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DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO EM BELÉM DO PARÁ

DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO PARÁ

EXCELENTISSÍMO SENHOR JUIZ FEDERAL DA ___ VARA DA SEÇÃO
JUDICIÁRIA DO ESTADO DO PARÁ
PRIORIDADE – IDOSOS
“E confesso que, talvez, a história das migrações
humanas, nas suas crônicas, jamais tenha registrado
um drama de igual proporção, somente comparável
com o dos judeus no seu êxodo, diáspora e perseguição
milenária; com o dos povos africanos, a bordo dos
navios negreiros e na escravidão das senzalas; e o das
tribos indígenas, expulsas de suas terras, após a
destruição de suas culturas1.”

A DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO e a DEFENSORIA
PÚBLICA DO ESTADO DO PARÁ, atuando em prol dos SOLDADOS DA
BORRACHA, no uso de suas atribuições, com esteio no artigo 134, caput, da
Constituição, com redação dada pela Emenda Constitucional n.º 80/2014, no art.
4º, inciso VII, da Lei Complementar n.º 80/1994, com redação dada pela Lei
Complementar n.º 132/2009, e no art. 5º, II, da Lei n.º 7.347/1985, com redação
dada pela Lei n.º 11.448/2007, vêm à presença de Vossa Excelência propor a
presente

AÇÃO CIVIL PÚBLICA COM PEDIDO DE CONCESSÃO
DE MEDIDA LIMINAR

1

BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: um pouco-antes e além-depois. Coleção Amazoniana – 1. Editora
Umberto Calderaro. Manaus. 1977, página 257.

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em face da UNIÃO, pessoa jurídica de Direito Público Interno,
situada no endereço profissional Boulevard Castilhos França, 708, Campina, Belém,
Pará, CEP 66010-020, pelos fatos e fundamentos a seguir expostos:

1 DOS FATOS
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Entre 1939 e 1945, a humanidade testemunhou a Segunda Guerra Mundial. O
sangrento conflito teve abrangência global, sendo polarizado por duas alianças
militares opostas: os Aliados, formados notadamente pela Inglaterra, União
Soviética e Estados Unidos da América e o Eixo, constituído, sobretudo, pelo Reich
Alemão, Reino da Itália e o Império do Japão.
Enquanto a Alemanha e a Itália lançaram sua política expansionista em
regiões da Europa e Norte da África, o império japonês expandiu seus tentáculos
territoriais sobre vastas porções da Ásia, dominando a quase totalidade das regiões
produtoras de Borracha no Pacífico.2
Diante desse fato, os Aliados viram-se sem fontes da matéria-prima da
borracha, a qual era uma dos mais importantes materiais empregados na indústria
bélica. De fato, o esforço de guerra, por si só, consumia rapidamente os estoques de
matérias-primas estratégicas, sendo certo, que por conta do bloqueio japonês, a
escassez da borracha assumiu ares de desespero, a ponto de por em cheque a vitória
sobre o Eixo.
A fim de evitar seu colapso civil e militar, o Governo dos Estados Unidos
passou a buscar saídas estratégicas para contornar a escassez de matérias-primas.
2

“No final de 1941, os países aliados viam o esforço de guerra consumir rapidamente seus estoques de matérias-primas
estratégicas. E nenhum caso era mais alarmante do que o da borracha. A entrada do Japão no conflito determinou o bloqueio definitivo dos produtores asiáticos de borracha. Já no princípio de 1942, o Japão controlava mais de 97% das regiões produtoras do Pacífico, tornando crítica a disponibilidade do produto para a indústria bélica dos aliados. “ NECES,
Marcus
Vinicius.
A
heróica
e
desprezada
batalha
da
borracha.
http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/a_heroica_e_desprezada_batalha_da_borracha.html

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Atento para essa realidade, o então Ditador Getúlio Vargas lançou as
atenções ianques para o imenso reservatório natural de borracha da região
amazônica. A conduta do Governo Brasileiro objetivava não só evitar o colapso dos
Aliados, mas garantir o monopólio do Brasil no fornecimento da produção do látex
e obter outras vantagens econômicas com a aproximação política e militar com os
Aliados.
Assim, a diplomacia brasileira e a norte-americana iniciaram intensas e
regulares negociações, que resultaram na celebração dos acordos de Washington.
Em relação à borracha, estabeleceu-se que o governo norte-americano
investiria maciçamente no financiamento de sua produção na Amazônia e, como
contrapartida, o Poder Executivo federal arregimentaria pessoas para trabalhar nos
seringais.
Surge, então, a saga dos soldados da borracha: trabalhadores recrutados,
em especial no Nordeste, pelo aparato repressor do Estado Novo para trabalhar,
como seringueiros, na região amazônica a fim de suprir as necessidades de borracha
da máquina de guerra dos Aliados, bem como os nativos daquela região, os quais,
atendendo a apelo do Governo brasileiro, contribuíram para esse esforço de
guerra.
Infelizmente, o desfecho dessa história revela um dos mais graves episódios
de violação a direitos humanos ocorridos em território nacional, por conta de
condutas comissivas e omissivas, perpetradas por agentes públicos federais, em
pleno regime ditatorial do Estado Novo.
Vítimas do recrutamento ardiloso, de condições de trabalho desumanas e de
total abandono moral e material por várias décadas, os soldados da borracha
sobreviventes e seus sucessores requerem, por meio desta ação, tutela jurídica capaz
de recompor os direitos lesados, o que fazem nos termos da Constituição Federal de

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1988 e dos Tratados Internacionais de Direitos Humanos dos quais o Brasil é
signatário.

1.2 OS SOLDADOS DA BORRACHA DURANTE A SEGUNDA GUERRA
MUNDIAL

1.2.1 Recrutamento e falsas promessas

Objetivando cumprir com o que fora acordado com os EUA nos famosos
acordos de Washington, o governo federal brasileiro, então estruturado como uma
ditadura em moldes fascistas, iniciou o recrutamento de um grande número de
brasileiros, em sua maioria, residentes na Região Nordeste.
Para tanto, foi instituída pelo Decreto-Lei n.º 5.813, de 14 de setembro de
1943, a Comissão Administrativa do Encaminhamento de Trabalhadores para
a Amazônia - CAETA, que transmitiu ao Exército Brasileiro o ônus de alistar os
voluntários à exploração da Borracha.
A fim de garantir o sucesso da empreitada, outro órgão, o Serviço Especial
de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia - SEMTA, criou um
departamento de propaganda, com o objetivo de persuadir, sobretudo, a mão-deobra masculina para se deslocar aos seringais amazônicos. Este serviço convocou
padres, médicos e professores para o recrutamento de todos os homens aptos ao
grande projeto que precisava ser empreendido nas florestas amazônicas.
Descrevendo a Amazônia como oásis de fartura e prosperidade, as atividades
de propaganda do SEMTA foram exitosas, uma vez que atraíram para o
recrutamento milhares de nordestinos abalados pelas frequentes secas e miséria dos

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sertões. Assim, um grande número de sertanejos se dispôs a ser enviado aos
seringais amazônicos, para auxiliar os Aliados na luta contra o Eixo.
Infelizmente, por trás das falsas promessas de vida nova, havia um contrato
de trabalho em condições análogas à de escravos e um ambiente permeado por
doenças tropicais e animais hostis.
Até artistas foram contratados para produzir material de divulgação para
persuadir os nordestinos. Trabalhando no departamento de propaganda do SEMTA,
o artista plástico suíço Jean-Pierre Chabloz (1919-1984) dedicou-se à criação de
estudos, cartazes, folhetos, logomarcas, ilustrações para conferências e a “Cartilha
do Soldado da Borracha” que tinham como único objetivo o de convencer a
transferência de um grande contingente de trabalhadores para a Amazônia.
A seguir, seguem ilustrações da época mostrando o empenho do Governo
Federal em seduzir os trabalhadores do Nordeste para o “inferno verde”:

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Segundo pesquisas históricas, os nordestinos, além de todas as agruras pelas
quais passavam, sofriam discriminação em razão do tipo corporal considerado
inferior. Por isso, eram submetidos a sessões diárias de ginástica para o
melhoramento do vigor físico e construção da disciplina e ideologia militares.
O recruta, após ser adestrado e submetido ao treinamento militar, era
embarcado na cidade de Fortaleza em “modernos navios negreiros”, levando
consigo uma calça de mescla azul, blusa de morim branco, um chapéu de palha, um
par de alparcatas de rabicho, uma caneca, um prato fundo, um talher (garfo e colher
juntos), uma rede e um saco de estopa no lugar da mala e como presente do caridoso
presidente Getúlio Vargas uma carteira de cigarros Colomy.
Amontoados como animais de carga, muitas das vezes sofrendo fome e
humilhações, os soldados da borracha partiam rumo ao “inferno verde”. No meio do
caminho, muitos adoeciam e também descobriam do perigo do navio ir a pique no
meio do mar, caso algum dos submarino alemão o interceptasse e torpedeasse.

1.2.2 Relações de trabalho análogas à escravidão

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Quando chegavam aos seringais depois de uma longa viagem, de
aproximadamente 15 a 60 dias, os soldados da borracha eram entregues ao
seringalista com quem assinavam um contrato de trabalho padrão, disciplinando as
relações de trabalho. O soldado comprometia-se a vender, com exclusividade, o
produto (seringa) ao patrão, mas o preço do látex não correspondia ao esforço
desempenhado.
Na realidade, os trabalhadores eram reduzidos à condição análoga de
escravos, sendo proibidos de realizar culturas de subsistência nas terras do
seringalista, para, assim, se vincularem obrigatoriamente ao barracão e ao seu
respectivo patrão, de quem compravam os gêneros alimentícios.
Segundo o doutrinador Arthur Reis, os preços das mercadorias eram
exorbitantes, razão por que o soldado da borracha encontrava um mecanismo
estrutural que o prendia definitivamente ao seringal pela extração do látex. Diz o
referido autor:
“O seringueiro era uma espécie de assalariado de um sistema absurdo.
Era aparentemente livre, mas a estrutura concentracionária do seringal o
levava a se tornar um escravo econômico do patrão. Com dívida que
crescia rapidamente, porque tudo o que se recebia no seringal era anotado
na sua conta corrente e cobrado: mantimentos, ferramentas, tigelas,
roupas, armas, munição, remédios, etc. (...) E não adiantava argumentar
que o valor cobrado pelas mercadorias era cinco, ou mais vezes maior do
que aquele praticado na cidade.”3

Essa descrição também foi relatada pela Revista Época,4na série de
reportagens, datada do ano de 2002, que denunciou o abandono sofrido pelos
soldados da borracha sobreviventes. Vejamos:

3

REIS, Arthur Cezar Ferreira. Seringal e o Seringueiro. 2ª Ed. Manaus: Editora da Universidade do
Amazonas, 1997, página 77.
4
Revista Época, n.º 306. 29 de março de 2004, PP 54-59.

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“O soldado da borracha já chegava endividado no seringal. O seringalista
anotava cada centavo que gastava com o trabalhador: comida, roupa,
arma, material de trabalho e remédio. O preço das mercadorias no
barracão do patrão era pelo menos o dobro praticado nas cidades. O
pagamento era feito com a produção da borracha- que, essa sim, tinha a
cotação lá embaixo.”

Em síntese, o trabalhador estava sempre endividado com o patrão, o qual lhe
tomava a borracha a um preço baixo e vendia os mantimentos, instrumentos de
trabalhos, e demais insumos a preços altos, estabelecendo a obrigatoriedade deste
comércio desleal. O trabalhador não podia abandonar o seringal até pagar sua
dívida, que nunca conseguia saldar porque o patrão se encarregava de que assim o
fosse.
Quanto à jornada de trabalho, os soldados iniciavam seus trabalhos muito
cedo. Ainda na madrugada, às quatro horas da manhã, saiam de suas taperas para
cortar e colocar as tigelas que serviam como depósito do látex extraído nas árvores
espalhadas no caminho de estradas abertas por elas próprias para o desempenho da
atividade de extração vegetal.
No interior do seringal, os imigrantes trabalhadores, além de sofrer
explorações, sofriam total restrição em sua liberdade de manifestação e expressão,
já que não havia condições nem espaço para demonstração de insatisfação.
Qualquer soldado da borracha que deixasse transparecer insatisfação, ou até mesmo
buscasse desistir do trabalho, era reprimido e, muita das vezes, sofria duras
punições por parte dos patrões seringalistas. Os soldados da borracha descobriam,
no seringal, que a palavra do patrão era a lei.
Era, ainda, proibido o seringueiro abandonar o serviço ou passar para outro
seringal pertencente a outro seringalista sem que houvesse a liquidação das contas e
obrigações contratuais. Relatos da antropóloga Lucia Arrais Morales5 destacam:
5

MORALES. Lucia Arrais. Vai e vem, vira e volta: as rotas dos soldados da borracha. São Paulo:
Annablume Editora, 2002, página 230.

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“Os seringalistas também aplicava recursos (...) havia riscos no seu
investimento. Além de juros pelo capital empatado, ele tinha que contar
com a possibilidade de doença, morte ou fuga do seringueiro. Em
qualquer uma destas situações, perderia dinheiro. Portanto, ele tomava
providências para zelar por seu investimento. Havia força armada
localizada em pontos estratégicos do seringal garantindo a permanência
da mão-de-obra e, consequentemente um nível de produtividade que
auferisse bons lucros. Tentativas de fuga ou apenas o desejo de saldar a
dívida e sair do seringal eram tratadas com severas punições. Ao falarem
sobre o que ouviram dessa época, os soldados da borracha relataram a
presença da instituição do tronco onde o seringueiro era amarrado
durante dias, açoitado e deixado a mercê do ataque de insetos e animais.”

Por fim, todas as soluções dos conflitos ocorridos entre os contratantes
deveriam ser dirimidos junto a Justiça do Trabalho. Tratava-se, evidentemente, de
uma solução puramente simbólica, pois esse ramo do Poder Judiciário era incipiente
na época.
Vê-se, pois, que os soldados da borracha estavam submetidos a todo tipo de
exploração, coação e humilhação no seu cotidiano de trabalho. Ao invés de ter um
inimigo corporificado, esses homens enfrentavam inimigos ferozes e, muitas das
vezes, silenciosos. Viviam batalhas diárias incomuns, tendo que superar o medo,
a solidão, o desprezo do patrão, a angústia, a doença, a fome e a morte dentro das
suas choupanas.
Eles se tornavam reféns do isolamento e, solitariamente, lutavam contra as
adversidades encontradas na mata. Aqueles que buscavam apoio no seringalista, ao
invés de encontrar solidariedade, recebiam palavras duras de ameaças, pois, acaso
não cumprida a meta de produção estipulada, sofreriam graves punições, desde a
proibição de acesso ao barracão (o que implicava na falta de gêneros alimentícios
básicos, ou seja, na fome) até a decretação da sua morte.
Na atividade dos soldados da borracha, destaca-se a junção dos seguintes
fatores: grande nível de improvisação, somado a falta de responsabilidade com as
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vidas e destinos de milhares de famílias nordestinas, a carência organizacional e a
desordem administrativa, todos foram os elementos responsáveis pela grande
catástrofe que foi a atabalhoada convocação dos soldados da borracha para a
Amazônia.

1.2.3 O saldo da catástrofe

Durante a Segunda Guerra Mundial, aproximadamente 60 mil soldados da
borracha foram deslocados para a Amazônia.6 Quase metade desapareceu na selva
ou morreu em razão das péssimas condições de transporte, do alojamento, dos
surtos epidêmicos (malária, febre amarela, beribéri e icterícia), dos ataques dos
animais e índios e da péssima alimentação7.
Sem qualquer demérito aos corajosos “pracinhas”, dados coletados à época
mostram que, dos 20 mil combatentes brasileiros na Itália, 465 morreram
bravamente no conflito.8 Vê-se, pois, que o número de soldados da borracha mortos
é substancialmente superior.
Com o término do conflito, os soldados da borracha sobreviventes foram
desmobilizados. Contudo, grande parte não pôde deixar os seringais, em virtude das
astronômicas dívidas assumidas com os seringalistas/patrões.

6

Sobre as estatísticas, a antropóloga Lúcia Arraias Morales fala da “batalha dos números”. Depois de
reconhecido o desastre, os funcionários do governo tenderam a diminuir as cifras enquanto os denunciadores
a aumentar. As diferenças são grandes. Os primeiros afirmam terem sidos encaminhados 34,4 mil e os outros
54,4 mil entre trabalhadores e dependentes. A própria CPI realizada em 1946 não conseguiu chegar a uma
conclusão a este respeito. Porém, um dos grandes problemas, tanto para a pesquisa realizada pela CPI como
para as próprias famílias dos trabalhadores, foi saber qual tinha sido o destino final de cada um dos
trabalhadores, quantos morreram, as circunstâncias de sua morte e posterior sepultamento.
7
Disponível em http// WWW.ariquemes.com.br e WWW.geocities.com/2a_guerra/borracha.htm.
8
“Estima-se que entre 15 mil a 20 mil soldados da borracha tenham morrido nas profundezas da Amazônia.
Para comparação, o número de brasileiros mortos na Batalha da Europa ficou em 465.” BOTELHO, José
Francisco. In: 10 anos de Aventuras na História: as reportagens fundamentais. São Paulo: Abril, 2013, p.
110.

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O lamentável episódio talvez seja o maior genocídio cometido dentro do
território pátrio no século XX! São palavras do grande estudioso do tema, o
pesquisador amazônida Samuel Benchimol – testemunha ocular responsável pela
brilhante e premiada tese de trabalho intitulada ‘O Cearense na Amazônia: um
inquérito antropogeográfico’ apresentada no X Congresso Brasileiro de Geografia,
realizado no ano de 1944:
“E confesso que, talvez, a história das migrações humanas, nas suas
crônicas, jamais tenha registrado um drama de igual proporção, somente
comparável com o dos judeus no seu êxodo, diáspora e perseguição
milenária; com o dos povos africanos, a bordo dos navios negreiros e na
escravidão das senzalas; e o das tribos indígenas, expulsas de suas terras,
após a destruição de suas culturas9.”

