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iE |) OBRA GERAL = i | ae | Minha Vida A narrativa autobiogrdfica do fundador da Antroposofia ‘i _| : a ‘ <2 : ANTROPOSOFICA i rss ae OBRA GERAL DE = ANTROPOSOFIA: COSMOLOGIA, COSMOGENESE, i CARMA E DESTINO, REFLEXOES, HISTORICO Pal Mel=te) are m@lel-ane IPN Meee fa Olas foureleelci = EpucAcAO # MEDICINA = FILOSOFIA SOCIAL Ci =tU sie mmU TW males} o1uToleIE | = ClENCIAS Naturalis = AGROSSILVICULTURA i = Ante » DRAMATURGIA = Diccdo = Musica Pee Naat Tee-Vouuler\caer me-Nc rele uaa cya ma\V/ pel eelear co ANTROPOSOFICA POSURE Torus) INOMenSHTONvoTy itr documento inestimav. oie oom literdria quanto para o conhecimento direto de grande parte de suas vivenc ab detalhes po Cocoumrecac Omani tn utte y Pose aieton Une e ecm erent do século XIX, adentrando também o século XX até pouco antes da Primetra Guerra Mundial. HNeoeentace eect op enn iNterensent narrativa — pois ainda a escrevia quando faleceu em 1925 —, cle abrange, no entanto, ferme ment nee conr ent nc Pico amor eure ean PW eoiemnal creatine te wre ney transcorrida em pequenas aldeias da Austria- Hungria, os anos de adolescéncia e o estudo no colégio cientifico de Wiener-Neustadt e, posteriormente, 0 periodo académico em Viena, \telone rai mi ees NCO cor acon Vae RLY Bietecreclcosmnr eae nerrrn nett AR EMNcopInco net Rey rete ecme tensa locas ant) Interessado no conhecimento, mas sobretudo (eoriNrena OK Ca HCN Leck nem mesmo quando se ultrapassa a realidade Gl pie Conbn: Diath cee Kory elaborar, des NOR Ool acta) Faieiten ns HyeaeeeCyiteta eC ar Ome mater Antroposofia, Filho de uma época que nao 0 Contin mayen rer cksrotammncany SPUR Res Rui OR tC humano, Steiner lancou em dit SeMCOU MOR Oecsmnnite canreUSR Berean uma frondosa e feeun Gioia Tena i) orm ectnniaea cect SG) morte, se multiplicam por todo.o mundo Este livro foi impresso no processo CrP pela Ferrari Editora e Artes Graficas em Maio de 2006 Bidncs Coot ato) Coot Cel useecIe el TCC SNCS LUE 1861 em Kraljevec (Austria), Apesar de seu acco co inenia rome eee one rt Far iece eatreeeitrt ene cet) espirifuais, cumpriu em Viena, a conselho do Faeeenem ete teen tocn retain eeu cmcme mrad ELE Nome ere MAC mon Reon es escritos cientificos de Goethe na colecao POCO aN TOUT aR Keferasts Ecce nee locl itenmsncopstne UTAvon @core Cee Schiller em Weimar (Alemanha), Steiner Panaracer ReC ECC Lonm ce Meaty Boe ivi co Esher, WIR Cocca NH ACOH ATTN -aeeTnTt Cd Pie necro enna AIM MPnnNEEMCCNSe TSU losdfica, sendo dessa época Preen ne duntirncne le Urleno ree anita CLC eames stn TRCN nD Biotec ticecl yom es ULae Cc e Erol Esra eecvinu CE T@ (ox (ee DonoKennCats Er Cen no intuito de expor e divulgar os resultados de isas cientifico-espirituais, de inicio BG datielicont cero cCeCea Oso HCC Me ENISM Ve Pri even near mae rte ESHUP Dee Ms Ced mono OA Nn OHy pur eColtem nena ere See cnr msi ete aU mais tarde também da Escola Superior Livre de Ciéncia Espiritual), destruido em dezembro CSP oat oteORy Toston HOMO MRM IMTN OMRON Re OC OM ANE Cum Dose UM RO Cpt vear Renee One ) Coe UMti ener MLN Om Mm Key ENaC MCN TA UR UU ERIC SOT HEN (Waldorf), da medicina, da farmacologia, da agricultura, da pedagogia curativa, ete, Por (iocccoon me On Ren My ei ON p route B NE NCUCN CCM NCON TT Crersritone tee crn nent) iiteeat tent CMU RON CUoS RCRA HL (os INR eS vIeR ROU CORO Ren NUT SN Ce Rudolf Steiner M inha Vida A narrativa autobiogrdfica do fundador da Antroposofia Tradugéo: Rudolf Lanz Bruno Callegaro Jacira Cardoso 2@ ANTROPOSOFICA Titulo do original: Mew Lesenscanc © 1962 by Rudolf Steiner Nachlassverwaltung, Dornach (Suica) 9 ed. 2000, Rudolf Steiner Verlag, Dornach (Suiga) GA-Nr, 28 — ISBN 3-7274-0280-6 Direitos desta tradugao reservados @ Eprrora Antnopos6rica Lipa. — Rua da Fraternidade, 174 04738-020 Sao Paulo - SP — Tel./Fax (11) 5687-9714 www.antroposofica.com.br — editora@antroposofica.com.br Tradugéo preliminar: Rudolf Lanz e Bruno Callegaro Cotejo e redagao final, textos editoriais, concepeao grafica: Jacira Cardoso Capa: Variagéio sobre projeto original de Mareelo Girard para a colecao 2006 ISBN 85-7122-054-9 (da colegao) ISBN 85-7122-157-X (do volume) Dados Internacionals de Catalogagéo na Publicagao (CIP) {Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Steiner, Rudoll, 1861-1925, Minka vida ‘a narrativa eutobiogrdlica do fundador {da Antroposofia/ Rucol! Steiner; tradueao Rudolf Lanz, Bruno Callegaro, Jacra Cardoso. — Sao Paulo Anltoposstica, 2006. — (Rudoll Steiner: obra geral) Titulo original: Mein Lebensgang ISBN 85-7129-054-9 (colegio) ISBN 85-7122-187.X v) 1. Antroposofistas -Biografia 2. Memérias aulobiograticas 3, Steiner, Fudall, 1861-1925 I. Thule. 1. Serio 08-3765, @00-299.935092 Indices para catilogo sistematico: 1. Antroposofistas : Autobiogratia "208, 936002 Suméario* Prefacio a edicdo brasileira. Nota introdutéria .... |, — 1861-1872: Kraljevec, Médling, Pottschach, Neudérfl .. [Recordagdes da infancia: os pais, a paisagem, a estrutura familiar, 0 trabalho paterno na estacao ferroviéria. O primeiro ensino escolar ¢ 0 ensino paterno, As pessoas marcantes na época infantil. As primeiras curiosidades sobre as leis da naturoza e da Fisica. O importante livro de Geometria. A vivéneia do mundo espiritual paralelamente ao fisico. O primeiro contato com as artes: musica e desenho. O despertar para a Astronomia. A participagao religiosa na igreja local. A escuta de dis- cussdes adultas sobre politica e literatura. O aprendizado de eletrici- dade e telegrafia na estagao.] Il. — 1872-1879: Wiener-Neustadt.... [As intengées paternas relativas aos estudos e A subseqiiente profi sitio. O exame de admissao & escola municipal e 0 ingresso no colégio cientifico. O anseio juvenil por conhecimento, especialmente no campo da Matematica e da Geometria. Os professores como exemplo a se- guir, O estudo particular da filosofia de Kant. O interesse por Litera- (ura e Histéria. A primeira atividade como professor particular. O estudo auténomo do grego e do latim. A observacao da atuagao do espirito humano nas discuss6es politicas locais.| ILI. — 1879-1882: Inzersdorf/Viena (O ingresso na Academia Politécnica de Viena. O estudo particular de Filosofia e os primeiros questionamentos gnosiolégicos. A influéncia académica de Karl Julius Schréer. Cursos e palestras académicas com- plementares. O primeiro contato com o Fausto de Goethe. Contempla- es espirituais. O encontro com o vendedor de ervas medicinais. Ini- cio da elaboragao de uma teoria do conhecimento. Estudos de Filoso- a, Matematica, Geometria e Fisica. Vivéncia dos pensamentos como realidades espirituais.] 17 19 21 ‘Todos os itens entre colchetes [ ], neste sumdrio e no restante do livro, sio insergdes ¢ complementagdes da edigao brasileira, (N.E.) 8 Rudolf Steiner - Minna vipa TV. — 1882-1886: Viena [0 mundo dos sons como revelagao de um lado essencial da realidade. A vivéncia do elemento musical na figura sonora. © wagnerianismo. Novos lagos de amizade. A percepedio da realidade e da espiritualidade do eu. A presidéncia do ‘Grémio Literério’. Visita a sede do Parlamen- to Austrfaco: observagao de personalidades politicas marcantes.] V. — 1882-1886: Viena... [A questao das nacionalidades na Austria. Os centros culturais germAnicos em territ6rios eslavo-hingaros. As antigas pecas teatrais natalinas. O idealismo de Karl Julius Schréer e sua veneracdo por Goethe. A elaboracao pessoal de um idealismo objetivo. Questées estudos de Fisica, Anatomia e Fisiologia. A observacao goethiana da natureza. A contemplagao de formas sensorialmente supra-sensiveis como resultado da experiéncia. A triplice constituigao da entidade humana. O trabalho pedagégico diversificado.] VI. — 1882-1886: Viena e Attersee . [Inicio de uma atuagao educativa e pedagégica plenamente dedicada. A filosofia de Eduard von Hartmann. O convite para a edigao dos es- critos cientificos de Gocthe, com introdugées e notas explicativas. A teoria da metamorfose de Goethe. A observagao goethiana da nature- za como caminho para a Ciéncia Espiritual. A necessidade de uma nova teoria do conhecimento ¢ a edig&io do livro O método cognitivo de Goethe.] VU. — 1886-1889: Viena [A convivéncia, junto com amigos, na casa da familia do ‘desconhecido conhecido’. 0 amor platénico pela jovem amiga. A aproximagéo com Karl Julius Schréer. Os circulos filos6fico-literdrios de Marie Eugenie Delle Grazie e Laurenz Millner; sua averséo a Goethe. Os diélogos com 0 clérigo catélico Neumann. O desentendimento com Schroer. Outras impressdes marcantes de circulos vienenses eruditos e artisti- cos. As primeiras idéias para A filosofia da liberdade. O enigma das repetidas vidas terrestres. Rejeic&o do livro teoséfico Budismo esotérico.] VIL. — 1886-1889: Viena ... [Concentragao espiritual na vida anfmica interior e ampliagao das re- lagdes sociais. Robert Hamerling e seu Homunculus. Reflexdes sobre va 83 94 104 119 Sumédrio Hilosofia e Estética. A manifestacdo da idéia na Arte e a representagdo do sensorial em forma de espirito. A intuigéo moral como guia para o ato moral livre e a vivéncia do espirito. Primeira concepeao da Filoso- fia da liberdade. Relagées sociais com artistas e escritores. Primeira atividade editorial no ‘Semanério Alemao’. Relagdes com personalida- des da vida publica, Estudos sdcio-econémicos; a tragédia da questao social.] IX, — 1889-1890: Weimar, Berlim, Munique, Viena [Convite para a colaboragao na edigao de Goethe em Weimar. Prime ra viagem & Alemanha. Estudo dos documentos do Arquivo Goethe. Dos fundamentos cognitivos lancados por Goethe a uma gnosiologia que abranja a experiéneia espiritual. Os colaboradores do Arquivo Goethe. Breve estada em Berlim e contato pessoal com Eduard yon Hartmann. Visita a Munique e seus tesouros artisticos. Atividade pe- dagégica posterior em Viena. O convivio social e literério em casa de Marie Lang e Rosa Mayreder. A conclusio do anseio animico das trés primeiras décadas de vida no livro A filosofia da liberdade.1 X. — Por volta de 1890... {A 6poca anterior & mudanga para Weimar. Livros e artigos abordan- doo pensar ndo-sensorial como agente de insergéio na esséncia espiri- tual do mundo. Contestagao da idéia de limites do conhecimento. Dis- cussdo com os gnosiélogos da época e adesdio & concepedo goethiana da natureza, afeita ao espirito, a fim de conduzi-la A contemplagao do espiritual. Novas formulagdes para A filosofia da liberdade.] XI. — Por volta de 1890 .. (Questionamento interior das vivéncias dos misticos: 0 calor animico subjetivo, evitando a frieza das idéias, impede a contemplaco do espi- rito nas mesmas; o fortalecimento da propria vida interior no sentir obriga a verdadeira forma do espiritual objetivo a extinguir-se. Difi- culdades na forma de expressio. As formas ideativas da Filosofia da liberdade vemetem a conceitos cientifico-naturais.] XII. — Por volta de 1890 [A exposigiio das idéias cientifico-naturais de Goethe nas introdugdes aos seus textos para a ‘Bibliografia Nacional Alema’ de Kiirschner: superagao das dificuldades entre a forma mistica e a forma cientifica de expressio. O método para ‘falar sobre Goethe a maneira de Goethe’. 10 Rudolf Steiner ~ Minita viva A desaceleragéio momentanea da prépria evolugiio espiritual em fan- cdo da tarefa ligada a Goethe, providenciada pelo destino. Har- monizagéo de ambas as correntes na propria consciéncia. O conto de Goethe sobre ‘A Serpente Verde e a linda Lilie’: contetido de meditagao.] XIII. — 1890: Viena . [0s tragicos ideais dos melhores vienenses. ‘Além do bem e do mal’, de Nietzsche, um dos tragicos da época. O ensaio sobre o Homunculus, de Hamerling, e as dificuldades geradas pelo anti-semitismo nascente. Ignaz Briill, Josef Breuer, Sigmund Freud. O convite para o trabalho permanente no Arquivo Goethe-Schiller como colaborador auténomo.] XIV. — 1890: Rostock, Weimar [Weimar e 0 trabalho no Arquivo Goethe-Schiller. Herman Grimm. O exame de doutorado em Rostock. Os ecos, em Weimar, dos ‘Sete livros de Platonismo’ de Heinrich von Stein. O ensaio de R. Steiner para o‘Anuério de Goethe’. A convivéncia com Bernhard Suphan, Erich Schmidt, Gustav von Loeper, Herman Grimm, Wilhelm Scherer, Julius Wahle. A ‘Idéia de uma Historia da fantasia alema’, de Grimm e seu ensaio sobre a cultura grega, a romana e a Idade Média. 0 Grao-duque Carlos Alexandre; a Gra-duquesa Sofia; o Arquiduque Carlos Augusto; a Arquiduquesa Pauline. O responsavel pela Biblioteca de Weimar, Reinhold Kehler. XV. — 1890-1894: Weimar ... [Palestra proferida em Weimar (sobre a fantasia) ¢ outra no Clube Cientifico de Viena (sobre a concepgéio monista do mundo). Contato pessoal com Haeckel em seu sexagésimo aniversario. O prestigiado Heinrich von Treitschke e seu peculiar comportamento. Ludwig Laistner e os mitos. O trabalho na edigao de Schopenhauer e Jean Paul. O circulo de Hans e Grete Olden; Gabriele Reuter.] XVI. — 1890-1894: Weimar . [A aproximagao com Gabriele Reuter. Os varios circulos de jornalistas e escritores. A intensa participagaio nos fatos do mundo exterior; soli- dao na vivéncia da realidade espiritual. Os eventos e reunides em ho- menagem a Goethe. 0 ‘noctivago’ Otto Erich Hartleben. 0 bom relacio- namento com Otto Harnack. O fascinio do intelectualismo e os diver- sos pontos de vista.] 153 178 187 Sumario XVII. — 1892-1894 [Weimar] ... rgumento da ‘Sociedade Para uma Cultura Etica’, na Alemanha: a sem cosmovisao. O artigo de R. Steiner na revista ‘Futuro’ (Zukunft) sobre a ética, incompreendido pelo piblico. Viagem a Berlim para defesa de idéias em jornais; visita a Herman Grimm, que de- monstra indiferenga, como igualmente outros. Publicagao de A filoso- fia da liberdade, fandamentagao filoséfica da Antroposofia mediante a vivéncia dos enigmas existenciais cientificos.] XVIII. — 1894-1896 [Weimar] . [0 estudo sobre Friedrich Nietzsche e a publicagiio do livro ‘Nietzsche, um lutador contra sua época’. A vivéncia da personalidade de Nietzsche A obra filoséfica de Eugen Dithring e a teoria nietzschiana do ‘eterno rolorno’. Fritz Koegel, 0 editor da obra de Nietzsche. A questao Goethe- zsche. Goethe e o encontro do espirito na realidade da natureza; che ¢ a perda do mito do espirito no ambito cientifico-natural Niet: em que viveu.] XIX. — 1894-1896 [Weimar] .. {A solidao na vida espiritual e eognitiva, rotulada por amigos de ‘racionalismo’. A exposi¢ao da propria cosmovisdo num ensaio, depois publicado no ‘Magazine de Literatura’. O circulo artistico de Weimar. O pintor imaginativo Otto Frohlich. Os primeiros passos de Richard Strauss. Heinrich Zeller, Ibsen, Agnes e Bernhard Stavenhagen. As ipresentagées dos dramas musicais de Richard Wagner. Gustav Mahler como regente. O velho Grao-duque e 0 espirito de Goethe reinante em Weimar.] XX. — 1894-1896: Weimar ... |Wduard von der Hellen, colaborador no Arquivo Goethe-Schiller; 0 contato com sua familia e com seu circulo social, literario politico. A revivificagdo do ‘Semandrio Alemao’. A familia do segundo ‘desco- nhecido conhecido’; a contemplagao espiritual dos dois falecidos, 0 de Viena eo de Weimar. A mudanga para a residéncia da familia Eunike. logo Fresenius e sua descoberta. O elemento artistico trazido por Franz Ferdinand Heitmiiller ao circulo dos colaboradores do Arquivo. A estreita amizade com o pintor Josef Rolletschek. A compreensao de Max Christlieb em relagdo & viva realidade do mundo das idéias.] 194 . 202 . 214 . 225 12 Rudolf Steiner — Minua vipa XXI. — 1894-1897: Weimar . (Colaboragao ativa no periédico de Weimar sobre a vida cultural da 6poca. A amizade com o ator Neufier. A descoberta do busto de Hegel esculpido por Wichmann. 0 escritor dinamarqués Rudolf Schmidt, Conrad Ansorge, 0 discipulo de Liszt, ¢ von Crompton, 0 adepto de Nietzsche. O circulo cultural que criticava Weimar, A edigao do ultimo volume das introdugdes aos escritos cientificos de Goethe; langamento do livro ‘A cosmovisao de Goethe’, encerrando-se assim a atividade em Weimar.] XXII. — 1897: Weimar . [A ultima época em Weimar. Profunda reviravolta animica aos 36 anos. Exatidao e aprofundamento da compreensao perceptiva do mundo sen- sorial; instensificagéo da capacidade de observagao no mundo espiri- tual mediante o posicionamento objetivo frente ao mundo sensério. A observagao do aspecto objetivo no ser humano. A alma do homem como cendrio para a existéncia e o devir do mundo. A solugdo, no proprio homem, do enigma do mundo. O conhecimento como algo pertencente ao existir e ao devir do contetido do mundo. Arduas experiéncias inte- riores. A meditagao como necessidade animica vital. O elemento volitivo em lugar do ideativo. Darwin, Haeckel, Lyell.] XXIII. — [1897] Weimar, Berlim. [0 ‘individualismo ético’ na cosmovisao de R. Steiner, A liberdade do pensar em relagao A natureza moral da vontade. O mundo transfor- mado em ilusdo pelo pensamento materialista. O contraste entre a clara verdade observada e as opinides da época. A busca de expressao para traduzir o interiormente verdadeiro. A incapacidade da época em lidar com a verdade.] XXIV. — 1897-1899: Berlim. [A vivéncia da questéo: “Sera que se deve calar?”. A nova diregéio do caminho do destino. A auséncia de sintonia entre as correntes exter- nas ¢ os anseios animicos interiores. Nao calar, e sim dizer o quanto for possivel torna-se mandamento interior. A impossibilidade de fun- dar um periédico para divulgagao de impulsos espirituais; a conse- giiente incumbéncia da ediedo do ‘Magazine de Literatura’, A necessi- dade de ampliagao das assinaturas; a ‘Sociedade Literéria Livre’. A atenedo as exigéncias dos leitores. A co-editoria de Otto Erich Hartleben. Personalidades peculiares do cireulo literario. O. J. 240 250 261 267 Sumario Biorbaum, Frank Wedekind, Paul Scheerbart, W. Harlan. A falta de compreenséo para uma atuaedo espiritual.] — [1897-1899] Berlim. {A ‘Sociedade Dramética’ em conexo com 0 circulo do ‘Magazine de Literatura’; a eleigdo de R. Steiner para a diretoria. As interessantes experiéneias no ambito da diregao teatral. A apresentagio de ‘O intru- uo’, de Maurice Maeterlinck. Dificuldades entre as atuagdes no perié- digo e na vida artistica; impossibilidade de realizar os objetivos. En- saios escritos para o ‘Magazine’.] XXVI. — [1897-1899] Berlim {0 individualismo ético de R. Steiner contrariando as confissées reli sas. Fortes provagdes, concomitantemente a tempestades interiores; superagio mediante a contemplagao espiritual da evolugao do cristia- nismo, resultando no livro O cristianismo como fato mistico. O desa- brochar do verdadeiro contetido do cristianismo como manifestacao cognitiva interior.] XXVIII. — [1897-1899] Berlim . [A virada do séeulo e a nova luz espiritual para a humanidade. A fora dos vividos impulsos no século XIX, desde Hegel e Stirner, capaz de influenciar a realidade. A amizade com o editor de Stirner, Mackay. A provacdo espiritual na tentativa de exteriorizar 0 individualismo ético puramente interior; o lugar correto deste nos livros ‘A mistica no des- pontar da vida espiritual moderna’ e O cristianismo como fato mistico. A preocupagéio com a sobrevivéncia do ‘Magazine’.] XXVIII. — [1899-1904] Berlim . [Aatividade como professor na Escola de Formagao Cultural Para Tra- balhadores. O ensino em geral, os exereicios de retérica, as aulas de Histéria. O pensamento marxista dominante no proletariado. A oposigéio, no Ambito da Escola, dos defensores do materialismo his- t6rieo & abordagem objetiva dos impulsos espirituais da Histéri abandono da atividade docente apés o inicio da atuagao antroposéfica. A separagéo entre as classes burguesa e operéria. A caréncia de uma osfera espiritual nas questoes mundiais do proletariado.] XXIX. — [1898-1905] Berlim .. [A abordagem da arte retérica no ‘Folhetim dramattirgico’. A posterior arte da diego cultivada por Marie von Sivers. A amizade com Ludwig 13 277 278 284 293 299 14 Rudolf Steiner - MINHA VIDA Jakobowski. O circulo literdrio ‘Os vindouros’ [Die Kommendenl. Paul Asmus, Martha Asmus e Wolfgang Kirchbach. Bruno Wille e Wilhelm Bélsche, ‘a dupla de Friedrichshagen’. A Academia Livre. A Liga Giordano Bruno e sua cosmovisdo monista. A intensificagao das con- trovérsias. A palestra que é 0 ponto de partida para a atividade an- troposéfica, expondo as condigdes cognitivas correspondentes a atuali- dade. Friedrich Eckstein, conhecedor do antigo conhecimento espiri- tual, defensor da ocultagao das verdades esotéricas. Helena P. Blavatsky. O anacronismo de se pretender manter em segredo 0 saber esotérico.] XXX. — 1899-1902: Berlim . [0 sesquicentendrio de Goethe e a publicagio do ensaio ‘A revelagao secreta de Goethe’ no ‘Magazine de Literatura’. O conto da ‘serpente verde’: 0 saber imaginativo de Goethe versus 0 saber conceitual de Schiller. A transferéncia do ‘Magazine’ para outras maos, ante a im- possibilidade de viabilizar uma real atuagao espiritual. Palestra sobre a revelagdo secreta de Goethe e, em seguida, outra sobre a mistica na Idade Média. Palestra ‘De Buda a Cristo’ no circulo dos Kommenden. A Sociedade Teoséfica: palestra em seu ambito, sobre O cristianismo como flo mistico; convite para atuagéo na mesma. Encontro com Marie von Sivers. Visita a Londres para 0 congresso teosdfico; encontro com lideres da ‘Teosofia. Sobre a publicagao dos livros ‘Concepgoes do mun- doe da vida no século XIX’ e Haeckel e seus adversarios.] XXXI. — 1900-1913: Berlim [O cfreulo literério berlinense. Participagao na coletanea de Hans Kraemer sobre as conquistas culturais do século XIX e na de Arthur Dix intitulada ‘Egofsmo’. Aceitagao, por R. Steiner e Marie von Sivers, de assumir a direpao da Secdo Alema da Sociedade Teos6fica. O secta- rismo e o fanatismo desenvolvido entre membros da Sociedade; os participantes ndo-sectérios: futuros membros da posterior Sociedade Antroposéfica. Os excessos dogmaticos dos tedsofos a partir de 1906; a ‘Estrela do Oriente’ ¢ as especulagdes sobre o jovem hindu Krish- namurti.] XXXII. — [1902-1913] Berlim .. [As verdadeiras raizes espirituais da Antroposofia. A formulagao cien- tifica do conhecimento espiritual. O fundamento atomistico dos estu- dos de Htibbe-Schleiden. A fundagao do periédico mensal Luzifer; sua fusiio com o periédico vienense Gnosis, pasando a denominar-se . 