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Númeero 0 – Janeiro

o 2010 

   

Guita
arra Clássica    1 
 
Edittorial 
12  anos 
a passaados  desdee  o  apareccimento  de e 
Guitaarreando,  a  primeira  revista  dedicadaa 
inteiramente  a  assuntos  guitarrísticos  a  surgirr 
em PPortugal, eis este novo
o projecto q que usufruii 
das p
possibilidad
des do mun ndo virtual.

Natuuralmente,  esperamoss  que  a  estte  projecto o 


se  ju
untem  maiis  colaboraadores,  ficaando  assim m 
lançaado  o  desaafio  aos  leitores  destte  primeiro

t bastaráá  o  envio  de  artigos, 
número.  Para  tal, 
comp posições  e  sugestõess  paraa 
revisstaguitarra@
@gmail.com m. 

Os  nossos 
n agraadecimento
os  especiaiss  a  Matanyya 
Opheee e Nuno G Guedes de Campos pe ela sua precciosa colabo
oração nestta edição. 

Até aao próximo
o número em
m Abril! 

es 
Pedrro Rodrigue

 
Índicce 

Entre
evista com Carlo Marcchione………
……………………
…………………
………….………
…………………
………3 

Festiival de Guittarra de Leiria……………
……………………
…………………
…….……………
…………………
………8 

Entre
evista com Oscar Flech
ha………………
…………………
…………………
……………………………………
……11 

Prob
blemas de R
Repertório…
…………………
……………………
…………………
…….……………
…………………
…….16 

Págin
nas com Mú
úsica ..………
…………………
……………………………………
…………………
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…….30 

Novaas Gravaçõe
es………………
…………………
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……….…………………………
……34 

 
 
Equip
pa: Nuno Cammpos, João P Paulo Henriqques, Matanyya Ophee, Ru
ui Pinto, Pedro Rodriguess  
 
 
 
 
(toda
as as proposttas publicitá
árias deverão
o ser endereeçadas para rrevistaguita
arra@gmail.ccom) 

Guita
arra Clássica    2 
 
Entrevista com Carlo Marchione  
Por João Paulo Henriques 
música do século XX ou música espanhola etc.) 
João  Paulo  Henriques:  Em  primeiro  lugar  tu  consegues  perceber  facilmente  que  muitos 
gostava  de  agradecer  em  nome  da  Revista  da  programas  são  muito  frequentemente  um 
Guitarra Clássica por aceitar o nosso pedido de  resultado  de  necessidades  práticas  e  de 
entrevista. É um grande prazer para nós. Como  objectivos.  Em  todas  estas  situações  cada 
correram os concertos na Rússia?  músico escolhe peças que falem ao seu coração 
e  cérebro  de  uma  maneira  especial.  Posso 
Carlo Marchione: Obrigado por esta entrevista 
dizer‐te  que,  no  meu  caso,  com  o  chegar  dos 
João!  Os  meus  concertos  em  Moscovo  e  S. 
anos maduros eu tento não só tocar peças que 
Petersburgo correram muito bem. Infelizmente 
mostram  o  meu  melhor  lado  mas  acima  de 
o dia do concerto em Moscovo coincidiu com o 
tudo o melhor lado da música em si. Portanto, 
jogo  de  futebol  Eslovénia‐Rússia  para  a 
também  as  várias  transcrições  e  os  vários 
qualificação  para  o  próximo  campeonato  do 
compositores  desconhecidos  e  peças  que  um 
mundo...como  podes  imaginar,  não  havia  as 
indivíduo  pode  ouvir  nos  meus  concertos  (eu 
habituais  900  pessoas  no  concerto,  o  que  é 
penso em compositores barrocos como Roman, 
normal  naquele  país!  Já  agora,  foi  uma 
que  se  pode  ouvir  no  Youtube,  von  Westhoff, 
experiência  pessoal/profissional  incrível  e 
Vilsmayer  e  Paradisi,  compositor  este  que 
enriquecedora, como sempre o é na Rússia. 
toquei  um  ano  atrás  em  Portugal  e 
compositores  modernos  como  Casarini, 
J.P.H:  A  minha  próxima  pergunta  é  sobre 
Iannarelli,  Vassiliev  e  por  aí  em  diante). 
repertório.  Como  escolhe  o  programa  a 
Digamos  que  com  o  passar  dos  anos  eu  sinto 
interpretar num concerto? 
mais e mais um tipo de sentimento de “justiça” 
C.M: Boa questão! Digamos que apesar de tudo  para  com  todos  estes  compositores  que  por 
o  que  te  dizem  durante  as  chamadas  master  razões  alheias  à  qualidade  musical  têm  sido 
classes  e  workshops  sobre  “como  escolher  um  deixados  de  fora  (não  só  no  mundo 
programa” não há uma maneira de escolher um  guitarrístico)  da  programação  de  concertos 
programa  mas  sim  uma  situação  (novamente  durante  tantos  anos.  Ao  fazer  isto  eu  tenho  o 
pessoal  e/ou  profissional)  em  que  tu  tens  de  apoio  e  inspiração  de  todos  os  meus  alunos. 
optar. Eu refiro‐me, por exemplo, quando tens  90%  do  meu  repertório  dos  últimos  10  anos 
20  anos  e  estás  no  início  da  tua  carreira  tu  tem  vindo  a  ser  (re)descoberto  e  estudado 
tentas  tocar  peças  que  mostrem  o  teu  melhor  juntamente  com  e,  muitas  vezes,  por  eles.  O 
nível  por  assim  dizer.  Se  considerarmos  que  meu  obrigado,  vocês  são  muito  importantes 
nesta fase da vida musical, um músico participa  para  a  minha  vida  musical  e  pessoal!  Mas  por 
também  em  vários  concursos  internacionais,  favor não se esqueçam que a história da música 
com  várias  peças  obrigatórias  e  programa  está  repleta  de  compositores  incrivelmente 
especificamente  requisitado  (por  exemplo  esquecidos,  grandes  compositores.  Toda  gente 

Guitarra Clássica      3 
 
conhece  Bach,  mas  quantos  conhecem  resulte da maneira que eu acho que deverá ser 
Pisendel,  ou  Zelenka  ou  Monn?  Toda  gente  executada. Eu chamo isto de ‘essência’ porque 
conhece  Mozart,  mas  quantos  conhecem  a  transcrição  é  feita  em  sua  volta.  Esta  foi  o, 
Rosetti,  Kraus,  Beck  ou  obras  de  W.F.  Bach?  não  isolado,  mas  um  caso  muito  extremo  de 
Para  mim  não  é  só  uma  questão  académica,  transcrição.  É  também  muito  importante 
eles  escreveram  música  realmente  encontrar  um  género  de  dicionário  musical 
inesquecível! Basta comprar tudo deles e ouvir!  para que se possa ‘traduzir’ convincentemente 
para a linguagem da guitarra, figuras típicas de 
J.P.H: Acho que é do conhecimento geral entre  um  outro  instrumento.  Invertendo  a  direcção: 
os guitarristas que faz muitas transcrições para  como se toca os Recuerdos de la Alhambra no 
guitarra.  Que  processo  usa  para  arranjar  algo  piano?  Ou  um  caso  de  sorte:  Astúrias  (muitos 
para  guitarra?  Como  passa  de  escolher  uma  guitarristas continuam a achar que esta peça foi 
peça a transcrevê‐la?  composta  para  guitarra!  Mas  eu  consigo 
entendê‐los,  é  apenas  perfeitamente 
C.M:  Para  mim  uma  transcrição  é  sempre  e 
idiomático). Ou: como acrescentar baixos numa 
absolutamente  uma  declaração  de  amor. 
Ciaconna para violino solo (consegues imaginar 
Muitas vezes, nós aprendemos isto na vida real, 
a  qual  me  refiro?)  Ou:  como  transcrever  o 
por  causa  do  amor  uma  pessoa  diz  e/ou  faz 
basso  albertino  com  linha  melódica  na  parte 
coisas  estranhas.  No  mesmo  sentido  eu 
superior?  Neste  caso,  é  muito  interessante 
transcrevo várias peças só pelo amor que tenho 
consultar  transcrições  históricas  (Giuliani  ou 
por elas, sem ter cuidado com (a boa) execução 
Carulli por exemplo).   
ou a racionalidade das peças. Eu toquei durante 
12 anos com um quarteto e duo de guitarras, 4  Já  agora,  eu  ouço  com  muita  frequência  de 
anos com um dos melhores trios de guitarra do  colegas  muito  estimados  que  transcrições  não 
meu  país  e  tu  não  consegues  imaginar  o  que  devem  ser  feitas  e,  se  um  indivíduo  não 
nós  tocamos  durante  esses  anos!  (Voltarei  a  consegue  na  verdade  manter‐se  distante 
este  assunto  mais  tarde).  Mas  se  eu  decidir  destas,  não  devem  ser  tocadas  em  concerto 
acrescentar  uma  nova  transcrição  ao  meu  mas somente em casa para fins de estudo. Eles 
programa  a  primeira  coisa  que  eu  faço  é  fazer  com certeza têm razão em alguns casos, mas eu 
um ‘flirt’ à peça. Ao decidir, por exemplo, tocar  penso que é sempre uma questão de qualidade 
o  Adagio  KV  540  de  Mozart  (sem  dúvida  a  da transcrição, ‘credibilidade’ e o seu conteúdo. 
transcrição  mais  difícil  de  sempre)  eu  passei  Eu  não  consigo  imaginar  que  alguém  pudesse 
muito tempo só a tocar em alguns bares aqui e  dizer: João, não leias Shakespeare porque este 
acolá,  em  várias  tonalidades  diferentes  e  com  não escreveu em português. Mesmo que alguns 
afinações  diferentes.  Finalmente  encontrei  a  refinamentos  do  génio  sejam  inevitavelmente 
‘essência’  da  transcrição,  ou  seja  uma  perdidos,  o  conteúdo  e  a  beleza  da  sua  obra 
passagem que eu somente consigo tocar numa  justifica  de  certa  maneira  uma  tradução  em 
tonalidade  e  afinação  específica  para  que  qualquer  língua  desta  Terra.  Por  outro  lado, 

Guitarra Clássica      4 
 
ninguém  no  teu  país  irá  sentir  falta  de  uma  neoclássico, dodecafónico etc.); isto porque ele 
tradução  de  uma  telenovela  japonesa  para  a  tem  uma  mensagem  forte  que  eu  consigo 
linda língua que é o português. O que também  entender  e  sentir  por  detrás  de  todas  as 
é  esquecido  é  que  grande  parte  do  nosso  diferenças  ‘técnicas’  das  peças  e  do  ‘dialecto’ 
repertório  ‘original’  é  nada  mais  nada  menos  musical.  Depois  disso,  uma  pessoa  pode  talvez 
que  uma  transcrição  (caso  extremo:  Sonata  entender  melhor  as  minhas  preferências  no 
Omaggio  a  Boccherini  do  Castelnuovo).  Já  que diz respeito ao repertório do século XX/XXI. 
agora, toda gente tem de decidir por si próprio  Uma peça que gostaria de tocar antes de parar 
o  que  fazer,  claro  está.  Eu  considero  a  é sem dúvida “Choreiques” de Francis Miroglio. 
transcrição,  apesar  de  todos  os  aspectos  Uma  suite  dodecafónica  em  quatro  partes 
práticos,  um  incrível  e  útil  ‘exercício’,  incrivelmente  fortes.  Não  é  certamente  uma 
especialmente  para  nós  guitarristas,  e  não  um  boa peça para uma festa de casamento ou um 
passo não omissivo na nossa educação musical  concerto  numa  aldeia  pequena  nos  Pirenéus, 
(a fim de se conhecer não só academicamente  mas no sítio certo, na ocasião certa e com duas 
repertório  que  não  existe  para  o  instrumento  palavras  de  introdução  irá  tornar‐se  num 
moderno); ou então só deveríamos tocar peças  enriquecimento fantástico do nosso repertório. 
compostas  por  guitarristas‐compositores  mais 
ou  menos  do  período  de  Tárrega  (i.e.  para  a  J.P.H:  Quais  foram  as  suas  principais 

guitarra ‘moderna’).   referências  musicais  durante  e  depois  da  sua 


juventude? 
J.P.H: No que diz respeito ao século XXI e ao seu 
repertório  para  guitarra,  eu  gostaria  de  lhe  C.M:  Tanto  quanto  me  lembra,  na  minha 

perguntar  quais  são  as  suas  preferências  e  juventude  a  minha  fonte  de  inspiração  era 

sugestões?  Nikolaus  Harnoncourt,  não  tanto  pela 


qualidade estonteante das suas gravações mas 
C.M:  Tal  como  tinha  dito  anteriormente,  eu  ainda  mais  pela  inextinguível  sede  de 
toquei  durante  12  anos  com  um  quarteto  de  (re)descobrir  novo  repertório  e  observando‐os 
guitarras.  O  nosso  repertório  era  90%  música  com  olhos,  alma  e  cérebro  muito  abertos  (ele 
contemporânea  e  90%  desse  repertório  foi  acaba  de  gravar  ‘Porgy  and  Bess’  aos  80!).  Eu 
escrito para nós (isto para algumas pessoas que  nunca  tentei  imitar  a  sua  maneira  de 
pensam  que  eu  somente  gosto  e  toco  música  tocar/dirigir (não faria sentido) mas se eu tenho 
barroca...).  Como  podes  imaginar  nós  tocámos  hoje  em  dia  a  capacidade  de  oferecer  bons 
muitas boas peças, mas também peças que me  programas  com  desempenho  compreensível 
deixaram  perplexo,  para  pôr  de  uma  maneira  (em relação a tempos, articulações, fraseado e 
suave.  Eu  não  me  importo  em  que  estilo  ou  um bom balanço entre texto e afectos pessoais) 
linguagem  musical  a  peça  é  escrita,  se  tem  não  é  somente  por  causa  dos  meus  grandes 
ruídos  ou  aspiradores  na  orquestra.  Eu  adoro  professores  de  guitarra  mas  também  deste 
Stravinsky  em  todos  os  seus  períodos  (russo, 

