FILOSOFIA

APOSTILA 1
1ª SÉRIE

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UNIDADE 1
FILOSOFIA: O QUE É ISSO?
“Tudo é um”
TALES DE MILETO

1 - A FILOSOFIA E OS MITOS
Provavelmente, esta é a primeira aula de Filosofia da sua vida. Quando chegar
em casa, você poderá dar a notícia a seus familiares que, agora, você também é
um praticante de Filosofia. Eles certamente irão perguntar a você o que é
Filosofia? Para quê serve isso? E estas são perguntas que, agora mesmo, você
pode estar se fazendo.
Talvez, nos ajudaria verificar o que significa a palavra Filosofia. É aqui que
começa nossa aventura pela história do pensamento ocidental, já que esta palavra
é grega e, assim, temos de ir para o ano de 600 a.C., quando algumas pessoas
denominaram a si mesmas como filósofas. E mais: na verdade, a palavra filosofia
é a composição de dois termos gregos: filo + Sofia, vejamos o que sai daí:
FILO
Filo decorre de philía e o significado
deste termo é amizade, amor. Na língua
grega, há o verbo philéo, que significa
sentir amizade por alguém, tratar como
amigo, procurar, buscar, perseguir para
encontrar.

SOFIA
A palavra Sophia significava, em um
primeiro momento, uma espécie de
habilidade
manual.
Em
seguida,
também era aplicada à idéia de
sabedoria moral, sensatez, prudência.
Por fim, significou um conhecimento
teórico. O verbo sophízo significava
tornar hábil, prudente, sábio1.

Assim, faça a composição, você mesmo, do que, em poucas palavras, significa
Philosophía:
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Isto é, em algum momento da Antigüidade, nas colônias gregas da Ásia Menor,
algumas pessoas passaram a amar a sabedoria, a filosofar. Nada disso significa
que, antes, as pessoas não tinham vontade de conhecer as coisas; ao seu modo,
elas davam respostas às questões que se impunham, mas não filosoficamente,
1 CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo:
Companhia das Letras, 2° edição, 2002, pp. 509-511.

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elas recorriam aos mitos. Vejamos alguns exemplos nos mitos de Aracne e de
Perseu.
O mito de Perseu
O rei Acrísio consultou um oráculo quando seu neto nasceu, ouvindo a
previsão de que seria morto e destronado pelo próprio neto, resolveu colocá-lo
junto com a mãe em uma caixa, dentro de uma embarcação, para que esta
levasse os dois para bem longe. Protegida por Zeus, pai da criança, de nome
Perseu, a embarcação chegou na ilha de Serifo, onde foi encontrada pelo príncipe
da cidade, que casou-se com a mãe de Perseu, Dânae.

Crescido, Perseu teve autorização de seu padrasto para aventurar-se pelo
mundo, em gratidão, Perseu prometeu-lhe trazer a cabeça de uma das três
górgonas como presente. Conduzido pelos deuses, Perseu passou pela morada
das grisalhas, seres de um só olho e uma só dente e que conseguiam usá-los,
apenas, alternadamente. Perseu roubou-lhes os olhos e dentes, dizendo que só
devolveria se elas dissessem onde moravam as ninfas. A chantagem deu certo e
foi para lá que Perseu se dirigiu.
Com as ninfas, criaturas conhecidas por ajudar pretendes a heróis, Perseu
conseguiu sapatos alados, uma bolsa e um capacete que o tornava invisível;
ademais, Hermes o presenteou com uma foice de bronze e, armado, viajou pelo
Oceano até a morada das górgonas. Lá, ajudado pela deusa Atena, escolheu a
górgona imortal, conhecida como Medusa, para golpear. Arrancou-lhe a cabeça e
colocou-a na bolsa sem olhá-la nos olhos para que ele não fosse transformado em
pedra.
Fugindo das irmãs da Medusa, Perseu voou sobre o deserto da Líbia, as gostas
de sangue que caiam da cabeça da Medusa transformaram-se em serpentes ao
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tocarem o chão e, até hoje, esta região tem muitas cobras. Cansado, pediu abrigo
ao rei Atlas para descansar, mas foi mal recebido e desrespeitado, além disso, o
rei expulsou Perseu. Este, enfurecido, transformou seu reino em pedra ao apontar
a cabeça da Medusa em todas as direções.
Continuando a viagem, Perseu avistou uma mortal acorrentada em uma pedra à
beira da praia. Conversando com ela, Perseu ouviu que ela estava ali porque os
deuses puniram sua família e que o reino de Cefeu só não seria inundado se a
princesa fosse colocada em sacrifício a um monstro marinho. Perseu aguardou,
então, que a maré subisse e derrotou o monstro, salvando a princesa Andrômeda
e a pedindo em casamento.
A família de Andrômeda ficou maravilhada com o feito de Perseu, que se casou
com Andrômeda após derrotar um antigo pretendente dela. Morando agora nas
terras de um rei estrangeiro, Perseu participou de uma competição esportiva e, na
prova de arremesso de discos, fazendo um lançamento desastroso, acertou seu
avô sem saber que ele estava ali. Assim, cumpriu-se a previsão oracular.
O mito de Aracne
Aracne era a melhor tecelã da região da Lídia e sua arte era tal que as pessoas
diziam que sua mestra havia sido Palas Atena, a deusa da sabedoria. Mas Aracne
não gostava desta história e, certa vez, disse a todos:
- Não aprendi minha arte com a deusa e como prova disso convido-a a
competir comigo, caso ela vença, aceitarei qualquer punição.
A deusa não gostou e disfarçou-se de uma velhinha para aproximar-se de
Aracne, puxou conversa e disse que a mortal deveria demonstrar humildade com
os deuses e pedir perdão a Atena. Aracne chamou a velhinha de louca e disse-lhe
que se Atena quisesse dizer-lhe algo, o convite já havia sido feito. Furiosa, a
deusa da sabedoria teve sua paciência esgotada, retirou o disfarce e disse a
Aracne que a competição para ver quem tecia o tapete mais belo deveria começar
imediatamente. Ambas colocaram-se a tecer.
Atena teceu no seu tapete a imagem do penhasco da acrópole de Atenas, lugar
que ela conquistou após uma luta com Posídon, deus dos mares, teceu também a
luta entre ela, armada de escudo e lança, que quando tocou a terra, deu origem à
oliveira na terra infértil, com Posídon, retratado empunhando seu tridente. Além de
desenhar sua vitória, Atena colocou em cada um dos quatro cantos do tapete,
imagens que simbolizavam a arrogância humana: Hemo e Ródope que
chamavam-se de Zeus e Hera e foram transformados em montanhas; a mãe dos
pigmeus transformada em garça; Antígona com serpentes na cabeça que não
paravam de mordê-la, já que ela comparara-se a Hera, e depois transformada em
cegonha; Cíniras chorando por suas orgulhosas filhas.
Já Aracne, desonrara Zeus no seu tapete: desenhou-o transformado em touro,
águia, cisne, sátiro, fogo e chuva de ouro. Quando Atena viu o tapete de Aracne,
golpeou-a com um ódio terrível e a perfurou três vezes na testa com a agulha de
tecer; além disso, Atena fez os cabelos, o nariz e os ouvidos de Aracne
desaparecerem, fez seu corpo diminuir bastante de tamanho e condenou-a a

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praticar sua antiga arte eternamente, tecendo fios como uma aranha. Segundo do
mito, eis Aracne: origem dos aracnídeos.
MÝTHOS: Mito, palavra proferida, discurso, narrativa; rumor; notícia que se
espalha, mensagem; conselho, prescrição. O verbo mythéomai significa: dizer,
conversar, contar, narrar, anunciar (um oráculo), designar, nomear, dizer a si
mesmo, deliberar em si mesmo. O historiador Heródoto emprega a palavra
mýthos para referir-se a relatos confirmados por testemunhas, tradição. Platão e
Aristóteles, porém, empregam mýthos para referir-se a narrativas ou relatos
fabulosos, portanto, com o sentido de fábula, lenda. Pouco a pouco, mýthos passa
a significar o lendário e irreal, mentira, relato não histórico. Nessa acepção,
mýthos opõe-se a lógos2.
VAMOS FILOSOFAR...
1 – O que significa a palavra Filosofia?
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2 – O significado da palavra Filosofia, que você encontra no seu dicionário, é
parecido com o significado de quando a palavra foi formada? Explique.
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3 – Como as pessoas explicavam o mundo antes da formação pela Filosofia pelos
gregos? Explique.
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2 CHAUI, Marilena. Op. cit., p. 506.