807 . 320 . 327 Sumario Lucifer-Gnosis. A publicagao dos ensaios sobre a Crénica do Akasha. O ingresso de R. Steiner e Marie von Sivers na Escola Esotérica’ da Sociedade Teoséfica; a rejeigao dos contetidos ali cultivados. Partici- pagdo em novo congresso teoséfico em Londres: breve contato com Annie nt; algumas discordancias. Diferenga entre conhecimento espiri- tual de caréter onirico e aquele obtido pela alma da consciéncia. nascimento de uma atividade antroposéfica auténoma. A fundagao da Editora Filoséfico-antroposéfica.| XXXII. — [1901-1908: Berlim] ... (A limitagao da terminologia empregada segundo linguagem conheci- da dos tedsofos. A forte impressdo dos fatos e entidades do mundo espiritual. A elaboragao do livro Teosofia: a descrigao da entidade hu- mana segundo critérios da ciéncia sensorial. O livro antroposéfico como despertador da vida espiritual no leitor; a linguagem seca ¢ matemé- lica como desafio para suscitar o calor e a emogéo individuais.] XXXIV. — [1902-1913: Berlim] . |A auséncia de interesses artisticos na Sociedade Teoséfica: a arte vin- culada a vida material. A introdugao da arte na Sociedade por meio da dicgao cultivada por Marie Steiner. O cultivo do elemento artistico ao lado da busca cognitiva do espiritual. A evolugao da arte recitativa até os ‘dramas de mistérios’.] XXXV. — [1902-1913: Berlim] [A insatifacao da época com os ramos do conhecimento mecanicista. O anseio cognitivo em relagdo ao espiritual; por outro lado, a coagdo dos ntimeros, pesos e medidas como instrumentos obrigatérios de conheci- mento cientifico. A necessidade de superagao dos habitos mentais vi- gentes, A mentalidade compreensiva de Max Scheler em assuntos do espirito. As edigdes da obra de R. Steiner: distingao entre os livros escritos para o publico em geral e as edigses privadas de palestras proferidas no Ambito da Sociedade; a divulgacao posterior das edigves privadas em fungao do que a Antroposofia tem a dizer.] XXXVI. — [1905-1914: Berlim]. [0 convite para a diregdo de uma sociedade de culto simbélico da ‘an- tiga sabedoria’. A aceitagao do convite com a ressalva: apenas contet- dos da pesquisa antroposéfica; atengéio aos anseios dos membros no sentido da contemplagao e dos sentimentos da alma. A eliminagdo do rétulo ‘sociedade secreta’. O mal-entendido gerado por caltinia. 0 en- 339 342 345 349 16 Rudolf Steiner — Miva vipa cerramento dessa segao em 1914. A intengdo de atender as necessida- des animicas dos membros nas edigies privadas.] XXXVIT. — [1902-1906: Berlim] ... 354 [0 trabalho artistico ao lado das edigdes privadas no ambito da Socie- dade. A recitagao; 0 aprofundamento dos conhecimentos em arquite- tura, escultura e pintura durante as viagens em prol da Antroposofia. A contemplagdo das grandes obras de arte da humanidade em compa- nhia de Marie von Sivers. A inspiragao arquiteténica para o posterior projeto do Goetheanum. O elemento artistico isento de sentimentalis- mo. O cielo de conferéncias em Paris. O encontro com Eduard Schuré e outras personalidades. A declaracio a respeito do masculino-femi- nino no corpo etérico.] XXXVII. — [1902-1907: Berlim/Munique] .... . 359 [A unido da prépria biografia com a histéria do movimento antro- poséfico, Berlim e Munique, os dois polos opostos da atividade antro- poséfica, A Condessa Pauline von Kalckreuth e Sophie Stinde. 0 efr- culo de Helene von Schewitsch. O catolicismo liberal de Josef Miillner. O Congresso 'Teos6fico de 1907 em Munique. A apresentagao do drama sagrado de Eléusis, de Schuré. O desagrado provocado pelas inovagoes artisticas no Congresso. A necessidade de separacdo da Sociedade Antroposéfica.] APENDICE Resumo cronoldgico posterior Indice onomdstico A obra de Rudolf Steiner Ee oOO} - 370 385 As edigées brasileiras : As instituigdes antropo: ficas 1 no > Brasi . 388 Créditos das tlustragées ........00.4 earidiesie eo) (Sireacapar a ern top Meneire RUT CHET se cemn 891 Prefacio a edicao brasileira Este livro autobiografico de Rudolf Steiner — que abrange desde seu nascimento, em 1861, até o final da primeira fase de sua atuagdo antroposéfica, por volta de 1913 — constitui um impor- tante marco para a compreensdo de seu trajeto existencial — de seu Lebensgang, como ele préprio intitula a obra. Escrito ja no fim da vida por incentivo de amigos — que 0 convenceram a expor de préprio punho toda a motivagado de sua vida impar, incom- preendida por muitos em sua 6poca —, 0 texto nos leva a percor- rer a vasta paisagem histérica, cultural e espiritual que emoldu- rou o desenvolvimento pessoal do fundador da Antroposofia. Com uma grande riqueza de descrigées paisagisticas, narrativas de si- tuagdes e caracterizagées pessoais, Steiner nos torna seus con- {empordneos, co-participantes de sua rica e admiravel vida ponti- lhada de constatagées, indagagées e descobertas. Ao mesmo tem- po, ao conduzir-nos pelos meandros de suas reflexes filosd6fico- espirituais, convida-nos a trilhar dificeis caminhos do pensamen- to, iluminados exclusivamente por uma hicida e clara consciéncia. Acompanhar pelas maos do proprio Rudolf Steiner o percur- so de sua vida até 0 florescer da Antroposofia, por ele iniciada e hoje cultivada mundialmente, é um processo que nos familiariza de modo gratificante com sua personalidade — que foi criadora, intermediadora e incentivadora em todo 0 grande movimento ge- rado pela cosmovisdo antroposéfica. Focalizar o desenvolvimento e a atuagdo dessa personalidade em sua época, e numa cultura tao diferente da atual — e mais ainda da latino-americana — contribui imensamente para uma ampliagéo e um aprofundamento da visdo panoramica e universal que a Antroposofia nos proporcio- na, nas mais diversas éreas do conhecimento humano. Rudolf Steiner faleceu em 1925, apds uma incansavel e fru- tifera atividade em nome da Antroposofia nos ultimos doze anos de vida — exatamente 0 periodo nao alcancado por esta autobio- grafia, cuja escrita foi bruscamente interrompida com sua morte. O testemunho dessa atividade posterior é prestado pela extensa relacdo bibliografica de sua Edig&éo Completa (Gesamtausgabe), que registra toda a sua produgao escrita e as centenas de ciclos de palestras proferidas incansavelmente por ele até 1924. 18 Rudolf Steiner — MiNHA vipa Publicar este livro em portugués foi uma inten¢do por muito tempo acalentada, porém de dificil realizagao em vista de varias circunstancias. A grande extens4o do texto, fecundo em peculiari- dades lingiisticas e culturais e também em argumentacées de cunho filos6fico e espiritual, exigia aprimoramento e complemen- tagao dos esforgos j4 empreendidos, anos atras, ao ser realizada e retrabalhada uma tradu¢ao preliminar. Apesar disso, editd-la sem tais cuidados e complementos seria entregar ao publico leitor um texto de dificil assimilacdo em varios aspectos, do qual sé se bene- ficiariam inteiramente as pessoas familiarizadas com a cultura germ4nico-européia. Nao sendo esta a finalidade da edigdo desti- nada ao publico leitor brasileiro — alias, j4 conhecedor de varias obras de Steiner —, e tendo-se muito mais por objetivo a divulga- cdo de sua autobiografia de um modo que fosse compreensivel e enriquecedor para todos, empenhamo-nos em cotejar criterio- samente, mais uma vez, a antiga traducéo e elaborar numerosas notas explicativas, multiplicando o numero das ja existentes no fim do livro original. Assim, situagdes e personalidades conside- radas corriqueiras na cultura germanica ou no Ambito erudito em geral — e por isso ndo detalhadas originalmente — recebem ago- ra, em nossa edicao, referéncias identificadoras no contexto, que servem como ponto de partida para eventuais pesquisas avanca- das. Nesse sentido, elaboramos pequenos textos explicativos quan- do nos foi possfvel o acesso aos respectivos dados. Sem pretender erudigao ou infalibilidade nas informagées, esperamos apenas fa- cilitar a todos os interessados uma apreciacdo mais proveitosa e confortavel da leitura. Que este livro possa abrir bem mais — ou totalmente — as portas para o ingresso e/ou o aprofundamento na cosmovisado antroposéfica, legada 4 nossa época por seu fundador, que aqui nos descortina sua admiravel senda percorrida. Jacira Cardoso, editora Nota introdutéria* Aautobiografia de Rudolf Steiner foi publicada originalmente em setenta artigos sucessivos no periédico Das Goetheanum — semandario internacional de Antroposofia, editado em Dornach, Suiga —, de 9.12.1923 a 5.4.1925. Com seu falecimento, em 30 de margo de 1925, Rudolf Steiner ndo péde finalizar sua narrativa e publicé-la sob forma de livro. Sua tiltima declaragao a esse respei- to ocorreu em 12.9.1924, durante uma palestra em que explicou: “Obviamente eu sé pude relatar as exterioridades desses assun- tos em Das Goetheanum, mas os artigos sairao sob forma de livro, com notas explicativas em que também sera considerado o lado interior” (GA 238). Posteriormente, Marie Steiner [sua vitiva e grande colaboradora] organizou os 70 artigos em 38 capitulos e publicou-os como livro, acrescidos de um posfacio, em 1925. Para a sétima edicdo do original o texto foi cotejado com o manuscrito, ainda existente em sua maior parte. Trés corregdes, correspondentes ao sentido e resultantes do cotejo, foram as- sinaladas em notas explicativas. Pontuagdes e questées esti- listicas, na medida da coeréncia observada, foram remetidas ao manuscrito. Nas notas explicativas, os livros escritos, os artigos ¢ as pa- lestras de Rudolf Steiner séo mencionados, na medida do possi- vel, segundo sua inclusao na Rudolf Steiner Gesamtausgabe [Edi- cao Completa de Rudolf Steiner — vide detalhes no final do livro]. Os titulos vém adicionados da sigla GA e o numero corresponden- te ao volume. Alguns possuem também a sigla TB, referente a Taschenbuch [livro de bolso], com a respectiva numeragao. Na edigao brasileira optou-se por traduzir para o portugués, em sua grande maioria, os titulos de obras mencionadas no corpo do texto, a fim de facilitar a compreensao e a fluéncia na leitura deste. Os titulos originais sio reproduzidos em notas de rodapé, com as eventuais explicagées. Para uma clara identificacdo, todas as notas da edigao brasi- leira sfo consignadas entre colchetes [ ], seguindo porém uma ordem numérica geral e unica. Na edigao original, adendo do editor; texto adaptado para esta edigao. (N.E.) ie m discussées publicas sobre a Antroposofia, por mim cul- tivada, j4 ha algum tempo vém sendo aventados pormeno- res e comentarios a respeito de minha biografia; e do que vem sendo dito, nesse sentido, tiraram-se conclusdes sobre a cau- sa das mudangas que as pessoas afirmam constatar em minha evolugao espiritual. Diante disso, alguns amigos expressaram a opiniao de que seria bom eu mesmo escrever algo a respeito de minha vida. Devo confessar que isso nado consta entre minhas inclina- ges; pois sempre foi meu empenho elaborar o que tinha a dizer, e 0 que acreditava dever fazer, conforme o exigiam as coisas, e nao para satisfazer 0 lado pessoal. Sem duvida, sempre foi mi- nha opiniao que o cunho pessoal confere, em muitas areas, 0 mais precioso colorido as atividades humanas; contudo, parece-me que esse cunho pessoal deve manifestar-se pelo modo como se fala e se atua, e nao pela consideracao a prépria personalidade. O que possa resultar dessa consideracdo é um assunto que a pessoa tem de resolver consigo mesma. Assim, 86 posso decidir-me & exposigao a seguir por ser obri- gado a retificar, mediante uma descrigdo objetiva e sob a luz cor- reta, varios juizos distorcidos a respeito da relagdo de minha vida com o assunto cultivado por mim; e também por considerar justificada a insisténcia de pessoas amigas e sensatas com rela- cao a esses juizos. O bergo natal de meus pais foi a Baixa-Austria. Meu pai nasceu em Geras, um minusculo lugarejo na regiao florestal da Baixa-Austria, e minha mae em Horn, uma cidade na mesma regido.? "Os pais de Rudolf Steiner foram Johann Steiner (1829-1910) e Franziska (nas- cida Blie) Steiner (1834-1918). Foram sepultados em Horn, na Austria, e em seu tumulo consta uma frase de Rudolf Steiner concebida por ocasiao do falecimento do pai; “Sua alma descansa no Reino de Cristo / Os pensamentos de seu amor estado com ele.” 22 Rudolf Steiner — Mintia via Meu pai passou sua infancia e juventude em estreita relacdo com 0 convento dos premonstratenses* em Geras. Sempre recor- dava essa época de sua vida com grande amor. Gostava de contar como prestara ser- vicos no convento e como fora educado pelos monges. Mais tarde foi cagador a servico do Conde de Hoyos. Essa familia tinha uma propriedade em Horn, onde meu pai conhe- ceu minha mae. Ent&o ele deixou o servico da caga e assumiu 0 cargo de telegrafista na ferrovia do sul da Austria. Sua primei- ra colocacéo foi nu- ma pequena estagado da Estiria Meridional, sendo depois trans- ferido para Kraljevec, na fronteira hinga- ro-croata.’ Foi nessa época que se casou com minha mae, cujo sobrenome de soltei- ra era Blie. Ela provinha de uma antiga familia de Horn. Eu nasci em Kraljevec, em 27 de fevereiro de 1861. E foi assim que aconteceu de meu local de nascimento se encontrar bem distante da regiao de minha ascendéncia familiar. Tanto meu pai como minha mae eram filhos genufnos da maravilhosa regiao silvestre da Baixa-Austria, ao norte do Da- nubio. E uma regiao em que apenas tardiamente penetrou a fer- rovia; ainda hoje‘ Geras no foi tocada por ela. Meus pais guarda- vam com amor o que tinham vivido na terra natal. Ao falarem dela, sentia-se instintivamente como em sua alma eles nao ha- viam deixado essa patria, apesar de o destino té-los determinado a passar a maior parte de sua vida longe dela. Quando meu pai se aposentou, apés uma vida plena de trabalho, foi para 14 que eles Jogo se mudaram novamente — para Horn. Johann Steiner Franziska Steiner onogos regulares cuja ordem foi fundada na Franga no século XI] * Situada junto a linha férrea entre os rios Mura e Drav: confluéncia em sentido oeste, na atual Tugoslavia. * [Na década de 1920.) al , a vinte quilémetros da Capitulo T 23 Meu pai era um homem inteiramente de boa vontade, mas com um temperamento — principalmente em sua juventude — capaz de efervescéncia passional. O servigo ferrovidrio era-lhe um dever; meu pai nao se apegava a ele com amor. Quando eu ainda era menino, havia épocas em que cle tinha de trabalhar trés dias e trés noites consecutivas. Depois tinha uma pausa de 24 horas. As- sim, a vida nao lhe oferecia ne- nhum colorido — era apenas cin- zenta. Ele gostava de ocupar-se em acompanhar as situagées po- & liticas, das quais participava com 3 ae o mais vivo interesse. Minha me, "4 casa em que nasceu Rudolf ante a inexisténcia de bens ma- Steiner (Kraljevec) teriais, precisava dedicar-se intei- ramente as tarefas domésticas. Seus dias eram preenchidos pe- los carinhosos cuidados devotados a seus filhos e 4 modesta casa. Quando eu tinha um ano e meio de idade, meu pai foi trans- ferido para Médling, perto de Viena. Ali meus pais ficaram por meio ano. Entéo meu pai recebeu a direcao da pequena estacéio da ferrovia do sul em Pottschach, na Baixa-Austria, préximo a fron- teira estiria. Ali passei a época dos dois aos oito anos de idade. Uma maravilhosa paisagem envolveu minha infancia. A vista abrangia as montanhas que ligam a Baixa Austria a Estiria: 0 Schneeberg, o Wechsel, os Raxalpe, 0 Semmering.® O Schneeberg captava os raios de sol com sua rocha desnuda apontando para 0 alto, e o que estes anunciavam, ao irradiar da montanha para a pequena estacdo, era a primeira saudacao matinal em belos dias de verao, O costado cinzento do Wechsel compunha um sério con- traste para isso. O verde, que sorria amigavelmente de todas as partes nessa paisagem, fazia as montanhas destacar-se dele. Na distancia do horizonte tinha-se a majestade dos cumes, e na cercania bem préxima a suavidade da natureza. Na pequena estacdo de trem, no entanto, todo o interesse convergia para 0 movimento ferrovidrio. E bem verdade que nes- ® [Montanhas na cordilheira dos Alpes. Schneeberg: ‘Monte Nevado’; Raxalpe: trecho dos Alpes na regido montanhosa do Rax.] 24 Rudolf Steiner - Minna vipa sa regido os trens circulavam, naquela época, apenas a intervalos bem maiores; mas quando chegavam, um ntimero de pessoas da aldeia, dispondo de tempo, reunia-se na estagao a fim de propor- cionar um pouco de variedade A vida, que em geral lhes parecia monétona. O mestre-escola, o paroco, o administrador rural e freqiientemente até o prefeito apareciam por 14. Eu creio que ter passado a infancia em tal ambiente foi sig- nificativo para minha vida — pois meus interesses foram forte- mente atraidos para 0 lado mecdnico dessa existéncia. E eu sei como esses interesses queriam repetidamente obscurecer 0 lado do coragao na alma infantil, voltado para a natureza suave e, ao mesmo tempo, grandiosa, para dentro da qual, na distancia, esses trens submetidos ao mecanismo desapareciam toda vez. Para tudo isto concorria a impressao causada por uma figu- ra de grande originalidade: a do paroco de St. Valentin, lugarejo que se podia atingir de Pottschach numa caminhada de trés quar- tos de hora. Esse paroco® gostava de vir & casa de meus pais. Qua- se diariamente ele fazia seu passeio para visitar-nos, e sempre se demorava um pouco. Era o tipo do eclesiastico catélico liberal, tolerante e condescendente. Um homem robusto, de ombros lar- gos. Era brincalhdo, gostava de falar fazendo pilhérias e tinha prazer em ver rir as pessoas em seu redor. E nés continudvamos rindo do que ele dissera, muito tempo depois de ter ido embora. Ele era um homem da vida pratica; e também gostava de dar bons conselhos praticos. Um deles teve um efeito duradouro em nossa familia. Os trilhos em Pottschach eram ladeados por acdcias (robineas). Certa vez estavamos andando no estreito caminho ao longo dessas arvores, quando ele exclamou: “Que lindas flores de acacia!” — e num instante subiu numa daquelas arvores e colheu uma grande quantidade de flores. Entéo estendeu seu enorme Jengo vermelho — era grande consumidor de rapé —, embrulhou seu achado cuidadosamente e continuou andando com a trouxa embaixo do brago. A seguir disse: “Vocés tém sorte por disporem de tantas flores de acacia.” Meu pai ficou surpreso e respondeu: “Para qué nos podem servir?” “Ooo quééé?”, disse o padre, “entado o senhor nao sabe que se podem fritar as flores de acacia, como as de sabugueiro, e que elas tem um sabor muito melhor por possui- ® Pe. Robert Andersky, da ordem cisterciense. Capitulo I 25 rem um aroma mais suave?” E daquela época em diante, havendo ocasido, de tempos em tempos havia ‘flores fritas de acacia’ em nossa mesa. Em Pottschach meus pais ainda tiveram uma filha e um filho.? Depois disso a familia nfo cresceu mais. Quando bem pequeno, eu tinha uma caracteristica curiosa. A partir do momento em que consegui comer sozinho, as pessoas tinham de prestar muita atengéo em mim; pois eu havia forma- do a opini&o de que um prato de sopa ou uma xicara de café esta- vam destinados a ser utilizados uma tmica vez. Quando nao es- tava sendo vigiado, costumava atirar, depois da refeigao, o prato ou a xicara ao chéo, quebrando-os em mil pedagos. Quando mi- nha mae se aproximaya, eu a recebia exclamando alegremente: “Mamae, ja acabei!” Isto nao deve ter sido furia de destruigdo, pois eu tratava meus brinquedos com cuidado meticuloso, e eles duravam muito tempo em bom estado. Entre esses brinquedos, cativavam-me em especial aqueles cujo tipo eu também hoje considero particular- mente bons. Eram livros ilustrados com figuras méveis, que po- diam ser puxadas por meio de fios presos embaixo. Essas figuras eram acompanhadas de pequenos contos e recebiam vida propria quando se puxavam seus fios. Em companhia de minha irma, eu ficava durante horas sentado em frente a esses livros. Foi tam- bém com eles que, sozinho, comecei a aprender a ler. Meu pai queria que eu aprendesse cedo a ler e escrever. Quando eu atingi a idade escolar, mandou-me a escola da aldeia. O mestre-escola era um senhor de idade, para quem a obrigagao de dar aula era algo bem enfadonho; mas para mim também era bem enfadonho ser ensinado por ele. Eu nao acreditava, de ma- neira alguma, que pudesse aprender algo por seu intermédio. E que ele vinha visitar-nos freqiientemente com sua esposa e seu filhinho; e, conforme meus conceitos de entéo, esse filhinho era um veradeiro moleque. Entdo eu pus na cabega: de alguém cujo filho 6 um tamanho moleque nao se pode aprender coisa alguma. Mas um belo dia aconteceu algo ‘bem drastico’. Esse malandrinho, que também freqiientava a escola, teve a idéia de molhar um peda- * Leopoldine Steiner (1864-1927) e Gustav Steiner (1866-1942). Vide cartas de R. Steiner aos pais e irméos em Briefe IT (1890-1925), GA 39. 26 Rudolf Steiner — Minna vioa ¢o de pau com tinta e fazer circulos de manchas de tinta em redor de todos os tinteiros. Seu pai percebeu. A maioria dos alunos ja tinha ido embora. S6 restavam eu, 0 filho do professor e mais alguns meninos. O mestre-escola ficou fora de si, esbravejando terrivelmente. Eu estava convencido de que ele iria até ‘berrar’, se nao tivesse rouquidao crénica. Apesar de sua fiiria, nosso com- portamento lhe mostrou claramente quem havia sido 0 malfeitor. Mas as coisas tomaram um rumo inesperado. A moradia do mes- tre era vizinha a sala de aula. A ‘dona mestra’ ouvira o barulho e acudiu gesticulando e langando olhares selvagens. Para ela, esta- va claro que seu filhinho nunca poderia ter sido culpado de tal malandragem. Ela me acusou. Eu fui embora correndo. Meu pai ficou furioso quando contei a coisa em casa. E quando o casal de mestres voltou a nos visitar, com a maior clareza meu pai pos formalmente um termo a amizade, e declarou: “Meu garoto nunca mais vai pér os pés em sua escola!” Dai em diante, ele mesmo se encarregou do ensino; e assim eu ficava horas sentado a seu lado em seu escritério, obrigado a ler e escrever enquanto ele se ocupa- va comigo entre um servi¢o e outro. Junto dele eu tampouco conseguia tomar real interesse pe- los contetidos do ensino. Interessava-me, de fato, pelo que meu pai escrevia. Queria imitar 0 que ele fazia. Com isto aprendi mui- to. Eu nao conseguia estabelecer relagao alguma com 0 que ele preparava para eu me instruir. Em contrapartida me interessa- va, 4 maneira infantil, por tudo o que fosse atividade pratica da vida. O modo como decorre o servico da funerdria, tudo 0 que esta ligado a ele, despertava minha atengao. Mas eram especial- mente as leis da natureza, em suas pequenas manifestagdes pra- ticas, que me atrafam. Quando eu escrevia, fazia-o por obrigacéo — e rapidamente, para logo terminar a pagina. 