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El Hombre-Macho e a Hombria: Variacdes em torno do conceito do machismo Maria José de Queiroz <@ portador dum ar de quem domina. Seu sangue forte vibra e rumoreja, ao troar da pistola ou da clavina>. (VARGAS NETO, “GACCHO") O século XIX outorgou ao génio qualidades divinas. Fez da biografia dos homens ilustres sua mitologia. No dealbar do cienti- ficismo assegurou a continuidade do culto religioso que a humanidade rendera, no passado, aos deuses do Olimpo, aos santos e aos martires da Igreja Catélica, Hoje, no entanto, 0 culto do génio, ou do heréi — tragico ou romantico, produto do meio, do momento e da necessidade, recolheu-se 4s paginas da histéria. Nossos herdis, de notoriedade efémera e fama metedrica, freqiientam os noticidrios dos meios de comunicacio e sua gloria sujeita-se ao acaso. Por isso, j& se disse, coube a Carlyle enterrar, com pompa e elegdncia, os iltimos herdeiros do heréi da antigiiidade. Num estudo sobre Dickens, Chesterton afirmava que a veemente exaltagio dos grandes homens levara Carlyle a destruir a propria esséncia do heroismo. A leitura de On heroes and Hero-worship (1841), somos forgados, no entender de Chesterton, a perguntar-nos em sobressalto: “— Serei forte? Serei fraco?”. E a resposta, que nos submete a todos & invencivel mediocridade, s6 podera ser, segundo aviso do critico irénico, positivamente unanime: “— Somos, sim, todos, fracos.” Principalmente quando nos miramos no espelho que nos estende Carlyle. Além da prova do espelho, de onerosa responsabilidade, defron- tamo-nos, nos dias que correm, com a forca niveladora da sociedade democratica e a extrema mobilidade das classes sociais. O carater instavel das relagdes urbanas, a labilidade do éxito que atualmente — 113 — se vincula 4s oscilagdes da bolsa, 4s manchettes dos didrios e as notas das crénicas mundanas reduziram a imortalidade a mera referéncia falada ou escrita, Ou pouco mais que isso. A desintegragio da familia, 0 éxodo rural, o desaparecimento dos patriarcas e dos clas, a industrializagéio da fama pela publicidade avassaladora, tanto como a desigual variedade de modelos a copiar, desnorteiam a quantos buscam, no quadro politico, artistico ou social, as virtudes que comovem, empolgam e arrastam. Num estudo sobre © conceito de honra na sociedade mediterranea, J.G. Peristiany explica que a fragmentagaéo da sociedade contemporanea, respon- sdvel pela falta de uma ordem hierarquica definida, 6 que gera “profunda perplexidade na juventude e d& origem a numerosas ambigiiidades” 1 Nos paises altamente civilizados, onde existem relativa distri- buigdo da riqueza e grandes possibilidades de emprego da energia criadora, dificilmente se registra o aparecimento do heroismo compul- sivo, triunfador de mediocridades. O culto da hombria, do machismo ostensivo, da virilidade agressiva aparece, geralmente, nas sociedades em formacio. Manifesta-se, também, nos momentos de definigio da nacionalidade, nas encruzilhadas histéricas e nas crises de expansio geografica, quando sua ag&o dinamica e construtiva se faz neces- séria, Sua mais legitima cristalizac&o, sob os auspicios do Renas- cimento, ocorreu durante a Conquista da América. Hclodiu, exalta- damente, nas faganhas dos conquistadores, nos largos capitulos da magnifica e formidavel epopéia vivida no Novo Mundo. Nao é de crer que tio dilatado e prédigo exercicio de temeridade tivesse confinado sua importancia no periodo colonial e limitado sua influéncia a duas ou trés fronteiras do continente. A meméria do “centauro ibérico” ? — a figura mitica do conquistador, nio se 1. Ver, de J.G, PERISTIANY, Bstudo introdutério a El concepto del honor en la sociedad mediterrénea, Trad., Barcelona, Nueva Coleccién Labor, 1968, p. 14. 