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4 – Explique como surgiram as serpentes, segundo o mito de Perseu.
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5 – Explique como surgiram as aranhas, segundo o mito de Aracne.
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6 – O que há em comum entre os mitos de Perseu e de Aracne? Explique.
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7 – Você pensa que é possível explicar a origem do mundo sem recorrer a
nenhum mito? Explique.
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8 – Pesquise um mito e demonstre o que ele tenta explicar.
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2 – PROXIMIDADE E DISTÂNCIA ENTRE FILOSOFIA E MITO
COSMOGONIA
Os mitos de Perseu e Aracne são exemplos de um saber que já existia antes
da Filosofia. A questão que temos de resolver, então, é saber o porquê da
fundação, pelos gregos daquela época, de uma outra maneira de explicar o
mundo. Antes dela, porém, vejamos em quê a Filosofia distancia-se em relação
aos mitos, mas também em quê se aproxima.
Habituados às cosmogonias dos mitos, que
explicavam a origem dos seres a partir da
personificação dos elementos e da relação
entre eles, os gregos dispunham de ótimo
material para explicar seu mundo, tal como a
Teogonia de Hesíodo. Note como há uma
narração da genealogia dos deuses (théos e
gonía) pelo poeta grego:
“Sim bem primeiro nasceu Caos, depois
também
Terra de amplo seio, de todos sede
irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo
nevado,
.e Tártaro nevoento no fundo do chão de
amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deukses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.”
HESÍODO. Teogonia, 116-122.
Assim, de um modo geral, os mitos narram acontecimentos passados partindo
de um estado indeterminado, o Caos, do qual surgem mais seres que se
relacionam. Com efeito, os mitos ofereceram um conteúdo enorme de questões

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que, hoje, chamamos de filosóficas: de onde veio o mundo, para aonde ele vai?
COSMOLOGIA
As questões que foram colocadas pelos mitos foram pensadas, também, pelos
filósofos. Eles tentaram, e tentam, respondê-las, mas de modo diferenciado: os
filósofos evitaram explicar o mundo pelos seres míticos como Urano, Gaia e
Oceano e partiram do que aparecia para eles como substancial, a saber, o céu, a
terra, o mar; não se trata de geração a partir de deuses, mas de elementos da
natureza. Isto é, com a Filosofia, o que os gregos fizeram foi uma cosmologia: a
ordem (cosmos) do mundo passou a ser explicada por um princípio racional que
funciona como causa das coisas subseqüentes e que substitui a genealogia a
partir dos deuses por um encadeamento racionalizado do princípio. Como
cosmologia, então, a Filosofia nasceu como uma explicação racionalizada da
ordem do mundo.
Assim, cosmogonias são narrações de forças divinas e concretas que oferecem
genealogias sobre o mundo. A Filosofia também quer estabelecer explicações
sobre o mundo e sua ordem, mas de forma cosmológica: pesquisa-se um princípio
do mundo e, a partir dele, procura-se um encadeamento sobre a origem e a morte
das outras coisas, e não uma genealogia. Por isso, temos de ter muito cuidado
para conseguir verificar a relação entre Filosofia e mito nesta época: “(...) O
surgimento dessa nova filosofia-saber não significou imediato e completo
abandono da atitude religiosa diante de coisas e fenômenos. Durante muito
tempo, esse foi o esquema adotado para reduzir num conflito único o nascimento
da filosofia: a filosofia teria nascido da dissolução do mito e do pensamento de tipo
religioso. De fato, tal divórcio não foi tão pontual nem tão definitivo: se já não se
reverenciava cegamente os astros e as forças de interferência divina na vida dos
homens, durante muito tempo cabeças já filosóficas adoraram ainda entidades
como o próprio triângulo ou a tetráctis (sendo esta o número 10 na escola
pitagórica), figuras da perfeição absoluta, do equilíbrio e da constância de suas
medidas”3. Ao mesmo tempo, temos de tomar cuidado, também, para não
identificarmos a Filosofia aos mitos: compreender algo em uma cosmogonia era
encontrar seu pai e sua mãe, fazer uma genealogia; compreender algo em uma
cosmologia é definir a sua própria constituição, o seu próprio ser, o seu princípio4.

Cosmogonia
Cosmologia
Narrativa da origem do kósmos através Explicação racional sobre a origem e
3 WATANABE, Lygia Araújo. “Filosofia antiga” in Primeira Filosofia: aspectos da História da Filosofia.
São Paulo: Editora Brasiliense, p. 19.
4 VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos: estudos de Psicologia Histórica. Tradução de
Haiganuch Sarian, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2° edição, 1990, p. 450.

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das relações sexuais entre os deuses
ou os elementos naturais enquanto
forças vitais que engendram ou
procriam todos os seres.

ordem do mundo natural ou natureza,
sobre as causas das transformações,
geração e perecimento de todos os
seres5.

VAMOS FILOSOFAR...
1 – Como uma cosmogonia explica a origem do mundo?
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2 – Como uma cosmologia explica a origem do mundo?
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3 – Os mitos são cosmogônicos ou cosmológicos? Explique.
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4 – Qual é a proximidade entre a Filosofia e os mitos? Explique.
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5 CHAUÍ, Marilena. Op. Cit., p. 503.

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ata do rei Croesus,
cunhado em 561/546 a.C., em Sardes, na L?dia
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5 – Qual é a distância entre a Filosofia e os mitos? Explique.
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3 – CAUSAS DA ORIGEM DA FILOSOFIA
Comentávamos, no tópico anterior, que tínhamos de explicar porque os gregos
começaram a explicar o mundo de uma forma diferente da explicação mitológica.
Em outros termos, o que tornou possível a passagem da cosmogonia à
cosmologia?
Há causas para a origem da Filosofia e, agora, vamos analisar algumas delas.
Perceba como cada uma delas operou uma mudança significativa no modo de
pensar do homem na Antigüidade grega, permitindo a formação de coisas novas
como a Filosofia, segundo Jean-Pierre Vernant.
1) Navegações: uma parte considerável da vida dos gregos relacionava-se
com o mar, era de onde, por exemplo, conseguiam obter parte significativa
de sua alimentação. Vivendo muito no mar, os gregos não encontraram
muitos dos monstros marinhos narrados pela história oral e nem
vivenciaram seres e histórias narradas por poetas. Assim, as navegações
contribuíram para o que Max Weber chamou mais tarde de
“desencantamento do mundo”. Fazia-se necessário um saber que
explicasse os fatos ocorridos na natureza que não recorresse a histórias
sobrenaturais.
2) Calendário e moeda. Viver podendo pensar o tempo abstratamente e
quantificando valores para realizar trocas não é algo que sempre ocorreu
na história da humanidade. Quando os gregos passaram utilizar
o calendário e a moeda, introduzida pelos fenícios, conseguiram abstrair valores
como símbolo para as coisas, fazendo avançar a capacidade de matematizar e de
representação. Tudo isso favoreceu um desenvolvimento mental muito
significativo e com grande capacidade de abstração.
3) Escrita. Outro fator que potencializou em grande medida o poder de
abstração do homem grego foi transcrever a palavra e o pensamento com
símbolos: eis o alfabeto. A escrita permite o pensamento mais aguçado
sobre algo quando ficamos lendo e analisando alguma coisa, como, por
exemplo, uma lei. Ao ser fixada, a lei fica exposta como um bem comum de

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toda a cidade, um saber que não é secreto como um saber vinculado ao
exercício de um sacerdote, mas propriamente público, além de estabelecer
uma nova noção na atividade jurídica, a saber, uma verdade objetiva.

Alfabeto Grego

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4) Política. Esta é a principal causa para a origem da Filosofia, já que, até
agora, vimos somente a contribuição das técnicas para isso; porém, havia
mais recursos técnicos no Oriente que na Grécia, e a Filosofia é uma
invenção genuinamente grega, além do Oriente não ter se libertado dos
mitos. Note que a palavra política é formada pelo termo grego polis
(π ο λ ι ζ ), cujo significado é cidade, cidade-estado, conjunto de
cidadãos que vivem em um mesmo lugar e uma mesma lei. E o mais
importante: são os cidadãos que faziam suas próprias leis mediante uma
assembléia. Esta prática teve início com os guerreiros que, juntos,
discutiam o melhor modo de vencer ao inimigo, cada um dos guerreiros
tinha o direito de falar, bastando para isso ir ao centro do círculo formado
na assembléia; ao final da guerra, outras assembléias eram feitas para
dividir o que foi ganho. Isto é, ocorre a prática do diálogo para a decisão,
dando a todos o direito de falar e a condição de serem iguais uns aos
outros e à lei partilhada entre eles. Aquele que conseguir convencer a
maioria de que sua proposta é a que aproxima-se mais da verdade de
como vencer aos inimigos, receberá maior número de votos. Ora, é esta a
prática que o filósofo
adotou mais tarde: escrevendo ou discursando, tornava pública suas idéias por
considerá-las verdadeiras, por pretender encontrar a harmonia perdida do
debate entre opiniões divergentes. Debater, trocar opiniões, argumentar, eis a
prática democrática, eis a prática filosófica. A Filosofia nasce como uma filha
da polis, como uma filha da democracia.
Eis o que Jean Pierre Vernant chamou de um “universo espiritual da polis”6:
trata-se de um lugar com proeminência da palavra - a palavra aberta a todos e
com igualdade no seu uso era o modo de fazer política; com publicidade separação entre questões privadas e questões públicas, estabelecendo práticas
abertas e democráticas em oposição aos processos secretos; com isonomia
(ι σ ο ν ο µ ι α ) – todos eram iguais no exercício do poder e diante das leis
que criaram. Além disso, este novo universo espiritual esteve acompanhado e
propiciou uma “mutação mental”7 nos homens: agora era possível explicar o
mundo abstratamente excluindo o sobrenatural.
Este novo “universo espiritual da polis” foi determinante para a origem da
Filosofia. O que falta sabermos, agora, é porque só algumas pessoas tornaram-se
filósofos, e não todas.
VAMOS FILOSOFAR...
1 – Como as navegações contribuíram com uma mudança no modo de pensar dos
homens da Antigüidade Grega?
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6 VERNANT, Jean-Pierre. As Origens do Pensamento Grego. Tradução de Ísis Borges B. da Fonseca, Rio de
Janeiro, 11° edição, 2000, p. 41.
7 ______. Mito e pensamento entre os gregos: estudos de Psicologia Histórica, p. 453.

