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OViSeE OM PANES ‘0 conhecimento do ambiente e o ambiente do conhecimento: anotacées sobre a conjuntura do debate sobre vulnerabilidade ‘The knowledge about the environment and the environment for knowledge: notes about the conjuncture of the debate on vulnerability, Henri Acselrad* Resuma- © texto problematiza as conigdes de conhecimento © de- bate em torno aos processos socials de vulnerabilizagao no Brasil superindo que, 20 lado das dificuldades propriamente metodologieas pia cacteizacio i Wunerblidad’ como procesto« como re [Scio elementos conjunturais cancorrem para que se manifest cera resistincia a problematizt © historcizar apropradamente tal objeto. Palavras-chaver meio ambiente; vulnerabilidade, 1sco; conflto so cial; mapeamento. Abstract The text discusses the conditions established for knowing and debating socal processes of wulnerabilzation in Brazil, sugges ing tha, besides methodological gifeuites to characterize’ wulere- tify ae a process and as Telatioship, sme conjuncturalclements Constibute to generate resistance fo probiemtze and propery Nistor Keywords: crvltonment; vulnerability risk; social confit; mapping 5 orm Econ cio do POUR pesqsador do CNP, Carespondnciz\PPURLUFR, Prods Borg tga ala 33 Ccade Unbesia Ths donto CEP 2h 910285 Re delaera Ena Shenae EMPAUTA Ro de nero-2°Semeste de 2015: 32,9-11-p. 115-129 Revista da Faculdade de Srvc Social da Univesdade do Fado do Rode ansiro 15 OViSéE OM PANES Introducao © campo da ciéncia define-se por um conjunto de posicdes e re- lacées através das quais os agentes nele atuantes concorrem pelo poder de estabelecer o que € e o que ndo € cientifico, quais os temas relevantes, os objetos e métodos legitimos de pesquisa. Nesse campo defrontam-se cons- {ruces sociais concorrentes, representagdes que se pretendem fundadas numa “realidade” que se supée capaz de validar os métodos coletivamente acumulados (BOURDIEU, 1975). Os agentes e instituigdes presentes no campo disputam a definigao do tipo de ciéncia deve ser feito, o que é atual € 0 que € ultrapassado. Ao lado, porém, dessa metafora espacial evocada para'a construcdo da nocao de campo cientifico, pretendemos aduzir aqui que caberia considerar que tais agentes ¢ instituigoes articulam-se igual- mente frente a circunstancias temporais ~ a conjunturas determinadas onde configura-se 0 que alguns chamam de “clima do debate*. Edward Said (2005) destaca o fato de que, ao procurar problematizar o consenso aparente em toro da “objetividade dos fatos’, certos pesquisadores procuram buscam, adotar 0 papel de intelectual critico, cuja perspectiva nao é a de mostrar {que esta certo, mas de tentar induzir uma mudanca no clima moral do de- bate. Fis que 0 conhecimento sobre 0 meio ambiente, em particular 0 modo como o debate ambiental tem se configurado desde 0 inicio dos ‘anos 2000, parece, em grande parte, depender de um ambiente do conheci- mento que tem se mostrado — € 0 que procuraremos mostrar — pouco propicio ao exercicio da reflexdo e da capacidade critica. Procuraremos desenvolver, a seguir, tal questdo, segundo duas distintas vias de entrada — a do ambiente do conhecimento, aplicado ao debate sobre a tematica da vulnerabilidade —e a do conhecimento do ambiente, no que este se articula as dinamicas de vulnerabilizagdo de determinados grupos sociais no con texto de um modelo de desenvolvimento baseado na expansao das fronteiras da acumulacao e na expropriagao de recursos comunais, associados a di- namicas especulativas nos campos financeiro e imobilidrio, © ambiente do conhecimento: a “microssociologia” de um debate sobre a vulnerabilizagao ambiental Em um debate piblico organizado por instituicées académicas sobre o tema da vulnerabilidade e dos riscos ambientais, chamou-se a aten- ‘cdo para o fato seguinte: na busca de indicadores para orientar aes contra avulnerabilidade social, costuma-se caracterizar 0 peril séciodemografico € locacional de individuos “sob risco” ~ em face da probabilidade de ocor- réncia de agravos-ou vulnerdveis-com suscetibilidades a sofrer agravos —, mas tem-se grande dificuldade em considerar os aspectos processuais relacionais presentes na producdo social da vulnerabilidade. A busca de EMPAUTA Rode ne -2°Semeste de 2013-032, 0.11,p.115-129 116 Revista da Faculdade de Serco Soci 6 Universidade do Estado do Rio de nero elementos para a caracterizagao objetiva das condig6es de vulnerabilidade dos sujeitos tende a esbarrar em duas dificuldades correntes - a de nao considerar a vulnerabilizagao como um processo e a condicao de vulne- rabilidade como uma rela¢ao. Por esta razao, ao lado de outras comuni- cages, na ocasido daquele evento, apresentadas a respeito dos riscos