2. Sobre o centauro ibérico, lela-se, de EDUARDO FRIEIRO, , in Kriterion, Belo Horizonte, Imprensa da UFMG, jan.-junho de 1955, vol. VII, n° 81/82, p, 91-111. Esse ensaio fol recolhido, com acréscimos, no livro do mesmo autor, O elmo de Mambrino. Belo Horizonte, Imprensa Publi- cagdes, 1971, p. 17-52. — 114 — esgota durante a Conquista: ela permanece viva, atuante, no legado transmitido & sua plural descendéncia, Seu patriménio de valentia, forga, sagacidade, e também de cupidez e violéncia, dissipam-no, com abundancia, seus principais herdeiros: vaqueiros e vaqueros, cowboys, huasos, morochucos, llaneros, tropeiros, gatichos e gauchos . Nenhum deles jamais se esquivou, a exemplo do seu modelo, ao repto da cireunstancia, ao qual responderam, de imediato, com a réplica da valentia e da coragem. Poucas familias humanas apresentam, como a desses cavaleiros, tdéo grande soma de rasgos comuns: identificam-nos a mesma ética e igual obediéncia a peculiar cAnon de vida. Sujeitos a semelhantes condigées de trabalho, néo s6 pelo nascimento como por mais razées de officio e conveniéncia, dedicam-se criagio e ao manejo do gado nas regides fronteirigas. O desempenho da profissio — rude e agreste, molda-lhes o temperamento, vinca-Ihes a personalidade. Destemor, orgulho, independéncia feroz norteiam-lhes a existéncia, quase sempre errante, muita vez solitaria. O gosto da. liberdade, a sedugdo do desconhecido afastam-nos, via de regra, do convivio social e de toda economia gregaria. Seu itinerdrio, alheio a mapas, biissolas e relégios, nao se submete a rotas determinadas nem o seu dia se empareda, domesticamente, debaixo de um telhado. As patas de um cavalo, seu melhor amigo, entregam, todos eles, seus sonhos viajeiros e o desejo, jamais satisfeito, de descobrimento e de conquista. Inspiradas no anelo romantico de afirmagéo da autonomia politica e da maioridade nacional, as guerras da independéncia promoveram, na América espanhola, o ressurgimento do hombre- macho: das cinzas do centauro ibérico — conquistador conquis- tado —, surgiu o soldado aguerrido, implacdvel. Uma das mais altas personalidades do continente, o libertador Simén Bolivar, encarnou, em determinado momento, as virtudes excelsas do con- dutor de povos. Indiferente 4 virilidade facticia e & ostentagéo de superioridade, ninguém mais homem que ele — redentor iluminado e construtor de nacionalidades. Nesses dias em que o sentimento da patria dirigia a consciéncia dos colonizados e que o ideal da “americaneria andante” entusias- mava as novas geragées, até mesmo o lirico José Marti rendeu — 15 — tributo ao herofsmo compulsivo. No affi de dar prova efetiva de compromisso com a luta pela liberdade de Cuba, o autor de Versos sencillos marchou para o sacrificio no campo de batalha. Preferiu expor-se & morte a ser chamado “o lirico da revolueéio cubana”. Mercé do culto do herofsmo e da glorificagio do soldado, a independéncia foi proclamada. Todos trazem na lembranga as tropas de gauchos miserdveis, com lancas improvisadas, lagos, boleadoras e faces, que, sob o comando do caudilho Guemes, lutaram, brava- mente, contra o exército realista na Argentina. O éxito das forcas gauchas deveu-se & sanha do habitante dos pampas. Fatalista e temerdrio, nenhuma outra empresa Ihe foi tao propicia nem téo adequada & sua natureza indomavel. O gaucho péde provar, como soldado, a superioridade sobre o inimigo estrangeiro, ao qual despre- zava pela inépcia na arte de domar potros selvagens e pela impericia no manejo do laco, da boleadeira e do facéo. Também no México3 coube ao mestigo intrépido e barbaro — a los de abajo, nem sempre modesto mas sempre disposto ao combate, a reforma da sociedade colonial. A ele se deve a instauragao da nova ordem, imposta pelo poder revolucionario: Judrez, Zapata, Morelos