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O ALTO CUSTO DA VIDA PUBLICA NO BRASIL NCham. 320.981 R484s 2000 Autor: Ribeiro, Renato Janine, Tit A sociedade contra Ww wii 463224 1 aL Re ere oa Pe Recent em tere Ped Oe ene rene Pata eee ae tees SE omc ec enTd acostumados a nos reconhecer — da virgem dos labios de mel ao cagador Cri eee ert nine terete} adota 0 parti pris de que nao hi ino- RoE SO Re mre TTS eer eMC ee ets DEORE eRSccee Tor om Ecce) SEC eee Teer brem de histéria, Assim, nao terd sido tao casual a ce one an tay moeda, o real. Reconstruindo a histé- tia desse nome, o autor lembra que Once Oe ei eee rem ee eats eames ts Cem AECL steed exemplo, que ficamos sabendo » no me da nova moeda, bem antes que 0 OCCURS Etc tees TCO esas? Cocco cl tect ae earnest) perceber é a existéncia de todo um campo de significagies que a pdavra Poker een cares Cereetatts O objeto de anilise pode seram- bém uma oposigio semantica ines- perada. Se a gramatica retine ruma Eee en ent om a ee enetoeterery| Pee aoe eee tTe mos. Quase sempre usamos socidade Pek ean eet ea legiado do poder politico, ao pisso Oe ee ne er ono ees erat modo mais polido de fazer refeen- cia aos miseraveis. A SOCIEDADE CONTRA O SOCIAL RENATO JANINE RIBEIRO A sociedade contra o social O alto custo da vida publica no Brasil Ensaios 48 reimpressio COMPANHIA Das LETRAS Copyright © 2000 by Renato Janine Ribeiro. Copa Ettore Bottini Indice emissivo Maria Claudia Carvalho Mattos Preparasio liane Maturano Santoro Revisao ‘Ana Maria Alvares Isabel Jorge Cury aadosInsermacionais de Cataiogaco na Publicagio (ct?) (Cimara Brasileira do Li, Brasil Ribeiro, Rerato Janine, 1988. A socidade contre 0 soil 0 alt custo de vida pb «no Bra / Renato [one Ribera. — Sto Palo : Com pth das Leas 2000 Bibliografi. ssa 85-359-0017-9 Brasil- Condes sox 2 Brasil Pola e gover- no 8. Comupeio a politica ~ Bras 4. Poltica~ Filosofia 1 Tilo. 00.1910 o0-320981 Indice para catlogo sista: 1. Brasil: Poiica 320981 [2006] Todos 0: direitos desta edigao reservados & EDITORS SCHWARCZ LTDA. Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32 4532-002 — Sao Paulo — se Telefone: (1) 3707-3500 Fax: (12) 3707-3508 ‘www:companhiadasletras com.br BIBLIOTECA Facut Cy, Registro n° 2oe& Sumario Abertura: O Brasil e a filosofia politica A sociedade contra o social ou A sociedade privatizada ..... Grandeza e miséria do “politicamente correto” 1. Aagao politica como compensagao pela histéria passada 2. Justiga e mau humor 3. A identidade pela dor .. Iracema ou A fundagao do Brasil O real ¢ seu imaginario ou O fim da esquerda iluminista .. 1 yeep 19 26 26 2 40 5 65 66 4 76 7 82 Apéndice: A histéria que voltou ao real . 89 Intermezzo variado 1. A histeria do gertindio 2. Enternecer o futuro 3. Negar dividas, negar raizes 97 Uma politica sem politicos: Collor e Senna 101 © Brasil pela novela ... 123 Uma vida social muito cara ... 145 Da politica da corrupsao . 162 1. Somos todos corruptos? (ow A insuficiéncia da antropologia, para explicar a corrupcao) 162 2. Corrupgao e democracia 167 3. A corrup¢ao como furto ou Da privatizagao da coisa publica 175 4. Um problema: onde esta a corrupgio? 180 Entre-ato: Corrupgao e liberdade .. 191 As duas éticas ou A acdo possivel .. 193 Bibliografia 223 Indice remissivo 227 Abertura O Brasil e a filosofia politica A filosofia politica raras vezes, ao longo da hist6ria, esteve desligada da politica imediata ou proxima. Nao é 0 que imagina- mos no Brasil, onde nutrimos uma visdo meio empertigada da filosofia, afastada dos problemas de nosso dia-a-dia. Mas penso que faz parte da condicao subdesenvolvida, ou melhor, da acei- tacao de um papel subalterno no jogo politico mundial, a idéia de uma excessiva solenidade dos textos e mesmo das grandes obras. Enquanto nao rompermos com esse esquema respeitoso, submisso, em relagdo aos cléssicos — ou as duas ou trés linguas européias e aos quatro ou cinco paises do Atlantico Norte que oligopolizam a reflexao dita de ponta —, nao iremos além da dependéncia, e de uma dependéncia, mais que tudo, introjetada, escolhida e acatada por nés. Provavelmente isso decorra de um equivoco em relagao ao termo dlissicos. Acostumados que estamos a olhar de longe os centros de produgao econémica e intelectual, tudo se torna gran- dioso, ‘inico, apartado do cotidiano. Mas basta ver de perto os classicos, de ontem ou de hoje, para perceber que as circunstan- cias sempre detiveram importante papel em sua producio. Isso vale em particular para a filosofia politica: dificilmente ela nas- cera de fora da politica, ou pelo menos da atengio a ela. £ verda- autor, como Maquiavel banido de Florenga ou de que m Hobbes refugiado na Franga, escreveu sobre a politica quando estava impedido de praticé-la. Mais ainda: escreveu sobre a poli- tica porque estava impedido — sobretudo Maquiavel — de pra- ticd-la. Mas mesmo assim sua reflexao brotava de uma agao, pelo menos, sonhada. Sem a agao no horizonte, nao hé filosofia politi- ca, Dai que nao tenha cabimento nossa tendéncia, quase subser- viente, a imaginar que a filosofia s6 ocorre quando o pensador assume a catedra e pontifica. Ora, a posicao de pontifice convém mal a filosofia. Esta s6 tem sentido, pelo menos no que diz respeito a pergunta sobre a ago — € portanto a ética e a politica —, quando assume um tom critico, 0 que, em nosso tempo, significa demolidor e mesmo subversivo.' Assim, se os conceitos, idéias e suspeitas que nascem da filo- sofia politica tem alguma serventia, esta esta em serem postos a funcionar. Um dos modos disso é fazé-los pensar uma sociedade — no caso, a brasileira. Estou persuiadido de que o destanche entre nés da filosofia politica — que é uma das reas da filosofia em que temos gente bem capacitada trabalhando — dependera em boa 1. Falar em critica faz penser em Kant. Mas hi uma grande diferenca entre 0 que era critica para 0 fil6sofo alemao € o que ela deve, ou pode, ser em nos- 505 dias. O tribunal da razao kantiano destituia a superstigao, 0 preconceito. Por ser da rado, mais do que por ser tribunal, minava os fundamentos do trono e do altar. Exerceu importante papel na contestaga0 20s valores estabelecidos. Hoje, porém, na expressao “tribunal da razao” o primeiro termo parece pre- valecer sobre o segundo, ¢ a razio se entende como repressora, porque julga. Para 16s, do lado do trono e do altar, ou seja, da repressao, esté 0 judiciario. E épor isso que a critica, o grande legado terminolégico kantiano, hoje precisa ser mais sub- versiva do que judicante: seu papel nao é tanto o de investigar o que tem legitimi dade, sim, sobretudo, o de destituir 0 que aparece como poderoso. 10 medida de sabermos priorizar questdes com as quais sintamos um compromisso forte, desse que nos agarra pelo estmago, ¢ nao apenas um vinculo frouxo, estritamente contemplativo. A filosofia politica precisa assim explicitar muito bem seu elo com o mundo da.agao, com tudo o que este possui de frigil, duvidoso, efémero. Basta, alids, ver que ainda hoje consumimos obras que nos vém do mundo capitalista avangado, e que partem de um proble- ma ou episédio especifico de ka; mas nem por isso tém, esses livros, menor valor; 0 curioso & que sao repetidos por aqui, ¢ até se expli- ca, a nossos concidadaos que os leiam, 0 contexto preciso em que nasceram, Deixa claro que essa origem nao amesquinha tais obras; mas raras vezes nos atrevemos a comegar, também, de algo tio fra- gil, local ou datado. As circunstancias do mundo desenvolvido, por débeis que sejam, ainda expressam a nossos olhos uma dignidade, mais que isso, uma necessidade, de que nossa vida, social ou poli ca, parece desprovida.” Em outras palavras, continuamos achando 2. Dou.um exemplo de erro meu, para nao parecer que estou criticando ape- nas os outros. Bastante tempo atras, traduzindo Derrida, deparei com uma pas- sagem em que ele usava sucessivamente os verbos réfléchir e réfiéter, que ambos se dizem “refletr” em nossa lingua, s6 que no primeiro caso expressando a agio dde quem pensa e, no segundo, de quem ou o que espelha. Um reflexo, que feliz- mente dominei, quase me levou a lamentar que em portugués nao tivéssemos dois verbos distintos para exprimir duas idéias diferentes etc. etc. (e isso quando © autor, justamente, estava enfrentando a distingao francesa entre os dois, a fim de formar uma cumplicidade que, entre nds, esta dada). Curiosamente, 0 mesmo reflexo poderia levar-nos a lastimar que play, jouer, spielen entre nés se possam. dizer “jogar’, “brincar’,“representar” e ainda de outras formas. Duas conclusdes, disso. Primeira: 0 que vale para nossa hist6ria, nossa poli tica, nossa sociedade, vale igualmente para nossa lingua. Colocamo-nos sistema- ticamente em posigio de inferioridade. Aceitamos a circunstincia do Primeiro Mundo como necessidade, ¢ redurimos nossa necessidade a falha ou caréncia. Segunda: esse é um jogo (ou brinquedo? ou representagao?) em que 56 podemos perder, vencer nunca. Ora distinguimos 0 que no Atlintico Norte esta unido, ara tunimos o que la esta separado, Mas por que estarao certos eles, € nao nds? Por que algum estara certo, ¢ outro errado? n que o universal pertenceao Primeiro Mundo, e que estamos confi- nados no particular. Pouco importam os imimeros trabalhos que, nestas décadas, a comecer pelo Manifesio Antropoféigico, de Oswald de Andrade, mostraram como nossa condigio de esguelha, de viés, de través pode permitir uma leitura pelo menos original: em filo- sofia, continuamos reféns de alguma dependéncia.’ A ambigao do presente livro estard atendida se contribuir para deslanchar uma reflexio, uma produgao neste rumo. Se vamos, nos artigos que se seguem, articular politica e Brasil, qual a diferenga entre este projeto ¢ um de ciéncia politi- ca? Como distinguir, desta tltima, a filosofia politica, na qual nos inscrevemos? Penso que cabe recusar certas distincOes ébvias, po- rém duvidosas, como as que recortam filosofia e ciéncia segun- do a mesma oposi¢ao que haveria entre teoria e pratica, ou ainda entre vida teorética (ou contemplativa) e vida ativa: pois a pré- pria filosofia politica nao pode viver sem elos com a agao. A dife- renga ndo esté naquele reorte, mas no modo como a filosofia politica se liga a acao. Diria que — em politica, pelo menos — a filosofia terd, sempre, que ser mais imaginativa que a ciéncia. Essa ultima esta- 14 mais ligada a0 monitoramento da agao imediata. Fara estu- dos, sondagens, propostes.Se com isso ter éxito ou nado, ignoro. Nao nego suas qualidades,seus resultados. Mas seu enfoque dis- tingue-se do filoséfico. A flosofia nao € ciéncia, assim como nao © so essas outras formas de conhecimento que se chamam as artes ea literatura: em todis elas, age o sonho. 3. Creio que € desnecessirio dizer que nao defendo nenhum fechamento sobre si, nenhuma patriotada cutural. Tudo o que é bom deve ser incorpora- do, venha de onde vier. O que cco € 0 viés subalterno, a subserviéncia 2 A ciéncia costuma ter por ideal implicito o tiltimo estado — constantemente atualizado — da informagao. Um ideal freqiien- te na ciéncia, e mesmo nas ciéncias humanas, seria estar sempre on line. O seu passado ou se confirma — e deixa assim de ser pas- sado, jd que se mantém presente — ou se desmente e, nesse caso, se apaga. Por isso, 0 passado, enquanto passado, sempre se apaga. A ciéncia vive num presente ideal, intensificado. Ja as humanida- des, ¢ entre elas a filosofia, tém uma histéria de longo percurso, que elas nunca renegam. Como nao € possivel refutar um ro- mance — ou uma teoria filosofica —, sua historia nao é mar- cada por uma série de criticas aniquiladoras, como nas ciéncias. As humanidades nao tém uma validade priorizada no presente. Seu corpus constitui um patriménio,* coisa que nao teria sentido algum para as ciéncias: tudo o que nas humanidades se produ- ziu continua dotado de validade. Sua hist6ria nao é um proceso de perda (do que é refutado ou contestado) e de progresso (pelo qual o moderno se mostra superior ao antigo): é uma histéria na qual os diversos tempos permanecem — embora isso nao sig- nifique que seja estatica ou deva manter, com o passado, relagoes de reveréncia. Por isso mesmo, as humanidades nao sao, ao contrério das ciéncias, um produto da modernidade. O conhecimento que hoje chamamos cientifico € todo ele, em seus tragos essenciais, fruto dos tempos modernos, que revolucionam a idéia de ciéncia, pri- meiro, separando 0 sujeito do objeto, segundo, propondo-se a 4. A rigor, patriménio se refere a algo material, ¢ o termo adequado seria tradigio, Mas cada um de nés tem suas antipatias: nio consigo fazer 0 elogio da tradigao. Minha formacao a fez considerar como coisa estitica, conserva. dora. Prefiro entender que aquilo que permanece, como um classico, pertence ‘aos atives de nossa cultura: se isso Ihe confere materialidade excessiva, azar, sejamos materialistas ao menos na linguagem e nos gostos; dai, a preferéncia por patriménio. 3 dominar a natureza a fim de nos tornar seus “senhores e donos’, como quiseram Bacon e Descartes. Jé as humanidades nao cin- dem 0 sujeito do objeto, nem tém maiores efeitos praticos fora de si mesmas. Dai, curiosamente, que elas permitam — por sua propria antigiiidade, por sua senioridade em face dessas jovens modernas que sio as ciéneias — uma critica profunda e séria da mo- dernidade; dai que possam, até, por nao serem modernas, ser retomadas por aquilo a que se chama pés-modernismo. Com isso, de todo modo, proponho uma espécie de sinuca. Afinal, comecei dizendo que a filosofia, quando politica, tem que estar voltada para a agao e o presente. Contudo, agora acrescen- tei quea filosofia politica se distingue da ciéncia também politi- ca porque modera sua relagdo com o presente, mediante uma ligagao historica forte. Nao ha uma contradigao aqui? Penso que nao. Na verdade —e € neste ponto que critico a abordagem usual em histéria da filosofia —, 0 forte engate da filosofia politica com 0 passado € apenas um meio de expressar coisa mais importante: o seu forte desengate do imediato. $6 que esse desengate, e ¢ isso 0 que conta, nao é um distanciamento como o da vida contemplativa, e sim um distanciamento imagi- nativo. O essencial € que a filosofia politica imagina e sonha; é por ai que ela se distancia do imediato. Fazendo-o, ela concebe novas potencialidades. Ha algo de ut6pico, nela. Nao da utopia no sen- tido mais facil do termo (que constitui uma sintese do impossi- vel com o generoso), mas no sentido de tomar distancia do usual para procurar 0 inusitado. Sonhar 0 novi por que mito? Finalmente, ninguém se assuste demais: escrever um livro de filosofia politica sobre o Brasil nao implica uma abordagem sistematica. Nao se trata de elencar os conceitos maiores da teo- ria politica, atual ou classica, e de aplica-los, em obediéncia a um 44 programa predeterminado, aqueles que seriam os principais pro- blemas da sociedade brasileira. Um projeto como esse estaria va- cinado contra o risco e, por isso mesmo, fechando-se ao inespe- rado, nao abriria espaco para algo novo, que é a tinica razao para se pensar. Ao contrario, um trabalho como este pretende ser uma via de mao dupla. Por um lado — e é este o lado mais 6bvio —, alme- ja mostrar que os conceitos de filosofia politica, como piiblico, privado, representagao, detém alguma utilidade para se pensar uma sociedade determinada. Por outro — e aqui talvez esteja sua maior ambigao —, supoe que, de uma sociedade diferente das usuais, daquelas que deram a modernidade o seu cinone, seja possivel extrair provocacdes para a teoria, forgd-la a pensar 0 novo, a dar algum tipo de salto. Em suma, nosso descentramento pode ser, nao um deficit em face da qualidade, mas uma promes- sa de excedente ou superdvit em face do conhecido e usual, um aceno de novidade; quem sabe? Alguns dos assuntos que se seguem ja receberam tratamen- to de texto, por vezes em artigos de jornal. A discussdo teérica dos temas da cidadania tem tudo a ganhar ao dar-se a publico. Em outros setores da filosofia, a énfase técnica talvez seja mais Util; mas, certamente, nao na filosofia politica. Uma discussio das questoes da polis, para ter cabimento numa sociedade de perfil ainda que incipientemente democratico, deve pressupor que os cidadaos nao sejam apenas aqueles de quem se fala, mas também aqueles a quem se fala e, se possivel, embora isso se mostre muito dificil, aqueles que falam. Os textos que se seguem sao, porém, todos originais ou, pelo menos, amplamente reelaborados. Tenho a tendéncia, feliz ou infeliz, de rever 0 mesmo tema, de modificé-lo seguidas 5 vezes. Sou péssimo leitor de mim mesmo, porque sempre que me releio mudo alguma coisa. Sou igualmente incapaz de deixar de lado, por completo, um tema ou um texto que trabalhei. Quero acrescentar, as vezes retirar, algum ponto. Assinar — isto é, conferir o endosso final ao texto, mandé-lo seguir, no mundo, seu caminho proprio — nao é, para mim, o fim do processo de escrita, mas somente uma etapa. Assino, mas depois sou toma- do pela febre da reescrita. Aqui, esta tudo reescrito — e, as vezes, por completo. Esta talver seja uma dificuldade minha de encerrar uma obsessao. Mas ha também, no caso deste livro, uma convicgao, Se considero importante participar das discusses dos temas atuais pela imprensa, entendo, porém, que esta participagao nao esta no plano da mera opiniaio — mas no da discussao de idéias. Ma- téria politica, ou ética, nao tem na imprensa especializada (nos journals) o seu lugar por exceléncia, e na imprensa leiga (os jor- nais) um espago degradado de mera divulgacdo. Pois se € na im- prensa cotidiana, justamente, que a matéria ética ou politica sera posta a prova! Contudo, um artigo de jornal esta submetido a regras precisas de tamanho, de simplificagao de linguagem, de destina¢do a um leitor mais ou menos padrao. Nada impede que © artigo assim circunscrito respeite esse leitor, e pretenda, com ele, debater. Dai minha crenga de que um texto possa, as vezes, mover-se em varios niveis, destinando-se tanto a um publico mais culto quanto a um publico mais amplo. Porém, na hora de passar do papel barato ao mais caro, de dar ao artigo a duracio relativamente mais longa que o suporte-livro proporciona, con- vém desenvolver aquilo que ficou meio contido, e dar as idéias 0 tempo ¢ 0 espaco que, de inicio, Ihes faltou. Se nisto tive ou nao éxito, é 0 leitor quem o dira. Sete Praias, abril/junho de 1999. 