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FRANZ BOAS foi un dos meiores anropdlogos de todos os tompos, CCom seu vigor erica, revalucionou os mes ints uo nas prime "05 dicados do século KX, afmondo © concelo de culuea como fator expicatvo das diversidades is ~ a8 ent justificadoe pels eorios do evalugdo, da difvxdo ou @ port de delerminarSes aciis, sogishcar« econSmicas, Protessor de inimeros pesqusodores sociais, dexou como um do s0us legados fundamental idea de que ¢ invesigador dave ado tor uma posicdo de rlaivismo eulial denis dos grupos que es td. As cancepcses de Boos iugram sce 0 mundo todo, inclusive fom nosso pals, onde seu maidiseaeipulo fot Cibero Feyr, ANTROFOLOGIA CULTURAL Be Btmete brs publcoda no Boi deste que ¢ um dos fundadores 4 ern entopologia. A co- lotnes reine cinco ensaios de lei inprecidvel para todos cqveles que se iniciom no estudo da cul, emseus mois difern tes enfoques india do socidade secre ver, Coro Leia mbm na eolesdo ANTROPOLOGIA SOCIAL DE OHO NA RUA: A CIDADE bE 1040 BO RIO iia © Donel FALANDO DA SOCIEDADE Howard 5. Becker oursioees Howord§. Becker R10 0€ JANERO: Gitar Vth ora RA, FOLIICA E CONFUTO. mi ames Antropologia Cultural a wicagae de Annapciog Ci ural de Frone Boos, com o1go nizagdo # opieseicro de Clio de Coste, emo tudes antopeligicas xe rail Como expla 0 org rizador, no hé quase nade po ‘icade no nia pos da vos, com plana @ pionsira obra do autor alamo ue viveu ene 1858 « 1942. Conside ‘ade par todos um dos findaderes do mo dena antropelogio, was atvidades de pesquisa, o rabalho a gue produzw forom fundamenais pore fo devanuchimento da dipia em todo 0 lo. Seus alunos 2 seguidoes muitos cs dees exramamente importantes — coninusran nthe do mesh, consol onde # inovanda suas percepeses, dos ober» conceitos 4 nope de cura com que Baas tab Ihov = 20 relativism de fondo metodelé- ico que © ocompashava ~ consiiy © xe canto para a consoldaséo de todo 2 enropologia medernozontempartnee Sec corte, que © leveu de Alemeaha 08 Etlodos Unidos, tombém $ une de: rmontraeio de independincio » sept criico. As refesSas @ denvncoe conta 0s feorias racisas, ante outas, dd a devida dimenséa poltica, ne melhor son io, de suo atvidade intelectual, sm um petiedo no qual 0 mundo vive pote ‘menle emeosado por frgas# ides obs ste uo €peeno TUNA DhuMensiage FEDER OF STA sata 228 ews owAsMOCUe Colesio ANTROPOLOGIA SOCIAL Aieor Gilberto Velho +0 Riso co Rishel Vensnn Ausexr *Palando da Sociedade + Oueers Homan 5, Becia + Antopologis Cala Feast Bone +0 Beplo Mliae + Bvolacioaismo Cultural *Os Miliares a Replica (Caiso Castro *Ds Vids Nervosa Lone Bensanoo Dunare * Brusca, OrSculos¢ Maga entre or Arande EE. Bvaxs Perens * Garou de Programa Mania Dotce Gasean + Nova Lu sobre Anopologa *Obrerando o fla Currono Gaesre +0 Cocidino da Police Kania Kescrnie *Caleua: am Concio Anuopoligico Rogue Banos Lanain "+ Autordade &¢ Afro Mania Lvs Baaaos + Guera de Orns ‘Yoox Macett *De Otho na Rus Jou O Danaea, *ATeoviaVivida Maza Patna + Calta Rano Price + Hina eCalue “bade Hist * Mesias Hucrcas Beales Mies Marae Stans +s Mandi Mi Euzieere hanson + Anwopologia Ustane + Desa « Dnegéaca ‘Individualism e Crue Proj e Meramorixe * Ro de ani: Cala, Poles © Candia 1 Subjesdadee Sociedade *A Utopia Urbana Guaearo Vino * Pesquisa Ubanas Gnazaro Vino = Kaun Kuss +0 Miso do Samba +O Mando Funk Carioca Hamano Vice + Bena da Sv Produtn do Moco Levicu Vaasa +0 Mundo da Araologia Luis Ronotra Vina *Socidade de Equine Whitt Foore Wine ~~Franz Boas Antropologia Cultural ‘Textos selecionados, apresentacio ¢ traducdo: Celso Castro 6 edigao ZAHAR ticenn Copyright uel deen presenta © 200, Cs Cato ony ees 02010 Tore Zar Bator fom es 3 Sel 200) set Ro deans vet) 28a fae) 308.0800 ‘ionensarcombr Tad ot dion tera