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poltrona 47 - contos homoeróticos

poltrona 47 - contos homoeróticos

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Cinco histórias que retratam as aventuras sexuais de Fons Friedbürc dentro de um ônibus, onde a arte do sexo é vivida em toda sua plenitude.
Cinco histórias que retratam as aventuras sexuais de Fons Friedbürc dentro de um ônibus, onde a arte do sexo é vivida em toda sua plenitude.

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poltrona 47
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poltrona 47 | contos homoeróticos
Cinco contos que retratam as aventuras de Fons Friedbürc dentro de um ônibus, onde a arte do sexo é vivida em toda sua plenitude.

03
A primeira vez A primeira experiência erótica de Fons Friedbürc dentro de um ônibus foi algo excitante e assustadora ao mesmo tempo. Fons admirou a ousadia daquele homem tocando em suas partes íntimas, provocando-lhe momentos de delírio e prazer.

06
Gotas na janela Aquela era para ser uma simples viagem de trabalho. Mas um jovem atravessou o caminho de Fons, onde uma aventura sexual realizada num quarto de hotel culminou com minutos de sexo submisso dentro de um ônibus.

12
Três... é demais? Fons voltava para casa, quando o ônibus em que viajava teve uma pane, sendo obrigado a parar numa estrada deserta, tarde da noite. Para passar o tempo enquanto não vinha o resgate, Fons vive as tentações e as loucuras do sexo em grupo.

21
Irmão Boreen Um passageiro chamou a atenção de Fons. Era um monge beneditino que viajava para visitar parentes distantes. O que parecia uma viagem tediosa acabou se revelando uma experiência inusitada para Fons, que aprendeu uma maneira única de fazer amor... com um religioso.

26
O Clube dos Ursos Uma viagem. Uma troca de veículos. Um descuido. E Fons acaba conhecendo, num bar de beira de estrada, caminhoneiros sedentos por sexo que o obrigam a participar de uma aventura erótica totalmente insana. Um ritual onde homens rústicos praticavam verdadeiras orgias entre iguais.

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poltrona 47 | a primeira vez
Foi em fevereiro de 1998 que descobri os prazeres do sexo dentro de um veículo motorizado. Minha rotina até aquela madrugada havia permanecido inalterada durante anos. Deixava minha casa todos os dias por volta das sete da manhã. Uma viagem tediosa de pouco mais de uma hora separava meu doce lar em Lovland até o continente. Naquele dia trabalhei normalmente, apesar do meu humor permanecer embaixo da sola de meu Adidas, pois chovera o dia todo. Eu estava com a melancolia grudada no corpo. O último ônibus que liga a civilização moderna ao paraíso tranqüilo onde eu vivia deixava o terminal de Downie pontualmente às onze e quinze da noite. Mas naquela quinta-feira, após um dia inteiro de fortes chuvas, o caos havia tomado conta do terminal rodoviário. Cheguei onze em ponto. Comprei minha passagem e logo no guichê fui avisado que todas as linhas estavam atrasadas. Mais um motivo para desenrolar a minha tromba. Arrastei os passos até a plataforma de embarque. Escolhi um banco longe de qualquer espécime humano e aproveitei o momento para descansar o corpo. Meus olhos ainda refletiam as milhares de vezes em que os flashes do estúdio espocaram em meus alvos metálicos. Havia poucas pessoas transitando pelo local. No intervalo entre algumas cochiladas, eu dirigia meu olhar de peixe morto para a plataforma. Ela permanecia vazia. E meu humor já tinha se perdido em algum ponto entre o meu estúdio e o bendito terminal. Duas horas da manhã. Finalmente surgiu o Pássaro de Prata. O ronco do motor parecia querer acordar as doze pessoas que aguardavam pacientemente o seu direito de embarque. Disputei com o motorista qual a pior cara do dia. Ele ganhou a nota máxima, pois quando notei seu humor, o meu estado parecia luminoso numa comparação direta. Como não havia muitas dificuldades para se escolher uma poltrona vazia, tomei a liberdade de me sentar na “cozinha”. Escolhi a poltrona 47. Joguei minha mochila na poltrona ao lado. Abri um pouco a janela (sinto tremendamente a falta de ar), reclinei o banco ao máximo e tentei relaxar um pouco, pois minha intuição insistia em dizer que levaria pelo menos mais duas horas para atingir o meu doce lar. A chuva intensificou o seu ataque. Os sons produzidos pelas fortes gotas que açoitavam a lataria de alumínio do velho ônibus fizeram com que minha mente serenasse de vez. Adormeci, não sei por quanto tempo.

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O percurso até Lovland costuma ser muito tranqüilo. A estrada, a pouco recapeada, parece um tapete. O rodar é macio. Acordei ao balanço das poucas curvas acentuadas que fazem parte do trajeto. Ao despertar, notei que na fileira imediatamente à minha frente, à direita, havia um senhor sentado em uma posição um tanto afetada demais, com as pernas cruzadas para frente e o olhar fixo em mim, deixando o seu corpo numa posição estranha. Acenou com um leve toque da mão esquerda. Retribui o gesto com um sorriso. O ônibus continuava seus passos lentos, pois a chuva aumentara muito. A visibilidade era nula. Espreguicei o corpo para despertar os meus sentidos. Notei que o homem não tirava os olhos de mim. Levantei-me para esticar um pouco as pernas, já que a dez por hora senti que não iria perder o equilíbrio ao permanecer em pé por poucos segundos. Por instinto, aproveitei para colocar minha mochila no bagageiro superior. Voltei ao meu local de origem. O reflexo de um olhar estranho me incomodava. Passei lentamente a palma da mão no vidro embaçado. Senti uma presença. Virei o rosto e o homem estava em pé, servindo-se de uma xícara descartável de café na máquina que estava posicionada exatamente ao lado da poltrona vazia onde antes repousava minha velha mochila. Ele sorveu o café morno num só movimento vertical. Dirigiu o sorriso amarelo para mim. Sentou-se ao meu lado. Não houve palavras. Nem apresentações pessoais. Paralisado, não tive tempo para regular a minha poltrona para uma posição ereta. Senti-me como que atado a uma cama estreita, aguardando o eminente atentado à minha privacidade, ao meu corpo e aos meus sentidos. Quando acordei do que eu julgava ser um pesadelo, Homem Afetado segurava minha mão. E naquele momento perdi o bom senso da realidade. Lembro-me dos seus lábios tocarem meu pescoço. Em seguida a ponta de sua língua adocicada fazia contornos molhados em minha orelha. Homem Afetado segurou meu rosto e finalmente veio o beijo. Longo, doce, demorado. Eu permanecia sem reação alguma, somente receptivo ao prazer proporcionado por aquele homem. Suas mãos ágeis percorriam o meu corpo. Nossos sexos estavam implorando por deixarem seus invólucros de algodão. Ele levantou a minha camisa sem nenhum esforço. Sugou e mordeu meus mamilos, sem se preocupar com os fartos pêlos do meu peito. Enquanto mordia o meu coração, novamente suas mãos abriam caminho, dessa vez desatando o cordão e baixando o tecido macio de meu agasalho esportivo. Sua boca descia pelo caminho da perdição. Segundos depois o meu sexo já se unia à sua boca em movimentos ritmados.

