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idie> avIAID @31A® je CRSHE} oedsezi ESABTEM fanueeUEy pi al INTRODUGAO, Dots peptpos sucessivos contribuiram diretamente para que este livro viesse & luz. No outono de 1980, fui convidado por ‘Thierry Paquot a escrever um pequeno texto para uma colecao que ele estava editando em Paris. O tema sugerido era “capita- ismo”, Respondi que desejava fazé-lo em prinetpio, mas gosta~ ria que o assunto fosse “capitalismo histérico” Marxistas ¢ outros autores de esquerda haviam escrito bas- tante sobre o capitalismo, mas a ‘caréncias que podiam ser agrupadas em dois tipos. Parte deles consistia basicamente em andlises logico-dedutivas; adotavam- se como ponto de partida definigoes do que se pensava ser 0 ca- pitalismo em esséncia ¢ entio se observava como ele se de- senvolveu em diferentes tempos e lugares. O segundo grupo ises em supostas transformacdes fundamen- tais do sistema capitalista, tendo como referencia um momento recente, definidor de uma realidade empfrica presente que pas- sava a ser comparada com um tempo anterior descrito de for- ma mitica, Parecia-me urgente ver © capitalismo como sistema hist6ri- co, abrangendo 0 conjunto de sua histéria como realidade con- creta e nica. f a tarefa para a qual, em certo sentido, se dirige todo o corpus do meu trabalho recente. Assumi entdo o desafio de descrever essa realidade, tentando delinear 0 que sempre es- teve mudando ¢ o que no mmdon (de modo que pudéssemos abranger toda a realidade sob um s6 nome). Como outros autores, acredito que essa realidade seja um todo integrado. Mas muitos usam este ponto de vista para ata- car terceiros, por seu suposto “economicismo” ou “idealismo” cultural, ou por sua énfase exagerada em fatores politicos joria desses livros sofria de centrava suas ani 9 A MERCANTILIZACAO DE TUDO: PRODUGAO DE CAPITAL O caprratismo £, em primeiro lugar e principalmente, um sis- tema social hist6rico, Para entender suas origens, formagao € perspectivas atuais, precisamos examinar sua configuragao real Podemos tentar capté-la por meio de um conjunto de afirma- ges abstratas, mas seria tolo usd-las para avaliar e classificar a realidade. Por isso, tentarei descrever 0 que o capitalismo tem sido na pratica, como tem funcionado como sistema, por que se desenvolveu das maneiras como se desenvolveu e qual & seu rumo atual. A palavra capitalismo vem de capital. £ legitimo, pois, presu- mir que o capital seja o elemento-chave do capitalismo. Mas 0 que € capital? Em certa acepgdo, € riqueza acumulada. Porém, quando usado no contexto do capitatismo histérico, 0 conceito tem uma definicdo mais especifica, Nao é somente 0 estoque de bens consumiveis, de méquinas ou de demandas reconhecidas (ou seja, que se expressam sob forma de dinheiro) de coisas materiais. £ claro que o capital continua a referir-se, no capita- lismo histérico, a acumulagdo dos resultados do trabalho passa~ do, ainda nao consumidos; mas se isto fosse tudo, poder-se-ia dizer que todos os sistemas, desde o do homem de Neanderthal, teriam sido capitalistas; todos possuiam, em algum grau, esto- ques que materializavam o trabalho pasado. Algo distingue o sistema social que estamos chamando de capitalismo histérico: nele, 0 capital passou a ser usado (inves- tido) de maneira especial, tendo como objetivo, ou intengio primordial, a auto-expansao. Nesse sistema, 0 que se acumulow no passado s6 acumular mais da mesma coisa. Trata-se de um proceso com- plexo, até sinuoso, como veremos. Usamos a expresso “capi- “capital” na medida em que seja usado para CAPITALISMO HISTORICO todos os subprocessos dessa cadeia estivessem disponiveis sob a forma de mercadorias. Sem divida, como veremos, 0 lucro é freqiientemente maior quando nem todos os elos da cadeia es- tao de fato mercantilizados. Bm cadeias assim, hé um grande disperso conjunto de