que a mudanga climatica oferecem a conservagao de monumentos hist6ricos, tema de grande relevancia para a preservacao de obras que testemunham a grandeza da criatividade humana, buscava-se também trazer a discussio a questao da vulnerabilidade ambiental historicamente determinada - e desigualmente distribu'da na sociedade ~ como objeto teérico. Ocorre que este tipo de problematizacdo provocou surpreendente reacdo entre alguns organizadores do evento’: a questdo foi considerada extemporanea, sob a alegagao de que o pats, entrando na segunda década do século XXI, ndo se encontraria mais num estagio de desenvolvimento que justificasse preocupacdes com supostos processos permanentes de pro ducao de vulnerabilidades; ja ter-se-fa avancado para novos patamares ~ sustentou-se entao - cabendo a pesquisa académica, no presente estagio, tornar-se mais propositiva, colaborando diretamente com governos no aper- feicoamento das condi¢des de insercao do pais na economia internacional Isto posto, pretendo sugerir aqui que, ao lado das dificuldades propriamente metodolégicas para a caracterizacao das vulnerabilidades como processo e como relagao, nos defrontamos também com elementos conjunturais que concorrem para que se manifeste uma certa resisténcia a problematizar € historicizar a producao social das vulnerabilidades. Vou a seguir relatar as ideias basicas que foram entio expostas naquele debate, para procurar depois melhor entender o modo como elas foram recebidas por alguns dos organizadores do debate. Na ocasido, através de uma curta revisdo da literatura corrente, se trouxe 4 consideracao do paiblico presente os chamados “fatores” associa dos & produgao da vulnerabilidade — individuais, politico-institucionais € sociais. Abordou-se criticamente a abordagem pelo lado do individu, aque la que sugere forte interveniéncia de escolhas individuais na configuracao da condigao de vulneravel: a) os que vivem em condigao de risco, diz-se, ‘evocam rituais de busca extrema do limite humano, aproximando-se da morte por meio de condutas arriscadas” ou b) “cometem erros de calculo quando deixam de investir ou fazem mas escolhas na constituigao de sua carteira de ativos”, comprometendo, por exemplo, a sua “empregabilidade”, ou sua “capacidade de acessar a estrutura de oportunidades sociais”. A im- previdéncia dos individuos seria a causa de sua vulnerabilidade. Cabe a este propésito lembrar as manchetes correntes do tipo “Ocupacées irre- gulares provocam deslizamento” que aparecem quotidianamente na grande "Nona prea elvan pa or propos dese uabalho nomear everoe as pessoas envolidat no refer davate Piao excrete def exso gue oroponno, alse, antes, de eoravetarmoso melts felted para ‘eominar elementos damaso como seconstivia lima mora da deeseso” nos emoede Said (2008, EMPAUTA Ro de nero-2°Semeste de 2015: 32,9-11-p. 115-129 Revs da Faculdade de Srvc Social da Univesdade do Esado do Rode ansiro 7 imprensa, dissociadas em sua apresentacdo de qualquer referéncia ao mo- delo de industrializagao com baixos salarios que pressupds a ocupacdo de reas impréprias com a tolerancia do Estado, & auséncia ou insuficiéncia de politicas habitacionais como elemento capaz de explicar a ocorréncia de ocupacdes irregulares etc. Esses so exemplos, pois, de abordagens que individualizam a exposi¢ao ao risco. Mas mesmo entre os que consideram que a vulnerabilidade é so- cialmente produzida e que praticas politico-institucionais concorrem para vulnerabilizar certos grupos sociais, 0 lécus da observacao tende a ser 0 in- dividuo ~ ¢ seu deficit de capacidade de autodefesa — € nao propriamente © proceso. O esbaco de indices de vulnerabilidade juvenil, por exemplo, pretende fornecer elementos para politicas que impecam ou minimizem “escorregdes para a transgressao”. Ou seja, podemos supor tratar-se, para os que 0 tentaram conceber, de dar elementos para politicas destinadas a reduzir os indices de desestruturacdo do tecido social tais como desigual dade social, baixa renda, taxas de homicidio, abandono de escola, gravidez precoce, lares sem pai ¢ com mae trabalhando, habitacées superiotadas, escolas com éxodo de professores etc. Ora, 0 que deveria estar em causa seriam, portanto, as politicas e instituicées que favorecem a emergéncia de tais males e nao “o risco que os individuos destituidos de direitos oferecem 8s instituicoes” ~ os chamados “escorregdes para a transgressio” Nas definicdes mais cortentes, portanto, a condigao apontada esta posta nos sujeitos € ndo nos processos que os tornam vulneraveis, 0 que esvazia a dimensao politica da distribuigdo ~ via de regra desigual dos riscos. Uma alternativa politizadora seria, por exemplo, a de definir os vulneraveis como vitimas de uma protecao desigual. Essa € a formulagao do Movimento de Justica Ambiental dos EUA: poe-se foco no déficit de res- ponsabilidade do Estado e nao no déficit de capacidade de defesa dos su jeitos (BULLARD, 1993; GOULD, 2004). Nesse caso a observacao dirige- ‘se aos mecanismos que tornam os sujeitos vulneraveis e nao a sua condi¢ao dle destituldos da capacidade de defender se. Q recanhecimento dessa con digdo de destituidos ¢, claro, fundamental para a constituigdo de sujeitos coletivos, mas desde que em confronto com as obrigacdes publicas que Ihes sao devidas como direitos que devem, em primeiro lugar, ser cobradas; ou seja, nao abstraindo o papel que desempenham os mecanismos de des- Lituigdo. Isto nao quer dizer localizar em processos estruturais e incapturaveis a “causa” da vulnerabilidade: interessa, ao contrario, determinar e inter- romper os processos decis6rios que impdem riscos aos mais desprotegidos ~ decisdes alocativas de equipamentos danosos, dindmicas inigualitarias do mercado de terras, mecanismos de desinformacao ou sonegacao de informacao, volume e distribuigao dos investimentos em educagao, satide etc. Focalizar-se-4 neste caso a protecdo aos cidadaos como respon- sabilidade politica dos Estados democraticos, em lugar apenas de se mensurar os déficits nas capacidades de autodefesa dos mesmos. No caso da dendncia EMPAUTA Rode ne -2°Semeste de 2013-032, 0.11,p.115-129 18 Revista da Faculdade de Serco Soci 6 Universidade do Estado do Rio de nero da protegio desigual, a sociedade procura problematizar e demandar que se desfagam os mecanismos de vulnerabilizacdo. Como? Como disse, re- querendo do Estado politicas de atribuigao equanime de protegao e combate 0s processos decisorios que concentram 0s riscos sobre os menos capazes de se fazer ouvir na esfera piblica. No outro caso anteriormente exposto, aquele centrado no déficit dos sujeitos, o Estado afirmara pretender dar aos vulneraveis “defesas contra os danos", “capacidade de controlar as foras que modelam seu destino” “aumento no seu capital social e cultural”, sempre uma suplementagao de uma caréncia e ndo uma a¢ao sobre o processo de vulnerabilizagao. No primeiro caso, sublinha-se algo que Ihes é devido como um direito ~ 0 que aponta para o conjunto de decisdes de natureza distributiva intercorrentes; no segundo, para algo que Ihes falta, capacidade que buscar-se-a atribuir-Ihes ou se dira pretender atribuir-Ihes. Nese citimo caso, pretende-se dar ao cidadao algo que "ele nao tem”, enquanto no an- terior, aponta-se para 0 processo através do qual esta capacidade de auto defesa “Ihe 6 em permanéncia subtrafda’. Nesta perspectiva, para se captar a dimensio societal da vulnera- bilizacdo, a pretensio de mensurar estoques de individuos considerados em situagao de vulnerabilidade social deveria ser acompanhada de um es- forgo de contextualizacao e ser associada a caracterizagdo dos processos de vulnerabilizacao, para os fins de sua posterior superacdofinterrupcao. No debate que entao se desenrolava no evento académico em ques- ‘a0 inicialmente evocado, a reflexao assim prosseguia: a vulnerabilidade é uma nogao relativa ~ esta normalmente associada & exposicao aos riscos e designa a maior ou menor susceptibilidade de pessoas, lugares ou ecossistemas s0- frerem algum tipo particular de agravo. Se a vulnerabilidade é decorréncia de uma relacao histérica estabelecida entre diferentes segmentos sociais, para eliminar a vulnerabilidade seria necessario, como vimos, que as causas das privag6es softidas pelas pessoas ou grupos sociais fossem ultrapassadas ce que houvesse mudanca nas relagGes que os mesmos mantém com 0 espaco social mais amplo em que esto inseridos. (GUIMARAES; NOVAES, 1999). Fatores com agao diferenciada concorrem para a maior ou menor exposicdo ao agravo ou a maior ou menor chance de protegao contra este. Isto porque ha mecanismos de distribui¢ao desigual de tal protecao. Esses fatores sao objetivos, sim: uns tém 0 poder de se proteger, de se tornarem menos vulnerdveis - via mobilidade espacial, influéncia nos processos de- cis6rios, controle do mercado das localizacées etc., enquanto que outros terdo sua mobilidade restrita aos circuitos da vulnerabilidade — da moradia embaixo de um viaduto para cima de um oleoduto etc... Mas ha também fatores subjetivos - ocorrem diferentes concepcdes do que seja toleravel ou intoleravel numa dada condigdo de existéncia’. Afirma Didier Fassin ‘Gimolarivel io pra dese desta dese sender, dasa ecompo.