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D D e e p p a a r r t t a a m

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Caracterização Demográfica do Concelho de Torres Novas:

Das grandes transformações às dinâmicas recentes.

Jorge Salgado Simões

Torres Novas, Maio de 2003

D D e e p p a a r r t t a a m

DDeeppaarrttaammeennttoo ddee CCuullttuurraa

Caracterização Demográfica do Concelho de Torres Novas:

Das grandes transformações às dinâmicas recentes.

Não é permitida a reprodução total ou parcial deste documento, sob qualquer forma e meio, sem a devida autorização expressa do autor e da Câmara Municipal de Torres Novas.

Torres Novas, Maio de 2003

Apresentação

Segundo J. M. Nazareth uma análise demográfica deverá ser constituída por abordagens à população de um determinado espaço segundo a sua dimensão, ou seja, o volume de população, a sua estrutura, que inclui a divisão segundo subconjuntos específicos determinados pelas suas características, e a distribuição espacial. A estas três escalas; dimensão, estrutura e distribuição, deverá ser acrescentado o aspecto temporal dado que a análise de uma população não poderá ser estática, deve considerar a mudança procurando os aspectos “causais e relacionais” que influenciam a evolução dos seus comportamentos.

Uma abordagem a nível local terá sempre as características enunciadas, embora se apresente com alguns condicionalismos que derivam do grau de desagregação dos dados que são fornecidos pelos serviços que recolhem as informações estatísticas, no caso nacional o INE – Instituto Nacional de Estatística. As análises efectuadas seguem uma metodologia que respeita as diferenças de escala. Assim, depois de um enquadramento em que é equacionado o período censitário português e são analisadas as particularidades da transição da demografia portuguesa para a modernidade, segue-se o estudo das transformações globais ocorridas no concelho, a individualização por freguesia e uma análise à população por lugares. Por fim, tendo em conta os dados existentes, é apresentada uma abordagem prospectiva através da construção de cenários demográficos do concelho para 2011.

Ao observar, medir e descrever a dimensão, estruturas e distribuição de uma população ao longo dos tempos, identificar os fenómenos responsáveis pelas mudanças que nela ocorrem e ao explicar os efeitos que cada variável pode ter no todo da análise, a Demografia apresenta-se como uma ciência de especial importância no apoio à tomada de decisão e à definição de prioridades de investimento, crucial para o conhecimento global do território.

Torres Novas, Maio de 2003

Jorge Salgado Simões

Caracterização Demográfica do Concelho de Torres Novas:

das grandes transformações às dinâmicas recentes.

Índice

Enquadramento

5

A informação estatística no período censitário português

6

A transição da demografia portuguesa para a modernidade

9

O concelho

12

1- Evolução da população residente

13

1.1 – A população do concelho na evolução da população portuguesa

14

1.2 – O contexto regional

17

2 – Espaços de evolução da população do concelho

19

2.1 – Distribuição espacial da população

20

2.2 – A densidade do povoamento

23

3 – Dinâmica demográfica

26

3.1 – Natalidade, mortalidade e crescimento natural

27

3.2 – Fecundidade e renovação de gerações

30

3.3 – Movimentos da população

32

4 – Estrutura etária

35

4.1 - Evolução da estrutura etária do concelho

36

4.2 – Índices resumo e distribuição do envelhecimento

40

4.3 – Longevidade

42

5 – Estrutura familiar

44

5.1 – Transformações na dimensão média das famílias

45

5.2 – Estado civil, nupcialidade e divorcialidade

48

6 – Estrutura habitacional

51

6.1 – Os edifícios

52

6.2 – População por alojamento

55

7 – Outros aspectos sócio-demográficos

60

7.1 – A relação de masculinidade

61

7.2 – A taxa de mortalidade infantil

62

7.3 – Analfabetismo e qualificações

63

As freguesias

67

1 – Alcorochel

68

2 – Assentis

72

3 – Brogueira

76

4 – Chancelaria

81

5 – Lapas

85

6 – Meia Via

89

7 – Olaia

90

8 – Paço

94

9 – Parceiros da Igreja

99

10 – Pedrógão

103

11 – Riachos

107

12 – Ribeira Branca

111

13 – Salvador

115

14 – Santa Maria

119

15 – Santiago

123

16 – S. Pedro

127

17 – Zibreira

131

Os lugares

135

1 – Situação

136

2 – Evolução

138

Cenários demográficos para 2011

140

1 – Projecção

141

2 – Estimativa

144

3 – Análise de resultados

146

Síntese conclusiva

148

Anexos Conceitos Referências bibliográficas

152

179

183

A informação estatística no período censitário português

Foram várias as tentativas realizadas no intuito de proceder a contagens gerais da população portuguesa antes de 1860, mas sempre sem o rigor metodológico necessário para que os seus resultados sejam incluídos em estudos demográficos com séries comparativas até à actualidade. A título de exemplo saliente-se que foram realizados 11 “recenseamentos” entre 1801 e 1861, 9 dos quais no período compreendido entre 1935 e 1861, todos com graves lacunas, que consistiram na omissão da estrutura da população por sexos e idades, da estrutura dos nascimentos e dos óbitos ou na ocupação e profissões dos residentes, entre muitas outras.

O período censitário português inicia-se assim em 1864 com o primeiro recenseamento

geral da população portuguesa merecedor dessa designação. Esta operação implicou que todos os indivíduos fossem registados através de boletins de família distribuídos por todos os fogos existentes. As informações publicadas diziam respeito à idade, sexo, estado civil, ausentes e alojamentos, desagregadas até ao nível de freguesia.

O segundo recenseamento da população, realizado em 1878, procurou recolher as

informações segundo a metodologia utilizada na operação anterior, acrescentando ainda a instrução da população como objecto de inquirição. O recenseamento seguinte, marcado para 1888, foi adiado dois anos para que se seguissem as indicações do Congresso Internacional de Estatística de S. Petersburgo que, para melhor comparação entre países, aconselhou que estas operações se realizassem nos anos terminados em 0. As novidades dão-se no formato das publicações (é abandonado o livro de grandes dimensões passando-se a publicar três volumes) e na recolha de informações sobre os estrangeiros residentes no país.

Em 1900 ocorreu o IV Recenseamento da População Portuguesa em que são recolhidas informações sobre a situação profissional e a religião da população. As transformações políticas ocorridas em 1910 obrigaram ao adiamento por um ano do V recenseamento que viria a ser realizado em 1911. Este acrescentou à metodologia que vinha a ser seguida um estudo sobre a longevidade da população bem como a contagem de residentes desagregada até ao nível de lugar.

Os VI e VII recenseamentos (1920 e 1930) não introduziram qualquer novidade relevante, ao contrário do que aconteceu com o VIII recenseamento da população

portuguesa realizado em 1940, do qual resultou a publicação de 25 volumes e 2 folhetos, sendo a publicação apresentada por distrito. Esta foi a primeira operação realizada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), dando-se a clarificação do conceito de família por grau de parentesco. Pela primeira vez são também aplicados

os

conceitos de prédio, casal e convivência.

O

XIX recenseamento, ocorrido em 1950, ficou marcado pela utilização pioneira de

inquéritos com questões de resposta fechada. Em relação às informações recolhidas a principal novidade prende-se com a divisão entre população activa com profissão e população activa sem profissão. As mulheres que se ocupavam dos trabalhos domésticos em paralelo com a agricultura e pecuária foram identificadas como “camponesas”.

Em 1960, o X recenseamento dá especial ênfase à residência anterior dos inquiridos de modo a aferir os movimentos migratórios e à instrução, desagregando-se mesmo o número de estudantes por curso de especialização. Já em 1970, dificuldades não justificadas, mas que certamente se prenderam com o esforço aplicado na Guerra Colonial e com toda a conjuntura política nacional, impediram que os dados definitivos do XI Recenseamento Geral da População e I Recenseamento Geral da Habitação fossem publicados, sendo que os dados conhecidos são extraídos de uma amostra de 20% da população inquirida.

O XII recenseamento foi realizado em 1981, com um atraso de um ano justificado por

“razões de carácter internacional”. Quanto à informação disponibilizada há a divisão por cinco grandes temas: edifícios, alojamentos, famílias, núcleos familiares e indivíduos, publicada em volumes individualizados por distrito. De modo a contabilizar o movimento de retorno da população residente nas ex-colónias, foram considerados dois períodos para a imigração, de 1973 a 1978 e de 1978 a 1981.

Em 1991 foi realizado o XIII recenseamento da população tendo como principal inovação a apresentação dos resultados por NUT´s - Nomenclatura de Unidades Territoriais segundo a divisão administrativa adoptada pela então Comunidade Económica Europeia. Em função dos dados obtidos e seu cruzamento foram ainda apresentadas as seguintes variáveis: dimensão do lugar, tipo de lugar, grupo sócio- económico e núcleo familiar.

O último recenseamento realizado, em 2001, voltou a considerar dois períodos de imigração, agora para aferir a dimensão das últimas tendências do país como receptor de imigrantes dos países africanos de expressão oficial portuguesa, dos países da Europa de Leste e do Brasil, entre outros. Foi inovador no levantamento das condições de adequação dos alojamentos para indivíduos com deficiências e teve em consideração as recentes alterações na organização das NUT´s II e III, nomeadamente com a inclusão da Sub-região do Médio Tejo na Região Centro. O nível de desagregação da informação disponibilizada também melhorou substancialmente, o que, em parte, se deveu à utilização da internet como meio (menos oneroso) para fazer chegar os dados recolhidos à população em geral.

A transição da demografia portuguesa para a modernidade

“As resistências em algumas áreas sociais e regionais ao rolo compressor da modernidade, representarão apenas a agonia de um mundo que vamos perder.”

P. Laslett citado por M. Leston Bandeira (1996)

A actual paridade a níveis reduzidos que se verifica em Portugal entre os valores da natalidade e mortalidade, alinhados pelos padrões dominantes na Europa e no mundo desenvolvido em geral, coloca a população portuguesa no fim da fase de transição para a modernidade demográfica. Ainda assim, o período percorrido encontrou especificidades próprias das características da realidade social nacional, profundamente marcada por condicionalismos históricos e económicos que atravessaram todo o século XX.

De um modo genérico, até à década de 60, a demografia portuguesa pautou-se pelo acompanhamento dos valores tradicionais enraizados na sociedade, valores que fomentavam elevadas taxas de nupcialidade e impulsionavam de elevados índices de fecundidade. A estrutura etária da população portuguesa representava-se com uma pirâmide de base alargada em virtude do elevado número de jovens enquanto que, no topo, apesar dos primeiros movimentos de recuo da mortalidade, o peso da população idosa era ainda muito diminuto. O país identificava-se com a ruralidade, a família alargada, a secundarização do papel social da mulher e a generalizada falta de escolarização.

