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INTRODUÇÃO

O presente estudo de caso foi elaborado com bases em material retirado da Internet, mais
especificamente de uma comunidade do Orkut chamada “Psicologia + Psiquiatria” (o endereço do link
que confere acesso direto ao depoimento - para aqueles que possuem perfil no Orkut - encontra-se logo
abaixo). Este estudo de caso objetiva analisar o relato do problema de um jovem (anônimo), utilizando como
principal instrumental alguns dos conceitos fundamentais da Psicanálise Clássica (ou seja, a freudiana).
Vamos ao relato do problema:

Observação importante: lembramos que o relato só pode ser visto na íntegra por aqueles que já possuem perfil
no Orkut, pois, ao clicar o link disponibilizado abaixo, serão automaticamente pedidos os respectivos e-mail e
senha com os quais você costuma entrar no ambiente do Orkut.

O endereço para acesso direto ao relato que se segue é:


http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=234415&tid=22963051

RELATO ANÔNIMO DE UM JOVEM INTERNAUTA ORKUTIANO

"Preciso desabafar, tenham paciência... 4/9/2005 21:58


Eu não agüento minha vida mais. Meu pai faz eu me sentir um
lixo, o tempo todo que convivo com ele eu me sinto um incompetente,
burro, idiota, e ele ainda fica querendo dar uma de bonzinho e às
vezes de vítima, especialmente na frente dos outros.
Se eu conto uma notícia boa ou se faço alguma coisa bem feita ele
dá na cara que fica incomodado com isso e começa a querer me
colocar no lugar, me tratando feito um idiota, querendo dizer que eu
não entendo as coisas ou colocando em dúvida a minha compreensão
das coisas. Nas últimas vezes que meu irmão veio aqui em casa ele
começou a dar indiretas em cima de coisas que eu falei, normalmente
desvirtuando o que eu falo, para querer me humilhar, me fazendo
parecer um cretino, colocando defeitos em trabalhos que eu faço, mas
tudo indiretamente, e depois ele vem dar uma de bonzinho. Eu não
agüento mais isso.
Ele acha que eu me considero grande coisa, e fica querendo me
colocar no lugar; quando na verdade ele não tem razão nenhuma
para achar isso. Ele sabe muito bem que eu sou extremamente
inseguro, tenho baixa auto-estima, sou depressivo, e tenho tiques
nervosos que passam muitas vezes a impressão errada, pois são
expressões faciais que eu não controlo. Ele sabe disso, eu já falei em
detalhes, quase implorei por compreensão, já disse que eu preciso de
ajuda psiquiátrica para resolver, mas não adianta. Eu tenho tentado
ultimamente não falar ou comentar muito porque eu não sei como ele
vai interpretar as coisas que eu falo, freqüentemente ele acha que eu
estou querendo me aparecer e começa a dar indiretas para me
humilhar, ou então fica achando que eu estou querendo justificar
alguma coisa pessoal (o que não é verdade, eu não sou de ficar
inventando justificativas), às vezes eu sei o que, às vezes não. Eu não
quero entrar no jogo dele, e ficar dando indiretas para ele, se é que
ele não acha na verdade que eu faço isso quando contrario alguma
coisa. Se eu fizer isso, aí forma-se um círculo vicioso insustentável.
4/9/2005 21:59
Se eu falo qualquer coisa a respeito dessa situação, ele diz que eu
estou ficando louco. Eu não agüento mais, não agüento mais. Pra
ficar assim, prefiro mil vezes ficar sozinho. Passar a vida inteira do
lado de uma pessoa que faz você se sentir um lixo, mas de maneira
