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Direito Agrário
Direito Agrário

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Direito Agrário / Obra organizada pelo Instituto IOB - São Paulo: Editora IOB, 2011, 2 ª edição.

ISBN 978-85-8079-082-5

Sumário

Capítulo 1 — Direito Agrário, 5

1. História da propriedade no Brasil, 5

2. Introdução ao Direito Agrário, 6

3. Função social da propriedade agrária, 7

4. Institutos de direito agrário, 9

5. Classificação do imóvel rural, 9

6. Classificação do imóvel rural pela dimensão e proteção à pequena propriedade, 11

7. Política agrícola, 13

8. ITR - Imposto sobre Território Rural, 14

9. Desapropriação para fins de reforma agrária, 15

10. Regras do processo de desapropriação agrária, 17

11. Pontos polêmicos da reforma agrária, 18

12. Desapropriação judicial do art. 1.228, §§ 4º e 5º do CC, 19

13. Enunciados do CJF sobre desapropriação judicial agrária, terras devolutas e públicas, 21

14. Aquisição de terras por estrangeiros e usucapião agrária, 23

Capítulo 1 Direito Agrário
Capítulo 1
Direito Agrário

1. História da propriedade no Brasil

1.1 Apresentação

Neste capítulo, iniciaremos o estudo do Direito Agrário; assim, inicialmente devemos observar um pouco da história da propriedade no Brasil.

1.2 Síntese

Estudar a propriedade faz com que haja necessidade de que se estude a história da propriedade no Brasil. Temos que lembrar a respeito do Tratado de Tordesilhas, que foi assinado na povoação de castelhana de Tordesilhas em 1494 por Portugal e Espanha. Esse tratado estabelecia limites dos territórios a serem descobertos, chamados de novo mundo, que seria dividido entre esses países, os quais na época eram as maiores potências marítimas da época.

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Assim, Portugal descobriu o Brasil, tendo que colonizá-lo, com o receio de inva-

são de outros países. Dessa forma, para poder explorar essas riquezas, Portugal come- çou a colonização.

O primeiro governador-geral do Brasil recebeu o dever de promover a coloniza-

ção utilizando-se do regime de sesmarias, em que se concedia o domínio útil de terras para certas pessoas mediante pagamento de tributos para a coroa portuguesa (dízimo), tributo mascarado; instituto jurídico português desde 1375. No Brasil, o sesmeiro era o titular da sesmaria, a fim de garantir a plantation açucareira. A principal função desse sistema era de estimular a produção e quando o titular não o fazia, seu direito de posse podia ser extinto. Pode ser considerada variante do instrumento enfiteuse romana, por meio do

qual se dividia a propriedade em dois tipos: domínio direto, emitente ou útil e indire- to. Dessa forma, uma parte era do senhorio, que cedeu o domínio à enfiteuse. Em troca do domínio direto, acabou aceitando uma série de requisitos, inclusive de pagar uma pensão anual ao cedente e, caso não o fizesse, o domínio voltaria a esse. Aquele que não pagasse os tributos caía em comisso. Então, quando a pessoa caía em comisso, o imóvel voltava à Coroa, a qual poderia fornecê-lo a outros.

O sistema sesmarial perdurou até 17 de julho de 1822. A data se deu poucos

meses antes da Proclamação da Independência. Dessa maneira, a posse passou a campear livremente no Brasil, onde houve a pro- mulgação da lei de terras, que ratificou formalmente o regime das posses e instituiu a compra como única forma de obtenção de terras.

2. Introdução ao Direito Agrário

2.1 Apresentação

Neste capítulo, adentrando diretamente no Direito Agrário, veremos uma intro- dução acerca deste tema.

2.2 Síntese

A Emenda Constitucional nº 46, de 1964 incluiu a desapropriação para fins de

reforma agrária.

A Lei nº 4.504/1964 (Estatuto da Terra) foi o primeiro dogma que trouxe real-

mente o Direito Agrário; porém, hoje é defasado. Contudo, nota-se que será impor- tante para o concurso público. Temos como conceito de Direito Agrário o conjunto de princípios e normas, de direito público e privado, que visa disciplinar as relações emergentes da atividade agrária, com base na função social da propriedade.

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O conceito apresenta quatro elementos. O primeiro é o conjunto de princípios e

normas. O direito agrário é um ramo autônomo e essa autonomia é estudada de di- ferentes prismas (autonomia legislativa, em razão de ter leis específicas e autonomia

científica, porque o direito agrário contém institutos próprios). Específicos a ele, há, por exemplo, o ITR, os contratos agrários, etc. Não existe no direito agrário autonomia jurisdicional. O art. 126 da CF determi- nou a criação de varas especializadas para resolução de conflitos agrários. Nota-se que isto de nada adiantará, pois os magistrados serão remanejados de outras varas, não havendo a devida especialização. No estado do Pará, as varas especializadas funcionam, sendo que o Tribunal de Justiça fornece treinamento aos juízes remanejados, e desse modo teríamos uma si- tuação diferente. Ainda assim, para ser criada a autonomia, deveria ser criada uma justiça agrária, a exemplo da trabalhista e assim não existe.

O segundo elemento é Direito Público e Privado. Trata-se de uma dicotomia

que já está superada, pois com a constitucionalização, as regras do direito privado são interpretadas à luz da CF e assim há uma simbiose do que é público e privado.

Verifica-se uma mescla destes, podendo ser dado como exemplo o ITR. Está den- tro do direito público por se tratar de Direito Tributário. Já os contratos agrários estão no direito privado. Outro elemento é a atividade agrária, é o denominador comum do direito agrário, já que esta atividade estabelece a segurança alimentar (também cai em prova).

A segurança alimentar se dá pela estabilidade no país da produção de alimentos

para a população, sem a necessidade de importação. Trata-se de autossustentabilidade, sendo que todo o consumido é colhido de dentro do país.

O quarto elemento é a função social, a qual é reverenciada no direito agrário, pois

contribui para que o imóvel seja um bem de produção de matéria-prima. Assim, é o eixo central do direito agrário.