As décadas seguintes correspondem à transição para o regime demográfico moderno, transição composta de mudanças nas estruturas e dinâmicas da população que se processaram até 2001. Relativamente à mortalidade, a progressiva melhoria das condições de vida, da assistência médica e da situação económica do estatuto de reformado, contribuiu para que o recuo da taxa de mortalidade, que já se verificava desde o inicio do século XX, se intensificasse até atingir os valores padronizados com a situação dos restantes países europeus. A introdução do planeamento familiar e o desenvolvimento da assistência médica também provocaram um contínuo decréscimo da taxa de mortalidade infantil.

No que respeita à natalidade e fecundidade, o recuo foi mais tardio que na generalidade dos países desenvolvidos, tendo partido de valores que eram inferiores à situação de partida daqueles países. Esta diferença fica a dever- se essencialmente ao elevado celibato feminino que se apresentava, em 1960, segundo M. Leston Bandeira, como “um anómalo caso limite dentro do padrão europeu ocidental de nupcialidade” (16% das mulheres não se casavam). Ainda que tardiamente, a natalidade começou a recuar na década de 60, embora a verdadeira ruptura com o modelo tradicional se tenha dado apenas com a revolução de 1974. Este momento de viragem marca também o início da difusão do divórcio e das famílias nucleares.

Com o declínio da natalidade e a estagnação da mortalidade, Portugal passava a estar na última fase do período demográfico moderno, também caracterizada pelo envelhecimento. De facto, considerando a pirâmide etária, o país assistiu nas últimas décadas a um duplo envelhecimento: envelhecimento no topo causado pelo aumento da esperança média de vida, paralelo ao envelhecimento na base dada a forte redução do número de jovens.

O papel da emigração na aceleração das mudanças que ocorreram na transição da

população portuguesa para a modernidade não pode ser menosprezado dado que a estrutura das famílias foi extremamente abalada. Depois da emigração, Portugal passou a ser um país preferencialmente de acolhimento, tendo-se dado esta viragem no ano de 1993 com o número de imigrantes, legais e clandestinos, a superar o número de emigrantes. Houve uma progressiva integração nos fluxos internacionais de mão-de-obra que surge num contexto de internacionalização e globalização.

Há ainda a considerar que os processos de reestruturação económica causados pela introdução de tecnologia e inovação nos processos produtivos, obrigaram não só a que houvesse uma melhoria do nível médio de instrução dos portugueses, mas também uma reconversão das suas qualificações. Rapidamente proliferaram por todo

o país centros de formação contínua de trabalhadores, de modo até mais célere do

que a própria adaptação do sistema de ensino às novas realidades do mercado de

trabalho.

Todas estas transformações, combinadas com a evolução económica e social do país, acarretaram alterações significativas na distribuição espacial da população e em toda a organização do território. João Ferrão (Ferrão, 1996) considera ter havido uma dupla desagregação da ruralidade do país: numa primeira fase provocada pelo êxodo rural e pelo decréscimo do peso da actividade agrícola neste tipo de espaços,

seguida da perda da ruralidade que havia sido transportada para a cidade, consolidada que estava a afirmação da primeira geração suburbana.

Globalmente, ocorreu um processo de urbanização e despovoamento do espaço rural, com especial incidência para a concentração da população na faixa litoral e excessiva polarização das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Este crescimento demográfico das duas áreas metropolitanas foi superior ao resto do país, numa primeira fase directamente relacionado com o êxodo rural e mais recentemente devido ao saldo natural, agora ligeiramente superior à média nacional. O facto dos movimentos migratórios terem sido fortemente polarizados pelas principais concentrações terciárias deveu-se também à reduzida expansão de áreas de industrialização de carácter não urbano.

Ainda assim, este processo de metropolização da população portuguesa parece estar, nos últimos anos, a esbater-se em favor de algumas áreas urbanas de média dimensão como Braga, Aveiro, Coimbra, Leiria ou Faro. Num contexto de estagnação de crescimento populacional, a capacidade atractiva face ao espaço rural envolvente às cidades de média e mesmo pequena dimensão, intensificou-se, provocando um forte aumento da taxa de urbanização, tendência que, num contexto de aproximação à média europeia, deverá continuar a verificar-se.

O fim do século XX e os primeiros anos do século XXI parecem marcar o início de um novo período. Em relação às dinâmicas demográficas há um ligeiro movimento de recuperação do saldo fisiológico devido ao aumento da natalidade e expansão da longevidade. Numa fase em que a estrutura e organização das famílias é já substancialmente diferente do que acontecia há duas décadas atrás, a mobilidade espacial da população tende a alterar ainda mais o cenário das relações entre os elementos do agregado familiar. Durante os dias da semana o quotidiano português desagrega-se de um modo crescente entre espaços de habitação, de trabalho e de consumo. Estes últimos estendem-se para o fim-de-semana, agora combinados com espaços de lazer e recreio que, como refere Jorge Gaspar (Gaspar, 2002), tendem a ocupar parte da ruralidade abandonada do país.

O Concelho

1.1 - A população do concelho na evolução da população portuguesa

Analisando a evolução do total de população residente no concelho durante todo o

período censitário português, constata-se a sua quase duplicação desde 1864 até aos nossos dias. Apesar do traço comum de crescimento, não são de menosprezar alguns momentos em que esta tendência não se registou, momentos fortemente associados

a períodos marcantes da história do país.

Fig.1 – Evolução do total de população residente no concelho

45 38,22 37,11 37,4 37,7 40 36,73 36,9 35,78 33,92 33,34 35 31,98 27,99 30
45
38,22
37,11
37,4
37,7
40
36,73
36,9
35,78
33,92
33,34
35
31,98
27,99
30
25,48
23,1
25
19,71
20
15
10
5
0
1864
1878
1890
1900
1911
1920
1930
1940
1950
1960
1970
1981
1991
2001
Milhares de habitantes

Recenseamentos

A figura 1 apresenta-nos a evolução do número de residentes no concelho, podendo-

se observar as grandes tendências como o contínuo crescimento de 1864 a 1911 ou o

decréscimo da década seguinte que foi seguido de um outro período de crescimento até 1950, momento em que o concelho regista o valor mais elevado de residentes até

à actualidade. Durante a década de 70 a população de Torres Novas diminuiu o seu

número de efectivos, voltando a aumentar até ao recenseamento de 1991. É também

visível o decréscimo do número de residentes registado na última década do século

XX.

Comparando esta evolução com as oscilações do total de população do país para o

mesmo período, verificamos que, globalmente, há uma correlação positiva entre as duas escalas. Ainda assim são de destacar duas fases distintas: uma até 1940 em que

a população do concelho apresentou um crescimento globalmente superior ao do

total do país, e outra, a partir daquela data, em que o ritmo de crescimento da população local abrandou, ao contrário da população nacional que manteve o mesmo ritmo de crescimento.

Fig. 2 - Evolução comparativa com a população do país

300 Concelho País 250 200 150 100 50 0 1864 1878 1890 1900 1911 1920
300
Concelho
País
250
200
150
100
50
0
1864
1878
1890
1900
1911
1920
1930
1940
1950
1960
1970
1981
1991
2001

pop.1864=100

Esta diferença é bastante nítida quando se observa que em 1950 a população do país era já o dobro da população que se registava em 1864, apresentando em 2001 um crescimento de 140% relativamente aos valores do primeiro recenseamento. Já o número de residentes do concelho de Torres Novas, que acompanhou o ritmo evolutivo do país até 1940, permanece em 2001 com um crescimento de 85% em relação a 1864, quebrando-se o crescimento relativamente contínuo verificado até àquela data.

Utilizando a taxa de crescimento médio anual, um indicador que permite diluir os efeitos decorrentes das diferenças temporais entre recenseamentos, é possível discernir algumas diferenças, mesmo entre os períodos já referidos. Como exemplo, pode referir-se o aumento do número de efectivos até 1911, que ocorreu a um ritmo mais intenso nas duas décadas anteriores, 0,95% ao ano entre 1890 e 1900 e 1,6% ao ano entre 1900 e 1911.

Fig. 3 – Taxa de crescimento médio anual da população do concelho entre recenseamentos

%

2 1,5 1 0,5 0 -0,5 -1 1878 1890 1900 1911 1920 1930 1940 1950
2
1,5
1
0,5
0
-0,5
-1
1878
1890
1900
1911
1920
1930
1940
1950
1960
1970
1981
1991
2001

O decréscimo populacional registado entre 1911 e 1920 coincide com três factos importantes da história do país: a participação na I Guerra Mundial, o primeiro ciclo emigratório para a América do Sul, em especial para o Brasil e a crise da gripe pneumónica. Estes factos não serão totalmente estranhos à evolução populacional negativa que o concelho registou nesta altura. Como se pode observar, a partir de 1920 é retomado o crescimento, ainda que a um ritmo muito inferior ao que se havia registado anteriormente. De 1940 a 1950 o crescimento é já muito reduzido (0,29% ao ano), precedendo um novo período de decréscimo do número de residentes que se prolongou até 1970. O ciclo emigratório para a Europa em reconstrução da II Guerra Mundial, a procura de melhores condições de vida e a fuga ao cumprimento de serviço militar na Guerra Colonial nas décadas de 60 e 70, terão contribuído para este segundo momento de retracção da população do concelho.

O crescimento demográfico é retomado no concelho e no país após o 25 de Abril de 1974, intensificando-se até 1981 devido ao regresso de emigrantes, exilados e residentes nas ex-colónias. Na década seguinte, há em Torres Novas uma quase estagnação da população (crescimento de 0,08% ao ano) que antecede o decréscimo registado até 2001. O país, no seu todo, apresenta na última década um aumento do número de residentes, em grande parte justificado pelos valores da imigração, nos primeiros anos proveniente de países africanos de expressão oficial portuguesa e do Brasil, bem como dos países da Europa de Leste já nos últimos anos do século XX. Portugal abandona a sua posição de país de emigração para se assumir como um país de imigração, facto que, até 2001, não se fez sentir com grande intensidade no concelho.

1.2 - O contexto regional

Numa análise sub-regional e tendo em consideração a acção estruturante dos três pólos fundamentais do Médio Tejo: Abrantes, Tomar e Torres Novas, concluí-se que, em relação a 1900, Torres Novas começou por apresentar um ritmo de crescimento mais intenso na primeira década, continuando depois a crescer até 1950 com menos intensidade que Abrantes e Tomar, tendo praticamente estagnado até à actualidade. É curioso o relativo paralelismo que a evolução do número de residentes do concelho de Tomar regista em relação a Torres Novas, enquanto a população do concelho de Abrantes, depois de um período de forte crescimento até 1960 (altura em que o seu número quase dobrou o registado em 1900), tem vindo a regredir a um ritmo acentuado.

