Félix Ribeiro I Alice Mateus I António Gameiro

Pedro Lins I Ronaldo Ramos I Vitor Ramalho

A EMPREENDEDORA DE MAIOR SUCESSO

Discreta, na inversa medida da enorme visibilidade do sucesso
dos seus negócios, Isabel dos Santos é a lusófona mais poderosa
nos estratégicos setores das telecomunicações, banca e energia

GUINÉ EQUATORIAL “VOLTOU A CASA”

Jose Dougan Chubum, embaixador da Guiné Equatorial em
Portugal, revela as oportunidades que este regresso à casa
da Lusofonia oferece ao país, aos Estados-membros e às
empresas da CPLP

E AINDA...



Georgina de Mello: “Algo mudou em Díli, na CPLP”
António Monteiro: Diplomata na liderança do BCP
O Mestrado inovador da Universidade Lusófona
Encontros Empresariais dinamizam CPLP

N.º 5 I JAN/FEV/MAR 2015 I REVISTA TRIMESTRAL I 10€
www.ceolusofono.com

Alto voo em asas lusófonas

Pioneiro no fabrico de aeronaves ligeiras no Brasil, Fernando Pinto liderou a Varig
e atravessou o Atlântico para comandar, há já 14 anos, a TAP Portugal numa rota que liga a
Europa aos caminhos lusófonos traçados pelas caravelas

CEO Lusófono tem em constituição o seu Conselho Consultivo, um órgão cuja necessidade se
tem vindo a afirmar à medida que se alarga e desenvolve o universo da “plataforma de
contacto dos decisores lusófonos” económicos, políticos e académicos.
Os colaboradores e amigos que,
em cada um dos Estados-membros da CPLP e em vários
pontos do Mundo, se juntaram a
este projeto também têm
manifestado a vontade de
participar na criação de um
órgão que possibilite o seu
encontro, a troca de
experiências, perceções e
propostas e, claro, que dê
contributos decisivos para definir
a “rota de navegação” de CEO
Lusófono. Tem sido um processo
intenso de trocas de opiniões e
outras ‘pistas’ mas também,
naturalmente, disperso e
demorado pela dispersão de
uma Comunidade que está
presente em todos os oceanos e
continentes. Outra dificuldade a
ultrapassar tem sido o fato de
muitos dos amigos e apoiantes
deste projeto se encontrarem a
desempenhar funções oficiais
em organismos de Estado, de
Governo ou internacionais que,
obviamente, os inibem de ter
uma participação ativa mesmo
num órgão consultivo. Somos,
porém, já chegados ao
momento em que podemos,
sem contudo ser exaustivos
(longe disso…), avançar alguma
informação sobre as
personalidades académicas,
políticas e empresariais
convidadas para integrar o
Conselho Consultivo de CEO
Lusófono. Para Presidente de
Honra, convidámos, como não
podia deixar de ser, aquele que
tem sido o grande e infatigável
animador do desenvolvimento
global da Lusofonia, o

Presidente Lula da Silva. Outras
personalidades convidadas:
Alfredo Valladão
Alice Mateus
Álvaro Pinto Correia
Amadeu Basto de Lima
Amílcar Afonso
Anabela Pereira da Silva
André Magrinho
André Nunes
Ângelo Correia
António Gameiro
António Horta-Osório
António José Tello
António Mexia
António Monteiro
António Neto da Silva
António Santos Luís
António Simões
Antonito Araújo
Armando Zagalo de Lima
Carlos Andrade Costa
Carlos Fragateiro
Carlos Ghosn
Carlos Lopes
Carlos Tavares
Claudia Goya
Edson Bueno
Eduardo Mateus da Silva
Faizal Faquir Cassam
Félix Ribeiro
Fernanda Lichale
Fernando Lobato
Fernando Pinto
Francisco de Lemos
Francisco Viana
Franquelim Alves
Ganga Júnior
Georgina de Mello
Gonçalo Moura Martins
Joana Neves
João Cravinho
João Gomes Cravinho
João Figueiredo
João Marques de Almeida

João Paulo Carvalho
João Portugal Ramos
Jorge Coelho
Jorge Nascimento Rodrigues
Jorge Paulo Lemann
Jorge Rebelo de Almeida
Jorge Tadeu
José Adelino Maltez
José de Almeida Pinto
Jose Dougan Chubum
José Lamego
José Marcos Barrica
José Mateus
Luís Amado
Luís José Almeida
Luís Nazaré
Luís Reis
Luís Reto
Luís Viegas
Madalena Neves
Manuel Damásio
Maria Paixão da Costa
Maria Ramos
Mário Santos

Mário Vilalva
Martins da Cruz
Miguel Reis
Mira Amaral
Murade Murargy
Murteira Nabo
Nelson Ocuane
Paulo Cesar Silva
Paulo Kassoma
Paulo Miraldo
Pedro Lins
Pedro Santos
Ricardo Nunes
Rocha de Matos
Ronaldo Ramos
Ruben Eiras
Rui Nabeiro
Rui Pereira
Salimo Abdula
Sérgio Parreira de Campos
Tiago Barreto
Tito Mba Ada
Victor Luis
Vitor Ramalho

nota

DO EDITOR

2015
Ano difícil

V

Impressão:

olátil, precário e incerto. Assim se nos
apresenta o mundo neste início de 2015. A
crise do sistema global tornou volátil qualquer
certeza, transformou em precário o que era
garantido e fez incerto qualquer cálculo. De
repente, por exemplo, sem que nada o anunciasse, o preço
do petróleo iniciou uma descida aos infernos que o fez
perder mais de metade do seu valor desde junho passado.
Esta, até agora, imparável queda fez voar em estilhaços os
mais elaborados e prudentes cálculos e orçamentos de
empresas e Estados, criando uma situação de instabilidade
e emergência que não constava de quaisquer previsões.
A subida acentuada das tensões geopolíticas e o alastrar
das desestabilizações regionais, em todos os oceanos e
continentes, já geraram uma escalada de crispação que
ameaça tornar-se de difícil controlo. Em África, afirma-se
uma tendência para a expansão e alastramento das zonas
críticas, da Nigéria à Somália e ao Índico, passando por
todo o Sahel, e da RCA ao Mali e sul da Argélia. Apesar de
algumas tentativas de 'containment', a situação aconselha a
cultivar o que fará toda a diferença em casos críticos:
prudência e preparação estratégica. À volta do Brasil, as
incertezas avolumam-se da Venezuela à Argentina. No
Pacífico, nunca o nome daquele oceano foi tão enganador
como agora. Na Europa, uma miríade de ameaças e
conflitos pulula nas suas fronteiras leste e sul, do Báltico à
Ucrânia e do Médio Oriente a Gibraltar.
Neste complexo e ameaçador quadro, relações fraternas
entre os nove Estados da CPLP podem marcar pontos e
fazer a diferença na resolução de problemas que os afetem.
As crises, com suas ameaças, são sempre oportunidades
únicas de afirmação.
Bom Ano! n

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CEOLusófono I 3

nesta

EDIÇÃO

Capa

20

FERNANDO PINTO

O CEO que lidera a TAP
há 14 anos nasceu para
voar. Os aviões são família,
paixão, profissão e
passatempo
Perfil

14

ANTÓNIO MONTEIRO

Figura de topo da
diplomacia portuguesa,
durante quatro décadas, é
hoje Presidente do Conselho
de Administração do maior
banco privado português, o
Millennium BCP

4 I CEOLusófono

17

ISABEL DOS SANTOS

Discreta, na inversa medida
da enorme visibilidade das
suas iniciativas empresariais,
é a lusófona mais poderosa
nos estratégicos setores das
telecomunicações, banca e
energia

Estratégico

28

GEORGINA DE MELLO

Em entrevista exclusiva, a Diretora-Geral da CPLP fala
dos passos que estão a ser dados para concretizar o
potencial económico da Lusofonia

Negócios & Gestão

46

REFORÇAR COMÉRCIO NA CPLP

CEO Lusófono participou como Media Partner
na 1.ª Edição dos Encontros Empresariais
CPLP e revela as principais questões
debatidas pelos participantes desta iniciativa

Negócios & Gestão

38

DEFINIR O NOVO MUNDO CIBER

O futuro pertence a quem souber definir este
novo mundo e enquadrar juridicamente as
suas ameaças, explica a especialista Alice
Mateus
Estratégico

Negócios & Gestão

Estilos

LUSOFONIA E GLOBALIZAÇÃO

MANUEL DAMÁSIO

GISELE BUNDCHEN

26

Félix Ribeiro estabelece e
analisa as três características
que definem o espaço lusófono
na economia global e suas
consequências

62

42

Caso raro de “softpower”,
“a brasileira mais influente do
mundo” vive agora uma
história de amor com a Chanel

63

34

MAIS-VALIA LUSÓFONA

TASCA DA ESQUINA
A Universidade Lusófona, que
lidera, lançou o inovador
mestrado “Inteligência
Económica e Cooperação no
Espaço Lusófono”

Finança

A Lusofonia não se esgota
na vertente linguística,
abrange a cooperação nos
mais diversos domínios,
aponta o deputado António
Gameiro

54

COMPETITIVIDADE
SUSTENTÁVEL

Uma nova geração de líderes
está a aplicar uma nova visão
da sustentabilidade dos
negócios, muito além do “verde”

31

Estratégico

GUINÉ EQUATORIAL

“Voltámos à nossa casa”,
afirma Jose Dougan
Chubum, embaixador
em Portugal do mais
recente Estado-Membro
da CPLP

O restaurante do chef Vítor
Sobral foi duplamente eleito o
melhor da cozinha portuguesa
em São Paulo

E ainda:

50 LIDERAR EM EQUIPA
45 SUCESSO DA QUIDGEST
64 HORIZONTES LITERÁRIOS

CEOLusófono I 5

no radar

n PORTUCEL SOPORCEL, A MAIS INTERNACIONAL

Liderada pelo CEO Diogo da Silveira, a Portucel Soporcel alargou
atividade de 118 para 127 países e tornou-se “a empresa
portuguesa com maior presença internacional”, anunciando ainda
duas iniciativas que marcam o arranque da estratégia 2015-2025:
a entrada do Banco Mundial no capital da Portucel Moçambique e
a construção de uma fábrica nos EUA que aposta na promissora
área da bioenergia.

n FREDERICO FLEURY CURADO

O CEO da Embraer, desde abril de
2007, conseguiu este ano um
resultado histórico. Os pedidos
firmes à Embraer atingiram, nos
primeiros nove meses de 2014, o
maior montante de sempre ao
totalizarem
22,1 mil
milhões de
dólares.
Entre julho
e setembro,
a fabricante
brasileira de
aviões
entregou 34
unidades, 19 para a área comercial
e 15 para a executiva, e entre os
acordos de compra destacam-se os
assinados com a norte-americana
Republic Airways Holdings (50
jatos E175) e a Japan Airlines
(15E-Jets).

6 I CEOLusófono

n JOSÉ SEVERINO

O presidente da Associação
Industrial de Angola afirma que os
seus associados se queixam da
“concorrência desleal” das empresas
chinesas que operam no país, por
falta de cumprimento de requisitos
ambientais e
recrutamento
de menores
de 16 anos
como
trabalhadores.
Adianta que
estas
preocupações
já foram
transmitidas ao Governo e explica
que em causa está sobretudo a
relação com empresários com uma
“cultura diferente”, desde logo, por a
China não partilhar algumas
convenções internacionais sobre o
Trabalho.

n MIRA AMARAL

O CEO do banco BIC salienta que o
aumento de investimentos angolanos
em Portugal é um sinal do
desenvolvimento do país africano e que
o futuro está nos investimentos, por
via de “parcerias ou aquisições”, em
construtoras
e empresas
de materiais
de
construção,
para fazer
face ao plano
de habitação
social de
Angola.
Mira Amaral nota ainda a tendência
para a classe alta angolana preferir
Lisboa ao Dubai para fazer compras e
destaca um crescente investimento no
imobiliário, para habitação própria,
rendimento ou para instalar os filhos
universitários.

n CONFERÊNCIAS DE LISBOA PROJETAM NOVA
IMAGEM DE PORTUGAL

Luís Amado, presidente da
organização das
Conferências de
Lisboa, defende que
“é preciso projetar
uma imagem
diferente” de
Portugal, que tem
de se “abrir ao
exterior e atrair
novas correntes de
investimento, de turismo e
de imigração”, sendo este o
principal objetivo do evento
que, na 1.ª edição, juntou
inúmeros decisores
lusófonos, entre 4 e 5 de
Dezembro, na Fundação
Calouste Gulbenkian.
Sobre o tema que dominou
os dois dias de debate, o
desenvolvimento global, o
também presidente do Banif
e ex-ministro dos Negócios
Estrangeiros afirma que

“o Mundo vive um processo
de rápida transformação e é
preciso acompanhar
as mudanças
económicas, do
sistema
financeiro e
geopolítico”. Neste
contexto, Portugal
tem de ter “uma
agenda própria que proteja
os seus interesses e que
promova a sua influência”.
As Conferências de Lisboa
são uma iniciativa bianual
conjunta da Gulbenkian,
Câmara Municipal de
Lisboa, Câmara de
Comércio e Indústria
Portuguesa, Fundação
Portugal-África, ISCTE,
União das Cidades Capitais
de Língua Portuguesa
(UCCLA), Sofid e Instituto
Marquês de Valle Flor.

n CÍRCULO DE AMIZADE PORTUGAL - GUINÉ
EQUATORIAL

Reforçar as relações entre
os dois países é o objetivo
do Círculo de Amizade
Portugal - Guiné
Equatorial, fundado a 29
de novembro, em Lisboa.
Na cerimónia de
lançamento, em que
participou a Embaixada da
Guiné Equatorial em
Portugal, liderada por Jose
Dougan Chubum (na foto),

foram eleitos os Órgãos
Sociais para 2014/2018 e
destacado o empenho da
associação para o
fortalecimento dos laços
culturais, científicos,
sociais, diplomáticos e
económicos entre Lisboa e
Malabo.
Uma iniciativa de que CEO
Lusófono é membro
fundador.

n “CPLP ENRIQUECIDA COM GUINÉ EQUATORIAL”

Georgina de Mello, em declarações
exclusivas a CEO Lusófono, salienta
que, “com a entrada da Guiné
Equatorial, a CPLP sai
enriquecida”.
A diretora-geral da CPLP lembra
que é “um Estado-membro que está
a fazer o seu caminho”. “Adotou um
plano proposto pela organização, com
vários eixos, para se ajustar ao
quadro da organização, a
diferentes níveis (uma
espécie de road-map
aprovado a seu tempo)
que foi acompanhado e
cujo acompanhamento
demonstrou que se
estavam a cumprir as
metas e os
indicadores.
Isso levou a que a adesão
como membro de pleno
direito tivesse lugar e há
uma vontade muito grande
de aderir aos valores da
CPLP”.

n MOTA-ENGIL ÁFRICA NA BOLSA

Para Gonçalo Moura Martins, CEO do Grupo Mota-Engil,
a entrada da subsidiária africana na Bolsa de Amesterdão
“representa, acima de tudo, o prosseguir da estratégia de
diversificação e presença no mercado de capitais global,
por parte do grupo”.
A Mota-Engil África anunciou, entretanto, ter ganho um
conjunto de projetos em Angola, Moçambique e Malawi,
num valor total de cerca de 518 milhões de dólares.

CEOLusófono I 7

no radar

n “CHIQUITA” BRASILEIRA

n LUANDA NO TOP 10 DA ÁFRICA
SUBSARIANA

Os empresários brasileiros José Luís
Cutrale e Joseph Safra passaram
a controlar a maior empresa
produtora de bananas do
mundo. A compra da
norte-americana Chiquita
Brands International
ascendeu a 1,2 mil
milhões de dólares.

Em 2030, Luanda poderá ter o dobro da
população, atingindo o mesmo número de
grandes capitais europeias, como Paris e
Londres, com cerca de 10 milhões de
habitantes. Será, assim, uma das próximas
10 grandes cidades da África subsariana,
não só em população como também em
desenvolvimento económico.
A capital angolana, as cidades nigerianas
de Idaban e Kano, Addis Ababa (Etiópia),
Ouagadougou (Burkina Faso), Dakar
(Senegal), Nairobi (Quénia), Abidjan
(Costa do Marfim), Khartoum (Sudão), e
Dar Es Salaam (Tanzânia) vão
desenvolver-se a um nível capaz de
ombrear com Joanesburgo, Kinshasa e
Lagos, as principais metrópoles da região.
Estas são as conclusões do relatório
“África: Crescimento está no horizonte mas
para onde devemos olhar?”, da
PricewaterhouseCoopers (PwC), que
aconselha o investimento nas 10 cidades.
Contudo este deverá apoiar a criação de
infra-estruturas – através da construção de
estradas, por exemplo – e financiar
programas de desenvolvimento e formação
da força de trabalho.

n JOVENS EMPRESÁRIOS DA CPLP
CRIAM CONFEDERAÇÃO

n MOZAL, MAIOR EMPRESA DE MOÇAMBIQUE
Mozal, multinacional de fundição
de alumínio, volta em 2014 a
surgir como a maior empresa de
Moçambique, estatuto que detém
já há mais de dez anos, de acordo
com a lista das “100 Maiores
Empresas” elaborada pela
subsidiária local da KPMG.
A Petróleos de Moçambique
(Petromoc) repete o segundo lugar
do ranking, onde se destaca a
subida da Electricidade de
Moçambique (EdM), que passou
do sétimo lugar, na edição

8 I CEOLusófono

anterior, para quarto.
Na tabela, a Cervejas de
Moçambique desceu de quarto
para quinto e a Hidroeléctrica de
Cahora Bassa (HCB) manteve-se
no sexto posto.
A HCB, Mozal, Portos e Caminhos
de Ferro de Moçambique e EdM
lideram as 10 maiores empresas
em termos de capitais próprios,
enquanto o banco Millennium bim
e a Sasol Petroleum Temane
ocupam os lugares cimeiros nos
resultados líquidos.

Paulino Dias, presidente
da Associação dos
Jovens Empresários
Cabo-Verdianos (AJEC),
anunciou a criação de
uma confederação de
jovens empreendedores
da Comunidade dos
Países de Língua
Portuguesa (CPLP) para potenciar negócios e
ultrapassar os constrangimentos ainda
existentes.
A decisão foi tomada, a 19 de novembro, no
final dos trabalhos da reunião das
Associações de Jovens Empresários e
Executivos dos Países de Língua Portuguesa,
organizada pela AJEC, na Cidade da Praia,
sob o lema “Que Políticas Públicas para
Promover e Facilitar o Empreendedorismo
Jovem no Espaço da CPLP?”.

n LUSOFONIA JUNTA NAS
RENOVÁVEIS

Apoiar o desenvolvimento das energias
renováveis nos países lusófonos,
promovendo
oportunidades de
negócios no setor, é
o objetivo da
recém-criada
ALER - Associação
Lusófona de
Energias
Renováveis, dirigida por Isabel Cancela
de Abreu.
Na cerimónia de constituição formal da
Associação estiveram representantes dos
Associados Fundadores da ALER: a
APREN – Associação das Energias
Renováveis, FUNAE – Fundo de
Energia de Moçambique, HBD,
Hidroerg, Ministério do Turismo,
Investimentos e Desenvolvimento
Empresarial de Cabo Verde, Neoen,
Partex Oil&Gas, RP Global, Uría
Menéndez – Proença de Carvalho,
Região Autónoma da ilha do Príncipe e
Vieira de Almeida & Associados.

n CABO VERDE GLOBAL

José Maria Neves,
Primeiro-ministro de Cabo
Verde, defende a necessidade
dos setores público e privado
trabalharem em parceria,
para juntos construírem
“uma economia mais
dinâmica, mais competitiva,
com mais oportunidades de
negócios para todas as
empresas do país” e para
“garantir uma melhor
inserção de Cabo Verde na
economia global”.

n ANGOLA COM 1º SATÉLITE AFRICANO EM 2017

Eduardo Sebastião, Diretor Nacional de Telecomunicações de
Angola, revela que o Angosat 1, primeiro satélite de
comunicações do país e primeiro a ser operado por um Estado
africano, será colocado em órbita em 2017.

n “INVEST TIMOR-LESTE” n GUINÉ EQUATORIAL
NA CPLP
O Governo de Timor-Leste,

liderado por Xanana
Gusmão, vai criar uma
agência especializada de
investimento, a “Invest
Timor-Leste”, para promover
o investimento privado e as
exportações no país.
A entidade “será responsável
pela emissão de certificados
de investidor e servirá como
balcão de atendimento para
os projetos de investimento
estrangeiro”.