|*Ainda qu amas foemulada como Uma difereniao do molerdvel sensi, seguir uma linha dv sii do mundo, des fotaenteaces uj ‘ids pose sind sesconsderda como sgrads eaqocle ca sigs omoy-sesnenicive ct sein (2005, p48 EMPAUTA Ro de nero-2°Semeste de 2015: 32,9-11-p. 115-129 Revs da Faculdade de Srvc Social da Univesdade do Esado do Rode ansiro 19 (2005, p. 48): "A definico dos fundamentos de uma economia moral néo é intemporal, ndo para de se deslocar, de se estender e de se recompor; suas normas ¢ limites sao historicamente constituidos dentro de uma rela~ tividade temporal.” A condicao de vulnerabilidade é, pois, socialmente construfda. Ela sera sempre definida a partir de um ponto de vista. Sabemos {que 05 grupos sociais convivem com horizontes e expectativas de vida di tintas: quanto mais estreito for o arco das expectativas, maior a propensio a aceitar condigées, em outras circunstancias, momentos e lugares, inacei taveis. Ela incorporard diferentes inflexdes na fronteira entre o que distintos grupos sociais consideram toleravel ou intoleravel. Segundo uma fala colhida para a dissertacdo de Maria Auxiliadora Vargas no IPPUR/UFRJ em 2006: *—Ey morava num pedacinho de céu. prazer de ter minha casinha com tertcirinho pra plantar uma couve, pois cu estava dentro do que é meu, onde podia acordar agarrada com meus doze filhos” — era como descrevia sua habitagao uma moradora de encosta perigosa de Juiz de Fora. (VARGAS, 2006). Vé-se aqui o que podemos considerar um emblematico depoimento sobre o “viver sob o neoliberalismo’. Concluia-se, assim, a problematizacao com o seguinte exemplo: ‘em uma reportagem da revista Retratos do Brasil sobre vulnerabilidade so- cial, Juliana, 15 anos, aluna da 8 série em uma escola da periferia da Re- gio Metropolitana de Sao Paulo ~ onde condicées precarias de ensino € aprendizagem concorreriam para produzir vulnerabilidade social, afirmava: “dizem que a escola 6 ruim, mas quem faz a escola é 0 aluno”. Ou seja, re- velando um caso de hiperestruturacao individual e de capacidade de resis téncia ao processo de despolitizagao da sociedade, ante os sinais de que as instituicdes ¢ politicas estariam falhando, a jovem nao perdeu de vista as possibilidades de si propria como responsavel pela construgaio destas mesmas instituicoes. Pois bem, as colocacées acima foram consideradas pelos orga- nizadores do evento académico a que nos referimos inicialmente como deterministicas, atribuindo um destino inescapavel dos pobres & pobreza e dos vulneraveis a vulnerabilidade, sem falar que, como ja expusemos, cons- tituiriam situacdes referidas a um pasado jé superado, associadas como 0 sdo a pesquisas de carater ndo propositivo etc. Ora, 0 que se tinha tentado destacar é justamente 0 contrario, ou seja, 0 papel dos sujeitos na distribuigao desigual dos riscos € na producao social da vulnerabilidade, assim como, por certo, na luta contra tais iniquidades. Cabe acrescentar, a respeito da formagao das subjetividades, as seguintes observacdes derivadas de pesquisas desenvolvidas na area am- biental. Observa-se que a vulnerabilizacao é acompanhada de um amor- tecimento daquilo que podemos chamar de epidemiologia espontanea. A capacidade de estabelecer relagdes causais entre eventos relativos a impactos ambientais e ocupacionais por grupos subalternos (trabalhadores ou mo- radores de areas atingidas por empreendimentos geradores de risco) & EMPAUTA Rode ne -2°Semeste de 2013-032, 0.11,p.115-129 120 Revista da Faculdade de Serco Soci 6 Universidade do Estado do Rio de nero neutralizada tanto por sua situagao dita de “desespero econdmico” quanto pela desinformacdo organizada. € comum que os grupos atingidos se mo- bilizem com mais forga quando episédios extremos tenham ja manifestado seus efeitos. Depoimentos de trabalhadores mobilizados em lutas ambientais mostram as condi¢des restritivas do acesso informagao e ao reco- nhecimento dos riscos ambientais no interior da inddstria. Em relacao aos riscos de acidentes fabris, um diretor da Associacao dos Trabalhadores Ex- postos a Substancias Quimicas (ATESQ) afirma: “Nos estavamos muito bem treinados para no morter dentro da fabrica”. “Se eu ndo tivesse sido con- taminado, ainda estaria trabalhando sem consciéncia nem participagao no processo politico, sem acesso ao conhecimento”, completou um membro da Associacdo de Combate aos Poluentes (ACPO). (CALDERONI, 2006). G proceso de vulnerabilizagao ¢, portanto, secundado pela neu- tralizagao da capacidade critica dos potenciais atingidos por agravos. Ve} mos por exemplo as praticas destinadas a obter a chamada “licenca social” dos grandes empreendimentos. Empresas desejosas de estabilizar suas “re- laces comunitarias”, com frequéncia crescente, encomendam estudos so- ciol6gicos do que chamam de “isco social: alegarse preocupagao com as populagdes em situacao de “risco social” nas teas de sua implantagao, para promover, de fato, agdes de protecao da propria empresa contra “o risco que a sociedade pareca oferecer aos seus