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JAKOB VON UEXKÜLL, NASCEU NA ESTÓNIA EM 1864; ESTUDOU ZOOLOGIA NA UNIVER­ SIDADE DE DORPART E FISIOLOGIA NA UNI­

V E R S ID A D E DE H EID ELB ER G . OS SEUS -TRABALHOS SOBRE O «MUNDO-PRÓPRIO

E MUNDO-INTERIQR DOS ANIMAIS» FORAM

NÃO SÓ PIONEIROS, CRIANDO RAMO CIEN­ TÍFICO, MAS TAMBÉM, ATÉ HOJE, DEFINI­ TIVOS, JA QUE 0 ,áEU CONCEITO DE CICLO-

-DE-FUNÇÃO JAMAIS FOI CONTESTADO OU U LTR A P A S S A D O . V IA JO U POR TO DO

O MUNDO, çj^MO INVESTIGADOR E CONFE­

RENCISTA. pÒUTOROU-SE TAMBÉM EM MEDI­

CINA, PELjjí UNIVERSIDADE DE HEIDELBERG

E FOI PROFESSOR NA DE HAMBURGO E NA

DE KIEL, TENDO SIDO GALARDOADO DOUTOR HONORIS CAUSA POR OUTRAS UNIVERSI­

DADES

EUROPEIAS

ALBERTO

T r a d u ç ã o

e

de

ANÍBAL

CANDEIAS

GARCIA

PER EIR A

Capa

A.

de

PEDRO

*

Título da edição original

STREIFZUGE

DURCH

DIE

UM W ELTEN

VON

T IER E N

UND

M ENSCHEN

*

Reservados todos os direitos

*

pela legislação em

vigor

Edição feita

por acordo com a

BOWOHLTS

DEUTSCHE

ENZYKLOPÄDIE

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A

Dos animais e dos homens

Digressões

pelos

Doutrina

seus

próprios

do

Significado

mundos

EDIÇÃO

«LIVROS DO BRASIL» LISBOA

Rua

dos

Caetanos,

22

UM

PRECURSOR

DA

NOVA

por A dolf Portmann

BIOLOGIA

A obra de Jacob von Uexküll veio a ter resultados

fecundos nas ideias e nas tarefas da biologia actual. As investigações dos nossos dias falam de mundos-próprios dos animais no sentido particular que Uexküll atribuiu a este conceito e apresentam ciclos-de-função do ser vivo exactamente como ele no-los tinha definido em dezenas de anos de labor intenso. Se hoje encaramos os fenóme­ nos da vida não só como causa de certos efeitos mas também como partes componentes de um conjunto preexistente devemo-lo principalmente ao seu trabalho.

A nova geração, que agora começa a trabalhar, já não

teve oportunidade de o conhecer e quase não mantém com a sua obra relações directas. Uexküll morreu durante os anos negros do fim da Segunda Grande Guerra e, na confusão desse período, muitos investigadores se esqueceram de quanto ficaram devendo a esse homem que foi, simultaneamente, um grande biólogo e um génio de forte personalidade. Vamos acompanhar a elaboração e a influência desta obra notável, para entrarmos depois na própria natureza dos dois trabalhos mais recentes,

reunidos neste volume.

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A AUTONOMIA

DO SER VIVO

O que Uexküll trouxe de novo ou simplesmente apro­

fundou, a partir\de investigações já feitas, teve o seu

início na última década do século passado, nos anos que se seguem imediatamente aos sugestivos estudos de Hans Driesch. As experiências de Driesch com as pri­ meiras formas embrionárias do ouriço-do-mar tinham revelado particularidades de desenvolvimento que deixa­ vam transparecer nitidamente a autonomia do ser vivo e contnibuíram também de maneira definitiva para que, na busca de uma interpretação do ser vivo, se afirmasse, com nova força, a par da interpretação mecanista domi­ nante, a outra possibilidade: o vitalismo. Se, daí em diante, caem em desuso os termos mecanismo e vita­ lism o, por se ter reconhecido amplamente a existência de uma autonomia relativa, de uma independência, do ser vivo, também para este facto tão importante deu larga contribuição o trabalho criador de Jacob Uexküll.

A sua obra foi muito particularmente sugerida pela

vida dos animais marinhos. E é mais uma vez a utilização genial deste campo das formas animais marinhas que lhe revela novos factos acerca da função dos músculos e nervos e das relações com o meio. Os movimentos dos espinhos do ouriço-do-mar, os movimentos das lapas ou da medusa, o estímulo da sombra que actua no ouriço- -do-mar, a maneira como os vermes ou os espatangói- des (1) se ocultam na areia, a observação da vida dos chocos e das lagostas — cada um destes estudos é um raio de luz que ilumina as densas trevas da vida marinha. Já nestes primeiros trabalhos de fisiologia se dese­ nham os contornos de uma concepção de organismo que está em flagrante oposição com as ideias ainda larga­ mente aceitas no seu tempo, que vêem no organismo o

(’)

Ouriços-do-mar de simetria bilateral.

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resultado de processos ocasionais de transformação, dos quais a selecção natural manteve os favoráveis, permi­ tindo assim a evolução das formas vivas. Desde o princípio, Uexküll dirige a atenção do obser­ vador para as propriedades supermecânicas da matéria viva, para o facto misterioso de que no organismo adulto se nos apresenta um todo organizado segundo um plano. Nós verificamos, impressionados e surpreendidos, que este plano já actua no óvulo e continua no desenvolvi­ mento individual deste. Uexküll já tinha mostrado há muito, em expressivas descrições, o que existe de extraordinário na matéria viva, no protoplasma. Esta necessidade de expor com clareza impeliu-o toda a sua vida para o género de comunicação mais capaz de atingir um largo círculo de pessoas interessadas no assunto. Tornou-se um mestre na exposição arguta e incisiva da sua concepção da natureza. Era-o na explanação oral e é-o também, com igual vigor e poder de sugestão, nos seus escritos. O nunca se ter integrado nas verdadeiras activi­ dades da ciência académica retardou, porventura, a expansão das suas ideias no campo espiritual da Univer­ sidade, mas permitiu, por outro lado, que tirássemos pro­ veito de muitos trabalhos seus, estimulantes e combati­ vos, que possivelmente seriam incompatíveis com a faina do ensino.

CICLO-DE-FUNÇÃO

E MUNDO-PRÓPRIO

A concepção de ser vivo, de Uexküll, encontrou a sua integral explanação nas obras Um welt und Innenw elt der Tiere, 1921, e Theoretische Biologie. A primeira trata com mais pormenor da observação de factos particulares da vida das mais diversas formas animais; a segunda, mais abstracta, é uma tentativa para ajustar o estudo da vida animal, principalmente com a posição filosófica inspirada em Kant.

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Uexküll tem o seu lugar histórico na solução da

antiga querela travada à volta das concepções mecanista

e

vitalista do ser vivo. Pela influência da época, da escola,

e

da natureza fisiológica do trabalho, está ligado de várias

maneiras — e mais solidamente do que ele próprio era capaz de ver — à interpretação mecanista, para a qual,

aliás, era solicitado pelo mais íntimo do seu ser. Verifica, assim, como eminente fisiólogo da vida animal inferior, as grandes possibilidades da simplificação mecanista, que concebe, por vezes/como mecânico cada um dos sis­ temas da vida animal. Ele considera como maquinismos as estruturas mais evoluídas. Assim, para ele, «a amiba

é menos maquinismo que o cavalo» porque dispõe de

menos estruturas adultas. Finalmente, Uexküll também se aproxima da interpretação mecanista quando isola a substância e a concebe como dirigida por uma forma de actividade não dimensional. São pois os «impulsos» —

agentes não espaciais de ocorrências espaciais — que, por um processo morfogenético conferem à substância uma contextura mecânica. O protoplasma, como um todo,

é sempre supermecânico.

Na luta que travou por esta concepção, Uexküll emparelha com Hans Driesch. Mas em breve se manifesta

a originalidade das suas investigações, quando, no núcleo

do seu trabalho, se começa a levantar, a cada passo, uma questão soberana: como deve então entender-se a rela­ ção entre o ser vivo e o meio quFõ~cTrcunHã?~A pãrtTF de 1910, começa também a expor, de maneira mais inci­ siva, as suas ideias fundamentais, com que ajudou a for­ mar, tão decididamente, a biologia dos tempos futuros. Duas dessas ideias directrizes vieram a tornar-se parti­ cularmente importantes.

Uexküll verificou uma correlação estrutural, já exis­ tente no óvulo, entre o corpo do animal e certos factores do ambiente, sejam estes de natureza inanimada, orga­

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nismos ou até inimigos e chamou a essa correlação «ciclo-de-função». O ambiente tem notas ou sinais, no verdadeiro sentido destas palavras: estruturas que o animal assinala por meio dos órgãos sensoriais consti­ tuídos para esse efeito e para as quais se elaboram res­ postas e reacções especiais no organismo. Quanto às possibilidades de relação ,d e -, um organismo com o ambiente, elas estão já determinadas segundo qualidade

e intens idadé7 por estrüturas

Os diversos ciclos^de-função, no seu conjunto, deter­ minam uma secção de propriedades com significado na vida do animal. Elas são, no âmbito mais largo da natu­ reza, a parte que no caso respectivo forma o ambiente limitado e típico de uma espécie animal.

previámente~-or-qaaizadas

OS «PAPÉIS» DAS COISAS NO CENÁRIO DA VIDA; O ESTUDO DO SEU SIGNIFICADO

Na vida animal, as coisas são portadoras de signi­ ficados, têm nela papéis a desempenhar. Ao referir-se a este facto potencial e real, Uexküll revelou à investi­ gação biológica um aspecto do ser vivo que, nas Ciências Naturais do século XIX, alguns tinham votado a inteiro esquecimento e outros simplesmente banido, como não científico, do domínio dos estudos biológicos. Guiados por Uexküll, encontramos circunstâncias que não podem entrar, reduzidas a medidas e números, numa explicação matemática da natureza, circunstâncias que dizem respeito a um aspecto da vida que é complementar de todas as conclusões obtidas por métodos quantitati­ vos. O mundo das qualidades experimentadas, com as suas cores e formas, os seus sons e aromas, as suas dores e os seus prazeres, aparece então como o objecto primacial da investigação biológica. Com Uexküll, o

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sujeito percipiente é tomado, pela primeira vez, como objecto de investigação positiva. Neste mundo comple­

mentar, tornh-se essencial o que no outro não passa de secundário; é\, pelo contrário, insignificante o que ali se tomava como decisivamente importante. Sucede assim, ser indiferente no mundo dos sujeitos se uma cor, como, por exemplo, o azul do céu, depende do carácter de uma combinação química ou se resultou de determinadas estruturas físicas. O importante, neste mundo, é que o azul se apresenta como fenómeno experimentado e que, como tal, desempenha no cenário da vida papéis diversos

e rigorosamente determinados.

E com que sagacidade dirige Uexküll esta introdução do sujeito na biologia! Ele afirma que as coisas do ambiente possuem um tom ou «teor» prático, quer dizer, que lhes pertence, conforme o seu papel, uma qualidade

qüe~nÕs"véFdàdèiramente não conhecemos no seu con­ teúdo" subjecfivõ mas-cuja actividade é possível discernir ~através"dò comportamento do animal. Com o reíevo dado

ã- esfã_tõnãTiFáção dos objectos inicia-se uma orientação

na investigação que teve finalmente de reconhecer, como

uma das últimas realidades biologicamente inteligíveis,

o complemento e a correspondência interiores dessa

tonalização: a disposição íntima. A tonalização, atribuição dos teores, eis uma das primeiras verificações no caminho da subjectividade oculta. Uexküll remonta, muito conscientemente, ao grande biólogo Joh. Müller (1801-1858), cuja concepção da vida comentou mais tarde com desenvolvimento e cujo conceito de energia específica dos sentidos cedo se reve­ lou um poderoso estímulo no seu pensamento. «Qualquer que seja o meio por que se excite um olho» — escreve Müller-— «seja ele esfregado, puxado, comprimido, gal­ vanizado ou receba estímulos que de outros órgãos lhe são transmitidos por simpatia, em resultado de todas estas causas diferentes, como se se tratasse de causas

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idênticas, meramente estimulantes, o nervo óptico é sem- pre afectado sob a forma de sensação luminosa, conside­ rando-se a srproprTõ^mergGTFiãdo na escuridão, quand<5 em repouso.» Também cedo Uexküll acentuou o papel do «estado interior» como um dos factores decisivos para a tonalização das coisas do mundo-próprio. Limitou então o conceito da disposição interior às influências naturais no equipamento interno e define-o pela designa­ ção de «disposição química».

O

MUNDO-PRÓPRIO

E

O

HOMEM

A doutrina de Uexküll acerca do mundo-próprio, característico de cada espécie animal, veio a constituir uma parte fundamental da biologia moderna mas a exten­ são que o autor fez da sua doutrina até ao homem foi, desde o início, justamente contestada. Como a digressão aqui publicada conclui com uma aplicação pormenorizada desta doutrina ao homem, é necessário que nos detenha­ mos por um momento neste caso limite. O que há de fundamental na teoria do mundo-próprio, de Uexküll, é que, segundo ela, este mundo-próprio tem para um gato, para um cavalo ou um macaco, a sua forma específica, não obstante as características comuns de mamíferos. Do mesmo modo, é também específico o mundo da gralha, o da galinha-d agua, o do falcão, ape­ sar das suas características comuns de aves. Trata-se de uma particularidade hereditária, tipicamente especí­ fica, invariável. Se no mundo do cão ou no do papagaio que habita connosco o mesmo quarto podem aparecer coisas do mundo do homem, elas transformam-se em coisas do papagaio ou do cão, com as suas tonalidades inteiramente próprias. Mas, para ilustrar o seu conceito de mundo-próprio, Uexküll também põe em relevo o mundo diferente em que, separadamente, se move cada

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pessoa e mostra, com o exemplo da árvore, como a mesma coisa toma, consoante o género de vida da pes­ soa, tonalidades absolutamente diferentes. Aqui, escapa- -Ihe, no entanto, um pormenor: que todas essas maneiras diversas de ver o mundo fazem parte de um mundo comum à espécie, que é possível uma compreensão des­ ses vários mundos-próprios da mesma espécie, que é possível, enfim, existirem contrastes de interpretação. Estas esferas de afinidade do mundo do homem, nas quais se incluem os mundos individuais com as suas peculiaridades — grandes peculiaridades como Uexküfl e nós próprios reconhecemos — , esta amplitude da possi­ bilidade fundamental de compreensão criam uma situação particular para o homem. Por muito acentuados que se considerem os contrastes dos mundos humanos, filhos da tradição ou das diferenças de factores hereditários, o certo é que todos se contêm na mesma esfera. Toda a poesia vive da representação dessas variadas maneiras de ver o mundo e das suas coincidências. Mas precisa­ mente a poesia assenta no princípio da última possibili­ dade de compreensão dos outros. A expressão «mundo- -próprio» afirma e acentua a separação de mundos específicos dos animais, como esferas particulares e, exactamente por isso, devemos excluir este conceito na caracterização dos contrastes de visão do mundo entre os homens. Todavia, o homem põe à antropologia filosó­ fica do nosso tempo um problema particularíssimo, que se avoluma ainda com a caracterização do nosso compor­ tamento como independente do mundo, em oposição à conduta das espécies animais, estritamente obrigadas ao mundo-próprio. Rejeitando os excessos do conceito de mundo-próprio, a biologia e a antropologia modernas defendem o que há de mais original na obra de Uexküll contra os seus impulsos temperamentais.

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NA SENDA DO ESTUDO DO COMPORTAMENTO

A influência das ideias de Jacob Uexküll alarga-se

ao

acção,

de maneira decisiva, o começo de uma nova orientação no campo da investigação alemã. O que O. Heinroth e K. Lorenz, o que H. Hediger e Frau Meyer-Holzapfel, entre outros, lograram descobrir de essencial durante a ter­ ceira década do século, pressupõe a fermentação das ideias de Uexküll, até onde elas se não encontram expres­ samente mencionadas. Uexküll não é o fundador do estudo do comportamento, produto colectivo de várias fontes. Vamos indicar mais uma vez, apenas algumas destas fontes, para mostrar o maior âmbito de ideias em que a obra de Uexküll exerceu influência de relevo. Num trabalho notável, o americano Craig salienta, em 1918, a importância do estudo das coisas do mundo- -próprio, estudo que, por sua vez, faz intervir o ciclo-de- -função do animal. Designa o estado que conduz a deter­ minados fins por apetência, paralelamente ao que sucede no fenómeno elementar da nutrição e reconhece, assim, a validade de uma generalização que já era corrente na Antiguidade (em Santo Agostinho, por exemplo). A ape­ tência é um tipo de comportamento: corresponde-lhe um estado interior especial. Lembremo-nos de que também Uexküll já reconhecera distintamente este aspecto do fenómeno vital. Pela mesma época, o ornitólogo inglês E. Howard (1922) provou que as aves, no período de incubação, rei­ vindicam e defendem uma porção de espaço, um territó­ rio — observação que então ocasionou uma imensidade de outras verificações, como, por exemplo, a descoberta da distância rigorosamente mensurável do voo e da resis­ tência, etc., devida a Hediger. A explicação de muitos destes factos estava confiada, desde os tempos primiti-

estudo

do

comportamento

é

tanto

nos

nossos

dias.

A

sua

embora velada,

maior,

quanto

estimula,

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vos, aos caçadores familiarizados com a Natureza. A im­ portância dò «defeso» para as aves já foi posta em relevo por B. von Al(tum, na Alemanha, na sexta década do século passado. Assim, quando Howard é hoje apontado como o «descobridor» da posse territorial, isso significa que ele pôs o facto em evidência num momento particularmente «exacto» e que desempenhou papel preponderante no reconhecimento da sua importância. Já em 1912, Julian Huxley observara a descrevera pormenorizadamente em Inglaterra, pela primeira vez, a cópula dos mergulhões, que ele depois interpretou com notável clareza. Abriu-se, assim, à investigação científica um vasto campo de trabalho. Desde tempos imemoriais que estes factos se tinham observado repetidas vezes. Desde os tempos primitivos que o homem observava a cópula do galo e outros fenómenos semelhantes. Mas a consideração conscienciosa da sua significação e a clara ordenação de conceitos que agora se apresentava tiveram importância decisiva. O. Heinroth actuou no mesmo sen­ tido mas a contribuição de Huxley quase não é citada por ele. Por volta de 1920, Thorleif Schjelderup-Ebbe começou a estudar em Greifswald a hierarquia social num pátio de criação de aves. Mostrou então que um grupo qualquer de aves de criação se encontra solidamente organizado; que os vários indivíduos se dispõem numa hierarquia só deles próprios dependente e que esta hierarquia é muito complicada e variável, isto é, depende da condição dos indivíduos. Como consequência desta primeira investi­ gação, surgiu grande número de estudos sobre a ordem de precedência observada no exercício das actividades vitais dos animais de várias espécies. Muitos biólogos ficaram tão surpreendidos com a novidade que foram levados à generalização precipitada que via nessa hierar­ quia uma lei geral. Só mais tarde se impôs uma observa­ ção dirigida em maior número de sentidos, a qual revelou

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a existência de grupos de animais sem tal escala de cate­ gorias. Para a investigação biológica, estes trabalhos significam o início de uma revalorização das formas de

vida animais que era tanto mais importante quanto mais profundamente a fatuidade da teoria mecanista menos­ prezara o animal. Em 1899, o biólogo dinamarquês Mortensen intro­ duziu a marcação individual das aves por meio de anilhas. Desde então, inúmeras aves isoladas da multidão anó­ nima, por meio de anilhas numeradas, transformaram-se para nós, observadores humanos, em indivíduos e o número de aves marcadas é hoje tão extraordinário como

o de conhecimentos que devemos a este método. Algu­

mas conclusões fundamentais dos nossos investigadores do comportamento animal assentam exactamente na mar­ cação do indivíduo isolado, pelo que a «história natural»

geral e vaga de uma espécie pôde transformar-se na des­ crição fiel da vida do animal individualizado. Por isso, a marcação de animais de todos os grupos, do insecto ao morcego, se tornou um dos processos técnicos impor­ tantes da biologia e fonte de perspectivas inesperadas. Além destas, outras tendências de valia se podiam ainda mencionar, se o nosso intento não fora apenas apontar que, das muitas tentativas, resulta, enfim, uma nova orientação investigadora. Uma destas fontes abriu

a muitos investigadores o caminho de êxitos futuros e

veio aumentar a possibilidade de aceitar novas concep­ ções: foi a doutrina de Uexküll, com os seus ramos fun­ damentais na apresentação dos ciclos-de-função e na do mundo-próprio.