O embaixador Tito Mba Ada
foi indigitado como Chefe de
Missão da Guiné Equatorial
junto da CPLP. Na cerimónia
de apresentação das cartas
credenciais ao Secretário
Executivo da CPLP, Murade
Murargy, o representante de
Malabo na organização
lusófona esteve acompanhado
pelo embaixador da Guiné
Equatorial em Portugal, Jose
Dougan Chubum.

n DE LISBOA PARA
SÃO TOMÉ

Jiang-gueng Her, até aqui
representante do Centro
Económico e Cultural de
Taiwan em Portugal, é o novo
embaixador da Formosa em
São Tomé e Príncipe, o único
país lusófono com que a ilha
asiática tem relações oficiais.
O diplomata vê assim
reconhecido o trabalho
desenvolvido em Lisboa e será
agora o rosto da intensa
cooperação com o país africano.

CEOLusófono I 9

no radar

Escolha do Editor

Reunião em Coimbra
da Família Lusófona

A homenagem organizada pela UCCLA, liderada por Vitor Ramalho, à
Casa dos Estudantes do Império é exemplo perfeito de exercício de
uma relação afetiva que consolida e potencia de um modo extraordinário
a forte ligação entre países que partilham uma outra “casa”, a da
Lusofonia

A

ligação lusófona, mais do
que de Estados e empresas,
é feita de pessoas e por pessoas e, contrariamente ao
que é muitas vezes dito, não encontra
sustentação numa qualquer memória
abstrata mas, sim, numa memória
partilhada, efetiva e afetiva, entre os

10 I CEOLusófono

que conviveram, convivem, criaram laços e os renovam, em permanência.
O que se passou em Coimbra, a 28 de
Outubro, na inauguração do programa
de homenagem à Casa dos Estudantes
do Império (CEI), a que CEO Lusófono
teve o privilégio de se associar, foi um
encontro e, sobretudo, reencontro de

gente que partilha muito mais do que
uma língua comum, mesmo que graças
ao contexto de partilharem essa mesma língua. É gente que partilha momentos, histórias de vida que se tocam
e tocam quem as ouve.
Eu não vivi naquela época de que me
falaram no Auditório da Reitoria da

Murade Murargy, Secretário-Executivo da CPLP (à direita na foto, com João Gabriel Silva,
Reitor da Universidade de Coimbra e Vitor Ramalho, Secretário-Geral da UCCLA), destacou a
importância da preservação do legado da Casa dos Estudantes do Império como
“património comum do espaço de língua portuguesa”. Um património com a forte marca
do “convívio, partilha e diálogo de ideais para as independências dos países africanos
de língua portuguesa”

Universidade de Coimbra, mas foi um
de Língua Portuguesa (UCCLA).
prazer ter podido passar o meu tempo,
E se há vantagens em partilharmos a
vivendo o tempo que, na altura,
mesma língua a principal é que esta
saborearam (“sabor” foi palavra domipermite criar e manter laços afetivos
nante na intervenção de Manuel Rui
muito mais fortes.
Monteiro), entre tantos
A aposta nos laços afeoutros, Jorge Querido,
tivos é, aliás, a matriz
Em 2015 ocorrerá
Maria Eugénia Neto,
do projeto CEO Lusófoa passagem do 50.º
Pires Laranjeira, Mano, que coloca em peraniversário do encerramento manência um enfoque
nuel Alegre, Luís Fonda Casa dos Estudantes
seca, Óscar Monteiro,
nas pessoas e que estido
Império, que coincide
Pepetela, Ruy Mingas e
mula e potencia a relaAlmeida Santos. Todos
ção entre os decisores
com o 40.º aniversário
eles participaram num
lusófonos.
das independências
debate, alargado a váVitor Ramalho saliendas
rios painéis, sobre “A
ta que a homenagem
ex-colónias
importância da CEI na
feita pela UCCLA “corportuguesas
formação cultural dos
responde, sem dúvida,
seus associados”.
a um desígnio comum
Muito se fala das relações políticas e
dos povos de língua oficial portuguesa
económicas entre Estados lusófonos ou
e não é possível conceber-se o futuro
das relações empresariais, mas menos
sem a preservação da memória que a
importância tem sido dada pelos Estatodos respeita”. E quão fundamental
dos e pelas empresas ao que há de
é a preservação, neste caso particumais importante nesta ligação: as relar, da memória da CEI, mas também
lações afetivas, tão evidentes na confedeste encontro, esta reunião da farência e, mais tarde, no jantar promomília lusófona marcada por afetos e
vidos pela União das Cidades Capitais
abraços. n

PROGRAMA 2015
Janeiro-Abril
• A importância da CEI na perspetiva
político-cultural - Mesas redondas a
realizar por antigos associados.
• Apresentação da reedição do
número especial da “Mensagem” (1.ª
edição 1994, ACEI)
Maio
• Exposição documental sobre a CEI,
nos Paços do Concelho da Câmara
Municipal de Lisboa.
22,23 e 25 de Maio
• Colóquio Internacional sobre a CEI, no
auditório da Fundação Calouste
Gulbenkian
25 de Maio
• Sessão solene de encerramento, com
a presença de associados da CEI que
exerceram funções de Primeiro-Ministro ou Presidente da República:
Fernando França Van Dúnem (Angola),
Joaquim Chissano (Moçambique),
Maria Eugénia Neto, em representação
de Agostinho Neto (Angola), Mário
Machungo (Moçambique), Miguel
Trovoada (S. Tomé e Príncipe), Pascoal
Mocumbi (Moçambique), Pedro Pires
(Cabo Verde) e ainda Jorge Sampaio
(Portugal).

CEOLusófono I 11

“Seria indesculpável, verdadeiramente
indesculpável, se não erguêssemos esta memória,
uma memória solidária, afetiva que também
irmanou o povo português. Isto é bom que se diga.
Realmente é caso para dizer: que grandeza. Porquê
haver pequenez de raciocínio quando olhamos para
a nossa memória coletiva e vemos esses homens que
quando eram jovens desbravaram caminhos para
chegarmos onde estamos”
Vitor Ramalho
Secretário-Geral da UCCLA

Homenagem da UCCLA
A

UCCLA homenageia, ao longo de
7 meses (de outubro 2014 a maio
2015), os ex-associados da Casa
dos Estudantes do Império (C.E.I.), assinalando assim os 70 anos da criação
da instituição (em 1944), que foi extinta
pela PIDE em 1965.
Vitor Ramalho, secretário-geral da
UCCLA, salienta que “uma parte dos
associados da CEI era constituída por
jovens estudantes universitários das então ex-colónias portuguesas que, nos
idos de cinquenta, passaram a ter um
papel relevante na cultura, na política e
na economia dos territórios de que eram
originários, tornando-se suas personalidades de referência. E eles beneficiaram
nesta instituição de uma formação solidária em contacto com os demais estudantes universitários que, por ausência
de estudos superiores nas então ex-colónias [portuguesas], tiveram que os vir
continuar em Portugal”.

12 I CEOLusófono

“Esta homenagem era devida porque há
aqui uma singularidade única no mundo de expressão oficial portuguesa que
acabou por aglutinar afetividades e solidariedades, excecionais na vida dos povos. Tudo isto faz parte de um passado
comum. Infelizmente, nunca foi suficientemente tratado, quer na universidade quer nas escolas”, lamenta Vitor Ramalho, para quem “a circunstância de
2015 coincidir também com os 40 anos
das independências dos países africanos
lusófonos” reforça ainda mais “a importância da homenagem”.
“E há uma razão acrescida para esta iniciativa. A lei da vida é inexorável e as
pessoas que então eram jovens e que frequentaram a Casa dos Estudantes do
Império – criada em 1944 e extinta pela
PIDE em 1965 – são hoje pessoas que
têm mais de 70 e mais de 80 anos e, portanto, queremos aproveitar a circunstância de esses associados estarem de

boa saúde”, salienta o secretário geral.
Do conjunto de iniciativas de homenagem, destaque, além da cerimónia de
abertura que decorreu em Coimbra, para várias mesas redondas sobre a importância da CEI, a reedição do número especial da “Mensagem”, uma exposição
documental nos Paços do Concelho da
Câmara Municipal de Lisboa e um Colóquio Internacional sobre a CEI, no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, nos dias 22, 23 e 25 de maio.
São também reeditadas as Antologias de
poesia de Angola / São Tomé Príncipe e
Moçambique, bem como várias obras dos
antigos associados da Casa dos Estudantes do Império considerados nomes
“incontornáveis” da cultura e da política
dos países de língua oficial portuguesa.
Publicada foi já a listagem completa,
através da documentação na Torre do
Tombo, de todos os associados da instituição. n

“Conheci muitas e muitas futuras grandes figuras
da política ultramarina que, na altura, eram
perseguidas. E nós reuníamos para discutir a
temática da Casa dos Estudantes do Império. Ali
conheci o Amílcar Cabral, o Jorge Santos, mas
sobretudo fui lá uma vez com o Agostinho Neto e foi
ele quem me apresentou o Amílcar Cabral. Acabei
por ir para Moçambique como advogado e escolhi
Moçambique para combater o colonialismo”
Almeida Santos

Casa dos Estudantes do Império
Agostinho Neto, Amílcar Cabral,
Lúcio Lara, Fernando França Van
Dúnem, Joaquim Chissano, Pascoal
Mocumbi, Pedro Pires, Onésimo
Silveira, Francisco José Tenreiro,
Alda do Espírito Santo, Vasco
Cabral, Pepetela, Alda Lara e tantos
outros, foram da Casa dos
Estudantes do Império

A

Casa dos Estudantes do Império
(CEI) foi criada em 1944, pelo
regime salazarista, para responder ao reforço do convívio em Portugal
dos estudantes universitários das ex-colónias portuguesas que não possuíam
instituições de ensino superior. Este
objetivo integrou-se num outro, mais
vasto, de formação de eleitos que se
admitia virem a ser enquadradores dos
objetivos que o próprio regime colonial
prosseguia.
Entre estes jovens estudantes, que tiveram de fazer a frequência universitária em Portugal e frequentaram a
Casa dos Estudantes do Império, incluem-se muitas figuras e personalidades
da independência e da cultura, dirigentes e intelectuais dos países lusófonos.
Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Lúcio
Lara, Fernando França Van Dúnem,
Joaquim Chissano, Pascoal Mocumbi,
Pedro Pires, Onésimo Silveira, Francisco José Tenreiro, Alda do Espírito

Santo, Vasco Cabral, Pepetela, Alda
Lara e tantos outros, foram da CEI.
“A partir dos anos 1950, com os ventos
da descolonização, esses jovens entenderam que tinham também o direito de
dirigirem os territórios de que eram originários quando fossem independentes.
Aprofundaram, por isso, estudos sobre
a identidade desses territórios, tornando-se personalidades da cultura que hoje são incontornáveis”, explica Vitor Ramalho, Secretário-Geral da UCCLA.
Assim, apesar de criada pela ditadura,
a Casa dos Estudantes do Império acaba por albergar os jovens nacionalistas
e a elite dos movimentos de independência.
Com sede em Lisboa, uma delegação em
Coimbra e mais tarde no Porto, a Casa
dos Estudantes do Império esteve
sempre sujeita a uma apertada vigilância da polícia política, acabando por
ser encerrada por ordem de Salazar em
1965. n

CEOLusófono I 13

perfil

O diplomata que não
gosta de mundos fechados

“Não gosto de mundos fechados. Gosto de conhecer pessoas e lugares e
de desvendar as nossas raízes. Juntar ao que nós temos aquilo que os
outros têm”. As palavras são de António Monteiro, durante quatro
décadas (entre 1968 e 2009) um do principais rostos da diplomacia
portuguesa e, hoje, Chairman do Millennium BCP, maior banco privado
português
14 I CEOLusófono

MILLENNIUM BCP
Em números

1985

Ano de Fundação

5,5M
Clientes

1470
Sucursais

18 405
Colaboradores

N

Quanto mais se conhece, mais se tolera.
É preciso essa educação para perceber os outros.

ascido há 70 anos em Bié,
outros cargos de relevo, foi ministro dos
interior de Angola, António
Negócios Estrangeiros, presidente do
Monteiro veio para Portugal
Conselho de Segurança da ONU, emcom apenas quinze anos.
baixador de Portugal em França, repreFez o liceu, estudou Direito na Universentante da FAO (Food and Agriculture
sidade de Lisboa, e quando teve de deOrganization), membro da delegação
cidir o rumo a seguir, não teve dúvidas:
que mediou as negociações para os
quis ser diplomata, “uma vocação”, com
acordos de paz em Angola ou ainda re“a curiosidade em relação às pessoas e
presentante de Portugal junto do conseàquilo que elas constroem pelo mundo”
lho da Agência Espacial Europeia.
a ser uma das razões fundamentais paMomentos marcantes
ra essa escolha.
Durante o curso de Direito, percebeu
Com tão vasta experiência, nada meque se interessava mais por relações
lhor que ser o próprio a dar conta dos
internacionais e ciências políticas do
momentos mais marcantes da vasta
que pela matéria jurídica e desse intecarreira diplomática. Quando lhe fazem
resse nasceu uma das mais notáveis e
essa pergunta destaca, desde logo, “o 25
notadas carreiras da diplomacia portude Abril e a mudança de uma diplomaguesa.
cia sobretudo defensiva e
Ingressou no Ministério Presidente empresarial cada vez mais fechada ao
dos Negócios Estrangeiportuguês que melhor mundo para uma dinâros português em 1968 e
mica de abertura ao
a primeira missão levou- conhece Angola, não é mundo”.
por acaso que foi o
-o, em 1971, de regresso
Em Angola, país natal,
a África. Como Secretá- escolhido para, no novo teve papel decisivo na
rio da Embaixada em
mediação das negociaciclo alicerçado nos
Kinshasa, hoje, capital acionistas angolanos, ser ções para os Acordos de
da República Democrápresidente do conselho Paz, no ínicio da década
tica do Congo, teve por
de 90, assinados pela
de administração do UNITA e pelo governo de
objetivo tentar restabeleMillennium bcp
cer laços com países afriAngola, assumindo decanos, pois, na altura,
pois, em 1994, o cargo de
praticamente todos os Estados do contiDiretor-Geral de Política Externa de
nente estavam de relações cortadas
Portugal, numa altura em que entrou
com Portugal, por causa da guerra coloem vigor o Tratado de Maastricht, com
nial. Aliás, para que melhor se perceba
todos os desafios que essa mudança euo desafio dessa primeira missão, oficialropeia colocou no novo cargo.
mente António Monteiro estava inteMais tarde, estar dois anos (1997 e 98)
grado na Embaixada de Espanha.
no Conselho de Segurança da ONU e
Cinco anos de trabalho árduo, mas bem
exercer duas vezes a presidência permisucedido, em Kinshasa lançaram-no
tiu-lhe medir quanto um país como Pornuma carreira em que, entre muitos
tugal pode ter um papel positivo e influ-

CEOLusófono I 15

António Vitor Martins
Monteiro
Nascido a:
22 de janeiro de 1944, em Bié, Angola

Formação:
Licenciado em Direito pela Universidade de
Lisboa

Carreira:
2012: Presidente do Conselho de Administração
do Millennium BCP
2011: Presidente do Conselho Geral e de
Supervisão do Millennium BCP
2010: Membro do painel do Secretário-Geral da
ONU para os Referendos no Sudão
2006: Embaixador de Portugal em França
2005: Alto Comissário das Nações Unidas para as
Eleições na Costa do Marfim
2004: Ministro dos Negócios Estrangeiros e das
Comunidades Portuguesas
2001: Embaixador de Portugal em França e
Representante de Portugal no Conselho da
Agência Espacial Europeia
2001: Vice-Presidente do Conselho Económico e
Social da ONU
1997: Presidente do Conselho de Segurança da
ONU
1994: Coordenador do Comité de Concertação
Permanente da CPLP
1994: Diretor-geral de Política Externa do
Ministério dos Negócios Estrangeiros
1991: Chefe da Missão Temporária de Portugal
junto das Estruturas do Processo de Paz em
Angola e Representante junto da Comissão
Conjunta Político-Militar, em Luanda
1990: Membro da delegação portuguesa que
mediou as negociações para os Acordos de Paz
em Angola, assinados em Lisboa
1987: Chefe de Gabinete do Secretário de Estado
dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação
1984: Representante Permanente Adjunto na
Missão Permanente de Portugal junto da ONU
1977: Representante de Portugal na FAO
1976: Ingresso na Embaixada em Roma
1971: Secretário da Embaixada em Kinshasa
1968: Ingresso no Ministério dos Negócios
Estrangeiros
1967: Aprovado no concurso de admissão aos
lugares de adido de embaixada

16 I CEOLusófono

ente a nível internacional, com destaque
um instrumento de trabalho e é essenpara a questão de Timor, “um processo
cial para entrar em certos mercados.
em várias etapas em que Portugal conTemos uma língua que tem poder à
seguiu juntar aos princípios uma singuescala mundial”.
lar solidariedade a favor de um país e de
Liderança do Millennium bcp
um povo com os quais nos unem laços
únicos de amizade”, salienta.
Essa mesma ideia, do poder da língua
Por fim, António Monteiro tem destacaportuguesa, é um dos motores da lidedo o cargo de Embaixador em Paris,
rança que hoje, a par do CEO Nuno
que acumulou com o de representante
Amado, tem no maior banco privado
de Portugal junto do conselho da Agênportuguês, o Millennium BCP (onde
cia Espacial Europeia. Este permitiuchegou em 2009) e que é hoje um dos
-lhe “comprovar, na prática, a noção de
exemplos máximos de parceria entre
que onde há portugueses há Portugal”.
Portugal e Angola.
Não é acaso que depois de deixar FranA instituição entrou em 2012 num novo
ça, para, entre 2004 e 2005, assumir o
ciclo, marcado por um Plano de Restrudesafio de ser Ministro dos Negócios
turação e mudança do modelo de goverEstrangeiros de Portugal e também a
nação em que os acionistas angolanos
missão de Alto Comissário da ONU
são a principal referência, em particupara as Eleições da Costa do Marfim,
lar a Sonangol, maior acionista do bantenha voltado a Paris,
co português.
em 2006, para fechar “O português tem novas Sendo o presidente emtrês anos depois um ciclo
presarial português que
possibilidades de se
na sua riquíssima carreimelhor conhece Angola,
impor, porque é um
ra e assumir o cargo de
não é por acaso que foi o
instrumento
de trabalho escolhido para, no novo
vogal no conselho geral e
de supervisão do Millen- e é essencial para entrar ciclo alicerçado nos acioem certos mercados”
nium BCP.
nistas angolanos, ser
No entanto, apesar de
presidente do conselho
ter fechado esse ciclo, o reconhecimento
de administração do Millennium BCP,
da influência diplomática de António
depois de ter sido líder do conselho geMonteiro permaneceu ativa. E, em
ral e de supervisão.
2010, o secretário-geral das Nações
Com fortes ligações profissionais à SoUnidas, Ban Ki-moon, escolheu-o para
nangol (via petrolífera SOCO Internaintegrar o painel que monitorizou os
tional), Banco Atlântico (de que é memreferendos sobre a divisão do Sudão.
bro do conselho de administração) e InterOceânico (de que é acionista), Antó“Não há donos da língua”
nio Monteiro tem, com Nuno Amado, o
Com um percurso de vida que o levou a
desafio de concretizar o Plano de Restodos os cantos do mundo, António
truturação do gupo, em particular a
Monteiro está, no entanto, intimamencrescente eficiência da operação em
te ligado ao continente africano, sendo
Portugal, e continuar a trabalhar no
a África que fala português que mais o
desenvolvimento e aumento da rendibiapaixona. Angola, por razões óbvias,
lidade das operações internacionais
depois Moçambique, São Tomé, Cabo
core (Polónia, Angola e Moçambique).
Verde.
A experiência de António Monteiro é
E, tal como não gosta de mundos fechauma vantagem decisiva para posiciodos, António Monteiro tem a opinião de
nar a instituição como referência nas
que “não há donos da língua e o poreconomias onde atua e para o preconituguês só ganha em ser percebido como
zado reforço da posição do maior banco
uma língua que é de todos e de cada um
privado português nos países lusófoque a utiliza. O português tem novas
nos, em particular em Angola e Mopossibilidades de se impor, porque é
çambique (onde é já líder). n

perfil

Isabel dos Santos
Nascida a:
20 de Abril de 1973, em Baku,
Azerbaijão (ex-União Soviética)