Guitarra Clássica      5 
 
gigante da música com 80 anos. Muito obrigado  J.P.H:  Uma  pergunta  diferente:  Se  não  fosse 
Maestro!  guitarrista,  o  que  gostaria  de  ter  sido 
profissionalmente? 
J.P.H:  Vamos  falar  um  pouco  sobre  a  guitarra 
em  Portugal,  já  que  visitou  o  nosso  país  dois  C.M:  Aos  20  anos  de  idade  eu  pensei 
anos  seguidos  se  não  estou  enganado.  Visto  seriamente  em  parar  de  ‘tocar’  guitarra.  Eu 
seres  um  dos  guitarristas  que  mais  vezes  é  escrevi  ‘tocar’  porque  na  verdade  naquele 
convidado para festivais de guitarra em todo o  tempo em Itália não havia concertos para tocar. 
mundo, gostaria de saber a sua opinião sobre o  Eu estava muito desmotivado (um amigo salvou 
nível  dos  guitarristas  em  Portugal.  Tem  algum  a  minha  vida  dando‐me  coragem  e  força  para 
conselho  a  dar  aos  estudantes  de  guitarra  continuar  e  chegar  onde  estou  hoje).  Portanto 
clássica em Portugal?  eu  tinha  um  trabalho  numa  loja  de  LP/CD  em 
Roma  e  tenho  que  te  dizer  que  a  ideia  de 
C.M: Portugal é um dos meus países favoritos.  trabalhar  lá  não  era  desagradável  para 
O  carácter  das  pessoas,  o  tempo,  a  beleza  das  mim...Hoje  isso  nem  seria  possível,  a  não  ser 
cidades  e  natureza,  fado,  comida...eu  adoro  que  eu  abrisse  uma  loja  de  CD  online...Mas 
tudo  do  fundo  do  coração.  Foi  portanto  uma  neste  último  caso  eu  iria  sentir  a  falta  do 
enorme  alegria  ser  convidado  pelo  grande  contacto  com  as  pessoas,  que  é  para  mim  o 
Maestro  Dejan  Ivanovic  para  tocar  em  Lisboa  elemento  mais  importante  do  meu  trabalho 
em  2008.  Desde  essa  altura  eu  estive  também  (como  professor  e  executante).  O  sonho 
em  Sernancelhe  e  uma  vez  mais  na  cidade  secreto  era  de  qualquer  maneira  tornar‐me 
capital.  Grande  público!  As  masterclasses  num jogador de futebol. Eu não era mau, e aos 
também  foram  muito  boas,  o  nível  geral  da  16 anos tive de escolher entre o Conservatório 
guitarra  na  Europa  está  a  aumentar  e  os  treinos  de  futebol.  Tu  sabes  o  que 
incrivelmente  nos  últimos  15  anos  e  Portugal  aconteceu... 
não poderia ficar para trás nesta moda também 
devido  à  presença  de  grandes  professores  J.P.H: A próxima pergunta é complicada. Como 
estrangeiros,  cujo  os  quais  formaram  uma  aborda  uma  peça  nova  que  está  prestes  a 
geração  fantástica  de  músicos.  Caro  João,  estudar? Qual o seu método de estudo? 
perguntaste‐me  se  podia  dar  um  conselho.  É 
uma  pergunta  traiçoeira...Portanto  eu  gostaria  C.M:  É  uma  pergunta  impossível  de 

de citar uma frase de Paul Degas, que combina  responder...o processo é muito fluente e vago, 

perfeitamente  com  a  minha  filosofia  como  ser  algumas vezes muito longo, outras vezes muito 

humano e músico: “Ter talento tendo 25 anos é  curto. Articulação, digitação, fraseado, lealdade 

fantástico.  Mas  continuar  a  tê‐lo  quando  se  ao  texto  e  expressão  pessoal,  estabelecer 

tem 50 anos, é o verdadeiro desafio da vida”.   ligações  à  música  escrita  no  mesmo  período, 


circunstâncias  da  vida  do  compositor...tudo  se 
 

Guitarra Clássica      6 
 
mistura tornando‐o
os no que tu  na altura ouvves  dee  muito  sucessso  profissional  e  pessoal  para 
p o 
nte o concerto
duran o.  an
no de 2010. 

J.P.H::  Mais  uma  vez  em  nome  da  Revissta  C..M:  Foi  um  prazer. 
p Muito
o  obrigado  e  muito 
Guitarra  Clássica  o 
o nosso  muito
o  obrigado  peelo  su
ucesso para vo
ossa revista.  
seu  teempo  e  dispo
onibilidade.  Fo
oi  um  privilég
gio   
poderr  fazer  esta  entrevista. 
e Oss  votos  sincerros 
 

Carlo Marchiione é consideerado, pela crrítica e 
por  revistas  especializad
das,  como  um
m  dos 
melhores guiitarristas da n
nova geração. A sua 
formação  prrofissional  va
ai  desde  a  música 
m
clássica  ao  Jazz,  passando
o  pelo  Flameenco,  o 
que  lhe  perm ar  diferentes  estilos 
mite  trabalha
musicais. 

Venceu  diveersos  concu


ursos  nacionais  e 
internacionaiis.  Ao  longo
o  da  sua  ca
arreira 
omo  solista  eem  orquestra  e  em 
trabalhou  co
diversas  form mara,  actuando  em 
mações  de  câm
importantes ffestivais euro
opeus. Em 199
97, por 
ocasião  de  uma 
u viagem  p
pela  Rússia,  actuou 
a
na  prestigiad
da  Sala  Grand
de  do  Conservvatório 
Tchaikovsky d
de Moscovo, a
assim como n
na Sala 
Glinka  de  Sã
ão  Petersburgo.  Em  1998  actuou 
a
na Sala Filarmónica
a de Berlim, honra raramen
nte concedida a um guitarriista. 

Leccio
ona,  com  regu
ularidade,  Ma
asterclasses  em 
e prestigiad
das  Instituiçõees  Musicais  e  Festivais  Eurropeus. 
Imporrtantes  comp
positores  con m  obras  dedicadas  a  Ca
ntemporâneoss  escreveram arlo  Marchion
ne:  A. 
Carlevvaro, C. Domeeniconi, C. J. W annarelli e G. Droszd, entree outros. 
W. Duarte, S. Ia

Em co ubert" (1997),  transcreveu ee gravou com


omemoração  do "Ano Schu m o tenor C.Rosel o ciclo com
mpleto 
de Lieeder Die schön
ne Müllerin (op
p. 25, D. 795). 

A reviista "Classicall Guitar" faz u
uma crítica ma
agnífica à sua
a gravação e ttranscrição da
as 12 Fantasia
as para 
violino
o de G.P. Teleerman, editada
as por Suvini ZZerboni. 

Carlo Marchione é actualmente professor da EEscola Superio
or de Maastriccht, na Holand
da. 

Guita
arra Clássica    7 
 
II Festival Internacional de Guitarra de Leiria (2009)  
por José Mesquita Lopes 
 
Este  Festival  teve  a  sua  segunda  edição  em  outros instrumentos como a flauta, o oboé e o 
Julho  de  2009,  no  entanto  é  um  evento  que  violino. 
vem  sendo  realizado  desde  2004  integrado  no 
Nos  dias  11  e  12,  seguiu‐se  o  II  Concurso 
então  Estágio  Internacional  de  Orquestra  da 
Nacional de Guitarra de Leiria que contou com 
Região  de  Leiria/Fátima.  A  partir  de  2008 
diversos concorrentes de vários pontos do país, 
tornou‐se  autónomo,  e  desde  aí  começou  a 
os quais foram integrados em 5 escalões (desde 
incluir  mais‐valias,  diversificando  a  oferta  de 
o Preparatório (A) até ao 7º/8º graus (E)).  
acontecimentos.  Isto  tornou‐se  possível  graças 
à  Direcção  do  OLCA  (Orfeão  de  Leiria  O júri incluiu os professores J. Mesquita Lopes, 
Conservatório de Artes), às Câmaras Municipais  Ilda Coelho, Mário Teixeira, Neuza Bettencourt, 
desta  região,  aos  seus  directores  artísticos  e  Pedro Rodrigues e Roberto Batista.  
executivos, os professores José Mesquita Lopes 
Os premiados, que tocaram dia 12 de Julho na 
e  Ilda  Coelho,  para  além  de  vários  outros 
Casa Municipal da Cultura de Alvaiázere, foram: 
colaboradores  –  Direcção  Pedagógica, 
Associação  de  Estudantes,  secretários/as,  Escalão A: 
jornais,  rádios,  diversos  outros  patrocinadores 
1º prémio – Diogo André Mesquita Teixeira 
como lojas de música, editoras, etc. 
2º prémio – Marcelo Santos Oliveira 
 Este ano, o Festival começou com o II Encontro 
Escalão B: 
Nacional  de  Ensembles  de  Guitarra  (9  e  10), 
1º prémio – Paulo Renato Gonçalves Vieira 
tendo  participado  em  concerto  os  seguintes 
2º  prémio  (exaequo)  –  Fábio  Santos  Gavina  e 
ensembles:  Ens.  de  Guitarras  da  Sociedade 
Hugo Miguel Lourenço Lopes 
Filarmónica  Gualdim  Pais  (Tomar),  com  a 
3º prémio – Henrique de Carvalho Moreira 
direcção  de  Sérgio  Marques;  Ens.  de  Guitarras 
da  Guarda,  com  a  direcção  de  Hugo  Simões;  Escalão C: 

Ens.  de  Guitarras  da  Academia  de  Música  de  1º prémio – Inês Sofia Simões Pereira 


Monte  Abraão,  com  a  direcção  de  Ricardo  2º prémio – Rafael Batista dos Santos 
Martins; Ens. de Guitarras do Conservatório de 
3º prémio – João Paulo Santos Lopes 
Música  D.  Dinis  (Odivelas)  e  o  Ensemble 
Escalão D: 
Concertante  de  Guitarras  do  Orfeão  de  Leiria, 
com  a  direcção  de  J.  Mesquita  Lopes.  O  seu  1º prémio – André Almeida Ferreira 

repertório variou entre o período renascentista  2º prémio – Tiago Filipe Antunes Morin 
e o séc. XXI, tendo alguns destes grupos tocado 
3º prémio – Bruno Almeida Ferreira 
com alguns músicos convidados, intérpretes de 
 

Guitarra Clássica      8 
 
Escalão E:  fazendo  parte  do  júri  Dejan  Ivanovic  (Croácia), 

1º prémio – Ricardo Nuno Alves Pereira  Tomás  Camacho  (Espanha)  e  José  Mesquita 


Lopes  (Portugal).  Foram  premiados  os 
3º prémio – João Luís Rodrigues Ramos 
seguintes alunos do Curso: 
De 13 a 17 decorreram (com um nº elevado de 
alunos)  as  VI  Master  Classes  orientadas  pelos  1º prémio – João Paulo Henriques. Interpretou: 

professores  Álvaro  Pierri  (Uruguay),  Tomás  Fandango de J. Rodrigo, Elegy de A. Rawsthorne 

Camacho  (Espanha)  e  José  Mesquita  Lopes  e  Duas  Visões  Breves  (peça  obrigatória)  de  J. 
(Portugal).  Ainda  dentro  destas  datas  Mesquita Lopes. 

decorreram  o  II  Estágio  de 


2º  prémio  (exaequo)  –  André  Ferreira. 
Ensembles/Orquestra de Guitarras, cujos alunos 
Interpretou Introdução, Tema e Variações op. 9 
tocaram  em  concerto  na  Galeria  Municipal  da 
de F. Sor, Prelúdio nº 3 de Heitor Villa‐Lobos e a 
Marinha  Grande  (Concerto  Final  de  Alunos  e 
peça obrigatória. 
Ensembles  “Júnior”)  e  no  Concerto  Final  do 
Curso,  no  Teatro  Cine  do  Pombal,  onde  Tiago  Vicente.  Interpretou  o  1º  andamento  da 
interpretaram  um  arranjo  para  Orquestra  de  Sonata  nº1  de  Dusan  Bogdanovic,  a  peça 
Guitarras da Csangó Sonatina de Ferenc Farkas.  obrigatória  e  Introdução  e  Capricho  de  J. 
Os  professores  deste  Estágio  foram  Sónia  Regondi. 
Leitão  (direcção),  Ilda  Coelho  (direcção)  e  J. 
Menção  Honrosa:  Ricardo  Pereira.  Interpretou 
Mesquita Lopes (direcção e arranjos). 
Duas  Visões  Breves  de  J.  Mesquita  Lopes, 
No  dia  15  teve  lugar  o  extraordinário  e  muito  Leyenda  (Astúrias)  de  I.  Albéniz  e  Fantasia  da 
aclamado  recital  do  guitarrista  Álvaro  Pierri.  Traviata de F. Tárrega. 
Este  interpretou  obras  de  Jakub  Reyes,  N. 
Durante  todo  o  Festival  decorreu  uma 
Paganini (Gran Sonata), I. Albéniz, Leo Brouwer, 
exposição  de  partituras  pela  AVA  MUSICAL 
Heitor  Villa‐Lobos  (Estudos  4  e  12),  Manuel 
EDITIONS  e  uma  mostra  de  guitarras  pelo 
Ponce  (Sonata  nº3),  e  Alberto  Ginastera 
luthier Benito Casais Aquino que ofereceu uma 
(Sonata  op.47).  O  concerto  obteve  tal  sucesso 
guitarra de concerto no valor de 3000 euros ao 
que  os  discos  trazidos  por  este  guitarrista 
1º premiado do concurso internacional. 
desapareceram em poucos minutos. No final do 
concerto  já  estavam  esgotados.O  Concerto  Para  finalizar,  este  Festival  juntou‐se  ao  VI 
Final de Alunos teve lugar dia 17 no Cine Teatro  Estágio  de  Direcção  de  Orquestra,  dirigido  por 
do  Pombal,  tendo  finalizado  com  uma  obra  Jean‐Sebastien Béreau, tendo sido interpretado 
para  orquestra  de  guitarras  que  incluiu  a  em três apresentações o Concierto Andaluz de 
maioria dos alunos do Curso, tendo enchido por  J.  Rodrigo  para  quatro  guitarras  e  orquestra. 
completo o grande palco.  Foram solistas Tomás Camacho (Espanha), José 
Mesquita  Lopes  (Portugal),  Sérgio  Pereira 
No dia 18 teve lugar no Cine Teatro de Porto de 
(Portugal)  e  Raphael  Béreau  (França).  Dia  24 
Mós,  o  VI  Concurso  Internacional  de  Guitarra, 

Guitarra Clássica      9 
 
em Leiria, na Igreja da Portela a direcção coube  a Laurence Maufroy e Gabriel Bourgoin, no dia 

25 dirigiram Alexandre Branco Weffort e Gabriel Bourgoin, no dia 26 dirigiu o maestro Jean‐Sebastien 
Béreau. 

