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Dades Iatermasonais de Cataloragbo no Publcasto (CIP) (Cimare (Camara Brasteira de Lives SP, Branly Se Dito Ras istaa ga a9 " ‘into « exmel tual emo entries / Ovo A. Basta ds Siva ~ 2 eh me. = Sie Pate <” Eatora Revita don Tabi Tah ISBN 85-203 4568. 4 Ditete romans >. Exscugdes Bini Stuisigto 1 Thule gras cou.si7982 . 23798 Indices para cttog stent, 1. Exseagto > Praca Gv DDS 2 Jarsaigto : Proceso cit 34795 OVIDIO A. BAPTISTA DA SILVA JURISDICAO E EXECUCAO na tradi¢Go romano-canénica 22 EDICAO REVISTA EDITORA . REVISTA DOS TRIBUNAIS f : 3 pRISDIGAO F EXECUGAO. © fe tratigéo romeno-candnica 029360 utigdicao © execueay na iradicad rormahasatonica 35437) $596) 1997 AM cuigdo revista Bete A. Basra 4 Sea ~ Se SILVA OVIDIO ARAWIC BAPTIS. fe al] in cot IBN Fewpuciens Tus Besta eigio: 1997 EDITORA REVISTA DOS TRIBUNAISLTDA, Dirwior Presidente: Castes Hisuiges oe Canvatio Fo Diretor Superimendente: AstoMD Baunetx0 Dirgtor de Produgao: Exv. Xsvren o€ Mexpoxcn MARKETING E COMERCIALIZAGAO Gerenie de Marcting: Messe Cross Gerente de Admnistrazéo de Vendes: Kusn Tyxaka Capa: Mancis ‘CENTRO DE ATENDIMENTO AO CONSUMIDOR: Tel, 0800-11-2433 Rua Tabatinguers, 140. Térreo, Loja} + Caixa Postal 678 Tel. (DEN) 3115-2433 + Fax (O11) 6063772 CEP 010204901 - 549 Paulo. SP. Brasit TODOS 0S DIREITOS RESERVADOS. Probida a reprodugdo toil ov parc guslauer melo ov provesso, especilinenle per sistemas grificos. mirailmicey, | fotogcifices, reprogrificas, Tenografeas, videogaficos, Veeata’a memeraagio oy | recuperailo tl ov pucal, term come s incisdo ue qealqer jome des) che cme qualquer sistema de peocessamento de dados. Essas probigies apicome.tanben te & pretenso do credor vitorioso ‘ainda encontra 0 “direito real do condenado” coma obstéculo a ser afastado para a definitiva satisfagdo de seu direito. Quer dizer, o devedor paga com o que Ihe pertence, 0 réu na re Jindicatéria, declarado possuidor ilegitimo, havent de restituir 0 que ‘no Ihe pertence (Diritto ¢ processo nella teoria delle ‘obbligazioni, in Studi i dirito processuale civile, 1928, 2.° Vn p. 214 ef eq.) Mesmo atingindo © ponto crucial da diferenga entre sentenca® condenatérias € executivas, no investigou Pontes de Mirandas ¢ nem ‘© fizeram Satta e Carnelutti, as razées histéricas e ideoldgicas que impuseram © abscurecimento dessa clara distingdio entre as duas Tomas de tutela jurisdicional, contentando-se todos em permanccet no terreno do puro dogmatismo, onde sequer é possivel a ‘construgio de um coneeito aceitével © ‘coerente de condenagio, como 0 tem fdemonstrado as indimeras tentativas feitas. pelos juristas ‘contempo- raneos. No que diz sespeito 20s processualistas filiados & corrente tradicional, a defesa por cles oferecida da existéncia de apenas wes agdes — declaratérins, constitutivas ¢ condenatérias — € ainda mais incoereate, soja porque no conseguem explicar a notéria diversidade que eles proprios reconhecem entre ‘exemplares arbitrariamente rpunidos sob a mesma denominagdo, seja porque, em determinadas 2 1s sRISDICAO E EXECUCAO cireynstineias, muitos deles acabam aceitando a existencia das agses srecutwvas que, no plano institucional, insistem em negat. E 0 que ocorreu, por exemplo, com ‘Alfredo Buzaid que, 20 rage da acho de despejo, considerou-a executiva, eserevendo: “A soto de despejo, embora figure entre os procedimentos, especiais (EPC. art. 350 et seq), tem natreza executive, como observou Pontes Se Mizanda, Dai a tazdo por que o art. 352, do CPC, permite a Srecusio mediante mandado de ewrcuando, contra 9 qual ado admite embargo." (Da ago renovaidria, 195R, p. 444). 