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INICIAÇÃO NA CIÊNCIA DO DIREITO

INICIAÇÃO NA CIÊNCIA DO DIREITO I

OBRAS PRINCIPAIS DO AUTOR

O Direito Quântico — Ensaio sobre o fundamento da ordem jurídica Ética — Do Mundo da Célula ao Mundo da Cultura Tratado da Conseqüência — Curso de Lógica Formal Iniciação na Ciência do Direito Onze verbetes na Enciclopédia Saraiva do Direito A Filosofia do Direito (dois volumes) A Criação do Direito (dois volumes) Estudos A Definição do Direito Dissertação sobre o Universo A Democracia e o Brasil Resistência Violenta aos Governos Injustos A Constituição, a Assembléia Constituinte e o Congresso Nacional Sistema Brasileiro de Discriminação de Rendas Justiça e Júri no Estado Moderno A Folha Dobrada — Lembranças de um estudante (“Prêmio Senador José Ermírio de Moraes”, da Academia Brasileira de Letras; “Prêmio Clio de História, 2000”, da Academia Paulista da História; “Prêmio Ivan Lins de Ensaio, Hors-Concours”, da Academia Carioca de Letras) Carta aos Brasileiros

GOFFREDO TELLES JUNIOR

Professor Titular da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) Professor Emérito da Universidade de São Paulo Advogado

INICIAÇÃO NA CIÊNCIA DO DIREITO

edição

2008

tiragem

2011
2011
Rua Henrique Schaumann, 270, Cerqueira César — São Paulo — SP CEP 05413-909 PABX: (11)

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109.716.004.003
109.716.004.003

ISBN 978-85-02-13608-3

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Telles Junior, Goffredo Iniciação na ciência do direito / Goffredo Telles Junior. — 4. ed. — São Paulo : Saraiva, 2008.

1. Direito - Filosofia I. Título.

07-5675

CDU-340.12

Índice para catálogo sistemático:

1. Direito : Filosofia

340.12

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Para Maria Eugenia

PARTE — A ORDEM E A DESORDEM. AS NORMAS E A NORMALI- DADE

PARTE — A NORMA JURÍDICA: O DIREITO OBJETIVO

PARTE — O DIREITO SUBJETIVO

PARTE — A JUSTIÇA

PARTE — A DEFINIÇÃO DO DIREITO

ÍNDICE

PARTE

A ORDEM E A DESORDEM. AS NORMAS E A NORMALIDADE

CAPÍTULO I — A ORDEM E A DESORDEM

§ 1. A definição da ORDEM

3

§ 2. A ordem e a idéia da ordem

5

§ 3. A ordem e a desordem

6

CAPÍTULO II — CONSIDERAÇÕES SUPLEMENTARES SOBRE O TEMA DO CAPÍTULO ANTERIOR

§

4. Ordem, estrutura e existência

13

CAPÍTULO III — QUE É A “NORMALIDADE”? QUE É UMA “NORMA”?

§ 5. O normal e o anormal

17

§ 6. Normalidade e anormalidade

19

§ 7. As anormalidades no mundo físico e no mundo ético

19

§ 8. Noção de NORMA e de ORDENAÇÃO NORMATIVA

21

§ 9. Diferença entre NORMA e MANDAMENTO

23

§ 10. Divisão dos mandamentos

25

§ 11. A natureza condicional das normas

25

§ 12. Os imperativos considerados como juízos hipotéticos do tipo condicional

26

CAPÍTULO IV — QUE É UMA “LEI”?

§ 13. A definição genérica de LEI

31

§ 14. As leis éticas

33

§ 15. As leis físicas

34

§ 16. Etimologia da palavra LEI

38

PARTE

A NORMA JURÍDICA: O DIREITO OBJETIVO

CAPÍTULO V — A NORMA JURÍDICA OU NORMA DE DIREITO

§ 17. A norma AUTORIZANTE

43

§ 18. Autorizamento e autorização

45

§ 19. Normas não autorizantes

46

§ 20. Normas jurídicas de autorizamento não patente

48

§ 21. As permissões concedidas por meio de normas jurídicas

49

§ 22. A sociedade: a verdadeira concessora dos autorizamentos

50

§ 23. A norma jurídica não é “atributiva”

52

CAPÍTULO VI — A NORMA PENAL

§

24. Um caso especial: a norma jurídica penal

55

CAPÍTULO VII — A IMPERATIVIDADE JURÍDICA

§ 25. A imperatividade da norma jurídica

59

§ 26. As formas da imperatividade

62

§ 27. Casos de imperatividade não explícita

66

§ 28. Natureza condicional da imperatividade jurídica

69

CAPÍTULO VIII — AS SANÇÕES

§ 29. Noção de SANÇÃO

75

§ 30. A sanção na estrutura da norma jurídica

80

§ 31. Exemplos de sanções jurídicas

81

§ 32. Inexistência das chamadas “sanções premiais”

83

CAPÍTULO IX — A COAÇÃO NO MUNDO JURÍDICO

§ 33. Noção de COAÇÃO

87

§ 34. A coação A SERVIÇO DO DIREITO. Natureza conselheira das leis

88

§ 35. A coatividade jurídica

93

§ 36. A coerção psíquica

95

§ 37. A coação CONTRA O DIREITO

97

CAPÍTULO X — A DEFINIÇÃO DA NORMA JURÍDICA

§

38. A definição completa da NORMA JURÍDICA ou NORMA DE DIREITO

103

CAPÍTULO XI — O DIREITO OBJETIVO. O DIREITO POSITIVO

§ 39. Noção do DIREITO OBJETIVO

105

§ 40. As categorias do Direito Objetivo

106

§ 41. Noção do DIREITO POSITIVO. Noção jurídica da LEI

109

§ 42. As LEIS na ordem jurídica

111

§ 43. O primado do Direito Positivo e da lei

113

CAPÍTULO XII — A SOBERANIA DO ESTADO

§ 44. Noção de SOBERANIA

117

§ 45. As funções do Estado

118

§ 46. A soberania na ORDEM INTERNA e na ORDEM INTERNA- CIONAL

120

CAPÍTULO XIII — A CONSTITUIÇÃO

§ 47. Pluralismo de ordenações na unidade do sistema jurídico

123

§ 48. A CONSTITUIÇÃO. Noção de ESTADO

123

§ 49. Anseios e rebeldias do Povo, na origem das Constituições

124

§ 50. As matérias constitucionais

126

§ 51. A estabilidade da Constituição

128

§ 52. Constituições não escritas

129

§ 53. Constituições sintéticas e Constituições analíticas

129

§ 54. O Estado Constitucional e a Democracia

130

CAPÍTULO XIV — O PODER CONSTITUINTE

§ 55. Que é o PODER CONSTITUINTE?

133

§ 56. O caráter revolucionário do Poder Constituinte

134

§ 57. Poder e missão da ASSEMBLÉIA CONSTITUINTE

136

§ 58. As emendas à Constituição. O PODER CONSTITUINTE DE- RIVADO

138

§ 59. Distinção entre Assembléia Constituinte e Congresso Nacional

140

§ 60. O mau exemplo dos “antecedentes históricos”

145

CAPÍTULO XV — O PODER LEGISLATIVO E AS LEIS

§ 61. Que é o PODER LEGISLATIVO?

147

§ 62. Observações preliminares sobre as leis

148

§ 63. A estrutura da lei

152

CAPÍTULO XVI — CLASSIFICAÇÃO DAS LEIS

§ 64. Divisão das leis quanto a sua IMPERATIVIDADE

153

§ 65. Divisão das leis quanto a seu AUTORIZAMENTO

156

CAPÍTULO XVII — A VALIDADE DAS LEIS (1ª parte). DOMÍ-

NIO GEOGRÁFICO E DOMÍNIO DE COMPETÊNCIA DAS LEIS

§ 66. Leis válidas e leis inválidas, leis legítimas e leis ilegítimas

159

§ 67. As condições da VALIDADE das leis

160

§ 68. O DOMÍNIO GEOGRÁFICO das leis federais, estaduais e municipais. A hierarquia das leis (1ª parte)

160

§ 69. O DOMÍNIO DE COMPETÊNCIA das leis

162

§ 70. O correto domínio da lei: condição essencial de sua VALIDADE 167

§ 71. A ilegalidade e a inconstitucionalidade das leis INVÁLIDAS 169

§ 72. A hierarquia das leis (2ª parte)

171

CAPÍTULO XVIII — A VALIDADE DAS LEIS (2ª parte). O PRO-

CESSO LEGISLATIVO

§ 73. O PROCESSO LEGISLATIVO

173

§ 74. A INICIATIVA das leis

174

§ 75. A elaboração parlamentar da lei

176

§ 76. O VETO

177

§ 77. O veto parcial

179

§ 78. A SANÇÃO

181

§ 79. A PROMULGAÇÃO

185

§ 80. A PUBLICAÇÃO

186

§ 81. O processo legislativo das chamadas MEDIDAS PROVISÓ- RIAS

187

CAPÍTULO XIX — A VIGÊNCIA DAS LEIS

§ 82. Noção de VIGÊNCIA DA LEI. VIGÊNCIA e EFICÁCIA

191

§ 83. O início da vigência da lei

191

§ 84. A vacatio legis

194

§ 85. A ignorância da lei

195

§ 86. O erro de direito

196

§ 87. A obrigatoriedade das leis. Os limites da obrigatoriedade: o DIREITO ADQUIRIDO, o ATO JURÍDICO PERFEITO e a COISA JULGADA

196

§ 88. A lacuna de direito. A analogia, os costumes e os princípios gerais do Direito

199

§ 89. Fim da vigência da lei

202

CAPÍTULO XX — A LEGITIMIDADE DAS LEIS

§ 90. As leis legítimas

205

§ 91. Harmonização da lei com a ordenação ética vigente

207

§ 92. A primeira causa da eventual desarmonia entre a lei e a orde- nação ética vigente: o erro do legislador

210

§ 93. A segunda causa da eventual desarmonia entre a lei e a orde- nação ética vigente: o arbítrio do Poder

213

§ 94. A terceira causa da eventual desarmonia entre a lei e a orde- nação ética vigente: o desuso e a decrepitude do Direito

214

§ 95. O Direito Artificial

218

§ 96. O DIREITO NATURAL

219

CAPÍTULO XXI — DIVISÃO DO DIREITO EM DIREITO PÚBLICO E DIREITO PRIVADO

§ 97. O DIREITO PÚBLICO e o DIREITO PRIVADO

223

§ 98. Leis de ordem pública

226

CAPÍTULO XXII — OS RAMOS CARDEAIS DO DIREITO PÚBLICO

§ 99. A divisão romana do Direito Público. A divisão moderna

229

§ 100. O DIREITO CONSTITUCIONAL

230

§ 101. O DIREITO ADMINISTRATIVO

230

§ 102. O DIREITO FINANCEIRO

231

§ 103. O DIREITO JUDICIÁRIO

232

§ 104. O DIREITO PENAL

235

§ 105. O DIREITO DO TRABALHO ou DIREITO SOCIAL

235

§ 106. O DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO

237

§ 107. O DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO

240

CAPÍTULO XXIII — OS RAMOS CARDEAIS DO DIREITO PRIVADO

§ 108. A divisão romana do Direito Privado. A divisão moderna

245

§ 109. O DIREITO CIVIL

248

§ 110. O DIREITO COMERCIAL

248

 

PARTE

O DIREITO SUBJETIVO

CAPÍTULO XXIV — A DEFINIÇÃO DO DIREITO SUBJETIVO

 