Para  2010  esperam‐se  algumas  novidades  com  interesse  neste  festival  que  se  tem  tornado,  cada  vez 
mais, um ponto de referência nacional (e internacional) para muitos músicos/guitarristas.  

em cima: Concerto Final Estágio de Orquestra, dir. J. M. Lopes 

à  esquerda:  Concerto  do  VI  Estágio  Internacional  de  Orquestra, 


Concierto Andaluz, dir. Jean Sebastien Bérau, sol. Tomás Camacho, 
José Mesquita Lopes, Sérgio Pereira, Raphael Bérau  

em baixo: Entrega Prémios VI Concurso Internacional de Guitarra, 
da  esq.  para  dir.:  Neuza  Bettencourt,  Sónia  Leitão,  Ilda  Coelho, 
Ricardo  Pereira,  Tiago  Vicente,  André  Ferreira,  Tomás  Camacho, 
José Mesquita Lopes, Dejan Ivanovic, Benito Casais Aquino e João 
Paulo Henriques 

Guitarra Clássica      10 
 
Entrevista com Oscar Flecha 
por Pedro Rodrigues 
 
Revista Guitarra: A primeira edição do Festival  edição  actuou  Manuel  Barrueco  pela  primeira 
Internacional de Santo Tirso teve lugar em 1994  vez em Portugal).  
com  um  elenco  de  luxo:  Leo  Brouwer,  Pedro 
A  escolha  dos  artistas  convidados  foi  uma 
Caldeira  Cabral,  David  Russell,  Eduardo  Isaac, 
escolha  pessoal,  dado  que  foram  alguns  dos 
Roberto  Aussel,  Duo  Assad  entre  outros.  Como 
artistas  que  directamente  ou  indirectamente 
surgiu  a  ideia  e  oportunidade  de  realizar  um 
me tinham influenciado musicalmente. A minha 
evento com estes nomes? 
intenção  era  reunir  um  grupo  de  artistas  e 
Oscar  Flecha:  A  ideia  de  fazer  um  festival  de  professores  e  que  fossem  um  “catalisador 
guitarra  surge  após  ter  trabalhado  uns  anos  cultural”  para  todos  os  interessados  na 
como  professor  no  Conservatório  Regional  de  guitarra,  mas  sempre  tendo  por  objectivo 
Música “Centro de Cultura Musical” (com sede  chegar a todos os músicos.   
nas  Caldas  da  Saúde  –  Santo  Tirso).  Na  altura 
RG:  Os  Festivais  de  Guitarra,  tirando  algumas 
não  havia  muita  oferta  de  concertos  ou  de 
honrosas  excepções,  estão  normalmente 
cursos  de  guitarra,  e  queria  dinamizar  e 
vaticinados  a  localidades  afastadas  das 
promover  a  guitarra.  Assim  surgiu  a  ideia  de 
capitais.  Será  simbólico  da  posição  da  guitarra 
fazer  um  festival  temático  centrado  neste 
no mundo musical ou encontra outras razões? 
instrumento. 

OF:  A  guitarra  tem  um  grande  número  de 


Para testar o tipo de resposta que podia ter um 
seguidores  nos  grandes  centros  urbanos  que 
evento  desta  dimensão,  houve  algumas 
justificaria  a  realização  destes  eventos  nesses 
experiências  prévias  com  cursos  e  concertos; 
locais,  por  isso  não  encontro  razões  objectivas 
nomeadamente  o  primeiro  curso  ‐  orientado 
para explicar por quê acontece isto, mas assim 
por David Russell ‐ foi um grande sucesso.  
acontece.  
Já  para  1994  tinha  um  projecto  formalizado 
RG:  O  Festival  de  Santo  Tirso  teve  imensos 
para  realizar  o  Festival  em  Santo  Tirso,  que 
momentos  marcantes,  como  por  exemplo 
contou  sempre  com  o  apoio  e  o  patrocínio  da 
Brouwer  a  dirigir  Yamashita  em  4  concertos 
Câmara Municipal local. 
para  guitarra  numa  única  noite.  Quais  os 
Assim  nesse  mesmo  ano,  um  pouco  como  momentos  mais  marcantes  para  si  e  qual  o 
forma  de  divulgação  do  Festival,  lancei  outra  evento que gostaria de organizar no futuro? 
iniciativa: os “Encontros de guitarra” (Porto), de 
OF:  É  complicado  escolher  esses  momentos 
modo  que  em  Fevereiro  desse  ano  foi 
para mim, foram muitos! Sem dúvida que esse 
apresentada  a  informação  sobre  o  Festival  de 
concerto foi marcante, a Orquestra de Córdoba 
Santo Tirso nos “Encontros de Guitarra” (nessa 
dirigida por Leo Brouwer e Kazuhito Yamashita 
como  solista  dos  Concertos  de  Rodrigo, 

Guitarra Clássica      11 
 
Yoshim
matsu,  Fujie  e  Castelnuovo‐Tedesco.  Mas 
M fazer  interagir mais  a  mússica  com  as  outras 
todo o
o conceito do
o IV Festival fo
oi do meu pon
nto  arrtes.  
de  vista  muito  im
mportante,  po
orque  assinalou 
Go
ostava  tamb
bém  (digo  isto  com  alguma 
a
um  ponto 
p de  con
ntacto  dos  guitarristas 
g co
om 
caautela)  de  ulttrapassar  a  eestrutura  form
mal  de 
outros  instrumen
ntistas.  Ach
ho  que  paara 
um
m  concerto  onde 
o um  mú
úsico  toca  perante 
contin
nuar  a  deseenvolver  a  guitarra  com
mo 
um
ma  audiência  “passiva”.  Essta  é  uma  ide
eia  em 
instru
umento  é  prreciso  fomen
ntar  mais  essse 
fase  embrionárria  que  estou
u  a  tentar  viaabilizar 
convívvio. Num futu
uro gostava d
de poder sond
dar 
co
om a ajuda dee alguns comp
positores.  
mais n
no panorama da música co
ontemporâneaa e 
 

O
Oscar Flecha com  LAGQ (da esq. pa
ara dir. John Dea
arman, Scott Tenn
nant, Oscar Flecha, William Kanen
ngiser e Matt Grieef) 

RG:  Um 
U elemento  que  contribu
uía,  a  meu  ver, 
v OF:  Concordo,  lembro‐me  ainda  com  alguma 
a
para  o  encanto  e 
e maravilha  do  Festival  era 
e saaudade  daqu
uelas  reuniõees  entre  to
odos  ‐ 
realm
mente  a  possib
bilidade  de  en
ncontrar  em  10‐
1 esstudantes  e  professores 
p ‐  a  partilhar  um
m  café 
12  dias  os  melhorres  guitarrista
as  do  mundo
o  e  ou
u  um  almoço  com  Leo  Bro
ouwer,  Los  Angeles 
A
conheecer  colegas  de 
d todo  o  paíís.  Actualmen
nte,  Gu
uitar  Quartett,  Manuel  Baarrueco,  etc.,,  claro 
o  Festtival  aposta  numa 
n distribu
uição  da  agen
nda  qu
ue  isto  imp
primia  um  rritmo  de  traabalho 
de  concertos 
c e  masterclassees  muito  mais  diferente  do  actual 
a formato,  mas  tinh
ha  um 
alarga
ada.  Em  quee  âmbito  surgiu  esta  no
ova  grrande  encanto.  Depois  do
o  Festival  pre
ecisava 
calend
darização?  do
ormir uma sem
mana para reccuperar! 

Guita
arra Clássica    12 
 
Contudo  os  participantes  dos  cursos  deixaram  Portugal  através  do  Festival.  Um  número 
de  ser  assíduos,  tal  vez  porque  seria  preciso  importantíssimo  de  guitarristas  nacionais 
deixar  renovar  as  camadas  de  guitarristas  que  assistiu  ao  longo  destes  anos  aos  cursos  e 
“necessitassem” de participar, e isto, somado a  concertos  do  Festival.  E  hoje,  fruto  deste 
assuntos do foro económico levou a uma nova  trabalho, um número significativo de talentosos 
estrutura.    jovens continua a encontrar em Santo Tirso um 
ponto de encontro com a música com guitarra.  
Desde  2000  o  festival  organiza‐se  através  do 
Conservatório Regional de Música, e a direcção  RG:  Há  que  salientar,  neste  caso  agradecer,  a 
artística  é  partilhada  com  a  direcção  dessa  constante presença de músicos portugueses no 
escola.  Nessa  altura  reestruturámos  os  cursos.  grupo  de  artistas  participante  no  festival,  algo 
Mas,  por  questões  logísticas  e  também  que  muitas  vezes  é  esquecido  por  outros 
económicas,  a  partir  de  2003  os  cursos  eventos.  Como  gostaria  de  encontrar  o  país 
passaram a ser mais curtos e a distribuição dos  musical daqui a outros 16 anos? 
concertos  passou  a  ser  durante  os  fins‐de‐
OF: Estarei muito velho na altura, mas gostava 
semana. 
de encontrar isto que hoje em dia começa a ser 
Do  ponto  de  vista  dos  concertos,  a  nova  mais  vulgar,  mas  ainda  insuficiente:  a 
calendarização  beneficiou  o  festival  porque  integração da música de guitarra no roteiro dos 
fidelizou  um  público  de  maneira  mais  eficaz.  festivais  e  das  temporadas  de  música.  E 
Actualmente  o  festival  tem  um  público  de  particularmente  penso  que  ficaria  grato  com 
guitarrista e de melómanos em geral.   mais  ofertas  culturais  onde  os  actuais 
estudantes  pudessem  encontrar  no  país  mais 
RG:  A  componente  pedagógica  do  Festival 
oportunidades  de  trabalho,  especialmente  na 
sempre foi muito importante e na sequência de 
vertente artística.   
festivais  como  Estoril  e  Aveiro,  Santo  Tirso  foi 
uma mais‐valia para a evolução da guitarra em  RG:  Falando  agora  de  outro  projecto,  quais  os 
Portugal.  Que  retrato  faz  destes  16  anos  de  objectivos  da  Legato  –  Associação  de  Arte  e 
Santo Tirso na educação musical portuguesa?  Guitarra de Portugal para 2010? 

OF:  Talvez  não  deva  ser  eu  a  falar  sobre  isto,  OF:  Em  princípio,  vamos  continuar  com  a 
mas acho que o Festival teve uma importância  terceira  edição  do  ciclo  Seis  Cordas  Seis 
substancial no desenvolvimento da guitarra em  Momentos.  Este  ciclo  tem  sido  inteiramente 
Portugal,  porque  foi  (e  continua  a  ser)  uma  preenchido  com  instrumentistas  portugueses 
fonte  de  formação  e  de  informação  sobre  a  ou residentes em Portugal e neste âmbito está 
guitarra,  sempre  pela  mão  de  professores  de  prevista a realização do IV Concurso Legato de 
nível  internacional,  o  que  é  um  facto  invulgar  guitarra clássica.  
no  panorama  musical  nacional.  Muitos  artistas 
RG: As associações de guitarra em Portugal têm 
e  professores  vieram  pela  primeira  vez  a 
um  raio  de  acção  um  pouco  insular.  Não  acha 

Guitarra Clássica      13 
 
necessária  a  criação  de  uma  associação  com  RG:  Que  projectos  tem  de  futuro  para  os  seus 
dimensão nacional?  concertos  e  concertos  com  PortoTango 
Ensemble? 
OF:  Acho  que  sim.  A  Legato  desenvolve  o  seu 
trabalho principalmente no Norte do país, mas  OF:  Continuo  a  desenvolver  algum  trabalho 
seria  interessante  poder  criar  uma  rede  com  com  formações  “invulgares”.  Acho  que  a 
outras associações de guitarra, para sensibilizar  música  de  câmara  é  frequentemente 
mais  eficazmente  algumas  entidades  esquecida, por vezes porque é difícil o convívio 
patrocinadoras.   da  guitarra  com  os  outros  instrumentos  e 
também porque a nossa literatura camerística é 
Uma vez que a realidade económica não ajuda, 
ainda  pequena,  não  tem  crescido  ao  mesmo 
e já sabemos que em tempos de crise a cultura 
ritmo  que  o  repertório  solista.  Assim,  depois 
é  sempre  “penalizada”,  o  associativismo  pode 
dos duos com violoncelo e com fagote, estou a 
ser  uma  boa  alternativa  para  conseguir 
explorar  a  música  em  trio  com  violino  e 
organizar e realizar projectos culturais. 
violoncelo.  

Por  exemplo,  em  2001  a  Legato  lançou  um 


Nas  apresentações  a  solo  estou  a  incluir 
projecto  interessante,  que  foi  incluir  nos 
algumas  improvisações  e  com  PortoTango 
Encontros  de  guitarra  concertos  com  alunos 
interpretamos,  com  uma  formação  mais 
finalistas  das  Universidades  e  Escolas 
alargada,  música  de  Buenos  Aires,  não  só 
Superiores.  Chegámos  a  realizar  um  concerto 
Piazzolla  também  outros  compositores, 
com  alguns  finalistas  de  Lisboa  e  do  Porto,  e 
nomeadamente  Troilo  e  Blázquez.  O  ano 
quando  tencionávamos  continuar  com  outras 
passado  gravámos  o  CD  “Sin  esquinas”  e  este 
instituições,  mais  uma  vez  os  cortes  nas 
ano  continuaremos  apresentando  este 
despesas  da  cultura  inviabilizaram  a 
trabalho, no fim deste mês actuaremos na Casa 
continuidade do projecto. Uma associação com 
das Artes de Vila Nova de Famalicão. 
delegações  em  diversas  localidades  do  país, 
estrategicamente  escolhidas,  poderia  RG:  Estimado  Oscar,  muito  obrigado  pela  sua 
impulsionar  esta  ideia  e  organizar  digressões  disponibilidade  e  votos  de  constante  sucesso 
para os jovens finalistas das universidades.   para  si  e  claro  para  o  Festival  de  Santo  Tirso!