4, Frederico Marques, outro autor que defende a teoria das “wes gies", a9 enfrentarse com 2 agio de despejo, vit-se obrigado também a iransigir: "A natureza executiva do processo que se instaura on 1 aed de dospejo ¢ indiscutivel, como bem o demonstra Pontes de Miranda” (RT 253629) ‘Outros, como Candide Dinamarco, reconhecem a inegével diferenga existente, por exemplo, entre uma agio de indenizacio, ov lima aedo de eobranga de aluguéis, de um lado, e uma agio de despejo de outro, enguanto 9s primeizas exigem uma ago autinoma de txecugie posterior, que pode ser atacada por embargos do executado, f novo exige a dltima; mas desprezam-sa como ciccunstincia capaz fe quebrar a universalidage conceitual da sentenca condenatéria, Eectove ele: “Hoje, € pacffica em doutrina a autonomia do processo de execugio, nesse sentido em que vem sendo afirmada no presente texto, So inexiste destaque entre o processo de conhecimento ¢ 2 erecugdo ali produzida, nos casos da (a meu ver, mal) chamada “Jentenga executive’. Sko hipdteses em que a ago nfo € apenas © poder de exigir sentenca de mérito (ago cognitive). nem somente ide exigit a aplieagao da sangio executiva, Nesses casos todos, como tradicionalmente se d& com os interdites possessérios, ¢ assim jf era nas Ordenagbes do Reino (ef. supra n. 3 ¢ esp. nota 152), tem-se 3 sincretismo de uma a¢zo que 6, 20 mesmo tempo, o poder de exigir © julgamento € a saisfagdo (..] © processo € um sO ¢ uma s6 Scho, ambos partithando da natureza cognitivaexecutiva, 1ss0 acon- Tere nas egoes de despeje, onde a execucfa, como nos interdites, & felta per offcium iudicis, ou seja, automaticamente [..] Ein nenhurm Gesses casos, no entanto, é licito falar em ‘sentengas executivas’, Conceito imitil e desnecessério para justificar uma execucio que se fre com base em sentenga e com a simples peculiaridade (grife-0>) (© ESTADO DA QUESTAO NA DOUTRINA BRASILEIRA 19 de que © processo € um s6 (cognitive-executivo, como se disse). A feficicia consistente emi tomar adequada a via executiva é atributo das sentengas condenatérias e o fio de a condenagio ser dada num processo assim sincrStico no a desnatura” (Execupdo civil, 2, ¢6-, 1987, p. 101-102). Esta lig de Dinamarco poe & mestra outa questio que deverd cccupar-nos, relativa a0 concelto de jurisdigio ¢ de Proceso. de Connecimento. Mesmo no sendo este ponto objeto de sua anétise, ontrape 0 jurista # fungio executive, destinada, segundo le. Splicagao da sangtio exccutiva”, a fongio do Pracesso de Conhe: cimenta, identificado como © instremento criado para que Se possa “oxigir Sentenga de mérito”, quer dizer, obter declaragio do direito. pois, vé-se de suas palavras, a agdo, salvo nesses casos excepcionais, @ apenas e simplesmente “o poder de enigir senrenca de mérlio” {eqdo cognitiva, em contraposigio & aglo executive, do Processo de Enccugao). Fica bem clara a fungio do Processa de Conhecimento, como processo exclusivamente declarativo, 'A mesma idéia surge novamente no pensamento de Dinamaneo nesta passagem de outra obra esctita por ele: “Por tudo quanto fot tte nos itens anteriores, fica portatto # certeza de que é @ pretensdo aque substancia o mérito, de modo que prover sobre este significa Gitar uma providéncia relativa & sitaglo trazida de fora do processo fe, assim, eliminar a situagio tensa tepresentada pela pretensio; cis © escopo social da jurisdigio, comprido mediante a eliminagdo das Snoomtevas representadas pelas pretensdes insatisfeitas” (Fundamentos do processo civil moderno, 1986. p. 203) (0 “escopo social da jurisdigio” para Dinamarco soré a “elimi- nagio das incertezes", geradas pela “pretensbes insatisfeltas’, 0 que hhaverd de ser conseguido mediante a declaragao contida na sentenga de mérito : Dinamarco empenha-se em salvar 2 universalidade da ago condenatéria, a ponio de desprezar a circunstancia de serem certas emandas, como ele diz, “sinerétias”, € conterem na mesma relago provessual a seotenga de procedincia e sua execugao, mesmo que B impossibilidade de misturarerse, mum mesmo provesso, a ativt se dade cogritva e a executiva sep, talvez, ma das poucas Caael= fistigas universalmente aceitas como propriedade