cero sade at poo 20 odo oem pute consti rita de do stor Le 981098) Gaia sealant opetande 9200 Acco Orage tinge Poraaee ge aneroe 204,28, 200,207,209 ope via Nasky Fon dcp: rae Hos eptesentando uJ pita ib pre de una ceri soda Hamat, Ss nes Kei (Vos (tei tra prs seve de mod no rato de um arama ‘unho sasl exi 9 United Stes National Sse 195 Capraght ‘> Neon esol rch, Stone 4504, CrP sea Cason fate Sines Nacional don Borer dei 8) | roses ops cat Fas Boas dua Cel Cat sda de ne Jrge ab, 2010 (Aneel 1, Boog. 2 Astoplog 1 Ca Ca, 196. | ” ” SUMARIO. = Apresentagao, Celso Castro ‘As limitagbes do metodo comparativo a antropologia, 1896, (0s métodos da etnologis, 1920 Alguns problemas de metadalogia as citnciassocais, 1930, Raga e progresso, 1931 0 objtivos da pesquisa antropologica, 1932 = bm 2 dumdodn dao pro dare, onibiopobogs Apresentagaio Celso Castro E dificil acreditar que este sea o primeiroliveo publi- «ado no Brasil de um autor da importincia de Franz Boas, indiscutivelmente um dos fundadores da mo- dderna antropologia. Nao hi nem mesmo trabalhos de 7. Boas publicados em coletineas ou em revistasacadé- ‘micas no Brasil, com alouvivel excegdo de um pequeno texto em uma revista de alunos da usP.! Existem ainda algumas poucas tradusOes feitas por professores para uso exclusiva em sala de aula Em Portugal fi tradusido apenas um livo de Boas (Primi five Art), de dificil acesso no Brasil? Diane desse quad, grande parte do ensino de anteopolo- gia em cursos de graduacio —nos quais em geral éproblemstico dota textos em inglés — trata rpida esuperfcialmente da obra {de Boas, por vezesutilizando-se apenas de comentadores. 0 obje- tivo desta pequena coleinea ¢justamente contribuir para modi- ficar esse quadro, permitind que se amplieo conhecimento so- bre um dos mais importantes antropélogos de todos 0s tempos. 3 Franz Ui Boas nasceu na pequens cidade prussiana de Minden (Vestilia) em 9 de julho de 1858, em unna familia de comercian- tes judeus jf culturalmente assimilados a vida alema.* Entrou para a universidade em 1877, estudando fsia Sucessivamente em Heidelberg, Bonn « Kiel. Nesses anos, como era comum entre os estudantes, eavolveu-se em virios duelos — pelo menos ur motivado por ataques de natureza antissemita —, nos quais g3- shou ciattizes na face visiveis por toda sua vida Em 1881, Boas concluiu seus estudos universitrios com uma dissertagdo sobre a absorgdo da luz pela gua, Data dessa 4época seu interesse pela psicofisica (desenvolvida por Gustav Fechner), disciplina que buscava compreender a relagdo entre sensagoes fisicase percepeio psicologica. No entantoinsatisteto com as perepectvas da carreira de fisico, mudou seu interes para a geograi, em parte por infuéncia do gedgrafo Theobald Fischer, seu professor em Kiel e de quem se tornaria amigo, Ap6s prestar um ano de servigo militar obrigat6rio, mudou-se pat Berlim, onde conheceu Adolf Bastian (1826-1908), patriarca da antropologia alm’ e entdo diretor do Museum fr Volkerkunde ‘(Museu do Folelore), por ele fundado em 1873 e 20 qual Boas ficou provisoriamente ligado, Nessa época, também extudou té- nicas de medigoes, entao caracteristicas da antropologiafisica, com 9 médico anatomista Rudolf Viechow (1821-1902), ‘Sem grandes perspectivas em Berlim, Boas alimentou o pla no de realizar uma expedigao ailha de Balin (Canada), para es tdar 0s esquimés (hoje conhecidos, no Canadé, como Inuit) Apés virias tentativas, conseguiu obter recursos do dono de um grande jornal berlinense em troca de artigos sabre a experigncia Em 1a81, antes de embarcar,conheceu eapaixonou-s por Marie Keackovizes, ef de um importante médico ausriaco que emi- grara para os Estados Unidos e se estabelecera em Nova York. “Marie visitava a Alemanha em companhia de sua mie e de um amigo