assinam, gloriosa- mente, a imagem ideal que cada mexicano forja para si mesmo em transferéncia compensatéria, O he-man — que melhor representa, nos Estados-Unidos, 0 hombre-macho de origem ibérica, aparece entre 1820 e 1830. Nas ex-col6nias inglesas vive-se a era da afirmaco nacional. Com Andrew- Jackson no governo — de 1828 a 1836, inauguram-se formas de conduta. Ao antigo aristocrata do litoral atlantico e ao poderoso e temido senhor de escravos da Virginia e da Nova Inglaterra 8. A luz da Conquista, julga-se hoje 0 machismo mexicano. Cortés e seus soldados teriam desencadeado 0 processo edipico que justificaria 0 comportamento sextial do povo conquistado (violentado, no sentir dos psiquiatras mais citados). O mestigo, fruto da unio do conquistador com a mulher indigena, odeia o pal, responsavel pela violéncia contra a mae mas despreza-a porque nela vé a raga dominada ¢ aviltada. SAMUEL RAMOS, em El perfil del hombre y de ta cultura en Méwico (México, Wspasa-Calpe Mexicana, 1951) e Octavio Paz, em HI labe- rinto de lu soledad (4° ed., México, Fondo de Cultura Hconémica, 1959), sublinham a influéneia nefasta da Conquista sobre 0 homem mexicano, «hijo de la chinguda> (a pior das ofensas, dirigida, sempre, & me) que foi Malinche (a concubina india de Cortés) e do Conquistador, violador cinico e indigno. — 116 — sucede o homem do bosque — 0 woodman. Exalgado pelo folclore, prestigiado por politicos habeis e demagogos, ele opde-se ao peral- vilho a inglesa, empomadado, futil e fraco cujos modos europeus e cujo sotaque de Oxford destoam no Aspero cendrio americano. O woodman tem muito do bon sauvage, primitivo e ingénuo: veste-se de peles, alimenta-se frugalmente e... néo bebe cha (Bebe café, para desgosto dos britanicos interessados na exportac&éo da planta ena difusio do habito da bebida chinesa). O nacionalismo ame- ricano transformou-o, chegada a hora, em figura mitica: simbolo da energia e do valor do povo que conseguira domar o novo mundo e criar, na terra bruta, a mais admir4vel civilizacio da era moderna. O machismo, note-se bem, nfo tem origem étnica. Tanto apa- rece no gesto e na fibra de Cortés, o conquistador do México, como em Bolivar, Juarez, San Martin, Davy Crockett ou James Bowie. Denuncia-se, igualmente, sem qualquer disting&o, tanto na ferocidade sertaneja do indio Afonso, personagem real do romance do mesmo titulo, de Bernardo Guimaries, como na braveza de Facundo Quiroga, o sangiiindrio caudilho dos pampas cuja biografia foi escrita por Sarmiento. Ha no entanto quem defenda a origem hispanica do machismo louvando-se no exemplo do Cid Campeador, em quem se celebra a exceléncia da honra, superior 4 fidalguia e aos gestos facanhudos de exibigéo de coragem. O tema da histéria do Cid presta-se a interpretacdes diversas. A que melhor ilustra o ideal cavaleiresco é a que opée a vilania dos Infantes de Carrién & nobreza de cardter do Campeador a quem socorrem, apenas, o sentimento da honra e a consciéncia do préprio valor. Ofendido na sua dignidade de pai-de-familia extremoso, D. Rodrigo, El Cid, nao obstante a origem humilde, “es mds hombre” que os vaidosos herdeiros de uma casa real. Contra o consenso em voga, de que “el bien nacido posee, por herencia, el cardcter y los sentimientos apropiados que deberdn resplandecer en su conducta,” crisma-o a solene humildade dos retos e puros de coragio. E confirma-se, nesse crisma, toda a sua grandeza. Homem bom, justo e destemido, o heroismo que lhe pauta a conduta — esponténeo e gratuito, nfo Ihe confere direitos nem lhe assegura privilégios. O que motiva o bem ajuizado comen- tario popular: “;Dios! qué buen vassallo si oviesse buen sefior!” — 117 ~— Diante da ingratidéo do rei ao sidito generoso e obediente, & a voz do povo que resgata o heréi das injusticas sofridas. Nesse reconhecimento encontra-se seu melhor prémio: a necessdria sagra- co da honra.