dissimulada, ainda querendo se fazer de boazinha e às vezes até de
vítima, faz muito, muito mal. Eu passo boa parte do tempo remoendo
isso (por esse meu texto dá para ter uma idéia), às vezes não durmo
direito por causa disso, tenho dores no estômago por causa disso,
estou tendo problemas de memória, tenho uma dificuldade de me
expressar que vai e volta, às vezes fico meio gago e outras vezes sinto
que vou explodir. Mas não perco o controle, não tomo atitudes
estúpidas tipo quebrar coisas ou sair gritando ou ter vontade de matar
meu pai. Isso me faz pensar que eu não tenha tendência a
enlouquecer. Se tivesse, já teria enlouquecido. Ou será que já não
estou louco, um tipo de louco inofensivo? Estou paranóico, isso tenho
certeza, mas não atingi o grau de loucura em que se perde a
coerência, o que eu defino como loucura real, e espero que isso não
ocorra.
Com certeza, pelo menos em grande parte por causa disso que eu
fiquei um ser totalmente anti-social, não consigo me concentrar
direito (passo a maior parte do tempo remoendo desaforos), tenho
déficit de atenção, tiques, sou paranóico, e tudo isso certamente
atrapalhou minha vida. Tenho habilidades para música, certa
facilidade em exatas, aprendo fácil, tenho criatividade e fiz trabalhos
na área de multimídia para a empresa onde trabalho (e nem sou
funcionário dessa área). Mas a minha falta de sociabilidade acaba
dificultando oportunidades profissionais, e minha baixa auto-estima
dificulta a concentração, eu não consigo manter projetos por muito
tempo simplesmente porque eu não consigo ter estímulo para isso.
4/9/2005 22:36
Parece que tudo o que eu faço não presta e não adianta nada. No
final das contas o meu pai vai dar a entender que eu sou burro
através de atitudes, frases e comportamentos indiretos para me
colocar no lugar, mostrar que eu sou burro de qualquer jeito,
acabando com minha auto-estima. Isso não é de agora, é de sempre,
eu não agüento mais. Quando eu falo de ir embora (na boa, sem
brigar) ele fica meio alterado, parece que não entende. Já chegou a
dar indireta de que eu é que fico querendo fazer ele se sentir mal. Se
isso é verdade, eu então acho que é um motivo a mais para separar.
Até há alguns anos atrás eu (sentindo-me totalmente por baixo)
ficava tentando mostrar para ele que eu não era um inútil, que servia
para alguma coisa. Agora, sinto-me ainda mais por baixo mas não
me importo mais em convencê-lo de nada, quero só é me livrar do
mal-estar que ele me causa. Não agüento mais. (Isso não significa
que eu tenha qualquer desejo negativo contra o meu pai. Ao
contrário, apesar de eu não querer mais conviver com ele pela
opressão que ele me causa e do que tudo isso que eu disse possa
sugerir, eu amo meu pai, amo mesmo, e fico perturbado em pensar
que ele possa sofrer. Emocionalmente eu estou numa sinuca de bico).
Esse foi meu desabafo. Os sintomas que citei precisam de
medicamento. Já tomei anti-depressivos que me fizeram bem, mas
tinham efeitos colaterais fortes e creio que precise de algo mais
específico. E claro, acabar com a fonte do problema. Vou freqüentar
um psiquiatra e pretendo mudar para uma kitchenette, o que eu
considero o melhor a se fazer. Mas eu sou muito sozinho, estou
sofrendo muito e preciso muito e urgentemente de alguém que me
ouça.
Se alguém quiser comentar fique à vontade.
É isso".

