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Dossiê Rosa Cruz

Dossiê Rosa Cruz

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O DOSSIÊ ROSA+CRUZ

Após a supressão dos templários, rumores circularam na Europa de que a tradição secreta por eles seguida ainda estava sendo praticada. No final da Idade Média, a influência das guildas de pedreiros ainda era considerável e os rumores as associavam à Ordem Templária. Dizia-se que, durante as cruzadas, um pequeno grupo de cristãos siríacos, que se diziam descendentes da seita dos essênios, foram salvos dos sarracenos pelos Cavaleiros Templários e postos sob a sua proteção militar, Esses cristãos foram iniciados no círculo mais profundo da Ordem, sendo que lhes foram ensinados todos os seus Mistérios Ocultos. Quando os cristãos siríacos deixaram a Terra Santa, atravessaram a Europa e acabaram se fixando na Escócia. Em sua nova pátria, eles fundaram um novo Capítulo da Ordem Templária que, mais tarde, se fundiu com uma loja da franco-maçonaria especulativa. Depois da destruição da Ordem Templária, as guildas de pedreiros [masonic] haviam atraído, para as suas congregações, muitos homens de saber não, pertencentes à classe dos construtores. Através da influência desses recém-chegados, que incluíam iniciados no ocultismo, o simbolismo esotérico das lojas maçônicas foi revivido e a franco-maçonaria especulativa foi estabelecida como um sistema metafísico, ensinando a perfeição do espírito humano através dos símbolos das ferramentas de trabalho do maçom operante. Muitos cruzados, enquanto viviam no Oriente Médio, haviam feito contatos com os Filhos da Viúva e a maçonaria sufi e, ao retornarem à Europa, contribuíram para reviver os aspectos espirituais do ofício de pedreiro. A tradição templária parece ter se tornado clandestina no começo do século XV, devido à sua cruzada da Igreja contra os praticantes da bruxaria. A caça às bruxas modernas, que durou do final do século XV ao início do século XVIII, ceifou cerca de um milhão de vidas inocentes, tendo sido instigada pela publicação, em 1484, do Malleus Maleficarum. Esse livro perverso foi escrito por dois monges dominicanos, Heinrich Kramer e James Sprenger, membros da Inquisição, criada em 1215 para erradicar e exterminar hereges. Antes da publicação do infame Malleus Maleficarun ou Martelo das Feiticeiras, a Igreja medieval descartava as bruxas como camponesas e ignorantes que sofriam ilusões de que adoravam deuses pagãos, mas os monges dominicanos mudaram essa visão. Na opinião, deles, a bruxaria era uma heresia diabólica que conspirava para derrubar a Igreja e estabelecer o reino de Satã na Terra. O papa Inocêncio VIII concordou com o Parecer e, em 1486, emitiu uma bula papal condenando as bruxas, o que lançou a Europa cristã em uma orgia de perseguições sangrentas que durante cerca de 250 anos. Nessa atmosfera de fanatismo, qualquer pessoa que professasse poderes mágicos ou seguisse crenças ocultistas não ousaria proclamá-la em público. A tradição ocultista tornou-se clandestina, só aparecendo muito raramente, nas décadas seguintes, geralmente entre os membros da sociedade estabelecida da perseguição que dizimou as classes inferiores praticantes das artes mágicas e da bruxaria. Vagas referências aos templários eram feitas na literatura ocultista disponível, ainda que, no contexto de paranóia que cercou a caça às bruxas, eles foram, em grande parte, erradamente retratados como adeptos da magia negra e satanistas. Em seu livro De Occulta Philosophia, escrito em 1530, o ocultista e mago alemão, Heinrich Cornelius Agrippa, mencionou os templários em conexão com os gnósticos e o culto ao deus pagão da fertilidade Príapo, cujo símbolo era um imenso pênis ereto, e o deus grego de patas de bode, Pã. Ele identificou a Ordem com a sobrevivência do paganismo, sugerindo que, na posição de ocultista praticante, ele tinha uma percepção especial das impressionantes alegações que derrubaram a Ordem. Afirma-se que Agrippa era membro de uma sociedade secreta que se dizia descendente dos templários e escreveu uma descrição de suas práticas ocultistas com base em informações privilegiadas.

O século XV e início do século XVI foram muito importantes, no que concerne ao crescimento da tradição ocultista clandestina. Os mouros, que haviam invadido a Espanha do norte da África, nos séculos X e XI, chegando a atingir áreas do sul da França, até serem expulsos pelos reis cristãos, haviam introduzido, na Europa, os ensinamentos secretos das escolas de Mistérios árabes e do sistema místico judaico, conhecido como Cabala. No início do século XVI, houve uma renovação do interesse nos gnósticos, e a filosofia hermética também era bem conhecida pelos estudantes dedicados às ciências ocultas. Em 1600, um manuscrito grego constituindo em uma cópia quase completa do Corpus Hermeticum, o compêndio padrão do hermetismo, chegou às mãos de um monge contratado pela família italiana dos Médici para localizar manuscritos raros. O patrão do monge, Cosmos de Médici, fez com que o manuscrito fosse traduzido, tendo sido publicado em 1463. A sua publicação marcou a grande revivescência ocultista do período, que culminaria com o florescimento da Renascença, quando artistas, escritores e poetas, inspirados pelo paganismo clássico, produziram as grandes obras de arte e literatura, tão altamente estimadas, atualmente, como os tesouros espirituais e materiais da cultura européia. Também durante esse importante período cultural da história ocidental, a existência de uma das mais influentes sociedades secretas da tradição esotérica foi revelada para o mundo externo. Essa sociedade tinha como o seu derradeiro objetivo restabelecer os antigos Mistérios em uma forma que, diferentemente da heresia maniqueísta e da Ordem Templária, fosse publicamente aceitável. Os mais antigos escritos sobre essa sociedade, conhecida como a Fraternidade ou Ordem Rosa-cruz, começaram a circular na Europa em torno do ano de 1605. Eles faziam parte de um manuscrito denominado A Restauração do Templo Decaído de Palas, e formam a mais antigas constituição da Ordem conhecida. Uma história dos rosacruzes foi escrita por um autor desconhecido, em 1610, mas só foi impressa quatro anos depois. Intitulava-se Fama Fraternitais e se constituía de uma história legendária afirmando que a Ordem fora fundada já no século XIV por um místico alemão de uma família aristocrática. Esse místico, conhecido somente pelo seu pseudônimo de Cristian Rosenkreutz, ainda menino, havia sido internado, pelos seus pais, em um mosteiro. Ele se rebelou contra o sufocante autoritarismo da vida clerical, aproveitando a chance, que um monge mais velho lhe ofereceu, de viajar ao Oriente Médio. O seu companheiro faleceu a caminho, em Chipre, mas o jovem prosseguiu viagem até Damasco. Ali, tornou-se aluno de um grupo de adeptos cabalistas que viviam na cidade. Rosenkreutz acabou retornando à Europa, detendo-se no norte da África, onde na cidade de Fez, estudou com oculistas árabes, e na Espanha Moura. Durante os seus estudos em Fez, o jovem monge aprendeu a arte mágica de evocar os espíritos elementais, sendo instruído nos segredos da alquimia ou transformação do chumbo em ouro. O fato de Rosenkreutz ter viajado, extensamente, pelo Oriente Médio, estudando com adeptos árabes do ocultismo, sugere fortemente que os rosa-cruzes estavam familiarizados com os ensinamentos do Sufismo. Idries Shah, grande Mestre sufi, comparou-os à sociedade secreta sufi, fundada em Bagdá no século XII, denominada Caminho da Rosa. Ela foi fundada por um mestre sufi, Abdelkadir Gilani, cujo símbolo pessoal era uma rosa vermelha. Esse grupo sufi, assim como os rosa-cruzes, praticavam a alquimia como uma metáfora da transformação espiritual da matéria em espírito. Retornando à Alemanha, Rosenkreutz prosseguiu os seus estudos ocultistas, isolando-se por cinco anos para realizar rituais mágicos e operações alquímicas. No fim desse período de isolamento, ele decidiu informar ao mundo seu novo conhecimento, e Rosenkreutz possuía ambições políticas, acreditando que as artes e ciências européias achavam-se em um estado de decadência. Segundo a sua crença, somente por uma injeção de inspiração espiritual a cultura européia poderia ser salva da completa degradação moral. Com esse fito, Rosenkreutz tentou