+ Apesar da importincia do eédigo de hombria, divulgado pelo comportamento do Cid, nao se encontram nele as virtudes nucleares da virilidade. H& vardes e varées. Eo culto do varao alonga-se no tempo. Pode-se assinalar-Ihe a presenca nas paginas das sagas nérdicas, no fabulério do Reno, nas velhas legendas germanicas. Mais préximos de nés, na Idade Média, os cavaleiros andantes arriscavam a vida na defesa da honra,® em prol dos humilhados e ofendidos ou, ainda, na expectativa dos favores de uma bela dama. Nao se esqueca entretanto que durante a Idade Média os mecanismos de conduta, inspirados em rigido sistema moral e teo- légico, se fundavam na pratica das virtudes. E toda virtude, convém observar, adquiria sentido ético-religioso: de “qualidade do vario” — vir, viri, converte-se em “virtude teologal” e “virtude cardinal”. Movidos por firme disposic&io moral, os cruzados empenhavam-se na luta contra os infiéis. Os mouros, por seu turno, salam em guerra santa. Conveneidos, uns e outros, de que a dignidade do homem emanava da estrita observancia dos preceitos da fé, cristios e muculmanos buscavam praticé-la nos campos de batalha. Sagravam portanto, belicosamente, diante de Deus e de Alé, a propria virilidade. A empresa de ser homem exigia “esforgo, fortaleza e desprezo da morte”. Diante de Deus, diante dos demais homens e também diante da mulher amada — a Senhora, o cavaleiro medieval apli- cava-se & obediéncia rigorosa desse triplice preceito. Os livros de 4, Como néo se cumpre aqui a velha norma do «bom nascimento», 0 conceito de honra se expde a uma ambigilidade que deve ser resolvida mediante recurso a algum tribunal. Manifesta-se, na defesa do Cid, a opinifio do povo — ‘vox populi, vox Deo (Cf. Julian Pitt-Rivers, «Honor y categoria social», in El concepio del honor en la sociedad mediterranea, cit., p. 28). 5. Leia-se 0 poema, com Introducio e Notas de RAMON MEN®SNDEZ PIDAL, Poema de mio Cid. 7 ed, Madri, Espasa-Calpe S.A., Cldssicos Cas- tellanos, 1955. 6. Sobre os conflitos de honra e o orgulho de hombria, veja-se o ensaio de JULIAN PITT-RIVERS, citado, p. 21-75 — 118 — cavalaria trataram de divulgé-lo informando e exaltando formas de comportamento em que o valer mais, 0 ser bom e ser melhor se constituiam em ideal social. O “valer mds no fue ya cuestion ligada con el linaje”, afirma Julio Caro Baroja, “sino asunto individual absoluto” .7 S6 a dominagao rabe, de mais de sete séculos, traria 4 Penin- sula Tbérica o conceito de machismo sexista que concede privilégios e impée deveres. Data desse periodo a estima da virilidade que se manifesta na posse e dominio da mulher.§ Ou, como se tornou habito, de varias mulheres. As casas chicas, as “sucursais” e “filiais”, a referéncia vaidosa ao ntimero de queridas (concubinas) seriam, por conseguinte, heranga moura. No serralho, ou no nosso gineceu, encontramos seus melhores exemplos. A imaginagio popular confundiu, pelo que se vé, donjuanismo e machismo, ao desprestigiar o bem nascido culto da hombria, rebaixando-o a simples fenémeno biolégico. E. aprenda-se: a bio- grafia amorosa de Don Juan, redigida por Tirso de Molina, no Siglo de Oro, nao Ihe forneceu, de modo algum, a desejada certidéo de virilidade. Muito pelo contrario... Gregorio Marafién, em ensaio classico sobre o donjuanismo, considera que o vardo perfeito resolve seu instinto de posse niio em muitos amores, mas num apenas, suficientemente rico para enal- tecer-Ihe a masculinidade. B o narcisismo latente que compromete e diminui a diferenciagdo sexual de D. Joao. Por isso mesmo, segundo Maraiion, “esta diminuda diferenciacdo é a propria esséncia da alma amorosa de D. Jofio”.