Fig. 4 – Evolução da população residente nos pólos sub-regionais do Médio Tejo

250 Abrantes Tomar Torres Nov as 200 150 100 50 0 1900 1911 1930 1940
250
Abrantes
Tomar
Torres Nov as
200
150
100
50
0
1900
1911
1930
1940
1950
1960
1970
1981
1991
2001
Pop.1900=100

Num contexto de proximidade e identidade regional com Torres Novas, os concelhos de Alcanena, Entroncamento, Golegã e Vila Nova da Barquinha, também registaram ritmos de crescimento do seu número de residentes diferenciados. Na década antes da separação do concelho de Torres Novas, as freguesias que vieram a constituir o concelho de Alcanena apresentavam um forte crescimento médio anual, o que também acontecia na Golegã, sendo que Vila Nova da Barquinha era o concelho que registava o crescimento mais reduzido.

Fig. 5 – Evolução da taxa de crescimento médio anual no contexto supra-local (%)

Concelhos

1900-1911

1911-1930

1930-1940

1940-1950

1950-1960

1960-1970

1970-1981

1981-1991

1991-2001

Alcanena

3,39

0,37

1,45

0,84

0,61

-1,10

0,70

0,06

0,16

Entroncamento

4,44

5,56

0,29

0,93

3,50

1,32

1,74

2,48

Golegã

2,37

-1,72

1,01

-1,17

-0,10

-0,46

0,14

0,18

-0,61

V.N.Barquinha

0,51

0,83

1,84

1,22

-0,76

5,11

-2,49

-0,78

0,08

Torres Novas

1,60

0,09

0,90

0,29

-0,40

-0,24

0,39

0,08

-0,21

Entre 1911 e 1930 o crescimento foi muito reduzido em todos estes concelhos, a população do concelho de Torres Novas estagnou e o número de residentes no concelho da Golegã decresceu, enquanto que o Entroncamento, ainda como freguesia do concelho de Vila Nova da Barquinha (só viria a ser elevado a concelho em 1945), apresentou desde logo uma forte dinâmica na evolução do seu total de população. Na década seguinte o crescimento é retomado, de um modo menos intenso em Torres Novas e a um ritmo médio superior a 5% ao ano no Entroncamento.

Até 1960, a tendência generalizada foi de crescimento lento ou mesmo redução do número de residentes nos casos de Torres Novas, Vila Nova da Barquinha e Golegã. Entre 1960 e 1970 o movimento recessivo provocado pela emigração ainda se fazia sentir, extensível agora também ao concelho de Alcanena. Por outro lado, o concelho do Entroncamento continuava a sua expansão demográfica, acompanhado agora pelo concelho de Vila Nova da Barquinha. Na década seguinte, este último concelho não manteve a tendência de crescimento e os restantes concelhos voltam a manifestar um equilíbrio entre as suas taxas de crescimento médio anual. Entre 1981 e 2001 ocorre uma relativa estagnação e mesmo decréscimo nos concelho de Torres Novas, Alcanena e Golegã e um contínuo crescimento nos concelhos do Entroncamento e Vila Nova da Barquinha.

Globalmente, destacam-se dois padrões evolutivos diferenciados, nomeadamente a partir de 1950: o comportamento do número de residentes do Entroncamento e Vila Nova da Barquinha por um lado e Torres Novas, Alcanena e Golegã por outro, em alguns momentos mesmo antagónicos. O primeiro é onde se registam as maiores oscilações entre recenseamentos e extremamente influenciado pela dinâmica polarizadora do concelho do Entroncamento e sua posição face à rede ferroviária nacional. No segundo impera uma lógica de identidade local, intrínseca a um território em que o concelho de Torres Novas, pela sua dimensão, assume o papel mais organizativo.

2.1 - Distribuição espacial da população

De modo a obter a correcta percepção das mudanças ocorridas na demografia local, assume-se de extrema importância a diferenciação entre freguesias urbanas e rurais. Nesta análise consideram-se as quatro freguesias da cidade, Riachos e Lapas como espaços urbanos e as restantes como espaço rural, ainda que saibamos que a distinção que hoje é feita, não corresponde exactamente à situação que se verificava aquando dos primeiros recenseamentos gerais da população.

Fig. 6 – Evolução da população do concelho por freguesias rurais e urbanas

300 280 260 240 220 200 180 160 140 120 100 1864 1878 1890 1900
300
280
260
240
220
200
180
160
140
120
100
1864 1878
1890
1900 1911
1920 1930
1940 1950
1960
1970 1981
1991 2001
P op.1864=100
freg. rurais
freg. urbanas
total concelho

À semelhança do que aconteceu um pouco por todo o país, o concelho assistiu a uma tendência de concentração de população nas freguesias urbanas, principalmente a partir da década de 40 em que, a um crescimento contínuo por parte destas, opõe-se um decréscimo populacional das freguesias rurais. No período anterior não se discernem grandes discrepâncias, pese embora o facto de as freguesias urbanas apresentarem um crescimento sempre mais intenso. É de salientar ainda que os momentos de recessão demográfica (1911-1920 e 1950-1960) são menos influentes na evolução da população das freguesias rurais, sendo mais sentido na mesma evolução para as freguesias urbanas.

No que respeita ao peso relativo destes dois conjuntos de freguesias no total da população do concelho, salienta-se o paralelismo desta evolução que culmina em 2001 com a total inversão da situação que se observava em 1864.

O que foi referido relativamente aos momentos recessivos é demonstrado na figura 7, sendo também visível que foi de 1960 para 1970 que a população do concelho se tornou maioritariamente urbana, tendência que se vem acentuando até à actualidade.

Fig. 7 – Evolução do peso relativo de freguesias rurais e urbanas no total do concelho

65 60 55 50 45 % 40 35 30 25 20
65
60
55
50
45
%
40
35
30
25
20

1864 1878 1890 1900 1911 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 2001

1890 1900 1911 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 2001 Freg. rurais Freg. urbanas

Freg. rurais

1920 1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 2001 Freg. rurais Freg. urbanas O modo como

Freg. urbanas

O modo como esta evolução ocorre por freguesias é diferenciado nas diferentes épocas. Analisando as figuras 8 e 9, apercebemo-nos de significativas alterações espaciais na dinâmica demográfica do concelho. Repare-se que, por exemplo, no período entre os dois primeiros recenseamentos, as taxas de crescimento eram mais elevadas em algumas freguesias rurais como Zibreira e Brogueira, assim como na freguesia de Santiago. É curioso verificar que não era a cidade que apresentava maior dinâmica, mas sim as freguesias rurais. Entre 1991 e 2001 este crescimento, para além de ser negativo na maioria das freguesias, acentua os desequilíbrios entre áreas urbanas e áreas rurais, nomeadamente com o aumento do número de residentes em Lapas, Santa Maria e Riachos.

Fig. 8 – Distribuição da taxa de crescimento médio anual entre 1864 e 1878

Legenda % 1,69 a 1,93 1,16 a 1,69 0,96 a 1,16 0,18 a 0,96 (4)
Legenda
%
1,69 a 1,93
1,16 a 1,69
0,96 a 1,16
0,18 a 0,96
(4)
(4)
(4)
(4)
Fig. 9 – Distribuição da taxa de crescimento médio anual entre 1991 e 2001 Legenda
Fig. 9 – Distribuição da taxa de crescimento médio anual entre 1991 e 2001
Legenda
%
0 a
3,59 (4)
-0,52 a -0,05
(4)
-0,64 a -0,52
(4)
-1,3
a -0,64
(4)

2.2 - A densidade do povoamento

Fig. 10 – Evolução da distribuição da população segundo a dimensão dos lugares (%)

Lugares

1911

1940

1960

1991

2001

Isolados < 100 De 100 a 499 hab. De 500 a 999 hab. De 1000 a 1999 hab. De 2000 a 4999 hab. De 5000 a 9999 hab. De 10000 a 19999 hab. Í. Dispersão Í. Concentração

3,7

1,3

1,5

5,1

2,9

6,3

5,1

4,5

5,5

5,0

32,8

27,2

34,8

36,8

36,5

30,8

32,9

23,5

11,1

7,0

3,9

6,6

7,1

3,7

4,1

6,4

9,1

10,1

11,8

12,5

16,1

17,8

18,5

26

0,0

0

0

0

0

32,0

10

6,4

6

10,6

7,9

22,5

26,9

28,6

37,8

44,5

A mudança ocorrida entre a supremacia de população a residir em freguesias urbanas e rurais é corroborada pela evolução do índice de concentração no concelho (% de população a residir em lugares com mais de 2000 habitantes) que a partir da década de 60 aumenta de modo mais significativo. Se atendermos à variação do peso relativo da cidade de Torres Novas no total de residentes do concelho, concluímos que a sua duplicação durante o período analisado é reveladora do processo de concentração urbana que já foi descrito.

Ao nível de freguesia e considerando a relação entre o número de habitantes e a superfície, concluímos que em 1864 o povoamento do concelho era já mais concentrado na cidade de Torres Novas e Lapas, mas muito mais equilibrado do registado actualmente, com as freguesias rurais a demonstrarem uma considerável dinâmica, nomeadamente Paço, Alcorochel e Parceiros de Igreja. A noroeste, a presença da Serra de Aire é já evidente na raridade das “gentes” que acompanha a raridade das “fontes” e as condições menos favoráveis sob o ponto de vista geológico, geomorfológico, climático e pedológico.

Se durante a primeira metade do século XX as densidades populacionais das freguesias urbanas aumentaram com pouca intensidade e dificilmente perceptível na representação gráfica elaborada, o mesmo já acontece quando observamos o cartograma de 1960 em que, globalmente, o concelho apresenta já densidades populacionais desequilibradas, entre o Norte e o Sul, mas sobretudo entre a cidade, Lapas e Riachos, e as restantes freguesias.

Fig.11 – Evolução da densidade populacional no período censitário

Obs.1 - 1 ponto = 5 Hab/km2

Obs.2 - Até 1920, a densidade populacional da freguesia de Santiago, inclui o número de residentes de Riachos e a superfície correspondente.

1920

1981

1864

1940

1991

1900

1960

2001

Até 1981 esta transformação acentuou-se, sendo possível distinguir as freguesias do Norte e as freguesias do Sul, com padrões de densidade claramente distintos. Já a partir de 1991, destaca-se a regressão demográfica do espaço rural no seu todo, em favor de uma progressiva concentração urbana registada até à actualidade e que, globalmente foi dando à cidade de Torres Novas um crescente protagonismo na distribuição populacional do concelho.