Formação:
Licenciada em Engenharia Electrotécnica,
no King's College de Londres

Carreira:
2013: Controla com a Sonaecom a Zon
Optimus SGPS (NOS)
2013: Unitel ganha a licença para atuar
em São Tomé e Príncipe
2012: Torna-se a maior acionista da ZON
Multimédia
2012: Unitel adquire a operadora
cabo-verdiana T+
2010: Entra no capital da ZON
Multimédia
2008: Compra participação no BPI
2008: Lança o BIC Portugal
2006: Integra a Amorim Energia
2005: Entra no capital da angolana Nova
Cimenteira
2005: Lança, em Angola, o Banco
Internacional de Crédito (BIC)
2001: Participa na fundação do Banco
Espírito Santo Angola (BESA)
2001: Entra, via Geni, na Unitel
Anos 90: Responsável em Luanda pela
empresa Urbana 2000 e pelo Miami
Beach Club

“Sou a Isabel,
empreendedora”

Discreta, na inversa medida da enorme
visibilidade das suas iniciativas empresariais
de sucesso, Isabel dos Santos é a lusófona mais
poderosa nos estratégicos setores das
telecomunicações, banca e energia
CEOLusófono I 17

Investimentos e ligações empresariais de Isabel dos Santos
BES

PT

UNITEL

MERCURY

BESA

BPI

GENI

ESPERANZA
CIMINVEST

NOS
NOVA
CIMAMGOLA

ZOPT

SONAECOM

ISABEL DOS SANTOS

No mundo dos negócios, ser-se uma mulher,
ser-se africana e atuar a nível global é ainda mais
difícil. E se for jovem mais difícil ainda, porque não
lhe reconhecerão credibilidade

pações em empresas em Angola e no
estrangeiro (com destaque para Portugal) em diversos setores, mas com
maior enfoque nas telecomunicações,
banca e energia.

xtremamente dinâmica e
inteligente”, “com uma
profunda noção estratégica das coisas”, “implacável”, “uma grande negociadora” e, no
plano pessoal, “simples”, “simpática”,
“sem ostentação”. Muitos mais atributos podíamos citar entre os inúmeros
que elencam os que com ela convivem.
Mas, para simplificar, socorremo-nos
da resposta que a própria deu, num
dos muito raros momentos de entrevista que concedeu, quando lhe perguntaram “Como se define?”: “Sou a Isabel,
alguém que é definitivamente uma
empreendedora”.
Nascida em 1973, em Baku (hoje capital do Azerbeijão, então localizada na
URSS), é a primogénita de José
Eduardo dos Santos. Na altura, o atual
Presidente de Angola fazia naquela cidade a graduação em engenharia de
hidrocarbonetos e comunicações por

Apesar de muito que fez e dos méritos
que lhe são reconhecidos como empreendedora, desde sempre se acusa Isabel dos Santos de ter uma fortuna que
advém sobretudo do poder e influência
do pai.
A acusação, a própria o reconhece, é
fácil de fazer – “imagino que seja muito difícil distinguir o pai da filha”, dizia
em tempos –, mas Isabel dos Santos
desmistifica as ideias que se criaram,
afirmando: “Faço negócios e não faço
política”. E lembra que “há muitas pessoas com ligações familiares, mas que
hoje não são ninguém”.
“Eu trabalho o tempo todo. Sete dias
por semana. O meu trabalho é divertido. Se fizermos algo que vai dar emprego a alguém, essas pessoas podem
ser capazes de pagar a escola dos seus
filhos, e esse filho pode ser um médico
e provavelmente ajudar muitas mais
pessoas. Isto é muito motivador e

18 I CEOLusófono

E

radar e conheceu a jogadora de xadrez
russa Tatiana Kukanova, a primeira
mulher com que casou. E dessa relação
nasceu Isabel.
Quando os pais se separaram, foi viver
com a mãe para Londres, onde estudou
engenharia eletrotécnica no King’s
College e mais tarde conheceu o futuro
marido, Sindika Dokolo, coleccionador
de arte e empresário congolês, filho do
fundador do Banco de Kinshasa e de
uma dinamarquesa.
Voltou para Angola, nos finais da década de 90, para iniciar a sua atividade profissional na gestão da Urbana
2000, empresa que fazia a limpeza e
prestação de serviços de saneamento
de Luanda, onde, na mesma altura,
lança o Miami Beach Club, um dos primeiros clubes da noite na capital.
A partir daí, Isabel dos Santos iniciou-se nos investimentos, participando em
várias holdings e adquirindo partici-

“Eu trabalho o tempo todo. Sete
dias por semana”

SONANGOL

AMORIM
ENERGIA

GALP ENERGIA

PRINCIPAIS VEÍCULOS
DE INVESTIMENTO
n Geni (Participações
Financeiras)

AMORIM

INVESTIMENTOS
IBÉRICOS

BAI

CAIXA GALICIA

Telecomunicações
Banca

BIC

Energia
Cimentos

muito mais divertido do que ir para a
praia”, diz.

Sucesso nos investimentos

Do “divertimento” do trabalho surgiram inúmero negócios de sucesso e,
entre os mais visíveis, o primeiro grande investimento que catapultou tudo o
resto. Em 2001, entrou na Unitel, empresa privada de comunicações móveis, onde tem como sócios a Portugal
Telecom e a Sonangol e que é hoje líder
de mercado e a maior empresa privada
de Angola. Também nesse ano, associou-se à fundação do Banco Espírito
Santo Angola (BESA).
O passo em frente dá-se, em 2005, quando iniciou uma parceria com o homem
mais rico de Portugal, Américo Amorim,
e lançou em Angola o Banco Internacional de Crédito (BIC), tendo alargado,
mais tarde, a atividade a Portugal.
Com Amorim, a aliança estende-se,
desde 2006, ao negócio do petróleo, por
via da participação, em joint-venture
com a Sonangol, na Amorim Energia,
que, por sua vez, controla a portuguesa
Galp. E alargou-se ainda ao negócio da
maior cimenteira angolana, a Nova Cimangola.
Na banca, torna-se, desde 2008, acio-

n Unitel International
Holdings (Telecomunicações)
n Ciminvest (Cimento)

n Santoro Finance (Banca,
acionista do BPI)
n Esperanza (Energia)
n Condis (Retalho)

n ZOPT (holding que, em
parceria com a Sonae,
controla a NOS)

nista do banco português BPI (de que é
a maior acionista) e volta a reforçar os
investimentos no mercado angolano,
somando ao BIC e BESA a participação da Unitel no BFA.

bro de 2014, uma Oferta Pública de
Aquisição (OPA) à Portugal Telecom,
SGPS. Mesmo depois de retirada a
oferta, acionistas de referência da PT
SGPS chegaram a falar com Isabel dos
Santos para ser encontrada uma soluMestre no xadrez das
ção, havendo então duas hipóteses. A
telecomunicações lusófonas
primeira era comprar diretamente as
posições desses acionistas. A segunda
Mais tarde, aliou-se ao grupo Sonae, de
passava por uma entrada direta no caBelmiro de Azevedo, para uma operapital da brasileira Oi.
ção de retalho em Angola, sob a insígA grande "virtude", na perspetiva de
nia Continente, e, já em 2013, desta
Isabel dos Santos, é que esta compra
parceria nasce o controlo do segundo
teria permitido manter a
maior operador de teleSou uma
unidade do grupo PT,
comunicações português,
empreendedora
ao impedir a venda pela
a NOS, resultante da fuOi da empresa PT Porsão, em agosto de 2013,
que acredita
tugal (que gere o negócio
da ZON (de que era já a
que temos de tomar
português) e da particimaior acionista desde
a iniciativa
pação que a telecom
2012) com a Optimus da
brasileira tem na Unitel. Ou seja, de
Sonaecom. Mas Isabel dos Santos, mosuma assentada, Isabel dos Santos veria
trou já que ambiciona mais.
ainda mais assegurados os seus
Ao portofólio de investimentos nas teleinteresses em Angola (e por esta via em
comunicações lusófonas, que se estende
Cabo Verde e São Tomé e Príncipe), em
a Angola, Portugal, Cabo Verde e São
Portugal e alargaria o investimento ao
Tomé, Isabel dos Santos quis juntar o
Brasil.
Brasil, por via da compra de uma parTeria sido, a concretizar-se, uma jogaticipação direta na Portugal Telecom
da de mestre no xadrez global dos inSGPS e, desse modo, indireta na brasivestimentos de sucesso de Isabel dos
leira Oi.
Santos. n
Com esse objetivo lançou, em novem-

CEOLusófono I 19

perfil
CEO com asas
para altos voos

Fernando Pinto nasceu para voar. Os aviões são família, paixão,
profissão, passatempo. Foi pioneiro no fabrico de aeronaves ligeiras no
Brasil, liderou a Varig e atravessou o Atlântico para comandar a TAP
numa rota que liga a Europa aos caminhos traçados pelas caravelas

A

ligação de Fernando Pinto, 65
anos, à aviação “é fácil de explicar”. Vem de família, vem
do pai que foi piloto durante
40 anos na Varig, de 1940 a 1980. “A
influência dele foi muito importante”,
diz o CEO da TAP, em entrevista exclusiva a CEO Lusófono.
“Pelo seu percurso vê-se muita da História da aviação, porque ele começou a voar num avião de 5 lugares, só no interior do Brasil, e, no final da carreira, voava num avião de 350 lugares, um Boeing
747, o que dá para ter uma boa noção do
desenvolvimento nesse período”.
Fernando Pinto recorda que o pai “era
uma pessoa extremamente séria em relação ao que fazia e muito envolvido no
aspeto de segurança de voo, das operações. Foi quem trouxe o primeiro simulador de voo para a Varig, em épocas em

20 I CEOLusófono

que não se falava disso e quase nenhuma empresa tinha”.
Ainda muito novo, ia ter com o pai à empresa: “Um dia vi lá um aero-modelo a
voar e fiquei apaixonado. Tinha 9 anos
quando comecei a fazer os meus próprios aviões que voavam, algo que jamais imaginava que era possível fazer.
A partir daí, aos 15 anos já estava a voar sozinho planadores, depois fui para
os aviões, fui instrutor e fui seguindo
um percurso até conseguir a licença de
piloto comercial. Interessante é que fiz
a prova, tinha as horas, mas nunca fui
buscar essa licença”. Hoje, continua a
voar e a manter a licença de piloto de
planador, de aviões e de ultra-leves.

Pioneiro nas aeronaves ligeiras
do Brasil

Decidiu estudar Engenharia Mecânica

(mais tarde fez gestão) e como projeto
de graduação apresentou um protótipo
do primeiro hovercraft feito no Brasil,
com tecnologia absorvida em Inglaterra, após diversos estágios em fábricas
da Ilha de Wight. Um pioneirismo que
repetiu ao ser fundador da primeira fábrica de aeronaves ligeiras no Brasil.
“Em 80, nós fundámos uma fábrica [Microleve Com. e lnd. Ltda.] e chegámos a
produzir um total, enquanto eu estava
lá, de 1500 aviões em 10 anos”, recorda.
Enquanto piloto, acompanhou de muito
perto a criação da histórica Embraer.
“Havia uma pessoa no Rio de Janeiro
que fabricava planadores e depois eu como piloto levava esses planadores para
São José dos Campos, onde havia o Centro Tecnológico de Aeronáutica, para fazer testes. Lá, lembro-me que havia
uma pequena porta onde estava escrito

TAP PORTUGAL
Em números

1945

Ano de Fundação

10,7 milhões
Passageiros em 2013

2.500

Voos por semana

88

Destinos

77

Aeronaves
Países
'projeto bi-motor'. Aquele era o núcleo da
formação da Embraer, coordenado pelo
engenheiro Ozires Silva, que mais tarde
veio a ser o presidente da primeira fabricante de aviões do Brasil”.
Depois, ia à Embraer buscar o primeiro
planador que eles fabricaram, para o
levar para o Rio de Janeiro, onde morava. E aos comandos desse aparelho recorda o dia em que teve de pousar num
campo de café. “Era um belo planador”,
lembra.
A carreira profissional começou na Varig, tendo feito o estágio em engenharia, em 1972. Durante 16 anos, foi coordenador de projeto, chefe de divisão,
engenheiro residente na Airbus Indústria, em Toulouse, França, e depois
chefe do sub-departamento de Oficinas
Varig, antes de ir para a companhia regional Rio-Sul, em 1988, como diretor

Quando eu vim para cá, estávamos a analisar
rotas e houve alguém que me disse que definir um
caminho para a TAP era muito fácil, era só seguir o
caminho das caravelas

38

técnico e, quatro anos depois, como presidente: “na Rio-Sul adquirimos uma
frota bem moderna, que mudou a cara
da empresa”.
Os bons resultados que alcançou na RioSul levaram-no, em 1996, a voltar à Varig, mas, desta vez, para assumir o cargo de topo, a presidência.
Fernando Pinto recorda que “a Varig teve uma dificuldade muito grande. A empresa precisava de participar nos sistemas de reserva internacionais e não era
permitido no Brasil importar computa-

dores e os de fabrico local não atendiam
às especificações. Por isso, a Varig teve
de montar uma fábrica de computadores. “Foi um grande sucesso, acabámos
por vendê-los no mercado... Veja bem,
uma empresa de transporte aéreo teve
de fabricar os próprios computadores,
porque havia um mercado fechado, na
época. Era terrível para o país”.
No Brasil, e mais tarde também em
Portugal, enfrentou um contexto de
profunda crise financeira, que acentuava ainda mais os desafios e as dificul-

CEOLusófono I 21

Fernando Souza Pinto
Nascido a:
10 de setembro de 1949, em Porto
Alegre, Rio Grande do Sul

Formação:
Engenharia Mecânica pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro,
extensão em Administração de
Empresas pela Fundação Getúlio
Vargas e várias especializações
técnicas em Aeronáutica

Carreira:
2007: Presidente do Conselho da
Associação Internacional do Transporte
Aéreo (IATA)
2005: Presidente da Associação de
Companhias Aéreas Europeias
2000: Administrador-Delegado e CEO
da TAP Portugal
1996: Presidente da Varig
1992: Presidente da Rio-Sul
1988: Diretor Técnico da Rio-Sul
1982: Chefe do Sub-departamento de
Oficinas Varig
1981: Engenheiro residente na Airbus
Indústria (pela Varig)
1980: Fundador da primeira fábrica de
aeronaves ligeiras do Brasil (Microleve
Com. e lnd. Ltda.)
1976: Chefe da Divisão de Motores
Varig
1973: Engenheiro coordenador do
Projeto Banco de Provas de Motores
Varig
1972: Estágio de Engenharia na Varig

22 I CEOLusófono

dades. “Na Rio-Sul, nós fizemos o turnaround nesse ambiente. Depois, na
Varig, a mesma coisa. A empresa estava numa profunda crise, com dívidas
imensas e o país passava por várias etapas e dificuldades. Já na TAP chegámos
à empresa numa crise profunda de
resultados e tesouraria. Aí vem o 11 de
Setembro de 2001, vem a crise das aves,
vem tudo, o aumento violento do petróleo, a crise económica... Mas, no negócio
do transporte aéreo, estamos acostumados às crises, porque este sofre diretamente todas as crises”.
Esta realidade obriga o gestor a ter um
olhar atento a tudo o que são as grandes
questões globais. “Sem dúvida, o enquadramento geopolítico e geoeconómico é
parte do nosso dia-a-dia, é parte da nossa discussão, dentro do nosso conselho
estratégico, executivo e também do conselho de supervisão, porque na realidade
é disso que nós vivemos, vivemos sempre
de uma preparação para o futuro”.

14 anos de TAP

Em 2000, foi convidado para liderar a
TAP, já depois de ter saído da Varig.
“A Varig era dominada por uma fundação que tinha 51% da empresa e, para
ser económico nas palavras, eu diria
que a fundação achou que já tinha condições de conduzir a empresa e ser auto-suficiente. E eu saí nessa época e
imediatamente fui convidado pela
Swissair para vir para a TAP. A Swissair, na altura, era já a escolhida para
participar na privatização da TAP e
convidaram-me para vir para cá com
todo o suporte e a tesouraria necessária
para recuperar a empresa, que tinha tido perdas grandes, nos últimos 2 anos”.
“Tinha outras ideias, outras opções,
uma delas era ir para os Estados Unidos, mas veio essa oportunidade, convidaram-me e comecei o trabalho, quando tivemos uma surpresa. De repente,
a Swissair desistiu da privatização. E
aí perdemos o apoio financeiro que era
fundamental”.
Foi preciso redesenhar o plano traçado
para a TAP, ou melhor, criar um novo
plano para dar condições à TAP para

por si seguir o seu caminho: “tivemos
de provar, principalmente para a Comunidade Europeia, que tínhamos condições de fazer a recuperação da empresa, sem a ajuda do Governo. Isso
mesmo foi apresentado à Comissária
de Transportes, na altura Loyola de
Palacio, que ouviu, gostou do projeto, e
disse algo que me ficou muito marcado,
que seria muito bom que uma empresa
tivesse condições para dar um exemplo
desses, mas melhor seria se fosse verdade... Ela não acreditava que era possível recuperar de modo próprio a empresa. Mas, a verdade, é que tudo funcionou”.
“A ideia base era a formação do hub, da
placa giratória de Lisboa, e com isso
aumentámos drasticamente o número
de serviços para África, Brasil e para
interligação com a Europa”, salienta
Fernando Pinto, que, quando assume a
liderança da TAP, torna-se o primeiro
CEO a colocar duas companhias aéreas
na Star Aliance, uma vez que já o tinha
feito com a Varig.
O CEO explica que “a grande vantagem para a TAP é que, de uma hora para outra, há vendedores de todo o mundo a canalizar tráfego via TAP, que
passa a ser a opção principal desse grupo de empresas”.
Apesar dos desafios destes 14 anos,
Fernando Pinto tem sabido manter a
empresa a navegar uma rota estratégica. “O principal é a motivação, tem que
haver um plano, uma linha de conduta
e essa linha obviamente está ligada à
estratégia e é importante persistir.
Corrigindo rumos, às horas certas, mas
persistir. Outro ponto importante é
vender bem este plano. Os que conduzem a empresa no dia-a-dia, têm de ter
noção do caminho que estão a seguir e
motivação. Nós demos esse exemplo
aqui na TAP, desde o início, mantendo
as pessoas informadas, deixando-as falar, debater e dar ideias”.
Para Fernando Pinto a comunicação, sobretudo interna, é um pilar fundamental da gestão, mais ainda num contexto
em que os sindicatos têm sido um desafio constante. “Esse desafio não pára”...

E depois há as greves: “Para a imagem
da empresa perante os passageiros não
há coisa pior que as greves. Embora
não se possa reclamar se se olhar este
período alargado de 14 anos, o simples
fato de haver a possibilidade da greve
já afugenta os passageiros e sentimos
isso diretamente nas vendas. Basta as
pessoas ouvirem falar”. Um quadro que
exige uma atenção redobrada na comunicação com os passageiros, a que as
novas tecnologias, em que a TAP tem
investido fortemente, dão um contributo fundamental.

Prémio Carreira

O enorme projeto transformacional de
digitalização que tem liderado na TAP,
levou a que este ano Fernando Pinto tenha sido distinguido pela ACEPI - Associação da Economia Digital com o
“Prémio Carreira Navegantes XXI”.
“A TAP tem feito um trabalho constante, adequando, trazendo novos sistemas e é pioneira na utilização das redes sociais. Hoje também há contato
com os passageiros via sms, de forma
automática, e a TAP está atenta a novas ideias para manter os passageiros
bem informados. Estamos a investir
muito nisso”, diz o CEO, que salienta “o
impressionante crescimento das vendas diretas online, mais ainda se nos
recordarmos, que em 2000 era zero.
Não havia. Hoje, 17% das vendas da

empresa são feitas diretamente online,
sem qualquer atuação da empresa nesse processo, que cresceu muito rápido”.