Guitarra Clássica      14 
 
Oscarr  Flecha  é  acttualmente  um
m  dos  principa
ais  promotorees  da  guitarra
a  em  Portuga
al,  a  sua  actividade 
abran
nge a organiza ação de eventtos, combinad da com a sua ccarreira como professor e in ntérprete. 

Formaado  como  pro ofessor  de  gu onal  de  Músicca  de  Buenos  Aires, 
uitarra  clássicca  no  Conservvatorio  Nacio
aperfe
feiçoou‐se comm Eduardo Isa aac, Omar Cyrrulnik, Miguel Angel Girolleet, Maria Isab bel Siewers e  vários 
outross. Também frrequentou currsos de interprretação com D David Russell, Leo Brouwer, r, Segiswald KKüijken, 
e Rosa
alyn Tureck, eentre outros. 

Comoo  solista  tem  realizado  con


ncertos  em  diiversas  salas  de  Argentina  e  da  Europa
a,  nomeadamente  o 
Teatro
o  General  Sa an  Martín  dee  Buenos  Airres,  o  Bolivarr  Hall  de  Londres.  Tem‐sse  apresentad
do  em 
forma
ações de câma ara, principalm
mente em duo o com violino, violoncelo, ca anto e fagote.. 

Comoo  docente,  tem  ministrado o  vários  curso os  de  aperfeeiçoamento,  nomeadamen
n te  em  Santo  Tirso, 
Lousa
ada, Porto, Ilha da Madeira a, etc. Actualm mente lecciona a no Conserva atório Regiona al Centro de CCultura 
Musiccal  de  Santo  Tirso/Famaliccão.  É  regularrmente  memb bro  do  júri  em
m  diversos  con
ncursos  de  gu
uitarra 
nacion
nais e internaacionais. 

dador dos festivais "Enconttros de Guitarrra do Porto" em 1994 (o primeiro festivval de guitarra
É fund a nesta 
cidadee) e do "Festivval Internacio
onal de Guitarrra de Santo TTirso" também m em 1994. É ttambém fund dador e 
presid
dente da Lega ato – Associaçção de Arte e G Guitarra de Poortugal e direector da Colecção Legato "M
Música 
Portuguesa para Guitarra". 

É fund
dador do PorttoTango Ensemble, formaçção vocaciona
ada para a intterpretação da
a música de B
Buenos 
Aires. 

Guita
arra Clássica    15 
 
Problemas de Repertório 
por Matanya Ophee 
 
Como  um  empresário  americano,  gostaria  de  sem um público, será obrigado a exercer a sua 
começar  por  vender‐lhe  algo.  O  produto  que  arte  inteiramente  fora  do  mainstream  da 
desejo  vender,  chama‐se  Segurança  Laboral  actividade musical na sociedade humana. 
para  Guitarristas.  Na  minha  vida  profissional  Poderá  ainda  fazer  concertos  ao  almoço,  em 
como editor, vendo igualmente as ferramentas  fábricas e hospitais, tocar ocasionalmente uma 
do  negócio,  mas,  principalmente,  gostaria  de  noite para o clube local ou festival de guitarra, 
lhe  vender  uma  ideia.  Como  de  costume,  e  entreter  os  seus  amigos  e  familiares  em 
prometo  dar‐lhe  algo  sobre  pensar,  algo  sobre  reuniões  sociais  em  casa.  Mas  as  portas  das 
o qual estar louco e falarei sobre música, sobre  grandes  salas  de  concerto  do  mundo,  onde  os 
trabalho, e com a sua tolerância, também sobre  grandes  violinistas,  pianistas  e  cantores 
sexo.  aparecem  com  sucesso  repetido, 
   permanecerão  fechadas  para  si,  enquanto  a 
Gostaria de poder escrever e, neste importante  música que propor tocar, for de interesse zero 
momento, dar‐lhe boas notícias. Infelizmente, o  para o público. 
que  tenho  não  pode  ser  descrito  como    
optimismo.  A  guitarra,  como  disciplina  Por outras palavras, o seu futuro como músico 
intelectual  devotada  à  prática  da  arte  musical,  depende  de  dois  factores  importantes:  a  sua 
está  em  sérios  problemas.  A  situação  da  escolha  de  repertório  e  a  sua  capacidade  de 
guitarra  no  estrangeiro,  pode‐lhe  parecer  fornecer  uma  interpretação  convincente. 
melhor do que neste país. Pode considerar que   
a  disponibilidade  de  cordas,  partituras,  livros,  Neste  artigo,  gostaria  de  lhe  dar  uma  breve 
discos, instrumentos e outros acessórios, não é  descrição do desenvolvimento do repertório da 
suficiente  perante  as  necessidades  imediatas  guitarra, e tentar demonstrar que temos ido na 
de  alguém  e  tal  servir  de  justificativo  como  direcção  errada.  Talvez  esta  discussão  possa 
indicador  para  a  saúde  geral  da  guitarra.  também sugerir‐nos algumas ideias sobre como 
Mesmo  se  possuir  o  melhor  instrumento  proceder  para  atingirmos  o  nosso  legítimo 
possível,  ter  a  possibilidade  de  colocar  cordas  lugar,  garantindo  assim  a  vida  artística,  e  sim, 
novas  três  vezes  ao  dia,  ainda  necessita  do  também  a  sobrevivência  económica  dos 
elemento  crucial  para  o  sucesso  de  qualquer  músicos que tocam guitarra. 
empreendimento  musical  –  precisa  de  um    
público.  A  guitarra  hoje  não  conhece  nenhumas 
   fronteiras  geográficas  ou  políticas.  Ela  floresce 
Sem  um  público  sério  e  esclarecido,  não  tem  onde  a  beleza  e  a  paixão  pela  música  são 
futuro  como  músico  profissional.  Poderá  ser  o  permitidas.  No  entanto,  a  guitarra  nunca 
maior  virtuoso  que  jamais  pisou  a  Terra,  mas,  conseguiu  um  lugar  de  honra  na  sociedade 

Guitarra Clássica      16 
 
comum  da  música.  Contrariamente  aos  sob  um  tecto  pintado,  e  com  a  luz  dos 
equívocos comuns, a guitarra nunca esteve em  projectores  de  palco,  a  guitarra  perde  toda  a 
pé  de  igualdade  com  os  instrumentos  da  sua  beleza,  toda  a  sua  melodia  inerente 
orquestra  e  do  piano.  Qualquer  que  seja  a  (…)”(Gazeta Repertuar, 1839) 
"Idade  de  Ouro",  que  tenha  supostamente    
existido  para  a  guitarra,  o  seu  esplendor  foi  Se  pensarmos  que  este  absurdo  desprezo  de 
sobretudo  o  produto  do  desejo  por  parte  dos  inícios  de  século  XIX  é  um  exagero  para  os 
guitarristas,  um  sentimento  que  não  partilham  padrões  de  hoje,  só  temos  que  observar  que 
com  o  público  em  geral.  No  passado  como  no  mesmo  nos  conservatórios  e  universidades 
presente,  os  guitarristas  procuraram  maneiras  onde  a  guitarra  é  autorizada  a  ser  ensinada,  é 
de  alcançar  um  público  mais  amplo  do  que  colocada  a  um  canto  separado,  com  pouco  de 
aquele garantido pelas sociedades de guitarra e  contacto com o resto dos alunos e professores. 
clubes.  Achamos  que  é  necessário  aplicar  ao  nosso 
   instrumento  o  adjectivo  "clássica",  com  a 
O preconceito contra a guitarra sempre existiu  esperança  de  que,  ao  fazê‐lo,  de  algum  modo 
e existe ainda hoje, mesmo em países como os  consigamos  transmitir  aos  nossos  colegas  que 
Estados Unidos, onde a guitarra é ensinada em  não  devemos  ser  confundidos  com  roqueiros, 
mais  de  800  conservatórios  e  universidades.  pimbas,  ciganos  e  mariachi.  Violinistas  e 
Deixe‐me  citar  uma  breve  passagem  de  uma  pianistas  não  têm  necessidade  de  usar  o 
crítica  de  concerto  de  guitarra  que  ilustra  adjectivo  "clássico",  mesmo  que  o  piano  ainda 
claramente  a  percepção  comum  de  guitarra  seja  o  instrumento  de  eleição  de  muitos 
pela maioria dos músicos profissionais:  músicos  de  jazz  e  no  meu  país,  podemos 
  encontrá‐lo em cada bar, cada sala de jantar de 
            ” (…) Mas aqui está um instrumento que  hotel. No virar de século, o piano foi também o 
por  muito  tempo  nós  não  ouvimos  nos  nossos  instrumento  favorito  de  locais  públicos  de  São 
concertos, um instrumento que voa a partir do  Francisco,  Nova  Orleans  e  St.  Louis,  e  foi 
ardente  sul  para  o  nosso  distante  e  frio  norte,  justamente  nesse  ambiente  que  o  rag‐time 
um  instrumento  de  Don  Giovanni,  o  Conde  primeira  vez  se  estabeleceu.  O  violino  é  uma 
Almaviva,  um  companheiro  inseparável  de  parte importante do Hillbilly, música Country, e 
qualquer  espanhol  (…)  numa  palavra,  a  é  usado  como  um  instrumento  popular  nas 
guitarra, também, um instrumento inadequado  Ilhas  Britânicas,  Escandinávia,  França,  México, 
para qualquer palco de concertos (…) Teríamos  no mundo árabe, de Marrocos ao Iraque, e em 
gostado  de  ouvi‐lo  sob  a  janela  de  uma  muitos  outros  países.  Contudo,  os  violinistas 
rapariga bonita numa noite tranquila de verão,  nunca se preocuparam com isso. 
sob  uma  lua  de  prata,  quando  uma  leve  e    
quente  brisa  bate  na  superfície  do  rio,  O  próprio  conceito  de  instrumento  popular  é 
sussurrando  para  si  pelas  rosas  ao  longo  da  algo  que  merece  mais  atenção.  Um 
costa (…) mas no teatro, no meio da multidão,  instrumento,  como  um  artifício  da  habilidade 

Guitarra Clássica      17 
 
humana,  não  possui  atributos  intrínsecos  a  si,  épocas.  Falta‐me  poder  explicar  porque  é  que 
até que alguém nele toca, adquirindo qualidade  de todos os instrumentos musicais, a guitarra, o 
societária  normalmente  a  ele  associada,  instrumento  que  faz  parte  integrante  do 
dependendo da música tocada. A harpa judaica  renascimento musical europeu do século XVI, é 
é  um  instrumento  popular  em  uso  por  todo  o  apontada  por  outros  músicos  para  o  ridículo  e 
mundo, desde as montanhas do norte da Itália  escárnio.  Tenho  algumas  teorias  sobre  o 
até  à  tundra  gelada  da  Sibéria.  Mas  quando  assunto,  contudo  não  são  apropriadas  a  uma 
Georg  Albrechtsberger,  professor  de  harmonia  discussão na nossa sociedade educada. O facto 
de  Beethoven,  escreveu  um  concerto  com  é  que  temos  um  problema,  e  se  queremos 
orquestra este instrumento, não importou que  continuar  com  a  nossa  vida  musical,  temos  de 
o  instrumento  fosse  igualmente  tocado  por  tentar e encontrar uma saída. 
pastores nómadas.     
   A guitarra, como a conhecemos hoje, alcançou 
A música popular é muitas vezes definida como  a  sua  forma  actual  durante  a  primeira  metade 
a  música  que  existe  numa  tradição  oral,  do século XIX. Muitas vezes ouvimos discussões 
enquanto a existência da arte musical depende  de  que  a  técnica  e  pedagogia  da  guitarra  é 
de uma página escrita. A música por nós tocada  actualmente  muito  superior  na  sua  concepção 
e chamada erudita para guitarra, existe na sua  do que era no século XIX. Por esta razão, somos 
maioria  por  escrito  ou  impresso.  Alguma  foi  informados,  de  que  os  artistas  de  hoje  são 
composta  por  pessoas  que  não  muito  muito  melhores.  Deve  no  entanto  ser 
conhecidas  fora  dos  círculos  limitados  de  observado, de que não temos maneira possível 
amantes  da  guitarra.  Outra,  composta  por  de  comparar  a  actual  geração  de  intérpretes 
compositores  importantes  como  Paganini,  von  com  aqueles  que  faleceram  antes  do  advento 
Weber,  Schubert,  Berlioz,  Castelnuovo‐ dos  meios  gravação  de  som.  Eliot  Fisk  é 
Tedesco, Ponce, Villa‐Lobos, Stravinsky, Mahler,  "melhor  guitarrista"  do  que  Giulio  Regondi? 
Schönberg,  Asafiev,  Webern,  Hindemith  e  Wolfgang  Lendle  é  mais  “musical”  do  que 
Milhaud.  Em  tempos  mais  recentes,  a  música  Fernando  Sor?  Oscar  Ghiglia  é  "melhor" 
para  o  nosso  instrumento  foi  escrita  por  pedagogo  que  Ferdinando  Carulli?  Nunca 
Benjamin  Britten,  Michael  Tippett,  Hans  saberemos,  mesmo  que  pudéssemos  chegar  a 
Werner  Henze,  Eliot  Carter,  Edison  Denisov  e  acordo  sobre  o  significado  das  palavras 
Sofia  Gubaidulina.  Considerando  os  "melhor"  e  "musical".  O  historiador  cauteloso 
compositores e as suas músicas, a guitarra não  deve  tentar  separar  facto  da  ficção  ao 
pode  jamais,  ser  considerada  como  um  determinar  o  que  é  realmente  novo  e 
instrumento  popular.  No  entanto,  o  revolucionário,  e  o  que  são  velhos  dogmas 
preconceito continua.  envoltos  no  brilho  pomposo  de  novas 
   terminologias.  Ao  contrário  de  lendas  comuns, 
Consegui  juntar  um  léxico  considerável  de  a  técnica  e  a  pedagogia  do  instrumento  foram 
ideias  anti‐guitarra  de  diferentes  países  e  muito  bem  definidas  em  1843,  altura  em  que 