§

111. A permissão jurídica

253

§

112. Razão-de-ser do nome deste direito

255

§ 113. Uma reflexão sobre a natureza do Direito Subjetivo

255

§ 114. As faculdades humanas e o Direito

257

§ 115. O Direito Subjetivo não é “o poder da vontade”

261

§ 116. O Direito Subjetivo não é um “interesse juridicamente prote- gido”

262

§ 117. Permissões dadas por meio de qualquer espécie de norma ju- rídica

263

§ 118. Permissões dadas POR MEIO das normas jurídicas, e não PELAS próprias normas

264

§ 119. Permissões jurídicas e permissões não jurídicas

266

§ 120. Direitos Subjetivos explícitos e Direitos Subjetivos implícitos 267

§ 121. Direitos Subjetivos comuns e direitos de defender direitos

268

§ 122. Correlação entre o Direito Subjetivo e o Direito Objetivo

269

§ 123. As obrigações correlatas. Os DEVERES

271

§ 124. O Direito-Função

272

CAPÍTULO XXV — O TITULAR DOS DIREITOS SUBJETIVOS: A PESSOA

§ 125. Noção jurídica de PESSOA

275

§ 126. Capacidade e incapacidade das pessoas

277

§ 127. A RELAÇÃO JURÍDICA

280

CAPÍTULO XXVI — OS FATOS GERADORES DOS DIREITOS SUBJETIVOS: FATOS E ATOS

§ 128. FATOS e ATOS jurídicos

283

§ 129. O ato ilícito

287

CAPÍTULO XXVII — OS DIREITOS DE FAZER E DE NÃO FAZER. O DIREITO-FUNÇÃO

§ 130. As quatro classes de Direitos Subjetivos

291

§ 131. A liberdade de agir

291

§ 132. O PRINCÍPIO DA LEGALIDADE

292

§ 133. O DIREITO-FUNÇÃO

294

CAPÍTULO XXVIII — OS DIREITOS DA PERSONALIDADE

§ 134. O conceito de PERSONALIDADE

297

§ 135. Os DIREITOS DA PERSONALIDADE

299

§ 136. O Direito de Autor: exemplo expressivo do Direito da Perso- nalidade

300

CAPÍTULO XXIX — OS DIREITOS REAIS

§ 137. Os bens materiais

305

§ 138. O direito de ter

308

CAPÍTULO XXX — A PROPRIEDADE

§ 139. Noção de PROPRIEDADE e de DIREITO DE PROPRIE- DADE

311

§ 140. Direito de Propriedade sobre os frutos e produtos da proprie- dade

313

§ 141. Importância dos modos de aquisição da propriedade

315

CAPÍTULO XXXI — A QUASE-PROPRIEDADE

§

142. Noção da QUASE-PROPRIEDADE

317

CAPÍTULO XXXII — OS BENS ALHEIOS TIDOS EM GARANTIA

§

143. Bens alheios dados em garantia do pagamento de dívida

319

CAPÍTULO XXXIII — OS DIREITOS PESSOAIS

§ 144. Noção de DIREITO PESSOAL

323

§ 145. O DIREITO DE AÇÃO

324

§ 146. O DIREITO DE PETIÇÃO

325

§ 147. O Direito de “FAZER JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS”

326

§ 148. Os DIREITOS CAUTELARES

328

§ 149. O DIREITO DE RESPOSTA

329

CAPÍTULO XXXIV — MODALIDADES DO DIREITO SUBJETIVO

§ 150. O Direito Subjetivo Aparente

331

§ 151. A Expectativa de Direito

332

§ 152. O Direito Eventual

334

§ 153. O Direito Condicionado

334

§ 154. O Direito a Termo

338

§ 155. Direitos Atuais e Direitos Futuros

338

§ 156. Direitos Relativos e Direitos Absolutos

339

CAPÍTULO XXXV — OS “DIREITOS HUMANOS” E AS “LIBER- DADES DEMOCRÁTICAS”

§ 157. Os bens soberanos

341

§ 158. Os proclamados DIREITOS HUMANOS

343

§ 159. Os DIREITOS HUMANOS e a autolimitação da Soberania.

345

§

160. As Liberdades Democráticas

347

§

161. A dialética das liberdades

349

PARTE

A JUSTIÇA

CAPÍTULO XXXVI — A JUSTIÇA

 

§ 162. A definição da JUSTIÇA

355

§ 163. Que é o JUSTO?

359

§ 164. O justo por convenção e o justo por natureza

361

§ 165. Uma heresia

364

§ 166. A lógica do jurista

365

§ 167. A justiça e a caridade

367

§ 168. A justiça comutativa, a justiça distributiva e a chamada justi- ça legal

368

 

PARTE

A DEFINIÇÃO DO DIREITO

CAPÍTULO XXXVII — A DEFINIÇÃO DO DIREITO

 

§ 169. As três necessárias definições

373

§ 170. A etimologia da palavra Direito

375

§ 171. Motivo do nome DIREITO

377

CAPÍTULO XXXVIII — A DISCIPLINA DA CONVIVÊNCIA

§ 172. Os meios e os fins

379

§ 173. A DISCIPLINA DA CONVIVÊNCIA

381

§ 174. A Chave do Jurista

382

§ 175. O PRIMEIRO MANDAMENTO

383

PEQUENA BIBLIOGRAFIA

385

PARTE

A ORDEM E A DESORDEM. AS NORMAS E A NORMALIDADE

CAPÍTULO I

A ORDEM E A DESORDEM

§ 1. A definição da ORDEM

Que é a ORDEM? A ordem sem complementos, sem qualificativos, a ordem em si mesma, a ordem em abstrato, a que se reduz? Em que consiste? Estas perguntas nos assaltam, no momento em que nos debruçamos sobre o problema da ordem jurídica. Em que, propriamente, estaremos pensando quando meditamos sobre a ordem? Sobre o que estaremos pensando quando refletimos sobre a or-

dem em abstrato, antes de pensar sobre a ordem cósmica

elementos

a ordem dos

a

a

, a ordem jurídica

,

a ordem das idéias

a ordem ética

,

, a ordem das mercadorias nas prateleiras

,

,

,

ordem dos livros na biblioteca ordem dos objetos na gaveta

?

Há uma idéia de ordem, uma só idéia de ordem em abstrato, que perma- nece sempre a mesma, em todos esses pensamentos de ordens concretas. Tal idéia, por ser preliminar e fundamental, é o que nos preocupa neste instante. Toda ordem, evidentemente, é uma disposição. Mas não é uma dispo- sição qualquer. É uma certa disposição, uma disposição conveniente de coi- sas, sendo que a disposição só pode ser considerada conveniente quando alcança o fim em razão do qual ela é dada às coisas. Os livros de uma biblioteca estão em ordem quando se acham dispostos de maneira a possibilitar o encontro de qualquer deles, no momento em que for procurado. Esta possibilidade é o fim para cuja consecução os livros são dispostos desta ou daquela maneira. Se tal fim é atingido, a disposição dos

livros é conveniente, e os livros estão em ordem. O mesmo acontece com quaisquer cousas colocadas em ordem, ou seja, em disposição conveniente.

É obvio que toda ordem requer coisas múltiplas, seres necessariamen-

te distintos uns dos outros (embora possam ser iguais uns aos outros). Não pode haver ordem onde não haja multiplicidade de coisas, multiplicidade de seres; onde não haja coisas ou seres distintos para ordenar, isto é, para relacionar uns com os outros e colocar em seus devidos lugares. “Não há ordem sem distinção”, disse Santo Thomaz de Aquino.

Numa biblioteca, os livros são diferentes uns dos outros. Num muro, os tijolos são iguais uns aos outros. Mas, nos dois casos — na biblioteca e no muro —, as coisas ordenadas são múltiplas, e são distintas umas das outras.

E não pode haver ordem sem determinação do fim em razão do qual

uma disposição conveniente é dada a seres múltiplos, e por força da qual tais seres passam a constituir uma unidade.

A disposição conveniente, que é a disposição de seres múltiplos em

razão de um fim prefixado, relaciona seres distintos, conjuga-os de maneira que cada um, de acordo com sua natureza ou destinação, ocupe, dentro do conjunto, seu lugar próprio, passando a ser parte de um todo, elemento de uma unidade.

Os livros dispostos convenientemente, para a consecução do fim pre- tendido, ocupam lugares certos nas estantes e, em conjunto, passam a cons- tituir um todo. Essa ordem é que confere unidade à multiplicidade dos li- vros, dando ao todo a qualidade de biblioteca. Em tal ordem é que reside a diferença entre uma biblioteca e um amontoado de livros.

A ordem, em verdade, é sempre uma unidade do múltiplo.

Para esclarecer essa noção, seja o seguinte exemplo. Tijolos, telhas, madeiras, ferros estão jogados ao léu, num terreno baldio. Constituem, pois, uma multiplicidade de materiais de construção, mas de materiais não rela- cionados, não conjugados, não ligados uns aos outros, em razão de um fim comum. Tais coisas, evidentemente, não estão em ordem, ou seja, não estão na ordem em que estariam se fossem componentes de uma casa. Estão em “desordem”. Em conseqüência, não são partes de um só todo, não consti- tuem uma unidade. Mas, esses mesmos materiais, quando ligados uns aos outros na construção de uma casa, isto é, ligados em razão de um fim co- mum, acham-se dispostos em ordem. Em conseqüência, passam a ser partes de um só todo, e a constituir uma unidade.

A matéria da ordem (os filósofos diriam a causa material da ordem) é

sempre constituída por seres múltiplos. Como foi explicado, a ordem impli- ca, por definição, multiplicidade de seres.

A forma da ordem (os filósofos diriam a causa formal da ordem) é

sempre constituída por uma certa disposição. Como também já dissemos, a ordem implica, por definição, a disposição conveniente dada a seres múlti- plos.

O fim da ordem, a sua razão-de-ser (os filósofos diriam a causa final

da ordem), é sempre o objeto para cuja consecução os seres múltiplos são dispostos convenientemente. É o todo uno em que se realiza a referida uni- dade do múltiplo. Do que acaba de ser exposto, infere-se que a ordem compreende multiplicidade e unidade. E como, em todas as ordens, a multiplicidade dos seres se submete à unidade do conjunto, toda ordem implica dominação da unidade sobre o múltiplo. Concluímos que a ordem é A DISPOSIÇÃO CONVENIENTE DE SE- RES PARA A CONSECUÇÃO DE UM FIM COMUM.

§ 2. A ordem e a idéia da ordem

A consecução de um objeto — de um fim determinado — é a razão-de-

ser da ordem. É evidente que a determinação desse fim há de ser anterior à disposição efetiva dos seres múltiplos.

Ora, determinar um fim supõe o conhecimento desse fim. Logo, antes da implantação de uma ordem, antes de qualquer disposição de seres, exis- te, forçosamente, a idéia ou conhecimento do fim — do objeto —, cuja realização é o propósito da disposição dos seres e da ordem.

Antes da colocação ordenada dos livros nas estantes da biblioteca, existe a idéia norteadora dessa colocação, ou seja, o conhecimento do fim que se quer alcançar, por meio da disposição conveniente dos livros.

O conhecimento do fim precede a ordem, porque a disposição dos

seres é feita em razão dele. Em razão desse conhecimento é que a disposi- ção dos meios é efetuada como convém. Em outras palavras, o prévio conhecimento do fim a ser atingido é o que determina a conveniência dos meios. Sem a previsão ou preconização do efeito a ser produzido, impossível a disposição conveniente dos seres. Pois, a disposição só é conveniente se for a disposição apta a produzir o efeito preconizado.