divulgar a sua mensagem aos colegas europeus, mas só encontrou a hostilidade, o ridículo ou a indiferença. Percebendo que uma abordagem aberta estava fadada ao fracasso, Rosenkreutz decidiu encobrir as suas reformas políticas e culturais com a máscara de uma sociedade secreta. Esse grupo trabalharia clandestinamente, nos bastidores, para influenciar, de forma sutil, pessoas importantes que pudessem concretizar as mudanças sociais com que Rosenkreutz sonhava. Rosenkreutz revisitou o mosteiro onde, antes de partir para o Oriente Médio, fora um monge noviço. Ele persuadiu três de seus membros mais antigos, conhecidos na literatura rosa-cruz como os Três Sábios, a abdicarem de suas ordens monásticas e aderirem ao seu empreendimento. Pediu-lhes que jurassem não violar os segredos que lhes faria conhecer e, em seguida, revelou-lhes, por um período de vários meses, o conhecimento ocultista recebido de seus mestres árabes. Rosenkreutz forneceu, a cada um de seus discípulos, um código secreto para transmitirem mensagens entre si. Ele também os ajudou a construir uma casa, que se tornou o repositório de milhares de volumes de sabedoria esotérica, durante anos por ele coletados. Quatro outros monges foram apresentados ao grupo e esses oito estudiosos formaram o núcleo da Fraternidade Rosa-cruz. Assim que a Ordem se viu seguramente estabelecida, sete de seus membros passaram a percorrer, secretamente, a Europa, divulgando as suas doutrinas ocultas, deixando Rosenkreutz na Alemanha para continuar as suas pesquisas arcanas. Eles decidiram não revelar as suas verdadeiras identidades para estranhos e concordaram em seguir cegamente seis regras de conduta: curarem os doentes sem cobrar, não usarem qualquer traje especial que revelasse as suas crenças ocultas, anualmente, em uma data fixada encontrarem-se na sede da Ordem para relatar seus progressos, e cada membro nomear um candidato digno para sucedê-lo após a morte, usarem as iniciais R+C como marca identificadora, e manterem a existência da Ordem secreta por, no mínimo, cem anos. Os primeiros confrades da Rosa-cruz concordaram em que, ao morrerem, os seus corpos seriam enterrados secretamente e sem cerimônia. Desse modo, quando o próprio Rosenkreutz faleceu, nenhum dos outros membros soube onde foi sepultado, até que, por acaso a sua tumba secreta foi descoberta, cerca de 120 anos depois. Tratava-se de uma câmara mortuária de sete lados, iluminada por uma luz perpétua cuja fonte nenhum dos confrades conseguia discernir. O corpo de Rosenkreutz estava perfeitamente preservado dentro da tumba, apesar do espaço de tempo decorrido desde a sua morte. Ainda que essa seja a lenda, geralmente aceita, da fundação dos rosa-cruzes, segundo alguns estudiosos, as verdadeiras origens da Ordem datam de vários milhares de anos, antes. Tem sido alegado que a Ordem Rosa-cruz original foi fundada pelo faraó Tutmés III, no século XV a.C. Ele agrupou todos os eruditos, sacerdotes e filósofos de seu tempo em uma irmandade secreta de iniciados que se reuniam, para a prática de seus ritos, em um templo às margens do Nilo. No movimento rosa-cruz moderno, o cartucho ou selo pessoal de Tutmés é usado como um dos símbolos da Ordem nos documentos públicos e privados. O propósito da fundação da Ordem, no antigo Egito, era exercer uma influência civilizadora no mundo antigo e preservar a sabedoria das Escolas de Mistérios. Tutmés III foi um dos mais importantes soberanos egípcios durante a XVIIIª Dinastia (1587-1375 a.C.). Em sua juventude, ele foi co-regente da rainha Hatshepsut, sua irmã, e com a morte dela, em 1480 a.C., Tutmés, cujo nome significa “nascido de Thot”, o deus da sabedoria, o de cabeça de íbis, equivalente egípcio do Hermes grego e do Mercúrio romano e do Loki nórdico, reinou como o faraó supremo. Circularam rumores de que o jovem havia assassinado a sua irmã para conquistar a coroa, mas inexistem provas que sustentem tal alegação. Após a morte de Hatshepsut, Tutmés deu início a uma campanha expansionista que transformou o Egito em uma potência mundial. Ele invadiu a Palestina, Síria e Núbia, estendendo a influência do Egito ao norte, até o rio Eufrates. O temor do poder militar

egípcio, durante o seu reinado, impediu ataques de forasteiro e permitiu à civilização do Nilo, desenvolver-se em paz. A corte do faraó recebia tributos dos inimigos conquistados, incluindo pedras preciosas, perfumes, especiarias e ouro, que abarrotaram os cofres reais. Sob a liderança do novo faraó, o Egito se tornou a mais rica e politicamente poderosa nação da área mediterrânea. Tutmés era conhecido pelo seu temperamento violento e sua personalidade impetuosa, mas também era amplamente respeitado como general e estadista. Ele era temido pelos inimigos, mas profundamente amado pelo seu povo. Nunca matava os soberanos dos países que conquistava, mas os depunha e substituía por governadores egípcios. Em seu país, o faraó foi responsável pelo estabelecimento de um sistema legal que insistia na imparcialidade dos juízes e tratava todos os homens e mulheres como iguais, sem favorecer os membros da classe dominante. Tutmés era um homem culto, interessado nas artes e ciências. Ele fez com que muitas plantas, árvores e animais raros fossem trazidos das nações ocupadas pelo seu exército, para o Egito, tendo o mérito de ter sido o primeiro fundador de um zoológico e jardim botânico no mundo antigo. Ao morrer, Tutmés foi descrito, pelos poetas, como “um cometa circundante que expele chamas e exala a sua substância em fogo”. Sobre ele escreveu-se “nada haver que não conhecesse, ele era Thot em tudo. Não havia nenhum empreendimento que não concluísse”. Referencias especiais são feitas ao grande templo construído pelo místico, guerreiro em Karnak, em cooperação com o seu filho, que, após a sua morte, governou o Egito como Amenhotep II. O movimento rosa-cruz, consoante a história mística da Ordem sobreviveu à morte das antigas religiões pagãs e ao surgimento do cristianismo. Há quem afirme que os três reis magos vindos do leste para reverenciar o menino Jesus, em Belém, eram iniciados da Ordem. O imperador Carlos Magno, do Sacro Império Romano, um antigo protetor dos pedreiros que construíram as catedrais góticas, teria, ao que se diz, fundado uma loja rosa-cruz, em Toulouse, no século IX d.C. Em 898 d.C., uma segunda loja foi instituída na França e, no ano 1000, um grupo de monges católicos romanos heréticos fundou o primeiro colégio rosa-cruz, que floresceu secretamente dos séculos XI a XVI. Alguns dos notáveis Grão-Mestres da Ordem Rosa-cruz foram, supostamente, personalidades históricas famosas como Raymond VI, o conde Toulouse; o escritor, poeta e filósofo italiano, Dante; o mago alemão, Cornelius Agrippa, que escreveu sobre os templários; o místico e curador, Paracelsus; o astrólogo elisabetano, Dr. John Dee; o filósofo hermético, Giordano Bruno, queimado vivo como herege pela Inquisição; Sir Francis Bacon, chanceler da Inglaterra no reinado de Jaime I; o filósofo Spinoza; o cientista inglês, Robert Boyle; Sir Christopher Wren, que projetou a catedral de São Paulo, em Londres; Benjamin Franklin, ativamente envolvido na revolução Americana de 1776; o ocultista e fundador da maçonaria egípcia, o conde Cagliostro; e Thomas Jefferson, presidente dos EUA. Em anos mais recentes, os presumíveis Grão-Mestres da Ordem são o escritor e estadista inglês Lorde Bulwer Lytton e o compositor Claude Debussy. Alguns rosas-cruzes modernos consideram a lenda de Christian Rosenkreutz como uma fábula simbólica, publicada para revelar a existência e os ensinamentos da Ordem ao grande público. A própria Ordem havia funcionando em segredo por pelo menos, 1.500 anos, desde a sua fundação no Egito antigo. Semelhante aos templários, a fonte do conhecimento esotérico dos iniciados rosa-cruzes era o Oriente Médio, especificamente o Egito e as Escolas de Mistérios da Arábia. O manifesto político rosa-cruz incluía o estabelecimento de um sistema social que tratasse todas as pessoas igualmente, dentro de uma estrutura democrática. As três metas políticas iniciais da Ordem eram: a abolição da monarquia e a sua substituição por um governo de sábios; a radical reforma das ciências e filosofia de acordo com os princípios

