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O bule encantado

A princesa Luísa era muito vaidosa, pois sentia-se muito satisfeita por ser

a filha de um rei poderoso.

Um dia, o embaixador de um remoto país ofereceu à bonita e orgulhosa

princesa um esquisito bule da mais fina porcelana.

A princesa recomendou aos seus criados que tivessem muito cuidado com o

bule, uma vez que se tratava de um bule encantado do qual nunca se esgotava o

chá, sem que tivesse de o encher.

- Só tu poderás beber esse chá – avisou-a o embaixador – porque, se uma

outra pessoa beber dele ficará sujeita à sua vontade.

Um dia, oriundos de longínquas terras, chegaram dois príncipes que

procuravam, cada um, uma princesa para se casarem.

- A princesa Luísa é muito bonita, irmão – disse o príncipe que montava o

cavalo negro. - Porque não paramos e a vamos cumprimentar?

- Desculpem-me por não lhes oferecer uma chávena de chá, príncipes –

disse a princesa ao recebê-los -, mas este bule está encantado e só eu me posso

servir dele.

Os dois príncipes, muito desgostosos pela descortesia da princesa,

despediram-se apressadamente.

Quando os príncipes se foram embora, o bule encheu-se de vida e disse à

surpreendida princesa:

- Com medo de ficares sujeita à vontade dos demais, mostraste-te egoísta

e pouco generosa. A partir de agora ninguém quererá beber o meu chá.

Sim, amigos, ninguém quis provar o chá do bule encantado, pois a princesa

tinha-se transformado numa mulher feia e de aspecto desagradável, que

assustava todos.

- Não! Não queremos o chá do teu bule – diziam-lhe todos. – Temos medo

de nos aproximarmos de ti.


- Oh! – chorou a princesa. – Ninguém se aproxima do meu palácio e todos

rejeitam o chá que lhes ofereço.

- Segundo dizem – comentou um dos passarinhos com os seus companheiros

– a princesa só recuperará a sua aparência normal se alguém aceitar o chá do bule

encantado.

Aconteceu que um cão e um burro, que por ali passavam, pararam um pouco

em frente do palácio da princesa Luísa.

- Não sabes? - disse o burro ao seu ocasional companheiro. – Aqui vive a

princesa que tem um bule encantado. Tenho sede e, se me atrevesse, pedir-lhe-ia

um pouco de chá.

Mas quando a princesa Luísa apareceu à porta do seu palácio, o burrinho, ao

vê-la tão feia, fugiu a toda a pressa, dizendo:

- Vou mas é beber ao rio! Prefiro presenciar a minha própria imagem, ao

beber a água, do que a dessa princesa tão feia.

Mas o cãozinho, com pena da tristeza que os olhos da jovem revelavam,

aceitou uma chávena de chá do bule encantado.

- Obrigada, amigo! - disse-lhe a princesa. – És um cão muito bom e amável.

Assim que o cão provou o chá, a princesa Luísa recuperou a sua beleza e o

animal transformou-se num elegante príncipe.

- O líquido do teu bule encantado fez com que voltasse à minha verdadeira

aparência e a ti devolveu-te a beleza - disse o jovem.

A princesa Luísa casou-se com o príncipe desencantado e deixou de ser

vaidosa e egoísta, para apenas pensar na felicidade dos demais.

Ah, é verdade! O bule desapareceu e nunca mais se voltou a saber nada

dele.

Novos contos de Grimm (adaptação de Eugénio Sotillos)