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Educação Musical - Prática e Ensino 3

Educação Musical - Prática e Ensino 3 A Eutonia de Gerda Alexander, sua teoria, sua prática

A Eutonia de Gerda Alexander, sua teoria, sua prática e seu ensino.

Michel Seifert

(Traduzido do francês por Virginia Schmidt, e do inglês por Rosana Vila e Miriam Dascal)

Apostila revista por Celso Luiz de Azevedo Nobre e Jussara De Chiara

I A EUTONIA DE GERDA ALEXANDER

A O QUE É EUTONIA?

A

pessoa saudável tem a imagem de si própria, que está de acordo com o modo

A perda de contato com o corpo resulta na

perda de contato com a realidade. A identidade pessoal tem substância e

estrutura somente enquanto está baseada na realidade do sentimento corporal.”

“Para saber quem cada um é, a pessoa deve estar ciente do que ela sente

que ela se sente e como se vê

Um dos objetivos essenciais da Eutonia é permitir redescobrir as nossas capacidades máximas de reagir, tanto no nível motor quanto no relacional, com a maior liberdade possível dentro dos limites da nossa realidade psicológica. A

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Eutonia demonstra que esses limites geralmente são mais flexíveis e menos rígidos do que acreditamos.

Ela propõe um procedimento muito preciso para se obter um estado de liberdade, tanto na vida particular como na profissional, o que nos permitirá sermos nós mesmos - em harmonia com nosso ritmo, necessidades e profundas aspirações, assim como com o nosso meio ambiente.

Uma característica especial da Eutonia é a de obter a mais profunda transformação através da sensação, que se torna mais e mais precisa tanto proprioceptivamente como externoceptivamente.

Outra característica refere-se a um procedimento pessoal envolvendo uma constante presença dentro do ambiente. No começo, o aluno é convidado

a relaxar sem se tornar isolado ou desligado; esse aspecto é essencial e será discutido em detalhes.

“A palavra Eutonia (do grego eu = bom, harmonioso, justo; e tonos = tônus = tensão) foi inventada em 1957 com intenção de expressar a ideia de tonicidade harmoniosamente equilibrada, continuamente adaptada, em relação exata com a condição ou ato de viver” (Alexander, referência 1, p.2). Essa é a definição oficial de Eutonia, embora possa ser de algum modo incompreensível

para pessoas leigas. É impossível explicar Eutonia num único capítulo; por isso

a primeira parte dessa discussão é dedicada à Eutonia. No final da parte I, o leitor formará uma impressão sólida de Eutonia até onde uma descrição teórica possa proporcionar.

O exemplo que se segue introduzirá o leitor para o ponto de vista da Eutonia e, mais particularmente, para a ideia de “uma tensão harmoniosamente equilibrada”.

Imagine uma antena de TV de telhado. Uma pessoa que deseja endireitá-la pode se deparar com duas alternativas:

A alternativa número 1 é encurtar o estal (fio de arame de sustentação da antena) número 1 e esticar o estal número 2. Resultados possíveis: a) o

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estal número 2 ficou frouxo ou arrebente; b) ambos estais permanecem e, consequentemente, a antena fica torta. Infelizmente, a terapia cinética tradicional procede dessa maneira, reforçando o problema por adicionar mais força e tensão.

Por exemplo, muitos homens e mulheres têm barrigas grandes; como remédio, eles praticam exercícios abdominais. O máximo que conseguirão com isso será continuar tendo barrigas grandes, mas endurecidas! Enquanto fazem o exercício, eles contorcem e danificam todo o seu mecanismo digestivo sem mencionar outros efeitos nas vísceras. E não restauram o tônus dos músculos abdominais.

A alternativa número 2 é reposicionar a antena, ajustando a tensão dos estais e restabelecendo o relaxamento natural, correto. A Eutonia procede desse modo procurando um equilíbrio natural e correto entre todos os estais, assim como uma tensão mínima de cada um. Troque “estais” por músculos e “antena” por coluna vertebral e assim você poderá compreender o sentido da Eutonia. Essas duas opções de se aproximar do corpo humano são irreconciliáveis.

B NOTA SOBRE A CIÊNCIA

Um dia um médico falou para Gerda Alexander: “Que sorte você tem de não ser uma médica!”. Essa observação sugere a distância que Alexander tem percorrido fora do caminho conhecido e quanta liberdade relativa ela tem desfrutado, comparada a outros profissionais da medicina ocidental, para fazer pesquisa e investigação.

O enfoque de Gerda Alexander consiste em uma pesquisa contínua em maneiras especiais de aperfeiçoes seu próprio equilíbrio psico-corporal, assim como o de seus alunos por empréstimo de fontes geralmente estrangeiras ou realmente até hostis para a medicina.

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Um número razoavelmente grande de suas descobertas tem sido recebido com indiferença ou simplesmente ignorado pela instituição médica, até mesmo aqueles êxitos que foram impressionantes como, por exemplo, tornar possível que pessoas com dificuldades (consignadas à cadeira de rodas pela medicina tradicional) andassem. Para realizar isso, Gerda Alexander não inventou uma nova droga, nem construiu um aparelho milagroso. Ela contribuiu com uma nova maneira de ser, de mover e de ver saúde. Para ela, doença teria que ser considerada como parte da mina de possibilidades da tendência dos nossos corpos para defender e estimular nosso organismo. O próprio paciente se torna o principal criador da sua “recuperação”. A luta contra o inimigo microbiano foi ultrapassada na busca por uma maior unidade corpo/mente.

A medicina tradicional não poderia aceitar Eutonia sem se por, ela própria, em perigo. Mesmo hoje, não são muitos os médicos que possuem suficiente autonomia ou segurança interior para ousar questionar seu treinamento e prática da medicina.

Na sua introdução para “O caso Nora”, Moshe Feldenkrais dá uma descrição admirável sobre a posição na qual investigadores como Gerda Alexander se encontram: “O que pode parecer milagroso é baseado em uma teoria situada no meio do caminho entre a intuição de hoje e o fato científico de amanhã”. (referência 7, p.13).

Mesmo sabendo que a teoria da Eutonia é baseada num rigoroso conhecimento de anatomia e de fisiologia, os elementos essenciais das descobertas de Gerda Alexander ainda não podem ser explicados pelo nosso conhecimento científico atual. Um simples exemplo nos permitirá compreender o imenso abismo existente entre as experiências sentidas nas quais se apoia a Eutonia e o conhecimento científico e contemporâneo: quando você carrega um bebê dormindo (ou até um gato) nos seus braços, ele parece ser mais pesado do que quando está acordado. A sensação de mudança de peso entre um bebê dormindo e um que está acordado pode ser infalivelmente

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experimentada por qualquer número de pessoas; porém, não existe nenhum instrumento científico que possa “medir” e registrar essa mudança!

Para a ciência esse simples fato incomoda e é inexplicável. Gerda

Eutonia não existiria se nós tivéssemos esperado

por explicações científicas para comprovar os extraordinários efeitos pessoais

que nós experimentamos com um novo acesso à nossa realidade multidimensional” (referência 1, p.96).

Alexander diz claramente: “

Ainda

ocasiões.

assim,

Alexander

tem

colaborado

com

médicos

em

muitas

Finalmente, chamamos a atenção para o fato de que a medicina oficial continua muito presa aos conceitos materialistas e cartesianos; físicos, ao contrário, e mais particularmente físicos subatômicos, têm feito um salto qualitativo nas últimas décadas, que permite aproximar realidades não

identificáveis e irreconhecíveis, pelas suas teorias científicas tradicionais baseadas nos princípios de Newton. E um livro extraordinário de Fritjof Capra, professor de física na Universidade da Califórnia em Berkeley, demonstra como

a física moderna é capaz afinal de reconhecer certas realidades que algumas

civilizações orientais têm sabido e explicado por milhares de anos que a ciência ocidental mesmo que estivesse ciente da deles poderia admitir somente até

o risco de ver o seu próprio sistema de investigação e pensamento sucumbir. De acordo com Capra:

os dois fundamentos da física do século vinte – teoria “quantum” e a

teoria da relatividade ambos nos forçam a ver o mundo muito do modo como um hindu, budista ou taoísta o vê, e como essa semelhança se fortifica quando nós olhamos para os recentes esforços para juntar essas duas teorias com a finalidade de descrever o fenômeno das partículas subatômicas das quais toda a matéria é feita. Aqui os paralelos entre a física moderna e o misticismo oriental são mais notáveis, e nós geralmente encontramos declarações onde é quase impossível de se dizer se elas

têm sido feitas por físicos ou por místicos orientais” (referência 2, p.19).

Nós só podemos desejar que a medicina tradicional possa fazer esse salto qualitativo.

No que nos diz respeito, seguimos lidando com informações bem- fundamentadas anatômica, fisiológica e fisicamente.

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II TÔNUS

Tônus existe em todo organismo vivo. As definições de tônus variam de acordo com os diferentes enfoques para movimentar o corpo humano. Em Eutonia, tônus é definido como: o grau de atividade em um músculo em descanso aparente. Na verdade, um músculo está sempre ativo, mesmo quando aparentemente esteja passivo. É o grau de “tensão” em um músculo que particularmente afeta a circulação do sangue e da linfa mesmo quando se está dormindo. De fato, o grau de atividade de um músculo, ou seu tônus, nunca chega a “zero” grau, exceto em casos de extrema paralisia, depois de receber injeções de curare, ou quando a pessoa morre.

O tônus é responsável por toda atitude e toda postura que o corpo pode assumir enquanto em movimento ou em descanso.

Normalmente, num organismo saudável, o tônus deve aumentar simultaneamente quando o corpo está em movimento e diminuir quando o corpo está em descanso. Mas, existem partes dos nossos corpos, grupos de músculos, por exemplo, cujo tônus permanece muito alto no descanso (isso é típico de insônia). Em Eutonia, nos referimos a isso como “tônus fixado”.

A

atividade

do

Tônus

está

intimamente

ligada

com

sistemas vitais do organismo, tal como:

os

diferentes

O sistema nervoso central;

O senso de equilíbrio;

A orientação da atenção e outras funções fundamentais;

O sistema nervoso autônomo (parassimpático e simpático).

Tônus fixado ao nível de certos grupos musculares pode prejudicar cada uma de suas funções vitais. É por isso que é essencial adquirir o máximo controle do tônus.

Nessa altura, a constante interação entre a vida emocional e a função do tônus é bem conhecida. Na verdade, cada um de nós já tem conhecido o

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impacto da emoção no seu próprio corpo: por exemplo, tristeza é geralmente associada à sensação de garganta comprimida e um esterno hipersensível, medo com sensação de estômago e músculos abdominais contraídos; alegria com a sensação de leveza; raiva com a sensação de músculos contraídos nas costas, ombros, queixos, etc. Nessa relação, lembre-se que tais reações do nosso corpo são involuntárias.

Eutonia introduz a ideia de “flexibilidade no tônus”. É essa flexibilidade que nos permite atravessar cada grau da tonicidade muscular: do descanso à atividade, com a maior vigilância e competência. A flexibilidade da função tônica nos permite experimentar a gama de emoções humanas com todas as suas minuciosas sutilezas. Se a medicina está preocupada, acima de tudo, com pacientes cujo tônus é muito baixo (indivíduos “hipotônicos”, que estão apanhados em um estado de hipocinesia e passividade) e com aqueles cujo tônus é alto demais (indivíduos “hipertônicos”, que sempre tendem fazer mais do que o necessário), a Eutonia está suplementarmente preocupada com aqueles indivíduos cujo tônus permanece imobilizado no nível médio incapazes de fazer adaptações físicas e emocionais ou de criar espontaneamente a cada novo estímulo e exigência da vida. Essa habilidade de ser flexível é incrivelmente bloqueada durante a nossa educação, especialmente em escolas cujos modos de instrução “encurtam” a dinâmica, aspecto único de cada aluno. Em Eutonia nós falamos em “normalização do tônus”, quando o seu trabalho conduz o estudante a readquirir a total flexibilidade de seu tônus.

Como podemos notar, todos nós já experimentamos essas mudanças em nós mesmos: os mesmos degraus, quando subimos quatro de uma vez num dia de boas notícias, podem ser escalados desastrosamente e com dificuldade em um dia “down”. Por outro lado, nós podemos sentir a mudança do tônus de outra pessoa: Nogushi, um mestre escultor japonês, diz poder sentir, apenas por carregar suas crianças nos braços, o que aconteceu com elas durante o dia. Se o dia foi bom, a criança parece ter um peso maior. Ao contrário, se a criança teve um dia perturbado, o seu peso parece mais leve.

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A prática da Eutonia revela que cada ideia, cada pensamento, cada imagem e sua satisfação interna possuem uma influência real no tônus. Realmente, essa inter-relação funciona continuamente em dois sentidos: cada mudança no tônus é também refletida no nível da nossa vida emocional e intelectual.

É por isso que trabalhando o corpo particularmente na organização e na função tônica do organismo, a Eutonia é, acima de tudo, um trabalho holístico que toca e transforma profundamente a personalidade do estudante. Por relaxar a fixação do tônus, o aluno é liberado emocional, intelectual e criativamente.

Operar sobre o tônus revela através da experiência a realidade inseparável dos conceitos teóricos “corpo” e “mente”. Na prática, um pode sentir seu corpo e mente serem duas faces da mesma moeda: o “verso” e o “reverso”, constantemente inter-relacionados, nenhum é capaz de existir ou até de ser imaginado sem o outro.

Não reconhecimento ou aceitação dessa relação de “corpo-mente” pode, por conseguinte, provocar enormes dificuldades em relação ao funcionamento motor e da relação de si próprio e os outros.

É essa relação próxima entre corpo e espírito que faz a linguagem do corpo tão rica para aquele que tem aprendido a observar o corpo de outros conscientemente, respeitosamente e com tato.

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A TÔNUS E MEIO AMBIENTE

Nosso meio ambiente exerce uma enorme influência sobre o nosso tônus. Se o meio ambiente é “físico” (terreno – traje pressão atmosférica

ou se ele é vivo” (animais, plantas, seres

humanos

incluindo a função do tônus.

temperatura – eletromagnetismo

),

),

isso constantemente influencia o sistema vital do organismo,

A princípio, introduzir Eutonia consiste em ser capaz de sentir o impacto do meio ambiente no campo e daí ser capaz de dominar isso o máximo possível.

Todo encontro com um ser humano influencia o nosso tônus.

Todo mundo tem sido capaz de observar o impacto que pessoas nervosas ou ansiosas podem ter sobre aqueles ao seu redor: eles carregam a atmosfera. O impacto de uma pessoa calma e relaxada é totalmente diferente. Essas influências tônicas - positivas ou negativas, conscientes ou inconscientes -, condicionam a natureza das nossas relações com outros seres humanos. É fundamental estar ciente disso. Crianças são particularmente sensíveis a tais influências, mesmo sabendo os adultos podem voluntariamente tentar esconder seus estados da mente. “Mesmo sabendo que a mãe deve ter

aprendido, ela própria, a sorrir e pronunciar frases corteses aos estranhos e aos de classe alta, e não deve manifestar medo algum na sua face de caretas artificiais, a

criança gritona nos seus braços denuncia o pânico oculto” (Bateson and Mead,

citado em Montagu, referência 7, p.110).

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Características das funções tônicas

Alguns conceitos anatômicos precisos nos permitirão compreender as funções características do tônus em relação à função fásica dos músculos.

Nossa musculatura é composta de dois tipos principais de músculos:

músculos estriados (ou voluntários) e músculos lisos (ou involuntários).

Músculos lisos: o movimento destes músculos é completamente involuntário. Eles são controlados pelo sistema nervoso involuntário, conhecido como sistema nervoso autônomo ou vegetativo; por exemplo, os músculos das vísceras (estômago, intestinos, etc.) ou as glândulas (como as glândulas salivares ou sudoríparas). Assim, nós podemos atender aos nossos negócios sem prestar atenção para nossa digestão, circulação linfática, atividade endócrina, etc.

Músculos estriados: estes músculos estão sob o controle do sistema nervoso central. Os músculos estriados possuem duas funções: atividade cinética, também chamada atividade PHASIC; é o alongamento e a contração das fibras musculares que causam movimento do membro no espaço. Esta atividade é voluntária e controlada pelo sistema nervoso.

Atividade tônica: ela dá certa tensão básica para o músculo, seja no descanso ou na atividade. Esta atividade tônica dá ao músculo, assim como para o resto do corpo, uma firmeza e forma apropriada. O tônus é responsável por todas as posições feitas pelo corpo em atividade ou em descanso; por exemplo, a postura de um gato em atenção, a postura de uma pessoa em sono profundo. Esta atividade do tônus é involuntária, mas, assim como podemos ver, ela pode ser influenciada indiretamente.

Finalmente, nós podemos notar que apesar do sistema nervoso autônomo exercer suas funções independentemente do sistema nervoso central, eles estão ambos proximamente associados e capazes de atividade sinérgica.

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Cada um pode sentir a diferença entre a função involuntária do tônus e a função fásica voluntária dos músculos estriados. Nós fazemos nossos negócios diários sem notar particularmente o que as nossas pálpebras estão fazendo. Nossos olhos estão abertos e então nossas pálpebras se fecham regularmente para cobrir nossos olhos por um décimo de segundo para limpá-los e descansá-los. Esta atividade involuntária é feita pela função tônica dos músculos elevadores das pálpebras. Esta atividade pode ir por horas, sem cansar. Se nós estamos cansados no final do dia, nossas pálpebras se tornam pesadas. O tônus geral do corpo, junto com os músculos elevadores das pálpebras, está abaixado. Se nós decidimos neste estágio manter nossos olhos abertos de qualquer maneira, nós estamos fazendo um esforço voluntário para “segurar” nossos olhos abertos; nós agora recorremos às funções voluntária e fásica dos músculos elevadores das nossas pálpebras. O simples ato de manter os olhos abertos se torna cansativo e dolorido apesar de, visto objetivamente, as pálpebras serem quase sem peso.

Essa distinção entre o tônus e a função fásica é essencial para se entender a tese da Eutonia que dá um lugar de destaque à função do tônus.

Algumas das investigações em Eutonia consistem em restabelecer um tônus adequado para o corpo, baseado nas atividades habituais das pessoas; o tônus não deve ser baixo demais, senão a pessoa se move com uma sensação de peso e experimenta certa dificuldade em iniciar o movimento. Além disso, quanto mais baixo o tônus, maior é a exigência da função fásica voluntária, o que causa uma grande quantidade de fadiga e de esforço muscular. O tônus também não pode ser muito alto há o perigo de perder a flexibilidade e os recursos articulares do corpo.

A atividade da função do tônus não pode ser voluntária: durante a transmissão do impulso de um nervo voluntário para o músculo, o tônus do músculo não pode ser mudado, o músculo só pode ser contraído. Se uma pessoa exerce uma contração voluntária permanente, ela se torna paralítica cerebral, resultando numa perda de sensibilidade local e progressiva deterioração do equilíbrio autônomo. E, infelizmente, isto é o que ginásticas e a

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dança clássica fazem constantemente: embora possuam uma louvável intenção de “tonificar” o corpo, criam extremos, através de contrações musculares crônicas, por reforçarem constantemente a função muscular cinética e voluntária em detrimento da função tônica. Assim, por exemplo, para o corpo ficar reto, tanto a dança clássica como a ginástica clássica reforçam a contração dos músculos dos pés, das pernas, do abdômen, das costas, do tórax, do pescoço, etc. Com esse tratamento, é verdade que a função tônica é atingida os músculos permanecem constantemente tensionados. A postura em pé não requer nenhuma contração muscular se o tônus básico de todo o corpo está suficiente alto. Ficar de pé não requer mais contração de músculos do que é requerido para manter os olhos abertos quando a pessoa está fresca como uma margarida.

Um efeito direto na função tônica pode ser obtido por dirigir atenção para partes diferentes do corpo. Por exemplo, o simples ato de sentir o seu polegar (seu formato, comprimento, direção, juntas, unha) muda o tônus do polegar e da mão. Com treinamento, a sensação de variação do tônus se torna mais e mais precisa e necessita de menor esforço.

Tão paradoxal quanto isto possa parecer à primeira vista, dominar a função tônica requer uma atitude de não volição e de não fazer, que é semelhante com a sabedoria oriental.