Guitarra Clássica      18 
 
Dionisio Aguado publicou o seu último método  distantes, nem sempre do nível artístico por ele 
conhecido,  e  muito  pouco  de  facto  mudou  preferido. 
desde então.    
   O  recital  dado  exclusivamente  por  um 
Por  outro  lado,  a  forma  e  conteúdo  dos  intérprete,  é  geralmente  associado  com  as 
programas de concerto fora objecto de diversas  tournées de concertos de Franz Liszt nos finais 
metamorfoses  desde  o  início  do  século  XIX.  da  década  de  30  do  século  XIX.  O  termo 
Durante esse tempo, a ideia do concerto a solo  "recital"  foi  usado  primeiramente  por  Liszt  no 
no qual um artista, ou ensemble de música de  seu concerto de Londres em 1840. O programa 
camâra  ocupar  todo  o  programa,  não  era  interpretado  foi  música  composta  e  arranjada 
aceitável.  Com  excepção,  naturalmente,  das  pelo  intérprete.  Poucos  eram  os  guitarristas 
produções teatrais, tais como ópera. O formato  que  viajavam  em  meados  do  século  XIX,  e 
típico de um concerto dado para a projecção de  informações  precisas  sobre  os  seus  programas 
um  determinado  artista,  começaria  com  uma  de  concerto  não  estão  sempre  disponíveis. 
sinfonia  de  Haydn  para  orquestra,  algumas  Podemos  supor,  porém,  que  a  escolha  do 
árias  de  óperas  populares  de  então,  cantado  material  estaria  conforme  o  gosto  popular.  A 
por  uma  soprano  conhecida,  alguns  números  “música  popular”  começou  a  ser  considerada 
instrumentais  de  outros  artistas,  e  de  seguida,  como  uma  entidade  separada  da  arte  musical 
“le  coup‐de‐résistance”,  interpretado  pelo  durante  a  última  parte  do  século  XIX.  Por 
artista  principal  do  concerto,  muito  exclusão,  o  que  não  era  "popular"  ficou 
provavelmente  tocando  uma  composição  de  conhecido  como  "clássica",  que  não  é  um 
sua  autoria  para  o  seu  instrumento.  Nove  em  termo preciso o suficiente de modo a poder ser 
cada  dez  vezes,  a  composição  em  questão  era  aplicado  indistintamente  a  todas  as  formas  de 
um  conjunto  de  variações  virtuosísticas  sobre  arte musical de todas as eras. O termo "guitarra 
um  tema  de  uma  ópera  popular.  A  segunda  clássica",  também  remonta  aproximadamente 
metade do concerto seria construída da mesma  ao  mesmo  período,  embora  tenha  entrado  no 
forma,  encerrando  talvez  a  noite  com  uma  vocabulário  corrente  apenas  durante  a  década 
sinfonia  de  Beethoven.  Esse  foi  o  formato  de 1930. 
instituído  pela  maioria  dos  concertos  públicos    
por  violinistas,  pianistas,  violoncelistas,  Qual  a  estrutura  dos  recitais  de  guitarra 
cantores e também guitarristas.  naqueles dias? 
    
Um concerto deste formato era um evento caro  Um programa típico dado por Francisco Tárrega 
de  se  organizar,  desde  a  participação  de  um  em  1888,  é  dividido  em  três  partes.  No 
grande  número  de  intérpretes,  o  que  reduzia  primeiro, ouvimos arranjos de música de Verdi, 
drasticamente  o  rendimento  líquido  do  Arrieta, e Gottschalk, com uma composição do 
empresário. Além disso, o músico viajante, teria  próprio  artista.  Na  segunda  parte,  um  arranjo 
de recorrer aos talentos disponíveis em cidades  de  uma  gavotte  por  Arditi,  uma  polonaise  por 

Guitarra Clássica      19 
 
Arcas  e  variações  sobre  o  "Carnaval  de  próxima  ligação  com  os  clubes  de  banjo  e 
Veneza",  o  que  é  em  si,  uma  adaptação  de  bandolim.  Tal  como  nos  dias  de  hoje,  estes 
outra peça de Arcas. Na terceira parte, Tárrega  clubes  providenciavam  à  maioria  dos 
tocou  dois  arranjos  de  música  para  piano  de  guitarristas  um  palco  disponível  para 
Prudente  e  Thalberg,  e  dois  pot‐pourris  de  apresentação,  e,  o  material  por  seleccionado, 
melodias populares espanholas que ele próprio  estava  intimamente  relacionado  com  os 
arranjou.  desarticulados  gostos  de  doutores,  militares  e 
   pequeno‐burgueses  que  formavam  a  espinha 
O  que  é  notável  neste  programa,  é  o  facto  de  dorsal  destes  clubes.  Apenas  com  o  surgir  de 
não  conter  nenhuma  música  de  Sor,  Giuliani,  artistas  do  calibre  de  Llobet  e  Segovia, 
Aguado,  Carulli,  Carcassi  ou  outros  da  Europa  começamos  a  ver  algum  interesse  sério  em 
Ocidental  e,  em  particular,  os  guitarristas  ultrapassar  os  limites  estreitos  impostos  pelo 
espanhóis  da  geração  anterior.  Nos  anos  clube de guitarra e um esforço para atingir um 
seguintes,  Tárrega  começou  a  adicionar  a  público mais vasto. 
música  de  Bach,  Albeniz  e  Granados  aos  seus    
programas, mas, na essência, a sua escolha do  A  influência  de  Llobet  foi,  tal  como  a  sua 
material foi feito para satisfazer o gosto de um  própria vida, de curta duração. Para melhor ou 
público  bastante  pouco  sofisticado  ‐  algumas  para  pior,  a  força  principal  que  determinou  a 
composições  próprias,  sucessos  de  então  sorte da guitarra, no século XX, foi o guitarrista 
pertencentes  ao  repertório  de  piano  e  um  ou  espanhol  Andrés  Segovia.  Até  recentemente, a 
dois  arranjos  com  origem  na  ópera.  Não  nossa  imagem  deste  homem  era  formada  por 
sabemos  se  este  tipo  de  programação  foi  o  uma  crença  cega  no  poderoso  simbolismo  das 
factor  que  contribuiu  para  incapacidade  de  suas alegações de ter criado a guitarra, sozinho, 
Tárrega,  durante  a  sua  vida,  atingir  novos  na  sua  própria  imagem,  e  de  a  ter  finalmente 
públicos  para  além  das  fronteiras  da  Espanha.  colocado em “primeiro plano”, como o violino e 
Não nos esqueçamos de que, se não fossem os  o  piano.  As  falsidades  propagandísticas  dessas 
esforços dos seus alunos Miguel Llobet, Pascual  alegações  tinham  o  efeito  de  criar  uma  sub‐
Roch,  Emilio  Pujol,  Josefina  Robledo,  Domingo  cultura  “Segovianica”  entre  os  guitarristas,  e, 
Prat  e  outros,  nós  nunca  saberíamos  quem  foi  com  frequência,  com  uma  conotação  quase 
Tárrega.  religiosa. A maioria das informações disponíveis 
   no  Ocidente  sobre  a  carreira  de  Segovia,  foi 
Os  últimos  anos  do  século  XIX  revelaram  o  material  cuidadosamente  planeado  para 
surgir  de  uma  grande  onda  de  actividade  projectar  uma  imagem  como  a  que  acabo  de 
guitarrística  por  todo  o  mundo,  com  descrever, e para esconder alguns factos muito 
importantes  centros  na  Alemanha,  Rússia,  desagradáveis a seu respeito. 
Estados  Unidos,  Inglaterra,  França,  Itália  e,    
claro,  na  América  Latina,  normalmente  sob  a  Alguns anos atrás, publiquei o texto integral de 
forma  de  sociedades  de  guitarra  e  clubes,  em  129  cartas  escritas  por  Segovia  para  o 

Guitarra Clássica      20 
 
compositor  mexicano  Manuel  Ponce,  desde  o  3. Napoléon Coste                 Allegro in A 
seu primeiro encontro em 1923, até à morte de  4. Miguel Llobet                      El Mestre 
Ponce  em  1948.  Essas  cartas,  um  testemunho 
Segunda Parte: 
pessoal,  retratam  uma  imagem  totalmente 
1. J.S. Bach                           Gavotta 
diferente de Segóvia daquela que conhecíamos 
2. Haydn                               Minuetto 
anteriormente.  Segóvia  pertenceu  à  direita 
3. Mendelssohn                     Romanza 
reaccionária  e  apoiou  activamente  o  lado  de 
                                            Canzonetta 
Franco  na  guerra  civil  espanhola.  A  verdade 
4. Chopin                     Mazurka Op. 33 Nº 4 
sobre  a  expulsão  de  Segóvia  de  Barcelona  a 
                                            Nocturno 
meio  da  guerra,  como  o  próprio  Segovia 
descreve, deve‐se à perseguição por partidários  Terceira parte: 

da  ala  esquerda,  e  não  pelos  fascistas,  já  que  1. Isaac Albéniz                       Granada 


ele  mesmo  era  um  simpatizante  confesso  da                                                     Sevillanas 
força  fascista.  Segóvia  foi  um  auto‐declarado  2. Enrique Granados              La Maja de Goya 
anti‐semita,  e  isso,  juntamente  com  suas                                                    Danza in E 
conexões  políticas  com  Franco,  garantiu  que                                                    Danza in G 
fosse banido dos palcos nos Estados Unidos, de  3. Piotr Tchaikowski              Mazurca 
1937  até  depois  da  Segunda  Guerra  Mundial, 
Como  podemos  ver,  o  formato  deste  recital  é 
quando  as  antigas  queixas  da  opinião  pública 
muito  próximo  do  modelo  de  Tárrega.  A 
americana foram esquecidas. 
principal  diferença,  é  o  reconhecimento  por 
  
Segovia da existência de guitarristas como Sor e 
Colocando  tudo  isto  de  lado,  não  podemos 
Coste  e  ramificou  a  sua  escolha  para  fora  do 
negar  que  a  influência  de  Segovia  foi  o  factor 
campo  limitado  da  música  popular  espanhola 
dominante  para  a  estrutura  e  teor  dos 
em  que  Tárrega  estivera  refém.  Os  últimos 
conteúdos  dos  recitais  de  guitarra  durante sua 
concertos  de  Segovia  geralmente  começavam 
vida,  e  hoje  ainda  podemos  ver  os  seus  traços 
com  uma  peça  ou  duas  por  Gaspar  Sanz, 
em muitos programas de concerto. Aqui está o 
algumas  transcrições  da  literatura  de  alaúde, 
programa de um concerto dado por Segovia em 
alguns  dos  pastiches  em  nome  de  Sylvius 
Barcelona, em Dezembro de 1916, aquando do 
Leopold  Weiss  e  Alessandro  Scarlatti  que 
início da sua carreira concertística: 
Manuel  Ponce  escreveu  para  ele,  e, 
  
naturalmente,  as  obras  por  Ponce,  Torroba, 
Primeira parte:  Turina  e  outros  compositores  de  segundo 

1. Francisco Tárrega              Capricho Arabé  escalão, que escreveram música para ele. 

                                            Scherzo Gavotta    

2. Fernando Sor                     Minuetto in E  Um  factor  importante  no  desenvolvimento  do 

                                            Estudio in B flat  repertório  de  Segóvia,  foi  a  sua  adopção 


gradual  da  música  de  Johann  Sebastian  Bach. 