trabalhadores que recebem algum tipo de remunerago, langada como custo em um registro contabil. Ha também um conjunto de pessoas, muito menor mas também disperso, que divide de algum modo o excedente criado — ao Jongo da cadeia mercantil — pela diferenga entre os custos to- tais de produgao e a renda total decorrente da venda do produ- to final. Estas pessoas operam como agentes econdmicos dlstin- tos e nao se reconhecem como parceitos. Considerando que as cadeias mercantis vinculam muitos processos de produgao, a taxa de acumulagao para todos os “ca- pitalistas", vistos em conjunto, dependia do tamanho da margem que podia ser criada, margem que podia flutuar considera- velmente. Porém, 2 taxa de acumulagao obtida individualmen- te por cada capitalista dependia de um proceso de “competi- 0”, com recompensas maiores para aqueles que possuiam mais perspicécia, maior habilidade no controle de sua forca de tra- balho e maior acesso as decisées politicas que regulamentavam operagdes mercantis especificas (conhecidas em geral como “monopélios”). sso criou a primeira contradigao elementar do sistema. O interesse de todos os capitalistas, vistos como classe, seria re- duzit todos 0s custos de produgao, mas na verdade essas redu- goes favoreciam capitalistas especificos, em detrimento de ou- tros. Conseqitentemente, eles preferiam agir para aumentar sua participagao em uma margem global menor, em vez de aceitar uma participacso menor em uma margem global maior. Havia uma segunda contradigZo fundamental no sistema. Na medida em que mais capital se acumulava, mais os processos se torna- vam mercantilizados e mais mercadorias eram produzidas, para manter o fluxo era necessdrio garantir um ntimero crescente de 16 PRODUGAO DE CAPITAL compradores. Contudo, os esforcos para reduzit os custos de produgio freqitentemente reduziam também a distribuicio ¢ circulagio do dinheiro, inibindo a expansio estével do niimero de compradores, necessérios para completar 0 proceso de acu- mulagao. Por outro lado, as redistribuigdes do lucro global, que poderiam expandir a rede de compradores, freqiientemente re- duziam a margem global de lucto. Por isso, em seus empreen- jimentos, os empresirios individuais tiveram de agit em uma mesma direcio (por exemplo, reduzindo o custo da mao-de- obra); 20 mesmo tempo, como membros de uma classe, pres~ sionavam no sentido de aumentar a rede global de compra~ dores (o que exigia aumentar 0 custo da mao-de-obra, pelo ‘menos para alguns produtores). ‘Assim, a economia capitalista tem sido governada pela tengo racional de maximizar a acumulagao. Mas o que eta ra- cional para os empresirios ndo 0 eta necessariamente para os trabalhadores. Mai ‘0s empresarios, vistos como um conjunto, nao o era necessa- riamente para um empresirio individual, visto isoladamente, Portanto, nao basta dizer que todos perseguiam seus interesses. Com freqiténcia, o interesse particular levava cada um a reali~ zar, racionalmente, atividades contraditérias com as realizadas pelos outros. Mesmo se ignorarmos 0 quanto a percepgao do interesse individual estava obscurecida e distorcida por véus ideolégicos, € preciso levar em conta que a avaliagio dos reais interesses de longo prazo se torna, nesses contextos, muito complexa, Até aqui, estou supondo provisoriamente que 0 capi- talismo histérico tenha de fato criado um homo economicus, mas estou acrescentando que a posigio de cada um era inevita~ velmente confiasa, Uma restrigio “objetiva” limitou essa confusdo. Se um in- dividuo comete freqiientes erros de julgamento econdmico — por ignorancia, estupidez on preconceito ideolégico —, esse in- iduo (empresa) tende a nao sobreviver no mercado. As fa~ importante: © que era racional para todos 17 cal AsMo HISTORICO les situados nos mesmos mercados locais e mais delimitados, nos quais ele de fato atua (nao importa como seja definido esse