A

INVESTIGAÇÃO

PROSSEGUE

A importância da obra de Uexküll reside principal­ mente na sua luta tenaz em favor da actual posição bio­

[151

lógica, que reconhece a particularidade da esfera da vida

e a autonomia relativa do ser vivo. As suas contribuições

foram dominadas pelo método fisiológico e pelo exame da natureza especial do ser vivo como objecto de investi­

gação. O desejo de se limitar aos métodos científicos levou-o à rejeição total de qualquer afirmação sobre o aspecto experimental do sujeito e, implicitamente, à

renúncia a qualquer espécie de psicologia animal, que ele considerava situada para além do «biológico». O seu caminho para chegar à compreensão do animal era, por­ tanto, o estudo da harmonia entre a estrutura e o com­ portamento. Não esqueçamos que, exactamente no seu tempo, era particularmente vivo o clamor erguido a pro­ pósito do cavalo sábio e de outros cavalos calculadores

e de cães que raciocinavam. A humanização do animal

encontrava-se então no seu ponto culminante. Esta coin­

cidência temporal havia de fortalecer, no pensamento de Uexküll, todas as tendências contrárias e, na verdade,

o seu temperamento combativo fê-lo, às vezes, parecer

quase mecanista, muito mais singularmente do que seria de esperar da sua concepção da natureza, que reconhecia sempre em acção qualquer coisa de supernatural. A mis­ são do biólogo parecia-lhe residir na busca de estruturas que, por exemplo, no sistema nervoso central, determi­ navam a génese do mundo-prório e o comportamento do animal. Tão onge foram os seus escrúpulos perante "os resultados de carácter experimental que se, na ver­ dade, por um lado, classificava a «tonalidade» das coisas do mundo-próprio como descritível, como parte do mundo

exterior, por outro, nunca deixa de mencionar, cautelosa­ mente, a, correspondente «disposição» complementar e, como já vimos, acentua bem o que nela há de «químico»,

a natureza material do seu condicionamento, não fossem torná-lo suspeito de impulsos românticos. A evolução mais significativa, a partir de Uexküll é

o aprofundamento dos estudos da autonomia do ser vivo

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pela verificação mais intensa de todas as provas que apre­ sentam o organismo como centro especial de actividade e simultaneamente de um viver que, embora velada- mente, é aparentado com o que melhor conhecemos do nosso próprio ser mais íntimo. É principalmente pelo estudo desta «intimidade», desta maneira de ser peculiar do ser vivo e do animal em especial que aquilo que é observável de fora recebe a sua mais ampla interpreta­ ção. Tomar, de vez, o sujeito para objecto da investigação biológica, eis o passo para o desconhecido que a obra de Uexküll principalmente preparou. O estudo da presença desta subjectividade é_a_carac- terístÍcã~dõ~trãbalho biológico dos nossos dias. Mas tão peculiares como isso são as consequências metodológi­ cas desta atitude. Em vez de introduzirmos no jogo de factores do fenómeno vital um agente misterioso, que interviesse em toda a parte como factor explicativo, nós vemos nesta subjectividade uma das incógnitas que o naturalista procura abordar, objectivamente, pelo estudo das manifestações. Pela observação rigorosa de todas as manifestações do animal, de todas as suas respostas, nós avançamos cautelosamente para resultados que des­ crevem a descoberta e ocupação de espaço ou compreen­ dem a relação com o ritmo do dia e da noite e com o das estações do ano, exactamente como também des­ cobrimos nas hierarquias da vida social a subjectividade de um sujeito em acção. A grande lista de «manifesta­ ções» que nos dão testemunho da subjectividade é uma das mais significativas realizações da biologia contem­ porânea.

O estudo do comportamento já hoje não se desvia dos problemas que o duplo aspecto do ser vivo nos apre­ senta: aborda-os por vários caminhos e cautelosamente. Aprendemos a distinguir, no estabelecimento de correla­ ções, o que é inato, hereditário, do que tem de ser aprendido e transformado em hábito. Aprendemos a dis­

2 -A.

HOMENS

[17]

cernir as estruturas transmitidas, relativamente rígidas, das outras, mais flexíveis^ Sabemos como estímulos iguais podem actuar de maneira tão diversa-s- reconhe­

cemos assirrTã variacãa

vez, nestes estados, nestas «disposições», entramos em contacto com um último elemento, para além do qual a investigação não passa, por enquanto. Assim, numa época

em que a própria filosofia descobriu — ou melhor, redes- cobriu o papel fecundo da adaptabilidade perfeita (Befin- diichkeit) os que se dedicavam ao estudo do comporta* mento chegaram, por caminhos absolutamente diferentes,

a este princípio fundamental da conduta e, desse modo,

a uma manifestação objectiva da maneira de ser, des­

conhecida para nós, como experiência, da subjectividade dos animais. O estudo dos estados interiores e do com­ portamento eliminou um grave inconveniente: superou a distinção entre corpo e alma como substâncias distintas qüè, ~jüritas, constituem o ser vivo — separação que

rãcfica em tradições antiquíssimas da nossa vida repre­ sentativa, da nossa imaginação. A biologia contemporâ­

nea não estuda

.aspectõTcofpõfèo ou

somático, por um lado, e o espiritual ou psíquico, por outro. Pelo estüdo~cfõ’ cõmportamento, nós procuramos ■fioje surpreender, na sua pureza, a realidade desconhe­ cida e, antes de qualquer divisão mais ou menos estabe­ lecida, conhecê-la na sua actividade, como a unidade que originalmente nos é dada. Do mesmo modo, a nova ciên­ cia do homem — a antropologia — também já começa a dirigir-se para o comportamento do homem, para a par­ ticularidade dos seus modos de relação e não reconhece, neste campo, discutíveis esquematizações de «compo­ nentes» do género corpo-alma-espírito ou «bios» e «logos», como partes do ser vivo. Esta orientação tem uma longa história que se não pode expor aqui. Ela ultrapassa também a posição atin­

dQS_estados

interiores. Por sua

separadamente.-o.

gida pela obra de Uexküll que preparou este passo em

[ 18]

frente ao considerar com clareza inexcedível e graças a um trabalho insano, não só a actividade do centro vital como a de um_suje[to criador de mundos mas também o entrelaçamento intrínseco do ser vivo com partes do seu ambiente.

O

PROBLEMA DA ORGANIZAÇÃO

SEGUNDO

UM

PLANO

Ainda noutro sentido o estudo da vida, no nosso tempo, está prestes a transpor a posição em que o pen­ samento de Uexküll se deteve há cerca de vinte anos. Trata-se da superação do conceito de «planeamento» do ser vivo. Uexküll mostrou incansavelmente, em repetidos exemplos, que o plano de construção de .um„Pxq3ílÍsmQ não está situadorFõra deíêTcomo o de uma máquina. A sua obra d^crêvê7cõm~grande minúcia, como os organismos se constroem por si próprios, como os estádios de desen­ volvimento se sucedem, ordenados como numa melodia e como o plano de amadurecimento da forma funcio­ nal é um processo de autoconstrução e auto-requlação. Mas o «planeamento», operante, por si mesmo, no orga­ nismo, acabou por se tomar,~nãsua exposição, um factor particular, uma forma de actividade do género superme- cânico e inespacial. Outra não era a posição do vitalismo/ que, na verdade, tinha superado a estreiteza do meca­ nismo mas que, ao fazê-lo, tinha também ultrapassado, na sua ânsia de esclarecimento completo, os limites da possibilidade científica.

A panaceia de Driesch era o princípio orgânico indi­ vidual da enteléquia; a solução de Uexkiill era a -ru-gani-

da a.QSÍcãQ „tomada

zação segundo um plano que, à luz

pelo autor, passava a ser factor explicativo, uma das

qualidades Têconhecidas no ser vivo.

[ 19]

A biologia admite hoje esta dificuldade. Como W. Szilasi afirma radicalmente numa importante exposi­ ção, o «plano» do comportamento animal formula, nem

sempre com felicidade, esta questão: «Como é que, por exemplo, a abelha é exactamente uma abelha ou como é que o animal é, em suma, um animal» (Ciência e Filoso­ fia, Zurique/Nova Iorque, 1945, pág. 72). Na afirmação de que determinada coisa é susceptível de plano, é «planeá- vel», atribui-se a essa «alguma coisa» uma qualidade, um predicado, o que sugere a ideia de que, com isso, alguma coisa é esclarecida ou explicada. Na realidade, a expres­ são aponta o grande e obscuro enigma, exactamente aquilo que escapa à compreensão: o mesmo enigma que nós também designamos, sim, mas não explicamos, com

a palavra «vida». Vemos hoje mais claramente que não podemos ocul­

tar o mistério que envolve o problema do ser vivo com uma palavra que finge de predicado. Sentimos, de novo,

o que há de obscuro na realidade, em todo o seu poder

misterioso e procuramos descobrir, pela investigação cautelosa das propriedades reconhecíveis, o que é inves- tigável.

Assim, fala-se hoje menos de totalidade e de organi­ zação segundo um plano do que habitualmente se falava há vinte anos e por isso vamos pondo, a pouco e pouco,

a descoberto o conjunto de factores, por meio de cuja

acção uma coisa se nos apresenta como um todo ou pro­

curamos determinar a espécie de estrutura que sugeriu

a existência de um plano. É uma ciência do ser vivo na

sua evolução, ciência que não é uma mecânica, nem uma pneumática, para empregar uma expressão de E. Heuss (1939). A nova noção de realidade explica também a ati­

tude

o problema da organização segundo um

plano. O próprio Uexküll diz algures: «O Sol que propor­ ciona a dança de uma nuvem de mosquitos não_é_o nosso

perante

[ 2 0 ]

sol mas um sol dos mosauitos que só existe graças aos olhos destes.» Nada porém, podemos dizer do sol dos mosquitos sem ter verifjcado^o plano de organização do mundo-próprio dos mosquitos (Teor. Biológ., pág. 233). E aqui se nos apresenta, com clareza, a organização segundo um plano como aquilo que é para nós: um enigma que se entrevê de uma para outra espécie animal e que, de cada vez, importa resolver. O próprio Uexküll acentuou mais de uma vez ser a pesquisa deste plano a missão da biologia: «Todos os planos se enquadram num plano de organização extraor­ dinariamente vasto que, até agora, tem sido negado obsti­ nadamente. Por muito cómodo que isso fosse, já hoje, porém, não é admissível.» Com estas palavras termina a Biologia Teórica, de Jacob Uexküll. Elas apontam muito para além do horizonte que limita o campo de trabalho biológico e atestam a atitude do investigador que durante toda a sua vida pesquisou os modos de ordenação do mundo orgânico e cujo labor arreigou cada vez mais a sua convicção acerca das ordenações cósmicas. Os tra­ balhos reunidos neste volume também aludem, repetidas vezes, à concepção da Natureza que Uexküll representou. Essa concepção não se limita a ver nos fenómenos da natureza só os aspectos pesquisados mas também venera o segredo que se fecha em cada ser vivo à nossa volta.

[ 21]

DIGRESSÕES

PELOS

DO

MUNDOS-

-PRÓPRIOS

HOMEM

Por J.

E

v.

DOS

ANIMAIS

Uexküll e Georg Kríszat

PREFÁCIO

O presente livrinho não tem a pretensão de servir de guia de uma ciência nova. Limita-se, antes, a incluir o que podia chamar-se a descrição de um passeio por mundos desconhecidos. Estes mundos não são apenas desconhecidos, são também invisíveis: mais do que isso:

o seu direito de existir é-lhes, em geral, contestado por muitos fisiólogos e zoólogos. Esta bem curiosa atitude é, para quem conheça esses mundos, perfeitamente compreensível, pois que o cami­ nho que a eles conduz não é transitável para quem sofra de certos preconceitos capazes de obstruírem a porta que lhes dá acesso, tão impenetravelmente que nem um raio da luz esplendorosa que os inunda a pode atra­ vessar. Quem se agarrar ao preconceito de que todos os seres vivos são apenas máquinas, perde toda a esperança

[ 23]

de vir jamais a lobrigar os seus mundos-próprios (’)■ Mas quem ainda não se ajuramentou na doutrina mecanista dos seres vivos, pode prosseguir nas suas especula­ ções. Todos os nossos dispositivos^e todos os nossos maquinismos não passam de meios auxiliares das acti­ vidades do hfltnem. E, efectivamente, há certos meios auxiliares de trabalho — os chamados instrum entos de trabalho — em que se incluem todos os complicados maquinismos que servem, nas nossas fábricas, para a laboração de matérias-primas, e ainda caminhos-de-ferro,

automóveis, aviões

de controlo, a que podemos chamar instrumentos-indica-

dores, como telescópios, óculos, microfones, aparelhos de rádio, etc.

De sorte que é, então, óbvio admitir que um animal não é mais do que um conjunto de instrumentos-de-traba- Iho e de instrumentos-indicadores que, pela intervenção de um dispositivo coordenador, constituem um todo, que, na realidade, não deixará de ser um maquinismo, ainda que adequado ao desempenho da função. É esta, de facto, a maneira de ver de todos os mecanistas teóricos, quer, até certo ponto, se inclinem mais no sentido de pensar num mecanismo rígido, quer no de um dinamismo plás­ tico. Os animais ficam, pois, taxados de meros objectos. Com o que se esquece que, desde logo, se pôs de parte o que é essencial, istò é, o sujeito, o qual se utiliza do instrumento auxiliar, com ele assinala e com ele actua. A partir da concepção inadmissível de um instru-

Mas há também meios auxiliares

('} O termo Umwelt corresponde em português a ambiente, mundo ambiente ou, com menos propriedade, meio ambiente. No sentido, porém, em que o autor o emprega, ele significa qualquer coisa que depende do ser vivo considerado, e resulta de uma como que selecção por este realizada, dentre todos os elementos do

ambientè,

mundo-próprio.

seu

em virtude

da

sua

própria

estrutura

específica — o

[ 24]

mento simultaneamente de assinalamento e de acção,

não se limitaram aqueles a fazer passar os órgãos dos sentidos e os órgãos de movimento por peças de uma máquina (sem atenderem ao seu assinalar e actuar) mas foram mais longe, mecanizaram o homem, reduziram o homem a uma máquina. Segundo os beaviouristas, as nossas sensações e a nossa vontade são meras aparên­

cias, no melhor dos casos vêm incómodos.

Quem, porém, ainda considera que os nossos órgãos dos sentidos servem para o nosso assinalar e os nossos órgãos de movimento servem para o nosso actuar, verá nos animais, não apenas um sistema mecânico, mas dis­ cernirá também o maquinista que se aloja nos órgãos, como nós próprios no nosso corpo.

meros

objectos, mas como sujeitos, cuja actividade essencial consiste em assinalar e actuar.

a valer como acidentes

Então considerará

os

animais,

não já

como

Com o fazê-lo abre-se já a porta que conduz aos mun­ dos-próprios animais, porque tudo aquilo que um sujeito assinala passa a ser o seu mundo-de-percepção, e o que ele realiza, o seu mundo-de-acção. Mundo-de-percepção e mundo-de-acção constituem uma unidade íntegra — o mundo-próprio do sujeito,

Os mundos-próprios, que são tantos quantos os pró­ prios animais, oferecem a qualquer admirador da Natu­ reza novas terras, tão ricas e tão belas que compensam bem uma excursão através delas, mesmo quando elas se não patenteiem aos nossos olhos materiais mas somente à nossa visão espiritual.

As melhores condições para iniciar tal digressão são um dia de Verão e um prado coberto de flores, ressoante de zumbidos de coleópteros e pululante de adejares de borboletas; então construiremos para cada animal dos que povoam o prado, uma como que bola de sabão, que

[25]

represente o seu mundo-próprio, preenchida por todos aqueles sinais^ característicos que são acessíveis ao sujeito. Logo qi^e entremos numa dessas bolas de sabão transfigura-se completamente o mundo ambiente (') que se abria em volta do sujeito. Muitas qualidades do varie­ gado prado desaparecem inteiramente, outras perdem as suas propriedades gerais; surgem novas correlações. Em cada bola de sabão passa a existir um mundo novo.

Para atravessar connosco esses mundos convidamos o leitor a acompanhar a descrição que se segue. Os auto­ res, ao prepararem este livro, distribuíram as suas tare­ fas; de modo que um (Uexküll) encarregou-se do texto, e o outro (Kriszat), do material das gravuras.

Esperamos dar, com esta descrição de viagem, um decisivo passo em frente, e assim convencer muitos leito­ res de que existem, com efeito, mundos-próprios, e que com isso se abre um novo e inesgotável campo de investi­ gações. Simultaneamente, este livro testemunhará o espí­ rito de investigação colectiva dos activos colaboradores do Instituto para o Estudo do Mundo-Próprio, em Ham­ burgo (2).

Agradecemos em particular ao JD r_ K. Lorenz, que

enviando-nos as gravuras que ilustram as suas fecundas experiências sobre gralhas e estorninhos favoreceu o nosso trabalho. O Prof. Eggers cedeu-nos amavelmente um relato pormenorizado dos seus estudos sobre borbo-

(’) Umgebung, em alemão, na acepção de tudo que em volta do sujeito se desenrola, independentemente de o impressionar ou o estimular, ou não.

H Comp. Friedrich Brock: Verzeichnis der Schriften J. v. Uexküll und der aus dem Institut fur Umweltíorschung zu Hamburg hervorgegangenen Arbeiten. Sudhoffs Archiv fur Gesch. d. Medizin

1934. J. A. Barth, Leipzig. (Nota da

und d. Naturwiss. Bd, 27, H. 3-4, ed. alemã.)

[26]

letas nocturnas. O conhecido aguarelista Franz Hutk esbo­ çou para nosso uso os desenhos do quarto e do carvalho. A todos deixamos aqui expressos os nossos cordiais agra­ decimentos.

Hamburgo, Dezembro,

1933.

[27]

J.

v.

Uexküll

IN T R O D U Ç Ã O

Não há, certamente, camponês que tendo batido com o seu cão matos e bosques não tenha travado conheci­ mento com um animalzinho que, suspenso dos ramos dos arbustos, espia a sua vítima, homem ou bicho, para sobre

Fig. 1 — Carraça

ela se precipitar e se saciar com o seu sangue, inchando, das dimensões de, o máximo, dois milímetros, até ao volume de uma ervilha (fig. I).

A carraça, ou carrapato, nomes por que se designa

[29]

esse animal,^ não é realmente perigosa, mas nem por isso deixa de ser um hóspede incómodo dos mamíferos, e mesmo do homem. O seu ciclo biológico foi de tal modo esclarecido po^r trabalhos recentes que dele podemos traçar um relato exacto. Do ovo sai um pequeno ser ainda não completamente desenvolvido, a que faltam um par de patas e os órgãos da reprodução. Nesta fase já pode atacar animais de tem­ peratura variável, como, por exemplo, lagartos, que espera emboscado na extremidade da haste de uma erva. Depois de sofrer algumas mudas, os órgãos que lhe faltavam acabam por se desenvolver, passando então a caçar ani­ mais de temperatura constante. Já fecundada, a fêmea sobe, com as suas já então oito patas, até à parte supe­ rior de um arbusto que lhe agrade, para, de altura conve­ niente, se deixar cair sobre pequenos mamíferos furtivos que passem ao seu alcance, ou arrastar por animais de maior porte.

O caminho para a sua torre de vigia descobre-o o ani- malzinho, que é desprovido de olhos, valendo-se do seu tegumento, sensível à luz. A aproximação da vítima é revelada ao salteador, que além de cego é também surdo, pelo seu sentido do olfacto. As emanações de ácido butírico que provêm das glândulas da pele dos mamífe­ ros servem para a carraça de sinal de advertência para abandonar o seu posto de vigia e lançar-se sobre a presa. Se vem a cair sobre qualquer animal de temperatura cons­ tante, que um apurado sentido térmico lhe denunciou — então atingiu a sua vítima, e só falta agora, ainda com o auxílio do seu sentido do tacto, encontrar uma zona tanto quanto possível livre de pêlos, para se introduzir, até para trás da cabeça, nos tecidos cutâneos daquela; e põe-se a sugar lentamente o sangue quente que jorra. Experiências feitas com membranas artificiais e com outros líquidos que não sangue mostraram que a carraça é desprovida de sentido do gosto, pois que depois de

[30]

perfurar a membrana absorve qualquer líquido, contanto que este esteja a temperatura conveniente. Se a carraça cai sobre qualquer coisa fria, depois de o sinal de ácido butírico ter funcionado, então errou de hospedeiro, e tem de voltar a trepar para o seu posto de espia.

. O lauto festim de sangue que a carraça goza é, simul­ taneamente, o seu último repasto, pois que agora nada lhe resta senão deixar-se tombar no chão, fazer a postura

e morrer. Os breves acidentes da vida da carraça dão-nos uma adequada pedra-de-toque da solidez do ponto de vista bio­ lógico, comparado com o método fisiológico, como até

aqui se tem aplicado. Para o fisiólógo, cada ser vivo é um objecto que se situa no seu mundo-próprio do homem. Examina-lhe os órgãos e o seu funcionamento total, como um técnico examinaria uma máquina que seja nova para ele. O biólogo, ao contrário, toma em conta que cada ser vivo é um sujeito, que vive num mundo

que lhe é particular, de que ele constitui o centro; e, por isso, pode comparar-se, não a uma máquina, mas apenas ao maquinista que maneja a máquina. Resumindo, a questão pode pôr-se assim: a carraça

é uma máquina ou um maquinista? É um mero objecto ou

um sujeito? A fisiologia interpretará a carraça em termos de uma máquina e dirá: na carraça podem-se distinguir recepto­ res, isto é, órgãos dos sentidos, e efectores, isto é, e órgãos de acção, que, por meio de dispositivo coorde­ nador no sistema nervoso central, estão mutuamente rela­ cionados. O conjunto é uma máquina de que se não dis­ cerne o maquinista. «É exactamente nisso que está o erro», objectará o biólogo. «Nenhuma das partes do corpo da carraça tem as características de umãlriáquina, ém to'da efa o~que~ actua são maquinistas.p

[31]

O fisiólogo continuará inabalável: «Na carraça,

precisamente, verifica-se que todas as actividades assen­ tam exclusivamente em reflexos (1), e o arco-reflexo cons­ titui a base de cada máquina animal (fig. 2). Este começa por um receptor, isto é, um dispositivo que só admite certas influências exteriores, como ácido butírico e calor, mas rejeita tudo mais. E termina num músculo que põe

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Fig. 2 — Arco-reflexo

em actividade um efector, o dispositivo locomotor, ou o dispositivo perfurador.

As células sensoriais, que libertam a excitação dos

o impulso

de movimento, funcionam apenas como peças conecto- ras que conduzem as ondas excitadoras, absolutamente materiais, que são originadas nos nervos, sob a acção do choque exterior. Todo o arco-reflexo trabalha com trans­ missão de movimento, como qualquer máquina. Nenhum

sentidos, e as células motoras, que

libertam

factor subjectivo, como seja, um ou mais maquinistas, intervém no fenómeno, seja como for.»