1.3 OS SOLDADOS DA BORRACHA APÓS A SEGUNDA GUERRA
MUNDIAL: A OMISSÃO ESTADO BRASILEIRO
1.3.1 Período democrático (1946 a 1964)

Com a queda do regime ditatorial do Estado Novo e o retorno de instituições
democráticas com a Constituição de 1946, os apelos de milhares de Soldados da
Borracha e de seus familiares chegaram até os gabinetes de deputados federais.
Eram frequentes relatos de esquecimentos, de amarguras sofridas e das
dolorosas consequências resultantes da insalubridade e periculosidade vivificadas
nas regiões inóspitas da Amazônia. Denunciava-se também a mortandade e a falta
da assistência médica contínua e eficiente, bem como as dificuldades de
subsistência daqueles familiares que permaneceram na terra natal.

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BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: um pouco-antes e além-depois. Coleção Amazoniana – 1. Editora
Umberto Calderaro. Manaus. 1977, página 257.

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Preocupado com toda a situação originada pelo denominado “Exército da
Borracha”, o então deputado federal Café Filho apresentou, no dia 3 de julho de
1946, o requerimento n.º 268/1946, objetivando a instauração de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito, para apurar a situação dos que tomaram parte no
Exército da Borracha, ou seja, daquelas pessoas que atenderam ao chamado
patriótico10.
O deputado ressaltou nas justificativas de seu requerimento: o não
cumprimento dos compromissos assumidos pelos agentes recrutadores dos Soldados
da Borracha, a necessidade de apurar a forma que se deu o recrutamento, os
contratos de trabalho injustos, a assistência às famílias, o retorno aos lares, as
enfermidades e a necessidade de se levantar todas as informações necessárias para o
esclarecimento ao público da situação de desgraça a que foram levados milhares de
brasileiros, em nome da produção de matéria-prima na Segunda Guerra Mundial.
Consoante texto publicado no Diário do Congresso Nacional11, o Relatório
Final da CPI, apresentado em reunião de encerramento ocorrida no dia 17 de
setembro de 1946, está dividido nas seguintes partes: introdução; depoimentos;
correspondência; número de emigrantes; mortos e extraviados; o problema
alimentar; assistência médica; falta de unidade nos serviços; o transporte para os
seringais; fracasso? Importância dispendida pelos Estados Unidos; amparo aos
desajustados e conclusões.
Nesse relatório, podem ser destacadas os seguintes testemunhos acerca do
descontrole do Governo Federal em relação ao recrutamento e trabalho dos soldados
da borracha na Amazônia. Vejamos:
Sr. Bartolomeu Guimarães – “Falta de uma indispensável unidade de
comando competente e autorizado, que, subordinado ao seu controle todos esses

10
11

DIÁRIO DA ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE..., 1946, p. 256.
Diário do Congresso Nacional. Ano I. n.º 3. Quinta-feira 26 de setembro de 1946, p. 37.

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departamentos, tirasse dos mesmos os grandes benefícios que estão destinados a
prestar a Amazônia.”
Sr. Paulo Assis - “O SEMTA (Serviço Especial de Mobilização de
Trabalhadores para a Amazônia) fazia o seu trabalho, SAVA (Superintendência de
Abastecimento do Vale Amazônico) cuidava do abastecimento; e o SNAPP (Serviço
de Navegação e Administração dos Portos do Pará) tratava do transporte. Mas não
havia cooperação de trabalho”;
Sr. Carvalho Leal – “insucesso da campanha da borracha residia no
otimismo descabido, na incompreensão ou mesmo na ignorância dos planificadores
e executores da iniciativa. Seus dirigentes tudo pareciam ignorar a respeito da
Amazônia e seu problema”.
Por sua vez, as conclusões do Relatório Final foram divididas nos seguintes
tópicos:
a)

Número de emigrantes: Utilizando o cruzamento de uma informação

repassada pelo depoente Péricles de Carvalho – diretor do Departamento Nacional
de Imigração, com a resposta escrita prestada pelo citado departamento à comissão,
os deputados não conseguiram apresentar nenhum número absoluto. A estimativa
que eles chegaram quanto ao número de encaminhamentos realizados pelos órgãos
oficiais foi de um pouco mais de 52.000 (cinquenta e dois mil) trabalhadores
brasileiros, incluindo neste os familiares.
b) Mortos e extraviados: Infelizmente outro dado importantíssimo que não
foi possível ser apresentado ou fixado pela Comissão de Inquérito foi o número de
mortos e extraviados na Batalha da Borracha.
c) O problema alimentar: Outra conclusão importante a que chegaram os
deputados foi quanto à insuficiência de alimentos durante o desenvolvimento da
Campanha da Borracha. A falta de conhecimento e experiência do meio, dos

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costumes e da Região Amazônica por parte da companhia americana Rubber
Development Corporation contribuiu e muito para o agravamento deste problema.
d) Assistência Médica: Com relação à temática da assistência médica, o
relatório final destacou que, muito embora os trabalhos da SESP/Serviço Especial
de Saúde Pública, devam render elogios tal atenção e cuidado especial aos Soldados
da Borracha não puderam ser sentidos devido à tamanha amplitude e as próprias
condições geográficas da Região Amazônica.
e) Falta de unidade nos serviços: Outros graves problemas indicados no
relatório para o insucesso da campanha relacionado ao material humano foram à
falta de unidade de chefia dos serviços, a ausência de uma maior cooperação entre
as instituições e órgãos responsáveis pela Campanha da Borracha e o
desconhecimento das condições ambientais por parte das autoridades responsáveis.
f) O transporte para os seringais: Neste ponto, o relatório frisa a grande
quantidade de queixas e críticas quanto aos transportes que disseminaram os
Soldados da Borracha no interior da Região Amazônica, principalmente quanto a
grave falha na maneira lamentável e deficiente de transportar as pessoas recrutadas
e suas famílias.
g) Amparo aos desajustados: Outro importante desfecho contido no
relatório é quanto o grande número de trabalhadores desviados na Região
Amazônica devido a sua inadaptação às condições ecológicas e aos meios de
trabalhos peculiares a esse território.
h) Considerações finais: o relatório final aponta quatro conclusões.
1° - Foi das mais oportunas e proveitosas a campanha que se fez na
Assembleia e fora dela, em torno da situação dos ‘soldados da borracha’,
pois teve o mérito de despertar para o problema a atenção dos Poderes
Públicos que, já agora, estão diretamente interessados na sua solução.
2° - Impõe-se, como já reconheceu o próprio governo através de medidas
recentes, o amparo imediato aos ‘soldados da borracha’, que por
quaisquer motivos, não se hajam ambientado na Amazônia e pretendam
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retornar aos pontos de origem, bem assim àqueles que, por doentes, não
se acham em condições de trabalhar após o regresso.
3° - As famílias que ficaram no nordeste e cujos chefes pereceram no
vale Amazônico ou ali permanecem, fazem jus, igualmente à assistência
oficial que lhes fora prometida na fase da propaganda.
4° - Um plano geral de Assistência social e econômica deve ser
elaborado e executado, sem demora, em benefício dos que continuam
votados à produção da borracha, na selva amazônica.
De conformidade com o resolvido pela Comissão, o presente relatório,
com depoimentos tomados e os documentos que acompanham, deve ser
remetido à Câmara dos Deputados, para que promova as medidas
legislativas julgadas necessárias, enviando-se cópia de tudo, por igual, ao
Poder Executivo, para a apuração de responsabilidades. (DIÁRIO DO
CONGRESSO NACIONAL, 1946, p. 37).

Como medida de irrecusável justiça e amparo dos Poderes Públicos a esses
milhares de miseráveis da Batalha da Borracha, os deputados indicaram, como
forma imediata e inadiável de solução, o patrocínio para o retorno desses aos seus
Estados de origem.
Indicaram também como solução a ideia trazida pelo depoente Valentim
Bouças, que propôs, como medida solucionadora, a elaboração de um programa
governamental de reajustamento econômico nos seringais para o amparo aos
homens que ali trabalham e ou trabalhavam, custeado com os recursos oriundos do
fundo especial do Banco da Borracha e os saldos da CAETA/Comissão
Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia.
Antes mesmo do término dos trabalhos da CPI da Borracha, no dia 16 de
setembro, o então Presidente da República Eurico Gaspar Dutra, utilizando da
atribuição conferida pelo artigo 180 da Constituição Federal de 1946, autorizou,
através do Decreto-lei n.º 9.882, 16 de setembro de 1946, a elaboração de um
plano de assistência aos trabalhadores da borracha12.
12

Decreto-Lei nº 9.882 – de 16.09.1946. Autoriza a elaboração de um plano para a assistência aos
trabalhadores da borracha. Art. 1º O Departamento Nacional de Integração* do Ministério do Trabalho,
Indústria e Comércio e a Comissão de Controle dos Acordos de Washington do ministério da Fazenda,
elaborarão um plano para a execução de um programa de assistência imediata aos trabalhadores

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O referido decreto determinava que o Departamento Nacional de Imigração
do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e a Comissão de Controle dos
Acordos de Washington do Ministério da Fazenda elaborassem um plano para a
execução de um programa de assistência imediata aos trabalhadores encaminhados
para o Vale Amazônico durante o período de intensificação da produção da
borracha para o esforço de guerra.
Vale destacar, ainda, que o plano deveria ser elaborado imediatamente e
submetido à aprovação do Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio e do
Ministro da Fazenda. Tendo sido prevista a criação de uma comissão para a
execução desse plano composta pelo Diretor do Departamento Nacional de
Imigração e pelo Diretor Executivo da Comissão de Controle dos Acordos de
Washington sob a presidência do Ministro do Trabalho ou seu representante, tendo
este último à responsabilidade de baixar as instruções e regulamentos de
funcionamento desta comissão.
Em 25 de julho de 1947, foi apresentado o Projeto de Lei n.º 509/1947,
determinando a concessão financeira aos Soldados da Borracha incapacitados e as
famílias dos ausentes ou falecidos em virtude da mobilização para o esforço de
guerra na Amazônia13.
Vê-se, portanto, que o período subsequente à “batalha da borracha” foi
marcado por atividades que, embora reconheçam a grave dimensão do
problema social, tiveram aspecto puramente formal, sem qualquer medida
concreta de melhoria das condições de existência dos soldados da borracha.
Sobraram boas intenções e faltaram medidas concretas.
A própria Comissão Parlamentar de Inquérito, em seu relatório final, omitiuse em apontar responsáveis pela catástrofe resultante da campanha da borracha e até
encaminhados para o Vale Amazônico, durante o período de intensificação da produção da borracha para o
esforço de guerra.
13

DIARIO CONGRESSO NACIONAL, 1947, p.4081
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hoje não se sabe quantos soldados da borracha continuam desaparecidos, quantos
foram escravizados e quantos faleceram. Violações de Direitos Humanos que ainda
não cessaram!

1.3.2 Regime militar (1964-1985)

Durante o regime militar, os soldados da borracha continuaram em situação
de abandono e esquecimento. A visão autoritária ignorou, por completo, os
episódios ocorridos na Amazônia, durante a Segunda Guerra Mundial.
Não poderia ser diferente. Graças ao golpe militar de 1964, autoridades com
o mesmo perfil ideológico das que atuaram no Estado Novo estavam novamente
poder, engendrando projetos econômicos e migratórios, cuja metodologia autoritária
pouco se diferenciava da que fora aplicada duas décadas antes na Amazônia.
Ainda sim, vozes dissidentes não se calaram. Com efeito, no decorrer da
década de 1970, o deputado federal Jerônimo Santana denunciou o calamitoso
abandono sofrido pelo grande contingente humano que ainda vivia marginalizado
na Amazônia, requerendo as devidas providências e o amparo prometido pelo
Estado Brasileiro.
No seu discurso “Os Soldados da Borracha” proferido na Câmara dos
Deputados na sessão de 12 de maio de 1972, ele assim denunciou a vergonhosa
situação:
“Os contratos de trabalho foram cumpridos pelos seringueiros que
prestaram seu trabalho e produziram a borracha em torno da qual foram
mobilizados todos esses esforços; os patrões, porém, nada cumpriram
daquilo estipulado e prometido aos seringueiros. O negócio foi bom para
os seringalistas, que dispuseram de crédito à vontade e farta mão-deobra, que também lhes era oferecida pelo governo. As levas de
seringueiros subiam os rios e os seringalistas, a moda dos senhores de
escravos, em cada localidade escolhiam os que mais lhes agradasse.
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SEMTA, SAVA e CAETA funcionavam como navios negreiros
transportando escravos. Os Soldados da Borracha não tinham os mesmos
direitos dos soldados nos campos da Europa. Seus comandantes eram os
seringalistas que se beneficiavam de seu trabalho e os exploravam de
toda forma. E prova está nos que sobreviveram das doenças e abandono
nos seringais, pois desafiamos que se aponte um deles que prosperou ou
se tornou independente economicamente. Criou-se a estrutura mais
desumana e violenta de que se dá notícia em matéria de relações de
propriedade. Nunca o seringueiro conseguiu ou conseguirá alcançar a
condição de seringalista, pois os favores governamentais no esforço de
guerra e depois dele foram apenas para os seringalistas. (SANTANA,
1972, p. 46-47)”.

1.3.3 Constituição de 1988 aos dias atuais: medidas legislativas tímidas e pouco
eficazes
Com o advento da Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de
outubro de 1988, surgiram avanços em prol dos soldados da borracha; contudo, as
medidas jurídicas foram tímidas em relação ao tamanho das violações de direitos
humanos por eles sofrida.
Exatos 43 (quarenta e três) anos após as agruras sofridas por esses brasileiros
esquecidos nos vales amazônicos, o constituinte de 1988 estabeleceu, no art. 54 do
Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, o benefício assistencial aos
Soldados da Borracha e os seus dependentes, nos seguintes termos:
Artigo 54 – Os seringueiros recrutados nos termos do Decreto-Lei
n°5.813, de 14 de setembro de 1943, e amparados pelo Decreto-Lei n°
9.882, de 16 de setembro de 1946, receberão, quando carentes, pensão
mensal vitalícia no valor de dois salários-mínimos.
§ 1º- O benefício é estendido aos seringueiros que, atendendo a apelo do
Governo brasileiro, contribuíram para o esforço de guerra, trabalhando
na produção de borracha, na Região Amazônica, durante a Segunda
Guerra Mundial.
§ 2º- Os benefícios estabelecidos neste artigo são transferíveis aos
dependentes reconhecidamente carentes.
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§ 3º- A concessão do benefício far-se-á conforme lei a ser proposta pelo
Poder Executivo dentro de cento e cinquenta dias da promulgação da
Constituição.

“Uma questão de ordem puramente emocional”14 essa foi a justificativa dada
pela deputada federal amazonense Beth Azize quanto ao art. 54 dos Atos de
Disposições Constitucionais Transitórios, o qual fora aprovado no dia 21 de junho
de 1988 pelo plenário da Assembleia Constituinte, por 351 votos a favor, 22 contra
e 28 abstenções. Na reportagem do jornal Correio Braziliense, na qual a deputada
foi entrevistada, informa-se, ainda, a inexistência de qualquer discussão sobre a
matéria da concessão da pensão vitalícia aos Soldados da Borracha.
Segundo a parlamentar amazonense, os constituintes utilizaram de um
momento histórico para beneficiar um setor que, há mais de quatro décadas, se
encontrava em total abandono e que necessitava de uma medida com o caráter de
justiça social.
Em seguida, foi editada a Lei nº 7.986, de 28 de dezembro de 1989, que
regulamenta o art. 54 do ADCT. Tal lei foi alterada pela Medida Provisória n.º
1.663-15, de 22 de outubro de 1998, posteriormente, convertida na Lei n.º
9.711/1998, onde passou a se exigir a apresentação de início de prova documental
para a concessão do benefício.
Tal exigência, praticamente, inviabilizou a concessão do benefício aos
seringueiros, pois muitos desses ex-combatentes não possuem quaisquer
documentos exigidos para a comprovação de sua condição. E, em situação pior,
ficaram as viúvas, já que a maior parte dessas senhoras analfabetas encontram todo
o tipo de dificuldades para comprovar que seus esposos foram alistados como
Soldados da Borracha na época da Segunda Guerra Mundial.

14

AZIZE, Beth. Correio Braziliense, Brasília, nº 9197, página 4, 22-6-1988. Disponível em:
http://www2.senado.gov.br/bdsf/item/id/121577 Acesso em agosto de 2012.

19

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Finalmente, no dia 5 de novembro de 2013, o Plenário da Câmara dos
Deputados aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n.º 346/2013,
sugerida pelo líder do governo o deputado Arlindo Chinaglia em desconsideração à
antiga PEC n.º 556/2002, apresentada pela Senadora Vanessa Graziotin, a qual tinha
o aval das associações de soldados da borracha.
Meses depois viria a ser promulgada a Emenda Constitucional n.º 78, de 14
de maio de 2014, que dá nova redação ao caput do art. 54 do ADCT e acrescenta
art.54-A. Após essa emenda, ficou positivada a concessão de uma indenização de
R$ 25 mil reais e a fixação da pensão mensal vitalícia em R$1.500,00, resultando
em aumento concreto de apenas R$144,00 aos cerca de 12 mil soldados da
borrachas vivos e seus dependentes.
Aparentemente e sem a devida profundidade na análise do assunto, uma
grande parte da população pode estar pensando que os soldados da borracha têm e
muito a comemorar com a promulgação da EC n.º 78/2014, a qual saldaria as
dívidas social, patriótica e histórica com esse segmento.
Ledo engano pensar desta maneira! É que o ideal de justiça para os soldados
da borracha e para seus dependentes consiste em obter tratamento jurídico em
patamar similar aos direitos dos pracinhas ou mesmo de outros grupos de pessoas
que foram vítimas de violências praticadas pelo Estado Brasileiro, a exemplo dos
anistiados políticos e dos parentes de desaparecidos políticos, durante o regime
ditatorial pós-1964.
Assim, a Emenda Constitucional n.º 78/2014 não representou a redenção dos
soldados da borracha, mas um engodo simbólico incapaz de trazer efetiva reparação
às feridas do passado, uma vez que a indenização nela prevista tem valor irrisório.