espirituais; e a descoberta de um remédio universal ou elixir da vida que curasse todas as doenças. No século XVII, ao ser publicado esse manifesto, o sistema feudal medieval começou a ser lentamente substituído por formas mais democráticas de governo. Quase 200 anos se passariam até antes de uma grande tentativa de democratizar os sistemas europeus de governo (na Revolução francesa e nas colônias da América do Norte). A Guerra inglesa, em 1640, assentou as bases dessas duas revoluções, quando o direito divino do monarca de governar sem consultar o povo foi contestado em um sangrento conflito que terminou com a morte do rei. Muitos autores sobre a Ordem Rosa-cruz têm afirmado que a fraternidade foi fundada por ex - membros da Ordem Templária, depois de sua supressão pelo papa Clemente V. Alegase que, antes das Cruzadas, membros da Ordem Rosa-Cruz trabalhavam, secretamente, na Terra Santa pelo bem comum da humanidade. Com certeza, tanto os templários como os rosa-cruzes usavam o símbolo da Rosa-Cruz ou cruz vermelha e se dedicavam à reforma religiosa e política. Ambos os grupos, se bem que nominalmente cristãos, parece terem secretamente se engajado em práticas ocultistas e pagãs, sob o manto da ortodoxia. Aos rosa-cruzes medievais atribuía-se, popularmente, a posse de uma ampla gama de poderes mágicos inclusive a capacidade de prolongar a juventude mediante técnicas ocultas, de evocar os espíritos, de tornar-se invisível, de criar pedras preciosas do ar rarefeito e de transformar chumbo em ouro. Dizia-se que o termo Cruz Rósea derivaria do latim Ros, significando “orvalho”, e crux ou “cruz”, que se refere ao símbolo químico da luz. De acordo com essa interpretação, a Cruz Rósea é um símbolo oculto da operação alquímica de transformar a matéria em espírito, representada por chumbo e ouro, na literatura aos profanos. A semelhança da Maçonaria, o simbolismo oculto da Ordem Rosa-cruz representava a evolução da humanidade, do materialismo até a perfeição espiritual. Esse simbolismo coloriu os objetivos políticos da Ordem, que envolviam: a restauração das ciências do mundo antigo, destruídas pelo cristianismo, cuidados médicos para os pobres, a reforma social e o estabelecimento universal da democracia. As ligações entre rosa-cruzes e a Maçonaria são antigas. Ao que se sabe, a primeira referência escrita à Maçonaria é um poema de 1638. Ele se refere, tanto aos maçons como aos rosa-cruzes, nos seguintes termos: “Os nossos presságios não são grosseiros, pois somos confrades da Rosa-cruz, temos a senha dos maçons e uma segunda vista, o que virá prevemos corretamente...” O poema informa ao leitor que os rosa-cruzes conheciam os segredos íntimos da Maçonaria e eram dotados do poder psíquico de prever o futuro. A Ordem da Jarreteira, por adotar, em seu simbolismo, a cruz Rósea, tem sido associada aos rosa-cruzes. A Ordem foi fundada em 1348, pelo rei Eduardo III, da Inglaterra, e dedicada à Virgem Maria, a versão cristianizada da Grande Deusa Mãe pagã. Eduardo era um estudioso das lendas arturianas, e as reuniões da Ordem se dava em uma câmara especial no castelo de Windsor, em torno de uma mesa baseada na Távola Redonda do rei Artur. A insígnia de um cavaleiro da Ordem da Jarreteira consiste em um colar de jóias composto de rosas de ouro e vermelhas, com cinco pétalas, contidas em pequenas jarreteiras. Essas rosas se alternam com 26 laços de ouro, cada um representando um membro da Ordem. O colar traz, pendurado, uma representação do santo padroeiro da Inglaterra, São Jorge, matando o dragão. Ele é recoberto de ouro e enfeitado com diamantes. Além desse magnífico colar, os cavaleiros, usavam uma jarreteira de veludo, com o lema da Ordem em letras vermelhas e brancas: “Honi soit qui mal y pense ou “Desonrado seja quem tiver maus pensamentos”. Esse lema foi, aparentemente, o comentário de Eduardo ao apanhar a jarreteira que a condessa de Salisbury deixou cair enquanto dançavam, sendo esse evento que, conforme a lenda, persuadiu o rei a fundar a primeira Ordem cavalheiresca da história inglesa. A associação da Ordem da Jarreteira com os rosa-cruzes podem não ser tão fantasiosa como se afirma à primeira vista. Existem registros de que o filho de Eduardo III tinham

ligações com um grupo de cavaleiros que haviam lutado na Terra Santa, tendo sido iniciados na tradição templária. Em seu retorno à Inglaterra, esses cavaleiros fundaram uma loja esotérica que praticava as artes ocultistas. Também é verdade que muitos membros famosos dos rosa-cruzes ou da Maçonaria foram, durante os séculos, agraciados como membros da Ordem da Jarreteira, privilégio que tem de ser uma dádiva pessoal do monarca. As conexões entre a realeza e os rosa-cruzes, apesar da Ordem preconizar a abolição da monarquia, foram ainda mais estreitas na Inglaterra elisabetana. Um dos supostos Grão-Mestres da Ordem, Dr. John Dee (1527-1608), tornou-se confidente de Elizabeth I, tendo-se envolvido em muitas das intrigas políticas do século XVI. Além de astrólogo, Dee também era um renomado matemático, navegador, cartógrafo, mago, hermetista e cientista natural. Ele estudou na Universidade de Cambridge e viajou extensamente pela Europa, aprendendo as doutrinas ocultistas com importantes cabalistas, místicos e filósofos. Ele passou algum tempo na Boêmia, com o praticante do ocultismo, imperador Rodolfo II, da dinastia dos Hansburgo, tendo sido um personagem conhecido em muitas cortes reais européias. No seu retorno à Inglaterra, Dee foi convidado a fazer o horóscopo de Maria Tudor e da jovem princesa Elizabeth. Infelizmente, em maio de 1555, um mandado de prisão foi emitido contra ele, seguindo-se a uma acusação de ter enfeitiçado a rainha. Dee passou vários meses encarcerado, antes que a acusação fosse declarada falsa e ele fosse liberto. Segundo a crença popular, Dee foi um charlatão e feiticeiro; porém, a sua biblioteca em Mortlake indica ter sido versado nas idéias religiosas antigas, especialmente os ensinamentos pré-cristão de Hermes Trismegistro, Zoroastro e dos Gnósticos. Ele possuía uma cópia do Corpus Hermeticum, tendo estudado profundamente os Mistérios pagãos e a mitologia do Egito antigo. Assim não surpreende que os rosa-cruzes aleguem que esse erudito ocultista tenha sido um dos principais membros de sua sociedade secreta. A despeito de sua breve sentença de prisão durante o reinado da rainha Maria, Dee parece ter recebido a proteção real de Elizabeth quando ela ascendeu ao trono. Consta que a rainha freqüentemente dirigia-se à casa de Dee, em Mortlake, nas margens do rio Tâmisa, para discutir assuntos de estado com o seu astrólogo favorito. Os conselhos de Dee eram altamente considerados pela rainha e, em 1592, quando ele solicitou uma propriedade na região rural de Hampshire, a fim de conduzir os seus estudos ocultistas, Elizabeth negou o pedido por desejar mantê-lo próximo de si. Politicamente, Dee era um imperialista que desejava ver a Inglaterra assumir o seu lugar de direito, na história mundial, como uma potência marítima. Em 1577, ele escreveu o seu Treatise on Naval Defence, que forneceu o projeto de uma frota imperial que iria dominar os mares e formar o corpo de guarda do futuro Império Britânico. Parece que a visão imperialista de Dee também era compartilhada por outros na corte de Elizabeth cuja influência sobre a rainha era ainda maior do que a do astrólogo de Mortlake. Quando não estava escrevendo sobre política, Dee desempenhava um papel ativo em assuntos diplomáticos e de coleta de informações secretas que ajudaram a promover as ambições imperialistas da Inglaterra elisabetana. Dee estava estreitamente ligado a um dos conselheiros de maior confiança da rainha, Sir Francis Walsingham, a quem se atribui a criação do serviço secreto britânico. Walsingham era uma personalidade astuta, que havia ascendido da obscuridade para se tornar um dos favoritos da rainha, tendo a servido lealmente até a morte. Walsingham foi, de início, empregado na corte como guarda pessoal da rainha, incumbido de revistar os seus aposentos à procura de venenos. Durante o seu reinado,

Elizabeth foi alvo de diversas tentativas de assassinato, inclusive uma conspiração organizada pelos jesuítas. Walsingham logo desenvolveu uma habilidade natural para adquirir informações por meios clandestinos e, rapidamente, estabeleceu uma rede de serviço secreto que ultrapassou os limites da Inglaterra e se estendeu até o continente europeu. Circulavam rumores de que, assim como Dee, Walsingham era um estudioso do ocultismo que se utilizava da organização clandestina de cowens de bruxas, da Inglaterra dos Tudor, a fim de coletar materiais para o seu serviço secreto. O risco por ele assumido, em época em que a prática da bruxaria constituíam um delito capital, não pode ser ignorado mas, à semelhança dos agentes secretos a partir de então, Walsingham assumiu o risco de desempenhar atividades ilegais porque, para ele, a defesa do reino era mais importante do que a sua segurança pessoal. O serviço secreto embrionário de Walsingham envolveu-se, inicialmente, na contraespionagem e com a ameaça à segurança nacional representada pelas conspirações para assassinar Elizabeth. Embora fosse uma rainha popular, Elizabeth podia se orgulhar de possuir um culto à personalidade, que chegava ao ponto de ser adorada como a personificação da deusa virgem Diana, de modo que os seus inimigos representavam uma constante ameaça. Os espanhóis eram os principais conspiradores da tentativa de assassinato, e Walsingham e seus agentes desempenharam um papel importante no desmascaramento das atividades de espiões estrangeiros enviados à Inglaterra para se infiltrar na corte e na alta sociedade. Em 1570, Walsingham foi nomeado embaixador na França e, ao ocupar essa posição, estendeu a sua rede de espionagem através da Europa. John Dee auxiliou o mestre-espião durante as suas viagens pela Europa, o astrólogo fizera muito contatos importantes nos círculos aristocráticos e reais, incluindo ocultistas de elevada posição social e que eram membros de sociedades secretas. Ele forneceu a Walsingham informações sobre essas pessoas e o organizador do serviço secreto pode contactá-las e recrutar agentes para a sua rede continental. Em sua estada em Paris, Walsingham envolveu-se nas negociações para o casamento proposto entre a rainha Elizabeth e o duque de Anjou. Durante todo o tempo, ele se empenhou em derrubá-lo, acreditando que seria desastroso para o futuro da Inglaterra. Frustrada com a falta de progresso das negociações, Elizabeth instruiu John Dee a visitar Walsingham em Paris e descobrir o que se passava. Foi solicitado a Dee um horóscopo sobre a conveniência do casamento proposto entre a rainha inglesa e o príncipe francês. Ele informou a Elizabeth que as estrelas não previam uma união feliz, aconselhando-a a desistir do matrimônio. Semelhante a maioria dos agentes secretos, Walsingham era fascinado por códigos secretos e escritas cifradas. Juntamente com Dee, o mestre-espião formulou uma série de códigos usados por seus agentes para transmitir mensagens. Ele também empregou habilidosos decifradores para traduzir os códigos usados pelos inimigos da Inglaterra. Em 1562, Dee descobriu um livro de criptografia escrito pelo abade de Spanheim. Ele utilizou as idéias desse livro para escrever o seu volume de ocultismo The Monad. Esse livro sempre foi considerado como puramente um estudo de simbolismo esotérico, mas Sir. William Cecil, membro proeminente do governo de Elizabeth, declarou claramente que o trabalho tinha sido de grande valia para a segurança do reino. Depreende-se daí que Dee o escreveu para o uso tanto por ocultistas como por agentes secretos. Chegou-se a alegar que os registros das conversações em língua enoquiana, recebidos dos anjos, pelo Dr. Dee, através da mediunidade de Edward Kelly, também foram usados para ocultar mensagens secretas referente ao trabalho do mago para o serviço secreto. Dee não foi o único rosa-cruz abertamente envolvido na atividade política. Após a publicação do Fama Fraternitais, várias lojas da Ordem foram fundadas e, segundo os seus membros, os rosa-cruzes exerceram um papel ativo nos eventos relacionados à Reforma e à ascensão do luteranismo na Alemanha e Suíça. A Ordem tinha boas razões políticas, para