da fla, Abraham Jacobi, coineidentemente, to mater- ro de Boas que também se mudara para Nova York (no futuro, Jacobi seria de grande importincia para o sobrinho, inclusive ajudando-o financeiramente). Em 20dejunho de 1883, Boas parti para sua expedigto aos cesquimés. Por insisténcis do pai, ia acompanhado por um em pregado da familia, Wilhelm Weike, da soa idade. Pasou um ano nail, comvivendo com os esquimés em muitas de suas ativida- des didsis, Durante a estada na localidade de Anarnitang,esre- veu em seu didrio: “Sou agora um verdadeiro esquims. Vivo como eles, cago com eles efago parte dos homens de Anarnitung” (cf. Cole, p. 78). Sua permanéncia entee os esquimés também gerou observacoes como as seguintes,regstradas em seu didrio no dia 23 de dezembro de 1883: Frequemtemente me pergunto que vantagens nossa "boa socieds Ae" postu sobre aquela dos "selvagens” edescubro, quanto mais ‘ej de seus costumes, que nio temos 0 dizsito de olhilos de ‘ima para bsixo. Onde, em nosso povo, poder-se-ia encontrar hospitalidade tio verdadsira quanto aqui Nis, “pesoas alta ‘mente educida’ somos muito pires,relatvamenteflando. CCeio que, ests viagen tem para mins (como ser pnsante) uma ‘nfluénciavlioss, cla reside no fortalecimento do ponto de wsta (da velatividade de toda formato (Bildung), e que a maldade,bem camo o valor de uma pesoa,residem na formacio do coragio (tered) gue ensonr, os 0, nto aga quanto Apesar das grandes dficuldades causadas pelo rigoroso cl 1a da regifo, Boas conseguiu cumprir em parte seu projeto de obter informagies sobre distribuigao e mobilidade entre 05 es- quimés, suas rotas de comunicagio e a historia de suas migra Bes. As observagdes gcogrificas que fez foram publicedas em 1885 no livro Baffnland; as etnogrificasviriam a piblico em 1888, em The Central Eskimo, Boas parece ter permanecido entre os esquimds muito mais ‘como um observador do que como um pesquisador participante —no sentido que esa expresso assumiria na antropologia pés- Malinowski. No entanto, para contextualizar historicamente as comum, como também boa parte da ambiente académico. £ ambém um exemplo da intensa participasio de Boas na cena blica nort-americana em relagio as questbessociais. Boas re- ‘cusava qualquer valor cientifico a suposigao de que existe dif rengas raciassignificativasentze os homens. Segundo ele, ava ‘ago se daria entre diferentes inhagens familiares de uma mes ‘ma populago,e ndo entre supostas “agas" construidas a partie, de elementos puramente superficiais,como cor da pele, forma da ‘cabega ou textura dos cabelos, Haveria uma enorme vaiabilida- de genética, mesmo em uma populagso considerada “racalmen te homogéned’, dai o absurdo cientfico de se pensar em "ragas ppuras’ Tragos ou caracterstcas que habitualmente se associa vvam a uma determinada racaestariam, na verdade, presentes em virias outras, Segundo Boas, para se compreender as dfecencas observ ves entre populacbes de origens diferentes, era importante con- siderar nto suas supostascaracterstica “aciais «sim oefeito de ‘utras varidves, como o meio ambiente e especialmente as con- digoessociais em que iver esss populacbes. No se poder abs tar essas variveis da anise antropologica. Era nesse sentido ‘que ele rejetava também a pretensa vaidade cientifica dos testes de inteligéncia, entéo usados para “provar” a inferioridade das pessoas “decor” em relagio aos brancos, Boas terminava.aconferéncia com um desafioaberto so an- tropélogo escocés sir Arthur Keith (1865-1955), um dos cientis- tas britinicos mais importantes e recanhecidos de sew temp. Keith fora presidente do Royal Anthropological Insitutee da Bri- tish Association for the Advancement of Science. No discurso de posse como reitor da universidade de Aberdeen, em 1930, Keith