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Consuelo Quiroga marxismo: manifestacées aw no ensino da metodolo- gia no Servigo Social aborda questao fundamental para o en- sino da Metodologia no Servigo Social. Contribui para revises e avaliagdes no processo da for- p 0 6 ITI \ | TI A i manifestacoes no ensino da Metodologia no Servi¢o Social | nvasdo positivista no Consuelo Quiraga tedrico-metodolégica, rompen- do, assim, o muro da especiali- zacao do Servigo Social. O texto sonda, de um lado, as contaminac6es e invasées posi- tivistas na propria tradigao mar- xista; por outro, examina como — ou até que ponto — o Servi- 0 Social tem se comprometido com 0 marxismo. Através de andlise dos equivocos cometi- dos no processo histdrico, a au- tora busca uma via de interagao mais fecunda e legitima entre o pensamento critico-dialético e o Servico Social. 9 2 a x é < 2 ° 2 5 = e a 3 & 3 o s z 361.3018 O8i 199 ex: 00343) 3 "ysss24!s03205 S cortez el San somente na décadade oitenta (por lm feixe de raz6es mulliplas, en- tre as quais as de ordem politica ‘eram muito ponderaveis) que opensamen- to marxista comeca a influir significativa @ abertamente no Servieo Social no Brasil. A partir dai, a tradigdo inspirada em Marx dai- Xa de set esiranha ao universo intelectual dosassistentes sociais brasileiros e passa a inscrever-se como constitutiva do proceso ‘de renovacdo profissional em curso nestes anos. Parece nao haver duvidas deque esta in- terlocucdo entre 0 Servigo Social a tra ‘eo marxista configurou ganhos efetivos pa- aa profisséio— desde 0 alargamento dos ‘sous horizontes tematicos e teoricos ao es- Clarecimento do estatuto do seu sabor e da Sua funcionelidade s6cio-institucional. proprio amadurecimento da interiocu- ¢¢80, entretanio, tem criado as condic6es pa- fa colocar em xeque as suas modaldades de etetivagao. De lato, vern-se constatando que a incorporagao do legaco de Marx pe- los assistentes sociais desenvolve-se som superar 0s vieses do positivismo e co ecia- tismo. Vern-se observando que 0" marxis- mo” apropriado pelo Servigo Social esta vi- ciado por esquematismos e vulgaridades, Debrugando-se competentaniente sobre este arco de problemas, a autora prooura iluming-los contemplando os dois polos da interloougéo em tela: ce uma parte, sondan- do, na propria tradigao marxista, as suas ‘contaminagdes positvistas, de outta, exami nando camo o Servico Social tem se com- prometido com “um marxismo sem Marx”, haurido em fontes de segunca e terceira maos. 0 texto de Consuslo Quiroga (simples sem ser simplista, despretensioso mas so- Iidamente articulado) contribul para fazer avangar a interlocugao mencionada: preci- samente pela dentincia dos equivocos até agora cometides, desobstrui a via para uma, interacdo mais fecunda e legitima entre o pensamento crilico-dialtlico € o Servica So- ‘ial — que passa, necessariamente, pelare- ‘usa de substituir Marx pelos seus intér- pretes. José Paulo Netto INVASAO POSITIVISTA NO MARXISMO: manifestagoes noensino da Metodologia no Servico Social +0054 5 Registro: 003439 Consuelo Quiroga td Dados intemacionais de Catalogagéo na Pubicagéo (CIP) (Camara Brasileira do Live, Se, Bree) pte mura mots wen sh muitos no cro oa Canaan 2 eso Paulo Cones, 135 ee Dibogat SBN 35 corr songs cl Sega N 0 i ARX| 1 ' cpp-361.3018 = = manifestagdes noensino — aie da Metodologia no Servico Social 2 Sorvigo soci: Hstudo e ensing 3oL 307 5. Srvigosolals ideologie f SOL S eHioA INVASAO POSITIVISTA NO MARXISMO: manifestagées no ensino da metodologia no servigo social Consuelo Quiroga Capa: Carlos Clémen Preparagao de originais: Vicente Chel Revisio: Maria de Lourdes de Almeida Simone Brito de Araujo Supervisdo editorial: Anvonio de Paulo Silva Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorizacio expressa da autora ¢ do e: © 1991 by Consuelo Quiroga Direitos para esta edigio CORTEZ EDITORA, Rua Bartira, 387 ~Teb: (011) 864-0111 (05009 - So Paulo SP Impresso no Brasil ~ maio de 1991 Ao Neco, André ¢ Inés, sensibilidade cotidiana. A Matilda, por tudo vivido. A todos que buscam na teoria e método de Marx um suporte para a construcio de uma sociedade solidéria, fraterna e libertéria. SUMARIO Apresentagio a4 1, INTRODUGAO: Uma proces ancorada nna experiéncia docente . . 1.1 —0 pereurso te6rico ie 1,2 — Contomos metodol6gicos CLAREANDO AS PRIMEIRAS INVASOES (© marxismo ap6s Marx 2.1 — Censirio Sécio-Hist6rico — Desenvolvimento capitalista das forgas produtivas ¢ 2.2. — Gheorghi Plekhdnov — O materialismo deter- minista 2 2.3 — Eduard Bernstein — 0 revisionismo cientif- cista .. ieee inte . UMA INCURSAO NECESSARIA: a O ideésio positivista 6.1... Ape D0. 3.1 — Censrio Sécio-Hist6rico — Da géerubada da or dem feudal a0 sungimento do of 3.2 — Auguste Comte — A naturaliza 3.3 — Emile Durkheim — Os conceitos no podem ‘substituir” as coisas... ............. 52 3.4-— Max Weber — A neutralidade axiol6gica neces- sdria A construgio da ciéncia social ....... 55 4, APROXIMANDO-SE DAS FONTES: ldéias de Marx no tempo de Marx 6... cece eee eee 59 4.1 — Cendrio S6cio-Hist6rico — Contradigio entre produgo social e apropriagio privada dos meios e excedente da produgao . . -. 60 42 — Resgate da heranga caltural .. . . +. 65 4.3 — Algumas bases da teoria e método em Marx. 68 5, UM RE-OLHAR SOBRE 0 REAL: O ensino da me- todologia no Servigo Social .... 2.2... 83 5.1 — A origem da disciplina: Uma visto fragmentada 83 5.2 —O suporte te6rico da disciplina: Marxismos 5.3 — A formagio dos docentes: Marx reinterpretado 98 5.4 — As €nfases teméticas: Totalidade rompida por abordagens unilaterais .. . hee ++. 106 5.4.1 — Fatalismo: hipertrofia das forgas produ- VIS eee eee ee ee 109 5.4.2 — Voluntarismo: a hist6ria reduzida A eonsciéncia dos homens»... 2... 112 5.4.3 — Cientificismo ou a negagao da vincula- go da ciéncia & transformagaio social 6, NOTAS FINAIS OU INTRODUTORIAS DE UM NOVO ESTUDO .... Bibliografia .... Apresentacao Apso Css sis Scare omer estes Sa pe ee ore rae ge 2 cre at ite compres etal gay el teigocat enna mone ciate Rare Sea, Ses eee enna ns da vide voncendo ‘espagos ¢ distincias em nossas trajetérias diferenciadas de pica eyed ogre nlrb ope eee api pron a per oe perigee ON Fees asaie te teete canes einem Se Ee eee eae Ee ee are iar Importa registrar que este niio é um trabalho a emit. Ft do ume aes eee mis ee ee oy seiinaimelosua sive, potomdamento cette etic maspobreud petinar eee ee ee Sees een Somes tere et a Oe rr eS ee ee asin ei Se ee ieee Ezcola de Servigo Social da UCMG, na época. da elaboragio do conhocido “método BH”, quando apesar das intempéries da ditadura se investe na proposta See cen oes alae ee Gun ree ree Sst a vie ees on mane See eee eee WEBRSS Sits ceca! Gln ane Sa eae ar en op pe ot geen 28 ee de mae ra ae Nae ee ee ee ee oat fete ced GATS, Anata creme ieee nee Fey polenehond trpecebe deeper ee ee ean cated ee ae eae ret ee ee ee a en ee pe er early ranma eg canes eters ore eee descnvolvimento da sociedade, tido como produto reflexo da infraesirutura Sat eee eae acer ee re Se a cee a ae ee eee Sees coca hr tstonta que a referidaimpregnagio tm suas rages na pra divelgagio das iia de Mack parr dh Tnemactonal (899-1919) oe Sottendo as infneas da cltra posta eno storcameatepreorenn is tinge on in opr mrss come Berta sina ete Ours. Bre situa nacl postin, ext prcoe formulpbes cases de Got, Durbin, and tse tole a neataldade snaloge ds eta ae Weber, omborarconbocando que as eboragies deste dae se inant do postive, Tuminada por tis eertci 6 fetus a anise — com as devas oss ia ois seo ups uni& docnts em Servis ieraiaesextuss catocas me ‘Tegitio leste de ABESS (MG, RJ e ES), Svan anue Os reminds dtectads sho preocupants desfiadorcs, em especial la idetica de aguas atguagiee = einas que por hens Sak Pere os propiondoceias “qo tn afiodo uma das daca wise mee topics do expllngdo do posto soc no So fepesse no Aub oa ‘Academia. Atul, sob nova ropogens, ase jveferida, manos sid evn pot na mara, Sf oat come te, fej aa formagto docent, ais eomo na slo de winds prvlgiaan, extada fragmentariamente daquela abordagerttotalizadora da hist, ‘A ane apesentadnpecoceveedat fis para acaba intle- tua fsa do pnaumeno clissco camo “onte pasnie" do enenlei tment ds frmalpie teens pooes a preosupa com o tiger alee ‘otto da tora: ovina ent ancontogde teem wseu tga sn ‘ctor revista ume teraira de eleva poencial provocstvo, ae Pls sa niveraidade € cape tvminar gucsiessingulre, Tal movimcat, no ria, éibuea Jo traiento anal shibio se blo de made on tando-e tents as generalingoce specie quo eevaciem sx atcateiaies do fenmeno em queso, atimcortoo apsionaneno aefeeio acy een limes doe ges, o uc dude ate ravers flo sia ted 5 pr Sane laine ie ih 1 para 0 debate sobre 0 significado do ensino da metodologi no, Servs Sei a en aa oer ce ce em ma Sas Sel pon ae ets SSE ot cc iain «us alioaees ace eas Soe side Camedia enna Sec ae Smee ds icra gore ne mis mai red Sapa ead mtasa eee en See ee ba Se eat aa naan ac nee cee eo Si propi gm ape eo mona cn ee aa oe Sri lean comes Sapo tie Rio, abril de 1991, Marilda Villela tamamoto _ NTRODUCAO: Uma preocupagao ancorada na experiéncia docente ponto de partida dessa trajet6ria, que faz parte das mo- tivagdes bésicas deste trabalho, diz respeito a minha propria ex- periéncia como docente da disciplina Metodologia no Servigo Social. Essa disciplina define-se, formalmente, como exigéncia do curriculo minimo da formagao profissional do assistente social promulgado em 1982 pelo Consetho Federal de Educacio. A in- clusio dessa disciplina ¢ resultante de toda uma sérle de ques- tionamentos que se deram no interior da profissio, como “res- sondncia” de embates que vieram ocorrendo na sociedade de modo geral. Bla veio substituir a “clissica” abordagem da questao me- todoldgica no Servico Social realizada através das disciplinas de Servigo Social de Casos, Servico Social de Grupo ¢ Servico Social de Comunidade. A énfase dada por estas era muito variada, mas, podem-se apontar, tendencialmente, algumas de suas caracteris- ticas ligadas & perspectiva pragmética da profissao: preocupagao com as situagdes-problema; predominio do trato com o real; En- 9 fase no desenvolvimento ¢ sistematizagio de préticas por vezes imediatistas, sem maior “cuidado” com questées teéricas; dominio da discussio do “como fazer”, muitas vezes presa a visdes de método instrumentalizadores ¢ atadas a uma mera sequléncia de procedimentos. O colocé-lo no curriculo mfnimo de modo mais amplo, como Metodologia, permitiu a possibilidade de um outro tipo de abor- dagem, Com isso, abriu-se 0 espago para 0 questionamento da Prépria Metodologia sob a ética de diferentes correntes de pen- samento. Hoje, as conemtes de pensamemo, que sao estudadas nessa disciplina, se vinculam, predominantemente, & tradigao po- sitivista, 4 visio fenomenoldgica ¢ & teoria social de Marx € vertentes marxistas. A concretizagio da implantagio dese novo curriculo se fez diferentemente em cada Unidade de Ensino con- sultada, Assim, a escolha desta ou daquela outra corrente ou a énfase que se dé a cada uma delas estdo diretamente ligadas & maior ou menor clareza quanto aos objetivos da formagio pro- fissional que se quer promover. A menor definicao desses obje- tivos pressupde maior possibilidade de continuismo da posigao eclética que tem predominado, historicamente, no Servico Social. Quanto maior a clareza, porém, no que tange aos ramos da for. magio profissional, maior € o respeito ¢ a necessidade do debate claro das diferentes concepgbes que emolduram o entendimento da questo da Metodologia Minha prética pedagdgica com essa disciplina revelou uma Preocupagio bisica no que se refere aos recortes que se fazem no seu desenvolvimento, ao sc repassarem os conteddos das di- ferentes teorias interpretativas do real. Esses recortes ou delimi- tages, justificados pela necessidade de simplificagao, tendem a descartar alguns contetdos teGricos fundamentais, submetendo-os 4 um processo de reducéo ¢ atrofia do significado mais amplo que contém. Uma primeira redugio estaria ligada ao repasse das dife- rentes perspectivas tedricas em sua dimensio apenas epistemo- 10 eT Logica, tendendo-se a eliminar a conexo entre os princfpios so- ciais e metodol6gicos que cada uma delas encerra, Assim, no Positivismo, por exemplo, define-se em Comte toda uma visio das relag6es da sociedade — “a sua estitica, a sua dindmica” e outros conceitos-chave —, que 0 levou a explicar nogdes gerais sobre a estrutura ¢ o desenvolvimento da sociedade — como © papel dos individuos, a evolugao da sociedade, 0 progresso, a ordem, 0 dever, a resignagao, a autoridade, entre outras —, que so pano de fundo para a comprecnsio da sua démarche metodolégica. No entanto, eesa visao mais ampla fre- qiientemente nao é repassada aos estudantes de Servigo Social . Essa situacdo ¢ particularmente grave na anélise e no repasse do Materialismo Historico e Dialético, cuja formulagao também transcende 4 dimenséo apenas epistemoldgica ©, om seu cerne, se propée a ser uma concepgio da reproducdo e da transformagao da sociedade, tendo como base a préxis humana. Préxis humana que envolve 0 entendimento de um movimento no qual o homem, através de sua agio livre, criadora ¢ universal, gera ¢ transforma a natureza € a hist6ria , nesse bojo, a si mesmo, Este sentido ¢ alcance da proposta de Marx muitas vezes € negligenciado, limitando-se a reflexio sobre sua contribuigao no Aimbito da produgio do conhecimento. Uma segunda distorgio diz respeito a um Marxismo redu- zido ao entendimento do desenvolvimento da sociedade como produto reflexo da infra-estrutura sobre a superestrutura, super- valorizando a determinagao econdmica. Numa primeira impressio, poder-se-ia acreditar que essas limitagées estariam relacionadas ao néo-conhecimento da obra de Marx integralmente ou & sua leitura dificil, feita, muitas vezes, através de manuais, de sinteses ¢ de “textos de vulgarizacio cujo centro € 0 resumo do marxismo” (Andreucci, p. 67). eixo da argumentagio deste trabalho se voltaré para a impregnagio positivista que mina, no sentido de invadir as ocultas, todas as esferas da vida social, entranhando uma das concepgées u “nao-positivistas” da sociedade, © Materialismo Hist6rico ¢ Dia- Iético, 0 que, na concepgao aqui veiculada, o deforma ¢ compro- mete a sua propria significacao. O sentido de invasio as ocultas, esté, também, relacionado aos docentes que veiculam a proposta marxista, por meio de suas disciplinas, sem a percepgio, em sua maioria, desta impregnacao assimilada por eles, acriticamente. Mais além do significado dessa inquictagdo advinda de mi- nha propria vivéncie, uma outra justificative tem relacio com pesquisas que a Associagio Brasileira de Ensino do Servigo So- cial — ABESS — vern realizando e que enfatizam 9 necessidade de tais problemis mais aprofundados na abordagem da Metodo- logia no Servico Social*. Nesse sentido, um recente trabalho sobre “O Ensino da Metodologia no Servigo Social: Tendéncias e Al- ternativas”, cujo objeto teve por base a pritica docente dos pro- fessores vinculados a essa disciplina, desenvolvido durante os anos de 1987 © 1988 € hé pouco publicado, revela essa preocu- pagio, manifestada de diferentes formas, sustentando a necessi- dade da realizagio de estudos aprofundadores. Existe no Servigo Social toda uma produgio que influéncia do Positivismo e sua relaco com a profissio. No en- tanto, quanto a influéncia do Positivismo sobre 0 Marxismo, incipiente a discussio € em sua documentagao no Ambito profi sional. 1.1 — Opercurso tedrico pereurso te6rico que trilhei conduziu-me & descoberta dos caminhos iniciais, de que se desdobraram as questées que pretendo desenvolver. © Publicado pela Coste Baitora ema 1989, ua sésfo Cadermos Abess, a 9. NL 12 Foi necessério, para tanto, retornar 4 metade do século pas- sado, quando as idéias de Marx comegam a ser formuladas expressas, e sofrem o impacto do Positivismo, “hegeménico” na- quele momento histérico. Assim, retomei, por um lado, alguns elementos da polémica interna do Marxismo, naqucle momento vivendo a 2! Internacional!, e, por outro, quest6es do debate no seio das Ciencias Sociais nesse mesmo perfodo. Nao € preciso dizer que recorrer aos cléssicos, 20 ponto de partida dessa discussio, ¢ fundamental no sentido de “fonte nascente”, de esforgo de entendimento do processo desde suas origens. Reconheco a existéncia de diferentes leituras que se fi- zeram, posteriormente, dos escritos de Marx ¢ de todos os autores elissicos que pretendo retomar neste trabalho. O entendimento dessas leituras eriticas que vem sendo realizadas até os dias de hoje, foge, no entanto, a pretensdo da abordagem deste trabalho. (O caminho escolhido sugeriu uma primeira incurstio as pré- prias nascentes do pensamento positivist. Pretendo contextualizat a origem das idéias que vieram a configurar © Positivismo, na abordagem dos fatos humanos ¢ sociais, destacando, dentro do corpo de conceitos que conformam. tal concepgio, aqueles conceitos ¢ idéias que influenciaram as interpretagdes do Marxismo, distorcendo-o. Essas influéncias fo- ‘A? Internacional subscreve-se so perf de 1889 4 1914. Foi fundads no Congreso Intemacional de Trabalhadores, calizado em Paris em julho de 1889, onganizado pelos marxistes, © apleinava pathos ¢ sindicatos ve aluavam nos diferemes patses 4 Europa, numa perspeciva de constagio do socialismo Para relembra,emiovimen!o doe tabalhadores havi ciado a Assoelagio Toternacional dos Tisbathadores (1864-1876), qee te coustiolu aa chamada I* Internacional, en volvendo as orgunizagdcs a clnse trabalhadora europea, prineipalmente a Europ Ocidemal e Cental, com o inteilo de deseavolver 2 comuntesgio € a cooperagio centre associagGes de tabulbadores de diferentes pafses. Nesta Internacional, Mark ¢ Engels exerceram um papel decisivo em seus encaminhaments, [AP latersacional uabalbou com a8 ssi de Marx, mis jf sem Marx. Contou com Engels até sun more em 1895. Nela tomsiags corpo as questées que se pretendem sesenvolver nest trabalho —a"infileagio” no Maraismo das ids que conformavam © Positvismo raguele momento histéreo. 