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Foi impossível determinar minhas reações. Quando dei por mim, meu líquido quente jorrou em longas golfadas para dentro daquela boca masculina. E minhas mãos quase o sufocaram, pressionando sua cabeça de encontro ao meu íntimo. Inspirei com dificuldade. Meu hálito embaçava ainda mais a janela do velho ônibus. Homem Afetado endireitou o corpo e ajeitou os cabelos. O seu olhar implorava mais um beijo, o qual foi prontamente atendido. Senti meu gosto misturado com o aroma do café no passado. As luzes da ponte que ligam Downie à ilha de Lovland cegaram momentaneamente os meus olhos. O homem se levantou e beijou carinhosamente minha fronte. Notei em seu rosto uma espécie de agradecimento. Senti que eu havia lhe proporcionado algo especial, mesmo sem ter a mínima noção até o momento do que nos havia acontecido na realidade. Ele voltou a sentar em sua respectiva poltrona. A chuva diminuíra sua potência. Havia se transformado numa garoa. Quando chegamos ao ponto final, Homem Afetado desceu como se nunca tivesse me visto em sua vida. Foi um choque sentir sua indiferença em relação à minha pessoa, pois há minutos atrás parecia que éramos dois amantes insaciáveis desfrutando as delícias do prazer que só dois homens conseguem proporcionar. Notei que ele se dirigia até um Golf branco. Do seu interior saiu uma bela mulher, delicada nos seus aparentes quarenta anos. Vi o beijo frio trocado pelo casal. Ele a beijara no rosto, do lado direito. O homem tomou a direção, enquanto a mulher rondava o carro para ajeitar-se em seu devido lugar. No mundo exterior era ele quem ditava as regras. Caminhei tranqüilo até minha casa. Meu péssimo humor havia se transformado em dúvidas do êxtase. Gostei muito da experiência vivida naquela madrugada. Sentia meu corpo molhado esfriar enquanto andava. Faltava pouco para chegar ao meu aconchegante refúgio. Apesar dos pensamentos confusos que dominavam minha mente durante o pequeno trajeto até minha residência, um forte desejo crescia dentro de mim, pois eu queria voltar a viver aquela aventura recém descoberta. Eu jamais poderia imaginar que aquilo se transformaria num desejo incontrolável com o passar dos anos.

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poltrona 47 | gotas na janela
Meu nome é Fons Friedbürc. Tenho 39 anos. Sou fotógrafo e minha especialidade é fotografia automobilística. Adoro carros, mas por alguma ironia celestial, eu ainda não sei dirigir. Nunca precisei me preocupar com esse pequeno detalhe. Mas isso agora não é o mais importante. Moro em uma ilha. Colonizada por alemães e irlandeses que aportaram por essas bandas, no distante ano de 1830, a ilha de Lovland pode ser considerada um pedaço do paraíso banhado pelo Atlântico. Uma terra preservada, rodeada de floresta exuberante e praias de areia branca, límpida. Bem ao centro da ilha eleva-se o Monte Weistüdorf, imponente e soberano. Certa manhã, numa quarta-feira de junho, o telefone tocou. Era Doug. Representante oficial de uma famosa marca alemã de carros de luxo, tinha concessionárias espalhadas por inúmeras cidades. Um novo modelo estava disponível para lançamento e ele exigiu que eu fotografasse o seu carro mundial, na loja matriz de Downie. Acertamos todos os detalhes por telefone. Chegar até a matriz levaria pouco mais de duas horas. Um dos funcionários estaria me esperando no terminal, para me levar em seguida ao hotel. Nos despedimos e fiz a promessa de que estaria no local marcado para cumprir o meu dever. No dia seguinte preparei todo o equipamento. Joguei tudo na velha mochila de lona. Liguei para minha mãe, que mora no lado sul da ilha, avisando-a que passaria dois dias fora. Tirei o resto da tarde para ver alguns filmes e me masturbar um pouco. Cheguei quarenta minutos antes do horário. Comprei minha passagem e me sentei num banco de concreto próximo ao local do embarque. Abri a mochila para pegar meu iPod. Coloquei os fones confortáveis e macios nos ouvidos e em seguida selecionei “Dido para viagem” na tela do diminuto aparelho. Assim que o ônibus chegou fui o primeiro passageiro a embarcar. Pelo horário, nove da noite, havia poucas pessoas dispostas a enfrentar o frio daquela quinta-feira triste numa esticada até Downie. E como não podia deixar de ser, algo fez com que o ônibus atrasasse sua partida. “Droga”, pensei, “com certeza vou tomar um belo sermão ao chegar no hotel”. Comecei a rir, tapando a boca para abafar o som, imaginando o rosto corado e a barriga imensa de Doug em movimentos disformes, como numa dança contemporânea coreografada por algum bailarino lobotomizado.