O primeiro diploma a demonstrar este elemento “função social da propriedade”

foi o Estatuto da Terra de 1964. Esta ideia foi tida como comunista pela época e foi deixada de lado. A CF mexicana em 1917 e alemã de Weimar em 1919 já tinham ado- tado a função social da propriedade. Hoje esta função está descrita no art. 186 da CF.

3. Função social da propriedade agrária

3.1 Apresentação

Neste capítulo, aprofundando o estudo do Direito Agrário, veremos questões sobre a função social da propriedade agrária.

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3.2 Síntese

A função social da propriedade agrária é o elemento central do direito agrário,

ajuda para que o imóvel possa ser um bem de produção de alimento e de matéria- -prima. Desta forma, a ideia é que se atinja a segurança alimentar.

O primeiro diploma legal brasileiro que trouxe esse conceito foi o Estatuto da

Terra e, como vimos, não foi o período ideal, pois era considerada ideia comunista. Esta função social está no art. 186 da CF que diz: A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:

I - aproveitamento racional e adequado;

II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio

ambiente;

III - observância das disposições que regulam as relações de trabalho;

IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.

Alguns elementos devem ser observados. O primeiro elemento é o elemento pro-

dução, previsto no art. 186, inciso I. É aquele que fala do uso adequado e racional da produtividade. Tem por objetivo que o imóvel se torne produtivo, buscando-se, assim, a segurança alimentar, gerando impostos, empregos, etc.

O segundo elemento é o elemento ecologia, previsto no art. 186, inciso II. Tra-

balha a ideia de preservação e conservação dos recursos naturais, sendo que as em- presas agrárias têm que ter uma responsabilidade social, tendo que evitar a poluição

ambiental. Assim, se a produção tem algum efeito ao meio ambiente (efeitos para a terra, contaminação do solo, rios, etc.) esta tem que buscar outra maneira de fazê-la. Não se pode pensar então em produtividade a qualquer custo.

O terceiro elemento é o social, nos termos do art. 186, inciso III. Faz com que

a produção respeite as relações de trabalho, sendo que a produção deve observar as normas do direito do trabalho, acatando os salários condizentes, equipamentos

de proteção e segurança, etc. Em nosso país, ainda existem trabalhos quase escra- vos, com salários baixíssimos e sem nenhuma outra regra do direito do trabalho.

O último elemento é o bem-estar, previsto no art. 186, inciso IV. Estabelece o

bem-estar entre o empregado e empregador, devendo existir uma cordialidade entre ambos.

O art. 186 determina que a função social exija a presença simultânea dos quatro

elementos. Assim, discute-se se é possível desapropriar propriedade produtiva, caso não haja os outros elementos, o que veremos em unidade específica.

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4. Institutos de direito agrário

4.1 Apresentação

Neste capítulo, continuando o estudo do Direito Agrário, veremos como se dividem e quais são os institutos do direito agrário.

4.2 Síntese

O primeiro instituto é a classificação do imóvel rural e proteção à pequena proprie-

dade, art. 185 da CF e art. 4º da Lei Material da Reforma Agrária (Lei nº 8.629/1993).

O

segundo é a política agrícola, que consta nos arts. 184 a 191 da CF.

O

terceiro instituto é o ITR progressivo, devendo ser analisada a Lei nº 9.393/1996

e o art. 153, inciso IV, § 4º da CF.

O quarto instituto é a desapropriação agrária por interesse social para fins de reforma agrária, nos termos do art. 184 e seguintes da CF.

O quinto instituto traz as terras públicas, em que se incluem as terras devolutas

do art. 189 da CF, terra dos índios, prevista no art. 231 da CF e quilombos (ainda existem em nosso país), nos termos do art. 68 do ADCT.

O sexto instituto é a usucapião rural ou agrária; está previsto no art. 191 da CF,

reproduzido no art. 1.239 do CC.

O sétimo instituto é regulamentação da aquisição de terras por estrangeiros. Há

uma preocupação em relação à soberania nacional e, assim, deve haver esta regula-

mentação. Tem que se observar o tipo de produção, se haverá exportação, etc., sendo buscada a segurança alimentar. Desta forma, 30% são o máximo dentro dos municípios que podem ser adquiridos pelos estrangeiros. Hoje, estes se organizam em pessoas jurídicas e compram além do previsto, sendo imperiosa uma normalização pública neste sentido.

O oitavo instituto são os contratos agrários que estimulam a produtividade e de-

sestimulam a improdutividade. Como exemplos, têm-se o arrendamento rural, com

o objetivo de dar produtividade do imóvel e a parceria agrícola (parceria agrícola ou

de agronegócio (pecuária).

5. Classificação do imóvel rural

5.1 Apresentação

Neste capítulo, veremos uma importante questão para o concurso público: a classificação de imóvel rural.

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5.2 Síntese

O imóvel rural pode ser classificado de duas formas: pela natureza e pela dimensão.

Pela natureza, pode ser urbano ou rural. Neste estudo, nos interessa o imóvel rural, mas temos que entender a classificação para diferenciar estes imóveis.

Esta diferença por natureza é feita por dois subcritérios: localização e destinação. Quanto ao subcritério da localização, deve ser verificado se o imóvel está locali- zado na zona urbana (imóvel urbano) ou na zona rural (imóvel rural).

O plano diretor municipal é o responsável por delimitar onde está a zona urbana.

O art. 32 do CTN nos ajuda a entender onde é esta zona urbana; diz então que a

zona urbana exige pelo menos dois requisitos deste artigo. Dispõe o artigo: O imposto, de competência dos Municípios, sobre a propriedade predial e territorial urbana tem como fato gerador a propriedade, o domínio útil ou

a posse de bem imóvel por natureza ou por acessão física, como definido na lei civil, localizado na zona urbana do Município.