A experiência de Eutonia nos permite ter uma melhor compreensão e conhecimento da importância das disciplinas antigas como ZEN. A “experiência viva”, como é descrita por Eugen Herrigel no seu livro sobre “A arte cavalheiresca do arqueiro Zen” (“Zen in the art of Archery”), é semelhante em muitas considerações com as descobertas da Eutonia, particularmente na importância que Zen concede à liberação da função tônica.

gestos aparentemente sem esforço

eram marcados com beleza. Faça o mesmo, mas lembre que a arte do arqueiro não quer dizer fortalecer os músculos. (Os arcos japoneses referidos aqui possuem uma extraordinária tensão por causa da sua construção peculiar na maioria das vezes, assim como o bambu usado neles. O arco é de quase 2 metros de comprimento e a corda não é totalmente tensionada). Para acionar a corda, não é necessária usar toda a força do nosso corpo, mas você precisa aprender a deixar só suas duas mãos

“Finalmente, ele deixa a flecha voar

Seus

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fazerem todo o trabalho, enquanto seus músculos do ombro e do braço parecem não tomar parte na ação. Somente quando você puder fazer isto, você terá cumprido uma das condições graças à qual você irá puxar o arco espiritualmente”. (Herrigel,

referência 9, p.31)

puxar o arco espiritualmente”. (Herrigel, referência 9, p.31) Professoras Jussara De Chiara e Valentina Daldegan 1

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CONTATO

“Cada cultura favorece ou treina especificamente seus jovens, crianças e adolescentes para desenvolver diferentes tipos de limite para contatos táteis e estimulação, de maneira que suas características orgânicas, constitucionais e temperamentais são

acentuadas ou reduzidas”. (Frank, citado por Montagu, referência 7, p. 220)

A Eutonia faz uma forte distinção entre toque e contato.

A PELE E O TATO

“O que é mais profundo no homem é a pele”

Valery (Idee Fixe)

Considerando que a pele, assim como o sistema nervoso, surge da

ectoderme e que suas funções são diversas; pela sua posição de envelope do

corpo, ou limite exterior, ela é simultaneamente um órgão sensorial a pele

contém os receptores sensório-nervosos que recebem uma grande porção de

informações sobre o meio ambiente, um órgão protetor, o corpo é protegido

contra intrusões nocivas, assim como material fecal, radiação, raio X, etc.

A pele desempenha um papel de reguladora (temperatura do corpo,

adaptação à pressão atmosférica), assim como um papel metabólico.

Sabendo destes fatos anatômicos básicos, nós podemos prontamente

medir a importância da pele em proteger e manter a vida.

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CONTATO

Através do toque nós experimentamos o limite externo do nosso organismo; através do contato nós nos abrimos para os nossos arredores e entendemos nossa consciência corporal para “sentir” além do limite visível de nossa pele. Essa capacidade de contato é onipresente na nossa vida diária. Por exemplo, ela nos permite andar na rua enquanto usamos sapatos, botas e até saltos altos; nossos pés não tocam o chão diretamente e nós ainda podemos sentir através dos nossos sapatos. Essa capacidade de contato também nos permite ter uma relação real e sensível com outra pessoa, mesmo sem tocá-la. Contato consciente tem uma influência mais forte do que simplesmente tocar. Contato harmoniza tensões inferiores e facilita o equilíbrio do sistema nervoso autônomo. Normalmente, o ser humano entra em contato espontâneo com o seu meio ambiente. A criança que é amamentada está em próximo contato corporal com o corpo da mãe. Um bom músico se torna “um” com o seu instrumento; um bom artista “sente” seu instrumento. Contudo, essa capacidade de contato é geralmente bloqueada com o crescimento da criança; em alguns casos, pode resultar em sérias formas de patologia. Por exemplo, crianças autistas se retiram e se fecham completamente ao mundo exterior, o qual elas julgam que seja horrivelmente perigoso.

O aluno pode recuperar sua capacidade de fazer contato consciente por cada parte do seu corpo. O fenômeno de contato que existe no estado inconsciente é reforçado, por exemplo, por pensar em direção ao objeto seguro nas mãos de alguém. Com treinamento, o aluno pode conseguir sentir a forma de um objeto ao tocá-lo em um único ponto; e ele pode se tornar progressivamente capaz de sentir uma pessoa na sua totalidade, embora ele a toque apenas em um ponto determinado.

As técnicas de tratamento em Eutonia são em grande parte baseadas no “contato”; já que eu não tenho a habilidade de ter um resumo preciso das descobertas feitas pela Eutonia em terapia, esse aspecto não será discutido. Eu irei simplesmente mencionar que antes de entrar em contato consciente

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com outra pessoa você deve ter domínio suficiente de seu próprio equilíbrio tônico e autônomo. Acima de tudo, é necessário ter respeito pela outra pessoa. Na verdade, quando nós estamos em contato com a outra pessoa, nós podemos transmitir nosso próprio equilíbrio assim como nossos desequilíbrios (tensões, dificuldades em respirar )

Um dos objetivos principais da Eutonia é desenvolver a capacidade de contato consciente com seu meio ambiente, ao mesmo tempo mantendo uma sensitiva e sólida presença em si mesmo. O eutonista sempre convida pessoas entrando no contato consciente com seu meio ambiente, a permanecerem presentes dentro delas próprias enquanto avaliam constantemente a influência do contato no corpo todo. Pode acontecer, por exemplo, que a sensação de um pau de bambu seguro nas mãos se torna tão forte que leva o aluno a ficar cônscio só do bambu, deste modo perdendo totalmente a consciência do seu próprio espaço interior. Visto que isto exige uma “transição” na consciência, não vale mais a pena manter o propósito da Eutonia, a qual aspira por um aumento de consciência, ao invés de um deslocamento da consciência.

A perda da presença de si próprio é muito mais crítica quando a pessoa está em contato com outra pessoa; a pessoa pode perder completamente a sensação de si própria e invadir totalmente o outro. É por isso que o contato rotineiro com outra pessoa só é permitido quando o aluno está proprioceptivamente estável ou equilibrado interiormente. A técnica de contato livra e libera movimentos. Isso será discutido detalhadamente no capítulo sobre movimento.

Contato em Eutonia é uma troca ou uma relação em duas direções:

entre si próprio e o meio ambiente, e entre o meio ambiente e si próprio. Contato é uma busca do equilíbrio sem ter uma direção predominando sobre a outra.

Por colocar o desenvolvimento do toque e contato no centro de sua pedagogia, a Eutonia é, em essência, um “relationalwork”, que permite a todos

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que desejarem, fazer com que a segurança seja aberta dentro do seu meio ambiente.

com que a segurança seja aberta dentro do seu meio ambiente. Professoras Jussara De Chiara e

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III - O ESQUELETO

“Quão falso, sem substância e inquietador

A cabeça de uma pessoa iria parecer

Se não tivesse

A cabeça de um morto dentro”

“How false, insubstantial and disquilting

A

living person´s head would seen

If

there were not

A death´s head inside”

Jacques Prevert

Jaques Prevert e muitos outros poetas têm oferecido admiráveis exemplos da obviedade das coisas. Eles são geralmente tão tautológicos como se parecessem infantis. E mais, são dotados de profunda sabedoria.

Estamos em uma época obcecada por “músculos”. A educação física tradicional está largamente baseada nos conceitos suecos de ginástica e desempenha um papel no desenvolvimento desta valorização dos músculos; nós vemos surgir em todos os lugares programas de desenvolvimento muscular nos quais “construção corporal” talvez seja o caminho mais representativo. Não é nossa intenção desacreditar esses métodos, mas a maioria deles não vê um fato anatômico essencial. Embaixo da pele existem músculos, é claro; mais abaixo dos músculos, existem ossos. Sem o esqueleto, que persiste muito tempo depois da morte, nós não teríamos o formato de seres humanos; sem um esqueleto, seríamos uma simples forma de larva. Imagine-se por um momento sem esta estrutura óssea presente dentro de si, e compreenderá a imensa vantagem de finalmente levar a existência dela em consideração.