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Doug certamente iria ligar para o hotel para saber se eu havia chegado. Ele simplesmente vive e respira a tensão, não importa o quanto as coisas possam ser organizadas a contento. Vive afobado, como se o mundo fosse desabar em sua cabeça nos próximos cinco minutos. Alguns passageiros conversavam entre si, tentando descobrir o que estava provocando a demora do motorista. Eu continuava a ouvir minhas músicas, enquanto meu olhar se perdia na moderna construção exterior em ferro e concreto aparente. Vi dois rapazes chegando apressados. Notei quando um deles, o loiro, se dirigia ao guichê, andando a passos rápidos, tirando em um movimento seco a carteira do bolso da Levi’s desbotada. O outro rapaz parecia estar triste. A cabeça estava pendente e seus olhos miravam o asfalto cinzento. As mãos enfiadas no bolso da calça se escondiam do vento frio. Percebi que ele havia chorado. Algo não estava certo. E logo eu saberia o motivo. O rapaz loiro veio em sua direção, com uma passagem na mão e um envelope de papel pardo, na outra. Levantou o rosto do amigo num movimento brusco. A cena me entristeceu. O triste moreno pegou a passagem e o envelope. Houve um frio aperto de mão, seguido de palavras certamente frias. Mochila nas costas, o moreno e miúdo rapaz embarcou no ônibus. Sentou-se três fileiras à frente, à minha direita. Finalmente partimos. Acabei cochilando por alguns minutos, agora ao som de India Arie. Quando acordei, vi que já havíamos cruzado a ponte que separa minha doce Lovland do resto do mundo. Levantei um pouco a cabeça. Achei que o moreno estava dormindo. Mas minha intuição insistia em dizer que ele estava acordado... e chorando. Não resisti. Um leve impulso e eu já estava em pé. Lentamente fui em direção à poltrona do moreno, sem me importar com as outras pessoas que estavam no veículo. “Olá, você quer conversar?”, notei espanto em seu olhar frágil. Sem palavras, ele me fez sinal de que eu poderia me sentar ao seu lado. Apesar da penumbra do interior, pude notar que ele havia chorado. Seu rosto estava inchado. As luzes da estrada produziam faixas luminosas em suas faces, devido à velocidade constante do ônibus. Trocamos as tradicionais apresentações. Mas ele se recusou a me dizer seu nome. Sem demora, lhe contei que eu havia visto toda a “cena” antes do embarque. Ele voltou a chorar. Por instinto, puxei delicadamente sua cabeça de encontro ao meu ombro. E num abraço fraternal deixei que ele descansasse o corpo, dissipando as suas tensões em meu peito. As luzes internas do velho ônibus se acenderam assim que chegamos ao nosso destino. Despertei um tanto nervoso, pois estava num transe tranqüilo e distante; a mente a viajar por outros mundos e o corpo físico encostado ao lado do meu possível novo amigo. Uma senhora dirigia um intenso olhar de reprovação para mim. Acredito que ela passara minutos

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eternos tentando entender aquela situação. Meu jovem moreno ainda dormia. Num único e delicado movimento eu o coloquei ereto no seu lugar. Voltei à minha poltrona para pegar minha mochila. Ao retornar ele já estava desperto. Como um perfeito cavalheiro, esperei que ele pegasse os seus pertences. Abri passagem à minha frente, permitindo que ele desembarcasse primeiro. Em solo firme e debaixo da luz fria do terminal, pude admirar a sua beleza. Uma aparente timidez e sua fragilidade haviam me conquistado de imediato. “Bom, obrigado pelo apoio”, ele disse, mal conseguindo me encarar. “Para onde você vai?”, perguntei e minha expressão demonstrava certa ansiedade. Antes que ele pudesse me responder, senti um toque no meu ombro esquerdo. Era Doug, suando em bicas apesar do frio intenso. Eu pensei que ele mandaria um funcionário vir me buscar. Mas percebi pelo olhar do meu fiel e querido cliente que nada no mundo o faria deixar de estar comigo naquele momento e acertar todos os detalhes das fotos que eu iria produzir na manhã seguinte. Sempre fora assim. Ele adorava “dar opiniões” sobre o meu trabalho. “Vou estar hospedado no Luther Inn, aqui no centro”, eu disse, nervoso, ao moreno. O Luher era o hotel em que eu ficava toda vez que vinha para a cidade azul. Entreguei-lhe o meu cartão pessoal, tomando o cuidado de anotar rapidamente em linhas tortas e letras tremidas o número do meu quarto. Na manhã seguinte, após finalizar meu trabalho, com o braço doendo e a ponta do dedo esfolada de tantos clics e clics, foi uma benção poder tomar um revigorante e demorado banho morno e deitar como vim ao mundo na cama macia do quarto 208. O som do DJ escolhido para comandar a tal festa e as vozes das peruas e vacas ricas do local de lançamento do bendito carro mundial ainda ecoavam em minha mente. Pelo menos pude tirar o maldito cheiro de cigarro do corpo. Detesto eventos sociais. Fiquei um bom tempo brincando com o controle remoto. Eu via as imagens pulando na tv, mas me recusava a ouvir qualquer tipo de som. Assustei-me quando o interfone soou o seu típico trinado. Levantei o braço direito e um pouco sonolento peguei o dito cujo do aparelho. A voz de barítono do rapaz da recepção disse-me que havia uma pessoa que desejava me ver. “Pode subir”, eu lhe disse, com uma certeza colossal de que a tal pessoa que estava subindo era o meu moreno miúdo. Minutos depois e duas batidas secas na porta anunciaram a sua presença. Abri a porta, envolto numa toalha cor creme. Olhos esverdeados apreciavam o meu rosto. Eu o convidei para entrar.