1.4 DA DESIGUALDADE DE TRATAMENTO ENTRE OS PRACINHAS E
OS SOLDADOS DA BORRACHA
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Assim como aquelas pessoas recrutadas para a extração do látex/seringa na
região amazônica, os ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira,
conhecidos como pracinhas, participaram ativamente da campanha criada pelo
governo brasileiro para auxiliar nas atividades em prol dos Aliados durante a
Segunda Guerra Mundial.
Os pracinhas foram recrutados e/ou arregimentados por instituições oficiais
brasileiras, receberam tratamento diferenciado para atuarem em favor da causa
aliada na guerra, além de terem suas tarefas e trabalhos estimulados e vinculados ao
patriotismo e ao dever de contribuir com o seu país durante um período de exceção.
Nos idos dos anos de 1942, o que os diferenciavam dos soldados da borracha
era apenas o lugar de atuação: as pessoas que se tornaram soldados da borracha
foram encaminhadas para os seringais amazônicos e aqueles que escolheram se
tornar pracinhas foram designados para exercerem suas atividades no front da Itália.
Contudo, a legislação que sucedeu ao período da Segunda Guerra foi
responsável por abrir um grande fosso entre o tratamento oferecido pelo Brasil aos
pracinhas e aos soldados da borracha.
Os seringueiros que foram convocados para trabalhar na Amazônia, tendo em
vista o acordo firmado pelo governo brasileiro e americano, que foi homologado por
meio do Decreto-Lei nº 5.813, de 14 de setembro de 1943, não tiveram assegurados
nessa legislação qualquer direito quanto do término do auxílio prestado à causa
Aliada. Neste decreto, apenas ficou estabelecida a estrutura administrativa da
Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia –
CAETA.
A primeira norma editada para assegurar direitos aos ex-combatentes foi a
Lei nº 1.147, de 25 de junho de 1950, que estabeleceu as seguintes medidas de
amparo e assistência: (i) financiamento em condições vantajosas por meio de
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instituto de previdência para aquisição ou construção de moradia; (ii) doação de
terrenos pela União para aqueles não beneficiados pelo referido financiamento; (iii)
preferência no acesso a empregos públicos, mediante concurso; e (iv) preferência na
matrícula dos estabelecimentos de ensino público para o ex-combatente e seus
filhos.
Em seguida, a Constituição Federal de 1967, em seu art. 178, assegurou ao
ex-combatente os seguintes direitos: (i) estabilidade, se funcionário público; (ii)
aproveitamento no serviço público, sem a exigência de concurso; (iii) aposentadoria
com proventos integrais aos 25 anos de serviço efetivo, tanto na Administração
pública quanto iniciativa privada; (iv) promoção, após interstício legal e se
houvesse vaga; e (v) assistência médica, hospitalar e educacional, se carente de
recursos.
Numa comparação entre os direitos dos Soldados da Borracha e dos ExCombatentes da 2ª Guerra Mundial observamos que:
A Lei nº 5.315, de 12 de setembro de 1967, que dispõe sobre os excombatentes da Segunda Guerra Mundial, foi editada para regulamentar o art. 178
da Constituição do Brasil de 1967, tendo sido recepcionada em parte pela
Constituição Federal de 1988. A norma em questão definiu com detalhes quem são
os ex-combatentes e seus direitos garantidos na Constituição.
Foi acrescida mais uma garantia aos ex-combatentes, por meio da Lei nº
5.507, de 10 de outubro de 1968, que estabeleceu prioridade para matrícula nos
estabelecimentos de ensino público de curso médio e dispôs sobre a concessão de
bolsas de estudo para os filhos de ex-combatentes e órfãos menores carentes de
recursos.
Em seguida, foi editada a Lei nº 5.698, de 31 de agosto de 1971, que dispõe
sobre as prestações devidas a ex-combatente segurado da previdência social, norma
essa recepcionada pela Constituição Federal de 1988. A referida legislação detalha a
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relação do ex-combatente com o regime geral da previdência social e a forma de
cálculo dos benefícios em razão da garantia de aposentadoria integral aos 25 anos
de serviço.
Na Constituição Federal de 1988, foram mantidos os direitos ao
aproveitamento no serviço público sem concurso, assistência médica, hospitalar e
educacional e aposentadoria aos 25 anos de serviço e acrescidas às seguintes
garantias no art. 53 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: (i) pensão
especial correspondente à deixada por segundo-tenente, transferível ao dependente e
(ii) prioridade na aquisição da casa própria.
Por fim, para regulamentar a pensão especial devida ao ex-combatente, foi
editada a Lei nº 8.059, de 4 de julho de 1990.
Vale ainda destacar a existência de memorial construído pelo Governo
Federal Brasileiro e que se destina a homenagear todos aqueles expedicionários
brasileiros que foram mortos no front da Itália. Lugar de grande simbolismo pátrio,
onde se dedica a cultivar a memória histórica desses bravos brasileiros.
Trata-se de um Monumento aos Pracinhas ou Monumento aos Mortos da
Segunda Guerra Mundial que desponta na paisagem do Parque e Aterro do
Flamengo na cidade do Rio de Janeiro. Dentro da construção existe um pequeno
museu, com fotos, peças e artefatos usados pelos pracinhas durante a Segunda
Guerra Mundial. O local contém também os nomes de todos os soldados que
tombaram na guerra na Europa, lutando pela Força Expedicionária Brasileira.
No local ainda estão sepultados os restos mortais dos soldados brasileiros
que tombaram na campanha da Itália, e que anteriormente estiveram sepultados
naquele país. Outra homenagem de grande simbolismo pátrio é a participação dos
ex-combatentes expedicionários ainda vivos no desfile em que comemora a
independência do Brasil (o desfile de Sete de Setembro).

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Por outro lado, sem qualquer tipo de honrarias militares (participação no
desfile da independência - 7 de setembro) e sem resgate da memória histórica
nacional (seja através de mausoléus ou de monumentos que busquem cultivar o
civismo e o patriotismo das gerações que sucederam, seja através dos livros oficiais
da História Brasileira) estão os soldados da borracha ainda vivos.
A situação desses idosos é calamitosa e de completo abandono por parte das
autoridades do nosso país. Estas que, infelizmente, pouco conhecem a história da
importante participação dos soldados da borracha na Segunda Guerra Mundial e,
por isso, não buscam também valorizar a figura destes heróis nacionais.
Note-se que, enquanto os pracinhas foram recebidos como heróis nacionais,
foram incluídos no serviço público, tiveram acesso aos hospitais pertencentes ao
Ministério da Defesa, receberam salários e atualmente percebem aposentadoria
correspondente ao soldo militar de um segundo-tenente, os soldados da borracha
ainda vivos só a partir da Constituição de 1988, exatos quarenta e três anos depois
do fim da Segunda Guerra Mundial, passaram a receber um benefício assistencial na
forma de pensão vitalícia correspondente a dois salários-mínimos (ADCT - art. 54)
e, ainda sim, tendo que cumprir o requisito legal irrazoável de apresentar início de
prova material, consideradas as condições fáticas que envolve o caso.
Por força da Emenda Constitucional n.º 78, de 14 de maio de 2014, que dá
nova redação ao caput do art. 54 do ADCT, previu-se a concessão de indenização
de R$ 25 mil reais. Trata-se de beneplácitos irrisórios quando comparados aqueles
conferidos aos soldados que foram para o front .

1.5 EPÍLOGO FÁTICO

A atual situação dos Soldados da Borracha é de completo abandono. Toda a
exploração, coisificação e humilhação por eles sofrida não foi capaz de sensibilizar
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os mandatários da nação e as maiorias parlamentares no sentido de implementar
mudanças concretas para reversão da dura realidade enfrentada pelo grande
contingente de flagelados.
Uma conclusão salta aos olhos: o governo brasileiro, durante a Guerra,
preocupou-se, unicamente, com a produção de borracha, esquecendo-se da situação
dos trabalhadores, enquanto seres humanos dotados de dignidade.
Após o conflito, os sobreviventes foram relegados à própria sorte. Sequer
houve responsabilização das autoridades públicas e privadas que engendraram a
catástrofe descrita nesta peça e que foi tão bem analisada no relatório final da
Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a campanha da borracha.
Mesmo com a Constituição Federal de 1988, as medidas assistenciais não se
efetivaram, sendo irrisória a indenização prevista na Emenda Constitucional n.º 78,
de 14 de maio de 2014, a qual não foi capaz de recompor a dívida da República
Federativa do Brasil para com os nordestinos utilizados na exploração da borracha
durante a Segunda Guerra Mundial.
Os soldados da borracha também são verdadeiras vítimas da Segunda Guerra
Mundial e da ditadura de inspiração fascista conhecida como Estado Novo, cujo
ultraje amargado também tem que ser reparado pela parte ré.

2 DOS DIREITOS
2.1 CONSIDERAÇÕES PROCESSUAIS PRELIMINARES SOBRE A
PRESENTE AÇÃO CIVIL PÚBLICA
2.1.1 Da legitimidade ativa da Defensoria Pública

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Nos termos do art. 134 da Constituição Federal de 1988, a Defensoria Pública é instituição essencial à função jurisdicional do Estado, tendo como missão garantir assistência jurídica integral e gratuita aos necessitados.
Atualmente, a atuação cível da Defensoria Pública não se limita à mera
propositura de ações ou à elaboração de defesas e recursos em processos
individuais, podendo alcançar a tutela jurisdicional de direitos difusos, coletivos e
individuais homogêneos.
De fato, após alteração promovida pela Lei n.º 11.448, de 15/01/2007, o art.
5º, inciso II, da Lei n.º 7.347/1985 passou, expressamente, a contemplar essa
instituição como legitimada ativa para a propositura da ação civil pública. 15
Na realidade, antes mesmo dessa inovação legislativa, havia precedentes
reconhecendo a legitimidade ativa da Defensoria Pública para o ajuizamento de
ações civis públicas. Entendia-se que, sendo legitimados a União e os Estados, as
Defensorias Públicas respectivas, na condição de órgãos daquelas pessoas jurídicas
de direito público, também poderiam ingressar com ações coletivas em juízo. 16 Da
mesma forma, os intérpretes se valiam da redação elástica do art.82, III, do CDC. 17
A abertura das portas do microssistema processual coletivo às Defensorias
Públicas igualmente encontra-se prevista no art. 4º, inciso VII, da Lei
Complementar n.º 80/1994, com redação dada pela Lei Complementar n.º 132/2009,
verbis:

Art. 4º São funções institucionais da Defensoria Pública, dentre outras:

15

Art. 5º Têm legitimidade para propor a ação principal e a ação cautelar:
[…]
II - a Defensoria Pública; (Redação dada pela Lei nº 11.448, de 2007)
16
Neste sentido: REsp 912849/RS, Rel. Min. José Delgado, 1ª Turma, julgado em 26/02/2008, DJe
28/04/2008
17
“Art. 82. Para os fins do art. 81, parágrafo único, são legitimados concorrentemente:
[…] III - as entidades e órgãos da Administração Pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade
jurídica,
especificamente destinados à defesa dos interesses e direitos protegidos por este código;”

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[…] VII – promover ação civil pública e todas as espécies de ações
capazes de propiciar a adequada tutela dos direitos difusos, coletivos ou
individuais homogêneos quando o resultado da demanda puder beneficiar
grupo de pessoas hipossuficientes;

Por fim, por força da Emenda Constitucional n.º 80, de 04 de junho de 2014,
o art. 134, caput, da Constituição Federal passou a ter a seguinte redação:

Art. 134. A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à
função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e
instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação
jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus,
judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma
integral e gratuita, aos necessitados, na forma do inciso LXXIV do art. 5º
desta Constituição Federal.

Nota-se, portanto, que a atribuição de defesa dos direitos coletivos passou a
ter envergadura constitucional, o que afasta qualquer dúvida, por ventura ainda
existente, sobre a constitucionalidade da legislação que legitima a Defensoria
Pública para ajuizar ações civis públicas.
Portanto, todos esses dispositivos legais e constitucionais tornaram clara a
seguinte regra jurídica: a Defensoria Pública tem legitimidade para patrocinar
interesses de necessitados por meio de demandas coletivas.
Aqui, dúvidas não há de que os soldados da borracha vivos e os dependentes
daqueles falecidos são pessoas em situação de hipossuficiência econômica
(necessitados), eis que a renda média de seus núcleos familiares gira em torno de
dois salários-mínimos (art. 54 do ADCT).
Tais pessoas tem idade média de 85 anos e, em sua maioria, vivem nas zonas
rurais de baixo IDH na região Amazônica ou no Nordeste. Para elas o acesso à
justiça é extremamente difícil, senão impossível por meio da advocacia privada,

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razão por que os soldados da borracha e seus dependentes são um grupo de pessoas
com o perfil de assistidos da Defensoria Pública.

2.1.2 Abrangência territorial da decisão: eficácia nacional da sentença coletiva
Nos termos do art. 16 da Lei n.º 7.347/1985 (Lei da Ação Civil Pública), na
redação que lhe foi dada pela Lei n.º 9.494/1997, estabeleceu-se que a "a sentença
civil fará coisa julgada erga omnes, nos limites da competência territorial do órgão
prolator [...]". Vê-se, pois, que o legislador criou uma restrição aos efeitos da
sentença proferida no julgamento de pedidos contidos em ações civis públicas.
Na prática, se um juiz federal de uma dada Seção Judiciária, por exemplo,
profere uma sentença coletiva no julgamento de ação civil pública, os efeitos do
decisium seriam restritos ao âmbito territorial dessa Seção Judiciária, englobando
somente as pessoas físicas e jurídicas lá residentes, bem como órgãos e entidades
públicas lá existentes.
Com isso, buscou o legislador, animado por espírito conservador, evitar que
uma sentença coletiva tenha efeitos mais amplos, como regionais ou nacionais. A
decisão, portanto, deve ficar acantonada aos limites territoriais da competência do
juízo, não podendo abranger limites além de sua jurisdição.
Não é preciso muito esforço para perceber que se trata de disposição
processual que, se interpretada em sua literalidade e fora de contexto, esvazia por
completo a razão de ser dos processos coletivos (celeridade e economia processuais,
evitando o efeito multiplicador de demandas). Nesse sentido, vejam-se as lições de
Leonel Ricardo Barros:

A necessidade de reconhecimento de maior extensão aos efeitos da
sentença coletiva é consequênciada da indivisibilidade dos interesses
tutelados (material ou processual [no caso específico dos direito
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individuais]), tornando impossível cindir os efeitos da decisão judicial,
pois a lesão a um interessado implica lesão a todo, e o proveito a um a
todos beneficia. É a indivisibilidade do objeto que determina a extensão
dos efeitos do julgado a quem não foi “parte” no sentido processual, mas
figura como titular dos interesses em conflito18.

Dentro de uma perspectiva constitucional, a interpretação literal do art. 16 da
Lei n.º 7.347/1985 viola o princípio do acesso à justiça, sendo curial reconhecer a
inconstitucionalidade material dessa limitação da atuação jurisdicional, uma vez que
a Constituição de 1988, em seu art. 5º, XXXV, reconhece o direito à ação coletiva.
Nesse passo, considerando que os soldados da borracha e seus dependentes
encontram-se dispersos em áreas do Norte (em especial, no Acre, Amazonas, Pará e
Rondônia) e do Nordeste do país (em especial no Ceará e no Maranhão), sendo
vítimas de violações aos seus direitos básicos ao longo dos anos, vê-se que o dano
extrapola a jurisdição da Subseção Judiciária do Pará. Claramente, uma sentença
limitada aos limites do órgão prolator seria um ato de eficácia mínima.
Portanto, dependendo do caso concreto, os efeitos da decisão podem
abranger todo o território nacional ou local diverso da jurisdição do juízo, quando o
dano se perpetuar em mais de um município, dentro ou não de mesmo Estado.
Assim, em relação à abrangência da decisão na presente ação civil pública, a melhor
solução consiste na aplicação subsidiária do art. 93 da Lei nº 8.078/1990 (Código de
Defesa do Consumidor):

Art. 93. Ressalvada a competência da Justiça Federal, é competente para
a causa a justiça local:
I - no foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano, quando de
âmbito local;
II - no foro da Capital do Estado ou no do Distrito Federal, para os danos
de âmbito nacional ou regional, aplicando-se as regras do Código de
Processo Civil aos casos de competência concorrente.
18

LEONEL, Ricardo Barros. Manual do processo coletivo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002, p. 259.

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O emprego desse dispositivo em relação às ações civis públicas em geral
possui expressa autorização no art. 21 da Lei nº 7.347/1985, verbis:

Aplicam-se à defesa dos direitos e interesses difusos, coletivos e
individuais, no que for cabível, os dispositivos do Título III da Lei n.º
8.078, de 11 de setembro de 1990, que instituiu o Código de Defesa do
Consumidor.

Portanto, há que se observar, no efeito da sentença, não os aspectos da
organização judiciária (limites territoriais da comarca, da seção ou da subseção),
mas a extensão do dano:
(...) A regra do art. 16 da Lei 7.347/85 deve ser interpretada em sintonia
com os preceitos contidos na Lei 8.078/90, entendendo-se que os "limites
da competência territorial do órgão prolator", de que fala o referido
dispositivo, não são aqueles fixados na regra de organização judiciária,
mas, sim, aqueles previstos no art. 93 do Código de Defesa do
Consumidor. Assim: a) quando o dano for de âmbito local, isto é, restrito
aos limites de uma comarca ou circunscrição judiciária, a sentença não
produzirá efeitos além dos próprios limites territoriais da comarca ou
circunscrição; b) quando o dano for de âmbito regional, assim
considerado o que se estende por mais de um município, dentro do
mesmo Estado ou não, ou for de âmbito nacional, estendendo-se por
expressiva parcela do território brasileiro, a competência será do foro de
qualquer das capitais ou do Distrito Federal, e a sentença produzirá os
seus efeitos sobre toda a área prejudicada (...).19

Assim, à luz do dispositivo supracitado (art. 93 da lei nº 8.078/1990) e do
caráter transcendente do caso, bem como dos reflexos dos danos para todo território
nacional, pugna-se que a decisão a ser proferida nestes autos não reste adstrita a
uma única região/ âmbito da jurisdição deste Juízo, mas a todo o país.
19

Nesse sentido, conferir: AG 2006.04.00.026331-1/SC, Rel. Min. Ricardo Teixeira do Valle Pereira, DJU
01/11/2006, p. 766/768.