13 ram de diferentes modalidades, mas sero ressaltadas aquelas que aparecem de modo mais enfético no repasse da proposta de Marx, na disciplina Metodologia no Servico Social. Por isso, dos dois grandes expoentes do Positivismo, pretendo resgatar alguns cle~ mentos para a comprecnsio do meu objeto de trabalho. De Comte, a idéia de lei natural, de leis invaridveis no desenvolvimento da sociedade, ¢ um infcio de reflexio sobre a questio da ciéncia livre de valores, nos moldes da ciéncia da natureza, De Durkheim, que avanca sobre essas questées, recolherei, basicamente, as ques- 16es do método da nova ciéncia que se iniciava. B, ainda, com ‘Weber, cujas formulagoes estao bastante distantes do Positivismo, quero ampliar a reflexio sobre a questio da neutralidade axio- J6gica, como suporte A compreensao da separagio da idéia de construcio da ciéncia e da transformagio social. Por outro lado, 0 esforgo da obra de Marx levou-o a buscar desenvolver um corpo de formulagbes que pudessem ser, conco- mitantemente, explicativas do real ¢ emancipatérias, ou seja, que fornecessem elementos para a superagio da ordem social vigente. No entanto, a obra teétiea de Marx nao deixou de sofrer influéncias do momento hist6rico de que emergiu. Resgatov, do seu tempo, uma série de influéncias, como a rejeigio as ex; cages religiosas ¢ metafisicas da sociedade ¢, ainda, a visio materialist da hist6ria ¢ a preocupagio com o empirico, entre outras. Ainda que Habermas fale de um positivismo latente no pr6- prio pensamento de Marx, uma referéncia clara a influéncia po- sitivista situa-se no Marxismo que citeunscreven a2" Internacional (1889-1914), em que cresce a utilizagao das idéias desse fil6sofo pelo movimento operério internacional, “aumenta o interesse pe- los esctitos de Marx ¢ Engels e expande-se sua divulgacao” (Haupt, in Hobsbawn, 1987, p.361) ¢ se estabelece uma relagio, de fato, com a cultura positivista. ‘Como conseqiiéncia, defronta-se o surgimento de varias lei- turas, interpretagbes, distorgées: 14 “Quantas tentativas de decifrar, atualizar, superar o marxismo, Quantos ‘ABCs’, quanias crticas profundas, quantas ‘leituras Quantos herdeiros, quantos detratores, inimigos... quantos abar ddonos, quantas falsas fidetidades, quanto dogmatismo e quanto escapismo. Quantos crimes nao se cometeram e se cometem em ‘nome do macxismo, do socialisma.” (Paula, p. 47). Nos discursos de autores marxistas da época, produtos de diferentes leituras feitas de Marx, comecam a aparecer conceitos, categorias, énfases que nao cortespondem ao original, mas que siio, na verdade, resultado “dos olhos que o leram”. Na continuidade de meu percurso tedrico, retomarei o pro- prio Engels, que, em alguns de seus escritos, enfatiza determi- nados aspectos da teoria marxista que, se considerados isolada- mente, aparentam iniciar essas redugoes. © percurso que tentarei realizar abrangeré, ainda, alguns esiudiosos, como Bernstein ¢ Plekhanov, que expressam, signi- ficativamente, essa impregnagio em pontos que o presente tra~ balho pretende desenvolver. Nao almejo recuperar a polémica que se deu, entdo, no in- terior do Marxismo, mas apenas situar alguns dos elementos que, naquele momento hist6rico, expressaram as distorgdes que pre~ tendo realcar. Assim, Bernstein expressou uma posigio em face do mar- xismo que envolveu influéncias kantianas ¢ comtianas. De Kant, extraiu elementos que geraram a “crenga” numa ética socialista separada de uma ciéncia da sociedade. De Comte, a concepgio de uma ciéncia da sociedade empiricista, neutra, positiva. Ele classificou o pensamento de Marx como partidério ¢ tendencioso, ‘J que confundia julgamentos de fatos com julgamentos de valor. Para ele, Marx “subordina as exigéncias cientificas a uma ten- déncia e toma-se assim prisioneiro de uma doutrina (a de objetivo final socialista) que o impede de alcangar uma cientificidade ob- jetiva” (Lowy, 1987, p. 111). Esta s6 seria conquistada se tivesse como base a imparcialidade te6rica, 0 que é inviével pela vin- 15 culagéo do pensamento de Marx a construgio do socialismo. Se- gundo sua concepgio, 0 conhecimento dos fatos sociais deveria ser produto de uma sociologia cientifica e nao estar vinculado a0 socialismo: “A ciéncia é livre de toda tendéncia; enquanto o conhecimento dos fatos nao pertence a nenhum partido ou classe” (idem, p. 112). Segundo as premissas de Comte, identi pois, sua visio de imparcialidade & das ciéncias naturais, Em Plekhanov, destaca-se explicitamente a questio da su- premacia da determinacdo econdmica sobre as demais esferas da Sociedade, porque concede a historia humana atada a “Jeis fér- reas”, independentes da agio do homem. Em decorréncia, rea- firma-se uma visio naturalista, evolucionista, determinista, de um socialismo alcangével sem revolugao, uma perspectiva do Mar- xismo caleada em conceitos de corte positivista, como os de Dar- win e Spencer. Desse determinismo econdmico, desprende-se uma visdo de Marxismo que anula o significado hist6rieo da pritica social dos homens como criadora da hist6ria. Essas miiltiplas leituras interpretativas de sua obra levaram © proprio Marx, diante dos desdobramentos de suas idéias naquela €poca, em face do “pretenso” marxismo difundido na Franca, a dizer a Lafargue: “O que é certo & que eu nio sou marxista” (Haupt, p. 112). Finalizando 0 percurso que dard suporte 4 compreensao das desvirtuacdes positivistas mais comumente repassadas por piv- fessores da disciplina de Metodologia no Servico Social, ao abor- dar a teoria social marxiana, tentarei buscar, nos textos originais de Marx, aquelas passagens que explicitam mais claramente sua posigio diame dessas quest Todo esse percurso te6rico, que ndo é s6 produto do pen- samento, mas que se desprende da hist6ria, propiciaré um suporte metodolégico aptoximativo para re-olhar o real. “O pensamento vai impregnandoa hist6tia. A hist6ria se impregna do pensamento. E de repente dé uma forte influéncia reciproca, sentido da cons- 16 {ituigio reciproca do real e do pensado”, observa Octavio lanni (1986, p. 12), Esse posicionamento propiciard um olhar eritico constante sobre 0 objeto que pretendo clarear, ou seja, a relagéio entre Mar- xismo ¢ Positivismo, tendo em vista a influéncia deste sobre a interpretagao de partes do conjunto das proposigdes de Marx, que esto presentes no conteido da disciplina Metodologia no Servigo Social, que objetiva repassar essas proposigées. AS ques Wes que se suspeitam existir © que j4 foram, parcialmente, co- locadas estio, pois, ligadas: 1*) a0 repasse da teoria social mar- xiana como teoria do conhecimento, reduzida, muitas vezes, a “procedimentos” de conhecimento, desvinculando-se a relagao ciéncia/transformacio social, que € central na proposigao de Marx; 28) A outra distorgéo reducionista vinculada, por sua vez, a0 Te passe do marxismo reduzido & explicagdo de leis da sociedade capitalista, que se baseia na supervalorizacio da determinagao econdmica, ocultando 0 que ela tem de fundamental — ser uma relagio social historicamente determinada ¢ estabelecida cntre os mesmos homens, Esse ocultamento leva a obscurecer, a secun- darizar 0 cardter mutante € histérico da sociedade, provocando © alijamento do homem como sujeito hist6rico. 1.2 — Contornos metodolégicos Essa trajet6ria que se inicia na minha propria vivéncia pe- dagégica, ampliada pelas referencias tebricas ja demarcadas, de- ram-me clementos aproximativos em que me pautei, em termos iniciais, para estabelecer um processo de desvendamento do real. Desvendamento que representard um ténue véu, em face dos mui- tos véus que encobrem os fatos. Esses elementos conformaram 0 meu modo peculiar de abor- dara realidade. Esse modo peculiar 6, pois, produto da perspectiva 7 te6rica ¢ epistemolégica que assumi, impregnada de elementos de minha pritica de vida. A. escolhia da condugao metodolégica do trabalho passa por estas determinades € nao se restringe a uma mera opgio de técnicas e instrumentos de captagio ¢ andlise dos dados. Faco um primeiro reconhecimento do significado da hist6ria, no resgate do presente, que propicia uma interpretagio mais abran- gente € amplia a visdo “micro” que o objeto aparentemente pode ter. Nos dias atuais, existe uma tendéncia do pensamento cien- {fico a nao abracar as interpretagoes mais abrangentes, ficando na abordagem ¢ explicagGes singulares dos fendmenos, “sem a preocupagio de verificar quais so as implicagées, as ressonfincias desses singulares, dessas configurac6es particulares num todo que € a sociedade”. B acrescenta Octavio Tani: “6 uma tendéncia que implica no abandono da visio globalizante, da visio inte- grativa da realidade social. No abandono da historicidade do so- cial. No desencanto, por assim dizer sobre o que que ¢ a histéria, © que que 6 a sociedade” (Ianni, p. 6). Concordo com este autor quando coloca a insisténcia do pensamento marxista ¢ de outros na maneira de ver as coisas dentro de uma perspectiva globalizante da sociedade, sem perder a dimensio do todo. Isso significa pensar 0 singular dentro de uma visio geral ¢ do todo. Essa insisténcia esti relacionada com a prdpria vicissitude da sociedade burguesa que, embora tenha imensées transparentes, tendencialmente “no h6 davida que a maneira pela qual se desenvalve o trabalho, 2 divisio do trabalho, a distibuigio do produto do trabalho, a falienngio humane, a formacéo de grupos sociais ¢ classes sociais, 2 distribuigho do poder econdmica, do poder politico, da cultura ele. que toda esta complexidade de relagSes e process, instit ‘© mundo que € opaco. Um mundo que ¢ intrincado, dificil, que precisa ser questionado todo tempo”. (lanai, p. 18 A falta de transparéncia da realidade torna a investigagéo imprescindfvel. Se aparéncia ¢ esséncia coincidissem, ela nao seria necesséria, Assim, 0 reconhecimento do objeto deste trabalho, que é “questéo micro”, seré considerado, dentro de minhas pos- sibilidades, na sua relagdo com a sociedade, aproximando-o de determinados processos que se dio no interior desta. Nao tenho a pretenso de dar conta desse amplo empreendimento, Pretendo, na verdade, & chamar a atencéo para a necessidade de se estudar © problema para além de suas fromteiras, no Imerlor da propria, escola ¢ da Universidade e, ainda, para além do aqui e do agora. Nesse sentido, uma retomada histérica ganha significagao. Retomada de um passado nao pela cronologia, mas na sua di- mensio de “responsdvel pela constituicao do presente”. Sobre isso, Ianni acrescenta a elucidativa reflexdo: “A cronologia 6 s6 um gancho para se conhecer o presente. Ne- tmhum de n6s ¢ resultado de nossa biografia vista cronologicament. ‘Tenho certeza de que cada um de n6s & resultado de um aconte- cimento ou de alguns acontecimentos, excepcionsis em alguns mo- ‘mentos da vida. Que foram as descidas a0 inferno ou, entio, a8 ‘subidas aos cus, ou, ento, com alguns riscos do limbo, mas 160 6 verdade que tudo 0 que aconteceu na vida de uma pessoa ¢ responsivel pelo que a pessoa é no presente (..) Na verdade, hi ppassados que so determinantes, que so constituivas. E hé pas- sados que ficaram irrelevantes”. (lanni, p. 6). Reconhego a importancia do cotidiano, das pequenas situa- ges, entretanto, quero apenas realcar alguns momentos ¢ influén- cias que acredito serem importantes na determinagao dos proces- 508 sociais. Identifico o papel da teoria como “constragées organizadas” que me permitem “avizinhar” da realidade que pretendo desven- dar. © papel dessa definicao estaria na linha de oferecer ele- mentos referenciais para o entendimento 0 mais amplo possivel das questées que envolvem este trabalho, orientando sua formu- 19 lagao ¢ definindo diretrizes metodolégicas que permitam captar as dimensées bésicas que envolvem sua proposta fundamental. A teoria é um “guia” necessirio, baisico, e nio pode, de modo algum, ser absoluta, rigida © acabada, Sao, entretanto, os elementos tedricos referenciais que permitem captar os fatos, questionando-os em muitas de suas dimensdes ¢ superando as impress6es mais imediatas. Como observa Octavio Tani, “a realidade 6 complexa, 6 heterogénea, 6 contraditéria, Apresenta diversas Facetas, diversas peculiatidades, Se cevela sobre diferentes partes. Ea teflexio deve observar, deve examinat essa realidade, 6 fato, 6 acontecimento que estS em quesiso e tratar de buscar 8 ‘compreensio global que implique em compreender o fato como tum todo que seja vivo, nfo come um todo que esti dissecado ‘numa anatomia, noma fotografia, noma sincronia. Mas um todo ‘que se apresenta tanto quanto possivel, vivo”. (lanai, p. 1). Essa complexidade da realidade leva A consciéncia dos li- mites da teoria e, ainda, & necessidade de se assumirem diretrizes te6rico-metodoldgicas que nao reduzam a realidade ao esquema te6rico-conceitual que se defronta. Assim, 0 contato, através da pesquisa, com docentes ligados & disciplina Metodologia do Ser- vigo Social, em diferentes Unidades de Ensino, alargou ¢ apro- fundou o meu horizonte de entendimento. Mais do que simple: mente confirmar suspeitas ¢ indagagoes originérias de minha vi véncia, esse contato colocou-me novas interrogagées sobre 0 pro- blema. Assim, pois, partindo de uma determinada referéncia, nao a coloco de forma absolutizada, de modo a poder capiar 0 mais amplamente possivel 0 que de novo € nio-previsto a realidade sempre tem a mostrar. Nao deixo, no entanto, de lado as expressdes originérias do real. Elas informaram a reflexao, que, por sua vez, recriou esse real, desvendando dimensoes ¢ determinagdes nio percebidas ime- diatamente, mas que fazem parte de sua constituicao. O real, pois, antecede o pensamento, Este 0 labora ¢ faz. retornar & realidade como concreto pensado. Esse concreto & concreto por que € produto de infinitas determinacées. 20 A realidade © a teoria esto, portanto, intimamente vincu- ladas. A teoria tem uma relagio de comprometimento com o real, porque deste se origina € para este retorna ¢, na verdade, como elemento que pensa o real, entra na propria constituigao deste. Os contatos realizados nao tiveram a pretenso de ter um caréter verificacionista ¢ de generalizagio extensiva. O que me desafiava nesses contatos com a unidade de andlise era, tendo por base alguns elementos conceituais, conseguir identificar, para além dos dados em sua aparéncia, suas relagoes ¢ articulagées com a totalidade mais ampla da qual sio parte integrante, A pesquisa empitica realizada foi de natureza qualitativa, © que se tornou possivel por eu jé ter um trato anterior com a unidade de anélise, Por isso, fez parte da postura metodolégica adotada 0 fato de a minha relagao com 0 objeto se fazer conco- mitantemente de “dentro” © de “fora”. De “dentro”, enquanto docente da disciplina em anélise, numa Unidade de Ensino da regio escolhida. De “fora”, enquanto pesquisador, captando no- vos dados € analisando uma realidade. Quanto a escolha dos instrumentais, tive a preocupagio de escolhé-los visando poder coletar ¢ organizar os dados sistema- ticamente. A preocupagio com rigor metodolégico esteve sempre presente, na medida exata em que permitisse essa possibilidade de sistematizagao. Foi minha maior preocupagio a malcabilidade necesséria & captagiio da vivacidade da realidade. Nessa perspec tiva, as entrevistas com alguma estruturagio, mas flexveis, foram utilizadas como instrumento bésico. Além delas, coletei outros dados nos programas da disciplina em seus diferentes tratamentos, nas diferentes Unidades de Ensino consultadas. Na verdade, nao se podem comparar as duas fontes de dados: enquanto as entre- vistas © contatos dirctos revelam uma riqueza que nao € possivel reconstruir em sua totalidade, os programas revelam apenas 0 lado formal das propostas, constituindo-se numa expresso estd- tica da questio. Eles foram importantes como forgas secundirias € serviram para suscitar perguntas, 21 Os professotes pesquisados pertencom a Unidades de Ensino de Servigo Social, que se vinculam a universidades estatais © também a particulares catéticos da regio leste da Associagio Brasileira de Ensino de Servigo Social (ABESS), que abrange os Estados do Rio de Janeiro, Espirito Santo ¢ Minas Gerais. A escolha de universidades estatais ¢ cat6licas est4 vinculada & sua dimensio — sio maiores em némero — e também a sua adesio 8 ABESS — de modo geral, so mais atwantes. Sto sete as unidades que, na regiio delimitada, se enquadram nos critérios, preestabelecidos 2 Dessas sete unidades, apenas uma no abordava a questo de Marx e do Marxismo como contetido de Metodologia no Ser- vico Social, no fazendo sentido, portanto, uma entrevista 14. Nas outras seis, foram realizadas entrevistas, abrangendo um total de sete professores. Em uma delas dois professores haviam lecionado a disciplina durante 0 ano de 1988, As entrevistas, que foram gravadas, tiveram por base um roteiro geral que permitisse “padronizar” minimamente as ques- tes colocadas. Esse roteiro foi definido com base na minha pr6- pria vivéncia como docente daquela disciplina, nos varios pro- gramas desenvolvidos nas diferentes Unidades de Ensino e tam- bém na perspectiva te6rica que sustentou as suspeitas que este trabalho discute, Os principais eixos das questées formuladas se caracterizam a partir da visdo que 0 docente tem com relagio a: + origem e significado da disciplina Metodologia no Servico Social no curriculo do Curso de Servigo Social; + conteiidos repassados, temas trabalhados € priorizados na Aisciplina, bem como bibliografia escolhida; 2. A tegito este da ABESS compreende 12 Unidades de Fasino sitmadss nos Estados {do Rio de Jeneto (@unidades), Bspiito Santo (i vnlade) « Minas Gers unidades). esse toil foram exclufdasclnco unidades por nfo fazerem parte da ABESS ou por serem multo poqueaas ¢ multo novas, conseqlentemente com paticipugio alada in- lpiente nessa entdade, 2 + contato dos docentes com o Marxismo e sua formagiio espe- cffica nesse assunto; + penetragéo do Positivismo no Marxismo. © comtato com 0s professores foi realizado durante o més de marco de 1989, em visitas realizadas as diferentes Unidades de Ensino. A generosidade da acolhida foi imensa, tendo-se em vista 0 fato de a entrevista exigir uma certa disponibilidade de tempo — no mfnimo duas horas —, 0 que, muitas vezes, ¢ dificil de se conseguir, considerando-se as inémeres atribuigdes dos pro- fissiouais, em seu cotidiano. Na maioria das situagdes, porém, 0 interesse pelas questdes chegou a exigir um prolongamento do tempo de contato inicialmente previsto, ‘Uma primeira preocupagio verbalizada por quase todos os entrevistados, antes da entrevista, era de recefo quanto as per- ‘gunlas, por ss imaginarem excessivamente complexas e dificeis de ser respondidas, Essa preocupagio era logo dirimida e 0 que se nowou, de modo geral, durante 0 proceso da realizagio da entrevista, foi um interesse muito grande dos pesquisados, que, como a pesquisadora, se mostravam bastante interessados em des- cobrir as possiveis lacunas e distorgdes no encaminhamento dado a disciplina em pauta. Para vérios deles, o momento da entrevista foi um espaco privilegiado de se ver a si proprio © & proposia do contetido do programa desenvolvido, considerado globalmente, com suas possibilidades e limitagGes. Minha intervengio nas entrevistas procurou se reduzir a pe- didos de esclarecimento e/ow ampliagéo das opinides expressas. Entretanto, essa posigdo de observador foi “quebrada”, em muitos momentos, pela necessidade de uma discussio “bilateral” que algumas questées suscitavam, por sua significagio tanto para 0 pesquisado quanto para a pesquisadora. Nao pretendi ter uma posigao absolutamente impessoal de observador distante de seu objeto, Tinha clara a minha insergéo como parte daquele universo, 20 qual pertenco como professora, o que acredito ser um elemento fundamental na compreensio da problemética em estudo. Esse 2B envolvimento faz parte da minha compreensao de objetividade cientffica, na medida em que busco incorporé-lo criticamente ao meu proprio conhecimento e em que faz parte da reconsirugéo do real em anilise. De todo modo, reconheco as dificuldades. dessa reconstrugio, pois o processo de conhecimento, pelo qual passa uma infinidade de questdes, impressdes, dados, 6 muito mais rico que as possibilidades de externé-lo através deste tra- balho. Limitei-me a trabalhar os discursos dos docentes, em termos analiticos, como expresso da maneira como vivenciam ¢ captam. a tealidade do objeto pesquisado. Incluo muitos depoimentos, reproduzidos “sem retoques”, com a preocupagio de néo “maquiar” a realidade. Quero com isso mostrar como a realidade é considerada por aqueles que a vivenciam © como cles a expressam de viva voz. Dessa forma, torna-se mais perceptivel a visio dos professores, as preocupagées que expressam, as relacdes que estabelecem entre os fendmenos de sua prética cotidiana ¢ a sociedade como um todo. Todos os depoimentos foram gravados ¢ transcritos, o que permitiu uma visio de conjunto das principais preocupagées dos professores no que se refere ao objeto deste trabalho. Tendo em vista essa visiio global, no desenvolvimento do trabalho, vou intercalando depoimentos dos entrevistados © re- flexées préprias, sendo que em muitos momentos, o depoimento ‘yom posterior & reflexao realizada. Entretanto, essa disposigio ‘nao tem por objetivo colocar o depoimento apenas como “prova” de suspeitas anteriores, mas como produto daquela visio global das entrevistas. trabalho esté dividido em capftulos. Trata-se, na verdade, de uma divisio mais didética da exposigio. Bla expressa timida- mente 0 verdadeiro movimento de apreensio da realidade, em que momentos de reflexdo € contato com esta realidade se terpenetraram, No entanto, gostaria de que, com toda a formali- dade da apresentagao, nao se deformasse 0 alicerce da compre- 24 ensio do movimento do conhecimento que, alimentado pela ex- perigncia, se torna concreto pelo pensamento. © primeiro capitulo desenvolve uma busca de entendimento do problema, origindrio de minha vivéncia como docente da dis- ciplina Metodologia no Servico Social, considerado através de sua manifestagdo no interior do préprio marxismo, no momento ‘em que as idéias de Marx tiveram seu primeiro desdobramento. No segundo capitulo, tendo por base 0 marxismo que & destilado por meio dessa disciplina, empreendo essa busca de compreensdo, junto as fontes do positivismo, daquelas questoes que se vislumbram como influentes sobre 0 marxismo, a ponto de deformé-lo, No tetceito capitulo, procuro recuperar, em alguns momen- tos da obra de Marx, uma visao mais ampliada sobre as questes detectadas, tentando captar uma perspectiva mais totalizadora do pensamento do filésofo. A andlise dos discursos dos professores de Metodologia no Servico Social constitui 0 contesdo do quarto capitulo. Trata-se de um retorno ampliado a0 real, realimentado pelas referéncias te6ricas que busquei € que me propiciaram elementos indicativ para a reflexdo sobre essa pritica docente, em seus diferentes desenvolvimentos. Finalmente, no quinto capitulo, fago uma diltima reflexio em que se reGnem algumas questécs fundamentais que, prove- nientes de minha propria vivencia ¢ alicergadas na perspectiva te6rica desenvolvida, foram também detectadas na observagio ampliada das experiGncias avaliadas em outras Unidades de En- sino. Quero ressaltar, ainda, nesse espago, o insdlito, o nao pre- visto que emergiu do préprio processo de conhecimento e que enriqueceu o reconhecimento do objeto deste estudo. y 2. CLAREANDOAS PRNERAS NVASOES O marxismo apds Marx No entendimento dos desvirtuamentos positivistas que in- vadiram o marxismo e que sio repassados pela via da disciplina de Metodologia no Servico Social torna-se inevitivel um encontro com os primeiros desdobramentos das idéias de Marx, fortemente influenciados pelas concepcdes de Comte € seus seguidores. Re- Presentam fragmentos das polémicas em torno de alguns aspectos da obra de Marx, expressos através das figuras ilustrativas de Plekhanov e Bernstein. Muitas das questdes por eles desenval- vidas revelam uma impregnacio positivista, mas serdo destacadas apenas aquelas que interessam ao presente trabalho. 