«O que se passa é exactamente o contrário», repli-

de

um raio de luz, por um espelho. Aplicado aos seres vivos, o termo

reflexo significa a captação de um estímulo exterior por um recep­ tor e a resposta provocada pelo estímulo do efector do ser vivo.

nervosa, que

No fenómeno o estímulo transforma-se

tem de passar por várias estações

para ir do receptor ao efector.

O caminho assim seguido designa-se por arco-reflexo. (Nota da ed. alemã.)

(')

Reflexo,

originalmente, significa

a captação

e

reenvio

em

excitação

[32]

cará

maquinistas e não de partes de máquinas. Porque todas e cada uma das células do arco-reflexo funcionam não com transmissão de movimento, mas com transporte de estímulo. Um estímulo, porém, deve ser notado por um sujeito e essencialmente não provém de um objecto.» Qualquer parte de uma máquina, um badalo de um sino, por exemplo, trabalha apenas maquinalmente quando de determinada maneira é posto a oscilar. Quaisquer outras intervenções despertam nele respostas como o fariam em qualquer mero pedaço de metal. Ora, desde John Müller O , nós sabemos que um músculo se com­ porta de uma forma completamente diferente. A qualquer intervenção exterior ele responde sempre da mesma maneira: por uma contracção. Toda a intervenção exterior é por ele transformada no mesmo estímulo; a todas res­

ponde com o mesmo impulso que obriga o corpo da célula

o biólogo.

«Do que se trata,

principalmente,

é

de

à contracção. John Müller demonstrou ainda que todas as acções exteriores que incidem nos nossos nervos visuais, sejam elas ondas do éter, compressões ou correntes eléctricas, produzem uma sensação visual, isto é, as nossas células sensoriais visuais respondem com o mesmo sinal-per-

ceptivo. Disto devemos concluir que cada célula viva é um maquinista, que assinala e actua, e por isso possui «assi­ nalamento» ou percepção e «activação^» ou impulso. As múltiplas marcas e acções do sujeito-animal total são, por consequência, atribuíveis ao trabalho de conjunto de pequenos maquinistas celulares, cada um dos quais somente decide sobre um sinal-perceptivo ou um sinal- -de-impulso. Para que seja possível uma cooperação ordenada, o

 

(')

Fundador da

moderna

fisiologia

(1801-1858).

(Nota

da

ed.

alemã.)

 

3 - A.

IIOMENS

 

[33]

organismo se^ve-se das células do cérebro (que são tam­ bém maquinistas elementares), e agrupa metade delas como «células assinaladoras» ou células-de-percepção na parte do cére&ro receptora de estímulos, isto é, no «órgão-assinalador, ou de-percepção», em faixas mais ou menos extensas. Estas faixas correspondem a grupos de estímulos exteriores que entram como perguntas no sujeito-animal. A outra metade das células do cérebro utiliza-as o organismo como «células activadoras» ou células-de-impulso, e agrupa-as em faixas com que comanda os movimentos dos efectores, que comunicam ao mundo exterior as respostas do sujeito-animal. As faixas das células-de-percepção constituem o «órgão-de-percepção» do cérebro, e as faixas das células- -de-impulso, o «órgão-de-impulso».

Se, pois, nos permitimos imaginar um órgão-de-per­ cepção como um centro de faixas de percepção alternadas e maquinistas celulares que são os portadores de percep­ ções específicas, no entanto elas conservam-se entida­ des espacialmente distintas. Os seus sinais-perceptivos permaneceriam também distintos, se não tivessem a pos­ sibilidade de se fundirem em novas unidades, fora do órgão-de-percepção, espacialmente fixado. Ora tal possi­ bilidade existe efectivamente. Os sinais-perceptivos de um grupo de células-de-percepção reúnem-se fora do órgão-de-percepção, na realidade fora do corpo de animal, em unidades que passam a ser atributos dos objectos situados fora do sujeito-animal. Este facto é bem conhe­ cido de todos. Todas asjiossas sensações humanas, que figuram os nossos assinalamentos, ou percepções, espe.- cíficos, convergem nos atributos dos objectos exteriores, que nos servem como sinais-característicos que utiliza­ mos. A sensação «azul» passa a ser a «cor azul» do céu; a sensação «verde» passa a ser a «cor verde» da relva, etc. No sinal-característico, ou carácter, azul, reconhece­ mos o céu, no carácter verde reconhecemos a relva.

[34]

Outro tanto, exactamente, se passa no órgão-de- -impulso. Nele as células-de-impulso desempenham o papel de maquinistas elementares, que, neste caso, con­ soante as suas actividades, ou impulsos, se ordenam em

grupos bem articulados. Também aqui existe a possibili­ dade de os impulsos individualizados se concentrarem em unidades que actuam sobre os músculos, a elas subordi­ nados, como impulsos encadeados ou melodias de impul­ sos, ritmicamente articulados. Depois do que os efectores postos em acção pelos músculos imprimem aos objectos situados fora do sujeito a sua realidade.

ao

A _marca-de-acção

que

os

efectores

imprimem

objecto é directamente reconhecível — como a ferida que o ferrão da carraça produz na pele do mamífero por ela atacado. Mas, primeiro, a difícil descoberta dos sinais característicos do ácido butírico e do calor completou o quadro da carraça laboriosa no seu mundo-próprio. Em sentido figiiradfl.,.p_ode. dizer-aeque cada sujeito- -animal apreende o seu obieclQ-com-as_duas hastes de urna_tenaz — uma haste de perceber outra de impulsio­ nar. Com uma confere-lhe, um atributo, com a_ontra. uma marca-de-acção. Por este meio certas propriedades do objecto passam a ser portadoras de sinal-caracterís­ tico, certas outras, de marca-de-acção. Como todas as propriedades de um objecto estão ligadas umas às outras pela estrutura deste, as atingidas pelo sinal-de-impulso devem exercer no objecto a sua influência sóbre as por­ tadoras de sinal-característico e também actuar sobre estas modificando-as, o que resumidamente melhor se exprime dizendo: a marca-de-acção cancela o sinal-carac- terístico. O número e a ordenação das células-de-percepção que por meio dos seus sinais-perceptivos assinalam os objectos do seu mundo-próprio com sinais-característicos e o número e ordenação das células-de-impulso que por meio dos seus sinais-de-impulso dão aos mesmos objec-

[ 35]

tos marcas-de-acção são, principalmente, e a par da selecção de estímulos que os receptores realizam e da ordenação dos músculos que permite aos efectores mani­ festarem-se, decisivos no desenrolar de cada forma de comportamento de todos os sujeitos animais. O objecto, somente no que respeita ao comporta­ mento, é como se devesse possuir as propriedades neces­ sárias, que por um lado pudessem servir como portado­ ras de sinais-característicos, e por outro de portadoras

órgão de Percepfio

Órgão de impulso

Mundo de Percepção

Receptor Portador de sinal característico

Portador de marca de acção Efector

Mundo

de acção

Fig. 3 — Ciclo-de-Função

de marcas-de-acção que devessem estar em associação por ajustamento mútuo. As relações de sujeito com objecto jsstão ilustradas no ésquemã~gõ~ciclo-de-funcão ffiq. 3). Ele mostra corrio sujeito e objecto se ajustam reciprocamente e constituem um todo que obedece a um plano. Se, além disso, se supõe que um sujeito se liga a um ou vários objectos por vários ciclos-de-função, fica-se, então, fazendo uma ideia do conceito fundamental da doutrina do mundo-próprio, a saber: todos os sujeitos animais, os mais simples como os mais complexos, estão ajustados com a mesma per­

[36]

feição aos seus mundos-próprios. Aos primeiros corres­ pondem mundos-próprios simples, aos segundos, mundos- -próprios complexos. E agora situemos no esquema do ciclo-de-função a carraça como sujeito e o mamífero como objecto. Verifi­ ca-se imediatamente que decorrem segundo um plano três ciclos-de-função, e uns a seguir aos outros. As glân­ dulas cutâneas do mamífero constituem o portador de sinal característico do primeiro ciclo, pois o estímulo ácido butírico liberta no órgão-de-percepção sinais-per- ceptivos, específicos, que são transportados para a peri­ feria como carácter olfactivo. Os fenómenos que se pas­ sam no órgão-da-percepção provocam por indução (em que tal consiste, ignoramo-lo) no órgão-de-impulso impul­ sos correspondentes, que produzem o movimento dos membros locomotores e a queda do animal. A carraça ao cair confere aos pêlos do mamífero a marca-de-acção do choque, que então, por seu turno, liberta um carácter táctil pelo que o carácter olfactivo do ácido butírico é cancelado. O novo carácter provoca um movimento de vaguear, até que na primeira zona sem pêlos é remido pelo carácter calor, e aí começa o trabalho de perfu­ ração. Sem dúvida trata-se aqui de três reflexos que se vão anulando sucessivamente e são sempre desencadeados por acções físico-químicas objectivamente determináveis. Mas quem se contente com esta verificação e julgue ter com ela resolvido a questão, mostra apenas que não alcançou o verdadeiro problema. Não é o estímulo quí­ mico do ácido butírico que se debate, nem tão-pouco o estímulo mecânico (desencadeado pelos pêlos), nem ainda o estímulo térmico da pele, mas apenas o facto de saber £orquê, entre as centenas de. acções que resul- tam_das propriedades do corpo do mamífero, só três se tornam portadoras de sinais característicos relativamente à carraça, e porquê essas três e não outras.

[37]

Não se trata de qualquer reciprocidade de forças

entre dois objectos, mas sim das correlações entre um sujeito vivo e o\seu objecto, e estas manifestam-se num

plano inteiramente diferente, a saber entre as percep­

ções do sujeito e o estímulo do objecto.

A carraça está suspensa, imóvel, da extremidade de

um ramo numa clareira. Pela sua situação oferece-se-lhe

a oportunidade de cair sobre um mamífero que por ali

passe. De todo o ambiente não incide sobre ela nenhum estímulo. Então, aproxima-se um mamífero, de cujo san­

gue ela necessita para o desenvolvimento da sua prole. E agora qualquer coisa de bem maravilhoso se passa:

de todas as acções provenientes do corpo do mamífero

só três passam a constituir estímulos e, essas, em

sequência bem determinada. Do vasto mundo que rodeia

a carraça fulguram três estímulos, como sinais luminosos

dentre as trevas, e servem à carraça de guias, que ela confiadamente segue até atingir o seu objectivo. Para

tal ser possível as carraças são dotadas, além do seu

corpo com os seus receptores e efectores, de três sinais- -perceptivos que pode utilizar como três sinais caracte­

rísticos. E é por meio destes que à carraça o fluir do seu comportamento é tão determinadamente prescrito que ela só pode realizar actos perfeitamente determinados. Todo o opulento mundo ambiente que rodeia a car­ raça se contrai e se transforma num quadrõ~me"squinh5 que essencialmente consiste ainda em três sinais carac- teríitlcõs~êlrês marcas-dF-ãQção^rã-seu-muncio-própxJo.

A indigência desse mundo-próprio ajusta-se, porém,

estreitamente à segurança do comportamento, e segu­ rança vale mais que riqueza. Do exemplo da carraça pode deduzir-se o que é fundamental na estrutura dos mundos- -próprios dos diferentes seres, e é válido para todos os

animais. Mas a carraça possui uma faculdade muito notá­

[ 38]

vel, que nos desvenda uma perspectiva muito mais vasta dos mundos-próprios.

É imediatamente evidente que a inesperada fortuna da passagem de um mamífero por sob o ramo sobre que a carraça se encontra é muito rara. Este inconveniente nem pelo grande número de carraças que se emboscam nos arbustos é suficientemente compensado para asse­ gurar a subsistência da espécie. A faculdade de a carraça poder viver muito tempo sem se alimentar, aumenta as probabilidades de vir a passar uma presa ao seu alcance. Essa faculdade possui-a a carraça em grau invulgarmente elevado. No Instituto Zoológico de Rostock conserva­ ram-se vivas carraças que chegaram a jejuar durante dezoito anos (1). Isso a nós, homens, ser-nos-ia impossí­ vel. O tempo no nosso mundo-humano é constituído por uma série de momèntos curtrssmTõí^^injrante os quais

Durgiile - um

momentãà iaundo xions.erva;se.invarlável. O momento do

o mundo não manifesta qualquer mudança

(') A carraça está, sob todos os pontos de vista, organizada para resistir a um longo período de jejum. As células seminais que a fêmea recebeu e conserva dentro de si durante o período de espera estão contidas dentro de cápsulas, até o sangue do mamí­ fero chegar ao estômago da carraça. Quando isso se dá elas são postas em liberdade e fecundam os óvulos que esperavam nos ovários. Em contraste com a adaptação perfeita da carraça ao seu objecto-presa, que ela acaba por encontrar, está a fraquíssima pro­ babilidade de que tal suceda, mesmo apesar do longo tempo de espera possível. Bodenheimer tem perfeitamente razão quando fala de um péssimo, isto é, de um mundo reconhecidamente desfavo­ rável em que vive a maioria dos anit|hais. Somente, este mundo não é o mundo-próprio de cada um delés, mas o mundo ambiente de todos. Mundo-próprio óptimo, isto é, reconhecidamente favorável, e mundo ambiente péssimo, pode considerar-se a regra geral. Porque sucede sempre deverem tombar muitos indivíduos para que a espé­ cie subsista. Se o mundo ambiente não fosse, para certa espécie, péssimo, então esta, devido ao seu mundo-próprio, óptimo, podia conquistar a supromacla sobro todas as outras. (Noto do autor.)

[ 39]

homem é de 1/18 segundos Q . Veremos adiante que a

duração do momento varia com os diferentes animais,

mas seja qual for o valor que queiramos estabelecer para

o caso da carraça, a possibilidade de suportar um mundo-

-próprio invariável durante dezoito anos está fora do alcance de todas as probabilidades. Admitiremos, pois, que a carraça durante o seu período de espera se encon­ tra como que num estado de letargia, que também em nós interrompe o tempo por horas. Somente, o tempo no mundo-próprio da carraça pára, durante o seu período de espera, não por horas apenas, mas por vários anos, e ela

volta à actividade quando o sinal de aviso «ácido butírico»

a desperta para a nova fase de actividade.

Que ganhámos com esta noção? Alguma coisa muito significativa. O tempo, que serve de moldura a todo o acontecer, apresenta-se como a única constante objectiva perante a variada mudança do seu conteúdo, e agora vemos que o sujeito controla o tempo do seu mundo-pró- prio. Ao passo que até agora dizíamos: sem tempo não pode existir nenhum sujeito vivente, devemos agora dizer: sem um sujeito vivente não pode existir qualquer tempo.

No próximo capítulo veremos que outro tanto sucede com o espaço: sem um sujeito vivente não pode existir nem qualquer espaço nem qualquer tempo. Com isto encontrou a biologia unidade definitiva na doutrina de

{')

Demonstra-o o cinema. Na passagem de um filme, os qua­

dros devem suCeder-se e deter-se alternadamente. Para que apare­ çam com perfeita nitidez, as exposições instantâneas e distintas devem ser ocultadas por um anteparo. A ocultação produzida, ver­ dadeiramente passa despercebida, se entre a ocultação e a exposi­ ção medear um intervalo de tempo de 1/18 segundos. Se esse tempo fosse mais longo resultaria uma tremulação insuportável. (Nota do autor.)

[40]

Kant, unidade que ela aproveitará no aspecto científico- -natural da doutrina dos mundos-próprios, ao acentuar-se

o papel decisivo do sujeito.

1. OS ESPAÇOS

DOS

MUNDOS-PRÓPRIOS

Assim como um gastrónomo, do bolo só escolhe as passas, assim também a carraça, das coisas do seu ambiente só seleccionou o ácido butírico. Não nos inte­ ressa saber que sensação gustativa as passas desper­ tam no gastrónomo, mas apenas o facto de as passas se tornarem sinais-característicos do seu mundo-próprio, pois que, para ele, são dotadas de significado biológico especial; assim, também, não perguntamos como o ácido butírico cheira ou sabe à carraça, mas registamos apenas

o facto de o ácido butírico ter passado a ser biologica­

mente significante como sinal-característico carraça. Contentamo-nos com o admitir que no órgão-de-per- cepção da carraça devem existir células de percepção que manifestam os seus sinais-perceptivos, como o admi­ timos igualmente relativamente ao órgão assinalador do gastrónomo. A única diferença é que a percepção do ácido butírico passa a ser um sinal característico do seu mundo-próprio, ao passo que é a percepção das passas

o que, no gastrónomo, passa a ser um sinal característico

do seu. O mundo-próprio do animal, que exactamente preten­ demos estudar, é apenas uma fracção do mundo ambiente que nós vemos desenrolar-se em volta do animal — e este mundo ambiente não é mais que o nosso mundo-próprio humano. O primeiro problema no estudo dos mundos- -próprios consiste em escolher, dentre os sinais carac­ terísticos do mundo que o rodeia, aqueles que são par­ ticulares ao animal e com eles construir o seu mundo- -próprio. O sinal característico «passas» deixa a carraça

[41]

perfeitamente indiferente, ao passo que o sinal caracte­ rístico ácido bgtírico desempenha no seu mundo-próprio um papel importante. No mundo-próprio do gastrónomo o que tem significado acentuado é, não o sinal caracterís­

tico ácido butírico mas o sinal característico «passas». Cada sujeito fia as suas correlações como os fios de uma aranha, relativamente a determinadas proprie­ dades das coisas, e tece-as numa sólida teia que suporta

a sua existência.

Quaisquer que possam ser as correlações entre o sujeitõ~e~os objectos do seu mundo ambiente elas ocor- r6[D„sempre exteriormente.ao sujeito em que temos de escolher os sinais característicos. Os sinais característi­ cos, ou qualidades, são, por isso, sempre de qualquer modo espacialmente ligados, e, põís que eles sVlibertãm

uns aos outros temporalmente.

numa certa ordem, são também

ligados

Só por excessiva leviandade alimentamos a ilusão

de as correlações do sujeito, outro que não nós, com as coisas do seu mundo-próprio existirem no mesmo espaço

e no mesmo tempo que as que nos ligam às coisas do

nosso próprio mundo humano. Esta ilusão é alimentada pela suposição da existência de um mundo único em que

todos os seres vivos estão encerrados. Daí, a convicção geralmente aceite, de que deve haver um único espaço

e um único tempo para todos os seres vivos. Só recen­

temente surgiram

a existência de um universo com um espaço válido para

todos os seres. Que tal espaço não pode existir resulta já do facto de cada homem viver em três espaços que

se penetram mutuamente, completando-se, mas que tam­ bém até certo ponto se contrapõem.

no espírito dos físicos dúvidas sobre

[42]

a)

O espaçazd£.-axzeãe-

Quando, de olhos fechados, movemos livremente os nossos membros, estes movimentos, tanto em direcção como em extensão, são-nos exactamente conhecidos. Abrimos com as nossas mãos caminho num espaço a que damos o nome de âmbito dos nossos movimentos, ou, abreviadamente, espaço-de-acção. Todos estes caminhos são por nós seguidos a peque­ nas passadas a que chamamos passos-de-orientação, por­ que a direcção de cada uma delas nos é rigorosamente conhecida mercê de uma sensação de orientação, ou sinal-de-orientação. E, na realidade, distinguimos seis orientações, que se opõem duas a duas: para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo, para diante e para trás. Têm-se feito estudos que provam ser de cerca de dois centímetros as passadas mais curtas que podemos dar, avaliadas pelo avanço do dedo indicador com o braço estendido. Estas passadas não dão, como se vê, uma medida exacta do espaço em que elas são seguidas. Cada um de nós pode fazer uma ideia aproximada desta inexac­ tidão, procurando levar ao contacto uma da outra, as pon­ tas dos dois indicadores das mãos. Verificaremos que a maior parte das vezes isso não se consegue e que aquelas passam à distância de dois centímetros uma da outra.

É, para nós, do mais alto significado o poder muito facilmente reter de memória o deslocamento uma vez seguido, o que nos permite escrever às escuras. Chama­ mos a esta capacidade «cinestesia», designação que nada de novo nos diz. Ora, o espaço-de-acção não é meramente um espaço de movimento constituído por milhares de passadas-de- -orientação que se cruzam, mas possui um sistema de referência formado por planos perpendiculares entre si,

[43]

que definem o conhecido sistema de coordenadas, que serve de base a todas as determinações espaciais. É de fundamentai importância que quem se ocupa do estudo do problema do espaço se compenetre deste facto. Que é tudo que há de mais simples. Basta movermo-nos para um e outro lado, com os olhos fechados e as palmas das mãos verticais e perpendiculares à testa, para, sem mais nada, podermos fixar o limite entre direita e esquerda. Este limite coincide aproximadamente com o plano mediano do corpo. Se nos deslocamos com as pal­ mas das mãos colocadas horizontalmente e à altura dos olhos, para cá e para lá, podemos analogamente determi­ nar onde se encontra o limite entre abaixo e acima. Este limite está, na maioria das pessoas, situado à altura dos olhos; mas em muitas encontra-se à altura do lábio supe­ rior. O limite entre o anterior e o posterior, que se deter­ mina com as palmas das mãos voltadas para a frente de um e outro lado da cabeça e deslocando-as para trás e para diante, está situado, em grande número de pessoas, à altura do orifício do ouvido, noutras, à altura da arcada zigomática, e ainda noutras, à altura da ponta do nariz. Cada pessoa normal dispõe de um sistema de coordena­ das formado por estes três planos, estritamente relacio­ nado com a cabeça (fig. 4) e com que confere ao seu espaço-de-acção o quadro fixo em que se dão os passos- -de-orientação.