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“Eu pensei em você a noite inteira”, disse o jovem enquanto se sentava na beira da cama de solteiro. “Então o seu nome é Erin?”, eu disse a ele com um sorriso estampado no rosto. Permaneci em pé, bem na frente do meu desejo. “Quero você!”, ele disse. E rapidamente retirou a minha toalha, jogando-a ao chão. Sua boca engoliu de uma só investida o grande Fons. Ele crescia e tomava a forma final, enquanto a experiente boca de Erin me levava às alturas. Segurei sua cabeça, parando os seus movimentos sensuais. Desci lentamente e fiquei no mesmo nível do seu olhar, dando-lhe em seguida um quente e demorado beijo. Quando dei por mim, estávamos deitados nus na cama apertada. Então foi a minha vez de descobrir aquele corpo somente com a minha boca. Comecei a morder seu pescoço e minhas mãos agarraram com força aquele moreno miúdo, não permitindo outros movimentos daquele corpo macio. Desci a ponta da língua quente pelas costas lisas, até chegar às suas partes baixas. Erin abriu suas nádegas, convidando-me a penetrá-la com minha língua. Beijei e mordi e chupei cada centímetro daquela generosa região. Após deliciar-me com o banquete, Erin veio por cima de mim, procurando avidamente minha boca. Entre beijos e leves mordidas em nossos lábios, ele me dizia que há muito tempo não fazia sexo daquela maneira. E que naquele dia ele desejava “desforrar” por todo tempo que havia sido submisso e infeliz sexualmente ao lado do seu ex-companheiro. Notei em sua mão esquerda um preservativo já fora da embalagem. Com a boca, Erin colocou-o em meu sexo. Lubrificou meu membro rígido com a língua e numa velocidade fora do comum percebi que eu já estava todo dentro dele. Os movimentos de uma cavalgada em perfeito sincronismo faziam com que os sentidos fugissem em disparada do meu corpo tenso. Não havia tempo para julgamentos ou para relembrar o passado. Nós desejávamos o prazer. E naquele início de tarde haveríamos de realizar todos os nossos desejos.

No começo da noite, quando voltei ao terminal de Downie, meus pensamentos estavam fragmentados em demasia. Eu tentava reconstruir tudo o que havia acontecido horas atrás, mas no final resolvi desistir. Eu e Erin trepamos feito loucos. E depois de horas de calor selvagem e corpos com os cheiros trocados, enquanto eu tomava um banho para me refrescar e poder “namorar” o meu moreno mais um pouco, em seguida, nesse intervalo de tempo ele simplesmente havia evaporado. Nenhum vestígio de sua presença, a não ser o cheiro adocicado do seu perfume que ficou retido dentro do quarto. Passei o final da tarde sozinho... novamente.

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Ao entrar no ônibus, fui como um zumbi para “a cozinha”. Abri a porta do banheiro, olhei meu rosto no espelho. Voltei e me sentei na poltrona 47. Eu estava cansado, mas satisfeito. Normalmente, no trajeto que vai de Downie a Lovland, o ônibus costuma fazer duas paradas estratégicas para embarque e desembarque de passageiros, sendo a última um pouco mais demorada, com cerca de dez minutos de duração. Eu havia descido na segunda parada para comprar uma coca-cola, em uma das máquinas decadentes da pequena lanchonete. Quando voltei para o interior do ônibus quase me afoguei com o líquido gaseificado. Erin estava sentado no meu lugar. Ao me aproximar, um milhão de questões fervilhavam em minha mente. Quando manifestei o desejo de um diálogo, Erin tocou em meus lábios, silenciando minhas palavras. Eu não conseguia compreender o que ele fazia ali e nem como poderia saber que eu embarcara naquele ônibus e naquele horário. Vi que minha mochila estava sobre o bagageiro. Sentei “na janelinha”, passando por cima do corpo do moreno miúdo. Ele ria do meu espanto. Em silêncio, terminei de tomar meu refrigerante. O ônibus voltou a rodar e a seguir o seu caminho. Estávamos sozinhos ao fundo. Havia umas quinze pessoas espalhadas pelo interior, mas ninguém próximo a nós dois. Um misto de revolta e desejo tomou conta de mim. E o desejo falou mais alto. Erin tocou em meu rosto, puxando-o em sua direção. Voltei a sentir o gosto do seu beijo. E suas mãos ágeis fecharam a cortina ao meu lado, impedindo a passagem da luz externa. “Vire-se”, ele disse. Era uma ordem militar. Minha mente não respondeu, mas meu corpo agiu por instinto. Erin agarrou-me e começou a beijar meu pescoço. Eu estava usando um agasalho esportivo e não foi difícil para o moreno miúdo abaixar minha calça até a altura dos joelhos. Ouvi o som de algo sendo aberto. Logo em seguida pude sentir algo úmido a tocar minha intimidade. Dois dedos a me penetrar o interior. Aquilo me deixou neurótico de prazer. Deixei-me levar. Erin podia fazer aquilo que bem entendesse do meu corpo. O cheiro do látex umedecido com o KY invadiu o nosso meio. Com certa dificuldade, devido ao pouco espaço existente e não à minha resistência física, em minutos Erin estava todo dentro de mim. Tudo aquilo era uma doce loucura. Alguém poderia querer usar o banheiro, pensei. Ou tomar um café ou chá ou água, pois a máquina que servia essas bebidas estava ao nosso lado! Estávamos em outra dimensão. Erin intensificava os seus movimentos dentro de mim. E suas mãos pequenas tentavam se apoiar em meu corpo. Senti dor quando ele finalmente

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gozou. Não pela penetração em si, mas devido às suas mãos agarrando os pêlos de meu peito na hora do seu êxtase. “Agora estou satisfeito”, ele disse bem dentro do meu ouvido direito. Gotas do seu suor escorriam pelo meu pescoço. Ele ajeitou a calça e senti que havia se desfeito da camisinha agora cheia, jogando-a numa discreta lixeira que havia embaixo da máquina que estocava as bebidas. Percebi quando ele se levantou. Permaneci numa posição fetal. Meu rosto estava praticamente colado no vidro embaçado. Ele me ajudou a arrumar meu agasalho. Eu estava petrificado. Senti o afastamento do meu moreno miúdo. E não tive coragem de olhar para trás. Ao chegarmos a Lovland, percebi que Erin fora o primeiro a desembarcar, pois mais uma vez não havia sinal de sua presença dentro daquele ônibus. O que ele veio fazer na minha ilha? Já em casa, banho tomado, paraíso relaxado, uma xícara de aveia, banana picada, mel e leite de soja à mão, permaneci por horas diante da janela da sala, que proporcionava uma linda vista para o meu jardim secreto. As pequenas gotas das lágrimas que surgiram em minhas faces escorriam e caíam lentamente sobre a camiseta branca estampada com os rostos dos integrantes alemães da minha banda favorita. Erin fora uma experiência muito excitante. Pena que não houve tempo para conhecer a pessoa escondida atrás da dor de uma recente separação. Pena que eu fora usado como ato de vingança de um amor que não deu certo. Pena saber que muitos outros ainda serão usados até que a raiva e a dor e o medo e a tristeza desvaneçam do seu coração. Erin, cuide-se. Eu ficarei bem, lembrando de nossas doces loucuras e também das marcas que deixei na janela da poltrona 47. Minhas gotas na janela.