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2 – Como a moeda e o calendário contribuíram com uma mudança no modo de
pensar dos homens da Antigüidade Grega?
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3 – Como a escrita contribuiu para aumentar a capacidade de abstração dos
homens na Antigüidade Grega?
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4 – Por que a política é a principal causa para a origem da Filosofia na
Antigüidade Grega? Responda citando também a importância dos guerreiros e sua
prática democrática.
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5 – O que Jean-Pierre Vernant entende por um novo “universo espiritual da polis”?
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6 – As navegações, o calendário e a moeda, a escrita e a política contribuíram
com a mudança no modo de pensar dos homens na Antigüidade Grega. Você
considera que, hoje, a informática, com a virtualidade, pode está mudando o
nosso modo de pensar? Explique.
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4 – CAUSA DO FILOSOFAR
O contexto social e histórico que permitiu às pessoas a invenção da Filosofia
nós já analisamos. Mas o que falta verificar é o que motivava alguns a filosofarem.
Já na Antigüidade, Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) pensara a respeito:
“A admiração sempre foi, antes como agora, a causa
pela qual os homens começaram a filosofar: a princípio,
surpreendiam-se com as dificuldades mais comuns;
depois, avançando passo a passo, tentavam explicar
fenômenos maiores, como, por exemplo, as fases da lua,
o curso do sol e dos astros e, finalmente, a formação do
universo. Procurar uma explicação e admirar-se é
reconhecer-se ignorante”.
ARISTÓTELES. Metafísica, 982 b13.
Para filosofar, segundo Aristóteles, é preciso estar admirado com algo. Basta
isso, não há Filosofia sem curiosidade, sem admiração; do contrário, se estamos
acostumados com algo e não pensamos sobre ele, não há Filosofia. Olhe para sua
própria vida e perceba que quando você tinha menos idade, mais você se
admirava com as coisas e mais queria saber porque eram daquela forma, como
funcionavam. Porém, na medida que você cresceu e acostumou-se com as coisas,
deixando de se admirar com elas, deixou também de lado a atitude filosófica.
Filósofos são aqueles que jamais perdem a admiração sobre os grandes ou
pequenos segredos do mundo, que passam a vida toda sem deixar se acostumar
com as coisas. E mais: veja como termina a citação acima – quando procuramos
uma explicação sobre algo encontramo-nos “ignorantes”, descobrimos que não

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sabemos e que sempre há algo a descobrir. A Filosofia é, sem dúvida nenhuma,
uma aventura.
Aristóteles

VAMOS FILOSOFAR...
1 – Segundo Aristóteles, qual é a causa do filosofar? Explique.
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2 – O que leva à morte do filosofar? Explique.
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3 – Como nos reconhecemos quando procuramos a explicação sobre alguma
coisa? Explique.
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4 – Escolha algo que você admira e:
a) desenhe-o.

b) explique-o (escreva como ele é, pense no porquê de sua existência, se
precisa de mudanças, como funciona, qual a sua causa... Enfim, filosofe).
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5 – OS PRIMEIROS FILÓSOFOS
Sabemos como a Filosofia nasceu, sabemos também o que motiva uma pessoa
a filosofar. Mas quais foram os primeiros filósofos? O que fizeram?
O primeiro deles foi Tales de Mileto (cerca de 625/4-558/6 a.C.) e, infelizmente,
o tempo não conservou nenhum de seus fragmentos, aliás, segundo John Burnet,
Tales jamais escreveu; porém, alguns pensadores antigos escreveram o que
pensavam outros: veja, por exemplo, o que Aristóteles escreveu sobre Tales:
“A maior parte dos primeiros filósofos considerava como
os únicos princípios de todas as coisas os que são de
natureza da matéria. Aquilo de que todos os seres são
constituídos, e de que primeiro são gerados e em que
por fim se dissolvem, enquanto a substância subsiste
mudando-se apenas as afecções, tal é, para eles, o
elemento, tal é o princípio dos seres; e por isso julgam
que nada se gera nem se destrói, como se tal natureza
subsistisse sempre... Pois deve haver uma natureza
qualquer, ou mais do que uma, donde as outras coisas
se engendram, mas continuando ela mesma. Quanto ao
número e à natureza destes princípios, nem todos dizem
o mesmo. Tales, o fundador da filosofia, diz ser água [o
princípio] (é por este motivo também que ele declarou
que a terra está sobre água), levando sem dúvida a esta
concepção por ver que o alimento de todas as coisas é o
úmido, e que o próprio quente dele procede e dele vive
(ora aquilo de que as coisas vem e, para todos, o seu
princípio. Por tal observar adotou esta concepção, e pelo
fato de as sementes de todas as coisas terem a natureza
úmida; e a água é o princípio da natureza para as coisas
úmidas (...).”
ARISTÓTELES. Metafísica, I, 3.983 b6 .

Note a força das palavras atribuídas a Tales: a água, ou o úmido, é o princípio
de todas as coisas. Você já parou para pensar qual é o princípio (α ρ χ η ) das
coisas? Tal era a ambição de Tales: desvendar o segredo do mundo, o seu
princípio. Há alguns motivos que levaram Tales a pensar que o princípio de todas
as coisas fosse a água: a) na própria mitologia grega, há a idéia de que o rio
Oceano estava envolta do mundo e o formou; b) a passagem da água de um
estado a outro pôde fazer Tales pensar que ela está por trás de todas as coisas; c)
segundo Simplício, Tales teria observado que os seres vivos são úmidos e, ao

17

morrerem, secam; d) na sua viagem pelo Egito, Tales observou que, após a cheia,
as plantas apareciam; e) restos de animais marinhos encontrados em regiões
montanhosas da época, reforçaram a idéia em Tales de que, um dia, tudo era
água.
Certas ou erradas, as idéias de Tales expressavam um novo modo de explicar o
mundo: a água como princípio de tudo funciona como um deus (θ ε ο ζ
- a
palavra deus, na época de Tales, podia ser usada com um sentido não-religioso,
significando uma espécie de princípio ativo presentes nas coisas8), um princípio
vital e que se movimenta, provocando mudança (kínesis) nas coisas. Assim, ao
surgirem da água, as coisas não podem surgir do nada e nem retornar a ele, mas
apenas da e para a água. A grande questão é resolver como que, a partir da água,
todo o resto foi formado?
Por isso, lembre-se, o pensamento de Tales é uma cosmologia, explicando o
mundo racionalmente a partir das observações sobre ele. Outros filósofos da
mesma época explicavam o mundo da mesma forma, mas com outros elementos
como princípio: Anaximandro de Mileto apostou no ilimitado, Anaxímenes de
Mileto no ar, Pitágoras de Samos o número... Enfim, seria interessante você fazer
uma pesquisa e verificar como os primeiros filósofos, também chamados de présocráticos e de filósofos da natureza, explicavam o mundo. Além dos nomes já
citados, procure por Heráclito de Éfeso, Parmênides de Eléia, Zenão de Eléia,
Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazómena, Demócrito.
VAMOS FILOSOFAR....
1 – Qual foi o primeiro filósofo da história?
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2 – Qual é a razão para o princípio de todas as coisas ser a água, segundo Tales
de Mileto?
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8 BURNET, John. O despertar da Filosofia grega. Tradução de Mauro Gama, São Paulo: Editora Siciliano,
1994, p. 24.

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3 – Por que as idéias de Tales de Mileto enquadram-se no que chamamos de
cosmologia?
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4 – Tales de Mileto considerava que as coisas estão “cheias de deuses”. O que
isso pode significar?
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5 – Quais são as questões que Tales e os primeiros filósofos quiseram resolver?
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6 – Os primeiros filósofos queriam desvendar qual era o princípio do mundo? Você
considera que esta questão já foi resolvida? Explique.
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7 – Buscar o princípio das coisas é filosofar. Você considera que isso é feito nos
meios de comunicação de hoje? Explique.
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8- Encontre o nome dos primeiros filósofos citados no final do texto sobre Os
primeiros filósofos.
OS PRIMEIROS FILÓSOFOS
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6 – SUGESTÃO DE ATIVIDADES
A) TEXTO COMPLEMENTAR
“(...) Ora, não é difícil ver como as considerações meteorológicas podem ter
levado Tales a adotar a sua concepção. De tudo o que conhecemos, a água
parece tomar as mais variadas formas. Ela nos é familiar em uma aparência
sólida, líquida ou vaporosa, bem podendo Tales, assim, ter pensado que via o
processo do mundo a partir da água e de novo de volta à água ocorrendo diante
de seus olhos. O fenômeno da evaporação naturalmente sugere que o fogo dos
corpos celestes é mantido pela umidade que eles extraem do mar. Mesmo nos
dias presentes as pessoas falam do ‘sol extraindo água’. A água cai de novo com
a chuva e, finalmente, assim pensavam os primeiros cosmólogos, ela volta para a
terra. Isso possivelmente parecia bastante natural aos homens familiarizados com
o rio do Egito, que havia formado o delta e, com as torrentes da Ásia Menor, que
traziam rio abaixo grandes sedimentos aluviais. Hoje, o golfo de Atmo, no qual
Mileto se esguia antigamente, encheu-se por completo. Finalmente, eles
pensavam, a terra volta uma vez mais à água – idéia proveniente da observação
do orvalho, dos nevoeiros noturnos, dos mananciais subterrâneos. Pois, na
Antigüidade, não se supunha que estes últimos tivessem alguma coisa a ver com
a chuva. As ‘águas debaixo da terra’ eram consideradas uma fonte de umidade
independente”.
BURNET, John. O despertar da Filosofia Grega. Tradução de Mauro Gama, São
Paulo: Editora Siciliano, 1994, p. 52.