3.1 - Natalidade, mortalidade e crescimento natural

Como foi referido anteriormente, uma das particularidades da transição demográfica portuguesa foi o desfasamento temporal entre o recuo da mortalidade e a queda da natalidade. Ultrapassada a crise da gripe espanhola, a mortalidade começa um ciclo de decréscimo contínuo até 1950 em que fixa nos 12-13 0 /00. Três anos mais tarde inicia- se a redução da natalidade que, numa primeira fase, se estende até 1941 (de 30,7 0 /00 para 23,5 0 /00), volta a registar um ligeiro acréscimo até 1965, mas depois desta data decresce continuamente até à actualidade em que situa em 12 0 /00 – 13 0 /00. As transformações do concelho de Torres Novas deram-se em grande parte de um modo bastante próximo da realidade nacional.

Fig.12 – Evolução da dinâmica populacional no concelho

35,0 Tx. Natalidade 30,0 Tx. Mortalidade 25,0 T.C.Natural 20,0 15,0 10,0 5,0 0/00 0,0 -5,0
35,0
Tx. Natalidade
30,0
Tx. Mortalidade
25,0
T.C.Natural
20,0
15,0
10,0
5,0
0/00
0,0
-5,0
-10,0
1930
1940
1950
1960
1970
1981
1991
2001

Atente-se que em 1930 os valores da taxa de mortalidade no concelho eram já muito inferiores aos da taxa de natalidade, provocando a ocorrência de taxas de crescimento natural superiores a 10 0 /00. Até 1950 a taxa de mortalidade fixou-se em 11- 12 0 /00, valor que se manteve praticamente inalterado até à actualidade. Assim, tal como no país, no concelho de Torres Novas é também a taxa de natalidade que define a transição para o regime demográfico moderno. Os valores apresentam uma queda da natalidade que parecia tender para a aproximação à mortalidade até 1940, mas dá-se depois um novo acréscimo dos nascimentos até meados da década de 60.

A rigidez política vivida nesta altura com um Governo que assentava a sua actuação

nos “valores” da família e da Igreja Católica, terá contribuído para que os valores da natalidade se tivessem mantido extremamente elevados durante mais tempo que a generalidade dos restantes países europeus. O recuo definitivo da natalidade no país

e consequentemente no concelho, pode ser justificado por um vasto leque de

factores do qual sobressaem três fundamentais: a vontade dos portugueses se aproximarem do padrão de vida europeu, o recurso intensivo aos métodos contraceptivos e a mudança de atitude face ao número de filhos ideal por casal. Recorde-se que é apenas depois da década de 60 que os filhos começam a deixar de ser vistos como uma fonte de receitas para o agregado familiar, passando a ser considerados como importantes factores de despesa.

Em Torres Novas, o crescimento natural é negativo a partir de meados da década de 80, momento em que a mortalidade passa a ser superior à natalidade. Neste período de 15 anos até à actualidade verificamos que a mortalidade apresentou uma tendência de acréscimo até 1997, altura em que voltou a diminuir. O recuo da natalidade também foi praticamente contínuo também até 1996, ocorrendo uma fase de ligeiro acréscimo até ao ano 2000 mas já contrariada em 2001.

Fig.13 – O caso particular dos últimos quinze anos

N.º

600 500 400 300 200 100 0 -100 -200 -300
600
500
400
300
200
100
0
-100
-200
-300

1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001

Nados-v iv os

Óbitos

C. Natural

Em consequência, o crescimento natural que até 1996 se apresentava cada vez mais negativo, começou a dar alguns sinais de ligeira recuperação acompanhando exactamente o que se passou um pouco por todo o país. No entanto, as estatísticas demográficas do ano 2001 vêm confirmar que o aparente movimento de recuperação do saldo fisiológico ou crescimento natural não é para já revelador de qualquer sustentabilidade, pese embora os valores extremamente penalizadores dos anos de 1996 e 1997 (superiores a 200 indivíduos) estejam para já reduzidos a metade.

3.2 - Fecundidade e renovação de gerações

O modo como os nascimentos se distribuem pelas idades da mãe ajuda a perceber um dos motivos do declínio da natalidade nas últimas décadas. De facto, e apesar de não ser possível construir um modelo de fecundidade para uma qualquer década anterior à década de 70, temos assistido a um constante retardar da idade em que se tem o primeiro filho. Em Torres Novas e segundo as idades das mães, podemos observar que já entre 1985 e 1991 as mudanças eram significativas com um evidente acréscimo do número de mães na classe dos 25 a 29 anos. Até 2001 esta tendência generaliza-se também para a classe dos 30-34 anos.

Fig.14 – O modelo da fecundidade no concelho

45 40 35 1985 30 1991 2001 25 20 15 10 5 0 -15 15-19
45
40
35
1985
30
1991
2001
25
20
15
10
5
0
-15
15-19
20-24
25-29
30-34
35-39
40-44
45-49
% de nados-v iv os

Idade das mães

Utilizando a relação de substituição de gerações podemos também concluir acerca das tendências da dinâmica demográfica de um determinado espaço, em particular da sua capacidade de renovação. O decréscimo foi constante até 1991 mas inverteu-se nesta última década, não através do aumento significativo do número de nascimentos que já vimos que não aconteceu, mas sim pelo decréscimo do número de mulheres. Em Torres Novas, esta relação entre o número de nados-vivos e o número de mulheres está hoje muito próxima da realidade do país, mas ambas muito afastadas do valor de 2,1 que assegura a renovação de gerações.

%

Fig.15 – Evolução da relação de substituição de gerações em Torres Novas

25000

20000

15000

10000

5000

0

N.º

em Torres Novas 25000 20000 15000 10000 5000 0 N.º 7,0 6,0 5,0 4,0 3,0 2,0
em Torres Novas 25000 20000 15000 10000 5000 0 N.º 7,0 6,0 5,0 4,0 3,0 2,0
em Torres Novas 25000 20000 15000 10000 5000 0 N.º 7,0 6,0 5,0 4,0 3,0 2,0
em Torres Novas 25000 20000 15000 10000 5000 0 N.º 7,0 6,0 5,0 4,0 3,0 2,0
em Torres Novas 25000 20000 15000 10000 5000 0 N.º 7,0 6,0 5,0 4,0 3,0 2,0
em Torres Novas 25000 20000 15000 10000 5000 0 N.º 7,0 6,0 5,0 4,0 3,0 2,0

7,0

6,0

5,0

4,0

3,0

2,0

1,0

0,0

1930

1940

1950

1960

1970

1981

1991

2001

4,0 3,0 2,0 1,0 0,0 1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 2001 Nados-v iv os

Nados-v iv os (N.º)

1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 2001 Nados-v iv os (N.º) Mulheres (N.º) R.S.Gerações (%)

Mulheres (N.º)

R.S.Gerações (%)

Relativamente à evolução deste indicador podemo-nos aperceber que em 1930 a situação do concelho era a correspondente à actual situação das populações dos países subdesenvolvidos. É a partir da década de 70 que a dinâmica demográfica começa a revelar-se penalizadora para a substituição de gerações, em particular nas duas últimas décadas do século XX em que, globalmente, por cada casal, nasciam menos de duas crianças, facto que não pode ser desligado da análise ao crescimento natural negativo do concelho para o mesmo período.

3.3 - Movimentos da população

Ainda que de difícil interpretação dadas as diferenças metodológicas que acompanham cada recenseamento, as migrações assumem um papel preponderante na dinâmica global de uma população. Numa época em que a

dinâmica intrínseca de uma população, ou seja, o resultado da diferença entre nascimentos e óbitos, encontra-se, senão negativa, muito fragilizada, o papel das migrações é fundamental para possibilitar a renovação de gerações e assegurar assim

a sustentabilidade social de um território.

Relativamente às saídas do concelho, as Estatísticas Demográficas do INE disponibilizaram entre 1955 e 1988 o número de emigrantes por concelho, que permite retirar ilações acerca da dimensão da vaga de emigração que, naquele período, ocorreu com destino preferencial os países europeus, mas que também se distribuiu pela América do Norte e América do Sul.

Fig.16 – Evolução do número de emigrantes do concelho

N.º

600

500

400

300

200

100

0

1955 1957 1959 1961 1963 1965 1967 1969 1971 1973 1975 1977 1979 1981 1983
1955
1957
1959
1961
1963
1965
1967
1969
1971
1973
1975
1977
1979
1981
1983
1985
1987

Ano

É fácil perceber que logo no início da década de 60 o número de emigrantes

começou a aumentar, atingindo, logo em 1966, o valor mais elevado, quando, num só

ano, praticamente meio milhar de residentes abandonou o concelho. Esta tendência recuou nos anos seguintes mas o valor de emigração manteve-se elevado até 1974, ano em que, por via da revolução e consequente transição para um regime

democrático, os cidadãos deixaram de sentir a forte necessidade de sair do país que se havia sentido anteriormente. A partir de 1975 a emigração do concelho retoma valores que se podem considerar normais, acabando-se, em 1988, o registo e publicação deste tipo de dados devido à abertura das fronteiras europeias.

No que respeita às entradas, o INE considerou, em 1981, as ex-colónias como estrangeiro para melhor comparação nos dois momentos analisados, 1973 e 1979. O que se passou em Torres Novas serve de exemplo ao sucedido na generalidade do país, com um importante contingente de “imigrantes” (retornados) registado entre 1973 e 1978. Já em 1991, o número de novos residentes no concelho, oriundos do estrangeiro e de outros pontos do país, é extremamente reduzido, traduzindo uma década de fraca mobilidade da população. Em 2001, e apesar de não se ter contabilizado grande parte do contingente imigratório proveniente do Brasil e países da Europa de Leste (não munidos de autorizações de residência), volta a registar-se, no concelho, um importante movimento de entrada em que a imigração nacional assume especial importância, em particular, os novos residentes fixados desde 1999.

Fig. 17 – Variações do número de imigrantes no concelho segundo a sua proveniência

Recenseamento

Ano

Do País

Do Estrangeiro

 

1973

1712

2518

1981

 

1979

669

346

1991

1989

552

172

1995

1803

727

2001

 

1999

784

259

Numa análise mais local e mais pormenorizada, podemos aferir os saldos migratórios por freguesia registados na última década, nomeadamente através da comparação entre as diferenças do total de população de 1991 para 2001, com o saldo natural da população para o mesmo período. Deste modo, confirmamos que, na globalidade do concelho, o saldo natural foi muito mais negativo que decréscimo populacional registado, e que só um saldo migratório positivo possibilitou que entre 1991 e 2001, o decréscimo do total de população não fosse mais expressivo. No que se refere à distribuição espacial desta evolução, salienta-se a existência de freguesias que estão duplamente em regressão: quer pelo saldo natural quer pelo saldo migratório. São estes os casos de Assentis, Chancelaria, Pedrógão, Olaia e Ribeira Branca, todas do Norte e Centro do concelho, e ainda as freguesias urbanas (com espaço rural) de Santiago e S. Pedro.