2.1 — Cendrio Sécio-Histérico — De- senvolvimento capitalista das for- ¢as produtivas As duas grandes questées apontadas que “contaminaram” © marxismo ¢ que imteressam a este trabalho — 0 marxismo 27 reduzido a explicagao de leis do desenvolvimento da sociedade, com base na supervalorizagio do econdmico, e sua visio como mera (eoria de conhecimento, desvinculando-se a relagio cién- cia/transformagdo da sociedade —, apareceram de modo claro com freqléncia na “cultura marxista” repassada ap6s a morte de ‘Marx, quando Engels atuou s6, e, ainda, na difusio da 2" Inter- nacional. A polémica gerada em torno dessa problematica é ampla complexa, tendo sido a Wnica do perfodo. Nao se pretende re- constituir o debate nem partes dele no interior dese movimento. Pretende-se apenas destacar as questes que interessam a este trabalho, representadas, ilustrativamente, através de alguns expo- entes significativos daquele momento histérico. Assim, a escolha de Plekhanov ¢ Bernstein nao significa que somente eles se preo- cuparam com 0 assunto, mas que, entre outros, eles expressam essa discussio ¢ sao especialmente significativos na divulgagio e-vulgarizagio das idéias de Marx, tendo influenciado as Ciéncias Sociais desde entao, até um pouco os dias de hoje. A reflexio sobre essas questoes envolve uma série de figuras que transitaram naquele perfodo histérico, que viveram o impacto da Revolucdo Francesa ¢ da Revolugio Industrial e que presen- ciaram o traslado do eixo das investigagoes cientificas para a Inglaterra, 0 que significa 0 decl{nio da filosofia classica alema. Segundo Engels, “i medida que a especulagao abandonava 0 ga- binete de trabalho do filésofo para instalar seu templo na Bolsa, a Alemanka culta peidia aquele grande senso tedrico que a fizera famosa” (Marx, 1977, p. 116). Assim, o idealismo declinava e abriam-se as portas para uma concepgio materialista, em que a premissa basica estava relacionada a classica assertiva de que “a existéncia determina a consciéncia do homem e nio é a consciéncia que determina a existéneia, como se afirmava tradicionalmente” (Engels, 1976, p. 24), Como se sabe, as necessidades do desenvolvimento do ca- pitalismo fizeram avangar 0 modelo “naturalista” das ciéncias 28 naturais, estendendo-o até as ciéncias da sociedade, © que os representantes destas ciéncias se convertem nos idedlogos da so- ciedade burguesa e de seu respectivo Estado. Por outro lado, surgia uma classe trabathadora que comegava fa representar uma forga independente ¢ antagOnica, assumindo uma teoria propria na interpretacio do processo de desenvolvi- mento do capitalism. O conhecimento tesrico resultante permi- tiu-the entender suas tarefas na luta de classes, constituindo-se em instrumento de aco politica geradora de mudaneas radicais da sociedade. Entretanio, na medida em que, no bojo de suas concepeoes, Marx ¢ Engels, expressando seu tempo, se mostram sensfveis “4 relagio reciproca entre o desenvolvimento da sociedade & 0 desenvolvimento das ciéneias naturais no mundo moderno € sa- lientam que elas contribuiram tanto para a emancipagio do homem {quanto para a sua desumanizagio". (Foenandes, p. 27), suas posigoes se foram alvo de diferentes leituras, com énfases distintas em um outro aspecto de sua contribu Essas énfases e “distorgdes” tém de ser entendidas no con- texto hist6rico, ccondmico € social que Ihes confere sentido ¢ ‘uma melhor aproximagio da significacao que tiveram, como co- nhecimento possivel, naquele momento histérico, Nease sen confatizar, mais uma vez, que @ polémica em que se inserem Marx ¢ Engels era de superagao da explicagao metafisica da sociedade, portanto, geradora de uma necessidade de reafirmar ¢ redimensionar 0 materialismo ¢ a dia Adtica. E nesse contexto que deve ser entendida a preocupagio enféitica de Engels, por exemplo, com o entendimento das leis do desenvolvimento da sociedade capitalista como leis de cardter hist6rico e natural € sua visio da dialétiea como um processo de ago reciproca, que condena a unilateralidade das explicagoes causais. 29 E igualmente necessério ressaltar que os atores/personagens que enfatizaram essas interpretagdes tiveram uma evolugéo pré- Pria, revendo suas posig6es, muitas vezes, no decorrer de sua vida. Isso significa diferencié-los em cada um de seus escritos. Assim, 0 movimento de divulgagio ¢ expansio da contri- buigéo de Marx vai significar, por um lado, uma possibilidade de enriquecimento de sua proposta. Por outro, também, em muitos momentos, um empobrecimento origindrio de influéncias redu- cionistas — entre clas, 0 positivismo —, que penetraram as di- ferentes leituras de sua obra, Ambas as questées-eixo deste trabalho esto intimamente adas € 0 tratamento de uma remete 4 outra. A idéia positivista da naturalizagdo da histéria, apresentan- do-a como algo perene, evolutivo ¢ natural, penetrou fortemente, © marxismo aps Marx. O proprio Engels, diante do timulo de Marx disse que este descobrira as leis do desenvolvimento da hist6ria humana, tal como Darwin descobrira as leis do desen- volvimento da natureza organica, secundarizando o significado da aio humana como agente ativo na relagéo com essas forcas objetivas. Nessa leitura do materialismo histérico de Marx, Engels faz uma interprotacdo determinista, linear, continua, nio estabe- Jecendo relagéo com as formagbes sociais concretas em cada mo- mento histérico. O Engels de © Anti-Dithring, que teve influéncia signifi- cativa na 2 Internacional, abordou a questio da relagio naturcza € hist6ria, dando mais énfase 4 determinacio de leis que geram © desenvolvimento da sociedade e discutindo a questo da histéria como produto mais da insercdo de individuos e menos das classes sociais, Ele no expressa claramente, como o jovem Marx, 0 condicionamento miituo naturezajhistoria ¢, denito dele, 0 papel da teoria, da consciéncia de classe, da agio consciente do pro- letariado no desenvolvimento da sociedade. A maneira como Engels trubalhou, nesse texto, a relagio Sujeitolabjeto desencadeou uma série de incompreensses quanto rela 30 20 significado do método da dialética. Lukées coloca bem essa questio, ao afirmar que: ““Engels descreve a conceptuatizaco do método dinlético opondo-0 ’ conceptualizagio ‘metafisica’; ele sublinba com argticia que, no método dialético, a rigide dos conceitas (e dos objetos a eles correspondentes) ¢ distolvida, que a dialética é um processo con- tinuo de passagem fuida de oma determinagéo a outra, uma per- ‘manente ultrapassagem de oposigaes, que ela 6 2 superacdo de ‘uma em outa — e que, porianto, a causalidade unilateral e igida deve ser substitufda pela agio recfproca, Mas o aspecto mais es- senclal desta ugdo reciprocs, a relageo dlalerica do sufetto ¢ do objeto no processo da historia, sie 6 mencionada”. (Lakics, 1981, p. 62). Na verdade, retirando-se essa determinagio, 0 método dialético se torna uma questio meramente cientifica, apenas superando a rigidez de conceitos da metafisica, deixando de ser, como afirma © aulor, mais adiante, no mesmo texto, “um método revolucio- nério”, em que a “transformagio da realidade constitui o problema central”, Em Engels, pois, define-se uma tendéncia & substituigio do “v6riice da agi libertadora (que) se desloca da tiberiago da hu ‘manidade conscientizada no proletariado (no mundo alienado) para a libertagio das tendéncias de expansio das forgas produtivas, ‘resas as condigées da produgio capitalisa”. (Fotsche, p. 162). Essa énfase pode ser relativizada se se caracterizar 0 texto como uma resposta a Eugene Dithring, que contestava o proceso de desenvolvimento da sociedade como sendo regido por deter- minadas leis objetivas. Como esse texto foi um dos primeiros a tomar piblico o conteddo da teoria marxista, mais especifica- mente a interpretagio materialista da histéria, este teve grande penetracéo no meio operirio. Ele veio corresponder a uma ne- cessidade do movimento operirio de reconhecimento de seu sig- nificado hist6rico, ressaltando a inevitabilidade do crescimenio do protetariado, com base em leis objetivas do desenvolvimento al sp. Sante {nstituto Educacioal 40 FP: Sante, econdmico que tirariam o homem da s : ua pré-hist6rial, levando. 4 superar o reino da necessidade (a sociedade de classe) pelo eino da subjetividade ou da liberdade (0 socialismo) E Destacava, ainda, com relagio a essa sociedade de classes, {ag fore avs de sciedde nt, enguanto nto as conhecemo © contamos com elas, exatamente como as forcas da naturera: de ‘modo cego, viento e destruidor. Mas, uma vez conhecidas, logo ane se saiba compreender sua aco, as suas tendéncias e of seus efeitos, esd em nassas mas o sujité-las cada vez mais a nossa vontode 3, por meio delus, aleangar os tins propostos". (Engels, © grifo na expressio em nossas méos pretende enfatizar a sibilidade da missao histérica do prolétariado, ainda que isso vio apareca clarament, de fazer surgit uma nova Sociedade que, stra, vés de uma organizacio da producao social, crie condigbes para assegurar a todos nao $6 a cobertura de suas necessidades ms teriais como também pleno desenvolvimento ¢ manifestacdo de suas capacidades intelectuais e fii No entanto, referindo-se ao reino da I , lo-se a0 iberdade, expressa Engels: a Shame a age iS Sin 8 ln ‘© controle ¢ domfnio dos homens sobre suas condices: sa obo Se Set ms me Ee Imremacional 2 ed. Rio de Janiro, Pax e Tetra 1986. 1" Pate, p. 138" 32 ‘obra livre sua. (..) 86.8 partir de entfo, ele comeca a tragar a su histéxia com plena conscitncia do que fa2”. (Engels, p. 76). Enfim, a afirmacao de que 0 desenvolvimento do capitalismo obedece a leis com cardter de leis naturais, independentes da vontade ¢ da conciéncia dos homens, gerou leituras ambiguas da visio de Engels, dando reforgo a interpretacao “naturalizada” da sociedade burguesa. Com isso, atribui-se muitas vezes a esse fi- Iésofo uma perspectiva objetivista ¢ cientificista. Na verdade “a dialética do natureza de Engels é um elemento de sua teoria 4a revolugi, quer coniribuir para gue os proletiios se lbertem de sua dependéncia inconsciente de ideias naturalistas © meiafisi- ‘2, pata que comecem a pensar dialeticamente; procura superar ‘a peidentalidade © a fragmentriedade da conscincin". (Neg, p 175) © que ele queria sugerir, portanto, € que se deve desconfiar de todas as idéias que extrapolem 0 mundo material, temendo, em altima instincia, uma nova aproximagio as idéias metafi ¢ religiosas, na explicagio do desenvolvimento da sociedade. Dentro de minha preocupacio de pesquisa, momentos da teflexdo em Engels j4 foram vistos como uma expresso das duas redugées de caréter positivista que marcaram, ¢ ainda hoje marcam, as leituras da obra de Marx. A sua preocupacio em estabelecer os vinculos dialéticos entre as ciéncias sociais ¢ a concepgio materialista da hist6ria foi registrada como uma preo- cupagio cientificista, reforcando, por sua vez, um materialismo determinista € evolucionista. 2.2 — Gheorghi Plekhanov — O mate- rialismo determinisia vo expoente do pélo mate- Plekhanov foi o mais expr rialista determinista pois 33 “(.-) na tradiglo marrista,ninguém mutt maior respeto pelo po- dex de explicagéo gcral da citneia objetiva, ninguém se esforgou ‘mais para colocar as resuiados da cincia num sistema materatista gue a tudo compreendesse”. (Arata, p. 92). Plekhanov recusava-se a aceitar uma aproximagio & fisica Social e &s filosofias positivistas, mas segundo Arato, j4 nos seus Primeiros textos, sua linguagem expressava “tragos do pensamen- to de Comte”. A nogio de progresso, que este colocava como fundamental ao desenvolvimento da espécie humana, Plekhanov a interpretou “ nos termos um tanto incoerentes de um materi lismo detcrminista, evulucionista, ¢ do surgimento de uma tc: nologia social capaz de controlar tanto os processos naturais quan- 0 os inter-humanos” (Arato, p. 93). O reconhecimento do movimento hist6rico da humanidade como um processo regido por leis — econémicas — descartava 0s subjetivistas, ou seja, a convicgdo de que a hist6ria se move determinada pelos individuos. Plekhanov encarnava a reagio a essa concepgao predomi- nante do século XVII, segundo a qual a filosofia da hist6ria se reduzia & atividade consciente dos homens. Assim, no decorrer desse século, interpretava-se, predominantemente, 0 avanco € as mudangas histéricas como determinadas pela agao dos reis, au- toridades ¢ personalidades. Nese mesmo séoulo, levantaram-se dividas sobre tal interpretagio. Como esclarece 0 préprio Ple- Khanov, pensadores como Vien, Montesquicu ¢ Herder “cm suas obras procuravam fundamentar a regularidade do processo his. {rico como independente da vontade das aspiracées dos reis, dos estadistas © dos governantes” (Plekhanov, 1987. p. 88). 0 Primeiro via o ciclo da histéria ser determinado pela vontade divina © os demais, por influéncias das condigdes da natureza, clima, geogratia, Na tentativa de clarear a necessidade de superagio do sub- jetivismo, Plekhanov agiganta o significado da determinagio das. Tels do movimento da sociedade, como se elas pudessem existir 34 independentemente dos homens. A prop6sito, faz referéncias sig- nificativas: Oscontecimentos as personagen vetdadeamente importantes so princpalmentesinals e imbolos das diferentes tapas desa ‘voluglo, masa melora dos acontecmentos chamdos hstxcos 6, pr a verdadeica Hist, o que, para 0 movimento profindo constants das rats, si a8 onfss que surgem 3 supetce, bi thm por um momento com sia Iz viva pata logo quebrarem-= in cota arenose, desaparecendo se dena vestiges” (Plekhanov, P87). E ainda, reproduzinco palavras do “chanceler de ferro” Bismark, afirma que nao se pode adiantar o relégio, imaginando que, com isso, se pode acelerar a marcha do tempo, fazer a Hist6ria. N6s no podemos fazer a hist6ria, diz. Bismark, devemos esperar que ela se faga, “Nao aceleraremos o amadurecimento dos frutos ex- pondo-os ao calor de uma Limpada, e arrancé-los verdes nao faz mais do que impedir sen crescimento ¢ entregé-los” (Plekhanov, p. 85). Plekhanov tende a conceber a histéria humana como algo independente da vontade do homem, fora de sua agéo consciente © que obedece x0 desenvolvimento das forgas produtivas, 0 que significa que uma determinada base econémica produziré uma correspondente superestrutura ideol6gica. Isso implica que, diante da antinomia necessidade x liber- dade, Plekhanov tende para a primeisa, pois, para ele, se v hummeut faz a hist6ria, € “sob a pressio da necessidade”. Reduz, assim, @ afirmagao de Engels de que os homens fazem a sua histéria sob a base de suas condigées reais de vida anteriores, esquecen- do-se de que séo 08 préprios homens, © nio as condigdes de vida anteriores, que fazem a histéria. B certo que as condicdes reais existe ¢ elas vao dar pardmetros 4s possiveis mudangas na so- ciedade, mas tais mudangas dependem da acéo humana, A idéia fundamental de Marx, diz, Plekhanov, pode resu- mir-se no seguinte: 35 “G~) a8 relagBes de produgto determinam todas as outfasrelagbes ue existem entre os homens na sua vida social. As relagoes de rodugéo so doterminades, por sua vez, pelo estado das forges produtivas”. (Plekhanov, p. 33), Nesse sentido, a interpretagio de Plekhanov foi vista como reforgando um materialismo hist6rico, submetido exclusivamente as determinagées de leis origindrias da esfera econémica da so- ciedade. © marxismo tinha colocado 0 homem em condigées de captar as “leis ubjetivas do desenvilvimento da sociedade”, bastava, portanto, um estudo do modo de atuar sobre ela, Sepundo Israel Getzler, esse “determinismo ¢ a confianga de Plekhanov NO conhecimento racional estavam em harmonia com 0 espitito da época, naturalista ¢ positivisia” (Getaler, p. 112). Tal deter. minaglo dava “garamtia” de se alcancar o socialismo pelo préprio desenvolvimento social, assim como o sol vai se pér hoje ¢ vai se levantar amanhi, aestague dado por Plekhanov ao determinismo © a ne- cessidade, em contraposicio a vontade consciente, néo significou, Porém, que, em detcrminados momentos de sua trajetdria, cle nio estivesse buscando uma relagio distinia que contemplasse tanto a liberdade da espécie humana como a natureza. Além disso, foi sensivel o suficiente para abrandar o “fatalismo hist6rico con. slusivo", cujas influencias recebeu de Hegel e do materialismo econOmico, ao enveredar “na douttina spinoziana-hegeliana de liberdade como necessidade consciente” (Arato, p. 96). No entendimento desse expoente do marxismo, 0 desenvol- vimento do capitalismo o levaré a sua prépria negaco € a rea- lizacdo dos ideais da humanidade, como uma necessidade hist6- rica, © cada individuo se constitui em um instrumento dessa ne- cessidade, seja pela sua situacdo social seja pelo carsiter intelectual moral gerado por cla 36 “Isso tenbém é um aspecio da nocessidade. Mas, desde 0 momento ‘em que sua situagfo social nele formow precisarente este eandter ‘© mo outro, ele no $6 serve de instrumento & necessidade © nao pode doixar de servia, como quer apaiconadamente farélo do pode deixar de querer. Este é um aspecto da liberdade, de ‘uma Hiberdade nascids da nevessidade; & necessidade feita liber- dade”. (Plekhanov, p. 79) Assim, a consciéneia da necessidade absoluta de um fen6meno eleva as energias do homem a este vinculado, uma vez que se considera como uma de suas forcas geradoras, ao compreender © significado de aun propria ago, 2.3 — Eduard Bernstein — O revisionis- mo cientificista Para ilustrar a reflexio sobre a segunda questo, a escolha deveria recair, preferentemente, em Karl Kaustsky pelo domfnio que sua obra teve no scu momento hist6rico, assim como por seus desdobramentos, que influenciaram todo 0 movimento co- munista desde entio. Entretanto, a opgo por Eduard Bemsiein deve-se 2 nitidez com que le discute ess questi ¢ sua anélogs signficagio na tradigao marxista. Reconhece-se que sua imporuincia no movi- ‘mento operirio foi mais reduzida. Coube a ele, porém, © mérito de ser autor do principal eserito do revisionismo clissico — Las premisas del sociatismo y las tareas de ta social-democracia — em que a polemica ¢ tratada muito claramente. Bernstein foi considerado um revisionista, no sentido de que, partindo das premissas marxistas, questionow alguns pontos da doutrina, fundamentalmente as previsdes de Marx sobre 0 de- senvolvimento do capitalismo — concentragio de capital € po- s classes € 0 carder inevitivel da revolucio socialist. 