§ 1º Para os efeitos deste imposto, entende-se como zona urbana a definida em lei

municipal; observado o requisito mínimo da existência de melhoramentos indicados em

pelo menos 2 (dois) dos incisos seguintes, construídos ou mantidos pelo Poder Público:

I - meio-fio ou calçamento, com canalização de águas pluviais;

II - abastecimento de água;

III - sistema de esgotos sanitários;

IV - rede de iluminação pública, com ou sem posteamento para distribuição do-

miciliar;

V - escola primária ou posto de saúde a uma distância máxima de 3 (três) quilô-

metros do imóvel considerado.

Assim, segundo o art. 29 do CTN, se define zona rural por exclusão, ou seja, é aquela que não é urbana. Este critério da localização é adotado em duas situações: pelo CTN em relação

ao IPTU e ITR e pela CF nas modalidades de usucapião urbana e agrária, de acordo com os arts. 183 e 194.

O segundo subcritério é o da destinação prevista no art. 4º da Lei Material da

Reforma Agrária, lei que usa este critério: Estabelece o art. 4º Para os efeitos desta lei, conceituam-se:

I - Imóvel Rural - o prédio rústico de área contínua, qualquer que seja a sua loca-

lização, que se destine ou possa se destinar à exploração agrícola, pecuária, extrativa vegetal, florestal ou agroindustrial;

II

- Pequena Propriedade - o imóvel rural:

a)

de área compreendida entre 1 (um) e 4 (quatro) módulos fiscais (

)

III

- Média Propriedade - o imóvel rural:

a)

de área superior a 4 (quatro) e até 15 (quinze) módulos fiscais; (

)

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Parágrafo único. São insuscetíveis de desapropriação para fins de reforma agrária a pequena e a média propriedade rural, desde que o seu proprietário não possua outra propriedade rural. Por estes critérios, pode-se dizer que imóvel rural é aquele que tem atividade agrária, e isto é importante independentemente da localização. Para se ter a atividade agrária, são necessários dois elementos: processo agrobio- lógico (interação do homem com a natureza, buscando a produção de alimento e matéria-prima) e risco correlato (o trabalho do produtor pode sofrer interferência dos fatos naturais, tendo o risco de não dar certo).

6. Classificação do imóvel rural pela dimensão e proteção à pequena propriedade

6.1 Apresentação

Neste capítulo, continuando com a classificação do imóvel rural, veremos sua classificação por dimensão e a proteção à pequena propriedade.

6.2 Síntese

A classificação do imóvel por sua dimensão pode ocorrer mediante de duas for-

mas: pelo Estatuto da Terra e pela CF. O Estatuto da Terra está derrogado, mas é importante para fins de entendimento da matéria.

A Lei nº 4.504/1964 classifica o módulo fiscal e representa a chamada proprieda-

de familiar (conceito moderno advindo do estatuto, que falava sobre o módulo rural, sendo que o art. 4º, inciso II diz que propriedade familiar é: II - “Propriedade Fami- liar”, o imóvel rural que, direta e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua famí-

lia, lhes absorva toda a força de trabalho, garantindo-lhes a subsistência e o progresso social e econômico, com área máxima fixada para cada região e tipo de exploração, e eventualmente trabalho com a ajuda de terceiros.

O conceito de módulo rural é derivado do conceito de propriedade familiar e sen-

do uma unidade de medida expressa em hectares, diz respeito ao imóvel suficiente para exploração de uma família com até quatro pessoas.

O Estatuto prevê várias dimensões. O minifúndio é a propriedade menor que um

módulo rural, não permite cumprimento de função social. Existe, ainda, a empresa rural (de um a seiscentos módulos rurais); o latifúndio que é subdividido, por dimensão (acima de 600 módulos rurais, propriedade dos la- tifundiários) e por exploração (são imóveis improdutivos que não atendem a função social da propriedade, independentemente de seu tamanho).

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Ressalte-se que minifúndios e latifúndios podem ser desapropriados, os demais não. Dispõe o art. 4º: Para os efeitos desta Lei, definem-se:

I - “Imóvel Rural”, o prédio rústico, de área contínua qualquer que seja a sua

localização que se destina à exploração extrativa agrícola, pecuária ou agroindustrial, quer através de planos públicos de valorização, quer através de iniciativa privada;

II - “Propriedade Familiar”, o imóvel rural que, direta e pessoalmente explorado

pelo agricultor e sua família, lhes absorva toda a força de trabalho, garantindo-lhes a subsistência e o progresso social e econômico, com área máxima fixada para cada região e tipo de exploração, e eventualmente trabalho com a ajuda de terceiros;

III - “Módulo Rural”, a área fixada nos termos do inciso anterior;

IV - “Minifúndio”, o imóvel rural de área e possibilidades inferiores às da pro-

priedade familiar;

V - “Latifúndio”, o imóvel rural que:

a) exceda a dimensão máxima fixada na forma do artigo 46, § 1º, alínea “b”, desta

Lei, tendo-se em vista as condições ecológicas, sistemas agrícolas regionais e o fim a que se destine;

b) não excedendo o limite referido na alínea anterior, e tendo área igual ou su-

perior à dimensão do módulo de propriedade rural, seja mantido inexplorado em re- lação às possibilidades físicas, econômicas e sociais do meio, com fins especulativos, ou seja deficiente ou inadequadamente explorado, de modo a vedar-lhe a inclusão no conceito de empresa rural;

VI - “Empresa Rural” é o empreendimento de pessoa física ou jurídica, pública

ou privada, que explore econômica e racionalmente imóvel rural, dentro de condi-

ção de rendimento econômico

área mínima agricultável do imóvel segundo padrões fixados, pública e previamente,

pelo Poder Executivo. Para esse fim, equiparam-se às áreas cultivadas, as pastagens, as matas naturais e artificiais e as áreas ocupadas com benfeitorias; VII - “Parceleiro”, aquele que venha a adquirir lotes ou parcelas em área destina- da à Reforma Agrária ou à colonização pública ou privada; VIII - “Cooperativa Integral de Reforma Agrária (CIRA)”, toda sociedade coo-

perativa mista, de natureza civil,

criada nas áreas prioritárias de Reforma

da região em que se situe e que explore

vetado

vetado

Agrária, contando temporariamente com a contribuição financeira e técnica do Po- der Público, através do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, com a finalidade de industrializar, beneficiar, preparar e padronizar a produção agropecuária, bem como realizar os demais objetivos previstos na legislação vigente;

