sinto como é, não sei mentir.

Bem sei que ainda há distinguir


Nos modos de sentir dos vários peitos;
Mas, perante as violências dos direitos,
O que todos desejam é… FUGIR.

E todos se desculpam como podem


Pondo ao largo as verdades que incomodem,
Curvando-se á razão de têr-de-ser…

Quando, os bons, á desgraça me lançaram,


Todos os meus amigos se afastaram…
-Que vamos nós (diziam) lá fazer ?
O sentimento do remorso deixaria de moer
a consciência, se não fosse sempre acompanhado
de algum reconhecimento da própria responsabilidade.

-D. Roland-Gosselin, O.P. – 9564

Tentem de qualquer modo desculpar-se


Que isso não me arrefece nem me aquece.
A desculpa, em tal caso, reconhece
Que é remorso, talvez a envergonhar-se.

E, quando , no feitio dum disfarce,


O remorso de dentro transparece,
A pessoa que o sente e que o merece,
Não fuja !... Não precisa de ocultar-se !

Mas… (ai de mim ! ) coberto da poeira


Que me forçou á mais cruel cegueira,
Que toda a luz me faz escurecer,

Sinto nojo á desculpa miserável


Que ao mundo diz, dum cego respeitável,
Se ele está cego, não nos pode ver !
Corri o mundo todo, para poder dizer-te;
hoje, que estou bem seguro de que, na terra, predomina
o egoísmo feroz dos homens, gerador de
vilanias e traições, de ódios e vinganças, de roubos
e assassinos, de desonras, calúnias, rebeliões, massacres e guerras.

-José Castália- 3355

Amigos meus ! Vou dar balanço á lista


Dos cento e dez da minha colecção.
Prometo de ir fechar a prelecção,
Porque já sei que o mundo é egoísta.

Um deles, deixou fora a mão do artista,


Por-que, assim, todos cabem na excepção ..
A demonstrar que o cego tinha vista…

Depois desta paráfrase de artigos,


Convoco, ente os meus cento e dez amigos,
Um só, de raciocínio menos botos,

Que sem trair o próprio sentimento


Possa dizer (dos outros que apresento):
-Que cento e nove impávidos marotos!...

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