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Luto e Melancolia - um Estudo de Caso à Luz da Psicanálise

Luto e Melancolia - um Estudo de Caso à Luz da Psicanálise

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Publicado porElias Celso Galveas
Melancolia: (do grego: melgchólia; do latin: melancholia): 1. Estado de mórbido de tristeza e depressão; 2. Estado de languidez e tristeza indefinida: a melancolia dos românticos; (...); 3. Desgosto, pesar, tristeza (popular); 4. Afecção mental caracterizada por depressão em grau variável, sensação de incapacidade, perda de interesse pela vida, podendo evoluir para ansiedade, insônia, tendência ao suicídio e, eventualmente, delírios de auto-acusação (definição da psiquiatria).
Melancolia: (do grego: melgchólia; do latin: melancholia): 1. Estado de mórbido de tristeza e depressão; 2. Estado de languidez e tristeza indefinida: a melancolia dos românticos; (...); 3. Desgosto, pesar, tristeza (popular); 4. Afecção mental caracterizada por depressão em grau variável, sensação de incapacidade, perda de interesse pela vida, podendo evoluir para ansiedade, insônia, tendência ao suicídio e, eventualmente, delírios de auto-acusação (definição da psiquiatria).

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Published by: Elias Celso Galveas on Aug 23, 2007
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INTRODUÇÃO O presente estudo de caso foi elaborado com bases em material retirado da Internet, mais especificamente de uma comunidade

do Orkut chamada “Psicologia + Psiquiatria” (o endereço do link que confere acesso direto ao depoimento - para aqueles que possuem perfil no Orkut - encontra-se logo abaixo). Este estudo de caso objetiva analisar o relato do problema de um jovem (anônimo), utilizando como principal instrumental alguns dos conceitos fundamentais da Psicanálise Clássica (ou seja, a freudiana). Vamos ao relato do problema:
Observação importante: lembramos que o relato só pode ser visto na íntegra por aqueles que já possuem perfil no Orkut, pois, ao clicar o link disponibilizado abaixo, serão automaticamente pedidos os respectivos e-mail e senha com os quais você costuma entrar no ambiente do Orkut.

O endereço para acesso direto ao relato que se segue é: http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=234415&tid=22963051

RELATO ANÔNIMO DE UM JOVEM INTERNAUTA ORKUTIANO "Preciso desabafar, tenham paciência... 4/9/2005 21:58 Eu não agüento minha vida mais. Meu pai faz eu me sentir um lixo, o tempo todo que convivo com ele eu me sinto um incompetente, burro, idiota, e ele ainda fica querendo dar uma de bonzinho e às vezes de vítima, especialmente na frente dos outros. Se eu conto uma notícia boa ou se faço alguma coisa bem feita ele dá na cara que fica incomodado com isso e começa a querer me colocar no lugar, me tratando feito um idiota, querendo dizer que eu não entendo as coisas ou colocando em dúvida a minha compreensão das coisas. Nas últimas vezes que meu irmão veio aqui em casa ele começou a dar indiretas em cima de coisas que eu falei, normalmente desvirtuando o que eu falo, para querer me humilhar, me fazendo parecer um cretino, colocando defeitos em trabalhos que eu faço, mas tudo indiretamente, e depois ele vem dar uma de bonzinho. Eu não agüento mais isso. Ele acha que eu me considero grande coisa, e fica querendo me colocar no lugar; quando na verdade ele não tem razão nenhuma para achar isso. Ele sabe muito bem que eu sou extremamente inseguro, tenho baixa auto-estima, sou depressivo, e tenho tiques nervosos que passam muitas vezes a impressão errada, pois são expressões faciais que eu não controlo. Ele sabe disso, eu já falei em detalhes, quase implorei por compreensão, já disse que eu preciso de ajuda psiquiátrica para resolver, mas não adianta. Eu tenho tentado ultimamente não falar ou comentar muito porque eu não sei como ele vai interpretar as coisas que eu falo, freqüentemente ele acha que eu estou querendo me aparecer e começa a dar indiretas para me humilhar, ou então fica achando que eu estou querendo justificar