IX - “Colonização”, toda a atividade oficial ou particular, que se destine a promo-

ver o aproveitamento econômico da terra, pela sua divisão em propriedade familiar ou através de Cooperativas. Parágrafo único. Não se considera latifúndio:

a) o imóvel rural, qualquer que seja a sua dimensão, cujas características reco-

mendem, sob o ponto de vista técnico e econômico, a exploração florestal racional- mente realizada, mediante planejamento adequado;

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b) o imóvel rural, ainda que de domínio particular, cujo objeto de preservação florestal ou de outros recursos naturais haja sido reconhecido para fins de tombamen- to, pelo órgão competente da administração pública. Esta classificação não foi totalmente recepcionada pela CF/1988. O art. 185 da CF e a Lei Material da Reforma Agrária (Lei nº 8.629/1993) estabeleceram a proprie- dade rural pequena, média e grande. Propriedade pequena é composta por um a quatro módulos fiscais, média supe-

rior a quatro e inferior a dezesseis módulos fiscais e grande, maior ou igual a dezesseis módulos fiscais. Módulo fiscal é a unidade de medida expressa em hectares fixada em cada muni- cípio, observando diversos fatores: função, tipo de exploração, modo, etc., diferente do conceito de propriedade familiar. Existe diferença entre o módulo rural previsto no Estatuto da Terra e módulo fiscal (CF e Lei Material da Reforma Agrária).

O módulo fiscal é estabelecido para cada município, refletindo a área mediana

dos imóveis rurais do município. Isso porque, a pequena propriedade não pode ser

objeto de reforma agrária e a grande só poderá ser objeto se não for cumprida sua função social.

A proteção à pequena propriedade, prevista no art. 5º, XXVI da CF, estabelece

que é impenhorável: XXVI - a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família, não será objeto de penhora para pagamento de débitos decorrentes de sua atividade produtiva, dispondo a lei sobre os meios de fi- nanciar o seu desenvolvimento. Portanto, é exemplo de bem de família, desde que os créditos decorram da atividade produtiva.

7. Política agrícola

7.1 Apresentação

Neste capítulo, veremos que, dentro do Direito Agrário, devem existir políticas agrícolas, que buscam a segurança alimentar do país.

7.2 Síntese

A política agrícola é inerente somente à União e possui algumas características. A primeira é a segurança alimentar, prevista no art. 187 da CF. Para poder existir, são necessárias políticas do Poder Público, como: incentivos fiscais; créditos aos produto- res (abertura de linhas de crédito para produção agrária) por meio do BNDES; preços compatíveis com o custo da produção; e garantia de comercialização.

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É preciso que haja incentivo à pesquisa e à tecnologia, para que esta produção

esteja sempre atualizada à tecnologia de ponta.

Ainda, é necessária assistência técnica e de extensão rural, pois permite aos agri- cultores estarem atualizados acerca das necessidades inerentes a suas funções.

O seguro agrícola também demonstra ser relevante, já que os produtores estão

sujeitos à perda de plantações, de suas produções. Outro fator importante é o cooperativismo, organizações em cooperativas, esti- mulando a livre concorrência e melhor distribuição dos produtos. Temos, ainda, a eletrificação e irrigação (necessidade para a devida produção). Habitação para o trabalhador rural, no campo, demonstra ser mais um relevante ponto a respeito do assunto. Também é importante o ITR progressivo (art. 153, VI e § 4º da CF); faz parte da política agrícola que controlará o que deve ser objeto da produção, mesmo que de forma indireta. Assim, este tem o objetivo de desestimular as propriedades improdutivas. Não incide sobre pequenas glebas rurais, quando o proprietário não possui outro imóvel. Ainda, será fiscalizado ou cobrado pelo município. Temos o instituto da usucapião agrária (art. 191 da CF), que permite a circulação da propriedade produtiva a quem queira produzir. A política urbana é feita por meio de plano diretor municipal, mediante o qual se verifica se a propriedade está ou não cumprindo sua função social. Assim, pode ser ve- rificada a usucapião urbana (art. 183), o IPTU progressivo e a edificação compulsória por meio de obrigação de fazer.

8. ITR - Imposto sobre Território Rural

8.1 Apresentação

Neste capítulo, veremos o conceito e peculiaridades do ITR, o Imposto Territorial Rural.

8.2 Síntese

O ITR está previsto no art. 153, inciso VI, § 4º da CF e na Lei nº 9.393/1996.

Trata-se de um estímulo à propriedade produtiva, pois a CF permite a variação de alíquotas e imunidades para as pequenas propriedades.

O ITR é um tributo de competência federal, mas o art. 158 da CF permite a

distribuição. Desta forma, 50% do valor ficam com a União e os demais 50%, para

o município.

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Tal regra estabelece a divisão das receitas do ITR; o regramento foi modificado pela EC nº 42. Além do disposto acima, a EC permite que o município faça um con-

vênio com a União para verificar os valores e arrecadar tributos. Quando é feito este convênio, o município poderá ficar com 100% do valor arrecadado. Ressalte-se que mesmo sendo feito convênio, somente lei federal poderá discipli- nar a respeito dos elementos deste tributo.

O ITR possui alguns elementos. O primeiro é o fato gerador do tributo, que, neste

caso, é a posse, domínio útil ou a propriedade de imóvel rural em 1º de janeiro. Nota-se que o imóvel rural será definido para fim de incidência do ITR de acordo com a sua localização.

O segundo elemento é a base de cálculo, que é o valor da terra nua tributável

(VTN), devendo ser retiradas da base de cálculo as áreas não aproveitáveis, as quais são chamadas de reserva legal. As áreas de reserva legal podem corresponder de 20% a 50% da área sem apro- veitamento.

A alíquota do ITR pode variar até 20%, dependendo da produtividade, ficando a

menor alíquota para as terras menores e mais produtivas.

O sujeito ativo do tributo é a União, que por meio da Procuradoria da Fazenda

Nacional cobrará o tributo e por intermédio da Secretaria da Receita Federal admi- nistrará. Vale lembrar que o Incra cobrava o tributo até o ano de 1992.

O sujeito passivo do tributo é o proprietário ou possuidor do imóvel ou da área,

lembrando que a CF estabelece que as pequenas propriedades rurais são imunes ao

ITR.

O ITR não incide sobre pequenas glebas rurais, nos casos de exploração pela

família ou que seja o único bem. Ressalte-se que são pequenas glebas rurais os imóveis com tamanho igual ou in- ferior a cem hectares, se localizados em município compreendido na Amazônia Oci- dental ou no Pantanal mato-grossense e sul-mato-grossense, mas cinquenta hectares se localizado em município compreendido no Polígono das Secas ou na Amazônia Oriental e trinta hectares se localizado em qualquer outro município. São isentos do tributo os imóveis que estiverem inscritos em programa oficial de reforma agrária e atenda a outros requisitos. A previsão legal que dispõe a respeito da isenção encontra-se no art. 3º da Lei nº 9.393/1996.

9. Desapropriação para fins de reforma agrária

9.1 Apresentação

Neste capítulo, vemos um importante instituto do Direito Agrário, a desapro- priação para fins da reforma agrária.

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Direito Agrário

9.2 Síntese

A CF chama este tipo de desapropriação de desapropriação por interesse social,

pois originalmente será por necessidade pública ou interesse público.

A competência material para desapropriação para fins de reforma agrária é da

União, pois tem obrigação de cuidar deste setor público. Todavia, quem realiza é o Incra (competência administrativa).

O STJ entende que a competência material é exclusiva da União, não cabendo

aos estados promover este tipo de desapropriação. Para fins de reforma agrária, a competência jurisdicional é da Justiça Federal, nos termos do art. 109, inciso I da CF, porém, aplica-se subsidiariamente o art. 95

do CPC.

O conceito trazido por Caio Mário da Silva Pereira é de que se trata de mutação

dominial compulsória, já que a pessoa, pelo desejo da União, perde a propriedade compulsoriamente.

O art. 5º e incisos XXII e XXIII da CF/1988, protegem o direito de propriedade

(garantia de conservação da propriedade), estabelecendo que só haja esta proteção caso se respeite a função social da propriedade.

O inciso XXIV dispõe que “a lei estabelecerá o procedimento para desapropria-

ção por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição”.

O art. 182 da Carta Magna dispõe acerca da desapropriação para fins de reforma

urbana.

Já o art. 184 da CF trata da desapropriação para fins de reforma agrária, trazendo

em seu caput: “Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de re- forma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei.” Dispõe o § 3º do dispositivo: “Cabe à lei complementar estabelecer procedimen-

to contraditório especial, de rito sumário, para o processo judicial de desapropriação.”

O § 4º traz que: “O orçamento fixará anualmente o volume total de títulos da

dívida agrária, assim como o montante de recursos para atender ao programa de

reforma agrária no exercício.”

Já o § 5º do mesmo artigo dispõe: “São isentas de impostos federais, estaduais

e municipais as operações de transferência de imóveis desapropriados para fins de

reforma agrária.” Outra exceção ao art. 5º, inciso XXIV é o confisco de terras, nos termos do art. 243 da CF: “As glebas de qualquer região do País onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas serão imediatamente expropriadas e especificamente

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destinadas ao assentamento de colonos, para o cultivo de produtos alimentícios e medicamentosos, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei.” Estas são as exceções quanto à forma de pagamento presente no art. 5º, inciso

XXIV da CF, lembrando que no confisco não há pagamento algum, exceção também

à garantia constitucional da propriedade.

10. Regras do processo de desapropriação agrária

10.1 Apresentação

Neste capítulo, continuando o estudo da desapropriação, veremos como ocorre o processo de desapropriação agrária.

10.2 Síntese

Sobre as regras processuais a respeito da desapropriação agrária, o art. 184 da CF previu que a lei complementar iria estabelecer o processo. A Lei Complementar nº 76/1993 ficou conhecida como lei processual da reforma agrária.

A

função social se baseia na produção, na ecologia e, obviamente, no social. O

Incra

verifica tais elementos mediante o procedimento administrativo denominado

vistoria prévia. Indaga-se se seria possível a desapropriação de terra produtiva. Para o questiona-

mento, existem duas correntes que abordam o assunto. Para José Afonso da Silva, tem-se que interpretar literalmente o texto constitucional, ou seja, ela nunca poderá ser desapropriada por este motivo.

Já a outra corrente entende que o art. 185 da CF deve ser interpretado em harmo-

nia com os arts. 184 e 186 da CF. Assim, a imunidade somente valerá caso cumpra a função social, observando todos os elementos (corrente majoritária). São diversas as fases do processo de desapropriação, nos termos da LC nº 76/1993

e da Lei nº 8.629/1993. A primeira é a fase da vistoria prévia, é um processo adminis-

trativo realizado pelo Incra, que ingressa no imóvel e verifica se os requisitos consti- tucionais da função social estão sendo observados. Nota-se que o agrimensor foi substituído pelo GPS, pois este fornece informações precisas a respeito da propriedade.

A Medida Provisória nº 2.183, que alterou a Lei nº 8.629/1993, estabeleceu o

contraditório para a fase da vistoria prévia; assim, segundo o STF, existe o direito ao contraditório nesta fase.

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Direito Agrário

A segunda fase é denominada fase do decreto expropriatório, que será feito pelo

Presidente da República. Caso alguém queira questionar este decreto, deverá recor-

rer ao STF por meio de mandado de segurança, já que se trata de um ato administra- tivo exclusivo e indelegável do Presidente da República, havendo prazo decadencial de dois anos.

A ação judicial parte do pressuposto de que não houve um acordo entre as partes.

Para que haja desapropriação judicial, é preciso que alguns itens sejam observados.

O primeiro item é a legitimidade ativa, sendo o Incra autor da ação. Quanto à legitimidade passiva, esta seria do proprietário do imóvel rural.

O rito a ser seguido é o rito sumário, nos termos da Lei Complementar nº 76/1993.

Os requisitos da petição inicial devem seguir o art. 282 do CPC, bem como pedi- do de desapropriação, no qual deverá haver o pedido do registro de imóvel no nome do Incra, não havendo o ITR por se tratar de hipótese de isenção.

A natureza jurídica da ação é constitutiva e o valor da causa será o valor da indeni-

zação ofertada (em dinheiro para as benfeitorias). Deve ser realizada a devida perícia

na terra para que se saiba a respeito dos valores das benfeitorias. Devem ser observados os devidos documentos: laudo de vistoria prévia, certidão imobiliária, mapa da área, texto do decreto expropriatório, depósito judicial.

O Incra poderá entrar liminarmente na posse no início do processo, autorizando

ao juiz o levantamento de 80% do valor depositado a título de indenização por ben- feitorias (parte incontroversa). Ressalte-se que a mesma decisão que determina a averbação da existência da ação judicial no registro imobiliário para dar publicidade e proteger os interesses do terceiro de boa-fé, antes da citação, vai mostrar que o proprietário perderá a posse.

11. Pontos polêmicos da reforma agrária

11.1 Apresentação

Veremos neste capítulo algumas peculiaridades da reforma agrária.

11.2 Síntese

Primeiramente, é preciso que se faça um resumo das fases do processo de desa- propriação.

A primeira fase traz a vistoria prévia, que pode ser feita por fotografia, por satélite

ou por GPS.

A segunda fase é denominada fase do decreto expropriatório.

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Direito Agrário

A terceira fase é a da ação judicial. Já forão estudados a legitimidade ativa; legiti-

midade passiva; rito; requisitos da petição inicial; natureza jurídica da ação; valor da causa e os documentos que acompanham a petição inicial.

É preciso lembrar que pode ser concedida liminar de imissão na posse, ou seja, o

juiz poderá liminarmente conceder imissão provisória da posse para o Incra. Assim,

a pessoa é retirada da posse, podendo levantar 80% do depósito referente à parte incontroversa.

A mesma decisão determina a averbação da existência da ação judicial no registro

imobiliário, para que haja publicidade e proteção ao terceiro de boa-fé. Neste processo, antes mesmo da citação, o proprietário perde a posse. Depois da

imissão na posse, a contestação deverá ser ofertada no prazo de quinze dias e a reali- zação de audiência de tentativa de conciliação será obrigatória.

Se esta for infrutífera, poderá ser designada perícia para nova avaliação do imóvel.

Na sequência, o juiz designará audiência de instrução e julgamento. O motivo

da desapropriação é um dos objetos da ação, devendo o juiz verificar se este objeto é ou não legítimo, sendo que da sentença que julga procedente a ação cabe recurso de apelação, a qual será recebida somente no efeito devolutivo.

O primeiro ponto polêmico é que é comum o proprietário, ao ver que será de-

sapropriado, ingressar com ação declaratória de cumprimento da função social da sociedade cumulada com pedido de tutela antecipada, tendo o objetivo de suspender qualquer ação do Poder Público no que se refere à desapropriação. Outro ponto polêmico é que é possível apresentar projetos agropecuários em que

o proprietário se compromete a fazer investimentos para cumprir a função social

dentro de um período de cinco anos. O problema é que o proprietário confessa que não está dando cumprimento à função social da propriedade. Outro aspecto controvertido é que é proibida a desapropriação de áreas ocupadas ou invadidas que deixaram de ser produtivas. O STF se manifestou a respeito do as- sunto no Mandado de Segurança nº 23.323, que foi publicado no Informativo nº 175. Tal situação também foi objeto de discussão na ADIn nº 2.313. Assim, por conta da improdutividade momentânea, não poderá o imóvel ser de- sapropriado.

12. Desapropriação judicial do art. 1.228, §§ 4º e 5º do CC

12.1 Apresentação

Neste capítulo, veremos outra forma de desapropriação, para assim podermos diferenciá-la da regra vista anteriormente.

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Direito Agrário

12.2 Síntese

A desapropriação judicial é diferente da desapropriação para fins de reforma agrá-

ria. A desapropriação judicial se dá por sentença, feita pelo juiz, tendo uma sentença

e não um decreto expropriatório.

O art. 1.228 dispõe: “O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da

coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou

detenha.” Seu § 4º traz que: “O proprietário também pode ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área, na posse ininterrupta e de boa-fé, por mais de cinco anos, de considerável número de pessoas, e estas nela houverem realizado, em conjunto ou separadamente, obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante.”

O § 5º estabelece: “No caso do parágrafo antecedente, o juiz fixará a justa inde-

nização devida ao proprietário; pago o preço, valerá a sentença como título para o registro do imóvel em nome dos possuidores.”

Miguel Reale colocou ser esta a forma mais correta de desapropriação, sendo a melhor inovação trazida pelo novo CC.