® A fome de amor e a insatisfacio que o transformaram no “burlador de Sevilha” manifestam, exuberan- temente, sua faléncia enquanto homem viril e inteiro, Hstranha- 7. Opus cit., «Honor y vergitenza>, p. 89. 8. Para MARIA BONAPARTE (Chronos, Eros, Thanatos. Paris, PUF, 1952), «a sexualidade dos homens comporta naturalmente um elemento de agresséio, de tendéncia a submeter 0 objeto sexual pela forga» (p. 127). Levada a extremo, exaltada pelo meio, tal agressio se transforma em elemento essen- cial. E conclui-se, necessariamente, na prepoténcia e nas manifestagées deli- rantes do machismo sédieo (patolégico, jé se vé). 9. Ver, de GREGORIO MARANON, D. Joiio. Ensaios sobre a origem du lenda. Trad. Porto, Livraria Tavares Martins, 1947, p. 268. — 119 — mente, a virilidade nfo é apandgio de D. Juan mas virtude propria de Otelo que amou, com loucura, uma tmica mulher. O donjuanismo, tal como o definem nos meios urbanos, sugere leviandade, inconstancia. # inclinag&o epidérmica, frivolo apelo dos sentidos. Nada mais superficial. Nada mais falto de austeridade. Logo, nada mais distante do machismo integral. Num ensaio sobre o machismo no México, Vicente T. Mendoza 19 distingue duas espécies de machismo: o auténtico, herdico, e o falso, de aparéncia, que pode também assimilar-se 4 superhombria para compensar o sentimento de inferioridade. H esse machismo de aparéncia, fanfarréo e espampanante, que fregiienta o cinema, as novelas de televisio e os textos publicitarios. # ele o responsdvel pela reagao feminista, atenta, muito principalmente, & iluséria facti- cidade do machismo residual que alia, sem discernimento, o ¢ulto do hombre-macho ao donjuanismo. Do que resulta, freqiientemente, a importancia atribuida a qualidades acessorias tais como a forca dos punhos, 0 tamanho do biceps, o encanto sensual, a aura de dominio. Imbuido de mistica poderosa, o genuino ideal de hombria insufla Animo as corridas de touros, estimula cavalhadas e rodeios, exalta a orat6ria, inspira guerrillas, instiga ao combate, ensangrenta revo- lugdes. Implica, com expressiva eficdcia, a valorizagio do individuo sem conduzi-lo, porém, ao egoismo arido nem, tampouco, 4 fatuidade ostentatoria, Ao desencadear-se o processo “repto-réplica”, “honra- vergonha” que arrasta e comove, o orgulho masculino, desperto, impede a retirada. Emerge, dessarte, o impeto heréico que coibe, com energia, qualquer movimento de fraqueza, Em face do destino, ou da circunstancia gloriosa, o homem-macho assume a sua condicio, dono e senhor do seu territério. Responsavel pela prépria vida, consciente dos seus atos e dos seus deveres, ele é entdo convocado a participar da histéria, 10. Os estudos de VICENTE T, MENDOZA visam ao conhecimento do machismo mexicano e, particularmente, 2 sua divulgacio pelo folclore musical, Lelam-se, desse autor, La décima en Méwico, Buenos Aires, Instituto Nacional de la Tradicién, 1947; «El machismo en México al través de las canciones, corridos y cantares», in Cuadernos del Instituto Navional de Antropotogia. Buenos Aires, Ministerio de La Educscién y Justicia, 1962, III, p. 75. — 120 — Eis o que significa o machismo. Sua melhor definigéo? O exer- cicio da bravura. Em boa verdade, 0 culto do hombre-macho conduziu, e ainda conduz, intimeros caudilhos 4s posigdes de mando na América. “Os cowboys, sentencia German Arciniegas, nfo podem imaginar um presidente sen&o como jinete capaz de montar um potro selvagem e domé-lo. Em Buenos Aires, continua 0 historiador colombiano, todas as estatuas dos presidentes, com excegio de Sarmiento, sio eqiiestres, Na linguagem politica, sempre se fala do “potro del poder” e de “tomar las riendas del gobierno”. Recita-se a fabula sobre 0 bom governo que diz: “cuando freno y espuelas/ armaron la gran disputa/ sobre cudl de ambas cosas/ era de més ayuda”. Herdado das