mercado). A expansio da sua producio também seré restrin- gida pelo efeito de redugdo de pregos que ela poderd gerar no mercado “local”, ameagando reduzir 0 lucro total obtido, Todas essas restrigdes sto objetivas, ou seja, independem de qualquer conjunto particular de decisdes tomadas por um de- terminado produtor ou por outros igualmente ativos no merca~ do, Decorrem do processo social total que existe em um tempo ¢ lugar concretos, Além delas, é claro que sempre ha outras res- iveis de manipulagao. Governos podem a adotar, ou podem ter adotado, regras que de algum modo nfluenciam as opgdes econdmicas € os célculos sobre luctos; determinado produtor pode ser beneficiario ou vitima dessas regras existentes; também pode tentar persuadir as autoridades politicas locais a mudar as regras para favorecer-se. Como operaram os produtores para aumentar sua capacida- de de acumular capital? A forga de trabalho sempre foi um ele- mento central ¢ quantitativamente significativo do proceso de produgao. Para acumular, o produtor se preocupa com dois as- pectos da forca de trabalho: disponibilidade ¢ custo. O proble- ma da disponibilidade tem sido colocade da seguinte maneira relagdes sociais de produgao fixas (ou seja, uma forga de traba- Iho estavel para um determinado produtor) podem ter baixo custo se mercado for estével e a quantidade de forga de traba~ tho for étima em um momento dado. Mas, se 0 mercado para 0 produto declinar, uma forga de trabalho estével aumenta 0 cus- to real do produtor; ese esse mercado crescer, uma forga de tra- balho estével impossibilita o produtor de aproveitar a oportu- nidade de lucro. Uma forca de trabalho varidvel também apresenta desvanta- gens para os capitalistas. Por definigao, ela nao trabalha neces- siria ¢ continuamente para o mesmo produtor, Para sobreviver, cesses trabalhadores devem preocupar-se com sua remuneracio trigdes, mais susce 20 PRODUGAO DE CAPITAL durante um periodo longo o bastante para nivelar as variagoes de sua renda real. Eles tém de ser capazes de ganhar o sufici te, quando empregados, para cobrir os perfodos em que néo recebam remuneragdo. Logo, uma forga de trabalho variavel freqiientemente custa mais (por hora e por individuo) do que ‘uma que seja fixa, Uma contradigéo — e aqui temos uma — no coragao do processo de produgao capitalista sempre resulta em um com- promisso historicamente desconfortavel. Revisemos 0 que de fato aconteccu. Nos sistemas historicos anteriores a0 capitalis- mo, a maior parte da forga de trabalho (embora nio toda) era fixa, Em alguns casos, a forca de trabalho do produtor era so- mente ele mesmo ou seu grupo domiciliar; portanto, por defi- nico, era fixa, Em outros, uma forga de trabalho de natureza nao domiciliar ligava-se a um produtor por meio de diferentes jos de regulagGes legais e/ou tradicionais (varias formas de escravidao, sujeisio por dividas, servidao, acordos permanentes de arrendamento etc,). Algumas vezes a sujeicéo era vitalicia. Em outras, valia por perfodos limitados, com possibilidade de claro que tais limitagoes de tempo 86 fariam senti do se existissem alternativas realistas no momento da renova~ io, Ora, 0 cardter fixo desses arranjos colocava problemas nao 86 para os produtores particulares, aos quais a forga de trabalho ‘estava sujeita, mas para todos 0s outros produtores, jé que eles 86 podiam expandir suas préprias atividades na medida em que existisse forga de trabalho disponivel, ow seja, nao fixada. Como foi freqiientemente descrito, essas consideracdes des- crevem as condigdes para a ascensio do trabalho assalariado. Nessa situacdo, existe um grupo de pessoas permanentemente disponivel para um emprego, mais ou menos segundo a melhor oferta. E assim que opera o mercado de trabalho, ¢ as pessoas que vendem sua forca de trabalho sio proletitios. No capitalis- mo histérico houve uma proletarizag#o