alguma coisa pessoal (o que não é verdade, eu não sou de ficar inventando justificativas), às vezes eu sei o que, às vezes não. Eu não quero entrar no jogo dele, e ficar dando indiretas para ele, se é que ele não acha na verdade que eu faço isso quando contrario alguma coisa. Se eu fizer isso, aí forma-se um círculo vicioso insustentável. 4/9/2005 21:59 Se eu falo qualquer coisa a respeito dessa situação, ele diz que eu estou ficando louco. Eu não agüento mais, não agüento mais. Pra ficar assim, prefiro mil vezes ficar sozinho. Passar a vida inteira do lado de uma pessoa que faz você se sentir um lixo, mas de maneira dissimulada, ainda querendo se fazer de boazinha e às vezes até de vítima, faz muito, muito mal. Eu passo boa parte do tempo remoendo isso (por esse meu texto dá para ter uma idéia), às vezes não durmo direito por causa disso, tenho dores no estômago por causa disso, estou tendo problemas de memória, tenho uma dificuldade de me expressar que vai e volta, às vezes fico meio gago e outras vezes sinto que vou explodir. Mas não perco o controle, não tomo atitudes estúpidas tipo quebrar coisas ou sair gritando ou ter vontade de matar meu pai. Isso me faz pensar que eu não tenha tendência a enlouquecer. Se tivesse, já teria enlouquecido. Ou será que já não estou louco, um tipo de louco inofensivo? Estou paranóico, isso tenho certeza, mas não atingi o grau de loucura em que se perde a coerência, o que eu defino como loucura real, e espero que isso não ocorra. Com certeza, pelo menos em grande parte por causa disso que eu fiquei um ser totalmente anti-social, não consigo me concentrar direito (passo a maior parte do tempo remoendo desaforos), tenho déficit de atenção, tiques, sou paranóico, e tudo isso certamente atrapalhou minha vida. Tenho habilidades para música, certa facilidade em exatas, aprendo fácil, tenho criatividade e fiz trabalhos na área de multimídia para a empresa onde trabalho (e nem sou funcionário dessa área). Mas a minha falta de sociabilidade acaba dificultando oportunidades profissionais, e minha baixa auto-estima dificulta a concentração, eu não consigo manter projetos por muito tempo simplesmente porque eu não consigo ter estímulo para isso. 4/9/2005 22:36 Parece que tudo o que eu faço não presta e não adianta nada. No final das contas o meu pai vai dar a entender que eu sou burro através de atitudes, frases e comportamentos indiretos para me colocar no lugar, mostrar que eu sou burro de qualquer jeito, acabando com minha auto-estima. Isso não é de agora, é de sempre, eu não agüento mais. Quando eu falo de ir embora (na boa, sem brigar) ele fica meio alterado, parece que não entende. Já chegou a dar indireta de que eu é que fico querendo fazer ele se sentir mal. Se isso é verdade, eu então acho que é um motivo a mais para separar.

Até há alguns anos atrás eu (sentindo-me totalmente por baixo) ficava tentando mostrar para ele que eu não era um inútil, que servia para alguma coisa. Agora, sinto-me ainda mais por baixo mas não me importo mais em convencê-lo de nada, quero só é me livrar do mal-estar que ele me causa. Não agüento mais. (Isso não significa que eu tenha qualquer desejo negativo contra o meu pai. Ao contrário, apesar de eu não querer mais conviver com ele pela opressão que ele me causa e do que tudo isso que eu disse possa sugerir, eu amo meu pai, amo mesmo, e fico perturbado em pensar que ele possa sofrer. Emocionalmente eu estou numa sinuca de bico). Esse foi meu desabafo. Os sintomas que citei precisam de medicamento. Já tomei anti-depressivos que me fizeram bem, mas tinham efeitos colaterais fortes e creio que precise de algo mais específico. E claro, acabar com a fonte do problema. Vou freqüentar um psiquiatra e pretendo mudar para uma kitchenette, o que eu considero o melhor a se fazer. Mas eu sou muito sozinho, estou sofrendo muito e preciso muito e urgentemente de alguém que me ouça. Se alguém quiser comentar fique à vontade. É isso".

UM ESTUDO DE CASO, SEGUNDO A PSICANÁLISE CLÁSSICA Artigo escrito pelo Professor Elias Celso Galvêas Para analisar este caso dentro de um enquadramento psicanalítico, utilizamos, basicamente, um texto de Sigmund Freud, intitulado “Luto e Melancolia”, escrito no ano de 1917, onde o autor descreve uma correlação detalhada - por ele observada - entre estados de Melancolia e o doloroso trabalho realizado pelo sentimento que ela origina: o Luto. Tentando inicialmente traçar uma distinção entre melancolia e luto, Freud observa, em seu trabalho, “Luto e Melancolia”, o seguinte: “(...) O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos que essas pessoas já possuem uma disposição patológica. Também vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre

considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. Confiamos que seja superado após certo lapso de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele. Os traços mentais distintivos da melancolia são: um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e autoenvilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da auto-estima está ausente no luto; fora isso, porém, as características são as mesmas”. Desta forma, fica entendido que a distinção fundamental entre “luto” e “melancolia” é que: o primeiro é sempre um processo, onde a causa (perda de investimento libidinal em relação a um objeto externo) nos é bem conhecida, e, até certo ponto, natural; enquanto que o segundo constitui-se em um estado cujas causas são indefinidas – e que pode vir a desencadear um processo de luto. Neste sentido, pode-se aferir que estados de melancolia podem provocar processos de luto, como uma tentativa do aparelho psíquico em solucionar o sofrimento existencial provocado por este estado mental peculiarmente doloroso. Porém, no que consiste exatamente o trabalho de luto provocado por uma melancolia? Num dado momento de sua existência, a realidade passa a impor ao indivíduo um violento (e, muitas vezes repentino) corte emocional com o objeto amado. Entende-se, aqui, por objeto amado a pessoa na qual o indivíduo investia e direcionava a sua libido (energia psíquica direcionada a um objeto exterior), e que se manifestava através de alguma forma vínculo emocional. Desta forma, este corte emocional - direcionado a alguém que não mais existe exige do indivíduo um esforço de reestruturação psíquica que se manifestará através de um profundo sentimento de dor e perda, sendo este o custo da resistência e da oposição do indivíduo à nova realidade que se lhe apresenta. Ademais, ainda na tentativa de estabelecer uma distinção mais clara entre “luto” e “melancolia”, segundo o próprio Freud, em “Luto e Melancolia”: “No luto, verificamos que a inibição e a perda de interesse são plenamente explicadas pelo trabalho do luto no qual o ego é absorvido. Na melancolia, a perda desconhecida resultará num trabalho interno semelhante e será, portanto, responsável pela inibição melancólica. A diferença consiste em que a inibição do melancólico nos parece enigmática porque não podemos ver o que é que o está absorvendo tão completamente. O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto: uma diminuição

extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível, ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, sentindo grande comiseração por seus próprios parentes - por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível. Não acha que uma mudança se tenha processado nele, mas estende sua auto-crítica até o passado, declarando que nunca foi melhor. Esse quadro de um delírio de inferioridade (principalmente moral) é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar, e o que é psicologicamente notável por uma superação do instinto que compele todo ser vivo a se apegar à vida”. [1] Portanto, pode-se observar que o abandono (ou desistência) do investimento libidinal - direcionado a objetos exteriores ao indivíduo - constitui uma posição narcísica capaz de gerar neuroses que se manifestam, por sua vez, em sintomas geradores de sofrimento psíquico. A causa desta perda de interesse pela vida originada pela falta de investimento libidinal por objetos exteriores ao indivíduo - é bem conhecida no luto, estando diretamente associada a perdas que provocam um corte no investimento libidinal do indivíduo. Porém, o mesmo não acontece no caso da melancolia, cujas verdadeiras causas constituem um mistério a ser desvendado pelo processo psicanalítico. Ainda sobre o trabalho de luto, segundo Freud, em “Luto e Melancolia”: “(...) Essa exigência provoca [no campo psíquico] uma oposição compreensível: é fato notório que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, nem mesmo, na realidade, quando um substituto já se lhes acena. Essa oposição pode ser tão intensa que dá lugar a um desvio da realidade e a um apego ao objeto por intermédio de uma psicose alucinatória carregada de desejo. Normalmente, prevalece o respeito pela realidade, ainda que suas ordens não possam ser obedecidas de imediato. São executadas pouco a pouco, com grande dispêndio de tempo e de energia catexial, prolongando-se psiquicamente, nesse meio tempo, a existência do objeto perdido. (...). Cada uma das lembranças e expectativas isoladas - através das quais a libido está vinculada ao objeto - é evocada e hipercatexizada, e o desligamento da libido se realiza em relação a cada uma delas. Por que essa transigência, pela qual o domínio da realidade se faz fragmentariamente, deve ser não extraordinariamente penosa, de forma alguma é coisa fácil de explicar em termos de economia. É notável que esse penoso desprazer seja aceito por nós

como algo natural. Contudo, o fato é que, quando o trabalho do luto se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido”. Ademais, não é necessária a morte física de um ente querido para que o luto se processe, posto que o mesmo acontece mediante a qualquer tipo de perda que impossibilite o investimento libidinal por parte do universo afetivo do indivíduo: uma separação, um final de namoro, desapontamentos com entes queridos, etc. são bons exemplos disto. Segundo o próprio Freud, novamente em “Luto e Melancolia” [1]: “Na melancolia, as ocasiões que dão margem à doença vão, em sua maior parte, além do caso nítido de uma perda por morte, incluindo as situações de desconsideração, desprezo ou desapontamento, que podem trazer para a relação sentimentos opostos de amor e ódio, ou reforçar uma ambivalência já existente. Esse conflito devido à ambivalência, que por vezes surge mais de experiências reais, por vezes mais de fatores constitucionais, não deve ser desprezado entre as pré-condições da melancolia. Se o amor pelo objeto é um amor que não pode ser renunciado, embora o próprio objeto o seja se refugiar na identificação narcisista, então o ódio entra em ação nesse objeto substitutivo, dele abusando, degradando-o, fazendo-o sofrer e tirando satisfação sádica de seu sofrimento. A auto-tortura na melancolia, sem dúvida agradável, significa, do mesmo modo que o fenômeno correspondente na neurose obsessiva, uma satisfação das tendências do sadismo e do ódio relacionadas a um objeto, que retornaram ao próprio eu do indivíduo nas formas que vimos examinando. Via de regra, em ambas as desordens, os pacientes ainda conseguem, pelo caminho indireto da auto-punição, vingar-se do objeto original e torturar o ente amado através de sua doença, à qual recorrem a fim de evitar a necessidade de expressar abertamente sua hostilidade para com ele. Afinal de contas, a pessoa que ocasionou a desordem emocional do paciente, e na qual sua doença se centraliza, em geral se encontra em seu ambiente imediato. A catexia erótica do melancólico no tocante a seu objeto sofreu assim uma dupla vicissitude: parte dela retrocedeu à identificação, mas a outra parte, sob a influência do conflito devido à "ambivalência", foi levada de volta à etapa de sadismo que se acha mais próxima do conflito”. [1] ANÁLISE DO CASO Mas, a esta altura, o leitor deve estar aflito, perguntando-se: mas o que isto tudo tem a ver com o caso do jovem em questão? Afinal, o pai dele está bem vivo – e sua presença e sua atitude constituem uma realidade que o perturba permanentemente! Acredito agora já termos levantado bases suficientemente fortes que nos

levariam a tecer uma fundamentação adequada a uma compreensão mais consistente deste caso, à luz da psicanálise freudiana. Como tudo o que foi até agora postulado poderia servir para tecer fundamentos que nos levariam a uma melhor compreensão do caso clínico deste jovem rapaz? Evidentemente, para responder a esta questão, precisaríamos compreender melhor o inconsciente e a função dos mecanismos de defesa do indivíduo, principalmente os que dizem respeito aos recalques e à repressão. Podemos partir do pressuposto de que tudo aquilo que é psiquicamente doloroso para o indivíduo admitir conscientemente tende a ser reprimido ou recalcado, sendo que o conteúdo considerado nocivo é posteriormente armazenado no inconsciente, através de mecanismo que ainda não conhecemos totalmente. Segundo o próprio Freud: "Os impulsos hostis contra os pais (desejo de que eles morram) também são um elemento integrante das neuroses. Vêm à luz, conscientemente, como idéias obsessivas. Na paranóia, o que há de pior nos delírios de perseguição (desconfiança patológica dos governantes e monarcas) corresponde a esses impulsos. Estes são recalcados nas ocasiões em que é atuante a compaixão pelos pais nas épocas de doença ou morte deles. Nessas ocasiões, constitui manifestação de luto uma pessoa acusar-se da morte deles (o que se conhece como melancolia); ou punir-se numa forma histérica (por intermédio da idéia de retribuição) com os mesmos estados [de doença] que eles tiveram. A identificação que aí ocorre - como podemos verificar - nada mais é do que um modo de pensar, e não nos exime da necessidade de procurar o motivo. Parece que esse desejo de morte, no filho, está voltado contra o pai e, na filha, contra a mãe. (...)". [2] Marta Gerez-Ambertin - psicanalista lacaniana com doutorado em psicanálise – realiza em seus trabalhos uma sistematização rigorosa da noção de superego na clínica psicanalítica e na cultura. Segundo a pesquisadora, “já desde o nascimento da psicanálise, pode encontrar-se a tríade: parricídio, culpa e punição, tanto na teoria como na clínica dos primeiros casos de Freud”. Temos que admitir, portanto, que qualquer método que pretenda ser considerado psicanalítico, além de considerar o “Complexo de Édipo” como diretriz teórica fundamental para se tecer uma melhor compreensão freudiana do universo psíquico humano, precisará igualmente considerar o trinômio: parricídio, culpa e punição – elementos estes que podem evidenciar a não superação do Complexo de Édipo pelo indivíduo, que o levou a um estado neurótico de melancolia crônica. Segundo o próprio Freud, o complexo de Édipo - queiram ou não os psicanalistas - é o eixo estruturante de toda concepção freudiana do humano, assim como, pelo lado da filogênese, o mito científico do parricídio na horda primitiva o é. Psicanaliticamente falando, entende-se por “narcisismo” qualquer desistência de

investimento da energia psíquica - por parte do indivíduo - em objetos exteriores a ele. Segundo a psicanálise, sempre que um indivíduo adota uma solução narcísica na tentativa de resolver conflitos psíquicos, este fica inviabilizado de direcionar sua energia psíquica a um objeto externo, deixando, com isto, o seu universo psíquico vulnerável à proliferação de neuroses. De acordo com as teorias psicanalíticas, “libido” é toda energia psíquica ou pulsão interna do indivíduo devidamente canalizada ou direcionada a objetos externos. Quando um indivíduo tende a se estruturar de maneira narcísica, passa a existir uma situação de diminuição da conversão da energia psíquica em libido, ou seja, esta energia psíquica – agora em excesso – passa a ficar retida no aparelho psíquico, atrapalhando o fluxo normal do quantum de energia psíquica dentro do sistema, bem como o fluxo e a produção das pulsões vitais, sendo invariavelmente seguida pelo aumento indiscriminado dos mecanismos de defesa – num primeiro momento, mais especificamente um aumento significativo da repressão e do recalque que, no decorrer do processo psicanalítico, vai ficando cada vez mais evidente no discurso e no comportamento do indivíduo. Em outras palavras, a energia psíquica (em excesso) que não foi convertida em libido para ser devidamente direcionada a um objeto exterior ao indivíduo, passa a se acumular, primeiramente, no interior do aparelho psíquico e, posteriormente, sem ter vazão ao meio exterior ao indivíduo, sobrecarrega gradativamente todos os demais sistema do seu organismo – comprometendo suas respectivas funções. Quando os mecanismos de repressão e recalque começam a demonstrar sinais de exaustão – não sendo mais suficientemente eficientes para maquiar e tangenciar o verdadeiro cerne problema do indivíduo, os sintomas psicossomáticos começam a emergir, ou seja, irão se manifestar de modo mais explícito no plano físico e mental, muitas vezes, surgindo de maneira intensa e repentina. No entanto, desde a manifestação de comportamentos inadequados até a emergência dos sintomas psíquicos no plano físico e mental é um processo complexo, lento, doloroso e desgastante, que irá se demonstrar, primeiramente, no comportamento do indivíduo, como inibições de funções intelectuais e/ou afetivas, luto, culpa, depressão, melancolia e inúmeros outros desvios de conduta inadequados – tanto à sanidade individual quanto à convivência grupal. CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS Observando novamente seu depoimento, chega-se a conclusão que um diagnóstico possível - e mais adequado - para o jovem em questão seria “Melancolia”: observa-se, aqui, um sofrimento oriundo de uma profunda melancolia que foi gradativamente gerada pelo desgastante relacionamento de ambivalência com a figura paterna, ou melhor, o produto afetivo desta relação - complicada e mal resolvida - foi um profundo sentimento de ambivalência emocional em relação à figura paterna: uma relação concomitante de amor e ódio; uma vontade inconsciente de matar aquele pai; ou, enfim, de não tê-lo tido como pai, situação que, por sua vez, pode ser simbolicamente vivenciada, no presente, como um luto por não ter um pai (ou, pelo menos, não ter o pai que se desejaria realmente ter). Segundo o Dicionário Aurélio, “Melancolia” significa:

Melancolia: (do grego: melgchólia; do latin: melancholia): 1. Estado de mórbido de tristeza e depressão; 2. Estado de languidez e tristeza indefinida: a melancolia dos românticos; (...); 3. Desgosto, pesar, tristeza (popular); 4. Afecção mental caracterizada por depressão em grau variável, sensação de incapacidade, perda de interesse pela vida, podendo evoluir para ansiedade, insônia, tendência ao suicídio e, eventualmente, delírios de auto-acusação (definição da psiquiatria). Segundo o depoimento inicial do próprio jovem em questão: “Até há alguns anos atrás eu (sentindo-me totalmente por baixo) ficava tentando mostrar para ele que eu não era um inútil, que servia para alguma coisa. Agora, sinto-me ainda mais por baixo mas não me importo mais em convencê-lo de nada, quero só é me livrar do mal-estar que ele me causa. Não agüento mais. Isso não significa que eu tenha qualquer desejo negativo contra o meu pai, ao contrário! Apesar de eu não querer mais conviver com ele pela opressão que ele me causa e do que tudo isso que eu disse possa sugerir, eu amo meu pai, amo mesmo, e fico perturbado em pensar que ele possa sofrer. Emocionalmente eu estou numa sinuca de bico)”. Emocionalmente, todos nós sabemos – em maior ou menor grau – o quão complicado e devastador pode ser lidar com sentimentos freqüentes de ambigüidade em relação a situações ou pessoas. Como o fragmento acima evidencia, talvez ainda exista, atuando como agravante da situação emocional deste jovem, um desejo – não tão claro e consciente, mas muito bem reprimido, recalcado e confirmado por sua negação (sublinhado e destacado em vermelho), de que seria melhor que este pai estivesse morto (parricídio?). Esta idéia - reprimida para o inconsciente - tem como resposta consciente a geração de um grande sentimento de culpa associado a uma enorme baixa auto-estima que, não obstante, ainda é reforçada pelo discurso do pai. Terminamos este nosso trabalho psicanalítico pelo desfecho deste estudo de caso, ou seja, relembrando a parte final do depoimento do jovem: “Esse foi meu desabafo. Os sintomas que citei precisam de medicamento. Já tomei antidepressivos que me fizeram bem, mas tinham efeitos colaterais fortes e creio que precise de algo mais específico. É claro, acabar com a fonte do problema. Vou freqüentar um psiquiatra e pretendo mudar para uma kitchenette, o que eu considero o melhor a se fazer. Mas eu sou muito sozinho, estou sofrendo muito e preciso muito e urgentemente de alguém que me ouça”.

Esta solução representa a sublimação do parricídio, posto que matar o pai literalmente não seria uma solução viável ou possível, condizente com sua realidade. Porém, mesmo assim, o simples ato de se mudar de ambiente – que o privaria da desagradável convivência direta com um pai problemático - não representa uma solução definitiva para este problema que, por sua vez, é de ordem psíquica, imaterial e intangível - e parece já ter atingido o cerne da estrutura de sua personalidade, abalando profunda e negativamente seu comportamento perante a vida, bem como suas relações interpessoais. Remédios e acompanhamento médico não são apenas bem vindos, mas extremamente necessários para casos como este. Porém, seria igualmente interessante se este jovem se permitisse submeter a um permanente trabalho (ou processo) psicanalítico mais profundo, sendo orientado – de preferência - por um psicanalista especializado em problemas de família. O processo talvez não precisasse ser tão demorado, posto que grande parte do material inconsciente do jovem já parece ter sido convertido em consciência: talvez bastasse um período de (no mínimo) seis anos de acompanhamento contínuo, numa freqüência de duas vezes ou três vezes por semana, fossem suficientes para que ele pudesse começar a aprender a lidar com estes sentimentos ambíguos que, no momento, estão visivelmente atrapalhando sua vida, consumindo-lhe uma grande quantidade de energia psíquica – que poderiam estar sendo útil na construção de sua felicidade, na importante e essencial dimensão do “aqui e agora”. • Observação final: este trabalho foi baseado em um testemunho de um jovem anônimo, retirado da internet, da comunidade do Orkut denominada “Psicologia + Psiquiatria”. Endereço do link que leva diretamente ao depoimento: http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=234415&tid=22963051 (acesso somente para quem tem perfil no Orkut) Referências • [1] Freud, S. “Luto e Melancolia” (1917). • [2] Freud, S. Carta datada de 31 de maio de 1897SB, volumeI, página 275. • Moreira Guedes, Ana Cleide; “A Melancolia na obra de Freud: um Narciso sem [des]culpas” (2005). Trabalho realizado pelo professor Elias Celso Galvêas, em 2005.2, para a Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro.

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