5 que depois po- dia espalhar sobre o escrito a areia absorvente que meu pai usa- va. Entao ficava fascinado com a rapidez com que a areia secava junto com a tinta, e com o resultante agregado de substancias. Experimentava, com os dedos, quais letras ja estavam secas e quais nado. Como minha curiosidade era grande, eu tocava a es- crita cedo demais e ela assumia um aspecto que desagradava pro- fundamente a meu pai. Mas ele era bondoso, e sua tinica puni- ¢o consistia em chamar-me de “menino desajeitado”. Capitulo T 27 Porém essa no era a tinica coisa que se passava comigo por causa da escrita. Mais do que as formas de minhas letras, interes- sava-me a estrutura da pena de escrever. Introduzindo a lamina do canivete de meu pai na fenda da pena, eu podia fazer estudos de fisica a respeito da elasticidade do material usado na fabrica- da pena. Claro que conseguia fazer a pena voltar a sua forma ginal, mas n4o sem conseqiiéncias negativas para a beleza de meus trabalhos escritos. Essa também foi a época em que, com meu tino para o co- nhecimento dos processos da natureza, fui colocado bem no meio entre o discernimento de uma situagao e os ‘limites do conheci- mento’. A uns trés minutos de nossa casa havia um moinho. O moleiro e sua esposa eram os padrinhos de meus irmaos. Nés éramos bem recebidos no moinho, e eu freqiientemente escapa- va até 1a, pois ‘estudava’ com entusiasmo seu funcionamento. Ali eu penetrava no ‘interior da natureza’. Mais préximo ainda, ha- via uma fiagao. As matérias-primas destinadas a ela chegavam na estagéo de trem; os produtos acabados partiam. Eu estava atento a tudo o que desaparecia fabrica adentro e novamente saia dela. Era estritamente proibido dar uma olhada ‘no interior’. Nun- ca era possivel. Ali estavam os ‘limites do conhecimento’. E eu gostaria tanto de transpor esses limites! E que quase diariamen- te o diretor da fAbrica vinha até meu pai para tratar de negécios; e esse diretor era para mim, garoto, um problema que me ocul- tava o mistério do ‘interior’ da fabrica como se 0 encobrisse com algo maravilhoso. Em muitos locais de seu corpo ele estava co- berto de manchas brancas; seus olhos tinham adquirido uma certa imobilidade pela convivéncia com as maquinas. Ele falava aspe- ramente, como que numa lingua mecanizada. “Qual a relacgaio entre este homem e o que encerram aqueles muros?” Este pro- blema insohivel estava diante de minha alma. Mas eu tampouco perguntava a ninguém sobre o mistério; pois era minha opinido de menino que em nada ajuda indagar sobre um assunto que nin- guém consegue ver. Assim continuava eu, vivendo entre 0 moi- nho amigavel e a fiagao hostil. Um dia sucedeu na estacao ferrovidria algo bem ‘assusta- dor’. Um trem de carga chegava a toda a velocidade; meu pai olhava em sua direcaéo. Um vagao traseiro estava em chamas. O pessoal do trem nada notara. O trem chegou em nossa estacdo 28 Rudolf Steiner — Minna vipa ardendo em fogo. Tudo o que ali se passou exerceu sobre mim uma profunda impressdo. Num vagao, o fogo havia surgido por causa de um material facilmente inflamavel. Por muito tempo me ocupei com a pergunta sobre como pode acontecer uma coisa as- sim. O que foi dito 4 minha volta sobre o caso nao foi, como em situagdes similares, satisfatério para mim. Eu estava cheio de perguntas, e tinha de carregd-las comigo sem resposta. Foi assim que completei oito anos de idade. Quando eu estava com oito anos, minha familia se mudou para Neudérfl, uma pequena aldeia hiingara, diretamente na fron- teira com a Baixa-Austria. Essa fronteira 6 formada pelo rio Laytha. A estagao de trem, entao a cargo de meu pai, encontrava- se numa das extremidades da aldeia. Andava-se meia hora até 0 rio divisor. Com mais meia hora se chegava a Wiener-Neustadt. Os Alpes, que em Pottschach eu via bem préximos, agora s6 eram visiveis 4 distancia; mas mesmo assim 14 estavam, desper- tando recordacgées quando se olhava para as montanhas menores alcancgaveis em pouco tempo do novo domicilio de minha familia. De um lado a vista dava para elevacées nao muito altas, com be- las florestas; do outro, abrangia uma regiao plana coberta de cam- pos e florestas, que chegava até a Hungria. Uma das montanhas, A qual se podia chegar em trés quartos de hora, era a minha favo- rita. Tinha em seu cume uma capela, onde se achava uma ima- gem de Santa Rosdlia.* Essa capela era o ponto final de um pas- seio que eu primeiro fazia em companhia de meus pais e irmaos e depois passei a fazer, com grande prazer, sozinho. Esses passeios eram uma fonte de alegria pelo fato de sempre se regressar com as generosas dadivas da natureza, conforme as estacées do ano. E que nas florestas se encontravam amoras, framboesas, moran- gos. Era uma enorme satisfacdo colher esses frutos e juntar, em uma hora e meia, uma gostosa sobremesa para 0 jantar da familia — que normalmente consistia, para cada um de nés, em apenas um pdo com manteiga ou um pedago de péo com queijo. Outras coisas agradaveis eram proporcionadas ao se vagar pelas florestas, que eram patriménio comunitério. A gente da al- * Essa capela situa-se a nordeste de Neudérfl, perto da atual estrada para Pottsching (inexistente naquela época), num dos pontos mais elevados entre as duas localidades. Hoje encontra-se rodeada de novas construgies. Capitulo I 29 deia se abastecia ali de lenha. Os mais pobres buscavam-na pes- soalmente, e 0s mais abastados mandavam seus servicais. Co- nheciam-se todos, em geral pessoas de bom coracéo; pois sempre tinham tempo para conversar quando chegava o “Steiner-Rudolf’, como me chamavam. “Entao, Steiner-Rudolf, vieste de novo dar uma voltinha?” — era 0 comego de uma conversa que se estendia por todos os assuntos imaginaveis. As pessoas nao se lembravam de que em sua frente estava uma criang¢a; pois, no fundo, em suas almas elas também ainda eram criangas, mesmo que ja tivessem sessenta anos. E assim, dessas conversas eu ficava sabendo quase tudo o que também acontecia no interior das casas dessa aldeia. A meia hora de caminhada de Neudérfl se encontra Sauer- brunn, com uma fonte de dgua rica em ferro e gas carbénico. O caminho até 14 acompanha a linha férrea e parcialmente atraves- sa belas florestas. Nas férias escolares eu ia todas as manhas até l4, carregando um blutzer — um recipiente de barro para agua. No meu cabiam trés a quatro litros. Podia-se enché-lo gratuita- mente na fonte. No almogo, a familia podia entéo saborear a deli- ciosa agua efervescente. Em dire¢do a Wiener-Neustadt, e mais adiante em diregao a {stiria, as montanhas vao declinando e formando uma planicie. Atravessando-a serpenteia o rio Laytha. Na encosta se encontra- va um convento de redentoristas. Eu encontrava freqitentemente os monges em meus passeios. Ainda sei como teria gostado se eles me tivessem dirigido a palavra; mas eles nunca 0 fizeram. Assim, eu sempre levava do encontro apenas uma impressao indefinida, mas festiva, que sempre me acompanhava por muito tempo. Foi aos nove anos de idade que se fixou em mim a seguinte idéia: em conexao com as tarefas desses monges, devem existir coisas im- portantes que eu deveria aprender. Aqui também aconteceu, de novo, de eu me encontrar cheio de perguntas, que tinha de carre- gar néo-respondidas comigo. Sim, essas perguntas sobre tudo o que fosse possivel tornavam-me bem solitdrio como menino. Nos contrafortes dos Alpes eram visiveis os castelos de Pitten e de Frohsdorf. Neste tiltimo morava, naquele tempo, o Conde de Chambord, que no principio dos anos 1870 havia querido tornar- se rei da Franca como Henrique V.° Eram impressées fortes as * Heinrich Karl Ferdinand Marie Dieudonné von Artois, Duque de Bordeaux, Conde de Chambord (1820-1883). 30 Rudolf Steiner — Minna vipa que eu recebia do segmento da vida ligado ao castelo de Frohsdorf. Freqiientemente o Conde e sua comitiva partiam da estacdo fer- rovidria de Neudérfl. Tudo naquelas pessoas atraia minha aten- cao. Impressdo particularmente profunda era exercida por um homem da comitiva do Conde. Ele tinha apenas uma orelha. A outra havia sido completamente decepada. Os cabelos estavam trancados por sobre 0 local. Ao vé-lo, eu soube pela primeira vez 0 que é um duelo — pois fora num deles que esse homem havia sacrificado uma orelha. Também um pouco de vida social se desvendava para mim em conexao com Frohsdorf. O professor auxiliar de Neudérfl!”, em cujo quartinho particular eu freqtientemente podia observa-lo trabalhando, aprontava incontaveis pedidos de esmola para os habitantes mais pobres da aldeia e das cercanias, dirigidos ao Conde Chambord. Para cada um desses pedidos vinha um florim de ajuda, do qual o professor sempre podia ficar com seis cruzados por seu trabalho. Ele necessitava dessa receita, pois seu cargo lhe rendia anualmente... 58 florins. Além disso, ele recebia 0 desjejum eo almogo na casa do ‘mestre-escola’. Também dava ‘aulas extras’ aumas dez criancas, entre as quais eu também contava. Por isso The pagavam um florim mensal. Eu devo muito a esse professor auxiliar. Nao que tivesse aproveitado muito de suas aulas — nisto as coisas para mim nado eram muito diferentes do que em Pottschach. Logo apés a mu- danga para Neudérfl, eu fui transferido para a escola dali. Ela consistia numa tnica sala escolar, onde eram ensinadas cinco clas- ses, de meninos e meninas, simultaneamente. Enquanto os meni- nos, que sentavam em minha fileira, tinham de copiar a histéria do rei Arpad, os bem pequenos ficavam em pé na frente de uma lousa onde lhes era desenhado 0 ‘i’ e 0 ‘w’ com giz. Era praticamen- te impossivel fazer outra coisa sendo deixar a alma ficar chocando embotadamente e cuidar de copiar com as mdos de modo quase mecanico. Todo o ensino tinha de ser cuidado quase exclusiva- mente pelo professor auxiliar. O ‘mestre-escola’ aparecia muito raramente ali. Ele também era 0 tabeliao da aldeia; e dizia-se que tinha tanto a fazer nesse cargo que nunca podia dar aula. "© Seu nome era Heinrich Gangl. Capitulo I 31 Apesar de tudo isso, eu aprendi relativamente cedo a ler bem. Devido a tal fato o professor auxiliar péde intervir em mi- nha vida com algo que me deu uma diregao. Logo apés meu in- gresso na escola de Neudérfl, eu descobri em seu quarto um livro de Geometria." Minhas relagdes com esse professor eram tao boas que eu pude ter por algum tempo o livro & minha disposigdo, sem maiores problemas. Debrucei-me sobre ele com entusiasmo. Du- rante semanas minha alma ficou totalmente preenchida pela congruéncia, pela semelhanga de triangulos, quadrangulos, poligonos; eu quebrava minha cabeca indagando onde realmente as paralelas se encontram; 0 teorema de Pitagoras me encantava. O fato de se poder presenciar animicamente o desenvolvi- mento de formas a serem observadas de maneira puramente in- terior, sem impressées dos sentidos externos, proporcionou-me imensa satisfagao. Nisto eu encontrei consolo para a disposi¢ao animica que me resultara das questées néo-respondidas. Poder compreender algo puramente no esp{frito trazia-me uma felicida- de interior. Sei que na Geometria eu conheci a felicidade pela primeira vez. E em minha relagaio com a Geometria que devo ver o primei- ro germinar de uma concepedo que paulatinamente se desenvol- veu em mim. Ela ja existia em mim de maneira mais ou menos inconsciente durante a infancia, e em torno dos vinte anos de idade assumiu uma forma definida, plenamente consciente. Eu dizia a mim mesmo: os objetos e processos que os senti- dos percebem estado dentro do espacgo; mas, da mesma maneira como esse espaco esta fora do homem, encontra-se no intimo uma espécie de espago animico, palco de seres e acontecimentos espiri- tuais. Nos pensamentos eu nao podia ver algo como imagens que o homem forma para si a respeito das coisas, e sim revelagdes de um mundo espiritual nesse palco da alma. Para mim a Geometria se mostrava como um saber aparentemente produzido pelo pr6- prio homem, mas apesar disso com um significado totalmente independente dele. Naturalmente, sendo crianga, eu nao o dizia claramente a mim mesmo, mas sentia que, assim como a Geome- tria, o homem deve carregar em si 0 saber do mundo espiritual. ' De autoria de Franz Mocnik. 32 Rudolf Steiner - Mina vina Ora, arealidade do mundo espiritual me era tao dbvia quan- to a do sensorial; mas eu tinha necessidade de uma espécie de justificativa para esta acepgdo. Queria ser capaz de dizer a mim mesmo que a vivéncia do mundo espiritual nao é um engano, tan- to quanto nao o é a experiéncia dos sentidos. No caso da Geome- tria, eu dizia a mim mesmo: aqui se tem permissdo para saber algo que sé a propria alma, gragas as suas proprias foreas, vivencia; neste sentimento eu encontrava a legitimagdo para falar do mun- do espiritual — que eu vivenciava — da mesma maneira como falava do mundo sensorial. E era assim que eu falava dele. Eu tinha duas impressdes, por certo indefinidas, mas que jd antes dos meus oito anos de idade desempenhavam um grande papel na vida de minha alma. Eu distinguia objetos e seres ‘que se véem’ e outros ‘que nao se véem’. Eu relato estas coisas de acordo com a verdade, apesar de as pessoas que procuram razées para considerar a Antroposofia algo fantasioso virem a concluir que eu jé teria, quando crianga, uma disposigao para o fantastico — nao sendo, pois, de surpreender que também pudesse desenvolver-se em mim uma cosmovisao fantasiosa. Contudo, é justamente por saber quéo pouco, mais tarde, cedi a inclinagdes pessoais em minhas descrigdes do mundo espi- ritual, voltando-me apenas as necessidades intrinsecas do assun- to, que eu mesmo posso olhar, em retrospecto, de maneira total- mente objetiva para a maneira infantil e ingénua como justifi- quei, por meio da Geometria, minha necessidade de falar de um mundo ‘que nao se vé’, Todavia, devo também acrescentar: eu gostava de viver nes- se mundo; pois deveria ter sentido o mundo sensorial como uma escuridao espiritual ao meu redor caso ele nao tivesse recebido luz daquele lado. O professor auxiliar de Neudérfl me proporcionou, com seu livro de Geometria, a justificagéo do mundo espiritual da qual eu necessitava entao. No entanto, eu Ihe devo ainda muito mais. Ele me trouxe 0 elemento artistico. Tocava violino e piano, e desenhava bastante. Tudo isto me atraia fortemente para sua pessoa. Eu ficava junto dele tanto tempo quanto possivel. Ele tinha um amor especial pelo desenho; e fez-me desenhar com lépis-carvao j4 aos nove anos Capitulo I 33 de idade. Sob sua orientagao, eu tinha de copiar quadros dessa maneira. Por exemplo, passei muito tempo copiando um retrato do Conde Széchényi.” Mais raramente em Neudérfl, mas freqiientemente no luga- rejo vizinho de Sauerbrunn, eu podia receber a profunda impres- sfio sonora da misica cigana hiingara. Tudo isto influfa numa infancia passada na direta proximi- dade da igreja e do cemitério. A estagéo de Neudérfl esta a poucos passos da igreja, e entre ambas estd o cemitério. Caminhando-se ao longo do cemitério e continuando por mais tum pequeno trecho, chegava-se 4 aldeia propriamente dita. Esta consistia em duas fileiras de casas. Uma comegava com a escola e a outra com a paréquia. Wntre as fileiras corriaum riacho, ladeado de ambos os lados por portentosas nogueiras. O relaciona- mento com estas arvores determinava uma hierar- quia entre os alunos da escola. Quando as nozes comegavam a amadure- cer, 08 meninos e meninas jogavam pedras nas arvores e acumulavam, desta forma, uma reserva de nozes para 0 inverno. No outono, ninguém falava em outra coisa sendo no tamanho dessa reserva de nozes. Quem ti- yesse a maior quantidade de nozes era o mais considerado. De- pois dele vinha uma hierarquia gradativa decrescente — até mim, 0 wiltimo, que como ‘estrangeiro na aldeia’ nao tinha nenhum di- reito de participar dessa hierarquia. Na paréquia, as fileiras das casas maiores, onde moravam 08 ‘grao-camponeses’, eram cortadas em Angulo reto por uma fi- leira de umas vinte casas que pertenciam aos habitantes ‘media- nos’ da aldeia. Havia ainda, beirando os jardins pertencentes estagao, um grupo de casebres cobertos de palha, propriedades dos ‘moradores das casinhas’. Estas formavam a vizinhanga dire- Aescola de Neudérfl " [Conde Istvan Széchényi (1791-1860), um dos mais significativos politicos da Hungria no século XIX.) 34 Rudolf Steiner — Minti viva ta de minha familia. Da aldeia partiam os caminhos que levavam aos campos e vinhedos cujos proprietdrios eram os aldedes. Todo ano eu participava da vindima dos moradores das casinhas, e uma vez participei de um casamento na aldeia. Das pessoas vinculadas a diregao da escola, eu gostava, afo- ra do professor auxiliar, também do pdroco." Ele vinha regular- mente duas vezes por semana para o ensino religioso, e ainda outras vezes para fazer a inspegéo da escola. A imagem desse homem gravou-se profundamente em minha alma; e por toda a minha vida ele sempre ressurgiu em minha recordacao. Entre as pessoas que eu conheci até os dez ou onze anos de idade, ele era de Jonge o mais importante. Era um enérgico patriota hingaro. Par- ticipava vivamente do aculturamento ma- giar da regiado hungara, entéo em curso. Inspirado nessas idéias, escrevia ensaios em lingua hungara, que eu vim a conhecer quando o professor auxiliar tinha de pas- sar o texto a limpo e conversava comigo so- bre 0 contetido, apesar de minha pouca ida- de. Contudo, o pdéroco também era um tra- balhador ativo em prol da Igreja. Certa vez isto se evidenciou 4 minha alma de modo marcante gracgas a um sermao. A proposito, em Neudérfl também ha- via uma loja magénica. Ela era envolta em mistério pelos habitantes da aldeia, que a envolyiam nas mais curiosas lendas. O papel de lideranca nessa loja magénica cabia ao diretor de uma fabrica de fésforos situada no fim da aldeia. Além dele, faziam parte da loja, como pessoas da proximidade imediata, apenas um outro diretor de fabrica e um negociante de roupas. Fora disto, a importancia da loja sé podia ser detectada pelo fato de aparecerem de vez em quando pessoas vindas ‘de longe’, que pareciam altamente misteriosas e assusta- doras aos habitantes da aldeia. O comerciante de roupas era uma pessoa curiosa. Sempre andava cabisbaixo, como que mergulhado em pensamentos. Chamavam-no de ‘simulador’, e seu comporta- ERE Franz Maraz ® Franz Maréz (1860-1873). Paroco de Neudorfl e depois cénego em Odenburg, onde se revestiu de alta dignidade eclesiastica. Capitulo 1 35 mento esquisito fazia com que ninguém tivesse nem a possibilida- de nem a vontade de aproximar-se dele. A loja magénica ficava om sua casa. Eu nao consegui estabelecer nenhuma relacdo com essa loja pois, de acordo com toda a maneira como as pessoas 4 minha volta se comportavam nesse aspecto, também eu tive de desistir de fazer perguntas nesse caso; e os comentarios de muito mau wosto que o proprietario da fabrica de fésforos fazia sobre a Igreja tuavam sobre mim de modo repulsivo. Num domingo o paroco proferiu, com sua maneira enérgica, rmao em que expés a importancia da verdadeira moralidade para a vida humana, e entao falou dos inimigos da verdade em- pregando imagens tiradas da loja. Entao fez seu discurso culmi- nar na frase: “Amados cristdos, prestai atencéo a quem é inimigo dessa verdade — por exemplo, um magom e um judeu.” Para os uldedes, com isso estavam autoritariamente caracterizados tanto 0 proprietario da fabrica como 0 comerciante de roupas. A energia com que isto foi dito me agradou de modo todo especial. ‘Também sou grato a esse padre especialmente por uma for- io impresséo que cunhou extraordinariamente minha orientacdo spiritual posterior. Certo dia ele veio 4 escolae reuniu na peque- na sala dos professores os alunos ‘mais maduros’, entre os quais (ambém me inclufa; desdobrou um desenho feito por ele e nos oxplicou, por meio do mesmo, o sistema césmico copernicano. Fa- lou de maneira bem ilustrativa sobre 0 movimento da Terra ao redor do Sol, a rotacdo em torno de um eixo, a obliqitidade do eixo da Terra e sobre verao e inverno, bem como sobre as zonas da ‘Terra. Fiquei totalmente cativado pelo assunto; reproduzi os de- senhos durante varios dias, e ainda recebi do padre um ensino especial sobre eclipses do Sol e da Lua e dirigi, naquele tempo e depois, toda a minha ansia de saber para esse assunto. Nessa €poca eu tinha aproximadamente dez anos, e ainda nao sabia escrever corretamente quanto a ortografia e a gramatica. Foi de profundo significado para minha vida de menino a proximidade da igreja e do cemitério em seu entorno. Tudo 0 que se passava na escola estava relacionado com isso. Ndo apenas por causa das condi¢ées sociais e ptiblicas que reinavam naquela regiao, mas pelo fato de o paroco ser uma personalidade notavel. © professor auxiliar era simultaneamente organista da igreja ¢ ums 36 Rudolf Steiner ~- Minna vipa responsavel pelas vestes e demais objetos usados na missa; ele prestava ao padre todos os servigos de assisténcia necessdrios a liturgia. A nés, alunos da escola, cabia a fungéo de ministrantes e cantores do coro nas missas, nos cultos ftinebres e nos enter- ros. Minha alma de menino gostava de viver no elemento solene- mente festivo da lingua latina e do culto. Pelo fato de participar intensamente desse servico paroquial até meus dez anos de ida- de, eu me achava freqiientemente préximo ao padre a quem tan- to estimava. Na casa de meus pais eu ndo encontrava estimulo algum quanto a essa minha relacao com a igreja. Meu pai nao comparti- Thava nem um pouco dela. Naquela época, ele era um ‘livre-pen- sador’. Nunca ia a igreja a qual eu estava tao ligado, embora tam- bém tivesse servido e se dedicado a uma delas durante seus anos de infancia e juventude. Isto s6 se modificou de novo quando ele, idoso e aposentado, regressou a Horn, sua regido natal. Entao voltou a ser um ‘homem devoto’. 