crescente da forca de trabalho — constatagdo que nfo é nova nem surpreendente. As enovagii 2 CAPITALISM HISTORICO € limitagdes biolégicos (de género e de idade) para certas tare- fas. Tampouco o grupo hierarquico e/ou a estrutura da unidade domiciliar foram uma invengao do capitalismo, Eles também ja existiam. No capitalismo histérico, 0 que houve de novo foi a correla~ ‘do entre divisdo de trabalho ¢ valorizagao do trabalho, Homens mulheres (assim como adultos, criancas e velhos) freqtiente- mente realizaram trabalhos diferentes, mas sob o capitalismo histérico houve uma desvalorizagio do trabalho das mulheres (€ dos jovens e velhos) uma énfase correspondente no trabalho masculino adulto. Enquanto, em outros sistemas, homens em Iheres realizavam tarefas especificas (mas normalmente compa- rriveis), sob 0 capitalismo histérico o homem adulto assalariado foi classificado como “arrimo” do grupo, aquele que ganha o pio, ¢ a mulher adulta trabalhadora doméstica como “dona de casa’’ Assim, quando as estatisticas nacionais — clas mesmas um produto do sistema capitalista — comegaram a ser produzidas, todos os arrimos foram considerados membros da populaggo economicamente ativa, mas o mesmo no ocorreu com as donas de casa. O sexismo foi institucionalizado. O aparato legal e para- legal de diferenciagao e discriminagao de género foi quase uma decorréncia légica dessa valorizagao diferencial do trabalho. Os conceitos de infanciafadolescéncia estendida e de “apo- sentadoria” nao vinculada a doengas on a deficiéncias da forga de trabalho também foram concomitantes as estruturas das unidades domiciliares emergentes no capitalismo histérico. Fo- ram frequentemente encarados como isencées “progressistas” do trabalho. Mas podem ser considerados, com maior preciso, como redefinigdes do nao-trabalho. A injtiria acrescentou-se 0 insulto, quando a atividade infantil nos teares ¢ a miscelanea de tarefas dos adultos aposentados foram rotuladas como “diverti- das”; a desvalorizagio desse trabalho aparecia como uma con- trapartida razodvel da idéia de que estavam liberados do “fardo” do trabalho “de verdade’” PRODUGAO DE CAPITAL Como ideologia, essas distingdes ajudaram a garantir que a mercantilizacio do trabalho se estendesse mas, ao mesmo tem- po, permanecesse limitada. Se, na economia-mundo, calculsse- mos quantas unidades domiciliares obtiveram do trabalho assa- lariado, realizado fora de casa, mais da metade de seus ganhos reais (ou de sua renda sob todas as formas), acho que ficarfamos espantados com o baixo percentual; no me refiro apenas aos sé- culos passados, mas também ao mundo de hoje, embora essa percentagem venha crescendo regularmente ao longo da histéria da economia-mundo capitalista. Como explicar isso? Nao creio que seja muito dificil. Supon- do-se que, sempre ¢ em toda parte, um produtor que empregue trabalho assalariado prefira pagar menos do que mais, 0 nivel salarial mais baixo que os trabalhadores podem aceitar depende do tipo de unidade domiciliar em que eles se inserem. Dito de maneira simples: para trabalhos idénticos, com niveis idénticos de eficigncia, o trabalhador assalariado inserido em uma uni- ir muito dependente da renda de salérios (vamos chamé-la unidade domiciliar proletéria) tendew a buscar um patamar monetétio mais alto (abaixo do qual seria irracional que cle realizasse 0 trabalho assalariado) do que 0 trabalhador do oriundo de uma unidade domiciliar pouco depen- dente da renda salarial (vamos chamé-la unidade domiciliar se- miprolet Essa diferenga no que podemos chamar de patamar salari inimo aceitavel tem a ver com a economia da sobrevivéncia, assal Nas situacdes em que uma utiidade domiciliar proletéria de- pendia principalmente de renda salarial, o saldrio precisava co- rir os custos minimos de sobrevivéncia e reprodugao. Porém, quando os salérios participavam com uma parte