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poltrona 47 | três... é demais?
Dor. Angústia. Desejo. Prazer. Um misto de sentimentos. Sensações contraditórias invadem meus pensamentos. Quero mais. Foi como usar uma droga poderosa, viciante. Não importa. Eu precisava viver tudo aquilo. E não me arrependo do que fiz. Faria tudo outra vez. Ou talvez não... não sei. Estou confuso. Preciso dormir. Os primeiros raios de sol penetram o interior do meu quarto. Estou sozinho em minha cama, meu reinado absoluto. Respiro fundo. Fecho os olhos. Tento colocar ordem nos últimos neurônios. Preciso contar-lhe o que ocorreu. Minhas mãos tremem entre as teclas do Powerbook. A digitação está a passos lentos. Os acontecimentos não esperam a minha falta de rapidez na datilografia digital. Mas o meu diário eletrônico precisa ser escrito. Talvez amanhã eu já não queira recordar todos os detalhes. Vamos lá, digo para mim mesmo, coloque tudo para fora. Agora! Eu estava na praia de Gobsun, ao sul da ilha de Lovland, fotografando três Subarus para um catálogo automobilístico. Foram dois dias de trabalho intenso. Eu e minha equipe, composta de cinco profissionais competentes, estávamos sendo manipulados pelos caprichos da Natureza. Ora eram os ventos que brincavam de cobrir os carros com a areia fina. Ora eram as nuvens cobrindo a luz do sol, impedindo assim uma boa exposição das futuras fotos. Em outros momentos todos tinham que agüentar o meu “bom humor”. Foram inúmeras as situações em que minha tromba arrastava-se pelas areias brancas e quentes. Acho que sou excêntrico demais na arte de fotografar carros. Na quinta-feira, último dia de trabalho, eu estava exausto. As últimas imagens saíram por pura intuição. Lou, meu assistente direto, assumira o controle de tudo. Segui para o pequeno chalé que nos fora alugado para aquela produção. Tomei um rápido banho. Sou neurótico quanto à minha higiene corporal. Peguei as chaves de casa e a inseparável mochila de lona com parte dos meus pertences. Atravessei a rua Weiss em direção ao ponto de ônibus mais próximo. De acordo com o caseiro do chalé onde estávamos, dentro de poucos minutos para as oito passaria um ônibus que me levaria para o outro lado da ilha. Uma das paradas ficava a menos de trinta metros da minha querida e confortável casa. O rapaz tinha razão. Quatro minutos para as oito da noite surgiu o imenso veículo prateado. Entrei, paguei minha passagem ao motorista e fui me sentar na já tradicional poltrona 47. Nem prestei muita atenção nas poucas pessoas que estavam no ônibus.

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Fazia um calor sufocante, fora de época. Abri não só a minha janela como também as do lado oposto da minha poltrona. Enquanto estava em pé, reparei que havia somente alguns funcionários - devido ao uniforme cinza e azul - da própria empresa do Pássaro Prateado, no interior do veículo. Na metade do caminho, em uma das paradas normais, um grupo de quatro pessoas desembarcou. Permaneceram somente eu, o motorista e mais dois empregados. Um dos rapazes falava muito alto. Contava as desventuras de sua vida profissional. Dizia impropérios sobre alguns colegas de trabalho. E, é claro, “metia o pau” na diretoria da empresa. Na minha privacidade eu ria daquela situação. Ria do seu péssimo português misturado com a sua língua materna, o alemão. Durante a curta viagem, a noite se tornava cada vez mais abafada, densa. Não era possível ver nada na estrada. Em uma das curvas o ônibus deu um tremendo tranco. Todos nós gritamos de espanto, cada um com o seu trinado característico. O hábil motorista conseguiu encostar o veículo na beira da estrada. O primeiro pensamento que me ocorreu foi que naquela hora, naquele trecho da estrada quase ninguém passaria, ainda mais neste lado da ilha, uma região praticamente deserta fora da temporada. A porta foi aberta e os três homens foram verificar o que havia ocorrido. Meu cansaço impedia os sentidos de ordenarem o meu cérebro a tomar alguma atitude. Levantei-me lentamente e caminhei para fora do ônibus. Vi os três discutindo fatos mecânicos. Uma portinhola lateral estava aberta. O motorista mexia em cabos e velas e fios. O rapaz de voz potente segurava uma lanterna. Eu fiquei ali acompanhando tudo em silêncio. Finalmente alguém notou que eu existia. Um dos empregados perguntou se eu tinha um celular. Fiz um sinal de positivo com a cabeça e sem dizer uma só palavra voltei para dentro do ônibus afim de pegar o aparelho. De volta à reunião de cúpula, entreguei o diminuto Motorola para o empregado. Ele me agradeceu com um sorriso e discou rapidamente os números da Central de Apoio. O outro rapaz, o que possuia um vozeirão, conversava com o motorista. Ambos discutiam o sexo dos anjos mecânicos. Eu sem entender aquele dialeto de mecânica aprendido em cursos por correspondência, permaneci em pé, recostado na lataria fria do Pássaro de Prata abatido. “Bom, pelo jeito parece que ficaremos algumas horas esperando o resgate”, disse o rapaz que estava com o celular, devolvendo-o para mim e novamente me presenteando com um belo sorriso, que em nada combinava com o seu velho macacão e sua barba acumulada por três dias seguidos. Após uns vinte minutos de discussões inúteis, finalmente os três homens resolveram aguardar o resgate passivamente. O rapaz da potente voz tirou a camisa. Sentouse no chão de areia e ficou contemplando as estrelas.