ddesenvolveu.a tese de que o nacionalismo era um poderoso fatot de diferenciagdo na evolucio das racas humana, interpretando (( 98 preconceits racial ¢ nacional como inatos. Em um contexto ) internacional crescentemente racstae belcista, Boas desafisva 4) Keith provar, nio apenas que aantipatia racial sera “implants ) a pela atures eto eet de cause socas, como também ( 2 afirmacio de que as guerrasteriam uma fungio positiva de ~ see, » Aoplogs etal CChamo também a atensio para 2 importincia que essas ideiastiveram sobre um dos principaisintérpretes do Brasil. No preficio primeira edigao de Casa-grande & senzala (1933), Gi- ‘hero Freyre elembrava Boas, que conheceu quand estudaraem ‘Columbia no inicio da década de 1920: “O Professor Franz Boas a figura de mestre de que me ficou at hoje maior impressio” (pli). Preyre contava como as ideias de Boas haviam-no ajuda «do pensar de forma diferente sobre um dos grandes problemas nacionas, na perspectiva de sua gerayio: a questio da mest: jem.’ Segue-se um trecho famoso: ‘Vim vez, depois de mais de rés anos macicos de auséncia do asl um bando de marinheiosnacionais — mulatos e afuzos = descend no me lembro se do Sao Paulo ov do Minas (navios dda Marinha de Guerra brasileira) pela neve mole de Brook. Deram-me a impresio de carieaturas de homens. E veio-me 3 lembranga a frase de um iv de wajante american que scabara de ler sobre o Bra: “the fearfully mongrel aspect of much ofthe opulavion"* A miscigenasso resulta nagul,Faltou-me quem 'me dssesseento, como em 1929 Roquete-Pinto aos arianstas o Congress Basezo de Eugenia, que nde eram simpesmente _mulatos ow cauzos os indivdus que ev julgava representa 0 Bras, mas cafzos e mulatos doetes, Foo estudo de Antropologa sob a orientagio do Profesor Boas que primeiro me revelou o nero eo mulato no seu justo Valor — separads dos tapas de raga os efeitos do ambiente on da experincia cultura Aprendi 2 considerar fundamental dif renga entre rag e cultura dsriminar entre os efeitos de rel 0es puramente genética eos de infuencias socials, de eranca ulural ede meio, Neste eritsio de diferencigio fundamental entre aga ecuturaassenta todo o plano deste ens, Também no da dferncigio enteherediuredade de raga ehereditariedade de tama? ( efeito dessa inndncia foi evocado poeticamente por Ma- uel Bandeira:® ssa hina de rag, Ragas mis, racas boas —Dizo Boas — Bois qu pasiou Como franc Gobinexs Piso mal do mesiga Nio ets nist sth em causa soci, Dehigieneeoutras que tis: “Assim pens, asim als Casa Grande & Senala ° Gostaria de agradecer a algumas pessoas que me ajudaram na preparacto deste lio. Karina Kuschnir leu atentamente todo 0| ‘materiale fez diversas sugestdes. Marisa Schincariol de Mello au xiliou-me com a pesquisa sobre pessoa citadas por Boas em seus textos, Pero Leimer e Alessandra El Far enviaram-me material de dificil acesso sobre Boas, e Verena Alberti reviu as tradugBes de palavras e expresses em alemso no orginal, Se ésempee bom publicar um livo, melhor ainda ¢ publics- lo pela editora Jorge Zaha. Cristina Zahar apoiou incondicional- _mente a idea do liveo desde o inicio, Gilberta Velho mais uma ver que derivaram de simibolos. As mesmas formas se desenvolv ama partir de todas esas Fontes. Com base em desenhos repre- sentando diversos objetos surgiram, no curso do tempo, gregas, meandros, cruzs etc. Portanto, 2 ocorrénciafrequente dessas formas nao prova nem uma origem comum, nem que elas te- ‘sham sempre se desenvolvido de acordo com as mesmas leis ps ‘uicas.Pelo contrério,o mesmo resultado pode te sido aleanga- <0 por quatro lias diferentes de desenvolvimento ede um ni- ‘mero infinite de pontos de partda, “Mais um exemplo pode ser oportuno. 