menos impor- tante da renda domiciliar total, tornava-se freqiientemente ra- clonal que o individuo aceitasse um emprego que aumentava sua renda real total em proporsao menor do que o aumento de suas horas trabathadas, desde que isso resultasse no recebimen- 25 CAPITALIS nada excepcionais. Fm segundo lugar, realizando uma integra- sio vertical, o vencledor pode influir sobre 0 prego que se prati- ca no interior da conexdo em que esta. Sempre que, em diltima andlise, “vendedor” e “comprador” fossem a mesma empresa, prego podia ser arbitrariamente manipulado para efeito de con- sideragaes fiscais e outr: oferta e da procura. A integragio vertical, assim como 0 “mo- nopélio horizontal’; nao foi um fato raro, Conhecemos bem os casos mais espetaculares: as companhias privilegiadas dos sé- culos XVI ao XVII, 05 grandes comerciantes do século XIX, as corporagSes transnacionais do século XX — estruturas globais que buscavam abranger tantos elos de uma dada cadeia mer- cantil quanto possivel. Exemplos menores de integragao ver- tical, que cobriam poucos elos (as vezes, dois) de uma cadeia, foram ainda mais comuns. Parece razoavel argumentar que, no capitalismo hist6rico, a norma nas ead gragao vertical, e nao conexées “de mercado” em que vendedor e comprador fossem de fato distintos e antagonicos. ‘Mas as diregdes geogrificas das cadeias mercantis nao se es- tabeleceram de forma aleatéria. Se as tragdssemos todas em um mapa, perceberiamos que assumiram uma forma centripeta. Seus pontos de origem foram miiltiplos, mas seus pontos de destino tenderam a convergit para poucas dreas. Vale dizer, elas tenderam a se deslocar das periferias da economia-mundo ca- pitalista para seus centros ou nticleos. & dificil contestar isso como observagio empirica, A verdadeira questao € saber por ‘que foi assim. Falar de cadeias mercantis significa falar de uma divisao social estendida do trabalho, a qual, ao longo do desen- volvimento do capitalismo histérico, tornou-se cada vez mais funcional e mais ampliada geograficamente, e 20 mesmo tempo cada vez mais hierarquica, Essa hierarquizagao do espago na es- trutura dos processos produtivos levou a uma crescente polari- zagao entre as areas centrais e periféricas da economia-mundo, nao $6 em termos de critérios distributivos (niveis de renda munca representava a interagzo da 's mercantis foi a inte- 28 PRODUGAO DE CAPITAL real, qualidade de vida), mas também, de modo ainda mais im- portante, nos loci da acumulacdo de capital. Quando esse processo comecou, as diferencas espaciais eram de fato pequenas ¢ 0 grau de especializagao espacial era limita- do. No sistema capitalista, contudo, fossem quais fossem os di- ferenciais existentes (por razdes ecol6gicas ou histéricas), eles foram aumentados, reforgados ¢ cristalizados. O uso da forga na determinagao do prego foi crucial nesse processo. B claro que 0 uso da forga por uma das partes (para aumentar seu pre- 0 em uma transagao de mercado) nao foi uma invengao do ca- pitalismo. A troca desigual é uma prética antiga. © que é noté- vel no capitalismo como sistema hist6rico € a essa troca desigual péde ser escondida; foi tio bem escondida que até mesmo os oponentes confessos do sistema sé comeca- ram a desvelé-la, de forma sistematica, quinhentos anos depois. A chave para esconder esse mecanismo central esta na pré- pria estrutura da economia-mundo capitalista, na aparente separago, nesse sistema, entre o espaco da economia (uma di- visao social mundial do trabalho com processos produtivos in- tegrados, todos operando em nome da acumulagao incessante de capital) e 0 espaco da politica (organizado ostensivamente em torno de Estados soberanos e separados, cada qual com res- lade auténoma por decisdes politicas no interior da sua jurisdiga0, todos dispondo de forcas armadas para susten- tar sua autoridade). No mundo real do capitalismo