Fig. 18 – Residentes e saldo migratório entre 1991 e 2001, por freguesia

 

Freguesia

1991

2001

Var. total

Cresc. natural

Sal. migratório

Alcorochel

933

880

-53

-70

17

Assentis

3349

3184

-165

-151

-14

Brogueira

1158

1065

-93

-127

34

Chancelaria

1992

1861

-131

-100

-31

Lapas

1441

2050

609

52

557

Olaia

2144

1917

-227

-102

-125

Paço

738

734

-4

-37

33

P.

Igreja

1038

985

-53

-91

38

Pedrógão

2226

2095

-131

-74

-57

Riachos

5298

5420

122

-273

395

R.

Branca

772

724

-48

-40

-8

Salvador

2309

2201

-108

-270

162

S.

Maria

4115

4389

274

36

238

Santiago

3005

2637

-368

-56

-312

S.

Pedro

6088

5708

-380

-76

-304

Zibreira

1086

1058

-28

-34

6

Total

37692

36908

-784

-1413

629

4.1 - Evolução da estrutura etária do concelho

É sobejamente discutido o progressivo envelhecimento da população nas sociedades desenvolvidas não havendo ainda análises exactas acerca da dimensão das inevitáveis consequências desta tendência. A situação tende a agravar-se, arrastando consigo problemas de índole social e económico. Portugal também tem assistido ao contínuo aumento da percentagem de idosos no seu total de população, especialmente nas duas últimas décadas, resultado do contínuo decréscimo da natalidade em paralelo com o aumento da esperança média de vida à nascença dos portugueses.

O que tem acontecido em Torres Novas demonstra bem as transformações ocorridas

na estrutura etária da população do país. Note-se a distribuição da população pelos grandes grupos etários, que no início do século passado apresentava uma

percentagem de jovens cinco vezes superior à percentagem de idosos, situação que

se alterou significativamente até ao ano 2001.

Fig. 19 – Transformações na estrutura etária da população do concelho por grupos etários

60

50

40

30

20

10

% 0

1911 1940 1960 1981 2001
1911
1940
1960
1981
2001

0 a 14etários 60 50 40 30 20 10 % 0 1911 1940 1960 1981 2001 15 25

60 50 40 30 20 10 % 0 1911 1940 1960 1981 2001 0 a 14

60 50 40 30 20 10 % 0 1911 1940 1960 1981 2001 0 a 14

60 50 40 30 20 10 % 0 1911 1940 1960 1981 2001 0 a 14

15

25

65

a 24

a 64

e mais

Assistiu-se, no concelho, a um constante aumento da faixa de população potencialmente activa (25 a 64) e ao decréscimo do peso relativo dos dois grupos de população jovem (jovens e adultos jovens) que até 1981 superavam a percentagem de idosos. Com o aumento da esperança média de vida à nascença, a melhoria

generalizada das condições de vida, assistência médica e social e redução da idade média de reforma, o grupo dos idosos apresenta-se em crescimento contínuo neste período de 90 anos, de modo extremamente intenso nos últimos 20 anos.

Se em vez dos grandes grupos etários tivermos em consideração as classes etárias, podemos, através de pirâmides etárias, perceber como, nas últimas décadas, se deram estas transformações a uma escala mais pormenorizada. Repare-se, a título de exemplo, na pirâmide de 1930 com uma forma bastante regular, correspondente às pirâmides que representam os regimes demográficos dos actuais países subdesenvolvidos.

Pode salientar-se a elevada percentagem de jovens e um decréscimo praticamente contínuo da base até ao topo da pirâmide. A excepção é protagonizada pela classe dos homens com idades compreendidas entre os 20 e os 24 anos que apresenta um número excepcionalmente elevado. Esta situação poderá resultar do elevado número de nascimentos masculinos ocorridos entre 1906-1910, da chegada ao concelho, até 1930, de um importante contingente de população masculina com idade inferior a 24 anos, ou simplesmente de um erro de contagem na aferição dos resultados do recenseamento. Ainda assim, esta situação não impede que, na generalidade, a pirâmide represente uma população jovem, com elevadas taxas de natalidade mas uma esperança média de vida reduzida.

Fig. 20 – Estrutura etária da população do concelho em 1930

Homens Mulheres Idades 85 e+ 80 a 84 75 a 79 70 a 74 65
Homens
Mulheres
Idades
85 e+
80
a 84
75
a 79
70
a 74
65
a 69
60
a 64
55
a 59
50
a 54
45
a 49
40
a 45
35
a 39
30
a 34
25
a 29
20
a 24
15
a 19
10
a 14
5
a 9
0
a 4
%
6
5
4
3
2
1
0
0123456

No que respeita às transformações recentes e tendo em conta a tendência de envelhecimento da população do concelho já descrita, verifica-se que a pirâmide de 1981 ainda apresentava alguma regularidade. No entanto, estava já denunciada a tendência de contracção na base em virtude da estagnação e decréscimo da natalidade nos anos precedentes, bem como uma evidente expansão no topo, resultado do aumento da esperança média de vida à nascença. Eram ainda visíveis, pela contracção nas classes adultas, os efeitos da II Guerra Mundial e do movimento emigratório que se seguiu.

Fig. 21 – Estrutura etária da população do concelho em 1981

Homens Mulheres Idades 85 e+ 80 a 84 75 a 79 70 a 74 65
Homens
Mulheres
Idades
85 e+
80
a 84
75
a 79
70
a 74
65
a 69
60
a 64
55
a 59
50
a 54
45
a 49
40
a 45
35
a 39
30
a 34
25
a 29
20
a 24
15
a 19
10
a 14
5
a 9
0
a 4
%
5
4
3
2
1
0
012345

Em 1991, a pirâmide etária do concelho apresenta já um formato atípico, acentuando-se o forte decréscimo da natalidade e o evidente aumento da percentagem de idosos. O envelhecimento fazia-se já sentir com grande intensidade, quer na base quer no topo da pirâmide etária.

Segundo os dados do XIV Recenseamento Geral da População Portuguesa – os Censos 2001, a actual pirâmide etária do concelho é uma pirâmide geralmente denominada de tipo “urna”, semelhante ao que se passa em qualquer localidade de um qualquer país desenvolvido, mas em que se salienta o ligeiro recuo da tendência de agravamento do envelhecimento na base devido ao ténue aumento da natalidade. Por outro lado, o envelhecimento abrange agora a totalidade da estrutura etária da população do concelho dado o equilíbrio que se regista entre as classes dos adultos jovens e as classes da restante população adulta.

Fig. 22 – Estrutura etária da população do concelho em 1991

Homens Mulheres Idades 85 e+ 80 a 84 75 a 79 70 a 74 65
Homens
Mulheres
Idades
85 e+
80
a 84
75
a 79
70
a 74
65
a 69
60
a 64
55
a 59
50
a 54
45
a 49
40
a 45
35
a 39
30
a 34
25
a 29
20
a 24
15
a 19
10
a 14
5
a 9
0
a 4
%
5
4
3
2
1
0
012345
Fig.23 – Estrutura etária da população do concelho em 2001
Homens
Mulheres
Idades
85 e+
80
a 84
75
a 79
70
a 74
65
a 69
60
a 64
55
a 59
50
a 54
45
a 49
40
a 45
35
a 39
30
a 34
25
a 29
20
a 24
15
a 19
10
a 14
5
a 9
0
a 4
%
5
4
3
2
1
0
012345

4.2 - Índices resumo e distribuição do envelhecimento

Ainda em relação à estrutura etária da população do concelho e utilizando os índices resumo calculados a partir dos grupos etários 0 a 14, 15 a 64 e 65 ou mais anos, podemos ter outra percepção do modo como se processou o envelhecimento. A evolução da relação entre jovens e idosos, traduzida nos índices de juventude e envelhecimento, é elucidativa das transformações ocorridas desde 1911, dando especial ênfase à segunda metade do século XX.

Fig. 24 – Evolução do índice de juventude e envelhecimento no concelho 700,0 600,0 500,0
Fig. 24 – Evolução do índice de juventude e envelhecimento no concelho
700,0
600,0
500,0
400,0
300,0
200,0
100,0
0,0
1911 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 2001 Í.Juv entude Í.Env elhecimento Fig.
1911
1920
1930
1940
1950
1960
1970
1981
1991
2001
Í.Juv entude
Í.Env elhecimento
Fig. 25 – Evolução dos índices de dependência da população do concelho
70
60
50
40
30
20
10
0
1911
1920
1930
1940
1950
1960
1970
1981
1991
2001
Í.Depend. Jov ens
Í.Depend. Idosos
Í.Depend. Total

No âmbito dos índices de dependência conclui-se que, globalmente, a percentagem de população dependente tem diminuído, mas de um modo relativamente discreto. De facto, se as tendências descritas anteriormente se prolongarem pelos próximos anos, esta relação de dependência deverá mesmo aumentar em consequência do aumento do índice de dependência de idosos dado que o mesmo indicador relativo aos jovens, já não poderá diminuir significativamente.

Já a distribuição espacial do índice de envelhecimento no concelho segue o padrão de diferenciação entre freguesias urbanas e rurais, apresentando estas últimas os valores mais desequilibrados na proporção entre idosos e jovens. Em Alcorochel, Parceiros da Igreja, Ribeira Branca e Chancelaria, o número de residentes idosos é mesmo superior ao dobro do número de jovens. Pode visualizar-se uma segmentação no centro do concelho, isolado a Norte e Sul, onde se registam os índices de envelhecimento mais reduzidos, que, não se restringindo às freguesias da cidade, estende-se para Este em Zibreira e Oeste em Riachos.

Fig. 26 – Distribuição do Índice de envelhecimento em 2001 Legenda 200 a 250 (4)
Fig. 26 – Distribuição do Índice de envelhecimento em 2001
Legenda
200 a 250
(4)
180 a 200
(3)
140 a 180
(4)
90 a 140
(5)

4.3 – Longevidade

Como já foi salientado anteriormente, uma das características do regime demográfico moderno é o envelhecimento progressivo da população no topo e na base da sua estrutura etária. Se a redução do número de jovens se justifica pela procura de melhores condições de vida que conduz ao decréscimo do número de filhos por casal, o aumento do número de idosos prende-se com o nível de desenvolvimento da sociedade, principalmente com a melhoria da assistência médica e social.