No labirinto confuso dos passos-de-orientação, que como elementos de deslocamento não podem conferir ao espaço-de-acção nenhuma fixidez, os planos fixos de refe­ rência fornecem uma estrutura segura que garante a ordem no espaço-de-acção. A grande contribuição de Cyon (1) consistiu em refe-

O

Elie

v.

Cyon

(1842-1912),

fisiólogo

russo,

descobridor

de

nervos

e

funções

nervosas

muito

importantes.

(Nota

da edição

alemã.)

[44]

rir a tridimensionalidade do nosso espaço a um órgão

sensorial situado no nosso ouvido

semicirculares (fig. 5), cuja posição corresponde aproxi­

madamente aos três planos do espaço-de-acção. Esta correspondência mostram-na tão claramente numerosas experiências, que podemos formular a seguinte proposição: todos os animais que possuem três canais semicirculares dispõem também de um espaço

interno — os canais

tridimensional. A fig. 6 representa os canais semicircula­ res de um peixe. É evidente que estes devem ser da máxima importância para o animal. Em apoio disto se pronuncia também a sua estrutura interna, que neles tem um sistema de canais em que, sob o controlo dos nervos, se desloca um fluido nas três direcções do espaço. O movimento do fluido reflecte fielmente os movimentos de todo o corpo. Isto mostra-nos que o órgão, além da

[45]

função de deslocar os três planos no espaço-de-acção, tem ainda um outro significado. E, de facto, parece que ele desempenha ainda o papel de bússola. Não uma bús­ sola que se oriente sempre na direcção norte-sul, mas na

Fig. 6 — Canais semicirculares de um peixe

[46]

direcção das «portas de entrada». Quando todos os movi­ mentos do corpo em bloco, se decompõem e são regista­ dos em três direcções nos canais semicirculares, o ani­ mal deve encontrar-se no ponto de partida, quando, por meio de vibrações, os sinais nervosos tenham voltado ao zero.

É indubitável que uma bússola que indique as portas

de entrada deve ser, para todos os animais que dispo­ nham de um lugar onde se recolham, ninho ou local de postura, um recurso indispensável. A garantia de terem

à sua disposição as portas que lhe dão acesso, obtida por sinais ópticos no espaço visual, não é, em geral, sufi­ ciente, porque eles devem poder reencontrá-las mesmo quando elas tenham mudado de aspecto.

A capacidade de redescobrirem as portas de entrada

no espaço-de-acção puro, pode demonstrar-se que existe também nos insectos e moluscos, apesar de estes ani­ mais não possuírem canais semicirculares.

A seguinte experiência é bem convincente (fig. 7).

Enquanto a maior parte das abelhas de uma colmeia voam pelo campo, desloca-se esta do seu lugar habitual para uns dois metros de distância. Verifica-se então que, de volta a ela, se acumulam pairando no ar, no lugar em que ela antes se encontrava e com ela o orifício de acesso — o seu ponto de partida. Só passados uns cinco minutos elas se resolvem a voar para aquela sua nova situação. Levando mais longe esta experiência demonstrou-se que aquelas abelhas a que se tinham cortado as antenas se dirigiam sem se deterem para a colmeia deslocada, o que significava que, só enquanto as possuíam se orienta­ vam no espaço-de-acção. Sem elas orientam-se à custa dos sinais visuais do campo. As antenas da abelha devem, pois, considerar-se como órgão que, de qualquer modo, desempenha o papel de bússola da porta de acesso na sua vida normal, e lhe indica o caminho de regresso com mais certeza que os sinais visuais.

[47]

Posição anterior da cclmsia

Fig. 7 — Espaço-de-acção da abelha

Ainda mais surpreendente é a análoga descoberta- -do-lar, que os Ingleses designam pelo termo homing, por parte da lapa (’} (fig. 8). A lapa vive entre as zonas das marés, sobre as rochas. Os grandes exemplares da espé­ cie gravam na rocha para seu uso e com a sua concha dura, um leito em que, aderindo fortemente a ela, pas­ sam o período da baixa-mar. No período da preia-mar começam a deslocar-se e a pastar nas rochas dos seus arredores. Logo que a maré começa a baixar buscam de novo o seu leito, não seguindo sempre o mesmo caminho. Os olhos da lapa são tão rudimentares que o molusco, só à custa deles, muito dificilmente consegue reencontrar o seu ponto de partida. A existência de qualquer indício de olfacto é tão improvável como a de um sentido de visão. Só resta admitir a existência de uma como que bússola orientadora no espaço-de-acção, de que todavia não pode­ mos fazer a mínima ideia.

(’)

Molusco gastrópode marinho do género Patella.

[48]

b) O espaço táctil

A pedra de fundação do espaço táctil não é nenhuma grandeza cinemática como a passada-de-orientação, mas sim uma grandeza estática, isto é, o local. O local tam-

Fig. 8 — Descoberta do lar pela lapa

bém deve a sua existência a um sinal-perceptivo do sujeito e não é qualquer aspecto inerente à matéria do ambiente. Foi Weber (') quem o demonstrou. Quando se colocam as pontas de um compasso, afastadas de

(') Ernest Heinrich Weber (1795-1878) contribuiu para a fundação da fisiologia moderna. Estudou o sentido do tacto na pele. (Nota da ed. alemã.)

4 -A .

IIOMENS

[49]

um centímetro uma da outra (fig. 9), sobre o pescoço de uma pessoa, elas são apercebidas como distintas uma da outra. Cada àma delas encontra-se num local diferente do da outra. Quando se transportam, sem alterar a sua distância, as duas pontas do compasso para as costas e para pontos cada vez mais afastados do pescoço, é como

Fig. 9 — Compasso de Weber

se elas estivessem cada vez mais próximas uma da outra, até que, com esse mesmo afastamento, é como se as duas pontas tocassem a pele no mesmo ponto. Daqui se conclui que além do sinal-perceptivo da sensação do tacto possuímos sinais-perceptivos para a sensação do local, a que chamamos sinais do local. Cada percepção-de-localização corresponde, exteriorizada, a

[ 50]

um local em espaço-táctil. Os territórios da nossa pele que, ao serem tocados, produzem a mesma percepção-

-de-localização variam largamente de extensão, conforme

a importância que tem para o tacto a região da pele que

é tocada. A par da ponta da língua, que tacteia a cavi­

dade bucal, as extremidades dos nossos dedos possuem os territórios de menor extensão, e podem, por isso, dis­ tinguir uns dos outros a maior parte dos locais. Quando tocamos com os dedos um objecto, atribuímos, por inter­ médio destes, à sua superfície um delicado mosaico de locais. O mosaico de locais dos objectos dos lugares fre­ quentados por um animal é, tanto no espaço táctil como no espaço visual, uma atribuição feita pelo sujeito às coisas do seu mundo-próprio, que de modo nenhum

existe no ambiente. Ao tocarem-se pontos diferentes, os locais

nam-se com as passadas-de-orientação e juntos servem

para o esboçar da forma. O espaço táctil desempenha um papel muito impor­

tante em muitos animais. Os ratos e os gatos continuam

a deslocar-se sem hesitar, mesmo quando cegos — con­

tanto que conservem os seus pêlos tácteis. Todos os ani­

mais nocturnos e todos os que habitam em grutas vivem essencialmente em espaço táctil, que uma fusão de loca­ lizações e passadas-de-orientação delimita.

relacio­

c) O Rspar.n-viRual

Os animais desprovidos de olhos, que, como a car­ raça, possuem pele sensível à luz, é de presumir que possuam as mesmas zonas tegumentares para a realiza­ ção de localizações, tanto por meio de estímulos lumino­ sos como por meio de estímulos tácteis. Localizações ópticas e localizações tácteis coincidem no seu mundo- -próprio.

[51]

Só nos animais providos de olhos, o espaço visual e o espaço táctil se distinguem um do outro. Na retina do olho os pequeníssimos territórios elementares — os elementos visuais — dispõem-se muito densamente uns em relação aos outros. A cada elemento visual corres­ ponde um acidente local no mundo-próprio, pois que se provou que a cada elemento visual corresponde um sinal- -do-local.

A fig. 10 representa o espaço visual de um insecto

voador. É fácil ver que, em consequência da forma con­ vexa do ,olho, o território do mundo exterior que atinge um elemento visual aumenta com a distância, e por cada local é discernida uma parte do mundo ambiente cada vez mais vasta. Disto resulta que todos os objectos que ficam mais afastados do olho se apresentam cada vez mais pequenos até desaparecerem no interior de um

[52]

local. De modo que o local representa a menor porção de espaço dentro do qual não há qualquer diferenciação. A aparente diminuição de grandeza dos objectos não se dá no espaço táctil. E é neste ponto que espaço visual e espaço táctil se opõem. Quando pegamos numa chá­ vena com o braço estendido e a dirigimos para a boca, ela aumenta de dimensões aparentes em espaço visual, mas não em espaço táctil. Neste caso o espaço táctil tem vantagem sobre o espaço visual pois que o aumento de tamanho da chávena passa despercebido a um obser­ vador não atento. Como a mão que palpa, o olho que olha em volta estende sobre todas as coisas do mundo-próprio um deli­ cado mosaico de locais, cuja finura depende do número de elementos visuais que atingem as mesmas secções do ambiente.

Pois que o número dos elementos visuais varia muito de animal para animal, o mosaico-de-locais deve também variar. Quanto menos fino for tanto maior número de par­ ticularidades das coisas devem perder-se, e o mundo, visto por um olho de mosca deve parecer muito mais grosseiro do que o visto por um olho humano. Como cada imagem pode variar por sobreposição de uma rede fina num mosaico de locais, o método da rede proporciona-nos a possibilidade de realizar a representa­ ção dos mosaicos de locais dos diferentes animais. Basta, para tanto, reduzir sucessivamente a mesma representação, vê-la depois através da mesma rede, foto- grafá-la e depois ampliá-la. Assim aquela se pode trans­ formar num mosaico cada vez mais grosseiro, reprodu­ zindo-o em aguada, sem rede, que tornaria confuso o seu aspecto. As figs. 11 a-d são aqui representadas tal como se obtiveram pelo método da rede, e dão-nos a possibili­ dade de se obter um aspecto do mundo-próprio de um animal, quando se conhece o número de elementos visuais do seu olho. A fig. 11 c corresponde aproximada-

[53]

Fig.

11 a — Fotografia de uma rua de aldeia

[ 54]

mente à reprodução fornecida pelo olho da mosca domés­ tica. É fácil de compreender que num mundo-próprio que apresenta tão poucas particularidades, os fios de uma teia de aranha devem passar completamente despercebi­ dos, e é legítimo dizer: a aranha tece uma teia que é completamente invisível à sua presa. A última figura (11 d) corresponde aproximadamente

à representação da impressão dada por um olho de

molusco. Como se vê, o espaço visual das lapas e dos mexilhões contém apenas algumas manchas escuras e claras (’). Como no espaço táctil, as conexões no espaço visual são feitas por passadas de orientação de local para local. Quando fazemos uma preparação à lupa, que tem por função discernir um grande número de locais em uma pequena área, podemos verificar que não é só a nossa vista mas também a nossa mão que guia a agulha de dissecção, realiza passadas-de-orientação muito mais curtas, correspondentes a locais tornados muito mais próximos uns dos outros.

2.

O

HORIZONTE

Ao contrário do espaço-de-acção e do espaço táctil,

o espaço visual é limitado em toda a volta por uma

parede impenetrável, a que chamamos o campo longín­ quo, ou o horizonte. Sol, Lua e estrelas movem-se, sem distância em pro-

(’) Estas representações indicam apenas o processo que leva a fazer uma primeira ideia das diferenças dos aspectos sob que vários animais vêem os objectos exteriores. Quem queira ficar com uma ideia das particularidades desses aspectos dinâmicos, no caso dos insectos, terá um guia na obra de K. v. Frisch Aus dem Leben der Bienen («Acerca da Vida das Abelhas»), ed. Springer, 5.“ edi­ ção, 1953. (Nota da ed. alemã.)

[55]

r<

. í.

f

*>.- rf f

fv

Fig.

Fig.

11

11

c — A

d — A

WM

d B

f

a &

t t -

mesma para um olho de mosca

mesma para um olho de molusco

[56]

fundidade entre si, sobre o mesmo horizonte, que inclui tudo o que se abrange com a vista. A situação do hori­ zonte não é invariavelmente fixa. Quando depois de uma grave febre tifóide eu dei o meu primeiro passeio fora

de casa, o horizonte pendia como uma colgadura varie­ gada a uns vinte metros de distância, sobre a qual tudo

o que eu via se delineava. Para além de vinte metros

não havia quaisquer objectos mais próximos ou objectos mais afastados, mas só objectos maiores ou menores. A lente do nosso olho (o cristalino) tem a mesma função que a de uma câmara fotográfica: a de projectar nitidamente na retina, que corresponde à placa fotográ­

fica, os objectos situados em frente dos nossos olhos.

A lente do olho humano é elástica e pode, pela acção de

músculos próprios a ela ligados, variar mais ou menos de curvatura (o que corresponde à focagem da lente da

câmara fotográfica). Em virtude da contracção dos músculos do cristalino manifestam-se sinais de orientação no sentido de trás para diante do olho. Quando esses músculos, relaxan- do-se, se alongam pela acção da elasticidade da lente, os sinais dados indicam o sentido de diante para trás. Quando os músculos estão completamente relaxa­ dos, o olho está acomodado para a distância desde dez metros até ao infinito. Dentro de um círculo de dez metros, as coisas no_ nosso mundo-próprio, em virtude da acção dos movimen:

tõs~dõs músculos do cristalino, apresentam-se-nos como próximas ou afastadas. Para além desse .círculo dá-se, naturalmente, apenas um aumento ou diminuição do tama­ nho dos objectos. Nas crianças de peito o espaço visual termina àquela distância, limitado por um horizonte que tudo abrange. Só depois, a pouco e pouco, começamos

a aprender, à custa de sinais-de-distância, a alargar cada vez mais o nosso horizonte, até que, ainda gradualmente com o nosso desenvolvimento, este limita o espaço visual

[57]

a uma distância de seis a oito quilómetros, em que aquele começa.

A diferença entre o espaço visual de uma criança e o de um adulto eWá figurada na fig. 12, que reproduz grafi­ camente uma experiência comunicada por Helmholtz (1). Relata ele que, ainda pequeno, ao passar pela igreja da guarnição de Potsdam, notara na galeria da torre daquela alguns operários. Pediu então a sua mãe que lhe fosse buscar um daqueles bonequitos pequenos. A igreja e os operários já estavam contidos no seu horizonte, e por isso não estavam afastados, eram apenas pequenos. Tinha pois toda a razão para admitir que sua mãe podia, com os seus braços compridos, tirar os bonecos da galeria. Ele não sabia que no mundo-próprio de sua mãe a igreja tinha dimensões perfeitamente diferentes das que tinha no seu, e que na galeria o que havia era homens, não, pequenos, mas, afastados. Quanto aos animais, a situa­ ção do horizonte nos seus mundos-próprios é difícil de determinar, porque a maior parte das vezes não é fácil de experimentalmente verificar quando é que um objecto do ambiente, ao aproximar-se do sujeito não só passa a ser maior mas também a ficar aparentemente mais pró­ ximo. Estudos de captura de moscas domésticas mostram que só quando a nossa mão se aproxima até cerca de meio metro de distância esta foge voando. Por conse­ guinte, é de admitir que o horizonte da mosca deverá estar a esta distância aproximadamente.

Mas outras experiências realizadas ainda com a mosca doméstica deixam entrever que no seu mundo-pró­ prio o horizonte se revela de outra maneira. Sabe-se que as moscas não só giram em volta de uma lâmpada sus-

(') Hermann v. Helmholtz (1821-1894), fisiólogo e físico inventor do oftalmoscópio, defensor da teoria ondulatória de Max­ well; autor de interpretações sobre a natureza da energia, etc (Nota da ed. alemã.)

[58]

Fig. 12 — O horizonte de um adulto (em baixo) e de uma criança

(em cima)

[59]

pensa ou de um lustre, mas interrompem o voo, sempre recuando, quando se tenham afastado de meio metro des­ sas fontes luminosas, para depois fugirem para o lado ou para baixo delas. De modo que se comportam como um homem do mar que, no seu barco à vela não quer perder uma ilha de vista.

Ora, o olho de uma mosca é constituído de modo tal que os seus elementos visuais (rabdomas) (fig. 13) apre­ sentam estruturas alongadas nervosas que a imagem

Fig. 13 — Forma de um olho composto de uma mosca. Repre­

sentação esquemática:

a)

o

olho

de que

se

destacou

um

sector (segundo Hesse);

b)

duas

omatídeas:

Cor,

córnea,

quitinosa;

cone; Nf, fibra nervosa; P, pigmento; Pz, célula pigmentar;

Retl, retícula; Rh, rabdoma; Sz, célula visual

K, núcleo;

Kr,

cone cristalino;

Krz,

célula desse

dada pelas suas lentes devem atravessar até diferentes profundidades, correspondentes às distâncias dos objec­ tos vistos. Exner (1) sugeriu que neste caso podia tratar-se

(’) Siegmundo Exner (1846-1926), desde 1875 professor do «Physiologischen instituí». Viena. Publicou trabalhos sobre óptica fisiologica assim como sobre a função do córtex cerebral. (Nota da

[ 60]

de um dispositivo que substituiria os músculos do crista­ lino do olho humano. Se admitirmos que o dispositivo óptico dos elemen­

tos

visuais

funciona

como

uma

lente,

o

lustre,

a uma

Fig. 14 — Lustre, para um homem

Fig. 15 — Lustre, para uma mosca

certa distância deixava de ser visto; e a mosca voltava a aproximar-se. Comparem-se, a este respeito, as figs. 14 e 15, que representam um lustre visto sem ou com uma lente interposta.

[ 61]

Se, seja como for, o horizonte encerra, incluindo-o, o espaço visual — ele existe sempre. De modo que deve­ mos considerai todos os animais que à nossa volta ani­

mam a naturezte — os coleópteros, borboletas, moscas, mosquitos, libelinhas, que povoam um prado — como que encerrados numa «bola de sabão» que limita o seu espaço-visual e em que tudo o que é visível para o sujeito está contido. Cada «bola de sabão» aloja um local dife­ rente dos das outras, e em cada uma delas existem ainda os planos de referência dos espaços-de-acção que con­ ferem ao espaço uma estrutura permanente. As aves que esvoaçam, os esquilos que saltam nos ramos, ou as vacas que pastam no prado, todos estão constantemente encer­ rados nas suas «bolas de sabão» que limitam o espaço. Se tivermos estes factos bem presentes na mente, reconheceremos também a «bola de sabão» do nosso mundo-próprio — que envolve cada um de nós. Então veremos todos os nossos semelhantes encerrados em «bolas de sabão», que se interceptam sem resistências, porque são constituídos por sinais-perceptivos subjecti­ vos. Não exisífi^de modo nenhum, espaco independente

do sujeito. Se, porém, nós nos agarramos à ficção de um

que os sujeitos vivem nojnesmo intervalo de tempo. Os momentos sao os mínimos, indivisíveis, continentes_de^ tempo, poislnje são a expressão de sensações elemen­

tares indivisíveis,L_os_ chamados TsTnãlsUnsfãííi^neos. No homem, como já dissemos, a duração de um momento

é de 1/18 do segundo. E, na realidade, é o mesmo para

todos os domínios sensoriais, porque todas as impres­ sões dos sentidos são acompanhadas por os mesmos sinais instantâneos.

Dezoito vibrações do ar por segundo já não se ouvem como sons separados, mas como um som contínuo. Demonstrou-se que nós sentimos dezoito choques que nos afectem a pele num segundo, como se fosse uma pressão còTiitante.

tela

movimentos do mundo exterior no ritmo que nos é habi­ tual. As imagens destacadas seguem-se ali com peque­ nos intervalos de 1/18 do segundo.

Se quisermos seguir movimentos que, para a nossa vista, fluem com demasiada rapidez, temos de nos servir da lupa-de-tempo.

A

cinematografia

torna

possível

projectar

na

espaço universal, é apenas porque recorrendo a essa

Chama-se

lupa-de-tempo

ao procedimento

que

con­

mentira convencional conseguimos compreender-nos me­

siste em tirar

um

grande

número

de

negativos

por

lhor uns aos outros.

segundo, projectando-os depois no ritmo normal. Deste

3.

A

PERCEPÇÃO DO TEMPO

Baer (') que cabe o mérito de ter

considerado evidente ser o tempo uma criação do sujeito.

O tempo

mundo para os oujros. consoante o número de momentos ,

É a

Karl

Ernest v.

como

sequência

de

momentos

varia

do-iim,.

('}

diferente

1792-1876. Zoólogo, fundador de uma doutrina da evolução

da de

Darwin. (Nota

da

ed.

alemã.)

