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KART || A MENTRA EAVERDADE NA FCCAO Mario Vargas Llosa, para o “N.Y. Times Book Review’ Desde que ‘escrevi meu primeiro uma vida diferente da que ttm. ra a minha imaginagio, ¢ entio fan- — constituem a originalidade de uma conto, #8 pestoas me perguntam seo que (astuciosamente) apariguar este. a tasiei algo que € um reflexoextrema- obra de ficco. Sua profundidade depen- ee ecesradader. Embora minhas- nasceu a ficgao. Ela é escrita c lida para mente infiel deste. materia de de quio completamente ela expressa acre analgumas veses atstaram sia prover sees humanos com vides que Romaness no. slo cicvins pats [its Oar lade geral e do mimero de u eats, saistagamsna_fles do. se resignam cm nao ter. © recontar a vida, mas paratransforméla, leitores através de tempo & Spach ee ta Sérmen de todo romance contém um acrescentando-he alguma coisa. Nas podem identifcar seus préprios dome © quio sincera if nios obsecantes com estas do escritor francés © incémodo jgo elemento de néo-tesignagio € desejo. “*nouvellas que nio ¢ in ‘Queterd isto signficar que uin ro- dels Bretonne a realidade€forogrifics,contrabando de vids, Pods Se os romances sio verdadeiros ou mance é Heer de inealtlade? Que © quanto € possivel, uma enumeragio meus romances, ter tentado ut fanaa meactaae para ceras per os piratas Introepecivos de Conrad, ot dos cosruniesfrancess do século XV10. lagio exata com memérias re: soas quanto o fato de serem eles bons ou languidos aristocratas de Proust, os and- E, no-entanto, dentro desta enumeragio claro. Mas, ainda que eu tivesse res i ere le pore ott tines “homenaiahos,arormentados de sbeolutamente.cuidadota, de costumes, do ete feito redion, de narrar simples- aus, multos icitgaes ar tas coisas, Kafka ¢ os eraditos pervonagens metafi- onde tudo'se assemelha 2 vide rel, hI menses nooneesticeeat reais e descre Os inquisidores espanhéis proibiram — sicos das hist6rias de Borges nos inter: algo mais, diferente, minimo ¢ revolu- ver pessoas cujas Giografias se iodept oe Urttamances forwem publicados ou sam ou nos comovem porque nZo tém ciondrio —o fato de que, new mundo, sem a seus modelos como uma hu importados nas col6nias hispano-ameri- nada que ver conosco ¢ porque ¢impos- homens nao se apaixonam pelas meus romances teriam, nem por importads nat gue coves livros, ogi- sive idenvficar suas experigncias com as mulheres pela purcza de suas fcigdes 9 ‘wy sido mais ou menos veridicos do ‘cos, absurdos — isto é nao verdadciros _nossas? Absolutamente. Devemos pros- de seu corpo, seus dons espiri- que © sao. se poderiam ser maléficos para asaide seguir cautelosamente porque esta estra- etc., mas, exelusivamente, pela A anedota nao € aquilo que deter- ‘tual dos indios, Assim, durante, da— de verdade e falsidade no reino da de seus pés. mina essencialmen 300 anos, os hispano-americanos ape- ficgio — estd criva has liam obras de ficgdo contrabandea- qualquer odsis atraente & ¢ das ¢ 0 primeiro romance publicado uma miragem. ‘América espanhola, néo, _O que significa dizer que um ro- apaectasendo depois da Independéndia mance sempre ‘mente? Nao aquilo que (1816, no caso do México). O Santo iciais ¢ cadetes _actedi Oficio, ao banir néo a Militar Leéncio ‘Todos os:romancistas, menos crua- dade de uma obra de mente, menos explicitamente e, tam- | ém, menos conscientemente, refazem a ydo-a ow diminuin. palavras e nao de exper jidas, Aconteci- tmentos traduzidos em palavras sofrem uma profunda modificagao. A realidade —a batalha sangrenta de que partici 0 perfil gtico da moca que amei —, € tuma coisa, enquanto os sinais que os descrevem sao incontaveis. Ao selecio~ nar alguns e descartar o1 ‘sta favorece uma e mata in lades ou versdes estd descrevendo. portanto, muda jue descreve lierdrio em ge- que, a seus olhos, ‘sempre mentem, eles sempre apresentam | | ‘uma falsa visto da vida. Hi alguns anos, ceserevi um trecho ridicularizando estes | _ | fandticos arbitrérios. Agora, creio que. force espanh6is foram os pri tamente, considerou como ‘compreender — entes dos seu-e 4 levou a publicar um livro com a wos ¢até mesmo dos fomancistas—intengao.de_restaurar_ a verdade que itureza da fico e suas tendéncias havia sido alterada pela ficcao. Ambas subve s. as histérias, esta as contém mais | De fato, os romances mentem — invengSes desvos ¢ exageros que me fm. nenhul Refiro-me aqui apenas 0 ca so do escritor re escola ou tradicao a q les nao