86 que nessa época eu ja estava havia muito tempo fora de qualquer ligacdio com a casa paterna. De minha infancia em Neudérfl ressalta vigorosamente, ante minha alma, 0 modo como a contemplagao do ato liturgico, vincu- lada a solenidade musical do ofertério, faz despontar perante o espirito, de maneira intensamente sugestiva, as questdes enig- miaticas da existéncia. O ensino biblico e as aulas de catecismo, ministradas pelo paroco, eram muito menos efetivos no ambito do meu mundo animico do que sua atuag4o como celebrante littirgico, na mediagao entre o mundo sensivel e 0 supra-sensivel. Desde o inicio, para mim tudo aquilo nao era uma simples formalidade, mas profunda vivéncia. Quanto mais isso ocorria, tanto mais eu era, pois, um estranho na casa de meus pais. Meu coracdo nado perdia, nem mesmo com 0 que eu vivenciava em meu ambiente familiar, a vida que eu havia assimilado com 0 ritual litirgico. Eu vivia nesse ambiente doméstico sem participagdo. Eu o via, e no entanto pensava, refletia e sentia continuamente com aquele ou- tro mundo. Porém aqui me permito dizer que eu nao era nenhum sonhador, pois me entrosava como que naturalmente em todos os afazeres da vida pratica. Um perfeito contraponto a esse meu mundo também era for- mado pelo interesse politico de meu pai. Ele costumava ser subs- tituido, no plantao, por um outro funcion4rio. Este morava numa Capttulo I 37 outra estagéo férrea, pela qual também era responsavel; s6 apa- recia em Neudorfl a cada dois a trés dias. Nas noites desocupa- das, ele e meu pai entravam em discussdes politicas. Isto aconte- cia 4 mesa situada ao lado da estac4o, sob duas frondosas e mara- vilhosas tilias. La se reunia toda a familia e 0 funciondrio. Minha mae fazia tricé ou croché; meus irméos brincavam; eu, amitide sentava 4 mesa e escutava os intermindveis debates politicos dos dois homens. Porém meu interesse nunca se dirigia ao contetido do que falavam, mas 4 forma que a conversa assumia. Eles sem- pre estavam em desacordo; quando um dizia “sim”, 0 outro retru- cava com “nao”. Mas tudo isto sempre se desenrolava sob 0 signo da veeméncia, da passionalidade, mas também da benevoléncia, que era um trago basico na natureza de meu pai. No pequeno circulo que ali se reunia freqitentemente, e no qual amitde se encontravam os ‘notaveis’ do lugarejo, as vezes aparecia um médico de Wiener-Neustadt."' Ele tratava de muitos doentes da aldeia, onde nao havia médico naquela época. Fazia a pé 0 caminho de Wiener-Neustadt a Neudérfl, e depois de ver seus doentes vinha 4 estagao para esperar o trem, com o qual retornava. Esse homem tinha fama de esquisito, tanto em minha casa quanto entre a maioria das pessoas que o conheciam. Ele nao gostava de falar de sua profissio médica, e sim, muito mais, de literatura alema. Foi por intermédio dele que ouvi falar pela pri- meira vez de Lessing, Goethe, Schiller.* Em minha casa paterna nunca se falava disso. Era um assunto desconhecido. Tampouco na escola da aldeia vinha 4 luz esse tema. Tudo na escola estava direcionado para a histéria hiingara. O padre e o professor auxi- liar nao tinham interesse algum pelos grandes da literatura ale- ma. KE assim aconteceu de, junto com o médico de Wiener-Neustadt, todo um novo mundo ter penetrado em meu horizonte. Ele gosta- va de ocupar-se comigo; depois de descansar um pouco sob as tilias, puxava-me & parte e passeava na praca da estacéo falando em literatura alema, nao com intengéo de docente, mas cheio de en- ‘ Dr. Carl Hickel (1813-1905). Ainda escreveu a R. Steiner em 6.1.1893, grave- mente enfermo e quase totalmente cego. " [Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781), dramaturgo, critico e pensador; Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), poeta, pensador e pesquisador cientifico, con- siderado 0 expoente maximo da literatura alema; Johann Friedrich von Schiller (1759-1805), poeta e pensador.] 38 Rudolf Steiner ~ Mitta vipa tusiasmo. Entao desenvolvia todo tipo de idéias sobre o que é belo, sobre 0 que é feio. Isto também ficou em mim como uma imagem que, por toda a minha vida, evocou horas festivas em minha lembranga: de um lado o médico alto, magro, com seu passo largo e arrojado, sempre com o guarda-chuva na mAo direita, segurando-o de modo a des- lizar junto ao t6rax; e de outro lado eu, menino de dez anos, todo ouvidos ao que o homem dizia. Ao lado de tudo isso, ocupavam-me intensamente as instala- ¢des da estrada de ferro. Junto ao telégrafo da estacéio eu aprendi as leis da eletricidade, inicialmente pela observacao. Ja ainda menino, aprendi também a telegrafar. Quanto ao idioma, cresci inteiramente falando 0 dialeto ale- méo da Baixa-Austria oriental. No fundo, tratava-se também da- quele que ainda era usual nas regides da Hungria contiguas a Baixa-Austria. Minha relagao com a leitura era bem diferente do que com a escrita. Em minha infancia, eu ultrapassava as pala- vras; ia com a alma diretamente a contemplagées, conceitos e idéias, de modo que eu nada obtinha, da leitura, para o desenvol- vimento do senso para a escrita ortografica e gramatical. Em contrapartida, ao escrever sentia-me compelido a fixar as ima- gens verbais em fonemas tal qual eu as ouvia, como palavras de dialeto. Assim, s6 com as maiores dificuldades encontrava um acesso para a escrita da lingua, ao passo que desde 0 inicio me foi bem facil lé-la. Sob tais influéncias, fui-me aproximando da idade em que meu pai teria de decidir se deveria enviar-me para 0 liceu classico ou para 0 colégio cientifico em Wiener-Neustadt. A partir de en- tao eu ouvia, entre os temas da politica, muita conversa com as outras pessoas sobre meu futuro destino. Entéo era dado a meu pai este ou aquele conselho; ja naquela época eu sabia: ele gosta- va de ouvir 0 que os outros diziam, mas agia segundo sua prépria vontade, firmemente percebida. II. lance final, na decisdo sobre se eu deveria ser enviado para 0 liceu classico ou para 0 colégio cientifico, foi dado a meu pai por sua intengdo de me proporcionar a forma- go correta para uma ‘colocagao’ na estrada de ferro. Suas idéias finalmente se condensaram na imagem de que eu deveria tornar- me engenheiro ferroviario. Foi isto que levou A escolha do colégio cientifico. Inicialmente, porém, dever-se-ia decidir se na transigéo da sola aldea de Neudérfl para uma das escolas da vizinha Wiener- Neustadt eu ja estava maduro para uma dessas modalidades es- colares. Fui primeiramente encaminhado para 0 exame de admis- so & escola municipal. Os processos entéo conduzidos com vistas ao meu futuro iranscorriam sem profundo interesse de minha parte. Naquela idade, era-me indiferente o tipo de minha ‘colocacao’, e também a (juestao sobre escola municipal, colégio cientifico ou liceu classi- co, Pelo que eu observava ao meu redor, e pelo que havia cogitado om meu intimo, eu tinha em minha alma perguntas indefinidas porém intensas sobre a vida e o mundo, e queria aprender algo para ser capaz de respondé-las a mim mesmo. Pouco me importa- va qual tipo de escola deveria ensejar isto. Eu me sai muito bem no exame de admissao & escola muni- cipal. Haviam trazido todos os desenhos que eu fizera junto ao meu professor auxiliar; e estes causaram tao forte impressao na banca examinadora que, por isso mesmo, fez-se vista grossa aos meus conhecimentos insuficientes. Sai dali com um certificado ‘ospléndido’. Foi uma grande alegria para meus pais, para 0 pro- fessor auxiliar, para o padre, para muitos notaveis de Neudérfl. ‘Todos se alegraram com meu sucesso, pois para muitos isso era \uma prova de que “a escola de Neudérfl consegue realizar algu- ma coisa”. Tudo isto fez nascer em meu pai o pensamento de que, es- (ando tao adiantado, eu nao deveria passar mais um ano na esco- la municipal, e sim ir diretamente para o colégio cientifico. As- sim, poucos dias depois fui levado para o exame de admissao ao a 40 Rudolf Steiner ~ Missa vipa mesmo. Este nao transcorreu tao bem quanto o outro; contudo, fui admitido. Era outubro de 1872. Agora eu tinha de fazer diariamente o caminho de Neudérfl a Wiener-Neustadt. De manha podia ir de trem, mas no fim da tarde tinha de voltar a pé, pois nao havia trem naquele horario. Neudorfl ficava na Hungria, ¢ Wiener-Neustadt na Baixa-Aus- tria. Portanto, diariamente eu ia da ‘Translaitania’ para a ‘Cis- laitania’. (Assim se denominavam oficialmente as regides hinga- ra e austriaca.) Durante o almogo eu ficava em Wiener-Neustadt. Havia uma senhora que me conhecera numa de suas estadas na estagao de Neudérfl e, nessa ocasiao, soubera que eu iria para a escola em Wiener-Neustadt. Meus pais Ihe haviam transmitido sua preocu- pagado sobre como eu iria passar as horas do almogo durante meu periodo escolar. Ela se declarou disposta a me deixar comer gra- tuitamente em sua casa e a me receber sempre que necessdrio. No verao, a caminhada de Wiener-Neustadt até Neudorfl é muito bonita; no inverno, muitas vezes era penosa. Para se che- gar do final da cidade até a aldeia, era preciso andar durante meia hora por um campo do qual ndo se retirava a neve. Freqiien- temente eu tinha de ‘atravessar a vau’ a neve toda, que atingia a altura dos joelhos, e chegava em casa como um ‘boneco de neve’. Em minha alma, eu nao conseguia participar da vida da ci- dade da mesma maneira como no campo. Passava absorto diante do que sucedia entre as casas apertadas umas contra as outras. 6 ficava parado diante das livrarias de Wiener-Neustadt, mui- tas vezes por muito tempo. Também o que se ensinava na escola, e o que eu mesmo tinha de fazer ali inicialmente, passava pela minha alma sem um interesse vivaz. Nos dois primeiros anos tive muitas dificuldades para acompanhar as aulas. S6 no segundo semestre do segundo ano houve melhora. $6 entéo me tornei um ‘bom aluno’.'* Eu tinha uma necessidade que me dominava intensamente. Ansiava por pessoas que eu pudesse imitar na vida, como exem- plos humanos. Entre os professores dos dois primeiros anos eu nao as encontrei. Nos anuarios da escola, R. Steiner 6 classificado como aluno exemplar a partir da segunda Capitulo II 41 Nessa fase da vivéncia escolar, novamente houve um acon- tecimento que atuou profundamente em minha alma. Num dos relatérios anuais editados no fim de cada ano letivo, o diretor da escola havia publicado um trabalho: ‘A forga de atraco conside- rada como um efeito do movimento’. ’ Sendo um menino de onze anos, inicialmente eu quase nada pude compreender do contet- do; pois j4 comecava com matematica superior. No entanto, de algumas frases captei um sentido. Formou-se em mim uma pon- te de pensamento entre os ensinos sobre o Universo, recebidos do paroco, e o contetido desse ensaio. Nele também havia uma referéncia a um livro escrito pelo diretor: ‘O movimento geral da matéria como causa basica de todos os fendmenos da natureza’."® Economizei até poder comprar a obra. Tornou-se entdo uma es- pécie de ideal, de minha parte, aprender o mais rapido possivel tudo 0 que pudesse conduzir-me A compreensao do contetido do ensaio e do livro. Tratava-se do seguinte: o diretor da escola considerava uma hipdtese ‘mistica’ injustificada a existéncia de ‘forgas’ que, partin- do da matéria, atuassem a distancia. Ele queria explicar a ‘atra- :d0’, tanto dos corpos celestes quanto das moléculas e atomos, sem tais ‘for¢as’. Dizia que entre dois corpos se encontram muitos corpos pequenos em movimento. Estes, movimentando-se para la e para cd, chocam-se com os corpos maiores. Estes também rece- bem choques de todos os lados em que nao se defrontam mutua- mente. Os choques sobre os lados em que eles ndo se defrontam sao mais numerosos do que os ocorridos no espago entre os dois corpos. Com isso, estes se aproximam. A ‘atracgéo’ nao é nenhuma forga especial, mas apenas um ‘efeito do movimento’. Encontrei duas frases expressas nas primeiras paginas do livro: “1. Existe um espago e, neste, um movimento durante um tempo mais lon- go. — 2. Espaco e tempo sao grandezas homogéneas continuas; porém a matéria se constitui de particulas separadas (Atomos).” O autor queria explicar todos os processos naturais fisicos e qui- micos com base nos movimentos que surgem, da maneira descri- ta, entre as pequenas e as grandes partes da matéria. " Heinrich Schramm, diretor ¢ inspetor escolar regional, dirigente do colégio cientifico de Wiener-Neustadt de 1868 a 1874. O artigo é de 1873. “ Die allgemeine Bewegung der Materie als Grundursache aller Naturerschei- nungen (Viena, 1872). 42 Rudolf Steiner — Minita vipa Em mim ndo havia nada que, de alguma forma, me impelis- se a me identificar com essa vis4o; mas eu tinha o sentimento de que me seria muito importante compreender o que fora enuncia- do daquela maneira. E fiz de tudo para chegar até ali. Sempre que podia conseguir livros de Matematica e Fisica, aproveitava a opor- tunidade. Ia bem devagar. Sempre reiniciava a leitura do ensaio e do livro; a cada vez ia um pouco melhor. A isto se acresceu um outro fato. Na terceira série, eu recebi um professor que realmente preenchia 0 ‘ideal’ postado diante de minha alma." Esse, sim, eu podia esforgar-me em seguir. Ele ensinava Aritmética, Geometria e Fisica. Sua aula era de uma extraordindria ordem e transparéncia. Ele construia tudo tao cla- ramente, com base nos elementos, que segui-lo fazia um grande bem a atividade pensante. Um segundo artigo no anudrio da escola era de sua auto- ria.” Era da area do cdlculo de probabilidades e do cdlculo do seguro de vida. Eu me aprofundei nesse ensaio também, embora ainda nao pudesse entendé-lo muito. Porém logo cheguei a captar o sentido do cdlculo de probabilidades. No entanto, uma conse- qiiéncia ainda mais importante para mim foi o fato de eu ter en- contrado um modelo para meu raciocinio matematico na exatidao com que o mestre amado havia tratado a matéria. Isto permitiu nascer uma relacdo maravilhosa entre esse professor e mim. Eu sentia como uma felicidade ter esse homem como professor de Matematica e de Fisica durante todos os anos do colégio cientifi- co. Com o que aprendi dele, pude chegar cada vez mais proximo do enigma proposto pelos escritos do diretor da escola. Havia um outro professor com o qual s6 consegui estabele- cer um relacionamento animico mais estreito depois de algum tempo.”! Era o que lecionava Desenho Geométrico nas séries infe- riores e Geometria Descritiva nas séries superiores. Ele j4 dava aulas na segunda série; mas foi sé no decorrer do ensino na tercei- ra série que comecei a compreender sua maneira particular. Ele era um construtor grandioso. Suas aulas também eram de exem- Laurenz Jelinek, que esteve a frente da classe da terceira a sexta série, »” No 9" anuério da escola (1873/74), Laurenz Jelinek publicou o artigo ‘Os naime- ros ctibicos e a decomposigéo de um niimero inteiro numa soma de nimeros inteiros, dos quais é dado o maior’. ™ Georg Kosak (1836-1914). Capitulo IE 43 plar clareza e ordem. Desenhar com compasso, régua e esquadro se tornou para mim, por seu intermédio, uma das ocupagées favo- ritas. Por detrds do que eu assimilava do diretor da escola, do professor de Matematica e Fisica e do de Desenho Geométrico, surgiram em mim, num critério de adolescente, as questdes enig- miticas da natureza. Eu sentia o seguinte: devia aproximar-me da natureza a fim de posicionar-me perante 0 mundo espiritual que, em evidente manifestacdo, se encontrava diante de mim. Eu dizia a mim mesmo que s6 se pode ter uma adequada vivéncia do mundo espiritual por meio da alma quando 0 pensar adquire uma configura¢gdo capaz de aproximar-se da esséncia dos fendmenos da natureza. Foi com estes sentimentos que eu vivi durante 0 terceiro e o quarto ano do colégio cientifico, Eu mesmo ordenava tudo o que aprendia no sentido de me aproximar da meta descrita. Certa ocasiao passei diante de uma livraria. Na vitrina de- parei com a Critica da razéo pura de Kant, na edicdo popular Reclam.” Fiz de tudo para adquirir essa obra o quanto antes. Quando, naquela época, Kant penetrou na esfera de minha atividade pensante, eu ainda nao sabia 0 minimo acerca de sua posig&o na historia espiritual da hu- manidade. O que qualquer pessoa ti- yesse pensado sobre ele, concordan- do ou refutando, era-me totalmente desconhecido. Meu interesse ilimita- do pela critica da razao pura fora es- timulado por minha vida animica to- talmente pessoal. A minha maneira de adolescente, eu ansiava por com- preender a capacidade da raziio hu- mana em ter um real discernimento da esséncia das coisas. A leitura de Kant encontrava uma série de obstaculos nos fatos ex- teriores de minha vida. Devido 4 longa caminhada do lar a esco- la, diariamente eu perdia pelo menos trés horas. A tarde, nado Immanuel Kant * [Immanuel Kant (1724-1804), Kritik der reinen Verniinft. Reclam Verlag, edi- tora fundada em 1828 em Leipzig e até hoje em plena atividade.] 44 Rudolf Steiner — Minus vipa chegava em casa antes das seis. Entéo havia uma interminavel quantidade de tarefas escolares a fazer. Aos domingos me entre- gava quase que exclusivamente ao desenho construtivo. Meu ideal era chegar, na execucéo das construgdes geométricas, A maior exa- tidéo e a uma limpeza impecavel no hachurado e na colocagao das cores. Assim, justamente naquela época mal me restava algum tempo para a leitura da Critica da razdo pura. Encontrei a se- guinte solugao: na aula de Histéria, o professor fazia aparente- mente uma exposi¢ao livre; na realidade, lia de um livro. Era nos- sa tarefa ler em nosso livro, de uma aula para outra, 0 que nos havia sido transmitido dessa forma. Eu dizia a mim mesmo que, de qualquer modo, precisava ler em casa 0 que constava no livro, nao tirando nenhum proveito da ‘exposi¢ao’ do professor. Escu- tando-o ler, nao conseguia assimilar coisa alguma. Destacava entao as folhas do livreto de Kant, inseria-as no livro de Histéria aberto 4 minha frente durante a aula e lia Kant enquanto a His- toria era ensinada ex cathedra. Isso era, naturalmente, uma gran- de infragao a disciplina da escola; mas nao atrapalhava ninguém, e interferia tao pouco no que se esperava de mim que recebi em Hist6ria a nota ‘excelente’. Nas férias, a leitura de Kant era continuada com afinco. Al- gumas péginas eu lia sucessivamente mais de vinte vezes. Queria chegar a um critério sobre como 0 pensar humano se situa diante do criar da natureza. As sensagées que eu tinha diante desses esforcos mentais eram influenciadas de dois lados. Em primeiro lugar eu queria educar, em mim mesmo, a atividade pensante a um ponto tal que todo pensamento fosse inteiramente visivel, sem que nenhum sentimento indefinido pudesse leva-lo a qualquer diregao. Em se- gundo lugar, queria estabelecer em mim uma sintonia entre esse estilo de pensar e a doutrina religiosa — pois esta também me ocupava em alta escala. Justamente nessa area, nés tinhamos excelentes livros didaticos. Dogmatica e simbolismo, a descrigao litargica, a historia da Igreja, eu assimilava desses compéndios com verdadeira dedicagao. Imergia intensamente nesses ensina- mentos. Porém minha relagao com eles era determinada pelo fato de o mundo espiritual valer, para mim, como um contetido da visao humana. Esses ensinamentos penetravam tao profundamen- Capitulo II 45 teem minha alma justamente por eu sentir, neles, como 0 espirito humano pode achar cognitivamente o caminho que conduz ao supra-sensivel. A veneragao frente ao espiritual — disto eu sei bem exatamente — em nada me foi tolhida por essa relacdo com 0 conhecimento. De outro lado, ocupava-ve incessantemente a amplitude da capacidade pensamental humana. Eu sentia que o pensar podia ser educado para tornar-se uma forga capaz de realmente apreen- der em si os objetos e acontecimentos do mundo. Uma ‘matéria’ que ficasse fora do pensar, sendo meramente objeto de ‘reflexao’, era para mim um pensamento insuportavel. O que existe nas coi- sas deve penetrar nos pensamentos do homem — eis 0 que eu sempre repetia para mim mesmo. e No entanto, chocava-se repetidamente com essa sensacéo aquilo que eu lia em Kant; mas naquela época eu mal me dava conta desse choque — pois queria, sobretudo mediante a Critica da razéo pura, obter sélidos pontos de apoio para dar uma orien- tag&o correta ao meu préprio pensar. Quaisquer que fossem a hora eo destino de minhas caminhadas durante as férias, eu tinha de sentar tranqiiilamente em qualquer lugar para sempre reconsi- derar mentalmente 0 modo como se passa de conceitos simples, abrangiveis, 4 representagéo mental dos fenémenos da nature- za. Naquela época eu me comportava de maneira totalmente acritica em relacéo a Kant; mas néo conseguia avanear por in- termédio'dele. Nada disto me desviava das coisas concernentes a atos pra- ticos e ao desenvolvimento da habilidade humana. Descobriu-se que um dos funciondrios que dividia 0 servigo com meu pai enten- dia de encadernagao de livros. Aprendi com ele a encaderné-los, e nas férias entre a quarta e a quinta séries do colégio cientifico pude encadernar meus préprios livros escolares. Também nessa €poca, durante as férias, aprendi taquigrafia sem mestre. Apesar disto, participei dos cursos de taquigrafia oferecidos a partir da quinta série. Oportunidade para trabalho pratico havia bastante. A meus pais havia sido concedido o cultivo de um pequeno pomar e de um pequeno campo de batatas na proximidade da estagdo. Co- lher cerejas, cuidar do jardim, preparar as batatas para o plan- tio, preparar os canteiros, desenterrar as batatas maduras — 46 Rudolf Steiner — MINHA VIDA todas estas tarefas eram realizadas também por meus irmaos e por mim. Cuidar de fazer compras alimenticias na aldeia, no tempo escolar livre, era algo que eu nao deixava ninguém mais assumir. Aproximadamente aos quinze anos de idade, eu pude travar um relacionamento mais préximo com 0 j4 mencionado médico de Wiener-Neustadt. Eu me afeicoara a ele devido 4 maneira como ele sempre falara comigo em suas visitas a Neudérfl. Assim, freqiientemente ia visita-lo em sua moradia, no andar térreo de uma esquina de duas ruelas bem estreitas em Wiener-Neustadt. Certa vez ele estava a janela e me chamou para entrar. Ali me encontrei, conforme meus conceitos de entao, diante de uma ‘gran- de’ biblioteca. Novamente ele falou de literatura, tomou da estan- te Minna von Barnhelm, de Lessing, e disse que eu deveria lé-lo e depois voltar. Desse modo, sempre me dava livros para ler e per- mitia que eu fosse visita-lo de tempos em tempos. A cada vez que isso acontecia, eu tinha de contar-lhe minhas impressdes da leitu- ra. Com isto ele se tornou efetivamente meu professor de literatu- ra poética — pois até entao esta, tanto na casa paterna como na escola, com excegdo de algumas ‘amostras’, estava bem distante de mim. No ambiente do médico amdyel e tao entusiasmado pelo que é belo, vim a conhecer especialmente Lessing. Um outro evento influenciou profundamente minha vida. ‘Vim a conhecer os livros matematicos escritos por Liibsen”’, des- tinados ao estudo autodidata. Pude entao assimilar geometria analitica, trigonometria e também calculo diferencial e integral, bem antes de aprendé-los na escola. Isto me capacitou a voltar A leitura dos livros sobre ‘O movimento geral da matéria como cau- sa basica de todos fendmenos da natureza’, pois nessa altura eu podia compreendé-los melhor, apoiado em meus conhecimentos matematicos. Nesse interim 0 ensino da Quimica havia-se acres- centado ao da Fisica, e com ele uma nova série de enigmas do conhecimento se me acrescentava aos antigos. O professor de Quimica era um homem extraordindrio. Ele ensinava quase que exclusivamente fazendo experiéncias. Falava pouco. Deixava que os processos da natureza falassem por si. Era um de nossos pro- * (Heinrich Borchert Libsen (1801-1864).] * Hugo von Gilm (1831-1906), um meio-irmao do poeta Hermann von Gilm. Capitulo IL AT fessores mais queridos. Havia algo de curioso nele, que fazia com que, para os alunos, ele se diferenciasse dos outros professores. Pressupunha-se que se relacionasse com sua ath ciéncia de maneira mais intima do que os de- mais. Estes eram chamados pelos alunos pelo titulo académico ‘professor’; ele, embora tam- hém fosse ‘professor’, era chamado de ‘doutor’. ra irmao do poeta meditativo tirolés Hermann yon Gilm. Tinha um olhar que atraia fortemen- te a atengao. Tinha-se a sensagao de que aquele homem estava habituado a focalizar agugada- mente os fenémenos da natureza, mantendo-os Hugo von Gilm entao no olhar, Suas aulas me confundiam um pouco. A abundancia de fa- tos que ele trazia nem sempre podia ser retida por minha alma de entao, ansiosa por uniformidade. Apesar disso, ele deve ter tido a opiniao de que eu fazia bons progressos na Quimica — pois desde 0 inicio me deu a nota ‘louvavel’, que eu entaéo mantive por todas as séries. Num antiquario de livros em Wiener-Neustadt eu descobri um dia, naquela €poca, a ‘Histéria Universal’ de Rotteck.