essencial das sen- “jencas condenatérias. B um dado incontroverso por todos 0s que surispigao © EXECLGAD escrevem sobre esta espécie de sentengas que a condesatoria define Se como i sentenga que apenas prepara a execusdo, sem, no entanto, permiti-la na mesma relagZo processual de conhecimento. E célebre, ‘2 propésito, a liclo de Liebman, segundo a qual a ago condenatéria “‘morre por consumacio” a0 proferir-se a ventenga, sendo a execugto, de que ela nao preseinde um “novo ¢ separado proceso” (Processo de execucéo, 1946, p. 83). Pontes de Miranda, 19 mesmo sentido, esclarece que a senien¢a condenatria, embora possua alguma eficdcia exccutiva, limita-se a possibilitar que a execugio se faga fem processo auténomo ¢ subsegiiente, jamais na mesma reluyde processual {“a sentenga condenatéria nao executa ~ permite a execugic”, Tratado das agdes, v. Vs p. 5). Esereve Rosenberg: “Porém os processos de execugio e de conhecimento (process em sentido estrito) ndo formicns wma uni- dade: 0 segundo tem por finalidade a resoluedo: 0 primeiro, & realizagio das pretenses. A execugto forgada nfo é munca parte integrante do processo em sentido estrito, nem mesmo uma conse- qiiéneia necessiria dele” (Tratado de derecho procesal civil, 5. ed. alema, Buenos Aires, 1953, 3° v § 169, Il, 2). ‘Outros processuatistas. mosiram-se menos intransigentes 20 recusatem-se a admitir a existéncia de agdes executivas, procedendo do mesmo modo como © fizeram Buzaid € Frederico Marques. Embora as recusem no nivel institucional, preservando a cétedra livre da “novidades”, no plano pragmitico das contigéncias ¢ necessidades forenses, sentem-se A vontade para admitir as sentengas executivas. E 0 que se dé, por exemplo, com Emane Fidelis dos Santos que. tem seus comentérios, escrevers: “Fazendo comparagio entre as duas espécies de sentenga, Pontes de Miranda considera que, nas sentengas de pura condenag&o, fica existente ainda uma Jitha discriminativa centre as esferas juridicas de uma e de outra parte. Quer dizer, quando 6 juiz. condeaa, 0 patriménio do devedor permanece como estd, 86 padendo vir a ser alterado, depois de atacado pela agio executdria, exatamente porque a sentenga, por si 6, nfo determina a passagem Ue bens de um patriménio para outro. Na agin executiva lato sensi, 20 contratio, a sentenca j4 determina 0 que deve ser cumprido, reconhecendo que algo esta ilegitimamente no patrim@nio de outrem, ‘quando nfo deveria estar” (Comenidrios ao Cédigo de Processo Civii, Forense, 1980, vs 3°, tomo T, p. 242). Pouco mais adiante, (© ESTADO DA QUESTA NA DOUTRINA BRASILEIRA a prossegue 0 jurists: “Em trabalhos anteriores, fomos expressos em hegar a nalureza executiva da aylo de reintegragéo de posse. Chamando-a simplesinente dz imerdita, caracterstica que-niio esten= dlomos A agdo reivindicatdria, Em vista, porém, do aspecto de su fficdeia, conforme doutrina Pontes de Miranda, aio hi nenhum neonveniente na classificagio, pais a agtio pode ser iaterdital e ter, fem consequneiz, a eficdcia exccutiva ou mandamental, assim com, ‘nzora, aémitimos, pelo menos doutrinariamente, a efiedcix exeoutiv da ugdo reivindicatsria, bem sisteratizada por Pontes de Miranda © Ovidio A. Baptista da Silva. Retifiramns, parcialmente, portanto, fnosso pensamento” (9. 243), Para o jurista de Minas Gerais, “tealebre clussificagdo de Pontes de Mirunda”. propugnando a exis- réncia das dons novas classes de sentengas, as executivas € man- damentais, “aplaudida ¢ notavelmente expticada por Ovidio A, Baptista a Silva tem rigor cientifico ¢ € de foto necesséria para que se entenda a diversidade encontrada em cada uma de tais sentengas. Na vezdade, como dizer simplesmente que a sentenga que Gecreta 0 despejo ou a que reintegra 0 possuidor na posse do bem sejam simplesmente condenatéris, quando 0 proprio comando, expedido pelo érede jurisdicional, ji 6 o cumprimento satistative da pretensio”" (p. 241). ‘Ao voltar-se para a citedra, no entanto, redigindo obra didétics, recua Emane Fidelis dos Santos para esta posigo indefinida “Recentemente, parte da doutrina pretende ainda a existéncia de mais duns espécies de agdes: a executva lao sensu e a mandamental ‘A primeira corresponderia & senienga @ que se aderisse o elemento de auto-executividade, como ocore nos pedidos de reintegragao de posse. A segunda seria agio que objetivasse sentena ultrapassando dda simples declaragfo. Além do elemento dectaratério, ainda se fordenava o cuniprimento de alguma coisa, E 0 caso do mandado de seguranca e do interdito proibitério” (Manual de direito processual civil, 1 vi, 1994, n. 94) Tgualmente Humberto Theodore Hinior, exrevendo seus comen- titios, admitin que determinadas sentengas “no dizer de Pontes de Miranda” sejam “preponderantemente executivas”. Escreveu 0 Juris: ta: "Nas agGes de despejo de reintegragio de posse, embora haja sentenga que condena & enlrega de coisa certa (prestagio de dar ou Gp retin), a execugio de seus desisSrios nfo segue o procedimento 2 seuspigio & EXECLEAO ‘comum dos arts, 621 et seq..E que essas ag6es, além de condenarérias, so “prepondesantemente executivas’, a0 dizer de Pontes de Miranda, de maneira que ja tendem A execuglo de soas sentengas indepen- ddentemente do proceso proprio da execugio forgada. Assim, no dlespejo, o locatirio, apés a sentenga de procedéneia, sera simples- mente notificado a desocupar o prédio ¢, findo o prazo da notificagio, eri de logo expedido 0 mandado de evacuando, sem sequer haver oportunidad para embargos do executado. Da mesina forma, ne feintegragdo Ue posse, a exccugto da centenca faz-ce por simples mandade e ndo comporta embargos do executado, Trata-se, como ja fi dito, de agdes executivas, lato sensu, de modo que ‘sua cxecugio ¢ sua forga, e no efeito da sentenga condenatéria , Como io ha embargos nessas execugSes, 0 direito de retengdo que acaso beneficie o devedor haverd de ser postulado na contestacio. sob pena de decair de seu exescicio” (Comentarios ao Cédigo de Process Civil, Forense, 42 v., 1974, p. 293-294). ‘Agora, passados quase vinte anos da publicagio dos coment ios, ao voltarese para a cétedra, escrevendo obra diditico, o jurista dobra-se & “trilogia das trés ages”, ignorando as exeeutivas € mandamentais (Curso de direito processual civil, 8. ed., 1992, 1° vm 497). No que respeita & exclusividade das trés ages cléssicas, allo poderia ser outra a liglo de Liebman, cyja influgncia na dovtrina brasileira todos conhecem, Depois de dizer que a “funglo jurisdi- ‘ional consta fundamentalmente de duas espécies de atividade muito diferentes entre si"; ¢ de mostrar que “exame da fide", a fim de descobrit ¢ “formular” a regra juridica que deveri regular © caso ~fancio esta da primeira espécie de jurisdigso, caracterizada como Fangio cognitiva -, onde “a atividade do juiz é prevalentemente de cardter logico” (Processo de execugao, cit, § 2. n. 18), afirma ser, portanto, “natural que a cognigio e a execugio sejam ordenadas em lois processos distintos, constitides sobre principios e normas diferentes, para a obtengao de finalidades muito diversas” (p. $1). © jurista vai ainda mais Yonge, para mostrar a autonomia dessa segunda fungio jurisicional, que ele identifica com aquela destinada fa realizar as “operagbes priticas” tendentes a tornarem efetiva a “regra juridica concreta” estabelecida pela sentenga, indagando se & cae hnigdo e & execugio sesiam apenas fases de wma mesma demand (© ESTAQO DA QUESTA NA DOUTRINA BRASILEIRA 23 ‘ou, ac contrérin, “dois processes separados e auténomos", para conchir com esta assertiva: “A doutnna européia nfo duvida em considerd-los auténomos. Assim era em diteito romano, pois a acti tudicati era agio que nio diferia de todas as outras sendo por ter ‘como pressuposto a existéncia de iudicatum antesiormente proferido” (p. 82). E importante ter presente a referéneia feita por Liebman a0 direito romano ¢ & actio ixdicati, pois, como veremos, a ago ¢ @ sentenga condenatérias tém origem © compromisso inarredével ¢ definitive com o procedimento do ordo tudicivrum privatorum, mais precisamente, com a estrutura e fungdo jurisdicionais, cuja vertente Fomana remonta a0 direite privado da actio, seja ele 0 do ordo judictorum privatorum, seja, no sireito romano posterior, © do fistema da cognitio exiraordinaria, ambos opostos & tutela interdital. Partindo destes elementos conceituais, é que Liebman pode coneluir que a “agio condenatéria, da mesma forma que as outras agdes, more por consumagio, isto é, por haver atingido o seu fim ino momento em que passa em julgado a sentenca, A execugio, na ‘eventualidade de ser proposta, representa novo € separado processo” (p. 83). Nem poderia ser diferente, pois a esséncia da condenagie, como mostra Liebman, desde 0 direito privado romano, pressupbe que a lide que a comém encerre-se com a sentenga de procedéncia, sendo inteiramente sem base doutrindria ou hist6rica a tentativa de legitimar 2 universalizagio da condenagio, propondo que as agdes que Dinamarco denomina “sineréticas” incluam-se na mesma classe. ‘Aliés, nem teria como explicar a autonomia do Processo de Execugio (por eréditos) — defendi¢a com tanto ardor pelo jurista de Sio Paulo -, se no se admitisse, como premissa, essa “morie por conswmagdo” da 230 condenat6ria, pois a execugto somente adquire f condigdo de um processo auwénomo por se ter separado da cognigio, em que, como diz Liebman, a. atividade do juiz € “prevalentemente de carter I6gico”, encerrando-se com a sentenga, tal como testemunham os ars. 162, § 1% @ 463 do CPC. Na verdade nem seria proprio dizer que 0 Processo de Execugao (por eréditos) adquira autonomia, a partir da separagdo das “ope- races préticas” que o formam, daguelas atividades “prevalentemente de cariter [dgico” que constiuem 0 Processo de Conhecimento 24 surispigao © exzcugio (Liebman, p. 79), porque essas atividades nunca estiveram juntas e, simultanenmente desenvetvidas, nem em sua origem, pois a conden naglo tomnivse possivel conceitualmente apenas quando a semenga desta espécie encerta a relacio processaal, relegando para outra relagio Juridica, soja jurisdictonal ov prtvada, a fungdo reatizadora do enunciado seatencial, O que caracterizava o procedimento privado da actio, no direito romano, era justamente a auséncia de mtividade executéria em seu intetior, de miodo que defender a autonomic do Processo de Execugdo ipor créditos) ean mesmo tempo admitir 0 “sinetetismo” de certes ages como um fendmeno naturale irrelevante para descaracterizar 0 processo de conbecimento e a condenatoriedade que the ¢ essencial € nfo apenas incidir em contrudigio l6gica, mas iguaimente anulat o proprio conceit de condenagio. Para compreender natureza da setience condenutéria modem, © seus compromissos com a historia, de moto a resgatar a classe das apdes executivas @ mostrar que ax duas espécies nfo se confundem, € indispensavel invesiigar a gencalogia dos respectivos conceitos, revelando as determinantes hist6ricas responsiveis pela universalizagio das agdes condenatérias e o correspondente desapa- recimento das agdes executivas 3 CONCEITO ROMANO DE JURISDICAO E A JURISDICAO NA DOUTRINA MODERNA objetivo a que nos propomes torna neczssirta comegur dando uma breve nogio do cunceito de jurisdigdo em dizeito romasio, pois este, como tentaremos mostrar, € © verdadeiro paradigma que emarca e condiciona 0s demais conceitos ¢ institutes com que a ciéncia processual moderna clabora suas categorie Como hoje se sabe, havia em direito romano dois institutos de protesdo ¢ defesa dos direitos, capazes de ser invocados perante os magisrados: a actio.e 08 interdicca, além de outros meios extra- ‘ordindrios, como os tiltimos, como as denominadas stipulationes Praetoriae © restitutio in integrum, tidos