20

B) DINÂMICA DE GRUPO
Que tal filosofar no pátio da escola ? Com a sala dividida em dois grupos, deixe
uma bola no centro do pátio e cada um dos grupos nas linhas que demarcam o
fundo da mesma, quando o professor fizer uma das perguntas abaixo e gritar “já”,
corra até a bola e tente tocá-la com o pé antes de seu colega e responda “falso”
ou “verdadeiro” à pergunta feita. Acertando, sua equipe pontua; errando, a outra
equipe pontua.
( ) A palavra Filosofia significa amor à sabedoria.
( ) A Filosofia teve origem no ano 600 d.C.
( ) Foi na Grécia que a Filosofia nasceu.
( ) Filosofia e mito são as mesmas coisas.
( ) Perseu é um mito que narra a tentativa do homem em mudar o seu destino.
( ) O mito de Perseu não aponta porque existem muitas serpentes na Líbia.
( ) Aracne conseguiu escapar da deusa Atena e não foi punida.
( ) Cosmogonia e cosmologia são as mesmas coisas.
( ) Explicação sobre a origem do mundo pela relação ente os deuses significa
cosmogonia.
( ) Explicação racional sobre a origem do mundo significa cosmologia.
( ) As navegações em nada contribuíram para a origem da Filosofia.
( ) A moeda não contribuiu para a origem da Filosofia, apenas o calendário.
( ) A escrita contribuiu para aumentar a capacidade de abstração do homem
antigo.
( ) A política é a principal causa para a origem da Filosofia na Grécia.
( ) A Filosofia nasce no campo e não da polis.
( ) Um universo espiritual novo na polis foi fundamental para a origem da Filosofia.
( ) Para Aristóteles, o que leva uma pessoa a filosofar é a admiração.
( ) Para Aristóteles, quem está acostumado demais com o mundo também
filosofa.
( ) Para Aristóteles, filosofar não é reconhecer-se um ignorante.
( ) O primeiro filósofo da história foi Tales de Mileto.
( ) Buscar o princípio de todas as coisas é filosofar.
( ) Para Tales, o princípio de todas as coisas é o ar.
( ) Uma das coisas que ajudaram Tales a pensar que a água era a origem de
todas as coisas foram as cheias do rio Nilo.
( ) O pensamento de Tales é uma cosmologia.
( ) Fragmentos da obra de Tales resistiram ao tempo e, até hoje, podemos lê-los.
C) FILMES
- PEIXE GRANDE E SUAS HISTÓRIAS MARAVILHOSAS. Filme de John August
com direção de Tim Burton (EUA, 2003) que problematiza a relação entre mito e
21

razão: nem toda narrativa é ficção, nem toda racionalidade é correta.

- HÉRCULES. Animação feita pela Disney que ilustra os famosos trabalhos de
Hércules e a intervenção dos deuses na vida dos homens a partir da mitologia
grega.
D) ATIVIDADE EM GRUPO
Que tal cada um dos grupos da sala pesquisar o princípio de todas as coisas

nos filósofos citados no final do texto e preparar uma encenação para a sala?
Todos perceberiam como os princípios de todas as coisas mudam de acordo com
os filósofos da natureza.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Leonel Vallandro, Porto Alegre: Editora
Globo, 1969.
BURNET, John. O despertar da Filosofia Grega. Tradução de Mauro Gama, São
Paulo: Editora Siciliano, 1994.
CHÂTELET, François. História da Filosofia – idéias, doutrinas: a Filosofia Pagã.
Tradução de Maria José de Almeida, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.
22

CHAUI, Marilena. Introdução à História da Filosofia: dos pré-socráticos a
Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2° edição, 20002.
HESÍODO. Teogonia. Tradução de Jaa Torrano, São Paulo: Editora Iluminuras,
1995.
NIETZSCHE, Friedrich. “O nascimento da tragédia no espírito da música” e “A
Filosofia na época trágica dos gregos” in Os Pensadores. Tradução de Rubens
Rodrigues Torres Filho, São Paulo: Abril Cultural, 1 edição, 1974.
SCHWAB, Gustav. As mais belas histórias da Antigüidade Clássica: os mitos da
Grécia e de Roma. Tradução de Luís Krausz, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 6°
edição, 1994.
PRÉ-SOCRÁTICOS. Os Pensadores. Traduções de José Cavalcante de Souza,
Anna Lia Amaral de Almeida Prado, Ísis Lana Borges, Maria Conceição Martins
Cavalcante, Remberto Francisco Kuhnen, Rubens Rodrigues Torres Filho, Carlos
Alberto Ribeiro de Moura, Ernildo Stein, Hélio Leite de Barros, Arnildo Devigili,
Mary Amazonas Leite de Barros, Paulo Frederico Flor, Wilson Regis, São Paulo:
Abril Cultural, 1° edição, 1973.
SPINELLI, Miguel. “A noção de arché no contexto da Filosofia dos Pré-Socráticos”
in Revista Hypnos n° 8, São Paulo: Editora da PUC-SP, Edições Loyola, Editora
Triom, 2002.
VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Tradução de Ísis
Borges B. da Fonseca, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 11° edição, 2000.
______. Mito e pensamento entre os gregos: estudos de Psicologia Histórica.
Tradução de Haiganuch Sarian, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
VLASTOS, Gregory. “Equality and justice in early Greek Cosmologies” in Studies
in Greek Philosophy. Princeton/New Jersey: Princeton University Press.
WATANABE, Lygia Araújo. “Filosofia antiga” in (vários autores) Primeira Filosofia:
aspectos da História da Filosofia. São Paulo: Editora Brasiliense, 9° edição, 1991.

23

UNIDADE 2
I – A LIBERDADE ENTRE A RAZÃO E OS INSTINTOS

1 – LIBERDADE E RAZÃO: SÓCRATES
“Conheça-te a ti mesmo” (Sócrates)
1.1 – Das trevas à luz: Platão e a alegoria da caverna
Platão (427-347 a.C.) formulou uma história conhecida como alegoria da
caverna. Nela, há algumas pessoas que estão lá desde crianças, amarradas pelas
pernas e pelo pescoço, de costas para a entrada da caverna, impedidas de saírem
dali. Da luz que vem de fora e que se projeta no fundo da caverna, estas pessoas
vêem as sombras de outras pessoas que passavam carregando toda espécie de
objetos fora da caverna, estes prisioneiros ainda ouvem o eco dos barulhos que
vêm lá de fora, já que lá alguns caminham conversando com outros – os
prisioneiros pensam, portanto, que a realidade é a sombra que vêem e o eco que
ouvem.
Estes prisioneiros faziam até concursos e concediam prêmios aos que
distinguiam da melhor forma as sombras que eram observadas, aos que
conseguiam primeiramente notar quais delas passavam e quais delas passavam
acompanhadas de outras e, por fim, até de prever as próximas sombras que
passariam.
24

Se fossem libertados, os prisioneiros continuariam a pensar que as sombras
eram, de fato, o que havia de real no mundo; porém, caminhariam para fora da
caverna e teriam a vista ofuscada, pouco a pouco acostumariam-se com a luz e
conseguiriam ver as imagens deles mesmos projetadas na água, veriam os
próprios objetos, veriam a lua e as estrelas. Já acostumados, conseguiriam voltar
os olhos ao sol e o veriam, compreendendo enfim que ele seria o autor das
projeções que haviam no fundo da caverna.
Ocorreu que um destes prisioneiros soltou-se e caminhou até a entrada da
caverna, ele notou, então, que aquelas imagens vistas lá embaixo não passavam
das sombras das coisas que estavam fora da caverna e que estas eram a
realidade. Encantado com o que viu, ele retornou à caverna, já que sentiu enorme
piedade dos seus companheiros de cárcere, contando tudo o que havia visto. Ele
sentiu as trevas em seus olhos, já que havia se acostumado a olhar para a
verdadeira luz, e tinha muita dificuldade em distinguir as sombras (seria preciso
mais tempo para ele se acostumar com as trevas novamente). Os outros
prisioneiros, então, consideraram que não valia à pena sair da caverna,
defenderam-se daquele que tentou tirar-lhes de lá e até o mataram.
Para Platão, Sócrates (470-399 a.C.), seu grande mestre, foi quem viu a luz,
quem retirou a alma da escuridão e a iluminou para, em seguida, retornar à
caverna e dizer que tudo que ali havia não era real, mas sombra, ilusão. Viu o que
cada sombra representava melhor que ninguém porque viu, também, a sua
verdadeira forma fora da caverna e voltou para dizer aos prisioneiros qual era a
essência daquilo que eles viam. O que fez Sócrates foi iluminar seu espírito com
uma sabedoria que o retirou das trevas, vejamos como é possível alcançar a luz!
1.2 – “Conheça-te a ti mesmo:” Sócrates e o poder da razão.
“Conheça-te a ti mesmo”: na entrada do templo de Apolo era esta a mensagem
que estava escrita. Era esta a mensagem também que Sócrates aconselhava às
pessoas: ele gostaria que elas saíssem da caverna, da escuridão que havia em
seus espíritos. Para alcançarem a luz, seria necessário, segundo ele, buscá-la.
Porém, aonde buscá-la? A resposta era imediata: dentro de nós mesmos –
“conheça-te a ti mesmo”.
Para que as pessoas conhecessem a si mesmas, Sócrates fazia perguntas: era
um perguntador incansável, e até irritante. Dialogava com todos sobre os mais
variados assuntos e faziam-nos perceber que o que elas sabiam sobre esses
assuntos não passavam de sombras, aparências do que elas, de fato, eram. Com
a continuidade do diálogo, Sócrates ajudava as pessoas a lembrar do que já
sabiam, já que ele pensava que a sabedoria estava dentro de nós9, não fora; por
isso, aconselhava: “conheça-te a ti mesmo”.
Conhecendo a nós mesmos, tomaríamos ciência que a nossa alma racional
seria um fator decisivo para a nossa felicidade: agindo de acordo com a razão,
agiríamos de acordo com nosso ser – agiríamos como homens, não como
9 A mãe de Sócrates era parteira e Sócrates também considerava-se um parteiro, mas de idéias: como ele
acreditava que elas estavam nas próprias pessoas, sua atividade consistia em interrogá-las até que as idéias
nascessem em suas mentes. Esta atividade genuinamente socrática ficou conhecida como maiêutica..