™ Até entao a Histéria, apesar de eu ter recebido na escola as melhores notas, havia permanecido como algo exterior & minha alma. Ago- ra se tornou algo interior. O calor com que Rotteck abordava e descrevia os eventos histéricos me encantava. Eu ainda ndo per- cebia sua unilateralidade na abordagem. Por intermédio dele fui conduzido a dois outros historiadores que causaram em mim a mais profunda impressdo por seu estilo e sua visdo hist6rica da vida: Johannes von Miiller e Tacito.** Sob tais impressées, era bem dificil eu me entrosar no ensino escolar de Histéria e Litera- tura; mas eu tentava vivificar essas aulas, para mim mesmo, por meio de tudo o que eu havia assimilado fora delas. Foi dessa ma- neira que ocupei o tempo nos trés ultimos anos dos sete que com- punham 0 colégio cientifico. (Karl von Rotteck (1775-1840), Allgemeine Weltgeschichte.] " [Johannes von Miiller (1752-1809), historiador suigo; Cornelius Tacitus (50— 116 d.C.}, historiador romano.] 48 Rudolf Steiner ~ Mintia vipa A partir dos meus quinze anos passei a dar aulas particula- res, seja a colegas da mesma série ou a alunos de séries inferiores a minha.” Os professores gostavam de indicar-me para as aulas particulares de reforgo, pois eu era tido como um ‘bom aluno’; e com isto tinha a possibilidade de contribuir pelo menos com um minimo para o que meus pais tinham de empregar de seus ma- gros rendimentos para as despesas de minha formagaéo. Sou muito grato a essas aulas particulares de reforgo. Tendo de transmitir a outrem a matéria assimilada, de certa maneira eu despertava para ela; pois ndo posso sendo dizer que os conheci- mentos transmitidos a mim préprio pela escola eram como que assimilados num sonho vital. Acordado estava eu naquilo que ob- tinha por mim mesmo ou que recebia por intermédio de um ben- feitor espiritual como o mencionado médico de Wiener-Neustadt. Do que eu assimilava nesse estado animico plenamente conscien- temente distinguia-se de forma considerdvel 0 que passava oniricamente por mim como ensino escolar. Da transformacdo desse elemento assimilado desse modo, semidesperto, encarrega- va-se ento o fato de eu ter de vivificar meus conhecimentos nas aulas de reforgo. Por outro lado, isto me obrigava a me ocupar com psicologia pratica numa idade bem precoce. Eu tomava conhecimento das dificuldades da evolugao animica humana junto aos meus alunos. Para os colegas de minha propria série, aos quais eu dava aulas, cabia-me sobretudo fazer as redacées de alemao. Como devia escrever cada uma dessas redagées uma vez mais em meu préprio nome, para cada tema que nos era dado eu tinha de encontrar diferentes formas de expressdo. Ai me sentia freqiientemente em situagao dificil. S6 fazia minha propria redagao depois de ter em- pregado para os demais os melhores pensamentos para o tema. Com o professor de Alemao e Literatura das trés ultimas séries eu me encontrava numa relagéo bastante tensa. Entre meus colegas, ele era tido como o ‘professor mais inteligente’ e como Sobre isso relata seu colega Albert Pliwa: “Meu pai procurava para mim, na ‘érie, um estudante confiavel que me acompanhasse nos estudos. A escolha do prof. Jelinek recaiu sobre Rudolf Steiner. Eu repassava com ele, diariamente, toda a matéria dada.” Apés um ano Rudolf Steiner conseguiu torna-lo um aluno exemplar, que contou entre os trés diplomados ‘com distingéo’: Steiner, Deutsch e Pliwa. Capitulo IT 49 particularmente severo.” Minhas redacées sempre resultavam. especialmente longas. A versdo mais curta eu havia ditado aos meus colegas. O professor levava muito tempo para ler minhas redacées. Quando, na festa de despedida apés 0 exame final, pela primeira vez se reuniu conosco — seus alunos — num ambiente ‘descontraido’, ele me disse como eu 0 havia aborrecido com as longas redagoes. A isso se acrescentava ainda outra coisa. Eu sentia que por intermédio desse professor penetrava na escola algo do qual eu devia inteirar-me. Quando, por exemplo, ele falava da esséncia das imagens poéticas, eu tinha a sensacdo de que havia algo por detrés. Algum tempo depois descobri do que se tratava. Ele era aficionado da filosofia de Herbart. Ele préprio nao dizia nada a respeito — mas eu descobri. Entéo comprei uma ‘Introdugéo a Filosofia’ e uma ‘Psicologia’, ambas escritas com base nos pontos- de-vista filosdficos de Herbart.” E agora comecou uma espécie de jogo de esconde-esconde entre esse professor e eu, por meio das redagées. Eu comecei a entender algumas coisas que ele apresentava com o colorido da filosofia de Herbart; e em minhas redagées ele também encontra- va todo tipo de idéias, igualmente advindas daf. Nem ele nem eu nomeavamos a origem herbartiana. Era como um acordo silen- cioso. Porém certa vez eu encerrei uma redagao de uma maneira descuidada diante dessa situacdo. Tinha de escrever sobre qual- quer qualidade caracteristica do homem. No final trouxe a luz esta frase: “Uma pessoa assim tem liberdade psicolégica.” O pro- fessor comentava conosco, alunos, as redacdes apés havé-las cor- rigido. Ao comentar a mencionada redagao, torceu os cantos da boca com profunda ironia e disse: “Ai o senhor® escreve algo sobre liberdade psicolégica; mas ela absolutamente nao existe.” Eu res- pondi: “Creio ser um engano, professor; a ‘liberdade psicolégica’ Seu nome era Josef Mayer. No 13° anudrio escolar (1878), publicou ‘O ensino imagético do ponto de vista da Légica e da Psicologia’ ao qual Rudolf Steiner pode fazer uma nota, na pag. 35, sobre a natureza das imagens poéticas. ’ [Johann F. Herbart (1776-1841), pedagogo; foi o precursor da psicologia expe rimental aplicada & pedagogia.] Os livros sao Hinleitung in die Philosophie ¢ Psychologie, ambos de Gustav Adolf Lindner (Viena, respect. 1866 e 1858). » [Tratamento formal (alem, Sie) dirigido j4 aos alunos adolescentes do entéo grau intermediArio, correspondente aos niveis ginasial ¢ colegial.) 50 Rudolf Steiner ~ Mina viva ja existe; s6 que nao existe nenhuma ‘liberdade transcendental’ na consciéncia comum.” Os cantos da boca do professor se aplai- naram de novo; ele me fitou com um olhar penetrante e disse: “Por suas redagdes, hé muito percebo que o senhor possui uma biblioteca filos6fica. Gostaria de aconselha-lo a nao ler nela; com isso o senhor apenas confunde seus pensamentos.” Eu absoluta- mente ndo podia compreender por que confundiria meus pensa- mentos pela leitura dos mesmos livros dos quais ele tirava os seus. E assim a relagao entre ele e eu continuou a ser tensa. Suas aulas me davam muito o que fazer; pois ele abrangia, na quinta série, a poesia grega e latina, da qual eram apresenta- dos trechos em traducao alema. S6 agora eu comegava, as vezes, a sentir dolorosamente que meu pai nao me tivesse mandado para o liceu, mas para o colégio cientifico; pois sentia quo pouco era tocado pelo carater particular da arte grega e latina por meio das tradugées. Assim, comprava manuais de grego e latim e cumpria em siléncio, paralelamente as aulas do colégio cientifico, um cur- riculo particular correspondente ao liceu. Isto tomava muito tem- po; mas constituiu o fundamento para que mais tarde, embora de maneira fora do normal, mas bem regular, eu cumprisse o [pro- grama do] liceu. E que, quando estava na Academia Técnica em Viena, tive de ministrar muitas aulas particulares de reforgo. Logo tive por discipulo um aluno do liceu. As circunstAncias que ainda relatarei fizeram com que eu tivesse de conduzir esse aluno du- rante quase todo o liceu com a ajuda de aulas particulares. Eu também lhe ensinava grego e latim, de modo que nessas aulas vivenciava todos os detalhes do ensino do liceu classico. Os professores de Historia e Geografia*!, que me haviam podido dar tao pouco nas primeiras séries, passaram a ter impor- tancia para mim nas séries superiores. Justamente aquele que me fez ler Kant de modo tao peculiar escreveu um ensaio, num anudrio da escola, sobre ‘A era glacial e suas causas’. Eu assimilei o contetido com grande avidez animica e por causa dele passei a manter um vivo interesse pelo problema da época glacial. Mas esse professor também era um bom aluno do excelente geégrafo % O professor de Geografia: Franz Kofler, natural do Tirol. No 14? anudrio da escola (1879), escreveu ‘A era gracial durante 0 periodo diluviano e suas causas’ (Die Kiszeit wihrend der Dilwvialperiode|, que em 1927 foi reimpresso como edi- 80 particular por C. $. Picht. Capitulo I 51 Friedrich Simony.” Isto 0 levou a desenhar na lousa, nas séries superiores, as relagdes geolégicas e geograficas dos Alpes. Nessa ocasiao eu nao lia Kant, mas era todo olhos e ouvidos. Desse lado eu recebi muito do professor, cuja aula de Historia nao me inte- ressava em absoluto. S6 no ultimo ano do colégio cientifico tive um professor que me cativava também por sua aula de Histéria.” Ele ensinava His- toria e Geografia. Com ele prosseguimos com a geografia dos Al- pes da maneira atraente ja adotada pelo outro professor. Em His- téria, o novo professor impressionava fortemente a nés, alunos. Para nés era uma personalidade plena. Era politico militante, bem entusiasmado com as idéias progressistas da linha liberal austriaca de entao. Porém na escola nao se percebia nada disto. Ele nao levava para 14 nenhuma de suas opinides partidarias; mas sua aula de Historia tinha, ela propria, uma vida intensa gragas a participagao dele na vida. Eu escutava, com os resulta- dos de minha leitura de Rotteck na alma, as explanacoes histéri- cas cheias de temperamento desse professor. Havia uma bela sintonia. Devo considerar importante para mim o fato de ter assi- milado dessa forma justamente a Histéria Moderna. Na casa de meus pais eu ouvia, naquela época, muita discus- sao sobre a guerra turco-russa (1877-78). O funcionario que na- quela época substitufa meu pai a cada trés dias no servigo era um homem original. Ele sempre chegava para 0 trabalho com uma enorme mala de viagem. Ali dentro tinha grandes pacotes de manuscritos. Eram extratos dos mais diversos livros cientificos. Ele os dava para mim, um apés outro, para que os lesse. Eu os devorava. Entao ele discutia comigo sobre essas coisas; pois real- mente também tinha na cabega uma visdo cadtica, porém abrangente, de tudo o que escrevera. Com meu pai, no entanto, ele discutia politica. Tomava, en- tusiasmado, o partido dos turcos; meu pai defendia com forte passionalidade os russos. Ele contava entre as pessoas que, na- quela época, ainda eram gratas a Russia pelos servicos prestados “ [Friedrich Simony (1813-1896): gedgrafo e desbravador dos Alpes; professor na Universidade de Viena de 1851 a 1885.] Albert Léger. Vide Beitrdge zur Rudolf Steiner Gesamlausgabe, n° 49/50 (Dornach, 1975). 52 Rudolf Steiner — Minua vipa aos austriacos na insurreigao hungara (1849), E que meu pai ndo concordava nem um pouco com os htingaros. Ele vivera na aldeia hiingara fronteiriga a Neudérfl na época da aculturacao magiar; e sempre pendia sobre sua cabeca a espada de Damocles, no senti- do de que ele nao poderia ser gerente da estagdo de Neudérfl por nao falar hungaro. Isto era totalmente desnecessdrio naquela re- giao genuinamente alema; mas 0 governo hungaro trabalhava para que as linhas htingaras da estrada de ferro fossem ocupadas por funciondrios que falassem htingaro, inclusive nas linhas particu- lares. Porém meu pai queria manter seu posto em Neudérfl até que eu terminasse a escola em Wiener-Neustadt. Por causa de tudo isto, era muito pouco inclinado aos htingaros; e, por nao sim- patizar com eles, gostava de pensar ao seu modo simples: os rus- sos, que em 1849 “mostraram os dentes aos htingaros”. Este modo de pensar se tornara extraordinariamente passional, mas ao mes- mo tempo era defendido de maneira extraordinariamente afavel por meu pai diante do “amigo dos turcos” na pessoa de seu ‘subs- tituto’. Algumas vezes as ondas da discussdo se elevavam bastan- te. Interessava-me intensamente o choque das personalidades, e suas opinides politicas quase nada. E que para mim, naquela épo- ca, era muito mais importante responder A pergunta: em que medida se pode demonstrar que no pensar humano 0 fator atuan- te é 0 espirito real? Rudolf Steiner em 1879 ne diretoria da ‘Sociedade Ferrovidria Meridional’ havia pro- metido a meu pai que ele seria transferido para uma pe- quena esta¢éo na proximidade de Viena quando, ao termi- nar 0 colégio cientifico, eu fosse freqiientar a Academia Politécni- ca. Com isto me seria dada a possibilidade de ir e voltar todos os dias de Viena. Assim sendo, minha familia veio para Inzersdorf, no sopé do Wiener Berg [Monte Vienense]. A estagao se encontra- va totalmente isolada, longe da cidade, em meio a uma paisagem natural nada bonita. Minha primeira viagem a Viena, depois de nossa chegada a Inzersdorf, foi aproveitada para a compra de um grande nimero de livros de Filosofia. Meu amor todo especial dirigia-se agora ao primeiro esbogo da “Teoria da Ciéncia’ de Fichte.“ Minha leitura de Kant havia-me conduzido ao ponto de eu poder formar uma idéia, mesmo que imatura, do passo que Fichte queria avangar além de Kant. Porém isto nao me interessava muito fortemente. Importava-me, naquela época, expressar 0 vivo urdir da alma humana sob forma de uma imagem pensamental exata. Meus es- forgos por conceitos cientifico-naturais haviam-me levado final- mente a ver na atividade do ‘eu’ humano 0 tinico ponto de partida possivel para um verdadeiro conhecimento. Quando o eu esta ati- vo e contempla ele préprio essa atividade, tem-se algo espiritual na consciéncia, da maneira mais direta — assim dizia eu a mim mesmo. Eu achava que bastaria expressar em conceitos claros e abrangiveis o que assim se visualiza. A fim de encontrar 0 cami- nho para isso, ative-me a “Teoria da Ciéncia’ de Fichte. No entan- to, eu tinha minhas proprias idéias. Assim, tomei entao a ‘Teoria da Ciéncia’ pagina por pagina e a reformulei. Surgiu um longo manuscrito. Antes eu havia pelejado a fim de encontrar conceitos para os fendmenos da natureza, com base nos quais se pudesse encontrar um conceito para o ‘eu’. Agora, inversamente, eu que- ria partir do eu para penetrar no devir da natureza. Naquela épo- ca, espirito e natureza se encontravam diante de minha alma em ™ [Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), Wissenschaftslehre.] Capitulo IIT 55 sua plena oposi¢ao. Para mim havia um mundo dos seres espiri- tuais. O fato de o ‘eu’, ele préprio sendo espirito, viver num mun- do de espiritos era, para mim, uma visdo direta. A natureza, po- rém, nao queria ingressar no vivenciado mundo espiritual. Partindo da ‘Teoria da Ciéncia’, adquiri um interesse espe- cial pelos trabalhos de Fichte ‘Sobre a determinacao do homem erudite’ e ‘Sobre a esséncia do homem erudito’. Nestas obras en- contrei uma espécie de ideal ao qual eu proprio queria aspirar. Paralelamente, eu também lia os ‘Discursos 4 nagao alema’.*> Na- quela época, estes me cativavam muito menos do que as outras obras de Fichte. No entanto, agora eu também queria chegar a uma melhor compreenséo de Kant do que a que até entdo eu tinha podido obter. Na Critica da razdo pura, no entanto, essa compreensdo nao queria abrir-se para mim. Assim, propus-me entao trabalhar com os ‘Proleg6menos a toda metafisica futura’.* Na leitura deste livro pareceu-me necessdrio que eu me dedicasse a fundo a todas as questées despertadas por Kant nos pensadores. Doravante eu trabalhava cada vez mais conscientemente em verter para a for- ma de pensamentos a visdo direta que eu tinha do mundo espiri- tual; e enquanto esse trabalho interior me preenchia, eu buscava orientar-me nos caminhos que haviam sido tomados pelos pensa- dores contempordneos de Kant e os da época seguinte. Eu estuda- va 0 drido e sébrio ‘sintetismo transcendental’ de Traugott Krug*” com a mesma diligéncia dedicada a familiarizar-me com a tragé- dia cognitiva 4 qual Fichte chegara ao escrever sua ‘Determina- 0 do homem’. A ‘Hist6ria da Filosofia’ do herbartiano Thilo® ampliou minha viséo desde a época de Kant até a evolucdo do pensamento filos6fico. Lutei por compreender Schelling e Hegel.*” © [J. G. Fichte, Reden an die deutschen Nation. As anteriores obras citadas: Wissenschaftlehre, Uber die Bestimmung des Gelehrten e Uber das Wesen des Gelehrten.] “ (Immanuel Kant, Prolegomena zu einer jeden kiinftigen Metaphysih. | " [Wilhelm Traugot Krug (1770-1842), filésofo e tedlogo.] “[C. A. Thilo (18138-1894), Geschichte der Philosophie. ‘Herbartiano’: adepto da filosofia de Herbart (y. nota 29 na p. 49).] ® [Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (1775-1854); Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1830).] Rudolf Steiner — Minita vipa O contraste de pensamento entre Fichte e Herbart mostrava-se com toda a intensidade diante de minha alma. Nos meses do verdo de 1879, desde o final do colégio cienti- fico até aentrada na Academia Politécnica, eu me dediquei intei- ramentea esses estudos filosoficos. No outono deveria decidir-me pelo rumo de um estudo para o ganha-pao. Decidi encaminhar- me para o magistério cientifico. Estudar Matematica e Geome- tria Deseritiva correspondia A minha inclinagdo interna. Tive de renunclar a esta ultima, pois seu estudo estava ligado a uma série de horas de exereicio de desenho geométrico durante o dia. Para ganhar ym pouco de dinheiro, no entanto, eu devia ter tempo para dar aulas particulares de reforgo. Isto se coadunava com a obrigacag de assistir a aulas cuja matéria podia ser assimilada posteriormente, mediante leitura, em caso de se ter de faltar a elas; porém nao se coadunava com as aulas regulares de desenho, que exigiam a presenga na propria escola. , Assim, matriculei-me inicialmente em Matematica, Histd- ria Natural e Quimic: De especial significado para mim, no entanto, foram as au- las dadas por Karl Julius Schréer, naquela época, sobre literatu- ra alema na Academia Politécnica.’ No primei- ro ano de meu estudo superior ele ensinava so- bre ‘A literatura alema desde Goethe’ e sobre ‘A vida e a obra de Schiller’. Fui cativado desde sua primeira aula. Ele forneceu uma visao da vida espiritual alema da segunda metade do século XVIII, expondo de forma dramatica o impacto produzido pelo primeiro aparecimento de Goethe nessa vida espiritual. O calor de seu modo de tratar 0 assunto e a maneira entusias- mante com que ele lia textos dos poetas, no con- texto das aulas, introduziam de um modo intimista na poesia. ___Paralelamente, ele havia introduzido ‘Exercicios de exposi- ¢4o oral © de redagao’. Os alunos deviam expor ou ler o que eles mesmos haviam elaborado. Fazendo uma relagao com os traba- Karl Julius Schroer * Karl Julius Schrier (1825-1900) era professor de Literatura na Academia Po- litéenica de Viena desde 1867, Rudolf Steiner desereveu uma abrangente ima- gem sua €m Vom Menschenraitsel, GA 20. Vide tb. Briefe I (1881-1890), GA 38, ¢ Briefe IT (1890-1925), GA 39. Capitulo IIT 5T lhos dos alunos, Schréer dava entéo instrucgées quanto a estilo, forma de palestra, etc. Inicialmente, eu fiz uma palestra sobre o ‘Laocoonte’ de Lessing. Depois dediquei-me a uma tarefa maior. Klaborei o tema: em que medida o homem, em seus atos, 6 um ser livre? Neste trabalho, enfronhei-me intensamente na filoso- fia de Herbart. Isto néo agradou nem um pouco a Schréer. Ele nado participava da corrente favordvel a Herbart, que naquela época predominava na Austria, tanto nas catedras filos- ficas quanto na Pe- dagogia. Ele era to- talmente dedicado ao estilo espiritual de Goethe. Por isso, tudo o que se ligava a Herbart, embora ele reconhecesse neste a disciplina do pensar, parecia-lhe pedante e arido. Eu podia ouvir também algumas palestras na Universida- de. Havia-me deleitado muito com o herbartiano Robert Zim- mermann."' Ele lia ‘Filosofia pratica’‘”, e eu ouvi a parte de suas aulas em que ele expunha os principios basicos da Etica. Eu alter- nava: um dia sentava em sua sala e outro diana de Franz Brentano, que dava no mesmo horério um curso sobre o mesmo tema.** Con- tudo n&o pude continuar com isso por muito tempo, pois perdia muito na Academia Politécnica. Causava-me uma profunda impressdo conhecer a Filosofia nao apenas de livros, mas da boca de fildsofos. Robert Zimmermann era uma personalidade curiosa. Ele ti- nha uma testa extraordinariamente alta e uma longa barba de A Universidade de Viena ' (Robert Zimmermann (1824~1898), filésofo que influenciou a juventude pré- académica na Austria, na Hungria e até na Itélia, — ‘Herbartiano’: v. nota 38.1 * [Allegemeine praktische Philosophie, de Herbart (v. nota 29 na p. 49).] ® Franz Brentano (1838-1917) era sobrinho do poeta Clemens Brentano; foi te6- logo catélico até 1873 e depois professor de Filosofia em Wiirzburg e Viena. 58 Rudolf Steiner — MInHa vipa filésofo. Tudo nele era comedido e estilizado. Quando entrava na sala e subia 4 cdtedra, seus passos eram como que ensaiados, mas ao mesmo com um estilo que levava a pensar: para esse homem, é natural e obvio ser assim. Em sua postura e em seus movimentos, era como se ele mesmo se houvesse moldado, em longa disciplina, confor- me os principios estéticos de Herbart. Apesar disso, podia-se sentir verdadeira simpatia por tudo aquilo. Ele entao se sentava vagarosamen- te em sua cadeira, fitava 0 auditério com um longo olhar através de seus éculos, depois tira- va os culos com lentos movimentos calculados, mais uma vez fitava, sem 6culos, longamente o auditério e sé entéo comegava sua aula, num discurso livre mas em sentengas pronunciadas de modo artistico e meticulosamente formadas. Sua linguagem tinha algo de classico; mas ao ouvi-lo perdia-se facilmente o fio de sua exposigao, por causa dos longos perfodos que ele empregava. Ele transmitia a filosofia de Herbart algo modificada. A firmeza de sua seqiiéncia de pensamentos me impressionava; mas nao aos demais ouvintes. Nas trés ou quatro primeiras aulas, 0 salao em que ele lecionava estava superlotado. ‘Filosofia pratica’ era disciplina obrigatéria para os primeiranistas de Direito. Eles pre- cisavam da assinatura do catedratico no livro indicador de pre- senga. A partir da quinta ou sexta aula, a maioria deixou de vir; a escutar sobre os classicos filosdficos havia apenas um grupo de pouquissimos ouvintes nos bancos da frente. A mim essas palestras proporcionaram um grande estimu- lo; e a diferenca entre as concepgdes de Schréer e de Zimmermann me interessava profundamente. O pouco tempo que me restava dos cursos e das aulas particulares que tinha de ministrar, eu o passava na Biblioteca Imperial ou na biblioteca da Academia Po- litécnica. Foi entdo que pela primeira vez lio Fausto, de Goethe. Realmente, nao cheguei a esta obra senéo com dezenove anos, quando Schrier me estimulou a sua leitura. Naquele momento, porém, meu interesse foi logo atraido por ela. Schrier ja havia publicado sua edigao da primeira parte. A isto se acrescentou 0 fato de eu ter entrado em contato mais estreito com Schréer logo apés suas primeiras aulas. Ele entéo passou a me levar fre- Robert Zimmermann Capitulo IIT 59 qiientemente até sua casa, onde completava isto ou aquilo em relac&o as suas aulas; gostava de responder as minhas perguntas, e me despedia com um livro de sua biblioteca, que me emprestava para leitura. Nessas ocasides também falava um pouco da segun- da parte do Fausto, em cuja edigéo comentada ele justamente trabalhava. Eu também a li naquela época. Nas bibliotecas eu me ocupava com a ‘Metafisica’ de Herbart e a ‘Estética como ciéncia da forma’ de Zimmermann, escrita com base no ponto de vista de Herbart.* A isso se acrescentava um estudo aprofundado da ‘Morfologia Geral’ de Ernst Haeckel. Pos- so muito bem dizer: tudo 0 que veio ao meu encontro mediante as aulas de Schroer e Zimmermann, bem como as mencionadas lei- turas, tornou-se minha mais profunda vivéncia animica naquela época. Enigmas do conhecimento e da acep¢do sobre 0 mundo se configuraram em mim por sua causa. Schréer era um espirito nada sistematico; pensava e falava com base em certa intuigdo. Dedicava a maior atengao possivel & maneira como cunhava em palavras suas acepgoes. Talvez fosse por esta razdo que, em suas aulas, nunca falava livremente; ne- cessitava da calma da formulagao escrita para satisfazer as suas proprias exigéncias na metamorfose de seu pensamento em pala- yra oral. Entao lia o que havia escrito, com forte interiorizagao do discurso. No entanto, certa vez falou livremente sobre Anastasius Grin e Lenau** — havia esquecido seu manuscrito. Na aula se- guinte, porém, tratou do mesmo assunto uma vez mais, agora lendo. Nao ficara satisfeito com a forma que conseguira dar ao tema em discurso livre. Gragas a Schroer vim a conhecer muitas obras sobre a Bele- za; por intermédio de Zimmermann fui apresentado a uma elabo- rada teoria do Belo. As duas coisas nao se coadunavam bem. Schrier, a personalidade intuitiva com um certo menosprezo pela “ [John F. Herbart, Allgemeine Metaphysik; Robert Zimmermann, Aestetik als Formwissenschaft. | ‘© [Ernst Haeckel (18341919), Genereller Morphologie. | © [Anastasius Griin (1806-1876), pseudénimo de Anton Alexander, Conde de Auersperg; poeta e politico liberal alemao. Nikolas Lenau (1802-1850), pseudd- nimo de Nikolas Niembsch, fidalgo de Strehlenau; poeta nascido na Hungria, vealizou uma produgo postica roméntica e adoeceu psiquicamente em 1844.) 60 Rudolf Steiner — Minna vipa sistematizagéio, se me apresentava ao lado de Zimmermann, o severo teérico sistematico do Belo. Em Franz Brentano, a cujas aulas de ‘Filosofia Pratica’ eu também assistia, interessava-me em especial, naquela época, sua personalidade. Ele era ao mesmo tempo perspicaz e compenetra- do. Havia algo de solene na maneira como proferia suas pales- tras. Eu escutava o que ele dizia, mas tinha de atentar a cada olhar, a cada movimento de cabega, a cada gesto de suas méos expressivas. Ele era o perfeito pensador légico. Cada pensamento tinha de ser absolutamente transparente e sustentado por int- meros outros. Na formagdo dessas seqiién- cias de pensamentos reinava a maior reti- dao légica. No entanto, eu tinha a sensagéo de que esse pensar no extrapolava sua pré- pria movimentagao interna; nunca irrompia para dentro da realidade. E assim era tam- bém toda a postura de Brentano. Ele segu- rava 0 manuscrito solto na mao, como se a qualquer momento este fosse escapar-lhe dos dedos, e apenas deslizava o olhar por sobre as linhas. Também esse gesto era somente para tocar levemente a realidade, e nado para agarrd-la com decisdo. Por suas ‘mos de fi- J6sofo’ eu conseguia compreender melhor sua maneira de filoso- far do que por suas palavras. O estimulo proveniente de Brentano continuou a atuar vigorosamente em mim. Logo eu comecei a familiarizar-me com suas obras, e no decorrer dos anos seguintes li a maioria do que ele publicou. Naquela época eu me sentia na obrigagado de buscar a ver- dade por meio da Filosofia. Devia estudar Matematica e Cién- cias Naturais. Estava convencido de que nao encontraria nenhu- ma relag&o com elas caso nao conseguisse basear seus resulta- dos num seguro solo filoséfico. Contudo, via um mundo espiritual como sendo a realidade. Era com toda a evidéncia que em cada pessoa se me manifestava sua individualidade espiritual. Na corporalidade fisica e na atividade no mundo fisico, ela tinha ape- nas sua manifestac4o, unindo-se ao que, como germe fisico, pro- vinha dos pais. A pessoa falecida, eu continuava a acompanha-la Franz Brentano Capitulo IL 61 om seu caminho para dentro do mundo espiritual. Certa vez, apés a morte de um colega de escola, eu escrevi a um de meus primei- ros professores, que manteve amizade comigo apos minha época do colégio cientifico, sobre esse lado de minha vida animica. Ele me respondeu com um carinho incomum, mas no se valeu de nenhuma palavra para comentar 0 que euescrevera acerca do colega falecido. E assim me sucedia sempre, naquela época, quanto 4 minha viséo do mundo espiritual. Ninguém queria ouvir nada a seu res- peito. No maximo, vinham com toda sorte de idéias espiritas. Entao era eu que, por minha vez, nada queria ouvir. Parecia-me falta de yosto aproximar-se do espiritual dessa maneira. Entao aconteceu de eu conhecer um homem simples do povo.”” lle viajava toda semana para Viena, no mesmo trem que eu tam- bém utilizava. Coletava ervas medicinais no campo e as vendia, em Viena, a farmacias. Tornamo-nos amigos. Com ele se podia conyersar sobre 0 mundo espiritual como com alguém que tivesse experiéncia nisso. Ele era uma personalidade interiormente pie- dosa. Carecia de instrugao escolar. E bem verdade que havia lido varios livros misticos; porém o que dizia nao fora, em nada, influen- ciado por tal leitura: era a emanagao de uma vida animica porta- dora de uma sabedoria totalmente elementar e criativa. Podia-se sentir logo que ele apenas lia os livros por querer encontrar em outrem 0 que sabia por si mesmo. Mas isso no 0 satisfazia. Ele se manifestava como se fosse, enquanto personalidade, apenas o 6r- yao fonador para um contetido espiritual que queria falar desde mundos ocultos. Junto dele podia-se visualizar em profundidade os mistérios da natureza. Ele carregava nas costas seu mago de ervas medicinais; mas em seu coracéo carregava os resultados obtidos da espiritualidade da natureza durante a coleta. Eu vi sorrir muitas pessoas que ocasionalmente se juntavam a nés quan- do eu percorria com esse ‘iniciado’ a Alleegasse [Passeio das Aléias] de Viena. Nao era de admirar; pois seu modo de expressar-se nao era compreensivel de imediato. De certa forma, primeiro era neces- © Pelix Koguzki (1883-1909). Em seu didrio, conservado até hoje, consta: “Sr. Steiner (Filho), estudioso, residente em Inzersdorf, visitou-me no domingo, 21 de ayosto de 1881; infelizmente eu néio estava em casa. O sr. Steiner veio visitar-me pela segunda vez na sexta-feira, dia 26 do mesmo més e ano.” (Emil Bock: Rudolf Sleiner. Studien zu seinem Lebensgang und Lebenswerk. Stuttgart, 1967.) 62 Rudolf Steiner - Miniia vipa sdrio aprender seu ‘dialeto espiritual’. Tampouco eu 0 compreen- di no inicio; mas ja desde o primeiro contato tive a mais profunda simpatia por ele. Para mim, cada vez mais era como seu eu esti- vesse reunido com uma alma oriunda de épocas muito remotas, a qual, intocada pela civilizacao, pela ciéncia e pela opiniao da atu- alidade, trazia-me um conhecimento instintivo da Antigiiidade. Tomando-se o conceito co- mum de ‘aprender’, pode-se dizer que nao era possivel ‘aprender coi- sa alguma desse homem; mas quem tivesse por si préprio a vi- sao do mundo espiritual podia ter, por intermédio de outrem firme- mente estabelecido nele, profun- dos vislumbres daquele mundo. Ao mesmo tempo, essa pes- soa estava totalmente distante de qualquer exaltagao visionaria. Ao visita-lo no lar, ingressava-se no circulo da mais simples e sébria familia rural. Na soleira da porta de sua casa liam-se as palavras: “Tudo esta depositado na bénedo de Deus.” O visitante era recebido do mesmo modo como na casa de outros habitantes da aldeia, Eu sempre tinha de tomar café, mas ndo numa xicara, e sim num ‘canecao’ onde cabia quase um litro; também tinha de comer um pedago de pao de proporgées gigantescas. Mas tampouco os habitantes da aldeia viam 0 homem como um visio- nario. Ante seu comportamento no lugar natal, qualquer zomba- ria recuava. Ele também possuia um humor sadio e, em qual- quer encontro na aldeia, sabia conversar com jovens e velhos de uma maneira tal que as pessoas se alegravam com suas pala- vras. Ai ninguém sorria como as pessoas que andavam comigo e com ele pela Alleegasse de Viena e que nele viam, no maximo, algo que lhes era totalmente estranho. Esse homem permaneceu pr6ximo & minha alma, mesmo quando a vida me afastou dele novamente. Esté identificado na figura de Felix Balde em meus dramas de mistério.** Felix Koguzki e sua familia * [Pecas teatrais de cardter inicistico: ‘O portal da iniciagao’ (Die Pforte der Eintweihung), ‘A provagao da alma’ (Die Priifung der Sele), ‘O guardiao do i- miar’ (Der Hitter der Schwetle) e ‘O despertar das almas’ (Der Seelenerwachen). Reunidas em Vier Mysteriendramen, GA 14. Vide a edigao brasileira do primeiro drama: O portal da iniciacao.] Capitulo I 63 Nao foi facil para minha vida animica, naquela época, acei- tur que a Filosofia que eu assimilava de outros nao pudesse, no pensamento deles, ser conduzida até a visio do mundo espiritual. A partir das dificuldades que eu experimentava nessa diregiio, comegou a formar-se em mim uma espécie de ‘teoria do conheci- mento’. Progressivamente, a vida no pensar se me manifestava como 0 reflexo irradiante, dentro do homem fisico, daquilo que a alma experimenta no mundo espiritual. Vivenciar pensamentos constitufa, para mim, a existéncia numa realidade que nenhuma diivida conseguia abalar, por ser conhecida palmo a palmo. O mundo sensorial nao me parecia assim tao facil de vivenciar. Ele ostd presente; mas nés nado o apreendemos como fazemos com 0 pensamento. Ele pode ocultar em si, ou atras de si, algo essencial desconhecido. Porém 0 homem foi colocado dentro dele. Ent&o irgiu a pergunta: afinal, serd que este mundo é uma realidade plena? Seré que nele 0 homem, ao tecer, desde seu intimo, os pensamentos que entao trazem luz a este mundo sensorial, acres- centa de fato algo estranho ao mesmo? Isto ndo se coaduna em. nada com a vivéncia que se tem ao deparar com o mundo sensorial c irromper para dentro dele com os préprios pensamentos. Entaéo 0s pensamentos se mostram como aquilo mediante o qual o mun- do sensorial se exprime. A continuidade posterior dessa reflexao foi, naquela época, uma parte importante de minha vida interior. No entanto, eu queria ser prudente. Conduzir precipitada- mente um raciocinio até a elaboragao de uma idéia filos6fica pr6- pria parecia-me perigoso. Isso me impeliu a um estudo aprofun- dado de Hegel. A maneira como esse filésofo expée a realidade do pensamento tocava-me de perto; $6 que o fato de ele aleangar ape- nas um mundo de pensamentos, embora vivido, e ndo a contem- plagaéo de um mundo concreto do espirito, fazia-me recuar. A se- guranga com a qual se filosofa ao progredir de um pensamento a outro, essa me atraia. Eu via muitos sentirem uma oposicéo entre a experiéncia e o pensar. Para mim o préprio pensar era uma experiéncia, porém dentro da qual se vive, e nao se aproximando do homem de fora. E assim Hegel se tornou, durante longo tempo, muito valioso para mim. Em meus estudos obrigatérios, que em meio a esses interes- ses filoséficos teriam naturalmente encurtado bastante, foi bem proveitoso o fato de eu me haver ocupado muito, no passado, com 64 Rudolf Steiner ~ Mintia via calculo diferencial e integral, e também com Geometria Analitica. Assim, eu pude faltar a muitas aulas de Matematica sem perder a seqiiéncia. A Matematica conservou, para mim, todo o seu signi- ficado, inclusive como fundamento de toda a minha busca de co- nhecimento. De fato, nela é dado um sistema de idéias e conceitos obtidos independentemente de qualquer experiéncia exterior dos sentidos. Apesar disso — dizia eu a mim mesmo, incessantemen- te —, nés abordamos a realidade sensorial com tais idéias e con- ceitos e, gracas a elas, encontramos regularidades. Por meio da Matematica se conhece 0 mundo; todavia, para se chegar a isso deve-se, primeiro, fazer a Matematica emanar da alma humana. Foi justamente no contexto da Matematica que eu tive, na- quela época, uma experiéncia decisiva. A representacdo mental do espago me causava as maiores dificuldades interiores. O vazio estendendo-se ao infinito por todos os lados, de acordo com as teorias cientificas em voga naquela época, nao podia ser pensado de um modo abrangente. Pela Geometria mais moderna (Sintéti- ca), que vim a conhecer por meio de cursos e estudo particular, minha alma se confrontou com a imagem de que uma reta, quan- do prolongada pela direita ao infinito, volta ao seu ponto de parti- da pela esquerda. O ponto infinitamente distante A direita 6 0 mesmo que o infinitamente distante A esquerda. Tive a impressao de que tais idéias da nova Geometria per- mitiriam captar conceitualmente 0 espago, normalmente imével no vazio. Senti como uma revelagao a reta que voltava a si como uma linha circular. Sai da aula em que pela primeira vez me con- frontei com essa idéia como se tivesse sido aliviado de um enorme peso. Um sentimento libertador me sobreveio. Mais uma vez, como em meus anos de menino, a Geometria me trouxe uma sensagéio de felicidade. Nessa época de minha vida, atraés do enigma do espago se escondia o do tempo. Sera que ai também deveria ser possivel uma representagdo mental que implicasse ideativamente, por meio de um avango no futuro ‘infinitamente distante’, um retorno do passado? A felicidade causada pela nogao de espago trouxe uma profunda inquietagao a respeito da idéia do tempo. Af, porém, nenhuma saida era inicialmente visivel. Todas as tentativas de raciocinio fizeram-me reconhecer que eu deveria evitar inserir na concepgao de tempo os conceitos ilustrativos de espaco. Todas as Capitulo TIT 65 decepgdes que a busca do conhecimento pode trazer surgiram em relag&éo com o enigma do tempo.** Os estimulos que recebi de Zimmermann quanto a Estética levaram-me a leitura das obras de Friedrich Theodor Vischer, 0 mais famoso esteta daquela época. Em certo trecho de sua obra encontrei a indicagéo de que o pensamento cientifico moderno tornava necessdrio reformar o conceito de tempo.” Eu sempre sentia especial alegria ao encontrar também, em outra pessoa, necessidades cognitivas que se instalavam em mim. Nesse caso, era quase como uma legitimagao de meu anseio por um satisfatério conceito de tempo. Os cursos em que eu estava matriculado na Academia Poli- (écnica deviam ser sempre concluidos por meio do exame corres- pondente. E que me fora concedida uma bolsa de estudos, e eu 86 podia continuar a recebé-la comprovando, a cada ano, determina- do rendimento de meus estudos. No entanto minhas necessidades cognitivas, especialmente nas 4reas cientificas, eram pouco satisfeitas por esse estudo obri- gatério; mas naquela época existia, nas faculdades de Viena, a possibilidade de assistir 4s aulas como ouvinte, e até mesmo de fazer os exercicios praticos. Eu sempre era bem recebido ao que- rer cultivar a vida cientifica dessa maneira, inclusive na Medicina. "’ Vide os esbogos autobiograficos (Barr, 1907) em Rudolf Steiner / Marie Steiner- von Sivers, Briefwechsel und Dokumente 1901-1925, GA 262. Friedrich Theodor Vischer (1807-1887), Altes und Newes (3. ed. Stuttgart, 1882). No terceiro caderno, p. 223, consta: “Precisamos de uma corre¢éio no conceito de \empo...". Na palestra de 16.6.1917 em Bremen, R. Steiner disse ainda 0 seguin- te: “Bu escrevi naquela época* um ensaio mais longo sobre o enigma universal de Du Bois-Reymond**, 0 qual obviamente foi recusado por todos jornais; escrevi (ambém um ensaio mais curto™*, que enviei a Friedrich Theodor Vischer. Este, ofetivamente, acolheu o assunto com incrivel carinho e respondeu que nessa abor- dagem — que nada mais era seno a que conduziu A hoje chamada Ciéncia Espi- rilual — residia algo gragas ao qual se transcenderia o que na ciéncia comum se enomina ‘limites da cognigao’. Vischer faleceu logo em seguida, ¢, assim, aquele (ue quis realmente continuar acompanhando a Ciéncia Espiritual no sentido qui implicito ficou totalmente 86.” * Por volta de 1881; desconhecem-se mais pormenores ‘Die steben Weltriitsel’ (1880). “ Binzige mégliche Kritihk der atomistischen Begriffe’ (1882), Em Verdffentlichun- gen aus dem literarischen Frithwerk, vol. 4, ead. 19 (Dornach, 1941), e Beitréige zur Rudolf Steiner Gesamtausgabe, n° 68 (Dornach, 1978). Vide carta a Friedrich Theo- dor Vischer, facsimile segundo pag. 50. 66 Rudolf Steiner ~ MINHA VIDA Permito-me dizer que ndo deixei minhas incursdes no espi- ritual exercerem uma interferéncia perturbadora quando se tra- tava de conhecer as Ciéncias Naturais da maneira como se desen- volviam naquele tempo. Eu me dedicava ao que era ensinado, sempre nutrindo, no fundo da alma, a esperanga de que um dia me resultasse a fusado entre Ciéncia Natural e conhecimento espi- ritual. S6 que sentia de dois lados uma inquietagdo a respeito dessa esperanga. As ciéncias da natureza organica, até onde eu as podia es- tudar, estavam imbuidas de idéias darwinistas.*' Naquela época o darwinismo, em suas idéias mais elevadas, parecia-me ser uma impossibilidade cientifica. Pouco a pouco eu havia formado para mim uma imagem do interior humano. Esta era de natureza es- piritual, e pensada como um membro de um mundo espiritual. Era imaginada como que partindo do mundo espiritual e submer- gindo na existéncia da natureza, integrando-se ao organismo na- tural a fim de, por intermédio deste, perceber e atuar no mundo sensorial. Eu nao podia deixar-me desviar dessa idéia por nada, nem pelo fato de ter um certo respeito pelos argumentos da teoria da evolugao dos organismos. O surgimento de organismos superio- res a partir de inferiores parecia-me uma idéia fecunda; coaduna- la com 0 que eu conhecia como mundo espiritual era imensamen- te dificil. Os estudos de Fisica estavam totalmente impregnados pela teoria mecanica do calor e, no que se refere aos fenémenos da luz e das cores, pela teoria ondulatéria. O estudo da teoria mecdnica do calor havia recebido, para mim, um colorido atrativo pelo fato de eu assistir, nessa 4rea da Fisica, As aulas ministradas por uma pessoa que eu admirava extraordinariamente. Era Edmund Reitlinger, autor do belo livro ‘Livres olhares’.” Esse homem era irresistivelmente digno de aprego. Quando me tornei seu ouvinte, ele ja sofria de uma doenga pulmonar em estado avangado. Durante dois anos eu escutei aulas suas sobre ® [Relacionadas com Charles Darwin (1809-1882), pesquisador naturalista, claborador da teoria da evolugao das espécies.