negicios”. Através destes estudos, mapeiam-se liderangas, movimentos sociais caréncias que per- mitam aos empreendimentos legitimarem-se junto as populagdes locais, desqualificando a mobilizagao critica dos movimentos sociais, ocupando 8 espagos vazios do poder publico e conquistando a adesao popular a seus projetos, quaisquer que sejam seus custos — sociais e ambientais — para 8 grupos atingidos Peper ror oulro lado, a incerteza que é prépria ao conhecimento dos processos socioecolégicos favorece a desresponsabilizagao dos agentes que decidem sobre formas técnicas e locacionais de aparatos geradores de risco. Instaura-se uma forma de apropriagao social da incerteza ¢ uma consequente “irresponsabilidade organizada”, nos termos de Ulrich Beck (2002). Mas, cabe registrar que, juntamente com o jogo de pericia e contrapericia que a incerteza favorece, tem-se observado um certo nimero de casos de restrigao liberdade de pesquisa daqueles que procuram estudar conflitos ambientais € impactos de projetos e investimentos econdmicos sobre as condicdes de existéncia das populacées, notadamente daquela postas em situaco de maior vulnerabilidade. Assim é que a ideologia do desenvolvimento a qualquer custo, em contexto de competi¢ao por atragao de investimentos internacionais, via de regra associada a aceitacao de flexibilizacdo de legislacao e de di- reitos, tem justificado nao 56 a reproducao da desigualdade ambiental e a penalizacao dos grupos sociais mais despossuidos, como tem criado cons- trangimentos ao exercicio da atividade critica no préprio campo cientifico. EMPAUTA to de neo -2'Semestrede2015-n.32,9-11-p. 115-129 Revs da Faculdade de Srvc Social da Univesdade do Esado do Rode ansiro 121 Cabe, assim, examinar 0 conjunto das condigdes objetivas e subjetivas de producdo social da vulnerabilidade, o que inclui, portanto, as condigdes de realizacao — livres e auténomas — da prépria pesquisa social Isto posto, vejamos a seguir como, ao lado das condicées de vigén- cia do ambiente do conhecimento, também o conhecimento do espaco social, em particular do territério dos conflitos ambientais que o integram, pode apoiar o desenvolvimento da capacidade critica relativa a distribuicao desigual dos recursos ambientais, assim como dos males decorrentes, em. geral, do processo de acumulacao de riquezas. O conhecimento do ambiente: a respeito de mapeamentos ¢ conflitos Na modernidade, os mapas foram elaborados original mente para facilitar © legitimar as conquistas territoriais, definir o Estado como uma entidade espacial e construir nacionalismos pés-coloniais. Os primeiros, mapas de constituicdo dos Estados-nagdo tiveram a ver com penetracao e orientacao, identificacao de rotas para o interior, definicdo de pontos de referéncia considerados criticos ao longo dos trajetos e colocag.io de simbo- los para sugerir a existéncia de riquezas. Outra vertente da produgao carto- grafica consistiu na territorializacao ou delimitagao dos limites do Estado, assim como na defini¢o de propriedades em seu espaco de soberania Uma terceira tarefa do mapeamento foi a da criagdo de jurisdicdes adminis trativas que facilitassem o controle centralizado sobre os territérios nacionais, ¢ seus dominios. Um quarto tipo de mapa, de zoneamento, prescrevia utilizagdes para o territério segundo normas preestabelecidas. Assim, cada tipo de mapa teve uma funcao especifica € cada um esteve associado a uma fase diferente no processo de formacao dos Estados, embora estas fases possam, eventualmente, ter-se imbricado umas nas outras, ‘Com o surgimento de uma questo ambiental delineada no debate piiblico no final dos anos 1960, implicacdes espaciais concorreram pata 0 {que poderiamos chamar de uma “ambientalizacao da cartografia”, que se deu paralelamente a0 processo de ambientalizacdo dos proprios Estados nacionais'. Foi a partir dos anos 1970 que se observou, no Brasil, a montagem de sistemas institucionais responsaveis por dimensoes ditas ambientais das politicas governamentais. A questio ambiental foi sendo, assim, internalizada nos aparelhos de Estado de modo a constituir instituigdes ¢ praticas gover-namentais especializadas em politicas “de meio ambiente”. Na década se-guinte, configurou-se a estrutura institucional voltada a sua execugdo. A partir do final da década de 1980, comecaram, porém, a se 5 Sanna abinaiagao™ € asd aul, nos emote ete Lopes, como nololsnedenotanda um proceso histo de cons de novor mena, um procsso de neorizagso plas pesos por deen gupos {cise pordsewsor nsuonis de sien stan questo pica Gomeio ambi Lopes 0 EMPAUTA Rode ne -2°Semeste de 2013-032, 0.11,p.115-129 122 Revista da Faculdade de Serco Soci da Universidade do Estado do Rio de nero fazer sentir os indicios de que, confrontado