podem deixar de fazé-lo —, mas festa é apenas uma parte da hist6ria, A tentei ser li podem reconhe ‘outra & que, através da mentira, eles pessoas € acoi fem sua propria exprimem uma curiose verdade que 86 riores e estranhos ao roman- Jexperiencia de realidade. Poderia, de pode ser expressa de um modo velado ¢ fato, parecer que aligagio entre—> Escondido, disfargando-se com 0 quef, > nio é Esta dec Ne | | sstabeleceu aquilo que, a seus olnos, ima lei sem excega0: 0s romances sempre mentem, eles sempre apresentam a visdo da vida, Ha alguns anos, sularizando estes . Agora, creio que isidorce espanhéis foram os pri- meiros a compreender — antes dos Criticos € até mesmo dos romancistas — 4 natureza da ficgio e suas tendéncias subversivas. ‘De fato, os romances mentem — cles no podem deixar de fazé-lo —, mas esta € apenas uma parte da historia. A foutra é que, através da exprimem uma curiosa ‘ode ser express de um scondido, disfargando fo ¢. Esta decarayio \ meu primeiro romance, Us Cnet le foi queimado, acusa- ha primeira mulher pens pois de ler outro de meus roman. Jilia e o Eserevinhador, que el tamente, considerou como um icae um livro com a la ficgao, Ambas contém mais 4 certas pessoas € acontecimentos ante- riores ¢ estranhos ao roman. "Em amb0S 05 3805, 0 rudo © que escrevi, igncias hh di Wilton > realidade''e ficsio nao é nem mesmo um problema para 0 romancista de inspiragao fa que descreve mundos irreconcilidveis'e claramente inexistentes. Na realidade, isto € um problema, mas de outro modo. A irral- ratura fa natureza uma anedota no é 0 que marca a ciriga entre verdade e falsidade, em cho. Junto com esta primeira m ‘gio — a marca de palavras sobre acon- tecimentos — hé outra, no menos sem pausa, cada hist6ria fundindo-se com todas as histérias e, portanto, nunca tendo um principio ou um fim.’A vida, numa obra de ficgio, é uma imitacao na qual desor- dem vertiginosa atinge ordem, organiza~ 0, causa € efeito, comego ¢ fim. O alcance de um romance nao € deter linguagem em que € escrito, mas também pelo seu esquema temporal, modo pelo qual a existéncia transpira dentro dele — suas pausas € rages ¢ a perspectiva cronolégica jada pelo narrador para descrever este tempo narrado. Embora haj palavras € acont gir certos psicolégicos. Nele, 0 pasado pode se- Buir-se a0 presente — efeito precedendo —,como no conto de Alejo Car- pentier, Volta a Semente, que comesa’ com a morte de um velho ¢ continua até sua concepcio no titero materno. Ou pode ser simplesmente um passado re- moto que nunca se funde, realmente, com o passado recente, o ponto a part ferentemente em ambas as circunstin- cias, Em jornalismo ou Hist6ria, ela se articula na correlagio entre 0. que é escrito ¢ a realidade correspondente: erros hist6ricos de Guerra ¢ Paz, com respeito as guerras napoleénicas, seria tims perda de tempo "a ve acidade do romance nao depende de fa'os. De que entio depende ela? De seus sprios poderes de persuasio, da comunicativa de sua fantasi lade de sua magica. Todo bom romance conta a verdade ¢ todo mau mance mente. rotnance; contar a verdade’ significa ser incapaz : (© romance é, assim, um género uy, antes, sua ética & sui ica na qual verdade e fal isivamente conceitos Minhas observagdes ante :mbora extravagan- ficgdo esto submersas da qual ela tomar o que dizem os romances, ‘creditar que a vida € como oF descrevem, Livros sobre cavalaria deterioraram o cérebro de Don Quixote ¢ 0 colocaram no caminho de atacar moinhos de vento, e a tragédia de Emma Bovary nao teria ocorrido se a personagem de Flaubert ndo houvesse fentado ser como as heroinas das nove- las_roménticas que Ao acreditar rem possivel de viver ficgao parece rsonificar, para nds, uma atitudeidea- fa que honra a esp liferente do que se humana por exceléncia melhor eo pior registrad Inclusive obras de fic¢a0. ‘Quando lemos romances nfo so- jnos apenas quem somos, mas, por acréscimo, somos os seres enfeiticados ae Panu SG alas 6 €s1A00 065, PAAD romancista nos trans- jo € uma metamorfose vvidas se abre e partimos para sermos outros, para termos experiéncias que a ficcio converte em nossas. Um sonho maravilhoso, uma fantasia encarnada, ficso nos complementa, idos, carregados pela horr de termos apenas uma vida € ‘os dons para desejar mil. Este vazio entre a vida real ¢ 0s desejos ¢ fantasias {que exigem que ela seja mais rica e mais variada é 0 reino da ficgao. ‘No amago de toda a obra de ficgao arde um protesto. Seus autores 