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2.2 DAS GRAVES VIOLAÇÕES A DIREITOS HUMANOS SOFRIDAS
PELOS SOLDADOS DA BORRACHA
2.2.1 Violações à Declaração Universal dos Direitos do Homem e ao Pacto
Internacional de Direitos Civis e Políticos
Com o término da Segunda Guerra Mundial, os direitos humanos passam por
processo de positivação em tratados e convenções internacionais, com a finalidade
de proteger e promover a dignidade humana e a paz a nível mundial, mediante
garantias internacionais institucionalizadas.
Nesse contexto, o marco inicial desse processo de consolidação
internacional dos direitos humanos é a Carta das Nações Unidas de 1945.20 Em
suas justificativas, o texto assinala a necessidade de “preservar as gerações
vindouras do flagelo da guerra” e “reafirmar a fé nos direitos fundamentais do
homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos
homens e das mulheres”. Seu artigo 55, c, assinala a necessidade de os Estados
membros das Nações Unidas favorecer o “respeito universal e efetivo dos direitos
humanos e das liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo,
língua ou religião.”
A Carta das Nações Unidas não elencou um rol de direitos humanos. Em
razão dessa omissão, em 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral da ONU
promulgou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Inicialmente, tratavase de mera declaração de cunho político e moral; contudo, passou a ser reconhecida

20

Promulgada pelo Decreto n.º 19.841, de 22 de outubro de 1945.

31

DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO EM BELÉM DO PARÁ
DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO PARÁ

como fonte do direito internacional na condição de costume internacional.21
Portanto, cuida-se de documento de indiscutível força normativa.
Poucos anos depois, foram discutidos e assinados por diversas nações o
Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos22 e o Pacto Internacional de
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais23.
Note-se que o que diferencia os Direitos Humanos dos demais direitos é a
proteção de “bens básicos”, os quais favorecem qualquer plano de vida. Tais bens
básicos são a liberdade, a igualdade, a justiça, a paz, a segurança, entre outros.
Não bastasse estar inserida na Segunda Guerra Mundial, cujas atrocidades
são a fonte material do processo de universalização dos humanos, a “Batalha da
Borracha” e seus posteriores desdobramentos em relação aos soldados da borracha
revelam uma série de violações a direitos previstos na Declaração Universal e no
Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos.
De fato, o recrutamento ardiloso dos soldados da borracha organizado pelo
SEMTA, as condições degradantes de trabalho e o abandono estatal perpetrados
pelo Estado brasileiro, claramente, revelam violações aos seguintes dispositivos da
Declaração Universal dos Direitos do Homem: a) Artigo 3: “Todo o homem tem
direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”; b) Artigo 4: “Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos estão proibidos
em todas as suas formas”; c) Artigo 5: “Ninguém será submetido a tortura, nem a
tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante”.

21

“[...] a Corte Internacional de Justiça decidiu expressamente pelo caráter de norma costumeira da Declaração Universal dos Direitos do Homem, considerada como elemento de interpretação do conceito de direitos fundamentais insculpido na Carta da ONU”. RAMOS, André de Carvalho. O Supremo Tribunal Federal e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. In: Direitos fundamentais no Supremo Tribunal Federal: balanço e crítica. Coord.: SARMENTO, Daniel e SARLET, Ingo Wolfgang. Rio de Janeiro: Lumen Juris,
2011, p. 05.
22
Promulgado pelo Decreto n.º 592, de 6 de julho de 1992.
23
Promulgado pelo Decreto n.º 591, de 6 de julho de 1992.

32

DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO EM BELÉM DO PARÁ
DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO PARÁ

Da mesma forma, as referidas ações e omissões do poder público pátrio
constituem claras violações aos seguintes preceitos do Pacto Internacional dos
Direitos Civis e Políticos: a) Artigo 7 (“Ninguém poderá ser submetido à tortura,
nem a penas ou tratamento cruéis, desumanos ou degradantes. Será proibido
sobretudo, submeter uma pessoa, sem seu livre consentimento, a experiências
médias ou científicas.”) e b) Artigo 8 (1. Ninguém poderá ser submetido á
escravidão; a escravidão e o tráfico de escravos, em todos as suas formas, ficam
proibidos. 2. Ninguém poderá ser submetido à servidão).
2.2.2 Violações à Convenção Interamericana de Direitos Humanos
A saga dos soldados da borracha também traz à luz uma variedade de
violações à Convenção Americana de Direitos Humanos, a qual, por ter como
âmbito o território americano e ser aplicada pela Corte Interamericana de Direitos
Humanos, merece uma análise mais minuciosa.
De fato, o Pacto de São José da Costa Rica consagra, em seus artigos, o
regime de liberdade pessoal e de justiça social, fundado no respeito dos direitos
essenciais do homem, bem como reconhece que os direitos essenciais do homem
tem como fundamento os atributos da própria pessoa humana, razão por que
justificam uma proteção internacional. Mais ainda o artigo 1º determina a todos os
Estados-partes a obrigação de respeito aos direitos e liberdades reconhecidos.

Artigo 1. Obrigação de respeitar os direitos
1. Os Estados-Partes nesta Convenção comprometem-se a respeitar os
direitos e liberdades nela reconhecidos e a garantir seu livre e pleno
exercício a toda pessoa que esteja sujeita à sua jurisdição, sem
discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo, idioma, religião,
opiniões políticas ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou
social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição
social.
33

DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO EM BELÉM DO PARÁ
DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO PARÁ

A Corte Interamericana de Direitos Humanos já se pronunciou anteriormente
a respeito da responsabilidade internacional do Estado em relação a atos violatórios
de direitos humanos:
“Para estabelecer se houve uma violação de direitos consagrados na
Convenção, não se requer determinar, como ocorre em direito penal
interno, a culpabilidade de seus autores, sua intenção, nem é preciso
identificar individualmente os agentes aos quais se atribui os fatos
violatórios. É suficiente a demonstração de que houve apoio ou
tolerância do poder público na infração dos direitos reconhecidos na
Convenção. Ademais, também se compromete a responsabilidade
internacional do Estado quando este não realiza as atividades
necessárias, de acordo com seu direito, para identificar e no caso, punir
os autores das próprias violações.”24

O artigo acima mencionado estabelece claramente a obrigação do Estado de
respeitar os direitos e liberdades reconhecidos na Convenção e garantir o seu livre e
pleno exercício a toda a pessoa a que esteja sujeita a sua jurisdição, de tal modo que
toda violação dos direitos reconhecidos na Convenção que possam ser atribuídos,
conforme as normas de direito internacional, à ação ou omissão de qualquer
autoridade pública, constitui um ato de responsabilidade do Estado, conforme já se
manifestou a própria Comissão Interamericana25:
“O Estado está, por outro lado, obrigado a investigar toda situação em
que se tenha violado os direitos humanos protegidos pela Convenção. Se
o aparato do Estado atua de modo que tal violação reste impune e não se
restabeleça o quanto possível, a vítima na plenitude de seus direitos,
pode-se afirmar que se descumpriu o dever de garantir o livre exercício
das pessoas sujeitas a sua jurisdição.”

24

Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Paniagua Morales y otros, sentença de 8 de março de
1998.
25
Caso Velasquez Rodriguez, sentença de 29 de julho de 1988, par.174. Caso Gondínez Cruz, sentença de 20
de janeiro de 1989, par. 187.

34

DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO EM BELÉM DO PARÁ
DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO PARÁ

No âmbito da referida Convenção, as obrigações constantes dos artigos 1.1 e
2 constituem a base para a determinação de responsabilidade internacional de um
Estado. O artigo 1.1 da Convenção atribui aos Estados Partes os deveres
fundamentais de respeitar e de garantir os direitos, de tal modo que todo menoscabo
aos direitos humanos reconhecidos na Convenção que possa ser atribuído, segundo
as normas do direito internacional, à ação ou omissão de qualquer autoridade
pública, constitui fato imputável ao Estado, que compromete sua responsabilidade
nos termos dispostos na mesma Convenção.

2.2.2.1 Direito à vida

O artigo 4 da Convenção Interamericana de Direitos Humanos determina o
respeito ao Direito à vida, sem que haja qualquer tipo de discriminação por
condição social: “Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida.”
A Corte Interamericana reiteradamente afirma que o direito à vida é um
direito humano fundamental, cujo gozo constitui um pré-requisito para o desfrute de
todos os demais direitos do ser humano. Em razão do caráter fundamental do direito
à vida, não são admissíveis enfoques restritivos a tal direito26.
Em virtude deste papel fundamental que se atribui ao direito à vida na
Convenção, a Corte tem reiteradamente afirmado em sua jurisprudência que os
Estados têm a obrigação de garantir a criação das condições necessárias para que

26

Cf. Caso Baldeón García; Caso Comunidade Indígena Sawhoyamaxa; Caso do Massacre de Pueblo Bello;
Caso do Massacre de Mapiripán;Caso Comunidade Indígena Yakye Axa; Caso Huilca Tecse, Sentença de 3
de março de 2005. Série C, nº 121, par. 65 e 66; Caso “Instituto de Reeducação do Menor”. Sentença de 2 de
setembro de 2004. Série C, nº 112, par. 156 e 158; Caso dos Irmãos Gómez Paquiyauri. Sentença de 8 de
julho de 2004. Série C, nº 110, par. 128 e 129 ; Caso 19 Comerciantes. Sentença de 5 de julho de 2004. Série
C, nº 109, par. 153; Caso Myrna Mack Chang. Sentença de 25 de novembro de 2003. Série C, nº 101, par.
152 e 153; Caso Juan Humberto Sánchez; e Caso dos “Meninos de Rua” (Villagrán Morales e outros) .
Sentença de 19 de novembro de 1999. Série C, nº 63, par. 144.

35

DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO EM BELÉM DO PARÁ
DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO PARÁ

não se produzam violações a esse direito inalienável e, em particular, o dever de
impedir que seus agentes atentem contra ele.
Observa-se que o artigo 4 do Pacto de São José da Costa Rica garante, em
essência, não somente o direito de todo ser humano de não ser privado da vida
arbitrariamente, mas também o dever dos Estados de adotar as medidas necessárias
para criar um marco normativo adequado que dissuada qualquer ameaça ao direito à
vida; estabelecer um sistema de justiça efetivo, capaz de investigar, castigar e
reparar toda privação da vida por parte de agentes estatais ou particulares; e
salvaguardar o direito de que não se impeça o acesso a condições que assegurem
uma vida digna, o que inclui a adoção de medidas positivas para prevenir a violação
desse direito.27
A Corte Interamericana tem subscrito sistematicamente sobre o caráter
especial dos direitos à vida e a um tratamento humano. Vejamos:
“Los derechos a la vida a un trato humano son centrales para la Convención
[Americana]. De acuerdo con el Artículo 27(2) de dicho tratado, esos derechos
forman parte del núcleo no derogable, porque han sido establecidos como
derechos que no pueden ser suspendidos en caso de guerra, peligro u otras
amenazas a la independencia o seguridad de los Estados partes.”28

Como o direito a vida é tão essencial para o exercício de todos os demais
direitos, o Estado tem uma obrigação particular de protegê-lo e preservá-lo, assim
como de evitar a sua violação. Também faz parte do entendimento da Corte:
27

Cf. Caso Baldeón García; Caso Comunidade Indígena Sawhoyamaxa; Caso do Massacre de Pueblo Bello;
Caso do Massacre de Mapiripán; Caso Comunidade Indígena Yakye Axa; Caso Huilca Tecse, Sentença de 3
de março de 2005. Série C, nº 121, par. 65 e 66; Caso “Instituto de Reeducação do Menor”. Sentença de 2 de
setembro de 2004. Série C, nº 112, par. 156 e 158; Caso dos Irmãos Gómez Paquiyauri. Sentença de 8 de
julho de 2004. Série C, nº 110, par. 128 e 129 ; Caso 19 Comerciantes. Sentença de 5 de julho de 2004. Série
C, nº 109, par. 153; Caso Myrna Mack Chang. Sentença de 25 de novembro de 2003. Série C, nº 101, par.
152 e 153; Caso Juan Humberto Sánchez; e Caso dos “Meninos de Rua” (Villagrán Morales e outros) .
Sentença de 19 de novembro de 1999. Série C, nº 63, par. 144.
28
Corte IDH, Caso de la Masacre de Pueblo Bello vs. Colombia. Sentencia de 31 de enero de 2006. Serie C
no. 140, párr.. 219. Ver también: Corte IDH, Caso Bámaca Velasquez Vs. Guatemala. Sentencia de 25 de
noviembre de 2000. Serie C No. 70.

36

DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO EM BELÉM DO PARÁ
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“Los Estados tienen la obligación de garantizar la creación de las
condiciones que se requieran para que no se produzcan violaciones de
ese derecho inalienable y, en particular, el deber de impedir que sus
agentes atenten contra él. El cumplimiento de las obligaciones impuestas
por el artículo 4 de la Convención Americana, relacionado con el artículo
1.1 de la misma, no sólo presupone que ninguna persona sea privada de
su vida arbitrariamente (obligación negativa), sino además, a la luz de su
obligación de garantizar el pleno y libre ejercicio de los derechos
humanos, requiere que los Estados adopten todas las medidas apropiadas
para proteger y preservar el derecho a la vida (obligación positiva). (...)
En razón de lo anterior, los Estados deben adoptar las medidas
necesarias, no solo a nivel legislativo, administrativo y judicial, mediante
la emisión de normas penales y el establecimiento de un sistema de
justicia para prevenir, suprimir y castigar la privación de la vida como
consecuencia de actos criminales, sino también para prevenir y proteger
a los individuos de actos criminales de otros individuos e investigar
efectivamente estas situaciones.29”

2.2.2.2 Direito à integridade pessoal, à honra, à dignidade e à proteção da família

Nos termos do Artigo 5 da Convenção Interamericana, consagra-se o Direito
à integridade pessoal, segundo o qual “toda pessoa tem o direito de que se respeite
sua integridade física, psíquica e moral.”
O direito à integridade pessoal, como os outros Direitos Humanos, é inerente
à pessoa com relação a sua natureza humana. Esse direito assegura a integridade
física e psicológica das pessoas e proíbe a ingerência arbitrária do Estado e dos
particulares nesses atributos individuais. Implica em um sentido positivo, i) o direito
a gozar de uma integridade física, psicológica e moral 30 e em sentido negativo, ii) o
dever de não maltratar, não ofender, não torturar e não comprometer ou agredir a
integridade física e moral das pessoas31.
29

Corte IDH. Caso de la Masacre de Pueblo Bello vs. Colombia. Sentencia de 31 de enero de 2006. Serie C
no. 140, párr.. 120.
30
CORTE CONSTITUCIONAL DE COLOMBIA. Sentencia T-427 de 1998.
31
CORTE CONSTITUCIONAL DE COLOMBIA. Sentencia T-427 de 1998.

37

DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO EM BELÉM DO PARÁ
DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO PARÁ

É um direito que está vinculado necessariamente com a proteção à dignidade
humana e tem estreita relação com outros direitos fundamentais, como o direito à
vida e à saúde. Sendo também possível fixar entre esses três direitos uma diferença
baseada no objeto jurídico protegido de maneira imediata.
“A vida protege de maneira próxima o ato de viver e a qualidade de vida
das pessoas em condições de dignidade. A integridade pessoal, por sua
vez, protege a integridade física e moral, a plenitude e a totalidade da
harmonia corporal e espiritual do homem, bem como o direito à saúde, o
normal funcionamento orgânico do corpo e o adequado exercício das
faculdades intelectuais” 32.

É de tamanha importância que a Convenção Americana o protege
particularmente ao estabelecer a proibição da tortura, tratos cruéis, inumanos e
degradantes, assim como a impossibilidade de suspendê-los durante estados de
emergência,33 devendo os Estados adotar todas as medidas apropriadas para garantilo.
A falta de respeito e a manutenção de abandono ao longo do tempo sofrida
pelos soldados da borracha revela o indesculpável desrespeito as leis brasileiras e a
Convenção Americana. Situação que delata a falta de respeito com a dignidade
humana e integridade psíquica e moral dos antigos recrutados pelo governo
brasileiro!
Os demais direitos fundamentais, como aqueles relativos à saúde, à
integridade física e moral e ao tratamento digno não podem continuar a ser afetados
e violentados pelo grave abandono das autoridades brasileiras. É o teor do artigo 11
da Convenção Americana de Direitos Humanos:

32

REYES V, Alejandra. El derecho a la integridad, p. 17-19.
Artículos 5 y 27 de la Convención Americana. Véase, además, Caso “Instituto de Reeducación del
Menor” Vs. Paraguay. Excepciones Preliminares, Fondo, Reparaciones y Costas. Sentencia de 2 de
septiembre de 2004. Serie C No. 112, párr. 157.
33

38

DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO EM BELÉM DO PARÁ
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Artigo 11. Proteção da honra e da dignidade
1. Toda pessoa tem direito ao respeito de sua honra e ao reconhecimento
de sua dignidade.
3. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais ingerências ou tais
ofensas.

Vale destacar que a situação enfrentada por muitas famílias de soldados da
borracha revela também violação ao artigo 17 da Convenção Americana de Direitos
Humanos (proteção da família), pois existem relatos e fontes históricas que
confirmam o recrutamento pelo Governo Brasileiro de jovens com 16 anos para a
participação na batalha da borracha34.
Muitos dos soldados da borracha foram afastados dos seus entes queridos e,
por não ter sido garantindo o retorno a sua terra natal após o término da Segunda
Guerra Mundial, mesmo sendo esse um dos compromissos assumidos pelas
autoridades da época, inúmeros laços familiares foram rompidos.
Infelizmente, é frequente o relato de que muitos não puderam enterrar seus
pais e irmãos que faleceram com o passar dos anos, já que não sabia do paradeiro
dos seus parentes.
O meio familiar exerce uma das mais importantes influências no
desenvolvimento das capacidades cognitivas e na estruturação das características
afetivas dos filhos. A família desempenha um papel de extrema importância no
desenvolvimento da sociedade, uma vez que é através desta saudável relação que se
constroem pessoas adultas com uma determinada autoestima e onde estas aprendem
a enfrentar desafios e a assumir responsabilidades, tendo por isso sua proteção
consagrada tanto pelo Estado quanto pela sociedade.
Infelizmente, o Estado Brasileiro violou o seu dever de proteção quando não
garantiu o retorno do soldado da borracha a sua terra natal e por ter sido o vínculo

34

Artigo 17. Proteção da família1. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e deve ser
protegida pela sociedade e pelo Estado.

39

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familiar desfeito e só reconstituído muitas décadas após. Esse grave desrespeito
gerou graves consequências tanto no aspecto psicológico quanto no processo de
desenvolvimento da sociabilidade de muitos soldados da borracha, pois, ao invés de
eles terem asseguradas e estimuladas as ligações afetivas entre seus familiares
(relações que favoreciam a aprendizagem e a formação da personalidade no
momento em que deveria ter sido proporcionada melhores condições para os seus
desenvolvimentos enquanto seres humanos), as autoridades brasileiras estimularam
o abandono, a negligência, a falta de cuidado, a revolta e não protegeram a família
como deveria ter sido feita.
As condições de abandono, o crescente embrutecimento causado pelas más
condições dos soldados da borracha, o desrespeito da lei, tudo isso contribuiu para a
disseminação do sentimento de impotência frente à omissão das autoridades
responsáveis.