37 Ele concordava com a prospeccio que Marx fazia, no Ma- nifesto Comunista, sobre o desenvolvimento da sociedade capi talista, enquanto descrigao das tendéncias gerais desse desenvol- vimento. No entanto, no pretéicio da primeira edigéo (1899) de sua obra, aponta como equivocos de Marx: “A valorizago do tempo requerido por este desenvolvimen- 10”. Como o proprio Engels avaliou mais tarde, o desenvolvimento econdmico pressups um tempo muito maior para a sua plenitude, © que tornou necessério considerar uma série de aspectos que 0 Manisfesto nfo podia prever. “A agudizagio das relagSes sociais nfo se deu na forma contemplada pelo Manifesto.” Conseqiientemente, 0 mimero de Proprictérios néo tendeu, segundo Bernstein, a diminuir, numa relagfo inversa ao aumento da riqueza. “Os estratos médios mudam o seu caréter, mas nfio desa- parecem da escala social.” “ANG esta data, ndo se realizou em todas as partes, com a mesma forca © rapidez, a concentragdo da producao industrial.” Assim, na agricultura ¢, mesmo, em muitos setores industriais, tal fato no se vem observando, Marx ¢ Engels acreditavam que a agricultura, assim como a indtstria, sob 0 capitalismo, se desenvolveria no sentido de que, cada vez mais, um menor niimero de proprietirios controlaria as terras e de que os pequenos proprietirios tenderiam a desa- parecer em conseqiiéncia da crescente proletarizagao. Diante dessa Posigio, verifica-se no interior do Partido Social Democrata Ale- mio a tendéncia a nio apoiar a causa dos pequenos proprietérios, ois, pelo processo necessério ¢ itteversivel de concentragio da ropriedade da terra, eles seriam eliminados. Com isso, tal apoio seria considerado uma reforma ¢ esta era vista como passageira € superficial sob o capitalismo. Esses questionamentos surgiram quando da discussio, pelo Partido, da proposta de apoio aos interesses dos componentes ¢ de defesa deles, no final do século passado. A existéncia de fato 38 impli i ialistas, em do campesinato, implicando, também, apoio aos socia termos elcitorais, levou a consideragio, dentro do partido, da ne- cessidade de se desenvolver um trabalho que visasse 8 obtengio de vantagens imediatas para a classe trabalhadora, o que levou, ‘em muitos momentos, & perda da perspectiva final do socialismo. Bernstein recotheu essas preocupagées candentes ¢ as ex- presson teoricamente, 0 que fez com que suas idéias tivessem uma forte repercussao. i Dessa forma, expresson uma visio, contréria aos postulados de Marx, pela qual uma nova sociedade seria construfda por graus, com base em avangos cotidianos, ¢ niio como produto do colapso do capitalismo, ou seja, como um salto qualitativo do capitalismo a0 socialismo. , Com Bernstein, ganharam forga os seguintes pontos: ivamente as institui- + A preocupagio em socializar progressivament ‘GGes politicas e a propriedade, pois, “na medida em que as instituig6es politicas das nagées modernas se democratizam, se reduz a nocessidade e as oportunidades de grandes ca- téstrofes politicas” (Bernstein, p. 96); ; + Annccessidade de aliangas com setores ndo-socialistas com fins eleitorais ou de reforma: + A indiferenga com o fim éltimo do socialismo, Nesse sen~ tido, hé uma frase dele que expressa bem sua posigio: “Para mim o movimento é tudo, e, 0 que ordinariamente se con- sidera como objetivo final do socialismo, nio € nada’ (Bernstein, p.97). ih Para ele, a teoria de Marx destruiu, no interior dela mesma, a idéia de objetivo final, uma vez que se propunha a ser uma teoria do desenvolvimento da sociedade burguesa. “Como para uma doutrina social baseada na idéia de desenvolvimento nto pode haver um objetivo final, de acordo com isto, a sociedade humana vai estar continuamente submetida ao processo de de~ senvolvimento”, afirma, a propésito, Bernstein, E acrescenta: uma doutrina 39 “pode ter grandes links de orienagto ¢ obetivs, mas nbo objeto fina, lncsve © que, tansiodaments paterson sicerad come um objetivo tl nio dev ser Canine sebcce, Aicemente ds caboes, set que tem do ser eabonsio’. tenn las pecs do popeo movimento” (Bente gah Bernstein denunciava r iaadcte ear cemnciar weg ligagio de Marx a Hegel o havia 4 Seaerialagies @ priori, a partir de concepgées abstratas, 86 N0S fatos reais, Essa deformacio teria levade Marg a acreditar no determinismo histérico como produto de um eae ale — 0 econdmico. A hisiéria mostrou que existe ima diversidade de forgas que influem na sociedad, colo- . 0 Hestes nna determinagio da necessidade ¢ gerando a Possil ilidade de ‘os homens exercerem influéncia significa- tiva sobre a vida da sociedade. Acreitar a revolugio total, parecendo “supor que a vontade fevolucdo € a organizacao do terrorismo ara proporcionar a forca motriz. de ui cialista” (Kolakowski, 1985, p. 196). No prefiicio de seu livro, 0 eram suficientes im levantamento so- ele sintetiza sua preocupagao: “© que mais me interessa e CO ams me iteressa¢ consti 0 objetivo fundamental dese SEE teforcar, ao wesmo tempo, o elemento relist ¢ o fe. lealista do movimento socialista, combatenclo os restos de tun meade wtopista gue se excontarn tenes Cialisia”. (Remstein, p, 995, iia A influéncia positivist i ; itivista sobre Bemstein leva-o a f ; ao a fazer letra positivist do proposa de Mers'¢ a9 oer ea marxism0, por exemplo, a uma ciéncia natural, como foi a pro. fenso de outros marxistas positivistas?, 2 Sobre 58 questi Michel Lowy inst em ata refleo de Karl Mare contra 0 Baro de Miinchhausen, ie 4 Mare tio deisa de reconhecet de forms ea pcg ente a daldca marisa + opson 0 lst Ar ventures QUE a cea postvista de Berstetn 8 OW MNOS expressa 9 ineoncilsvel ologla positiviste de eigscin, 40 Ele parte de pressupostos que 0 levam a uma necessidade de ruptura da unidade dialética entre ciéncia e socialismo. Entre esses pressupostos, coloca o de que em “todas as ciéncias podemos inguir uma doutrina pura e uma doutrina aplicada” Bernstein, p. 111). Para ele, a doutrina pura é conformada por prinefpios axiomiticos deduzidos de experiéncias consideradas universal- mente vélidas. E a ciéncia aplicada consiste na aplicagio desses principios a diversas situagGes ou fenémenos. Esse entendimento © levaria a defender um socialismo através de raciocinios éticos €, por outro lado, assimilando influéncias neokantianas, que con- sideravam o conhecimento como independente de sua aplicagio pratica ¢ livre de juizos de valor, um sistema de conhecimento sociol6gico, empftico, neutro, desvinculado da visdo da Revolu- gio. O que esta, pois, intimamente vinculado ao abandono da dialética que o faz. ter uma visio sobre o capitalismo estética e aié apologética. A sua descrenga e negagiio das contradig6es do capitalismo € da luta de classes fizeram-no buscar outtas justificativas para © socialismo que nfo as origindrias do préprio desenvolvimento material da sociedade, justificativas alicergadas na Moral, no Di: reito, na Etica etc. Para Bernstein, a obra de Marx confunde de fato € de valor, ao vincular uma andlise cientffica “com co € amor & verdade, préprios do génio cientffico a um objetivo final, do alcance da sociedade comunista”. E, nesse mo- mento, essa obra fica comprometida em sua cientificidade, pois revela-se prisioneira de uma doutrina. Para ele, ainda, torna-se idade que a teoria exige em sua clabo- ragdo € a adesfio & perspectiva do socialismo. Nesse sentido, & hem marcante a sua identificacio com a visio de objetividade, propria das ciéncias naturais, transplantada para as ciéncias da sociedade. 3, UMAINCURSAO NECESSARIA: O idedrio positivista Na busca de elementos articulados para o entendimento das questOes deste trabalho, faz-se necessdrlo estabelecer relagoes pontuais entre marxismo e positivismo, percorrendo, neste mo- mento, essa corrente de pensamento social por intermédio de al- ‘guns de seus expoentes — Comte, Durkheim ¢ Weber — embora este nio se inclua no bojo das mesmas proposigGes dos dois primeiros. Evidentemente, nao se trata de um percurso que abranja todos os espacos coberlos pela obra desses autores, mas visita, toca em cada um aquelas dimenses que tém mais a ver com © argumento deste trabalho, buscando recuperar a origem das ques- tes nele levantad: 3.1 — Cendtio Sécio-Historico — Da derrubada da ordem feudal ao surgimento do operariado A escolha da correnie de it e de pensamento positivista deve-se a uas ordens de fatores, intimamente ligadas. Por um lado, rola, ciona-se a sua influéncia na época em que surgiram as idéies de Marx. O desenvolvimento do pesitivismo é contempordinco & obra marxiana, Ou seja, ambos so produtos de toda uma trajetGria da hist6ria e aparecem como respostas as exigencias de forcas cociai que emergem € se desenvolvem no decorrer do século XIX. Por Outro, deve-se ao fato de que sio linhas de pensamento que se opdem ¢ informam maneiras opostas de se conhecer a realidade, Ro entanto, conformam dois pélos de uma mesma telaglo con, tadit6ria entre protetariado © burguesia. Neste sentido conven desde seu nascimento ¢ se nutrem da influéncia reefproca dé relagio, em que um elemento é condigio da existéncia do outro, A origem do espitito da filosofia positiva ni ago exatn quanto ao periodo de sua formacie, Conte an que alguns elementos desse espirito ja estavam presentes em Arie ‘6reles, nos trabalhos da Escola de Alexandria e, posteriormonts ‘na penetracio das idéias das ciéncias naturais na Europa Ocideatel pelos drabes. Entretanto, ele delimita o momento em queo eapiita dessa filosofia comecou a marcar posigdo no mundo em opecieas 20 espirito teolégico © metafisico, linado A “agio combines wen Preceltos de Hacon (1561-1620), das concepgdes de. Descartes @ $1680) eda descobers de Galle (1564-1642)" (Comte 1 Em Deas precy ons it ont aia deg no se poe corheceem pe ‘ewbuma verade que no sj imedintamente evden re ame, onclo de vain, son = {oracle casi, tr dito ‘ {sda de pelo Posivmo. Sept Macse em Rao Rages ‘mtv gu onda seve tn em hide eas tn", cnuani, pas Pulivimo, cans elitnes «produ ones ‘Gientttica, ou seja, de um sujelio da percepgio. oa 44 No plano mais imediato de seu surgimento, o Positivismo recebeu influéncias das principais tendéncias intelectuais © filo- séficas que transitaram pelo século XVIII, entre clas, o Huminis- mo, o Enciclopedismo e o Empirismo inglés. Das duas primeiras, resgatou 0 empolgamento advindo do auge das ciéncias da na- tureza; a crenga nas possibilidades do conhecimento cientifico como forma de dominio da natureza e progresso; a oposigio & autoridade excessiva da Igreja, projetando-se, por outro lado, a idéia de uma “relacdo natural”; a importincia da sensago como elemento de apreensao de conhecimento em face da especulacao racional, considerado um modo distinto de se chegar a realidade, que se presume racional. Do empirismo inglés obteve reforgo para a concepgéo de que a ciéneia deve basear-se na experiéncia, na observagio dos fatos € nao em especulagées; 0 combate ao apriorismo, ou seja, a0 conhecimento pela raziio, segundo principios racionais ¢ no com base exclusivamente na experiéncia; a néo-diferenciagao en- tre a légica das ciéncias naturais mateméticas ¢ a l6gica das cigncias humanas, estas entendidas como parte do sistema da- quelas, ambas consideradas “ramos de um mesmo tronco”. © cenfrio s6cio-hist6rico em que foram tomando corpo as idéias da filosofia positiva, que vieram a se articular como Po- sitivismo e que tiveram uma repercussio no Ambito das ciéncias sociais, remonta & derrubada da velha ordem feudal. Com o crescimento da burguesia © seu pleno desenvolvi- mento, esta j4 nio cabia nos limites do sistema feudal. A “solugio” alternativa para a crise do sistema que se refletia nas condigoes de vida da grande maioria da populacao era oferecida pela bur- guesia, Ela comegava a se constituir como classe ¢ aspirava a0 poder politico correspondente A sua forga econdmica & ao seu significado cultural Nesse sentido, ela se torna o elemento revoluciondrio cuja aspiragio cra o fim da velha ordem, destacando, conseqiiente- 45 ‘mente, que suas instituigdes nfo eram perenes, imutdveis, mas ultrapassadas ¢ arcaicas. Assim, as aspiragdes da burguesia exprimiam, naquele mo- mento, a wtopia de uma nova ordem social?. Elas tomavam pre- sente 0 anseio geral dos setores populares de destruicio da ordem feudal, ainda que a propria burguesia também tivesse sous inte- esses particulares de dominagéo como classe. A visio positiva do mundo da classe burguesa, naquele mo- mento hist6rico, teve, pois, um cardter de wopia. Ropresentou a Possibilidade de ruptura com 0 regime anterior, apontando para @ construgio de uma nova ordem, sem privilégios, antiabsolutista, ue apostava no progresso material do homem, contraria a um Estado despotico ¢ ao domfnio da Igreja, em todas as esferas da vida humana. Uma nova ordem, alicercada no tessurgimento de uma ciéncia, que superasse as explicagdes dadas pela {6, j4 que a burguesia, como afirma Engels, ‘“necessitava, para 0 desenvol- vimento da sua produgio industrial, de uma ciéncia que investi gasse as propriedades dos corpos fisicos e o funcionamento das forgas naturais” (Engels, p. 15). Essa mesma visto de mundo, posteriormente, na medida ‘em que a burguesia se tornou parte integrante das classes domi- nantes, veio a se tornar uma ideologia, garantindo a permanén- cia/reprodugio da nova ordem estabelecida. Uma expressiio nftida dessa transformagav ve-se no concerto de lei natural, que signi- ficou um ataque direto as explicagdes religiosas © metafisicas, suportes do mundo feudal e se tornou, mais tarde, um conceito Justificador e reforgador da consolidacao da ordem piblica, A 2 Bnoade-te utopia como “representagde,asplragécs e limagens — de —~ desjo que coricntam na diegfo de rupture da ordem establecida © que exeroem uma fungi fom contraposigt ddrologia come forma de pensimento orientata pais, 4 tepredugio ds ordem estbslecida, Paes consideragSes 20 encontam em LOWY, ‘Michiel. As aventuras de Kerl Marx contra 9 Bardo de Minchhauson, Sio Pavto, Busca Vids, p. 10, 1987. 46 partir dele, desenvolveu-se toda uma explicagio conzormsta aa ordem industrial burguesa. - Nisbet diz que s6 se pode compreender as concepgées po- sitivistas se elas forem entendidas como resposta a essa derrubada do feudalismo, destrufdo “bajo los golpes del industrialismo y Ia democracia revolucionaria, a comienzos del siglo XIX, y los pro- blemas de orden que este creara” (Nisbet, p. 37). Doas revolugtes — a Revologéo Francesa ons) aK ae [ ial inglesa contemporinea — arreben ie wae earl ae oe aaa Gane a reprodugio da sociedade — poder, riqueza e status apoiados “en el paremtesco, ta tera, Ia clase socal, ta religion, a comu- nidad local y la monarquia” (Nisbet, p. 37). O significado ¢ des- dobramentos dessas revolugoes 6 incalculivel. Blas afetaram a hist6ria humana em seu tempo, com repercussdes por todo 0 mundo, até os dias de hoje. Eric Hobsbawn, em A era das revolugées, coloca como Parimetro, pars se aquilatar 0 alcance delas, as palavres novas com significados igualmente novos que surgiram nesse perfodo. Cita, como alguns exemplos: industria, tébrica, classe média, clas- se trabalhadora, capitalismo, socialismo, liberal, conservador, cientista, engenheiro, proletério, sociologia, ideologia, greve pauperismo, Para ele, haes sole an es re Snipa pe neeant Mis eee el macnmone aan pe aelep heer een See Sate anne eae ee ears espalhando © sen domfnio para o resto da Europa ¢ 0 mundo todo, ; No bojo dessa dupla revolugao, que expressou o Spice de uma trajet6ria da burguesia contra o feudalismo, destaca-se uma 47 outa forge — a classe operéria — que viria a ser o germe necessidade de superagio da nova sociedade que st inkinvg: econ’ £ © contexto gerator © de constituigao dessas classes » conseqiientemente, de surgimento das duas correntes tedrions Expresso das posigées, aspiracdes ¢ interesses delas, O seu der Senvolvimento inicial estaré, pois, eircunserito a0 “period hia, ¢m 1789 ¢ termina com a construgéo de sua primeira rede de fertovias © a-publicagio do Me e i fanifesto Comunista”, (Hobsba P 20) meio séeulo depuis (1848), eat ambi, eotivisme como conjumto estnuturado de doutinas no crt sasha as Sots serve de suporte 3 nova oxdem socal sociedade cientifico-indusirial — refeitando qualquer mani- festgio negtiva conta cla, A palavea poiiva eee pep nh i ale i a salvenics, Petigosas teorias negativas erticas, desrativas, is. rouventes, subversivas, em ume palavra, revoluciondrias, da f sofia das Luzes, da Revoluco Francesa e do Socialismo” (Lowy, p. 11), cialisme’ Nessa linka de aborda . : ordagem, propaga-se o positivismo de Comte (1798-1876) © de Durkheim (1858-1917), Sao cles que Seeveiea idéias que impregnaram as interpretagées do mar. ismo, naquele momento hist6rico, e que interessam como s mento do presente trahatho, one 3.2 — Auguste Comte — A naturaliza- ¢a0 da historia E da filosofia positiva que Comte extrai 0 entendimento da sociedade'iteptta por ie vciedade regida por leis naturais, imutiveis, que necessitam ser 48 descobertas através de observagées € contemplagdes positivas. Ele resgata 0 caréter fundamental da filosofia positiva ao “tomar todos os fendmencs como sujeitos a leis naturais invarié- vveis, cuja descoberta precisa © cuja redugéo a0 menor ndmero ppossivel constituem 0 objetivo de todos as nossos esforgos, cori- siderando como absolutamsente inacessivel e vazia de sentido para ‘n6s a investigacio das chamadas causas, sejam primeiras, sejam finais”, (Comte, p. 7). ‘Como bom representante do espfrito positive, dé mais énfase a0 estado das leis invaridveis dos fendmenos que av entendimente de suas determinagGes. Ao equiparar o estudo da sociedade ao esiudo da natureza, toma como modelo a ciéncia natural e, mais especificamente, a Biologia. Desta, advém muitos dos conceitos que marcam a Fisica Social, ou a Sociologia, como os de hie- Tarquia, consenso, 6rgao, funcao, esttica, dindmica, enfim, a idéia de fendmenos interdependentes dentro de um sistema funcional, organicamente composto. Essa identificagio do estado da sociedade ao estudo da na- tureza, que leva a primeira & busca de leis sociais andlogas 2s, leis da Fisica (entende-se aqui uma interpretagio estitica desta ciéncia), climina 0 papel da prética social como elemento gerador de mudangas na sociedade. “A pritica social, especialmente no que se refere & transformagio do sistema social, fora assim supri- mida pela fatalidade. A sociedade era concebida por leis racionais, que funcionavam com necessidade natural.” (Marcuse, p. 310). A sociedade tem uma ordem natural que ndo muda ¢ & qual © homem deve submeter-se. Essa posicdo de submissio aos prin- cfpios das leis invaridveis da sociedade leva a uma posicio de resignagio grandemente enfutizada na obra de Comte. A consi- deracdo de que “o espitito positivo tende a consolidar a ordem. pelo desenvolvimento racional de uma sabia resignagao diante dos males politicos incuréveis” (Morais Filho, p. 31) revela bem isso. A pregagao da resignagao facilita a aceitagao de leis naturais, que consolidam a ordem vigente, justificadora da autoridade rei- 49 nante € facilitadora da protegdo dos int ic teresses — riqueza e — hegeménicos naquele momento histérico. na Os fendmenos econdmicos so mui conémi itas vezes apontados cia, referin inci © L Peretti, rletindo-e,pincipalmente, a caso da con Com o objetivo de fortalecimento da i te-se qualquer doutrina evoluciondria& todas ae cee centram numa renovagio moral da sociedade. A mudanga da on ciedade passa fundamentalmente por um refazet chm etiam, uma reforma intelectual do homem, ¢ menos pela transformacac de suas instituigées. A sociedade se modifica através da vite de progtesso como um mecanismo da prdpria ordem, sem des ttuigio da ordenagao vigente, num processo evolutivo. Como ate, ma Marcuse: “o positivismo esté, pois, interessado em ajudar a transformar a agitagio politica em uma eruzada filosGfiea’ que Suprimiria tendéncias radicais que eram afinal de contas incom, pativeis com qualquer sadia concepgio da hist6ria” (Ma D. 312) O citado autor continua, buscando mostrar que 0 pro: Bresso 6, em si, ordem — nao revohigdo, mas evotugto, A idéia de progresso e ordem, o isa dos fenémenos da sociedade, Parh ley make weenie pode estudado sob uma dimensio estética ¢ uma dindmica, que apre. suas dimen aatotns 3 Resa nen Reason esas 3 LBW. Op ol acinn p.24 Ao, pa ehicdar carter Ldolpico dssenatralomo postivit,exp na relexdo que denonsnoaafo dupes ue acree ton ee equ tealom -0 ou printfa penile, 0 dn rexigoras eee mismo de fazer o proletariado sceitar tal “lei natural”, one a 48 apatronante obser CE suena sten com o ena scl a gh vi sis tevoluionélo por exceléeia 0 séulo XVIN, quoreicne rece te doin plc dos ins de 1783, so sew sen no seoo UR gn ‘4¢ formar, com o positivismo, uma justificagio clenttfiea eotbelesn” Tear samea marin, se sca cs rem sl tn 50 A viséo de ordem tem sua origem na nogéo de estética, que estuda a existéncia, suas condig6es ¢ a estrutura que a gera. Corresponde & compreenséo da existéncia naquilo que ela oferece de fixo, de estrutural. A Sociologia dinfmica se preocupa com o entendimento do movimento, do desenvolvimento, da atividade da vida coletiva, correspondendo & nogio de progresso. Essa dimensdo da dinamica social é 0 que vai distinguir, marcadamente, a Sociologia da Bio- logia, ou seja, “a idéia-mae do progresso continuo ou, antes, do desenvolvimento gradual da humanidade”, (Morais Filho, p. 134). Em Gltima instncia, torna-se necessério melhorar as condigoes de vida das classes menos favorecidas, sem incomodar a ordem econémico-politica da sociedade. © desenvolvimento hist6rico dé-se, portanto, pela evolugio organizada, regida por leis naturais, ou seja, progresso histérico € ordem. A lei dos trés estados de Comte demonstra essa visio do desenvolvimento hist6rico da sociedade, Para ele, essa grande lei explica o “desenvolvimento total da inteligéncia humana em suas diversas esferas de atividade”, destacando que essa ¢ todos os conhecimentos passam sucessivamente por trés estados hist6ricos distintos: 0 teolégico, 0 metafisico, ou abstrato, ¢ 0 cientifico, ou positivo, Esses trés estados se expressam nao apenas nas for- ‘mas por que, sucessivamente, toda investigagéo passa, como tam- Ven pela propria cvolugéu da humauidade, Assim se expressa Comte: “(...) ora, cada um de nés contemplando sua propria his- t6ria, ndo se lembra de que foi sucessivamente, no que concere 4s nogdes mais importantes, te6logo em sua infiincia, metafisico em sua juventde ¢ fisico na sua virilidade”. No estado teol6gico, predominam as criagSes espontineas, do sujeitas & prova; no metafisico, a domindncia & das abstragies ¢ de principios racionais ¢, no positivo, o alicerce esté numa apreciagio firme da realidade externa, enunciendo-se as relagoes entre 05 fendmenos. 