histérico, quase todas as cadeias mercantis de alguma importincia atra- vessaram as fronteiras dos Estados, Essa ndo é uma inovagao re- cente. Aparece nos primérdios do capitalismo histérico. Além disso, a transnacionalidade das cadeias mercantis descreve tanto ‘© mundo capitalista do século XVI quanto o do século Xx. Como funciona essa troca desigual? A partir de qualquer di- ferencial real no mercado, por causa da escassez. (temporaria) de um processo de produgio complexo ou por uma eventual escassez artificial criada manu militari, as mercadorias se d 29 CAPITALISMO HISTORICO ganhos. Em um sistema caracterizado pela acumulasio inces- sante de capital, nenhum participante pode se dar ao luxo de abandonar o impulso na diregao da lucratividade de longo pra- 20, sob risco de autodestruir-se. Assim, préticas monopolistas e motivagao competitiva sto realidades que andam lado a lado no capitalismo histérico. Em tais circunstancias, é evidente que nenhum padrao especifico de ligagao dos processos produtivos pode ser estavel. Pelo contré- rio: muitos empreendedores em competigao deveriam ter in- teresse em alterar 0 padrio especifico vigente em um tempo- lugar determinado, sem se preocupar com os impactos globais desse comportamento. Sem diivida, a “mao invisivel” de Adam ‘Smith age para que 0 “mercado” estabeleca restrigdes aos com- portamentos individuais. Mas esta seria uma leitura curiosa do capitalismo histérico; o resultado dela seria a harmonia. Em vez disso, 0 resultado, mais uma vez como observagio empirica, parece ser um ciclo alternado de expansdes e estag- nagdes no sistema como um todo. Bsses ciclos envolveram flu tuagoes de tal magnitude ¢ regularidade, que fica dificil nio consideré-las intrinsecas ao funcionamento do sistema. Se me permitem a analogia, elas parecem ser o aparelho respiratério do organismo capitalista, exalando 0 refugo venenoso. Analogias sio sempre perigosas, mas esta parece ser pertinente. Os refugos acumulados seriam as ineficiéncias econdmicas que, através dos processos de troca desigual, acima descritos, em geral se entijecem em estruturas politicas, © oxigénio purificador seria uma alocagio mais efi- ciente de recursos (mais eficiente no sentido de propiciar maior acumulagio de capital) do que aquela permitida pela reestru- turagao normal das cadeias mercantis © que parece ter acontecido — aproximadamente a cada cinqlenta anos — é que, pelo esforgo de um niimero cada vez maior de empreendedores para controlar mais e mais conexdes nas cadeias mercantis, ocorreram desproporgdes de investimen- ‘alando 0 oxigénio purificador & 32 PRODUGAO DE CAPITAL, to, as quais chamamos, de forma um pouco equivocada, super produgao. A iinica solugéo para essas desproporgées tem sido crises no sistema produtivo, crises que resultam em uma dis- tribuigdo mais equilibrada. Isso parece légico ¢ simples, mas suas seqielas sempre foram enormes. Esse processo significou, a cada vez, uma concentracao maior de operagoes nos elos mais saturados da cadeia mercantil. Ele implicon a eliminagao de empreendedores e de trabalhadores (os que trabalhavam para empresirios que quebraram ¢ também os que trabalhavam para aqueles que aumentaram a mecanizacao para reduzir os custos de produgdo). Esse processo também permitiu que al- guns empreendedores “deslocassem” suas operagies na hie- rarquia da cadeia mercantil, aplicando recursos ¢ esforgo para explorar novos elos das cadeias mercantis, os quais, por ofere- cerem inicialmente insumos “mais escassos”, eram mais luerati- vos, © “deslocamento” de processos particulares na escala hie- rérquica também levou a freqtlentes transferéncias geograficas, motivadas principalmente pela mudanga para regides em que 0 custo da mao-de-obra ¢ inferior (embora, do ponto da vista da frea que recebe a industria, a implantagao desta provoque um aumento salarial para alguns segmentos