Guitarra Clássica      21 
 
Como vimos no programa de 1916, o interesse  instrumento formoso, mas é geralmente aceite 
de  Segóvia  na  música  de  Bach  foi,  que  é  pobre  em  recursos  e  é  sobretudo 
provavelmente,  baseada  na  preocupação  adequado para acompanhamento (…)” 
limitada de Tárrega com ela. Durante a década    
de  1920,  após  ter  descoberto  a  recente  A  linguagem  é  diferente,  mas  a 
publicação  por  Hans  Dagobert  Bruger  da  obra  condescendência  é  semelhante  à  que  foi 
completa  de  Bach  para  alaúde,  Segovia  revela  expressa  em  1839  na  Gazetta  de  Moscovo 
um  grande  interesse  por  esta  música,  "Repertuar."  O  programa  interpretado  por 
começando imediatamente, a incluí‐la nos seus  Segovia,  em  Moscovo,  em  1926  foi  publicado 
programas  republicando  algumas  partes  em  por  Miron  Vaisbord.  A  última  vez  que  ouvi 
seu  nome.  Mesmo  o  próprio  arranjo  da  Segovia ao vivo, foi em 1982, em Boston. Com 
Chaconne  por  Segóvia  não  foi  uma  ideia  uma  ou  duas  excepções,  tocou  exactamente  o 
original.  Um  arranjo  da  Chaconne  pelo  mesmo programa. 
Argentino  Antonio  Sinopoli  fora  publicado  em    
Buenos Aires em 1922 (n.t. A edição de Segovia  Até o momento em que Segovia começou a ter 
foi  publicada  em  1934  e  apresentada  em  uma  segunda  geração  de  seguidores  e 
concerto durante o ano de 1935 em Paris).  discípulos, o seu lugar como o árbitro absoluto 
   do  gosto  de  programação  para  guitarristas 
A  utilização  por  parte  de  Segovia  da  conexão  tornara‐se inquestionável. As raras pessoas que 
com  Bach  em  geral  e  da  Chaconne  em  desafiaram a preeminência de Segóvia, pessoas 
particular,  fazia  parte  da  sua  campanha  de  como  Emilio  Pujol,  Regino  Sainz  de  la  Maza, 
relações  públicas  e  dos  seus  esforços  Luise  Walker,  Maria  Luisa  Anido,  Benvenuto 
constantes  para  arranjar  concertos.  Com  Terzi,  Julio  Martinez  Oyanguren,  Karl  Scheit,  e 
frequência,  resultou  muito  bem  e  promotores  alguns  outros,  tentaram  construir  programas 
de concertos ficavam felizes com os resultados.  baseados  em  algo  que  não  o  repertório  de 
Críticos de música, por outro lado, muitas vezes  Segovia.  Em  alguns  momentos,  conseguiram 
eram  corteses  com  Segovia,  não  sendo  no  lograr  os  seus  esforços  de  forma  totalmente 
entanto,  completamente  capazes  de  esconder  inesperada por Segovia. Mas, em geral, apesar 
seus verdadeiros sentimentos sobre a guitarra.  de  uma  tremenda  explosão  na  actividade 
Leia‐se o artigo de Anatolii Lunacharsky, escrito  guitarrística  dos  últimos  trinta  anos,  a  guitarra 
em 1926 no "Izvestia", «Algumas palavras sobre  ainda  é  encarado  como  um  parente  pobre, 
nosso  convidado‐Segovia»,  durante  a  primeira  raramente bem‐vindo à mesa de jantar. 
visita do músico à União Soviética:    
   Gostaria  de  sugerir  que  a  razão  para  que  tal 
“  (…)  quando  se  fala  de  um  concerto  de  aconteça  ainda  hoje,  apesar  de  no  mundo 
guitarra,  vem  imediatamente  à  mente  que  tal  ocidental  o  repertório  de  Segovia  ser 
evento  terá  que  ver  com  alguns  truques  de   escassamente tocado, dele aprendemos alguns 
carácter decididamente menor. A guitarra é um  maus hábitos. Aqui estão alguns: 

Guitarra Clássica      22 
 
   escolha  de  repertório  feito  por  muitos 
Primeiro:  Tocar  sempre  o  mesmo  repertório.  guitarristas.  O  culto  da  personalidade  e  o 
Não  há  necessidade  de  aprender  instinto de rebanho comandam estas acções. É 
constantemente  novas  obras,  se  as  antigas  o  suficiente  para  alguém  como  John  Williams 
funcionam bem.  tocar  algo  de Tsutskin,  e  logo  toda  gente  de 
  Londres  a  Nova  Iorque  a Los  Angeles  e  até 
No tempo de Segovia, os músicos que viajavam  Hong  Kong  e  Austrália  começa  a  tocar  o 
com  frequência  não  tinham  que  se  preocupar  mesmo.   
tanto  como  actualmente  com  a  repetição  de    
programa.  A  probabilidade  do  público  ouvir  a  Terceiro:  Tocar  sempre  sozinho.  A  guitarra  é 
mesma  obra  duas  vezes  era  extremamente  uma  orquestra  pequena  e  não  tem  a 
remota.  Hoje  em  dia,  com  o  advento  da  necessidade  de  colaborar  com  outros 
tecnologia,  este  facto  torna‐se  um  problema,  instrumentos. Não interessa que não tenhamos 
particularmente  para  aqueles  de  nós  que  a noção de como dirigir uma orquestra.   
viajam  constantemente  entre  os  centros  de    
actividades  guitarrísticas.  É  cansativo  ouvir  um  Quarto:  Existe  a  crença  contínua  de  que  a 
músico que repete constantemente as mesmas  guitarra  de  seis  cordas  é  um  instrumento  de 
obras. Isto pode resultar bem para os fanáticos  origem  espanhola,  e  que  toda  a  boa  música 
da  guitarra,  mas  o  público  sério  só  poderá  escrita  para  esta  é  a  composta  por 
aguentar  obras  de  segunda  categoria  compositores espanhóis.  
repetidas ad‐nauseam até  certo  ponto.  Isto  é  um  enorme  equívoco,  do  qual  ainda 
Eventualmente,  o  público  trocará  o  concerto  sofremos  hoje  em  dia.  A  prova  que  a  guitarra 
pela ópera.    tal como a conhecemos não é um instrumento 
   de  origem  hispânica  não  pertence 
Segundo:  se  todavia  deseja  aprender  novas  propriamente  a  este  artigo.  O  que  aqui 
obras,  não  preste  atenção  a  qualquer  questão  pertence  é  o  exame  da  presunção  auxiliar 
relacionada  com  a  qualidade  musical.  O  recorrentemente  expressa  que  a  música 
essencial  para  os  guitarristas  é  tocar  peças  espanhola para guitarra, não só é a fonte como 
popularizadas  pelas  vedetas  da  guitarra.  Não  a  verdadeira raison d’etre do  repertório 
interessa  que  a  música  em  si  seja  de  má  guitarrístico. 
qualidade.  Os  guitarristas,  que  são  também  a    
maior  parte  do  público,  nunca  notarão  a  A  razão  principal  para  este  ponto  de  vista  é  o 
diferença.  Se  é  suficientemente  bom  simples  facto  de  que  os  guitarristas  espanhóis 
para Segovia, é suficientemente bom para mim.  dominaram o mundo da guitarra entre as duas 
   grandes  guerras  mundiais.  Foi  a  predilecção 
  pessoal  de Llobet,   Segovia,   Pujol,   Fortea, 
O  problema  aqui  apresentado  é que  a  estética   Sainzde la Maza, e anos mais tarde,  Yepes, que 
e a inteligência tem muito pouco que ver com a  estabeleceram  a  noção  do  que  é  de  facto  a 

Guitarra Clássica      23 
 
música  espanhola.  A  música  espanhola,  salvo  espanholas  com  o  acompanhamento  de 
raras excepções, tanto as obras originais como  castanholas. Levavaseur conta‐nos: 
as  transcrições,  pertencem  ao  tipo  de  música    
cuja  função  é  a  de  causar  entusiasmo  e  “...Nós  estávamos  particularmente 
estimulo.  Obras  essas  que  contêm  ritmos  impressionados  com  o  Fandango  e  com  a 
acoplados,  melodias  exuberantes,  sonoridade  extrema liberdade dos seus movimentos. Talvez 
do modo frígio, os zapateados, os fandangos, as  pelo  facto  de  as  dançarinas  exagerarem  os 
leyendas.  gestos. Um dia tivemos o conhecimento de que 
   existia  um  outro  tipo  de  dança,  ainda  mais 
O  fascínio  causado  por  esta  música  dentro  e  ousado,  chamado  o Zorongo,  e  pedimo‐lo. 
fora  da  península  ibérica,  claro  está,  data  da  Todos  no  auditório  apoiaram  o  nosso  pedido  e 
era  das  Guerras  Napoleónicas.  Grupos  dos  começaram  a  aplaudir  sonoramente.  Com  o 
exércitos  britânicos  e  francês  desceram  por  observar  dos  passos  e  gestos  das  dançarinas, 
este  miserável  pais  dentro  em  apoio  militar  ficamos  surpreendidos  que  tais  danças 
activo  desta  ou  daquela  potência  espanhola.  E  pudessem  ser  executadas  em  público.  Na 
enquanto o sangue corria, os rapazes ingleses e  apresentação  seguinte  o  auditório  encontrava‐
a mão agrícola francesa que formaram o núcleo  se  cheio  e  os  jovens  oficiais  pediram  outra  vez 
deste  exército,  tiveram  também  a  o Zorongo.  O  oficial  em  comando,  o 
oportunidade de ver e ouvir as danças e música  General Marcognet,  estava  também  presente. 
espanhola.  Este  achou  que  era  necessário  transmitir  as 
O nome Octave Levavaseur provavelmente não  suas  ideias e  proibir  as  dançarinas  de  executar 
vos  diz  nada.  Para  pôr  este  soldado  francês  o Zorongo.” 
numa  perspectiva  guitarrística,  deixe‐me    
apenas  dizer  que  ele  foi  o  pai  de  Charlotte  A  clara  impressão  desta  história  é  a  de  que  as 
Beslay, nome de nascimento Levavaseur, aluna  insinuações  sexualmente  pecaminosas 
de  piano  de  Fernando  Sor,  cujo  guitarrista  do Zorongo não  poderiam  ser  ignoradas.  Era 
catalão  dedicou  a  sua  famosa  Fantaisie  moralmente  permissível  o  massacre  aos  vilãos 
Elegiaque Op. 59. Octave Levavaseur participou  e  as  mais  horríveis  e  indignas  provocações  às 
nas  Guerras  Peninsulares  como  ajudante  de  suas mulheres e crianças, contudo não poderia 
campo do Marechal Ney, um dos mais ilustres e  ser  permitido  que  os  corpos  voluptuosos  das 
também uma das figuras mais controversas da  suas  mulheres  poluíssem  os  princípios  cristãos 
altura. Na sua memória, Levavaseur descreve a  das  tropas.  A  natureza  lasciva  deste  tipo  de 
reacção  dos  Franceses  em  relação  à  natureza  música  espanhola,  não  foi  descontinuada  por 
tentadora  da  música  e  dança  espanhola.  As  compositores estrangeiros que anos mais tarde 
tropas estavam estacionadas em Santiago. Nas  entraram em contacto com este género.  
suas  actividades  de  lazer  incluem‐se  idas  à    
ópera  três  vezes  por  semana.  Durante  o  Mikhail Glinka foi  o  primeiro  a  empregar  estas 
intervalo,  eram  apresentadas  danças  “Espanholadas”  com  grande  sucesso.  De 

Guitarra Clássica      24 
 
seguida  outros  compositores  como Rimski‐ Infelizmente, a realidade do mercado é tal que 
Korsakov,  Georges  Bizet,  Franz  Liszt,  ainda  se  consegue  vender  esta  música  aos 
Louis Morreau Gottschalk,  Emanuel Chabrier,  aficionados  da  guitarra.  Não  espere  ser 
entre  outros,  seguiram  os  seus  passos.  Estes  convidado  para  participar  num  grande  festival 
músicos  criaram  uma  certa  ideia  da  música  de  música,  se  tudo  o  que  consegue  fazer  são 
espanhola  que  se  tornou  amplamente  aceite.  trivialidades  irrelevantes  tais  como  estas,  e  se 
Quando os instrumentistas virtuosos espanhóis  não tiver a capacidade básica de se sentar com 
se  aventuraram  fora  da  Península  Ibérica  nos  outros músicos e fazer música juntos. 
últimos anos do século dezanove, e refiro‐me a   
figuras  como  Ricardo Viñes,  Pablo Sarasate,  Há  vários  aspectos  do  legado  de Segovia que 
Enrique Granados e  Isaac Albéniz,  o  público  posso  discutir,  mas  eu  acho  que  é  altura  para 
europeu  e  americano  estava  já  condicionado  fazer  um  ponto  de  situação:  O  sucesso  ou  a 
numa direcção específica, a de última sedução,  falha  de  qualquer  performance  musical 
o  torso  másculo  com  calças  apertadas  até  à  depende  principalmente  da  habilidade  que  o 
caixa  torácica,  as  castanholas,  e  os  músico tem de estabelecer um contacto directo 
espampanantes rasgueados da guitarra.  com  as  necessidades  que  o  público  tem  em 
   termos  de  gratificação  musical.  Se  o  público 
Os  Espanhóis  sabendo  que  isto  venderia,  quer  um  doce,  e  se  os  seus  padrões  estéticos 
fizeram‐no.  Os  guitarristas  que  se  seguiram  não forem de encontro com o do público, então 
tiveram  de  imitar  este  modelo  de  música  se  aí deve dar‐lhes um doce.  
quisessem  ter  sucesso.  E  tiveram‐no.  As    
implicações subconscientes da sensualidade da  Segovia provou‐nos  que  é  de  facto  possível 
música  espanhola  persistem  ainda  em  muitos  fazer  um  largo  número  de  pessoas  felizes  ao 
círculos  da  guitarra.  Acho  extraordinário  ouvir  ouvir  música  bonita  mas  não  muito 
guitarristas polacos tocando arranjos de música  significativa.  Mas  se  a  vossa  ideia  de  música  é 
popular catalã. Com a minha vasta experiência  algo  mais  que  o  doce  mel  escorrendo  sob  a 
neste  domínio,  não  me  recordo  de  ouvir  janela  de  uma  rapariga  bonita  numa  noite 
guitarristas  catalães  tocando  arranjos  de  tranquila  de  verão,  sob  uma  lua  de  prata, 
música  popular  polaca.  Pela  mesma  razão,  no  quando  uma  leve  e  quente  brisa  bate  na 
meu tempo eu costumava ser um aficionado de  superfície  do  rio,  sussurrando  para  si  mesma 
música  flamenco.  Nos  últimos  anos,  o  meu  pelas  rosas  ao  longo  da  costa,  então  é  melhor 
interesse mudou. Contudo, eu sei que é muito  começarem a procurar outro público. Quando? 
difícil  um  guitarrista  não  espanhol  chegar  à  E como? 
misteriosa  aliança  poética  com  o  bater  do    
coração que a música requer.   Estas  são  questões  difíceis  de  responder  de 
   uma  maneira  global.  As  condições  variam 
Tentar  fazê‐lo  fora  da  tradição  em  que  foi  consoante  o  local,  o  temperamento  pessoal, 
criado,  é  uma  má  imitação  anacrónica.  energia,  e  o  que  pode  ser  possível  para  uma 