51 Assim, tanto a determinacio das leis naturais ¢ eternas como agora, a visdo de evolugio da sociedade e da histéria sob a otic Positivista aniquilam a prética social d ens, transformadora -a social dos homens, tr a 3.3 — Emile Durkheim — Os conceitos nao podem “‘substituir’’ as coisas Durkheim herda de Comte muitas d _Durke c is de suas preocupagées e, entre elas, “o ponto de visia de que a ciéncia positiva constit 4 nica posigao cognitiva posstvel” ceaptagao da realidade niaies pets Para a captacao da realidade O seu entendimento de “ciéncia positiva” passa por um estu- do metédico que pro picie o estabelecimento de leis, origindrias da experimentagio. ee _ Segundo ele, Comte nio havia chegado a realizar a ei€ncia Positiva, ficando preso a consideragies muito sen Siedade, nio clareando o préprio objeto da Sociologia, que sto oss fatos sociais, nem, tampoueo, se vollundo para as’ quesites relativas a0 método de conhecimento desse objeto: a observacny © & experimentagao, em stimo caso, 0 método comparative.” Durkheim entende por fio social “ioda maneive de apr fixa ou ndo, suscetivel de exercer sobre 0 individuo uma coereae exterior; ou entio ainda, que 6 geral na extensio de uma sociedade dada, apresentando uma existéncia propria, independente das mat nifesiagdes individuais que possa te”... (Durkheim, in Rodrigues 1988). Nesse sentido, nem todos os fendmenos sociais se cons” tituem fatos sociais, sondo essa distingao necesséria para distingra © campo de dominio da Sociologia, ad to cs fates sociais fossem assumidos no sentido com Slo 6, se fossem concebidos como todo ¢ qualquer fendmeng que se desenvolve no interior de uma sociedade, com uma re- gularidade minima, nao restaria, praticamente, nenhum fendmeno que nao pudesse ser classificado como social, nao sendo posstveis, distingdes de dominio da Sociologia, Para ele, ainda, essa citncia havia sido construfda secunda- rizando os fatos, considerando-os apenas como exemplos, ou pro- ‘vas, que confirmassem nogoes anteriores, A Sociologia tinha, até aquele momento, tratado com conceitos, isto 6, indo “das idéias para as coisas, € ndo das coisas para as idéias.” (Durkheim, 1987, p. 14), Com essa concepgio motodolégica, nfo poderia, eviden temente, ser alcangada a “objetividade” necessdria A ciéncia, pois, as nogdes, 08 conceitos nao podem “substituir” as coisas. A ciencia nio deve senfo conhecer fatos, ¢ estes tém todos 0 mesmo valor e © mesmo interesse; observa-os, explica-os, mas no os jolga: nfo bs, para ela (a citncia), fatos passiveis de eensuea © bom 0 mal afo existem a seus olhos. Pode explicar como oterminadas eausas prodwzem ais ¢ tis efeitos, mas no que fins devern ser perseguides”. (Duricheim, 1987, p. 41). ma Durkheim, Segundo José Albertino Rodrigues, Durkheim recupera de Descartes 0 principio de tratar esses fendmenos como coisas. Aliés, Comte j4 havia reconhecido esse carater de coisas quando, afirmava que “os fendmenos sociais so fatos naturais, submetidos a leis naturais (...) pois nao existem na natureza Sendo coisas” Este principio — considerar os fatos como coisas — vai se cons- tituir na primeira regra bisica de seu método e advém de sua oposigao & idéia. Essa oposigéo traz embutida uma critica a0 idealismo hegeliano que transforma a “idéia”, ou seja, 0 processo de pensamento, em sujeito autonome, “criador” do real, pressu- pondo a possibilidade de se verem os fendmenos sociais como sistemas de idéias objetivadas. afi 5 ee, ibidem, p. 17 Comte havin feito esse reconhecimento, mas, 20 aplics-o como printpla produtor «a olgacla,aseumin ae ideas como objeto de estudo. 53 © ttatar os fatos sociais como coisas nfo significa, para Durkheim, reduzi-los as suas propriedades gerais da matéria, mas capté-los na imaterialidade sui generis que os caracteriza. Nesse sentido, ele nao qualifica seu método de materialista, A preocupacao com esse principio encontra, em Durkheim, a disposigio de transformé-lo de formulacao apenas teSrica em pritica. Para ele, “ndo bastava promulgé-to; para que nfo permanccesse letra mora, ‘ra preciso transformé-lo em base de um completo ponto de vista disciplinador que se apoderasse do cientisin nn moeneato mesmes em que aborda o objeto de suas pesquisas e que o acompunhasee SSO a passo em todas as suas fases". (Durthoim, p. 125). © empenho em formular esse “ponto de vista disciplinador” esti alicergado numa outra caracterfstica de seu método: pretender ser objetivo, Com essa intengio, ele pregava: o distanciamento das pré-nogSes em face dos fatos como requisito para a sua “‘cap- tagio”; a necessidade de “atingi-los por intermédio do exame dos caracteres mais objetivos”; a obtengio através dos préprios fatos de um “meio de se classificarem em normais € mérbidos”; e, enfim, a aplicagao desse princfpio de extrair do proprio fato a sua classificagao também as explicagdes ¢ A verificagio delas. Outra caracterfstica de seu método é ser “independente de qualquer filosofia”. A Sociologia, na medida em que surgiu “a partir de grandes doutrinas filosdficas, guardou 0 habito de se apoiar nalgum sistema do qual, entio, se tora solidéria” urkheim, p, 123). Nesse sentido, ela foi espiritualista, evolu- cionista, positivista ¢ nao somente, como deveria ser, Sociologia Para Durkheim, no cabe a esta tomar posicéo. Ela “néo tem nem de afirmar a liberdade, nem o determinismo” (Durkheim, P. 123), afirma, definindo que a Sociologia deveria ser apenas a aplicagéo do principio da causalidade aos fendmenos sociais. Essa exigéncia de independéncia refere-se, também, ao que ele denominava doutrinas da pritica. “A Sociologia, assim en- tendida, ndo seria nem individualista, nem comunista, nem so- cialista; (...) ignoraria por principio essas teorias, as quais nao i ver nenhum valor cientifico” (Durkheim, p. 124), ve ies eevas ele, nio estio alentas a8 manifesiagbes que se desprendem dos fats. Somente alicergado nessa, postura de contato direto com os fatos sociais 6 que se constr6i a ciencia, Enfim, Durkheim avanga na reflexio sobre a objetividade da citncia iniciada por Comte, nio apenas enfatizando que © conhecimento se desprende dos fatos © nio das. paixOes, mas fazendoesforgo para que este principio ehegasse& prética, Nessa linha de preocupacio ressaltow o significado das regras do método socioldeico, querendo “sarantit” sua independéncia com relagi 2 filosofia, as doutrinas da prética e ao conhecimento vulgar, 20 conceber os fatos sociais como coisas, objetivamente observiveis. 3.4. — Max Weber — A neutralidade axiolégica necessaria a constru- cdo da ciéncia social lax idores desse perfodo histético, ails casera Sisects mad Cabana cokes aveno da “objetividade da ciéncia social”®. FE certo que Weber nio pode ser “classificado” como um socidlogo positivisia na totalidade de sua obra, Entretanto, nesse a i a eta sea ale trate uence ‘Quando dizemos que o# corpos sfo pesados, que o volume dos pes var ma fo 6 DURKHEIM, mile.“ 55 aspecto do postulado da neutralidade axiolégica das ciéncias so- cinis existe “uma convergéncia entre a sua teoria dos positivistas” (LOWY, p. 33), eo vueber participou intensamente da discussZo sobre 0 método ¢ eater aa ciéncias e sobre as distingSes entte as ciéncias da a as da sociedade, discussio que se deu no fi Séeulo XIX e infcio deste, na Alemanha, Rav ‘Tendo como ponto de parti essa ; Partida a separaga ccias, acreditava ele que es teoria da ciéncia ¢ a “sciedate,como rea de lates sia serrata como mata ar ceri si das loci cs Mn oe devia a um decreto de tipo metafisico, ae sx 3 gua imcenss min in soa wns sngrtanete Sa mae de etetacas tnt do tn tae mone ia do cen” imerindividuais, nto po- ie pe le, portanto, a “matéria social” estava tio proxima e ‘cionada & prética humana que nao havia condicées de sei {ratada com o mesmo distanciamento que a “matéria fisica”. Com isso, o problema da objetividade nao podia ser colocado da mesine ‘maneira que nas ciéncias da natureza, Segundo Vincent, este cien, Usta social acreditava que “era necessétio uma distinc mais rigorosa entre faetibitidade e valoragio; 08 jutzos de valor cos Jufzos de {ato deviam apresentar-se como algo irreconcilidvel, como srmos de uma anti no dois termas 4 antinomia caracweristica da realidade social” (Vincent, p. 7). é concen wba de valor estava ligada a uma idéia cae bis fo que viesse a expressar em juizo sobre a “ao Sm es fp ttn Pr enirefendmenos,lmitando-se 9 tere de concen eee isso, admitia que o investigador introduzia, na favedtipncto re i Juizos de valor ¢ 0 carter subjetivo de seus pontos de vista, ™ 0 entanto, abrir mo do que, para cle, consuls o ofiareen at 56 investigagio cientifica: “colocar em evidéncia as relagses causais, nao arbitrérias e, portanto, objetivas entre os fenémenos” (Vincent, p. 8). ‘Weber pretende superar a visto passiva do pesquisador con- cebido como simples registrador de dados e copiador de fatos is". Também nao accita a visio do pesquisador como “mero vefculo para a introdugao de tais ou quais ‘visdes de mun- do" nos resultados da pesquisa” (Cohn, p. 22). Nao pode conceber a ciéncia totalmente despossufda dé pressupostos, mas acredita que a validade do conhecimento seré medida em sua confrontagao com 0 real ¢ com 0 saber acumulado historicamente, ‘A “solugio” encontrada por ele para tal questio caracteriza os valores ¢ os pontos de vista como determinantes apenas na argumentagio da investigagio e, de acordo com Lowy, das se- guintes formas: influenciando na escolha do objeto de conh mento; orientando a diregdo da investigagio empfrica; determi- nando © que é fundamental ¢ secundério ¢ conformando a refe~ réncia tedrica ¢ as questdes de pesquisa. Isso vem explicitar “os padres de valor com que se mede a realidade ¢ a partir dos quais se deduzem os juizos de valor” (Weber, p. 25), geradores da problemitica ¢ das questdes da pes quisa. A sua “férmula” compreendia uma posigao de dupla face: fas valores comandam a concepcio € a formulagio da investinagio, mas as respostas ¢ 0 tratamento da base empirica devem ser “objetivos”, isto 6, corresponder as exigéncias de neutralidade axiolégica, ou seja, sem julgamentos de valor. ‘Assim, um primeiro momento se constituiria numa instincia subjetiva, daf passando a um segundo, o da insténcia objetiva. Para obteresta “objetividade” desejével, ele recupera 0 “apa- relho de precangoes” que Durkheim, com base no modelo das ciéncias naturais, havia formulado para se “produzit” conheci- mento cientifico. 57 Weber aponta a necessidade de ampliar os controles cien- ificos sobre o processo investigativo, incluindo nele, fundamen. talmente, controle sobre o préprio cientista, e coloca, para 0 intelectual profissional, a exigéncia de “conservar sempre a mente Serena ¢ 0 sangue-frio em face de todos os ideais, mesmo aos mais majestosos que dominam determinada 6poca, e de ‘nadar com a corrente’, se necessério for” (Weber, p. 192). Essa influéncia dos valores sobre o produto do conhecimento vai criar infinites possibilidades de variacéo dos pontos de vista 2 partir dos quais um problema pode ser estudado. Assim, cada Gientista social poderé oferecer apenas um conhecimento parcial sobre determinado fendmeno, apontando dimensdes, enfoques ¢ aspectos relevantes do problema. Segundo Julien Freund, “é 0 Conjunto de todos as pontos de vista possiveis que, precisamente, nos permite fazer uma idéia tio exata quanto possfvel de um problema” (reund, p. 44). Nessa linha de entendimento, Weber estaria caracterizando a impossibilidade de, a partir de apenas um ponto de vista, se Poder chegar & verdade. Também nao acreditaria no fato de a verdade poder ser obtida por sintese ou média de posicdes dis. Untas. Enfim, estaria, praticamente, inviabilizando a possibilidade de se ter uma visdo da totalidade hist6rica de um acontecimento, 4. APROXMANDO-SE DAS FONTES: Idéias de Marx no tempo de Marx O clarcamento de algumas i ao a ee as Mare te istorgo ituras as”, ‘Shanon momentos de su ob em que omss vet 0 colocadas, abrangentemente| balcanal sk fs are Pespes, iva de totalidade rompida. Apesar de todas as li : porile leitura, parece-me que © caminho ropes es ae es pode ser conhecido através de uma aproximagio ca intima aos seus escritos diretos. Lei. A reflexiio, neste capitulo, protende resgatar ae Se Fiormente trabalhadas,consideradas, agora, em Son pont bot gem — as idéias de Marx, no tempo de Marx. stor det \abatho estaria na tentative de buseas, nos esti rae Mars, algumas passagens que venham laa resigio a relagio aquelasquestoese que cologuem, mais ampla nan sivel, o significado que puderam ter no moment explicitadas A primeira distorgao ay la — a visac i tcoria do conhecinento, desvinslando-de oa en ae de transformagio da sociedade — assim como a se- pai eu tepetaleccicty ee de leis da sociedade, tando © poder da agio consciente dex homens sobre neat Sounaaal tee ee de quest6es centrais dentro da = ents de a 9, ae lgates a relagio origindria de sua oniblgso com o proceso de suginenio e wango da chsse tia tendo em vsia a trnsformagio da soci, , emo aa bramen dome Petspectva, a visgo do desenvolvimento da de constugio de conecimente em Mase noone com os 41 — Cenério Sécio-historico — Con- tradigao entre Produc&o sociale apropriacao privada dos meios e excedente da producao psig erettinents da sociedade burguesa veio libertar Tanai Produtivas que, no feudalism, se encontravara imp las de se desenvolver. Essa impossibilidade relacionava fundamentalmente, com o impedimento do trabalho livre, on ee}a, dominio sbsoluo do seahor feudal sobre 0 tabalio eset Produst, consegintementeimpatind a seumulags, ean pa escal ique: m6 fon ceirta Fiqueza. Assim, a burguesia, ao lutar contin o foudic + lulou por um maior desenvolvimento das forgas produtivas, A propésito, afirma Engels: 60 “A burguesia destruiu o sistema feudal ¢ sobre 0s seus destrogas cedificou a ordem social burguesa, wniverso da livre concorréncia, {da liberdade de movimento, da igualdade juridiea dos possuidores dde mercadorias @ outros esplendores borgueses, © modo de pro~ ‘dug capitalisia podia agora progredic livremente”. (Engels, in Paulo Neto, p. 148) Nesse sentido, a produgdo individual, baseada no trabalho pessoal, portanto na propriedade privada dos meios de producao por parte de quem os produzia — os trabalhadores —, foi sendo transformada de “meios limitados em poderosas forgns produti- vas”, pela cooperagio simples, da manufatura e da grande indds- tria, Os meios de producao individuais tornam-se meios de pro- ducio sociais “ultilizéveis somente por um conjunto de homens”, Do mesmo modo que os meios de produgao se tornam coletivos, ‘a prépria produgio também se transforma em uma “sucesso de atos coletivos” e, dessa forma, os produtos se convertem em pro- dutos sociais. Entretanto, ainda que os produtos fossem resultado ‘de um trabalho coletivo, foram considerados como se ainda con- tinuassem a ser individuais: “Assim, os produtos que agora eram criados socialmente nio foram apropriados por quem acionara ‘os meios de produgio, mas pelo capitalista” (Engels, in Paulo Netto, p. 150), Esta é a contradigdo basica do capitalismo — contradicdo entre a produgio social ¢ a apropriagéo privada dos meios de producao do excedente por parte do capitalista. Com isso, os avis de produge © © préprio produto resultado do trabalho individual, foram perdendo valor, levando, assim, © pe- queno produtor a assalariar-se junto ao capitalista, Como desdobramento desse modo peculiar de desenvolvi- mento das forcas produtivas, o capitalismo gera ¢ faz, crescer em seu seio uma nova classe — 0 proletariado, O seu surgimento € ‘um “mal necessério” para a reprodugao ¢ acumulagao do capital, pois o desenvolvimento do capitalismo, ou seja, a acumulagio do capital esté baseada na exploragio do trabalho, na apropriagao da mais-valia. 61 Conseqiientemente, estabelece-se um conflito antag6nico entre a burguesia ¢ 0 proletariado, entre as exigéncias dos tra- balhadores de uma maior participacao no excedente da producao © a necessidade do capitalismo que, para acumular, quer restringir a0 minimo essa participagio. Essa luta de interesses, isto é, 0 processo de Iuta de classes entre 0 proletariado ¢ a burguesia levou, necessariamente, 0 pri- meiro 4 exigéncia de explicacdo e & tomada de consciéneia do proceso. O desenvolvimento da luta de classes se d4 por um movimento de agio ¢ reflexiio; ¢ essa reflexéo, do ponto de vista do proletariado, necessitava ser feita, Uma reflexiio que iria ex- plicar todo © curso da luta de classes, 0 proceso de descnvol- vimento da sociedade ¢, portanto, de desenvolvimento do proprio capitalismo sob a 6tica dos trabalhadores. A busca da explicagio nao se daria, como 0 fizeram os economistas burgueses, pela perspectiva do capitalismo, mas seria a tentativa de explicagao segundo a viséo dos trabalhadores. Como o capitalismo comegav: @ ler um certo grau de desenvolvimento, havia condig6es de apro- priagio dessa realidade — s6 ndo se tem condig6es de explicar a exploragio enquanto ela nao esié desenvolvida, Estavam dadas, portanto, as condigées: a existéncia do fendmeno, ou seja, o inicio do desenvolvimento do processo de acumulagio do capital e, em conseqiiéncia, do proceso de desenvolvimento do capitalismo. Esse processo s6 poderia ser descoberto e explicado estu- dando-se 0 conjunto do desenvolvimento da produgio capitalista ‘Tratava-se, basicamente, de explicar e avangar sobre 0 contetido da produgio do excedente econdmico. Diz-se avangar, porque os te6ricos da economia polftica burguesa tinham, como referencial de explicagdo, a premissa de que era o lucro que permitia a acu- mulagio do capital ¢, por isso, esse lucro advinha, fundamental mente, do processo de troca, ou seja, do processo de circulagio da mercadoria. Essa explicagio escondia a esséncia do processo de produgio de Iucro: a prépria exploragio do trabalho. Marx desvendon esse mistério, mostrando que © movimento de circu. 62 lagio é, simplesmente, a operacio de realizagio da mais-valia. &, pois, no processo de produgdo da mais-valia que nasce 0 lucro, que se origina do excedente apropriado pelo capital. Para ele, 0 valor da mercadoria jé contém, em si, o capital constante — desgaste da maquinaria, das instalagGes, da matéria-prima ete. — , 0 capital varidvel — pagamento da forca de trabalho — ¢ a mais-valia, Isso significa que, ao sair do processo de produgio, a mercadoria jé traz.incorporado todo esse excedente e essa mais- valia. Assim, 0 processo de circulacéo é, realmente, apenas 0 processo de sua realizagio. O desvendamento de tal sitwagio co loca a nu que o desenvolvimento do capitalismo esté baseado na exploragio do trabalho ¢ que 0 capital, para se desenvolver, ne- cessita manter essa exploragao. Por isso, a burguesia no tem interesse nesse desvendamento e, ainda, luta para a no mudanga das relagdes de producao, pois esta significaria o fim de seu dominio, Significaria, em suma, acabar com todos os valores bur- gueses — a concepgao do individuo como esséncia da sociedade, a apropriagio privada da riqueza, a exploragio do trabalho, entre outros. E, na medida cm que s6 a extingdo dessas relagoes de produgao capitalistas poderia desencadear maior desenvolvimento das forcas produtivas, a burguesia se tora conservadora, impe- dindo esse desenvolvimento e forgando, de todas as formas, a manutencao das relagdes de produgao vigentes. E nesse contexto que surge uma nova teoria social, expresso a classe trabalhadora, articuladora do conhecimenio/desvenda- mento da sociedade burguesa. Marx vem expressar 0 ponto de vista dessa classe, encarando a sociedade burguesa como seu ob- joto de estudo ¢ intervengao, tendo em vista a sua supressio, A necessidade de conhecimento dessa sociedade pelo pro- letariado vem, portanto, junto com a necessidade de transformé-la. Nesse sentido, o vinculo da (eoria marxista com a revolugio nao 6 apenas circunstancial: “por sua esséncia cla 6 a expresso pen- sada do préprio processo revolucionsrio”, afirma Lukées. E, con- tinua o mesmo autor, 63 “a esstacia metodologica do materialism historioo nfo pode, pois, ‘ser separada da ‘atividade eritca prética” do proletariado — ambas ‘sio momentos do mesmo processo de evolugio da sociedade. As- ‘im, 0 conhecimento da realidade operado pelo método dialético rio pode ser desvinculado do ponto de vista do proletariado”, (Cakées, in Paulo Netto, p. 83). © surgimento ¢ desenvolvimento do marxismo esté, assim, intimamente vinculado & expressao dos interesses do proletariado, como instiumenty (eGrieu & exftico de conhecimento do ser soclal, comprometido com a sua transformagao, Lukées sintetiza esse entendimento, afirmando: “Quando se df uma situagdo histérica na qual o conkesimento cexalo da sociedade vem a ser, para uma classe,» condigto imediata da sua auto-afirmagio ns Iufa; quando, para esta classe, o conhe- cimento de si significa, simoltaneamente, 0 conhecimenta de toda «a sociedade; quando, em consequéncia, para um tal conhecimento, fsa classe ¢ a0 mesmo tempo sujelio e objeto, a teorla deste ‘modo, intervindo imediaia e adequadamente sobre 0 processo de revolugo social — eis quando @ unidade da teoria © da préxis, ccondigio prévia de fungio revolucionsria da teoria, torna-se pos. sivel”. (Luks, in Paulo Neto, p. 61). Ew Glin inst@ncia, portanto, essa reflexdo revela que a singularidade do materialismo hist6rico esté intimamente vincu- lada & atividade prética do proletariado, significando que 0 co- nhecimento da realidade resultante do método dialético guarda, também, uma fntima vinculagéo com 0 ponto de vista do prole- tariado, A questo de ver o marxismo como ciéneia “pura”, por um lado, € como “socialismo” por outro, é pois uma redugz0 que abandona a sua dimensao revolucionéria, tomando-o um mero instrumento cientifico de conhecimento. 