0 uso de mascaras € ‘encontrado num grande nimero de povos. A origem do costume no € absolutamente clara em todos os casos, mas podemsedis- ‘inguir com facilidade algumas formas tpicas de uso. As mésca i Séo sadas para enganar os espiitos quanto a identidade da- quele que as usa, O esprito da daenga que pretende atacara pes- soa nfo a reconhece quando ela esti de miscara,e esta serve, assim, como protesto, Em outros casos a miscara representa um «spirit personificado pelo mascarado, que, dessa forma, afugen- ‘2 outros espritos hosts. Qutras mascara, ainda, sio comemo- zativas, O mascarado encarna uma pessoa morta cuja meméria deve ser relembrada. Mascaras também sio emptegadas em re- Presentasdes teatrais para iustrarincidentes mitol6gicos? Esses poucos dados bastam para mostrar que © mesmo fe némeno étnico pode se desenvolvera partir de diferentes fontes, Quanto mais simples o fato observado, mais provive é que ele ‘possa ter-se desenvolvido de uma fonte aqui e de outra ali, Desse modo, reconhecemos que a suposigio fundamental to frequentemente formulada pelos antropélogos modernos iio pode ser aceita coma verdade em todos os casos. No se pode dizer que a ocorténcia do mesmo fendmeno sempre se deve 35 ‘mesmas causas, nem que ela prove que a mente humana obedece ‘s mesmas leis em todos os lugares. Temos que exgir que as au ‘Ver Richard Andee. Ehnogphice aaien und Vergleich Newe Flge ei, 1889), p10 ficens 2 Ansepolog cash 88 a partic das uals o fendmeno se desenvolveu sejam investiga- das, e que as comparagdes se restrnjamn Aqueles fendmenos que se prover ser efeitos das mesmas causa, Devemos isistr para «que ess investigaso sea peliminaratodos os estudos compara- tivos mais amplos. Nas pesqusas sobre sociedadestribais, ague- las que se desenvolveram por associagdo precsam ser tratadas separadamente das que se desenvolveram por desintegracdo. De senlhos geométricos originados de representagdesconvencionali zadas de objetos natuais precisam ser teatados 3 parte com rela- ‘lo aqueles que se originaram de motivas técnicos. Em suma, antes de se tecerem comparagées mais amplas,é preciso compro- vara comparabilidade do material, Os estudos comparativos a que me refito tentam explicar costumes ¢ideis de notével similaridade encontradas aqui e ali, Mas eles ambém t8m o plano mais ambicioso de descabrr a leis © a hist6ria da evolucio da sociedade humana. O fato de que ‘muitos aspects fundamentas da cultura seam universais — ou due pelo menos acorzam em muitos lugares isolados — quando imerpretados segundo a suposigio de que os mesmos aspectos ever terse desenvolvide sempre a partir das mesmas causa, leva conclusio de que existe um grande sistema pelo qual 3 ‘humanidade se desenvolveu em todos os lugates, e que todas as variag6es observadas nfo passam de detalhes menores dessa grande evolugio uniform claro que sa teoria tem como base logica a suposigio de que os mesmasfendmenos dever-se sem- pre as mesmas causas, Para dar um exempla: hé muitos tipos de ‘struturas familiares. Pode-se provar que farts patrilineares \ém frequentemente se desenvolvido a partir de familias matrli- neares. Por conseguinte, afirma-se que todas a familias patrl- neares desenvolveram-se de familias matilineares, Se nfo supu- sermos que os mesmos fenbmenos se desenvolveram em todos 08 lugares sempre a partir das mesmas causas, poderemos igual ‘mente conclu que as familias patiinears,em alguns casos, de- rvaram de instituigdes matilineares;e, em outeos casos, de o¥- tros caminhos. Para dar mais umm exemplo: muitas concepyies sobre a vida Futura evidentemente se deseavolveram de sonhose alucinagdes, Por conseguint,airma-se que todas as nogées desse tipo tiveram a mesma origem. sso s6 seria verdade se nenbuma cutra causa pudesse te levado as mesmas ideias. VVimos que os fatos no favoreceram absolutamente @supo- sigdo da qual aqui falamos; muito pelo contrrio,eles apontam na diregao oposta. Dessa maneira, devemos também considerar que todas as engenhosas tentatives de construgio de um grande siste- ‘ma da evolugio da sociedade tém valor muito duvidoso, a menos {que se prove também que os mesmos fendmenos tiveram sempre ‘mesma origem. Até que isso sja fit, o pressuposto mais aei tive & que 0 desenvolvimento historico pode ter seguido cursos variados. bom reafirmar, nesse momento, umn dos objetivos princi- pais da pesquisa antropoldgica. Concordamos que existam certas leis governando o desenvolvimento da cultura humana enos em= penhamos para descobr-la. O objetivo de nossa investigasio é descobrie os procestos pelos quais certs estgios culturas se de- senvalveram, Os costumes crengas,em si mesmos, no cons titwem a finalidade dlsma da pesquisa. Queremos saber as a20es pelasquais tai costumes ecrengas exstem—em outraspalavras, desejamos descobrir a historia de seu desenvolvimento. O méto~ do atvalmente mais apicado em investigagdes dessa naturera compara as variagdes sob as quais os costumes eas crengas ocor- rem se esforga por enconteae a causa pscoldgica comum subja cente a todos eles Afirmei que esse método est sueito a ums obj fundamental. “Temos outro método que em muitos aspectos é bem mais seguro, O estudo detalhado de costumes em sua relagio com a verdadirament cent dos corps celestes realizado por bldnios, mas eeuropeus durante a dade Média, Para nda rrelasdonecesira das observagdesastronomicas €com 0 e- omenosfscos e quimicos; para eles, 0 pono essencal era nifcado astrologico, isto sua relago com 0 destino do ho- em, numaatitudebeseada na cultura gral historicamente con- cinada de seu tempo. Esses breves comentirios podem ser suficientes para indicar -omplexidade dos fendmenos que estamos estudando, arece ificovelindagar se € posive almearatingirquaisquer con. woes generlizsves que reduzam os dados antropologcos @ na formula que possa ser aplicada a cada caso, explicando set sado eprevendo seu futuro Acredito que seria vo alimentar esas esperangas. Os fen nos de nossa cénca sto to indviduaizaos, to expostos a dees extemnos, que neshum conjunte de leis pode explic- -© mesmo ocorre com qualquer outa ciécia que lide com 0 ando real 20 nosso redor. Podemos aingt uma compreensdo determinacio de cada cas individual por forgasinternas ¢ ernas, mas no podemos expliat sua individualidade sob a ma de leis Oastrinomo reduzo movimento daestrelasa leis, s, 4 menos que haja um inquestionsvel arranjo orginal no 20, ele nfo pout explicararazdo de sua localiza atual L090 pode conhecer todas asleisda ontogénese, mas nao pode 0s bjeivos da pesguiesaopoligies 107 explicas por seu intermédi, as formas acidentais que elas adqui- riram numa espécie individual, muito menos aquelas encontré ‘eis num individuo, Les fisiea ebiolOgicas diferem em natureza gragas& com: plexidade dos objetos de seus estudos, As leis biolbgicas podem referirse apenas s formas bioldgicas, assim como as leis geolégi- cas podem se relacionar somente as formas geoldgicas. Quanto ‘mais complexo 0 fendmeno, mais especiis serio as leis por eles cexpresas Os fendmenos culturas sio de tal complexidade, que me Parece duvidoso que se posse encontrar qualquet lei cultural vé- lida. As condigdes causais das ocorréncias culturais repousem. sempre na interagao entre individuo esociedade, nenhum estu- 4o clasiicatério das sociedades ied solucionar esse problema. A classficaséo morfologica das sociedades pode nos chamar a aten- 0 para virios problemas, mas ndo os resolverd. Cada caso sera redutivel a mesma fonte: a interagdo entre individuo e sociedade, E verdad que podemos encontrar algumas inter-elagbes vilidas entre aspectos gerais da vida cultural, tis como entre