UM ESTUDO DE CASO, SEGUNDO A PSICANÁLISE CLÁSSICA

Artigo escrito pelo Professor Elias Celso Galvêas

Para analisar este caso dentro de um enquadramento psicanalítico, utilizamos,


basicamente, um texto de Sigmund Freud, intitulado “Luto e Melancolia”, escrito
no ano de 1917, onde o autor descreve uma correlação detalhada - por ele observada
- entre estados de Melancolia e o doloroso trabalho realizado pelo sentimento que
ela origina: o Luto.

Tentando inicialmente traçar uma distinção entre melancolia e luto, Freud


observa, em seu trabalho, “Luto e Melancolia”, o seguinte:

“(...) O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido,


à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente
querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por
diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem
melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos que essas
pessoas já possuem uma disposição patológica. Também vale a pena
notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que
constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre
considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a
tratamento médico. Confiamos que seja superado após certo lapso
de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer
interferência em relação a ele.
Os traços mentais distintivos da melancolia são: um desânimo
profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo,
a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer
atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a
ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-
envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição.
Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando
consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são
encontrados no luto. A perturbação da auto-estima está ausente no
luto; fora isso, porém, as características são as mesmas”.

Desta forma, fica entendido que a distinção fundamental entre “luto” e


“melancolia” é que: o primeiro é sempre um processo, onde a causa (perda de
investimento libidinal em relação a um objeto externo) nos é bem conhecida, e,
até certo ponto, natural; enquanto que o segundo constitui-se em um estado -
cujas causas são indefinidas – e que pode vir a desencadear um processo de
luto. Neste sentido, pode-se aferir que estados de melancolia podem provocar
processos de luto, como uma tentativa do aparelho psíquico em solucionar o
sofrimento existencial provocado por este estado mental peculiarmente doloroso.
Porém, no que consiste exatamente o trabalho de luto provocado por uma
melancolia? Num dado momento de sua existência, a realidade passa a impor ao
indivíduo um violento (e, muitas vezes repentino) corte emocional com o objeto
amado. Entende-se, aqui, por objeto amado a pessoa na qual o indivíduo investia e
direcionava a sua libido (energia psíquica direcionada a um objeto exterior), e que
se manifestava através de alguma forma vínculo emocional.
Desta forma, este corte emocional - direcionado a alguém que não mais existe -
exige do indivíduo um esforço de reestruturação psíquica que se manifestará através
de um profundo sentimento de dor e perda, sendo este o custo da resistência e da
oposição do indivíduo à nova realidade que se lhe apresenta.
Ademais, ainda na tentativa de estabelecer uma distinção mais clara entre “luto”
e “melancolia”, segundo o próprio Freud, em “Luto e Melancolia”:

“No luto, verificamos que a inibição e a perda de interesse são


plenamente explicadas pelo trabalho do luto no qual o ego é
absorvido. Na melancolia, a perda desconhecida resultará num
trabalho interno semelhante e será, portanto, responsável pela
inibição melancólica. A diferença consiste em que a inibição do
melancólico nos parece enigmática porque não podemos ver o que é
que o está absorvendo tão completamente. O melancólico exibe ainda
uma outra coisa que está ausente no luto: uma diminuição
extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego
em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na
melancolia, é o próprio ego. O paciente representa seu ego para nós
como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e
moralmente desprezível, ele se repreende e se envilece, esperando ser
expulso e punido. Degrada-se perante todos, sentindo grande
comiseração por seus próprios parentes - por estarem ligados a uma
pessoa tão desprezível. Não acha que uma mudança se tenha
processado nele, mas estende sua auto-crítica até o passado,
declarando que nunca foi melhor. Esse quadro de um delírio de
inferioridade (principalmente moral) é completado pela insônia e pela
recusa a se alimentar, e o que é psicologicamente notável por uma
superação do instinto que compele todo ser vivo a se apegar à vida”.
[1]

Portanto, pode-se observar que o abandono (ou desistência) do investimento


libidinal - direcionado a objetos exteriores ao indivíduo - constitui uma posição
narcísica capaz de gerar neuroses que se manifestam, por sua vez, em sintomas
geradores de sofrimento psíquico. A causa desta perda de interesse pela vida -
originada pela falta de investimento libidinal por objetos exteriores ao indivíduo - é
bem conhecida no luto, estando diretamente associada a perdas que provocam um
corte no investimento libidinal do indivíduo. Porém, o mesmo não acontece no caso
da melancolia, cujas verdadeiras causas constituem um mistério a ser desvendado
pelo processo psicanalítico.

Ainda sobre o trabalho de luto, segundo Freud, em “Luto e Melancolia”:

“(...) Essa exigência provoca [no campo psíquico] uma oposição


compreensível: é fato notório que as pessoas nunca abandonam de
bom grado uma posição libidinal, nem mesmo, na realidade, quando
um substituto já se lhes acena. Essa oposição pode ser tão intensa
que dá lugar a um desvio da realidade e a um apego ao objeto por
intermédio de uma psicose alucinatória carregada de desejo.
Normalmente, prevalece o respeito pela realidade, ainda que suas
ordens não possam ser obedecidas de imediato. São executadas pouco
a pouco, com grande dispêndio de tempo e de energia catexial,
prolongando-se psiquicamente, nesse meio tempo, a existência do
objeto perdido. (...). Cada uma das lembranças e expectativas isoladas
- através das quais a libido está vinculada ao objeto - é evocada e
hipercatexizada, e o desligamento da libido se realiza em relação a
cada uma delas. Por que essa transigência, pela qual o domínio da
realidade se faz fragmentariamente, deve ser não extraordinariamente
penosa, de forma alguma é coisa fácil de explicar em termos de
economia. É notável que esse penoso desprazer seja aceito por nós
como algo natural. Contudo, o fato é que, quando o trabalho do luto
se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido”.