O professor Carlos Alberto Dabus Maluf diz que as regras contidas nesses pará-

grafos abalam o direito de propriedade, impondo dano ao proprietário, já que nem sempre a indenização será justa. Judith Martins Costa entende que a regra é digna de nota, pois no país temos pro- blemas no direito fundiário. A pessoa que está na posse está permitindo que o imóvel cumpra sua função social. Assim, discute-se se este instituto é constitucional ou não, sendo que ordinariamen- te o ato de expropriação é executivo e passou a ser também do Poder Judiciário, porém, não afronta princípio algum constitucional, segundo o Enunciado nº 82 do CJF. Alguns doutrinadores chamam de usucapião coletiva, todavia, a nomenclatura não

é correta, uma vez que não é do instituto da usucapião o pagamento de indenização. Nota-se que o dispositivo trata de imóvel reivindicado, exigindo a ação reivindica- tória. O Enunciado nº 310 do CJF diz que: “Interpreta-se extensivamente a expressão “imóvel reivindicado” (art. 1.228, § 4º), abrangendo pretensões tanto no juízo petitó- rio quanto no possessório.” Este dispositivo fala também em extensa área, não especificada pelo legislador. O Incra fornece subsídios ao magistrado para que a análise seja feita. Outro requisito previsto no dispositivo é ser considerado pelo juiz como de inte- resse social e econômico relevante. O magistrado verificará tais fatores. Uma situação interessante é: O imóvel está ocupado por uma pessoa e o juiz decide que esta posse está longe da relevância economia e interesse social. Seria o proprietário merecedor de retornar à posse? De acordo com o Enunciado nº 306

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Direito Agrário

do CNJ: “A situação descrita no § 4º do art. 1.228 do Código Civil enseja a improce- dência do pedido reivindicatório.”

O § 4º fala em boa-fé, que é aquela em que a pessoa desconhece o vício da posse.

O Enunciado nº 309 do CJF, diz que: “O conceito de posse de boa-fé de que trata o

art. 1.201 do Código Civil não se aplica ao instituto previsto no § 4º do art. 1.228.” O conceito empregado aqui é o de boa-fé objetiva e não subjetiva.

O Enunciado nº 84 do CJF que diz: “A defesa fundada no direito de aquisição

com base no interesse social (art. 1.228, §§ 4º e 5º, do novo Código Civil) deve ser arguida pelos réus da ação reivindicatória, eles próprios responsáveis pelo pagamento

da indenização.”

Corre-se o risco de as partes não poderem pagar a indenização, e, assim, como a ação será julgada improcedente, o Poder Público deverá arcar. Poderá, ainda, o Poder Público desapropriar e receber parceladamente dos possuidores.

13. Enunciados do CJF sobre desapropriação judicial agrária, terras devolutas e públicas

13.1 Apresentação

Neste capítulo, continuando o estudo do direito agrário, veremos os Enuncia- dos do CJF que tratam da desapropriação judicial agrária, terras devolutas e públicas.

13.2 Síntese

Dispõe o Enunciado nº 83: “Nas ações reivindicatórias propostas pelo Poder Público, não são aplicáveis as disposições constantes dos §§ 4º e 5º do art. 1.228 do novo Código Civil.” Como o bem público não pode ser alienado, em regra, não po- deria sofrer a situação de desapropriação. Estabelece o Enunciado nº 84: “A defesa fundada no direito de aquisição com

base no interesse social (art. 1.228, §§ 4º e 5º, do novo Código Civil) deve ser argui-

da pelos réus da ação reivindicatória, eles próprios responsáveis pelo pagamento da

indenização.” Se os possuidores forem de baixa renda, como vimos, as despesas serão arcadas pelo Poder Público, de acordo com o Enunciado nº 308: “A justa indenização devida

ao proprietário em caso de desapropriação judicial (art. 1.228, § 5º) somente deverá

ser suportada pela Administração Pública no contexto das políticas públicas de refor- ma urbana ou agrária, em se tratando de possuidores de baixa renda e desde que tenha havido intervenção daquela nos termos da lei processual. Não sendo os possuidores

de baixa renda, aplica-se a orientação do Enunciado 84 da I Jornada de Direito Civil.”

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O Enunciado nº 240 dispõe: “A justa indenização a que alude o parágrafo 5º do

art. 1.228 não tem como critério valorativo, necessariamente, a avaliação técnica lastreada no mercado imobiliário, sendo indevidos os juros compensatórios.”

Já o Enunciado nº 241 determina: “O registro da sentença em ação reivindica-

tória, que opera a transferência da propriedade para o nome dos possuidores, com fundamento no interesse social (art. 1.228, § 5º), é condicionada ao pagamento da respectiva indenização, cujo prazo será fixado pelo juiz.”

Deve-se observar o prazo para pagar esta indenização, pois se não for paga ocorrerá prescrição e não haverá mais a possibilidade de cobrar este valor.

O Enunciado nº 304 estabelece: “São aplicáveis as disposições dos §§ 4º e 5º do

art. 1.228 do Código Civil às ações reivindicatórias relativas a bens públicos domini- cais, mantido, parcialmente, o Enunciado 83 da I Jornada de Direito Civil, no que concerne às demais classificações dos bens públicos.”

O Enunciado nº 305 prescreve: “Tendo em vista as disposições dos §§ 3º e 4º do

art. 1.228 do Código Civil, o Ministério Público tem o poder-dever de atuação nas

hipóteses de desapropriação, inclusive a indireta, que envolvam relevante interesse público, determinado pela natureza dos bens jurídicos envolvidos.”

O Enunciado nº 307 dispõe: “Na desapropriação judicial (art. 1.228, § 4º), poderá

o juiz determinar a intervenção dos órgãos públicos competentes para o licenciamento ambiental e urbanístico.”

O Enunciado nº 311 fixa: “Caso não seja pago o preço fixado para a desapropriação

judicial, e ultrapassado o prazo prescricional para se exigir o crédito correspondente, estará autorizada a expedição de mandado para registro da propriedade em favor dos possuidores.” Terras públicas é gênero, camada de terras públicas lato sensu, todas aquelas per- tencentes ao Poder Público, incluindo as chamadas terras devolutas. As terras devolutas são espécies de terras públicas lato sensu. Existem duas espécies de terras públicas. As stricto sensu são aquelas em que os bens determinados são de bem público especial ou patrimonial. Exemplo: fazenda de propriedade da Administração Pública para fins de pesquisa.

As terras públicas em sentido amplo são as terras devolutas, áreas que não passaram

do patrimônio público para o particular de forma legítima. No Brasil, utiliza-se o princípio da posse histórica das terras, entendendo que as terras têm origem pública. Assim, as terras devolutas são aquelas adquiridas pelo

Estado Brasileiro por sucessão à Coroa Portuguesa, tendo em vista os fatos históricos.