Guitarra Clássica      25 
 
pessoa  num  determinado  local,  pode  não  ser  não  é  uma  questão  de  contribuir  de  forma 
possível por outro num outro local.   altruísta  para  o  bem‐estar  geral  desta  área.  É 
Contudo,  gostaria  de  dar  algumas  ideias  para  uma  questão  de  sobrevivência  pessoal  do 
pensar  nisso.  Voltemos  às  intenções  de  guitarrista individual. Se pudesse ser o primeiro 
Segovia em  “elevar  a  guitarra  ao  mesmo  nível  a  ser  levado  a  sério  como  músico  pela 
do  violino,  piano  e  violoncelo”. Esta  é  uma  comunidade  em  geral  de  música,  a  sua  vida 
tarefa importante para nós, em particular para  como  músico  profissional  seria  muito  mais 
aqueles entre nós que contemplam em levar a  gratificante.  
vida  como  concertistas de  guitarra.  É    
importante  não  só  por  ser  uma  questão  de  Mas  temos  um  problema.  A  maioria  dos 
orgulho no nosso próprio instrumento e do seu  músicos  que  tocam  os  principais  instrumentos 
património.  É  também  uma  questão  de  da  arte  musical são  aqueles  que  tocam  os 
sobrevivência.  Sobrevivência  económica  Os  instrumentos  da  orquestra.  A  guitarra  não  faz 
pianistas e violinistas que ganharem o primeiro  parte  da  orquestra  e  nunca  fará.  O  mesmo 
prémio num concurso internacional importante  pode  ser  dito  sobre  o  piano.  Então  porque  é 
como o Concurso Tchaikovsky em Moscovo têm  que o piano é um dos principais pilares da arte 
praticamente  assegurado  um  caminho  fácil  musical, pelo menos nos dois cúltimos séculos e 
para  a  cena  internacional  de  concertos,  e  com  meio, e a guitarra não? 
grande  exposição.  Tournées em  países    
estrangeiros, contratos de gravação e assim por  A resposta histórica a esta pergunta é bastante 
diante.  Existem  muitos  guitarristas  jovens  hoje  longa,  mas,  em  resumo,  penso  que  esta  tem 
em dia em muitas partes do mundo, e também  pouco que ver com o facto de o piano ter sido 
no  México,  que  estão  certamente  ao  mesmo  sempre  mais  poderoso  que  a  guitarra  ao  nível 
nível  de  desenvolvimento  artístico,  como  da dinâmica. A popularidade do piano no início 
alguns vencedores recentes do Tchaikovsky.   do século XIX, o período em que o seu domínio 
   foi estabelecido para além de qualquer dúvida, 
Seria bom se um guitarrista fosse autorizado a  para  todos  os  tempos,  foi  gerada,  em  grande 
participar.  Mas  este  é  apenas  um  sonho,  medida pelos empreendimentos comerciais dos 
enquanto  o  preconceito  contra  a  guitarra  por  fabricantes  de  piano.  Eram  eles  que 
músicos  de  primeira  linha  continua.  Assim,  a  financiavam  as tournées  dos 
tarefa principal de um guitarrista inteligente é a  grandes concertistas da altura. Financiavam até 
escolha  do  seu  repertório,  e  fazê‐lo  de  uma  violinistas  e  guitarristas.  Foi  bom  para  o 
forma  que  só  possa  trazer  respeito  e  negócio. O piano também tinha a vantagem de 
apreciação. Não do público, o que quer que isto  ser  uma  peça  decorativa  de  mobiliário,  o  que 
signifique,  mas  de  outros  colegas  músicos.  Os  permitiu a classe média ter acesso a coisas que 
vossos  colegas  na  escola,  os  professores,  os  no  século  anterior  eram  estritamente 
críticos  de  música,  os  funcionários  das  reservados à nobreza.  
organizações artísticas e assim por diante. Esta    

Guitarra Clássica      26 
 
A  guitarra  era  mais  barata,  mas  o  piano  era  Recentemente  alguns  guitarristas  descobriram 
mais  fácil  de  aprender  a  tocar,  pelo  menos  no  o simples facto de que, se você quiser emprego 
início. A nível profissional, o que determinou o  estável,  é  melhor  entrar  na  carruagem  da 
domínio do piano, foi o simples facto de muitos  música de câmara. David Starobin, é claro, tem‐
dos  grandes  compositores  começaram  a  sua  no feito com sucesso por mais de vinte e cinco 
educação  musical  ao  piano,  com  a  possível  anos.  Como  é  que  deve  fazê‐lo?  O  lugar  para 
excepção  de  Berlioz.  Eles  não  só  escreveram  começar,  parece‐me,  é  na  escola.  Em  última 
música  para  piano solo,  como  também  o  análise, não importa muito se a sua pedagogia 
incorporaram  em  conjuntos  de  câmara,  com  se  baseia  em Carlevaro,   Pujol,  Manuel  Lopez 
outros instrumentos, para os prazeres privados  Ramos ou Joe Blow. Não importa se você usa o 
de  amadores  iluminados  que  estivessem  lado esquerdo ou do lado direito da unha ou se 
dispostos  a  pagar  dinheiro  por  este  prazer.  você sabe como fazer correctamente apoiando. 
Claro,  na  mesma  época,  havia  também  uma  Não  importa  se  estreou  a  mais  recente  obra 
tradição  paralela  de  música  de  câmara  com  musical  do  seu  herói  favorito  da  música 
guitarra,  e  temos  hoje  muitos  bons  exemplos  contemporânea,  e  quem  é  que  se  importa  se 
do  género  A  quantidade  de  música  de  câmara  você  numera  os  seus Scarlattis com  um  L  ou 
com  guitarra,  nunca  esteve  perto  da  um K ou um F?  
quantidade de música de câmara com piano, e    
os  catálogos  dos  editores  da  altura  são  um  Se  você  quiser  fazer  uma  vida  nesta  área,  se 
testemunho vivo disso.   quer ensinar aos seus alunos de que é feito em 
   grande escala o mundo da música, se você quer 
Eventualmente,  o  piano  tornou‐se  uma  parte  que eu compre um bilhete para o seu concerto, 
importante do repertório de música de câmara,  eu e as vastas multidões amantes de música de 
um  facto  que  contribuiu  para  o  seu  câmara  lá  fora,  é  melhor  aprender  como 
estabelecimento  como  ponto  central  da  vida  violinistas,  pianistas  e  violoncelistas  estão 
musical.  A  guitarra,  apesar  de  um número não  fazendo  isso.  Olhe  em  seu  redor.  Sem  dúvida 
negligenciável  de  boas  obras  de  música  de  que as atitudes mudaram nos últimos dez anos. 
câmara,  foi  deixada  para  trás.  Música  de  Há mais espectáculos de música de câmara com 
câmara  é  o  dispositivo  pelo  qual  os  músicos  guitarra  hoje.  Ouso  dizer,  porém,  que  esta 
forjam  as  alianças  pessoais  que  permanecem  actividade,  ainda  não  resultou  numa  mudança 
com eles até resto das suas vidas. Torna‐se fácil  de perspectiva do público em geral.  
demitir um músico que não pertence ao círculo    
íntimo de amigos que começou a desenvolver‐ Eu  li  muitas  opiniões  pessoais  em  relação  à 
se na escola e com os quais teve o prazer único  música  de  câmara  com  guitarra  em  muitas 
de  respirar  em  conjunto  na  leitura  de  algumas  entrevistas  com  guitarristas.  Estes  são,  na  sua 
páginas deliciosas de Brahms ou Tchaikovsky.  maior  parte,  irrelevantes.  Não  reconheço 
   nenhum guitarrista de topo de hoje que esteja 
disposto  e  que  seja  capaz  de  sustentar  uma 

Guitarra Clássica      27 
 
carreira que se dedica à música de câmara. Não  guitarristas  capazes  de  ler  uma  partitura  de 
há  conjuntos  activos  de  música  de  câmara  música de câmara, e são poucas as publicações 
profissional,  que  consistam  em  mais  de  dois  de  música  de  câmara  com  guitarra, 
cônjuges e que incluam guitarra.  particularmente  aquelas  que  datam  da  época 
   de Heinrich Albert,  para  não  mencionar  a  série 
No  meu  país,  existem  cerca  de  800  festivais  mais recente da chamada "fac‐símiles," que na 
cada  verão  dedicados  à  música  de  câmara.  Lá  verdade  possuem  a  todas  as  vozes  impressas 
você  pode  ver  nomes  como  Itzhak Perlman,  em simultâneo. 
 Yo‐Yo Ma,  Mstislav Rostropovich,    
Pinchas Zukerman,  Serkin Rudolf,  Um  guitarrista  que  pretenda  enveredar  por 
Murray Perahia,  e  dezenas  de  outros  uma  carreira  de  fazer  música  em  público,  e 
instrumentistas e cantores de topo. Eu nunca vi  pretenda obter algo coisa como a segurança do 
lá  o  nome  de  Andrés Segovia, Julian Bream,  emprego  oferecido  por  profissionais  como 
John  Williams  ou  Alexander  Lagoya .  Este  arquitectos,  engenheiros,  médicos,  pilotos  de 
lamentável facto não deve impedir os principais  avião  ou  professores  universitários,  seria 
guitarristas de lá aparecer com regularidade.   melhor  aprender  os  truques  do  comércio.  Não 
   é  a  memorização,  mas  leitura  à  primeira  vista, 
A pergunta inevitável é: o que é que os nossos  análise da pontuação, bem como a capacidade 
virtuosos  têm  para  oferecer  aos  músicos  e  a  de  respiração  em  conjunto,  por  vezes  com 
uma audiência que têm sido habituada durante  desconhecidos.  
várias  gerações  a  uma  dieta  constante  dos    
quartetos  de  cordas  de  Beethoven,  o  quinteto  Procure  as  obras  que  iriam  oferecer  aos  seus 
para  clarinete  de  Brahms,  Mendelssohn  e  os  futuros  colegas  e  a  si  mesmo  algo  novo  e 
trios  para  piano,  para  não  falar  de  música  de  excitante. Mesmo que isso signifique que tenha 
câmara de Mozart, Haydn, Schubert e Dvorak?  de  fazer  “tun‐cha‐cha”  durante  algum  tempo. 
  Isso também poderá ser um contributo valioso 
Antes  de  tentar  responder  a  isso,  temos  que  e  rentável  para  a  sua  própria  sobrevivência 
esquecer qualquer complexo de inferioridade a  económica  e  para  o  futuro  da  guitarra  como 
respeito  do  nosso  repertório  e  perceber  que,  uma disciplina musical viável.  
embora  os  grandes  mestres  da  música  de    
câmara não terem escrito para a guitarra, ainda  Se queremos realmente funcionar "no primeiro 
temos  um  grande  e  valioso  contributo  para  nível,  como  o  violino,  piano  e  violoncelo," 
fazer.  Na  avaliação  da  música  de  câmara  para  temos  que  romper  com  o  molde  restritivo  do 
guitarra, temos de evitar julgá‐la somente pela  recital  a  solo,  a  master‐classe  de  guitarra,  o 
referência da parte da guitarra. O que importa  concurso no festival de guitarra e impulsionar o 
na  música  de  câmara  é  o  valor  artístico  da  nosso caminho para a sociedade de música em 
composição  como  um  todo,  e  NÃO  o  mérito  geral. 
relativo  da  parte  da  guitarra.  São  poucos  os    

Guitarra Clássica      28 
 
Não  posso  deixar  esta  discussão  sem  antes  evitando  totalmente  as  obras  mais  tocadas,  o 
proferir algumas palavras sobre a programação  velho  e  o  novo.  Há  uma  lição  a  ser  aprendida 
utilizada por muitos guitarristas de hoje quando  aqui,  e  é  esta:  a  questão  principal  que  o 
tocam  recitais  solo.  O  velho  tipo  de  guitarrista deve colocar diante de si não é o que 
programação Tárrega / Segovia foi  substituído,  tocar.  É  na  realidade,  o  que  não  tocar.  Pense 
para melhor ou para pior, com um novo tipo de  nisso. 
programação  que  emprega  principalmente  a    
música baseada no fenómeno de cross‐over, ou  Vou  encerrar  este  artigo  com  as  palavras  do 
seja, composições novas com base nos géneros  meu  amigo,  o  conhecido  compositor 
populares  do  jazz,  rag‐time,  tango,  country e  italiano Angelo Gilardino: 
música ocidental. Assim, além de leyendas e as    
peças  de Villa‐Lobos,  também  terá  Aqui temos a mais clara e fiel descrição directa 
os Koyunbabas, os Sunbursts, as UsherWalses e  do actual estado da arte da guitarra clássica, de 
as peças de Piazzolla. Em princípio, todas essas  um repertório notável ‐ sobretudo no século 20 
peças são realmente muito boas.   ‐  e,  entre  a  legião  super  populosa  de 
   guitarristas,  são  poucas  as  pessoas  que  estão 
Mas  o  número  de  vezes  que  você  começa  a  conscientes  disso  e  que  estão  seriamente 
ouvi‐los no decorrer de um festival de guitarra,  empenhadas em fazer o público ciente da única 
fá‐las  banal,  pirolitos  sem  imaginação  que  riqueza  de  qualquer  instrumento,  o  seu 
poderá causar uma boa reacção de uma plateia  repertório. Este é um problema muito grave e é 
de guitarra, e pode mesmo agradar geralmente  também a principal causa do facto de concertos 
a  audiências  públicas  mais  vastas.  Muitos  de  guitarra  serem  tão  raramente  programados 
músicos  de  primeira  linha  fazem  o  mesmo.  pelas  instituições  de  música  acima  de  tudo 
Assim,  você  tem  um  violoncelista  como Yo‐ muitos  músicos  não  conhecem  bem  o 
Yo Ma  tocando  Piazzolla.  Mas  devemos  repertório do instrumento e agem com timidez, 
observar  que  os  músicos  de  primeira  linha  porque  os  concertos  de  guitarra,  geralmente 
fazem cross‐over,  além  do  seu  repertório  oferecem  obras  compostas  por  amadores  que 
normal.  Os  guitarristas  fazem‐no  em  vez  do  acreditam ser compositores, obras incríveis são 
repertório sério.  tocadas  sem  vergonha  e  de  uma  maneira 
  pomposa como se de música se tratasse. Estas 
Tenho  observado  que,  nas  últimas  décadas,  os  não são música, mas sim a imagem da guitarra 
guitarristas que chegaram ao topo da profissão  oferecida ao mundo por guitarristas.  
rapidamente,  foram  aqueles  que  entraram  em    
cena  com  um  repertório  totalmente  novo,  Fim de citação. Fim de artigo. Muito obrigado.
 