inicialmente, apoiar a causa protestante. Aparentemente, como herdeiras da sabedoria antiga pré-cristã, as sociedades secretas pouco teriam a ganhar com a reforma religiosa. Entretanto, ao apoiar os dissidentes protestantes, contribuíram para enfraquecer o poder político da Igreja Católica Romana, a inimiga tradicional dos cátaros, dos templários e dos maçons. No início, os rosa-cruzes acreditavam que os reformadores religiosos por detrás do movimento protestante introduziriam a tolerância espiritual, motivo pelo qual os apoiaram. Na prática, o protestantismo iria se tornar tão espiritualmente falido como a versão romana do cristianismo e, de fato, exorcizou de sua fé os elementos do paganismo que lhe davam alguma credibilidade esotérica, abrindo caminho para o retorno da Antiga Ordem Mundial. Na Áustria, a influência rosa-cruz sobre a Reforma centrou-se em torno de Johann Valentin Andrea, clérigo luterano nascido em 1586, que, em visita à Suíça, impressionou-se com as reformas sociais levadas a cabo nessa nação. Ao retornar à Áustria, o clérigo estabeleceu um associação de proteção mútua, em linhas suíças, entre os trabalhadores de sua fábrica local de tecidos. Em 1620, Andrea também contatou vários nobres liberais austríacos e, com a sua ajuda, fundou diversas lojas rosa-cruzes no país. A certa altura, foilhe atribuída a autoria do Fama Fraternitatis, ainda que ele sempre negasse tê-lo escrito. Ele certamente propagou os princípios rosa-cruzes, incluindo a fundação de um Colégio de Sábios, de ambos os sexos, que atuariam como reformistas sociais, além de ser amigo íntimo e defensor de Martinho Lutero. Observou-se que Lutero usava, como selo pessoal, o símbolo de uma rosa e uma cruz; porém, é um fato discutível se ele era uma iniciado rosa-cruz. A nova versão protestante do cristianismo não se revelou mais tolerante do que os católicos em relação às crenças espirituais alternativas. A intolerância religiosa é um mal pernicioso que permeou o cristianismo exotérico desde os primórdios da Igreja. Os protestantes reagiram vigorosamente contra o que consideravam como “paganismo” inerente ao sistema de crenças romano e promoveram uma forma puritana de adoração religiosa. É difícil justificar a destruição de igrejas e catedrais durante a Reforma inglesa, instigada por Henrique VIII, apesar da corrupção da instituição clerical daquela época. Os protestantes também desvalorizaram o papel do princípio feminino na fé cristã, ao rejeitar a Virgem Maria, deixando um vácuo espiritual apenas parcialmente preenchido, nos séculos XVIII e XIX, com o surgimento, dentro da igreja anglicana, do anglo-catolicismo, que restaurou, na religião protestante, alguns dos antigos Mistérios. Muitos detentores de altas posições, com poder e influência, viram-se atraídos pelos ideais utópicos dos rosa-cruzes. Entre eles estava o antiquário Elias Ashmore (1617-1692), amigo íntimo de Carlos II, cavaleiro da Ordem da Jarreteira, fundador do famoso museu e biblioteca Ashmolianos de Oxford e livre-maçon especulativo. Ashmole foi, também, amigo do astrólogo William Lilly e participou da formação da Sociedade Real, baseada em conceitos rosa-cruzes. Em 1652, Ashmole revelou a sua ligação com os rosa-cruzes, ao afirmar que um dos primeiros membros da Ordem fora um inglês que curou da lepra o duque de Norfolk, grão-marechal da Inglaterra. Em 1650, Ashmole publicou um livro denominado Fasciculus Chemicus, escrito por Arthur Dee, filho do astrólogo da rainha Elizabeth. Dee foi médico pessoal do czar Ivan, o Terrível. Com a morte de Ivan, os boiardos [isso, é membros da antiga aristocracia russa] conspiraram para substituí-lo por um regente não - russo; porém, com a ajuda de Dee, assim como o seu pai e Ashmole, pode ter sido um iniciado rosa-cruz, mas ele certamente era um agente do serviço secreto inglês. Em 1646, Ashmole e William Lilly fundaram uma loja rosa-cruz em Londres, baseada no ideal utópico da criação de uma nova Atlântida, que simbolizava a idade de ouro antes da Queda, quando a humanidade era espiritualmente perfeita, e na reconstrução do templo de Salomão, conforme venerada na tradição templária.

Ashmole e Lilly podem ter sido influenciados pelas crenças de Sir Francis Bacon, que era o visconde de Santo Albano e autor de A Nova Atlântida, que promovia O Manifesto RosaCruz. A posição dos mações e rosa-cruzes, durante a Guerra Civil inglesa e o Commonwelth de Cromwell, é confusa. As reformas sociais e os ataques à instituição religiosa, que caracterizaram as atividades de Oliver Cromwell durante a década de 1640, deveriam fazer com que as sociedades secretas apoiassem a sua causa. No entanto, muitos rosa-cruzes e maçons eram aristocratas que, apesar de suas crenças liberais, estavam naturalmente inclinados a apoiar a causa monarquista. Embora o manifesto original rosa-cruz defendesse a abolição da monarquia, esse aspecto das crenças da Ordem parece ter-se diluído consideravelmente. Afirma-se que, depois da Restauração, os puritanos mais progressistas, inclusive, possivelmente, alguns membros de grupos como os Levellers e os Diggers, que haviam sido perseguidos por Cromwell, infiltraram-se nas lojas maçônicas. É possível que alguns desses elementos estivessem ligados à fundação da Sociedade Real, em 1660. A sociedade foi formada para reformar a ciência, a religião e as artes, com base no conceito rosa-cruz do Colégio Invisível. Vários membros de destaque da Sociedade Real eram maçons ou rosa-cruzes. Em meados do século XVII, a ordem neo-rosa-cruz havia se estabelecido firmemente através da Europa. Ainda que ameaçada pela perseguição clerical, a Ordem fundara lojas em Nuremberg, Hamburgo, Paris e Amsterdã. No início do século XVIII, as lojas da maçonaria especulativa também estavam brotando à luz. Uma das personalidades maçônicas mais importantes desse período foi o cavaleiro Andrew Ramsay, partidário da causa jacobita de restauração da dinastia dos Stuart no troço britânico. Ramsay viveu por longo tempo na França e, em 1736, discursou para um grupo de maçons franceses, referindo-se à tradição dos templários. Ele revelou que a maçonaria era herdeira dos segredos dos templários que, por seu turno, haviam herdado a sabedoria antiga dos Mistérios pagãos. A Maçonaria havia sido introduzida na França por aristocratas ingleses que apoiavam os Stuart. Eles eram membros da Sociedade dos Legitimistas, que defendiam a concessão da coroa britânica aos príncipes escoceses. Em 1721, Lorde Derwentwater fundou a primeira loja na França, em Dunquerque, com uma carta concedida pela Grã-Loja da Inglaterra. Muitos franceses aderiram às novas lojas maçônicas, ainda que o governo emitisse ordens proibindo a associação. Por decreto real, nenhum membro da corte poderia aderir a uma loja, sob pena de prisão na Bastilha. Os estalajadeiros foram ameaçados de multas de 3 mil francos, caso permitissem o uso de suas instalações para reuniões maçônicas. A despeito da oposição oficial, a maçonaria floresceu e, em meados do século XVIII, numerosas lojas praticantes do rito escocês, que possuía graus mais altos do que a versão franco-maçônica inglesa e parece ter se inspirado nos rosa-cruzes, estavam estabelecidas por toda a França. Em 1738, a Igreja Católica Romana condenou oficialmente a Maçonaria. Esse evento foi precipitado pelas declarações públicas do grão-mestre das lojas francesas, o duque d’Anton, que pregou os ideais revolucionários da liberdade, fraternidade universal, amor e igualdade. Ele foi sucedido pelo grão-mestre conde de Clement, sob cuja direção a maçonaria francesa se dividiu em vários grupos rivais. Com a morte do conde, em 1771, o duque de Chartres foi eleito o seu sucessor, tendo sido empossado como líder do Grande-Oriente, o corpo dirigente da maçonaria francesa, que se separou da Grã-Loja da Inglaterra, independente. O Grande-Oriente mantinha vínculos com diversas outras sociedades secretas, incluindo os Martinistas, ou seguidores de Martinez de Pasqually, um Adepto Rosa-Cruz. Ele transmitiu o seu manto para Louis Claude Saint-Martin, que renunciara a uma promissora carreira no exército francês, a fim de seguir a via mística.