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Eu contemplava seu corpo. E foi difícil controlar o desejo. O motorista, um homem na faixa dos sessenta, os cabelos prateados do mesmo tom da pintura do seu ônibus, percebeu a minha excitação. “Vamos entrar. É mais seguro dentro do ônibus”, ele disse. Seus olhos dissecavam meu corpo. Percebi que algo estava para acontecer. “Vou ficar aqui mais um pouco”, disse o rapaz sem camisa. “Vocês são loucos em permanecer dentro dessa estufa ambulante!” Entrei e imediatamente fui para a “cozinha”. Permaneci sentado e quieto. O motorista e o rapaz do belo sorriso conversavam em tom muito baixo, quase um sussurro. Aquela reação de cumplicidade entre os dois estava me deixando fora de órbita. O volume cresceu entre minhas pernas e baixos pensamentos rodopiavam em minha mente. Eu não tirava os olhos daquele motorista. Ele retribuia o olhar, agora de maneira intensa. Ele me desejava, eu tinha certeza disso. O tempo foi passando. Nenhuma alma sequer atravessara o nosso caminho naquela estrada escura. Meu corpo transbordava de suor. Um suor diferente. Gotas de desejo. Eu queria sexo. Imaginava Voz Potente lá fora sem camisa. Imaginava Motorista e seu olhar penetrando o meu corpo. Mas eu não imaginava que em poucos segundos eu viveria uma experiência nunca fantasiada nos meus delírios mais profundos. Ele veio em minha direção. Começamos a conversar. Perguntou o que eu fazia, que região eu morava da ilha; se eu era solteiro ou casado. A cada cinco palavras expelidas pela sua boca, meus olhos desviavam a atenção daquela boca carnuda, moldurada por um bigode perfeitamente aparado, e apontavam para o seu sexo, que ele fazia questão de manipular por cima da calça azul anil do seu uniforme. Notando o meu desejo, ele se aproximou, quase que encostando o membro rígido em meu rosto. “Pegue”, ele disse. Olhei para o vão no corredor. O outro rapaz estava sentado bem à frente, o olhar fixo em nossa direção. E também manipulava o seu sexo, que estava fora do macacão. Vi os poucos pelos do seu peito em contraste com a fartura na parte baixa do seu corpo. “Pegue”, repetiu o motorista. “Eu sei que você gosta. Vamos, abra o zíper. Tire-o para fora”. Ele segurou a minha cabeça e com os dentes abri lentamente a porta do paraíso. Prontamente minha boca sugou aquele membro. O homem do cabelo prateado gemia e apertava minha cabeça de encontro ao seu corpo. O suor escorria pelo meu rosto. O ar fugia dos meus pulmões. Eu estava sufocado de tanto prazer e medo. “Pare”, ele disse, quase que num grito sufocado. “Não quero terminar na sua boca.”

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O rapaz de sorriso perfeito já estava ao nosso lado. “Faça o serviço no meu amigo aqui”, disse num sussurro o velho homem. Obedeci e novamente meus lábios encontraram um novo membro rígido. Enquanto eu “fazia o serviço” naquele empregado, as mãos habilidosas do motorista tocavam em meu sexo. E sua boca carnuda beijava a floresta negra em meu peito. “Fique de quatro, quero enrabar você”. Agora Sorriso Perfeito me conduzia para sentir outros prazeres. Obedecendo cegamente, o meu corpo posicionou-se à espera da penetração. “Ora, ora, estamos em festa?”, a potente voz rasgava o interior do veículo. “Vamos comer o viado!”, ele disse, esfregando as mãos e aguardando a sua hora de participar da “farra”, enquanto colocava a camisa suja de graxa escura. Motorista segurou o seu braço. “Olhe o respeito, meu caro. Só estamos aproveitando o momento. Ninguém aqui é o que você disse”, notei o medo estampado na face do rapaz. “Estamos combinados?”, a mão pesada segurava com mais força o pulso de Voz Potente. “Abra as pernas”, disse o meu Sorriso Perfeito. Ele baixou minha calça de agasalho. Senti sua saliva lubrificar meu ânus. Percebi que Motorista, agora um verdadeiro comandante, colocava um preservativo no membro do colega. Voz Potente permanecia em silêncio, visivelmente extasiado com tal cena. Senti Sorriso Perfeito todo dentro de mim. Ele não poupou meu corpo, penetrando-me de uma só vez. Vi estrelas no interior do ônibus. Não vi o tempo passar. E nem uma única alma a trafegar pela velha estrada. Sorriso Perfeito entrava e saía num perfeito sincronismo. Seus movimentos demonstravam muita prática na arte do sexo. Minhas pernas estavam ficando sem ossos. Meus instintos perderam-se na estrada. Eu só sentia prazer. O prazer de ser penetrado. O prazer de ser observado. O prazer de ser um objeto. O prazer de ser desejado. “Coloque minha vara na sua boca”, disse Motorista, o comandante da situação. Nem esbocei reação, pois quando percebi minha boca já sentia novamente o gosto daquele membro perfeito. Em sincronia, meu corpo controlava os movimentos. Prazer na frente e atrás. Boca e ânus ocupados com os sentidos do sexo. E Voz Potente continuava em silêncio, apreciando o filme erótico que passava bem diante do seu olhar azul. Sorriso Perfeito apertava minhas nádegas. Os movimentos tornaram-se mais rápidos e intensos. Senti suas unhas machucarem minhas costas quando o seu gozo jorrou para dentro do meu corpo. Eu não podia gritar de prazer, pois minha boca ora mordia, ora engolia ou sufocava-se com o outro membro a dar fortes estocadas em minha garganta que deixou de ser virgem. Na diferença dos segundos, enquanto Sorriso Perfeito ofegava e descansava o seu corpo em cima do meu, nossos suores se misturando num doce elixir, Motorista, o agora senhor-