16 AGRADECIMENTOS Agradeco a Ana Lticia Pastore Schritzmeyer o encorajamen- to eo incentivo que me deu para este livro, que sai a piblico coincidindo com o nascimento de nosso filho, Rafael. A ela ea ele, pela felicidade havida e por haver, sou grato. Também agra- deco a todos os que discutiram 0 manuscrito, no todo ou em parte, e em especial a José Murilo de Carvalho, Marilena Chaui, Jurandir Freire Costa, Alfredo Bosi, Peter Burke, Olgaria Matos, Eduardo Rinesi, Heloisa Starling, Newton Bignotto, Wander Melo Miranda, Luiz Werneck Vianna, Jorge Forbes, Marcelo Jas- min, Maria Alice Rezende de Carvalho, Paula Montero e Nicolau Seveenko. A todos eles sou grato pelas sugestdes e mesmo discor- dincias, e € claro que por isso nao tenho como atribuir-lhes a responsabilidade por idéias que podem nao ser as suas. Registro, além disso, que o Conselho Nacional do Desenvol- vimento Cientifico e Tecnolégico, ou CxPq, financiou a elabora- 40 destas paginas, mediante bolsa de pesquisa. E, finalmente, 0 Instituto de Estudos Avangados da usr, por proposta minha, ini- ciou com este livro um seminario, que espero continue, sobre obras em fase de conclusao. A sociedade contra 0 social ou A sociedade privatizada' O exame da linguagem corrente hoje no Brasil constata uma curiosa oposicao entre os termos sociedade e social. [sso ocor- re, em particular, no seu uso por parte de empresarios, politicos ¢ jornalistas — para comegarmos por uma caracterizagao profis- sional. Mas também sucede, para passarmos a uma determina- ao politica, que, porém, se sobrepée a primeira, por parte dos setores mais a direita. Estes ultimos anos, no discurso dos go- vernantes ou no dos economistas, “a sociedade” veio a designar © conjunto dos que detém o poder econdmico, ao passo que “social” remete, na fala dos mesmos governantes ou dos publicis- tas, a uma politica que procura minorar a miséria. Assim, “a sociedade” é ativa: ela manda, sabe © que quer — e quer funcio- nar por si mesma, sem tutela do Estado. Corresponde em boa medida ao que, na linguagem marxista, se chamariam as classes dominantes. 1. Uma primeira versio deste artigo saiu na Folha de S, Pauloem 27/6/1993, pels. 19 ‘A confirmar essa leitura, podemos pincar frases quase a esmp, tantas sao el: modo de por fim a indexagao da econo- mia, disse Eliseu Resende, quando ministro da Fazenda, “seria acertado com a sociedade”;? na mesma ocasiao, afirmava 0 de- putado Delfim Neto — respondendo a tese de que o atraso na aprovaco do Imposto Provisério sobre a Movimentagao Fi- nanceira teria feito 0 governo perder 600 milhdes de délares por més — que, “ao contrario, a sociedade ganha 600 milhoes de délares por més”. Jéo social tem, por melhor ocorréncia no discurso politico, @ lema “tudo pelo social”, que serviu ao presidente Sarney para enunciar a intengao de acudir aos pobres, por meio de ministé- ios e agéncias que reduziriam a miséria absoluta — mas que acabou transmitindo uma imagem de franco fisiologismo e clien- telismo. Essa politica nunca deixou de ser assistencial, paternalis- ta — ao oposto do que se entende por cidadania —, dado que apostava nos dispositivos da caréncia e da caridade. ‘Assim se mede a distancia que vai da sociedade ao social: este adjetivo indica tanto as caréncias quanto © socorro que, sem lhes pér fim, apenas as minora. Fica na esfera do paliativo. A caridade pode ter mudado de alcance nas uiltimas décadas, mas permanecem alguns de seus tracos essenciais. Estes so os que determinam uma hierarquia na sociedade como sendo desejada por Deus, determinada pela natureza (é 0 que dizia o pensamen- to tradicional) ou, pelo menos — assim hoje expressa 0 discur- so dominante —, como resultado normal do jogo das relagdes sociais de mercado. E em sua atuagio efetiva os 6rgios do Esta- 2. Folha de S. Paulo, 21/6/1993. O comentario de Delfim Neto data de dois dias depois, no mesmo jornal. 20 do que se ligam a assisténcia ou a caridade aparecem como nao sendo nada sérios, mas — no mdhor des casos — corporativis- tas, ou, com maior freqiiéncie, corruptos. Jaa seriedade fixou residéncia nos ministérios econdmicos, que dente as varias instancias de governo sé as que prevale- cem.* A economia ¢ séria e moderna; 0 social, perdulério e ar- caico. E 0 que justifica priorizar 0 socorro a um banco ou a banca em geral, sobre as necessidades sociais. Torna-se imagi- navel um discurso que pretenda o fim do social, a fim de eman- cipar a sociedade. Nao haveria, desse ponto de vista, grandes males em extinguir 0 que govertos ¢ politicos chamam 0 “so- cial” (0 que se associa, alids, a um sonho que ronda o pais, 0 de uma politica sem politicos‘). © problema, porém, é que entre“a sociedade” e “o social” se trava uma luta sem tréguas, por que ndo, de classes. Isso porque 0 social e a sociedade nao se referem aos mes- mos meios sociais, as mesmas pessoas, a mesma integragao que tenham no processo produtivo, no acesso zos bens, a0 mercado, a0 mundo dos direitos. O social diz respeito a0 carente; a socie- dade, ao eficiente. Por isso a distancia entre os dois se mostra quase intranspo- nivel. Nao se trata apenas de pasar do adjetivo ao substantivo, 3. Sempre ha vozes dissonantes desst primazia econémica, até no inte- rior do proprio governo, mas sistematicamente sio derrotadas. Cito Adib Jatene, entao ministro da Saiide, em choque com o nticleo de poder, que alias © acabou utilizando e vencendo: “Ha uma visao diferente da area economi- cae da drea de satide. $6 que a area da saude € prioridade de governo. Foi prioridade de campanha [ou seja, da campanha presidencial de 1994] (Folia de S. Paulo, 22/6/1995, p. 1-6). Esse discurso tem légica: nele, a economia é ‘meio de assegurar escolhas politicas e/oa naciorais, as que 0 povo, como eleitor, efetuou. 4. Vejam-se, adiante, os artigos “O Brasil pela novela” e “Uma politica sem politicos: Collor e Senna”. a ou do passivo ao ativo. Simplesmente, nao € possivel a0 objeto da ago social tornar-se membro integrante e eficaz da sociedade. A razao disso é que a diferenca entre 0 social e a sociedade nao é somente de perspectiva ou atitude: o social é aquilo que nio pode tornar-se sociedade. Faltam, é claro, razées para justificar a cisio exposta, a es- quizofrenia entre social e sociedade. Faltam argumentos para sustentar o formato do que a imprensa e os conservadores cha- mam de “a sociedade”. Por que aceitar tao facilmente que a forma por exceléncia de manifestar-se a voz coletiva seja a da economia, que as vozes a considerar sejam as dos “agentes eco- némicos”? por que aceitar que se exclua 0 mundo da politica, com seu pressuposto democratico da igualdade? e por que, na economia, supor que s6 tenha racionalidade para agir quem detém o capital? Numa sociedade democratica atual, 0 espaco ptiblico se delineia no conflito dos intimeros discursos que 0 atravessam € constituem — incluindo os que tratam diretamente da politica e da economia, mas também todos os que dizem algo sobre e para a sociedade, até mesmo, nio raro, os religiosos. Ora, o que justi- fica reduzi-los para sobressair a voz da economia? Por que acre- ditar que ela fale por ultimo, que seja sua a decisto soberana, como, na sociedade pré-democritica do século xvi, a voz de Roma’ (que, uma vez falasse, encerrava a causa ou a discussio) ou o estrondo dos canhoes, dos quais se dizia que constituiam a razo tiltima, e definitiva, dos reis Tera sucedido ao dogma reli- gioso e a forca armada, como discurso irretorquivel, 0 da econo- 5. Roma locuta, causa finita 6. Nos séculos xvit € XVII as vezes se escrevia nos canhdes “iltimarazao dos reis’ para indicar que, nao havendo mais didlogo ou arrazoado entreas partes, s6 restava a vor da guerra. Ver a apresentagao de meu A tiltima razio dos reis, Sao Paulo, Companhia das Letras, 1993. mia? Mas a irretorquibilidade nao é, justamente, algo que nega, de forma radical, a democracia, na qual todas as posi¢Ges — e por isso mesmo todas as falas — se espera que sejam retorqui- veis ou cambiaveis?” Com esse discurso se transmite, implicita ou sub) mente, a convicgdo — pouco contestada — de que a sociedade é ativa enquanto economia, ¢ passiva enquanto vida