64 4.2 — Resgate da heranga cultural Mare resgatou contribuigdes da heranga cultural de sua 6po- ca para a formulagao de sua obra, as quais, muitas vezes, deu um tratamento distinio. Assim, buscou, na filosofia alema, na economia politica inglesa e no socialismo ut6pico francés, a ins- piragdo para o seu trabalho. A concepgio materialista, que foi a base da contraposigao fag fewlalisin impregnado nas institwigdes © nas idéias, nos fins do século XVIII, Marx acrescentou as influéncias da filosofia clissica alema, fundamentalmente a de Hegel e, como conse- giigncia, a de Feuerbach!, no que se refere principalmente & dia- ética como “a doutrina do desenvolvimento da sus forma mais completa, mais profunda e maisisenta do unilateralidade, a doutrina da relatividade ddo conkecimento hurmano, que nos dé um refleso da matésia em ‘constante movimento”, (Mex ¢ Engels, pp. 92 © 120). © materialismo hist6rico € um avango do materialismo fi- los6fieo, estendendo 0 conhecimento da natureza ao conhiecimento da socicdade humana e mostrando a significagao do desenvolvi- mento das forcas produtivas no florescimento de uma forma de vida social superior, gestada na forma anterior. Dos economistas ingleses, Marx continuou as reflexdes $0- brea teoria do valor — trabalho, destacando que o valor de uma (Marx recupera,sinds, de Feuerbach a sta preocupasio de ditinguir ene ebjeros sonviveis objetas de pensomento, © mactilsns de Fesetback, quercnds eombater © pensamento ldealstaabstiaa,cousidera que “a maléria AZo € produto do espirito ‘0 prio expfits nfo & mals que o produto suprenva da matéria", mas ndo reconhece 4 *atvidade eoletva hunsaa como uma alividads objetva". Marx contraptsse & posigio de Feuerbach, afirmanda que 6 materi Intliva deste apenas chega "a pereepgie dos individoos iohndos “sociale civil, esquecendo que 2 realidaey 4: citenatinclas si modificndis pelo homes". Na costsposigfe a essa questo, [pathou signiicado 4 11? tse de Manx contra Feuerbach: "Os Glisofos aio flzesam imvis ue intepreta 9 mundo de forma diferent, trtt-se porém de modificsl 65 ‘mercadoria est determinada pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessério incorporado ao processo de sua producto. A descoberta dessa possibilidade de determinagdio do valor pelo tempo de trabalho é “um mistério oculto sob os movimentos manifestos que afetam os valores relativos das mercadorias.” (Lenine, p. 36). Com isso, cai por terra a visto aparente de que © valor das mercadorias € algo fortuito. Enquanto aqueles economistas viam, na troca das merca- dorias. uma telacdo entre coisas, Marx demonstra que se. trata de relagéies entre pessoas. Sobre isso, assim se express: “O misterioso da forma mercantil consistesimplesmente, pois, que 12 mesma reflete ante os homens o caréter social de seu préprio ‘trabalho como caracteres objetivos inerentes aos produtos do tra- Dalho, como propriedades sociais naturais das citadat coisas e, pporlanto, om que também reflete a relago social que medeia entre produtores eo trabatho global, como uma relagto social entze 08 objetos, existente 2 margem dos produtores.” (Marx ¢ Engels, p2). Isso significa que aquilo que aparece como uma relagio entre coisas — relagées “naturais”, que tém seu préprio movi- mento social, ao qual se encontram submetidos os produtores, em lugar de o controlarem — sfio, a0 contririo, relagSes emi- nentemente: sociais travadas entre as pessoas sous trabalhos. A essa inversao da relagdo que aparece como se fosse entre coisas, mas que ocorre, verdadeiramente, entre pessoas, Marx chamou de fetichismo, e que considera inseparayel da produgao mercantil. B através desse fetiche, desse yéu que recobre a compreensio. do processo de produgio, que o sistema capitalista perpetua a sua dominagao. O fetiche que, consegilentemente, envolve todas as formas que toma essa ligagao entre pessoas, encobre o ver- dadeiro significado do dinheiro, do capital, ofuscando a visto da fonte do lucro e da riqueza — a mais-valia. 66 Do socialismo utépico, ou seja, das diferentes expresses socialistas que surgiram como contraposicoes ao sistema de ex- ploragio dos trabalhadores pela sociedade capitalista, Marx res- gatou a idéia de resisténcia ¢ de luta entre as classes, como fun- damento ¢ forga mottiz de todo o desenvolvimento. Estudando a hist6ria universal sob a Gtica da luta de classes, ‘extrain uma teoria, cujos prine{pios sfo: a explicitagio da esséncia da diferenga entre os interesses das classes; a possibilidade de resisténcia que as velhas estruturas tem; a necessidade de supe- racdo dessa resisiéncta, através Ua organizagio, na Iuta, daqueles selores que, por sua situagio social, formardo “a forga capaz. de varrer 0 velho e criar 0 novo” (Marx ¢ Engels, p. 88). ‘Toda essa reflexio leva as trés correntes de pensamento que alimentaram a obra de Marx, entretanto, no significa que ele apenas extraiu as bases filos6ficas de seu pensamento do idealismo alemao. Segundo Henrique Lima Vaz, a sua segunda fonte de inspiragio, o socialismo francés, é mbém impregnado de filosofia. Para esse autor, 0 socialismo francés "8 0 herdeiro da fisolofia racionalista francesa do século XVI, sobretudo da Tustragio e, aléra disso, raz consigo muitos elemen- tos daguele movimento conhecido por a ‘Tdeologia’, que florescen ha Franga nos inicios do séeulo XIX. O socialismo francés langa, pois, rafzes numa rica tradigo filos6fica que, evidentemente, che- {gow até Marx pelos caminhes da literatura socialista’. (Lenine, P39), Da mesma maneira, a economia politica inglesa, que é “filha legitima do empirismo inglés”, cuja significacao filoséfica so- brepassa a sua apresentagdo como uma “ci@ncia empirica” tam- bém contribuiu como fonte filosdfica para as formulagbes de Marx. E, como adverte Henrique Lima Vaz: “a economia politica inglesa é toda penetrada pela tradicao do empirismo inglés ¢, se quisermos acompanhar sua genealogia, acabaremos chegando a Locke e & Moral utilitarista dos séculos XVI ¢ VXIII” (Vaz, pp. 5a 15). 67 Alnda nesse texto, uma cilaglo de Kolakowski amplia essa reflexao sobre a influéncia dessas correntes filosGfieas na formu- lagio das idéias de Marx ¢ aponta 0s grandes temas que estio nas raizes de Marx: “o primelro destes motivos é o Romanticismo do qual o idealismo alemao néo € senio um ramo. O Romanti- cismo acentua 0 aspecto da organicidade do real, da interpretacao dos seres numa totalidade vivente” (Vaz, p. 7). Um outro desses temas ou motivos 6 um Prometefsmo, caracteristico da tradigéio filoséfica que se inicia no século XVIII, a partir da Tustragao, ue se expressa “no tema intelectual da reivindicago rigorosa é soluta do homem eomo cria i a prOpri deste do rem dor de si mesmo e de sua propria © terceito motivo se define “pela tradigdo do socialismo propriamente dito da Ilustragio e do século XVIII”. O pensamento de Marx, que recebe uma influéneia significativa dessa dimensio, caminha para conceber “ciéncia nio $6 como instrumento de co- nhecimento da realidade mas igualimente guia da hist6ria, da agio humana e, sobretudo, instrumento de prospeccdo ¢ construcio de uum futuro melhor para o homem” (Vaz, p. 7). | Oquese ve, em suma, é que as formulagdes de Marx foram influenciacdas por uma larga tradigao européia anterior, que tove Sua expressio nessas trés fontes apontadas: o idealismo alemao, a economia politica inglesa ¢ 0 socialismo francés, Essas influén. cias marcaram decisivamente todo 0 desenvolvimento do pen: mento de Marx. " 4.3 — Algumas bases da teoria e méto- do em Marx Como jornalista, Marx enfrentou situagies significativas que © puseram em contato com problemas relacionados a interesses materiais e a problemas econémicos. Isso ocorreu, por exemplo, quando, no infeio de sua carreira como articulista da Gazeta Re. nana (1842-1843), Marx foi chamado para analisar a Dicta Re- nana que, em determinado momento, transformou o direito, ad- 68 quirido pelos costumes, da coleta gratuita de lenha nos bosques ‘em delito sujeito a punicao. Em sua exposigdo, posicionou-se em defesa do campesinato e das normas consuetudingrias, afirmando que a assembléia politica da regido estava desrespeitando as leis geradas pelos costumes, em fungao de interesses privados, con- tradizendo a idéia mesma de Estado. Este fato “aparentemente” simples, somando-se a outras discusses sobre o parlamento re- nano, levou-o a uma série de reflexes que constituiram o embrido de sua teoria da histéria — a concepedo materialista da historia. Esta concepgao juntamente com a da mais-valia — apropriagio de trabalho nao-pago como 0 “segredo” do desenvolvimento do capitalismo — foram, segundo Engels, as duas grandes desco- bertas de Marx. Pierre Villar destaca algumas questées que esse episédio evocou em Marx, ao clarear, para ele proprio, 0s seguintes pontos: + “O direito define e hierarquiza os desvios entre a agio do individuo © os prinefpios da_sociedade” (Villar, in Hobsbawn, p. 95). (Grifo meu.) B esses prinefpios, porém, no so cternos ¢ 0 legislador nao legisla em abstrato. + A definigio juridica da propriedade € de algada dos pro- prietirios, + A imposigio pela sociedade de uma visio de propriedade do absoluta esté ligada & comercializacao do produto, & possibilidade de o produto de tornar rentivel e de poder ser trocado por dinheiro. A propésito, esse autor esclarece que “o bem natural é apropriado quando se torna mereado- rin” e retoma de Marx a afirmativa de que: “a natureza do objeto exige 0 monopélio, j4 que 0 interesse da propriedade privada o descobriu” + A nova sociedade burguesa estava impondo uma razio le- gisladora ¢ climinando muitas das ages permitidas pelo direito consuetudinério. A sociedade feudal anterior havia feito algo similar, sem ter sido irracional, como, muitas ve- zes, imaginara, revelando, portanto, a sua propria raciona- lidade. Ou seja, cada sociedade impoe, em cada momento hist6rico, a sua prépria racionalidade. 69 © Estado nfo é um Estado abstrato, mas dominado, apo- derado por uma classe que exclui de sua organizagi subordinada. ae ae _ Bssas constatagdes levaram Marx a caracterizar as relagoes juridicas e, conseqdentement, 0 Esto como vineulados 2s con- ligdes materiais de existéncia ¢ impossibilitados de ser explicados pela “evolugao geral do espirito humano”. meee spfrito humano”. Mais tarde, ele escla- “entails 6, a cot, sus res nos condcbes ma- tes do existe em a fia, lagi xin qu Heel 2 exer dos ingles fares do éclo XV, compress shone ds ssc Ast cos cl ar bse a coin polio” (Mary p11) ; vs ae dessas observagSes sobre a sociedade civil — sociedade burguesa — orientaram para 0 i ci ue sei concepgao mater faaramy aoa guia” pt seus estudos posteriores. Tais resultados estdo contidos, resumi- damente, no seguinte texto: " “Ne produto social da propria exits homens entram em leterminadas relaghes, neceséras, independentes de sua ‘ : independentes de sua vontade; as lags de produ correxpandem a umn rau deteminado le desenvolvimento de suas forcas produtivas materiais. A tota- ioe cee coe i ees eres (© seu ser social que determina a sua consciéncia, Em certa etapa rela ee Sere Sie sateen teeta ae es cco eee Seen ean 70 Essas “idéias-guia” continuam e explicam ainda: a relagio de métua transformagio da base econémica e da superestrutura; fa relagao entre a consciéncia ¢ as contradigoes da vida material, fo que leva a explicé-la “pelo conflito que existe entre as orcas produtivas sociais e as relagies de produgao”; 0 fato de uma sociedade s6 esgotar seu “ciclo vital” quando tiver desenvolvido todas as forgas produtivas que a compdem; € a conclusio de que as novas relagées de producio foram “incubadas” no préprio bojo da sociedade que desaparece. Nesse sentido, enfatiza 0 filésofo, va humanidade nfo se prope nunce, senSo os penihtemas que pode resolver, pois, aprofunddando a andlise, ver-se-8 sempre que © pro prio problema s6 se apresenta quando ss condigiss materials para Fesolvé-lo existem ou esto em vias de existir”. (Marx, p. 13). Enfim, Marx termina esse “guia”, anunciando que “as relagoes sociais burguesas so a ltima forma antagonica do processo de produgio social”. Com o término dessa formagio social, chegaria ao fim a pré-histéria da sociedade humana. ‘Algumas reflexées € detalhamentos desse “guia” so fun- damentais para 0 presente trabalho, uma vez. que nele se definem ‘algumas bases da teorin ¢ método da concepsio materialista da hist6ria, ‘Uma primeira questi, diz respeito ao primado da produgio. Marx considera que esse € 0 primeiro pressuposto da existéncia humana, pois para fazer a hist6ria é necessério ter condigoes de viver — beber, comer, ter habitagio, entre outras —, € necessério, portanto, produzir a propria vida. A prop6silo, afirma que: “4g primeiro ato hist6rico desses individuos, através do qual se dlistingnom dos anitmais, nfo 6 0 fato de pensater, mas sim © de iproduzirem os seus meios da existéncia. (.) Pode-se refer cons. Ciéncia, a teligiio e tudo 0 que se quiser como distingio entre 08 homens ¢ 08 animais; porém esta distingio s6 comega a existit ‘quando os homens iniciam a produgdo dos seus meics de vida, ppasso em frente que conseqiéncia da sua organizagso corpora. ‘Ao proshzirem 08 seus meics de existancia, 08 homens produzem jndiretamente a sua propria vida material”. (Marx ¢ Engels, p. 18). n Essa concepgio da histéria bas cia-se no desenvolvimento da trajetéria do processo real da producao, tendo como ponto de partida a producio material da vida imediata. Marx avanca essa reflexdo sobre i 7 avanca ¢ dio sobre o significado da produgii na “produgio da vida”, ressaltando: eh Senate “A foram como os nivduos manfetam a sua vid ree exalumenteaguilo que slo. que s40 cael, pram, com a sods in & on som galore aco Sn fot come tim dio su tes pee ne Fonds marie dean produgto™ (Mart Engels, p19) ‘Com isso, explica a construgai incia , mstrugao das idéias a partir da instnci onde se dio as formas de produgio ¢ reprodugao iéncia © reprodugio da existénci je ; ist “ehega,conseqdentemente, & conlusto 4 cones de que fod as formas € produios di consciéncia poem ser resolves, mio por mc a ethic intelecta, pela regs 8 ‘conseiéncin dean pela me lamas em apie de le do cto mune tne fa oan ee mance lo oct cis conrets de ne nsceam ens Volidades idealistas”. (Marx, in Ianni, p. 146). fa Em iiltima instincia, Marx quer ress: intis Et entre forgas produivas — natreza, mies de prego fee de trabalho — ¢ as relagdes sociais de produgao, conforma 4 © modo de produgio peculiar do capital ri ait Portamto, a produgio da riqueza material da sociedad, conse Quentemente,fodas as instncas da vide do individuo € da so le. Daf, a si ‘upagéo com a categoria essenci Cc avandlise do capiatitmo 9 valor nn Senet ra 1 © determninando, Toda essa questi coloca-se como uma lei da vida social, gue, segundo Marm, 6a forma através da qual a sociedade oa lesenvolve e opera semelhantemente as leis da natureza. A comparacio com as leis da Fisica da Biologia se deve 4 que, na sociedade, tis leis, na medida em que se desenvolvem 2 a revelia da consciéncia dos homens, terminam operando como as lois da natuteza. O carter de lei esté, ainda, relacionado com fa forca como clas “obrigam” 0 individuo — “elas se impdem aos seres humanos com a mesma ¢ inexorével necessidade de uma avalanche ou de um tufao” (Kolakowski, p. 412). © capitalismo eresce devido & anarquia da produgéo ¢ seu desenvolvimento se dé & margem da consciéncia que 0 homem tenha sobre ele. Nao hé uma relagio consciente, planejada, pois © todo 6 formado por varias partes independentes que se desen- volvem, por vezes, revelia da totalidade, concorrendo umas com as outras. A produgio social é regulada, controlada, no diretamente pelos homens, mas pela mereadoria. Esse controle realiza-se por meio dos mecanismos de mercado, em que todos se encontram de forma anérquica, desordenada. A produgio nao guarda uma relagéo direta, bisica, com as necessidades da so- ciedade, mas com a capacidade de consumir dessa sociedade. g nesse sentido, de algo que se desenvolve “independentemente” do homem, que se coloca a questio da comparagio das leis da sociedade com as leis da natureza, ainda que o homem tenha cada vez mais controle sobre esta Esse modo de ver implica que, enquanto existir 0 capitalis- mo, esto inviabilizadas as condigdes de uma intervengio global consciente, porque isso significaria destrui-lo, acabar com a forma que propicia 0 equilfbrio do processo glahal de producto, € eli- minar os mecanismos de mercado. Em iiltima instincia, signifi- caria a destruicao das relagoes capitalistas de producio, 0 fim da propriedade privada dos meios de produgao ¢ a apropriagao privada dos excedentes da produgio. Por outro lado, a contradigéo do processo de produgio entre forgas produtivas ¢ relagbes sociais correspondentes vai gerando consciéncia do processo de exploragéo. © homem ao tomar cons- ciéncia desse processo ¢ das leis hist6rico-sociais que o geram, cria a possibilidade de intervengio nele. B a A esse respeito, como jé se disse anteriormente, Engels esclarece: “As forgasativas da sociedade stuam, enquanto no as conhecemos « conamos com elas, exatamente como as forgas da natureza: de ‘iodo cego, violento € desiruidor (..) Em troea, assim que pene- {ramos na sua natureza, esas forgas, pastas nas mos dos produ- {ores associados, converter se-fo de tans demoniacos em serves submissas”, (Engels, p. 71) Essa “comparagao” com as leis da natureza pode ser uma das causas responsdvers pela distorgao da leitura da concep¢io de Marx sobre a transformagéo da sociedade, considerada uma concepgio determinista, como se o desenvolvimento da sociedade fosse resultado automdtico ¢ de um tinico fator — a determinagao econdmica. Essa concepgio minimiza a dialética sujeito-objeto no processo de construgio do ser social plasmado pela atividade humana. ‘Com base nessa primeira questio, Marx define alguns prin- cipios: 1, Que “os homens que, desenvolvendo a sua produgio ma- terial eas suas relagoes materials, transformam, com esta realidade que Ihes é propria, 0 seu pensamento e os produtos desse pen- samento” (Marx e Engels, p. 26). Nao é, pois, a consciéncia que determina a vida, como acreditavam os filésofos idealistas ale- mies, mas a vida que determina a consciéneia, Aqui, a vida 6 entendida como a totalidade do ser social que produz determi- nados contetidos de consciéncia. Essa doterminacdo nao € vista somente como resultado da estrutura econémica, numa relacéo causal direta entre economia ¢ ideologia, © que se constituiu na deformagao vulgar do Marxismo, que teve inicio na época da 2! Internacional ¢ se desdobrou posteriormente (Lukdcs, 1979). Opondo-se ao idealismo, Marx quer climinar 0 cardter idea- lista que esta impregnado na afirmacdo de que “os homens fazem 14 i tiva materialista”, que, no en- hist6ria", assumindo uma perspec ist? ttn nao é passiva, empiricista, no sentido positivista do ter oe mas que resgata @ ago dos homens. Nesse sentido, Engels fez ta disingo entre “hisria da natureza’,extesior 3 ago bu ‘mana, ¢ a “historia dos homens”, que é a “interagao e1 eee tj natureza”, E, a propésito, desenvolve a seguinte reflexto: aio difre wits A nia do desenvolvimento da soci di aan ona, de hinted deonelient da mae Nesta se ‘excluimos a reagio exercida, por sua vez, pelos homens NS nono quer so fe conse eg sesh usec cons ot oe tone moe wa gel (2) om toca tn soto gens 0 ttkeio hones dtaos de conEnia que ta sob op sts pet, teen etnias His” Ms © gst 107 Com isso, fica preservada, também, a intervensiio do homen hist6rico conereto, Portanto, o movimento de produgo da vida material/pensamento obedece & diregdo realidade/representagio/ realidade, nao podendo ocorrer 0 contrério. ; i sta 6 uma caracterstica fundamental da diaetica marys: a conscincia & produto do ser social e, a partir dessa consciéncia, o homem intervém para modificar a realidade, que, primeiranion te, geron sua prépria conscigncia. O conhecimento da realidade [GSE penton on tt it ii ton tt, ce iin . No que se refere & sua visio de conhecimento da realidade, ele desenvolve, ainda, outras quesides, em “O método da eco. nomia politica”, que merecem atengéo: ‘Todo conhecimento “aparentemente” comega com o teal. No entanto, esse real € pura abstracdo, se nao 6 localizado em todos os desdobramentos que contém. Em exemplo ci- tado por Marx, uma populagio a ser conhecida, se constitu numa abstragio se nao é vinculada progressivamente as clas- ses, a0 trabalho assalariado, ao capital, a troca, & divisiio do trabalho, valor, pregos ete. 3 LOWY, Michach As oventuras de Kart Mare contra 0 Barto de Mitnchhausen. Séo Panto: Busca Vida, 1987. p. 200, © autor faz uma teflexio sobre 2 possbilidads de eupetiridade do ponto de vista 4e clase do proetariado com regio A burguesa, cortlacionsado a novessidade do proletariado de “saber ¢ fazer saber" a verdade, de desoobir o ocolto de sociedad brguesa o interesse que a burpucsia tem de ceultar 4 verdad de oeultéa de st asprin B a Uma investigacao bascada numa visio empiricista, do vi- sivel, do que € dado, nio capta a realidade social, levando a conceitos fragmentados, abstratos. Como afirma Marx: “Se comegasse, portanto, pela populagio, elaboraria wma repre- ee ieee ae cchegaria analitcamente, cada vez. mais, a conceites mais simples; do ‘concieio representa, chogaria a absiragbes (universalidades) cada ‘vez mais tenues, aé sleancar as determinagics mais simples. Che- tndo a este pono, teria de vollar a fzer a viagem de modo iaverso, ee eee al ae oes a See A etormnagese rele vers” (Mar, a FerandesyP 409) Sinteticamente, pode-se depreender do exposto: © conereto é concreto porque é sintese de miltiplas deter- minagées, isto 6, “unidade do diverso”. Portanto, 0 real s6 se torna concreto quando entendido nas relagSes que 0 ge- raram, caso contrério, sem determinagées, 0 mundo ficaria reduzido ao conjunto dos fendmenos, podendo apenas ser descrito. ‘A esfera do concicto € 0 pensamento ¢ é resultado, no € ponto de partida, embora “seja 0 verdadeiro ponto de par- tida”, isto 6, cle 60 ponto de inicio da intuigio © da re- presentacao. Por exemplo, a mais-valia é concreto pensado. Ela esté no real, mas niio se depreende da simples observagio ‘empirica, Ela é produto da reflexio, que tem seu ponto de origem na mercadoria, e € ponto de partida para a compre- ensio do modo capitalista de produgio; © modo de apropriar-se da realidade consiste em elevar-se do abstrato ao concreto por meio do pensamento, no a partir do trabalho da intuigao e da representagio origindrla no real, porém a partir de conceitos mais simples j4 dispo- niveis com anterioridade, Isso caracterizaria © movimento cientifico do conhecimento — a sua dimensio tedrica ¢ 0 retorno ao real, considerando-o como uma totalidade rica de determinagées, construfda no pensamento; 19 0 As categorias so produtos da sociedade que as engendra, em dado momento de seu desenvolvimento. Assim, ‘as ca- tegorias simples so a expressio de relagées nas quais 0 conereto menos desenvolvido tem podido se realizar sem haver estabelecido ainda a relagdo mais complexa” (Marx, in Fernandes, p. 411). A construgao da explicagéo da cate- goria esté ligada as possibilidades do conhecimenio em cada momento hist6rico, expressando “formas de vida, determi- nagoes de existéncia”, As categorias simples ou complexas expressam, pois, as relag6es dominantes de um todo que poderd ser mais ou menos desenvolvido, como, no proceso hist6rico real, as leis do pensamento abstrato se elevam “do mais simples ao mais complexo”. A categoria trabalho, por exemplo, que tem sua existéncia original na antigilidade, 6, entretanto, “uma categoria tio moderna como 0 so as re- lagdes que engendram esta abstragio” (Marx, in Fernandes, p. 412). As modificagées que tornaram complexa essa ca- legoria estio ligadas a modificagoes sofridas pelo trabalho na vida real, como meio de produgio de riqueza. O enter dimento num grau mais complexo significa entender o mais simples. A sociedade burguesa, segundo Marx, “6.9 organizagio hist6rica da produgio mois desenvolvida, mais diferencia. As categorias que exprimem suas relag6es, @ com preensio de sua propria organizagio a tornam apla para abarcat a cxganizagio as relaghes de produgio de todas 28 formas. de Sociedade desaparecidas, sobre cujas ruinas se acha edificada’. (Marx, in Fernandes, p. 414), Somente se pode conhecer uma forma inferior conhecen- do-se a superior, assim como Marx acrescenta jocosamente, “a anatomia do homem é a chave da anatomia no mono”. A produgio superior, mais desenvolvida, predomina sobre as demais ¢ deter- mina 0 peso de todas as coisas. Portanto, na sociedade burguesa, “o capital € a poténcia que domina tudo. Deve ser 0 ponto inicial © ponto final a ser desenvolvido (....” (Marx, in Fernandes, p. 416). © conhecimento da realidade da sociedade obedece, pois, 80 fa uma ordenagao categorial que nao corresponde ao seu desen- volvimento hist6rico. Ela deve seguir uma ordenagio tedrica re- lacionada & sua significagao “dentro de uma sociedade mais com- plexa”, Assim, no caso da sociedade capitalista, passa do enten- dimento das determinagées mais abstratas — que aparecem em quase todas as formas de sociedade — as categorias que marcam especificamente a sociedade burguesa ¢ sua “organizagio inte- rior”, alicergada nas classes sociais, ou seja, vai de capital, tra- allio assalariado, propriedade fundidria ete. até Estado ¢ relagoes centre ag nagées ¢ mereado mundial 81 5. UIRE-OLHAR OBRE 0 REAL: Oensino da Metodologia no Servico Social Retorna-se ao real onde os dados nao sio meros dados. Biles fazem parte de uma realidade ¢, portanto, estio impregnados de significagio, embora nfo sejam a propria realidade. Esse re~ torno ao real amplia ¢ enriquece a qualidade da andlise, coloca problemas novos, refuta questdes, ilustra ¢ alarga as referéncias tedricas inici 5.1 —A origem da disciplina: Uma vi- sao fragmentada A incluso, no curriculo do Curso do Servigo Social, da disciplina Metodologia, que aborda o debate da teoria social de Marx, a tradigao marxista e suas vertentes no interior do Servigo Social, é resultante de uma série de determinantes hist6ricos, so- ciais € politicos. 83 Esses determinantes t¢m a ver com o préprio desenvolvi- mento da sociedade, que vai definindo demandas concretas, obi gando a profissio a se rever e, portanto, a reformular a formacéo de seus profissionais, no sentido de dar suporte a novas exigéncias. Acemergéncia dessa disciplina, com sen contetido especffico, deve ser entendida em sua vinculagio a um momento hist6rico determinade — os recentes anos 80. Esse momento hist6rico é expressiio de forcas sociais em movimento, que geram a si pr6- Prias € so geradas por um dado nivel de desenvolvimento das Forgas produtivas das relagdes sociais e politicas corresponden- tes, numa sociedade concreta, a brasileira. A compreensio de sua origem implicaria retomar esses de- terminantes em sua totalidade ¢ em sua expressiio concreta, tendo em vista a profissio ¢ a formagio do profissional de Servigo Social. O estabelecimento de um nexo amplo entre as influéncias desse movimento mais geral da sociedade, como um todo, e as questdes que se desenrolam no debate profissional conseqiiente revelam-se, de modo fragmentado, nos varios depoimentos co- letados. Os entevistados, em sua maioria, levantam um ou outro aspecto dessas determinagées, sem demonstrar, contudo, uma vi- sao mais totalizador da origem das quest6es. Apenas em uma das entrevistas demonstra-se essa preocupagio: “O que me parece um elemento central que toca muito os assis fentes sociais, sobretudo as vanguordas profissionais que esti alo- ‘eadas em algumas escolas, Sendo em todas, é a propria realidade ‘6cio-poiitica do Pais”. E, na mesma entrevista, define-se, ainda, como elemento explicativo inicial, a extensao ¢ a intensidade do poder da ditadura militar a que esteve submetido Pais durante anos e que levou a riscar © debate te6rico-pratico do Marxismo como uma possi bilidade a ser contemplada na formagao profissional no Servigo Social ¢ em toda a Universidade brasileira 84 “0 pimeioelerento ¢ 0 quarosécio-poltica bso, do ocaso de lad, a transigdo dos anos 70 para os anes 80 Toda uso Scie de incdighs no vido academia deaparece, Uma delas ¢ @ caveelamento-do Manso, queer estado muito residal- trent ra um fora de restenia voce dete © MBPism0 € 2 posibilidade,quase sempre num fibio dis escola de Servigo Sock, ae pees influences tebricas que tebatiam, & ume re- dogdo do Marisn a um epistemologlsme, donde wna iflubn- cia althsserana muito forte ness period ‘Ainda nessa fala, depreende-se 0 significado da reemergén- cia das classes trabalhadoras na cena politica biasileita na década de 70, as quais comecam a formular & profissio questdes que as suas referéncias analiticas, até entio desenvolvidas, eram inca- pazes de responder: Cando voce tem uma precipitagio na Ta conta a tadura — reuptagio soc, politica © keolopice, ue 6 posta pla tense Eo dr clase opera no cendcio police baa nfo dd para yoo expla a prove do ABC com esque altnscerianos ‘Yoo! vai evo a outos padres denis, ous eofernclas de mslise” ‘Também sao apontados, como elementos que compdem ¢s- se quadro explicativo, a pressio pelo movimento estudantil, que, dentro de uma perspectiva de esquerda, cobra 0 debate do Mar- xismo; 0 papel significativo da volta a Universidade e, concre- tamente, a Curso de Servico Social de professores cuja contri- buicdo académica havia sido interrompida por atos institucionais do perfodo militar — “um retorno a docéncia de Servigo Social de figuras que, durante certo tempo, estiveram marginalizadas, excluidas, alé exiladas da vida académica, politica, exiladas do Pafs”; a expressiva contribuicio de professores que participavam. ou tinham participado, durante algum tempo, dos movimentos sociais € politicos da sociedade ¢ da categoria, No se pode esquecer 0 significado do processo de critica caracteristico das ciéneias sociais, proceso que coloca em cheque a propria concepgao de ciéncia, constituida sob o signo da ciéncia 85 pura, auténoma © neutra, Desmorona, entdo, 0 castelo em que se abrigavam os cientistas sociais, que “nao se deixavam contami- nat” por sua prépria inserco social na sociedade, escamoteando a questo da determinagio social da ciéncia, Essa crise das cién- cias sociais questionow a relagao de saber ¢ poder, a utilizagao desse saber como forma de controle das classes, que podem tomar insegura a coesdo social do sistema. Discutiu, ainda, a validade dos paradigmas formais até entio utilizados, em muitos casos, apenas como justificadores dos esquemas de dominacdo social: ‘slementos que me parece importante € toda uma discussio que ‘se passa no interior das Ciencias Sociais. Uma discussfio que nom sempre 6 uma discuss marxista, mas uma discuss com © mat- xxismo. Toda a discussio da crise do marxismo, das modemnidades, pés-modernidades,” confirma um entrevistado, No bojo de toda essa discussio, Paulo Freire © seus Edu- cagdo como Pratica de Liberdade ¢ a Pedagogia do Oprimido trouxeram para 0 Servigo Social inquietagdes no que se refere a0 homem como sujeito de sua histéria, & discussio da pritica pedagégica do assistente social, colocando para a profissio al- gumas indagagoes politicas que se desdobraram em uma aproxi- magio ao marxismo. A Reconceituagéo, como um movimento interno que se ini- ciou na década de 60, na busca da superagio da prética profis- sional assistencialista, foi um marco decisivo, que levou a exi- géncia da incluso, no curriculo do curso, da disciplina em dis- issiio: a Metodologia no Servico Social. Na verdade, pode-se dizer que foi nesse momento que, de modo mais amplo, os pro- fissionais dessa 4rea olharam criticamente 0 significado de sua agdo profissional, Foi ainda nesse momento que ficou mais nitida 1 relagio entre a ago do Servigo Social ¢ 0s interesses das classes dominantes da sociedade, Por Reconceituagao entende-se todo um processo de ques- tionamento da profissao do assistente social, que se estenden pela 86 América Latina e que, iniciado nos anos 60, tem repercussées desdobrameiitos até os dias de hoje. Esse movimento reuniu di- ferentes correntes de pensamento, que tinham entre si um ponto de convergéncia inicial: 0 fato de serem contestatérias de um Servigo Social marcado pelo seu posicionamento mantenedor do status quo. Este movimento, que, num primeiro momento, parecia in- cluir também uma perspectiva de moderizagio da profissio, vi sando somentc 4 melhoria de eficiéneia técnica, caminha para afirmar “uma perspectiva que questiona a propria legitimidade da demanda e os compromissos politicos subjacentes ao exercicio da pritica profissional.” (Carvalho ¢ lamamoto, p. 372). ‘A década de 60 colocou para 0 profissional do Servigo Social desafios provenientes nao s6 das novas exigéncias das reformas do base, como também o aumento da demanda do Estado ¢ do capital privado, que levaram 3 constatacao da faléncia dos marcos com os quais a profissio vinha operando, Raul de Carvalho, a propésito, faz a seguinte reflexio: “A panir de vétias frentes meio profissional passa @ ser pres- sionado para assumit posigbes concretamente frente a0 debate que atravessa a sociedade podendo sintetizar-se, naquele momento, tna questi das ‘reformias de base’, entre transformagoes estru turais da sociedade ¢ a perspectiva de modemizagio, da ac tagiio da fungi ‘civilizatéria’ do capital estrangeiro™. (Cavallo ‘¢ Tamamoto, p. 367), ‘A situagao nacional encontrava-se, entio, fortemente mar- cada pela crise € colapso do populismo € a reordenagao das po- sigdes dos pafses imperialistas com relagio aos dependentes, ou- tros fatos, geram inquietagio e agitacdo politica em toda a Amé- rica Latina, Ao nivel da sociedade civil, surgem e ressurgem grupos de esquerda, incluindo, no conjunto, a prépria esquerda crist@, de significativa expresso na Universidade, nas escolas ¢ ho movimento estudantil, grupos que colocam questionamentos 87 A profissiio como instrumento ideolégico propulsor, fundamen- talmente, de interesses estabilizadores. A Reconceituagao trouxe consigo, em sua critica ao assi tencialismo © as novas tendéncias neo-assistencialistas, a questio do marxismo, que, 36 posteriormente, é incorporado como con- tetido de disciplinas no interior de currfculos. E interessante notar que esse processo no rompeu radical- mente com uma heranca conservadora, de cunho positivista ¢ irracionalista, predominate, historicamente, no Servigo Social © que vai constituir-se num dos fatores explicatives da aprox magi tardia da profissio ao debate do marxismo e & sua incor poragio, por via de um marxismo positivista, suavizado nos mol- des de Althusser e Harnecker. Pode-se, portanto, concluit que a Reconceituacdo levou a uma ruptura politica que nao foi acom- » panhada por uma ruptura teérica com essa heranca conservadora. A quase (otalidade das falas dos entrevistados ressalta 0 significado do movimento de Reconceituagio. Entretanto, dio peso a sua dimensio de critica A pritica de repasse de beneficios sociais, através do qual se plasmam interesses das ses dominantes, que ao debate marxisia proposto pelo movimento: Esta disciplina, cla se fez necesséria no curticula do Curso de rvigo Social, sobretudo acompanhiando o debate da profissi0, a partir do momenta da Reconceituagio, que discute, denuneia, toda 4 ofigem do Servigo Social, que Toi sempre vineulao com as classes conservadoras, dominantes, ¢ coloca, para 2 profisso, ie jas que propdem alternativas de trabalho diferentes, articulados ‘com outros setores da sociedsile”. A exigéncia formal de insercao da disciplina Metodologia no Servico Social na formacao profissional dos assistentes so- ciais, como requisito do curriculo mfnimo definido em 1982, €m substituigdo as disciplinas Servigo Social de Casos, Servico Social de Grupo e Servico Social de Comunidade, € observata em todos as entrevistas. Também ¢ afirmado, unanimemente, que a incluso dessa disciplina sem ter, como as domais, contedido © 88 carga hordria minima preestabelecidos, possibilitou a introducao da discussio Metodologia no Servico Social em diferentes ver- tentes, entre estas, 0 marxismo. F interessante ressaltar os varios nomes que essa disciplina presenta, nto momento, em diferentes Unidades de Ensino Su- perior: Tendéncia Hist6rico-Estrutural, Tendéncia Critico-Estru- tural, do Materialismo Hist6rico-Dialético, entre outros, 0 que implica nao apenas uma distingao semantica, mas também, como se vera posteriormente, distintos modos de conceber e desenvolver 6 conteiido do programa correspondente. ‘A conquista desse espaco real, assegurando a presenga da disciplina, com este contesdo espectfico, originou-se, em algumas Unidades, nao apenas do total desconhecimento da sua vertente bisica, como da rejeigéo a cla propria, A fala de um professor revela isso: ent aqui, intemamente, 10 “has 0 problema 6 que, até entio, como aqui, ents havia possibilidade de st por até mesmo a informagto dessa abor- dagem esiava dificil até de se colocar. Eu vou falar sobre mien Feo melhor momento que ew estou tendo agora pars poder con- solidar, até ter uma equipe de trabalho, Porque essas cosas no funcionam somene no papel. A gente em que te sso funcionando. Enlao, agora, nesse moment, inecnamente,€ ye «st havendo possibilidade, c fer trabalhat, ossiblidade, que eu estou com uma equipe para podk as jen ape fens, lgieamente, nas cuts das aordagens (Fe omenologa e Psicossocial). Acho que € por uma questfo interna, (jue a gente j6 eonhece o betéria, a situacin ada aqui. Fntio, acho que, nesse momento, ev nao diria que & 0 ideal, mas eu dria que € 0 que de melhor esis acontecendo: a possiblidade de se dar, de uma forma mais eonsistente, esta abordagem Essa conquista foi produto de Iutas internas, de critica as formas existentes de pensar a profissdo ¢ a formagio profissional, em virias Unidades de Ensino, como expressa esta fala: “Foi uma luta muito grande de todos os professores daqai. Dos professores que ohm uma visio mais erfiea da sociedad, uma isto do propric movimento de reconceituagio do movimento de iransformagio do proprio Servigo Social” 89 E, acrescentando, ressalta o entrevistado: “Foi toda uma histéria, dentro da pr6ptia escola, de madar essa forma com a antiga ditegio da escola, que era a tendéncia ideo logica predominante, a mais conservadora, € © grupo novo, de professores que assummiram toda uma tendéncia mais erftica. Fes ccolocam ¢ ganham essa abertura através desse curticulo novo” comegam a se confrontar nas Unidades de Ensino assim foi co- E, num outro depoimento, a idéia de forgas opostas que locada: “Tem os cursos profisionais, nao dlrla tradicfonais nem antigos, Porque isto nio é uma questio de idade, € uma questo de visio do mundo, de concepgio de mundo, Os profissionais cuja visio {de monclo permite pensar de forma parti, cle forma isolada, ado- ‘tam uma pesigdo bastante eristalizaida, Por outta lado, os profis- jonais que tendiam « pensar o mundo de forma compativel com 8 emergéncia das forcas socials vivas da sociedade”, Se a disputa foi acirrada em algumas unidades, 0 que revela 8 forca do significado da abordagem da perspectiva marxista, sua incluséo, vista como uma dimensio importante dentro de uma visio pluralista, em algumas situagées, passa a considerar-se componente de uma visio eclética da formagio profissional. Ao contririo da perspectiva pluralista, que capia as dife- ' rentes possibilidades de explicagdo da realidade © néo as trata amalgamando-as, historicamente a profissio do Servigo Social foi marcada pelo ecletismo no trato das virias formulagies. & correntes de pensamento. Quando se fala de ecletismo, na verdade esid-se fazendo referéncia a uma tendéncia sinerética & toleraincia 8 conciliagéo de posigées heterogéneas ¢ contrarias, assumidas como se fossem concordantes. Esse mosaico, que o Servigo Social sempre fez, tende a garantir uma posicao moderada permanente, até mesmo de respeito a aceitaco do proprio sincretismo: “Na escola ndo hi debate em que efetivamente se explicitem as diferengas no modo de abordar as quesides, Estas sto escamotendas sob uma aparéncia de igualdade, para ‘garantie’ as relagoes in- 90 Essa. perspectiva celétca expressa na montagem © desen- volvimento do curriculo do Curso, em algumas Unidades de En- sino, ficou caracterizada quando, numa fala, se disse: sso hoje agente cha a propose do xeon 0 es aged qu eto ate conciago, uo G,4180 Ses seca de mesma ma com qo antes fe Se culo mini da ABESS(Anocgio Hla de sino Se Sage Soy regu ons uma egos un seers a contin que mo evs acer que howe lg Siteatunde¢ feo ado contelado”(Gxif0 me.) FE continuando: “& uma colcha de retalhos. E eu acho que, ‘na maioria das Escolas, deve ter acontecido isto. Agora, 0 que ‘a gente sente aqui é uma auséncia de debate’ Essa posigdo pluralista, que hoje ganha campo nas Unidades de Ensino, foi assim definida: tu opto o eal dag coma om erclo pais, as chock Se rm ano te si embora eta falas tna expects ‘Sia at eecen do capo cove cate do rp tte sae petal Faschogu so. otnsgiode scone Soe eral cm aes ea gore vom fend, sre usar mus ev neko ea itengio dle (0 posta se at Eat, a Gide do etcosines Jo ee ina impart, a eine Se Umm outro depoimento ilustra, também, a determinagio da incluso da disciplina como forma de praticar 0 discurso lara lista: “Mas vocé tem certeza de que vai poder dar este contedido? ‘Nao vai dar problema? Bu fale: ‘Nao, nfo vai tet problema. att porque precisa existir a questio do discurso pluralista, que se efetivar’” Grifo meu). fesse depoimento, além da questio do pluralismo, perce- crito”, amedrontador, que vai gerar problemas ¢ “subverter” & ordem, Conseqtientemente, pode-se dizer que 0 espago conquis a1 \ tado pelo marxismo se impé: sm 1pbs, vencendo preconceitos com relaga a sua propria concepgio. ete Nesse processo, as diferentes Unida insin as que ainda nfo inclufram esta diseiplina, com este contesdo, em seus curriculos; em seguida, vém as que jé a incorporaram, mas sem definir a discussao que se dé no interior do préprio Marsismnos ©, por tiltimo, aquelas que, mesmo em minoria, j4 (odo u e t tem todo um espago garantdo ¢ se propem clarear essa po- “Como eu estava te dizendo, bo) izendo hoje, enfim, pelo menos dentro desse repo supostamente mursista ou, Sendo, pogresina,exstom por emicas. A gente fom dsetio mute loxgamente a, € 9 megado a se colocar. Porque, até hé poUuco te -mpo, parecia que tb man prs gf poet Sr ced fo igual. F a gente esti assumindo esses aiferengas. Esti « tga iferongas. Esti com Enfim, a emergéncia © a inclusio dessa nova perspectiva na formagio profissional do assistente social expressa a forga de seu significado ¢ a impossibilidade hist6rica de ni contempli-ta Ts ei elomenibg ees dear cee que 6 post rat no Servgo Sct voc lear do dala somes ha, damental vetoos co peaseni mundo sexcnodans fis rmarristaesté de tal maneita encravada na eullura ocidenta! ne ‘nao. ha como impedir, mesmo na Universidade brasilei a ie Save a as eau csc a 5.2—o0 suporte tedrico da disciplina: Marxismos sem Marx aot Compreensio manifesta pelos professors dos conecitos lo modo de repassar a proposigiio de Marx revela, por outro 92 lado, a diversidade de marxismos que transitam na formagio do profissional do Servigo Social. 