[ 62]

modo alargamos o decorrer do movimento por um maior

intervalo de tempo, e teremos a possibilidade de distin­ guir acontecimentos que para o nosso ritmo de tempo (de dezoito por segundo) são demasiado rápidos, como

o bater de asas das aves e insectos. Assim como a lupa-

-de-tempo retarda o fluir do movimento, assim também este é apressado pelo redutor-de-tempo. Quando regista­ mos graficamente hora a hora um acontecimento, e depois projectamos as suas diferentes fases com inter­ valos de 1/18 de segundo, contraímo-lo num certo inter­

valo de tempo e assim conseguimos a possibilidade de

[ 63]

distinguir acontecimentos que para o nosso ritmo de tempo são muito lentos, como o abrir de uma flor. Põe-se a questão de saber se há animais cuja per­ cepção do tempo tenha momentos mais longos ou mais curtos do que os nossos, e em cujos mundos-próprios, por isso, os decursos de movimento1sejam mais lentos ou mais rápidp_s_ que_no- nosso. Os primeiros estudos feitos a este respeito foram realizados por um jovem investigador alemão, que mais tarde teve a colaboração de um outro, principalmente no estudo da reacção do peixe-lutador à sua própria imagem dada por um espelho. Este peixe não reconhece esta quando ela lhe é apresentada dezoito vezes por segundo; para a reconhecer necessita que o seja o mínimo trinta vezes por segundo. Um terceiro investigador ensinou o peixe-lutador a abocar o isco quando por trás dele se fazia girar um disco cinzento. Quando, porém, se fazia girar lentamente um disco com sectores negros e bran­ cos funcionando como «quadro-de-aviso», imediatamente o peixe tinha um ligeiro sobressalto quando se aproxi­ mava o isco. Aumentando então a velocidade de giração do disco, as reacções tomam-se menos regulares a uma certa velocidade para logo depois suceder o contrário quando aquela aumenta. Isto começava a dar-se só quando os sectores negros se seguiam uns aos outros com um intervalo de 1/50 do segundo. O quadro de aviso branco- -negro tornava-se então cinzento. Daqui se conclui com certeza que, nestes peixes, os quais se alimentam de presas que se deslocam rapidamente, todos j>s fenóme- nos de movimento no seu mundo-próprio se passam, como na lupa-de-tempo, retardadamente. ~ Um' exemplo de contracção de tempo está represen­ tado ha fig. 16, tirada da obra antes citada. Sobre uma bola de borracha aue, flutuando na água, pode nela escor- reaar praticamente sem atrito, coloca-se um caracol, que se fixa pela concha, com uma pinça, a um suporte. Deste

[ 64]

modo ele não é impedido de rastejar, conservando-se con­ tudo sempre no mesmo lugar. Se agora pusermos em contacto com a palmilha do caracol uma varazinha, este rastejará sobre ela. Se aplicarmos um a três toques da vara, por segundo, sobre o caracol, ele reage afastando-se dela, mas se os toques se repetirem quatro ou mais vezes por segundo, então o caracol começa a arrastar-se

Fig. 16 — O momento do caracol. S=esfera; A/=varazinha; S=caracol

£=engrenagem;

ao longo da varazinha. No mundo-próprio do caracol, uma vara que vibra com o períodcTde quatro vezes por segundo é como se estivesse em repouso. De onde devemos con­ cluir que o tempojdo caracol flui num ritmo de três a quatro momentos por segundo. Isto tem como conse- quência que no mundo-próprio do caracol todos os fenó­ menos de movimento se passam muito mais rapidamente do que no nosso. Além disso os movimentos típicos do caracol não fluem para ele mais lentamente do que os nossos para nós.

5

- A.

HOMENS

[ 65]

4. OS MUNDOS-PRÓPRIOS

\

ELEMENTARES

Espaço e tempo não são de qualquer préstimo ime­ diato para o sujeito. Só adquirem significado quando mui­ tas características que, sem o quadro temporal e espa­ cial ruiriam, tem de ser diferenciadas. Um tal quadro, em mundos-próprios elementares, em que há um único sinal-característico, não é, porém, necessário. A fig. 17 representa par a par o mundo ambiente e

Fig.

17— Mundo

ambiente

e

mundo-próprio

[ 66]

da

paraméciá

o mundo-próprio da paramécia, um pequeno ciliado.

A paramécia é revestida de densas fiadas de cílios, por

meio de cuja agitação se move rapidamente na água,

girando em torno do seu eixo maior.

coisas que se encontram

De

todas

as

diferentes

no seu mundo ambiente, o seu mundo-próprio apreende

apenas a característica, sempre a mesma, pela qual a paramécia quando quer que seja, seja como for e onde for, é estimulada a desencadear o mesmo movimento.

O mesmo carácter de obstáculo provoca sempre o mesmo

movimento de fuga. Este consiste em um movimento de recuo, a que depois se segue um desvio lateral, seguido de novo avanço, de modo que o obstáculo é ultrapassado. Pode dizer-se que, neste caso, o mesmo sinal caracterís­ tico é cancelado pela mesma marca-de-acção. Quando o

animalzinho contacta com uma partícula das que lhe ser­ vem de alimento (1) — as bactérias de decomposição, que, de entre tudo que existe em todo o mundo-ambiente, não determinam qualquer estímulo — o animal detém-se. Estes factos mostram-nos como a natureza consegue estruturar a vida segundo um.plano com um único ciòío-

-de-função.

Alguns

animais

pluricelulares, como as medusas

pelágicas do género Rhizostoma, também podem, bas­ tar-se a si próprias com um único ciclo de função. Neste caso o organismo consiste num dispositivo hidráulico natatório que recolhe em si a água do mar não filtrada, rica em plâncton, e a reexpele filtrada. A única manifestação de vida na medusa consiste em oscilações, para um e outro lado, da umbela gelatinosa e contráctil. Por meio de uma pulsação sempre igual, o animal man­ tém-se nadando à superfície do mar. Ao mesmo tempo, o intestino, membranoso, dilata-se e contrai-se alternada­ mente, assim entrando e saindo a água do mar, por peque-

C) Na figura 17, Nahrung.

[ 67]

é°moeido« I eX'St! nteS- 0 conteúdo f,uid° do intestino

d Ü

h

90 extensos canais digestivos, cujas

Mat a

S

n

6m

?

a,Íment0S 6 °

ox,9®ni° arrastado.

to d a fS n

l 83?.

alimentos e respiração mecânica

r

mnv meX' f 6nteS naS margenS da umbela' Para que estes movimentos se continuem sem interrupção, existem nas

In

Sa°

r

aS Pela

contracção

rítmica

%

dos

mús-

Fig.

18-M e d u s a

pelágica com corpos marginais

margens da umbela oito órgãos campanuliformes (corpos

margma,s) í convencionalmente representados

18).

cujos bad l0Si a cada puIsaç_0j cPQca

os na na fig. fiq

18)

nervosa. O estímulo resultante do choque, p ro v ia a oul saçao seguinte da umbela. Deste modo a medü™ p Z c a

característico '

-

es,a

U b e r t s T Z ll

 

provoca

de

°

[ 68]

No mundo-próprio da medusa soa sempre a mesma badalada, que governa o ritmo da vida. Todos os outros estímulos se apagam. No caso em que um único ciclo-de-função se mani­ festa, como em Rhizostoma pode realmente falar-se de um animal reflexo, porque o mesmo reflexo se desenca­ deia desde cada campânula até à faixa muscular na mar­ gem da umbela. Deveremos, porém, falar de animais reflexos, quando existem ainda outros arcos reflexos, como sucede em outras medusas, quando eles se con­ servam completamente independentes. Assim, há medu­ sas que possuem filamentos pescadores que contêm em si a fonte de arcos reflexos que se fecham sobre si pró­ prios. Muitas possuem ainda um manúbrio bucal móvel, provido de musculatura própria, que está ligado aos receptores da margem da umbela. Todos estes arcos reflexos funcionam com perfeita independência uns dos outros, não sendo controlados por nenhum órgão central. Quando um órgão exterior é a sede de um arco reflexo, diz-se que é como se fosse um «indivíduo reflexo». Os ouriços-do-mar são constituídos põr um grande numero desses indivíduos reflexos, cada um dos quais, por si e sem coordenação central, desempenha a sua função reflexa. Para tornar claro o contraste entre os animais assim constituídos e os animais superiores, formulei a proposição seguinte: quando um cão se desloca, o animal move as pernas, quando um ouriço-do-mar se desloca, as «pernas» movem o animal. Os ouriços-do-mar põssuerrrr como o ouriço-cacheiro, muitos espinhos, que, contudo, fazem parte de indivíduos reflexos autónomos. Além dos espinhos rígidos e picantes que assentam numa superfície articular esférica do testo e estão pron­ tos a opor uma floresta de lanças a qualquer objecto, capaz de provocar qualquer irritação, que se aproxime do testo, existem ventosas pediceladas (pés ambulacrá- rios) moles, longas e musculosas, que servem para a

[ 69]

locomoção. A^lém disto, muitos ouriços-do-mar possuem ainda, espalhadas por toda a superfície do testo, quatro tipos de pinças (pinças ornamentais, pinças percussoras, pinças preensof-as e pinças venenosas) cada tipo com a sua utilização especial.

Apesar de muitos indivíduos-reflexos funcionarem em conjunto, as suas actividades são absolutamente inde­ pendentes umas das outras. Assim, actuados pelo mesmo estímulo químico proveniente do inimigo do ouriço — a estrela-do-mar — os espinhos divergem subitamente e em vez deles surgem as pinças venenosas que encarniçada- mente se lançam contra os pés ambulacrários daquela. Pode-se, pois, neste caso, falar de uma «república reflexa», em que, porém, apesar da independência de todos os indivíduos reflexos, reina um «espírito cívico» perfeito. Porque os próprios pés ambulacrários, moles, do ouriço-do-mar nunca são atacados pelas pinças preen- soras, que aliás mordem qualquer objecto próximo. Este «espírito cívico» não é ditado por qualquer posto central, como sucede com o homem, onde também os dentes cortantes constituem um perigo para a língua, o qual só é evitado mediante a intervenção do sinal-percep- tivo do perigo de dor no órgão central. Porque o perigo de dor impede o acto que o provoca.

Na república de reflexos do ouriço-do-mar, que não possui nenhum centro superior de coordenação, o «espí­ rito cívico» tem de ser atribuído por outros meios. É a substância, autodermina, que o consegue. Não diluída, ela não paralisa os receptores dos indivíduos reflexos. Nos tegumentos existe em diluição tão elevada que é inactiva quando ao contacto de um objecto estranho. Logo, porém, que dois pontos do tegumento contactam,

a sua actividade do reflexo.

Uma república de reflexos, como é o ouriço-do-mar, pode perfeitamente admitir no seu mundo-próprio várias

manifesta-se e impede o desencadear

[ 70]

notas, ou sinais característicos, se se compuser de vários indivíduos-reflexos. Tais notas, porém, devem manter-se completamente isoladas, pois que todos os ciclos-de-fun- ção se realizam, completamente isolados uns dos outros. Já a carraça, cujas manifestações vitais consistem, como vimos, em três reflexos, representa um tipo mais elevado, pois que os ciclos-de-função não se utilizam desses arcos reflexos isolados, mas possuem um órgão- -de-percepção comum. Existe, por isso, a possibilidade de, no mundo-próprio da carraça, o animal-presa, embora con­ sista apenas em estímulo do ácido butírico, estímulo do tacto e estímulo do calor, constituir, não obstante, uma unidade.

possibilidade não existe no caso do ouriço-do-

-mar. Os seus sinais característicos, que se compõem de estímulos graduados de pressão e estímulos químicos, constituem grandezas completamente isoladas. Muitos ouriços-do-mar respondem a qualquer obscurecimento do horizonte com um movimento dos

espinhos que, como o mostram as

se

verifica igualmente como resposta contra uma nuvem, um navio, e o seu verdadeiro inimigo, um peixe. Mas a repre­ sentação do mundo-próprio ainda não está suficiente­ mente simplificada. Não é o caso de o sinal característico sombra ser transferido pelo ouriço-do-mar para o espaço, pois que este não possui nenhum espaço visual, e as sombras só se efectivam como por uma leve passagem de um floco de algodão sobre o tegumento, sensível à luz. Representar isto graficamente era tecnicamente impos­ sível.

Tal

figs.

.19 a

e

19

b,

E MOVIMENTO

COMO SINAIS-CARACTERÍSTICOS

5,

FORMA

Mesmo qué se quisesse admitir que, no caso do mundo-próprio do ouriço-do-mar, todos òs sinais-caracte-

[ 71]

Fig. 19 a — Mundo ambiente do ouriço-do-mar

- ^

'IV,

v

3

^

w’" -

Fig. 19 b — Mundo-próprio do ouriço-do-mar

[7 2 ]

rísticos, ou notas, dos diferentes indivíduos-reflexos são dotados de uma representação em espaço, e por isso cada um se encontra num local diferente do de cada outro — não havia, contudo, nenhuma possibilidade de relacionar estes locais uns com os outros. Por isso a este mundo- -próprio devem necessariamente faltar os sinais caracte­ rísticos de forma e de movimento que pressupõem a ligação de vários locais de uns com os outros — e é isso

o que se dá. Forma e movimento aparecem pela primeira

vez em mundos de percepção superiores. Ora nós estamos

Fig. 20 — Gralha-de-bico-vermelho e gafanhoto

habituados a admitir, graças às experiências adquiridas no nosso mundo-próprio, que a forma de um objecto ó

a nota, ou sinal-característico, dada em primeiro lugar, e que o movimento sobrevem ocasionalmente como sinal- -característico secundário. Isto porém não é o que se passa em muitos mundos-próprios dos animais. Neles, forma em repouso e forma em movimento não são dois sinais-característicos inteiramente independentes um do outro, podendo também ocorrer o movimento sem forma, como sinal-característico independente.

A fig. 20 representa a gralha-de-bico-vermelho, ou corvacho, caçando gafanhotos. A gralha é completamente

[ 73]

incapaz de descobrir um gafanhoto em repouso, e só o ataca quando ele salta.

Nestas circunstâncias conjecturamos imediatamente que a forma <^o gafanhoto em repouso é bem conhecida da gralha, mas por causa da erva que dissimula não é por aquela reconhecida como unidade, exactamente como nós só com dificuldade conseguimos destacar num dese- nho-quebra-cabeças uma forma conhecida. Segundo esta maneira de ver, a forma só ao saltar se distingue das dis- simuladoras imagens circumvizinhas.

Mas segundo outras experiências é de admitir que a gralha não reconhece a forma do gafanhoto em repouso mas apenas está adaptada a reconhecer a forma em movimento. Isto explicaria «a simulação da morte» de muitos insectos. Quando a sua forma imóvel não existe essencialmente no mundo de percepção do inimigo per­ seguidor, eles por meio desse subterfúgio, escapam-se a salvo desse mundo de percepções do inimigo e nunca podem ser descobertos quando ele os procura.

Eu construí um «anzol» para moscas, que se compõe de uma varazinha de que suspendi por um fio fino uma ervilha revestida de visco. Se por meio de uma leve vibra- çao da varazinha pusermos a ervilha em movimento no parapeito de uma janela sobre que haja muitas moscas sempre algumas se lançarão sobre a ervilha, ficando pega-

as a ela, podendo depois verificar-sè que machos.

são sempre

O fenómeno representa uma espécie de falsas núpcias. No caso de moscas que voam em volta de um ustre. e ainda de machos que se lançam sobre fêmeas que por ali voam, que se trata. A ervilha ao agitar-se imita o sinal-característico de fêmea que voa e por isso e tomada, nunca tal sucedendo quando está imóvel do que se pode ainda concluir que fêmeas imóveis e fêmeas a voar sao dois sinais-característicos distintos

[ 74]

Mas que o movimento independente de forma pode figurar como sinal característico, pode-se concluir da fig. 21, que representa comparadamente o que se passa

com a vieira -próprio.

No mundo ambiente do molusco, e ao alcance da vista dos seus cem olhos, encontra-se o seu mais encar­ niçado inimigo, a estrela-do-mar, astéria. Enquanto esta se conserva imóvel, não tem qualquer acção sobre o molusco. A sua forma característica não é para ele um sinal. Mas logo que ela se põe em movimento, o molusco estende, como reacção, os seus longos tentáculos, que funcionam de órgãos do olfacto; aproximando-se da estrela-do-mar e recebem o novo estímulo. A seguir, o molusco ergue-se e afasta-se nadando.

As experiências têm mostrado ser indiferente a

forma ou a cor que um objecto móvel possua. Pois que, no mundo-próprio do molusco, ele manifesta-se sempre como sinal característico, se o seu movimento é tão lento como o da estrela-do-mar. Os olhos da vieira não são adequados para distinguir a forma ou a cor mas.

ritmo

próprio do seu inimigo. Mas este não fica, por este meio,

no seu mundo ambiente e no seu mundo-

excTusivamenteT um^ 'cèrto^ritmo de movimento, o

completamente caracterizado: para que o segundo ciclo- -de-função se desencadeie é preciso que, primeiro, sobre­ venha um sinal olfactivo; então o molusco afasta-se daj proximidade do inimigo, fugindo, e, por meio deste sinalj -de-acção, o sinal característico do inimigo é finalmente anulado.

Durante muito tempo supôs-se que no mundo-próprip da minhoca existia um sinal característico para a forma. Já Darwin sugerira a esse respeito que a minhoca se com­ portava como se reagisse à forma tanto de folhas, como de agulhas de pinheiro. A minhoca transporta para a sua alongada moradia,

[ 75]

Fig. 21— Mundo ambiente e mundo-próprio da vieira

[ 76]

folhas e agulhas de pinheiro (fig. 22), que lhe servem indiferentemente de protecção e de alimento. Verifica-se que quando se tenta fazer entrar numa galeria estj-eita e com o pecíolo para a frente, a maior parte das folhas, elas encontram certa resistência. Pelo contrário, enro-

Fig. 22 — A capacidade de discernimento pelo gosto, na minhoca

lam-se facilmente e não se nota qualquer resistência quando é o vértice que vai à frente. Quanto às agulhas de pinheiro, que se desprendem dos ramos sempre aos pares, essas devem fazer-se entrar na galeria não com

o vértice mas com a base para a frente.

[ 77]

Do. facto de a minhoca se utilizar, sem encontrar difi­ culdades, de folhas e de agulhas de pinheiro, concluíra-se que a forma pestes objectos, que no mundo-de-acção da minhoca desempenham um papel tão importante, devia existir no seu mundo-de-percepção como nota-carac- terística.

Verificou-se* que esta conclusão era incorrecta. Pôde demonstrar-se que as minhocas arrastam para dentro das suas galerias pequenas varazinhas, todas com a mesma forma e que se tinham revestido de gelatina, indiferente­ mente com uma ou a outra extremidade para a frente. Mas quando se polvilha com pó de um vértice de folha

de cerejeira uma das extremidades da varazinha, e a outra

com pó da sua parte basilar, as minhocas distinguem per­ feitamente as duas extremidades como se fossem o vér­

tice e a base da própria folha.

Apesar de a minhoca se comportar perante as folhas de maneira relacionada com a sua forma, não é realmente pela forma, mas pelo gosto, que ela se orienta. Este arranjo é muito feliz, porque os órgãos-de-percepção da minhoca são constituídos segundo um modelo demasiado simples para produzir sinais de forma. Este exemplo mos­ tra-nos como a natureza sabe«e,vitar dificuldades que a nós parecem insuperáveis.

No caso da minhoca também nada havia de percep­ ção de forma. Tanto, pois, mais instantemente se põe a questão de saber — em que animais é legítimo conjec­ turar que a forma existe originalmente como sinal-carac- terístico do seu mundo-próprio?

Esta questão foi resolvida mais tarde. Foi possível demonstrar que as abelhas pousam de preferência em coisas cujas formas recortadas são virtualmente decom- poníveis em outras mais simples, como estrelas e cruzes,

evitando, pelo contrário, formas inteiriças, como círculos

e quadrados.

[ 78]

A fig. 23 apresenta uma comparação imaginada do mundo-ambiente e do mundo-próprio da abelha para ilus­ trar o que se passa. Vemos a abelha, no seu mundo- -ambiente de um prado florido, distinguir entre as flores abertas e os botões. Situada a abelha no seu mundo-pró prio e reduzindo as flores, segundo a sua forma, a estre­ las ou cruzes, os botões passarão a ter a forma não

recortada de círculos. Daqui concluiremos ainda o significado biológico desta nova particularidade das abelhas, assim revelada. Só as flores abertas, não os botões, têm para elas um

significado. Mas as correlações de significado são, como nós já vimos na carraça, os únicos guias seguros na exploração dos mundos-próprios. Para o caso é perfeitamente indife­ rente que as formas descontínuas, decomponíveis, sejam

fisiologicamente eficientes. Q problema-da-forma foi reduzido por estes trabalhos a uma fórmula mais simples. Basta admitir que as células de percepção para os sinais locais se articulam em dois grupos no órgão-de-percepção, umas segundo o esquema «decomposta», ou aberta, outras segundo o esquema «não decomposta», ou fechada. Não há quaisquer outras dis­ tinções. Se os esquemas se afastam disto, então resul­ tam deles «imagens perceptivas» que se conservam inteiramente gerais, que, como novas e muito belas inves­ tigações mostram, incluem no caso das abelhas, cores

e cheiros.

Nem

a minhoca, nem

a vieira, nem a carraça, dis­

põem desses esquemas. Cárecem, por isso, no seu mun-

dò-próprio, de verdadeiras imagens-perceptivas.

[79]

Fig. 23 — Mundo ambiente e mundo-próprio da abelha

[80]

6. FINALIDADE E PLANO

Como nós, homens, estamos habituados a prosse­ guir penosamente a nossa existência, de finalidade em finalidade, estamos por isso convencidos que com os animais se passa o mesmo. Ora isto é um erro funda­ mental, que leva as investigações até aqui realizadas por caminhos falsos. Na realidade ninguém atribuirá finali­ dades a um ouriço-do-mar ou a uma minhoca. Mas já na

descrição da vida da carraça nos referimos a o ela «espiar

a sua presa». Por esta expressão já introduzimos, indevi­ damente ainda que involuntariamente, as nossas mes­ quinhas preocupações diárias, na vida da carraça, que

é dominada por um plano puramente natural.