a pressdes permanentes, seja das forgas da liberalizagao econémica, seja dos adeptos do desenvol- vimentismo convencional, o proceso de ambientalizacao do Estado bra- sileiro foi truncado, ou seja, configurado como “uma acao ou obra in- terrompida, deixada incompleta ou impedida de ser levada a cabo", dada a auséncia de base social capaz de fazer representar em seu interior a perspectiva dos que recusam a inelutabilidade das politicas de apoio a uma acumulacdo intensiva em territério € recursos ambientais. Eis que, notadamente nos ascensos ciclicos da economia, mas também nos perfodos de baixo crescimento em que tendem a ser justificadas formas improdutivas ou pouco produtivas de predagdo ambiental, a acumulacdo capitalista requereu escalas cada vez mais amplas de producao, com a busca de novos eespagos sociais ¢ biofisicos a valorizar. Assim € que se afigurou uma crescente concentracao do uso dos recursos hidricos em favor de grandes hidrelétricas € dos grandes projetos de irrigacdo, destinou-se 0 acesso as regides ricas em minerais pata grandes empresas mineradoras, favoreceu-se a incor- poracdo de grandes porcdes de terras de fronteira por frentes especulativas. ‘J expansao propria a esse tipo de acumulacao, que podemos chamar de extensiva — dando-se por via da expansao de fronteiras — tende a resultar na destrui¢ao de formas sociais ndo-capitalistas de apropriagao do territério € seus recursos, assim como na desestabilizacdo dos sistemas ecolégicos nos espacos crescentemente ocupados pelos grandes empreendimentos. Fm nome de uma concepcao industrialista de progresso, desestruturam-se as condigdes materiais de existéncia de grupos socioculturais territorial mente referenciados e pressiona-se a base de recursos de populagoes situadas em terras tradicionalmente ocupadas (ALMEIDA, 2004). A moderna so- ciedade capitalista brasileira, com sua particular modalidade de “fordismo", baseou-se também na aceleracdo dos ritmos de producao e na intensificagao do trabalho. Através da acumulacao intensiva — pela via dos ganhos de produtividade — foi permanente 0 esforco em aumentar a velocidade de recuperacdo do capital investido, fazendo com que tal aceleracdo acabasse por chocar-se com 0s ritmos, mais lentos, de regeneragao prdprios aos in- dicadores qualitativos do meio biofisico. Sao disso testemunho os males da poluicdo industrial e do uso de substancias perigosas sobre as populacdes trabalhadoras e moradores de areas de risco situadas nas proximidades das redes técnicas da circulagao de mercadorias e materiais ou habitando zonas ecologicamente frageis, dada a auséncia de politicas habitacionais apro- priadas. Em que pesem os tracos de um modelo de desenvolvimento inten- sivo em recursos ambientais, ou seja, expansivo no que concerne a desestru- turacdo das formas nao capitalistas de apropriagao do territério e seus re- cursos, 0 discurso do planejamento territorial passou, a partir dos anos 1980, a incorporar elementos do discurso ambiental, fazendo com que ga- nhasse forca a remisso a uma racionalidade ecoldgica, apresentada como EMPAUTA to de neo -2'Semestrede2015-n.32,9-11-p. 115-129 Revs da Faculdade de Srvc Social da Univesdade do Esado do Rode ansiro 123 necessaria ao ordenamento territorial do pais. O Zoneamento Ecolégico- Econémico (ZEE) é o nome do instrumento que esteve desde entao forte- mente associado a materializagao territorial desta suposta racionalidade. A ideia de que os projetos do desenvolvimentismo autoritario, com 0 apoio financeiro dos organismos multilaterais, resultaram em uma “desordem eco- loégica e social” afirmou-se de tal forma que o préprio Banco Mundial pro- curou incorporar “preocupacées ambientais” voltadas para a corregao dos impactos emblematicamente desastrosos de projetos como 0 POLO: NOROESTE. O ZEE foi tratado como peca-chave a propiciar 0 conhe- cimento do terreno, a identificagao das potencialidades do territério © a classificagdo de areas segundo diferentes padrdes tidos por racionais € desejaveis de uso, Eis que a cartografia “ambientalizada” tornou-se, no interior das dinamicas do ZEE, instrumento da pretendida representacdo do ordena- mento ecol6gico do espaco, da determinacao racional das “vocacées na: turais” das diferentes porcdes do territério: discutiram-se as escalas apro- priadas, as técnicas de obtencao de imagens, metodologias para a represen- tagao do que se entende por “verdade terrestre"*, a selecao das variaveis a discriminar para orientar a gestio dos usos de recursos naturais etc. Mas qualquer consulta que se faca a producdo documental sobre o ZEE, faz saltar aos olhos a referéncia constante a suas ditas “dificuldades meto dolégicas”. Assim é que ante a complexidade das dinamicas