2.2.2.3 Direito à igualdade

A situação dos soldados da borracha também revela permanentes violações
ao princípio da igualdade e ao dever de não-discriminação.
Com efeito, apesar da bravura demonstrada ao participarem do recrutamento
militar e ao executarem as atividades ordenadas, esses indivíduos são, hoje, vítimas
de grave injustiça perpetrada pelas autoridades públicas brasileiras. Enquanto aos
ex-combatentes de operações bélicas na Europa se asseguraram diversos direitos,
entre os quais uma pensão especial de cerca de sete salários mínimos, aos soldados
da borracha se oferece apenas uma pensão mensal correspondente a dois salários
mínimos – conforme estabelece o art. 54 do ADCT.
Assim, o art. 54 do ADCT é norma de viés discriminatório por estabelecer
diferença de trato injusta – no que tange ao reconhecimento financeiro – entre dois
40

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grupos análogos de indivíduos, que contribuíram para a satisfação dos interesses do
país, em um momento importante da história mundial. Já manifestou a Corte
Interamericana que:
“La noción de igualdad [...] es inseparable de la dignidad esencial de la
persona, frente a la cual es incompatible toda situación que, por
considerar superior a un determinado grupo, conduzca a tratarlo con
privilegio; o que, a la inversa, por considerarlo inferior, lo trate con
hostilidad o de cualquier forma lo discrimine del goce de derechos que sí
se reconocen a quienes no se consideran incursos en tal situación de
inferioridad35”.

Para examinar se uma diferença de tratamento é ou não discriminatória, o
Tribunal de San José adota critérios de razoabilidade e de proporcionalidade.
Emprega-se o termo distinção para se referir à diferença de trato admissível, por
atender a tais parâmetros e não ofender a dignidade humana. Por sua vez, utiliza-se
a palavra discriminação para aludir à exclusão ou ao privilégio que não passe no
referido teste, violando os direitos humanos dos indivíduos36. Em todo o caso, uma
vez questionada a diferença de tratamento realizada pelo Estado, cabe a ele provar
que conta com uma justificação legítima para proceder de tal maneira.
O tratamento desigual conferido aos soldados da borracha não atende aos
critérios acima mencionados, tratando-se de uma forma odiosa e ilegítima de
discriminação de jure. Sem dúvida, a diferença entre o valor da pensão oferecida
aos pracinhas e o valor da pensão paga aos soldados da borracha é desproporcional.
O montante da renda que lhes é concedida, atualmente, é equivalente ao
valor da pensão paga aos trabalhadores rurais comuns, o que demonstra a fraqueza –
do ponto de vista financeiro – do reconhecimento oficial das características
35

CORTE IDH. Propuesta de Modificación a la Constitución Política de Costa Rica Relacionada con la
Naturalización. Opinión Consultiva OC-4/84 del 19 de enero de 1984. Serie A No. 4. §55.
36
CORTE IDH. Condición Jurídica y Derechos de los Migrantes Indocumentados. Opinión Consultiva OC18/03 de 17 de septiembre de 2003. Serie A No. 18. § 84.

41

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especiais dos serviços prestados à nação pelos soldados da borracha. A diferença de
tratamento é, pois, desarrazoada e desproporcional, constituindo lamentável prática
discriminatória do Estado brasileiro.
Para definir o conceito de discriminação, como o Pacto de San José não
especifica o significado deste termo, a Corte Interamericana utilizou, no caso Atala
Riffo vs. Chile37, a explicação dada pelo Comitê de Direitos Humanos das Nações
Unidas, de acordo com a qual o termo se refere a:

[...] toda distinción, exclusión, restricción o preferencia que se basen en
determinados motivos, como la raza, el color, el sexo, el idioma, la
religión, la opinión política o de otra índole, el origen nacional o social,
la propiedad, el nacimiento o cualquier otra condición social, y que
tengan por objeto o por resultado anular o menoscabar el reconocimiento,
goce o ejercicio, en condiciones de igualdad, de los derechos humanos y
libertades fundamentales de todas las personas38.

Como se bem sabe, o princípio fundamental de proteção contra a
discriminação deve ser aplicado não apenas em relação a cada pessoa ou indivíduo,
mas também – e especialmente – em relação aos grupos vulneráveis. Quanto aos
motivos de discriminação, tanto a definição do Comitê da ONU quanto o art. 1.1 da
Convenção Americana elencam um rol exemplificativo de categorias protegidas.
Ambos os documentos deixam abertos os critérios proibidos de discriminação,
através da expressão “outra condição social”, a qual deve ser interpretada da
maneira mais favorável possível39. Nessa categoria aberta, enquadram-se os
soldados da borracha, que acabaram esquecidos e marginalizados pela União.

37

CORTE IDH. Atala Riffo y Niñas Vs. Chile. Fondo, Reparaciones y Costas. Sentencia del 24 de febrero
de 2012. Serie C No. 239. § 81.
38
NACIONES UNIDAS. Comité de Derechos Humanos. Observación General No. 18. No discriminación.
10 de noviembre de 1989. CCPR/C/37. § 6.
39
CORTE IDH. Caso Atala Riffo y Niñas Vs. Chile. Fondo, Reparaciones y Costas. Sentencia del 24 de
febrero de 2012. Serie C No. 239. § 85

42

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2.2.2.4 Direito à Verdade e à Memória

Outrossim, o descaso e a inércia do Poder Público desrespeitam e
vilipendiam os direitos daquelas pessoas idosas que participaram da Batalha da
Borracha, principalmente na questão da obrigação estatal de assegurar o acesso ao
Direito à Verdade e à Memória.
O Direito à Verdade e à Memória fundamenta-se na busca e no
estabelecimento de uma verdade oficial sobre as violações de Direitos Humanos
ocorridas num passado brutal, a fim de evitar que elas novamente ocorram.
Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, trata-se de
prerrogativa jurídica que pertence não só às vítimas e seus familiares, mas a toda
sociedade, a qual “[...] tiene el irrenunciable derecho de conocer la verdad de lo
ocurrido, así como las razones e y circunstancias en las que aberrantes delitos
llegaran a cometerse, a fin de evitar que eses hechos vuelvan a ocurrir en el
futuro.”40
Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, esse direito tem
amparo nos artigos 1 (obrigação de respeitar os direitos), 8 (garantias judiciais), 13
(liberdade de pensamento e expressão) e 25 (proteção judicial) de São José da Costa
Rica41. Vejamos:

40

Comissão Interamericana de Direitos Humanos. AG/RES. 2175 (XXXVI-O/06). El derecho a la verdad.
Aprobada en la cuarta sesión plenaria, celebrada el 6 de junio de 2006. Disponível em:
<http://www.cidh.os.org/annualrep/2006sp/cap2a.2006.sp.htm.> Acesso em janeiro de 2013.
41
En algunos casos, la Comisión no ha invocado el Artículo 13 dentro del marco de casos sobre el derecho a
la verdad. Véase, por ejemplo Caso 10.258, Informe Nº 1/97, Ecuador, Manuel García Franco, 12 de marzo
de 1997; Caso 10.606, Informe Nº 11/98, Samuel de la Cruz Gómez, Guatemala, 7 de abril de 1998; Caso
11.275, Informe Nº 140/99, Guatemala, Francisco Guarcas Cipriano, 21 de diciembre de 1999; Casos 10.588
(Isabela Velásquez y Francisco Velásquez), 10.608 (Ronal Homero Nota y otros), 10.796 (Eleodoro Polanco
Arévalo), 10.856 (Adolfo René y Luis Pacheco del Cid) y 10.921 (Nicolás Matoj y otros), Informe Nº 40/00,
Guatemala, 13 de abril de 2000. Un examen de los hechos de varios casos tocantes al derecho a la verdad
pareciera indicar que la para la Comisión el Artículo 13 reviste suma importancia en los casos relacionados
con leyes de amnistía. Esto obedece al hecho de que cuando se promulga una ley de amnistía, no queda
oportunidad para la acción judicial contra los responsables de los delitos y la información es el único medio
por el cual los familiares de las víctimas pueden obtener alguna forma de reparación. Además, en esos casos

43

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DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO PARÁ

“La Comisión señaló que el derecho al conocimiento de la verdad emana
de los artículos 1(1), 8, 25 y 13 de la Convención, pero no manifestó
expresamente que se hubiera infringido el Artículo 13. Además, la
Comisión sostuvo que el derecho a la verdad es “un derecho de carácter
colectivo que permite a la sociedad tener acceso a información esencial
para el desarrollo de los sistemas democráticos y, un derecho particular
para los familiares de las víctimas, que permite una forma de reparación,
en particular, en los casos de aplicación de leyes de amnistía. La
Convención Americana protege el derecho a obtener y a recibir
información, especialmente en los casos de desaparecidos, con relación a
los cuales la Corte y la Comisión han establecido que el Estado está
obligado a determinar su paradero”.42 43

Especificamente no caso Gomes Lund e outros, no qual o Brasil foi condenado pelas violações de direitos humanos na repressão da Guerrilha do Araguaia
(1972-1975), a CIDH determinou a sistematização de informações e a seu pleno
acesso, buscando à efetivação do Direito à Verdade e à Memória, em relação a esse
outro triste episódio de nossa história. Vejamos uma das reparações elencadas no
dispositivo da sentença:
16. O Estado deve continuar desenvolvendo as iniciativas de busca,
sistematização e publicação de toda a informação sobre a Guerrilha do
Araguaia, assim como da informação relativa a violações de direitos

la información es esencial porque los miembros de la sociedad deben tener noción de los abusos que se haya
cometido para vigilar y evitar su repetición en el futuro.
42
Caso 10.480, Informe Nº 1/99, El Salvador, Lucio Parada Cea, Héctor Joaquín Miranda Marroquín, Fausto
García Funes, Andrés Hernández Carpio, Jose Catalino Meléndez y Carlos Antonio Martínez, 27 de enero de
1999.
43
“Que toda pessoa, incluindo os familiares e a própria comunidade vítimas de graves violações dos direitos
humanos, tem o direito a conhecer a verdade sobre as circunstâncias e fatos relativos a tais violências, como
decorrência do próprio direito à vida (art.4º, Convenção Americana dos Direitos Humanos), à informação
(art.7 (4) e 13, CIDH) e ao devido processo legal (art. 8º, CIDH). (CIDH, 2004 apud MARTINS, 2008, p.5051)”Caso “Carpio Nicolle y otros. Sentença de 22.11.2004.; Caso “Masacre Plan de Sánchez” sentença de
19.11.2004. Caso “Tibi”. Sentença de 7.9.2004. Todos disponíveis em: <http://www.corteidh.or.cr >

44

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humanos ocorridas durante o regime militar, garantindo o acesso à
mesma nos termos do parágrafo 292 da presente Sentença.44

No plano interno, o Direito à Verdade e à Memória pode ser extraído de
várias disposições da Constituição Brasileira de 1988, a saber: art. 5º, incisos XIV
(acesso à informação), inciso XXX (faceta do direito à herança); art. 21, XVII
(competência da União para conceder anistia); art. 23, III (proteção dos
documentos, obras e bens históricos) e IV (impedir a evasão e destruição desses
bens); art. 215 (pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura
nacional); art. 216 (define o que constitui patrimônio cultural brasileiro), o art. 216A (Criação do Sistema Nacional de Cultura) e art. 220, caput, (liberdade de
informação).
Ademais, o Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos - PNDH-3,
promulgado no ano de 2009, por meio do Decreto n.º 7.037, de 21 de dezembro de
2009, tem preocupação com a memória histórica, ao prever o esclarecimento
público das violações de Direitos Humanos perpetradas por agentes do Estado
durante períodos de repressão.
Vale destacar que, dentro do eixo orientador seis do PNDH-3, há três
importantes diretrizes:
a) número 23, que abrange o reconhecimento da memória e da verdade
como Direito Humano da cidadania e dever do Estado. Sendo seu objetivo
estratégico promover a apuração e o esclarecimento público das violações de
Direitos Humanos praticadas no contexto da repressão política, a fim de efetivar o
Direito à Memória e à Verdade histórica, bem como promover a reconciliação
nacional;

44

Caso Gomes Lund e outros (“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil. Sentença de 24 de novembro de 2010.
Serie C. n.º 219, p. 115 -116. Disponível em: < www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_219_por.pdf>
Acesso em fevereiro de 2013.

45

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b) número 24, que trata sobre a preservação da memória histórica e a
construção pública da verdade. Tendo como objetivo incentivar iniciativas de
preservação da memória histórica e de construção pública da verdade sobre
períodos autoritários;
c) número 25, que aborda a modernização da legislação relacionada à
promoção do Direito à Memória e à Verdade para o fortalecimento da democracia.
A ideia principal é suprimir do ordenamento jurídico pátrio eventuais normas
remanescentes dos períodos de exceção que afrontem os compromissos
internacionais e preceitos constitucionais de Direitos Humanos. Segundo a
Secretária Especial de Direitos Humanos:
A história que não é transmitida de geração a geração torna-se esquecida
e silenciada. O silêncio e o esquecimento das barbáries geram graves lacunas na experiência coletiva de construção da identidade nacional. Resgatando a memória e a verdade, o País adquire a consciência superior sobre a sua própria identidade, a democracia se fortalece. As tentações totalitárias são neutralizadas e crescem as possibilidades de erradicação definitiva de alguns resquícios daquele período sombrio, como a tortura, por
exemplo, ainda persistente no cotidiano brasileiro.
O trabalho de reconstruir a memória exige revisitar o passado e compartilhar experiências de dor, violência e mortes. Somente depois de lembralas e fazer seu luto, será possível superar o trauma histórico e seguir adiante.45

Entre as ações programáticas previstas no PNDH-3, a recuperação e a
valorização da saga dos Soldados da Borracha estão intimamente relacionadas com
a criação de uma comissão específica para reconstituir a história da repressão ilegal
relacionada ao Estado Novo (1937- 1945).
Essa comissão teria como objetivo principal a publicação de um relatório
contendo os documentos que fundamentaram o período de repressão promovido

45

SECRETARIA ESPECIAL DIREITOS HUMANOS. 2010, p.

46

209

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pelo Estado Novo, descrever o funcionamento da justiça de exceção, informar os
responsáveis diretos no governo, apresentar as violações seus autores e vítimas.
Contudo, embora haja a previsão de vários Ministérios responsabilizando-se
por essa política de resgate da memória histórica, nada saiu dos papéis para o plano
da realidade em relação ao Estado Novo. Objetivando solucionar a ausência do
Estado brasileiro quanto à efetivação do Direito à Memória e à Verdade histórica,
bem como a promoção da reconciliação nacional, um dos defensores públicos
signatários deste documento defendeu em artigo científico:
Defendemos a ideia de que somente através deste tipo de comissão aos
moldes da Comissão Nacional da Verdade é que seremos capazes de uma
vez por todas de fomentar iniciativas para a implementação de uma
política de reparação em favor dos Soldados da Borracha.
Acreditamos que somente com a construção de uma rede de parceiros em
que incluam universidades públicas e particulares, organizações sociais e
sociedade civil organizada poderemos promover o debate público, e este
ao ser fomentado se torna um importante instrumento na reparação e
reconciliação nacional entre os Soldados da Borracha sobreviventes e os
descendentes daqueles já falecidos. Todas essas instituições devem ter o
perfil de estarem voltadas para o resgate e valorização desta parte da
História do Brasil através do fomento de pesquisa, palestras, seminários,
realização de caravanas itinerantes, já que a ideia principal é dar maior
visibilidade a esse segmento social.46

Outro destaque que merece ser feito é a ausência da abordagem dos soldados
da borracha nos livros de História do Brasil adotados nas Escolas pelos entes
federativos e no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Educação. O Brasil conta com mais de 53 milhões de estudantes
em seus diversos sistemas, níveis e modalidades de ensino e os especialistas
garantem que os desafios da qualidade e da equidade na educação só serão

46

SILVA, Carlos Eduardo Barros da. Memória Histórica como um Direito Humano Fundamental: o caso
dos soldados da borracha. A proteção dos Direitos Fundamentais pela Defensoria Pública: volume 2. Rio
de Janeiro: Lumen Juris Editora, 2014, págs. 116 e 117.

47

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superados se a escola for um ambiente acolhedor, que reconheça e valorize seus
fatos e personagens históricos, assim como seus heróis nacionais.
Tendo em vista a construção de uma educação com qualidade social e de
uma sociedade mais justa e equânime, assim como fortalecer o Direito à Memória
dos soldados da borracha e seus descendentes, pugna-se que seja determinado à
União que organize políticas públicas educacionais relativas ao ensino e valorização
do papel dos soldados da borracha na Segunda Guerra Mundial e que, dentro do
plano curricular nacional da educação brasileira, seja incluída esta temática no
ensino da História do Brasil, para que as escolas sejam estimuladas a criar projetos
políticos pedagógicos e que os professores incluam em seus planos de aulas este
assunto.
2.2.3 Da imprescritibilidade das graves violações de Direitos Humanos ou,
subsidiariamente, da renúncia à prescrição operada com o advento da EC n.º
78/2014
A Corte Interamericana de Direitos Humanos possui farta jurisprudência
acerca da imprescritibilidade civil e criminal das graves violações a Direitos
Humanos. Exemplo desses precedentes são as sentenças que reconhecem a
contrariedade à Convenção Americana das leis de “autoanistia”, as quais ajudam a
perpetuar a impunidade, a injustiça e impedem que tanto as vítimas quanto os seus
familiares terem o acesso à justiça e o direito de conhecer a verdade e receber a
reparação correspondente.
Dentro deste contexto, destacam-se três importantes casos julgados pela
CIDH.