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A. TORNANDO-SE CONSCIENTE DOS OSSOS

- Prática e Ensino 3 A. TORNANDO-SE CONSCIENTE DOS OSSOS Ao observar crianças pequenas, podemos verificar

Ao observar crianças pequenas, podemos verificar e apreciar a importância

do esqueleto:

a) Se alguém coloca os calcanhares de uma criança recém-nascida em uma superfície resistente, sua coluna vertebral inteira se estica, do cóccix até a cabeça.

b) Uma criança pequena, só com alguns meses de idade, permanece numa posição sentada sem ajuda, sua coluna vertebral fica reta e ativa.

c) Uma criança começando a andar muda o peso do seu corpo de um pé para o outro (com a coluna vertebral e a cabeça bem posicionadas).

Nestes três exemplos é inconcebível falar-se de força muscular nessas

crianças. De fato, elas permitem à energia física passar através do esqueleto: a

criança recém-nascida deixa a energia física passar dos calcanhares em

direção à cabeça (reflexo involuntário righting); a criança pequena em posição

sentada permite a energia passar através dos pequenos anéis pélvicos

(ísquios) até o topo da cabeça; a criança que está começando a andar

“desloca” seu esqueleto empurrando seus calcanhares contra o chão.

E ela permanece de pé pela “força” do seu esqueleto. A criança que está

começando a andar não precisa desenvolver os músculos da barriga da perna.

Se você tocar os músculos de uma criança pequena que está de pé, poderá

verificar que eles estão completamente relaxados.

A Eutonia re-ensina o uso consciente do primitivo e quando não, do

“reflexo righting” involuntário, o que permite a energia física passar livremente

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através do esqueleto, enquanto a musculatura periférica permanece livre e relaxada. Gerda Alexander chama esse esforço consciente de “carrage”, para distinguir isso do reflexo righting involuntário.

Tomar consciência do esqueleto (sensação precisa da estrutura óssea, combinada com a correta imagem anatômica do corpo) resulta em um sentimento de segurança e surpreendente energia interior. Além disso, esse fato gera estabilidade mental e emocional, o que é da máxima importância nessa era de grande e rápida mudança que vivemos.

O aluno aprende gradualmente a experimentar seu esqueleto na sua totalidade. Coexistente com essa busca pela unidade, ele também desenvolve um crescente bom conhecimento de cada osso, até de sua forma exata, direção, espaço interno (medula, circulação) e a sua conexão com ossos adjacentes, através das juntas (articulações), tendões, etc.

Desenvolvendo um preciso senso da estrutura óssea, nossas mais profundas e mais primitivas tensões emocionais internas podem ser liberadas com segurança. Reich e Lowen têm corretamente falado de várias contrações musculares e fixações tônicas que bloqueiam a energia da pessoa e a impedem de viver inteiramente sua vida adulta. Em Eutonia, nossas considerações e experiências levam em conta que ainda existem tensões mais profundas que influenciam nossa vida emocional interna; elas estão fixadas na própria estrutura óssea, nos tendões, entre os tendões e o esqueleto. Na realidade, é possível relaxar não só os músculos, mas a estrutura óssea também. De fato, enquanto “relaxamos” um osso, afetamos profundamente toda a musculatura ligada a ele, livre de fixações do tônus, e assim melhoramos a circulação do sangue e da linfa.

Consciência da estrutura óssea resulta em uma sensação de leveza que permite movimentar sem fatigar. Esse efeito é praticamente precioso para os

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deficientes físicos e pessoas idosas, cujos músculos estão fracos e atrofiados. Este aspecto será explicado em detalhes na seção intitulada “Transporte”.

A Eutonia emprega um número de estratégias para tornar uma pessoa

consciente da estrutura óssea.

para tornar uma pessoa consciente da estrutura óssea. Aqui estão alguns exemplos: com a mão ou

Aqui estão alguns exemplos: com a

mão ou um pau de bambu, bata levemente nas extremidades dos ossos e sinta a vibração à medida que ela se espalha através dos espaços entre os ossos. Com um pau de bambu, faça contato em parte do osso; pelo estímulo do ponto de contato, pode-se tornar consciente de todo o osso.

É mais gratificante aprender como desenhar e fazer modelos em argila

da estrutura óssea de (1) ilustrações anatomicamente corretas e (2) das

próprias sensações da pessoa.

anatomicamente corretas e (2) das próprias sensações da pessoa. Professoras Jussara De Chiara e Valentina Daldegan

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anatomicamente corretas e (2) das próprias sensações da pessoa. Professoras Jussara De Chiara e Valentina Daldegan

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B TRANSPORTE

esforço de força

automaticamente provoca uma força contrária (reaction force), de igual

intensidade e exatamente oposta em direção à força inicial.

Em física,

é

um fato

bem

conhecido

que

cada

Como uma consequência das percepções básicas na Eutonia, o corpo humano é capaz de aproveitar-se completamente desses princípios da física. Por exemplo, quando nós estamos de pé imóveis, pelo nosso próprio peso, mandamos uma força perpendicular ao solo e automaticamente, conforme a lei da física citada acima, o solo manda de volta uma força de igual intensidade, paralela à outra direção. Por outro lado, a resistência e a solidez do esqueleto asseguram a essa força/reação uma passagem específica através do corpo, dos pés até a cabeça. A realização do transporte consiste em aprender permitir que essa força passe conscientemente através do esqueleto, enquanto libera toda a musculatura periférica, chamada musculatura dinâmica - para distingui- la da musculatura de sustento, sendo a última mais profunda. Mais precisamente, quando estamos em pé (note que não dizemos: “quando nós nos carregamos em uma posição de pé”), a força passa através dos ossos do pé (calcanhar), daí através da tíbia, segue pela articulação do joelho em direção ao fêmur (coxa) através da articulação do quadril, dirige-se para a parte superior do sacro, daí vai através da quinta vértebra lombar, percorre toda a coluna vertebral até o atlas (primeira vértebra do pescoço), próxima ao topo do

.
.

crânio

suficiente permitir que a força passe através do esqueleto {que tem o efeito de trazer à tona somente a musculatura de sustento com a exceção do

é

Desse

modo,

para

ficar

de

pé,

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quadratus lumborum (quadrado lombar), que liga a parte superior da pélvis com

as costelas inferiores};

a parte superior da pélvis com as costelas inferiores}; mas um número razoavelmente grande de pessoas

mas um número razoavelmente grande de pessoas se torna tensa nos pés, nos joelhos, nos quadris, no abdômen inferior, entre as costelas, na garganta, levanta seus ombros para cima, cerra o queixo e a língua. Essa sinfonia de contrações musculares não é só inutilmente fatigante, como também diminui muito a capacidade do corpo para respirar. Essa atitude de superatividade muscular geralmente origina da ideia que a pessoa deve “ficar reta”. Gerda Alexander chama essa ação consciente de “carriage”, com a finalidade de distinguir isso do reflexo righting, que é inconsciente e geralmente perdido nos adultos. Esse reflexo righting pode ser obtido em todas as posições possíveis, que um aluno será capaz de desenvolver uma consciência precisa do seu esqueleto.