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comandante, urrava de prazer. Tirou violentamente o membro rígido de minha boca macia. Vi seu líquido quente escorrendo pelo couro vermelho da poltrona do seu lado esquerdo. “Puta que o pariu”, ele gritava, sua respiração ofegante enchia o recinto de sons sensuais. “Que boca. Caralho. Que boca!” Motorista sentou-se numa outra poltrona. Sorriso Perfeito saiu do meu corpo. Tirou o látex cheio da sua essência, deu um nó na ponta e jogou o preservativo no meio da estrada. “Pô, cara. Não tinha outro lugar pra você jogar essa porra?”, disse Voz Potente. Um duplo olhar dos homens que acabavam de saciar seus instintos fez com que ele voltasse à sua posição inferior. Sorriso Perfeito fechou o macacão e foi descansar o corpo numa das primeiras poltronas vazias. Motorista limpou o sexo com um lenço. Enxugou a mão e o rosto com o mesmo tecido. Eu estava arrumando meu agasalho, quando o homem do bigode prateado disse: “Ainda não acabou, rapaz. Venha até aqui”, ele segurou em meu braço e puxou-me em sua direção. Meu corpo caiu sentado em seu colo e sua boca procurou a minha. E senti pela primeira vez o gosto de um Marlboro vencido em meus lábios. Voz Potente admirava, maravilhado, tudo ao seu redor. Notei que acariciava timidamente o sexo. Notei que havia o desejo íntimo de “participar” daquele momento, mas ele não sabia o que fazer. Motorista leu meus pensamentos. “Vamos rapaz, quero ver você ‘dar um trato’ em nosso amigo tímido aqui”, ordenou o velho fumante. “Não, eu tô fora. Prefiro ficar só olhando a sacanagem de vocês”, disse Voz Potente, tentando nos convencer de sua falsa indignação. Mas suas palavras não refletiam o seu desejo. Troquei um olhar com o meu Motorista. Vi em seu olhar a aprovação dos meus atos futuros. Não perdi tempo. Aproximei meu corpo de Voz Potente. Peguei em suas mãos, que estavam úmidas e frias. Com extrema ternura e delicadeza, comecei a chupar os dedos da mão direita. Voz Potente perdeu a ação. Minha língua percorria cada dedo, cada vão. Engoli em movimentos delicados seu dedo indicador. Percebi que aquilo me abria o terreno. Sem perder tempo, procurei o sexo de Voz Potente com uma das mãos. Agora o seu membro estava pronto para o prazer. Deixei de chupar os dedos. Procurei um abraço que foi prontamente retribuído. Senti as costas largas e lisas se arrepiarem com a passagem das minhas mãos. Retraí um pouco o meu corpo. Afastei-me de Voz Potente. Trocamos um olhar. Desviei minha atenção para Motorista. Ele umedecia os lábios com a língua quente. Entendi o recado. Voltei a atenção para Voz Potente e procurei a sua boca. Relutante, ele fugia das minhas investidas.

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“Não vou beijar a porra da sua boc...”. Não o deixei terminar a frase. Eu era mais forte do que ele. E não só fisicamente. Fiz valer a minha vontade. Lábios cerrados, Voz Potente percebeu que não sairia dali sem sentir o beijo de um macho. O beijo de um homem experiente. Ele entregou os pontos. Nossas línguas se tocaram. Foi um beijo longo, quente, profundo. Voz Potente descobria o prazer de uma boca masculina. E entregou-se a esse prazer com muito prazer. Ele queria mais. Retirei minha boca da sua. Trocamos um outro olhar. E juntos observamos Motorista tocando em si mesmo. “Continuem, não parem vocês dois”, o velho comandante dizia em gritos sufocados. Sentado confortavelmente na poltrona revestida de couro, ele socava uma deliciosa punheta enquanto observava os dois machos entrelaçados. Voltei a atenção ao meu segundo objeto de desejo. Minha boca agora procurava os seus mamilos. Mordi e beijei e lambi cada um inúmeras vezes. Voz Potente urrava de prazer. Era evidente a sua primeira vez. E os seus gritos aumentavam o meu desejo de possuí-lo cada vez mais. Sem palavras, minha língua percorria sua barriga. E num só movimento, pus abaixo a calça de elástico na cintura. Procurei e encontrei o seu sexo. E novamente “fiz o serviço”. Voz Potente ofegava e quase não conseguia inspirar o ar abafado do interior do velho ônibus. Sorriso Perfeito dormia a sono solto nas poltronas dianteiras. Motorista continuava a manipular o seu membro para cima e para baixo, extasiado com o show que estávamos lhe proporcionando. “Fode o cu dele. Fode o cu dele com a língua!”, gritou Motorista, adivinhando aquilo que me cega de prazer numa relação de sexo com outro homem. Virei o corpo de Voz Potente. Ele havia se entregado aos meus cuidados. E não houve qualquer resistência de sua parte. Abri suas pernas. Agachei-me. Senti o cheiro de graxa nos tecidos que estavam logo abaixo de mim. Senti o cheiro de suor na peça íntima depois de um dia inteiro de trabalho. Nada disso me incomodava. Mordi suas nádegas com certa força. Voz Potente engoliu um grito seco. Minha boca procurava o seu ponto central. E saciei todas as nossas vontades com minha língua a penetrar aquele macho arredio. Enlouqueci. Saí de mim. A razão evaporou-se por alguns instantes. Quando ela retornou, já não podia fazer mais nada. O meu sexo estava dentro dele. Eu cavalgava naquele homem com toda a força do meu corpo. “Mais, filho da puta, quero mais”, Voz Potente mordia o couro da poltrona. “Não pare. Isso é muito bom!”, havíamos perdido a noção da realidade. Entregamos nossos corpos aos braços da Luxúria. Sexo sem proteção. Medo com razão. Conflitos em minha consciência. E meu