Ademais, não é necessária a morte física de um ente querido para que o luto se
processe, posto que o mesmo acontece mediante a qualquer tipo de perda que
impossibilite o investimento libidinal por parte do universo afetivo do indivíduo:
uma separação, um final de namoro, desapontamentos com entes queridos, etc. são
bons exemplos disto. Segundo o próprio Freud, novamente em “Luto e
Melancolia” [1]:

“Na melancolia, as ocasiões que dão margem à doença vão, em sua


maior parte, além do caso nítido de uma perda por morte, incluindo
as situações de desconsideração, desprezo ou desapontamento, que
podem trazer para a relação sentimentos opostos de amor e ódio, ou
reforçar uma ambivalência já existente. Esse conflito devido à
ambivalência, que por vezes surge mais de experiências reais, por
vezes mais de fatores constitucionais, não deve ser desprezado entre
as pré-condições da melancolia. Se o amor pelo objeto é um amor que
não pode ser renunciado, embora o próprio objeto o seja se refugiar
na identificação narcisista, então o ódio entra em ação nesse objeto
substitutivo, dele abusando, degradando-o, fazendo-o sofrer e tirando
satisfação sádica de seu sofrimento. A auto-tortura na melancolia,
sem dúvida agradável, significa, do mesmo modo que o fenômeno
correspondente na neurose obsessiva, uma satisfação das tendências
do sadismo e do ódio relacionadas a um objeto, que retornaram ao
próprio eu do indivíduo nas formas que vimos examinando. Via de
regra, em ambas as desordens, os pacientes ainda conseguem, pelo
caminho indireto da auto-punição, vingar-se do objeto original e
torturar o ente amado através de sua doença, à qual recorrem a fim
de evitar a necessidade de expressar abertamente sua hostilidade para
com ele. Afinal de contas, a pessoa que ocasionou a desordem
emocional do paciente, e na qual sua doença se centraliza, em geral
se encontra em seu ambiente imediato. A catexia erótica do
melancólico no tocante a seu objeto sofreu assim uma dupla
vicissitude: parte dela retrocedeu à identificação, mas a outra parte,
sob a influência do conflito devido à "ambivalência", foi levada de
volta à etapa de sadismo que se acha mais próxima do conflito”. [1]

ANÁLISE DO CASO
Mas, a esta altura, o leitor deve estar aflito, perguntando-se: mas o que isto tudo
tem a ver com o caso do jovem em questão? Afinal, o pai dele está bem vivo – e sua
presença e sua atitude constituem uma realidade que o perturba permanentemente!
Acredito agora já termos levantado bases suficientemente fortes que nos
levariam a tecer uma fundamentação adequada a uma compreensão mais consistente
deste caso, à luz da psicanálise freudiana.
Como tudo o que foi até agora postulado poderia servir para tecer fundamentos
que nos levariam a uma melhor compreensão do caso clínico deste jovem rapaz?
Evidentemente, para responder a esta questão, precisaríamos compreender
melhor o inconsciente e a função dos mecanismos de defesa do indivíduo,
principalmente os que dizem respeito aos recalques e à repressão.
Podemos partir do pressuposto de que tudo aquilo que é psiquicamente doloroso
para o indivíduo admitir conscientemente tende a ser reprimido ou recalcado, sendo
que o conteúdo considerado nocivo é posteriormente armazenado no inconsciente,
através de mecanismo que ainda não conhecemos totalmente. Segundo o próprio
Freud:

"Os impulsos hostis contra os pais (desejo de que eles morram)


também são um elemento integrante das neuroses. Vêm à luz,
conscientemente, como idéias obsessivas. Na paranóia, o que há de
pior nos delírios de perseguição (desconfiança patológica dos
governantes e monarcas) corresponde a esses impulsos. Estes são
recalcados nas ocasiões em que é atuante a compaixão pelos pais -
nas épocas de doença ou morte deles. Nessas ocasiões, constitui
manifestação de luto uma pessoa acusar-se da morte deles (o que se
conhece como melancolia); ou punir-se numa forma histérica (por
intermédio da idéia de retribuição) com os mesmos estados [de
doença] que eles tiveram. A identificação que aí ocorre - como
podemos verificar - nada mais é do que um modo de pensar, e não
nos exime da necessidade de procurar o motivo. Parece que esse
desejo de morte, no filho, está voltado contra o pai e, na filha, contra
a mãe. (...)". [2]