A sensação de transporte da força através do corpo realmente permite ao aluno libertar sua musculatura periférica e torna-a particularmente livre para respirar. “Carriege e seus prolongados efeitos estimulam a circulação de um tal modo que um sobre-esforço é evitado durante o esforço violento.”, diz Alexander. Como a árvore que coloca suas raízes profundamente dentro da terra e permite seu tronco elevar-se nos ares em direção do céu, o aluno pode ter a sensação subjetiva que a energia é encontrada no solo. Na verdade, energia se origina na estreita relação entre si mesmo e o meio ambiente (solo, cadeira, instrumento, outros seres humanos etc.).

O aluno pode progressivamente se mover por “deslocar seu esqueleto”. Isto pertence a um salto qualitativo numa dinâmica do movimento do aluno, que irá então realmente permitir cada movimento de se originar do centro do corpo (fibras nervosas da espinha). Essa possibilidade dá ao movimento grande

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leveza e liberdade. É interessante notar que o corpo da quinta vértebra lombar está localizado exatamente no meio do corpo. Nesse ponto poderia muito bem ser “a Hora”, tão frequentemente mencionada nas tradições Ocidentais como sendo o centro de todo o movimento.

Desde a idade média, o esqueleto tem sido associado com a mórbida ideia da morte. A Eutonia nos permite redescobrir que o esqueleto carrega vida dentro dele (além disso, as células sanguíneas são produzidas pelo osso da medula). De acordo com Gerda Alexander: “O esqueleto é a expressão do espírito, uma maravilha espiritual. Ele carrega dentro de si tudo que o ser humano tem disso, tudo que ele deseja ser e tudo que ele será”.

65903&type=2&theater Professoras Jussara De Chiara e Valentina Daldegan 2 4

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Educação Musical - Prática e Ensino 3 Professoras Jussara De Chiara e Valentina Daldegan 2 5

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Educação Musical - Prática e Ensino 3 IV – MOVIMENTO “Toda a vida é movimento; tudo

IV MOVIMENTO

“Toda a vida é movimento; tudo que tem acontecido está em movimento. Nada que é imóvel está vivo. Água estagnada está morrendo; só água corrente, água "branca” tem vida. O mesmo é verdadeiro para o nosso corpo; para estar verdadeiramente vivo, não se pode estar nem imóvel nem inativo. Nós carregamos dentro de nós mesmos certas partes imóveis ou estagnadas. Elas não tem sido usadas por muito tempo e estão “diminuindo” por desuso. Elas enfraquecem nosso corpo e reduzem seu vigor físico, assim como suas faculdades intelectuais e mentais; elas impedem a circulação de energia, formam um obstáculo para a percepção compreensiva e quebram harmonia. Desse modo, movimento revela-se indispensável para a vida e o florescimento de todo o nosso ser”.

(James Kon, 6, p. 13)

A Eutonia convida a pessoa para encontrar um caminho pessoal para mover, que respeite as leis da natureza, não impeça a respiração, a circulação e outras funções orgânicas, enquanto assegure máxima eficiência com um mínimo de energia. Tal requinte pode ser realizado somente quando sensações

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proprioceptivas e exteroceptivas se tornam mais e mais precisas. O aluno aprende a avaliar todo o tempo o impacto que seu próprio modo de movimentar tem em seu corpo. Na realidade, o aluno deve abandonar todos os estilos de movimento, maneirismos culturais, ou movimentos copiados de fora, para uma busca pessoal interior, que sozinha pode produzir a qualidade do movimento; apesar da Eutonia aspirar estética, o aluno irá progressivamente suceder em se movimentar com elegância assegurada.

Essa nasce da unidade, fluidez, facilidade e leveza que ele terá adquirido, ao contrário de um desejo de “fazer bem”. Isso é bastante comparável com a graça felina.

bem”. Isso é bastante comparável com a graça felina. Professoras Jussara De Chiara e Valentina Daldegan

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bem”. Isso é bastante comparável com a graça felina. Professoras Jussara De Chiara e Valentina Daldegan

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A AS DIFERENTES FUNÇÕES DO MOVIMENTO

Nós podemos diferenciar quatro funções do movimento:

1. A função autônoma (vegetativa)

Todos esses movimentos asseguram a vida e são involuntários; por

exemplo,

metabolismo, etc.

circulação

do

sangue,

linfa,

respiração,

2. A função motora de deslocamento

movimento

visceral,

Essa função refere-se aos movimentos que nos permitem mudar de posição, nos mover sobre as coisas e interagir com pessoas. Para sermos claro, possuímos certo número de esquemas inconscientes correspondendo aos nossos vários movimentos diários. Por exemplo, para andar, um movimento bastante complexo, nós não temos que pensar sobre a maneira que nós usaremos os nossos dedos, joelhos ou quadris. Esse movimento se tornou automático e, na maioria das vezes, nós nem sabemos exatamente o que nós fazemos para andar. Note que esses esquemas de movimento podem ser inadequados: por exemplo, cerrar o queixo enquanto escreve.

3. A função expressiva

Inclui nossos gestos e atitudes expressivas, ambos verbais e não- verbais (postura do corpo, tom de voz, ritmo de falar, posição das mãos, expressões faciais, etc.). Essa função do movimento é fortemente influenciada pelos valores sociais e culturais adquiridos.

4. A função de manutenção

Inclui todos os movimentos pelos quais a pessoa acorda, renova as atividades, descansa e mantém seu organismo; por exemplo: bocejando, espreguiçando, friccionando, arranhando, tremendo, espirrando, vendo; um número razoavelmente grande desses movimentos vitais é considerado socialmente “sem educação”. Alunos iniciantes geralmente acham muito difícil movimentar-se dessa maneira. Crianças pequenas e animais podem dar-nos lições a respeito da importância da função de manutenção. É verdade que eles

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não aprenderam a distinguir entre movimentos corretos e “indecentes”. O aluno gradualmente aprende a detectar suas necessidades profundas. Os movimentos acima, os quais ItsuoTsuda chama de “movimentos regenerativos”, são discutidos pormenorizadamente em seu livro (Tsuda, 8, p.

20).

são discutidos pormenorizadamente em seu livro (Tsuda, 8, p. 20). Professoras Jussara De Chiara e Valentina
são discutidos pormenorizadamente em seu livro (Tsuda, 8, p. 20). Professoras Jussara De Chiara e Valentina
são discutidos pormenorizadamente em seu livro (Tsuda, 8, p. 20). Professoras Jussara De Chiara e Valentina

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B FINS E PRINCÍPIOS DO MOVIMENTO EUTONIA

Desde a primeiríssima lição o aluno é convidado a mover-se com presença e consciência. Essa qualidade da presença e da atenção consigo mesmo e com o meio ambiente pode ser bastante perturbadora no começo um pouco como centopeia tendo que se perguntar em que sequência ela deve mover seus pés. Mas essa fase do trabalho é muito importante, pois permite ao aluno tornar-se cônscio de uma série de pequenas contrações e movimentos expressivos; não existe nenhuma razão para que eles devam ocorrer como parte do esquema funcional (por exemplo, segurar a respiração e apertar o abdômen quando se corta um pedaço de pão). Contrações e movimentos expressivos particularmente impedem as funções autônomas (vegetativas) e são necessariamente fatigantes.