social. Re- metem-se a caréncia, a passividade, assuntes importantes como a satide, a educagao, a habitagao, o transporte coletivo. Ao mo- do de trata-los, confere-se 0 selo do fisiologismo e do cliente- lismo. Aos profissionais dessas areas se paga mal e se poe sob ‘suspeita. Na verdade, “a sociedade” de que fale talvez seja herdeira do que o século xvi chamava “la société”, que gravitava em torno da corte (devo essa sugestao a Alfredo Bosi), ou daquilo que 0 xix denominou “la bonne compagnie’, literalmente, a boa companhia, a sociedade dos cronistas sociais. Contudo, um acréscimo ocorre: a sociedade do xvit nao se definia tao dire- tamente pela economia. Hoje, é 0 seu poder sobre a economia que a distingue. Ela negocia e decide. Seu conceito nao esta mais nas belas aparéncias, da vida suntudria ou divertida dos cadernos de variedades dos jornais; est na seriedade, nas pagi- nas de economia. Sabe-se, desde Freud, que as palavras nao se usam de forma inocente e que carreiam, em especial quando mais parecem naturais, pressupostos indiscutidos e, por isso mesmo, fortes. Mas que preco paga uma sociedade como a brasileira (usando aqui o termo sociedade num sentido amplo,menos incorreto) a0 7. £, por isso, incompativel a democracia com aditadura militar e com a teocracia, nao por acaso seus dois maiores antagonisias na segunda metade do século xx. 3B cindir-se assim entre o substantivo e 0 adjetivo, entre o essencial € 0 dispensavel, entre agao e caréncia? Desde que a vida social se amesquinha no fisiolégico, e que a atividade econdmica mono- poliza a imagem da agao, da eficiéncia e da modernidade' vive- mos uma espécie de esquizofrenia. E Gbvio que o pais nao esta dividido em duas realidades, como os “dois Brasis” de que se falou em décadas passadas. O problema ¢ esse discurso que de tao difundido se tornou dogma de fé, segundo o qual nossa economia esta cindida de nossa vida social —como se uma nao implicasse a outra. O grave est nessa exclusio a que sao submetidos a vida social, 0 cotidiano, a teia das relacdes que se nutrem entre os homens — um tecido rico e fascinante, mas agora conotado pela imagem de coisa menor, atribuida por aqueles que se proclamam sérios, que se dizem a sociedade. A cisdo entre 0 social ¢ a sociedade, essa subordinacao da vida social & econdmica, cresce no discurso. Hoje esta mais forte até do que no regime militar. Nao estranha entio a desconfianga de muitos ante o discurso que a imprensa e a drea econémica — quer no empresariado quer no governo — reiteraram ao longo da década de 1990, segundo o qual a privatizacio das empresas estatais ineficientes seria o primeiro passo para o resgate da divi- da social. Elas foram privatizadas, e 0 débito social s6 aumentou. O problema € que, antes mesmo de se proceder a privatizagao de uma estatal ou outra, o discurso dominante em nossa imprensa ja tinha privatizado “a sociedade"? 8, Adiante falarei da agdo praticada com energia, no artigo sobre Collor ¢ Senna, 9. Em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo, no dia 3 de julho de 1993, Antonio Callado comentou versio anterior deste artigo. Depois de resumi-lo € de concordar com suas teses, 0 que muito me honrou, concluiu: “Quando tera comecado a surgir essa designaglo de ‘a sociedade’? Eu me lembro de ouvi-la 24 «em discursos e entrevistas de Ulysses Guimaraes. Mas 2 fala de Ulysses era agra- divel, meio patricia e displicente, e a expressio me pareceu coist sua, pessoal De repente, a sociedade’ ganhou forsa total. Ela se apresenta como sendo o Brasil inteiro, quando nao passa daquela pequena parte do pais que tem edu- cacao sofrivel e conta bancéria 6tima, que toma banho todos os dias e faz varias refeigoes” (Folha Llustrada, p. 4-4). Outra explicagao que ouvi, de um amigo, é que “sociedade” se teria forta- lecido como abreviagao para “sociedade civil, Esse iltimo termo teria os defeitos de comprimento e da carga conceitual dificil, tornando-se de com- preensdo mais restrita; j4 “sociedade” seria imediatamente legivel. Pode ser: nos dois casos, é a simplicidade que conta, até mesmo para favorecer o triun- fo de um termo que acaba tendo sentido bem distinto do que pretendia o pro prio patricio Ulysses Guimaraes (desaparecido, como se sabe, emfins de 1992), com sua idéia de “Constituigae Cidada”. 25 Grandeza e miséria do “politicamente correto” 1. A AGAO POLITICA COMO COMPENSACAO PELA HISTORIA PASSADA Poucos anos atris, no comego da década de 1990, pergun- tavam alguns se a doutrina norte-americana do politicamente correto (ou Pc} tinha chances de chegar ao Brasil — mais preci- samente, de conseguir em nossas universidades (e cultura) im- plantagao comparavel a que conquistou nas dos Estados Unidos. infelizmente. E nestas linhas Argumentei que nao, e acrescent que retomo a questao: por ingénuo ou exagerado que seja 0 “politicamente correto’, se ele nao chega aqui nao é por seus defeitos, mas por suas qualidades. Desenvolveu-se nos Estados U1 que defendem es minorias, a idéia de que ¢“politicamente incor- reto” — melhor dizendo, de que é condenavel — usar termos que conotem preconceitos. Assim, a propria palavra negro (em inglés) — que substituiu black (preto), colored (pessoa de cor) € © detestavel nigger (altamente pejorative) — nao seria desejavel, idos, nos meios intelectuais 6 devendo-se preferir “afro-americano”, O mesmo vale para varias outras palavras, como “deficiente’, “solteirao” — em suma, todo termo que possa dar a entender uma falha, um defeito, e que agora € carregado, mediante circunléquios, de positividade. E isso se acentua quando comunidades fortes — como os homos- sexuais da California — interferem em roteiros de filmes e outras obras, ou quando figuras hist6ricas sao condenadas me- diante critérios morais fora de sua época (como sucedeu quan- do um condado da Louisiana resolveu que nenhuma escola pub) ca de sua jurisdigao deveria ostentar 0 nome de quem tivesse possuido escravos — o que eliminava, por exemplo, Thomas Jef- ferson). Tudo isso soa exagerado, e no Brasil é apresentado como ridicule. Contudo, para fugir ao simplismo no trato da questao, € preciso ver que a voga do “politicamente correto” nao constitui um fendmeno isolado, mas esta ligada a outras topicas. Duas consideragées preliminares: primeira, 0 termo “poli- ticamente correto” foi cunhado pelos detratores e nao pelos defensores da posigao que assim é retratada. Ninguém afirma ser politicamente correto. O termo sempre se expressa na tercei- ra pessoa, ou pelo menos jamais na primeira, como acusa¢ao ou zombaria. Segunda observacao: evitemos, contra o “patrulhamento” promovido pelo pc, tomar a defesa dos produtos da industria cultural. Quem, em sa consciéncia, pode dizer que ela se distin- ga pela liberdade de criagao? Décadas a fio, Hollywood se confor- mou ao codigo Hays, que proibia beijos de mais de trés segundos de duragdo ou que fizessem uso da lingua, ¢ difundiu mundo afora a impressio de que os casais norte-americanos dormissem em camas separadas. As séries de TV norte-americanas sao fruto de imimeras injungdes econdmicas, sociais, politicas: a propria presenga de negros, nelas, é conquista de movimentos sociais. Assim, que minorias examinem com a lupa roteiros e programas 7 para reclamar de termos preconceituosos nao significa que al- guma censura “esquerdista” venha massacrar obras-primas cria~ das em plena liberdade. Nao sao obras-primas, nao foram criadas sem pressao, nem a critica a elas é esquerdista. Hé, além disso, que destacar 0 que ¢ positivo no chamado Pc: a idéia — ébvia para qualquer lingiiista, psicélogo ou psi- canalista — de que a linguagem nao é neutra, mas expressa, produz e reproduz uma visdo de mundo. Nos anos 50, costuma- va-se comentar que os norte-americanos respondiam coisas dis- tintas conforme Ihes perguntassem se seu governo deveria man- ter relag6es diplomaticas com a China Continental (sim, sem nenhuma diivida), a China Popular (sim, na maioria) oua China Comunista ou Vermelha (de forma alguma!) — embora se tra- tasse do mesmo pais. Ora, se a linguagem nao se limita a tradu- zir fatos, mas expressa pontos de vista, é preciso exp6-los e even- tualmente combaté-los. Pode haver ingenuidade ou excesso, as vezes, mas tanto ja se exagerou numa direcao que nao haverd grande mal em ir uns poucos anos no rumo oposto. Eisso porque a idéia de compensagao pelo mal passado tem um pressuposto interessante. E 0 que justifica as politicas de agao afirmativa, popularmente conhecidas como sistema de cotas, que nos Estados Unidos procuram favorecer os grupos sociais que no passado sofreram discriminagdes, Assim, para o negro ou a mulher ingressar em certas universidades, ou em certos empre- 08, ele — ou ela — nao necessita de um desempenho igual a0 do varao branco. £ como se ele (ou ela) tivesse um adicional de certo ntimero de pontos, de modo que em caso de quase-empa- te pudesse prevalecer sobre quem pertence a um grupo histori- camente mais aquinhoado. Ora, essa idéia se mostra bastante defensavel: a historia tem que ser pensada como o que foi (ou é), a saber, como uma relagdo de violéncia, na qual certos grupos sociais prevaleceram sobre outros. Esse predominio nao foi ino- 28 cente ou casual, mas deliberado, e resultou em chagas que ten- dem a se perpetuar. Se nio houver uma ago clara e decidida em rumo contrario, os negros —e as mulheres — sempre reprodu- zirio seus maus escores na disputa pelo emprego, e a hierarquia social se manterd mais ou menos.a mesma.' Dai que se justifique uma correcdo de rota, gerando até o que pode soar como injus- to ou excessivo, mas que — se as medidas forem temporarias e bem orientadas — constituiré um dos melhores meios de rever- tera desigualdade? 