estes porém, especiaimente 9s interditos, como providéncias de natureza administrativa, exercidas pelo praetor romano, distintas da verdadeira jurisdigao. A doutrina neste particular & pacifica ¢ praticamente undnime, podendo dizer-se que as raras opinides divergentes, como € 0 caso de Giuseppe Gandolfi, em sua obra sobre processo. interditat (Contributo atte studio del processo interdittale romano, 1955), apenas confitmam a unanimidade e mostram que, para a doutsina mais antiga ~ especialmente para os romanistas do século passado, que € aquela que ora nos interessa -, somente 0 processo da actio, que se desenvolvia através do procedimento Wo ordo judiciorum privatorum, possufa natureza jurisdicional ‘Talver foese eispensvel, dada a concordéneis da doutrina romanista sobre este ponto, invocarem-se ligdes de juristas, para confirmé-ta. Coniudo, ser ilustrativa esta breve investigago que faremos'nio tanto para comprovar nossa assertiva, quanto para esclarecer a cadeia dos demais conccitos que dele derivam, Nisto alifs, nesta recfproca inferdependincia e harmonia conceinal, préprias do que ele denomina 26 rs suaIsDIGAo & EXECUCAO “eténcia normal", reside a extraordindria releviincia do conceito de saradigma peoposte por Thomas Kuhn (A estrutura das revelucdes nificas, original inglés ve 1962, trad, bras, de 1975). a) Embora mostre que, no diteito romano primitivo, 0 conceito Ge iurisdictio talvex Fosse mais amplo do que em diseito zomano cldssico, Francesco De Martino, em obra clissica sobre o teme, indica inimetos textos, particularmente do Digesto, para mostrar que. @ partir de um determinado momento da evolugto de instituto, especialmente no perfada clissica, o campo da jurisdictio compre- endia exelusivamente a fungdo de dectaracdo do direito, excluidas. portanto, dela todas as demais atribuicdes desempenhadas pelo orctor iais como as stipudationes praeioriae, os intecditos, a restivario in iniegrum, a missio in possessionem ete. Esereve De Martino: “Infatti come gid durante I'eta i Cicerone la nozione strettamente tecnica di iurisdictio, ael senso di un singelo € specifico atto del processo, si 2 perduta nella terminologia usual. cosi nelle fonti giuridiche dell'impero, i vocabolo non indica pid tuna parte dela funzione dela magistrato nel processo formulare, ma tutta la funzione, cio un ius dicere nel senso ampio. Ma anche cosi, la parte sostanziale della concezione originaria se & conseryata. Ius dicere 0 iurisdictio compreende tutti gli atti diretti all costituzione del processo, designandoti con il loro carattere pit eminente, la dichiarazione del diritto. infatti, il valore fondamentale ed originario di iurisdictio come dichiarazioné del diritto si & manteauto in pit testi” (La giurisdizione nel diritto romano, 1937, p. 149) Esta concepgdo estreita de jurisdigdo, como simples deciaragao de direitos, estava firmemente consagrada em direito romano, como cconseqiiéncia da oposicdo entre os conceitos de iurisdictio e imperium, de modo que 4 jurisdigo acabou sendo limitada a0 procedimento ordindrio ~ procedimento do ordo indiciorum privaiorum ~, dado que 0 pretor romano que “pud dirigere, costringere Ia volunta del cittadino con la minacia di gravi sanzioni come missio, pignoris capio, multae dictio” - nio pode ele préprio proclamar diretsmente a existéncia de um determinado direito (De Martino, p. 219). Em Ultima andlise, ordenar nio era faculdade ou poder que se incluisse no conceito de iurisdictio. Esta era a razZo que impedia a incluso dos interditos no,conceito de jurisdigdo: * emanugio dos GONCEITO ROMANO DE IVRISDIGXO a interditos representava um ato de vontade do pretor, mais do que © ato de inteligéncia, que pudesse corresponder a urna deciaragzo Ue existéncia do direite, Diz De Martino: “Per gfinterderti non vé sticuna prova specitica delle font che li referisea alla iurisdictio. Non ccore Tievocare i molti