sociotertitoriais, encontradas, afirma-se recorrentemente uma angistia anticartesiana e uma pretensio holistica irrealizada, a busca de indicadores que exprimam a associagao apropriada entre variaveis sociais e geofisiograficas, e, por fim, ‘© desencanto com a falta de “sustentabilidade politica” do ZEE, dada a in- conformidade da realidade social frente aos propésitos e marcos conceituais, que orientam a implementagdo desse instrumento no planejamento ter ritorial. Caberia perguntar, a'propésito, se essas dificuldades e angustias nao estariam refletindo aquilo que De Certeau chamou de “um enorme resto feito de sistemas culturais multiplos ¢ fluidos, situados entre as maneiras de se utilizar o espaco e o planejamento”, gerando “um fluxo de murmarios nas regides avangadas do planejamento”. (1995, p. 234). Nao seriam mencionadas “dificuldades metodolégicas” a expresso mesma da tensio centre 0 espaco geometrizado, estético e relativamente homogéneo da idea- lizagao zoneadora € o territério usado, "forma-contetido em proceso de mudanga"? (1999, p. 18). Em comunicagao ao seminério sobre ZEE organizado pelo Mi- nistério do Meio Ambiente em outubro de 2000 em Manaus, afirmava um representante do Banco Mundial: ‘Pasa eeidanador do ZEE decid do Maranhdo, a idntieagso das nidades ambinsais eda ecoinamica lecara esatenzacso da verdad tomesre ct encoum 995,93 EMPAUTA Rode ne -2°Semeste de 2013-032, 0.11,p.115-129 124 Revista da Faculdade de Serco Soci 6 Universidade do Estado do Rio de nero A sociedade € caracterizada por conflitos, muitas vezes sobre 0 uso da terra e seus recursos. A resolugao de conflitos sociais se da através do processo politico. © processo técnico de planejamento tem cera tendéncia de esperar que ele, por si s6, possa levar a um consenso, a uma harmonia social sobre 0 assunto. Certamente pode contribuir para tal, Mas 0 zoneamento no deve ignorar a existéncia de contlitos de interesses como um fato basico social, e teri mais chances de su cesso se for conduzido como um proceso de negociacao, de resolu- {40 de conflitos entre os ‘stakeholders’. Parece, inclusive, que deveria comecar logo com 0 didlogo entre os ‘stakeholders’ sobre os pro: blemas e opcoes por eles percebidos, endo com as pesquisas e os mapas. {DIEWALD, 2000, p.3). Ora, tal consideracao reflete justamente os impasses das técnicas de representacao do territério que sempre estiveram surdas ao “flux de murmirios” descrito por De Certeau (1995), incapazes como tém se mos trado de tornar visiveis e politicamente trabalhaveis os “restos culturais si- tuados entre o espaco usado eo planejamento”. Ora, no caso das cartografias ambientalizadas do ZEE, o territ6rio atravessado por conflitos, plural e polis sémico, aberto ao aleatbrio e ndo controlavel tende a ser transformado em extensdo quantificada, limitada, controlada pelo gesto cartografico que pre- tende servir de suporte & aco planejadora (LUSSAULT, 1995, p. 170). Pois © imaginario cartografico e as representacdes do territ6rio para fins de zo- neamento encerram a necessidade de fragmentar o real para melhor defini- lo, descrevé-lo e, simbolicamente, possui-lo. E a fragmentacao do espaco resultante exprime a vontade de se ajustar cada uma de suas porcdes a um projeto utilitario de integracao mercantil ou de subordinacao politica, Este ajuste, que sera entendido, via de regra, como um encontro com a “verdade do lugar’, verdade disseminada e encontravel no mundo das coisas, ndo evitard que a ilusdo da ordem almejada seja desfeita antes mesmo de se realizar ~ 05 dados scrao considerados inatuais, as zonas idealizadas se mostrardo incompativeis com as realidades sociais do terreno, as politicas fundiarias federais desautorizardo as destinacdes de area feitas por 6rgdos estaduais etc. A dinamica social negara assim, repetidamente, a ordem ut6- pica das coisas, expressa em estados estaveis € definitivos de representacdes das quais se tende, via de regra, a subtrair a Histéria. Ora, é essa Historia que se tem tentado, desde a década de 1990, introduzir nos exercicios de representacao de um territ6rio que torne visiveis as dindmicas espaciais do tecido social vivo — os processos socioecolégicos intrinsecamente conflituais que estabilizam e instabilizam lugares e grupos sociais. Isto porque os conflitos ambientais resultam do modo como o tecido social vivo se manifesta a respeito da aceitabilidade das condigdes pelas quais 0 espago é compartilhado. E 0 que € posto em questao pela dinamica Conflitiva em seu conjunto ~ nao necessariamente, por certo, por cada ator coletivo em separado ~ 6, pois, o modelo de desenvolvimento - 0 modo socioespacial pelo qual sdo distribuidos os recursos do territrio. EMPAUTA to de neo -2'Semestrede2015-n.32,9-11-p. 115-129 