Marta Gerez-Ambertin - psicanalista lacaniana com doutorado em psicanálise –


realiza em seus trabalhos uma sistematização rigorosa da noção de superego na
clínica psicanalítica e na cultura. Segundo a pesquisadora, “já desde o nascimento
da psicanálise, pode encontrar-se a tríade: parricídio, culpa e punição, tanto na
teoria como na clínica dos primeiros casos de Freud”.
Temos que admitir, portanto, que qualquer método que pretenda ser considerado
psicanalítico, além de considerar o “Complexo de Édipo” como diretriz teórica
fundamental para se tecer uma melhor compreensão freudiana do universo psíquico
humano, precisará igualmente considerar o trinômio: parricídio, culpa e punição –
elementos estes que podem evidenciar a não superação do Complexo de Édipo pelo
indivíduo, que o levou a um estado neurótico de melancolia crônica.
Segundo o próprio Freud, o complexo de Édipo - queiram ou não os
psicanalistas - é o eixo estruturante de toda concepção freudiana do humano, assim
como, pelo lado da filogênese, o mito científico do parricídio na horda primitiva o é.
Psicanaliticamente falando, entende-se por “narcisismo” qualquer desistência de
investimento da energia psíquica - por parte do indivíduo - em objetos exteriores a
ele. Segundo a psicanálise, sempre que um indivíduo adota uma solução narcísica
na tentativa de resolver conflitos psíquicos, este fica inviabilizado de direcionar sua
energia psíquica a um objeto externo, deixando, com isto, o seu universo psíquico
vulnerável à proliferação de neuroses. De acordo com as teorias psicanalíticas,
“libido” é toda energia psíquica ou pulsão interna do indivíduo devidamente
canalizada ou direcionada a objetos externos.
Quando um indivíduo tende a se estruturar de maneira narcísica, passa a existir
uma situação de diminuição da conversão da energia psíquica em libido, ou seja,
esta energia psíquica – agora em excesso – passa a ficar retida no aparelho psíquico,
atrapalhando o fluxo normal do quantum de energia psíquica dentro do sistema, bem
como o fluxo e a produção das pulsões vitais, sendo invariavelmente seguida pelo
aumento indiscriminado dos mecanismos de defesa – num primeiro momento, mais
especificamente um aumento significativo da repressão e do recalque que, no
decorrer do processo psicanalítico, vai ficando cada vez mais evidente no discurso e
no comportamento do indivíduo.
Em outras palavras, a energia psíquica (em excesso) que não foi convertida em
libido para ser devidamente direcionada a um objeto exterior ao indivíduo, passa a
se acumular, primeiramente, no interior do aparelho psíquico e, posteriormente, sem
ter vazão ao meio exterior ao indivíduo, sobrecarrega gradativamente todos os
demais sistema do seu organismo – comprometendo suas respectivas funções.
Quando os mecanismos de repressão e recalque começam a demonstrar sinais
de exaustão – não sendo mais suficientemente eficientes para maquiar e tangenciar
o verdadeiro cerne problema do indivíduo, os sintomas psicossomáticos começam a
emergir, ou seja, irão se manifestar de modo mais explícito no plano físico e mental,
muitas vezes, surgindo de maneira intensa e repentina. No entanto, desde a
manifestação de comportamentos inadequados até a emergência dos sintomas
psíquicos no plano físico e mental é um processo complexo, lento, doloroso e
desgastante, que irá se demonstrar, primeiramente, no comportamento do indivíduo,
como inibições de funções intelectuais e/ou afetivas, luto, culpa, depressão,
melancolia e inúmeros outros desvios de conduta inadequados – tanto à sanidade
individual quanto à convivência grupal.

CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS


Observando novamente seu depoimento, chega-se a conclusão que um
diagnóstico possível - e mais adequado - para o jovem em questão seria
“Melancolia”: observa-se, aqui, um sofrimento oriundo de uma profunda melancolia
que foi gradativamente gerada pelo desgastante relacionamento de ambivalência
com a figura paterna, ou melhor, o produto afetivo desta relação - complicada e mal
resolvida - foi um profundo sentimento de ambivalência emocional em relação à
figura paterna: uma relação concomitante de amor e ódio; uma vontade inconsciente
de matar aquele pai; ou, enfim, de não tê-lo tido como pai, situação que, por sua
vez, pode ser simbolicamente vivenciada, no presente, como um luto por não ter um
pai (ou, pelo menos, não ter o pai que se desejaria realmente ter).
Segundo o Dicionário Aurélio, “Melancolia” significa:
Melancolia: (do grego: melgchólia; do latin: melancholia): 1.
Estado de mórbido de tristeza e depressão; 2. Estado de languidez e
tristeza indefinida: a melancolia dos românticos; (...); 3. Desgosto,
pesar, tristeza (popular); 4. Afecção mental caracterizada por
depressão em grau variável, sensação de incapacidade, perda de
interesse pela vida, podendo evoluir para ansiedade, insônia,
tendência ao suicídio e, eventualmente, delírios de auto-acusação
(definição da psiquiatria).