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animais. Não seríamos dominados pelos mesmos impulsos irracionais que
dominam os animais, não seríamos dominados pelas paixões e pelos sentidos,
seríamos senhores de nós mesmos e não agiríamos de modo desregrado. Para
agirmos como homens, temos de saber o que somos: se somos racionais, nossa
conduta também precisa ser. “Conheça-te a ti mesmo”.
Em suma, como procuramos o bem, tentamos nos afastar do mal: viver
escravo dos prazeres é, para Sócrates, viver sem se saber o que se quer, é nãosaber, é não usar a razão, é não agir como homem. Viver feliz e livre é viver
senhor de nós mesmos, é saber o que se quer, é agir racionalmente, é procurar o
bem para si mesmo. Eis o caminho para a liberdade na Filosofia socrática:
Conheça-te a ti mesmo:
-

Quem sabe (usa a razão) o que é o bem, pratica-o;
quem pratica o bem, é, realmente, um ser humano;
a liberdade reside na ação racional: é a razão que nos livra do vício e nos
conduz à felicidade.

Sócrates (470-399 a.C.)
Um exemplo: supondo que esteja muito calor e você foi a uma sorveteria,
racionalmente se refresca com um sorvete e sabe que ele faz bem para você
justamente porque lhe refresca. O que você fez foi um bem a si mesmo ao tomar
um sorvete. E mais: libertou-se da sensação de calor. Porém, caso você aja
desregradamente, tomando muitos sorvetes, o prazer transforma-se em um
problema para o seu estômago. O que você fez foi um mal para si mesmo: ao
deixar de usar a razão, deixou de agir como homem e tornou-se um escravo dos
prazeres.
VAMOS FILOSOFAR...
1 – Resuma a alegoria da caverna, narrada por Platão, em uma história em
quadrinhos.

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2 – Reflita sobre a alegoria da caverna e escreva:
a) a caverna é o mundo em que vivemos? Explique.
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b) o prisioneiro que se liberta e sai da caverna é o filósofo? Explique.
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3 – Qual era a mensagem que estava inscrita no templo de Apolo e que era dita
por Sócrates aos cidadãos de Atenas? Por que ela é importante para sermos
livres?
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4 – Para Sócrates, o que é preciso para fazermos o bem para nós mesmos?
Explique.
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5 – Dê dois exemplos de ações livres, de acordo com a filosofia de Sócrates.
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2 – LIBERDADE E INSTINTOS: NIETZSCHE
“Esse mundo é a vontade de potência – e nada além disso! E também vós
próprios sois essa vontade de potência – e nada além disso!” (NIETZSCHE,
Fragmento póstumo, 1885, 38 [12])
2.1 – Saber e fazer: uma diferença
Sabemos que, para Sócrates, ao sabermos o que é o bem, o faremos. Porém,
Friedrich Nietzsche (1844-1900) acreditava que este foi um grande erro de
Sócrates e de Platão: quantas vezes agimos em sentido contrário a uma ação
considerada correta? As pessoas sabem que não devem mentir, mas mentem.
Sabem que não devem “furar fila”, mas furam. Sabem que devem ser polidas, mas
não o são. O que Nietzsche apontou é que há uma diferença entre saber e
fazer: podemos conhecer muito bem uma obrigação e, mesmo assim,
desrespeitá-la. Por que agimos assim? Parece que há algo a mais em nós do que
pretendia Sócrates, parece que a razão não é o suficiente para explicar a
liberdade.
Além da razão, há o corpo: nossos impulsos vitais, nossos instintos foram
deixados de lado pela moral socrática. O “conheça-te a ti mesmo” de Sócrates foi
um projeto falido, segundo Nietzsche, por não levar o corpo em conta, aquele que
quis conhecer, não conheceu a si mesmo. Para Nietzsche, nossos impulsos são
constituídos de forças que duelam em nós mesmos para prevalecerem uma às
outras. Somos um conflito de forças que lutam entre si para sobreporem-se às
outras.
Sócrates errou, segundo Nietzsche, ao pensar que nossas ações são o
resultado de uma empresa exclusivamente espiritual, cada ação movida por nós é
o resultado de forças instintivas que lutam entre si e impulsionam o corpo. E não
se trata apenas do corpo do homem, mas de algo que acontece em toda a
natureza: em cada célula de cada ser vivo há esta luta, nem os seres

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microscópicos escapam destas forças. São forças que não param de duelar em
um só momento e cada uma delas procura ser a mais potente – essa é a teoria
nietzschiana da vontade de potência. Por isso, o filósofo pensou que não era
possível explicar nossa conduta e nossa liberdade apenas por nossa razão, como
desejou Sócrates. É preciso respeitar nossa natureza instintiva: “Esse mundo é a
vontade de potência – e nada além disso! E também vós próprios sois essa
vontade de potência – e nada além disso!”10

Friedrich Nietzsche (1844-1900)

2.2 – Liberdade e impulsos: crítica da liberdade como dominação. Ou “como
tornar-se o que se é”.
Para Nietzsche, somos forças que buscam vontade de potência. Imagine agora
que por muitas vezes reprimimos estas forças, que agimos contra nosso próprio
ser. Foi isto que aconteceu na história da humanidade, segundo o filósofo,
vejamos como.
Para Nietzsche, há dois tipos de pessoas: as que são fortes como aves de
rapina e as que são fracas como ovelhas. As aves de rapina também são
chamadas de fortes, senhores, nobres e as ovelhas são chamadas de fracas,
escravas, ressentidas. As aves de rapina têm força para realizarem aquilo que
querem e, se tiverem o desejo de capturar ovelhas, elas conseguirão se impor,
afinal são mais fortes. Já as ovelhas, para se defenderem, farão com que a força
das aves de rapina não se manifeste, darão um “golpe de mestre”11 e enganarão

10 NIETZSCHE, Friedrich. “Fragmento póstumo (1885, 38 [12])” in Os Pensadores. Tradução de Rubens
Rodrigues Torres Filho, 1° edição, 1974, p. 405.
11 NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução de Paulo César de Souza, São
Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 39.

29

as aves de rapina com uma “fábrica de mentiras”12: a impotência passa a ser
considerada virtude e bondade, a fraqueza passa a ser considerada mérito. As
ovelhas fazem as aves de rapina acreditarem em um reino de Deus, onde seriam
punidas caso efetivassem sua força.
Como há dois tipos de pessoas, há dois tipos de moral: como os fortes dizem
sim a si mesmos, vêem-se como bons, como fortes, e desprezam as ovelhas, já
que são seres fracos, ruins. Já as ovelhas, dizem não a um outro, consideram-no
mau e desejam vingança. Isto é, as ovelhas inverteram os valores e dominaram
as aves de rapina com a moral socrática e com o cristianismo. Criaram o reino de
Deus para punirem e vingarem-se dos que insistirem em efetivar suas forças,
usaram a moral como forma de dominar as aves de rapina.
As ovelhas dizem: “Você é uma ave de rapina, mas é livre para não usar sua
força, é livre para não cometer o erro de agir de acordo com sua natureza, é livre
para não ser uma ave de rapina. Caso nos devore, será punida no reino de Deus”!
Isto é, pecamos, mas somos livres para expiar e pagar nossa culpa;
desrespeitamos as normas, mas somos livres para pagarmos a dívida. A liberdade
aparece como meio de submissão das aves de rapina às ovelhas, estas
sustentam a crença de que “o forte é livre para ser fraco, e ave de rapina livre para
ser ovelha”13.
AVES DE RAPINA

OVELHAS

Fortes, senhores, nobres.

Fracas, escravas, ressentidas.

Como são muito fortes, dizem sim a si Como são fracas, dizem não a um outro,
mesmas.
a alguém que não são elas mesmas.
Consideram a si mesmos como boas e Consideram a si mesmas como boas e
as outras como ruins. Inventaram o as outras como maus. Inventaram a
desprezo.
vingança.
Acreditaram na fábrica de mentiras Inverteram a moral inventaram o reino
(moral) das ovelhas e foram dominadas de Deus para dominarem as aves de
por elas.
rapina.
Como os fortes acreditaram, a conseqüência para a sua liberdade foi trágica:
foram dominados por quem era mais fraco que eles e dominados por uma
liberdade servil, isto é, uma liberdade de se aceitar o que não se é – os fortes
escolhem não exercer sua força para não serem punidos no reino de Deus. Ao
invés de agirem de acordo com seus instintos, os reprimem com a razão. O
caminho que Nietzsche trilha para que as aves de rapina voltem a ser livres é
somente um:
“Como tornar-se o que se é”14
12 Op. Cit., p. 38.
13 Op.cit, pp. 36-37.
14 Este é o subtítulo do livro Ecce Homo, de Nietzsche.

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-

Dizer não à moral, instrumento dos fracos para dominar os fortes;

-

que a ave de rapina seja ave de rapina;

-

a liberdade reside em não se deixar escravizar pela razão que os fracos
impuseram aos fortes. A liberdade está nos impulsos vitais não reprimidos
pela moral.

VAMOS FILOSOFAR...
1 – Sócrates pensava que para fazer o bem, bastaria sabê-lo. Nietzsche
concordou com ele? Explique.
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2 – Nietzsche considerava o “conheça-te a ti mesmo”, de Sócrates, um projeto que
atingiu seu objetivo? Explique.
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3 – Para Nietzsche, como funciona nossa natureza instintiva?
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4 – Quem são e como se caracterizam os dois tipos de pessoas que houve em
nossa história, segundo Nietzsche?
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5 – O que fizeram as ovelhas para que as aves de rapina não exercessem sua
força sobre elas?

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6 – Explique a origem do desprezo e da vingança a partir do pensamento de
Nietzsche.
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_
7 – Como é a liberdade que as ovelhas oferecem às aves de rapina? Nietzsche
concorda com ela? Explique.
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8 – Para Nietzsche, o que as aves de rapina devem fazer para voltarem a ser
livres?
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3 – À GUISA DE CONCLUSÃO: UM CONTO PARA NOSSA REFLEXÃO.
Oscar Wilde (1856-1900), no conto O jovem rei, narra a história de um príncipe
raptado com apenas oito dias de vida e que cresceu sob os cuidados de uma
humilde família de camponeses. Como ele era o único filho que a filha do rei teve,
era necessário encontrá-lo para que alguém sucedesse ao rei no dia em que este
morresse.
Enfim, este dia chegou e, um dia antes de sua coroação, o jovem rei teve um
sonho:
“Pensou que estava numa água-furtada, comprida e baixa, entre o ronrom e o
barulho de um grande número de teares.
A frouxa luz coava-se, furtivamente, pelas janelas fechadas com grades e
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deixava-lhes ver as silhuetas grosseiras dos tecelões, debruçados sobre os seus
teares.
Crianças pálidas e de aspecto doentio estavam acocoradas ao pé das enormes
travessas.
Quando as lançadeiras passavam como um relâmpago através da urdidura,
levantavam pesados batentes e quando elas atingiam o final de seu movimento,
deixavam recair os braços, que apertavam o fios, enlaçando-os juntos.
As suas faces estavam minguadas pela fome.
As suas mãos delgadas estavam agitadas e trêmulas.
Mulheres de feições duras e olhos esgazeados estavam sentadas a uma mesa
e cosiam.
Um cheiro horrível enchia o local, O ambiente era impuro e pesado; as paredes
estavam sulcadas de filetes úmidos. O jovem rei abeirou-se de um dos tecelões,
parou um instante a olhar para ele.
O tecelão lançou-lhe um olhar irritado e disse:
-

Por que me estás olhando? És um espião que nosso patrão enviou para
junto de nós?

-

Quem é teu patrão? Perguntou o jovem monarca.

Nosso patrão! Exclamou o tecelão com amargura. É um homem como eu. Para
dizer a verdade, não existe a menor diferença entre nós, a não ser que ele usa
bonitas roupas, enquanto eu visto trapos.
-

O país é livre, disse o jovem rei, e tu não és escravo de ninguém.

-

Na guerra, disse o tecelão, os fortes reduzem os fracos à escravidão e, em
tempos de paz, é a mesma coisa. Temos de trabalhar para viver com
salários tão miseráveis que morremos quase de fome. Os nossos filhos
emagrecem prematuramente e as feições daqueles que amamos tornam-se
duras e más. Esmagamos as uvas, mas são os outros que bebem o vinho.
Semeamos o trigo, e a nossa arca está vazia, Arrastamos cadeias, embora
os olhos as não vejam e somos escravos, se bem que nos chamem
homens livres.

-

E isso dá-se com todos? Perguntou o jovem rei.

-

Assim é para todos, respondeu o tecelão, pra os novos como para os
velhos, para as mulheres como para os homens, para as crianças assim
como para aqueles que sucumbem todos os anos. Os comerciantes
apertam-nos e temos de obedecer às suas ordens. Através das vielas sem
sol, em que moramos, a Pobreza de olhos esfomeados e o Pecado de

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faces devastadas os seguem. A Miséria desperta-nos pela manhã até à
noite, a Vergonha nos espreita. Mas que te importam essas coisas? Não és
um de nós. No teu rosto, lê-se a felicidade.
E afastou-se com ar truculento; colocou a sua lançadeira entre os fios, e o
jovem rei observou que a lançadeira estava guarnecida com fios de ouro.
Um grande terror apoderou-se dele e disse ao tecelão:
-

Que vem a ser essa roupa que estás tecendo?

-

É a roupa destinada à coroação do jovem rei, replicou ele. Que te importa
isso?

E o rei moço soltou um grande grito, acordou e...
Estava no seu aposento, e, através da janela, contemplou a vasta lua cor de
mel, suspensa numa atmosfera cheia de brumas...”15
VAMOS FILOSOFAR...
1 – Supondo que você fosse o jovem rei, como usaria sua liberdade a partir da
concepção de Sócrates? Isto é, pela razão, o que faria para resolver os problemas
expostos no texto e conquistar o bem para o seu país?
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2 – Supondo que você fosse o jovem rei, como usaria sua liberdade a partir da
concepção de Nietzsche? Lembre-se de que os seus instintos vitais precisariam
ser valorizados.
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3 – Relacione a filosofia de Nietzsche à seguinte passagem do texto de Oscar
Wilde: “Na guerra, disse o tecelão, os fortes reduzem os fracos à escravidão e, em
tempos de paz, é a mesma coisa”16. Nietzsche considera que os fortes
escravizaram os fracos? Explique.
15 WILDE, Oscar. O jovem rei. Tradução de José Maria Machado, São Paulo: Clube do livro, 1963, páginas
14, 15 e 16.
16 _____. Op. cit., p. 15.

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4 – Faça uma redação de seus atos no primeiro dia de sua coroação como o
jovem rei. Escolha se agiria de acordo com sua razão ou de acordo com seus
instintos.
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SUGESTÃO DE ATIVIDADES
A) TEXTO COMPLEMENTAR

O problema de Sócrates
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“Dei a entender com o que Sócrates fascinava: ele parecia ser um médico, um
salvador. É necessário indicar ainda o erro que havia em sua crença na
‘racionalidade a todo preço’? – é um auto-engano dos filósofos e moralistas
pensar que já saem da décadence ao fazerem guerra contra ela. O sair está fora
de sua força: mesmo aquilo que escolhem como remédio, como salvação, é
apenas, outra vez, uma expressão de décadence – eles alteram sua expressão,
não a eliminam propriamente. Sócrates foi um mal-entendido; a inteira moral-damelhoria, também a cristã, foi um mal-entendido... A luz do dia mais crua, a
racionalidade a todo preço, a vida clara, fria, cautelosa, consciente, sem instinto,
oferecendo resistência aos instintos era, ela mesma, apenas uma doença, uma
outra doença – e de modo nenhum um caminho de retorno à ‘virtude’, à ‘saúde’, à
felicidade... Ter de combater os instintos – eis a fórmula para a décadence:
enquanto a vida se intensifica, felicidade é igual a instinto”.
NIETZSCHE, Friedrich. “Crepúsculo dos ídolos (§ 11)” in Os Pensadores.
Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, São Paulo: Abril Cultural, 1° edição,
1974, p. 338.
B) TRABALHO EM GRUPO
Recolha imagens sobre pessoas usando sua razão e seus instintos vitais; em
seguida, monte um painel expondo, de um lado, o conceito de liberdade de
Sócrates com imagens que correspondam a este conceito. De outro, o conceito de
liberdade de Nietzsche com imagens que correspondam a este conceito.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARRENECHEA, Miguel Ângelo. Nietzsche e a liberdade. Rio de Janeiro: Viveiros
de Castro Editora, 2000.
CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia: dos pré-socráticos a
Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2° edição, 2002.
MARTON, Scarlett. Nietzsche: a transvaloração dos valores. São Paulo: Editora
Moderna, 4° edição, 1996.
MÜLLER-LAUTER, Wolfgang. Nietzsche. Berlim: Walter de Gruyter, 1971.
NIETZSCHE. Friedrich. Além do Bem e do Mal: Prelúdio a uma Filosofia do
Futuro. Tradução de Paulo César de Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2°
edição, 2000.
_____. Genealogia da Moral: Uma Polêmica. Tradução de Paulo César de Souza,
São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
_____. Os Pensadores. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, São Paulo:
Abril Cultural, 1° edição, 1974.
PLATÃO. A República. Tradução de Leonel Vallandro, Porto Alegre: Editora
Globo, 1964.
UNIDADE 3
I – LIBERDADE: ELA EXISTE?

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Liberdade - essa palavra
Que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique,
E ninguém que não entenda!
Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência.
1 – Determinismo
OS MITOS DE TÂNTALO, PÉLOPS E NÍOBE
Tântalo
Tântalo era um rei rico e famoso em Sípilo, além de ser um dos filhos de Zeus;
como tal, era amigo dos deuses e sempre era convidado a comer na mesa deles,
no Olimpo. Porém, vaidoso, Tântalo revelou segredos dos deuses aos mortais,
roubou o néctar e a ambrosia dos deuses e entregou-os a seus amigos mortais,
escondeu um cão de ouro em Creta e, para testar a onisciência dos deuses,
cometeu um crime terrível: matou seu próprio filho, Pélops, serviu sua carne na
refeição e esperava que os deuses comessem a carne humana.
Os deuses perceberam, ressuscitaram Pélops e castigaram Tântalo da
seguinte forma: em um lago, ele ficou preso com o nível da água até o seu queixo,
uma sede muito forte o incomodava, mas ao tentar beber a água, o nível dela
abaixava e ele nunca conseguia bebê-la. Atrás de Tântalo, belíssimas árvores
carregadas de frutas tinham galhos que chegavam sobre sua cabeça, quando ele
movimentava-a para cima, um vento forte afastava os galhos cheios de frutas para
longe, impossibilitando Tântalo de matar sua fome. Piorando seu sofrimento, ainda
havia um rochedo suspenso no ar e localizado acima de sua cabeça, deixando-o
com um terrível medo da morte.
Eis o destino de Tântalo por seu crime. Por mais que ele se esforçasse e
tentasse em tomar água, esta afastava-se; por mais que ele se esforçasse em
tentar comer as frutas, estas também se afastavam; por mais que ele tentasse
esquecer do rochedo, ele estava bem acima de si. A sede, a fome e o medo
sempre venciam – o destino mostrava-se imutável: era impossível alterar a
decisão dos deuses olímpicos.