Sant-Martin ensinou que a humanidade poderia alcançar a união com o Ente Supremo pelo contato direto com o divino, conforme ensinado pelos gnósticos. Ele também acreditava que todos os homens eram reis e apoiava os ideais políticos da igualdade e democracia para todos. Uma das lojas maçônicas mais políticas do século XVIII foi fundada por Savalette de Lage, que organizou uma sociedade secreta denominada os Amigos da Verdade. A filosofia política desse grupo traçou os fundamentos da reforma social que, mais tarde, inspiraria a Revolução Francesa. Outra loja maçônica de orientação política, chamada Neuf Soeurs, foi fundada em Paris mantendo vínculos com de Lage. Esse loja foi incumbida de criar um sistema educacional alternativo, pois o existente estava solidamente em mãos das autoridades clericais, que dele se valiam para promover a sua própria versão da educação cristã. Conferências públicas sobre história, literatura, química e medicina eram proferidas pelos membros da Neuf Soeurs em um estabelecimento chamado Colégio de Apolo, o deus-sol grego. Durante a Revolução, esse colégio mudou o seu nome para Lycée Republicain e os seus professores saudavam os alunos usando o barrete frígio da milícia revolucionária. Entre os principais membros dessa loja radical estavam o duque de la Rochefoucauld, que traduziu a Constituição norte-americana para o francês; o capitão Forster, que navegou com o explorador Cook para o Pacífico; o filósofo Voltaire; o político e cientista norte americano Benjamim Franklin e o revolucionário Paul Jones. Foi no século XVIII que a tradição templária, que teve de se manter clandestina por quase 400 anos, começou a emergir como um fator de influência nas crenças maçônicas e rosa-cruz. Ramsay já havia aludido à influência dos templários, mas foi Karl Gotthelf, o barão von Hund, que a estabeleceu firmemente dentro da tradição maçônica, coma fundação do Rito da Estrita Observância. Von Hund havia sido iniciado na loja maçônica de Paris dirigida por Lorde Kilmarnock, o Grão-Mestre da maçonaria escocesa, e que alegava ser a guardiã da tradição templária. Esse grupo pode ter sido o herdeiro das crenças templárias transmitidas à Escócia pelos cristãos siríacos ou os descendentes da loja fundada pelo filho de Eduardo III, no século XIV. Alternativamente, adeptos da causa jacobita alegavam que uma loja maçônica havia sido fundada na Escócia no início do século XVIII, derivando a sua carta de um capítulo templário sobrevivente em Bristol, que estivera em atividade por várias centenas de anos. Em sua iniciação na Maçonaria, Von Hund alega ter sido apresentado a uma figura misteriosa chamada o Cavaleiro da Pena Vermelha que, posteriormente, identificou como o príncipe Carlos Stuart. Essa pessoa autorizou von Hund a fundar uma ramificação alemã dos neo-templários. Segundo a versão de von Hund, o capítulo escocês original dos Cavaleiros Templários havia sido fundado por dois membros ingleses da Ordem que tinham descoberto o elixir da longa vida e praticavam a alquimia. Segundo o mito popular divulgado nos círculos ocultistas do século XVIII, os templários haviam sido iniciados em um ensinamento gnóstico transmitido pelos Essênios, que também haviam iniciado Jesus nos seus Mistérios. O movimento neo-templário foi, portanto, uma tentativa de combinar a sabedoria pagã com os ideais cristãos. Na franco-maçonaria, a influência dos templários refletiu-se no mito, corrente no século XVIII, que comparava os três cavaleiros renegados, que entregaram a Ordem ao rei Filipe de França, aos colegas pedreiros que assassinaram Hiram Abiff no templo de Salomão. Referências maçônicas também eram feitas ao assassinato de um proeminente templário, Charles de Monte Carmel, ritualmente assassinado pouco antes da extinção da Ordem. Os seus assassinos, para esconder o corpo, enterram-no sob um espinheiro, onde foi descoberto por outros templários. Esse assassinato foi encarado, pelos maçons do século XVIII, como um momento decisivo na história dos templários, tendo contribuído para a sua derrocada final.

A sobrevivência da tradição templária foi, segundo historiadores maçônicos, arquitetada pelo último Grão-Mestre, Jacques de Molay, durante a sua prisão. Na noite anterior à sua execução, de Molay enviou um confidente de confiança à cripta secreta em Paris, onde os corpos dos antigos Grão-Mestres da Ordem costumavam ser sepultados. Esse mensageiro retirou da tumba vários objetos simbólicos que eram sagrados para a Ordem, inclusive a coroa do rei de Jerusalém, um candelabro de sete braços do templo de Salomão e estátuas da igreja que marcava o local onde Jesus teria, supostamente, sido enterrado. De Molay revelou ao seu auxiliar de confiança que os dois pilares à entrada da tumba dos templários eram ocos e continham grandes somas de dinheiro. Ele foi instruído a usar essa riqueza e os objetos simbólicos para recriar a Ordem, de modo que os seus segredos não se perdessem, segundo a Lenda, os membros se reencontrariam 600 (seiscentos) anos depois em um novo mundo ainda não conhecido oficialmente, neste país renasceria uma antiga Escola de Mistérios. Os dois pilares da entrada da cripta eram, provavelmente, cópias dos obeliscos à entrada do templo de Salomão. Além de moedas de ouro, os pilares ocos possivelmente também continham manuscritos detalhando os ensinamentos ocultos da Ordem Templária. Além de von Hund, havia um outro pretendente ao ressurgimento templário na Alemanha. Tratava-se de Johann Augusto Starck, que havia deparado com o templarismo maçônico ao lecionar idioma em São Petersburgo. Ele também fez um outro contato com uma tradição templária sobrevivente no sul da França, praticamente da linha cátara. Starck acreditava que os templários originais haviam herdado o seu saber oculto da Pérsia, Síria e Egito, transmitido a eles por uma sociedade secreta essênia atuando no Oriente Médio durante as Cruzadas. A sua versão do neo-templarismo recebeu o apoio de aristocratas europeus e, entre os membros das novas lojas templário-maçônicas, incluíam-se duques, condes e príncipes. Na Suécia, Gustavo III tornou-se o defensor do neo-templarismo, por acreditar ter sido este fundado por Carlos Stuart e por apoiar os pretendentes escoceses e os jacobitas. Em 1771, organizou-se uma grande convenção de todas as lojas maçônica que alegaram a descendência mítica da Ordem Templária. O grupo de Starck foi amalgamado às lojas fundadas pelo barão von Hund que, incapaz de fornecer provas documentais da origens de sua versão do templarismo, foi forçado abdicar de sua posição, recebendo uma mera posição honorária na nova organização. Na época da grande convenção, que definiu a posição do neotemplarismo na tradição maçônica, a Prússia era governada pelo místico Frederico, o grande, um membro da Maçonaria e estudioso do ocultismo. Em 1767, Frederico fundou duas lojas neo-maçônicas: a Ordem dos Arquitetos da África, devotada à heresia maniqueísta, e os Cavaleiros da Luz, praticantes das artes mágicas. Frederico apoiava, financeiramente, a Maçonaria ortodoxa e, em 1768, contratou a construção de uma grã-loja para uso pelos irmãos prussianos. Um dos muitos títulos usados pelas sociedades secretas maçônicas fundadas por Frederico era os Illuminati. Poucos anos depois, esse nome seria adotado por um grupo de ocultistas que, apesar de sua pouca exposição pública, seriam considerados figuras - chave da história política secreta dos 200 anos posteriores. Sobre os Illuminati, escreveram-se mais asneiras sensacionalistas do que sobre qualquer outra sociedade secreta; porém, os fatos reais sobre essa misteriosa organização e o seu papel nos movimentos revolucionários da Europa do século XVIII são extraordinários. Os Illuminati foram fundados em 1776, ano da Revolução Americana, por um jovem professor da Universidade bávara de Ingoldstat, Adam Weishaupt. Ele tinha descendência judaica mas, na infância, fora educado pelos jesuítas na fé católica. Contudo, quando Weishaupt começou a lecionar Direito na universidade, passou a apoiar ativamente a causa protestante, envolvendo-se em série de acerbas discussões com proeminentes clérigos católicos.