O nosso primeiro cuidado deve, pois, ser o eliminar

da interpretação dos mundos-próprios a falácia da finali­ dade. Só assim poderemos chegar a pôr certa ordem, no ponto de vista da existência de um plano natural, nas manifestações da vida dos animais. Talvez mais tarde se considerem como tendo finalidade certos comportamen­ tos dos mamíferos superiores, que, mesmo eles, estão por sua vez subordinados ao plano natural de conjunto. Em todos os outros animais não existem comporta­ mentos orientados no sentido de um fim. Para demons­ trar esta proposição será necessário que o leitor lance um golpe de vista por alguns mundos-próprios que não levantem quaisquer dúvidas. A fig. 24 funda-se nas curio­ sas interpretações a que cheguei, sobre a percepção dos sons pelas borboletas nocturnas. Como nela se dá a entender, é perfeitamente indiferente que o som a que os animais estão submetidos, seja o produzido por um morcego ou o resultante do atrito de uma rolha de vidro:

a acção é sempre a mesma. Aquelas borboletas noctur­

nas que em virtude da sua brilhante coloração são bem visíveis, afastam-se, voando, pela acção de sons altos, ao

6 -A .

HOMENS

[81]

Fig. 24

Acção de

um som alto sobre

[ 82]

borboletas

nocturnas

passo que as que possuem colorações dissimuladoras se aproximam deles. A mesma nota ou sinal-caracterís- tico provoca resultados opostos. A alta conformidade com um plano patenteia-se nos dois modos opostos de com­ portamento. Não pode tratar-se aqui de qualquer discri­ minação ou intenção, pois que nenhuma borboleta noc­ turna jamais viu a cor do seu próprio tegumento. O que há de pasmoso na conformidade com um plano torna-se neste caso ainda mais impressionante ao verificarmos que a engenhosa estrutura microspópica do órgão da audição da borboleta nocturna é exclusivamente recep­ tiva destes sons altos emitidos pelo morcego. São abso­ lutamente surdas para os outros sons.

de

finalidade

uma bela observação feita por Fabre ('). Este pôs a fêmea de uma borboleta nocturna, olhos-de-pavão, em cima de uma folha de papel branco, sobre que aquela fez, durante algum tempo, certos movimentos com o abdómen. Depois pôs a mesma fêmea ao lado da folha de papel sob uma

A oposição

entre

e

plano já

resulta

campânula de vidro.

Durante

a

noite

entraram

pela janela verdadeiros

enxames de machos desta espécie muito rara de borbo­ leta, e pousaram todos sobre a folha de papel branco. Nem um único notou a fêmea que estava próxima, sob a campânula de vidro. Que espécie de acção física ou quí­ mica se devesse atribuir ao papel, eis o que Fabre não

pôde averiguar.

A este respeito são muito elucidativas as experiên­

cias, que a fig. 25 ilustra, feitas com saltões-do-feno e

grilos.

Num quarto, diante de um microfone receptor, colo- ca-se um exemplar vivo a fretenir, uma fêmea, por exem­ plo. Se num outro quarto se puserem machos próximos

(')

J.

Henri

da ed. alemã.)

Fabre

(1823-1915),

[ 83]

entomólogo

francês.

(Nota

[ 84]

de um outro telefone, estes, ao ouvirem o fretenir da fêmea, aproximam-se do telefone, sem darem atenção a uma outra fêmea que fretene sob uma campânula de vidro, para fora da qual o som não pode passar. A imagem óptica não exerce qualquer acção. As duas experiências provam o mesmo. Em nenhum dos casos se trata de atingir um fim. O comportamento aparentemente estranho dos machos explica-se, porém, sem dificuldade, se o estudarmos na sua conformidade com um plano. Nos dois casos efectua-se, através_de um sinal característico, um ciclo-de-função, mas com a ausên­ cia do objecto normal nada se dá quanto à produção do sinal-de-acção apropriado, que era necessário para o can­ celamento do primitivo sinal característico. No lugar deste devia, normalmente, surgir um outro sinal caracte­ rístico e desencadear-se o ciclo-de-função seguinte. Seja qual for este segundo sinal característico, deve, em ambos os casos, ser estudado mais detidamente. Em qual­ quer caso, ele é um elo necessário na cadeia dos ciclos- -de-função que servem o acasalamento. Para quê, dir-se-á, atribuir finalidade aos insectos? Eles são determinados imediatamente pelo plano natural, que estabelece os seus sinais característicos, como já vimos na carraça. Mas quem já reparou no que se passa numa capoeira, como a galinha se apressa a socorrer os seus pintainhos, não poderá duvidar de que há no seu comportamento uma verdadeira finalidade. Exactamente sobre este caso realizámos com todo o rigor curiosas expriências.

A fig. 26 ilustra os resultados nelas obtidos. Quando se prende um pintainho por uma perna, ele começa a piar, o que faz que a galinha se dirija de penas eriçadas na direcção de que os pios partem, mesmo que não veja o pintainho. Logo que o avista começa a dar bicadas num inimigo imaginário. Se, porém, se puser o pintainho, que se prendeu, sob

[ 85]

Fig. 26 — Galinha e pintos

[86]

uma campânula, de modo que ela o possa veF mas sem o ouvir, a galinha conserva-se perfeitamente calma perante o espectáculo. Também aqui se não trata de finalidade, mas sim,

ainda, de uma cadeia de ciclos-de-função. O sinal de piar provém normalmente, de forma indirecta, de um inimigo que prende o pintainho.

sinal-

-de-acção da picada que porá o inimigo em fuga. O pintai-

Este sinal

característico

será eliminado

pelo

Fig. 27— Galinha e pinto preto

nho que se debate, mas não se ouve piar, não é um sinal característico que produza qualquer efeito particular; além de ser completamente fútil, pois que a galinha não tem condições para desfazer um laço. Ainda mais singular e desprovida de fim foi a maneira como a galinha, representada na fig. 27, se com­ portou. Esta galinha chocara uma postura de ovos de galinhas brancas, mas em que havia um da sua própria raça negra. A forma como ela se comportou com o pin-

[87]

tainho preto que saiu deste ovo foi perfeitamente absurda. Quando o ouvia piar, a galinha acorria imediata­ mente ao sinal, mas se o via entre os brancos, corria-o às bicadas. Os sinais acústico e óptico característicos, do mesmo objecto, provocavam nela o desencadear de dois ciclos-de-função opostos. Manifestamente os dois sinais, no mundo-próprio da galinha, não se fundiam numa só unidade.

7. IMAGEM-PERCEPTIVA E IMAGEM-EFECTORA

plano da

natureza dispensa-nos também de considerar a questão do instinto, em que ninguém ainda deu os primeiros pas­ sos certos.

Será necessário à bolota qualquer instinto para vir a ser um carvalho, ou trabalha instintivamente uma mul­ tidão de células ósseas para formar um osso? Se se responde a isto negativamente e, em vez de instinto se postula como factor ordenador um plano de natureza, então há que reconhecer no tecer da teia de aranha, ou na construção do ninho das aves a intervenção do plano da natureza, pois em ambos os casos não é de um fim particular que se trata.

Instinto é apenas um termo que resulta da perplexi­ dade a que se expõe quem contesta o plano da natureza, super-individual. E este é contestado porque dele, que é um plano, não se pode formar qualquer ideia adequada, pois não é uma substância nem uma força. E no entanto não é difícil, partindo do conceito de plano, ficar com uma ideia acerca da questão, quando nos apoiamos num exemplo intuitivo. Para pregar um prego não basta o mais belo dos pla­ nos, se não se tem um martelo. Mas também não basta o mais btelo dos martelos se se não tem qualquer plano

finalidade

A

oposição

entre

do sujeito

e

[ 88]

e nos entregamos ao acaso. Porque, nesse caso, batemos

com o martelo nos dedos. Sem plano, isto é, sem o todo-poderoso poder de ordenação que tudo domina na natureza, não há qualquer espécie de natureza ordenada, mas apenas um caos. Todo o cristal é o fruto de um plano natural, e quando os físicos apresentam o mais belo modelo do átomo, como

é o de Bohr, revelam os planos da natureza inanimada

que buscam desvendar. Assim, também, o poder dos planos da natureza viva recebe do estudo dos mundos-próprios a interpretação mais clara que é possível. Estudá-los, eis a mais interes­ sante das tarefas. Por isso não queremos deixar-nos per­ turbar, e tranquilamente prosseguimos a nossa rota atra­

vés dos mundos-próprios.

na estampa superior a cores,

Os

casos

ilustrados

entre as páginas 128 e 129, representam um resumo dos resultados obtidos nos estudos do crustáceo, casa-rou- bada. Verificou-se que o casa-roubada necessita, como imagem-perceptiva, um esquema espacial extremamente simples. Cada objecto de uma certa ordem de grandeza, com um contorno de entre um cilindro e um cone, pode ter para ele significado. Como se traduz nas figuras, o mesmo objecto de aspecto cilíndrico, como é o caso da anémona-do-mar, muda de significado no mundo-próprio do casa-roubada, conforme as circunstâncias (a disposi­ ção) em que o casa-roubada se encontra. Nós vemos sem­ pre o mesmo casa-roubada e a mesma anémona-do-mar. Ora, no primeiro caso representado, tinha-se destacado esta da concha, em que aquele se alojara. No segundo, tinha-se tirado o casa-roubada de dentro da concha, e no terceiro tinha-se feito jejuar um casa-roubada insta­ lado dentro de uma concha, a que estavam fixadas ané- monas-do-mar. Isto basta para pôr o casa-roubada em três circunstâncias diferentes. Conforme as diferentes disposições, o significado da anémona-do-mar em rela­

[89]

ção ao crustáceo, varia. No primeiro caso, em que à concha que alojava o crustáceo faltava a protecção que a anémona-do-mar lhe prestava contra o choco, a imagem perçeptiva da anémona-do-mar assume um «teor de pro-

 

Isto

manifesta-se

no

comportamento

do casa-

-roubada,

qup

põe

ao

alto

a

concha

que

lhe

serve

de

abrigo, Se privamos desta o mesmo casa-roubada, a ima- S®DX-P§I5®PlLY.3 da anémona-do-mar assume um «teor de habitação», o ^que se manifesta em o ele tentar, ainda que sem êxito,\ entrar para dentro dela. No terceiro caso, em que o crustáceo está esfomeado, aquela-imagem passa a ter um «teor de alimento» e este começa a devo­ rar a anémona-do-mar.

Estas

experiências

têm,

por isso,

particular

impor­

tância,

pois

mostram

que já

nos

mundos-próprios

dos

artrópodes a imagem-perceptiva. fornecida pelos órgãos

dos sentidos, pode ser substituída por uma imagem-efec>

Í 91âjjdejgendejite. da jfun ção .q ue

nela _se_fíímté m.

As investigações tendentes a interpretar este sin­ gular estado de coisas têm-se realizado com cães. A maneira como se pôs a questão foi muito simples e as respostas dos cães, unívocas. Ensinou-se um cão a saltar para cima de uma cadeira colocada em frente dele, quando se dava a voz de «cadeira». Depois, tirou-se a cadeira e repetia-se, «cadeira». O resultado foi o cão

comportar-se com todos os objectos que julgava poderem servir de assento, como se comportara com a cadeira, e saltar para cima deles. Todos eles, pois nos queremos referir a objectos como arcas, étagères, bancos volta­ dos, tinham um certo «teor de assento», e, de facto, um teor de assento-de-cão, e não de assento-de-homem. Por­ que certas destas cadelras-de-cão não eram absoluta­ mente nada próprias para serem como tal utilizadas pelo

homem. Podia ainda

«cestinho» possuíam para o cão um teor especial, que dependia dos serviços que lhe prestavam.

mostrar-se

que também

«mesa»

e

[ 90]

Mas

o

problema

mesmo

nos

homens

pode

ser

acentuado. Como vemos nós, no caso da cadeira, o sen­ tar, no da chávena, o beber, no da escada, o trepar, fun­

ções que em caso nenhum nos são denunciadas pelos sentidos? Nós vemos em todos os objectos que apren­ demos a utilizar, o préstimo que deles aproveitamos, justamente com a mesma certeza que a sua forma e a

sua cor. Tive um negro, originário do interior da África, de perto de Dar-es-Salam, rapaz ainda novo, muito inteligente e hábil, a quem a única coisa que faltava era o saber como se utilizavam os objectos europeus. Um dia que lhe disse para subir a uma pequena escada de mão, ele perguntou-me: «Como é que o posso fazer se só vejo travessas separadas por intervalos?» Logo, porém, que outro negro lhe explicou como devia proceder, nada mais foi preciso. Daí por diante os dados dos sentidos «tra­ vessas e intervalos» assumiram o teor de «subir» e pas­ saram a ser considerados como uma escada.^AJmagsm:

■perçeptiva das travessas e intervalos foi completada pela imagem-efectora_da sua própria utilização, adquiriu um novo significado, e este revelou-se como uma nova qualidade, como teor de utilização ou «teor-efector». Por esta experiência com o negro somos levados a notar que nós elaboramos para todas as utilizações que aproveita- mos no nosso mundo-próprio uma imagem-efectora que necessariamente fundimos tão intimamente cõm i ima- gem-perceptiva fornecida pelos nossos órgãos dos sen­ tidos, que elas adquirem por esse mejo uma nova quali­ dade que nos torna corflTecídcT o seu significado, e que logo pretendemos caracterizar como seu teor-efector. 0~Trüsmo objecto pode, se tiver "diferentes présti­ mos, possuir várias imagens-efectoras, que então empres­ tam à mesma imagem-perceptiva, outros tantos teores correspondentes. Uma cadeira pode, ocasionalmente, ser aproveitada como arma de arremesso, e possui então

[91]

uma nova imagem-efectora que se revela como «teor de aaressao». TambenTneste caso, bem humano, a situação do sujeito é, por isso, como no exemplo do casa-roubada, tendente a escolher que imagem-efectora atribui teor à imagem-perceptiva. Só se podem pressupor imagens-efec- toras onde existirem orgaos .efectores que comandem os comportamentos do anima^ Todos os animais que fun­ cionam de forma puramente reflexa, como o ouriço-do- -mar, são, por consequência, excluídos dessa possibili­ dade. Mas, como o casa-roubada mostra, a sua impor­ tância é muito profunda no reino animal. Se queremos aproveitar o conceito de imagens-efec- toras na interpretação dos mundos-próprios, mesmo nos animais muito diferentes de nós, nunca devemos esque­ cer que ejas são utilizações dos animais projectadas nos mundos-próprios, que, por intermédio dos teores-efecto-

res,

seu

sígnificadòT Sê quisermos representar o que no mundo- -próprio de um animal é vital, proveremos de um teor- -éfector a imagem-perceptiva que lhe é dada pelos órgãos daS"sentidos, para que possamos compreender completa­ mente o seu significado. M esmo nos casos em que não se trata de uma imagem espacialmente organizada, como na carraça, deveremos dizer que nos três estímulos que

nela

0 significado"dosTeores-efantnrpfi

dos) resulta da queda sobre ela—da_Q- correr sobre ela de um para o outro larin e He n-nBla.pftnfitrar. Certamente a actividade selectiva dos receptores, que representam as portas de entrada dos estímulos, desempenha o papej dominante, mas só o teor-efector, que está relacionado

comerem

Imagens

às

perceptivas~~ãpenas

o

incidem como únicos denunciadores da sua presa,

(nnm

pIpc

com os estímulos- lhfis~cnnfflrf»

Como as imagens efectoras se podem deduzir das utilizações pelos animais, facilmente reconhecíveis, as coisas no mundo-próprio de cada novo sujeito tornam-se muitíssimo evidentes.

a

c.p.rtp.7a infalível.

[92]

Quando uma libelinha voa para um ramo para nele pousar, o ramo existe no seu, mundo-próprio, não apenas como imagem-perceptiva, mas também se denota por meio de um teor de «assento», que a distingue de todas

as outras hastes. Só quando tomamos em consideração os teoresjfe c - toresTse compreende a alta eficiência que o

r e c r a o r r m lff iã ís T ^

dizer: j j m animal utilizações quanto

ehTpode distTnguir no seu mundo-próprio. Se ele dispoe 3e p o ü c ã ^ m ã ^ ^ p ê ir ^ p iiv ã s corri pòucas utilizações,

então também

objectos.

mas, proporcionalmente, goza de

que é muito mais fácil orientar-se entre poucos objectos do que entre muitos. Se a paramécia possuísse uma ima­ gem-efectora de utilidade para ela, todo o seu mundo- -próprio se comporia de objectos todos iguais que teriam todos o mesmo teor de obstáculo. Seja como for, um tal mundo-próprio nada deixaria a desejar.

animal

■Devemos malox„nuniero_-dfi- de^objectos que

pode~íéalizar tanto

maior for

o

n

ú

m

e

r o

o seu

é,

por

mundo-próprio se reduz a poucos

esse

facto,

realmente

mais

pobre,

maior segurança.

Por­

Ele

Com

o

número

de

capacidades

de

um

aumenta o número de objectos que povoam o seu mundo- -próprio. Elas elevam-se no decorrer da vida individual

de cada animal, que pôde acumular experiências. Porque cada experiência nova implica o assumir o sujeito nova posição perante novas sensações. Além disso . adquj". rem-s_e_„novas, imaqens-perceptivas, com novos teores-

-efectores. IstcTobserva-se principalmente nos cães que apren­ dem a manejar certos objectos usados pelo homem e que eles, por sua vez, utilizam também. No entanto o número de objectos no mundo-próprio do cão é sempre inferior aos do nosso mundo-próprio. Isto é ilustrado com clareza nos três desenhos coloridos idênticos, 2, 3, 4 (entre páginas 128 e 129). Representa-se

[93]

neles o mesmo aposento. Mas os objectos que nele se encontram têm cores diferentes conforme os teores-efec- tores que correspondem respectivamente ao homem, ao cão e à mosca doméstica.

No mundo-próprio do homem os teores-efectores são representados, na cadeira pelo teor de assento (acasta­ nhado) na rrçesa pelo teor de refeição (amarelo) e nos

pratos e copos por outros teores-efectores (castanho- -claro, teor de comer, e vermelho, teor de beber). O soalho possui o teor-de-marchar, ao passo que a estante de livros (lilás) teltn o teor de ler, e a escrevaninha um teor de escrever (azul). A parede tem um teor-de-obstáculo í(verde) e o candeeiro, o teor de iluminação (branco). No mundo-próprio do cão os mesmos teores são representados pelas mesmas cores; nele só existem os de comer, de sentar, etc. Tudo o mais tem uma tonali­ dade de obstáculo. O banco giratório, em virtude do seu polimento, não tem para o cão teor de assento. Finalmente vê-se como, para a mosca, tudo possui somente um teor de movimento, sobre cujo significado

Gom que segurança a mosca se orienta no mundo ambiente do nosso aposento, mais pormenorizadamente se esclarecerá por meio da fig. 28. Logo que a cafeteira com café quente se coloca sobre a mesa, as moscas jun-

tam-se em volta dela, porque o calor constitui para elas um estímulo. Deslocam-se sobre o tampo da mesa porque esta tem para elas um teor de movimento. E como as

se falou.

irritação

desencadeia o desenvaginãF

ng_a|imento de que se utijjzam. ao passo que todos os

suas

outr° s objectos

deambulações. Neste caso é fácil distinguir o mundo-

-próprio da mosca do seu mundo ambiente.

moscas_ têm

nas

patas

órgãos

^

o

do gosto,

cuja

determinam

prosseguirem

nas

[94]

A

8. O CAMINHO APRENDIDO

melhor

maneira

de

nos convencermos

da varie­

dade de mundos-próprios do homem é seguir um guia num caminho que desconhecemos (1). O guia segue com

segurança um caminho que nós próprios não discernimos. Entre todas as numerosas rochas e árvores que nos

(')

Sobre

o

problema

dos

«mundos-próprios»

dos

homens

comp. as págs.

11

e

13. (Nota da ed. alemã.)

 

[ 95]

rodeiam, há, no mundo-próprio do guia, algumas que se sucedem, distinguindo-se de todas as outras como bali­ zas, apesar de, aos olhos de quem não conhece o cami­ nho, elas se não singularizarem por nenhuma indicação. O caminho aprendido é-o apenas para determinado indivíduo, e é, por isso, um problema típico do mundor -próprio. É um problema de espaço, e diz respeito tanto ao espaço visual como ao espaço-de-acção do sujeito, e resulta imediatamente de como se caracteriza um espaço conhecido — o que se faz pouco mais ou menos assim:

voltar à direita por trás da casa vermelha, depois andar

a direito duzentos passos e então voltar à esquerda. Utili­

zamos três caracteres para marcar um caminho: 1.° um carácter óptico, 2.° os planos de orientação, 3.° o número

de passos. Neste caso não recorremos ao número de pas­ sadas elementares, isto é, à mínima possível unidade de passos, mas sim à soma dos impulsos elementares que nos é habitual e que são necessários para constituir um passo normal. O passo, ou passada, em que uma perna' se desloca com uniformidade para trás e para diante, é em alguns indivíduos tão bem determinada, e em muitos mede tão aproximadamente o mesmo comprimento, que mesmo ainda hoje serve de medida vulgar. Quando se diz a alguém que deve andar cem passos,

quer-se com isto significar que deve imprimir cem vezes às suas pernas o mesmo impulso de movimento. O resul­ tado obtido será sempre aproximadamente a mesma extensão percorrida. Quando percorremos repetidas vezes um certo espaço, ficam-nos na memória os impulsos comunicados

à marcha, como indicação de direcção, de modo que para­

mos maquinalmente no mesmo lugar, mesmo quando não actuamos recorrendo às indicações ópticas. Os sinais de orientação desempenham, pois um papel saliente no cami­ nho aprendido.

Tinha grande interesse determinar como se apre­

[96]

senta o problema do caminho aprendido no mundo-próprio dos animais; sem dúvida, que, no mundo-próprio de vários animais, desempenham um papel importante na recons­ tituição do caminho aprendido sinais olfactivgs e sinais,

tácteis.