48

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O primeiro deles é conhecido como Barrios Altos versus Peru47. Nele, a
Corte considerou que a lei de anistia que estabelece excludentes de
responsabilidade, impede investigações e punições de violações de Direitos
Humanos é incompatível com a Convenção Americana de Direitos Humanos.
Vejamos:
“La Corte, conforme a lo alegado por la Comisión e no controvertido por
el Estado, considera que las leyes de amnistía adoptadas por el Perú
impidieron que los familiares de las victimas e las victimas
sobrevivientes en el presente caso fueran oídas por un juez, conforme a
lo señalado en el artículo 8.1 de la Convención. violaron el derecho a la
protección judicial consagrado en el artículo 25 de la Convención;
impidieron la investigación, persecución, captura, enjuiciamiento y
sanción de los responsables de los hechos ocurridos en Barrios Altos,
incumpliendo el artículo 1.1 de la Convención, y obstruyeron el
esclarecimiento de los hechos del caso. Finalmente, la adopción de las
leyes de auto amnistía incompatibles con la Convención incumplió la
obligación de adecuar el derecho interno consagrada el artículo 2 de la
misma.”

Confirmando esse entendimento, a Corte adotou o mesmo posicionamento ao
analisar o caso Almonacid Arellano versus Chile48. O instrumento normativo
objeto de análise foi o Decreto-lei n.º 2.191/78, que previa anistia aos crimes
cometidos entre os anos de 1973 a 1978, correspondente aos “anos de chumbo” da
Ditadura Pinochet. Assim, o referido órgão se pronunciou:
“Los crímenes de lesa humanidad producen la violación de una serie
de derechos inderogables reconocidos en la Convención Americana,
que no pueden quedar impunes. En reiteradas oportunidades el
Tribunal ha señalado que el Estado tiene el deber de evitar y combatir la
impunidad, que la Corte ha definido como ‘la falta en su conjunto de
investigación, persecución, captura, enjuiciamiento y condena de los
47

Caso Barrios Altos versus Peru. Fondo. Sentencia de 14 de marzo de 2001. Serie C n.º 75.
http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/Seriec_75_esp.pdf
48
Caso Almonacid Arellano y otros Vs. Chile. Sentencia de 26 de septiembre de 2006. Serie C n.º 154.
Disponível em: <http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_154_esp.pdf.> Acesso em 20/02/2013.

49

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responsables de las violaciones de los derechos protegidos por la
Convención Americana’. Asimismo, la Corte ha determinado que la
investigación debe ser realizada por todos los medios legales disponibles
y orientada a la determinación de la verdad y la investigación,
persecución, captura, enjuiciamiento y castigo de todos los responsables
intelectuales y materiales de los hechos, especialmente cuando están o
puedan estar involucrados agentes estatales. Al respecto, este Tribunal ha
señalado que no pueden considerarse efectivos aquellos recursos que, por
las condiciones generales del país o incluso por las circunstancias
particulares de un caso dado, resulten ilusorios.
Este Tribunal ya había señalado en el Caso Barrios Altos que son
inadmisibles las disposiciones de amnistía, las disposiciones de
prescripción y el establecimiento de excluyentes de responsabilidad que
pretendan impedir la investigación y sanción de los responsables de las
violaciones graves de los derechos humanos tales como la tortura, las
ejecuciones sumarias, extralegales o arbitrarias y las desapariciones
forzadas, todas ellas prohibidas por contravenir derechos inderogables
reconocidos por el Derecho Internacional de los Derechos Humanos.”

Por fim, há que se fazer referência à sentença do caso Lund e outros
(“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil, de 24 de novembro de 2010. Nesse julgado,
a CIDH reafirmou sua jurisprudência para declarar contrária à Convenção
Americana de Direitos Humanos a Lei de Anistia brasileira (Lei n.º 6.683/1979).
Vejamos:

[...] são inadmissíveis as disposições de anistia, as disposições de
prescrição e o estabelecimento de excludentes de responsabilidade, que
pretendam impedir a investigação e punição dos responsáveis por graves
violações dos direitos humanos, como a tortura, as execuções sumárias,
extrajudiciais ou arbitrárias, e os desaparecimentos forçados, todas elas
proibidas, por violar direitos inderrogáveis reconhecidos pelos Direito
Internacional dos Direitos Humanos.49

49

CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Caso Lund e outros (“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil. Sentença de 24 de novembro de 2010.

50

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Segundo a Corte Interamericana, a ratificação da Convenção Americana
implica no compromisso por parte do Estado Brasileiro de punir as graves violações
a direitos humanos ainda que perpetradas antes de sua vigência:
“[...] uma vez ratificada a Convenção Americana, corresponde ao Estado,
em conformidade com o artigo 2, adotar todas medidas para deixar sem
efeito as disposições legais que poderiam contrariá-lo, como são as que
impedem a investigação de graves violações de direitos humanos, uma
vez que conduzem à falta de proteção das vítimas e à perpetuação da
impunidade, além de impedir que as vítimas e seus familiares conheçam
a verdade dos fatos.50

Daí o dispositivo da sentença, de 24 de novembro de 2010, declarar:
3. As disposições da Lei de Anistia brasileira que impedem a investigação e sanção de graves violações de direitos humanos são incompatíveis
com a Convenção Americana, carecem de efeitos jurídicos e não podem
seguir representando um obstáculo para a investigação dos fatos do presente caso, nem para a identificação e punição dos responsáveis, e tampouco podem ter igual ou semelhante impacto a respeito de outros casos
de graves violações de direitos humanos consagrados na Convenção
Americana ocorridos no Brasil.

No contexto do recrutamento e do trabalho em plena Amazônia, atos
desumanos foram cometidos contra os soldados da borracha e seus familiares. Atos
generalizados e sistemáticos que iniciaram em plena Segunda Guerra Mundial, sob
o império autoritário do Estado Novo e cujo alvo fora a população pobre e
desinformada do Nordeste.
A data das violações dos direitos humanos antes elencados é irrelevante. No
presente caso, as ofensas foram cometidas durante um período de exceção e
consistiram em atos desumanos, generalizados ou sistemáticos. Desde migrações
forçadas e ardilosas, com a promoção e concurso de agentes públicos, até o trabalho

50

Idem.

51

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escravo, torturas e assassinatos, seguidos de décadas de abandono material, moral e
histórico.
Tais ofensas a direitos humanos são permanentes, pois continuam
ocorrendo à medida em que não houve efetiva reparação aos direitos violados
por meio de justa indenização e de reparações in natura, relacionadas às
obrigações de fazer decorrentes dos Direitos à Verdade e à Memória.
Portanto, é dever dos Estados que firmaram o Pacto Internacional de Direitos
Civis e Políticos e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, entre os quais
o Brasil, punir os crimes contra a humanidade e amparar as vítimas por meio de
indenizações justas e através de medidas concretas relacionadas ao resgate da
Verdade e da Memória.
É certo que, em relação aos crimes cometidos em período de exceção, a
jurisprudência brasileira, sobretudo após o julgamento pelo Supremo Tribunal
Federal da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n.º 153,
reconheceu a validade da Lei n.º 6.683/1979 (“lei de anistia)51, o que, em certos
casos, tem impedido o processamento e julgamento de autoridades responsáveis
pelo cometimento de crimes durante o regime militar de 1964-1985. Trata-se,
evidentemente, de decisão que viola o Pacto de São José da Costa Rica e a
jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Contudo, o enfoque desta demanda coletiva é puramente cível, passando
longe de questões criminais referentes à Batalha da Borracha. Nesse contexto, em
relação às reparações pecuniárias, o Judiciário pátrio tem sido mais favorável às
vítimas de graves violações de direitos humanos, ocorridas em períodos de exceção.
No âmbito da jurisprudência interna brasileira, o Superior Tribunal de
Justiça tem firme posicionamento no sentido de que é “imprescritível a pretensão

51

STF, ADPF 153, Relator: Min. Eros Grau, Tribunal Pleno, julgado em 29/04/2010, DJe-145 DIVULG 0508-2010, PUBLIC 06-08-2010, RTJ VOL-00216- PP-00011.

52

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de recebimento de indenização por dano moral decorrente de atos de tortura
ocorridos durante o regime militar de exceção”.52
Por sua vez , o Tribunal Regional Federal da 1ª Região pronunciou-se no
sentido de que, em relação à reconstrução da verdade histórica da Guerrilha do
Araguaia, cuida-se de “investigação” no sentido “de propiciar o conhecimento da
verdade histórica, para todas as gerações, de ontem e de hoje, no exercício do
denominado 'dever de memória', o que não se submete a prazos de prescrição”53.
Assim, não há que se falar em prescrição das reparações in natura, decorrentes do
Direito à Verdade e à Memória.
Por fim, na remota hipótese de o caso ser analisado fora do prisma da
doutrina e da jurisprudência nacional e internacional dos Direitos Humanos,
ressalta-se que a promulgação da Emenda Constitucional n.º 78, de 14 de maio de
2014, deve ser vista como uma renúncia à prescrição indenizatória referente
à epopeia dos Soldados da Borracha.
Ora, se o Estado Brasileiro, em 2014, espontaneamente outorgou reparação
pecuniária pelos danos sofridos pelos seringueiro recrutados para extrair látex
durante a Segunda Guerra Mundial, houve clara renúncia à suposta prescrição das
pretensões indenizatórias. Assim, nada impede que o tema das reparações
pecuniárias aos soldados da borracha seja tratado por meio da presente ação civil
pública ou mesmo por ações individuais.
Portanto, não há que se falar na prescrição das reparações a serem postuladas
no item seguinte.

52

STJ, AgRg no AG 1.428.635-BA, Segunda Turma, DJe 9/8/2012; e AgRg no AG 1.392.493-RJ, Segunda
Turma, DJe 1/7/2011. REsp 1.374.376-CE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 25/6/2013.
53
TRF-1, HC 680639220124010000, Desembargador Federal Olindo Menezes, Quarta Turma, e-DJF1, DATA:06/12/2013, pág.:1389. Nesse julgado, determinou-se o trancamento de ação penal movida pelo Ministério Público Federal em detrimento de Sebastião Curió, mas se determinou a licitude das investigações destinadas a reconstrução da verdade histórica.

53

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2.3 DAS REPARAÇÕES INDIVIDUAIS E COLETIVAS

2.3.1 Reparação por danos extramatrimoniais individuais

Diante da imprescritibilidade das graves violações de direitos humanos
ocorridas no contexto de ditaduras militares, é comum os Estados violadores
espontaneamente concederem, após o retorno à normalidade democrática,
reparações pecuniárias às vítimas ou aos seus sucessores.
No caso dos soldados da borracha, esperou-se mais de quatro décadas para
que algum benefício lhes fosse concedido. Somente com os ventos democráticos da
última Assembleia Nacional Constituinte é que o tema foi objeto de considerações
políticas, o que resultou na pensão mensal estipulada pelo art. 54 do ADCT:
Art. 54. Os seringueiros recrutados nos termos do Decreto-Lei

5.813, de 14 de setembro de 1943, e amparados
pelo Decreto-Lei nº 9.882, de 16 de setembro de
1946, receberão, quando carentes, pensão mensal vitalícia no valor de
dois salários mínimos.
§ 1º - O benefício é estendido aos seringueiros que, atendendo a apelo do
Governo brasileiro, contribuíram para o esforço de guerra, trabalhando
na produção de borracha, na Região Amazônica, durante a Segunda
Guerra Mundial.
§ 2º - Os benefícios estabelecidos neste artigo são transferíveis aos
dependentes reconhecidamente carentes.
§ 3º - A concessão do benefício far-se-á conforme lei a ser proposta pelo
Poder Executivo dentro de cento e cinquenta dias da promulgação da
Constituição.

A toda evidência, a referida pensão mensal nunca reparou efetivamente os
danos impostos pela União aos soldados da borracha. Até porque os requisitos
exigidos para sua concessão são difíceis de serem vencidos, pois, além de os fatos

54

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terem ocorrido em passado distante, a Lei n.º 9.711/1998 passou a exigir o início de
prova material, criando obstáculo processual quase intransponível.
Por isso, os seringueiros sobreviventes e seus dependentes, nos últimos anos,
mobilizaram-se para buscar junto ao Congresso Nacional a aprovação projetos de
leis e propostas de Emendas Constitucionais, prevendo reparações substanciais e
efetivas54. Contudo, no corrente ano, toda a mobilização foi frustrada com a
aprovação da Emenda Constitucional n.º 78, de 14 de maio de 2014, verbis:
Art. 54-A. Os seringueiros de que trata o art. 54 deste Ato das
Disposições Constitucionais Transitórias receberão indenização, em
parcela única, no valor de R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais).

Infelizmente, a reparação pecuniária prevista no dispositivo afigura-se
completamente incapaz de recompor a dívida histórica e patriótica da União para
com os soldados da borracha. Na realidade, há claramente uma situação de
inconstitucionalidade na Emenda, a qual fixou, mediante tabelamento, um valor
mínimo e irrisório, diante das violações de direitos humanos subjacentes à Batalha
da Borracha.
2.3.1.1 Emenda Constitucional n.º 78, de 14 de maio de 2014 – Manifestação do
Poder Constituinte Derivado – Indenização em valor ínfimo – Necessidade de
interpretação conforme a Constituição

Havendo violação a Direitos Humanos, impõe-se a reparação das
consequências danosas, inclusive com o pagamento de justa indenização. Essa
relação lógica e ontológica de causa e efeito constitui princípio elementar das
54

Como entidade da sociedade civil organizada representativa dos soldados da borracha, destaca-se o
Sindicato dos Seringueiros do Estado do Acre, o qual, em 2002, era constituído por mais de três mil
sobreviventes.

55

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ordens jurídicas nacionais e internacionais, sendo pressuposto para que a justiça
reine em qualquer sociedade.
No direito interno, o dever de indenizar violações de direitos humanos que
gerem danos morais é previsto no art. 5º, incisos V e X, da Constituição Federal de
1988, verbis:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes:
[...]
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da
indenização por dano material, moral ou à imagem.
[...]
X – São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das
pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral
decorrente de sua violação.

Por sua vez, o Artigo 63.1 da Convenção Americana de Direitos Humanos
prevê que a violação a direitos humanos, por si só, gera a obrigação de indenizar os
danos morais por parte do Estado violador:
Artigo 63 - 1. Quando decidir que houve violação de um direito ou
liberdade protegidos nesta Convenção, a Corte determinará que se
assegure ao prejudicado o gozo do seu direito ou liberdade violados.
Determinará também, se isso for procedente, que sejam reparadas as
consequências da medida ou situação que haja configurado a violação
desses direitos, bem como o pagamento de indenização justa à parte
lesada.

Diante desses dispositivos constitucionais e convencionais, pode-se extrair o
princípio de que a reparação de graves violações de direitos humanos deve ser plena
e efetiva. Deve-se recompor não apenas o dano moral sofrido pela vítima e/ou seus

56

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familiares, como também promover medidas em prol da Verdade e da Memória, em
se tratando de graves violações ocorridas em passado distante.
Na jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o dano
moral é denominado de “dano imaterial”, o qual compreende, nas palavras daquele
tribunal internacional, “tanto os sofrimentos e as aflições causadas à vítima direta e
aos que lhe são próximos, como o menosprezo de valores muito significativos para
as pessoas, e outras perturbações que não são suscetíveis de medição pecuniária,
nas condições de vida da vítima ou de sua família”.55
Se há uma lição que a história ensina é que não é fácil a reparação de
violações a direitos humanos. Segundo o Professor de Direito Público Jeremy
Sarkin da Universidade de Western Cape, África do Sul, as reparações têm
recebido grande destaque, sendo “um desafio tanto no âmbito doméstico como no
internacional”. Diz o referido pesquisador:
A questão das reparações ganhou importância não só pelo dinheiro que
está sendo pedido, mas também porque parece cumprir pelo menos três
funções. Primeiro, ela auxilia diretamente as vítimas que lidam com os
prejuízos financeiros sofridos; segundo, constitui reconhecimento oficial
do que aconteceu no passado; e terceiro, talvez sirva para coibir futuros
abusos dos direitos humanos.56

No caso concreto, vê-se mais uma situação de uma quase total falta de
reparação aos que viveram a saga dos “soldados da borracha”, episódio esse
marcado por graves e maciças violações a direitos humanos. Com efeito,
aproximadamente 60 mil jovens pobres do Nordeste foram recrutados sob falsas

55

Caso dos “Meninos de Rua” (Villagrán Morales e outros) versus Guatemala. Reparações e Custas. Sentença de 26 de maio de 2001. Caso Lund e outros (“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil, de 24 de novembro de
2010.
56

SARKIN, Jeremy. O advento das ações movidas no Sul para reparação por abusos dos direitos humanos.
Sur,
Revista
Internacional
direitos
humanos. vol.1 no.1 São
Paulo 2004.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-64452004000100005

57

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promessas por órgãos de um regime ditatorial e reduzidos à condição análoga à de
escravos para produzir látex no Norte do Brasil a fim de abastecer a máquina de
Guerra dos Aliados.
Após esse fato, esses jovens foram completamente abandonados em
permanente omissão do Estado Brasileiro. Hoje, cuida-se de idosos debilitados e
que ainda esperam por uma reparação pecuniária justa e pela reconstrução pública
da verdade e da memória de sua história.
Diante desses fatos, até mesmo, o mais reacionário operador jurídico há de
convir que a reparação no patamar de R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais),
prevista na EC n.º 78/2014, é uma quantia pequena em relação à magnitude da
lesão que sofrem os soldados da borracha.
Em relação ao valor diminuto da indenização, cabe trazer à colação a opinião
do soldado da borracha Belizário Costa, 96 anos, emitida quando da promulgação
da Emenda Constitucional n.º 78/2014 pelas Mesas da Câmara e do Senado.57 Na
cerimônia, o intrépido nonagenário demonstrou, com voz trêmula, sua indignação,
por meio de relato crítico contra o ato normativo aprovado pelo Congresso
Nacional. Vejamos:
“Conheci um camarada que diziam que era nosso chefe. Trabalhei 4 anos,
comendo só caça com farinha d’água, daquela que vem de Bragança, com
sal. Felizmente, hoje eu estou contando o caso para vocês nessa idade.
Graças a Deus, eu nunca tive doença. Nós Soldados da Borracha
ganhamos a guerra. (Palmas.) Fomos nós Soldados da Borracha que
ganhamos a guerra. E os nossos governantes não estão nos dando valor.
Outra coisa. Quem tem pais que foram Soldados da Borracha —
agradeço à Sra. Perpétua Almeida, que disse que o pai dela é Soldado da
Borracha. Ela fez a nossa derrota. O dinheiro que nós estamos ganhando
é o dinheiro que o Deputado usa no café, e disseram que dos Estados
Unidos vem muito dinheiro para nos pagar, mas como não pagam, gente?

57

Notas taquigráficas da Sessão Solene n.º013.4.54N. Datado do dia 14.05.14. Plenário Principal do Senado
Federal páginas 223, 22 e 225.

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Presidenta, tenha coração. Se fosse o pai dela, o pai dele ou alguém da
família, garanto que ela pagava direitinho o dinheiro merecido, mas como
somos nós, Soldados da Borracha, fomos jogados naquela mata, comendo
tudo quanto era coisa ruim na vida, passando necessidade; havia dias que
dormia e dias que não dormia, porque tínhamos que botar a lamparina na
cabeça, chamada poronga, e irmos para a mata cortar seringa para mandar
para os Estados Unidos. Viu, meus amigos?
O patrão ainda disse assim: “Olha, Arigó, se vocês não pagarem o que
estão levando para comer, vocês nunca mais saem daqui”.
Meus amigos, eu dormia com o meu rifle em cima do peito. Ele falou
para mim: “Olha, seu Belizário Costa, uma bala dessas que você vai
gastar custa 1 quilo de borracha”.
Quando eles foram nos contratar, nos prometeram tudo, até o avião no
céu nos prometeram, e hoje em dia, meus amigos, eu estou nesta idade de
96 anos sofrendo, nem casa eu tenho. Eles prometeram tudo e nem casa
eu tenho. Eu não vou mentir para vocês, eu não tenho uma casa, moro
numa casa alugada, pago aluguel, ganho 2 salários mínimos que não dão
nem para comer, porque a carestia hoje em dia está horrível.
Meu amigo, se todos vocês que estão nos ouvindo estivessem no meu
lugar, os senhores falariam a mesma coisa que eu estou falando. Eu estou
agradecendo à Dona Perpétua. O que ela ganhou para fazer isso conosco?
Eu estou agradecendo a Dona Perpétua o que ela ganhou para fazer isso
conosco. Ela não era para ser Deputada pelo Acre, ela não gosta do povo
do Acre, ela está é fingindo que gosta do povo do Acre.
[…].
É dureza! Se fosse uma pessoa que tivesse consciência, se a senhora
tivesse consciência, não teria falado certas coisas para nós. Ganhar uma
mixaria como essa que não dá para viver. Queria que nós ganhássemos
1.500 reais. O que nós fazemos com 1.500 reais por mês? O que a
senhora pensa? Vinte cinco mil. O que é que dá para o sujeito viver
hoje em dia? Vinte e cinco mil é para um Deputado tomar café de
manhã.
Nós vivemos nessa dificuldade. Tenho 96 anos, saio de Porto Velho de
ônibus, venho para cá lutar para ver se adquiro o que é nosso. Nós temos
o direito de receber o que é nosso. Gente, tenha dó! Quem tem coração,
isso não é possível! Eu tenho sofrido demais! Eu sofri muito na mata.
Sofri muito! Vi muitos companheiros morrerem, e morrer à míngua,
porque não tínhamos nem um comprimido para tomar. Morreram
milhares e milhares deles. Nós éramos 55 mil, disse um tenente para nós
quando estávamos em Belém. Hoje, se tiver muito, são 20 mil. E não
tem!
Meus amigos, olhem aquele pobre velhinho ali. Ele é meu colega. O
único Soldado da Borracha que está tendo aqui é aquele velhinho ali, que
é meu colega. O que esse velho vai fazer com uma mixaria dessas? O que
59

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ele passa eu passei. O que eu passei na vida, todo Soldado da Borracha
passou. Sem dormir, ou dormir numa tarimba de vara, arriscado a
qualquer hora um índio matar e carregar para comer.
O sujeito sair às 4 horas da manhã com uma lamparina na cabeça para
cortar seringa para, à tarde, defumar a borracha para poder fazer a comida
para comer. Quantas vezes eu comi leite de castanha feito pirão com
farinha d’água. Aconteceu isso comigo. Assim como aconteceu comigo,
aconteceu com muitos deles.
Meus amigos, vocês vão me desculpar, porque eu sou um analfabeto, mas
sinto muito por ter a Dona Perpétua feito essa ingratidão com os
Soldados da Borracha. Viu? Não foi só ela, como a nossa Presidência da
República, que não tem o reconhecimento que o Soldado da Borracha
trabalhou, e lutou, e ganhou a guerra nos Estados Unidos e no Brasil
inteiro, porque, senão, Hitler era dono do mundo, está compreendendo?
Eu sei, tudo isso eu sei, eu aprendi, viu? Eu tenho isso por escrito; eu
tenho por escrito, dentro da minha casa; eu tenho por escrito. A nossa
valência é que nós ainda estamos ganhando esse dinheirinho. Agradeço
àqueles dois senhores ali, o seu Carioca e o advogado ali, senão nós
estávamos na pior, está compreendendo?
É isso aí pessoal, vocês vão me desculpar se eu ofendi algumas pessoas;
vocês vão me desculpar, que eu apenas sou um ignorante, eu não tenho
leitura, sou analfabeto, mas eu tinha muita vontade de falar essas coisas,
viu? Getúlio Vargas mandar nos convocar como soldados, dizendo ele
que nós íamos ganhar bem e além de tudo ser um grande oficial. Todos
íamos ser oficiais e nada disso nós tivemos. Qual é a promoção que nós
temos? A promoção que nós temos é a necessidade que nós passamos.”58

Face às palavras oriundas de um soldado da borracha, não é preciso esforço
para se perceber que o valor indenizatório estipulado pela Emenda Constitucional
n.º 78/2014 é ínfimo, sendo incapaz de cumprir as funções de uma reparação
pecuniária, quais sejam, compensar a dor sofrida pela vítima, punir o agente
lesionador e prevenir a reiteração do ilícito.
A referida Emenda Constitucional é, portanto, inconstitucional e anticonvencional. Entre os direitos fundamentais por ela violados, destacam-se o direito
individual a uma indenização justa e razoável (art. 5º, incisos V e X, da CF) e o
princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF).
58

As imagens do discurso podem ser visualizadas no link: https://www.youtube.com/watch?v=ERe4cFdPPlE

60

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Ademais, não podem ser esquecidas as violações a todas as normas contidas
nos dispositivos da Convenção Americana de Direitos Humanos anteriormente
enumerados (artigos 1º, 4º, 5º, 11). Tal tratado, nos termos do art. 5º, § 2º, da CF,
possui natureza materialmente constitucional. Logo, todas as suas disposições
normativas se inserem no bloco de constitucionalidade, podendo ser parâmetro para
o controle de constitucionalidade de emendas constitucionais.
É certo que a fixação do valor de uma indenização não é uma operação
matemática, pois as diversas circunstâncias que devem ser levadas em conta pelo
julgador não podem ser mensuradas objetivamente. Assim, não existe uma
uniformidade entre os aplicadores do direito, os quais agem com grande
discricionariedade, mas sempre se guinado pela prudência e razoabilidade.
Daí surgir outra mácula à Emenda Constitucional n.º 78/2014, que é
exatamente estabelecer um tabelamento do dano imaterial experimentado pelos
soldados da borracha e seus dependentes, o que fere a independência de o juiz
quantificá-lo e viola o princípio da efetiva reparação do ilícito. Nesse sentido, vejase o Enunciado 550 da VI Jornada de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal,
verbis: “A quantificação da reparação por danos extrapatrimoniais não deve estar
sujeita a tabelamento ou a valores fixos.”
Em recente julgado com repercussão geral, o Supremo Tribunal Federal
assentou que os danos morais, até mesmo por danos decorrentes do extravio de
bagagens, submetem-se ao “princípio da indenizabilidade irrestrita”:

RECURSO. Extraordinário. Extravio de bagagem. Limitação de danos
materiais e morais. Convenção de Varsóvia. Código de Defesa do Consumidor. Princípio constitucional da indenizabilidade irrestrita.
Norma prevalecente. Relevância da questão. Repercussão geral reconhecida. Apresenta repercussão geral o recurso extraordinário que verse sobre a possibilidade de limitação, com fundamento na Convenção de Var-

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sóvia, das indenizações de danos morais e materiais, decorrentes de extravio de bagagem59.

Diante desse precedente, é fácil perceber que Emenda Constitucional n.º
78/2014 valeu-se não de “indenizabilidade irrestrita”, mas de uma indenizabilidade
mínima, fato que a torna inconstitucional.
Contudo, tal Emenda é uma manifestação do poder constituinte
derivado. É produto, portanto, do exercício de competência juridicamente
limitada por cláusulas pétreas contidas no art. 60, § 4º, da Constituição Federal
de 1988, notadamente, os direitos e garantias individuais (inciso IV).
Por isso, em sede de controle difuso ou incidental de constitucionalidade,
nada impede que o Poder Judiciário, diante da imprescritibilidade das graves
violações de direitos humanos ocorridas no contexto de ditaduras militares, no caso,
a ditadura fascista do Estado Novo, conceda reparações que transcendam os valores
espontaneamente reconhecidos pelo Estado violador.
Por isso, propõe-se, em controle incidental, uma interpretação conforme à
Constituição para que se entenda que a EC n.º 78/2014 fixou um valor mínimo a
ser pago administrativamente, o que não impede que o Estado-Juiz determine o
pagamento de indenização mais elevada para garantir a efetiva reparação dos
direitos violados. Isso é plenamente possível e viável, o que será melhor trabalhado
no próximo item.

2.3.1.2 Do valor razoável da reparação patrimonial individual
Nesse contexto, surge a indagação acerca de qual o justo valor indenizatório
a ser pagos aos soldados da borracha ou aos dependentes daqueles que faleceram.
Aqui, o valor postulado embasa-se não “achismo” dos subscritores desta peça, mas
59

STF, AI 762184 RG, Relator(a): Min. Cezar Peluzo, julgado em 22/10/2009, DJe-237 DIVULG 17-122009 PUBLIC 18-12-2009 EMENT VOL-02387-16 PP-02990.

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em casos similares de graves violações de direitos humanos, ocorridos no Brasil e
que foram objeto de reparação.
Em relação às vítimas do período ditatorial pós-1964, a Lei n.º 9.140, de 04
de dezembro de 1995, criou uma política de reparações aos herdeiros das vítimas
que desapareceram, por conta de atividades políticas, no período de 2 de setembro
de 1961 a 5 de outubro de 1988. Sobre o valor das reparações vejamos o que dispõe
o art. 11 do referido diploma legal:
Art. 11. A indenização, a título reparatório, consistirá no pagamento de valor
único igual a R$ 3.000,00 (três mil reais) multiplicado pelo número de anos
correspondentes à expectativa de sobrevivência do desaparecido, levando-se em
consideração a idade à época do desaparecimento e os critérios e valores
traduzidos na tabela constante do Anexo II desta Lei.
§ 1º Em nenhuma hipótese o valor da indenização será inferior a R$
100.000,00 (cem mil reais).
§ 2º A indenização será concedida mediante decreto do Presidente da
República, após parecer favorável da Comissão Especial criada por esta Lei.

Por sua vez, a Lei n.º 10.559, de 13 de novembro de 2002, regulamentou o
art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias para dispor sobre o
regime jurídico dos anistiados políticos.
Nos termos do art. 2º dessa lei, são declarados anistiados políticos aqueles
que, no período de 18 de setembro de 1946 até 5 de outubro de 1988, por motivação
exclusivamente política, sofreram perseguições expressas em punições disciplinares
indevidas, restrições de direitos civis e políticos em geral, como a cassação de
mandatos eletivos, perda de cargo ou função pública, etc. Sobre o valor da
reparação por dano moral (reparação em prestação única) o art. 4º da Lei n.º 10.559,
de 13 de novembro de 2002, assim dispôs:
Art. 4o A reparação econômica em prestação única consistirá no
pagamento de trinta salários mínimos por ano de punição e será devida
aos anistiados políticos que não puderem comprovar vínculos com a
atividade laboral.
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§ 1o Para o cálculo do pagamento mencionado no caput deste artigo,
considera-se como um ano o período inferior a doze meses.
§ 2o Em nenhuma hipótese o valor da reparação econômica em
prestação única será superior a R$ 100.000,00 (cem mil reais).

Perceba-se que, enquanto a Lei n.º 9.140, de 04 de dezembro de 1995,
referente aos desaparecidos políticos, fixou que seus familiares têm direito à
indenização no valor mínimo de R$ 100.000,00 (cem mil reais), o art. 4º da Lei n.º
10.559/2002, referente aos anistiados, determinou que eles têm direito à
indenização, em parcela única, no valor máximo de R$ 100.000,00 (cem mil reais).
Por sua vez, a Emenda Constitucional n.º 78/2014 estipulou indenização irrisória de
R$ 25.000,00 (vinte cinco mil reais).
Na realidade, se a indenização mínima de R$ 100.000,00, prevista para os
herdeiros dos desaparecidos políticos (Lei n.º 9.140/1995), fosse corrigida pelo IPCA, ela valeria, atualmente, a quantia de R$ 327.155,52. Por sua vez, a indenização
máxima destinada aos anistiados políticos (Lei n.º 10.559/2002), em parcela única,
de R$ 100.000,00 (cem mil reais), valeria hoje R$ 206.679,35.
Será que o sofrimento dos soldados da borracha quase 15 vezes menos que o
dos parentes dos desaparecidos políticos ou dos próprios anistiados? Evidente que
não! Assim, a fim de evitar subjetivismo, a quantia de R$ 200.000,00 (duzentos mil
reais) deverá ser utilizada como parâmetro da complementação do valor da
indenização.
Por isso, impõe-se, mediante interpretação conforme a Constituição na esfera
do controle difuso ou incidental de constitucionalidade, que o valor fixado no art.
54-A do ADCT, introduzido pela EC n.º 78/2014, seja complementado até atingir o
patamar mínimo de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais), adotando-se, pois, a
interpretação de que a reparação de R$ 25.000,00 é o mínimo a ser pago

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administrativamente, podendo o Estado-Juiz ir além, fixando valor que concretize o
princípio da efetiva reparação das violações a direitos humanos.

2.3.2 Reparação por danos extrapatrimoniais coletivos

O dano moral coletivo ou transindividual é aquele que atinge os valores
essenciais da coletividade.
Para que ocorra o dano moral coletivo não é necessário que se prove que uma
grande quantidade de pessoas sofreu em razão da violação de valores essenciais da
sociedade. É que esse dano está desvinculado do sofrimento individual. O que o
embasa, segundo André de Carvalho Ramos, “é um sentimento de despreço e de
perda de valores essenciais que afetam negativamente toda a sociedade”60.
Tal como a reparação ao dano moral individual a reparação ao dano moral
coletivo apresenta caráter compensatório e punitivo; porém, sua função é
essencialmente preventiva de modo a gerar proteção efetiva aos valores essenciais
da coletividade, tendo, pois, forte viés pedagógico.
Ora, no Estado Constitucional e Democrático de Direito, os direitos
fundamentais representam os valores fundamentais de uma coletividade estatal.
Com efeito, no paradigma liberal, os direitos fundamentais limitavam-se à produção
de direitos subjetivos, nos termos da lei; no atual contexto, passa a ter não apenas
essa normatividade subjetiva e individual, mas outra de cunho objetivo, na qual os
direitos fundamentais tornam-se valores orientadores do Estado e da sociedade.61
Considerando a sistemática violação de direitos humanos ocorrida no
contexto da “Batalha da Borracha”, impõe-se o pagamento de danos morais
coletivos no valor de R$ 25.000.000,00 (vinte e cinco milhões de reais).
60

RAMOS, André de Carvalho. Ação Civil Pública e o Dano Moral Coletivo. In: Revista dos Tribunais.
Revista de Direito do Consumidor, São Paulo, n. 25, jan./mar. 1998. p. 80-98
61
SARMENTO, Daniel. Direitos fundamentais e relações privadas. Rio de Janeiro: Lúmen Iuris, 2004, p.
155.

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Ademais, as reparações não podem ficar apenas no plano pecuniário,
devendo alcançar a esfera de obrigações de fazer destinadas a preservar a
memória histórica e a construção pública da verdade em torno dos Soldados da
Borracha.
Nesse contexto, urge a construção de monumento em prol da memória dos
soldados da borracha, o qual será destinado a homenagear todos aqueles que participaram da “Batalha da Borracha” e que foram mortos nos seringais da Região
Amazônica. Lugar que certamente terá grande simbolismo pátrio e onde será dedicado ao cultivo da memória histórica desses bravos heróis brasileiros.
Ademais, os livros de História do Brasil o ensino do tema “Soldados da
Borracha”, utilizados tanto nas escolas do ensino fundamental quanto nas escolas do
ensino médio e fundamental de âmbito estadual e municipal, com a prévia e
obrigatória capacitação e/ou preparação do corpo docente, implantação das políticas
públicas educacionais específicas, nova aprovação dos projetos políticos
pedagógicos de todas as escolas, bem como a obrigatoriedade da inclusão deste
tema no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais
para Educação.
Da mesma forma, como efeito irradiante do Direito à Verdade e à Memória,
impõe-se a disponibilização, em meio digital, do acervo documental pertencente ao
Museu do Seringueiro, localizado na cidade de Rio Branco/AC, bem como os demais documentos históricos eventualmente existentes nos arquivos da União. Assim, será democratizado o acesso à informação do tema “soldados da borracha”,
ressaltando que tal instituição atualmente é um dos arquivos públicos que contêm
um grande número de revistas e jornais da época.
Por fim, igualmente como decorrência da eficácia objetiva do Direito à
Verdade e à Memória, impõe-se a criação de Comissão Específica, prevista na
Diretriz 24, Ação Programática “b”, do Terceiro Plano Nacional de Direitos
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Humanos – PNDH-3 (Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009), a qual tem
como objetivo reconstituir a história da repressão ilegal relacionada ao Estado Novo
(1937-1945), em especial, para preservar a memória histórica e a construção pública
da verdade sobre os soldados da Borracha.

3 DA ANTECIPAÇÃO DOS EFEITOS DA TUTELA JURISDICIONAL

Na moldura das tutelas de urgência, encontram-se os provimentos jurisdicionais antecipatórios (satisfativos) ou cautelares (conservativos) emitidos pelo Poder
Judiciário em situações de perigo de dano irreparável ou de difícil reparação.
De fato, em muitas situações, os direitos perseguidos em juízo não podem
esperar efetivação mediante decisões finais baseadas em cognição exauriente. Claramente, as vicissitudes da vida criam riscos que, para serem evitados, exigem a
tomada de decisões calcadas no exame superficial dos fatos (cognição sumária),
para, assim, evitar-se o perecimento de direitos ou a perda do objetos a que se reportam os direitos.
Em harmonia com o princípio do acesso à justiça, o art. 12 da Lei nº
7.347/1985 prevê a possibilidade de o juiz, nos processos decorrentes de ações civis
públicas,“conceder mandado liminar, com ou sem justificação prévia, em decisão
sujeita a agravo”.
A toda evidência, o mandado liminar a que se refere o dispositivo acima citado tem natureza de antecipação dos efeitos da tutela, o que mostra seu caráter
vanguardista, eis que, somente alguns anos depois da publicação da Lei da Ação
Civil Pública – LACP (Lei n.º 7.347/1985), a tutela de urgência satisfativa foi generalizada para todos os procedimentos cíveis, graças à redação dada pela Lei n.º
8.952/1994 ao art. 273 do Código de Processo Civil.

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No âmbito do microssistema de tutela coletiva (art. 21 da LACP e art. 90 do
CDC), os requisitos para a antecipação dos efeitos da tutela jurisdicional possuem
previsão específica no art. 84, § 3º, do Código de Defesa do Consumidor, verbis:
“Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia do provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou após justificação prévia, citado o réu.”
In casu, os soldados da borracha possuem cristalino direito à concessão da
tutela antecipatória “inaudita altera parte”, em face da robustez de suas
alegações, baseadas em princípios protetivos oriundos da ordem constitucional e
de tratados internacionais de direitos humanos. Ademais, cada dia que se passa,
representa o recrudescimento de um dano irreparável, uma vez que se trata de
pessoas de idade extremamente avançada.

3.1 Verossimilhança das alegações e da prova inequívoca

A verossimilhança das alegações está amparada em amplas fontes como a
Constituição Federal e tratados internacionais e na realidade fática, fazendo
confrontar com os desatinos pregados pela parte requerida, em sempre esquivar-se
da suas obrigações em relação aos soldados da borracha.
Aqui, não pode ser esquecida a imprescritibilidade das graves violações de
direitos humanos, bem como o fato de que as violações aos Direitos à Verdade e à
Memória se prolongam no tempo, por terem um caráter permanente. A prova
inequívoca diz respeito à ampla documentação em anexo, a qual revela detalhes,
inclusive por meio de documentários, de todos os episódios decorrentes da Batalha
da Borracha.
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3.2 Periculum in mora
Como já fora relatado anteriormente, o descaso do Governo brasileiro para
com a situação dos soldados da borracha atravessa longos e dolorosos anos. Essa
postura de silêncio e inanição adotada traz duras consequências nas vidas desses
idosos.
Ainda hoje, é comum existirem antigos seringueiros que continuam vivendo
em absoluto estado de pobreza e alguns desses idosos preferindo viver em estado de
quase isolamento dentro da selva já que não possuem condições financeiras para
viver dignamente na zona urbana de um município amazônico.
Ademais, nota-se uma grande mortalidade de soldados da borracha. Como
a média da idade dos soldados da borracha sobreviventes é de 85 anos, muitos são
aqueles que morrem antes que esse direito a indenização prometida durante o
período da Segunda Guerra Mundial seja concretizado. Nas planilhas do Anexo
II, estão apresentados gráficos contendo essa alarmante estatística.
O dado referente ao grande índice de mortes sofridas pelos idosos soldados
da borracha que foi apresentado em Audiência na Comissão Interamericana de
Direitos Humanos62. Segundo o Sindicato dos Soldados da Borracha do Acre, ao
longo do decorrer dos anos, é enorme o número de soldados da borracha e
familiares que falecem sem ter seus direitos reconhecidos. A espera, além de ser
muito longa, é dolorida.
Quanto mais se perpetua a omissão do Estado Brasileiro, mais consequências
funestas avultam, havendo o esvaziamento do direito material a ser tutelado,
ensejando, mediante simples elaboração de um juízo reflexivo, a conclusão no
62

Dados apresentados no Requerimento apresentado pela Defensoria Pública do Pará e Sindicatos dos
Soldados da Borracha do Acre e Rondônia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos solicitando a
realização de audiência em prol dos soldados da borracha no 143º Período de Seções .

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sentido de que a opção pela demora, pela postergação da prestação jurisdicional,
somente levará à conclusão de que existe total incompreensão da relevante
dimensão no resgate da dignidade dos soldados da borracha sobreviventes, fruto de
inércia intelectual, sendo qualquer dos desses motivos, depoente em desfavor do
prestígio da função jurisdicional.
Nesse contexto, conforme será requerido ao final, nada impede que seja
determinada a antecipação dos efeitos da tutela de obrigação pecuniária, em
situações marcadas por especificidades (no caso, as idades extremamente avançadas
dos soldados da borracha), tal como decidiu o STF ao julgar a Suspensão de Tutela
Antecipada n.º 223, verbis:
STF - Tutela Antecipada e Responsabilidade Civil Objetiva do Estado
O Tribunal, por maioria, deu provimento a agravo regimental interposto em
suspensão de tutela antecipada para manter decisão interlocutória proferida por
desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco, que concedera
parcialmente pedido formulado em ação de indenização por perdas e danos morais e materiais para determinar que o mencionado Estado-membro pagasse todas as despesas necessárias à realização de cirurgia de implante de Marcapasso
Diafragmático Muscular - MDM no agravante, com o profissional por este requerido. Na espécie, o agravante, que teria ficado tetraplégico em decorrência
de assalto ocorrido em via pública, ajuizara a ação indenizatória, em que objetiva a responsabilização do Estado de Pernambuco pelo custo decorrente da referida cirurgia, "que devolverá ao autor a condição de respirar sem a dependência
do respirador mecânico".

Ajusta-se, aqui, perfeitamente, a lição de Plauto Faraco de Azevedo quando
afirma: "Qualquer juiz, não importa a instância em que atue, "a fortiori" o juiz
constitucional, precisa arrimar-se na técnica jurídica para decidir, com a clara
consciência da necessidade de um juízo político, em que se incluem o senso de
conveniência e de oportunidade e a prefiguração dos resultados da decisão".63
Destacamos que os soldados da borracha não podem mais ficar à mercê da
boa vontade do Governo brasileiro que teima em não solucionar o problema gerado
63

AZEVEDO, Plauco Faraco. Criação Judicial do Direito, Revista dos Tribunais, p. 156.

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unicamente por sua omissão. Não podem eles ficar todo esse tempo prejudicados.
Mas, com a concessão da presente medida, todos estes transtornos e riscos podem
ser evitados.
Há, por isso, que dar vida aos preceitos constitucionais de respeito à
tranquilidade, honra e dignidade dos soldados da borracha, até porque toda a lesão
ou ameaça de lesão a direito não pode ser excluída da apreciação do Poder
Judiciário (inc. XXXV, art. 5º e art. 25 do Pacto de São José da Costa Rica).
No caso em tela, os soldados da borracha sentem-se inteiramente
prejudicados pela lesão ou ameaça de lesão a direito e, por isso, somente a
antecipação dos efeitos da tutela poderá efetivamente salvaguardar o pleno acesso à
justiça efetiva e célere.

4 DOS PEDIDOS

À vista do exposto, requerem os autores:

a) a tramitação prioritária, nos termos do Estatuto do Idoso, uma vez que os
soldados da borracha é um grupo com média de idade de 85 anos;

b) o recebimento da petição inicial, reconhecendo-se, desde já, a
abrangência nacional da presente Ação Civil Pública;

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c) a intimação pessoal das Defensorias Públicas, de todos os atos
processuais e a contagem dos prazos processuais em dobro, na forma do inciso I do
art. 44 da Lei Complementar nº 80/1994;

d) a concessão de antecipação dos efeitos da tutela para a União ser obrigada
a:
d.1) pagar imediatamente a indenização de, no mínimo, R$ 200.000,00
(duzentos mil reais), para cada soldado da borracha (extensível aos dependentes), assim
entendidos como os “seringueiros recrutados nos termos do Decreto-Lei nº 5.813, de 14 de
setembro de 1943, e amparados pelo Decreto-Lei nº 9.882, de 16 de setembro de 1946”,
bem como aqueles “que, atendendo a apelo do Governo brasileiro, contribuíram para o
esforço de guerra, trabalhando na produção de borracha, na Região Amazônica, durante
a Segunda Guerra Mundial” (art. 54, caput, e § 1º, do ADCT), conforme fundamentação
do item 2.3.1 desta peça;
d.2) criar Comissão Específica, prevista na Diretriz 24, Ação Programática
“b”, do Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3 (Decreto nº 7.037, de 21
de dezembro de 2009), a qual tem como objetivo reconstituir a história da repressão ilegal
relacionada ao Estado Novo (1937-1945), em especial, para preservar a memória histórica
e a construção pública da verdade sobre os Soldados da Borracha;

e) a citação da União para, querendo, apresentar resposta no prazo legal;
f) a procedência do pedido para que a União seja condenada, em definitivo,
pagar indenização de, no mínimo, R$ 200.000,00 (duzentos mil reais), para cada soldado
da borracha (extensível aos dependentes), assim entendidos como os “seringueiros
recrutados nos termos do Decreto-Lei nº 5.813, de 14 de setembro de 1943, e amparados
pelo Decreto-Lei nº 9.882, de 16 de setembro de 1946”, bem como aqueles “que,
atendendo a apelo do Governo brasileiro, contribuíram para o esforço de guerra,
trabalhando na produção de borracha, na Região Amazônica, durante a Segunda Guerra
72

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Mundial” (art. 54, caput, e § 1º, do ADCT), confirmando-se a antecipação dos efeitos da
tutela;

g) a procedência dos pedidos para que a União, em razão das graves
violações de Direitos Humanos cometidas durante o período de intensificação da
produção da borracha para o esforço dos Aliados na Segunda Guerra Mundial (14
de setembro de 1943 e 15 de agosto de 1945)64, seja condenada às seguintes
reparações coletivas:
g.1) o pagamento de indenização por danos morais coletivos, no
valor de R$ 25.000.000,00 (vinte e cinco milhões de reais), a ser revertido, em
parcelas iguais, para os Fundos de Direitos Difusos Federal e Estadual, nos termos
do art. 13 da Lei n.º 7.347/85, devendo ser consignado, na sentença, que os recursos
serão destinados às políticas públicas em prol da verdade e da memória dos
seringueiros caracterizados como soldados da borracha, de forma como entender os
conselhos gestores dos referidos fundos;
g.2) a construção de monumento em prol da memória dos soldados da
borracha, o qual será destinado a homenagear todos aqueles que participaram da
“Batalha da Borracha” e que foram mortos nos seringais da Região Amazônica;
g.3) a obrigação de favorecer a inclusão do tema “Soldados da
Borracha” nos livros de História do Brasil, utilizados tanto nas escolas do ensino
fundamental quanto nas escolas do ensino médio e fundamental de âmbito estadual
e municipal, bem como a obrigatoriedade da inclusão deste tema no Plano Nacional
de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação;

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Datas de publicação do Decreto-lei n.º 5.813/1943, que criou a C.A.E.T.A. e da rendição do Japão.

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g.4) a disponibilização, em meio digital, do acervo documental
pertencente ao Museu do Seringueiro, localizado na cidade de Rio Branco/AC, bem
como os demais documentos históricos eventualmente existentes nos arquivos da
União, como forma de democratização do acesso à informação do tema “soldados
da borracha”;
g.5) a criação de Comissão Específica, prevista na Diretriz 24, Ação
Programática “b”, do Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3
(Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009), a qual tem como objetivo
reconstituir a história da repressão ilegal relacionada ao Estado Novo (1937-1945),
em especial, para preservar a memória histórica e a construção pública da verdade
sobre os Soldados da Borracha, confirmando-se os efeitos da antecipação de tutela;
h) intimação do membro do Ministério Público Federal para atuar como
fiscal da lei (LACP, art. 5º, § 1º).
i) a condenação da União as custas processuais e honorários advocatórios de
sucumbência, que deverão ser revertidos em favor da DEFENSORIA PÚBLICA
DA UNIÃO (Conta Governo n.º 10.000-5, Agência 0002, CEF) e do FUNDO
ESTADUAL DA DEFENSORIA PÚBLICA DO PARÁ, a ser depositado na Conta
Corrente de n°. 182900-9 - Banco n°. 037, Agência n°. 015, instituído pela Lei
Estadual n°. 6.717/2005.

Protesta provar o alegado por todos os meios admitidos em Direito,
notadamente depoimento pessoal do requerido, sob pena de confesso, oitiva de
testemunhas, juntada ulterior de documentos, audiência pública.
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Dá à presente causa o valor de R$ 2.500.000.000,00 (dois bilhões e
quinhentos milhões de reais).

Nestes termos, pedem deferimento.

Belém, 10 de dezembro de 2014; 66º Aniversário da Declaração Universal
dos Direitos Humanos.

Carlos Eduardo Barros da Silva
Defensor Público do Estado do Pará

Francisco Eduardo Falconi de Andrade
Defensor Público Federal

Cláudio Luiz dos Santos
Defensor Público Federal

Lucas Cabette Fabio
Defensor Público Federal

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ANEXO I – LEGILAÇÃO SOBRE OS SOLDADOS DA BORRACHA

Essas são as legislações referentes à temática do soldado da borracha e que se
sucederam ao longo dos anos até os dias atuais:
1) Decreto-lei n. 4.261, de 16 de abril de 1942- Abre ao Conselho de
Imigração e Colonização o crédito especial de 2.000:000$0 (dois mil contos de réis)
para amparo a trabalhadores nacionais, e dá outras providências.
2) Decreto-lei n.º 4.509, de 23 de julho de 1943 – Abre ao Ministério do
Trabalho, Indústria e Comércio o crédito especial de 7.736:190$0 (sete mil
setecentos e trinta e seis contos e noventa mil réis) para a localização de
trabalhadores no Vale do Amazonas, e dá outras providências.
3) Decreto-lei n.º 4.523, de 25 de julho de 1942 – Cria a Comissão de
Controle dos Acordos de Washington, e dá outras providências.
4) Decreto-lei n.º 4.750, de 28 de Setembro de 1942

Mobiliza os recursos

econômicos do Brasil e cria o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores
para a Amazônia (SEMTA), com sede em Fortaleza.

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5) Decreto-lei n.º 4.841, de 17 de outubro de 1942 – Dispõe sobre o
financiamento a ser concedido pelo Banco de Crédito da Borracha S.A para o
desenvolvimento da produção da borracha e dá outras providências.
6) Decreto-lei n.º 5.225, de 1 de fevereiro de 1943 – Dispõe sobre a situação
militar dos trabalhadores nacionais encaminhados para a extração e exploração de
borracha no Vale Amazônico, e dá outras providências.
7) Decreto-lei n.º 5.044, de 4 de dezembro de 1942 – Cria a Superintendência
de Abastecimento do Vale Amazônico (SAVA), e dá outras providências.
8) Decreto-lei n.º 5.381, de 7 de abril de 1943 – Aprova acordo entre a
Superintendência de Abastecimento do Vale Amazônico (SAVA) e a Rubber
Development Corporation.
9) Decreto-lei n.º 5.403, de 13 de abril de 1943 – Aprova acordo firmado
entre a Superintendência de Abastecimento do Vale Amazônico (SAVA) e a Rubber
Development Corporation.
10) Decreto-lei n.º 5.476, de 11 de maio de 1943 – Aprova acordo firmado
entre a Comissão de Controle dos Acordos de Washington (CCAW) e o Governo do
Estado do Mato Gross, Banco de Crédito da Borracha S.A. e a Rubber Development
Corporation.
11) Decreto-lei n.º 5.813, de 14 de setembro de 1943 – Cria a Comissão
Administrativa do Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia (CAETA).
Aprova o acordo relativo ao recrutamento, encaminhamento e colocação de
trabalhadores para a Amazônia, e dá outras providências.
12) Decreto-lei n.º 14.535, de 19 de janeiro de 1944 – Aprova acordo relativo
ao recrutamento e encaminhamento de trabalhadores para a Amazônia.
13) Decreto-lei n.º 8.416, de 21 de dezembro de 1945 – Extingue a Comissão
Administrativa do Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia (CAETA) e

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a Superintendência de Abastecimento do Vale Amazônico (SAVA) e dá outras
providências.
14) Decreto-lei n.º 9.882, de 16 de setembro de 1946 – Autoriza a elaboração
de um plano para a assistência aos trabalhadores da borracha.
15) Aviso n.º 1.262, de 18 de maio de 1943, do Ministério da Guerra –
Dispõe sobre a situação militar dos trabalhadores nacionais encaminhados para o
Vale Amazônico.
16) Aviso n.º 304, de 21 de março de 1947, do Ministério da Guerra –
Dispõe sobre a situação militar dos trabalhadores encaminhados para o Vale
Amazônico.
17) Portaria n.º 3.138, de 17 de abril de 1974 do Ministério do Trabalho e
Previdência Social – Dispõe sobre a criação do grupo de trabalho interministerial
para o exame do problema dos soldados da borracha.
18) Artigo 54 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da
Constituição Federal/1988 – Dispõe sobre a pensão mensal vitalícia dos
seringueiros recrutados.
19) Lei n.º 7.986, de 28 de dezembro de 1989, alterada pela Lei n.º 9.711, de
20 de novembro de 1998. Regulamenta a concessão do benefício previsto no artigo
54 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, e dá outras providências.
20) Portaria do Ministério da Previdência e Assistência Social n.º4.630, de
13 de março de 1990, que regulamenta o que se encontra disposto na Constituição.
21) Emenda Constitucional n.º78, de 14 de maio de 2014, que dá nova redação ao
caput do art. 54 do ADCT e acrescenta art.544-A a este ato conferindo uma indenização de
R$25 mil reais os seringueiros recrutados como soldados da borracha.

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ANEXO II – GRÁFICOS

Baixa de Soldados da Borracha na Região Norte

No período de tempo (9 meses), perdemos cerca de 404 Heróis da Pátria,
que faleceram sem que seus Direitos fossem efetivados.

Distribuição dos Soldados da Borracha na Região Norte.

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Comparativo de Baixa Soldados da Borracha e Pensionistas no ACRE:

Em menos de um ano morreram no ACRE (Estado que concentra o
maior número de soldados da borracha):
187 - Soldados da Borracha;
21 - Pensionistas de Soldados da Borracha.
Totalizando:
80

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208 – Perdas de Soldados da Borracha e Pensionistas que faleceram e
não poderão usufruir dos seus Direitos.

81