Segundo o depoimento inicial do próprio jovem em questão:

“Até há alguns anos atrás eu (sentindo-me totalmente por baixo)


ficava tentando mostrar para ele que eu não era um inútil, que
servia para alguma coisa. Agora, sinto-me ainda mais por baixo
mas não me importo mais em convencê-lo de nada, quero só é me
livrar do mal-estar que ele me causa. Não agüento mais. Isso não
significa que eu tenha qualquer desejo negativo contra o meu pai,
ao contrário! Apesar de eu não querer mais conviver com ele pela
opressão que ele me causa e do que tudo isso que eu disse possa
sugerir, eu amo meu pai, amo mesmo, e fico perturbado em pensar
que ele possa sofrer. Emocionalmente eu estou numa sinuca de
bico)”.

Emocionalmente, todos nós sabemos – em maior ou menor grau – o quão


complicado e devastador pode ser lidar com sentimentos freqüentes de ambigüidade
em relação a situações ou pessoas. Como o fragmento acima evidencia, talvez ainda
exista, atuando como agravante da situação emocional deste jovem, um desejo – não
tão claro e consciente, mas muito bem reprimido, recalcado e confirmado por sua
negação (sublinhado e destacado em vermelho), de que seria melhor que este pai
estivesse morto (parricídio?). Esta idéia - reprimida para o inconsciente - tem como
resposta consciente a geração de um grande sentimento de culpa associado a uma
enorme baixa auto-estima que, não obstante, ainda é reforçada pelo discurso do pai.
Terminamos este nosso trabalho psicanalítico pelo desfecho deste estudo de
caso, ou seja, relembrando a parte final do depoimento do jovem:

“Esse foi meu desabafo. Os sintomas que citei precisam de


medicamento. Já tomei antidepressivos que me fizeram bem, mas
tinham efeitos colaterais fortes e creio que precise de algo mais
específico. É claro, acabar com a fonte do problema. Vou
freqüentar um psiquiatra e pretendo mudar para uma kitchenette,
o que eu considero o melhor a se fazer. Mas eu sou muito sozinho,
estou sofrendo muito e preciso muito e urgentemente de alguém que
me ouça”.
Esta solução representa a sublimação do parricídio, posto que matar o pai
literalmente não seria uma solução viável ou possível, condizente com sua
realidade. Porém, mesmo assim, o simples ato de se mudar de ambiente – que o
privaria da desagradável convivência direta com um pai problemático - não
representa uma solução definitiva para este problema que, por sua vez, é de ordem
psíquica, imaterial e intangível - e parece já ter atingido o cerne da estrutura de sua
personalidade, abalando profunda e negativamente seu comportamento perante a
vida, bem como suas relações interpessoais.
Remédios e acompanhamento médico não são apenas bem vindos, mas
extremamente necessários para casos como este. Porém, seria igualmente
interessante se este jovem se permitisse submeter a um permanente trabalho (ou
processo) psicanalítico mais profundo, sendo orientado – de preferência - por um
psicanalista especializado em problemas de família. O processo talvez não
precisasse ser tão demorado, posto que grande parte do material inconsciente do
jovem já parece ter sido convertido em consciência: talvez bastasse um período de
(no mínimo) seis anos de acompanhamento contínuo, numa freqüência de duas
vezes ou três vezes por semana, fossem suficientes para que ele pudesse começar a
aprender a lidar com estes sentimentos ambíguos que, no momento, estão
visivelmente atrapalhando sua vida, consumindo-lhe uma grande quantidade de
energia psíquica – que poderiam estar sendo útil na construção de sua felicidade, na
importante e essencial dimensão do “aqui e agora”.

• Observação final: este trabalho foi baseado em um testemunho de um jovem


anônimo, retirado da internet, da comunidade do Orkut denominada “Psicologia +
Psiquiatria”. Endereço do link que leva diretamente ao depoimento:
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=234415&tid=22963051
(acesso somente para quem tem perfil no Orkut)

Referências
• [1] Freud, S. “Luto e Melancolia” (1917).
• [2] Freud, S. Carta datada de 31 de maio de 1897SB, volumeI, página 275.
• Moreira Guedes, Ana Cleide; “A Melancolia na obra de Freud: um Narciso
sem [des]culpas” (2005).

Trabalho realizado pelo professor Elias Celso Galvêas, em 2005.2, para a


Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro.