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Alcides Carneiro e a seca

Era 1953, ano de seca, seca igual ou pior do que esta que estamos vivendo.
O deputado Alcides Carneiro, paraibano de Princesa, subiu tribuna da
Cmara e pronunciou este discurso, que transcrito para mostrar ao nosso
povo a falta que faz uma voz clamando por ns l em Braslia:
Senhor Presidente, Senhores deputados Nesta hora, ao ocupar a tribuna
para falar do sofrimento, para exprimir a revolta dos meus irmos
paraibanos, dos meus irmos nordestinos, no vejo partido, nem chefe, nem
correligionrios, nem convenincias, nem compromissos; nesta hora, sou
simplesmente representante de um povo que est morrendo de fome, de
um povo que est em luta com um inimigo, indomvel, um inimigo que ele
no v, a quem no pode combater, a quem no pode sequer odiar.
Impossvel imaginar-se mais terrvel drama, mais atroz desespero. Mas a
dura realidade que os filhos da raa antiga dos valentes, aqueles que
expulsaram invasores, que dilataram fronteiras, que desbravaram infernos,
enchem, hoje, no Nordeste, as estradas sem fim, a carregar restos de
corpos para um fim bem prximo.
Cadveres sem conta pontilham j as estradas empoeiradas e mostram os
dentes ao sol num derradeiro protesto; e no lhes do sequer uma cova por
piedade, pois os que morrem de fome e de sede pouco tm o que enterrar,
mesmo porque o coveiro piedoso menos apressado do que o lobo voraz.
So homens que assim se extinguem to cedo, porque nem tarde se
lembraram deles; so crianas que, mal comeam a viver, comeam a
morrer; velhos que, ao fim de tudo, um destino feroz lhes nega o ltimo
consolo: o consolo de morrer de velho.
Senhor Presidente, no merece o nome de brasileiro, nem a qualidade de
cristo, quem pensar que h nesse quadro sinistro exagero ou fantasia.
Podeis crer, Senhores Deputados, como se estivsseis ouvindo os gemidos
dos moribundos e os gritos dos desesperados. Crede que desgraadamente
nesta hora se est extinguindo, na pior das mortes, o cerne da
nacionalidade.
Senhores Deputados: j tempo de os nordestinos deixarem de pedir
esmolas pelo amor de Deus! Ento, o nosso amor no chegar para arrancar
de tanto oprbio e de tanta humilhao, para quebrar-lhes as cadeias
forjadas em cem anos de submisso e conformismo? Se no chega,
Senhores Deputados, ento, somos ns, os seus representantes, que
devemos ser condenados a morrer de fome no eles!