| 5% Edmund Reitlinger (1830-1882), Freie Blicke (Berlim, 1874). Capitulo IIT 67 teoria mecanica do calor, Fisica para quimicos e Histéria da Fisi- ca. Trabalhei com ele no laboratério de Fisica em varios 4mbitos, especialmente no campo da andlise espectral. Foram de especial importancia para mim as aulas de Reitlinger sobre Histdria da Fisica. Ele falava de modo a se sentir que, devido & sua doenga, cada palavra lhe custava um grande esforgo. No entanto sua aula era, no melhor sentido da palavra, entusiasmante. Ele era um homem de raciocinio rigorosamente indutivo; ao falar de metodologia na Fisica, sempre gostava de citar 0 livro de Whewell sobre ciéncias indutivas.* Newton™ se afigurava, para ele, como o apogeu da pesquisa fisica. Reitlinger expunha a Histéria da Fisica em dois grandes capitulos: o primei- ro, dos primérdios até Newton, e 0 segundo, de Newton até a épo- ca presente. Ele era um pensador universal. Partindo do enfoque histérico dos problemas fisicos, sempre passava a perspectivas gerais da Historia da Civilizacdo. Até idéias filoséficas fundamen- (ais apareciam em suas aulas sobre Ciéncia. Assim, ele disserta- va sobre otimismo e pessimismo e falava, de forma muito cativan- te, sobre a legitimidade da formagao de hipoteses cientifico-natu- rais. Sua dissertagdo sobre Kepler e sua caracterizagao de Julius Robert Mayer eram obras-primas de conferéncias cientificas. Naquela época eu me senti incentivado a ler quase todos os livros de Julius Robert Mayer; e pude vivenciar como uma alegria realmente grande a possibilidade de falar pessoalmente com Reitlinger sobre seus contetidos. Fiquei profundamente entristecido quando, poucas sema- nas depois de meu exame final sobre termologia mecanica, 0 mes- tre amado sucumbiu a sua grave doenga. Pouco tempo antes de seu fim ele ainda me dera, qual um legado, cartas de recomenda- do a pessoas que pudessem arranjar-me alunos particulares. Essas cartas surtiram um efeito excelente. Eu devia a Reitlinger, ja falecido, boa parte dos recursos que consegui levantar para me manter durante os anos seguintes. ' |William Whewell (1794-1866), Philosophy of the inductive sciences founded upon their history.) ' |Isaac Newton (1643-1727). Fisico, matematico ¢ astrénomo.] ® | Johannes Kepler (1571-1630), fundador da moderna astronomia; Julius Robert. Mayer (1814-1878), médico e fisico, elaborou a ‘lei da conservacdo da energia’.) 68 Rudolf Steiner — Muvya vipa Por meio da termologia mecanica e da teoria ondulatéria aplicada a fenémenos dpticos e elétricos, fui forgado a introduzir- me em estudos gnosiolégicos. Naquela época, o mundo fisico ex- terno se apresentava como processos dinamicos da matéria. As sensagdes experimentadas pelos sentidos apareciam apenas como vivéncias subjetivas, como efeitos de puros processos dinamicos sobre os sentidos do homem. Ld fora, no espago, desenrolam-se os processos de movimento da matéria; quando esses processos en- contram o sentido calérico humano*, 0 homem experimenta as sensagoes de calor. Fora do ser humano existem processos ondu- latérios do éter; quando estes encontram o nervo visual, surge no ser humano a sensagao de luz e de cores. Essa visio se me deparava por toda parte. Ela oferecia difi- culdades indizfiveis ao meu pensar; expulsava todo espirito para fora do mundo externo objetivo. Diante de minha alma surgia a idéia de que, caso a observagao dos fenémenos naturais nos con- duzisse a admitir tais hipéteses, com uma visdo do espirito néo se poderia chegar a compreender estas tiltimas. Eu via 0 quanto tais hipéteses eram tentadoras para a mentalidade da época, atraida pela Ciéncia Natural. Agora eu nem podia ainda decidir-me a opor, a mentalidade vigente — mesmo que apenas para mim mesmo —, uma maneira pessoal de pensar. Disto, porém, resulta- ram duros conflitos interiores. Repetidamente, a critica — facil de formular — a essa mentalidade tinha de ser reprimida, a fim de eu aguardar o tempo em que novas fontes e caminhos de co- nhecimento me dessem maior seguranga. Eu recebi um forte incentivo mediante a leitura das ‘Cartas sobre a educagao estética do homem’, de Schiller. A indicagao de que a consciéncia humana como que oscilaria entre varios esta- dos tinha uma ligagéo com a imagem que eu formara da atividade e da trama interiores da alma humana. Schiller distingue dois estados de consciéncia em que 0 homem desenvolve sua relacao % [0 sentido cal6rico é um dos sete sentidos adicionais aos cinco normalmente conhecidos, perfazendo, segundo R. Steiner, os doze sentidos humanos, Vide R. Steiner, A arte da educagao 1: 0 estudo do homem, uma. base para a pedagogia (oitava conferéncia) e Os doze sentidos e os sete processos vitais. | *" [Friedrich Schiller, Briefe zur Férderung der disthetischen Erziehung des Men- schen. Vide edigao brasileira sob o titulo A educagdo estética do homem (Sao Paulo: Iuminuras, 1989).] Capitulo HT 69 com o mundo. Abandonando-se ao que atua nele sensorialmente, o homem vive sob a coagao da natureza. Os sentidos e impulsos determinam-lhe a vida. Submetendo-se As regras légicas da ra- zao, ele vive numa necessidade espiritual; no entanto, é capaz desenvolver em si um estado mediano de consciéncia; é capaz de desenvolver a ‘disposigao estética’, que nao esta unilateralmente inclinada nem a coagao por parte da natureza nem a necessidade da razao. A alma vive nessa disposigdo estética por meio dos sen- tidos; porém introduz, tanto na contemplagao sensorial quanto no agir estimulado pela sensorialidade, algo de espiritual. A percep- ¢ado 6 exercida com os sentidos, porém de um modo como se 0 espiritual tivesse afluido para dentro destes. Ao agir, ohomem se entrega ao bel-prazer da cobiga imediata; contudo, enobreceu essa cobiga a ponto de o bem lhe agradar e o mal lhe desagradar. Aqui a razio estabeleceu um intimo laco com a sensorialidade. O bem se torna instinto; o instinto pode dar a dire¢do a si mesmo, por ter acolhido em si o carater da espiritualidade. Schiller vé nesse esta- do de consciéncia aquela constituic¢do animica por meio da qual o homem pode vivenciar e produzir as obras da Beleza. No desen- volvimento desse estado ele encontra o renascimento da verda- deira esséncia humana no homem. Esses pensamentos de Schiller me atrafam. Eles alegavam que primeiramente se deveria ter uma certa disposigao de cons- ciéncia para obter uma relagao com os fenémenos do mundo que correspondesse a entidade humana. Com isto me fora dado algo que conduzia a uma maior nitidez as questées que me eram pro- postas pela observagao da natureza e a vivéncia do espirito. Schiller falou do estado de consciéncia que deve existir para se vivenciar a beleza do mundo. Sera que também ndo se poderia pensar num estado de consciéncia que transmitisse a verdade na esséncia das coisas? Se isso for justificado, nao se poderd, 4 maneira de Kant, observar a consciéncia humana imediatamente dada e investigar se esta 6 capaz de aproximar-se da verdadeira esséncia das coi- sas. Primeiramente, no entanto, dever-se-ia investigar o estado de consciéncia por cujo intermédio o homem se coloca numa rela- cao de tal ordem, com 0 mundo, que as coisas e fatos Ihe desven- dam sua esséncia. _Eu acreditava reconhecer_que esse estado de consciéncia é alcangado até certo grau quando o homem nao sé tem pensamen- 70 Rudolf Steiner ~ MinuA VIDA tos reproduzindo as coisas e processos externos, ensamen- tos que ele vivencia como pensamentos em si. Esse viver em pen- samentos se me revelava como totalmente diverso daquele em que se passa a existéncia comum e também a pesquisa cientifica comum. Ao se avancar cada vez mais na vivéncia de pensamen- tos, descobre-se que alidade espiritual vem a0 encontro dessa vivéncia. Tee anne caer ato Gontade nesse caminho animico interior se aleanga uma realidade espiri- tual que também é reencontrada no interior da natureza. Obtém- se um conhecimento mais profundo da natureza ao defronta-la apés ter visualizado, no pensamento vivo, a realidade do espirito. Ficou-me cada vez mais claro como, ao elevar-se dos pensa- mentos abstratos comuns as visées espirituais que mantém a se- renidade e aclareza do pensamento, o homem passa a viver numa realidade da qual a consciéncia comum o distancia. De um lado esta possui a vitalidade da percepeao sensorial e, de outro, 0 cara- ter abstrato da formacéo de pensamentos. A visdo espiritual per- cebe o espirito como os sentidos per- cebem a natureza; mas com o pen- sar ela nao se acha distante da per- cepgao espiritual como a consciéncia comum, com sew pensar, da percep- cao dos sentidos; ao vivenciar 0 espi- ritual, ela pensa, e ao levar a espi- ritualidade despertada no homem a pensar, vivencia. Diante de minha alma se er- guia uma visdo espiritual que nao se baseava num obscuro sentimento mistico. Ela transcorria muito mais numa atividade espiritual plena- mente comparavel, em transparén- cia, ao pensar matematico. Eu me aproximava da disposi¢aéo animica que me permitia acreditar poder considerar legitima, também diante do foro do pensamento cientifico, a concepgaéo do mundo espiritual que trazia em mim. Quando essas vivéncias percorriam minha alma, eu estava com 22 anos de idade. Rudolf Steiner em 1882 IV. ara a forma de vivéncia espiritual que, naquela época, eu queria embasar mais seguramente, 0 elemento musical veio a ter um significado de crise. No ambiente musical em que eu me encontrava, a ‘disputa em torno de Wagner’ ® vigorava, nessa época, de modo veemente. Durante minha infancia e juven- tude, eu havia aproveitado toda oportunidade para incrementar minha compreensao musical. Minha posigdo diante do pensar trou- xe isto consigo. Para mim, o pensar tinha contedido por si. Ele nao 0 recebia apenas pela percepeao, que 0 expressa. Isto, porém, con- duzia como que naturalmente a vivéncia da figura sonora pura- mente melédica como tal. O mundo dos sons em si era, para mim, a revelagdo de um lado essencial da realidade. O fato de o elemen- (o musical ainda dever ‘expressar’ algo além da formacao tonal, como era afirmado de todas as maneiras, naquela época, pelos partidarios de Wagner, parecia-me totalmente ‘antimusical’. Eu sempre fui uma pessoa socidvel. Gragas a isto jé fizera muitas amizades durante minha época escolar em Wiener- Neustadt e, mais tarde, em Viena. Nas opinides, eu raramente concordava com esses amigos; mas isto nunca impedia que exis- lisse intimidade e intenso estfmulo miituo nesses lacos de ami- zade. Um desses lacos fora estreitado com um jovem esplendida- mente idealista.® Com seus louros cabelos cacheados e olhos azuis ingénuos, ele era exatamente o tipo do jovem alemao. Ora, ele era totalmente empolgado pelo wagnerianismo. Musica que exis- lisse por si, que quisesse apenas entremear sons, era para ele um mundo antiquado de filisteus repugnantes. O que se mani- festasse nos sons como numa espécie de linguagem era 0 que, para ele, tornava valida a figura sonora. Nés assistimos juntos a muitos concertos e muitas 6peras. Sempre tinhamos opiniées di- (Richard Wagner (1813-1883), o grande expoente da musica classica alema do século XIX.] ' Emil Schénach (1860-1899). J4 em 1882 ele atuava em prol da ‘Imprensa Silesiana Livre’ [Freie Sehlesische Presse] em Troppau, onde também publicou lgumas contribuigses de R. Steiner. Estas se perderam em parte, juntamente m 0s primeiros volumes annais do periédico. 12 Rudolf Steiner — Minna vipa vergentes. Em meus membros se depositava algo como chumbo quando a ‘musica expressiva’ o inflamava até ao éxtase; e ele se entediava espantosamente quando ressoava miisica que nada qui- sesse ser sendo musica. Os debates com esse amigo se estendiam ao infinito. Em longos passeios, em encontros interminaveis junto a uma xicara de café, ele expunha em palavras entusiasmadas suas ‘provas’ de que s6 com Wagner teria nascido propriamente a verdadeira mt- Sica, e de que todo o anterior teria sido apenas uma preparagao para esse ‘descobridor do musical’. Isto me levava a manifestar minha sensagdo de modo bem drastico. Eu falava da barbarie de Wagner, que seria o timulo de toda real compreensao musical. Em certas ocasides, os debates se tornavam especialmente efusivos. Certo dia, manifestou-se em meu amigo a curiosa ten- déncia a dirigir nossos passeios quase didrios a uma viela estrei- ta, e, discutindo Wagner comigo, andar varias vezes nela para cima e para baixo. Eu estava tao absorto em nossos debates que 86 aos poucos me ocorreu uma luz a respeito de como ele chegara a essa tendéncia. A janela de uma das casas dessa viela sentava- se, na hora de nossos passeios, uma jovem muito graciosa. Ini- cialmente, nao havia para ele nenhuma relac&éo com a moca a nao ser o fato de a ver quase diariamente sentada a janela e, esporadicamente, ter a consciéncia de que era para ele o olhar que ela langava a rua. A principio eu sé sentia como seu engajamento em prol de Wagner, jd bastante fogoso, nessa viela se transformava num mar de chamas. E quando descobri qual afluente jorrava sempre, ali, para seu coragao entusiasmado, ele também se tornou confidente nesse sentido, e eu passei a compartilhar sentimentalmente um dos mais delicados, belos e exaltados amores de juventude. O re- lacionamento nao foi muito além da situacao descrita. Meu ami- go, que provinha de uma familia nao-afortunada, logo teve de aceitar uma modesta colocago como jornalista numa cidade pro- vinciana. Nao podia pensar em nenhuma relacao mais préxima com a moga. Tampouco era suficientemente forte para dominar as situagdes. Durante muito tempo ainda mantive uma ligagao com ele por correspondéncia. Um triste eco de resignagao ressoa- va de suas cartas. Em seu coragdo continuava a viver aquilo do qual ele teve de separar-se. Capitulo IV 73 Muito tempo depois de a vida ter encerrado minha troca de correspondéncia com o amigo de juventude, encontrei-me com uma pessoa da cidade onde ele encontrara sua colocagéo como jornalis- ta. Eu sempre The mantivera estima, e perguntei por ele. Entéoa pessoa me disse: “E, ele teve uma vida muito dificil — mal conse- jruia ganhar seu pao; por fim se tornou escrevente em minha fir- ma, e entdéo morreu de uma doenga pulmonar.” Essa informagao me cortou 0 coracdo, pois eu sabia que o louro jovem idealista se havia separado de seu amor de juventude, sob a forga das circuns- (A@ncias, com o sentimento de indiferenca pelo que a vida ainda lhe pudesse trazer. Ele nao dava valor algum a fundamentaruma vida que nao pudesse ser como o ideal que pairava a sua frente om nossos passeios na estreita viela. No contato com esse amigo, meu antiwagnerianismo de en- {fo se manifestou de maneira vigorosa; mas também desempe- nhou, nessa época, um grande papel em minha vida an{mica. De todos os lados eu procurava encontrar-me no elemento musical que nada tinha a ver com o wagnerianismo. Meu amor pela‘mi- sica pura’ cresceu durante varios anos; minha repulsa contra a ‘barbarie’ de uma ‘musica como express&o’ tornou-se cada vez maior. E, nessa situagéo, eu tinha o destino de estar em ambien- (es sociais onde se encontravam quase que exclusivamente admi- radores de Wagner. Tudo isto contribuiu bastante para mais tar- de tornar bem érdua para mim — muito — a tarefa de lutar por uma compreensao de Wagner, a qual, alids, é humanamente 6b- via diante de um fenémeno tao notavel de nossa cultura. Porém esse esforgo faz parte de uma época posterior de minha vida. Nes- {a que estou relatando, uma apresentacao de ‘Tristao’™, por exem- plo, & qual tive de acompanhar um aluno meu, foi ‘mortalmente tediosa’ para mim. Nesta época ainda me sucedeu uma outra importante ami- vade de juventude. Foi por um jovem que, em tudo, era 0 oposto ao dos louros cabelos encaracolados. Ele se sentia um poeta. Com || Tristao e Isolda (1859), pera considerada por muitos a obra-prima de Richard Wagner.] Com Rudolf Ronsperger. Rudolf Steiner escreveu-lhe um necrolégio, sob o tit- lo ‘Um memorial’ [Bin Denkmal], no Magazin fiir Literatur (1900). Reproiuzido om Gesammelte Aufsdtze zur Kultur- und Zeitgeschichte 1887-1901, GA 31, Vide {b, cartas a Rudolf Ronsperger em Briefe I (1881-1890), GA 38. 74, Rudolf Steiner - Minxa vipa ele eu também passava muito tempo em conversas estimulantes. Ele tinha grande entusiasmo por todo e qualquer elemento poéti- co. Entregou-se precocemente a grandes tarefas. Quando nos co- nhecemos, ja havia escrito uma tragédia — ‘Anibal’ — e muitas poesias liricas. Junto com os dois amigos, eu também freqiientava os ‘Exer- cicios de discurso oral e exposigao escrita’, ministrados por Schrier na Academia Politécnica. Dai provieram — para nés trés e tam- bém para muitos outros — os mais belos incentivos. Nés, jovens, podfamos apresentar 0 que produziamos espiritualmente; além disso, Schréer comentava tudo conosco e elevava nossas almas gragas a seu maravilhoso idealismo e sua nobre capacidade de entusiasmo. Fregiientemente meu amigo me acompanhava quando me era permitido visitar Schroer em sua casa. Ai sempre adquiria vida nova, ao passo que normalmente havia um tom pesado em suas manifestagdes. Por causa de uma cisao interior, ele nado con- seguia lidar com a vida. Nenhuma profissdo o estimulava a pon- to de ele querer assumi-la com alegria. Ele se empolgava total- mente em seu interesse poético e, além deste, ndo encontrava nenhuma conexao firme com a existéncia. Por fim, foi necessdrio assumir um emprego que lhe era indiferente. Com ele eu tam- bém mantive correspondéncia. O fato de nao poder vivenciar em sua propria arte poética uma satisfagao real consumia-lhe a alma. Para ele, a vida nao se preenchia com algo valoroso. Para meu sofrimento, eu tive de presenciar, tanto em suas cartas quanto em conyersas, como cada vez mais se condensava nele a convic- do de estar sofrendo de uma doenga incuravel. Nada conseguia dispersar esta suspeita infundada. Assim, um dia eu tive de re- ceber a noticia de que 0 jovem, que me era bem préximo, havia dado um fim a propria vida. Uma amizade bem estreita me ligou, naquela época, a um jovem® que viera da regido alema de Siebenbiirgen™ para a Aca- demia Politécnica de Viena. Eu também o encontrei pela primei- ra vez nas aulas de exercicio de Schréer, em que este proferiu ® Moriz Zitter (v. tb. nota 163 na p. 156). % [Provincia na parte eslava do Império Austro-htingaro, originalmente coloni- zada por imigrantes alemaes que ali mantiveram um enclave cultural.) Capitulo IV 75 uma palestra sobre o pessimismo. Tudo o que Schopenhauer™ havia apresentado sobre essa abordagem da vida estava contido nessa palestra. A isso se agregava a propria disposicao existen- cial pessimista do jovem. Eu me ofereci para proferir uma pales- tra de revide. ‘Refutei’ o pessimismo com verdadeiras palavras trovejantes; chamei, j4 naquela época, Schopenhauer de ‘génio bitolado’ e fiz minhas exposicées culminar na sentenga: “Se o sr. palestrante tivesse razéo sobre o pessimismo, eu preferiria ser a tabua onde meus pés pisam do que um homem.” Esta expressao foi, por muito tempo, repetida como escdrnio a meu respeito em meu efreulo de amizades; mas fez, do jovem pessimista e de mim, amigos intimamente ligados. Passévamos muito tempo juntos. Ele também se sentia poeta, e freqtientemente eu passava muitas horas sentado com ele, em seu quarto, ouvindo prazerosamente a leitura de suas poesias. Ele também vinha ao encontro de meus esforcos espirituais de entéo com um interesse caloroso, apesar de ser menos estimulado a isto pelas coisas com as quais eu me ocupava do que por seu afeto pessoal por mim. Cultivou varias belas amizades, e também o amor juvenil; precisava disto para sua vida, que era bem dificil. Havia freqiientado a escola em Hermannstadt, na qualidade de jovem pobre, e la ja tivera de sustentar-se com aulas particulares. Teve entao a genial idéia de continuar a ensinar seus alunos particulares por correspondén- cia, de Viena. As ciéncias universitarias pouco 0 interessavam. Mesmo assim, resolveu submeter-se a um exame de Quimica. Nunea estivera numa aula de Quimica nem lera livro algum so- brea matéria. Na ultima noite antes da prova, um amigo leu para ele um extrato de toda a matéria. Ele acabou caindo no sono. Apesar disto, foi com seu amigo para o exame. Ambos foram ‘bri- lhantemente’ reprovados. Esse jovem tinha uma confianga ilimitada em mim. Duran- te certo tempo, tratou-me quase como um confessor. Estendia diante de minha alma uma vida interessante, amitde tingida de tristeza, entusiasmada por tudo o que fosse belo. Trazia-me tan- ta amizade e afeto que realmente era dificil nao desiludi-lo amar- gamente uma vez ou outra. Isto acontecia pelo fato de freqiien- “ [Arthur Schopenhauer (1788-1860), filésofo postulante do pessimismo e do ateismo.] 