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A vida de Tântalo estava determinada, controlada pelos deuses. Em Filosofia,
denominamos de determinismo a idéia de que somos controlados por algo ou
alguém, a idéia de que temos um destino, de que ele seja inalterável e que possa
estar escrito independentemente de nossa vontade. Tudo o que acontece conosco
pode estar previamente definido.
Pélops
Esta idéia de que nossa vida pode estar traçada anteriormente por algo ou
alguém, é vista com mais clareza na continuidade do mito: Pélops era o filho de
Tântalo, morto por seu pai e ressuscitado pelos deuses, ele apaixonou-se pela
princesa Hipodâmia, de Elice. O rei Enômao ouvira de um oráculo que se sua filha
se casasse, ele morreria. Para evitar o casamento de sua filha, o rei anunciava
uma corrida de carruagem a todos os pretendentes dela: a corrida acontecia de
Pisa até o altar de Poseidon, em Corinto, e enquanto os pretendentes largavam na
frente, o rei oferecia um carneiro a Zeus. Se o rei alcançasse seu oponente, podia
matá-lo com sua lança; caso contrário, o pretendente poderia casar-se com
Hipodâmia – assim, muitos já haviam morrido, já que os cavalos do rei, Fila e
Harpina, corriam mais velozmente que o vento Norte.
Pélops era mais um concorrente e, antes da corrida, invocou Poseidon, que o
atendeu e ofereceu a ele uma carruagem com cavalos alados e rápidos como
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flechas. Na corrida, mesmo com estes cavalos, Pélops foi alcançado por Enômao.
Poseidon soltou as rodas da carruagem do rei, que caiu e morreu enquanto
Pélops alcançava a linha de chegada em Corinto. De volta a Pisa, Pélops ainda
salvou a princesa de um incêndio do castelo real e, enfim, casou-se com sua
amada.

Dizíamos que a idéia de determinismo aparece nesta narrativa mais claramente
que na primeira. Basta verificar que a previsão oracular cumpriu-se com todo o
seu rigor: como perdeu a corrida, o rei seria morto e, no momento que ele cai da
carruagem, a morte apresentou-se fatalmente, tal como estava determinado. No
derminismo, não há como alterar o destino imposto pelos deuses: uma vez que o
destino do rei era a morte, caso sua filha se casasse, ela mostrou-se fatal,
inexorável.
Níobe
Níobe era orgulhosa como seu pai, Tântalo. Como rainha de Tebas, certa vez
proibiu as pessoas de fazerem uma homenagem a Leto, Apolo e Ártemis alegando
que ela é que deveria ser homenageada por ser filha de Tântalo, neta de Zeus e
um de seus antepassados é Atlas. As oferendas foram interrompidas e todos
voltaram para casa.
Leto, a deusa do destino, e seus filhos, Apolo e Ártemis, reagiram aos insultos
de Níobe e prepararam uma terrível vingança: Apolo acertou, com flechas, cada
um dos sete filhos de Níobe, que faziam treinos eqüestres. A notícia se espalhou e
Anfíon, rei de Tebas e marido de Níobe, ao saber da notícia, suicidou-se com sua
espada. Níobe, acompanhada de suas sete filhas, correu para o campo
lamentando a morte de seu marido e de seus filhos; porém, continuou a gritar
contra os deuses e considerando-se mais rica. Assim, novas flechas voaram em
Tebas e mataram também as suas sete filhas. Sentada diante de seus sete filhos,
sete filhas e marido, todos mortos, Níobe ficou paralisada de tanta dor, o vento já
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não conseguia fazer seus cabelos oscilarem, o sangue petrificou em suas veias:
Níobe foi transformada em uma rocha, mas que ainda continuava a chorar. Por
fim, uma ventania jogou a pedra pelos ares e a levou até a Lídia, onde Níobe está
até hoje em uma montanha, chorando. A deusa do destino vingou-se furiosamente
do orgulho de Níobe e sua tentativa de interromper o louvor aos deuses.
Os três mitos acima expressaram algumas características fundamentais
da idéia de determininsmo:
- nossa vida é controlada por algo ou alguém, tal como Tântalo
controlado pelos deuses no lago;
- não há como alterar o nosso destino, tal como o rei Enômao que não
escapou da morte assim que Pélops venceu a corrida de carruagem.

VAMOS FILOSOFAR
1 – Procure no dicionário o significado das palavras abaixo e transcreva-os para
cá.
a) destino
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b) determinismo
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2 – Qual foi o crime cometido por Tântalo? Qual foi o seu destino imposto pelos
deuses como castigo?
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3 – Qual era a previsão oracular que o rei Enômao conhecia? O que ele fazia para
tentar impedi-la? Como a previsão oracular realizou-se no mito de Pélops?
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4 – Como Níobe insultou os deuses? Como estes reagiram? Qual foi o destino
imposto a ela como castigo?
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5 – Desenhe o destino que os deuses reservaram a cada uma das personagens
abaixo:
a) Tântalo

b) Enômao

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c) Níobe

6 – Os três mitos que estudamos expressaram as características principais da
idéia de determinismo? Quais são elas?
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7 – Você acredita no determinismo? Isto é, você pensa que há algo ou alguém que
determina tudo que vai acontecer na sua vida? Explique.
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8 – Na música abaixo, da banda Titãs, explique qual é o destino da personagem
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Marvin.
TITÃS – MARVIN
Meu pai não tinha educação
Ainda me lembro, era um grande coração
Ganhava a vida com muito suor
E mesmo assim não podia ser pior
Pouco dinheiro pra poder pagar
Todas as contas e despesas do lar
Mas Deus quis vê-lo no chão
Com as mãos levantadas pro céu
Implorando perdão
Chorei, meu pai disse: Boa sorte,
Com a mão no meu ombro
Em seu leito de morte
E disse
Marvin, agora é só você
E não vai adiantar
Chorar vai me fazer sofrer.
Três dias depois de morrer
Meu pai, eu queria saber
Mas não botava nem um pé na escola
Mamãe lembrava disso a toda hora
Todo dia antes do sol sair
Eu trabalhava sem me distrair
Às vezes acho que não vai dar pé
Eu queria fugir, mas onde eu estiver
Eu sei muito bem o que ele quis dizer
Meu pai, eu me lembro, não me deixa esquecer
Ele disse
Marvin, a vida é pra valer
Eu fiz o meu melhor
E o seu destino eu sei de cor
E então um dia uma forte chuva veio
E acabou com o trabalho de um ano inteiro
E aos treze anos de idade eu sentia todo o peso do mundo em minhas
costas
Eu queria jogar mas perdi a aposta.
Trabalhava feito um burro nos campos
Só via carne se roubasse um frango
Meu pai cuidava de toda a família
Sem perceber segui a mesma trilha

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Toda noite minha mãe orava
Deus, era em nome da fome que eu roubava
Dez anos passaram, cresceram meus irmãos
E os anjos levaram minha mãe pelas mãos
Chorei, meu pai disse: Boa sorte
Com a mão no meu ombro
Em seu leito de morte
Marvin, agora é só você
E não vai adiantar
Chorar vai me fazer sofrer.
Marvin, a vida é pra valer
Eu fiz o meu melhor o seu destino eu sei de cor
Titãs. Titãs, 1984.
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2 – Liberdade segundo Sartre: a escolha
Tântalo e Níobe ficaram impotentes diante dos castigos que receberam. Essa
impotência de mudar a situação significa ausência de liberdade? Quando não
conseguimos conquistar alguma coisa dizemos: “Não somos livres”. Em outras
palavras, quando conseguimos sair da situação de impotência, quando vencemos
as adversidades, declaramo-nos livres; porém, quando não as vencemos,
declaramo-nos não-livres.
Para pensar nesta questão, vejamos o que o filósofo francês Jean-Paul Sartre
escreveu. Segundo ele, se estamos diante de um rochedo e este bloqueia nossa
passagem, nós tentaremos passar por ele com uma série de técnicas, como a do
alpinismo. Mesmo que não consigamos escalar o rochedo, fomos nós quem
escolhemos pela escalada, foi a nossa liberdade que optou em ultrapassá-lo. O
projeto era escalar, mas se não houve a realização da escalada, não deixamos de
ser livres. O que Sartre apontou é que as pessoas não diferenciam o projeto da
realização: o fato de não conseguirem escalar o rochedo não significa que não
sejam livres, significa que são impotentes. Liberdade não é a obtenção do que se
quer, o êxito de uma realização em nada importa para a liberdade.
Suponhamos que você gostaria de ir à festa de aniversário de seu amigo, mas
no caminho seu carro quebrou e você talvez não consiga chegar a tempo. O fato
de você não conseguir realizar seu projeto (ir à festa) não significa que você não
seja livre; significa, somente, que você não consegue vencer a uma adversidade.
A liberdade manifesta-se na escolha que você realiza em ir à festa. Em seguida,
você escolhe em consertar o carro, mas não sabe; escolhe em procurar um
mecânico, mas não encontra. Isto é, escolhe em escapar da adversidade. A
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liberdade, segundo Sartre, é esta “autonomia de escolha”17 que independe da
realização do projeto: “Minha liberdade de escolher não deve ser confundida com
minha liberdade de obter”18. Isto é, como fazemos escolhas a todo momento,
somos livres e estamos condenados à liberdade.