Esta preconização é a idéia do efeito, antes da produção do efeito. É o conhecimento antecipado do efeito, sem o qual as coisas não se disporão em ordem; sem o qual as coisas acontecerão de qualquer maneira. Tal preconização é o projeto da obra, na mente do arquiteto, antes da construção da obra. Sem o prévio projeto, a obra é impossível.

Antes da realização de qualquer ordem, há de existir o projeto dela, na mente do ordenador. Não há truísmo na afirmação de que tudo há de ser concebido, antes de vir à luz. Antes da realização de uma ordem, há de existir a concepção dessa ordem, a idéia dela, o projeto ou modelo de como se devem dispor determinadas coisas, para a produção de um determinado efeito. Sem a precedência dessa idéia, dessa concepção, desse projeto ou modelo, a or- dem é impossível.

A idéia da ordem, pois, é condição dela. É a ordem pensada, antes de

ser a ordem realizada. Em suma, toda ordem, em sua origem, há de ser um pensamento. “No princípio, era o Verbo”, disse João, abrindo seu Evangelho.

§ 3. A ordem e a desordem

Toda existência — existência dos vivos e dos não vivos; existência do mineral, do vegetal, do animal, do homem e também das sensações, das imagens, das idéias — todo ser existente — resulta de uma disposição certa de seres; resulta de um arranjo conveniente dos elementos de que ele é constituído. Ora, a disposição certa de seres é o que se chama disposição ordena- da, como foi explicado no § l. Logo, todo ser existente resulta da ordem em que se acham os seres de que ele se compõe. E estes seres, também, resultam da ordem em que se acham os seres de que eles se compõem. E estes, por sua vez,

O próprio Universo, tido como conjunto de todas as coisas existentes,

só pode ser considerado como um todo ordenado.

A Filosofia ensina que o Universo é A DIVERSIDADE DAS COISAS

HARMONIOSAMENTE ORDENADAS, DENTRO DA UNIDADE DO TODO. Os gregos chamavam o Universo de cosmos, palavra que significa or- dem; não o chamavam de caos, palavra que significa ausência de ordem.

Mas, na infinita paisagem do Universo, quaisquer olhos despreveni- dos vão divisar áreas de sombra. Nem tudo, ao que parece, é ordem no mundo. A desordem também existe, ou parece existir. O comportamento desregrado, a prática do mal, o crime, a injustiça, o sofrimento, a dor, todas estas coisas são fatos ocorrentes, e fatos contrários ao que se considera or- dem. Mesmo no mundo físico, flagrantes violações da ordem cósmica pare- cem acontecer às vezes, como, por exemplo, as moléstias, as epidemias, as pragas, e as que se manifestam no indeterminismo cinemático dos quanta, verificado na intimidade profunda da matéria; como as que se revelam na entropia crescente em sistemas isolados, ou seja, na degradação qualitativa da energia, verificada em tais sistemas, contrariando o princípio universal da conservação da energia. Então, uma inevitável pergunta se coloca diante da inteligência huma- na: Se o conjunto de todos os seres está submetido à ordem universal, como explicar a existência do que é contrário à ordem, ou seja, a existência da desordem?

O problema da existência da desordem só pode ser resolvido se for

colocado em seus devidos termos. Em verdade, ele não passa de um

pseudoproblema. É um problema fundado num equívoco.

A desordem não é o contrário da ordem, como se costuma pensar. Ela

é, isto sim, uma ordem contrária a outra ordem. Bergson foi quem revelou a natureza verdadeira da desordem. Foi ele quem demonstrou a falsidade com que a questão da desordem é geralmente apresentada (Henri Bergson, A Evolução Criadora, Capítulo III; O Pensa- mento e o Movente, II e III). Desordem, disse ele, é o nome dado à ordem não desejada, não queri- da, não procurada. É o nome da ordem que desagrada, desgosta, decepcio- na, prejudica, infelicita, desola. Mas a desordem é sempre uma ordem, eis o que precisa ficar bem claro.

A chamada desordem se pode verificar tanto no mundo da natureza

como no mundo do comportamento humano. No mundo da natureza, a desordem dos elementos é sempre uma or- dem produzida por forças físicas ou químicas, ou físico-químicas, mas or- dem que contraria concepções ou interesses humanos, não sendo, portanto, a ordem desejada pelo ser humano. Por exemplo, as desordens orgânicas, as doenças de todas as espécies, são ordens — ordens rigorosas de fenômenos, encadeamentos de causas e efeitos, disposições impostas às coisas para os desígnios da natureza. Em-

bora sejam ordens, recebem o nome de desordens, porque não são ordens convenientes para fins humanos: produzem sofrimento e tristeza.

A visão das ruínas deixadas por um incêndio ou por um furacão faz

surgir, no espectador humano, sentimentos de angústia, de aflição, de temor ou, ao menos, sensações de tristeza ou de mal-estar. Ali está, de certo, na desolação dos escombros, no caos dos destroços, na confusão das coisas destruídas, uma imagem flagrante da desordem. Sucede, porém, que, se o espectador se detiver na meditação sobre qualquer dessas catástrofes, uma evolução espontânea de seu espírito irá transformando suas impressões, e acabará por fazer pensar que tudo, afinal, naquela cena de tragédia, pode ser explicado pelos fatos que ali acontece- ram. O espetáculo aberto diante de seus olhos, responsável pela referida imagem da desordem, é composto de elementos que são os efeitos certos de causas certas. Estas causas é que espalharam as coisas por toda parte e as puseram nos lugares em que se encontram. Tendo havido tais causas, os efeitos só poderiam mesmo ser aqueles. Cada coisa, portanto, na localidade flagelada, estará ocupando, após o sinistro, seu lugar próprio, ou seja, o lugar que ela não poderia deixar de ocupar, em virtude do que ali aconteceu. Cada coisa estará em seu preciso lugar, em razão dos antecedentes. As coi- sas foram transportadas por forças naturais e inelutáveis, conduzidas para as situações em que se acham. Elas foram dispostas pelas energias que movem a matéria, para fins que necessariamente existem, mas que escapam ao entendimento humano. Em razão desses fins, todas aquelas coisas estão dispostas convenientemente. Estão, pois, em ordem.

Por que, então, o ser humano confere a essa ordem o nome de desor- dem?

A resposta é simples. A essa ordem, o ser humano confere o nome de

desordem, porque ela não é a ordem que o ser humano deseja, a ordem que o satisfaz. Ela não constitui a ordem que lhe é conveniente. Pelo contrário:

ela é a ordem que o desgosta e infelicita. Exprimindo inconformismo, o ser humano chama de desordem a or- dem que ele encontra, no lugar da ordem que ele quer. Mas o nome que ele confere à disposição das coisas não altera, evidentemente, a realidade obje- tiva. O que ele chama de desordem continua sendo uma ordem. Em suma, A DESORDEM É A ORDEM QUE NÃO QUEREMOS. Não havendo o referido inconformismo — não havendo desgosto, contrariedade, prejuízo para o ser humano — nenhum fenômeno da nature- za, nem mesmo um cataclismo, receberá o nome de desordem. A explosão

de uma estrela, uma supernova, é uma colossal catástrofe nas imensidões dos céus. Mas ninguém a chamará de desordem. Por quê? Porque a destrui- ção de uma estrela e o lançamento de seus destroços pelo firmamento não afetam interesses humanos. Todos dirão, simplesmente, que a supernova se situa dentro dos planos da natureza e pertence à ordem do Universo. E, realmente, estarão certos. No mundo do comportamento humano, a desordem ou é voluntária ou involuntária. Pode alguém, voluntariamente, produzir a desordem. Pode, deliberadamente, dispor as coisas de maneira inconveniente para outrem, como seria o caso, por exemplo, de quem baralhasse, por malícia, os livros de uma biblioteca. Essa disposição é conveniente para a pessoa que a fez,

pois alcança o fim ou objetivo almejado. Que fim, que objetivo será este? É

o de criar uma disposição inconveniente para outra pessoa. Para a outra

pessoa, a disposição baralhada dos livros é uma desordem — uma desor- dem produzida intencionalmente por alguém. Mas tal disposição, chamada desordem, não é ausência de ordem, uma vez que ela é uma ordem deliberadamente dada às coisas.

A desordem é voluntária quando a disposição dada às coisas é dispo-

sição conveniente para a consecução dos fins de quem a fez deliberadamente, mas inconveniente para a consecução dos fins de outrem. Enquanto disposi- ção conveniente, a disposição é ordem; enquanto disposição inconveniente,

a disposição é desordem.

É evidente que a mesma ordem pode ser ordem e desordem, isto é,

pode ser ordem para alguém e desordem para outrem; pode ser disposição conveniente para os fins de alguém, e disposição inconveniente para os fins de outrem. Mas a desordem voluntária nunca exclui a ordem. Pelo contrário, ela é sempre uma ordem, como se acaba de verificar. A desordem, no mundo do comportamento humano, pode ser involuntária. Ela é involuntária quando a disposição das coisas é dada com a intenção de ser conveniente e, depois, é julgada inconveniente. Mas neste caso, também, a desordem não é ausência de ordem. Ela é uma ordem, na intenção que a inspirou. Ela é, como foi dito, a disposição conveniente se- gundo o julgamento de alguém, embora essa disposição possa depois ser tida como inconveniente, segundo outro julgamento. Incluem-se entre as desordens involuntárias, as desordens resultantes de desmazelo, imprudência, imperícia. O exame de todos esses casos de desordem leva sempre à conclusão de que são ordens, como as demais.

Quem joga as coisas, descuidadamente, dentro de uma gaveta, com o intuito de abrir espaço sobre a mesa, faz ordem: não ordem na gaveta, mas ordem sobre a mesa. Na gaveta, note-se, as coisas atulhadas também esta- rão em ordem: não, evidentemente, na ordem buscada pelo ser humano, mas na ordem em que as dispuseram as forças da natureza, ao serem lançadas por mão desleixada. Os livros despejados por um caminhão sobre um terreno não são uma biblioteca; são um montão de livros. Para quem os quisesse como bibliote- ca, acham-se tais livros na mais completa desordem. Mas para quem quis livrar-se deles, talvez queimá-los numa fogueira, os livros se acham conve- nientemente amontoados, isto é, acham-se em ordem. A desordem para a biblioteca é ordem para a fogueira.

Uma observação ainda pode ser feita acerca deste último exemplo. Os livros despejados de qualquer maneira, amontoados em confusão sobre um terreno, caíram e deslizaram uns sobre os outros, e se imobilizaram, afinal, em seus respectivos lugares. Submetidos a forças físicas inelutáveis, os li- vros ficaram dispostos numa ordem análoga à ordem das ruínas deixadas pelo furacão. Bergson demonstrou que tudo quanto o ser humano chama de desor- dem é sempre ordem. Diz o filósofo que a desordem tida como ausência de ordem é impossível, por ser intrinsecamente contraditória. Ela há de ser, forçosamente, não a ausência, mas a presença de uma ordem, embora esta ordem desagrade, prejudique, infelicite. Na realidade, a ausência de uma certa ordem não é desordem, mas a presença de outra ordem. Suprimir uma ordem é fazer surgir outra, como sucede quando a or- dem ditada pela vontade é substituída pela ordem imposta pelo furacão. Logo, a desordem não existe.

A

desordem não é a ausência da ordem, mas a ausência de uma certa

ordem.