Numerosos

investigadores americanos procuraram,

durante dezenas de anos, estabelecer, em milhares de sentidos em que os mais diferentes animais tinham de se orientar num labirinto, com que rapidez cada animal podia reconhecer um determinado caminho. O problema do caminho aprendido de que aqui se trata passou-lhes despercebido. Também não estudaram os sinais visuais,

tácteis ou olfactivos, nem se lembraram do aproveita­ mento pelo animal, dos sistemas de coordenadas: que a questão de direita ou de esquerda é um problema inde­ pendente, nunca os impressionou. Também nunca dis­ cutiram a questão do número de passadas, porque não viam que também entre os animais a passada pode ser

utilizada como medida de distância. Em resumo; o problema do caminho conhecido, ape­ sar da vastidão do material de trabalho já acumulado, deve ser reconsiderado. A descoberta do caminho já trilhado, no mundo-próprio do cão, a par do seu interesse teórico, tem também um grande alcance prático, quando se tomam em consideração as questões que o cão-guia

dos cegos tem de resolver. A fig. 29 representa um cego a ser guiado por um cão. O mundo-próprio do cego é muito limitado; só na medida em que pode tactear o seu caminho com a bengala e com os pés, toma dele conhecimento. A rua que atravessa está mergulhada em trevas. O seu cão, porém, é quem o guia até casa, seguindo um caminho determinado. A dificuldade do adestramento de um cão está, por isso, em fazer entrar no seu mundo-próprio certos sinais que são de interesse para o cego mas não para o cão. Assim, o caminho ao longo do qual ele guia o cego terá de rodear obstáculos

1-A.

HOMENS

[97]

em que o cego podia tropeçar. É particularmente difícil insinuar no cão um sinal de um marco do correio ou de uma janela aberta, pelos quais, aliás, ele passaria indi­ ferente. Mas também a margem do passeio, em que o cego podia dar um passo em falso, é difícil de fazer entrar

Fig. 29 — O cego

e

o seu

cão

no mundo-próprio do cão, como sinal característico, pois

que

à solta.

A fig. 30 representa uma experiência feita com gra- lhas-de-bico-vermelho. Como nela se vê, a gralha voa em volta da casa, dá-lhe de novo volta em sentido con­ trário e utiliza no regresso o caminho que lhe é conhe-

se apercebe dele quando corre

normalmente

mal

[98]

eido, para voltar a entrar por onde tinha saído, pois que, vindo no outro sentido não podia ter reconhecido a entrada.

Recentemente

averiguou-se

que

as

ratazanas

con­

tinuam a utilizar por muito tempo o mesmo rodeio, mesmo

quando

caminho

o caminho

então

directo

esteja

o

livre.

problema

Pôs-se

novamente

do

aprendido, no caso dos peixes-lutadoreg, e chegou-se aos seguintes resultados: em primeiro lugar estabele- ceu-se que o_desconhecido exerce sobre eles uma acção repulsiva. Introduziu-se no aquário uma placa de vidro em que se tinham feito dois pequenos orifícios, pelos quais os peixes podiam passar com facilidade. Quando se oferecia comida a um peixe-lutador do outro lado do ori­ fício decorria algum tempo antes de ele se introduzir, hesitante, pelo orifício, para a apanhar. Então mostrava- -se-lhe a comida lateralmente em relação ao orifício e o peixe logo lhe seguia no encalce. Finalmente mantinha-se

[ 99]

a comida em frente do seaundo orifício: pois apesar disso

sabia

usa^o. Colocou-se, então, como o representa a fig. 31, um tabique do lado da placa de vidro com orifícios, donde se mostrava o engodo ao peixe. Mostrava-se este agora do lado que o tabique ocultava; o peixe nadava ao longo do

n peixe

passava sempre

sem

se

pelo

primeiro d a que

orifício,

até

não

que

utilizar,

utiíizar

t i n h a

Fig. 31 — O caminho aprendido do peixe-lutador

caminho aprendido, mesmo quando o tabique estava

colocado de modo que ele podia ter alcançado o engodo directamente passando a nadar entre a placa perfurada

e o tabique. No caminho aprendido entraram, assim,

sinais visuais e sinais-de-orientação. Resumindo pode dizer-se que o caminho aprendido funcionou como um curso de um meio muito fluido atra­ vés de uma massa viscosa.

[ 1 0 0 ]

9. LAR E PÁTRIA

O problema do lar e da pátria está intimamente rela­

cionado com o caminho aprendido. Como ponto de partida o melhor é escolherem-se os estudos feitos sobre os esgana-gatas (1). O macho da espécie constrói um ninho cuja entrada prima em marcar com alguns fios de várias cores — sinal visual de direc­ ção para a criação. No ninho, os filhos crescem sob a vigilância do pai. Este ninho é o seu lar. Mas cá fora abre-se a sua pátria. A fig. 32 representa um aquário em

cujos cantos opostos dois esgana-gatas construíram os seus ninhos. No aquário existe uma fronteira invisível que o divide em duas zonas, cada uma das quais corres­ ponde a um ninho. Cada zona correspondente a um dos ninhos, é a pátria de um dos esgana-gatas, que ele defende vigorosa e tenazmente, mesmo contra esgana- -gatas maiores. Na sua pátria o esgana-gata é rei.

A pátria é uma pura questão de mundo-próprio, por­

que representa uma produção puramente subjectiva, para

cuja existência nem o mais estrito conhecimento do mundo ambiente oferece o mínimo ponto de apoio.

(')

Pequenos peixes de águas salobras, doces ou marinhas, com

espinhos muito fortes anteriores à barbatana dorsal e às pélvicas.

[ 101]

Pergunta-se, então, quais os animais que possuem

uma pátria e quais os que a não possuem? Uma mosca doméstica que em voos sucessivos, para um lado e para

o outro, abrange uma certa porção de espaço em volta de

um lustre não possui o que se chama uma pátria.

Pelo contrário, uma aranha que constrói o seu ninho, em que permanentemente vive, possui um lar que é igual­ mente a sua pátria.

O mesmo se passa com a toupeira (fig. 33). Também ela constrái a sua habitação e estabelece a sua pátria. Sob o solo Wtende-se um sistema de túneis como uma teia de aranha. Mas não são só os seus caminhos indi­ viduais que formam o âmbito do seu domínio, mas ainda toda a área dentro da qual exerce a sua actividade. Quando cativa, a toupeira esboça os seus caminhos de tal modo que parece formarem uma teia. Podíamos provar que a toupeira, graças aos seus órgãos olfactivos, muito desenvolvidos, é capaz de procurar os seus alimentos dentro de um raio de cerca de cinco a seis centímetros. Num sistema de caminhos apertados, como o que ela constrói, quando cativa, as zonas situadas entre eles são ainda dominadas pelos seus órgãos dos sentidos, ao passo que na natureza, onde a toupeira estabelece os seus túneis mais afastados uns dos outros, ela pode ainda

controlar, pelo olfacto, o solo, num certo raio em volta de cada galeria. Como uma aranha, a toupeira percorre muitas vezes esta rede de galerias, e reúne tudo o que ali ficou disperso como despojo. No centro deste sistema de galerias a toupeira constrói uma cova forrada de folhas secas — o seu lar individual, no qual passa as horas de repouso. Para ela todos os corredores subterrâ­ neos são caminhos aprendidos que é capaz de percorrer

sempre com a mesma rapidez e facilidade em qualquer sentido. O seu campo de rapina chega até onde eles

[ 1 0 2 ]

chegam. Este coincide com a sua pátria, que ela defende, para a vida ou para a morte, de qualquer toupeira vizinha. É admirável a destreza com que a toupeira, cega como é, se orienta, sem nunca se enganar, num terreno para nós perfeitamente uniforme. Se se lhe ensinar qual o lugar em que conserva os seus alimentos, ela acerta com ele, mesmo quando se obstruam todos os caminhos

que a ele conduzem. O que demonstra que a toupeira pode ser guiada por sinais olfactivos. O seu espaço é um puro espaço-de-acção. Temos de admitir que a toupeira é capaz de redescobrir um caminho uma vez utilizado, à custa da reprodução dos passos-de- -orientação. Além disso, os sinais tácteis, que se rela­

[ 103]

cionam com os passos-de-orientação, nela como em todos os animais cegos, desempenharão um papel importante.

É de admitir que sinais de orientação e passos de orien­

tação se combinam como base de um esquema espacial.

Destrua-se o seu sistema de caminhos, ou parte dele,

e ela será capaz de restabelecer, com o auxílio de um

esquema adequado, um novo sistema que se assemelha

ao antigo.

As abelhas também constroem um lar, mas a zona, em volta da colmeia, em que buscam o alimento é, com efeito,' o seu campo de caça, sem, no entanto, constituir uma pátria que seja defesa aos intrusos. No caso das pegas, ao contrário, pode falar-se de lar e de pátria, pois que elas constroem o seu ninho dentro de uma zona em que não consentem quaisquer pegas atrevidas.

Provavelmente

far-se-á

em

muitos

animais

a expe­

riência de ver se eles defendem o seu campo de caça

contra os seus semelhantes e fazem dele

Uma zona preferida por cada espécie animal asseme-

lhar-se-á, quando nela se quiser traçar o âmbito da pátria,

a uma como que carta política dessa espécie, cujo limite será estabelecido por meio do ataque e da defesa. Em muitos casos também se verificará que já quase não existe qualquer espaço disponível, mas que por toda a

parte uma pátria colide com outra pátria, é muito notável

a observação que mostra que entre o ninho de muitas

aves de rapina e o seu campo de caça se estende circular­ mente uma zona neutra em que elas não abatem qualquer presa. Os ornitólogos julgam, com razão, que esta cons-

tituição do mundo-próprio tem sido aceite pela natureza para impedir que as aves de rapina destruam a própria

criação.

.uuando o nTrTHegõ~de~falcão abandona o ninho

para passar o dia a saltar, de ramo em ramo, na proximi­ dade dele, correria facilmente o perigo de, por lapso, ser atacado pelos próprios pais. De modo que, assim, na zona

a sua pátria.

[ 104]

neutra do campo defeso passa o seu tempo em segurança. O campo defeso é utilizado por muitas aves canoras para aninhar e chocar, podendo aí criar os seus filhos ao abrigo do ataque das grandes rapaces. A forma e os meios utilizados pelos cães para darem facilmente a conhecer aos indivíduos da sua espécie a sua pátria, merecem atenção especial. A fig. 34 repre­

senta a carta do Jardim Zoológico de Hamburgo, com os arruamentos em que estão marcados os sítios em que nos seus dois passeios diários à trela os cães urinavam. Eram sempre os sítios, também especialmente no­ tados pela vista do homem, que eles impregnavam com o cheiro que os denunciava. Se dois cães eram condu­ zidos juntos, ordinariamente urinavam ao mesmo tempo. Um cão ladino manifesta sempre tendência para,

[ 105]

quando um outro cão estranho o encontra, deixar o seu cartão-de-visita no objecto mais próximo que lhe salta à vista. Por seu turno, quando entra na pátria de outro cão, denunciada por essas marcas alheias, farejará sucessi­ vamente esses vestígios alheios e esgaravatará cuida­ dosamente os pontos onde eles existem. Mas um cão de fraca qualidade passará com medo por tais vestígios e

não

olfactivo.

denunciará

a

sua

presença

por

nenhum

sinal

A delimitação da pátria é também, como o mostra a fig. 35, empregada pelos grandes ursos da América do Norte. Para isso o urso ergue-se nas patas traseiras a toda a sua altura e esfrega o dorso e o focinho na casca

[ 106]

de um pinheiro isolado, visível de longe. Isto indica aos outros ursos que devem passar ao largo do pinheiro, evitando assim toda a zona em que um urso delimita a sua pátria.

10. O COMPANHEIRO

Tenho bem presente na minha memória a imagem de um pobre patinho, chocado juntamente com uma ni- nhada deperus e^que vivia tão ligado à família adoptiva, que nunca entrara na água e que evitava escrupulosa­ mente os outros animaizinhos da sua espécie, que saíam da água frescos e limpos. Por essa ocasião ofereceram-me um pato-bravo que me seguia por toda a parte. Quando eu me sentava, encostava a cabeça aos meus pés. Eu tinha a impressão que eram as minhas botas que exerciam essa atracção, pois que também corria atrás dos baixotes pretos. Daí concluí que qualquer coisa preta em movi­ mento bastava para lhe sugerir a imagem da mãe e mandei-o largar próximo do ninho materno para recuperar as ligações familiares que tinha perdido. Hoje duvido que fosse essa a explicação, porque a este respeito fui infor­ mado de que para que certas crias de ganso-cinzento aca­ badas de nascer se juntem espontaneamente a uma famí­ lia de gansos e a sigam, devemos metê-los logo que nascem numa bolsa de caça e largá-los junto dela. Se vivem durante algum tempo na companhia do homem não aceitam, depois, associar-se com os seus semelhantes. Em todos estes casos trata-se de uma mudança de ima­ gens perceptivas, que frequentemente se dá. em parti- cular, no mlmdó-próprícr das avêsTD que se sabe das percepções das aves é ainda insuficiente para se pode­ rem tirar conclusões seguras a esse respeito. Na fig. 20 já nos foi dado ver a gralha-de-bico-verme- Iho caçando o gafanhoto, e ficámos com a impressão que, essencialmente, ela não tinha qualquer percepção do

[ 107]

gafanhoto em repouso, e por isso este não existia no seu mundo-próprio. As figs. 36 a e 36 b representam-nos uma outra expe­ riência respeitante às percepções das gralhas. Nela vê-se

uma gralha

em

atitude

agressiva

perante

um

gato

que

traz

na boca outra

gralha.

Uma

gralha

nunca

ataca

um

Flg. 36

a — Gralha

em

atitude

agressiva

perante

um

gato

Fig. 36 b — Gralha em atitude agressiva perante uns calções de banho

[ 108]

gato que não traga na boca uma presa. Só quando o perigo dos dentes afiados do gato está afastado, como sucede quando estes estão ocupados em abocar a presa, ele passa a ser objecto de ataque da parte da gralha. Isto parece ser um comportamento altamente prático da parte da gralha. Mas, na realidade, não passa de uma reacção perfeitamente de acordo com um plano que flui com absoluta independência de qualquer espécie de inteligência da gralha. Porque ela assumiria a mesma ati­ tude se se lhe acenasse com uns calções de banho. E ela também não atacaria o gato se em vez de uma gralha preta trouxesse nos dentes uma gralha branca.

A percepção de um objecto preto que se mova diante do animal desencadeia só por si a atitude agressiva. Uma percepção de valor tão geral pode prestar-se sempre a confusões, como já pudemos verificar a pro­ pósito do ouriço-do-mar, em cujo mundo-próprio nuvens e navios são confundidos com o peixe, seu inimigo, pois que o ouriço-do-mar reage sempre da mesma maneira contraio obscurecimento do horizonte.

Nas aves, porém, não nos subtraímos à dificuldade

recorrendo a uma explicação tão simples.

Sobre o que se passa com as aves que vivem em sociedade há uma multidão de experiências contraditórias acerca de mudanças de imagens-perceptivas. Só recente­ mente se conseguiu pôr em relevo num caso típico de uma gralha domesticada, chamada Tschock, o ponto

de vista mais importante. As gralhas que vivem

em sociedade têm durante a

vida um companheiro próprio, com que se comportam das mais diversas maneiras. Se se educa isoladamente uma gralha, ela de maneira nenhuma renuncia ao com­ panheiro, e quando não dispõe de um da sua espécie adopta um «companheiro substituto», e, de facto, pode, para cada nova demonstração, surgir «um companheiro

[ 109]

substituto» ,novo. Lorenz (1) teve a amabilidade de me enviar as figs. 37 a e 37 b, em que se podem, de um golpe, ver as relações para com o companheiro. A gralha Tschock teve, quando jovem, como compa-

Figs. 37

a

e

b — A

gralha Tschock e os seus quatro companheiros

nheiro maternal o próprio Lorenz.'Seguia-o por toda a parte, gralhava para que lhe desse a comida no bico. Quando já aprendera a buscar por si os alimentos,

(')

Konrad

ed. alemã.)

Lorenz

(1903).

Zoólogo

[ 110]

e

zoopsicólogo.

(Nota

da

escolheu como companheiro preferido a criada dos quar­ tos, diante de quem executava os seus característicos bailados-de-amor. Mais tarde adoptou como companheiro uma gralha muito jovem a que ela própria dava de comer. Quando Tschock se preparava para mais largos voos tentou levar o próprio Lorenz a voar em sua companhia à maneira das gralhas, quando arrancava para o voo mesmo

por trás das costas dele. Como isto não desse resultado, juntou-se com as gralhas que voavam, as quais passaram

a ser os seus companheiros de voo.

Como se vê não existe no mundo-próprio da gralha

nenhuma

nao é também possível, porque o papel do companheiro. muda constantemente. A imagem-perceptiva do compa-

nheiro-maternal parece, na maior parte dos casos, que não se estabelece logo ao nascer, no que respeita à forma

e à cor. O contrário se dá com a VQZ_tnaíama^

Lorenz escreve: «Devia, em cada caso especial de companheiro-maternal, pôr-se em relevo quais os carac­ teres maternais que são inatamente apercebidos, quais os que são percepções adquiridas pelo indivíduo. A difi­ culdade está, precisamente, em os aspectos maternais adquiridos logo após alguns, poucos, dias, e mesmo só algumas horas (ganso-cinzento, v. Heinroth) ficarem tão profundamente gravados que, quando se separam os filhos das mães, dir-se-ia que são inatos.

O mesmo se passa na escolha do companheiro-di- lecto. Também aqui os caracteres do companheiro substi tuto que passam a ser apercebidos pelo indivíduo, se gravam tão fortemente que do facto resulta a aquisiçãc por ele de uma percepção definitiva depois de se ter efec­ tuado a primeira mudança. Donde, até os animais da mesma espécie serem rejeitados como companheiros- -dilectos. Isto foi posto em evidência por um incidente curioso.

imagem-perceptiva

uríica~de

compánfíéirõ7~TãT~

[ 111]

Havia no Jardim Zoológico de Amsterdão um casal de abetouros jovens cujo macho se tinha enamorado do director do Jardim. Para não prejudicar o acasalamento, este não apareceu ao macho durante muito tempo. De modo que o macho afeiçoou-se à fêmea, e o facto surtiu efeito; e como a fêmea caísse no choco, o director re­ solveu voltar a aparecer. O que sucedeu? Muito simples­ mente que, mal o macho avistou o seu companheiro- -dilecto, escorraçou a fêmea do ninho, e por meio de repe­ tidos sinais parecia dar a entender que o director podia ocupar o lugar a que tinha direito e continuar a chocar

os ovos. A percepção, pelo indivíduo, do companheiro-de-infân-

cia parece ser, a maior parte das vezes, a que mais incisi­ vamente fica gravada. Provavelmente, o grande apetite que faz escancarar as goelas aos jovens desempenha

neste caso se

apuradas, como as galinhas

Orpington, estas, quando chocas, adoptam gatos e cãès

aqui o papel determinante.

prova que em

raças

muito

Mas também

jovens como filhos.

O companheiro-substituto para os voos livres é, por seu turno adoptado mais largamente, como o caso de

Tschock mostra.

Quando se considera que os calções de banho apre­ sentados à gralha passaram a ser para ela um inimigo a atacar, isto é, passaram a ter para ela o teor-efector de «inimigo», poderá dizer-se que se trata aqui de um ini­ migo substituto. Como no mundo-próprio das gralhas há muitos inimigos, o aparecimento do inimigo-substituto, especialmente quando se deu uma só vez, não teve qualquer influência sobre a imagem-perceptiva do verda­ deiro inimigo. No caso do companheiro a coisa é outra. Este é o único que existe de cada vez no mundo-próprio, e a atribuição do teor-efector a um companheiro substituto

[ 112]

deve tornar impossível o aparecimento posterior de um companheiro verdadeiro. Depois de a imagem-perceptiva da criada de quarto ter adquirido no mundo-próprio de Tschock o «teor de afeição» exclusivo, todas as outras imagens-perceptivas perderam eficácia. Quando consideramos que nos mundos-próprios da gralha todo o ser vivo, isto é, aquelas coisas que são capazes de movimento próprio, se reduzem a gralhas e não gralhas (o que não deixa de ter analogia com o que se passa com os homens primitivos), e quando, depois, e já de acordo com a experiência pessoal, a maneira de fazer a distinção passou a ser outra, então compreende-se que se possam cometer erros tão ridículos como os que acabámos de referir. Não é só a percepção que decide se se trata de gralhas ou não gralhas, mas também a ima- gem-efectora dó próprio ajustamento. Só esta decide qual a imagem-perceptiva que mantém o respectivo, teor.- -de-companheiro.

11. IMAGEM-PRETENDIDA

E TEOR-PRETENDIDO

Volto a duas experiências pessoais que explicarão melhor que tudo o que, como factor importante para o mundo-próprio, se deve entender por imagem pretendida. Quando, por largo tempo, fui hóspede de certo amigo meu, todos os dias ao almoço colocavam diante do meu lugar à mesa um jarro com água. Um dia o criado partiu o jarro, e a substituí-lo pôs no lugar por ele habitualmente ocupado, uma garrafa de vidro com água. Durante a refei­ ção procurei com a vista o jarro e não notei a garrafa de vidro. Só quando o meu amigo me assegurou que a água estava no seu lugar habitual é que subitamente certos clarões oue incidiam sobre facas e garfos através do ar se combinaram e formaram a garrafa de vidro. A fig. 38

8 -A.

HOMENS

[113]

deve

exprirpir

esta

experiência.