Guitarra Clássica      29 
 
Páginas com Música 

Introduction para guitarra solo – Nuno Guedes de Campos 

Sobre a obra: 

É uma peça serena e distendida, com carácter meditativo, evocando um caminhar 
silencioso e contemplativo pela nossa intimidade mais profunda. 

Sobre o compositor: 

Nuno Guedes de Campos nasceu em Lisboa, em 1971, e mudou‐se com a sua família para o Brasil em 
1975, donde regressou em 1991. 

Em  1985,  no  Rio  de  Janeiro,  iniciou  os  estudos  de  música  no  Conservatório  Brasileiro  de  Música, 
prosseguidos  em  Brasília  em  1987,  na  Academia  Franz  Schubert  e  na  Escola  de  Música  de  Brasília. 
Durante a sua estadia no Brasil estudou guitarra clássica e popular brasileira, tendo como professores 
Cézar Villarinho, Paulo André Tavares e Eustáquio Grilo, alem do prestigiado guitarrista Lula Galvão. Em 
Brasília,  formou  um  duo  de  guitarra  com  Marcel  Carvalho,  que  se  apresentou  em  vários  concertos, 
designadamente  na  Grande  Loja  Maçónica  de  Brasília,  na  Escola  de  Música  de  Brasília  e  na  UnB 
(Universidade de  Brasília).  Paralelamente, participou  em  várias  formações  durante  o percurso  musical 
no Brasil passando por variados estilos tais como o rock, o funk, a MPB e o flamenco. 

É formado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa (ESML) desde 1996 e fez, nos anos 
de  1999  a  2002,  o  curso  integrado  de  aperfeiçoamento  em  composição,  arranjo  e  orquestração  do 
Institut de Formation Internationale Musique et Multimédia – Centre d’Informations Musicales (INFIM‐
CIM), em Paris, tendo obtido o diploma de Arrangement et Orchestration e tendo tido Denis Bioteau e 
Frédéric Favarel como professores principais. Já em 2008, conclui a Licenciatura tendo Luís Tinoco como 
professor. 

Frequentou Seminários de Composição de Emanuel Nunes, Gilbert Ami, Robert Sharlaw Johnson, Henry 
Martin e outros. 

Como guitarrista ingressou na banda "Soul Music", fazendo apresentações múltiplas em Lisboa e vários 
pontos  do  país.  Em  1998,  acompanhou  o  pianista  Bernardo  Sassetti  no  Teatro  Rivoli  no  Porto  e  na 
Culturgest em Lisboa. Em 2001, já em Paris, formou um duo de guitarra com Pierre Perchaud. 

Guitarra Clássica      30 
 
Em  20
004,  foi  convvidado  pelo  co
ompositor  e  maestro  Fabrrizio  Festa  paara  fazer  parte  como  júri  da 
d 10ª 
edição
o do “Concorsso Internazion
nale di Compo
osizione 2 Ago
osto", em Bolo
onha. 

Comp
posições suas  têm sido aprresentadas em
m vários paíse
es (Portugal, FFrança, Inglaterra, Croácia,, Itália, 
Líbano
o e África do  Sul), realizadaas no Conservvatoire Nation
nal Supérieur  de Musique ((CNSM) de Paaris, no 
Endler  Room  em  Stelenbosch 
S (
(Western  pe,  África  do  Sul),  no  Teaatro  Communale  di  Campo
Cap obasso 
(Itália),  na  Culturgeest  (Portugal)),  no  Teatro  São 
S Luiz  (Porttugal),  entre  outros, 
o e  têm
m  sido  interpre
etadas 
por  formações 
f e  músicos  com
mo,  Orchestraa  Filarmonicaa  di  Torino,  OrchestrUtop
pica,  Orquesttra  do 
Algarvve, LONGVIC JJAZZ Big Band
d, Elizabeth Daavis, Pedro Ro
odrigues, Duo
o Fruscella/Deebs, Darko Pettrinjak, 
Régine Campagnacc, entre outross. 

Foi prrofessor na Esscola de Jazz d
do Hot Clube  de Portugal,  onde lecciono
ou as cadeirass de Teoria M
Musical, 
ntrodução ao Arranjo para Combo e Big Band (Opcion
Harmonia IV e de In nais). 

Foi prrofessor na ETTIC (Escola Téccnica de Imaggem e Comunicação), onde leccionou as  cadeiras de A
Análise 
nicas de Composição, Combo e Guitarraa Eléctrica doss cursos de MNT (Música e Novas Tecnologias) 
e Técn
e de P
PTM (Produçãão e Tecnologiias da Música). 

Tem o
orientado váriios Workshop
ps relacionado
os com a comp
posição e a gu
uitarra, abordando temas ccomo a 
harmo
onia e a impro
ovisação jazz. 

Actuaalmente é pro Musical Dom  Bosco, na Creescendo e na  Escola 


ofessor de Guiitarra Eléctrica no Centro M
úsica Nossa Seenhora do Cabo. 
de Mú

Nun
no Guedes dee Campos 

 
 

Guita
arra Clássica    31 
 
Introduction (1997)
pour guitare Nuno Guedes de Campos (1971)

Rubato (q = 42)


(lent et sans precititation)

    
espressivo
  dolce

      

Guitare     
  

 
pp mf dim.


 rit. A tempo
 
     
XII harm

3
 

5

    
4

  
2   
Gtr.
   
1
0

pp cresc. dim.

 
   
C7

 
 

    
9
  
  
4
Gtr.
      

mf mp


XII harm
 harm

 
C5
  XIIharm  
C7
13
     2       
  

       
Gtr.
 J 
 mf p sub. cresc.
cresc. f
  

harm harm
   
         3
4 
     
17

  
2 
1
Gtr.
    

mf

 


C9

C6 C8

22  
  2  3      
 
        
3

Gtr.        
4
mp cresc. f

  
C7
 
C4
26
       
          
   J  

Gtr.

dim.
Copyright © 2006 Nuno Guedes de Campos
2
   
C5
   
     14  2                  
30
1
   4 
  
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2

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Gtr.
3
p cresc.

rit. A tempo
rigoureux
  C9
   dolce
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XII harm


C8

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4  4   
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  1  
34
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4

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   

Gtr. 1
2   0

mf cresc. f sempre mf

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C9
  
C8

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  
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38

     
Gtr.     

rit.
A tempo



  2    2    

  2  
   
       
l.v.

  
42 1

 
4 4 1 1

4 4




Gtr.
3J 

3 3
f ppp
dim.


N.B.:

= Courte



= Medium

= Longue
Novas Gravações  Veneza,  é,  no  período  romântico,  o  tema 
por Rui Pinto e João Paulo Henriques  comum  a  todos  os  virtuosi  europeus, 
 
A  gravação  de  Rafael  Aguirre,  vencedor  do  independentemente  do  seu  instrumento: 

Concurso  International  de  Guitarra  Francisco  recordemos  Paganini,  Jean‐Baptiste  Arban, 

Tárrega  de  2007,  na  Laureate  Series  da  Naxos  entre vários outros. Outra coincidência é a sua 

de  2008  engloba  repertório  de  guitarra  origem:  tal  como  o  tema  acima  referido  de 

compreendido  entre  os  períodos  clássico  e  Paisiello,  destinado  a  um  teatro  napolitano,  o 

contemporâneo.  Do  repertório  virtuosístico  tema  utilizado  nas  variações  por  Tárrega  é  a 

clássico  Aguirre  escolheu  a  Fantasia  nº  5,  op.  canção napolitana “Oh Mamma, Mama cara”. A 

16, sobre a ária Nel cor non più me sento o de  estrutura  é  semelhante  à  das  variações  acima 

Fernando Sor, composta em 1823. Esta ária da  descritas;  as  variações  baseiam‐se  nos 

ópera  L’amor  contrastato  ossia  La  molinara,  seguintes  requisitos  técnicos:  arpejos,  ligados, 

composta por Giovanni Paisiello sobre texto de  tremolo,  glissandi,  harmónicos,  bem  como 

Palomba em 1788 para o Teatro dei Fiorentini,  secções destinadas à expressão. 

é provavelmente o tema mais frequentemente  A  execução  do  repertório  virtuosístico  clássico 

empregue  na  produção  de  repertório  e  romântico  está  seguramente  entre  as 

virtuosístico.  A  estrutura  da  obra,  comum  à  melhores  interpretações  destas  obras, 

maioria do repertório europeu, apresenta uma  salientando a capacidade técnica do intérprete: 

introdução  destinada  à  apresentação  da  clareza  na  preservação  da  melodia  e  na 

capacidade  expressiva  do  intérprete  ‐  Andante  articulação  das  linhas  harmónicas,  bem  como 

largo  numa  escrita  de  tipo  ‘orquestral’,  dos  aspectos  técnicos  como  tremolo, 

caracterizada  pela  utilização  de  uma  melodia  harmónicos,  escalas  e  execução  de  mão 

no  registo  agudo,  acompanhada  por  blocos  esquerda.   

harmónicos  –  o  tema  e  variações  (cuja  O  repertório  francês  é  representado  por  obras 

disposição é assaz homogénea na produção de  de Jacques Ibert – Française (1926), Le medecin 

Sor), constituído por variações ornamentativas,  de  son  honneur:  Ariette  (1935)  –,  Maurice 

destinadas  à  agilidade,  e  expressivas,  em  Ohana – Tiento (1957) – e de Francis Poulenc – 

andamentos  lentos,  e  uma  coda  final.  As  Sarabande (1960). As obras de Ibert escolhidas 

variações  ornamentivas  incidem  sobre  a  evidenciam  aspectos  contrastantes:  Ariette  é 

disposição  do  tema  em  arpejos,  escalas,  uma peça inspirada no lirismo francês do início 

terceiras,  movimentos  cromáticos,  tremolo,  do  século  XIX;  Française  expõe  um  carácter 

harmónicos  e,  provavelmente  uma  dançante. Tiento e Sarabande remetem para o 

característica  individual  das  apresentações  revivalismo  renascentista  e  neo‐barroco  da 

virtuosísticas  de  Sor,  a  apresentação  melódica  primeira metade do século XX sujeito aos novos 

pela “main gauche seule”.   paradigmas  harmónicos  da  época.  Neste  caso, 

Curiosamente,  a  segunda  obra  do  repertório  são utilizadas as danças; a primeira obra cita a 

virtuosístico,  Variações  sobre  o  Carnaval  de  Folia  utilizada  para  exposição  virtuosística  de 
um  determinado  intérprete.  Aguirre  realça  de 

Guitarra Clássica      34 
 
maneeira clara os co
ontrastes rítm
mico‐melódicos e  A  forma estudo
o, que no deccurso do século XIX, 
as pro
ogressões harmónicas.   merge  do  espaço  didácttico  para  o  palco 
em
ncontra‐se  reepresentada  pela  obra  de
en e  dois 
A  ob
bra  Partita  do 
d compositor  neoclássicco 
ompositores  de  origem  sul‐american
co na  de 
finlan
ndês  Einojuhaani  Rautavaarra  insere‐se  na 
n
ge
erações  diferrentes:  Villa‐LLobos  e  Clerrch  (o 
mesm
ma  linha  acim
ma  referida  para 
p Poulenc  e 
último,  pedagogo  de  Aguirre).  São 
na:  é  a  recuperação  do  género 
Ohan
esstabelecidas relações entree as obras de aambos 
instru
umental  barroco  com
m  influênccia 
oss compositorees, nomeadam
mente na esco
olha de 
harm
mónica  do  sécculo  XX.  Em  Rautavaara  os 
o
ois estudos paara a execuçãão de escalas  – nº 7 
do
aspectos  harmó
ónicos  com
mpreendem  a 
de
e Villa Lobos ee Estudio de EEscalas de Cle
erch. O 
sobreeposição de ttríades, acordes em quartaas; 
Esstudo  nº  12
2  serve  a  p
prática  de  accordes 
os asspectos rítmicos são fruto d
da influência d
de 
paaralelos em glissando e de  contorno me
elódico 
Stravvinsky e Bartók.  
co
om  ritmo  osttinato.  É  nottável  a  clare
eza  na 
No  primeiro  andamento  observa‐se  a 
arrticulação  e  a  manutenção
o  das  caracterrísticas 
utilizaação  de  uma  escrita  de  tip
po  prelúdio  (o
ou 
daas  obras  relaativamente  à  dinâmica  dado  o 
estudos  de  arpejo
os).  O  contorno  melódico  é 
an
ndamento  escolhido  pelo  intérprete  para 
p a 
identiificável  nas  notas  maiss  agudas  do
os 
exxecução.  A  peça 
p Yemaya  (1987)  de  Clerch, 
C
arpejo
os,  constituíd
dos  à  luz  das  novas  noçõees 
prremiada  no  Concurso  Internationaal  de 
harmó
ónicas da prim
meira metade do século XX. 
Co
omposição  de  Cuba  e  no  Con
ncurso 
O  seegundo  andaamento  expõ
õe  o  carácter 
Internacional  de 
d Composiçãão  para  Guitarra  de 
expreessivo,  num  âmbito  restrrito  no  registto 
oronto,  tom
To ma  como  in
nspiração  e  visa 
médio
o da guitarra. 
caaracterizar  musicalmentte  a  diviindade 
O  terrceiro  andamento  alude  a 
a utilização  das 
d omónima  daa  religião  YYoruba.  A  relação 
ho
dançaas  enquanto  parte  integraante  das  obrras  prróxima  entrre  intérprette  e  comp
positor 
umentais; note‐se o contraaste pelo uso  de 
instru (aluno/professo
or) permite ao
o ouvinte a audição 
métricas como 5/8 e 6/8.  e  uma  apressentação  fiel  da  obra.  Naa  obra 
de
Esta  obra para 
o guitarra  solo em
m  três  pequen
nos  Seentimiento,  o  intérprete  faaz  notar  claramente 
movim
mentos,  comp
posta  em  1956  com  revissão  o  seu  aspecto  central  –  as  várias  recorrrências 
em 19
980, foi tamb
bém arranjadaa para piano eem  o tema, nos seeus distintos ccaracteres.  
do
1958.  

 Laureate Serries – NAXOS 8.572064 (20008) 
Guita
arra Clássica    35