De facto, os progressos nestes domínios acarretaram uma transformação das causas de morte que hoje se relacionam essencialmente com causas acidentais, doenças cardiovasculares ou tumores malignos, distintas das complicações resultantes da falta de saneamento básico, de acompanhamento médico periódico, de medicação eficaz, de um regime alimentar equilibrado, condições que foram, em muitas situações, propícias ao desenvolvimento de doenças de cariz epidemiológico.

Até à década de 60, o INE publicou, nas suas Estatísticas Demográficas, os dados relativos às causas de morte por concelho. Estes permitem-nos concluir que, por exemplo, no ano de 1931, um grande número de óbitos ocorridos no concelho se ficou a dever à senilidade, causa que abrangerá os óbitos resultantes de indivíduos com idade avançada e por ventura por razões desconhecidas na altura. Até 1951 a maioria dos óbitos davam-se em crianças com menos de dois anos resultante de diarreia e enterite, sendo a tuberculose, pneumonia, hemorragia cerebral, embolia ou trombose e doenças do coração, as restantes causas dominantes. Em 1961 os tumores malignos eram já causadores de igual número de óbitos que a pneumonia, mas ainda imperavam no concelho as mortes em resultado da senilidade, lesões vasculares atingindo o sistema nervoso central e gastrite, enterite e colite.

Para além de interromper esta publicação, em 1989 também foi abandonada a divulgação do número de óbitos por idades a nível concelhio. Ainda assim, tendo-se adquirido os dado referentes a 2001, podemos perceber que se manteve a tendência de decréscimo do número de óbitos de crianças com menos de cinco anos, tendência contrária à mesma evolução para idades mais avançadas e que espelha a expansão da longevidade da população local.

Fig. 27 – Evolução do número de óbitos por idades no concelho

90 80 70 60 50 40 30 20 10 % 0 1941 1951 1961 1971
90
80
70
60
50
40
30
20
10
%
0
1941
1951
1961
1971
1981
1989
2001
<5
70 e mais

Por grupos de idades, acentuam-se estas transformações, sendo nítido que, já em 1989, os óbitos de indivíduos com menos de 50 anos eram praticamente residuais face às restantes idades. Houve uma concentração progressiva do número de óbitos do grupo de 70 e mais anos, ganhando maior peso o número de ocorrências de indivíduos com mais de 85 anos, que em 2001 correspondiam a mais de 65% do número de óbitos daquele grupo.

Face ao aumento da esperança média de vida à nascença da população do concelho, é de esperar que esta evolução se mantenha ainda que, nos últimos anos, a tendência nacional tenha revelado uma aumento do número de óbitos causados por acidentes cardiovasculares, tumores malignos e doenças que afectam o sistema nervoso central, com uma crescente diversificação das idades dos indivíduos no momento da ocorrência.

5.1 – Transformações na dimensão média das famílias

Ainda que sendo um indicador muito dependente das tradições e raízes culturais de cada região, M. L. Bandeira (Bandeira;1996) traça o redimensionamento das famílias portuguesas em três períodos distintos: dimensão estável até 1890, progressivamente crescente até 1940, fixando-se nesse ano em 4,2 indivíduos por família, e decrescente até à actualidade (aproximadamente 2,8).

Ocorreu assim, uma redução da dimensão média da família portuguesa, acompanhada por uma diversificação das suas estruturas. Tendências como a expansão do número de divórcios, redução da nupcialidade, aumento das uniões de facto, das famílias monoparentais, das famílias recompostas, do número de pessoas a viverem sozinhas e de pessoas que, não tendo qualquer tipo de união, vivem em coabitação, salientam a necessidade de uma maior diferenciação entre o tradicional conceito de família definido por um grupo de pessoas com laços de parentesco, e o conceito cada vez mais premente de agregado doméstico, definido a partir do alojamento.

Fig. 28 – Evolução da dimensão média das famílias do concelho 1

Ano

N.º de famílias

Pop. total

Dim. méd. das fam.

1900

8534

35460

4,2

1930

8784

33921

3,9

1940

9139

37114

4,1

1950

9915

39220

4,0

1960

10443

36732

3,5

1970

10657

35780

3,4

1981

11938

37399

3,1

1991

12700

37692

3,0

2001

13473

36908

2,7

Segundo os dados disponíveis, o redimensionamento da família do concelho de Torres Novas dá-se, sobretudo, a partir de 1950. Até este recenseamento a dimensão média da família manteve-se no valor aproximado de quatro elementos, decrescendo depois até à actualidade, sendo que, em 2001, a dimensão média da família do concelho passou a ser inferior a três indivíduos.

1 Os valores de 1900 incluem as freguesias de Alcanena, Bugalhos, Minde e Monsanto, à data integradas no concelho

Esta evolução é corroborada pelo número de famílias segundo o seu número de elementos. Analisando três datas distintas, 1900, 1950 e 2001, é possível concluir que, ainda que até 1950 já se tenha revelado uma tendência para o decréscimo do número de famílias alargadas em favor de um aumento do número de famílias com dois, três e quatro elementos, é sobretudo na segunda metade do século XX que se processaram as grandes alterações. São significativas as diferenças existentes entre 1950 e 2001. O concelho apresenta agora um número muito superior de pessoas a viverem isoladas e de famílias com apenas dois elementos, ficando as famílias alargadas reduzidas a percentagens praticamente residuais, numa distribuição que não deixa de reflectir o envelhecimento da população já analisado.

Fig. 29 – Variações no número de famílias do concelho, segundo o seu número de elementos

35,00 1900 30,00 1950 2001 25,00 20,00 % 15,00 10,00 5,00 0,00 1 2 3
35,00
1900
30,00
1950
2001
25,00
20,00
%
15,00
10,00
5,00
0,00
1
2
3
4
5
6
7 ou +

n.º de elementos da família

O envelhecimento da população volta a manifestar-se quando analisamos a dimensão média das famílias do concelho por freguesia. De facto, em 2001, e ainda que se trate de uma distribuição marcada pelo forte equilíbrio espacial, as freguesias urbanas tendem a apresentar os valores mais elevados, facto que não é alheio à maior concentração de casais de idosos ou mesmo idosos que vivem sozinhos nas freguesias rurais. Neste redimensionamento das famílias por freguesia são ainda de salientar os ritmos diferenciados em que ocorreram. Globalmente, entre 1940 e 1960, a redução da dimensão média das famílias do concelho foi mais intensa do que nos anos seguintes, nomeadamente do que o período 1960-1981 em que, inclusive, houve um acréscimo em Chancelaria e Ribeira Branca. No entanto, o padrão do concelho em todo o período analisado não deixa de ser a redução da dimensão das famílias, numa transformação a que cada freguesia respondeu com as suas especificidades.

Fig. 30 – Variações na dimensão média das famílias do concelho, por freguesia Dim. média
Fig. 30 – Variações na dimensão média das famílias do concelho, por freguesia
Dim. média das famílias
4,7
1940
1960
1981
2001

5.2 – Estado civil, nupcialidade e divorcialidade

Em Portugal, com o levantamento das restrições matrimoniais no fim dos anos 30 e início da década de 40, deu-se um forte crescimento do número de casamentos celebrados que se prolongou até ao fim da década de 70. É nesta altura que a nupcialidade portuguesa, retomando os valores do período anterior a 1940, entra na modernidade demográfica, fase em que se encontra progressivamente independente da fecundidade. Muitos jovens que atingem a idade adulta adoptam os modelos europeus e optam por uniões informais em detrimento de um casamento que, em Portugal, é cada vez mais laico e menos da esfera religiosa.

Quanto ao direito de ruptura da união matrimonial instituído em Portugal em 1910, observou-se uma rápida expansão da divorcialidade até 1930, tendo sido praticamente abolida durante o período de ditadura política vivido até 1974. Neste ano é apresentada uma nova lei que permite a dissolução dos casamentos católicos e o número de divórcios do país aumenta rapidamente.

A nupcialidade não é considerada uma variável decisiva na explicação do comportamento de uma população embora tenha estado, durante muito tempo, associada ao comportamento da fecundidade. Se esta relação existia, assiste-se hoje ao progressivo distanciamento destes comportamentos dadas as novas atitudes perante o casamento e a crescente independência da procriação face ao estado civil dos pais, que também ele tem evoluído. Não causa estranheza que, no concelho, por um lado, o número de solteiros tenha sofrido uma constante redução ao longo de todo o século XX, e por outro lado tenha aumentado o número de viúvos. São os efeitos do envelhecimento da população, tanto na base como no topo da pirâmide etária do concelho, que também se reflectem no aumento de indivíduos casados dada a expansão de população em idade adulta.

Fig. 31 – Variações do estado civil da população do concelho (%)

Estado civil

1878

1911

1940

1970

2001

Solteiros

60,37

59,48

54,56

44,38

34,53

Casados

34,33

35,46

39,65

49,87

55,29

Separados/Divorciados

0,00

0,08

0,18

0,38

2,42

Viúvos

5,30

4,99

5,61

5,37

7,75

Ainda no que respeita ao estado civil da população, a sua distribuição espacial no concelho marca sobretudo os traços de maior ou menor ruralidade das freguesias. O número de viúvos é maior nas freguesias rurais, mais envelhecidas, registando-se nas freguesias urbanas as maiores percentagens de indivíduos separados ou divorciados.

Fig. 32 – O estado civil da população do concelho em 2001, por freguesia estado
Fig. 32 – O estado civil da população do concelho em 2001, por freguesia
estado civ il (%)
Solteiros
Casados
Viúv os
Sep/Div

Já o quadro evolutivo da nupcialidade no concelho permite que se conclua acerca da aproximação à realidade nacional descrita anteriormente. Observa-se um relativo atraso temporal face às grandes transformações: o crescimento do número de casamentos do concelho só é notório a partir do fim da década de 40 e é logo interrompido entre 1955 e 1960, enquanto a expansão dos divórcios só é significativa a partir de meados da década de 80.

Fig. 33 – Evolução do número de casamentos celebrados e dissolvidos no concelho

Ano

Casamentos

Divórcios

1930

256

3

1935

249

3

1940

193

1

1945

296

3

1950

322

0

1955

388

1

1960

275

5

1965

308

0

1970

321

2

1975

415

3

1980

239

*

1985

205

21

1990

238

21

1995

196

36

2000

210

72

Quanto ao modelo da nupcialidade do concelho e ainda que não estejam disponíveis dados para uma correcta comparação, é possível, a partir da idade das mulheres no momento do primeiro casamento para 1991 e do número de casamentos segundo a idade das mulheres para 2001, extrapolar a tendência para uma nupcialidade cada vez mais tardia.