A

imagem

procurada

A outra experiência foi a seguinte: entrei um dia em um estabelecimento em que tinha a liquidar uma conta, e tirei da carteira uma nota de cem marcos. A nota era absolutamente nova e estava pouco amarrotada, e em

\’

Fig. 38 — A imagem pretendida elimina a imagem perceptiva

vez de ficar aberta e estendida sobre o balcão, ficou ao alto apoiada sobre as margens em ângulo. Pedi à caixeira para me dar o troco e ela respondeu-me que eu ainda lhe não dera o dinheiro. Disse-lhe que o tinha na sua frente, mas ela, agastada, repetiu que, se queria o troco, desse primeiro o dinheiro. Toquei èntão com úm dedo na nota, que caiu e ficou.bem visível. A pequena soltou um gri­

[ 114]

tinho, pegou na nota e apalpou-a com todo o cuidado, não fosse ela esvair-se de novo no ar. Também neste caso,

é

-perceptiva,

manifesto,

a

imagem-pretendida

elim inaraa

im

ageau_

Todos

os

leitores

terão

passado

por

casos

como

estes que parece serem bruxarias.

 

Na

minha

doutrina-da-vida publiquei

a

fig.

39,

aqui

reproduzida, que explica os diferentes processos que se

Fig. 39 — Os processos perceptivos

entrelaçam nas nossas percepções. Quando colocamos diante de qualquer pessoa uma campainha, e a fazemos soar, ela entra no seu mundo ambiente como fonte de um estímulo, que penetra no seu ouvido transportado por ondas do ar (processo físico). Dentro dele as ondas sonoras transportadas pelo ar transformam-se em estí­ mulos nervosos, que atingem o órgão-de-percepção do cérebro (processo fisiológico). Aí as células de percepção

[ 115]

reagem

do

cesso fisiológico).

mundo-próprio

por

meio

de

percepções

e

transferem

para

o

sujeito

um

sinal-característico

(pro­

Se a par de ondas sonoras transportadas pelo ar até

ao ouvido, entram nos olhos ondas de éter, que, seme­ lhantemente, determinam no órgão-de-percepção excita­ ções, então, os seus sinais perceptivos de sons e de

cores constituem-se segundo um certo esquema num conjunto unitário, que é projectado no mundo-próprio do sujeito como imagem-perceptiva.

à

A mesma

representação

gráfica

pode

aplicar-se

explicação do chamado teor-pretendido. Neste caso a campainha deve encontrar-se fora do campo de visão. As percepções sonoras são, só elas, transportadas para o mundo-próprio do sujeito. Ligadas com elas há, porém, uma imagem perceptiva óptica invisível, que funciona como imagem-pretendida. Se a campainha depois de pro­ curada entra no campo de visão, então a imagem-percep- tiva associa-se com a imagem-pretendida. Afastadas ex-, cessivamente uma da outra, pode suceder que a imagerh-

-pretendida anule a imagem-perceptiva, como resulta dos exemplos dados.

No mundo-próprio do cão há imagens-pretendidas perfeitamente determinadas. Quando o dono manda o cão buscar uma bengala, o cão dispõe de uma imagem-preten­ dida bem determinada da bengala, como o mostram as figs. 40 a e 40 b. Também aqui há oportunidade de verifi­ car até que ponto a imagem-pretendida corresponde à imagem-perceptiva.

O sapo fornece algumas informações neste sentido:

um sapo que, depois de um prolongado jejum, comeu uma minhoca, lançou-se igualmente sobre um fósforo, que tem certa semelhança de forma com uma minhoca. Daqui se conclui que a minhoca que ele acabara de devorar

[ 116]

[ 117]

lhe serviu

de

imagem-pretendida

como

se

traduz

na

fig. 41.

primeiro

imagem-pretendida seria diferente, porque então lançar- -se-ia porventura sobre um fragmento de um musgo ou sobre uma formiga, o que |he assentaria muito mal. Ora nós nem sempre buscamos determinada coisa à

custa

fre-

a

a

Se

o

sapo tivesse

comido

uma aranha,

de

uma

Imagem-perceptiva.

buscamos

um

objecto

mas

que

muito

mais

guéntementje

corresponde

'""uní

Fig. 41 — Imagem-pretendida do sapo

ÜUiaJmageiri-efectora. Assim não buscamos, olhando em volta de 'nos","Fmà ’determinada cadeira, mas sim um móvel que sirva para nos sentarmos, isto é, uma coisa a que corresponde determinado tp.nr-de-utilização. Neste caso pode tratar-se não de uma imagem-pretendida mas de um teor-pretenriiHn. Quão importante é o papel desempenhado pelo teor- -pretendido no mundo-próprio de cada animal ressalta do exemplo citado a respeito do casa-roubada e da anémona- -do-mar. Aquilo a que então chamámos a condição, ou disposição, do casa-roubada, que era diferente de caso

[ 118]

para caso, podemos agora designar, com mais proprie­ dade, por teor-pretendido, diferente de caso para caso, com que o casa-roubada aborda a mesma imagem-percep­ tiva e lhe atribui ora um teor-de-agressão, ora um teor- -de-protecção, ora ainda um teor-de-alimento.

O sapo esfomeado começa por partir para a busca dos alimentos dispondo apenas de vago teor-de-saciar-a- -fome, e só depois de ele devorar uma minhoca ou um fósforo se constitui determinada imagem-pretendida.

12. OS MUNDOS-PRÓPRIOS IMAGINÁRIOS

Sem dúvida existe, dominando tudo, uma oposição entre o mundo ambiente que nós, homens, vemos abrir-se em torno dos animais, e os nossos mundos-próprios, que eles próprios construíram, e que preencheram com as coisas de que tiveram percepção, Até aqui os mundos- -próprios eram, em regra, o resultado das percepções

cféspêrtadas porest7mOT^j^rtéi:i.Q.i:ês

ram já excepção a. imagem-pretendida, assini, como a de-v

terminação do caminho aprendido e a delimitação, da pátria, que não resultam de qualquer es,pécie.de estímulo exterior mas são produtos autónomos de actividades

subjectivas

Estes produtos subjectivos constituíram-se à custa da reunião de repetidas experiências pessoais do sujeito. Se agora prosseguirmos neste caminho, deparamos com mundos-próprios em que surgem aspectos de grande eficácia, mas que só são apercebidos pelo sujeito ,e ,que não estão ligados a quaisquer experiências, ou, quando muito se relacionam com um acontecimento excepcional. Tais mundos-próprios designamo-los por mundos-imaqi- nários. Para ver até que ponto muitas-crianças vivem em

Ã

essa regra fize­

f

' ^"iiiwjBiiriiiiiwiiii

[119]

mundos-próprios-imaginários pode servir o seguinte exem­ plo: Frobenius (1) refere-se no' seu Paideuma a uma rapari- guinha que com uma caixa de fósforos e três fósforos representou às escondidas, só para si, a história da casi­ nha feita de bolo que Hansel e Gretei (2) encontraram na floresta, e da bruxa má, e que inesperadamente se pôs a

Flg. 42— O aspecto imaginário da bruxa

gritar: «Levem-me daqui a bruxa; já não posso ver a sua face horrenda.»

Este caso, tipicamente do campo da imaginação, está representado na fig. 42. Seja como for, a bruxa má entrou em pessoa no mundo-próprio da rapariguinha. Casos como este apresentam-se muitas vezes pe­ rante os exploradores de povos primitivos. Afirma-se que estes vivem em um mundo de imaginação, em que aos aspectos captados pelos sentidos se misturam no seu' mundo aspectos imaginários.

(') Leo Frobenius (1873-1938). Etnólogo e explorador em

África (Nota

da

ed.

alemã.)

(J) Personagens de um conto dos Irmãos Grimm.

[ 120]

Quem reparar melhor verá que o mesmo se dá em muitos mundos-próprios de europeus cultos. Ora pode perguntar-se se os animais também vivem em mundos-próprios imaginários. A propósito de cães contam-se muitos casos de imaginação. Mas tais relatos não foram até hoje analisados com suficiente sentido crítico. De uma maneira geral, porém, e aproximadamente, deve-se admitir que os cães associam as suas experiên­ cias umas com as outras de uma maneira que tem mais um carácter imaginativo que lógico. O papel desempe­ nhado pelo dono no mundo-próprio do cão compreende-se como fenómeno de imaginação do cão, não se explica em termos de causa e de consequência. Um investigador meu amigo relata, a respeito de um aspecto sem dúvida imaginário no mundo-próprio de uma ave: tinha criado em casa um estorninho que, por isso, nunca tivera ensejo de ver uma mosca, muito menos de a apanhar. Ora o meu amigo observou (fig. 43) que uma vez o estorninho se lançara subitamente sobre qualquer coisa invisível, «apanhara-a» no ar e «trouxera-a» para o

[ 121]

sítio em que costumava estar pousado, «dando-lhe» bica­ das, como todos os estorninhos fazem às moscas que caçam, e acabando por «engoli-la». Não pode haver dúvida que o estorninho visionara no seu mundo-próprio uma mosca imaginária. Evidentemente todo o seu mundo- -próprio estava tão ocupado pelo teor comestível, que,

Fig. 44 — O caminho imaginário da larva do gorgulho-da-ervilha

ajnda mesmo na ausência do estímulo sensorial, a ima- gem-efectora preparatória da caça da mosca extraíra a aparição da imagem-perceptiva, o que provocou o desen­ cadear de toda a série de actos correspondentes. Esta experiência dá-nos uma indicação que nos ex­ plica, aliás, atitudes enigmáticas de vários animais. A fig. 44 representa o modo de comportamento, já estudado por Fabre, da-largado gorgulh o:da-ervi lha, que

[ 1 2 2 ]

no momento próprio, abre uma galeria na polpa ainda mole

do grão da ervilha, até àjsuperfície, e que aquela só utiliza depois de chegar a gorgulho adulto para sair de^dentro da ervilha entretanto jsndurecjda. Está perfeitamente averi­ guado que se trata de uma conduta exactamente planeada, ainda que, do ponto de vista da larva do gorgulho, com­ pletamente independente do ioao dos sentidos, pois que nenhum estímulo sensorial do futuro qoraulhp_p,ode jnc[dir sobre a sua larva. Nenhum sinal-perceptivo indica à larva o cãmínho, que ela nunca seguira e que, no entanto, tem de seguir, de modo que, depois da sua transformação em gorgulho adulto, não venha a perecer miseravelmente.

Ãs figs. 45 e 46 mostram dois outros exemplos U í

caminho inato. A fêmea do enrolador-de-folhas começa a

cortar, em determinado ponto da folha da bétula (que talvez lhe seja denunciado pelo seu gosto), uma linha

curva de forma predeterminada, que lhe permite depois enrolar a folha em forma de funil, dentro do qual o insecto fará a sua postura. Este, apesar de nunca antes ter seguido esse expediente e de a folha da bétula não ofe­ recer dele qualquer indicação, apresenta-se à imaginação do insecto de uma maneira perfeitamente nítida.

O mesmo se passa com a rota de voo das aves

migradoras. Os continentes só às aves revelam o cami­ nho inato. Isto é válido, certamente, para aquelas aves jovens que se aventuram ao caminho não guiadas pelos pais, pois que, para as outras, não se exclui a possibili­ dade da utilização de um caminho aprendido.

Como o caminho aprendido, de que já tratámos, tam­ bém o caminho inato é seguido tanto à custa do espaço- -visual como do espaço-de-acção.

A única diferença entre os dois reside em que no

caminho aprendido se desenrola uma série de sinais per- ceptivos e de impulso que saem uns dos outros, os quais foram retidos por experiências anteriores, ao passo que

[ 123]

Fig. 45 — 0 caminho imaginário do enrola- dor-de-folhas

[124]

Fig. 46 — O cami­ nho imaginário das aves migra­ do ras

no caminho inato a mesma série de representações é dado imediato da imaginação.

Para o observador que está de fora, o caminho apren­ dido num mundo-próprio de outro animal é quase tão indiscernível como o inato. E quando se admite que o caminho aprendido surge no mundo-próprio do sujeito estranho — do que não há que duvidar — então não há qualquer razão para negar o aparecimento do caminho inato, pois que ele se organiza à custa dos mesmos ele­ mentos — sinais-perceptivos e impulsos exteriorizados. Num caso originaram-se em estímulos sensoriais, no outro soarão em conjunto como uma melodia inata. Se deteFmmádÕ~*cÍTi^h^~foi^se7-numa pessoa, inato, poder- -se-ia descrever como o caminho-aprendido: cem passos

até à casa vermelha, depois voltar à direita, etc.

Se se chamar^sensoriajjsó àquilo que é dado ao sujeito pelasjéxperiências dos sentidos, então s ó _ jd procedimento aprendido se deverá chamar sensorial, não

o inato. Mas é por isso que este se mantém em alto grau

de acordo com um plano.

Que os aspectos imaginários desempenham no mundo animal um papel muito mais vasto do que se supõe di-lo uma experiência notável relatada por um investi­ gador recente. Este costumava dar de comer a uma galinha num certo estábulo, e enquanto ela debicava nos

grãos introduziu no estábulo um porquinho-do-mar. A gali­ nha perdeu a cabeça e começou a esvoaçar de um lado para o outro. A partir de então nunca mais conseguiu que

a galinha comesse no estábulo. Entre os mais apetitosos

grãos, era capaz de morrer de fome. É evidente que a cena do incidente anterior pairava como sombra fantás­ tica, o que a fig. 47 pretende representar.

Isto faz supor que, quando a galinha acorre para junto dos pintainhos que piam, e afugenta um inimigo às

[125]

bicadas, é porque no seu mundo-próprio entrou uma apa­ rência imaginária. Quanto mais tivermos aprofundado o estudo dos mundos-próprios, mais nos devemos ir convencendo de que neles se introduzem factores actuantes a que não se, pode atribuir qualquer realidade objectiva. A começar .pelo mosaico de lugares que a v ista introduz nas coisas do

Fig. 47— A sombra imaginária

mundo-próprio e que não existem no mundo ambiente, cõmóTãmEem ali não existem os dador,-de-orientação que cõnt£m'o" espaço dd”rn"undo-próprio. Do mesmo modo, foi impossível encõrítrã7”no mund6'am biente um factor que corresponda ao procedimento aprendido do sujeito. A dis­ tinção de pátria e campo de caça não existe no mundo ambiente. Não existem no mundo ambiente quaisquer ves-

tfqiQS-jJaJmPQrtante

imaaem-pretendlda.'

[126]

Somos

pois

levados,

finalmente,

a aceitar

o fenó­

meno de imaginação do caminho inato que desdenha de qualquer objectividade e que, no entanto, intervém no mundo-próprio de acordo.,com um plano.

Há ainda nos mundos-próprios puras realidadessub- jectivas. Mas também as realidades objectivas do mundõ ambiente, como tais, nunca entram nos mun9õs:pr5prlòs. São sempre .transformadas em sinais-característicos ou imàgens-perceptivas e providas de um teor-efector, que aà transforma em objectos reais, apesar de nos estímulos nada existir que seja teor-efector.

E, finalmente, o simples ciclo de função ensina-nos que tanto sinais-característicos como marcas-de-acção, são exteriores ao sujeito, e que as propriedades dò objecto, que o ciclo-de-função inclui,-só podem ser consi­ deradas como seus veículos.

Ássim, pois, chegamos à conclusão que cada sujeito vive num mundo em que só existem realidades subjec­ tivas e que até os mundos-próprios, eles mesmos, só apresentam realidades subjectivas. Quem nega a existência de realidades subjectivas é porque não reconheceu os fundamentos do seu mundo- -próprio.

13. O MESMO SUJEITO COMO

OBJECTO

EM

DIFERENTES

MUNDOS-PRÓPRIOS

Os

capítulos

anteriores

referiram-se a digressões

•singulares

em

diferentes

direcções,

cida do mundo-próprio. Ordenaram-se

na terra

desconhe­

os pro­

conforme

blemas, para em cada caso se conseguir uma maneira de tratamento uniforme.

Ainda que alguns problemas fundamentais tenham •assim sido tratados, nunca se chegou, nem se pretende

[127]

ter-se chegado a qualquer resultado completo. Muitos problemas aguardam interpretação reflectida, e outros ainda não passaram da fase de formulação. De modo que ignoramos ainda que parcela do próprio corpo do sujeito passou a fazer parte do seu mundo-próprio. Nem uma só vez a questão do significado da própria sombra no mundo visual foi experimentalmente abordada. O tratamento de problemas particulares é tão impor­ tante para o estudo do mundo-próprio, como insuficiente para se chegar a uma visão de conjunto das interdepen­ dências dos mundos-próprios.

possível, quando abranja

apenas um campo restrito, se explorarmos a questão:

como é que em diferentes mundos-próprios em que ele desempenha um papel importante, o próprio sujeito passa

Uma

tal

visão

é

talvez

a ser objecto?

Como exemolo escolho um carvalho em que vivem

diferentes

sujeitos

do

reino

animal,

e

que

em

cada

mundo-próprio

vem,

além

disso,

a

desemoenhar

um

papel diferente. Como o carvalho também faz parte de vários mundos-próprios humanos, conforme o observador,

comeco por estes (’).

As fiçjs. 48 e 49 são reproduções de dois desenhos que devemos ao talento do artista Franz Huths. (Fiq. 48). No mundo-próprio perfeitamente razoável do velho couteiro, que resolveu quais as árvores da sua coutada que estão boas para o corte, o carvalho destinado ao machado não passa de umas braças de madeira que ele mede com todo o cuidado. Por isso as rugosidades da casca que, acidentalmente, parece representarem um rosto humano, não são por ele notadas como tal. A fig. 49 representa o mesmo carvalho no mundo-próprio imagi-

(')

Comp., porém, o que se notou nas págs. 11

trodução. (N. do A.)

T128]

e segs. da

In­

líip

A anémona-do-mar e o casa-roubada

O quarto, para o homem

O quarto, para o cão

O quarto, para a mosca

Fig. 48 — O couteiro e o carvalho

Fig. 49 — A rapariguinha e o carvalho

9 -A.

HOMENS

[129]

nário de uma rapariguinha para quem a coutada ainda é povoada de gnomos e fantasmas, e que fica muito assus­ tada como se o carvalho a olhasse com o seu mau cariz. Todo o carvalho, para ela, passou a ser um perigoso de­ mónio.

Na coutada de um primo meu, da Estónia, há uma velha macieira sobre que se desenvolveu um grande cogumelo que apresentava uma vaga semelhança com um clown, o que até certa altura ninguém tinha notado. Um dia meu primo contratou uns doze trabalhadores russos para fazerem a colheita, os quais descobriram a macieira e passaram a reunir-se todos os dias em volta dela para cumprir uma cerimónia em que rezavam e se benziam. Explicavam eles que o cogumelo devia ser uma figura maravilhosa, pois não era obra do homem. Para eles, acontecimentos maravilhosos naturais eram coisas evidentes em si.

Mas, voltemos ao carvalho e aos seus habitantes. Para a raposa (fig. 50) que construíra a sua cova entre as raízes do carvalho, este passou a ser um abrigo seguro que a protegia das intempéries, a ela e à sua família. Para ela o carvalho não possuía o mesmo teor de utilidade prática que tinha para o couteiro, nem o teor de ameaça que tinha para a rapariguinha, mas sim, é evidente, um teor de abrigo e nada mais.

Semelhantemente, no mundo-próprio do mocho o car­ valho tem um teor de refúgio (fig. 51). Somente, agora, não são as raízes, completamente fora do mundo ambiente, mas os troncos vigorosos, que constituem para ele uma como que muralha defensiva.

Para o esquilozinho o carvalho adquire, com as suas numerosas frondes, que lhe proporcionam trampolins apropriados para saltarem, um teor de trepar, e para as aves canoras, que constroem os seus ninhos nas rarhà- rias, o teor de suporte necessário.

[130]

Fig. 51— O mocho e o carvalho

Fig. 50 — A raposa e o carvalho

[131]

Correspondentemente aos diferentes teores de utili­ zação, diferem umas das outras~ãs imagens-perceptivas. Cada mundo-próprio aproveita do carvalho uma certa parte das suas propriedades, adequada à formação tanto dos veículos de sinais-característicos como dos de mar- cas-de-acção dos seus ciclos-de-função. No mundo-próprio da formiga (fig. 52) tudo que não é a casca com as suas anfractuosidades desaparece, tornando-se aquelas o seu campo de pilhagem.

Fig. 52— A formiga e o carvalho

[132]

Por baixo da casca, que ele destaca, o longicórneo (fig. 53) procura o seu alimento e aí põe também os seus ovos. As larvas que deles resultam abrem no lenho

Fig. 53 — O longicórneo e o carvalho

galerias, e abrigadas

rior, banqueteiam-se em segurança. Mas a sua protecção

as

não é absoluta. Porque

nelas dos perigos do mundo exte­

não é

só o picapau

que com

[133]

suas fortes bicadas fende a casca e as persegue, mas também o icnêumon (fig. 54), que, com o seu fino ovopo- sitor perfura o duro lenho do carvalho como se ele fosse manteiga, e as aniquila, introduzindo-lhes no corpo os seus ovos, dos quais virão a resultar larvas, que, por seu turno, engordam à custa daquelas outras. Em todas as centenas de mundos-próprios diferentes, o carvalho desempenha, como objecto, um papel alta­ mente variado, ora com uma ora com outra das suas

Fig. 54 — O Icnôuinon e o carvalho

partes. Umas destas são extensas, outras, reduzidas. Umas vezes, a madeira é dura, outras, mole. Uma vezes serve de protecção, outras de campo de ataque. Se quiséssemos resumir as particularidades opostas que, como objecto, o carvalho apresenta, o que resultaria seria um caos. E, no entanto, todas elas são apenas partes de um sujeito estritamente ordenado, que contém todos os mundos-próprios — nem conhecidos nem conhe- cíveis por todos os sujeitos destes mundos-próprios,.