Enquanto freqüentava a universidade, Weishaupt estudou as antigas religiões pagãs, tendo se familiarizado com os Mistérios de Elêusis e as teorias do místico grego Pitágoras. Nessa época, ele esboçou a constituição de uma sociedade secreta modelada nas escolas de Mistérios pagãs; porém o plano de Weishaupt da sociedade secreta definitiva só ficou pronto ao ser iniciado na Maçonaria. Weishaupt primeiro contatou uma loja maçônica em Hannover ou Munique, em 1774, mas ficou profundamente desapontado com o que descobriu. Em sua opinião, os demais membros da loja ignorava o significado oculto da Maçonaria, nada sabendo de seu simbolismo pagão. Entretanto, o contato de Weishaupt com a tradição maçônica proporcionara-lhe uma visão da estrutura e organização de uma sociedade secreta, e ele aproveitou essa experiência com a Maçonaria para fundar a sua própria fraternidade clandestina. Em 1º de maio de 1776, Weishaupt anunciou a fundação da Ordem dos Percectibilistas, que, mais tarde, viria a ser mais conhecida como os Illuminati. A primeira reunião da Ordem, compareceram apenas cinco pessoas; porém, ela logo chamou a atenção de membros influentes da sociedade bávara que compartilhavam as idéias políticas igualitárias e socialistas de Weishaupt. Em um pequeno período de tempo, os Illuminati possuíam lojas por toda a Alemanha e Áustria, e seções da Ordem forma fundadas na Itália, Hungria, França e Suíça. Weishaupt dirigiu uma operação secreta para se infiltrar nas lojas maçônicas e estabeleceu uma base de poder dentro da Maçonaria européia continental como parte de seu plano de longo prazo de usar a sua sociedade secreta para a mudança política da Europa. A visão política de Weishaupt era de um super-estado utópico, com a abolição da propriedade, da autoridade social e das nacionalidades. Nesse estado anarquista, os seres humanos viveriam um harmonia dentro de uma fraternidade universal, baseada no amor livre, na paz, a sabedoria espiritual e na igualdade. Antes da Revolução Francesa, Weishaupt já disse que “A salvação não reside onde tronos poderosos são defendidos por espadas, onde a fumaça dos turíbulos ascende aos céus ou milhares de homens fortes medem a passos os ricos campos da colheita. A revolução que está para irromper será estéril se não for completa”. Com isso, Weishaupt dá a entender que os principais alvos de sua reforma eram a monarquia, a Igreja e os ricos proprietários rurais que mantinham os camponeses europeus na servidão. A natureza antimonarquista e anticlerical dos Illuminati era vividamente ilustrada pelos simbolismo místico da cerimônia de iniciação ao grau supremo da Ordem. O candidato era conduzido a um aposento onde, diante de um trono vazio, erguia-se uma mesa sobre a qual repousavam os símbolos tradicionais da realeza — um cetro, uma espada e uma coroa. Convidava-se o iniciado a apanhar esses objetos, mas ele era previamente informado de que, se o fizesse, teria o seu ingresso na Ordem recusado. Ele era, então, conduzido a um segundo aposento com cortinas pretas. Uma cortina era aberta, revelando um altar coberto de tecido preto, sobre, o qual repousava uma cruz simples e um barrete frígio vermelho conforme usados nos Mistérios Mitraicos. O barrete ritual era entregue ao iniciado com a exortação: “Vista-o—significa mais do que a coroa dos reis.” Esse ritual assemelha-se muito à iniciação nos Mistérios Mitraicos, quando o neófito recebe uma espada e coroa e as rejeita, proferindo: “Mithra apenas é minha coroa.” Weishaupt organizou uma rede de agentes iluministas, “Iluminista” no sentido de membro dos Illuminati, e não de seguidor de filosofia das Luzes, ou Ilustração, através da Europa, com acesso a cardeais, príncipes e reis. Esses agentes informavam ao Grão-Mestre os rumores e intrigas das cortes, de que Weishaupt se aproveitava para os seus próprios propósitos políticos. Tanto homens como mulheres .eram iniciados na Ordem, e Weishupt pregava a igualdade sexual. Ele entrou em conflito com a Igreja por ensinar, também, aos seus discípulos que a liberdade religiosa era um direito de todos. Ele acreditava que, uma vez as massas tendo sido descristianizadas, exigiriam liberdade política e o direito de gozar a vida

sem a camisa-de-força moral imposta pelos ensinamentos puritanos da Igreja sobre a sexualidade. Alguns autores interessados nos Illuminati, especialmente os que apresentam Weishaupt como um protocomunista, têm descrito a Ordem como ultramaterialista. É verdade que Weishaupt nutria um ódio quase patológico pela religião estabelecida, mas não pode ser negado ter-se tratado de uma pessoa espiritualista, ainda que a sua espiritualidade chocasse os clérigos que lhes eram contrários. Ele acreditava firmemente na redenção da humanidade e na sua restauração ao estado de perfeição dos dias tranqüilos antes da Queda.

À semelhança dos rosa-cruzes e maçons, Weishaupt acreditava na possibilidade dessa redenção pela aplicação das tradições ocultistas preservadas pelas escolas de Mistérios pagãs guardiãs da Sabedoria Antiga. Ele também acreditava ser a Igreja uma organização corrupta que se afastara dos ensinamentos originais de Jesus e que se preocupava apenas em preservar o poder por razões materialistas. Segundo a sua crença, a doutrina secreta do cristianismo mantinha-se preservada nas tradições rosa-cruz e maçônica. Entretanto, ele diferia dessas duas sociedades secretas pela sua determinação em derrubar o sistema político existente, ainda que isso exigisse métodos violentos. Foi a tentativa Iluminista de derrubar os Habsburgo, em 1784, descoberta por espiões da polícia infiltrados na Ordem, que levou o governo bávaro a banir todas as sociedades secretas e os seguidores de Weishaupt a entrar na clandestinidade. A participação dos iluministas nos eventos que culminaram na Revolução Francesa, de 1789, tem sido objeto de considerável especulação e sensacionalismo. Um dos pais da Revolução, o conde de Mirabeau, ao que se diz, teria sido um proeminente Iluminista. Também se acredita que as linhas mestras da insurreição foram discutidas na Grande Convenção Maçônica de 1782, em Wilhelmsbad, a que Mirabeaus compareceu como observador. Mirabeaus supostamente confessou, a outros delegados na Convenção, ser um discípulo da heresia albigente, cujo intento era derrubar a monarquia francesa e destruir a Igreja Católica, de modos que a “religião do amor” pudesse vigorar na França. Em seu retorno à França, Mirabeaus introduziu a filosofia do iluminismo em sua loja maçônica, cujos membros incluíam vários ativistas políticos que se tornaram destacados revolucionários e, mais tarde, lutaram ao lado de Napoleão. Em 1788, quase toda loja do Grande-Oriente havia sido infiltrada pelos adeptos de Weishaupt, ativos na disseminação das políticas do terrorismo contra o estado, da abolição da monarquia, da liberdade religiosa, da permissividade sadia do sexo e da igualdade social. Uma das mais famosas figuras a desempenhar um papel importante nas intrigas políticas que culminaram com a Revolução Francesa foi o conde Cagliostro. O seu nome real era Joseph Balsamo, tendo nascido em Palermo, na Sicília, em 1743. Em sua juventude, Cagliostro viajara pela Europa e Ásia como discípulo de um místico armênio denominado Althotas, que alegava possuir a pedra filosofal capaz de transformar metal vil em ouro. Em Roma, Cagliostro desposou uma jovem nobre, Lorenza Felicioni que, ao que se alega, o conde controlava através do hipnotismo, que lhe fora ensinado pelo colega maçon, o Dr. Mesmer. Foi Lorenza que, ao se libertar da ação do hipnotismo, mais tarde denunciou o seu marido à Inquisição pela prática de heresia. Cagliostro fora introduzido na Maçonaria na Alemanha, tendo sido também um iniciado dos iluminati. No nível esotérico, Cagliostro contribuiu para a tradição ocultista pela criação da maçonaria egípcia. Segundo ele, com isso, o simbolismo maçônico recuperaria a sua devida posição no ponto central dos antigos Mistérios egípcios. Lojas foram abertas na Alemanha, França e Inglaterra, praticando uma combinação da maçonaria egípcia, cabala e magia cerimonial. Homens e mulheres eram iniciados nessas novas lojas e esse fato, aliado a história