Revs da Faculdade de Srvc Social da Univesdade do Esado do Rode ansiro 125 Se tomarmos como exemplo 0 espaco da cidade no modelo de desenvolvimento dito fordista — ou seja, a cidade industrial, do automével da expansao imobiliaria com verticalizagao dos iméveis — este estard as- sociado, em geral, a conflitos em torno a poluicdo do ar, a disposicao in- devida dos produtos invendaveis da atividade capitalista ~ 0s ditos efluentes, liquidos, sélidos e gasosos. Nos espagos nao urbanos, por sua vez, 05 Co! flitos exprimirao 0 movimento de expansao das fronteiras da acumulacao em sua articulacdo com formas renovadas de exploracdo do trabalho ~ via flexibilizacdo e reversao de direitos — assim como de geracdo de ganhos fi- nanceiros a partir da especulagdo com a terra. Pois desde o inicio da liberalizacdo de sua economia, 0 ca. pitalismo brasileiro veio configurando formas peculiares de associagao entre acumulacdo intensiva — via aceleragao do tempo de rotagao do capital, ga- nnhos de produtividade e intensificacao do trabalho ~, acumulagao extensiva via expansdo das fronteiras da acumulagao e expropriagdo de recursos comunais ~ e dinamicas especulativas no campo financeiro e imobiliario. ‘Apés a crise global de 2008, esse modelo foi mais uma vez reafirmado: os responsaveis pela agdo governamental no Brasil ~ louvados por terem sido capazes de atravessar a turbuléncia financeira sem maiores desequilibrios macroeconémicos ~ nao cogitaram em adotar medidas que promovessem alguma inflexio na trajetdria de insercao crescente da economia brasileira como exportadora de commodities e semielaborados. A expansao das fronteiras internas do mercado tem-se materializado pela desestabilizagao de formas de producdo relativamente autonomas, responsaveis pela pro dugao e reproducao da biodiversidade, das fontes de agua e de outros ele- mentos do que hoje sao apresentados como recursos ambientais ameacados de escasse7 e estratégicos para o futuro do pais. O prémio Nobel de Eco- nomia atribuido, em 2009, a Elinor Ostrom, cientista politica que destaca © papel das formas coletivas de gestao dos recursos de uso comum, revelou a preocupagao crescente, mesmo nos meios do pensamento hegeménico, com a desestruturacdo das formas sociais e institucionais, como aquelas desenvolvidas no Brasil por comunidades ribeirinhas, de seringueitos, ge- raizeiros, quilombolas, grupos que exploram em comum fundos de pasio, faxinais € outros, reconhecidas como capazes de dar resposta aos efeitos homogeneizadores, poluentes e degradantes que as monoculturas ¢ indis- {rias intensivas em recursos naturais produzem sobre o ambiente. Nesse contexto, nos mapas que procuram incorporar a historici- dade dos processos sociais, 0 espago torna-se um vasto tabuleiro de xadrez sobre o qual 0s sujeitos sociais evoluem, se deslocam, se orientam. A deli- mitagdo do espaco torna-se, assim, ndo mais um meio de representa-lo simplesmente pelos objetos geograficos que 0 compéem, mas pelos co- nhecimentos associados a seu uso e pela intencao politica que preside a sua apropriacdo. A representacao desses territérios, onde se incorpora 0 conhecimento dos diferentes interesses, assim como 0 conflito entre seus EMPAUTA Rode ne -2°Semeste de 2013-032, 0.11,p.115-129 126 Revista da Faculdade de Serco Soci 6 Universidade do Estado do Rio de nero distintos projetos, expoe, pois, ao debate a questio da legitimidade do poder que sobre eles & exercido. 5 sujeitos cujas praticas espaciais si0 comprometidas pela ex- pansio da fronteiras de vigéncia das formas capitalistas de apropriagao dos recursos ambientais procuram se colocar no mapa, se fazer visiveis na esfera publica reivindicando direitos a sua reproducao sociocultural. Mas a ca- pacidade destes sujeitos se fazerem ouvir ¢ de alimentarem uma reflexio critica sobre a desigualdade ambiental ~ ajudando a sociedade a conhecer as condig6es ambientais conflituosas proprias ao modelo de desenvol- vimento em vigor ~ ¢ indissocivel da vigéncia de um ambiente favoravel a0 exercicio da liberdade académica e de pesquisa, ao debate de ideias assim como ao conhecimento das condicdes de construcdo de alternativas a0 monocultivo dos territérios e das mentes, EMPAUTA to de neo -2'Semestrede2015-n.32,9-11-p. 115-129 Revs da Faculdade de Srvc Social da Univesdade do Esado do Rode ansiro 127 Referéncias ALMEIDA, A.W. Terras tradicionalmente ocupadas. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais. ANPUR, v. 6, n. 1, maio 2004, p. 9-32. BECK, U. La sociedad del riesgo: hacia una nueva modernidad. Barcelona Paidés Basica, 2002. BITENCOURT, J.B. Audiéncia pablica, proposta de fiscalizagao e controle Brasilia, 18/10/1995. BOURDIEU, P. 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