“Manter aqui toda a estrutura
da TAP”

O Governo anunciou entretanto um
plano de privatização da TAP e agora,
“a estratégia é continuar a gerir da
mesma forma e obviamente dar apoio
ao Governo nesse processo. Eu acredito
fortemente que a empresa realmente
precisa de ser bem privatizada e eu tenho a certeza de que o será. A ideia, e
isso estará no contrato da privatização,
é a empresa continuar a ter o seu hub
aqui, manter o seu nome ligado a Portugal, manter toda a estrutura aqui e
fazer crescer a placa giratória de Lisboa, mas com a vantagem de acesso a
capital que não temos hoje”, salienta o
CEO.
“Hoje nós temos um peso muito grande
de capital de terceiros que custa caro e
isso influencia muito os resultados da
empresa. A TAP continuará a ser portuguesa, com toda essa ligação à economia do país e de outros países, com a
possibilidade de trazer novos negócios,
de levar novos negócios para fora”,
acrescenta.

Seguir o caminho das caravelas

Como um dos principais elos de ligação
de Portugal com o Mundo, os destinos

“Sem dúvida, o
enquadramento geopolítico e
geoeconómico é parte do nosso
dia-a-dia, é parte da nossa
discussão, dentro do nosso
conselho estratégico, executivo
e também do conselho de
supervisão, porque na
realidade é disso que nós
vivemos, nós vivemos sempre
de uma preparação para o
futuro.”

privilegiados pela TAP são importantes
na dinâmica das relações internacionais do país. E, desde 2000, a ligação
com os países lusófonos e destes à Europa tem sido estratégica.
“Quando eu vim para cá, estávamos a
analisar rotas e houve alguém que me
disse que definir um caminho para a
TAP era muito fácil, era só seguir o caminho das caravelas. E, realmente, nós
somos as caravelas modernas. A base
do nosso mercado é essa ligação e comércio que existe entre os países lusófonos, que unimos a uma quantidade
de capitais europeias. Tem sido a nossa
estratégia, pretendemos continuar a
desenvolvê-la, e tenho a certeza que
ajudamos não só Portugal mas também
os outros países com essa ligação estreita”, conclui Fernando Pinto. n

CEOLusófono I 23

“A paz e a
estabilidade são
condições principais
para o
desenvolvimento de
Moçambique”
Filipe Nyusi
Presidente da República de
Moçambique

24 I CEOLusófono

estratégico

26 LUSOFONIA GLOBAL

José Félix Ribeiro estabelece e analisa as três características que definem o
espaço lusófono na economia global e nota que a Lusofonia é uma realidade de
caráter marítimo e não continentalista

28 POTENCIAL DA CPLP

“Queremos concretizar potencial económico da CPLP”, diz a diretora-geral da
organização, Georgina de Mello, que, em exclusivo, explica os passos que estão a
ser dados neste sentido e fala, em particular, da aposta na cooperação económica e
empresarial

31 REGRESSO A CASA

Em entrevista a CEO Lusófono, Jose Dougan Chubum, embaixador da Guiné
Equatorial em Portugal, salienta a importância da reintegração na Lusofonia e as
oportunidades que este regresso a casa oferece ao país e à CPLP

34 COOPERAÇÃO

António Gameiro destaca a mais-valia da Lusofonia, que não se esgota na vertente
linguística, uma vez que abrange a materialização de projetos de cooperação nos
mais diversos domínios

CEOLusófono I 25

estratégico

O Espaço Lusófono
e a Globalização
José Félix Ribeiro

A Lusofonia é uma realidade de caráter marítimo e não continentalista,
ao contrário do que acontece com espaços de integração económica
regional existentes e em que predomina a proximidade/contiguidade
geográfica. Centrado no Atlântico Sul, o Espaço Lusófono tem uma
vocação global e outras características distintivas aqui enunciadas e
analisadas por José Félix Ribeiro

1. Três características que definem o
Espaço Lusófono na Economia Global

Gostaria de começar por referir três características que diferenciam o Espaço
Lusófono no contexto da Globalização:
1.1. O Espaço Lusófono, ao contrário
dos espaços de integração económica

26 I CEOLusófono

regional existentes, nalguns dos quais
participam Estados desse Espaço –
desde a União Europeia no caso de
Portugal, MERCOSUL no caso do Brasil, SADC para Angola e Moçambique,
etc –, não é um espaço continental em
que predomina a proximidade/conti-

guidade geográfica como fator de criação de acordos de livre troca, uniões
aduaneiras ou mercados únicos. O Espaço Lusófono é um Espaço Oceânico
centrado no Atlântico Sul, com extensão ao Índico Ocidental (Moçambique)
e Oriental (Timor Leste). Apenas um

Histórica internacional de Portugal.
Num período da Globalização, marcado pela emergência da(s) Ásia(s), o que
distingue Portugal no contexto europeu é a multiplicidade dos seus contatos históricos com a(s) Ásia(s) – Índia,
Malásia, China ou Japão.

2. Que consequências se podem retirar destas características?

outro Espaço reveste estas características – o Espaço anglo saxónico, abrangendo os Oceanos Pacífico e Atlântico
Norte, Índico e Ártico. Tendencialmente, os espaços regionais com natureza
continental podem envolver-se em processos que contribuam para fragmentação da Globalização, se as forças protecionistas e identitárias se transferirem dos espaços nacionais para esses
espaços regionais. Pelo contrário, os
Espaços oceânicos são sempre o suporte das Globalizações.
1.2. O Espaço Lusófono tem uma maioria de Estados-membros cujas economias são dominadas pelas exportações
de alimentos e produtos agrícolas, minérios e energia. Beneficiaram de forma evidente do super ciclo de matérias
primas que decorreu entre 2002 e
2012, acompanhando a gigantesca vaga de investimento infra estrutural e
de urbanização e edificação do território da China e a corrida dos investidores para esse tipo de ativos. Mas, tanto
quanto as evoluções recente de alguns
preços apontam (por exemplo petróleo,
minérios de ferro e carvão), esse super
ciclo entrou numa fase de pausa/declínio criando significativos desafios às
economias desses Estados.
1.3. O Espaço Lusófono herda não só a
língua portuguesa como também uma
característica distintiva da presença

Considerando cada uma destas três características poderíamos tirar um conjunto de consequências quanto ao possível posicionamento do Espaço Lusófono na Globalização nas próximas décadas.
2.1. O Espaço Lusófono como Espaço Oceânico
• Os Estados pertencentes ao Espaço
Lusófono, nomeadamente os que participam em organizações de integração
económica regional, têm todo o interesse em, no seu seio, defender o reforço
dos quadros multilaterais de comércio
e investimento e /ou os acordos que
permitam ligar continentes através de
acordos envolvendo bacias oceânicas.
• Os Estados pertencentes ao Espaço
Lusófono podem ter vantagem em envolver-se em áreas de interesse global
não diretamente económicas mas de
forte importância para as economias
em desenvolvimento – desde a adaptação às alterações climáticas e ao seu financiamento internacional, até à melhoria das condições de saúde e à cooperação internacional na prevenção e
combate a epidemias.
• Os Estados pertencentes ao Espaço
Lusófono poderão ter vantagem em colaborar para alcançar posições relevantes em organizações multilaterais
intervindo nessas questões globais não
diretamente económicas.
2.2. O Espaço Lusófono como Espaço-reserva de matérias primas
• Os Estados pertencentes ao Espaço
Lusófono podem cooperar no reforço
das suas competências científicas e
tecnológicas em áreas em que têm vindo a ganhar relevo como fornecedores
da economia global – destacando-se a
sua crescente importância como pro-

dutores de gás natural e petróleo.
• Os Estados pertencentes ao Espaço
Lusófono enfrentam todos desafios de
diversificação das suas estruturas económicas para atividades competitivas
na indústria e nos serviços que permitam aumentar a resiliência das suas
economias; nos casos em que estas dependem maioritariamente de exportações de matérias primas e seus produtos derivados, a diversificação é ainda
mais necessária tendo em conta a quebra de preços de várias delas que eventualmente se venha verificar com
maior amplitude na próxima década.
Ao mesmo tempo que seletivamente
podem atribuir maior importância ao
desenvolvimento das atividades ligadas à produção alimentar, onde economias asiáticas e energéticas (vd Médio
Oriente) se irão manter como compradoras muito significativas.
• O reforço do capital humano – ensino básico e secundário, formação profissional, ensino superior, investigação
e dinâmica de criatividade cultural –
são fundamentais para levar a cabo esta diversificação de atividades. E tal
não é compatível com soluções de governação assentes na restrição das liberdades.
2.3. O Espaço Lusófono e a herança
do relacionamento histórico de
Portugal com a(s) Ásia(s)
• Se os Estados do Espaço Lusófono
quiserem aproveitar a matriz de relacionamento histórico de Portugal com
as Ásias optarão seguramente por uma
aproximação equilibradas às três potências asiáticas – Japão, China e Índia
– e não por uma relação preferencial
com apenas uma destas potências. n

JOSÉ FÉLIX RIBEIRO - ECONOMISTA
Intervenção feita no II Seminário
Internacional “Cultura, Direito de Autor,
Lusofonia e o Futuro” organizado pela
Sociedade Portuguesa de Autores no
Auditório CPLP, no painel “Desenvolvimento
Cultural da Lusofonia no Mundo”

CEOLusófono I 27

estratégico

“Concretizar o potencial
económico da CPLP”

A CPLP está a abrir-se às empresas e à sociedade. Em entrevista a
CEO Lusófono, a Diretora-Geral, Georgina de Mello, fala dos passos
que estão a ser dados, em particular da aposta na cooperação
económica e empresarial, para concretizar o potencial da Comunidade

28 I CEOLusófono

Há algo que mudou
com a Cimeira de Díli.
As pessoas estão mais
atentas (...) Talvez seja,
de fato, o início desta
transformação que se
espera

A

CPLP começou já a dar corpo
à mudança estrutural no modo de atuação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, para que passe a ser cada vez
mais uma organização de sociedade e
de empresas. As decisões tomadas em
Díli, no último verão, mostram que os
Estados-Membros estão apostados em

cumprir este desígnio e o conjunto de
iniciativas lançadas ou já anunciadas
pela presidência timorense, pelo secretariado executivo e direção-geral da
CPLP colocam em prática o que até
aqui eram, sobretudo, manifestações de
vontade e discursos.
Georgina de Mello, diretora-geral da
CPLP, em entrevista a CEO Lusófono,
destaca que “a Cimeira de Díli, consciente das velocidades distintas na Comunidade entre o envolvimento da sociedade política, da sociedade civil e do
tecido empresarial, adotou um conjunto
de decisões que mostram a importância
da mudança e promovem o seu desenvolvimento, nomeadamente com a adoção do pilar da cooperação económica e
empresarial”.
A responsável salienta que esta nova
dinâmica é a resposta natural à ambicionada concretização do potencial económico da CPLP: “os nossos países têm
o potencial que têm e estão inseridos em
zonas regionais, algumas de grande dinâmica, e podem, se criarmos os mecanismos e os instrumentos que promovam uma maior integração entre eles,
aperfeiçoar também a integração dos
Estados-membros no mundo, desenvolver mais as relações entre países, desenvolver mais o comércio e o investimento, quer intra-comunitário, quer
dentro dos próprios países. Mas, sobretudo, queremos criar pontes que liguem
estes países através dos mares. Há esta
preocupação, há este objetivo que nos
dá uma enorme carga de responsabilidade”.
Para alcançar os novos desafio há que
lhes “dar corpo dentro da organização e
desenvolver as parcerias necessárias
para criarmos instrumentos que levem
a que isto aconteça, deixe de ser um discurso e passe a ser uma realidade”.

Potencial dos espaços regionais

Há um outro lado desta questão. O fato
de os Estados-membros estarem integrados em espaços regionais distintos.
E este é, para a direção da CPLP, “um
potencial absolutamente fabuloso”.
“Começando na base dos nossos 250 mi-

lhões de habitantes, se conseguirmos
fazer este mercado funcionar, se conseguirmos criar as plataformas que permitam que as empresas do país x se instalem no país y – e, tornando-se empresas nacionais desse país, atinjam o mercado regional em que está integrado –,
podemos alargar globalmente o mercado para 2 mil milhões de pessoas. Se
isto for promovido pode representar um
potencial absolutamente fabuloso, explica a responsável.
Georgina de Mello nota que o cumprimento deste potencial vai exigir muito.
Mas lembra, a propósito, que “alguns
pequenos passos já começaram a ser
dados. Por exemplo, tivemos aqui em
Lisboa, em junho, uma importante
reunião de bancos de todos os países de
língua portuguesa, incluindo da Guiné
Equatorial, que estava para ser e já é 9.º
Estado-membro. O potencial na área
financeira foi debatido, confirmou-se
que o mesmo existe, agora está em
processo de criação uma união de bancos”.
A ideia é agora “reproduzir o mesmo
mecanismo a outros níveis, assim como
promover, em trabalho muito estreito
com a Confederação Empresarial da
CPLP, missões empresariais, participações em feiras, abrindo espaços para
que as empresas – em particular as
PMEs sem, muitas vezes, condições financeiras para a solo participarem nessas iniciativas – poderem ter espaço,
apresentarem-se e desenvolverem o seu
potencial”.

Criar valor

“Existe mais um elemento a ter em conta. Dentro dos próprios países, há diferentes velocidades em termos de tecido
económico, há setores que estão muito
avançados, que estão muito integrados
na economia global, e há setores que
nem tanto, nomeadamente nos nossos
países africanos onde o grosso das exportações são os recursos minerais ou
produtos primários. Ou seja, em geral,
há um baixo nível de desenvolvimento
das cadeias de valor e essa é outra aposta fundamental, porque a integração na

CEOLusófono I 29

economia global passa por uma qualificação dessa integração. Não basta
exportar mais, é preciso exportar melhor, é preciso exportar produtos com
mais valor, isto significa desenvolver as
cadeias de valor em cada país, diz a Diretora-Geral.

Importância estratégica da
Lusofonia e suas instituições

A CPLP é já e pretende afirmar-se cada
vez mais como um pilar estruturante de
relações dos vários Estados-membros
com o Mundo, cada vez mais globalizado
e hiper-competitivo, para que o poder económico da língua portuguesa se afirme.
“Eu acho que é uma coisa muito poderosa o poder económico que esta língua
tem, falada por todos nós em tantos países e continentes diferentes. E tem um
enorme futuro. Aliás, há dados que nos
vão dando esta indicação, como o fato de
países como o Japão, a Turquia, a Geórgia ou a Namíbia, que são tão distintos,
com posições tão diferentes no mundo,
se interessarem, quererem aderir e terem já obtido, na Cimeira de Díli, o estatuto de observadores associados, à semelhança do Senegal e das Maurícias”,
afirma Georgina de Melllo.
“Isto em termos estratégicos tem uma

30 I CEOLusófono

to nos próximos 10 anos”. É uma das decisões saídas da Cimeira de Díli.
“É como se tivéssemos um livro em
branco e a grande responsabilidade de
decidir o que é que vamos lá meter. E eu
acho que é um desafio absolutamente
fabuloso, acho que há muita vontade, os
Estados estão com muita expectativa.
Há algo que mudou com a Cimeira de
Díli. As pessoas estão mais atentas.
Talvez seja de fato o início desta transformação que se espera”.
Outra decisão saída de Díli é a criação
do grupo de trabalho sobre a visão de
médio-prazo para a CPLP, para ser
apresentada em julho deste ano, no próximo Conselho de Ministros, e ser fechada para ser submetida à próxima
Cimeira de Chefes de Estado, para depois ser adotada. “Isto é definir uma visão de modo a não navegarmos à vista.
Vamos criar instrumentos, planos estratégicos, que assegurem que ao final,
importância muito grande. Já para não
por exemplo, de 10 anos chegamos ao
falar nos recursos naturais ou do mar,
objetivo que tínhamos traçado”.
por exemplo, todo o potencial que repreA CPLP decidiu ainda criar o grupo de
senta, em termos de pesca, de exploratrabalho que vai fazer o estudo da viação dos recursos minerais, de desenbilidade do Projeto de
volvimento de mecanisHi
drocarbonetos, um
mos de transporte que
“Eu às vezes pergunto-me
consórcio envolvendo
facilitem o comércio. É
se estes outros países que
empresas do setor dos
um potencial imenso e
não fazem parte da CPLP
vários Estados-memeu às vezes pergunto-me
e procuram aderir (e há
bros para fazer explorase estes outros países
ção on-shore em Timorque não fazem parte da
vários outros que estão
Leste.
CPLP e procuram adeagora interessados)
“São coisas absolutarir (e há vários outros
não terão uma melhor ideia
mente inovadoras, é, coque estão agora interesdo nosso potencial do que mo digo, um livro bransados) não terão uma
aquela que nós próprios
co que estamos a escremelhor ideia do que
ver. Começámos bem e
aquela que nós próprios
fazemos”
esperamos ser capazes
fazemos, de quão imporde manter este ritmo e escrever coisas
tante, quão estratégico e quão grande é
bonitas para que no fim consigamos
o potencial que esta língua e esta comuolhar para trás e dizer: temos mais sonidade que nos unem representam”.
ciedade, temos mais desenvolvimento
“Há algo que mudou com a Cimeira
empresarial, temos mais tecido econóde Díli”
mico, conseguimos desenvolver mais
comércio entre os Estados-membros,
A CPLP, pela sua matriz, tem a capaciconseguimos ter mais investimento; em
dade de pensar global, podendo contrisuma, melhorámos a qualidade de vibuir decisivamente para grandes causas
da, porque tudo isto traduz-se em mais
mundiais. Georgina de Mello recorda, a
emprego, mais distribuição de riqueeste propósito, o Combate à Fome, “que
za”. n
nos ocupa já muito e nos vai ocupar mui-

estratégico

Jose Dougan Chubum,
embaixador da Guiné
Equatorial em Portugal,
fala, em exclusivo a
CEO Lusófono, sobre a
importância da
reintegração na
Lusofonia e
oportunidades que este
“regresso a casa” oferece
ao país e à CPLP

“Voltámos
à nossa
casa”

A

ntes de lhe falar das razões
pelas quais o nosso país teve
este interesse de voltar à sua
casa e ser membro de pleno direito da
CPLP, é melhor começar por recordar a
História. Por mais de 300 anos fomos
uma colónia portuguesa. Por fortuna,
Fernão do Pó encontrou a ilha de Bioko,
ao procurar uma rota para a Índia, e
baptizou-a de Formosa, tendo depois
ficado conhecida pelo nome do navegador. Isto foi em 1471 e só em 1778 surge
o Tratado do Pardo e a posição portuguesa no Golfo da Guiné é cedida a
Espanha em troca de terras na América
do Sul, que acabaram por integrar o espaço do Brasil. Destes 300 anos ficaram

CEOLusófono I 31

A embaixada está cá
para dar as facilidades
necessárias para que
possam ir ao meu país
investir

A importância da língua

O diplomata lembra que “a Guiné Equatorial, por causa de uma troca, responsabilidade histórica de Portugal, é o único país que fala espanhol em África.
Sem a troca, a Guiné Equatorial seria
desde sempre membro da CPLP”.
“Vivemos num mundo globalizado, somos elementos integrantes em organizações internacionais, onde o idioma é
fundamental para poder definir em que
grupo o país está. Éramos um país totalmente isolado linguisticamente. Então,

32 I CEOLusófono

diversas raízes históricas, sociais e económicas que nos vinculam a Portugal e
aos outros países lusófonos”.
Jose Dougan Chubum, embaixador da
Guiné Equatorial em Portugal, começou
assim a entrevista exclusiva a CEO Lusófono, destacando a importância para o
Portugal das Descobertas da posição no
Golfo da Guiné. Ao colonizar as ilhas de
Fernando Pó, Ano Bom e Corisco deixou
diversas marcas. Por exemplo, Portugal
criou a Companhia de Corisco e instalou
nesta ilha uma das primeiras edificações europeias, o forte de Ponta Joko.
Já na ilha Fernando Pó introduziu o
cultivo de cacau, sobretudo com mão-deobra de São Tomé. Portugal deixou também os Caetanos, os Pinto, os Lima, os
Guimarães, famílias de raízes portuguesas, e deixou o legado da língua no
criolo português falado na ilha de Ano
Bom (aliás, no próprio nome da ilha),
cujos habitantes têm origem em São
Tomé e Angola. Tudo isto, razões para
que a Guiné Equatorial tenha querido
voltar ao seu espaço natural, diz o embaixador, com a língua a ter uma importância fundamental.