O aluno gradualmente aprende a se mover ao observar a variação em suas maneiras de tocar o chão, em observar seu espaço interior (músculos, estrutura óssea, circulação, sensação de “carriège” por todo o corpo) e por ter cuidado em deixar sua respiração livre. Sua respiração irá espontaneamente ajustar-se ao ritmo e amplitude de acordo com as necessidades do momento.

CARACTERÍSTICAS DO MOVIMENTO EUTÔNICO

a) TÔNUS HARMONIOSAMENTE DISTRIBUÍDO POR TODO O CORPO.

“Quando uma parte do corpo está em movimento, todo o corpo está movimento e quando um membro do corpo está em descanso, todo o corpo deve estar em descanso”.

Nessa citação, James Kou admiravelmente descreve a noção de um tônus harmoniosamente distribuído por todo o corpo. Os dois exemplos seguintes ilustrarão esse conceito se você tentar andar com um dedo contraído, depois de poucos momentos a câimbra irá se

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espalhar para a barriga da perna, a coxa, o quadril, em direção à área

lombar.

Hipertensão local pode também influenciar o tônus de todo o corpo.

Além disso, nossa sociedade, que certamente experimenta tensão

excessiva, é preocupada com o relaxamento. Mas relaxar pode ser

catastrófico para o corpo, caso ele esteja desacostumado com o

movimento que está sendo executado: por exemplo, enquanto sentados,

muitas pessoas relaxam as costas e as deixam curvas; essa postura

pode parecer “legal”, mas ela envolve pressão nos músculos

abdominais, músculos dos ombros, costelas, etc. Na realidade, o

movimento pode ser feito sem cansar e prejudicar o organismo apenas

se todos os músculos do corpo tiverem o mesmo tônus básico. Essa

harmonia do tônus geral permite à pessoa realizar e experimentar a

unidade do seu corpo de um modo real.

“Unidade Corporal pode ser definida pelo fato que um movimento não esteja bloqueado em nenhum nível do corpo e pode ser transmitido através do corpo inteiro. Essa total participação pelo corpo é evidente em todo momento, incluindo respiração. Esse é um princípio igualmente verdadeiro para as outras funções, como a fala e todas as formas de satisfação”. (Digelmann, 3, p. 22).

b) FLEXIBILIDADE DO TÔNUS, EM CONTÍNUA ADAPTAÇÃO COM O ATO DE VIVER. Essa ideia foi completamente apresentada na sessão sobre tônus.

c) PRESENÇA

d) MANTER CORRIAGE DE TODO O ESQUELETO

e) PROLONGAMENTO E CONTATO

f) LEVEZA

g) CONFORTO E ECONOMIA.

Desde o começo, o aluno é convidado a integrar suas descobertas na sua

vida diária. Pouco a pouco, se ele tem êxito em mover com real presença e

sensível atenção na sua vida diária, a movimentação rígida e sem função

desaparece, e é substituída por novas atitudes, melhor adaptadas ao presente.

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C ESTUDOS DO MOVIMENTO

No decorrer do seu desenvolvimento em Eutonia, o aluno segue certo

número de estudo do movimento. O professor de Eutonia propõe um tema

“funcional” para ser explorado pelo aluno. O que segue são temas possíveis

para estudo do movimento:

Variações em tocar o solo;

Investigação on carriage em várias situações;

Forma de um movimento quando iniciado por uma parte do corpo (por exemplo, mover o cotovelo, joelho, cóccix).

Apesar de o aluno mover com precisão, a forma exata do movimento é

deixada para a sua própria iniciativa, guiada pelos seus próprios impulsos e

sua dinâmica própria. Ainda quando o tema é funcional, contentamento afetivo

e emocional vem à superfície durante a exploração, pelo aluno, da forma do

movimento.

Como o processo instrutivo se desenvolve em um estudo do movimento:

primeiro, o professor propõe um exercício de sensibilização baseado no tema

do estudo. Então o aluno improvisa livremente sobre o tema. De suas

improvisações, ele cria e decide por uma forma definitiva, que possa ser

reproduzida muitas vezes de um modo absolutamente idêntico.

O aluno se permite “interpretar” a forma, regular a intensidade, a sincronização e o ritmo dos movimentos. Ele apresenta seu estudo antes do grupo.

Avaliação:

Auto-avaliação

Pelo eutonista

Avaliação

do

grupo.

Feedback do Eutonista: a atitude do eutonista é muito rigorosa nessa

conexão. À primeira vez, ele revela para o aluno que progresso ele tem

observado e os desenvolvimentos proeminentes que contribuíram na sua

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direção de investigação. Depois, indica quais elementos são para serem explorados novamente e aperfeiçoados. Esses elementos devem estar dentro da capacidade do aluno e adaptados às suas necessidades. Geralmente, mesmo enquanto aponta esses elementos, o Eutonista dá exemplos de atalhos ou caminhos úteis para explorar novas possibilidades.

Representação do estudo do movimento é um instrumento fecundo. A experiência prova que esses estudos do movimento geralmente representam um estágio importante no desenvolvimento do aluno de Eutonia. Eles permitem estabilizar sua experiência e explorar novas possibilidades com segurança.

Além disso, o estudo torna-se uma ocasião para os observadores desenvolverem sua própria capacidade de observação e consciência sensorial dos outros. O observador pode realmente “entrar em harmonia” com a pessoa que está apresentando seu estudo, até o ponto de sentir no seu próprio campo a qualidade do movimento apresentado.

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V. PEDAGOGIA

Pelos seus princípios, a pedagogia é muito precisa em Eutonia. Das primeiras lições, o Eutonista convida o aluno para entrar em contato com o meio ambiente imediato. À medida que o aluno desenvolve suas sensações proprioceptivas, esta capacidade para observação conduz para um grau crescente de abertura para o mundo exterior.

Tais investigações fazem da Eutonia um treino fundamentalmente relacional. A experiência prova que a capacidade de relaxar e de sentir a si mesmo em harmonia quando se está sozinho, tem pouquíssimo valor, se essa qualidade de presença é perdida quando a pessoa está se relacionando com outros seres humanos.

O objetivo da Eutonia é desenvolver no aluno a capacidade para observação no presente: a habilidade para observar exatamente “o que está acontecendo” e não “o que a pessoa desejaria que acontecesse”. Progressivamente, o aluno aprende a observar seu corpo do modo mais “neutro” que puder; ou seja, recebendo sensações diferentes à medida que eles chegam à sua consciência, sem distorcê-las, disfarçá-las ou ocultá-las. Através dessa capacidade de observação do presente, o aluno começa a descobrir as características fundamentais e inseguras de suas sensações, e da sua vida em geral. Devemos reiterar nossa verdade que “estar em Eutonia” não é um estado adquirido uma vez e para todo o tempo, mas sim uma constante atividade diária, um reequilíbrio constante estimulado pela mudança básica, natural da vida. No espírito, a Eutonia é estimulada por um questionamento dinâmico; o instrutor de Eutonia que abandonou sua investigação pessoal e está contando com suas experiências anteriores e realizações, definitivamente pode aplicar somente uma técnica pobre em espírito e vazia da sua substância essencial.