da forga de trabalho). Hoje, por exemplo, assistimos a uma transferéncia maciga, em escala mundial, das inddstrias automobilistica, siderdrgica ¢ eletrdnica, O fendmeno de transferéncia é parte do capitalismo historico desde que cle existe. Sto trés as conseqaencias mais importantes desses rearran- jos. Uma é a permanente reestruturacio geogréfica do sistema- mundo capitalista, Contudo, apesar cle as cadeias mercantis te- rem sofrido reestruturagoes significativas mais ou menos a cada cingllenta anos, preservaram-se as cadeias hierarquicamente organizadas. Processos produtivos tém decaido na escala hiersr~ quica a medida que processos novos sio inseridos no topo da hierarquia. Areas geograficas especificas tém acolhido processos cujos niveis hierérquicos estio em constante alteracao. Deter- 33 CAPITALISMO srORICO segundo, o que é verdade. Mas, além disso, até aqui, a redugo dos mais do que compensada por um mecanismo que se desdobra na diregao oposta. Outra observagio empirica ficil de fazer sobre o capitalismo historico é que seu ambito geogritico cresceu regularmente ao longo do tempo. Mais uma vez, 0 ritmo do processo oferece a melhor pista para explicé-lo. A incorporagio de novas areas divisao social do trabalho do capi istérico nao ocorreu de uma s6 vez, mas em arrancos periédicos. Cada expansio sut- cessiva parecia ter alcance limitado. Parte da explicagaio esta no préprio desenvolvimento tecnolégico do capitalismo histérico. ‘Melhoras nos transportes, nas comunicagdes e nos armamentos tornaram mais barato incorporar novas zonas, cada vez mais distantes das reas centrais. Esta explicagio nos oferece uma condisao necesséria, mas nao suficiente, do processo. Afirmou-se algumas vezes que a explicagio estaria na busca iveis de lncro ocasionada pela maior proletarizagao foi constante de novos mercados aptos a realizar os lucros da pro- dugao capitalista. Isso nao esté de acordo com os fatos histéri- cos, As areas externas ao capitalismo histérico sempre foram compradoras relutantes dos produtos deste, em parte porque seus proprios sistemas econdmicos nao “precisavam” deles e em parte porque freqientemente careciam de meios para compré- los. Houve excesses, é certo. Porém, no fim das contas, sempre foi o mundo capitalista que buscou os produtos das regides ex- temas a ele, ¢ no o contrétio, Sempre que um locus particular era militarmente conquistado, os empreendedores capitalistas se queixavam da auséncia de mercados r de governos coloniais para “criar gostos”. A busca de metcados nao se sustenta como explicacao. Uma explicagao muito mais plaustvel é a busca de forca de trabalho de baixo custo, As novas éreas incorporadas & economia-mun- do estabeleciam niveis de remuneragao real que se situavam na \ Parte mais baixa da hierarquia salarial do sistema. Elas quase € operavam através 36 PRODUGAG DE CAPITAL nao tinham unidades domiciliares completamente proletirias no foram estimuladas a desenvolvé-las. Ao contrario: as polt- ticas dos Estados coloniais (¢ dos Estados semicoloniais rees- truturados, naquelas areas incorporadas mas nao formalmente colonizadas) pareciam desenhadas para promover o surgimen- to da unidade semiproletaria, a qua patamar salarial mais baiso possivel. As p cas envolviam a combinasao de mecanismos fiscais, capazes de forgar todas as unidades domiciliares a se engajar em algum trabalho assalariado, e restriges de movimento ow separagio forcada dos membros das unidades, o que reduzia consideravel mente a possibilidade de proletarizagao plena. Se, a esta anilise, acrescentarmos a observagio de que as n0- vas incorpotag5es ao sistema capitalista tenderam a ocorrer em fases de estagnagiio da economia-mundo, torna-se claro que a expansto geogréfica do sistema serviu para contrabalangar a queda nos lucros (provocada pelo aumento da proletarizagao), através da incorporacdo de novas