0s cria~ ram, jf que somos incapazes de vivé-los, € seus leitores (e crentes) encontram nestas criaturas fantasmag6ricas 0s r0s- tos ¢ aventuras necessd suas proprias vidas. expressa pelas mentiras da ficcio — as mentiras que nds préprios somos, as mentiras que nos consolam e compen- sam nossos anseios e frustragbes. Quio confivel €, enti, 0 testemunho de um romance acerca da prépria sociedade que 0 produziu? Eles o eram, no sentido fem que era assim que eles queriam sexs ‘como eles se viam a si préprios amando, soffendo ¢ se alegrando. Estas mentiras no documentam suas vidas, mas, antes, seus deménios propulsores — 0s sonhos que os intoxicavam e fizeram as vidas, que levavam mais tolerdveis. Uma era ‘io € povoada apenas por criaturas de ‘carne e oso, mas também por criaturas fantasmas, nas quais elas sio transfor- madas com a finalidade de quebrar as, barreiras que as confinam. 8 Nos romances ni sio im, quando a vida uta ¢ os homens, por fio resignados parece cheia e a obra de fé a romances. Ficgio € uma ai des nas quais a fé esta sofrendo alguma sempre al tempo de io. O tempo novel criado para atingir certos légicos. Nele, 0 passado pode se- guir-se ao presente — efeito precedendo causa —,como no conto de Alejo Car- pentier, Volta a Semente, que comega com a morte de um velho e continua até sua concepsi0 no sitero materno, Ou pode ser simplesmente um passado re- moto que nunca se funde, realmente, om o pasado recente 0 ponta a partt do qual o narrador esti narrando, como na maioria dos romances classicos. Ou pode ser um eterno presente, sem passa~ do ou futuro, como nas obras de ficcai de Samuel Beckett, Ou um labirint resente € futuro coe: jo-se um a0 outro, como ¢ a Faria, de Faulkner. Romances tém um comeso ¢ um fim e,até mesmo nos mais frouxos ¢ desconexos a vida assume um significa- pois, nos aprese perspectiva nunca fornecida pe real, na qual estamos submersos. Esta ‘ordem € uma invensio, um acréscimo do romancista, este dissimulador, que la, enquanto, de fato, indo-a. Ficgdo trai a vida, is vezes brutalmer envolvendo-a numa trama de palavras gue a reduz em escala'e a coloca 20 alcance do leitor. Assim, 0 leitor pode julgé-la, entendé-la e, acima de tudo, ‘com uma independéncia que a vida real nao lhe oferece. Que diferenga existe entéo entre uma obra de ficsio © uma reportagem , ou um livro de Historia? s também compostos de palavras? E ndoenvolvemeles,dentro do al do relato, esta torrente sem margens, o tempo real? E uma questio de opor sistemas no enfoque do que € real: o romance se rebela contra a vida e a transgride, outros géneros sio incessantemente seus escravos. A nocio de veracidade, no entanto, funciona di- qual pasado, ere ier nee) Orr ur ser menos Cor Ceri Pane oer TADS pe SH® PAVE F »-19F9 N perigo. Condunir + expetimentar os riscos da liberdade. fantasmas, nas quais elas so transfor- madas com a finalidade de quebrar as barreiras que as confinam. mentiras nos romances nio sio iciéncias da vida. Assim, quando a vida parece cheia e absol ‘€05 homens, por i dos prestam nenhui giosas produzem poesia e teatro, nao romances. Ficgio é uma arte de socieda- des nas quae fe sfrendo alguna especie de crise, na qual a visio untéia € absoluta. foi suplantada por outra, fragmentada, e uma incerteza acerca do mundo que habitamos ¢ do além, Todo romance, além de ser amor guarda em seu Ama ‘mo. Quando cultura religiosa entra em crise, a vida parece despida de qualquer esquema envolvente, dogma e preceitos € se transforma em caos. Este € 0 moménto étimo para a ficsio. Suas ‘ordens artificiais oferecem refdgio, segu- ranga literatura, ¢ aliberagio daqueles apetites ¢ medos que a vida real incita € rngo pode gratificar ou exortizar. Ficgio € um substituto tempordrio para a vida. A volta realidade € quase um brutal ‘empobrecimento, corroboragao de que somos menos do que sonhamos. © que ignifica que ficeao, ao esporear a imagi- io, tanto alivia temporariamente a insatisfagao humana quanto, simulea- neamente, a incita ‘ ‘A Inquisi¢éo espanhola entendeu 0 das atraves gue dose vive na realidad é um le ansiedade, um desajustamento a téncia que se pode transformar em tebe dia ¢ atitude insubmissa em relagdo a0 ‘establishment, Podemos muito bem com- preender por que regimes que procuram exercer controle total sobre a vida des- confiam de obras de ficgio ¢ as subme- tem & censura, Emergir de seu proprio eu, ser outro; mesmo na ilusio, € uma de" ser menos escravo ¢ de