dos 46 anos da sua independência e, por
a visão política e espírito estadista do
exemplo, dar acesso ao espaço da
nosso Presidente levou-o a pensar: se
CEMAC, com 270 milhões de habitantes
nós não fomos apenas uma ex-colónia
ou ser ainda ponte para Nigéria, que tem
espanhola, mas também portuguesa,
275 milhões de habitantes. Há muitas
com laços históricos que nos vinculam,
possibilidades quanto ao que podemos
reunímos os requisitos para nos reintefazer”.
grarmos no espaço que nos corresponde.
“Eu defendo sempre a diplomacia econóE graças a muitos esforços, durante
mica, aproveitando a conjuntura e espaquase 10 anos, houve a oportunidade
ço que as organizações de que somos
para que a Guiné Equatorial voltasse à
membros nos oferecem, como a CPLP. E,
sua casa natural, que é a CPLP”, acresneste caso, creio que é muito necesssário
centa.
que se crie um banco de investimento
Quanto aos laços de amizade que há
estratégico de que os paímuito unem a Guiné
ses membros sejam coEquatorial aos demais
“A entrada da Guiné
fundadores. Quando fapaíses da CPLP, recorda
Equatorial na CPLP não é
lamos de um espaço de lique durante os movimentos de libertação de uma brincadeira. É uma coisa vre circulação de pessoas
e bens também há que
África no seu país viséria”
criar condições financeiviam muitos são-tomenras para que a mobilidade seja real”,
ses, tendo o movimento de libertação de
nota o diplomata, antes de salientar
São Tomé tido origem em Fernando Pó.
também a importância de um acordo
“Havia um apoio incondicional, uma irentre todos para a proteção jurídica de
mandade, que se estende aos restantes
todos os investimentos intra-comunitápaíses que formam os PALOP. Estes,
rios.
quando sentiram que estávamos bloqueados no processo de entrada na
Oportunidades de negócio
CPLP, fizeram um bloco, defendendo o
que era defensável, porque não tinham
Quanto às oportunidades que a Guiné
qualquer culpa de Portugal ter cedido o
Equatorial oferece, o diplomata lembra
meu país a outro império...”.
que o governo de Malabo comprometeu-se a alcançar os Objetivos do Milénio e
Valorizamos muito a CPLP
“elaborou o Plano de Desenvolvimento
O embaixador considera que a entrada
Económico e Social 2020, cujos pilares
da Guiné Equatorial como Estado-memsão fundamentais para se perceber onde
bro da CPLP “marca o lançamento de
queremos que entrem as empresas da
uma nova ideia para a CPLP, é uma ruCPLP”.
tura no paradigma da organização, como
“Um pilar é o desenvolvimento do setor
diz Luís Amado” e vê na Comunidade
energético, através da produção e refi“uma plataforma de crescimento e de innação de petróleo, tratamento e distritercâmbio cultural e comercial a que a
buição de gás e produção de eletricidade,
Guiné pode aportar toda a experiência
tanto hidroelétrica, como solar ou a par-

tir de bio-combustíveis. Outro pilar é a
expansão do setor pesqueiro, porque temos mais mar que terra, com recursos
impressionantes que se podem explorar
devidamente. Fundamental é também o
fortalecimento do setor agrário. Há ainda o pilar dos serviços, o turismo ecológico e de negócio, os serviços financeiros
nacionais e regionais, além dos serviços
para o setor mineiro. Prioritariamente,
valorizamos muitíssimo o setor agro-alimentar e convidamos as empresas de
Portugal e restante CPLP para que venham investir no setor”.

quadro dos investimentos estratégicos
para Portugal, sendo uma forma de diversificar também a nossa economia”.

Relações com Portugal vão bem, mas...

“Queremos investimento responsável”

Jose Dougan Chubum afirma que o seu
país está pronto para qualquer tipo de
investimento, mas nota que tendo já
completado quase 86% do plano nacional, para que no horizonte 2020 a Guiné
Equatorial seja um país emergente, a
percentagem que resta é a fase da industrialização, a transferência de tecnologia. “E como diz o nosso Presidente, esta é a fase mais difícil”, dada a resistência dos países mais desenvolvidos em
transferir know-how para os demais. Algo que o leva mesmo a questionar: “Será
possível realmente este intercâmbio de
conhecimento tecnológico?”
“O meu país tem todas as condições de
segurança, de paz e boa governação para um investimento seguro e benéfico.
Convidamos a que a transferência de
tecnologia seja uma realidade, para que
possamos desenvolver o nosso mercados. Queremos empresas que venham
investir e estar vinculadas com o sentimento nacional de crescimento económico, que permitam essa transferência de
tecnologia e paguem os seus impostos no
país para que este os possa utilizar no
desenvolvimento de outros setores”.
Nesse sentido, Malabo criou um fundo
de investimento interno e externo para,
“juntamente com outras empresas responsáveis que possam, por exemplo, formar mão-de-obra, investir em setores
preferenciais do governo, como a agricultura, finança ou o turismo”.
“É um mercado aberto a todo o tipo de investimentos, de livre concorrência, cres-

Jose Dougan Chubum com o Secretário
Executivo da CPLP, Murade Murargy, com o
Embaixador de Angola, Marcos Barrica e o
Núncio Apostólico, D. Rino Passigato
cente, e creio que a CE-CPLP, a AIP, a
AICEP e outras entidades podem fazer
muito no meu país. A embaixada está cá
para dar as facilidades necessárias para
que possam ir ao meu país investir. Mas
para isso têm de lá ir! Há que lá ir para
conhecer a Guiné Equatorial, que não é
mais a da colónia, da autonomia, nem da
primeira fase de liberdade, é uma Guiné
Equatorial emergente, um país de referência”.
O país vai pelo bom caminho, diz, mas
nenhum país é uma ilha: “por muito que
façamos por nós também precisamos da
colaboração de outros países e sobretudo
de Portugal, que tem um papel muito
importante e um dever histórico a cumprir; este seria um desafio histórico, colaborarem com a Guiné Equatorial”. No
sentido oposto, lembra que “a embaixada
está cá para proporcionar investimentos
bilaterais e informar sobre as áreas que
podem aqui ser para nós de interesse, no

Sobre as relações com Portugal, Jose
Dougan Chumbum afirma que “há uma
boa relação e não é por acaso que 80%
dos portugueses que estão lá trabalham
em Oyala, que será a nova capital administrativa, uma cidade criada de raíz e
que foi desenhada por arquitetos portugueses”. Aliás, a Guiné Equatorial é o 4.º
país lusófono onde há mais portugueses,
a seguir a Brasil, Angola e Moçambique,
com várias empresas portuguesas a colaborarem no desenvolvimento do país.
Mas Portugal tem de fazer mais: “a primeira coisa que pedimos é que estabeleça uma embaixada no meu país, que,
sendo tão pequeno, tem dois embaixadores em Portugal. Um bilateral, que sou
eu, e um multilateral junto da CPLP.
Não nos conformamos com ter um consul honorário para atender às necessidades dos portugueses. Não é normal
que um português quando tenha problemas tenha de se socorrer da embaixada
de Espanha. Ainda que seja um país da
UE, a dignidade está em poder ir à própria embaixada, que é a sua casa”.
A Guiné Equatorial fechou já várias parcerias com Portugal, em que se destaca,
por exemplo, a assinada com o Instituto
Camões, que tem um representante permanente no país, ou a que existe com a
Galp, que importa petróleo e gás.
“Mas, há muito que fazer, é uma relação
ainda incipiente, politicamente falando,
mas historicamente muito rica. Pelo que
apelamos aos governantes portugueses
que valorizem muito a vontade política
do meu governo em estender a mão a
uma boa colaboração. Aliás, já pedimos
a criação de uma comissão mista em que
possamos definir as áreas e os setores de
interesse mútuo. A relação está bem,
mas pode melhorar. Como disse alguém,
a luta continua, mas a vitória é certa,
uma vitória conjunta. Ganhamos ambos
com uma colaboração afetuosa e a partir
daí o caminho não tem limites”, conclui
Jose Dougan Chubum. n

CEOLusófono I 33

estratégico

A mais-valia
da Lusofonia
António Gameiro

O deputado António Gameiro avança que a Lusofonia, em primeira
instância, é uma forma de materialização de projetos de cooperação, bem
como, de promoção da língua portuguesa, num conjunto de países e de
povos, que materna, corrente ou oficialmente se exprimem em português

G

eopoliticamente falando, a
Lusofonia, atualmente, obedece aos princípios da interdisciplinaridade e globalização, afirmando-se como uma comunidade de Estados, que pretende ir
muito além das raízes linguísticas e
históricas comuns, num pacto de
amizade e solidariedade entre iguais,
fortalecendo-se e expandindo-se, a
partir do somatório de potencialidades
e riquezas diversas, já que, cada país

34 I CEOLusófono

lusófono possui a sua própria identises Africanos de Língua Oficial Portudade, não sobrevivendo nem sendo seguesa – PALOP avançou para um pricundarizado em função
meiro fórum de concerPoucas Comunidades ou
de outros.
tação política e diploPorque é de Lusofonia
mática, no qual o portugrupos de nações podem
que falamos, será de
guês
era o veículo de coostentar, na sociedade e
todo inevitável referir a
municação. Nessa senComunidade dos Países conjuntura actuais, uma tão da, as diplomacias porde Língua Portuguesa – densa e tão bem entrelaçada tuguesa e brasileira, em
CPLP.
concertação com as dos
teia de afinidades
Numa breve resenha
PALOP, interagiram e
histórica, já em 1977, o grupo de Paíelaboraram consensos alargados, o que


permitiu que, em 17 de junho de 1996,
descontínuo, mas identificado por um
chefes de Estado e de Governo de sete
idioma comum. O próprio Instituto
países assinassem, em Lisboa, a DeclaInternacional da Língua Portuguesa –
ração Constitutiva da CPLP.
criado no seio da CPLP – elaborou e
Contribuíram, inicialmente, para a
adotou um plano estratégico para a
sua génese Angola, Brasil, Cabo Vergestão linguística internacional. Vai
de, Guiné-Bissau, Moçambique, Portudaí que, desde 2005, a UNESCO celegal, e São Tomé e Príncipe. Em 2002,
bre o Dia da Língua Portuguesa e que,
após a independência, Timor-Leste,
paulatinamente, várias organizações
também foi acolhido como país inteinternacionais tenham adotado o porgrante. Hoje, com a inclusão da Guiné
tuguês como língua de trabalho, nas
Equatorial, em 2014,
mais variadas sessões e
durante a X Cimeira da
contextos.
A Lusofonia não converge
CPLP, em Díli, a ComuPorém, a Lusofonia não
nidade conta com nove nem se esgota na vertente se esgota na vertente
linguística, já que a sua
membros de pleno dilinguística, já que a sua
reito, seis membros
dimensão lata abrange
dimensão lata abrange
associados – Maurícia,
vetores que passam pevetores que passam pela
Senegal, Namíbia, Turla concertação política e
concertação política e
quia, Geórgia e Japão –,
diplomática, mas, sodiplomática,
mas, sobretudo, bretudo, pela cooperapara além de uma depela cooperação nos mais
zena de países que preção nos mais diversos
tendem obter o estatuto
domínios. A Lusofonia
diversos domínios
de membros observadoé, assim, um termo que
res.
obedece ao princípio da globalização e
Passados 18 anos sobre a criação da
interdisciplinaridade, onde se almeja
CPLP, uma Comunidade de nove paíafirmar uma identidade comunitária,
ses e 300 milhões de pessoas, abranpara além da questão linguística.
gendo quatro continentes, deixámos de
No mundo atual, marcado por um ceter o estatuto de coadjuvantes, adquinário internacional complexo, competirindo a possibilidade de atuarmos cotivo e muitas vezes conflituoso, a
mo protagonistas. É certo que nos siCPLP surge como uma ideia nova,
tuamos num espaço, geograficamente,
como uma mais-valia, que confere aos

© revistalivro.wordpress.com

No mundo atual,
marcado por um
cenário internacional
complexo, competitivo e
muitas vezes conflituoso,
a CPLP surge como
uma ideia nova, como
uma mais-valia

Estados membros melhores condições
de alcançarem os seus objectivos nacionais e avançarem na rota da consolidação democrática e do bem-estar
social.
A Lusofonia carrega consigo a herança
secular de uma visão ampla e pluralista do mundo, assente num projeto que
conduza a um equilíbrio mais equitativo e mais justo para todos os povos de
todos os continentes.
Convenhamos que poucas Comunidades ou grupos de nações podem ostentar, na sociedade e conjuntura atuais,
uma tão densa e tão bem entrelaçada
teia de afinidades.
Posto isso, Portugal tem de construir
uma aposta definitiva neste mercado
cultural, linguístico, económico e empresarial, político e estratégico, onde
um novo Governo materialize de fato e
de direito as velhas e renovadas aspirações das gerações lusófonas de um
investimento que será de certeza de futuro, esperança e crescimento desta
grande comunidade. n

ANTÓNIO GAMEIRO, Professor de Direito
na Universidade Lusófona de Lisboa e
Deputado

CEOLusófono I 35

“Cheguei da China
com aquela lâmpada
económica que
ninguém conhecia,
mas eu já tinha a
certeza de que ia
substituir as
incandescentes”
Alcione de Albanesi
Presidente da FLC,
1.ª fabricante de lâmpadas
LED do Brasil

36 I CEOLusófono

negócios

& GESTÃO

38 NOVO MUNDO CIBER

O futuro pertence a quem souber defini-lo e enquadrar juridicamente as suas
ameaças. Leia a análise de Alice Mateus e a entrevista que fez a Michael N.
Schmitt, um dos maiores especialistas mundiais nas implicações jurídicas deste
novo mundo

42 MESTRADO INOVADOR

Manuel de Almeida Damásio, presidente da Universidade Lusófona, em
entrevista a CEO Lusófono, explica o caráter inovador do mestrado “Inteligência
Económica e Cooperação no Espaço Lusófono”

46 ENCONTROS EMPRESARIAIS CPLP

A necessidade de medidas que facilitem a mobilidade de pessoas, bens e serviços e a
criação de um espaço da CPLP para o comércio e investimentos estiveram no centro
das preocupações da 1.ª Edição desta iniciativa de que CEO Lusófono é Media Partner

50 LIDERANÇA

Ronaldo Ramos deixa “oito dicas” para melhor liderar trabalhos em equipas
multidisciplinares e lembra que o líder deve dar o exemplo, respeitando o tempo
de cada um, a opinião e a diversidade de ideias existentes no grupo

CEOLusófono I 37

negócios
& GESTÃO

Definir o novo
mundo ciber
Alice Mateus

Governos e juristas utilizam como sinónimos os termos “ciber-ataque”,
“ciber-guerra”, “ciber-criminalidade”. E, como bem explica Alice Mateus,
este “nevoeiro terminológico” afeta tanto o Estado de Direito como as
premissas da estabilidade internacional. O futuro pertence, por isso, a
quem souber definir este novo mundo ciber e enquadrar juridicamente
as suas ameaças

S

ony, Estónia, Stuxnet, Syrian
Electronic Army, Aramco…
Estes termos evocam ciber-ataques de natureza múltipla.
Nesta última dezena de anos, os media,
assim como os governos e os juristas,
utilizam de modo fungível os termos
“ciber-ataque”, “ciber-guerra”, “ciber-criminalidade”… Este nevoeiro terminológico afeta tanto o Estado de direito co-

38 I CEOLusófono

mo as premissas da estabilidade internacional: “A definição legal do crime,
terror e guerra torna-se vaga.” 1.
O termo ciber-ataque já é polisémico em
si, pois é objeto de conceções e estratégias políticas diferentes. O mundo anglo-saxónico, nomeadamente o americano, concentra-se em definições de natureza técnica (sabotagem, espionagem).
A China e a Rússia focam-se no fenóme-

no da subversão, com a Shangai Cooperation Organization a propor a seguinte
definição do conceito de ciber-ataque: “a
utilização de ciber-tecnologias com o
objetivo de afetar a estabilidade política,
económica e social”2. Neste contexto,
percebe-se a importância do Manual de
Talin, primeira apresentação de um
consenso entre académicos de vários
países ocidentais defendendo a possível

aplicação do jus ad bellum (direito de fazer a guerra, “guerra justa”) às operações
no ciberespaço (ver entrevista pág. 41).
Mesmo sem evocar este desacordo fundamental de noções de segurança, as definições ocidentais confrontam-se com a
dificuldade de definir o âmbito do conceito de ciber-ataque. Numerosos autores,
nomeadamente o americano Michael
Schmitt, adotam o critério dos danos
causados pela ciber-operação para qualificá-la como um ciber-ataque. A evolução
é crucial. Foi argumentado durante as
ciber-operações na Estónia em 2007, que
bloquearam a economia do país durante
dias (bancos, media…), que o artigo 5 do
Tratado de Washington não podia ser
ativado por estas operações constituírem
atos de perturbação (“disruption”) e não
de destruição3. No entanto, a Declaração
da NATO de junho 2014 indica, sem
mais detalhes, que pertence ao Conselho
do Atlântico Norte decidir, para cada
caso, as circunstâncias da invocação do
artigo 5 depois de um ciber-ataque. Será
que devemos incluir unicamente os danos diretos para determinar a existência
de um ciber-ataque ou igualmente os indiretos de natureza económica, financeira e de desorganização social? Até o
Manual de Talin não apresenta uma resposta definitiva a esta pergunta fundamental. Os seus escritores apresentam
aliás o manual como lex lata (lei atual-

O Manual de Talin
é a primeira
apresentação de um
consenso entre
académicos de vários
países ocidentais
defendendo a possível
aplicação do jus ad
bellum (direito de fazer
a guerra) às operações
no ciberespaço

© Tinker Air Force Base

ber-ataques. Já os Estados Unidos
mente aplicável).
anunciaram claramente que considerColoca-se igualmente a pergunta da disam que o jus ad bellum aplica-se6.
tinção entre um ciber-ataque que desencadeia o direito internacional público reAs noções tradicionalmente ligadas ao
lativo à guerra e aquele que deve ser
conceito de soberania, o ataque armado
tratado com o direito penal. A questão é
(artigo 51 da Carta das Nações Unidas)
importante tendo em conta a ambiguie o uso da força (artigo 2 da mesma Cardade do estatuto público-privado de nuta) são atualmente revistas à luz destas
merosos atacantes, tais como os hackers
novas problemáticas. A literatura acapatrióticos… Num contexto de privados
démica coloca a questão dos patamares:
com veleidades políticas, como traçar a
a partir de que patamar um ciber-atafronteira entre atividade
que constitui um ataque
criminosa e atividade poNum contexto de privados armado ou um uso da
lítica? A questão compliforça? A questão é crucial
com veleidades políticas,
ca-se quando se considede um ponto de vista
como traçar a fronteira entre pragmático pois deterra que Estados usam priatividade criminosa e
vados como escudos. Efemina o direito aplicável e
atividade política?
tivamente, ciber-ataques
os instrumentos de resa larga escala, incluindo
posta de que dispõe o Esoperações de defacement, parecem revetado alvo. De um ponto de vista intelectual, remete para a qualificação jurídica
lar características de command and conde novos tipos de violência informaciotrol e um saber específico4.
nal característica de conflitos transfronA noção de soberania está intimamente
teiriços. A violência, típica do ataque
ligada à definição do caráter político dos
armado ou do uso da força, já não estará
ciber-ataques. Se alguns denunciaram o
limitada à força kinética: a perturbação
desaparecimento das fronteiras deste
funcional duradoura de um sistema innovo mundo de ação virtual, outros
formático ou o sofrimento mental severo
anunciaram uma era cyberwestfaliana5.
começam a surgir como critérios de paA Rússia e a China, contrariamente ao
tamar.
Manual de Talin, defendem a necesA evolução é indiscutível: durante anos,
sidade de um novo tratado internacional
as propostas dos Estados do terceiro
para regular os ciber-conflitos, subenmundo sobre o uso da força económica
tendendo que, na ausência deste, neforam rejeitadas, e hoje alguns pergunnhum direito internacional regula os ci-