de estranhas práticas mágicas, em que o Grão-Mestre ou a Grã-Mestre soprava no iniciado de uma forma misteriosa, levou a rumores de orgias sexuais e perversões. Politicamente, Cagliostro se envolveu com a Sociedade dos Jacobinos, que apoiou a Revolução Francesa. Ele também participou do Grande Congresso Maçônico de 1785, em que os Illuminati traçaram planos adicionais a fim de criar a atmosfera para revoltas de massas contra a monarquia, na França. Cagliostro recebeu fundos dos Illuminati e viajou por toda a Europa como seu agente, divulgando o evangelho da política revolucionária. Ele viveu em Paris por muitos anos, tendo montado um apartamento na Rue St. Claude, decorado com efígies dos deuses e deusas do antigo Egito e um altar com um macaco empalhado e uma caveira humana. Cagliostro vendia medalhões com a sua própria imagem como talismã e, nas ruas, era cercado por admiradores. Iniciou membros da alta sociedade parisiense em sua loja egípcia e foi apoiado pela família real. Poucos conheciam a sua verdadeira missão por detrás dessa fachada de feitiçaria ocultista. Em 1785, Cagliostro foi ponto focal do caso do colar de diamantes, uma trama iluminista para desacreditar a monarquia aos olhos do povo francês: a missão de Cagliostro era que comprasse um colar de diamante, que, supostamente, seria presenteado à rainha Maria Antonieta pelo cardeal de Rohan, destacado sacerdote francês admirador do ocultismo e que se apaixonara pela rainha. Rohan tinha a impressão de estar sendo correspondido mas, na verdade, as suas cartas haviam sido interceptadas pela condessa de la Molte, que fingira ser a rainha. Cagliostro adquiriu as jóias e as entregou ao cardeal, que, por sua vez, as remeteu ao palácio, onde foram recebidas pela condessa. Ela e o seu secretário desfizeram o colar e venderam as pedras isoladas em Paris e Londres. Infelizmente, a fraude foi descoberta pela rainha, e o rei Luís XVI mandou prender os conspiradores, inclusive Cagliostro, atirandoos na Bastilha. Insensatamente, o rei decidiu fazer os líderes da conspiração serem julgados pelo Parlamento, que, naquela época, mostrava-se fortemente antimonarquista, tendo sido infiltrado por agentes iluministas e maçônicos. Cagliostro foi absolvido, ainda que a condessa de la Maolte e o seu cúmplice tenham sido julgados culpados. O escândalo resultante abalou terrivelmente reputação da família real francesa e da Igreja, alimentando a suspeita pública crescente sobre a vida degenerada da corte. Após o caso do colar, Cagliostro viu-se forçado ao exílio, viajando para a Inglaterra. Ali, ele fixou residência em uma casa situada no número 50 de Berkeley Square, atualmente considerada a mais mal-assombrada de Londres. Em 1787, enquanto viva em Londres, Cagliostro escreveu para os seus amigos de Paris prevendo a revolução iminente, a queda da Bastilha, a derrubada da monarquia, a destruição da Igreja e a fundação de uma nova religião baseada no amor e na razão. Essas previsões acuradas basearam-se mais provavelmente em seus conhecimentos privilegiados dos planos dos iluministas do que em quaisquer faculdades psíquicas de que porventura estivesse dotado. O mestre de Cagliostro foi o lendário Conde de Saint-Germain. Esse misterioso ocultista alegava possuir sangue russo, polonês e italiano, tendo sido um alquimista, espião industrial, diplomata e rosa-cruz. Saint-Germain atuou na Europa de 1710 a 1789, período em que sempre aparentava uns 40 anos de idade. Consta que, ao estudar o ocultismo no Oriente, o conde foi apresentado aos ritos secretos da magia sexual tântrica, adquirindo uma técnica de prolongamento da juventude. A partir de 1743, viveu por vários anos em Londres, dedicandose à composição musical, e se tornou um amigo íntimo do príncipe de Gales. Foi forçado a abandonar Londres depois de se envolver em uma conspiração jacobita para restaurar os Stuart, tendo sido desmascarado como agente do serviço secreto francês. Em 1755, viajou ao Extremo Oriente para se tornar discípulo de adeptos tibetanos do ocultismo, mas também encontrou tempo para se engajar em operações de espionagem contra a Companhia da Índia Britânica. Como agente secreto da família real francesa, o conde de Saint-Germain envolveu-se em diversas intrigas políticas, Em nome do rei de França, durante a Guerra do Sete Anos,

negociou com Frederico, o Grande, uma aliança entre França e Prússia. Envolveu-se, também, na trama para derrubar Pedro III em 1762, e substituir o czar russo por Catarina II. Supõe-se que ela atenha concedido às lojas maçônicas russas a sua proteção pessoal em gratidão pela ajuda do Conde em sua subida ao poder. Em 1770, Saint-Germain, agindo oficialmente como agente do rei de França, envolveuse na partilha da Polônia e no Tratado de São Petersburgo, pelo qual o Império austrohúngaro, a Rússia e a Prússia partilhavam os despojos. O Conde fundou duas sociedades secretas próprias, denominadas de Irmãos Asiáticos e Cavaleiros da Luz, e, supostamente, foi um membro importante dos Illuminati, embora pareça não ter compartilhado de todos os seus ideais políticos radicais. Com o seu protetor, o príncipe Karl von Hesse-Kassel, esteve fortemente engajado em atividades maçônicas, rosacruzes e templárias. Já em 1780, Saint-Germain advertiu Maria Antonieta de que o trono francês encontrava-se ameaçado por uma conspiração internacional. O Conde teria supostamente morrido em 1784, mas diversas testemunhas o viram, com Cagliostro e Mesmer, no Congresso Maçônico de 1785. Em 1788, apareceu em Paris, alertando os aristocratas para o iminente holocausto e, em 1789, esteve na Suécia impedindo uma conspiração iluminista contra o rei Gustavo III. Muitos anos depois de sua suposta morte, rumores continuaram circulando de que Saint-Germain permanecia vivo, atuando nos bastidores da política européia ou estudando, com os monges tibetanos, obscuras doutrinas ocultistas em alguma lamaseria do Himalaia. De 1785 a 1789, diversas das lojas maçônicas da França empenhavam-se em tempo integral em derrubar a monarquia e o governo constituído. Entretanto, durante a Revolução, muitos dos maçons franceses permaneceram fiéis à causa monarquista, e apenas uma pequena minoria aderiu ativamente ao radicalismo do período. Mesmo entre as fileiras dos revolucionários, haviam indicações de que elementos liberais se opunham ao papel desempenhado pelas sociedades secretas. Em 1789, o marquês de Luchet, que apoiou a Revolução, afirmou: “Existe uma conspiração do despotismo contra a liberdade, da incapacidade contra o talento, do vício contra a virtude, da ignorância contra o esclarecimento. Essa sociedade (secreta) deseja governar o mundo.” Quer provocado ou não pela advertência de Saint-Germain, em junho de 1789, o rei francês tentou conter os elementos revolucionários, anunciando um programa de reformas sociais. Infelizmente, ele também exigiu que a monarquia fosse preservada, juntamente com a nobreza, mantendo o poder de veto a quaisquer modificações políticas. Algumas semanas após esse anúncio, o poder absolutista da monarquia foi desafiado por revoltas populares em cidades por toda a frança, cujo clímax foi a tomada da Bastilha. Esse acontecimento abriu as portas às grandes reformas políticas da Revolução, incluindo a fundação de uma república, a secularização da Igreja e, finalmente, a execução em massa da aristocracia e da família real. A manifestação sob influência da tradição maçônica - iluminista sobre a Revolução foi marcante. na literatura revolucionária do período, o símbolo iluminista do olho dentro do triângulo aparece em capas de livros, e o barrete frígio vermelho, adotado dos Mistérios Mitraicos e ritos iniciatórios dos Illuminati, passou a cobrir as cabeças da milícia dos cidadãos. Mirabeau teria dito, quando a Bastilha foi atacada: “A idolatria da monarquia sofreu um golpe mortal pelos irmãos e irmãs da Ordem Templária.” O princípio maçônico da igualdade liberdade e fraternidade tornou-se o grito de guerra da turba, enquanto o estandarte vermelho, símbolo maçônico do amor universal, foi abertamente carregado nas ruas pelos revolucionários. Diz-se que, quando o rei francês foi executado, uma voz soou da multidão: “De Molay foi vingado.” Nos primeiros dias da Revolução, o anticlericalismo dos Illuminati foi conscientemente adotado pela turba, com ataques à Igreja e a destruição de propriedades clericais. Uma litografia foi publicada mostrando um homem despido fitando o céu. Ele segura uma picareta