16 Rudolf Steiner —- Minna vipa temente ele crer que eu nao lhe dava suficiente atengao. Mas isto nao podia mesmo ser diferente, pois eu tinha tantos outros cfr- culos de interesse pelos quais ele nao tinha nenhuma compreen- s&o objetiva! No entanto, tudo isto contribuia, no final das con- tas, apenas para que a amizade se estreitasse cada vez mais. Todo verao ele passava as férias em Hermannstadt. Ali reunia nova- mente alunos a fim de ensind-los por correspondéncia, de Viena, durante o ano. Entao eu sempre recebia longas cartas suas. Ele sofria com o fato de eu raramente — ou mesmo nunca — respon- dé-las; mas quando retornava a Viena, no outono, saltava ao meu encontro como um menino; e a vida conjunta recomegava. Gra- gas a ele, eu pude relacionar-me com muitas pessoas naquela épo- ca. Ele gostava muito de me apresentar a todas as pessoas com quem se relacionava; e eu estava sedento de contatos humanos, Esse amigo introduziu em minha vida muita coisa que me dava alegria e calor. Essa amizade permaneceu por toda a vida até a morte do amigo, ocorrida ha poucos anos. Atravessou algumas tempesta- des existenciais, e eu ainda terei muito a dizer sobre ela. Na consciéncia retrospectiva 1 emergem muitos elementos de relagdes humanas e de vida que ainda hoje tém, na alma, plena srisiGncia om sonsapbes do amor e vattdin qui nao posso dées= crever tudo em detalhes, e tenho de omitir muito do que me era préximo e permanece préximo justamente na vivéncia pessoal. Minhas amizades de juventude, na época que relato agora, tiveram uma relagéo curiosa com a continuagéo de minha vida. Elas me forgavam a uma espécie de vida dupla na alma. A luta com os enigmas do conhecimento, que naquela época preenchia centralmente minha alma, por certo sempre encontrava em meus amigos um forte interesse, mas pouca colaboracao ativa. Eu fica- va bastante solitdrio na vivéncia desses enigmas. Em contra- partida, eu mesmo compartilhava plenamente de tudo 0 que sur- giana vida de meus amigos. Assim, duas correntes vitais seguiam em mim uma ao lado da outra: uma, seguida por mim como um peregrino solitario; e a outra, que eu percorria em vivaz convivén- cia com pessoas queridas. Mas também as vivéncias do segundo tipo eram, em muitos casos, de significado profundo e duradouro para o meu desenvolvimento. Capitulo IV 7 Aqui devo lembrar especialmente de um amigo que ja fora mou colega em Wiener-Neustadt.* Nessa época, porém, ele esta- va distante de mim. Apenas em Viena, onde inicialmente me visi- (ava freqiientemente c mais tarde se tornou funciondrio publico, ele se aproximou. No entanto, j4 em Wiener-Neustadt, sem que oxistisse um relacionamento externo, ele tivera uma importancia para minha vida. Certa vez eu estava, junto com ele numa aula de yindstica. Enquanto se exercitava e eu nao tinha o que pea ele deixou um livro ao meu lado. Era 0 livro de Heine sobre ‘A Escola Roméantica’ e‘A Historia da Filosofia na Alemanha’.® Eu dei uma olhada. Isto se tornou um motivo para que eu proprio lesse 0 livro. Recebi muitos incentivos dessa leitura, mas me coloquei em in- (ensa oposi¢ao a maneira como Heine tratava o contetido de vida que me era préximo. Na observagao de uma mentalidade ede uma direg&o sentimental completamente opostas as que se for- mavam em mim, residia um forte estimulo a reflexao propria so- brea orientagao existencial interna que, segundo minhas disposi- (oes animicas, me era necesséria. ‘ Referindo-me ao livro, conversei entéo com o colega. Nisso a vida interior de sua alma veio a tona, fato que levou, mais tar- de, & fundamentagdo de uma amizade duradoura. Ele era uma pessoa fechada, que se abria apenas a poucos. A maioria das pes- soas 0 considerava esquisito. Diante dos poucos aos quais queria abrir-se, ele se tornava bem comunicativo, especialmente em car- tas. Considerava-se um homem chamado a ser poeta por disposi- interior. Era de opinido de que trazia uma grande riqueza om sua alma. Tinha também a tendéncia a entabular relagoes sonhadoras com outras pessoas — especialmente com personali- dades femininas —, em vez de realmente selar essas relagdes ex- temamente. As vezes ficava proximo de estabelecer essa rela- cdo, mas nao conseguia tornd-la uma vivéncia real. Em conver- sas comigo, revivia seus sonhos com tal intimidade e entusiasmo que pareciam realidades. Nessa situagao, nao podia deixar de © Josef Kock. Vide Beitréige zur Rudolf Steiner Gesamtausgabe n° 55 (Dornach, 19'6). 6 [Heinrich Heine (1797-1856), Die Romantische Schule e Die Geschichte der Philosophie in Deutschland.| 78 Rudolf Steiner - Minua via acontecer de ter sentimentos amargos quando os sonhos se des- vaneciam mais uma vez. Isto resultava, em seu caso, numa vida animica que nao ti- nha o minimo a ver com sua existéncia exterior. E essa vida era- lhe, por sua vez, objeto de aflitivas auto-observagdes, cujo reflexo estava contido em muitas cartas, a mim dirigidas, e em conver- sas. Assim, certa vez me escreveu uma longa explicacéo de como, para ele, tanto a menor quanto a maior vivéncia se transformava interiormente em simbolo, e como ele vivia com tais simbolos. Eu nutria afeto por esse amigo, e com afeto ingressava em seus sonhos, apesar de sempre ter, em sua companhia, o senti- mento de estarmo-nos movimentando nas nuvens e nao termos chao algum. Para mim, que incessantemente me empenhava em justamente buscar as bases s6lidas da vida no conhecimento, essa era uma vivéncia curiosa. Eu sempre tinha novamente de sair de minha prépria natureza e como que pular para dentro de uma outra pele ao me encontrar com esse amigo. Ele gostava de convi- ver comigo; por vezes também entabulava amplas abordagens teé- ricas sobre a “diversidade de nossas naturezas”, Mal suspeitava quo pouco nossos pensamentos coincidiam, pois o sentimento de amizade ultrapassava todos eles. Com outro colega de Wiener-Neustadt sucedeu-me a mesma coisa.” Ele estava na série imediatamente abaixo da minha no colégio cientifico, e s6 nos aproximamos quando ele veio para Aca- demia Politécnica de Viena um ano depois de mim. Aj, porém, ficdvamos bastante juntos. Tampouco ele participava daquilo que me movia interiormente no Ambito do conhecimento. Ele estuda- va Quimica. As opinides cientifico-naturais com que se defronta- va o impediam naquela época, no relacionamento comigo, de com- portar-se sendo langando diividas quanto a visio espiritual que me preenchia. Mais tarde na vida eu constatei, junto a esse ami- 80, quao proximo ele jé estava naquela época, em seu ser mais intimo, de minha concepeao animica; mas naquele tempo ele nao permitia que esse ser mais intimo viesse A tona. E assim nossos longos e vivazes debates se tornaram, para mim, uma ‘luta contra ® Rudolf Schober. Foi prineipalmente por seu intermédio que se tornou possivel conhecer também os nomes de amigos de juventude [citados mas] nao nemeados por Rudolf Steiner. Vide Beitréige cur Rudolf Steiner Gesamiausgabo, 1" 49/50 5/52, 54 ¢ 55. : ‘ Capitulo TV 79 0 materialismo’. Ele sempre opunha, 4 minha confissao em prol do contetido espiritual do mundo, todas as refutagis pretensamente decorrentes da Ciéncia Natural. Naquela época, eu ja tinha de fazer valer todos os meus argumentos a fim de expulsar de campo as objegé6es — provenientes da mentalidade materialista — con- (ra um conhecimento do mundo pautado pelo espirito. Certa vez o debate transcorreu com grande vivacidade. To- dos os dias, apés freqiientar as aulas, meu amigo viajava de Viena para sua residéncia, que permanecera em Wiener-Neustadt. Freqitentemente eu o acompanhava pela Alleegasse de Viena até ii estagdo ferrovidria da zona sul. Pois bem: certo dia haviamos chegado a uma espécie de culminagao no debate do materialismo quando chegamos & estagaio, e o trem jd estava para partir. Entao eu resumi nas seguintes palavras o que ainda tinha a dizer: “Por- tanto, vocé afirma que ao dizer ‘eu penso’ isto seria apenas 0 efei- to necessario dos processos em seu sistema nervoso cerebral. Ape- nas esses processos seriam realidade. E 0 mesmo ocorreria ao dizer ‘eu vejo isto ou aquilo, eu ando, etc.’ Mas veja: vocé nao diz ‘meu cérebro pensa, meu cérebro vé isto ou aquilo, meu cérebro anda’. Deveria corrigir sua maneira de falar se realmente tivesse chegado & conclusao de que o que vocé afirma teoricamente é ver- dadeiro. Nao obstante, ao falar do ‘eu’ vocé esta efetivamente mentindo; porém nao consegue senao seguir seu instinto sadio contra as insinuagées de sua teoria. Vocé experimenta uma situa- ‘do factual diversa daquela postulada por sua teoria. Sua cons- ciéncia desmente suas mentiras teéricas.” O amigo sacudiu a ca- bega. Ele nado tinha mais tempo para uma objecao. Eu caminhei sozinho de volta, e s6 pude refletir como a objecao contra o mate- rialismo, nessa forma grosseira, nfo correspondia a uma filosofia especialmente exata; mas naquele instante, cinco minutos antes da partida do trem, realmente me importava menos fornecer uma demonstragao perfeitamente filoséfica do que dar expresso a minha segura experiéncia interna da natureza do ‘eu’ humano. Para mim, esse ‘eu’ era uma vivéncia interiormente panoramica de uma realidade existente nele mesmo. Essa realidade nao me parecia menos é6bvia do que qualquer uma reconhecida pelo ma- terialismo. Porém nela nao ha absolutamente nada de material. Descobrir essa realidade e espiritualidade do ‘ew’ ajudou-me, nos anos seguintes, a transpor todas as tentagdes do materialismo. 80 Rudolf Steiner - Minna vipa Eu sabia: 0 ‘eu’ é inabalavel. E para mim ficava claro que nao conhece o ‘eu’ quem o considera uma forma de manifestacdo, um resultado de outros processos. O fato de ter isto como contempla- ¢ao interna, espiritual, era o que eu queria expressar diante do amigo. Nés nos confrontamos muito ainda, nesse campo; mas na visao geral da vida tinhamos tantas sensagées idénticas que, na relagAo pessoal; a veeméncia de nossas lutas teéricas nunca se transformou em desentendimento, por menor que fosse. Nessa época eu me aprofundei mais na vida estudantil de Viena. Tornei-me membro do ‘Grémio Literério Aleméo da Aca- demia Politécnica’. Em assembléias e reunides menores, eram amplamente discutidos os acontecimentos politicos e culturais da época. As discussées permitiam trazer a tona todos os pontos de vista possiveis — e impossiveis — que os jovens pudessem ter. Especialmente quando se tratava de eleger funciondrios, as opi- nides entravam em choque violento. Era ao mesmo tempo esti- mulante e excitante observar o que se passava entre a juventude quanto aos acontecimentos na vida piiblica da Austria. Foi a épo- ca em que os partidos nacionalistas se formavam cada vez mais nitidamente. Tudo 0 que mais tarde levou ao esfacelamento do Império na Austria, revelando suas conseqiiéncias apés a [Pri- meira] Guerra Mundial, podia ser presenciado em seus germes. Inicialmente eu havia sido eleito bibliotecdrio do ‘Grémio’. Como tal, descobria todos os possiveis autores cujos livros eu acre- ditava pudessem ser de valor para a biblioteca estudantil. A esses autores eu escrevia cartas solicitando doagdes. Freqtientemente preparava, em uma semana, mais de cem dessas cartas. Gracas a esse meu ‘trabalho’, a biblioteca cresceu rapidamente. Para mim, no entanto, o assunto tinha um efeito secunddrio: com isso eu tinha a possibilidade de vir a conhecer, numa maior abrangéncia, a literatura cientifica, artistica, histérico-cultural e politica da €poca. Eu era um voraz leitor dos livros doados. Posteriormente fui eleito presidente do ‘Grémio Literdrio’. Esse, no entanto, era para mim um dificil cargo — pois eu me defrontava com uma grande série de pontos de vista partidarios, e em todos eles via a relativa justificativa. Além disso, os mem- bros dos diversos partidos se dirigiam a mim, Cada um queria convencer-me de que apenas seu partido tinha razo. Quando eu fora eleito, todos os partidos se haviam sintonizado em meu favor Capitulo IV al pois até entaéo tinham apenas owvido como eu me havia posicionado, nas assembléias, em prol do que era justo. Apés meio uno de minha presidéncia, todos votaram contra mim — pois nes- se interim haviam descoberto que eu nao podia dar razéo a ne- nhum partido com a intensidade que cada qual queria. Meu impulso de sociabilidade encontrou farta satisfagao no ‘Grémio Literdrio’; e também foi desperto o interesse por mais circulos da vida publica, gragas aos reflexos de seus processos na vida comunitaria estudantil. Naquela época, eu assisti a varios interessantes debates parlamentares na galeria da Camara dos Representantes e da Camara dos Pares do Império. Além das medidas parlamentares, com seus efeitos fre- qiientemente profundos sobre a vida, interessavam-me em espe- cial as personalidades dos representantes. A cada ano se sentava no canto de sua bancada, como um dos principais oradores em matéria de orgamento, o perspicaz filésofo Bartolomeu Carneri; suas palavras saraivavam contundentes acusagdes contra o Mi- nistério Taaffe, formando uma defesa do germanismo na Aus- tria.® La estava Ernst von Plener, o seco orador, a autoridade indiscutivel em questées financeiras®; as pessoas congelavam quando ele, com frieza calculista, criticava os gastos do Ministro das Financas, Dunajewski.” La estava o ruteno Tomasczuck™ tonitroando contra a politica das nacionalidades; tinha-se a sen- sagdo de que lhe importava encontrar uma palavra especialmen- te bem cunhada para o momento, a fim de nutrir as antipatias em relag&o aos ministros. La discursava o clérigo Lienbacher”, astu- “ Bartholoméus Carneri (1821-1909). Vide o ensaio de R. Steiner Bartholomédus Carnieri, der Ethiker des Darwinismus’,em Methodische Grundlagen der Anthro- posophie 1884 bis 1901, GA 30, ¢ a exposi¢o em Vom Menschenriitsel, GA 20. |Ministério Taaffe: presidido pelo Conde Eduard ‘Taaffe (1833-1895), que exer- cou esse cargo na Austria em 1868 ¢ 1879-93, sendo grande defensor das liberda- des nacionalistas.] ‘ [Brnst von Plener (1841-1923), economista, foi também Ministro das Finangas durante 0 governo de coalizio do Principe austriaco Alfred III, de 1898 a 1895.] » (Julian Antoni Dunajewski (1821-1907).] ' [Konstantin Tomasezuk, — Ruteno: pertencente ao povo eslavo de mesma deno- minagao, espalhado pela Galicia (nas encostas dos montes Carpatos, atualmente sudeste da Polonia e oeste da Ucrénia), Lituania e Hungria.] * Georg Lienbacher (1822-1896). 82 Rudolf Steiner — Minwa viDA to como um camponés, sempre inteligente; sua cabeca um pouco inclinada para a frente mostrava que suas palavras eram a proje- cao de palavras impregnadas de iluminismo. La discursava, & sua maneira incisiva, 0 jovem tcheco Grégr”; diante dele tinha-se a sensagao de defrontar um semidemagogo. Ld estava Rieger", dos velhos tchecos, incorporando de modo profundamente caracteris- tico o tchequismo que se vinha formando ha muito tempo e que, na segunda metade do século XIX, havia chegado a consciéncia de si; um homem auto-suficiente como poucos, com enorme vigor animico e sustentado por uma vontade firme. Do lado direito dis- cursava Otto Hausner, no meio das bancadas dos poloneses™; amitide limitava-se a expor, com espirito, frutos de suas leituras — muitas vezes enviando, com prazer, flechadas objetivamente justificadas em todas as diregdes da Camara; um de seus olhos, auto-satisfeito mas inteligente, cintilava atrds de um monéculo, e o outro parecia dizer constantemente um alegre “sim” Aquele que cintilava; um orador que, j4 naquele tempo, As vezes também encontrava palavras proféticas em relagao ao futuro da Austria. As pessoas deveriam ler hoje o que ele disse naquela época; fica- riam admiradas com sua perspicdcia. Naquela ocasiao, zombava- se até de muita coisa que décadas depois se transformou em amar- ga seriedade. ® Eduard Grégr (1827-1907). ™ Franz Ladislaus Rieger (1818-1903). * [Otto Hausner: 1827-1890.] V. pensamentos sobre a vida ptiblica da Austria, que de al- gum modo tivessem intervindo mais profundamente em minha alma, eu nao pude chegar nessa época. Restringi- me aobservar as relagoes extraordinariamente complicadas. Con- versagées que me despertassem interesse mais profundo, eu sé pude ter com Karl Julius Schréer. Justamente nessa época, tive ensejo de visita-lo freqiientemente. Seu préprio destino conectava- se estreitamente ao dos alemaes da Austria-Hungria. Ele era fi- lho de Tobias Gottfried Schréer, que dirigia um liceu alemao em Pressburg e escrevia dramas, bem como livros de Historia e Esté- tica.”* Estes tltimos foram publicados sob 0 pseudénimo Chr. Oe- ser, e eram apreciados livros didaticos. As obras poéticas de Tobias Gottfried Schroer, apesar de terem encontrado grande reconheci- mento em circulos menores, e de, sem duvida, serem importan- tes, nao se tornaram conhecidas. A atmosfera que respiravam estava em oposi¢do a corrente politica dominante na Hungria. Tinham de ser editadas sem indicagao do nome do autor, em par- te no exterior alemao. Se a orientacdo espiritual do autor tivesse sido conhecida na Hungria, este nao s6 teria sido demitido do cargo como teria sofrido severa punigao. Assim, Karl Julius Schréer j4 presenciara a pressao sobre 0 germanismo no proprio lar, em sua juventude. Foi sob essa pres- sdo que desenyolveu sua intima dedicagao a civilizagao e a litera- tura alemas, assim como um grande amor por tudo o que estives- se ligado e préximo a Goethe. A ‘Histéria da poesia alema’, de Gervinus, influenciou-o profundamente.” Na década de 1840 ele fora para a Alemanha, a fim de estu- dar lingua e literatura alemas nas universidades de Leipzig, Halle e Berlim. Ao retornar, atuou inicialmente como professor de Lite- ratura Alem e dirigente de um semin4rio no liceu de seu pai. Foi entéo que veio a conhecer as pecas populares de Natal, represen- “ Sobre Tobias Gottfried Schréer (1791-1850), vide R. Steiner, Vom Men- schenrdtsel, GA 20, p. 90 ss. [Georg Gottfried Gervinus (1805-1871), Geschichte der deutschen Dichtung.] 84 Rudolf Steiner — Minita vipa tadas todos os anos pelos colonos alemfes nos arredores de Pressburg.”* Ali se encontrava diante de sua alma, de uma manei- ra que lhe era profundamente simpatica, a cultura popular ale- ma. Os imigrantes alemaes que haviam chegado séculos antes A Hungria, provenientes de regides mais ocidentais, haviam trazi- do consigo essas pecas da antiga patria e continuavam a repre- sentd-las tal qual haviam feito em tempos mais antigos, perto da festa do Natal, provavelmente nas regides préximas ao Reno. Ahistéria do Paraiso, o nascimento de Cristo, a aparigéo dos Trés Reis, viviam como cultura popular nessas pecas. Ento Schrier, apés ter assistido 4s mesmas ou ter visto os antigos manuscritos obtidos junto aos camponeses, publicou-as sob 0 titulo Pecas natali- nas alemas da Hungria’.” O carinhoso interesse pela cultura popular alema absorveu. cada vez mais a alma de Schrier. Ele fazia viagens a fim de estu- dar os dialetos alemaes nas varias regides da Austria. Queria vir a conhecer a peculiaridade da cultura popular alema em toda a sua disseminagao dentro das regides eslavas, magiares e italia- nas da monarquia do Danubio. Assim surgiram seus diciondrios e gramaticas do dialeto zips, falado no sul dos Carpatos; do dialeto gotische, que vigorava num pequeno povoado alemao em Krain; da lingua dos heanzen, falada na Hungria Ocidental. Para Schréer, esses estudos nunca constituiam uma mera tarefa cientifica. Ele vivia com a alma inteira nas manifestagdes da cultura popular e, por meio da palavra e da escrita, queria trazer a esséncia dessa cultura a consciéncia das pessoas que ha- ® Vide R. Steiner, Weihnachtspiele aus altem Volhstum. Die Oberuferer Spiele (Dornach, 1981); Ansprachen zu den Weihnachtspielen aus altem Volkstum, GA 274; e ‘Von den volkstiimlichen Weihnachtsspielen. Eine Christfesterinnerung’, em Der Goetheanumgedanke inmitten der Kulturhrisis der Gegenwart, 1921 bis 1925, GA 36. ® [K. J. Schréer, Deutsche Weihnachtsspiele aus Ungarn.] ® Schréer realizou uma edigéo comentada do Fausto, de Goethe (II Parte, 1881, nova ed. Basiléia, 1982), e elaborou paraa ‘Bibliografia Nacional Alema [Deuésche National-Literatur| de Kirschner [v. nota 87] os dramas de Goethe em 6 volu- mes. Sua Historia da Literatura Alema’ [Geschichte der Deutschen Literatur] foi publicada em 1853 em Pest, e ‘A poesia alema do século XIX em suas mais signi- ficativas manifestacées. Leituras populares’ [Die deutsche Dichtung des 19. Jahrhunderts in ihren bedeutendsten Erscheinungen. Populiire Vorlesungen| em. 1875 em Leipzig. Capitulo V 85 viam sido arrancadas dela pela vida. Entao se tornou professor em Budapeste. Diante da corrente ali dominante, nao conseguia sentir-se bem. Assim, mudou-se para Viena, onde inicialmente lhe foi outorgada a diregao das escolas evangélicas e onde, mais tarde, tornou-se professor de lingua e literatura alemas. Foi quan- do jé estava nesse posto que me foi dado conhecé-lo e aproximar- me dele. Na época em que isto sucedeu, toda a sua reflexdo e sua vida eram dedicadas a Goethe. Ele trabalhava na edigiio e intro- dug&o da segunda parte do Fausto, e j4 havia publicado a pri- meira parte. Quando eu vinha em visita 4 pequena biblioteca de Schréer, que ao mesmo tempo era sua sala de trabalho, sentia-me numa atmosfera espiritual intensamente benfazeja A minha vida animica. Eu ja sabia, naquela época, como Schréer era hostilizado pelos adeptos dos métodos histérico-literarios tornados dominan- tes por causa de suas obras, especialmente por sua ‘Historia da poesia alema no século XIX’. Ele nao escrevia como os membros da escola de Scherer*!, que tratavam das expressées literdrias tal qual um cientista da natureza. Ele trazia em si certas sensa- gdes e idéias sobre as expresses literdrias e as exprimia de modo puramente humano, sem dar muita atengéo As ‘fontes’ no mo- mento de escrever. Chegava-se até a dizer que escrevera sua ex- posigéo ‘de improviso’. Amim isto pouco interessava. Eu me aquecia espiritualmente quando estava com ele. Tinha chance de sentar a seu lado duran- te horas. De seu coragao entusiasmado se derramava, em sua exposicao oral, a vida das pegas de Natal, o espirito dos dialetos alemaes, o transcurso da vida literdria. A relagiio do dialeto coma linguagem erudita se me tornou praticamente visivel. Eu sentia uma verdadeira alegria quando ele me falava — o que também ja havia feito em aulas — do poeta que escrevia em dialeto da Baixa- Austria, Joseph Misson, autor da encantadora obra ‘Inacio, 0 me- nino camponés da Baixa-Austria, vai para o estrangeiro’.” Entao Schréer sempre me emprestava livros de sua biblioteca, nos quais ® [Wilhelm Scherer (1841-1886), germanista, representante do positivismo cien- tifico-cultural.] “ Joseph Misson (1803-1875), Da Naaz, a niederésterreichischer Baurnbua, geht ind Fremd.