CEOLusófono I 39

tam se um vírus informático destabilipela quasi-instanteneidade dos ataques,
zando uma bolsa financeira mundial poa doutrina da ação preventiva conhece
derá ser qualificado de ataque armado
um novo terreno de predileção.
ou uso da força.
Como o prova o exemplo da JP Morgan,
A abordagem pelo jus ad bellum (direito
a matriz militar, concentrada na questão kinética, é insuficiente. O ciber-atade fazer a guerra) é, no entanto, limitaque constitui então mais um ato signifida, pois pressupõe uma possibilidade de
cante do que um ato efetivo em si, em
atribuição técnica, mas, sobretudo, uma
termos de perturbação funcional ou desvontade de atribuição política. Ora, se
vio financeiro: existe como símbolo,
na teoria a jurisprudência Nicarágua é
mensagem, aviso…
constantemente invocada, na prática
De fato, a informação, tíninguém pôde, ou quis
pica do ciber, tem uma
oficialmente, atribuir os
A ideia de uma solução
natureza múltipla: bite,
mais célebres ciber-atajurídica única não
ques a um Estado. De fainformação,
conhecicorresponde à multiplicidade
to, tal atribuição não
mento… O ciber-espaço
constitui uma opção con- das problemáticas conflituais tornou-se um terreno de
cristalizadas pelo
veniente estrategicamenestratégias e técnicas de
te, enquanto não houataques informacionais,
ciber-espaço
verem outras respostas
pelos “tubos”, dirigidos
efetivas além da guerra convencional.
ao cérebro dos computadores (sabotaAliás, o americano Martin Libicki, da
gem, espionagem), e pelo “conteúdo”, diRAND Corporation, sublinha que a mirigidos aos cérebros humanos (subverlitarização não é a melhor opção num cisão, deception). A 23 de abril de 2013 a
ber-espaço que consiste essencialmente
Bolsa de Nova-Iorque não foi abalada
num jogo de sombras e percepções: o cipor um vírus informático, mas por um
ber-ataque contra a JP Morgan durante
tweet veiculando uma falsa informação
o conflito ucraniano foi interpretado pepor meio da piratagem da conta Twitter
los americanos como um aviso de disde uma agência de notícias americana 8.
suasão, sem necessidade de telefone
A ideia de uma solução jurídica única
vermelho7. Deste modo, muitos cibernão corresponde à multiplicidade das
ataques ficam aquém dos patamares de
problemáticas conflituais cristalizadas
uso da força ou ataque armado. Outros
pelo ciber-espaço. A evolução de vários
conceitos de direito internacional públiparadigmas jurídicos reflete a mutação
co são, por conseguinte, objeto de reatude princípios políticos de base (distinção
alizações para criar meios de resposta
público-privado, inimigo externo-interlegais, tais como as obrigações estaduais
no, fronteira…). O futuro pertence a
de due diligence ou de não intervenção.
quem definir este novo mundo. n
As contramedidas, tão ausentes num
mundo de violência militar frontal e de
1] BG DORON TAMIR “International engagement
fronteiras terrestres, emergem como
on Cyber: Developing International Norms for a
eixo de pesquisa. Num mundo onde
Safe, Stable and Predictable Cyber Environment”,
reina o “dilema da segurança”, agravado
Panel Two: Crisis Communications: Avoiding

40 I CEOLusófono

Escalation in Cyberspace”, April 10, 2013, Gaston
Hall, Georgetown University

2] Tom Gjelten, Seeing the Internet as an
‘Information Weapon’, NPR.com (Sep. 23, 2010),
http://www.npr.org/templates/story/story.php?s
toryId=130052701;

3] International engagement on Cyber: Developing
International Norms for a Safe, Stable and
Predictable Cyber Environment”, Panel One:
Current International Cyber Affairs: Conflict or
Consensus?”, April 10, 2013, Gaston Hall,
Georgetown University

4] E TIKK, K KASKA, L VIHUL, International cyber
incidents, Legal considerations, 2010 Cooeprative
Cyber Defense Centre of Excellence

5] C. C. DEMCHAK, P. DOMBROWSKI, Rise of a
Cybered Westphalian Age, Strategic Studies
Quaterly, Spring 2011

6] THE WHITE HOUSE, INTERNATIONAL
STRATEGY FOR CYBERSPACE: PROSPERITY, SECURITY, AND OPENNESS IN A NETWORKED WORLD 9 (2011). Ver igualmente o
discurso de Mr KOH do Departamento de Estado
americano: http://www.americanbar.org/content/dam/aba/administrative/litigation/materials/sac_2012/503_nat_sec_obama_admin.authcheckdam.pdf

7] Martin LIBICKI, conferência “Major Events in
Cyberspace: What we learned and what we should
have learned” organizada pela Chaire Castex, 28
de Outubro de 2014, Paris, http://www.cyberstrategie.org/?q=en/event/major-events-in-cyberspace-what-we-learned-and-what-we-should-havelearned
8] A. F. RASMUSSEN, NATO’s next war – in cyberspace, The Wall Street Journal, 03:06:2013,
http://online.wsj.com/news/articles/SB3000142
4127887323855804578508894129031084

ALICE MATEUS, Mestre em Direito Europeu
e Internacional Económico pela Université de
Paris/Dauphine e Mestre em Inteligência
Económica pela École de Guerre
Économique. Advogada do Barreau de Paris

“Ciber-operações não se situam
num vazio jurídico”
Michael N. Schmitt é professor de direito internacional público e diretor do Stockton Center
for the Study of International Law e Charles H. Stockton Professor no United States Naval
War College. É igualmente professor na Universidade de Exeter, fellow na Harvard Law
School e senior fellow no Cyber Defense Center of Excellence da NATO.
Michael N. Schmitt, diretor do projeto do
mediático Manual de Talin, é um dos
maiores especialistas mundiais nas
implicações jurídicas dos ciber-ataques e
ciber-guerras. CEO Lusófono encontrou-o
no curso de direito internacional público
aplicável às ciber-operações, em julho de
2014, na base da NATO em
Oberammergau, sul da Alemanha.
Pode explicar-nos em poucas palavras
no que consiste o Manual de Talin?
O Manual de Talin é o resultado de um
projeto de três anos, publicado em 2013,
que reuniu académicos de direito
internacional público reconhecidos
internacionalmente.
O objetivo era determinar a aplicabilidade
das normas de direito internacional público
ao “cyber warfare”. Resolver esta
ambiguidade normativa é crucial para os
Estados.
Qual o valor jurídico do Manual?
Não é um documento oficial da NATO, mas
um trabalho académico de referência,
realizado a convite da NATO e publicado
pela Cambridge University Press. Neste
sentido, é importante porque a maioria dos
Estados confronta-se com uma ausência de
referências públicas de prática e opinio juris
neste domínio.
Em que contexto surge?
Esta questão inédita começou a surgir nos
anos 90, mas foi depressa apagada pela
importância de outros debates colocados

pela luta contra o terrorismo, a partir de
2001. Afirmou-se com as mediáticas ciber-operações na Estónia em 2007, na Geórgia
em 2008 e com o vírus Stuxnet em 2010.
As dificuldades de tratamento jurídico destas
situações foram evidentes, pois não existe
nenhum tratado que regule as
ciber-operações em si.
Como é que o Manual responde a estas
novas problemáticas?
Abordámos tópicos tais como o jus ad
bellum (direito de fazer a guerra), o recurso
ao uso da força e o jus in bello (direito
aplicável às operações em tempo de
guerra), assim como questões conexas de
responsabilidade dos Estados e de direito
marítimo.
As questões de cyber intelligence são
somente abordadas por relevarem destes
tópicos e não em si mesmas. O enfoque
está em operações cyber-to-cyber, tais
como uma ciber-operação contra uma
infraestrutura crítica.
Tal significa que o direito internacional
público regula o cyber warfare?
Considerámos, de maneira unânime no
grupo de trabalho, que as ciber-operações
não se situam num vazio jurídico: tanto o
jus ad bellum como o jus in bello
aplicam-se à ciber-operações.
O passo seguinte era determinar as
problemáticas específicas de aplicação e
responder a estas dificuldades. Para tal,
estabelecemos 95 black letter rules com
comentários a refletir eventuais divergências.

Estas black letter rules refletem um
consenso num grupo sobre a lex lata, ou
seja, a lei atualmente aplicável, e não sobre
a lex ferenda, a lei que deveria existir.
Este último ponto é importante, pois
estamos num domínio que tende a evoluir
com práticas de Estados, fontes de costumes
internacionais, que também vão ter
tendência para evoluir, confrontados com a
vulnerabilidade e dependência das
sociedades face aos sistemas informáticos.
O Manual de Talin é então um ponto de
partida?
Estamos atualmente a trabalhar, num
quadro semelhante ao do Manual de Talin
(contexto NATO, grupo de peritos
internacionais…), sobre o direito
internacional que regula as ciber-operações
que se situam abaixo dos patamares do
ataque armado e do uso da força, pontos de
referência da Carta das Nações Unidas.
Existe de fato um universo inteiro de
ciber-operações que se situam abaixo
desses patamares.
O Brasil e outros países, depois do caso
Snowden, referiram-se à noção de
soberania informacional. Concorda com
a aplicação desse conceito?
O uso desse conceito não me parece fazer
sentido. A soberania não é informacional,
existe enquanto tal e encontra-se bem
identificada no atual direito internacional
público.
Alice Mateus

CEOLusófono I 41

negócios
& GESTÃO

Novo mestrado da Universidade Lusófona promove

Inteligência Económica
e Cooperação na Lusofonia

Manuel de Almeida Damásio, presidente do Conselho de Administração
da Universidade Lusófona, salienta, em entrevista a CEO Lusófono,
o caráter inovador do mestrado “Inteligência Económica e Cooperação
no Espaço Lusófono”, o primeiro a ter um foco no desenvolvimento de
um projeto de internacionalização das empresas/organizações no espaço
da CPLP
42 I CEOLusófono

Fundação AIP, CPLP, Confederação Empresarial
de Portugal (CIP), AICEP e Organização
Internacional do Trabalho (OIT) são, entre outras
organizações dos diferentes países lúsofonos,
parceiros desta formação avançada inovadora, que
conta também com o apoio de CEO Lusófono e do
site “Inteligência Ecónomica“

A

Universidade Lusófona lançou este ano um novo mestrado, que é uma oportunidade
de excelência para as empresas e outras organizações com processos de internacionalização empresarial
(ou institucional) orientados para um
ou vários países da CPLP.
Dirigido por André Magrinho (AIP/Universidade Lusófona), doutorado em Inteligência Económica, e Carvalho da
Silva (professor e ex-secretário geral da
CGTP), doutorado em Sociologia, o
mestrado “Inteligência Económica e
Cooperação no Espaço Lusófono” é destinado a quadros profissionais qualificados (ou em formação) de empresas,
de organizações e de instituições públicas e privadas.
Manuel Damásio, em entrevista a CEO
Lusófono, salienta que “se as empresas
e instituições querem atuar nos países
lusófonos, têm de formar quadros que
sejam capazes de entender de uma forma global a realidade de cada um deste
países. Têm de compreender o tecido
social, nas suas várias dimensões e não
apenas no que diz respeito diretamente
ao negócio ou à dimensão financeira.
De um modo abrangente, têm de perceber o fenómeno humano”.
Há mais de 20 anos que a Lusófona forma quadros nos vários países da CPLP.
E esta formação, embora seja a formação característica, típica de Universi-

dade, tem por objetivo despertar nos
que querem apostar nesse espaço e ter
alunos interesse pela a compreensão do
quadros qualificados para o fazer. E,
mundo em que vivemos, para que os
mesmo para os quadros que já estão a
quadros, além dos conhecimentos técatuar no espaço lusófono este mestrado
nicos e de saberem manejar ferramenpode servir como atualização, em comtas, sejam capazes de
plemento à experiência
compreender o fenóme“Estamos convictos que as que já têm”.
no global.
O presidente do Conseempresas terão todo o
Manuel Damásio consilho de Administração
dera que a nova gradua- interesse em associar alunos da Universidade Lusóção da Lusófona é “um mestrandos aos seus projetos fona salienta ainda que
mestrado inovador. É a
o mestrado, “com o
de internacionalização,
primeira vez que no
apoio de organizações
investindo no conhecimento
nosso país se pensa com
internacionais, de larga
e na formação avançada,
esta dimensão. Nós já
representatividade no
tendo em vista reforçar as
aqui, há uns anos atrás,
espaço lusófono, procutivemos um curso com suas capacidades no acesso ra chegar aos altos-quaum enfoque nas relações
dros dirigentes, numa
aos mercados e ao
internacionais entre as
perspetiva de relação
desenvolvimento de
organizações lusófonas,
dinâmica”.
estratégias
colaborativas no “Se fazemos um mestramas tinha uma dimenespaço lusófono da CPLP”,
são um pouco mais polído sobre um país temos
tica, mais de relações inde ter gente desse país e
referem Manuel Damásio,
ternacionais. Agora va- presidente da Universidade empresários desse país
mos mais longe, porque
Lusófona, e Jorge Rocha de que também nos digam
nesta fase pensamos
quais são as matérias
Matos, presidente da
que os países lusófonos
mais importantes e o
Fundação AIP
vão avançar no sentido
que é que se deve aproque sempre defendefundar, de modo a que
mos, da economia e da criação de instinós possamos formar daqui quadros
tuições financeiras lusófonas. E, neste
que levem para as empresas e para as
novo quadro, este mestrado é fundaorganizações novos conhecimentos, nomental quer para empresas que já têm
vas tecnologias, mas também tragam
processos de internacionalização no espara a Universidade preocupações e
paço lusófono em curso, quer para as
problemas que devem ser equacionados

CEOLusófono I 43

à luz das metodologias próprias da
Universidade. Queremos uma relação
dinâmica, quanto mais intensa melhor, entre Universidade e a Comunidade”.
O líder do Grupo Lusófona, responsável pela gestão de mais de 20 instituições de ensino superior e não superior
em Portugal e noutros países lusófonos, nota que a Universidade tem “os
melhores quadros do país com preparação para abordar estas temáticas. Reunimos um conjunto de professores universitários com provas dadas, reconhecidos em Portugal e fora de Portugal,
nos países lusófonos e além dos países
lusófonos, com grande capacidade para
tratarem estas temáticas e isso dá garantias a quem frequentar o mestrado”.
Manuel Damásio lembra ainda o contributo da Universidade que dirige na
formação de altos-quadros lusófonos: “é
um número significativo se pensarmos
que se faz muito pouco ou quase nada,
por exemplo ao nível dos governos.
Nesse caso, nós temos feito coisas razoavelmente significativas, provavelmente somos quem tem feito mais.
Numa análise ao potencial dos países
lusófonos, o mesmo responsável lembra
que “o maior valor que um produto tem
é a tecnologia e ciência que incorpora.
Se andarmos a vender só matérias-primas ganhamos muito pouco. E, infelizmente, nos paises lusófonos, mesmo
nos que têm maior exportação, as matérias-primas continuam ainda a ser o
mais relevante. Temos de inverter isso.
Precisamos de quadros e empresas que
aproveitem bem as matérias-primas
transformadas para as colocar no mercado incorporando tecnologia e ciência,
que valorize o produto. Um desafio a
que as Universidades devem dar resposta e a que a Lusófona procura responder com o máximo que pode... E
queremos, pois, precisamente, com este
mestrado, que o aluno saia do curso
com uma visão diferente da Lusofonia
e das grandes oportunidades que
mesma oferece”, salienta Manuel Damásio. n

44 I CEOLusófono

n PRIMEIRO MESTRADO CENTRADO NA
INTERNACIONALIZAÇÃO NO ESPAÇO DA CPLP

André Magrinho salienta, em
declarações a CEO Lusófono,
que o mestrado, que dirige
com Carvalho da Silva, é
"formulado num modelo
inovador com uma filosofia de
projeto, onde os mestrandos,
desde o início, devem ficar
associados a um projeto de
internacionalização empresarial
(ou institucional) orientado
para um ou vários países da
CPLP".
"Os conteúdos programáticos,
os temas dos seminários, os
ateliers e oficinas temáticas as
várias iniciativas que integram
a sua matriz, estão alicerçados
na inteligência económica e
competitiva e na sociologia e
economia do trabalho", explica.
Sustentado num modelo de
“Educação – Ação-Conselho”, o

mestrado "visa desenvolver
capacidades e competências
que permitem um
conhecimento abrangente das
realidades económica,
empresarial, sociológica e do
trabalho dos países da CPLP e,
bem assim, das regiões
económicas envolventes" e
"alicerça-se num programa
estrategicamente alinhado com
a internacionalização
empresarial: sociedade,
mercados, estratégias
económicas e empresariais,
internacionalização, inteligência
económica, redes de
conhecimento e de influência,
diplomacia económica,
intelligence e perception
management, integração
regional, energia e ambiente,
economia do mar, dossiês
estratégicos da CPLP".
"É uma formação com valor
acrescentado para as
empresas/instituições e para
os mestrandos, que se traduz
num projeto de
internacionalização do interesse
da empresa ou organização,
apoiado pela universidade. E
isto confere-lhe valor científico
e alcance empresarial", nota
André Magrinho.

negócios
& GESTÃO

Quidgest:
expansão
com Génio

J

oão Paulo Carvalho fundou, em 1988, a Quidgest, tecnológica multinacional de origem portuguesa, pioneira na geração automática de
software, através do inovador sistema Genio,
que permite criar soluções complexas, urgentes e especificas à velocidade de um milhão de carateres por
segundo.
“Quando começámos, beneficiámos da desvantagem
de sermos uma empresa pequena, com dificuldades
no recrutamento. Isto obrigou-nos a procurar formas
radicalmente diferentes de fazer sistemas. Há 24
anos, todo o software é produzido pelo Genio”, explica
o administrador.
Na Alemanha, Macau, Marrocos, Timor-Leste e Moçambique e com parcerias no Reino Unido, Angola,
Brasil, Polónia, Nicarágua e El Salvador, a Quidgest
investe forte na internacionalização.
Se a maioria das empresas coloca colaboradores a escrever códigos, o Genio gera automaticamente a funcionalidade, segurança, design e usabilidade necessárias.
Basta encaixar as peças e faz-se qualquer sistema.
Assim, “a empresa responde a todas as necessidades
de sistemas de informação de empresas, ONGs, organismos públicos e supranacionais, como o Banco
Mundial, ONU, CPLP ou o Banco Africano para o Desenvolvimento”.
Destaque para o sistema de gestão pública dos recursos humanos de Timor-Leste e, pelo impacto que teve
no país, a criação da base de dados de veteranos e do
sistema associado de pagamento de pensões. Já o sistema de gestão municipal de Maputo permite a inventariação georeferenciada de todos os ativos da cidade.
“Ao contrário da tradicional exportação, criamos estruturas nos países para gerar soluções de proximidade. Investimos, usamos colaboradores nossos e locais,
assegurando sempre uma transferência de tecnologia
relevante e temos uma solução global e capacidade
tecnológica para estar em qualquer lugar. Estarmos
em todos os países é uma questão de tempo, prioridades e oportunidade”, conclui João Paulo Carvalho. n

CEOLusófono I 45

negócios
& GESTÃO

1.ª Edição Encontros Empresariais

Reforçar comércio,
investimentos
e mobilidade na CPLP
A necessidade de adotar medidas que facilitem a mobilidade de pessoas,
bens e serviços e a criação de um espaço da Comunidade dos Países de
Língua Portuguesa para o comércio e investimentos estiveram, a 26 de
novembro, em Lisboa, no centro das preocupações da 1.ª Edição dos
Encontros Empresariais CPLP, iniciativa de que CEO Lusófono é Media
Partner
46 I CEOLusófono

S

No encontro participaram, entre outras personalidades, Salimo Abdula (Presidente da CE-CPLP),
Murade Murargy (Secretário Executivo da CPLP), Vitor Ramalho (Secretário-Geral da UCCLA), Francisco
Murteira Nabo (Senior Partner da SAER), Antonito de Araújo (Missão Permanente de Timor-Leste junto
da CPLP), Luís Queiró (Administrador da Eupportunity) e Jaime Reis Conde (da Comissão Europeia)

alimo Abdula, Presidente da
Confederação Empresarial da
CPLP (CE-CPLP), sublinhou
no final da 1.ª Edição dos Encontros Empresariais CPLP, que reuniu no Hotel Ritz, em Lisboa, mais de
duas centenas de participantes, o contributo desta iniciativa para a intensificação da cooperação empresarial, económica e financeira na comunidade lusófona.
O responsável destacou ainda a importância da discussão em torno dos temas
como “os instrumentos financeiros que
estão ao dispor dos nossos empresários,
a importância da rápida abertura das
fronteiras para haver uma livre circulação de pessoas, bens, capitais e serviços,
a urgência das ligações aéreas mais fre-

quentes entre os nossos países… Estes
consideramos serem fundamentais pae tantos outros temas que nos permira alcançar uma Comunidade mais
tem ambicionar trabalhar ainda mais
igualitária e mais cooperante”.
para a nossa ComuniNo evento, sob o tema a
“Melhorar o ambiente de
dade”.
“CPLP no Século XXI:
Já no início do encontro,
Circulação, Abrangência
negócios e o clima de
organizado pela CE- investimento nos países da e Potencialidades”, esti-CPLP, em parceria com
veram sobretudo empreCPLP, alargar o acesso às
o Fórum dos Empresásários da CPLP, incluininfraestruturas sociais e
rios de Língua Portudo os da diáspora lusóeconómicas e promover o
guesa (FELP) e com o
fona, representantes goapoio institucional da
vernamentais, embaidesenvolvimento das
CPLP e da Associação empresas” são os objetivos xadores dos vários paíEmpresarial de Luanda
ses, delegações dos paídos Encontros Empresariais
e de “CEO Lusófono”,
ses membros e observaCPLP
Salimo Abdula tinha
dores da CPLP, organiafirmado que este era “o primeiro mozações internacionais e representantes
mento, o primeiro evento, em que
das entidades associativas e empresavamos falar das opções estratégicas que
riais.

n A próxima edição dos Encontros Empresariais CPLP terá lugar no 1.º trimestre de 2015, em Malabo, na República da Guiné Equatorial
e conta, uma vez mais, com o apoio de CEO Lusófono.