De real, diz Bergson, o que existe é a ordem. Nunca se viu a ausência da ordem, como nunca se viu o nada. Se, na disposição das coisas, não há uma vontade humana criando a ordem, é porque há determinismo físico; se não há determinismo físico, é porque há uma vontade humana. Mas, dentro da realidade, a ordem existe sempre: eis o fato.

A desordem, pois, não pertence à realidade. Não passa de uma pseudo-

idéia, de uma ilusão.

O que a realidade ensina é que tudo quanto se chama desordem com-

preende dois elementos, a saber: 1) fora do ser humano, uma ordem existen- te, criada pela vontade humana ou resultante do determinismo físico; 2)

dentro do ser humano, uma representação ou idéia de ordem, diferente da primeira, mas que é a que interessa ao próprio ser humano.

A desordem, portanto, é composta de duas ordens: uma, objetiva; ou-

tra, subjetiva.

Eis por que a desordem não pode ser ausência de ordem. Não sendo ausência de ordem, é presença de ordem. Logo, a desordem é ordem.

O que faz que, a essa ordem, se confira o nome de desordem é o desa-

cordo entre a ordem existente na realidade e a idéia que o ser humano faz

da ordem.

Por outro lado, jamais se dará à ordem o nome de desordem quando a ordem real coincide com a idéia de ordem. Em cada ser humano, a realida- de será tida como ordenada na exata medida em que ela corresponde a seu pensamento.

A ordem, pois, para cada ser humano, é um certo acordo entre o sujei-

to e o objeto. Neste sentido, a ordem e o espírito se encontram com as

coisas. Mas, neste sentido, as noções convencionais de ordem e desordem,

autolimitando-se, são exclusivamente práticas, a serviço da linguagem e da ação; são mais nomes do que idéias. O ser humano dá o nome de desordem

à ordem que não lhe convém.

É assim que se diz que uma biblioteca está em desordem quando a

ordem dos livros nas estantes não é a ordem que agrada ou que serve a fins estabelecidos.

É assim, igualmente, que os governantes, em regimes de força e arbí-

trio, chamam os adversários da ordem vigente de promotores da desordem, de subversivos ou de demagogos, enquanto estes consideram demagogos, subversivos e partidários da desordem precisamente aqueles que defendem

a ordem vigente.

O nome desordem, cujo uso simplifica a linguagem, não tem, contudo,

nenhum emprego na especulação filosófica, porque não significa nada de

verdadeiro, não representa coisa alguma, flatus vocis. Nada mais é preciso acrescentar para deixar demonstrado que tudo está em ordem.

CAPÍTULO II

CONSIDERAÇÕES SUPLEMENTARES SOBRE O TEMA DO CAPÍTULO ANTERIOR*

§ 4. Ordem, estrutura e existência

O pensamento é condição da ordem, como vimos no Capítulo anterior. Ora, a ordem é condição da existência.

Não há existência sem ordem.

Todos os seres existentes são estruturas, e as estruturas dependem da ordem a que se submetem seus elementos.

São estruturas, as galáxias e os átomos, as estrelas e as micropar- tículas, as moléculas e as células, as rochas e os vegetais, os animais e os homens, os tropismos e os instintos, as sensações e as idéias, os juízos e os raciocínios. São estruturas, as ordenações jurídicas das Nações e dos Estados.

Na qualidade de estruturas, a existência de todos os seres depende da disposição conveniente de seus elementos constitutivos. Mas os elementos de cada estrutura mudam sem cessar, porque tudo,

* Este Capítulo é um complemento do Capítulo anterior. Embora importante, é um adendo facultativo no programa dos estudantes de Direito.

no Universo, está em movimento. O movimento é uma realidade funda- mental do Mundo: uma realidade indefectível em todas as coisas. Ora, o que se movimenta muda. E o que muda não permanece o mes- mo. Passa a ser diferente. Deixa, portanto, de ser o que era. Não mais é aquilo que foi. Não mais existe como era; torna-se outro (embora não um outro). E, como outro, também não tem tempo de existir, porque, no mo- mento em que começa a existir, já não é mais o mesmo, já mudou, passou a ser outro. E este outro, igualmente, no instante em que adquire existência, perde-a, porque já não é o que era, mas outro. E este outro, por sua vez, Em conseqüência (como tem sido assinalado por pensadores diver- sos), nenhum ser individual — enquanto elemento determinado, com for- ma estabelecida, ocupando lugar delimitado no espaço e durando um cer- to tempo — pode ser o que é. Ao ser, já não é. Nenhum elemento, pois, pode existir. Um ser não é um ser: é um vir-a-ser, dizia Heráclito (Aristóteles, Metafísica, 1010 a 1013). Contudo, admitir que nada existe é contrariar a evidência. Os homens existem, e uma infinidade de coisas existem nos homens e em torno deles. Parece absolutamente claro que há coisas existindo. Que coisas serão estas? Estas coisas só podem ser coisas que permanecem, que perduram. Só podem ser coisas que não mudam ininterruptamente. Um ser existente é, por força, um ser que é o que é, durante certo tempo; um ser que, durante um certo tempo, não deixa de ser o ser que é. Uma coisa existe quando ela continua como ela própria, embora tudo se movimente e mude, dentro dela e em volta dela. Só existe, em verdade, o que não muda, isto é, o que continua, durante um certo tempo.

A existência é atributo do que perdura e permanece. Ela pressupõe a

estabilidade.

Mas, dentro de um Mundo em que tudo muda continuamente, haverá alguma realidade que perdure e permaneça? Haverá alguma realidade es- tável? Sim, há realidades permanentes e estáveis. Permanentes e estáveis, são as estruturas, que perduram, enquanto se movimentam e mudam os elementos de que elas são feitas.

A estabilidade é da natureza das estruturas.

É evidente que a estabilidade das estruturas é relativa. As estruturas são estáveis, em comparação com os seres de que elas são feitas. São menos instáveis do que esses seres. São estáveis somente durante um certo tempo. Mas são também instáveis, evidentemente, quando consideradas como ele- mentos constituintes das estruturas maiores, de que são partes. Estáveis, as estruturas reúnem, num todo duradouro e contínuo, os seres móveis e descontínuos, que elas contêm e coordenam. Um átomo é uma estrutura, uma armação estável, dentro da qual se agita uma constela- ção de movimentadas micropartículas. Um grão de areia, uma estrela, um vegetal, um homem, uma mulher, uma sensação, uma idéia são estruturas estáveis, dentro das quais se movem os mais diversos componentes móveis. Um sistema jurídico, por exemplo, é uma estrutura — uma realidade está- vel —, por mais que se promulguem e se revoguem as leis do País. Note-se, porém, que a estabilidade da estrutura depende do equilíbrio de forças e da harmonia de movimentos dos elementos que as constituem. A inexistência de equilíbrio e de harmonia implica inexistência de estabili- dade e, por conseguinte, inexistência de estrutura. Para que a estrutura per- dure — e, portanto, exista —, é preciso que tudo nela se sujeite a uma ordem global. Isto significa, em suma, que as estruturas dependem da exata quantificação de seus elementos componentes e dos movimentos que os animam. Por esse motivo, os elementos de uma estrutura e seus respectivos movimentos são quânticos, isto é, são quantificados, em razão da natureza da própria estrutura. Uma alteração substancial na quantidade numérica e dinâmica desses elementos é causa de inevitável destruição da estrutura, ou de sua substitui- ção por estrutura nova, de outra qualidade. Sob a pressão insustentável de mudanças quantitativas uma estrutura pode acabar por ceder, pode romper-se, dando ensejo à constituição de ou- tra estrutura, de uma estrutura de qualidade nova, na qual o equilíbrio e a harmonia entre os elementos se realiza em consonância com um diferente sistema de quantidades. Mas, desde o momento em que a estrutura se constitui, até o momento em que é destruída ou transformada, ela tem um tempo de equilíbrio de forças e de harmonia de movimentos, mantidos pelos elementos que a cons- tituem. Durante esse tempo, a estrutura permanece e perdura: é estável. Mas somente a estrutura é estável; nada mais o é. Tal é o motivo pelo qual, dentro da movimentação cósmica, a existên- cia é conotação exclusiva das estruturas.

Algum ser existe? Sim, certamente: seres existem. Existindo, consti- tuem estruturas. Insistimos: o que realmente existe são as armações, as estruturas de seres, e não, propriamente, os seres de que as armações ou estruturas se compõem — a não ser que se considerem estes seres também como arma- ções, como estruturas, uma vez que são, de fato, armações ou estruturas de outros seres, conjuntos ordenados dos seres que os constituem. E as qualidades de cada ser (inclusive as mais requintadas, como, por exemplo, a qualidade da vida) dependem de suas próprias estruturas e das estruturas dos seres que o compõem; e as qualidades destes dependem, por sua vez, de suas próprias estruturas e das estruturas dos que os compõem; e as destes, também, de suas próprias estruturas e das estruturas dos que os compõem; e assim por diante, até as qualidades do ser que seja o primeiro, ou até o mistério que habita, e se esconde, por detrás do infinito Toda existência — existência dos vivos e dos não vivos; existência do homem, do vegetal, do mineral — tem por condição a estrutura. Isto signi- fica que todo ser existente resulta da disposição certa dos seres de que ele é feito.

Como se vê, a ordem (disposição certa) e a estrutura são condições de tudo no Universo.

CAPÍTULO III

QUE É A “NORMALIDADE”? QUE É UMA “NORMA”?

§ 5. O normal e o anormal

A conclusão a que chegamos no Capítulo I — a de que tudo está em

ordem — não deve gerar a convicção de que tudo é normal. A ordem não se confunde com a normalidade. Ordens existem que não são normais.

O adjetivo normal designa, fundamentalmente, a qualidade do que é

conforme à regra. Designa a qualidade do que é próprio de muitos. Designa o carretar comum ou usual de um estado, de uma atividade ou de uma rota.

Estado normal e procedimento normal são modos de ser e de atuar de acordo com o que é regular e coerente, em consonância com padrões esta- belecidos e modelos assentes. É estado e procedimento não excepcionais.

Ora, um procedimento ou estado, no mundo do comportamento hu- mano — no chamado mundo ético — só se torna usual, ou é tido como comum, se estiver coadunado com o sistema dominante de concepções so- bre o que é permitido e proibido, ou sobre o que deve e não deve ser feito ou estabelecido. No outro mundo — no chamado mundo físico — um procedi- mento ou estado só é tido como usual ou comum se acontece necessaria- mente, isto é, se o procedimento ou estado não pode deixar de ser, ou não pode ser senão o que é. Normal, no mundo ético, é a qualidade do procedimento ou do estado não extravagante, não contrário às referidas concepções dominantes; ou seja, a qualidade do procedimento ou estado que se coaduna com os padrões e

modelos assentados. No mundo físico, normal é a qualidade do que é con- siderado conforme com as convicções humanas, no âmbito das Ciências da Natureza.

Não se harmonizando com o sistema dominante de concepções e convic- ções, os procedimentos ou estados — os movimentos e os modos-de-ser —, nos dois mundos, não têm possibilidade de ser tidos como usuais e comuns. Inusitados e, portanto, excepcionais, tais procedimentos ou estados, tais mo- vimentos e modos-de-ser serão sempre considerados anormais. Anormal é a qualidade do que não se conforma com a regra. É a quali- dade do insólito, do incongruente com as referidas concepções e convic- ções; do incompatível com o que se acha firmado e estabelecido como pa- drão e modelo de atuação e de modo-de-ser, ou colidente com as convic- ções e “certezas” científicas sobre os movimentos e rotas em geral.

É normal, por exemplo, o zelo dos pais pelos filhos; e anormal, o

abandono dos filhos pelos pais. Um organismo saudável é organismo em estado normal; mas o organismo enfermo ou deficiente é organismo consi- derado anormal. A trajetória da luz de uma estrela é tida como trajetória

normal quando essa luz se locomove de acordo com as projeções dos cien- tistas; mas ela é considerada anormal quando a luz, por algum motivo ex- traordinário e desconhecido, se desloca de maneira imprevista.

A ordem, também, pode ser normal ou anormal. São normais, as or-

dens ajustadas a padrões e modelos assentes, condizentes com as concep- ções dominantes sobre o que deve ou não deve ser feito. Mas são anormais, as ordens que conflitam com persuasões generalizadas, ou com aspirações comuns. Não são normais, por exemplo, as ordens políticas impostas discricio- nariamente, em conflito com o sentimento da coletividade, e com o sistema constitucional almejado pelos representantes do Povo. Notemos, desde já, que tais ordens, sendo discricionárias e anormais, são ilegítimas, como va- mos ver.

Por extensão, qualificam-se, também, de normais e anormais, os pró- prios agentes cujo modo de ser ou de proceder é normal ou anormal. Neste sentido é que se diz pessoa normal, pessoa anormal. Observemos, finalmente, que o normal e o anormal não podem ser considerados como qualidades absolutas. O normal é normal relativamente ao sistema de convicções tido como dominante; mas o anormal é, muitas vezes, normal, relativamente a um sistema de convicções que hoje ainda não é o sistema dominante, mas que amanhã poderá vir a sê-lo.

§ 6. Normalidade e anormalidade

Dá-se o nome de normalidade ao estado (a maneira de ser estável) que se caracteriza pela predominância de procedimentos normais. Estado de nor- malidade é o estado do corpo ou da mente, de uma célula ou de um organismo pluricelular, de um grupo social ou de uma Nação, em que os procedimentos não contrariam as concepções e convicções dominantes, sobre como as coisas devem ser ou podem ser, ou sobre como as coisas são necessariamente. Por outro lado, o nome de anormalidade é dado, primordialmente, ao procedimento que fere a normalidade, isto é, ao procedimento incompatível com as concepções e convicções dominantes. Cumpre observar que a anormalidade se define por oposição à nor- malidade, enquanto a normalidade se define pela sua conformidade com as concepções e convicções vigentes e predominantes.

A normalidade é essa conformidade. A anormalidade é a violação da

normalidade. Notemos, porém, que a normalidade não é a violação da anormalidade.

O estado de anormalidade não se define pela sua conformidade com

quaisquer concepções, mas pela sua inconformidade com as concepções e convicções generalizadas. A conformidade das anormalidades com esta ou aquela concepção ou convicção não é o que importa para que um procedi- mento seja tido como uma anormalidade, e para que um estado seja tido como um estado de anormalidade. O que importa, para a caracterização da anormalidade, é sua oposição à normalidade.

A anormalidade é sempre uma excepcionalidade. O anormal é sempre

excepcional.

Mas é preciso não esquecer que os conceitos de normalidade e de anormalidade são sempre relativos, pois dependem do sistema de convic- ções tido como dominante. A anormalidade de hoje talvez seja a normalida- de de amanhã.

A normalidade e a anormalidade só se podem definir à luz de uma

ordenação dada.

§ 7. As anormalidades no mundo físico e no mundo ético

No mundo físico, as anormalidades podem surgir em objetos projetados e construídos pelo ser humano, como, por exemplo, as que se manifestam em

máquina defeituosa; e podem também surgir em objetos da natureza, existentes sem ingerência deliberada e voluntária do ser humano, como, por exemplo, a anormalidade consistente no desvio insólito da trajetória da luz de uma estrela, e a consistente na doença, deficiência ou deformidade de um organismo vivo. Nos objetos projetados e construídos pelo ser humano, as anormalida- des são susceptíveis de ser abolidas, pela supressão dos defeitos, existentes no projeto ou na construção. Nos objetos da natureza, as anormalidades são apenas aparentes. De fato, tais anormalidades são apenas aparentes porque elas se transmudam em procedimentos normais no momento em que suas causas são descober- tas, e em que deixam, por conseguinte, de constituir um enigma. Assim, por exemplo, o desvio insólito da trajetória da luz de uma estrela deixou de ser uma anormalidade no momento em que Einstein descobriu que a energia luminosa é feita de corpúsculos “discretos” (fótons), dotados de massa e, portanto, sujeitos à atração da matéria, de acordo com o descrito na lei da gravidade. O desvio daquela trajetória não é mais considerado insólito, por- que hoje se sabe que o desvio é determinado pela atração da luz da estrela pela matéria de outra estrela. O vôo do besouro era anormal, enquanto constituiu um desmentido a aerodinâmica, uma “violação da natureza”; enquanto se pensou que as frá- geis asas dos coleópteros não tinham envergadura e potência para erguer no espaço corpo de tal peso. Mas passou a ser fato normal no dia em que se mediu a energia produzida pela mitocondria nas células “musculares” da- quelas asas. São apenas aparentes, as anormalidades que contrariam errôneas con- cepções científicas, pois passam a ser consideradas procedimentos normais, no momento em que tais concepções são substituídas por outras, geradas à luz das realidades observadas. Nos caso das doenças, deficiências e deformidades dos seres huma- nos, estes fenômenos são recebidos como anormalidades porque afligem e infelicitam — mas não são anormalidades na sucessão de causas e efeitos, dentro da ordem física e infrangível da matéria. No mundo ético, porém, as anormalidades têm caráter diferente. Nesse mundo, que é o mundo do comportamento deliberado e volun- tário do ser humano, as anormalidades são procedimentos que contrariam, como já dissemos, as convicções dominantes sobre o que pode ou deve ser feito e sobre o que não pode ou não deve ser feito. São procedimentos que não se harmonizam com a ordem ética vigente.

§ 8. Noção de NORMA e de ORDENAÇÃO NORMATIVA

Chamam-se normas, AS CONVICÇÕES, CONCEPÇÕES OU PRIN- CÍPIOS, EM RAZÃO DOS QUAIS UM PROCEDIMENTO OU ESTADO É TIDO COMO NORMAL OU ANORMAL. Logo, as normas são expressões mentais, juízos ou proposições, de como procedimentos ou estados costu- mam ser, podem ou não podem ser, devem ou não devem ser, sempre que dadas circunstâncias se verifiquem. As normas são concepções ideais de procedimentos e de estados usuais

e comuns, ou de procedimentos e estados que seres humanos querem que sejam usuais e comuns. É óbvio que toda norma, sendo princípio da normalidade, sempre se inclui dentro de um sistema ético, ou seja, de um sistema de convicções sobre o normal e o anormal. Um tal sistema é o que se chama ordenação normativa. Uma ordenação normativa é um CONJUNTO ARTICULADO DE DISPOSIÇÕES, PARA A ORIENTAÇÃO DO COMPORTAMENTO, SE- GUNDO O QUE É TIDO, DENTRO DE UMA COMUNIDADE, COMO BOM E MAU, CONVENIENTE E INCONVENIENTE, ÚTIL E PREJUDI- CIAL, BELO E FEIO. É, em síntese, um conjunto de mandamentos decor- rentes dos “valores” de uma comunidade. Repetimos: é um sistema ético.

É um sistema de regras para o comportamento humano.

Uma tal ordenação pode existir em muitos níveis e nos mais diversos setores de atividade.

São ordenações normativas as que se exprimem, por exemplo, nas “Tábuas da Lei” e nos códigos da moral; nas Constituições e na legislação dos Estados; nos contratos e estatutos fundados nas leis; nos complexos de praxes inveteradas e nos “códigos de honra”. São também ordenações normativas, por exemplo, os regimes consuetudinários de “boas maneiras”

e da chamada “boa educação”; os regulamentos dos jogos, os conjuntos

harmônicos dos preceitos da moda e dos usos folclóricos; os receituários das cozinhas típicas.

Pois bem, chamam-se normas, os mandamentos constitutivos de orde- nações normativas, seja qual for a coletividade e o nível social em que surgiram, ou o setor de atividade em que imperam. São normas, os manda- mentos coadunados com um sistema ético vigente. Tanto são normas os mandamentos de um Código Civil como as pra- xes de uma favela. Tanto são normas as determinações de um regulamento militar como os rituais do jogo de croquê.

Mas não são normas, os mandamentos isolados, desligados do siste-

ma de convicções vigente numa coletividade, sobre o que é normal e o que

é anormal. Não são normas, os mandamentos avulsos, não harmonizados

com uma ordenação normativa estabelecida. E não o são porque tais man- damentos não se conciliam com o que é considerado a normalidade. Não é norma, o que não se coaduna com a normalidade. Do que acabamos de explicar, inferimos que as normas são formula- ções de modelos ou padrões, e constituem critérios de referência, para juízos de valor sobre os procedimentos e estados efetivos, ou seja, sobre os movi- mentos e as obras efetivamente executados, e sobre os estados em que os agentes efetivamente se encontram. Com fundamento nas normas, os pro- cedimentos e estados efetivos são julgados normais ou anormais.

Por serem critérios de referência para a discriminação entre o normal

e o anormal, entre o sólito e o insólito, entre o aprovado e o reprovado, as

normas formam, no mundo ético, sistemas disciplinadores do comporta- mento. Pois, não podem deixar de redundar em sistemas disciplinadores, todos os sistemas de convicções sobre o normal e o anormal, no comporta- mento humano. De fato, no mundo ético, as normas adquirem a natureza de manda- mentos. Nesse mundo, as normas não são descritivas, não descrevem o com- portamento efetivo. Elas são indicativas, prescritivas, porque indicam e prescrevem o comportamento considerado como a conduta correta. São pres- crições de como deve o ser humano se conduzir, em razão do que a coletivi- dade considera bom, belo, útil ou conveniente. Por conseguinte, no mundo ético, todas as normas têm caráter imperativo.

Não é o que acontece no mundo físico. Neste outro mundo, as normas não são mandamentos. Aliás, não é mesmo da competência humana ditar mandamentos para movimentos e estados cujas formas não dependem da deliberação humana. Por exemplo, não depende de deliberação humana que

a energia existente numa unidade de massa seja igual a essa massa multipli-

cada pelo quadrado da velocidade da luz. As normas físicas também são convicções. Mas são convicções de como as coisas físicas são, de fato, e de como elas, de fato, se movimentam. As normas éticas são normas do dever, do dever-ser. As normas físicas são normas do ser. As normas éticas têm, invariavelmente, esta estrutura: Se A é, B deve ser. As normas físicas têm, invariavelmente, esta outra estrutura: Se A é, B é.

§ 9. Diferença entre NORMA e MANDAMENTO

Cumpre observar que todas as normas éticas são mandamentos, mas que muitos mandamentos não são normas. É óbvio que somente são normas, no mundo ético, os mandamentos que prescrevem comportamentos normais, isto é, comportamentos confor- mes com a normalidade ambiente. Somente são normas éticas, os manda- mentos de ordenações normativas, como já foi explicado.

Não são normas, portanto, os mandamentos desligados de uma ordena- ção, ou contrários ao sistema ético vigente. Um mandamento isolado não é nunca uma norma. Não é nunca uma norma, o mandamento avulso, desco- nexado, adiáforo ante a normalidade estabelecida, ou em conflito com ela. Tais mandamentos são imperativos não normativos. São imperativos, sim, mas não são normas. Alguns exemplos tornarão claras estas asserções. Numa sociedade de formação cristã, na qual as consciências se edu- cam em consonância com uma ordenação religiosa, constitui norma, o se- guinte mandamento: “Ama a Deus sobre todas as coisas”. Mas este man- damento não é norma numa sociedade em que as consciências se sujeitam a uma ordenação inspirada na tese de que “a religião é o ópio do Povo”. Numa tal sociedade, o referido mandamento não é norma, porque contraria

a normalidade nela vigente; contraria o sistema vigente de idéias norteadoras do comportamento. Poderá continuar sendo mandamento, mas um manda- mento que não é norma. Em muitos países, a ordenação moral promove a normas os manda- mentos fundados no princípio de que a família deve ser monogâmica. Esses mandamentos, porém, não são normas em outros países, nos quais a orde- nação moral não se opõe à poligamia. De acordo com as ordenações de certos povos, a mulher é serva de seu marido. Em conseqüência, os mandamentos decorrentes desse princípio são promovidos a normas. Em outros povos, porém, nos quais a ordenação vi- gente acolhe o princípio da igualdade das pessoas, em igualdade de situa- ções, os referidos mandamentos não são normas. Nestes países, passam a ser normas, os mandamentos que tendem a equiparar os direitos e obriga- ções da mulher aos direitos e obrigações do marido. Quando a escravidão é admitida pelos usos e costumes, e permitida pela legislação, são normas os mandamentos que implicam, para o escravo,

a permanência em estado de servidão por toda a vida, ou até o momento em

que a vontade de seu senhor, manifestada em carta de alforria, lhe conceda a graça da liberdade. Quando, porém, os princípios do trabalho livre e da dignidade humana do trabalhador se acham incluídos na ordenação norma- tiva, são normas os mandamentos que os tornam eficazes, como, por exem- plo, o dispositivo legal que fixa penas para os autores de atentados contra a liberdade de trabalho, e o que estabelece que o contrato de trabalho por prazo determinado não pode estipular prazo superior ao que a lei prefixa. A cozinha francesa e seu competente serviço de mesa obedecem a rigorosas receitas e determinações, ou seja, dirigem-se por mandamentos que constituem as normas próprias dessa cozinha e desse serviço, normas estas que formam um completo sistema, uma ordenação normativa de uma escola culinária. Mas muitos desses mandamentos não são normas para a cozinha chinesa e para o serviço de mesa na China, porque não se identifi- cam nem se harmonizam com os preceitos que formam a ordenação norma- tiva desta outra escola. Dentro de uma sociedade de malfeitores, são tidos como normas, pe- los delinqüentes, os mandamentos da ordenação a que eles se dispuseram submeter. Mas tais mandamentos somente são normas dentro da referida sociedade. Ante a ordenação do Estado, em cujo território a sociedade de malfeitores se organizou, muitos desses mandamentos não são normas, evi- dentemente, mas preceitos contrários à normalidade. Em verdade, as normas éticas, de qualquer espécie, são os mandamen- tos constitutivos de uma ordenação vigente, num determinado meio ou num determinado setor de atividade. São as fórmulas pelas quais se exprimem os imperativos da ordenação de uma coletividade, e segundo as quais os pro- cedimentos efetivos são julgados. Toda norma ética é, de fato, um imperativo. Mas não é um imperativo qualquer. É o imperativo de uma normalidade, como dissemos. Ela consti- tui um critério de referência para juízos de valor. Cumpre aditar que nem sempre uma ordenação vigente é ordenação normal. Não é normal, por exemplo, a ordenação imposta discricionaria- mente por um Governo arbitrário, com violação da normalidade constitucio- nal de um País. Uma tal ordenação, incongruente com o sistema dominante de concepções, é insólita e extravagante. É, em seu conjunto, uma anorma- lidade. Em conseqüência, seus mandamentos, embora integrantes de uma ordenação vigente, não são normas, porque são violações do que é normal. Para que um mandamento seja norma, não basta, portanto, que ele seja elemento de uma ordenação vigente. É preciso que ele seja elemento de

uma ordenação normal, isto é, de uma ordenação que esteja harmonizada com o sistema de concepções dominantes numa coletividade. É preciso, em suma, que o mandamento se enquadre numa ordenação legítima.

§ 10. Divisão dos mandamentos

À vista do exposto, dividem-se os mandamentos em duas espécies. A primeira é a dos mandamentos normativos, que se chamam normas. A se- gunda é a dos mandamentos não normativos. Uma fundamental diferença existe entre as duas espécies. Os mandamentos normativos ou normas são imperativos de ordenações condizentes com as convicções generalizadas da coletividade, sobre o que é bom e mau, conveniente e inconveniente, útil e prejudicial, belo e feio. São imperativos do usual e comum, ou do que a coletividade quer que seja usual e comum. São imperativos harmonizados com o sistema ético vigente. Os mandamentos não normativos são imperativos avulsos, incon- gruentes com as ordenações da coletividade, ou são imperativos de ordena- ções conflitantes com as convicções generalizadas, sobre fins a ser atingi- dos e sobre os meios a ser empregados na procura de tais fins. São impera- tivos não harmonizados com o sistema ético vigente. Esta divisão dos mandamentos tem grande importância para o perfeito entendimento da definição da norma jurídica, da norma de direito, como vamos ver no Capítulo X deste livro.

§ 11. A natureza condicional das normas

As normas resultam de uma complexa operação, pela qual a inteligência confronta fatos da vida com uma tábua de ideais, acerca de como deve ser o comportamento humano. Resultam do julgamento dos fatos, à luz de um cer- to sistema de convicções já assentadas, sobre o que é normal e o que é anor- mal, sobre o que é bom e o que é mau, o que é útil e o que é prejudicial, o que é belo e o que é feio. Resultam, enfim, de um juízo sobre os fatos, em razão de uma ordenação ética já aceita, de uma tábua de valores já constituída, ordena- ção ou tábua que funciona como sistema axiológico de referência* .

* Axiologia: do grego, axia = valor, logos = ciência. Sistema axiológico de referência = sistema dos bens éticos da vida humana; sistema de “valores”, adotado por uma coletivi- dade, para orientação do comportamento.

Toda norma repousa em três elementos entrosados: fato, sistema axiológico de referência, juízo.

A norma não é uma invenção, mas uma descoberta. Para cada circuns-

tância da vida social, a inteligência descobre as interações humanas consi-

deradas necessárias ou benéficas. Ela descobre as reações que devem ser exigidas ou permitidas, assim como as que devem ser proibidas, tudo em conformidade com um sistema de convicções adrede estabelecido. Em conseqüência de tal descoberta, a inteligência formula as normas correspondentes.

O que é importante assinalar é que a norma está sempre ligada aos

fatos reais que a fizeram surgir. Efetivamente, toda norma é relativa à cir- cunstância para a qual ela é destinada. Verificada a circunstância, ela vigora e atua. Mas não tem atuação fora dessa circunstância.

Por este motivo, toda norma tem estrutura hipotética. O que ela pre- ceitua vale somente na hipótese de ocorrer o tipo de fato que determina seu nascimento e elaboração.

Por força de sua natureza, a norma não se compadece com as proposi- ções simples ou categóricas, e exige, para a sua perfeita formulação, propo- sições complexas e hipotéticas, como explicaremos no § 12.

É óbvio que as normas assumem um grande número de formas dife-

rentes. Mas, seja qual for sua forma verbal, o mandamento da norma é sem- pre condicional ou hipotético, porque a norma só se aplica, e só impera, na condição ou na hipótese de se verificar a espécie de fato para cuja regula- mentação ela existe. Este é o motivo pelo qual o mandamento da norma ética apresenta sem- pre uma estrutura que se reduz ao já mencionado esquema: Se A é, B deve ser. Os mandamentos com tal estrutura são os imperativos que a Lógica cha- ma de juízos hipotéticos do tipo condicional, como veremos no § seguinte.

§ 12. Os imperativos considerados como juízos hipotéticos do tipo condicional*

Sendo mandamentos para o comportamento humano, as normas ex- primem juízos de dever (veja § 8).

* A matéria exposta neste § revela a natureza da norma ética e, por conseguinte, exibe um dos elementos essenciais da norma jurídica, de que trataremos na 2ª Parte deste livro. É matéria própria da Lógica, mas que merece a atenção dos estudantes da Ciência do Direito.

Para o perfeito entendimento dessa conclusão, convém lembrar o que

a Lógica ensina sobre os juízos em geral. Um juízo ou julgamento é o ato pelo qual a inteligência aceita (afirma) ou rejeita (nega) uma idéia de outra idéia.

É a aceitação, ou não, de que uma idéia convém a outra.

São exemplos de juízos: “O todo é maior do que a parte”, “Esta flor é vermelha”, “O vegetal não é um ser racional”.

O juízo se efetua em três fases.

Na primeira fase, a inteligência aproxima duas idéias; relaciona-as, isto é, afirma ou nega uma da outra, produzindo uma construção sobre a qual a inteligência ainda não se manifestou. Tal construção é matéria apta a ser julgada, “objeto projetado de um juízo”, como diz Leonardo Van Acker (Introdução à Filosofia — Lógica, Lógica formal, Capítulo II, art. I). Em sua expressão verbal, ela constitui o que se chama proposição simplesmen- te enunciativa.

É incontestável que, antes do ato próprio de julgar, existe, no espírito,

a mencionada construção, que não passa de um simples enunciado mental,

isto é, de um objeto ou matéria que não recebeu, ainda, o assentimento da inteligência. Há como que uma pergunta, à espera de uma resposta. Antes de dar assentimento a uma afirmação ou a uma negação, a inteligência pro- cura certificar-se de que essa afirmação ou negação corresponde à realidade apresentada. Durante o prazo empregado em tal procura, a dúvida impera, não há julgamento, embora já exista matéria a julgar, objeto de um juízo projetado. Na segunda fase, a inteligência compara o simples enunciado mental com a realidade apresentada. Tal comparação visa verificar se o enunciado proposto reflete a realidade das coisas, isto é, se as duas idéias, que a inteli- gência aproximou, convêm ou não, uma à outra. Se a inteligência se convence de que há conformidade entre o enunciado mental e aquilo que lhe é apresentado, então, numa terceira fase, dá-lhe sua adesão. No momento desta adesão, o simples enunciado mental deixa de ser simplesmente enunciativo, porque além de enunciativo, passa a ser judicativo, passa a ser propriamente um juízo, o produto de um julgamento. Em sua expressão verbal, o juízo constitui o que se chama proposição judicativa.

Diga-se, a bem da clareza, que a proposição judicativa é a própria proposição enunciativa, com uma diferença essencial: não é a proposição simplesmente enunciativa, e sim a proposição enunciativa julgada.

Pelo juízo, a inteligência vê o que uma coisa é, segundo seu sistema de referência. O juízo completa a apreensão do objeto. Em conseqüência, o juízo é o coroamento do conhecimento intelectual, o termo final do proces- so de conhecer. Os juízos se dividem em quatro espécies, a saber: 1) juízos de ser; 2) juízos de modos de ser; 3) juízos de valor; 4) juízos de dever. Chamam-se juízos de ser, os juízos sobre a existência e a essência dos objetos a que esses juízos se referem (ou, mais precisamente: sobre a exis- tência e a essência de seus respectivos sujeitos). Estes juízos também são chamados juízos de determinação essencial. Exemplos: “O homem é um ser dotado de inteligência”; “A idéia é o abstrato do individual sensível, sem elementos individuais sensíveis”. Chamam-se juízos de modo ou juízos de modos de ser, os juízos relati- vos às determinações não essenciais dos objetos a que esses juízos se refe- rem. Exemplos: “O homem é bípede”, “Pedro é estudioso”. Chamam-se juízos de valor, os juízos sobre o valor dos objetos a que se referem. Observemos que, no juízo de valor, uma idéia de medida, de quantida- de, de importância é atribuída a alguma outra idéia. O juízo de valor é o juízo que, de certa forma, situa um fato ou uma coisa numa escala hierárquica de coisas ou fatos. É a afirmação de que uma coisa ou um fato, apreciado à luz de um sistema de referência, é considera- do mais, ou é considerado menos do que outro fato ou coisa, ou é conside- rado igual a outro fato ou coisa. São exemplos de juízos de valor os seguintes: “A ciência mais alta é o verdadeiro conhecimento de si mesmo”; “Mais alegria causará a pureza de uma boa consciência do que a douta Filosofia”; “Grande sabedoria é não se aferrar ao próprio parecer”; “Mais vale a paz de espírito do que a satisfação de um desejo desonesto”; “A caridade é mais meritória do que a justiça, mas a justiça é mais urgente do que a caridade”. Chamam-se juízos de dever (ou juízos éticos), os juízos indicativos de como deve o homem agir. Os juízos de dever são mandamentos para o com- portamento humano, em razão de anteriores juízos de valor. Exemplos:

“Conhece-te a ti mesmo”; “Antes conserves a pureza de uma boa consci- ência do que te orgulhes com a douta Filosofia”; “Não te aferres a teu próprio parecer”; “Não permitas que a vida emudeça teu sonho”; “Se causares dano ilegal a outrem, deves reparar o prejuízo”; “Se encontrares

coisa que não te pertence, deves restituí-la ao dono”; “Primeiro, fazer jus- tiça; depois, caridade”. Como se vê, os juízos de dever não são juízos sobre o valor das coisas, mas sobre como deve o homem agir para alcançar bens a que ele atribuiu valor, ou seja, bens que foram objeto de prévios juízos de valor. Antes de caracterizar, especificamente, os juízos de dever, cumpre di- zer que os juízos em geral ou são simples ou são complexos. Os juízos simples são feitos sem subordinação a outros juízos. Os complexos, em fun- ção de juízos já feitos. Nos primeiros, nada mais há do que um termo ligado a outro, por afirmação ou por negação, como no seguinte exemplo: “Os homens são mortais”. Nos segundos, além da afirmação ou negação, próprias de todos os juízos, existe sempre a expressão de uma hipótese, cuja verificação é supos- ta pela afirmação ou negação, como no seguinte exemplo: “A água entra em ebulição, se sua temperatura atingir 100º”. Os juízos simples são chamados juízos atributivos ou categóricos. Os juízos complexos são chamados juízos supositivos ou hipotéticos. Ora, os juízos de dever ou juízos normativos são necessariamente juízos complexos, porque o juízo, que constitui o mandamento, depende da verifi- cação de hipótese expressa num juízo conexo. Em conseqüência, o juízo de dever é sempre uma proposição hipotéti- ca, embora possa, às vezes, tomar a forma aparente de uma proposição atributiva ou categórica. De fato, o juízo de dever há de ser sempre uma proposição hipotética, porque o dever nunca é absoluto. Ele é sempre relativo a determinada cir- cunstância: “Isto deve ser, se aquilo for”, ou, mais esquematicamente: “Se A é, B deve ser”. Examine-se um exemplo prático. Somos informados de um fato, que se exprime na seguinte proposição: “Fulano causou dano a Beltrano”. À luz de um sistema de referência, adrede estabelecido, nosso espírito julga o fato e o reprova. Deste juízo, vai surgir, mediata ou imediatamente, a nor- ma, que se exprimirá na seguinte proposição: “Quem causa dano a outrem, deve indenizar”. Esse mandamento não é, evidentemente, um juízo categórico. Devido à sua natureza, é um juízo hipotético. Não exprime um imperativo absoluto. É um mandamento condicionado.

Podemos aprofundar a análise dos juízos hipotéticos. No juízo hipotético, a verificação da hipótese não é sempre a única alternativa necessária, oposta ao que é afirmado ou negado. Veja-se o que sucede no seguinte exemplo: “Ninguém é, simultaneamente, discípulo e mestre” (alguém, na hipótese de ser discípulo, não é simultaneamente mes- tre; mas poderá alguém não ser mestre e, mesmo assim, não ser discípulo). Tal juízo hipotético é chamado conjuntivo. Pode, também, a verificação da hipótese ser a única alternativa neces- sária, oposta ao que é afirmado ou negado, como no seguinte exemplo: “Ou haverá uma autoridade, ou haverá desordem”. Tal juízo hipotético é cha- mado disjuntivo. Finalmente, pode a verificação da hipótese ser condição do que é afir- mado ou negado, como no exemplo citado: “Se alguém causar dano, deve indenizar”. Tal juízo hipotético é chamado condicional. De que tipo de juízo hipotético são os juízos de dever, os imperativos do comportamento humano, as normas éticas? O dever, repita-se, nunca é absoluto: ele se impõe na condição de se verificar determinada hipótese. Logo, os juízos de dever, os imperativos em geral, as normas éticas, não podem deixar de ser JUÍZOS HIPOTÉTICOS DO TIPO CONDICIONAL.

CAPÍTULO IV

QUE É UMA “LEI”?

§ 13. A definição genérica de LEI

Ordens existem que não são normais, como já vimos. Mas todas as ordens, normais e anormais, pressupõem um pensamento, uma idéia, que lhes é anterior, conforme foi explicado no § 2. Toda ordem efetiva é a reali- zação concreta de uma idéia de ordem, de uma ordem ideal. Ora, toda idéia é abstrata: é um conhecimento intelectual abstraído de conhecimentos sen- síveis. Toda ordem, pois, decorre de um princípio abstrato. Que nome genérico possuem os princípios abstratos de que, indiscriminadamente, todas as ordens dependem? Sendo preciso, para a verificação da ordem, que a disposição das coi- sas seja conveniente, é claro que tal disposição há de se fazer segundo crité- rios adrede assentados, ou seja, segundo princípios abstratos ou preceitos já estabelecidos. Estes princípios ou preceitos (ou “receitas”) constituem as fórmulas segundo as quais os seres são dispostos, ou devem ser dispostos, para que a ordem exista. São as formas abstratas, segundo as quais se realiza, em cada caso concreto, a “unidade do múltiplo” (veja § 1). Tais preceitos têm um nome genérico: chamam-se leis. Uma lei, em verdade, é a FÓRMULA DA DISPOSIÇÃO CONVE- NIENTE DE SERES, PARA A CONSECUÇÃO DE UM FIM COMUM. Quando o farmacêutico reúne e combina substâncias diferentes na pre- paração de um determinado produto, ele obedece a uma fórmula. A que fórmula? À fórmula desse produto. Tal fórmula é uma lei, porque ela é a

expressão de como as substâncias devem ser dispostas para que o produto seja confeccionado. Uma lei de trânsito é uma fórmula. É a fórmula da movimentação conveniente dos veículos e dos pedestres nas ruas, com o fim de evitar coli- sões e estrangulamento de tráfego. Uma lei comercial é uma fórmula para a constituição conveniente de sociedades mercantis, ou para regular, convenientemente, a transferência de mercadorias das mãos de quem as oferece para as mãos de quem as procura, por intermédio do comerciante. Ora, como foi dito, a disposição conveniente de seres é o que se chama ordem. Logo, a lei se define: FÓRMULA DA ORDEM. Esta definição é absolutamente genérica. Ela se aplica a todas as espé- cies de leis: tanto às leis éticas como às leis físicas. É óbvio que cada espé- cie exige definição distintiva. Por exemplo, as leis jurídicas, que também são fórmulas da ordem, têm a sua própria definição específica, como vere- mos adiante (nos Capítulos V e X). Como fórmulas, as leis são idéias. A lei é sempre uma idéia de ordem. Ela é uma fórmula mental, elaborada por alguma inteligência, para a conve- niente disposição de coisas, a fim de produzir um efeito preconizado. Toda lei é o plano concebido do que vai ou deve acontecer. Primordialmente, toda lei é um pensamento (veja § 2). Depois, ela pode ser manifestada num texto escrito ou falado. De qualquer maneira, a lei precede a ordem. Precede-a cronologicamente. A lei existe antes do surgimento da ordem. É óbvio que, uma vez estabelecida a ordem, ordem e lei existem concomitantemente. Das leis, todas as ordens dependem — tanto as ordens normais como as anormais. Das normas, porém, dependem somente as ordens condizen- tes com o usual e comum, as ordens conformes com as concepções genera- lizadas, isto é, as ordens normais. Há leis, portanto, que não são normas. Em rigor, não deveriam ser tidas como normas as leis que sejam mandamentos de comportamentos anormais (veja §§ 8 e 9). Dividem-se as leis em dois gêneros: no gênero das leis éticas e no gênero das leis físicas, como se vai ver nos dois §§ seguintes.

§ 14. As leis éticas

A palavra ÉTICO é derivada dos termos gregos êthe e ethikós, que significavam costumes (usos). Na linguagem moderna, o adjetivo ético de- signa a qualidade de ser concernente às atividades próprias do ser humano, ou seja, a seus atos deliberados e voluntários. Ao mundo ético, portanto, pertencem todos os comportamentos vo- luntários do ser humano — tanto os comportamentos “bons” como os com- portamentos “maus”. As leis éticas são fórmulas elaboradas pelo ser humano, para ordenar o seu comportamento. Por exemplo, são leis éticas, as seguintes fórmulas:

“Ama teu semelhante como a ti mesmo”; “Aquele que causar prejuízo ile- gal a outrem fica obrigado a reparar o dano”. Diferentes das leis físicas, as leis éticas não revelam o ser das coisas, mas o que as coisas devem-ser. São enunciados do dever-ser (fórmulas do dever-ser). Sua estrutura é a do seguinte esquema: Se A é, B deve ser. Evidentemente, as coisas a que estas leis se referem são os comporta- mentos humanos, únicos movimentos susceptíveis de se ordenar segundo imposições de dever. As leis éticas se dirigem especificamente aos atos humanos, tomando- se esta última expressão em seu sentido tradicional, ou seja, no sentido do consagrado termo “actus humanus” (ato humano), que designa, na Filoso- fia, a ação deliberada e voluntária, praticada pelo ser humano. Sabem os filósofos que o “actus humanus” é uma das espécies do “actus hominis” (ato do homem), que é todo e qualquer ato produzido pelo ser humano, inclusive os atos não deliberados e não voluntários, como os de respirar e de digerir. Somente aos atos deliberados e voluntários do ser humano, referem-se as leis éticas. Sendo enunciadoras do dever, as leis éticas se fazem imperativas. A imperatividade caracteriza as leis éticas. É o que, na prática, as dife- rencia das leis físicas. Pois bem, as leis éticas, quando harmonizadas com uma ordenação normativa, se promovem a normas. Convém assinalar que, em rigor, as leis éticas não são normas sempre. Esta observação é importante para a exata conceituação de lei ética e de

norma. Em verdade, não são propriamente normas as leis éticas não harmo- nizadas com a ordenação normativa vigente. É óbvio que somente deve receber o nome de norma, a lei normalizadora do comportamento, ou seja, a lei não conflitante com a normalidade. De fato, só merecem a designação de normas as leis éticas que determinam o que deve ser feito, em consonân- cia com o sistema de concepções éticas dominantes. As leis éticas não harmonizadas com a ordenação normativa vigente são mandamentos, sim, mas, em rigor, não são normas. São mandamentos não normativos (veja § 10). Por exemplo, não são normas, no estricto sen- tido deste termo, leis éticas que imponham a censura aos meios de comuni- cação, num país em que a ordenação normativa constitucional consagra a liberdade de informação dos veículos da mídia. Observe-se que a lei ética não é descritiva. Ela não é a descrição de um comportamento efetivamente mantido. O que ela é, isto sim, é a fórmula do comportamento que deve ser mantido, em determinada circunstância. Ela é uma indicação de caminho, e não o relato do caminho percorrido. Ela não descreve o que é, mas o que deve ser. Sua estrutura é a do citado esquema:

Se A é, B deve ser. Há, sem dúvida, leis éticas que tomam a forma de descrições. Mas ninguém se iluda! Quando isto acontece, a lei ética está descrevendo o com- portamento como ele deve ser, independentemente do que ele é de fato. Note-se que o comportamento contrário ao que manda a lei ética não afeta, em regra, a validade da lei. Tal comportamento é a violação de um mandamento. Em conseqüência, a lei, como um imperativo de dever, se sobrepõe ao comportamento efetivo. O dever-ser prepondera sobre o ser. O que deve ser perdura, ainda quando, de fato, não seja. Aliás, as leis éticas, como disse Rosmini (referindo-se ao Direito), brilham com maior esplendor precisamente quando são violadas (Filosofia do Direito, 2ª ed., 1865, vol. I, p. 126). Realmente, quando obedecidas, estas leis, em sua maior parte, nem se fazem notar. Mas, sendo violadas, fulguram quase sempre. Por quê? Porque, em regra, as forças a serviço da ordem se manifestam, após a infringência, para fazer cumprir os manda- mentos violados.

§ 15. As leis físicas

O substantivo física é derivado do termo grego physis, que significa natureza. Como adjetivo, a palavra físico designa a qualidade de concernir

ou de pertencer ao mundo das realidades concretas da natureza (mundo oposto ao das realidades abstratas). O mundo físico é o mundo dos corpos e das forças do Universo, aptos a entrar no domínio da experiência sensível.

As leis físicas são fórmulas, também elaboradas pelo homem, para revelar, em síntese, o que a ciência descobriu de constante, em tipos de fenômenos observados na natureza. Por exemplo, são leis físicas as seguin- tes fórmulas: “A matéria atrai a matéria na razão direta do produto de suas massas e na razão inversa do quadrado das distâncias que as separa” (lei da gravidade, elaborada por Newton); “A energia existente numa uni- dade de massa é igual a essa massa multiplicada pelo quadrado da veloci- dade da luz” (E = mc 2 : fórmula elaborada por Einstein, revelando a relação entre energia e massa).

É óbvio que essas leis são elaboração dos cientistas. Existem na inteli-

gência, não na natureza. As leis a que se confere a denominação de leis físicas não são manda- mentos. Não são determinações baixadas por alguma entidade que não seja o ser humano.

Não há lei física nenhuma que não seja lei elaborada pelo próprio ser humano. De fato, o que os seres humanos encontram, invariavelmente, no mun- do da natureza, é o individual e o concreto. Jamais encontrou leis. Jamais encontrou princípios gerais e abstratos.

O que os seres humanos acham, no mundo da natureza, são corpos e

energias, seres individuais, particulares, fenômenos perceptíveis pelos ór- gãos sensórios. Não acha leis. O ser humano vê a pedra solta cair, mas não vê a lei da gravidade.

Sobre as coisas e os fatos da natureza, é o próprio ser humano que elabora as leis chamadas leis físicas.

A inteligência humana, com sua irresistível tendência de subir do par-

ticular para o geral, trabalha sobre as imagens das coisas e dos fatos que lhe

são dados, e as despoja, desembaraça-as de tudo quanto as individualiza, ficando com as representações do que é sempre o mesmo em cada tipo de seres. De imagens diversas de coisas do mesmo tipo, a inteligência separa o que as diversifica, e conserva o que nelas há de comum. Esta operação intelectual se chama abstração.

Abstração é a operação intelectual de separar o que é sempre o mesmo em coisas que são diversas. É a operação de pôr de lado o que individualiza seres singulares e reais, e de ficar com o que é comum a esses mesmos seres. Ou, ainda, é a operação de descobrir, de delivrar, nos seres do mundo real, os tipos de ser de que eles constituem a realização concreta.

Rigorosamente, a abstração é a operação pela qual a inteligência extrai o todo universal de seus submúltiplos particulares — como ocorre, por exemplo, quando a inteligência destaca o conceito universal animal de seus submúltiplos particulares cão, leão, homem, etc. (Régis Jolivet, Tratado de Filosofia, III, 169). Pedro, Paulo, Maria, Sebastiana são seres singulares, particulares, con- cretos; são diversos e diferentes. A inteligência pode despojar as imagens de tais seres de tudo que nelas há de diverso e diferente; pode desembaraçá- las de tudo que as separa e individualiza. Ficará, então, com o que nelas há de idêntico, ou seja, com o que nelas há de comum. Ficará com o que nelas há de uno, ou seja, de universal ou geral. Ficará com a idéia indivíduo inteligente e autônomo. Ficará com a idéia de homem, que não se confunde com as imagens dos homens.

A imagem de Pedro não é a imagem de Paulo, nem a imagem de Ma-

ria, nem a imagem de Sebastiana. Mas a idéia de ser humano tanto convém

a Pedro como a Paulo, a Maria e a Sebastiana.

Abstrair é passar do singular para o geral, e, do geral, para geral mais alto. É subir dos indivíduos para as espécies, e das espécies para os gêneros. É sair das imagens das coisas, para alcançar a idéia delas. É partir dos da- dos para chegar à construção das leis.

A chamada lei física, longe de ser uma realidade objetiva, existente na

natureza, é, pelo contrário, um produto de abstrações, que são operações da inteligência, como se acaba de ver. A lei física é um “ser de razão”. É um juízo, um “juízo explicativo”, como diz Miguel Reale (Filosofia do Direito, 5ª ed., Capítulo XVII, n. 104). Somente existe na inteligência. Mas, por meio dela, a ciência exprime, ou procura exprimir, em fórmulas sintéticas, o que há de permanente nos tipos diversos de movimentos, verificados no Universo. A lei física “é uma síntese estatística ou uma explicação sintéti- ca do fato”, “uma súmula do fato” (Miguel Reale, Filosofia do Direito, 5ª

ed., Capítulo XVII, n. 104, 106, 108 e 109). Dos movimentos a que se referem as leis físicas excluem-se, evidente- mente, os movimentos deliberados e voluntários do homem, que são objeto das leis do outro gênero, ou seja, das leis éticas, como já dissemos.

Também recebem o nome de leis físicas, as fórmulas sintéticas com que a ciência revela as relações constantes entre quantidades. Por exemplo, são leis físicas (leis físico-matemáticas) as seguintes fórmulas: “Duas quan- tidades iguais a uma terceira são iguais entre si”; “A soma dos ângulos de um triângulo é igual à soma de dois ângulos retos”. Pelo que acaba de ser exposto, verifica-se que as leis físicas são fór- mulas descritivas. Descrevem o que a inteligência descobre, por indução, no mundo da natureza. São enunciados do que é. São enunciados do ser (fórmulas do ser). Sua estrutura é a do seguinte esquema: Se A é, B é. Sendo descritivas, as leis físicas não podem preceder, obviamente, o objeto descrito. Não são anteriores à ordem da natureza, e não a determinam. Não são mandamentos, ordenando uma disposição conveniente dos seres, em razão de um efeito preconizado, ainda não produzido, mas a produzir. Em suma, a lei física não é um imperativo. Com rigor, ela não é uma lei. E não o é porque ela não é o pensamento ou idéia de uma ordem a ser realizada. Não é uma lei porque não passa de simples descrição das formas de uma ordem já realizada. Em verdade, não há leis no mundo da natureza. Régis Jolivet, profes- sor das Faculdades Católicas de Lyon, diretor da Faculdade de Filosofia, observa: “A palavra lei só é empregada aqui em sentido impróprio, pois só haverá lei, propriamente dita, onde há razão e liberdade” (Tratado de Fi- losofia, IV, Moral, art. II, n. 15). Este é o motivo, sem dúvida, pelo qual os pensadores da antigüidade grega não tinham na conta de leis as fórmulas com que a ciência buscava explicar os fenômenos da natureza. Lei, para eles, era somente o que hoje se chama lei ética. Aristóteles, por exemplo, nunca pensou em leis que não fossem as leis do comportamento humano. É possível que o primeiro autor a se referir a “leis da natureza” tenha sido Lucrécio, o iluminado poeta latino que, em seu poema “Natureza das coisas”, usou da expressão “leges natura” (ano 60 a.C., aproximadamente). “A noção de lei”, observa Miguel Reale, “modelou-se, de início, so- bre a noção de uma ligação entre uma ordem e uma obediência, pressupon- do sempre a pessoa do autor da norma e a do seu destinatário: — muitas vezes inclinamo-nos a pensar que recebemos dos físicos e dos químicos o conceito de lei, quando, na realidade, foi o contrário que se deu” (Filosofia do Direito, 5ª ed., Capítulo XXXIV, n. 193).

As leis físicas não deveriam ser chamadas normas, porque elas não normalizam coisa nenhuma; não determinam que coisa nenhuma seja feita, para assegurar uma normalidade. Elas não são normas verdadeiras, porque não impõem dever. Limitam-se a revelar o ser das coisas. Neste livro, a partir do § seguinte, a palavra norma designará, somen- te, a norma ética. Note-se que a verificação de um fato contrário ao que se acha afirmado na lei física invalida a lei. O fato da natureza que for contrário à lei física é prova de que a lei está errada: não descreve corretamente a realidade. É prova de que a lei é falsa, ou seja, é uma descrição falsa do ser. Em conseqüência, no mundo da natureza, o fato se sobrepõe à chamada lei física.

§ 16. Etimologia da palavra LEI

Cícero dizia que lex vem de eligere (escolher, eleger) porque a lei é a norma escolhida pelo legislador como o melhor mandamento em razão dos fins a atingir (“De Legibus”, L. 1). Mas Santo Thomaz de Aquino, em seu Tratado das Leis (incluída na Summa Theologica), sustentou que “lei vem de ligar, porque obriga a agir” (S. Th. , II ae., 2. 90, a.1). Quem estaria com razão? Observe-se que, na República Romana, as normas jurídicas se divi- diam em duas classes: normas de Direito costumeiro, que eram guardadas na memória das pessoas, e normas gravadas em tábuas de mármore e de bronze, conservadas no Capitólio, na sala denominada Tabularium. Não seria natural que a palavra lex designasse precisamente o jus scriptum? Não seria natural que a palavra lei designasse a norma que se lê? Em caso afirmativo, lex estaria para legere como rex para regere (Isidorus, Etymologiarum, Lib. 2, Capítulo 10). O certo é que a palavra lei provém do étimo grego leg, por intermédio de diversos verbos latinos, como eligere, legere e legare. Eligere (eligo, elegi, electum, eligere) significa eleger, escolher, sele- cionar. Legere (lego, legi, lectum, legere) significa reunir o que foi escolhido, recolher o que foi selecionado. Significa ligar, enlaçar, encadear, prender com o sentido de acarretar, impor uma conseqüência ou sujeição, obrigar, submeter. E também significa ler, isto é, recolher o que se depreende de letras reunidas, apanhar o sentido uno de letras diversas encadeadas.

Legare (lego, legavi, legatum, legare