0 desenvolvimento das idéias de Marx, pés-Marx, foi ex- tremamente diversificado, 0 que leva a que mio se possa falar de Marxismo ¢, sim, de marxismos, implicando diferentes com- preensGes e incompreensdes de sua obra, com seus matizes va- riados. Como j4 foi mostrado, os desdobramentos da contribuigéo de Marx significaram uma possibilidade nao s6 de enriquecimen- tos, mas também de distorgdes ¢ empobrecimento, quando se tornaram produto de influéncias reducionistas, que minaram al- gumas leituras que se fizeram de sua obra, Entre essas, relem- bre-se, encontra-se a influéncia do Positivismo. Em nivel mais gral, as diferentes coneretizagées da disci- plina Metodologia no Servigo Social, em seu desenvolvimento, no presente, nao se questionam quanto a essa questio. ‘A distingéo entre 0 que 6 a obra de Marx ea tradigio mar- xista posterior nio foi apontada, pela maioria dos entrevistados, ‘como uma preocupacéo de fundo no entendimento do desenrolar dos contéudos da disciplina. Apenas em um depoimento essa inquietagio foi assim revelada: “primeira, minha preocupagao insistir na distingo entre a obra mariana ¢ a tradigio marxisia Ta acho gue esti intimamente Tigedas, mas sdo diferentes. Quer dizer, a obra marxiana — clare de obra mariana aquilo que da responsabilidade da Lavra de Marx — e a ttadigéo marxista, todo 0 acsimulo de pesquises, de Interprotagbes, de desdobramentas, de ampliagbes, que éresultante dda obta marxiana, mas que é atravessada por condicionalismos politicos, culturais, regionais,éticos ete. Ent, fago questo de mostrar o seguinte: iio Iii 0 Marsismo, 14 uma fonte ¢ uma Iradigio que se acumutou em torno dela, com vertentes diferen- ccadas. E que essas vertentes nem sempre sio compativels entre si, apresentando, inclusive, dessineronias com a fonte da obra mar- lana”. (Grito meu.) 93 re | Isso revela uma ndo-discussio entre os professores dessa rea, em geral, do Marxismo ¢ de seus desdobramentos, que le- varia a clarear os diferentes marxismos ¢ a distinguir, nas varias visGes da obra de Marx, 0s aspectos nela percebidos deforma- damente. Assimilam-se ¢ reproduzem-se, acriticamente, leituras que apresentam, entre outros pontos discutiveis: um Marx que agiganta a determinagdo do fator econémico como elemento tni- co, gerador do desenvolvimento da sociedade; um Marx que su- pervaloriza 0 papel das classes, de sua Iuta, do significado do sujeito construindo sua hist6ria, desvinculado da base material que 0 sustenta; um Marx que é metodolégico na propria acepcao positivista, ou seja, que se reduz. ao método; um Marx atrofiado & sua dimensio de cientista social “pesquisador” da sociedade, desligado de sua convicgao da necessidade de transformagio dela. A preocupagio em recuperar Marx através de seus textos originais jé 6, no entanto, expressiva, mas a sua pritica ainda se revela incipiente: “Veja. Parece incoerente. Eu acho importante © aluno conhecer o original, ¢ ew ndo trabalho com o original de Marx, (...) a gente recupera alguns conceitos”. Essa afirmagio de um entrevistado correspondente, também, a0 que ocorre em algumas outras Unidades de Ensino: a disciplina tem seu desenvolvimento “garantindo” por intermédio da leitura de intérpretes de Marx, recortendo pouco a textos do préprio Marx. Entre os autores mais estudados, destacam-se: Gramsci, Karel Kosik ¢ Bachelard. Ao nfvel da produgio nacional mais préxima do Servigo Social, encontram-se Marilda Viliela lama- moto ¢ Miriam Limoeiro Cardoso. Na sua majoria, 08 professores nfo conseguem situar com clareza que leitura de Marx esses autores fazem: “Que eles sio interpretagdo cu sei, mas em que sentido sc coloca a sua leitura, eu nunca pensci sobre isso”. Ao assimilar a leitura de diferentes autores, sem localizar, contextualizar ¢ relacionar sua posigio como diferenciada da de Marx, os docentes, de modo geral, acabam por repassar uma 94 idéia deles mitificada, atribuindo-Ihes a descoberta e 0 monopélio da andlise de determinadas questOes que, na verdade, jé haviam sido colocadas e trabalhadas por Marx e que, de fato, esses autores apenas desdobraram. Desses, 08 que apareceram mais insistentemente na indica- cdo bibliografica da disciplina, em seus diferentes tratamentos, foram assim situados: #0 texto de Karel Kesik, no fivro Dialética do Concreto, que & ‘© mumio da pscudoconereticidade e a sia destruigfo, onde cle siseue a destuigao da paeunicietiidad, qu agente wand que, evidentemente com caracteristicas distinta, mas que ele bebe muito na fonte do Marxismo. Basicamente isso", E esse entrevistado continua, explicando que @ utilizagio do texto referido esti mais ligada ao aprofundamento da questéo do conhecimento e traz subjacente uma critica & l6gica do pen- samento positivis quando ele dscte © mundo da ecudoconereickade © 2 des: eee mando, ces sd fovendo ve propaa de gue © ci da tealdade ogo siguca uma, contetslag20 6 cern us o onbecont se dna men em que 0 sueto anus glibc da veda, 9 sipntoado dex fendmenos are ei Geaas20 flu cmcecidse; xe > Peis wltapasane essa apartncia, est Imodiaeldade dos fend- See gen we que ace an forum dscustd0 do pensamento sen ciobtr dele ¢ Mare muito rim a pete Ret ase ecand mas veo muito © Karel Kostk como creme sous amas qu cette muito» quedo 00 conhe- cere edna 2 questo ca pon sjetvida do ho- Sree ont ova teogaar neve fet. A qvesto 2 ub. PE IaS ao torent no ade coaioon te Ns Se 9M PONS i vim oo part dew efoqve arin” Quanto a Gramsci, a escotha de seu livro Concepgdo Dia- Leética da Histdria, como wm dos textos fundamentais da diseiplina € explicada a partir de questionamento que um entrevistado fez a si mesmo: 95 "Por qe me deteabo no Grams? Bu perso qu o Gras coaca uma possbilidede maior de pensar 9 Servigo Sock dent 2a Nes uo tog 9 Gm fe ao fadads 99 dogs, 1 3 logo dinate com #3, puesta ino eon no Grams! eat deo is civ! on guest, mo als prone de prac soe do reagan ns no mend, Por i, me deen ais ml Ea questo jstament, 1 eee malo mai pl dade do teat pra 0 Sevigo Sov, pois & @ meiogso aa telagao esta e sperm qie 9 Gots tabla as O Mar Pole war mass hg ace _ Um outro procura demonstrar, também, seus motives da opsio pelo marxismo através de Gramsci: “Quando eu trabalho com essa disciplina, ev me aproxime muito ‘mais do Gramsci. Eu nfo recorro aos textes do Marx. Eu fago refertncia, eu recupero e faco aproximagio maior com 0 Gramsci, Porque me preacupa, o que ele coloca: © reacasalamento do per ssamento com o fazer, do fazer com © pensar, E eu penso que & ‘$6 por af que a gente pode consiruir uma nova postura de. profis- sional do Servigo Social, capaz. de pensar, de conhecer de in- terferr. Interferir com conhecimento de causa”, Sobre Bachelard!, 0 entrevistado que © mencionou nio ex- Plicitou os motivos de sua escolha, apenas afirmou que: “Recu- pera-se © wabalba se com o texto do Dachelasd, lovalizando a sues do conhecimento, o proceso de construcao do conheci- mento’ 1 Gaston Bachelard tem uma trajetétia intelectual liga @reflexto das interpretagses ‘acoaalis evelao uma pico qe ieee prescapto com quests da pro aco lentes Soberaio citegila deka, ge emerge mals ale do nese de ones Et ont pect com 9 Gun do sot, o um posilonamento aproximativisa © probablstio do conkec “Taam a idéia de “corte epistemo!6gio”, qe, posterionmente, foi esgstada [por Althusser, tom em Backelacd sua ccigem, qu spits cioalico « pré-cientfes. le tabalha as situnas ene 96 Quanto as opgdes de trabalhar com textos produzidos em n{vel nacional, a apreciagao se restringiu ao seguinte: “Bu acho que a Marilda Tamamolo coloca uma visio em que ela tenta trbalhar o métedo de uma mancira bem clara. 8 acho que ‘a posigao dela € uma posigéo marxista Estd bem nftida, até como cela trabalho e tal Em outro depoimento, a escotha do livro Relagées Sociais € Servico Social no Brasil, dessa autora, € considerada signifi- cativa por se tratar, segundo o entrevistado: “de toda uma sintese que ela faz da woiia e, depois, como se dou isso no Servigo Social aqui no Brasil”. Noutra fala, afirma-se 0 que eu acho € que & uma leitura que esté mais proxima dos léssicos mesmos. AA teoria marxista nao é s6 uma questio de ‘método de conhecimento, mas é uma constragio do metodo de onhecimento de una cigneia, de uma pratica de referéncias de tum estudo desta sociedade capitalista. , finalmonte, num tiltimo depoimento: “Um outro teato que usa © que € também bem discatido na d= cipline & 0 texto da Miriam Limoeio. E na inrodgao do Horo Ideotogia do Desenvolvimento Bras. IK, (Cardoso, 1978), que ‘ho a8 consi derogbesraetodologicas que la faz. Bor, na verdade tu nfo sei F jé acho mnis dificil falar qo, neste text, Miriam TLimosito tem uma interpretaglo do pensamento marist”. Verificam-se, na pritica, tentativas de recorrer a textos ori ginais, com maior ou menor grau de desenvolvimento, em situa- cées que ja vém scndo vividas por alguns professores. A seguinte entrevista expressa isso: A minha primeitn preocupagio & insistic que © caminho correto E ler a fonte, Eu acho que a teadigho marxista enriquecew muito ‘a obra de Mar, f@-la avangar, mas tem uma série de problemas, TEntGo niio dé para voo’ pensar Marx através de seus intérpretes (0 que eu sempre reforgo, no meu trabalho, € que, primeiro, Marx nio é misterioso, Ema prosador legivel e extremamente agradiivel Ir a ele 6 fundamental”. 7 Dos textos de Marx, 0s mais utilizados sio 0 Manifesto ‘Comunista, a Contribuigdo & Critica da Economia Politica c, também, a Introdugao & Critica da Economia Politica. Tais obras, mais adiante, serio discutidas um pouco mais amplamente, como referencial de enfoques dados por diferentes. tratamentos da disciplina, Ficou claro, entre a maioria dos entrevisiados, um “receio” de trabalhar diretamente com os textos de Marx, por serem con- siderados de dificil compreensio e acesso, Na realidade, porém, um entendimento profundo dos intérpretes de Marx envolve, mui as vezes, um trabalho mais complexo de entendimento das de- terminagoes das quais cle € produto. Situé-los historicamente, para entender a sua contribuigao © as bases de sua critica, ou fazer uma leitura interpretativa do original é tarefa, se néo mais, pelo menos tao drdua quanto fer as fontes. A leitura dos desdo- bramentos de Marx, em Gltima instincia, remeteria, obrigatoria- mente, as fontes, como ponto de partida da critica que esas interpretagdes expressam. 5.3 — A formacdo dos docentes: Marx reinterpretado A dificuldade de convivio com a obra original de Marx, em ana totalidade, remonta ainda A Inrodugao de seu pensamento no Brasil, nas primeiras décadas deste século, A difusio inicial dos textos desse fil6sofo foi precéria ¢, quase sempre, sua divulgacio se fez por meio de interpretagé deficientes, que mal correspondiam As questées por ele colocadas, Leandro Konder faz uma interessante reflexio sobre esse comego do marxismo no Pafs, revelando, a influéncia positiva que envolveu tal introdugio, “Ao darem seus primeitos passos, ‘05 marxistas brasilciros foram levados a assumir, filosoficamente, © legado do modo de pensar do tipo positivista” (Konder, p. 197), 98 Naquele momento, 0 Positivismo de Augusto Comte, in- fluenciado pelas idéias spencerianas “constitufa a base filoséfica que determinava, no essencial, a reflexdo © os habitos mentais da intelectualidade que os comunistas podiam pretender arregi- mentar” (Konder, 1988). O Positivismo secundarizava as questes filos6ficas mais amplas, considerando-as metafisicas, pois eram vistas como nao-cientificas, rebaixando, assim, ainda mais, a pre- cétia trajet6ria de reflexéo sistematica entio dominante. O me- nosprezo pela elaboragio teérica foi, pois, referencia para a estrei- teza das visoes do marxismo abracadas. Konder destaca, por outro lado, que Marx ficava fora do ensino superior, Sua obra quase nfo era levada em consideracdo nas Universidades e, quando isso ocorria, sua abordagem era pre- ciria, As condigdes de acesso a scus textos originais s6 se dava ‘em condigées muito especiais. Se, na origem, foi tortuoso e limitado © acesso & obra de Marx, as gerages mais recentes, das quais emergem os atuais docentes de Instituigoes de Ensino Superior, sofreram uma atrofia maior quanto a possibilidade desse conhecimento com 0 corte imposto pelo Golpe Militar de 1964. Logo, a maioria desses do- centes nao teve, em sua formagio basica e profissional, nenhuma referéncia & obra de Marx € muito menos, acesso a seus textos originais. “‘Denteo da faculdade (1974-1977, no Nordeste) © no colegio, 1° © gravs, eu nunca cuvi falar de Marx: colégio de freiras, tra- ddicional, fechado ounca onvi falar, , quando ouvi as primeiras coisas de Marxisimo, ere tudo equi vvocado. Fra uma idéia bem equivocada, foi um etro grave, de um Professor na Universidade, que falava do Marxismo ¢ falava do ‘materialismo ¢ tina como refertnela matéria. Bra uma coisa com- pletamente erraca”, depSe um entrevistado, que ainda, acrescenta: “E dificil compre- ender. O momento que eu fiz 0 1° ¢ 2* graus foi um momento 99 de extremo fechamento, nao existia nada, Grupos de estudantes, UNE, no tinha nada disso”. Esse depoimento revela as limitagdes de acesso ao marxis mo, na sua dimensio de produto da falta de abertura politica, se prolongaram mais nos Estados do Nordeste ¢ Norte do Pats. Essa suspeita tem @ ver com o momento em que esse entrevistado freqiientou a Universidade de 1974 a 1977 — quando jé se ve culava uma abertura politica, que, com todas as suas restrig6es, colocava, na ordem do dia, tais questdes. “No periodo bravo da repressio, euestava no Nordeste. A guerritha no Araguaia, a gente nfo sabia de nada ali, wo pertinho, Ea vim saber da guerrilba do Araguaia quando estava no mestrado, Eu fui A feita do livro, em Ipanema, no Rio de Janeito, ¢ af soube dda guertilba no Araguaia. Eu lembro que eu disse: “Usi, que guerrilla?” Paroce piso.” Esse fato é bem expressivo do estado de isolamento cultural € politico a que esteve submetida a Universidade brasileira durante todo © perfodo militar, ¢ que impediu, através da restrigao & Ti- berdade de expresso ¢ de imprensa, a captacao dos movimentos sociais por amplos stores da populacio. £ importante considerar, pois, que significativa parcela dos docentes que hoje se dedicam ao ensino da concepeao tedrico- metodoldgica marxiana e/ou marxista € fruto de uma estrutura universitéria que, nos anos da ditadura militar, teve 0 debate ba- nido de seu interior. O momento em que se formou a maioria desses docentes delimitou-se entre a auséncia total da reflexio sobre © Marxismo € a incorporagio através de autores que, por seu turno, ja repassavam uma leitura de Marx: “0 meu primeico contato com 0 marxismo foi lamentavel. Foi na ‘minha época de esiudamte. A rigor, eu o4o digo que foi eontato ‘com marxismo, mas durante wm bom tempo et acteditel que fi ‘© meu contato com 0 Marxismo foi via Politzer, Maria Harnecker © Althusser. Na verdade, em termos de estudo mais sistematizado, 60 $6 vim a ntentar para esse equivieo no mesirado, que ja foi ‘em 85. Eu ja tinha 11 anos de forrmada” 100 A mesma entrevistada fala, ainda, sobre o significado que essa influéncia teve sobre sua formagio: “Bu acho que a influéncia que esses autores tiveram na minha ‘Tormagdo foi negativa. Lsso eu nao pensava desde 0 principio, mas fnoje cu vejo que ela foi realmente negativa, Ela me eustou talvez. 1uns seis a sefe anos de pensamento equivocado mesmo a respeito 0 Marxismo”, Louis Althusser foi o autor que liderou em influéncias, a formagio docente Este fil6sofo francés teve uma posigio significativa no mo- vimento comunista internacional, colocando uma série de quest6es que tiveram algum sentido no contexto do movimento social do operariado europeu em determinado momento histérico. Com iss nao pretendo justificar suas posigdes, mas localizé-las em seu possivel significado e as deformacées advindas da “importacio” de suas formas de pensar, assimiladas acriticamente © descon- textualizadas, pela formagio docente, no caso, no Servigo Social no Brasil dos anos 60. Em termos histéricos, as colocagdes de Althusser correspon- dem a um momento do desenvolvimento do capitalismo, do ca- pitalismo de estabilizacdo que dificultava a visualizagio de seu processo de crises periddicas. Por sua vez, 0 movimento operirio como parte deste mesmo momento tendia a se burocratizar, mi- nimizando a dimenséo da praxis humana como criadora da his- t6ria, Entre os desdobramentos da leitura de Marx feita por Al- thusser, aponto, apenas uma repereussio desta que, reduzindo a Proposi¢ao marxiana, rebateu no Servigo Social. Trata-se da se- paragdo feita por ele com relacio a obra de Marx — os primeiros escritos, considerados filos6ficos, contemplando a condigao hu- mana como geradora de seu proprio destino € os escritos que ele considerava da maturidade de Marx expressando sua proposigio cientifica, bascada num entendimento mais estrutural da sociedade € sobrevalorizando a determinagio cconémica 101 Esta separagio, a conhecida idéia de corte epistemolégico (nogdo que Althusser apropria de Bachelard) expressaria duas formas distintas de pensar. Isso leva a uma posigao de ruptura entre ciéncia e ideologia © consegitentemente, entre cigncia transformacio social. Esta tendéncia cientificista do marxismo, vista por Althusser, levava consigo uma maior preocupacdo com, as questOes cpistemoldgicas, prevalecendo sobre as de ordens ontolégicas. 'S6 em tempos mais recentes, alguns cursos, principalmente ‘em nivel de Pés-Graduagio, tém enfrentado essa necessidade de recuperagao de determinados autores clissicos, o que se constitui, no enianto, num esforco ainda incipiemte ¢ frégil: “Bu fui ler Marx quando j6 estava no mestrado. Bu jé tinha dois anos de Magisiério. Mas'vivi na minha formago todo um ndo ‘a0 Servigo Social tradicional, sem ter, na verdade, lido nunca nada de Marx. Sem ter sido introduzida a mareismo. Aliés, era até proibido. Eu me lembro muito bem, na minha formacto, que para ‘a gente pogar Pofvzer era escondido, pis-64. A gente sentar para ‘estudar Politzer era escondido", (Besse © Caveing, 1970). Esta passagem de outro depoimento desenvolve-se na mes: ‘ma linha: “Essa preocupagio de recuperagio dos eléssicos é um negécio muito recente, nao €? Na minha formagao nao tinha mar- xismo”. A aproximagio aos “marxismos” deu-se, em muitos

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