CEOLusófono I 47

“A CPLP quer ser determinante na alavancagem dos processos de
desenvolvimento dos seus Estados-membros, através da aposta na
capacitação humana, na circulação dos seus cidadãos, no progresso
científico, tecnológico e na criação de um ambiente de negócios
favorável ao crescimento económico e, consequentemente, à
melhoria do bem-estar social dos seus cidadãos.”
Murade Murargy – Secretário Executivo da CPLP
A iniciativa vai ser organizada trimestralmente com outros temas pertinentes para o desenvolvimento do setor privado da CPLP e das economias dos respetivos países membros e para fortalecer os laços empresariais da comunidade lusófona.

“É fundamental assinalarmos a importância desta iniciativa, que
junta os empresários dos nossos países e dá-lhes uma real
oportunidade para refletirem e discutirem os principais obstáculos
que têm ao fazer negócios entre os nossos países. Não podemos
menorizar estes entraves que impedem a afirmação da CPLP
enquanto economia de referência mundial no futuro.”
Salimo Abdula – Presidente CE-CPLP

ção deste protocolo está a ser estudada
“por categorias”, onde se incluem empresários, estudantes, jornalistas, investigadores, artistas, “para que seja o primeiro grupo” com facilidade de circulação neste espaço. “Estamos a trabalhar
nesta proposta e se tudo correr bem vamos tentar fazer aprová-la no conselho
“Governos têm de adotar medidas
de ministros de Díli” previsto para julho
para facilitar fluxo de bens e serviços” de 2015, revelou.
O secretário executivo da CPLP salienta
Murade Murargy, secretário executivo
que neste primeiro enda CPLP, salienta a urgência e a necessária A abrangência da CPLP, tendo contro “foram discutidas
profundamente as quesvontade política forte e
em conta as regiões
tões que preocupam a
firme para criar um “eseconómicas em que os
Confederação Empresapaço da CPLP para o copaíses que falam português rial [CE] e a CPLP. As
mércio e investimentos”,
estão inseridos, reúne uma questões que constituem
acrescentando que “os
governos [dos Estados- população de 2.192.296.646 o cerne das nossas preo-membros] têm de ado- habitantes (cerca de 31% da cupações são a mobilidade, a criação de um amtar certas medidas para
população mundial)
biente de negócios para
facilitar o fluxo de bens
espalhados por 86 países,
os empresários”.
e serviços nos nossos
quatro continentes e três
Murade Murargy realpaíses”.
çou ainda que “a integraNa questão da mobilicomunidades monetárias
ção dos Estados-memdade, Murade Murargy
bros da CPLP em Comunidades Regiolembrou que, em 2002, foi assinado um
nais, com forte incidência económica,
protocolo em Brasília “que permite a
mas também política, tais como a UE
circulação para certas categorias de ci(União Europeia), MERCOSUL (Merdadãos no espaço da CPLP”. E a aplica-

48 I CEOLusófono

cado Comum do Sul), CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental), CEEAC (Comunidade
Económica dos Estados da África Central), SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) e futuramente a ASEAN (Associação das
Nações do Sudeste Asiático), não deve
ser encarada como um obstáculo intransponível aos fluxos económicos dos
Estados-membros da CPLP”.
“Esta dispersão representa, a um tempo, um desafio colossal, mas também
uma enorme fonte de oportunidades
para o futuro. O nosso objetivo é que a
CPLP seja uma organização complementar nos esforços de integração regional de cada um dos nossos Estados-membros e um veículo de interligação
entre os diversos blocos de integração
económica”, conclui.

Declaração Final de Lisboa

Todas as ideias debatidas no encontro
foram incluídas na “Declaração Final
de Lisboa”, onde, entre outras medidas,
se apela à “efetiva implementação” da
livre circulação de pessoas, bens, serviços e transferências de capitais no espaço da CPLP, à criação de Feiras inter-

Portal de Negócios, Marca CPLP e Banco de
Desenvolvimento

nacionais nos países membros, à criação de “mecanismos de arbitragem e
mediação de conflitos” ao nível da organização, e à elaboração de um Calendário geral anual de feiras internacionais
dos países membros e e observadores.
O documento aponta ainda para a
necessidade de promoção de “novos
instrumentos financeiros” de desenvolvimento das economias deste espaço
“através de inovadoras e operativas
modalidades de financiamento”; de um
“diálogo permanente com todos os atores do desenvolvimento”; e de condições
para a promoção “de linhas aéreas de
marítimas para passageiros e cargas”,
na perspetiva do reforço do intercâmbio, turismo e trocas comerciais.
A “efetiva implementação da diplomacia económica na CPLP” é outro aspeto
sublinhado no texto final, no âmbito do
reforço da comunidade lusófona e da
mobilização de “fundos de investimento
e de financiamento para a realização de
projetos prioritários”.
Ao recordar as comemorações do 40.º
aniversário da independência dos
PALOP, em 2015, e do 20.º aniversário
da CPLP, em 2016, o conclave empresarial também recomenda às organizações envolvidas a formação de “comissões técnicas especializadas conjuntas,
com representação pública e privada
dos países membros da CPLP, para as
temáticas abordadas neste Encontro,
com vista à execução das decisões e recomendações”. n

Em entrevista
exclusiva a CEO
Lusófono, Fernando
Lobato, consultor
estratégico do
presidente da CE-CPLP,
salienta o lançamento
do Connect CPLP, uma plataforma onde cada
país da comunidade poderá apresentar os
défices e excedentes, de modo a poder
controlar melhor a oferta e a procura.
A criação deste portal faz parte do Plano de
Ação Estratégico de médio prazo da CE-CPLP
(2015-2020), aprovada durante a
assembleia-geral de Cabo Verde, em
novembro, em que ficou ainda decidida a
aposta num Banco de Desenvolvimento, que
terá como missão alavancar iniciativas dos
empresários lusófonos e reduzir as
assimetrias entre as economias dos países
membros, e ainda o lançamento de uma
Marca CPLP para certificar produtos bandeira
dos Estados lusófónos.
Fernando Lobato salienta que a estratégia a
médio prazo (2015-2020) da CE-CPLP
“oferece um quadro decisivo para que a
CE-CPLP cumpra a missão de promover e
acompanhar a transformação do sector
privado na CPLP em torno de três pilares:
melhorar o ambiente de negócios e o clima
de investimento; alargar o acesso às
infraestruturas sociais e económicas; e
promover o desenvolvimento das
empresas”.
Esta estratégia, que começa a ser posta em
prática, entre outras iniciativas, com os
“Encontros Empresarias”, vai permitir à
CE-CPLP “trabalhar em parceria com as
empresas, facilitar as exportações e valorizar
os produtos e serviços das empresas da
CPLP”, que tem de ser visto como um
espaço económico que vai muito para além
dos mercados internos de cada país, salienta
Fernando Lobato.
“A Confederação Empresarial da Comunidade
dos Países de Língua Portuguesa está

empenhada em criar condições para o
desenvolvimento de negócios, não só nos 9
Estados-membros da CPLP, mas no quadro de
todos os espaços económicos onde estão
inseridos os países da comunidade lusófona
e que perfazem um mercado de mais de 2
mil milhões de habitantes, espalhados em
quatro continentes, sem esquecer os
empresários lusófonos na diáspora,
espalhados pelo mundo”, explica o
responsável.
Mas, para melhor aproveitar o potencial
económico de cada país, é fundamental
desenvolver harmoniosamente os
países-membros, ainda em diferentes
estados de desenvolvimento: “para reduzir
essas assimetrias entre as economias destes
países, estamos a pensar, por exemplo, na
criação de um fundo de coesão que nos
permita ter mais solidariedade na
comunidade, harmonizar as várias economias
e, assim, tirar melhor proveito da integração
em economias regionais por parte dos países
membros”. E, salienta Fernando Lobato, “este
não será um fundo apenas financeiro, mas
que compreenda também parcerias e troca
de serviços entre os países” e que “trabalhe
em parceria com bancos de
desenvolvimento mundiais e regionais”.
A ideia é que “os países mais avançados
ajudem aqueles que estão ainda atrás no
processo de desenvolvimento”, para mais
tarde, numa segunda fase, “haver mesmo
um fundo de financiamento para questões
estratégicas, que torne mais fácil o acesso ao
financiamento, através da criação de um
banco de investimentos, à semelhança do
lançado pelos BRIC”.
Outra medida, para aumentar a integração
entre as economias da CPLP, é a criação de
uma certificação “para conferir valor
acrescentado aos produtos bandeira dos
países da CPLP, como o pescado, o café, o
azeite e cortiça, o marisco ou o cacau,
produtos que podiam ser certificados pela
CPLP”, explica Fernando Lobato.

CEOLusófono I 49

negócios
& GESTÃO

Ronaldo Ramos

Liderança

e trabalho de equipa

Liderar trabalhos em equipas multidisciplinares requer algumas habilidades.
O líder deve dar o exemplo, respeitando o tempo de cada um, a opinião e a
diversidade de ideias existente no grupo. Precisa de reconhecer e valorizar a
riqueza de experiências

T

rabalhar colaborativamente
almejando um resultado superior significa obter engajamento de todos e estabelecer
uma linguagem comum construída em
conjunto.
Selecionei aqui oito dicas que considero “de ouro”:
1. Capriche nas reuniões: Chegue no
horário e comece na hora marcada;

50 I CEOLusófono

Tenha uma agenda clara, com a expectativa do que deve ser decidido e a previsão de duração da reunião; Ao respeitar esses princípios, os profissionais
irão sentir-se também respeitados e
tentarão copiar o seu exemplo;
2. Assegure-se de que todos sejam ouvidos, independentemente do grau de especialização em cada assunto. Se houver reticências, faça perguntas aos mais

calados, procurando trazê-los para a
discussão. Mostre que está a ouvir, fazendo resumos, interpretações e construindo sobre os pontos apresentados;
3. Evite iniciar por uma concordância
ou um elogio, e, em seguida, utilizar
palavras como “mas”, “porém”, “entretanto”. Todos vão prestar atenção apenas à segunda parte da conversa, e os
seus elogios não terão mais o poder de

Trabalhe a
confiança entre as
pessoas da equipa,
mostrando que, quanto
mais previsíveis forem
os comportamentos
de cada um,
mais fácil será
construir a abertura
e a colaboração
legítima

energizar genuinamente. Lembre-se
que o “e” é muito mais poderoso, pois é
a palavra que adiciona, completa,
constrói, ajuda;
4. Cuidadosamente, permita que a liderança das discussões “passeie” pela
mesa, dando a todos a oportunidade de
conduzir a argumentação e os debates
por algum tempo. Quando for necessário, retome a direção de maneira assertiva, usando frases como “vamos fazer
uma retrospectiva para ter certeza de
que todos estejam na mesma página”,
“vamos convergir na discussão agora,
porque o nosso tempo está a acabar”,
ou ainda “vamos deixar esta questão
para ser abordada à parte”;
5. Reserve tempo para planear ou discutir uma experiência que possa levar
a erros, mostrando que existe espaço
para tentativas e aprendizagem. Limite as consequências com uma boa mitigação de riscos incluída no planeamento. Partilhe os seus erros e acertos
e treine a sua equipa para desenvolver
um nivelamento cultural obtido por
meio da aceitação mútua das diferenças e da capacidade de compartilhar
erros e acertos;
6. Termine a reunião sempre com a lista de ações bem definida, prazos e res-

ponsáveis designados para cada tarefa;
7. Se perceber objetivos ou agendas
ocultas, faça perguntas que circundem
o tema e procure deixar os membros da
equipa confortáveis para exporem os
seus objetivos pessoais; se isso acontecer, esteja preparado para levá-los em
conta nas decisões, reforçando assim o
exemplo;
8. Trabalhe a confiança entre as pessoas
da equipa, mostrando que, quanto mais
previsíveis forem os comportamentos de
cada um, mais fácil será construir a
abertura e a colaboração legítima.

É claro que a aplicação e o aproveitamento destas dicas dependem de diversos fatores, como o estilo de liderança, a
diversidade dos membros do grupo, a
cultura, a infraestrutura e a dimensão
da empresa, a importância e urgência
dos assuntos em debate. Os resultados
serão obtidos com a prática, tentativas,
erros e aprendizagem. Quanto mais cedo você começar, melhor! n
RONALDO RAMOS, Fundador do CEOlab
e professor associado da Fundação Dom
Cabral
ronaldo.ramos@ceolab.net

CEOLusófono I 51

“A entrada do
Montepio permite
que soluções
financeiras de padrão
internacional sejam
implementadas no
mercado financeiro
moçambicano
também através do
Banco Terra”
Tomás Correia
Presidente do Montepio

52 I CEOLusófono

finança

54 DE “VERDE” A “BLUE”

Pedro Lins mostra como o movimento “Blue” tem levado uma nova geração de
líderes a ultrapassar a visão “Verde” e a gerir os seus negócios com a
consciência alargada de que uma empresa competitiva e sustentável possui,
simultaneamente, Prosperidade Económica, Vitalidade Cultural, Equidade
Social e Sustentabilidade Ambiental

58 “DREAM TEAM ÁFRICA” DE PEQUIM

Descubra a extraordinária “dream team” criada por Pequim para dotar as mais
altas instâncias de decisão do país de uma maior capacidade de compreensão do
continente africano, um dos alvos estratégicos do poder económico, financeiro e
comercial chinês

CEOLusófono I 53

finança

De “Verde” a “Blue”
Pedro Lins

a competitividade sustentável

Pedro Lins mostra como o movimento “Blue” tem levado uma nova
geração de líderes a ultrapassar a visão “Verde” e a gerir a
Competitividade Sustentável dos seus negócios com a consciência
alargada de que uma empresa competitiva e sustentável possui,
simultaneamente, Prosperidade Económica, Vitalidade Cultural,
Equidade Social e Sustentabilidade Ambiental

54 I CEOLusófono

Quando olha o
planeta Terra do espaço,
não vê os problemas
económicos, sociais,
ambientais e culturais...
Mas vê um pouquinho
de verde. E uma
imensidão AZUL.

esde 1798, com a publicação
do estudo de Malthus intitulado de “An Essay on the
Principle of Population”,
passando pelo relatório publicado pela
Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), em
1988, conhecido como Relatório de
Brundtland, onde pela primeira vez foi
usado o termo “Desenvolvimento Sustentável”, até chegar à atualidade, com
o conceito de “Competitividade Sustentável” (CS), a sociedade moderna discute a respeito do que hoje denominamos de “Sustentabilidade”. Ainda assim, até os dias de hoje, o conceito de
sustentabilidade não é claramente percebido e tampouco entendido mesmo

Figura 1

por quem nele atua. Perante as ambiguidades que a sua definição pode ter,
cuja compreensão pode contar com uma
simplicidade, que muitas vezes parece
tentar não afetar quaisquer interesses,
este conceito ainda dá espaço para diferentes interpretações, algumas, inclusive, incompatíveis entre si.
No entanto, estes conceitos são resultados de uma construção histórica, que se
vêm aprimorando cada vez mais (a figura 1 mostra exatamente esta evolução
do conceito de Competitividade Sustentável ao longo do tempo).
No atual cenário, onde a sustentabilidade, em especial a sua interpretação
mais ambientalista, conhecida por “verde”, geralmente é vista como algo que
diz respeito somente ao destino ambiental do planeta e ao modo como isso afeta
as nossas vidas, torna-se imprescindível revermos e, consequentemente ampliarmos, a nossa visão “verde” de sustentabilidade. Isto significa, principalmente, considerarmos a mais recente
abordagem do tema, com o conceito da
Competitividade Sustentável, e os quatro pilares integrados que o apoiam.
São eles: o económico, o social, o ambiental e o cultural. Este conceito pode ser
definido como: O compromisso das empresas (privadas, públicas e sociais) em

D

Adam Werbach

gerir e melhorar o seu Resultado Económico, o seu Impacto Ambiental, as suas
Implicações Sociais, e a Salvaguarda da
Cultura das suas atividades nos níveis
empresarial, local, regional e global.
Todos os quatro pilares da Competitividade Sustentável são igualmente relevantes e devem ser levados em conta pelas organizações de uma maneira equilibrada. No entanto, os adeptos da sustentabilidade e da sua interpretação
“verde” costumam simplificar estes quatro aspectos, ignorando o poder que nós,
enquanto indivíduos e, especialmente,
enquanto consumidores possuímos.