sociedades primitivas, o machismo residual ins- taurou, nos nossos dias, o culto do super-herdi. %& ele que vemos sob a pele do cowboy invencivel, do samurai estdico, do sagaz James Bond ou, mesmo, do sertanejo “cabra da peste” e do gaticho “monarca quebralhio”. Sao eles os homens-machos com que nos socorre hoje a mass-media. O que torna transparente a enorme caréncia que todos experimentamos de herdis de carne e osso... A figura do cowboy — hombre-macho, foi tomada, quase totalmente, & tradigio mexicana. O vaquero hispano-americano, descendente direto do conquistador ibérico, precedeu 0 cowboy em mais de dois séculos. Dai, ter este recebido, indiretamente, o legado hispanico. Esse legado, a que tanto se afeigoou, nao s6 Ihe denuncia a origem moral como, também, Ihe instrui a fala. Nos costumes, no manejo dos instrumentos de trabalho, na execugao das tarefas didrias, no vocabulario pertinente, em tudo quanto cerca a rotina do cowboy americano se nota a garra do centauro da Conquista. 11, Ver, de GERMAN ARCINIBGAS, Entre la libertad y el miedo. 5* ed., Ed. del Pacifico, S.A., 1955, p. 344, Ainda ha pouco, por ocasitio da Convencéo Republicana nos Estados Unidos, exibiu-se, na televiséio, uma publicidade sobre Ronald Reagan, candidato & reeleigio. Mostraram-no a cavalo, e em trajes de cowboy, e, com uma pata do animal entre as méos, a vigiar a boa posig¢do da ferradura, © de todos conhecida, no Brasil, a paixéio do nosso presidente pelos cavalos e pelo hipismo — seu esporte favorito. Em intmeras fotografias oficiais, 0 presidente Figueiredo posa, com aprumo, como jinete, Perdura, por- tanto, a tradigio assinalada por German Arciniegas, — 121 — A arte de bem cavalgar, aclimada no México, aprendeu-a o pedo do Norte do mestigo mexicano: foi ele quem adotou a scla arabe que os espanhdis, com ligeira modifieagio, tinham copiado do mouro invasor; também adaptou, & sua emergéncia, a técnica da montaria, a maneira de ferrar e a seguranca no manejo de grandes vacadas. A sua linguagem habitual, em inglés, 0 cowboy incorporou a terminologia da profissio, quase toda ela de procedéncia caste- Ihana. Assim, no velho oeste, ouvem-se, ainda hoje, vozes espanholas. O peo norte-americano usa sombrero, veste chaps (chaparreras), cobre os estribos com tapaderos, esgrime 0 Idtigo nos rodeos e o seu lareat (Ia reata) tem um hondo na extremidade. Quando escolhe cavalo, prefere um mustang (mustefio) ou um bronco. Chama caballada & manada de cavalos e cimarrén ao animal selvagem. Para enfrentar os indios e defender-se das feras, 0 vaquero, J acostumado as faenas do campo, ganhou arma de fogo e aban- donou o punhal que empunhava tio bem quanto o conquistador a espada. Introduzido na América a partir de 1838, o revélver — Colt, revolucionou 0 conceito de hombria no faroeste. O cowboy é valente, sim. Com o revélver carregado de balas. . .2 Em comparagdo com os demais cavaleiros hispAinicos, 0 cowboy foi escassamente lembrado pela ficg&o literaria. Sua grande repu- tagéio, deve-a, sobretudo, ao cinema. Mitificado pelo Western, tornou-se mais conhecido no continente que o gaucho malo ou que © Wanero ou o tropeiro. Nenhum dos nossos vaqueiros jamais Jogrou a sua popularidade. No folelore, na poesia e na prosa regio- nalista 6 que vamos encontrar os esquecidos heréis da América espanhola ¢ portuguesa. Obscuros mas integros, distinguem-nos, especialmente, as virtudes varonis, herdadas do antepassado comum, 0 centauro ibérico. Nesse parentesco, de nobre raiz machista, firma-se a sua fama. 12. Sobre a tradi¢&io machista nos Estados Unidos ¢ o desprezo generalizado pela arma branca, de lamina, leia-se, de WILLIAM LEE HAMLIN, The true story of Billy the Hid. Idaho, The Caxton Printers, 1959, p. 209-210, Lela-se, também, o excelente ensaio de AMERICO PAREDES,