Jean-Paul Sartre, 1905-1980.

VAMOS FILOSOFAR...
1 – Ao não conseguirmos realizar um projeto deixamos de ser livres? Explique.
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17 SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão,
Petrópolis: Vozes, 1997, p. 595.
18 SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit, p. 621.

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2 – A liberdade é a obtenção daquilo que queremos, segundo Sartre? Explique.
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3 – Para Sartre, como se manifesta nossa liberdade? Explique.
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4 – Leia o quadrinho e explique, usando a filosofia de Sartre, se o rato está ou não
livre na situação abaixo:

http://www2.uol.com.br/niquel/bau/shtml
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3 – Liberdade segundo Sartre: a situação, o ser e o nada

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O exemplo da festa de aniversário foi significativo: somos livres, mas nossa
liberdade é exercida em meio a uma situação. O desejo é de chegar à festa; por
isso que é doloroso ficar na rua com o carro quebrado, sem utensílios e sabedoria
para consertá-lo, pensando na promessa que fiz a meu amigo de que estaria em
seu aniversário, sem conseguir escapar do estado de coisas que me foi imposto
pelos outros (um carro que não funciona).
A situação, neste caso, é a condição de estar em um lugar que não é a festa, é
o fato de conviver com o problema de não cumprir o que foi prometido no
passado, de não dominar as técnicas (utensílios) que possibilitariam resolver o
problema, de ver o estado de coisas criados por outros não resolver meus
problemas. A liberdade não é abstrata, ela é concreta e a expressão de sua
concretude é a situação – as escolhas que faço para resolver meus problemas são
escolhas situadas, escolhas que têm como objetivo resolver problemas concretos.
O que me faz falta é estar na festa e o meu objetivo, o meu projeto, o meu fim, é
chegar a tempo nela. Minha liberdade consiste em fazer escolhas que me levem
até a festa, que me tirem do lugar onde estou, com o carro quebrado: o que eu
quero é trocar uma situação por outra, superar uma situação e chegar até outra, ir
além de uma situação que me incomoda e realizar a que desejo, transcender a
atual situação. Em outros termos, o que eu quero é acabar com a atual situação,
nadificá-la. Minha escolha pretende colocar um ponto final em meus problemas,
exterminá-los. Meu projeto é tornar existente minha presença na festa, torná-la
real, enteficá-la, dar ser a ela.
Sartre conseguiu mostrar que nossa liberdade se exerce em situação,
nadificando ou enteficando realidades em nome de um projeto que queremos
realizá-lo: no problema em questão, trata-se de nadificar a situação de ficar
parado com o carro quebrado e dar ser a minha participação na festa – dar fim a
uma situação e iniciar outra: “A liberdade, sendo escolha, é mudança”19.
SARTRE: A LIBERDADE SE EXERCE, EM SITUAÇÃO, PARA TENTAR
CUMPRIR UM PROJETO:
SER
æ
SITUAÇÃO â ESCOLHA
è NADA

VAMOS FILOSOFAR...
19 SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p. 610.

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1 – Cite quais são os problemas que a personagem do texto enfrenta na situação
acima.
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2 – Segundo Sartre, a liberdade é abstrata ou concreta? Explique.
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3 – Segundo Sartre, exercemos nossa liberdade ao fazer escolhas que tentam
cumprir nossos projetos. Qual é o projeto da personagem do texto e o que você
faria para cumpri-lo?
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4 – Para Sartre, qual é a relação da liberdade com o ser e o nada?
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5 – Relacionando a filosofia de Sartre sobre a liberdade ao poema da Cecília
Meireles, explique porque a liberdade, ao ser uma escolha, leva algumas coisas
ao nada e outras ao ser.

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Ou
Cecília

isto

ou
Meireles

aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o
doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

ainda

CECÍLIA MEIRELES. Poesia completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
2001.
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4 – Liberdade segundo Sartre: o problema da responsabilidade
“A conseqüência essencial de nossas observações anteriores é a de que o
homem, estando condenado a ser livre, carrega nos ombros o peso do mundo
inteiro: é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser”20. Tal
é a conclusão de Sartre, vejamos como a liberdade desembocou no peso da
responsabilidade sobre nós.
Sabemos que a idéia de determinismo expressa o controle de nossas vidas por
parte de algo ou alguém e a impossibilidade de mudarmos nosso destino.
Sabemos também que Sartre recusou a idéia de determinismo e demonstrou que
somos nós quem escolhemos nossas ações e, assim, tornamo-nos livres,
controlamos nossas vidas e ganhamos a possibilidade de mudá-la. Essa
liberdade, como vimos, é situada, condicionada por questões concretas e, ao
procurarmos resolver os problemas para realizar nosso projeto, nadificamos uma
realidade e tornamos real uma outra.
Como escolhemos, realizamos projetos, acabamos com situações e criamos
outras, somos nós os agentes de nossa história e da história da humanidade. Não
há algo ou alguém movendo nossas vidas, não há determinismo: não há como
responsabilizarmos os deuses por nossos acertos e por nossos erros. Somos nós
os responsáveis pelas nossas vidas, já que somos nós que fazemos as escolhas.
Se escolhemos em ir à festa, lutamos contra as adversidades e chegamos na
mesma, somos os responsáveis por nossa participação; se escolhemos não ir à
festa, somos os responsáveis por nossa ausência. A responsabilidade acompanha
a liberdade e é inseparável dela.
VAMOS FILOSOFAR...
1 – Para Sartre, podemos responsabilizar os deuses por nossos erros e por
nossos acertos? Explique.
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2 – Para Sartre, é possível separar a liberdade da responsabilidade? Explique.
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20 SARTRE, Jean-Paul. Op. cit., p. 678.

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3 – Dê dois exemplos de escolhas que você fez, escrevendo as responsabilidades
que precisou assumir.
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ATIVIDADES
A – TEXTO COMPLEMENTAR
LIBERDADE E FACTICIDADE: A SITUAÇÃO
“(...) O coeficiente de adversidade das coisas, em particular, não pode constituir
um argumento contra nossa liberdade, porque é por nós, ou seja, pelo
posicionamento prévio de um fim, que surge o coeficiente de adversidade.
Determinado rochedo, que demonstra profunda resistência se pretendo removê-lo,
será, ao contrário, preciosa ajuda se quero escalá-lo pra contemplar a paisagem.
Em si mesmo – se for sequer possível imaginar o que ele é em si mesmo -, o
rochedo é neutro, ou seja, espera ser iluminado pro um fim de modo a se
manifestar como adversário ou auxiliar. Também só pode manifestar-se dessa ou
daquela maneira no interior de um complexo-utensílio já estabelecido. Sem
picaretas e ganchos, veredas já traçadas, técnica de escalagem, o rochedo não
seria nem fácil nem difícil de escalar; a questão não seria colocada, e o rochedo
não manteria relação de espécie alguma com a técnica do alpinismo. Assim, ainda
que as coisas em bruto (...) possam desde a origem limitar nossa liberdade de
ação, é nossa liberdade mesmo que deve constituir previamente a moldura, a
técnica e os fins em relação aos quis as coisas irão manifestar-se como limites.
Mesmo se o rochedo se revela como ‘muito difícil de escalar’ e temos de desistir
da escalada, observemos que ele só se revela desse modo por ter sido
originariamente captado como ‘escalável’; portanto, é nossa liberdade que
constitui os limites que irá encontrar depois. (...) O ser dito livre é aquele que pode
realizar seus projetos. Mas, para que o ato possa comportar uma realização, é
preciso que a simples projeção de um fim possível se distinga a priori da
realização deste vim. Se bastasse conceber para realizar, estaria eu mergulhado
em um mundo semelhante ao do sonho, no qual o possível não se distingue de
forma alguma do real. Ficaria condenado, então, a ver o mundo se modificar
segundo os caprichos das alterações de minha consciência, e não poderia
praticar, em relação a minha concepção, a ‘colocação entre parênteses’ e a
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suspensão de juízo que irão distinguir uma simples ficção de uma escolha real.
Aparecendo desde o momento em que é simplesmente concebido, o objeto não
seria nem escolhido nem desejado. Abolida a distinção entre o simples desejo, a
representação que posso escolher e a escolha, a liberdade desapareceria com
ela. Somos livres quando o último termo pelo qual fazemos anunciar a nós
mesmos o que somos constitui um fim, ou seja, não um existente real, como
aquele que, na suposição precedente, viria a satisfazer nosso desejo, mas sim um
objeto que ainda não existe (...)”.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica.
Tradução de Paulo Perdigão, Petrópolis: Editora Vozes, 1997.
B – CINEMA

Madagascar (EUA, 2005). Animação da Dreamworks cuja trama
é a fuga de alguns animais que, para conquistarem a liberdade, fogem do
zoológico. Enquanto estavam no zoológico eles eram não-livres? Boa
oportunidade para pensarmos nesta questão.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica.
Tradução de Paulo Perdigão, Petrópolis: Editora Vozes, 1997.
____. A idade da razão. Tradução de Sérgio Milliet, São Paulo: Abril cultural, 1981.
____. Sursis. Tradução de Sérgio Milliet, São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
____. Com a morte na alma. Tradução de Sérgio Milliet, Rio de Janeiro: Editora
Nova Fronteira, 1983.
____. “Determinação e liberdade” in (vários autores) Moral e Sociedade. Tradução
de Nice Rissione, Rio de Janeiro: Paz e Terra.
SCHWAB, Gustav. As mais belas histórias da Antigüidade Clássica Vol. 1.
Tradução de Hildegard Herbold, Rio de Janeiro: Paz e terra, 1999.

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