em uma das mãos e ergue-se sobre uma árvore que foi derrubada. Nos galhos da árvore estão os símbolos do estado e da Igreja. Ao fundo, um raio ilumina o céu tempestuoso e incendeia uma coroa. Nessa caricatura, o homem arquétipo, simbolizando o povo comum, dirige-se ao Ente Supremo, deixando transparecer que, a despeito de sua posição anticlerical, os revolucionários acreditam em uma forma de espiritualidade. No auge das reformas políticas, mesmo o fanático Robespierre atacou as pessoas não esclarecidas que apoiavam a Revolução, mas pregavam o materialismo. Ele também condenou os intelectuais incapazes de encontrar um lugar, em suas teorias sobre a vida, para o conceito de Deus, e outro importante ativista político, Cemot, afirmou: “Negar o Ente Supremo é negar a própria natureza.” Um ano depois de iniciada a Revolução, a terra tinha sido repartida entre os camponeses, a escravidão havia sido erradicada das colônias francesas, controles de preços foram introduzidos para proteger os padrões de vidas dos pobres e uma Constituição democrática fora criada. O Comitê de Segurança Pública promulgou leis introduzindo a educação gratuita, serviços médicos gratuitos e as linhas-mestras de um estado previdenciário. O preço dessas reformas foi elevado. A ameaça de invasão externa e a contra-revolução levaram a uma ditadura centralizada de uma nova classe dirigente e ao Terror, que destruiu toda a oposição, traindo os ideais originais da Revolução. Como acontece com todos os movimentos políticos radicais, os defensores da substituição do status quo foram logo seduzidos pelo poder adquirido e se tornaram opressores piores do que os tiranos derrubados. O papel dos Illuminati e maçons na Revolução Francesa tornou-se confuso, com o abandono dos elevados ideais do movimento político que instigava as reformas sociais originais. O radicalismo das lojas maçônicas, antes da Revolução, havia afastado os seus seguidores tradicionais entre as classes aristocráticas da França. Mesmo antes de 1789, os aristocratas haviam começado a abandonar as lojas que estavam promovendo o socialismo e, em conseqüência, a sua organização enfraqueceu-se seriamente. Em 1792, pouquíssimas lojas maçônicas ainda funcionavam e o movimento se encontrava em um estado de apatia. As lojas sobreviventes enfrentavam a hostilidade por parte do governo revolucionário. Em 1792, em Versalhes, o ex-Grão-Mestre de uma loja templária foi linchado por uma multidão enfurecida. Em outros lugares, a Maçonaria tornou-se suspeita, pois o seu papel como uma sociedade secreta era visto, pelos detentores do poder, como uma camuflagem para a contra-revolução. Tendo contribuído para a Revolução, por uma ironia, no espaço de poucos anos, tornou-se vítima do monstro que ajudara a criar. Já em 1791, acusações quanto ao papel dos maçons e Illuminati começavam a circular. Baseavam-se, em grande parte, nas confissões de Cagliostro, que havia sido preso p ela Inquisição em 1789. Na tentativa de salvar a sua vida, Cagliostro informou os seus acusadores sobre a conspiração internacional dos Illuminati, neo-templários e maçons para desencadear revoluções, dando continuidade ao trabalho dos Cavaleiros Templários originais, derrubando o papado ou infiltrando agentes no colégio de cardeais, de modo que, como resultado, um iluminista fosse eleito para. Em sua confissão, Cagliostro admitiu que grandes somas de dinheiro haviam sido depositadas, pelos representantes dos Illuminati, em bancos da Holanda, Itália, França e Inglaterra, a fim de financiar futuras revoluções nesses países. Ele inclusive asseverou que a Casa de Rothschild, a família internacional de banqueiros fundada em 1730, havia fornecido as verbas para financiar a Revolução Francesa e estava atuando como agentes dos iluministas.

Nenhuma prova em apoio a essa violenta acusação jamais veio à luz e é de se supor ter sido uma criação da imaginação de Cagliostro ou uma difamação deliberada por razões pessoais desconhecidas. Em 1796, as acusações de envolvimento maçônico e templários na Revolução Francesa estavam se tornando uma mania. Foi observado que De Molay havia sido aprisionado na Bastilha, o primeiro alvo da turba. Conexões foram encontradas entre os templários e os jesuítas, baseadas na frágil evidência de que ambos os grupos se dedicavam a estabelecer uma “igreja dentro da Igreja”. Afirmava-se que o duque d’Orleans, Grão-Mestre da Maçonaria francesa e amigo íntimo de Mirabeau, estava envolvido em uma conspiração iluminista contra a família real francesa. Dizia-se, também que ele praticara um ritual ocultista secreto usando relíquias pertencentes a De Molay. Não se sabe se eram os objetos sagrados secretamente retirados da cripta dos templários, em Paris, nas vésperas da morte do Grão-Mestre. Em 1796, publicou-se, frança, A Tumba de Jacques de Molay, que afirmava que a Revolução fora obra de anarquistas cuja linhagem retrocedia até os templários e Assassinos. Em 1797, um sacerdote jesuíta, o padre Bamuel, publicou as suas Memórias para servir de história do Jacobinismo, em que demonstrou a sobrevivência da heresia maniqueísta através do catarismo, dos Assassinos, dos templários, da Maçonaria e da Revolução francesa. Ele chegou a afirmar que a Guerra Civil inglesa foi uma conspiração templária. A revelação da conspiração iluminista em prol da revolução universal foi recebida com estupor pelas demais famílias reais da Europa. Diante do que acontecera na França, elas temiam ser as próximas da fila. Antes da insurreição francesa, as polícias da Prússia e Áustria tinham entrado em alerta, para combater as ameaças de subversão pelas sociedades secretas. Em 1790, por decreto do governo bávaro, pertencer aos Illuminati tornou-se um delito capital. O medo das sociedades secretas chegou a atingir a Inglaterra, cujo Parlamento debateu a Lei das Sociedades Ilegais, que teria proibido a Maçonaria. Ela não veio a vigorar porque a confraria maçon inglesa jamais se meteu em política, sendo apoiada pela aristocracia e pela família real. Com a ascensão de Napoleão ao governo da França, na era pós-revolucionária, os maçons defrontaram-se com um futuro sombrio. Bonaparte conhecia o papel dos iluministas na Revolução, mas decidiu usar a Maçonaria para os seus próprios fins políticos. Ele infiltrou os seus agentes nas lojas sobreviventes em Paris e fez de seus irmãos, Joseph e Lucien, GrãoMestres sucessivos do Grande-Oriente. O patrocínio deles atraiu muitos membros proeminentes da administração napoleônica e, no final de seu reinado, o Grande-Oriente podia se orgulhar de possuir mais de 1.200 lojas na França. No início do século XIX, a Maçonaria se espalha pelas colônias ultramarinas francesas, além de se estabelecer solidamente no serviço público da metrópole. A tolerância para com as sociedades secretas, durante a dinastia napoleônica, levou a uma revivescência do templarismo. Em março de 1808, uma ordem neo-templária oficiou um réquiem público em memória de Jacques de Molay. Esse réquiem foi celerado na igreja de St. Paul, em Paris, tendo sido presidido pelo abade Pierre Romains, o cânone de Notre-Dame, que foi o primaz da Ordem ressurgida. Os templários estavam trajados no uniforme medieval dos cavaleiros, sendo acompanhados por um destacamento de soldados do exército francês. Os supostos ossos e armas pessoais de De Molay foram exibidos na igreja e o estandarte malhado dos templários foi carregado em procissão pelas ruas, sob aplausos da multidão de curiosos. Em 1809, uma loja maçônica secreta, denominada Sublimes Mestres Perfeitos, títulos com insinuações de catarismo, foi fundada na França, tendo por modelo os Illuminati. Essa nova sociedade professava visões ultra-republicanas, trabalhando ativamente por reformas socialistas, inclusive a abolição do conceito de propriedade privada. Os Mestres Perfeitos opunham-se a Napoleão que, segundo eles, havia traído os ideais da Revolução. Eles procuraram estabelecer ligações com outras sociedades secretas européias dedicadas à subversão política e à revolução.

Não se sabe exatamente a que resultados chegaram, pois pouco se saber de suas atividades depois da década de 1820, quando a existência do grupo foi revelado ao público, abalando a sua credibilidade como uma sociedade secreta. Nesse meio tempo, as lojas maçônicas pró-monarquistas trabalhavam nos bastidores da cena política para restaurar a monarquia. Elas teriam tido sucesso em 1814, quando Napoleão abdicou em favor do rei Luís XVII, e supõe-se que estivessem por detrás da revolta parisiense de 1830, que trouxe Luís Filipe ao trono. Ele pôs os maçons sob a sua proteção e designou o seu filho, o duque d’Orleans, como o novo Grão-Mestre. Com a sua morte, em 1842, foi sucedido pelo irmão. Entretanto, naquele ano, na convenção maçônica em Estrasburgo, as sementes da Revolução de 1848 foram semeadas pelos elementos radicais da Maçonaria européia. À convenção compareceram republicanos alemães e italianos, representando sociedades secretas que pregavam o anarquismo e o socialismo. Com o estabelecimento de um governo provisório, em 1848, os maçons franceses começaram, abertamente, a exigir liberdade política; porém, essa tentativa de radicalizar a opinião política na França culminou com a restauração do Império. Napoleão III era hostil à franco-maçonaria e à sua interferência em assuntos políticos. Em 1850, ele decretou que o Grande Oriente e as suas lojas não deveriam interferir na política do país. Todavia, a Maçonaria continuou recebendo o apoio particular de políticos e, em 1852, o sobrinho do presidente francês foi eleito Grão-Mestre. Ele permaneceu no cargo até 1861, quando foi forçado a renunciar por ter apoiado o Papa em um debate no Senado. Os Illuminati aparentemente fracassaram na tentativa de criar uma ordem social ideal na França, mas a sua filosofia havia influenciado outra revolução, a milhares de quilômetros de distância. Em 1776, os colonos norte-americanos haviam, finalmente, desafiado os britânicos na Guerra da Independência, e o projeto de uma sociedade singular baseada na democracia, liberdade religiosa e igualmente social havia sido traçado no Novo Mundo. Esse projeto tinha suas origens na fundação, no século XVII, das primeiras colônias européias na América do Norte por dissidentes espirituais que incluíam membros da Ordem Rosa-cruz. A Revolução norte-americana possui um papel social importante nos ideais das sociedades secretas. As suas ramificações políticas continuam sendo experimentadas em nosso mundo moderno.

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