Para permitir o despertar da sua capacidade de observação do presente, as sugestões são evitadas o máximo possível. Em vez de dizer: “sinta o seu braço pesado no chão”, nós dizemos: “observe o peso do seu braço no chão”.

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Em vez de dizer: “sinta todo seu corpo relaxado como se ele afundasse no chão”, nós dizemos: “sinta que partes do seu corpo tocam e estão situadas no chão”. Deixando de fazer sugestões, o aluno Eutonista dá ao aluno a oportunidade de sentir o seu corpo como ele é e, não como se espera que ele seja. Esse é o primeiro passo em direção a uma maior aceitação de si mesmo e dos outros.

em direção a uma maior aceitação de si mesmo e dos outros. Professoras Jussara De Chiara

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RESPEITO PELA PERSONALIDADE HUMANA é um dos pilares da pedagogia da Eutonia. Desde o começo, a Eutonia estimula a capacidade da pessoa para a autonomia. Como primeira lição, o aluno tem o papel principal. O pedido de “ATENÇÃO” e participação é estendido até para aquelas pessoas que estão doentes, e mais dependentes fisica e espiritualmente. Nessa discussão, o termo “aluno” designa cada pessoa engajada em aplicar Eutonia. O uso desse termo sublinha a característica essencialmente dinâmica e ativa de um aprendizado da Eutonia. Esse aspecto é muito importante: significa que o aluno sozinho é responsável pelo seu desenvolvimento pessoal; o Eutonista está presente para convidá-lo, não para induzi-lo a tomar certos caminhos na sua observação. Portanto, a pedagogia da Eutonia tem a investigação pessoal do aluno como base. Essa investigação, que traz profundas mudanças no aluno, é cumprida no seu próprio ritmo; todas as capacidades orgânicas da pessoa para mudança são estritamente respeitadas.

Como nós vimos na seção dedicada ao movimento, o aluno reaprende a expressar sua profunda originalidade. A aceitação das diferenças individuais ocorre no começo das discussões grupais, que geralmente ocorrem no final da sessão. Por exemplo, depois de um inventário completo da pessoa (sentir a coxa, o joelho, a batata da perna, a tíbia, o tornozelo, o calcanhar, os dedos), o Eutonista pede ao aluno para comparar ambas as pernas e observar se pode sentir diferenças de sensações entre elas. O aluno descobre dessa vez que as sensações específicas que sente são diferentes daquelas experimentas pelas outras pessoas do grupo. Assim, ele pode começar a levar em consideração as reais diferenças entre as pessoas do grupo. Esse é um dos motivos pelos quais as sessões de Eutonia geralmente acontecem em grupo.

Além disso, a Eutonia não convida o aluno para classificar sensações como boas ou ruins, respeitáveis ou vergonhosas. Adquirir essa atitude de sentir sensações sem classificá-las é difícil para muitas pessoas que estão acostumadas a pensar de uma maneira dualista, cartesiana (bom como o oposto ao diabo; o corpo oposto ao espírito).

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Outro pilar da pedagogia da Eutonia é a contínua alternância entre desestruturar e reestruturar a unidade psico-corporal do indivíduo. De fato, a Eutonia não está limitada a libertar tensões, emoções e sistemas profundos do aluno; esse aspecto do treinamento não é muito difícil. É muito mais difícil dar ao aluno caminhos específicos para integrar tais liberações à sua vida diária (“sem transformá-lo”), como geralmente ocorre com certas aproximações “fortes”, onde o indivíduo tem necessidade de três ou quatro anos para “se encontrar”.

Dentro do alcance da investigação da alternância entre desestruturar e reestruturar, não existe lugar algum para a noção de fracasso ou falha. Fracasso ou falha não são mais considerados como uma ocorrência trágica, mas tornam-se parte do processo instrutivo. Quando uma criança aprende a andar, ela cai, levanta e cai novamente umas cem vezes, uns milhares de vezes. Nesse caso específico, nós geralmente não falamos em fracasso; entendemos que a criança que cai está aprendendo a cair e a levantar e que todas essas ações são parte do complexo aprendizado de andar.

Assim como a criança que está aprendendo a andar, na Eutonia é somente cometendo erros e enganos que o aluno pode realmente obter progresso. Essa nova atitude não nasce tanto de uma preocupação com a originalidade, mas muito mais do aprendizado baseado na observação de como as crianças aprendem naturalmente, e quais estágios elas atravessam inevitavelmente.

De fato, não existe nenhum modelo de procedimento restrito para as sessões de aprendizado em Eutonia. O instrutor deve ser capaz de “sentir” o grupo (antes, durante e depois da sessão) e adaptar a sequência de eventos de acordo com o que está acontecendo no mesmo: ele só se encarrega que as sessões de Eutonia tenham progresso de acordo com “táticas” instrutivas bastante precisas; para evitar tornar-se técnico demais, essas estratégias não serão elaboradas.

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Finalmente, é importante enfatizar que a Eutonia aspira uma abertura da consciência, e não a sua reformulação. Através da constante observação de suas sensações proprioceptivas e pelo contínuo conhecimento do seu meio ambiente, o aluno desenvolve uma capacidade estável para contínuos contatos com a realidade básica. Engajar em Eutonia não significa entrar em estado “alternado” e partir para regiões etéreas; praticar Eutonia é ter seu pé no chão, criar raízes e desenvolver um “alerta” especial para viver cada dia da vida no seu principal nível espiritual.

Em resumo, é evidente que a Eutonia é mais que um novo método de movimento. Eutonia propõe uma nova atitude frente à vida uma nova “Arte de Viver”. Além disso, muitos que chegam à Eutonia com problemas físicos e técnicos notam rapidamente que os resultados que eles obtêm do seu trabalho excedem de longe as suas primeiras esperanças e motivações. Trabalhando no seu corpo, o aluno progressivamente muda seu modo de se relacionar consigo próprio e com o meio ambiente.

Talvez a importância social da Eutonia seja agora mais compreensível; longe de sublevar-se abertamente enquanto lamenta o passado, presente e futuro, a Eutonia dá aos indivíduos a oportunidade de mudar agora sem esperar por alguma “nova ordem”. As experiências têm demonstrado que a profunda mudança no corpo da pessoa ocasiona uma mudança imediata no seu ambiente doméstico e profissional.

O processo investigativo em Eutonia está acima de todas as dinâmicas:

investigação, questionamento, contínua integração. Flexibilidade do tônus e segurança interna permitem ao indivíduo reagir criativamente com respostas ao inesperado. A presente crise social realmente exige respostas criativas que não podem necessariamente vir do passado. A Eutonia se fez parte da futura tarefa humana de descobrir novas perguntas em resposta a novas questões que nos encaram nesse momento de nossa história.

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