Fig. 34 – Transformações recentes no modelo da nupcialidade do concelho

60 50 40 % 30 20 10 0 <19 anos 20 a 24 25 a
60
50
40
%
30
20
10
0
<19 anos
20 a 24
25 a 29
30 a 34
35 a 39
40 a 44
45 a 49
50 a 54
55 e mais
Casamentos segundo a idade da mulher - 2001
Idade das mulheres no momento do primeiro casamento - 1991

6.1 – Os edifícios

É discutível a validade e utilização dos dados dos primeiros recenseamentos referentes ao número de alojamentos, conceito que só por si, tem sofrido algumas alterações. De facto, nas primeiras operações estatísticas do período em análise a designação de fogo era utilizada para a casa ou local de residência habitual de uma família. Hoje, e desde o primeiro recenseamento da habitação (1970), há uma diferenciação entre alojamentos familiares e alojamentos colectivos, clássicos e outros, para além da designação de edifício que substituiu a tradicional noção de prédio.

A distribuição do número de edifícios por freguesia é apresentada desde 1940, mas os valores dos recenseamentos seguintes não se revelam coerentes para a análise de uma série aprofundada até à actualidade. Resta a possibilidade de comparação dos primeiros dados disponíveis com os resultados dos I (1970) e IV (2001) Recenseamentos Gerais à Habitação, importante para a compreensão das mudanças ocorridas nas estruturas populacionais.

Partindo do pressuposto de que estamos a considerar duas realidades comparáveis; prédios em 1940 e edifícios em 1970 e 2001, a relação destes números com a superfície da freguesia, serve, sobretudo, para que sejam mais facilmente comparáveis. Assim, globalmente, o total de densidade de edifícios do concelho é hoje superior ao registado em 1940, o que, sendo natural dado o aumento do total de população residente, é resultado do somatório de evoluções diferenciadas entre freguesias, nos diferentes momentos censitários.

Nas primeiras três décadas (1940-1970) o traço geral de evolução é de forte expansão do número de edifícios, praticamente comum a todas as freguesias. As excepções são preconizadas pelas freguesias que primeiro sentiram os efeitos da regressão demográfica do espaço rural, Alcorochel e Paço. Neste período é já visível o crescente protagonismo das freguesias urbanas que registaram os aumentos mais significativos. No período seguinte (1970-2001), praticamente todas as freguesias viram decrescer o seu número de edifícios. Esta variação não invalida uma evolução total positiva nas últimas duas décadas, o que desde logo nos leva a questionar os dados do recenseamento de 1970, onde foram identificados diversos problemas. Este aumento, é mais visível na freguesia de Lapas, dado que a sua reduzida superfície não consegue mitigar a presença da Urbanização da Quinta da Silvã.

Fig. 35 – Variações na densidade de edifícios por freguesia Edifícios/Km2 180 1940 1970 2001
Fig. 35 – Variações na densidade de edifícios por freguesia
Edifícios/Km2
180
1940
1970
2001

Segundo os dados do IV Recenseamento Geral à Habitação, verificamos que de 1991 para 2001 ocorreu um aumento significativo do número de edifícios do concelho, inferior, no entanto, ao ocorrido na década anterior. Hoje, a estrutura dos edifícios do concelho é mais diversificada em vários aspectos; nas técnicas de construção, nos revestimentos utilizados, nas coberturas, e até mesmo nas utilizações que são feitas. Neste item, apesar de continuar a dominar expressivamente a utilização exclusivamente residencial (93%), ganham maior relevância os edifícios parcialmente residenciais e não residenciais.

Fig. 36 – Variação do número de edifícios do concelho segundo o número de pavimentos

1981

1991

2001

N.º de pavimentos

N.º

%

N.º

%

N.º

%

1

9652

76,55

9637

68,02

8650

57,98

2

2618

20,76

4059

28,65

4923

33,00

3

263

2,09

333

2,35

972

6,52

4

53

0,42

101

0,71

231

1,55

5

13

0,10

30

0,21

68

0,46

6

6

0,05

1

0,01

50

0,34

7 ou mais

4

0,03

6

0,04

25

0,17

Total de edifícios

12609

100,00

14167

100,19

14919

100,00

Ainda num contexto de diversificação, é nítido o aumento das próprias dimensões dos edifícios. De 1981 para 2001, diminuiu significativamente a proporção de edifícios com apenas um pavimento. Esta mudança dá-se em favor de edifícios com outras características, aumentando todos os que não estão naquelas condições. Já no que respeita ao número de alojamentos por edifício verifica-se um ligeiro decréscimo dos edifícios unifamiliares e com apenas dois ou três alojamentos, ganhando maior expressão os que combinam um maior número de alojamentos.

Fig. 37 – Variação do número de edifícios do concelho segundo o número de alojamentos

1991

2001

N.º de alojamentos

N.º

%

N.º

%

1

13100

92,47

13755

92,20

2

704

4,97

682

4,57

3

122

0,86

92

0,62

4

61

0,43

89

0,60

5 a 9 10 a 15 16 e mais

148

1,04

239

1,60

22

0,16

47

0,32

10

0,07

15

0,10

Total de edifícios

14167

100,00

14919

100,00

6.2 - Alojamentos e população por alojamento

Acompanhando a tendência de decréscimo da natalidade e de redução da dimensão das famílias, também o número de indivíduos por alojamento tem vindo a diminuir. Se o total de população do concelho se mantém relativamente estável desde a década de 40, o mesmo não tem acontecido com o número de alojamentos que em 1878 não era muito superior a 5 000, em 1940 atingia os 10 000 e em 2001 ultrapassava já os 18 000. A relação entre estas duas evoluções não pode deixar de ser a redução do número médio de residentes por alojamento que em 1878 era de 4,2 indivíduos e em 2001 fixava-se em menos de metade daquele valor (2,0).

Fig. 38 – Evolução da população por alojamento no concelho

40 35 30 25 20 15 10 5 0 1878 1900 1911 1940 1960 1970
40
35
30
25
20
15
10
5
0
1878
1900
1911
1940
1960
1970
1981
1991
2001
5 0 1878 1900 1911 1940 1960 1970 1981 1991 2001 População (milhares) Alojamentos (milhares) Pop./aloj.

População

(milhares)

Alojamentos

(milhares)

Pop./aloj.

Globalmente, a dinâmica de construção é hoje mais independente das necessidades da população, verificando-se que, nas últimas décadas, passou a haver um desfasamento na relação entre a evolução do número de indivíduos e famílias residentes e o crescimento do número de alojamentos. Esta tendência é significativa ao nível da ocupação do solo, sobretudo se a combinarmos com o despovoamento do espaço rural, urbanização e periurbanização do espaço urbano.

No que se refere à distribuição espacial do número médio de residentes por alojamento, apercebemo-nos que as freguesias rurais, com população mais envelhecida e com maior proporção de pessoas a viverem sós, são as que, apresentam os valores mais reduzidos. A variação deste indicador partiu de uma base de relativa igualdade entre freguesias em 1900 e viu aumentar as disparidades entre freguesias urbanas (com maior número de residentes por alojamentos) e freguesias rurais, numa distribuição que é marcada por uma relativa homogeneidade espacial.

Fig. 39 – Variações do número médio de residentes por alojamento Nº res/alojamento 4,6 1900
Fig. 39 – Variações do número médio de residentes por alojamento
Nº res/alojamento
4,6
1900
1960
2001

Mas a grande tendência que acompanhou todo este período analisado é o decréscimo do número médio de residentes por alojamento comum a todas as freguesias. Sendo resultado da redução da dimensão das famílias, este decréscimo é reforçado pelo aumento do número de alojamentos vagos; no espaço rural devido ao movimento de despovoamento a que está sujeito há várias décadas, e em algumas freguesias urbanas mais tradicionais por processos de transferência de residência de antigos centros para antigas periferias, a que a própria pressão construtiva não está alheia.

Se analisarmos a variação do número de alojamentos por tipo e modos de ocupação, podemos destacar o aumento do número de alojamentos vagos, que é transversal a todas as regiões do país e que corrobora o que foi referido anteriormente. Na década de 80 este aumento foi superior e corresponderá essencialmente ao movimento de concentração da população na sede de concelho e suas freguesias urbanas. Na década de 90 este movimento manteve-se mas foi acompanhado das deslocações, na cidade, do centro histórico e bairros do primeiro período de industrialização para novas áreas urbanas.

Fig. 40 – Variação do número de alojamentos no concelho

1981

1991

2001

Alojamentos

N.º

%

N.º

%

N.º

%

Alojamentos familiares Clássicos

14172

99,85

16582

99,83

18269

99,85

14072

99,15

16526

99,49

18209

99,52

Ocupados

13236

93,26

13763

82,86

15955

87,20

Resid. habitual

11609

81,79

12550

75,56

13291

72,64

Uso saz. ou secund.

1627

11,46

1213

7,30

2664

14,56

Vagos

836

5,89

1763

10,61

2254

12,32

Não cláss.

100

0,70

56

0,34

60

0,33

Alojamentos colectivos

21

0,15

28

0,17

28

0,15

Total de alojamentos

14193

100,00

16610

100,00

18297

100,00

É ainda significativo o aumento do número de alojamentos de uso sazonal ou secundário ocorrido durante a última década. A manterem-se as actuais tendências de aumento da mobilidade da população associada ao lazer, este número de alojamentos secundários poderá continuar a aumentar, sobretudo no espaço rural. As freguesias com estas características não devem subvalorizar o papel que estes novos “residentes” de férias e fim-de-semana podem desempenhar na sua conservação e renovação.

Ainda no que respeita à diferenciação entre alojamentos de residência habitual e de residência secundária ou sazonal, é possível concluir que grande parte destes últimos são alojamentos construídos antes de 1980, ainda que haja um número significativo construído já na segunda metade da década de 90. Esta distribuição por época de construção é reveladora dos ciclos económicos do concelho e da sociedade portuguesa em geral, com as suas dinâmicas de construção e ao mesmo tempo sintomática da pressão construtiva dos últimos anos.

Fig. 41 – Alojamentos ocupados no concelho por época de construção em 2001

3000

2500

2000

1500

1000

N.º

500

0

Antes 1919 a 1946 a 1961 a 1971 a 1981 a 1986 a 1991 a
Antes
1919 a
1946 a
1961 a
1971 a
1981 a
1986 a
1991 a
1995 a
de 1919
1945
1960
1970
1980
1985
1990
1995
2001
Res. habitual
Uso sec. ou sazonal
Total

No que respeita aos alojamentos vagos salienta-se o número de novos alojamentos que estão para venda, enquanto se confirma que o mercado de arrendamento não funciona, uma realidade nacional que não sendo recente, abrange os alojamentos de todas as idades e tem contribuído para a destruição, lenta mas terrivelmente eficaz, dos centros históricos das cidades portuguesas, inclusive Torres Novas. De facto, o congelamento das rendas levou ao progressivo abandono dos alojamentos agora antigos e conduziu a população portuguesa para o mercado de habitação própria. Este, atinge um peso no mercado da habitação extremamente elevado, sobretudo quando comparado com o mesmo indicador nos países da Europa Central e do Norte.