dissenst intomo alla natura, all’origine ed alla fanzione deg!’interdetti. Che essi racchiudano un comando 0 un divieto, condizionati all'esistenea di pressuposti di fatto, non ancora accertari (grifado por nés) ma da accertarsi in caso di contestazione © violazione dell'interdetto, & indubitabile. Che questo atto di volunta det magisiraio (uovanene ycifaues) oon rieetti nella Surisdicdy, a parte if nessum riferimento delle fonti, mi sembra derivare dal fatto 2 Tinterdetto pone un vincolo ginridieo, di natura pubblicistica, delle parti di fronte al magistrate, mentre le norme del diritto privato, come da wempo si giustamente osservaio, rappresentano il rico- noscimento di un diritto originariamente appartenente ad un pater familias, cio& ad un titolare de sovranita, non assorbito nella pid asta sovranita statuale. Il dirito privato non dice: io ti ordino 0 ti vieto di far questo; ma io siconosco in te Mesistenza di questo potere” (p, 232). As razdes pelas quais se excluem 0s interditos do conceito de Jurisdicio, portanto, so estas: (a) 0 “comando” imposto pelo pretor era “condicionado”, quer dizer, 0 magistrado ordenava com base num dirvito nom ancora acceriato, o que significa afirmar que nfo teria havido, ainda, “composi¢l0” (Cefinitiva) do conflito; (b) o interdito estabelecia um vinculo di nature pubblicistica, a0 passo que 0 ‘ordenamento juridico privado somente poderia reproduzir um reco- nnhecimento (declaragdo) de direitos, munca uma ordem, declaragao esta relativa sempre a uma relago de direito privado. E interessante comparar estas duas premissas, por tnelo das quais limita-se 0 conceito de jurisdigdo. apenas 2 fungio declaratéria, com © que acontece no diseite contemporineo, particularmente n0 ireito brasileiro, por exemplo, com 0 mandado de seguranga que, no obstante ser reconhecido € elogiado como um instrumento de alto valor prético, em nossa experiéncia judiciéria, nfo foi capaz de estender seu campo de incidéncia &s relagoes juridicas privadas, entre articulares. E sio amplamente conhecidas as dificuldades com que se debateram nossos primeiros doutrinadores para incluir o mandado de seguranga dentre as ages. Para muitos, ele seria apenas um 28 suRIspIgao E EXECUGAO “remédio” ou, no méximo, uma forma de protegio de natureza acinisteaiva, inconfundivel com as verdadeitas «tgdes, pois também para a concepgo modema 2 jurisdi¢do nfo produz ordens ~ como produz a sentenga de procedéneta no mandado de seguranga ~, mas ‘apenas declaragées, Explica-se, assim, esta extraordinsria afirmagio de Liebman: “Nao & fungio do jutz expedir ordens &s partes ¢ sim unicamente declarar qual é a situagdo existemte entre elas segundo © dircito vigemte” (Processo de execugit. p. 33). Considerase extranrdiniria essa afirmagio de Liebman apenas por 81a 0 jurista feito no Brasil, estando ele emi contato diteto com agces tipicamente mandamentsis, como 0 mandado de seguranca, @ perants uma jurisdigdo acentuacamente publicistica, como é a nossa, porque, perante a doutrina européia, especiatmente de inspiracdo fr como € a italiana, sua assertiva seria recebica com naturalidade. Também Henry Virior, consagrado processualista francs, ao conceltuar a jurisdicio, ccomrapde avs “actes de jurisdiction” “les actes. de commandement” (Guudes de procedure, Bordeaux, 1956, p. 41), isto em razio de dios atos de “commandement” nio declararem 0 direito entve os litigantes. Diz Viaioe: “Aujousd'hui comme autrefois, il y a des actes de juge que l'on ne peut faire rentrer ni dans sa jurisdiction gracieuse, ni dans sa jurisdiction contentieuse, des actes oi il ne dit pas le droit, mais par Tesquels il permet, ordonne ou defend queigue chose, soit em vue darriver la reconnaissance d'un droit, qui est ou qui peut éte ttigieux, soit en vue d'assurer Ta sanction d'un droit qui ne a jamais &€ ou a cess de I'ire”. Um dos exemplos de ato no jurisdicional contido na jurisdic