1. No recorte atual da sociedade, mais conservador que nos anos 80, a desigualdade social nao ¢ atacada enquanto tal, mas minorada mediante poli- ticas que favoregam a progressio dos mais pobres que tenham meérito, Parte da “oxGuizagao” da sociedade, isto é, da substituigao do conceito de socieda- de civil pelo de entidades beneméritas que se voltam para a prética localizada do bem, uma vez que reaunciem a melhorar a sociedade como um todo, con- siste em atividades que permitam a nova exceléncia — ao pobre inteligente, ao bom esportista ou 2o rosto bonito — ascender socialmente. Desnecessirio dizer que isso nao resolve nada: em verdade, apenas retoma a velha beneme- réncia do século x1x. Evidentemente, nao se pode confundir a aco das oxcs em geral com essa acdo, que é de algumas, e além do mais deve-se convir que mesmo isso é melhor que nada. Contudo, a cooptagao das camadas inferiores da sociedade nao responde a um projeto de justica: nto passa de velha estratégia voltada a manter a desigualdade, renovando em qualidade (e por vezes em belera) as classes dominantes. Sobre esse procedimento no Brasil do século xix, quando ram cooptados os mulatos inteligentes, para renovar o espirito, ¢ as mogas pobres porém bonitas, para assim adquirir corpos formosos, consultar 0 ilti- mo capitulo do belo livro de Gilda de Mello e Souza, O espirito das roupas. 2. Um dos melhores meios, mas nao necessariamente o tinico, ou sequer 0 melhor em si— apenas, © melhor num arsenal de meios nao-revolucionérios. A aco afirmativa, ou o politicamente correto, constituem modos de aga0 reformista, Se penséssemos em revolugio, a coisa seria diferente. Mas também os problemas seriam outros, e poderiamos, deveriamos, perguntar: 1) uma proposta de revolugao, que mude o mundo pelo avesso, é vidvel hoje em dia (a no ser nos cafundés do mundo)?; 2) e, com toda a violéncia que ela implica, 6 desejavel? 29 Aqui est 0 que a zombaria contra 0 pc dissimula: contra velhas idéias conservadoras, por exemplo, a de que o negro s6 é bom se submisso. Nos Estados Unidos, éa imagem do Pai Tomas; no Brasil, a da mae negra ou a do negro “com alma branca”. O que dizem ainda hoje nossos livros escolares, a despei- to de elogiaveis iniciativas (inclusive oficiais), sobre o negro e o indio? Quantos preconceitos nao rodam por af, moldando a mente das criangas assim como moldaram as nossas? A critica efetuada pelo Pc afeta sobretudo a pedagogia. Por isso, é errado dizer que “o pessoal do Pc” seja, s6 ele, ideolégico; a educagao e a informagio (jornais, TV etc.) jé o sdo, € 0 PC luta por escolas e meios de comunicacao que respeitem melhor a diferenca. Com isso tudo, ha ridiculo? Ha, mas é o de menos — e dele trataremos adiante. Mais grave € que o chamado pc exiba um trago tipicamente norte-americano, que é 0 do lobby. A socieda- de norte-americana perdeu hé muito a nogao de um espaco publico,’ em que se discutem politicas amplas e gerais: a opiniao li se dissolveu numa infinidade de pequenos interesses locais ou setoriais. Estes se prestam melhor ao engodo, porque, na falta de uma definicdo geral, as promessas a qualquer segmento social podem facilmente ser frustradas. Tal como ha lobbies da indiis- tria militar, surgem lobbies dos discriminados, é claro que de estofo mais democratico — s6 que os primeiros alcangam mais vitorias do que os segundos, que quando muito conseguem um 3. A esse respeito, além do classico de Richard Sennett (O declinio do homem piiblice) — que, € verdade, nao se aplica apenas, nem fundamentalmen- te, aos Estados Unidos, mas a toda 2 cultura pés-rousseauista — convém lem- brar o brilhante ensaio de Russell Jacoby, Os tiltimos intelectuais. Esse livro argumenta que o intelectual que vivia no centro urbano, ao deslocar-se para 03 subiirbios € para os campi universitérios, perdeu © que chamamos de espaco piiblico, para tornar-se 0 que eu chamaria de um lobista de si mesmo. E a car- reira universitéria o que € hoje, num ambiente competitivo, sendo ur veemen- te lobby conjugado na primeira pessoa? 30 lugar ao sol, ¢ ndo uma nova sociedade. Ainda assim, isso é bem mais que no Brasil. Espanta — e revolta — que se zombe das interferéncias pc enquanto se calam as des militares ou empresi- tis: afinal, todos sao lobbies. Por que, entio, sera tao dificil o “politicamente correto” implantar-se aqui? Primeiro, porque 6 rc — embora nao seja de esquerda — tem uma remota divida com o pensamento de Marx. Foi Marx, com a critica da ideologia, quem forjou algumas das ferramentas que melhor permitem ¢ecifrar o que um discur- So transmite sub-repticiamente. Assim, ¢ inevitavel que uma cri- tica da fala preconceituosa deva algo a critica marxista da ideo- logia. Dessa forma, pelo menos em nosso pais, 0 PC paga pela queda do comunismo, e sofre com o recuo generalizado des rei- vindicagées sociais. Mas hé outra razao, a principal. O rc constitui a ponta de um iceberg formado por movimentos sociais organizados na defesa de direitos humanos (no caso, os de minorias). Como os Estados Unidos pulverizaram sua vida politica em ages de lob- ies, esses movimentos sociais, as vezes generosos, as vezes egois- tas, se constituiram de uma forma que pouco tem de esquerdista: a esquerda sempre mantém algum compromisso com o soci mo (por vago que seja esse termo), ¢ portanto sempre enuncia um projeto de sociedade, nao de grupos is- 4. Argumentarei, adiante, no artigo sobre o real (“O real ¢ seu imaginario, ‘ou O fim ¢a esquerda iluminista”), que o eixo principal a definir a esquerda — aquilo sem o qual ela nao pode ser esquerda — esti em reconhecer 0 conflito, em entender o seu teor social. O # percebe o conifito; mas seu problema € que nem sempre compreende que ele € social; com freqiiéncia 0 transforma em étnico, ou em mero conflito entre homens ¢ mulheres. O conflito € pois, con- vertido em naiureza —em algo que esti acima ou fora da acdo humana. Ora, ‘uma perspectiva de esquerda reconhece o carater especifico do conflito racial ‘ou de género, mas 0 situa socialmente — e portanto no campo em que os humanos podem e devem intervir. Organizagées dessa espécie so fracas no Brasil, ¢ as que existem nao contam com a simpatia da opiniao publica. E isso € de se lamentar nos ataques dirigidos ao Pc: antes de se zombar dos exageros de certos movimentos norte-americanos, nao seria preciso romper a cumplicidade que ata nossa opiniao publica a quem incita a violéncia nas radios matutinas, a quem ridiculari- zae humilha a mulher nos programas de humor? Se alguma cul- tura pode dar-se o luxo de achar risivel o excesso nos direitos humanos, nao é, certamente, a nossa.° JUSTIGA E MAU HUMOR Uma palavra sobre o humor. Por uma razao que tentaremos esclarecer, nossa opiniao ptiblica desenvolveu um radical antago- nismo entre o pc e o humor. Isso ocorre sobretudo nos cadernos de cultura dos jornais. Elogiam-se pecas ou espetculos engraga- Assim, se por exemplo 0 conilito homens/mulheres & remetido & natureza, ou mesmo descrito em termos naturalizantes, a intervengio humana no mesmo fica bastante limitada, Nao ira além de priticas compensat6rias, diga- mos, pelos prejuizos que as mulheres sofrem no ambiente de trabalho, no espa- 0 piblico etc. Porém, se quisermos que haja realmente mudangas, sera preci- so entender que mesmo os conflitos que tenham a ver com diferengas étnicas ‘ou de género somente continuam existindo & medida que 0 natural é retraba- Ihado socialmente — e, portanto, 0 conflito se torna social CCuriosamente, a naturalizacao das relagdes sociais 6 comum no Brasil, con- forme argumentarei adiante (°O real e seu imaginério”) e conforme tém mos- trado, entre outros, José Murilo de Carvalho e Marilena Chaui. © que nos sepa- ra do °c nio é, portanto, isso — mas o fato de que uma coisa é a naturalizagio 40 conflito social, que ele efetua; outra, a des relagbes sociais, que delas extirpa © carter conflituoso, e que é nossa marca registrada, 5, Uma primeira versio deste artigo apareceu na Fotha de S. Paulo, caderno “Mais!”; em 29 de marco de 1992, p.5-3.Continha a maior parte das idias aqui expostas. Contudo, 0 que se segue ¢ inteiramente novo. 32 dos porque sao “politicamente incorretos”. (E praxe acrescentar- se, 4 forma adjetival “politicamente incorreta’, um “deliciosa- mente”: a injustiga ¢ gostosa, derrete-se na boca.) Uma das raras ctiticas que uma midia quase totalmente americanofila dirige cultura dos Estados Unidos esta na importancia que li se confe- reao politicamente correto, o qual submeteria as relagdes huma- nas a um forte estresse — o de juizos implaciveis e demasiado racionais —, matando-lhes a espontaneidade. Mas insistamos no humor. A freqiiéncia com que esse tipo de afirmagao se lé na imprensa faz pensar que o humor cresca na mesma proporcao da, por assim dizer, incorrecao politica, Na verdade, porém, 0 que temos aqui é tdo-s6 um novo avatar de velho antagonismo de feitio conservador, nao apenas nosso, mas quase mundi vida em sua complexidade estariam na razo inversa do investi- mento rigoroso na justi¢a. Quanto mais justo for um empenho politico, mais o seu praticante se estaria incapacitando de lidar com as coisas como elas sao e, sobretudo, com os humanos assim como sao. A razio para tanto € que a vontade decidida de introduzir a justica neste mundo seria tributaria de um racionalismo radicalizado. De : o humor, a leveza, a capacidade de lidar com a tanto usar a razio, perder-se-ia o jeito, a ginga com que se lida com o mundo. Uma teoria jamais daria conta dessa realidade. Dai que as teorias, inclusive as sociais, seriam inadequadas — ou pelo menos bastante insuficientes — para dar conta do que exis- te, e mais ainda para modifica-lo. Em larga medida, essa conviccao — ainda que tao forte no Brasil ou pelo menos em nossa midia — remete a Edmund Burke ea Alexis de Tocqueville, nas suas criticas a Revolugo Francesa. 6. Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France, que é uma critica devastadore da Revolugio Francesz quando esta esta ocorrendo. Tocqueville, 33 (E bastante curioso encontrar o parentesco de uma conviccao aparentemente ‘do pouco refletida,tao espontanea, de nossa mi- dia com autoresdo porte desses dois.) Implicitamente, trata-se de uma contestagao em regra da x1 Tese de Marx sobre Feuerbach,’ a qual propunhacessar as interpretacdes do mundo, a fim de vol- tar todos 0s esfrcos para mudé-lo. Queria Marx, com essa Tese, contrapor vida contemplativa do filésofo intérprete a vida ativa de quem quer modificar 0 mundo — melhor dizendo: ele nao negava que a vida contemplativa, 0 otium do sabio, tivesse cum- prido um papel histérico; mas desse mesmo papel saia a neces- sidade de dar-se um salto qualitativo, de passar ao negotium, de realizar na pratica 0 que a teoria tinha levado até o seu limite. Ora, no dispositive conservador, entende-se tal mudanga por impossivel,e subentende-se que o desejo de mudar s6 pode bro- tar de filésofos, que interpretam. Explicando melhor: Marx co- megaa ser Marx quando critica 0 interpretar filoséfico, nao como atavicameate errado, mas como insuficiente. Ja a direita coloca no mesmo bahio a filosofia, a interpretagao e 0 anseio de mudar 0 mundo, criticando-os, a todos, por incapazes de lidar com uma complexidade que deita raizes tao fundas que ¢ impossivel modi- fica-la mais quenum ponto ou outro. 0 Antigo Regime e « Revolugto, que & mais uma tentativa de compreender os fenomenos siciais do que uma tomada de posigao contra-revoluciondia. Na verdade, 0 que Tocxueville mostra € uma continuidade do Estado cemtraliza- dor de Luis uv par. projeto revolucionsrio (por isso, nao condena a Revo- lugao). © que ele ontrapoe a esta altima é, sobretudo, uma formasa0 m: senssta, como a ingesa, na qual um longo trato da coisa publica gera uma F capacidade para lidar, digamos, com a vida como ela é. Contudo, por isso mesmo, sua crtica € mais forte ao Estado instituido por Luis xv do que 0 dos jacobinos. 7. Numa tradugio livre:“Os fildsofos até agora interpretaram o mundo, de varias maneins; chyou a hora de mudé-lo”, As Teses sobre Feuerbach datam da primaversde 185. 4 Marx, querenéo passar do frasealo & acdo,* nao critica o interpretar em si mesmo, e sim em sua insuficiéncia. Interpretar, se foi necessirio ¢ positivo, nao é, contudo, suficiente: ha, agora, que agir. E até se pode argumentar que esse salto foi tornado necessario — e possivel — pela interprtacao. Portanto, esta nao € ma em si mesma Sua insuficiéncia nio é absoluta, mas a de uma etapa, a de uma condigao prévia. Sua insuficiéncia presente € indiretamente a prova mesma de suarelevancia, de sua neces- sidade passada. Contudo, para os possveis criticos de Marx ou do Pc ora em pauta, o impedimento nio estaria na passagem da interpretagao ao agi, isto é, na realizado da filosofia, em seu tor- nar-se mundo — ou seja, numa fase poserior aquela em que filo- sofar ou interpretar foi legitimo —, mas j4 no proprio élan, no arranque que leva i filosofia ou a hermenéutica. Dizer insufi- ciéncia, assim, é pouco: trata-se é de ileyitimidade. O fundamen- to nao ¢ insuficiente, é errado. Nao fala apenas uma passagem: falta, ou falha, tudo. Com um tal fundmento, a passagem nao fica apenas faltando— ela fica impedich, impossivel. A falha de baseestaria num modo tio radical de ver as coi- sas que resulta inad«quado e fantasioso, Marx contrastava a ina- ‘40 do filosofo tradicional, mesmo de equerda,com a agao que viria de sua imersao nas lutas proletérias. HA em sua obra, em especial no Dezoito Brumdrio, uma critica aos homens de letras — que formam o grosso do partido reptblicano,em 1848 — que 8. Uma leitura possivel da Tese consiste em etendé-la como uma critica & ret6rica: chega de frasealo, vamos a agao. Sem évida, a Tese € mais sutil que do trata de parar de falat, mas de cessar a voragem das interpretagoes. Contudo, 0 que podemes argumentar € que 0s rcios do “inte-pretar” so os mesmos usuaimente atrituidos a ret6rica: numa plavra, a falta de compromis- so com uma base s6lida, que seja a verdace ou —no caso — a agao legitima. £ essa base instivel, ou faltede base, que permite a oliferacao sofistica das pala- vras ou a vertigem de um interpretar sem ancora poderia ser endossada por Tocqueville ou mesmo Burke.” Mas, ainda assim, o que Burkee Tocqueville lhe poderiam redargitir € que mesmo aagao que ele, Marx, contrape a inagdo intelectua- lizada e beletrista faz parte, também, desse enfoque fantasista, literdrio, irreal. Tudo na esquerda — sejaelaa utépica, que Marx ¢ Engels criticam, oua “dentifica’, que eles instituem — ¢ assim visto como sonho e devaneio: falta-lhe o necessario enraizamen- to numa prética mais lenta, s6bria, mas a tinica a funcionar, por- que se baseia numa long: experiéncia, como a que a politica eo direito inglés proporcioram. No fundo, temos ai as oposigOes entre direito romano e common law, entre racionalismo ¢ empirismo, entre soberania popular e checks-and-balances, entre revolucio e evolucio, entre utopia e pratica moderada ou (dirdo 0s opositores) conservado- ra, € quantas mais — em que o primeiro termo da oposi¢ao sem- pre padece deexcessivo ricionelismo, enquanto 0 segundo, ape- sar de o valorizarmos menos, tem em seu favor 0 sucesso no trato do mundo real, 0 mundo dos homens." Enfim, uma tal cri- 9. Desse parilelo nas leituras entre Marx e Tocqueville, tratei em minha “Apresentagio” as Lembraacasie 1848 de Tocqueville. 10. Explicando um poucs: 0 direito romano, na imagem que dele usual- ‘mente se tem, parte de principios que codifica e impde ao mundo. Obra inte- gralmente racioral, o diceito wmano teria nz ligica interna de sua constitui- cao e na ordem ée sua ecposigio trages decisivos. Jé a common law, ou diteito costumeiro, baseia-se em precelentes e na tradigao. E certo que esse tradigao dita racional (seria uma “razaoartificial’, a de seguidas geraces de intérpretes da lei), mas é uma razao, digmos, mais empiric, menos ambiciosa, mais & escuta do munde do que no propésito de impor-the régua e compasso. A res- peito, ver meu Ae leitor sem medo, sobretudo o cap. i,“In tormento veritas’ A soberania popular éa gande ciagao da Revolugdo Frances. Tedricos da soberania jé havia desde séuulos, sobretudo Jean Bodin € Thomas Hobbes, ‘mas sua primeira grande apliacao sistemstica, tendo como sujeito © povo € rnio mais o rei, aparece com osjacobinos, ao radicalizar-se o movimento ini- ciado em 1789, E verdade que a Constituigao dos Estados Unidos, de 1787, 36 tica de direita A Revolucdo vé nesta tiltima o resultado das ilusdes iluministas: 0 propésito de colocar uma ordem justa no mundo teria falhado. Como discutiremos adiante, no artigo sobre a moe- da brasileira, 0 iluminismo manteve fortes relagées com uma politica de esquerda. comeca com “Nés, 0 povo’, mas em lerga medida se trata de um acordo entre Estados, que conservam sua personalidade propria e continuam tendo woz numa assembléia especial € poderosa, o Senado, a qual limita os poderes da casa realmente eleita pelo povo,a Camara de Representantes. Com os france- ses & que passa & pratica a idéia de que 0 povo possa, diretamente ou por seus eleitos, decidir. Em face dessa soberania popular ircestrita, os ingleses do século xvit 6, depois, os norte-americanos adotam uma politica conhecida como a dos cecks- and-balances, contrapesos ¢ equilibrios: 0 poder, em seu principio mesmo, seria maui, perigoso, nocivo (zo contririo da tese da soberania, para a qual é mau 0 poder em maios més, ¢ é bom se estiver nas maos corretas, legitimas —no caso, as do povo. Para os soberanistas, o poder em principio € neutro, ou mesmo potencialmente positivo) E célebre a frase de Lorde Acton, historiador e pensador liberal inglés do século xix:"Todo poder tende a corrupcao, ¢ 0 poder absoluto corrompe abso- lutamente’: Note-se o coniraste: © poder, enquanto tal, nao corrompe neces- sariamente, apenas tendea corromper; mas, se absoluto, efetivamente corrom- pe. A diferenca entre 0 poder (“tado poder”) € 0 poder absoluto € que a capacidade corruptora do primeiro pode — e deve — ser limitada por um outro poder, que a ele se contraponha, que 0 equilibre: dai, a doutrina do equilibrio dos trés poderes. (rate! desse assunto, em outra chave, no pentilti- mo capitulo de A iiltima razao dos reis.) Ou seja, para voltarmos a nossa opasigao: a soberania popular € uma dou- ‘rina filosé‘ica, que, sem ter sido testada previamente, se vé aplicada a realidade com 0 intuito de sanar seus problemas. Assume assim 0 feitio de uma revolucio, Ora, por definicao, um projeto revolucionsrio é novo, inédito, e n3o foi compro- vado anteriormente. Assim, a enorme mudanga que ele impoe ao mundo parte de uma teoria sem correspondente prévio no ambito pritico. Dai, finalmemte, ‘que uma revolugao passe necessariamente por muitos tropegos. Dela, nao se pode esperar que dé prontamente bons resultados. O seu momento empirico, ‘ou pritico, & posterior ao teSrico. Se tiver éxito, esse ser demorado, até porque um sem-fim de ajustes se fara necessério entre a teoria e a pritica. Comegamos «sta passagem opondo o humor usual ao politi camente correto, porque este seria enfadonho. Faltar-lhe-ia graga, leveza, capacidadede fazer-nos rir das coisas e do mundo. Com isso, 0 que procuramos mostrar ¢ que o humor assim aparece como a sintese do humano— de um humano sem ideais, mas por isso mesmo até mis humanitario, porque nao imp6e as pessoas ideais impossiveis— ao passo que a justica é delineada como um anseio demasiado filos6fico para poder implantar-se. Dai resulta que a justiga possaser injusta, e 0 conservadorismo, generoso. Evi- dentemente, comoo legado do socialismo real esta longe de ser 0 da justi¢a e o do humanismo, ha alguma razao nessa tese. Contu- J4 uma idéia “ingesa’” da politica, a dos contrapesos entre os poderes, sobretudo uma pritic, uma descoberta empirica destilada ao longo dos tem- pos. Nao admite, pois.uma revolusao, assim como nao aceita uma teoria forte, uma filosofia de peso por tris de si. Dat, aids, que as filosofias de melhor cepa correspondam politics: mais fracas e menos eficazes. Os britinicos serdo bons nna economia e na poltica, os europeus continentais na filosafia — sobretudo os alemaes, de politia e economia mais atrasadas. Isso, ¢ claro, permitiré a quem ficou “para trés’— tao logo a historia passou a ser concebida pelas cate- gorias do progresso edo atraso — tentar saltar as etapas, promoyendo uma revoluzo ou, pelo meaos, um crescimento acelerado. Aqueles que nao se bene- ficiam da evolugio persam, assim, em fazer uma revolucao. Dessa forma, revoligao, filosofia e utopia tém forte vinculo, Sé uma teoria densa permite rompe: com a pritica vigente — e 0 faz em nome de uma mudanga radical ¢ sisematica nas coisas do mundo, ou seja, de um projeto ut6pico. Em contrastecom isso, © monitoramento fino das coisas existentes 6, 1na melhor das hipétees, reformista — mas alega, na prova do pudim, que € comé-lo, trazer resultalos mais positivos do que os devaneios dos filésofos que se poem a sonar utopas. Finalmente, € po: iso que a critica conservadora & tematica européia con- tinental (sobretudo, fancesa e alema) da revolucao e da soberania popular pode e precisa afirmarque 2 teoria em excesso constitui delirio, que a filosofia sem experiéncia nao sedistingue de uma forma de loucura, que o bem geome- trizado produz 0 mal Da razao se chegs 2 loucura, nao porque a primeira negue a si propria, mas porque se exacerbe. 38 do, 0 minimo a dizer, do conservadorismo, é que ele esté muito distante de ajudar a emancipagao das pessoas: ¢ por isso nao ha como concordar que ele possa ser generoso. De todo modo, a asso- ciagao entre humor, leveza e espontaneidade — opostos a justiga, a seriedade e ao mau humor — é mais que duvidosa. O que tal concepsao indica é, primeiro, uma visao bastante preconceituosa da justiga; segundo, uma nogao muito limitada do humor. Em suma: até quando estaremos condenados — nés, brasileiros, que rimos; eles, os norte-americanos, que nao riem —a cindir radicalmente a risada e a justica? Até quando a gar- galhada sairé mais facil quando vier do preconceito, e nao da cri- tica? Nosso humor televisivo em boa medida se faz de imagens negativas, em especial da mulher e do homossexual, apresenta- dos ambos como “menos”, com um déficit em relagao a razao, ao equilibrio, @ norma. Na verdade, 0 problema nao esta no elogio do humor e na critica da gravidade. Que o espirito da leveza e da finura seja supe- rior ao de seriedade e de geometria quando se aplicam as coisas humanas, que a imposicao implacavel da justica as relagdes sociais tenha acarretado injustica e infelicidade — é certo. Nao ha 0 que contestar na oposi¢ao assim definida, mas ha muito a criticar na definicdo de cada um dos termos opostos. Por que o humor pre- cisara ser sécio da prepoténcia e da opressio? Por que estaré a graca no conservadorismo? Por que somente rir do fraco, nao do forte? Pois ha pelo menos dois tipos de humor, o que reitera a dis- criminagao e 0 que faz troga das potestades. Existe um riso subver- sivo, revolucionario, aquele ao qual Umberto Eco dedica O nome da rosa, aquele que Robespierre temia, em seus opositores."' Por que nao rir do poder, em vez de zombar da impoténcia? 11. esse respeito, ver meu “O entusiasmo, o teatro e a revolugao”, in Adau- to Novaes (org,), Tempo e historia, 1992, pp. 309-28. 3. A IDENTIDADE PELA DOR Ainda algumas paginas so necessirias para tratar do uma espécie de epilogo, de posfacio, que baixe a temperatura deste artigo, que reduza seu tom indignado — nao porque a indignacao seja descabida, e sim, apenas, porque hé outras coi- sas a dizer. Um final brechtiano, que nos distancie do entu- siasmo ou pelo menos das paixdes que nas paginas anteriores andamos suscitando. O problema nas politicas ligadas a0 PC, conforme acima esbocei, é que elas nao pensam a sociedade, mas grupos sociais. Sua teoria social nao vai além de uma micros- sociologia. E também uma teoria politica bastante elementar do conflito de grupos sociais. J4 ouvi uma lider feminista dizer que defendia os interesses das mulheres; os homens, que defendes- sem os seus. Uma perspectiva dessas, é claro, enfraquece idéias como a de direito, por exemplo. Reforsa a idéia de leis particula- res para tal ou qual grupo (como reza a etimologia da palavra privilégio: lei privada). Pensa os conflites sociais como simples expresso da forca relativa de cada grupo. Perde, com isso, o que acultura ocidental produziu de melhor, como a idéia de direito enquanto oposto a forga.'? Contudo, isto que acabamos de dizer pode ser entendido como uma série de variagdes em torno de uma temiatica s6, a da perda do sentido do universal mediante a exacerbagao dos parti- cularismos. Nao ¢ 0 caso, aqui; nao parece cabivel — depois das ctiticas que desde meados do século xx mostraram como 0 uni- versal foi com freqiiéncia o travesti de um particularismo vito- rioso, o ocidental, capitalista e cristao — continuar proclaman- do seus méritos, sem qualquer ressalva ou nuanga. 12. Ver Rousseau, “Do direito do mais forte”, no cap. 11 do livro 1 do Con- trato social, Edigao brasileira, pp. 59-60, edigao francesa, pp. 44-5. 40 | | Nossos argumentos vio por outro rumo. Sao bisicamente dois. O primeiro é 0 da perda, nio do universal, mas do espaco piiblico ou comum, Ha uma diferenca. O espago comum ou pit- blico & de constituicao datada, hist6rica, precaria. Pode existir, ou desfazer-se. Nao existe como idéia platénica, antesde sua rea- lizacao empirica: s6 existe quan¢o se realiza. Pois, seo social se pulveriza em grupos que foram perseguidos e hoje querem ser compensados, reduzem-se em muito as possibilidades de que as diferengas se defrontem e produzam um espaco publico. Porque © problema, nas reivindicacdes de grupos, é que estes acentuam a homogeneidade de seus membros, até conceber que somente seja possivel a relagdo social entre clones. Aquele que participa de grupos particularmente suscetiveis a perseguigao acaba perden- do toda a sua diferenca em face dos companheiros; com isso, deixa de haver intercurso social, para somente sobrar uma inter- minavel remissao ao eu, a0 ego." O segundo argumeato retoma a tese sobre os lobbies. Dizia acima que a sociologia pressuposta pelo pc € uma microssocio- logia que nao vai adiante dos conflitos de grupos sociais, que nao admite 0 espaco ptiblico nem o alcance do direito — o qual é sempre, por principio, universalizvel. (Isso nao contradiz nossa critica a0 universal. Uma coisa — discutivel — é pressupor a existéncia de um universal, o qual apenas deciframos, Outra coi- sa — legitima —é ter por meta de nossa agio universalizar direi- tos.) A teoria politica do Pc é, portanto, a redugao detoda agao politica a dos lobbies, ou seja, & promogao de interesses privados com escassa justificagao. O problema do lobismo é que ele é redundante, em termos do discurso com 0 qual procura embasar © que pede, reivindica ou exige. Seu argumento, o modo como lé 13, Data idéia da cultura de nosso tempo como narcisista: ve, por exem- plo,as obras de Christopher Lasch. a historia ou as relagoes sociais enquanto relagdes de poder, é — assim se poderia resumii-lo — que “quem tem poder, hoje, é por- que teve forca para exigi-lo; portanto, juntemo-nos, tenhamos forca, ganhemos poder”. Isso significa que o lobismo Pc faz suas demandas porque as faz. Quer porque quer. Reitera, repete, in- siste. Nao inova, nio muda. Pois uma demanda se mostra mais forte — numa socie- dade complexa — quando consegue expressar-se numa lingua- gem que outros selores da sociedade entendam e possam aceitar. Quando elaé vazada, porém, em propésitos que sé valem para um grupo fica relativamente fraca, pelo menos quanto a possivel persuasdo dos outros, e por isso se torna relativamente aprisio- conversos. nada. Convence quem esti convencido, persuade 05 j Dai, sua debilidade discursiva. A forca de um discurso esté em ele se estender e estirar, em lancar velas ao vento, em deixar a cabotagem para se aventurar no perigoso mar oceano. Ora, essa dificuldade de s pensar os danos sofridos, essa solidariedade intensificada com ir de si, essa exigéncia de com- quem cu elsjo como igual a mim mesmo, como met quase- clone (as mulheres se eu me disser mulher, os homossexuais se me afirmar um deles, enfim, 0 grupo no qual finque minhas amarras), é 0 que poderiamos chamar uma politica do ego. Cons- truo, de todos os possiveis que me compéem, uma identida- de baseada num so deles. E prendo-me, insistentemente, a esse modelo, queaqui, num sentido talvez mais junguiano que freu- diano — porque um tanto pejorative —, chamo de ego. Em especial, prendo-me a tudo o que nessa identidade significa dor, sofrimento. Nao abro mio de nada que me possa fazer sofrer. Parece estranho esse ponto, mas ele é essencial, decisivo. Nao é assim que seconduzem os grupos que nao admitem que deles se io masoquismo, toda lem- ria? que esmiticam, com extraordin: Muitos investigam as palavras, os ges- branga que os possi feri eR tos, os desenhos, para ver se algo neles ports a meméria de um sofrimento antigo infligido a alguém de sev grupo —e com isso 86 conseguem uma coisa, sofre: por procurasio, sofrer em esca- la ampkada, desmesurada. Porque, em tiltima andlise, temos aguio problema de uma politica da identidade, Uma politica s6 pose ser libertadora se ela for capzz, também, de nos libertar da identidade. Sem que- rer condenar demais as identidades, que em branda medida sto liteis e até necessirias a vida, ao agir,"* 0 fato é que temos pade- cido mais de seuexcesso que de sua falta. Aspoliticas dos lobbies — e entre elas as dos movimentos sociais cncebidos ao modo norte-americano — enfatizam em demasia as identidades. E es- tas, em altima andlise, s6 podem assentar-se na dor. Toda identi- ficagao excessiva a si mesmo supée, entim, uma intensificagao quase insuportavel das dores, uma disposigio a nao esquecer nada; € penso que seria mais que tempo de substituir aquela frase cruel —“posso perdoar, mas nao esquecer” > — por outra, quase cémica, porque expressa uma impossibilidade — “posso esquecer, mas nao perdoar”, Porque, se esqueyo, nem tenho mais como, ou por que, ou para queperdoar... $60 esquecimento, de 14. énfase no papel postivo da identidade foi oxervada por Paula Mon- tero, que insistiu 20 modo como ela produz, hoje, ago no mundo. Eu, porém, nao aceitaria essanora sem muitas retcéncias: a identilade mais sobra do que falta, hoje. na vida social. O 6dio é maisfruto da exacabacao identitéria do que de sua auséncia, Mentidades, para contribuirem em favor de uma vida demo- critica, precisim set pelo menos um pouco fluidas, um tanto lébeis — em suma, abrir-sea alguma perturbacao. 15, Um caso interessante em que ela ocorre foi entre Chopin e Liszt, na Paris do século xx. Chopin viaja, ¢ deixa a chave de seu apartamento com © amigo. Liszt leva para lé uma namorada. De regesso de viagem, Chopin fica sabendo do ceso e sente-se magoado — sobretudo porque tudo ocorrera em frente ao retrato de sia mae. Liszt pedelhe desculpas,eo compositor do pathos Ihe resporde que pole perdoar, mas nio esquecet. 4B fato, pie fim dor; ou entao, melhor ainda, o riso: o que € bri- Ihanteno filme A vida é bela, de Roberto Benigni, embora tenha passado — esse aspecto — em siléncio, é que ele torna o nazis- mo ridiculo. Ai, sim, tem lugar 0 humor, ¢ mesmo em sua chave mais desmedida,a da gargalhada. Talvez a opressio somente seja varrida do mundo quando ninguém mais a levar a sério, quan- do dela todos rirem. Mas, para isso, é preciso ir além do paro- quialismo, além da dor. Nao penso que a insisténcia em apenas uma dimensio da vida —e naquela que nos déi mais, como a do judeu que jamais esquece Auschwitz — ajude a construir uma experiéncia social que permita a novidade. Para inovar, € preciso ir além do sofrimento. Tracema ou A fundacgao do Brasil’ Para minha tia Iracema Ribeiro Iracema, ao que consta, é nome de sonoridade indigena inventado por José de Alencar e que constitui anagrama de Amé- rica. Temos assim 0 nosso mais destacado escritor roméntico rodeando a identidade do continente, até chegar a uma palavra, a uma denominagio, que teria enorme e¢ fecundo destino: o de marcar — e legitimar — o encontro que deu inicio a nossa nacionalidade. Desde jé adianto que 0 objetivo deste artigo ¢ res- saltar um ponto que me parece ter recebido atencao menor que a merecida, até hoje: 0 fato de que o sacrificio de Iracema e 0 luto — nosso, de seus leitores — por ela legitimam a ocupagio da terra pelo invasor. O romance assim, embora tenha por titulo 0 nome da virgem dos libios de mel, funda, no absoluto de seu amor, a invasio ea conquista da América. 1, Este artigo é versio modificada do que apareceu em Marcos Cézar de Freitas (org.), Historiografia brasileira em perspectiva, So Paulo, Contexto, 1998, pp. 405-13 (notasa p. 476). Agradeco os comentarios de Hieloisa Starling, José Murilo de Carvalho, Marilena Chaui e Wander Melo Miranda. 5 Desloca-se assim o eixo da historia do amor de dois jovens para um quadro mais amplo: 0 que Marti Soares Moreno efe- tua é, possuindo, desvirginando, engravidando e em tiltima and- lise levando 4 morte a moga, possuir, desvirginar, engravidar e conquistar sua outra identidade, o continente da América. Fique porém claro, nesta lkitura de Iracema, que nao pretendo reduzir as riquezas do livro 2o papel que cumpre na referida legitimacao: basta lembrar a importincia da linguagem, em que Alencar acer- tada e pioneiramente valoriza fatores de tradigao nao-européia, como a parataxe, as metaforas ¢ figuras de modo geral, ao mesmo tempo que, pelo tema, realga uma identidade igualmente ameri- cana, A qual dedica pesquisa que nao se pode desdenhar. Conhece-se a polémica que opés Joaquim Nabuco, entio jovem escritor, a Alencar, j4 consagrado no meétier. Dela, basta- me uma palavra: que um dia de 1875 0 pernambucano desde- nhasse “a Norma tupi’, como se refere a personagem-titulo de Iracema (1865).’ A alusio 4 Norma de Bellini nao estranha, menos ainda sua presenga no horizonte alencariano. Nao se trata apenas de uma Opera importante, que até mesmo marca, no comego do Segundo Reinado, a volta a regularidade da saison lirica, suspensa sob a Regéncia. Além disso, outra obra de Alen- car, Senhora (1875), tem num de seus primeiros capitulos a 2.A polémica Alencar Nabuco, com apresentacao de Afranio Coutinho, de Janeiro, Edigdes Tempo Brasileiro, 1965, p. 187. O texto de Nabuco saiu n'O Globo, na coluna “Aos doningos’, em 14 de novembro de 1875. Utilizo-o estri- tamente para mostrar que aes clhos do leitor culto era conhecida a aproxima-