N.º

400

350

300

250

200

150

100

50

0

Fig. 42 – Alojamentos vagos no concelho por época de construção em 2001 Antes de
Fig. 42 – Alojamentos vagos no concelho por época de construção em 2001
Antes de
1919 a
1946 a
1961 a
1971 a
1981 a
1986 a
1991 a
1995 a
1919
1945
1960
1970
1980
1985
1990
1995
2001
Para v ender
Para arrendar
Para demolir
Outros

Só uma efectiva mudança neste sector levaria à inversão desta tendência, o que seria saudável, por exemplo, para o mercado da reconstrução e reabilitação de edifícios antigos, evitando-se a sua contínua demolição. Para o concelho, e para a cidade de Torres Novas em particular, esta mudança reveste-se de carácter urgente dado o ainda considerável número de alojamentos com mais de 80 anos que estão abandonados ou para demolir.

7.1 - A relação de masculinidade

Uma das variáveis demográficas normalmente abordada em estudos demográficos é a relação entre o número de residentes do sexo masculino e o número de residentes do sexo feminino, traduzida pelo indicador denominado de relação de masculinidade. Esta relação, para além de apresentar diferenças consoante o grupo etário que é analisado, regista também algumas transformações ao longo dos tempos.

Fig. 43 – Evolução da relação de masculinidade no concelho

120 100 80 60 40 20 0 0 a 14 15 a 24 25 a
120
100
80
60
40
20
0
0 a 14
15 a 24
25 a 64
65 e +
100 80 60 40 20 0 0 a 14 15 a 24 25 a 64 65

1911

1960

2001

No caso do concelho de Torres Novas, a distinção por idades segue a norma dos países com boa qualidade de estatísticas de registo civil, ou seja, ao nascimento há uma ligeira supremacia do sexo masculino. Geralmente, para cada 100 nados-vivos do sexo feminino há 105 nados-vivos homens, relação que se vai diluindo até ao grupo dos idosos em que é o sexo feminino que domina, reflectindo assim a maior esperança média de vida das mulheres. Ao longo da sua vida, o indivíduo do sexo masculino é mais afectado por causas de mortalidade acidental, sendo que a partir do fim da adolescência o sexo feminino passa a ter maior peso na estrutura sexual de uma população.

No concelho, são de salientar algumas diferenças existentes entre os dados dos três recenseamentos analisados. Veja-se, por exemplo, que em 1911 esta era uma relação muito mais equilibrada em todos os grupos etários, não sendo muito significativa a diferença entre o grupo dos mais jovens e o grupo dos idosos, (0-14 = 101,3 e 65e+ = 83,8). Em 1960 acentuava-se a diferença no grupo dos adultos e idosos, enquanto que em 2001, a população do concelho permanecia equilibrada na sua distribuição sexual até ao grupo dos adultos, mas extremava-se na faixa etária dos idosos (0-14 = 102,6 e 65e+ = 71,0).

7.2 - A taxa de mortalidade infantil

O número de indivíduos que não sobrevive até completar o primeiro aniversário, permite-nos, quando relacionado com o número de nascimentos ocorridos nesse ano, caracterizar o nível de desenvolvimento de uma sociedade. Numa primeira fase, a taxa de mortalidade infantil não podia ser dissociada de factores como o nível de educação e formação dos pais, as condições de higiene e o grau de acessibilidade e qualidade da assistência médico-sanitária, o que já não acontece hoje em dia em que as condições no momento do parto e a assistência prestada está generalizada a todos os estratos sociais. Actualmente, a mortalidade infantil está mais dependente de causas biológicas como problemas congénitos ou complicações ocorridas no momento do parto.

Fig. 44 – Evolução da taxa de mortalidade infantil no concelho

125,2 97,8 75,4 67,1 45,8 44,0 35,5 23,5 21,7 18,5 12,5 10,0 8,2 0/00 1941
125,2
97,8
75,4
67,1
45,8
44,0
35,5
23,5
21,7
18,5
12,5
10,0
8,2
0/00
1941
1945
1950
1955
1960
1965
1970
1974
1981
1985
1991
1995
2000

Torres Novas acompanhou de perto a tendência de decréscimo que se registou em Portugal na década de 40, tendência que abrandou na década de 50, mas que se voltou a intensificar em meados da década de 60. Até à actualidade a mortalidade infantil decresceu continuamente, registando-se na última década não mais de quatro ocorrências anuais. Registe-se que, por exemplo, ao longo de todo o ano de 2001, a mortalidade infantil no concelho foi nula, o que atesta bem a evolução descrita.

7.3 - Analfabetismo e qualificações

O analfabetismo e o nível de habilitações académicas da população são indicadores que devem ser incluídos em qualquer estudo de cariz demográfico dado que influenciam os comportamentos e as tendências evolutivas de uma população, nomeadamente nas suas atitudes perante a natalidade, a fecundidade ou a nupcialidade.

Fig. 45 – evolução da taxa de analfabetismo no concelho

Ano

Tx. Analfabetismo

1890

77,9

1900

73,4

1911

74,2

1930

62,7

1940

59,8

1960

25,5

1991

10,3

2001

8,3

Como era previsível, a taxa de analfabetismo em Torres Novas decresceu durante todo o século passado reflectindo as melhorias na oferta de serviços educativos em geral e os progressivos aumentos da escolaridade obrigatória. Hoje, a média do concelho enquadra-se na realidade nacional (9,0%), o que já não acontece se analisarmos individualmente as suas freguesias, nomeadamente os casos de Assentis, Brogueira, Chancelaria e Parceiros da Igreja, com taxas de analfabetismo sempre superiores a 11%, numa distribuição que não deixa de evidenciar a divisão entre espaço rural e urbano.

No que respeita às habilitações da população do concelho, observa-se uma quase duplicação da população com o 1º Ciclo do Ensino Básico entre 1960 e 1991, enquanto que no Ensino Secundário e Ensino Superior os aumentos são muito superiores dado que em 1960 eram muito poucos os residentes com estes níveis de habilitação. Até 2001, o número de residentes apenas qualificados com o 1º CEB decresceu mas ainda abrange perto de 40% do total de residentes. Ao mesmo tempo, manteve-se o forte crescimento da proporção de residentes com o ensino secundário e superior completos.

Fig. 46 – Variações da taxa de analfabetismo no concelho Tx. analfabetismo (%) 17 1991
Fig. 46 – Variações da taxa de analfabetismo no concelho
Tx. analfabetismo (%)
17
1991
2001

Fig. 47 - Mudanças nos níveis de ensino atingidos pela população do concelho

50

40

30

20

10

% 0

1960 1991 2001 1º CEB Secundário Superior
1960
1991
2001
1º CEB
Secundário
Superior

7.4 – Actividade e empregabilidade

A variação da taxa de actividade no concelho, que traduz a proporção de população activa na população total, revela a progressiva entrada da mulher no mercado do trabalho. Ainda assim, e apesar do contínuo aumento deste indicador ocorrido nas últimas décadas no que se refere às mulheres, é ainda evidente a diferença para o sexo masculino. Esta distinção é também visível no que respeita à taxa conjuntural de desemprego, embora demonstre rápida tendência para a equiparação.

Fig. 48 – Variação da taxa de actividade e desemprego no concelho

 

1981

1991

2001

Taxa de Actividade

 

Homens

53,4

52,6

Mulheres

31,6

39,1

Total

38,4

42,1

45,6

Taxa de Desemprego

 

Homens

2,6

4,1

Mulheres

11,5

7,5

Total

6,6

6,1

5,7

Quanto à variação da distribuição da população activa pelos três sectores de actividade económica, observaram-se, no concelho, mudanças próximas das registadas na globalidade do país. Durante as últimas quatro décadas esta distribuição sofreu alterações profundas que se traduzem na transição do Portugal tradicional, agrícola e rural que ainda subsistia em 1960, para o Portugal moderno, terciário e urbanizado. O concelho de Torres Novas espelha bem o sucedido no país.

Fig. 49 – Evolução da estrutura da população activa por sectores de actividade económica

70 60 50 40 30 20 10 % 0 1960 1970 1981 1991 2001 Primário
70
60
50
40
30
20
10
%
0
1960
1970
1981
1991
2001
Primário
Secundário
Terciário

Em 1960, cerca de 45% da população activa trabalhava na agricultura, já havia uma percentagem significativa de trabalhadores industriais, enquanto o sector do comércio e serviços ocupava pouco mais de 20% da população activa. Até 1970 as mudanças foram significativas, nomeadamente no decréscimo da actividade no sector primário, prolongando-se até 2001 em que atinge um valor residual, com menos de 500 trabalhadores. Por outro lado, esta variação demonstra que a expansão industrial se manteve até ao início da década de 80, acompanhada de perto pelo aumento de população activa a trabalhar no sector terciário. A partir de 1981 o sector secundário inverte o sentido de mudança, continuando, o sector terciário, a expandir- se até 2001, ano em que já empregava mais de 60% da população activa do concelho.

Estas últimas mudanças abrangem os trabalhadores masculinos e femininos mas apresentam a particularidade da expansão do sector terciário se dar à custa da entrada da mulher no mercado de trabalho. Em 2001, a actividade feminina neste sector é mesmo superior à masculina, algo que nunca tinha acontecido em qualquer sector e em qualquer outro momento. Ainda a este respeito é de salientar que o sector terciário do concelho viu aumentar o número de trabalhadores essencialmente nos serviços de natureza social e não nos directamente relacionados com a actividade económica.

Fig. 50 – Evolução da estrutura da população activa por sexo e sectores de actividade económica

   

1981

1991

2001

N.º

%

N.º

%

N.º

%

Primário

Homens

1169

8,76

634

4,3

304

1,9

Mulheres

364

2,73

299

2,0

141

0,9

Total

1533

11,49

933

6,3

445

2,8

Secundário

Homens

4690

35,16

4503

30,2

3946

24,9

Mulheres

1202

9,01

1646

11,0

1542

9,7

Total

5892

44,17

6149

41,3

5488

34,6

Terciário

Homens

3669

27,50

4303

28,9

4670

29,4

Mulheres

2246

16,84

3518

23,6

5260

33,2

Total

5915

44,34

7821

52,5

9930

62,6

Natureza social

2188

16,40

2608

17,5

4278