Figura 2

CEOLusófono I 55

Existe um consenso
entre os CEOs de que a
economia não está no
rumo certo, e de que os
negócios não estão a
fazer o suficiente para
reverter o quadro de
deterioração económica,
ambiental, social e
cultural

“Da Separação e Competição” à
“Ampliação e Sobreposição”

Na Competitividade Sustentável os
quatro pilares (económico, social, ambiental e cultural) não devem competir
entre si, pelo contrário, devem sobrepor-se (figura2). Neste sentido, a Competitividade Sustentável entende que
estes quatro pilares são interdependentes e, portanto, as organizações corporativas devem ser administradas de
forma a otimizar a criação de valor em
todos estes pilares, entrelaçando-os sem
uma sobreposição por relevância. Mesmo assim, a CS tem consciência de que
podem haver conflitos e dilemas entre
esses aspectos, porém cabe aos seus
gestores buscar soluções para os minimizar e/ou eliminar. Uma empresa que
coloca na sua estratégia corporativa a
Competitividade Sustentável é capaz
de criar uma “harmonia de interesses”
entre estes quatro pilares, inclusive
considerando os interesses dos seus
stakeholders.
Em relação à harmonia de interesses, é
fundamental o alinhamento do propósito da empresa com os interesses dos
stakeholders ligados à sua operação: os
colaboradores, os investidores e os for-

56 I CEOLusófono

necedores cooperam e envolvem-se votambém um movimento que procura inluntariamente, ou seja, sem coerção excentivar as empresas privadas e as orterna, para criar valor para os clientes,
ganizações públicas a protagonizarem
além de partilharem do valor criado
ainda mais ativamente a busca por um
através de intercâmbios entre os stakemundo mais sustentável. A este moviholders.
mento é dado o nome de “Blue”. O Blue,
A liderança de organizadiferentemente do amções que adotam a Com- Competitividade Sustentável: bientalismo verde – que
petitividade Sustentável
coloca o planeta no cenO compromisso das
como sua filosofia é ge- empresas (privadas, públicas tro do diálogo –, coloca
ralmente qualificada na
os indivíduos no seu
e sociais) em gerir e
base de um “pensamencentro, isto é, a forma
melhorar o seu Resultado
to sistémico” e comprecomo nos tratamos, e a
ende as relações que
forma com nos tratamos
Económico, o seu Impacto
existem entre todos os
uns aos outros estão no
Ambiental, as suas
seus stakeholders denseu foco. Unindo, assim,
Implicações Sociais, e a
tro dos quatro pilares
um conjunto de preocuSalvaguarda
da Cultura das pações mais amplo, da
(económico, social, amsuas atividades nos níveis
biental e cultural). Essa
prática para o valor/pregestão visa criar estratéempresarial, local, regional ço, e da natureza para a
gias de negócios não censociedade.
e global
tradas apenas nos reExistem três resultados
sultados económicos, procura uma forprimordiais para o sucesso do Blue: O
ma mais sofisticada e complexa de penprimeiro é melhorar a qualidade vida
sar sobre o negócio, transcendendo as
das pessoas que fazem parte dele; O selimitações da mente analítica, que foca,
gundo é envolver o maior número de
entre outras, as diferenças, os conflitos
pessoas possível neste esforço; O terceie os dilemas.
ro é aumentar a eficácia do seu protagoCaminhando paralelamente ao conceito
nismo.
de Competitividade Sustentável, temos
No entanto, no século XXI mais do que

nos anteriores, as mudanças dos mero desenvolvimento e perpetuação dos
cados, das procuras, dos resultados e
seus negócios, o conceito de Competitiviimpactos globais estão a transformar a
dade Sustentável (baseado no quadriple
maneira de se fazer negócios no mundo.
bottom line, conforme apresentado anDesta maneira, os líderes do futuro
teriormente) pode ser uma boa solução
devem contribuir para puxar a agenda
por parte das empresas/organizações.
da CS, antagonizando o aspecto da
Desta maneira, o grande desafio é altevisão de curto prazo. Infelizmente ainrar o atual paradigma vigente do “ecoda há muitas organizações que não têm
nomic bottom line” para o “quadriple
consciência do seu papel na Competibottom line”, sem comprometer o resultividade Sustentável. É grande o númetado presente, e preservando o resultaro de líderes empresado futuro das empresas.
riais que aprendem desNa
verdade, quando se leO Blue, diferentemente do
de o início das suas car- ambientalismo verde – que va em consideração apereiras que é no retorno
nas o resultado presente
“exclusivamente” finan- coloca o planeta no centro do do Economic Bottom Liceiro que os seus empre- diálogo –, coloca os indivíduos ne, as empresas não cheendimentos têm que ter no seu centro, isto é, a forma garão ao futuro pela pero foco, sendo a competitida de competitividade e
como nos tratamos a nós
vidade do mercado a
a
ausência de mercado
mesmos, e a forma como
grande propulsora do depara seus produtos e/ou
senvolvimento dos seus nos tratamos uns aos outros serviços. Na verdade
negócios, tendo assim o
elas serão história, não
lucro financeiro como único bottom line.
futuro. Esta é uma realidade para as
É claro que, se queremos alterar os ruempresas dos três setores: privado, púmos do mercado, as lideranças mundiais
blico e social.
precisam comandar estas ações, mas
Que tipo de empresa eu quero
estas ainda estão presas ao passado.
ter/ser no futuro?
Existe um consenso entre os CEOs de
que a economia não está no rumo certo,
Diante desta nova perspectiva, colocae de que os negócios não estão a fazer o
mos uma questão para os líderes das orsuficiente para reverter o quadro de
ganizações de hoje: Que tipo de empredeterioração económica, ambiental, sosa eu quero ter/ser no futuro?
cial e cultural; bem como acerca da
Para responder a esta pergunta é neausência de um propósito maior e da
cessário que estes líderes estejam capafalta de objetivos em relação aos imcitados e desenvolvam competências e
pactos dos negócios a curto, médio e lonhabilidades que contribuam para os
go prazo.
seus processos de tomadas de decisão,
Muito deles acreditam que apesar das
levando em conta a Competitividade
empresas terem um conjunto de boas
Sustentável dos seus negócios.
intenções, vêm perdendo oportunidades
Um passo importante para a aquisição
concretas de aceleração do seu cresdessas competências é entender como
cimento, na retenção de talentos e na
funcionam os diversos modelos, para
sua sustentabilidade a longo prazo.
ser-se competitivo e sustentável, e a
Desta maneira, a empresa perde deseminexistência de um “caminho único”.
penho, diminui o seu impacto no merAssim, os líderes das empresas/organicado, e não preserva os seus propósitos e
zações que querem aderir ao movimenvalores, indo contra algumas novas tento da Competitividade Sustentável /
dências de mercado: o Capitalismo
Blue devem ampliar a sua visão, e utiConsciente e a Economia Inclusiva.
lizar os seus conhecimentos e compeComo parte da tendência do movimento
tências para enfrentar os novos desaBlue, que tem levado uma nova geração
fios que o mercado apresentará nos
de líderes a buscarem alternativas para
próximos anos/décadas.

A grande pergunta é: Como fazer?

Para respondê-la, o ideal é estudar o
que está a ser desenvolvido neste aspecto na sua indústria, bem como conhecer
os benchmarks globais, e através dos
exemplos e melhores práticas estudadas, implementar os conceitos da Competitividade Sustentável / Blue na estratégia corporativa.
Podemos enumerar dezenas de exemplos, como os The New Sustainability
Champions (estudo do WEF. BCG), Interface, Terpenoil, ou Pão de Açúcar.
Cada um deles, tem implementado estratégias Competitivas Sustentáveis
nos seus negócios, criando um diferencial demarcado dentro da sua indústria.
Finalmente, pode dizer-se que a Competitividade Sustentável, assim como o
movimento Blue, propõe um novo espectro dentro da ideia de Sustentabilidade, uma vez que ambos abarcam
aquilo que as propostas anteriores já
englobavam. Porém estes dois vão mais
além, ao não obrigarem aqueles que
optam por um estilo de vida mais sustentável, a se desfazerem de todas as
suas melhores práticas.
Isto é, tanto a Competitividade Sustentável como o Blue incentivam que faça o
melhor por si mesmo, pela sua família,
pelo seu negócio, região, pelo seu país e,
porque não, pela Terra, porém, sem
negar que, ao mesmo tempo, fazemos
parte de uma sociedade capitalista moderna.
Afinal, uma empresa competitiva e sustentável possui: Prosperidade Económica, Vitalidade Cultural, Equidade Social e Sustentabilidade Ambiental. n

PEDRO LINS, Professor e consultor em
empresas e instituições como Fundação Dom
Cabral, Fundação Bradesco; Banco Mundial;
InWent; Boston University School of
Management; União da Indústria de Açúcar e
Álcool (UNICA) e Escola Americana de
Campinas (EAC), desenvolveu Estudo de Casos
para a Harvard Kennedy School, Harvard
Business School e IBM.
pedrolins@fix-cs.com

CEOLusófono I 57

finança

“Dream Team África”

A arma de Pequim

De olhos postos em África, que vê como reserva de matérias-primas,
hidrocarbonetos e como espaço de expansão estratégica, Pequim
dotou-se de uma arma extraordinária: uma fabulosa “dream team” de
especialistas em tudo o que diz respeito ao continente africano

58 I CEOLusófono

apoiado pela Câmara Conjunta China/África de Comércio e Indústria, liderada pelo jovem Gao Wei.
Por fim, Chi Jianxin, presidente do Fundo de Desenvolvimento China-África
(CADFund), desde a criação, em 2006, e
Zhao Chang Hui, especialista em ques-

© World Economic Forum

Liu Guijin foi o primeiro
a ocupar o cargo de "Sr.
África" e tem hoje uma
enorme legitimidade
em questões africanas
junto das autoridades
chinesas.

tões de segurança, fundador do Fórum
de Cooperação China-África e diretor do
departamento Risco País do Eximbank,
são os dois pesos-pesados que completam a “dream team” que sustenta estrategicamente a enorme influência da
China em África. n
© Africa Progress Panel - Eric Roset

S

ó em 2007 o Partido Comunista Chinês (PCC) criou a função
de Representante Especial para os Assuntos Africanos (conhecido como “Sr. África”)… Desde então, a política de influência da China
em África e a influência de especialistas em África na política da China têm
sido reforçadas a um ritmo assinalável.
A decisão de criar a “dream team” foi
tomada por recomendação do “Foreign
Affairs Leading Small Group”, uma estrutura informal que reúne as personalidades mais influentes da política
externa do PCC.
Liu Guijin foi o primeiro a ocupar o cargo de “Sr. África”, depois de ter sido embaixador no Zimbabwe (1995-1998) e na
África do Sul (2001-2007). Especialmente conhecido pela mediação no Sudão, entre 2007 e 2012, tem hoje uma
enorme legitimidade em questões africanas junto das autoridades chinesas.
Desde há dois anos, Liu Guijin dirige o
Instituto de Estudos sobre África e
Ásia Ocidental e o Departamento ÁsiaÁfrica da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS), um dos mais reputados em matéria de política externa.
Também preside à China-Africa International Business School da Zhejiang
Normal University.
O sucessor de Liu Guijin como “Sr.
África”, Zhong Jianhua, também esteve em Pretória (2007-2012) e no dossier Sudão do Sul, no momento em que
a China fortaleceu a Missão das Nações Unidas no país.
Embora com menor visibilidade internacional, mas não menos influentes,
há outras personalidades fundamentais na política de África de Pequim.
Lin Tian Song, que assumiu este ano o
cargo de chefe do Departamento África
do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, e Yin Zhong Man, secretário-geral do Departamento África do
poderoso ministério do Comércio Exterior, onde iniciou carreira em 1991, são
dois bons exemplos.
Yin Zhong Man desempenha um papel
crucial na promoção dos interesses económicos da China no continente,

Zhong Jianhua é o
atual Representante
Especial para os
Assuntos Africanos.

n O SEGUNDO CONTINENTE DA CHINA
Howard W. French é o autor de “China’s Second Continent: How a
Million Migrants Are Building a New Empire in Africa”, editado em
2014. Profundo conhecedor de África e da China, French publica o
livro que é talvez a primeira grande síntese sobre a
avassaladora e crescente presença da China em
África.
Um emocionante relato, extremamente revelador de
um império em desenvolvimento, alicerçado no know-how do
Dream Team África de Pequim, e que já molda e remodela o futuro
de milhões de pessoas.

CEOLusófono I 59

© JoeWuerfel

“Vou continuar
a divulgar com
coerência, com força,
a música daqui, da nossa
terra. Cada vez que faço
um espetáculo é mais um
golo para Angola e vocês
têm consciência disso,
devido à cumplicidade
que existe”

60 I CEOLusófono

José Adelino Barceló de Carvalho
(Bonga) no momento da
condecoração pelo governo francês

estilos

62 GISELE BUNDCHEN

Caso raro de “soft power”, “a brasileira mais influente do mundo” integra o TOP
100 das mulheres mais poderosas, arrecadando milhões atrás de milhões.
A modelo mais bem paga do mundo vive agora uma autêntica história de amor
com a Chanel

63 VÍTOR SOBRAL

Tasca da Esquina foi duplamente eleito o melhor restaurante português em São
Paulo. Está assim de parabéns o chef que, há mais de 20 anos, lançou a
modernização da gastronomia portuguesa, fazendo-a evoluir sem a trair, e
procura convergências nos sabores da Lusofonia

64 LIVROS

Da Cibersegurança à Pintura, passando pela História, propomos uma volta por
vários horizontes: pelos primórdios do nacionalismo africano de expressão
portuguesa, com uma revisitação às lutas e movimentos dos homens e mulheres
da Casa dos Estudantes do Império, pelo bom uso da informação das empresas,
pela cada dia mais premente cibersegurança e por umas 'pinceladas' de poesia
e pintura

CEOLusófono I 61

estilos

Gisele
“Milhões”
Bundchen
É

62 I CEOLusófono

© Courtesy of Chanel Photographer Hugh Stewart

um caso raro de “soft power”.
Gisele Bundchen, “a brasileira
mais influente do mundo”,
integra o TOP 100 das
mulheres mais poderosas (no que toca
às lusófonas, só Dilma está à sua frente)
e arrecada milhões atrás de milhões.
Em 2014, a modelo mais bem paga do
mundo ganhou 47 milhões de dólares,
qualquer coisa como 128 mil dólares por
dia! Gisele Bundchen vive agora uma
autêntica história de amor com a
Chanel: depois de ter sido escolhida, em
finais de 2014, como novo rosto do
campeão de vendas Chanel N.º 5, foi
agora “eleita” para protagonizar a
campanha primavera/verão 2015, da
marca francesa. n

estilos

Melhor
português
de São Paulo

O

chef Vítor Sobral está duplamente de
parabéns. Tasca da Esquina é o melhor
restaurante português em São Paulo,
eleito quer pelo júri, quer pelos leitores da
revista “Veja Comer&Beber”.
“Provavelmente, por todas as circunstâncias este foi
o prémio que mais me tocou. É o reconhecimento do
trabalho de equipa e dos sócios que acreditaram no
projeto”, afirma o homem que um dia disse que o
“Guia Michelin” é uma ofensa à cozinha portuguesa
(porque só premeia a cozinha molecular e
internacional).
Há mais de 20 anos, Vítor Sobral lançou a
modernização da gastronomia portuguesa, fazendo-a
evoluir sem a trair, e procura convergências nos
sabores da Lusofonia. A sua arte pode ser saboreada
numa das “Tasca da Esquina” que espalhou em
Lisboa, São Paulo, João Pessoa e Luanda. n

CEOLusófono I 63

estilos

Da Cibersegurança

à Pintura

passando pela

História

Uma volta por vários horizontes: pelos primórdios
do nacionalismo africano de expressão
portuguesa, com uma revisitação às lutas e
movimentos dos homens e mulheres da Casa dos
Estudantes do Império, mas também por temas
do bom uso da informação das empresas, da cada
dia mais premente cibersegurança e por umas
'pinceladas' de poesia e pintura. Os colaboradores
e amigos do 'CEO Lusófono' andam mesmo muito
inspirados e ativos

P

rofundamente inspirado
por África, Lisboa e o
Algarve, o livro “A Cor das
Palavras”, de Sérgio
Campos (“Eu
sou africano…
O meu coração
bate com
África”)
procura e
alcança uma
síntese entre
pintura e
Sérgio Campos
poesia (sob o
signo de Miró).
Com prefácio do consagradíssimo
Júlio Pomar, a obra foi
recentemente apresentada ao
público por José Mateus, o fundador
de “CEO Lusófono”, em animado
convívio na Associação 25 de Abril
sob a presidência de Vasco Lourenço.
Mas se a poesia e a pintura são os
jardins secretos do capitão de Abril
Sérgio Campos, é público e notório
que as suas matérias profissionais

64 I CEOLusófono

são outras: as tecnologias de defesa
e de segurança de que ele é o
especialista português e o grande
responsável pelo seu
desenvolvimento em Portugal.
Campos foi presidente da
EMPORDEF, da EDISOFT e de
outras “start-ups”, mas é também
autor dos primeiros textos de análise
teórica aos fenómenos da segurança
no ciberespaço. “Geopolitique du
Cyberspace” é uma leitura
recomendada por Sérgio Campos.

Do professor António Gameiro, com
prefácio de Jorge Coelho,
"Contabilidade para Empresários e
Gestores" está
estruturado
para ser de
grande
utilidade a
quem tem de
planear,
decidir e
controlar as
atividades e
António Gameiro

recursos de entidades empresariais e
económicas. Como escreve Jorge
Coelho no prefácio, “vivemos hoje
num mundo globalizado e numa
sociedade de informação em que o
mercado financeiro e as empresas
interagem com um nível de
conhecimento e de informação cada
vez mais aprofundado, mas
igualmente mais complexo,
colocando uma exigência crescente
junto dos decisores na preparação de
mecanismos fiáveis de análise e
suporte à decisão. Esta obra aborda
um conjunto de temas que,
transformados em informação
apreendida, conferem instrumentos
de análise, avaliação e suporte a
decisões muito importantes que
empresários e gestores têm de tomar
no decurso das suas funções”.
Alda Espírito Santo, Agostinho
Neto, Eduardo Mondlane, Amílcar
Cabral, Carlos Ervedosa, Luandino
Vieira, Costa Andrade, Pepetela,
Mário Pinto de Andrade, Gentil

Viana, Manuel Lima, Alfredo
Margarido e muitos outros escrevem
ou são recordados nas páginas do
número especial da “Mensagem”, da
Associação da
Casa dos
Estudantes do
Império, em
boa hora
reeditado pela
UCCLA
dirigida por
Vitor Ramalho.
Vitor Ramalho
Os textos desta
edição especial
são um formidável manancial de
informação sobre os primórdios e
génese (nos anos 50 e 60 do século
XX) do nacionalismo africano de
expressão portuguesa, sobre a luta
dos estudantes e intelectuais
africanos contra o colonialismo.
Parabéns a Vitor Ramalho por esta
reedição e, aliás, por todo o trabalho
do ciclo de homenagem às mulheres
e aos homens da Casa dos
Estudantes do Império.

CEOLusófono I 65

Assinado...

Vitor Ramalho

Os símbolos nacionais
e a TAP
Secretário-Geral da União das Cidades
Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA)

O

governo
português
anunciou
recentemente a
privatização da TAP.
Trata-se, a ser concretizada,
da 13.ª privatização no
mandato do atual executivo.
Entre outras, é útil recordar,
foram alienadas a ANA
(aeroportos nacionais), a
REN (rede elétrica
nacional), a EDP
(eletricidade de Portugal), os
CTT (correios e
telecomunicações) e a EGF
(Empresa Geral de
Fomento).
Num período histórico de
crescente globalização, em
que a diplomacia económica
é convocada a cada passo,
não se compreende como é
possível que Portugal, que
tem por língua oficial uma
das primeiras das mais
faladas do mundo, possa
prescindir de manter o
domínio público em
66 I CEOLusófono

empresas estratégicas.
papel de Portugal no mundo.
As conceções economicista,
Esta não é uma questão
de obtenção de recursos a
partidária ou ideológica.
qualquer preço e a curto
É uma questão nacional. E
prazo, subalternizando a
nem se diga, face ao quadro
ponderação de interesses
das diretivas da U.E. que
nacionais, não têm qualquer Portugal não tem outra
sustentação.
saída senão
Inclusive no
Não se compreende alienar a TAP,
conteúdo do
como é possível que face à vultuosa
memorando de
dívida da empresa
Portugal, que tem
entendimento com
e às restrições do
por língua oficial
a Troika, que é
financiamento
uma das primeiras
invocado a cada
público a
das mais faladas do empresas de
passo.
mundo, possa
Nele o que se
transporte aéreo.
prescindir de manter Há múltiplas
prevê quanto às
o domínio público
privatizações é
saídas para se
arrecadarem-se
superar este
em empresas
cinco mil milhões estratégicas
aparente
de euros. Sucede
obstáculo.
que com as que foram já
Os símbolos nacionais não
feitas o valor alcançado é já podem estar à venda.
muito superior ao dobro.
Os emigrantes portugueses,
No caso concreto da TAP,
que se espalham pelos
trata-se de um símbolo
quatro cantos do mundo,
nacional, uma bandeira, com sentem no mais profundo da
uma história que se
alma que esta verdade
entranha na afirmação do
envolve a TAP. n

Caçadores
de Luxo

A

Land Rover juntou-se à
fabricante de armas de caça
Holland & Holland e desta
colaboração nasceu o mais
luxuoso Range Rover de sempre.
As duas icónicas empresas britânicas
pegaram num Range Rover
Autobiography Black e deram ao já
notável SUV um tratamento real, com

promenores em madeira, couro e
acabamentos de metal gravado, que
dão a sensação de que este Holland &
Holland Range Rover é um estojo
para armas finamente trabalhado
sobre quatro rodas.
O carro está limitado a uma produção
anual de 40 unidades, com um preço
estimado de 230 000€. n