forsas de trabalho destinadas a ser semiproletarizadas, © aparente paradoxo desaparcceu. Pelo menos até aqui, o impacto da proletarizagdo sobre o proceso de polarizagio foi compensado, € talvez mais do que compensado, pelos efeitos das incorporagées. E 0s processos de trabalho em fabrica se expandiram menos do que geralmente se diz, 4 despendemos muito tempo delineando como o capita- lismo histérico operou no estreito Ambito da economia. Agora estamos prontos para explicar por que © capitalismo emergiu como sistema social histérico. Isso nao € to ficil quanto fre- qUientemente se pensou. Longe de ser um sistema “natural” como alguns apologistas tentam argumentar, 0 capitalismo his- t6rico é um sistema patentemente absurdo. Acumula-se capital para que se possa acumular mais capital. Os capitalistas so co- mo ratos brancos em uma roda de gaiola, correndo cada vez mais répido para poder correr cada vez mais rapido. Nesse pro- cesso, algumas pessoas vivem bem, mas outras vivem miseravel- como vimos, viabiliza 0 ticas estatais tipi- 37 CAPITALISMO msTéRIco lidado. A tendéncia de um nivelamento das recompensas fora drasticamente revertida, Os estratos superiores estavam nova- mente firmes no controle politico ¢ ideolégico. Quando consi- deramos as familias integrantes desses estratos em 1450 ¢ em 1650, constatamos uma continuidade bastante alta, Mais ainda se substitufssemos 1650 por 1900, descobririamos que a maio- ria das comparagdes com 1450 continuariam a valer. $6 no sé- culo XX se manifestaram tendéncias significativas em uma dire~ ‘slo diferente, sinal, como veremos, de que o sistema hist6rico do capitalismo finalmente entrou em uma crise estrutural, apés quinhentos anos de florescimento, Embora nao tenha havido intengao explicita nesse sentido, a criagao do capitalismo historico como sistema social reverteu dramaticamente uma tendéncia que preocupaya os estratos su- periores, estabelecendo em seu lugar uma outra que servia mui- to melhor aos scus interesses. [ss0 é absurdo? S6 para aqueles que foram suas vitimas. 40 A POLITICA DE ACUMULAGAO: LUTA PELO LUCRO ‘A acumutagao incessante de capital em nome da acumulagao ncessante de capital parece, prima facie, um objetive absurdo. ‘Mas teve defensores. Eles geralmente alegaram que o sistema traz beneficios sociais no longo prazo. Vamos discutir depois até que ponto isso ¢ verdadeiro, Mas, & parte quaisquer even- tuais beneficios sociais, acumular capi a ocasido para que individuos (e/ou pequenos grupos) aumen- tem muito seu consumo. Se 0 consumo aumentado melhora de fato a qualidade de vida dos consumidores sio outros quinhen- tos — também devemos adiar essa questi. A primeira questio que devemos tratar é quem recebe os be- neficios individuais imediatos? A maioria das pessoas nao espera \cao dos beneficios de longo prazo ou da qualidade de vida resultante desse consumo (para a coletividade e para os in- dividuos) para decidir se vale a pena tentar obter beneficios in- ‘cluais imediatos, visivelmente disponiveis. Esse foi 0 foco da luta politica no capitalismo histérico. Por isso dizemos que 0 ca- pitalismo histérico é uma civilizagdo materi Em termos materiais, as recompensas foram grandes pa- ra os que despontaram na frente. Além disso, em termos de recompensa material, os diferenciais entre 0 topo e a base tém sido grandes e crescentes ao longo do tempo, quando obser- vamos 0 sistema-mundo como um todo, Ja discutimos os processos econdmicos que explicam a distribuigéo muito de- ceria a oportunidade sigual da recompensa. Devemos agora tentar ver como, no in- terior desse sistema econdmico, as pessoas manobram para adquirir vantagens para si e, conseqiientemente, negé-las aos demais. Também devemos observar como manobram os que sao vitimas dessa mé distribuicao, em primeiro lugar para mi- nimizar suas perdas na operacio do sistema, e secundariamen- al