A faixa de fronteira, exemplo de terra pública, está tipificada no art. 20, § 2º da

CF: “A faixa de até cento e cinquenta quilômetros de largura, ao longo das fronteiras terrestres, designada como faixa de fronteira, é considerada fundamental para defesa do território nacional, e sua ocupação e utilização serão reguladas em lei.”

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Direito Agrário

14. Aquisição de terras por estrangeiros e usucapião agrária

14.1 Apresentação

Neste capítulo, veremos dois institutos importantes e relativos ao direito agrário, a aquisição de terras por estrangeiros e a usucapião agrária.

14.2 Síntese

Aquisição de terras rurais por estrangeiros está prevista no art. 190 da CF: “A lei regulará e limitará a aquisição ou o arrendamento de propriedade rural por pessoa

física ou jurídica estrangeira e estabelecerá os casos que dependerão de autorização do Congresso Nacional.” Nota-se que este artigo limita esta aquisição ou arrendamento, sendo que a restrição tem o objetivo de proteger nossa soberania nacional. Assim, estabelece-se em lei que

o estrangeiro não pode ser proprietário de mais de 30% de uma propriedade rural (tanto pessoa física quanto jurídica estrangeira).

É possível termos empresas nacionais com capital estrangeiro, pois estas não são

consideradas empresas estrangeiras.

O CC e a CF/1988 trazem modalidades de usucapião. A primeira seria a usuca-

pião extraordinária de bem imóvel, de acordo com o art. 1.238 do CC, não havendo

restrição para bem imóvel urbano ou rural, ou seja, traz como único requisito a posse ininterrupta e sem oposição pelo prazo de quinze anos, independentemente de justo título e boa-fé.

O parágrafo único do dispositivo diz que é possível reduzir o prazo para dez anos

se houver posse qualificada e moradia ou investimento de caráter produtivo. Outra modalidade é a usucapião ordinária de bem imóvel, descrita no art. 1.242 do CC: “Adquire também a propriedade do imóvel aquele que, contínua e incontes- tadamente, com justo título e boa-fé, o possuir por dez anos.” Seu parágrafo único também permite redução de prazo, quando o possuidor dá cumprimento à função social da propriedade. Tem como requisitos: aquisição onerosa, registro de título cancelado, posse qualificada, estabelecendo no imóvel moradia ou

investimentos de caráter social e produtivo. Os requisitos da usucapião do art. 1.240 do CC são: área urbana de até duzentos

e cinquenta metros quadrados; prazo de cinco anos; posse ininterrupta e sem oposi-

ção; imóvel utilizado para moradia e o possuidor não pode ser proprietário de imóvel urbano ou rural.

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15. Usucapião agrária e requisitos pessoais, reais e formais da usucapião

15.1 Apresentação

Neste capítulo, finalizando o estudo do Direito Agrário, veremos mais alguns dos requisitos para a decretação da usucapião.

15.2 Síntese

A usucapião agrária ou rural está prevista no art. 191 da CF, o qual foi reproduzi-

do pelo art. 1.239 do CC.

O art. 191 da CF traz os requisitos. O primeiro é área localizada em zona rural,

sendo adotado o critério da localização.

A área não pode ultrapassar cinquenta hectares. Ainda, o prazo de posse é de

cinco anos, devendo a posse ser ininterrupta e sem oposição.

O imóvel deve ser utilizado para moradia e também o possuidor não pode ser

proprietário de outro imóvel urbano ou rural. Além da moradia, o possuidor deverá tornar a terra produtiva (posse pro labore ou posse trabalho). Trata-se da posse qualificada.

A usucapião do Estatuto da Cidade é a chamada usucapião coletiva (art. 10). É

uma modalidade que traz como requisitos: área localizada em zona urbana, com mais de 250 m²; área ocupada por população de baixa renda; área utilizada para moradia; posse por cinco anos ininterruptos e sem oposição; impossibilidade de iden-

tificar o que é de cada possuidor; necessidade de litisconsórcio ativo necessário; os possuidores não podem ser proprietários de outro imóvel urbano ou rural.

A usucapião que nos interessa é aquela que pode ser aplicada no direito agrário.

Os requisitos da usucapião são vários. O primeiro é que o usucapiente deve exer- cer posse com animus domini.

O segundo é que a pessoa que quer usucapir não pode ser proprietária de outro

imóvel urbano ou rural na modalidade rural. Observe-se que qualquer direito real de coisa alheia de gozo ou fruição pode ser usucapido. Exemplo: servidão e usufruto. Quanto à natureza jurídica, temos prazo com natureza prescricional. Trata-se de prescrição aquisitiva. Por conta de tal prazo, tanto a doutrina quanto a jurisprudência entendem que se aplicam as regras de prescrição extintiva (arts. 197, 198, 199 e 202).

Quanto aos requisitos reais, temos que a usucapião exclui bens públicos.

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A CF fala em cinquenta hectares. Assim, o que aconteceria com uma pessoa que pretende usucapir quinhentos hectares? A jurisprudência admite que a ação seja julgada parcialmente procedente, uma vez que a área excedente pode ser objeto de uma nova ação de usucapião. Se o sujeito entra com ação requerendo cinquenta e um hectares, por exemplo,

a jurisprudência atual entende que o pedido deve ser julgado totalmente procedente. Quanto aos requisitos formais, a usucapião extraordinária e ordinária de bem imóvel permite a junção de posses inter vivos ou causa mortis, de acordo com o art. 1.243, que dispõe: “O possuidor pode, para o fim de contar o tempo exigido pelos

artigos antecedentes, acrescentar à sua posse a dos seus antecessores (art. 1.207), con- tanto que todas sejam contínuas, pacíficas e, nos casos do art. 1.242, com justo título

e de boa-fé.” Na usucapião rural e na usucapião urbana, não será possível a junção de posse, só sendo permitida a junção causa mortis. Por fim, o processo de qualquer modalidade de usucapião é regido pelo art. 941

e seguintes do CPC.

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