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corpo não obedecia as ordens da alma. Continuei. Como um animal selvagem. Rasgara a dignidade de Voz Potente. Ele queria. Eu continuava. Explodi num gozo demorado. Deixei a marca dos meus dentes cravada nas costas de Voz Potente. Ele chorava. De satisfação. Retirei meu sexo ainda rígido do seu corpo. Ele voltou-se para mim e pude notar em seu olhar um “muito obrigado pelo prazer”. Voz Potente procurou a minha boca. Outro longo beijo foi trocado. Saliva misturada com suor. Corações em ritmo acelerado. “Quero terminar na sua boca”, sussurrou Voz Potente em meu ouvido. Motorista somente nos observava, diminuindo os movimentos em seu sexo. Ele sabia que o show ainda iria continuar. Voz Potente deitou-se entre duas poltronas. Sorriso Perfeito acordara e sonolento veio cambaleando em nossa direção. Ajoelhei-me e pus-me a chupar com prazer e satisfação àquele que há poucos minutos eu havia deflorado. Ele tinha a minha essência dentro do seu corpo. Eu queria sentir o sabor da sua essência a escorrer pela minha garganta. Direitos iguais. Questão de honra. Motorista se levantou, ficando ao lado de Sorriso Perfeito. Um tocava o sexo do outro. Teve início uma troca de punhetas. Agora eu comandava a festa. Todos estavam sincronizados com o meu ritmo. Voz Potente delirava. Motorista e Sorriso Perfeito pareciam estar em êxtase. Os olhos fechados e as mãos a tocarem os sexos em perfeita harmonia. “Eu vou gozar. Eu vou gozar. Caralho!”, urrou Voz Potente. E o seu leite invadiu a minha boca, descendo imediatamente para o meu íntimo, sem nenhuma gota a ser desperdiçada. O membro perdia lentamente a sua rigidez. Pousei minha cabeça em uma de suas coxas macias. Os pêlos finos produziam cócegas em minhas narinas. Víamos Motorista e Sorriso Perfeito aumentarem os seus movimentos. Uma chuva quente jorrou em meu rosto e nas coxas de Voz Potente.

O resgate chegou quarenta minutos após o término da nossa festa particular. Quando surgiram as luzes amarelas e vermelhas do guincho mecânico, estávamos sentados no chão de areia, na frente do Pássaro de Prata abatido, jogando uma partida de truco, à luz baixa da forte lanterna, que havia sido colocada num arbusto próximo ao acostamento. O sonho havia acabado. Éramos quatro homens convivendo com serenidade o nosso destino. Nem lembrávamos mais do incidente com o velho ônibus. Não foi possível consertar o grande Pássaro de Prata com os recursos disponíveis. O resgate chamou um carro de apoio, que chegou surpreendentemente rápido até onde estávamos.

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O jovem que dirigia um velho Ford deixou cada um de nós em suas respectivas residências. Descobri que Motorista morava próximo de minha casa. Uma distância pouco maior que oitocentos metros separavam nossas residências. Fui o último a ser “despachado”. Agradeci ao jovem pela carona quando o seu carro estacionou bem em frente ao meu cuidado jardim. “Vocês ficaram mais de três horas naquele fim de mundo apenas jogando cartas?”, disse o mirrado rapaz com aparente espanto. “Eu detesto jogo de cartas.” Sua voz fina demonstrava a falta de maturidade. Sorri com delicadeza e abri a porta do Corcel II todo enferrujado. “Sim, jogamos as cartas da vida”, respondi, ainda com o sorriso automático nos lábios. Confuso, o jovem acenou-me um “boa noite”. Vi o carro perder-se na escuridão. Entrei. Fui direto para o chuveiro. A água quente escorria pelo meu corpo. Joguei litros de sabonete líquido com essência de erva-doce em uma das mãos. Ensaboei todo o corpo. O cheiro da limpeza purificava minha alma. Batidas na porta. Enrolado numa toalha branca, o corpo ainda umedecido, fui atender a visita inesperada. Tive um sobressalto ao certificar-me quem era o inusitado visitante. “Posso entrar?”, ele disse. Meus olhos deram a devida permissão. Fechei a porta. Deixei cair a toalha. Senti seu abraço. O cheiro de Marlboro recém tragado invadiu minhas narinas. Sua boca procurou a minha. “Como você encontrou minha casa?”, perguntei atônito. Ele despiu-se, espalhando a gravata cinza, a camisa branca e a calça azul do seu uniforme pelo chão da sala. Não havia resposta. Não era necessário usar a razão naquele momento. Os seus olhos novamente dissecavam o meu corpo, que agora estava fresco, limpo, com maior desejo de reviver os prazeres recém conquistados. Notei novamente o mesmo olhar. Idêntico ao do primeiro encontro. Ele me desejava, eu tinha certeza disso. “Pegue”, ele ordenou. Não obedeci de imediato. Segurei a sua mão pesada e o levei para o chuveiro. Novos jatos de água fumegante envolviam corpos em delírio. Com as mãos repletas de erva, cuidei do seu corpo com carinho. A espuma deslizava em seu peito; escorria pela sua barriga sem barriga, caindo em suaves camadas pelo piso molhado. “Chupe”, ordenei. Motorista sorriu e tomou o meu sexo em suas mãos, acariciando-o lentamente. Ajoelhou-se no piso molhado. Sua boca macia e quente rivalizava em temperatura com o jato de água que descia pelo chuveiro. Fechei os olhos. Deixei meu corpo viajar. Eu estava em boas mãos.

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“Pare”, eu disse. “Não quero terminar na sua boca”. Agora era a minha vez de dar as ordens. Motorista sorriu. Fechei o chuveiro. Retiramos o excesso de água de nossos corpos. Fomos para meu quarto. Nos entregamos aos prazeres com a complacência da Luxúria. Misturamos nossos corpos pelo resto da madrugada. Eu desejei aquele homem. E meu desejo foi prontamente atendido. Mais do que eu esperava. Tudo começou na poltrona 47. Mais uma vez. E eu sabia que não seria a última.

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poltrona 47 | irmão boreen
Não suporto o calor. Tenho que agradecer aos céus por meu refúgio estar localizado em uma ilha onde a temperatura se mantém agradabilíssima durante boa parte do ano. Adoro as sombras das árvores do lado Norte. Adoro o piso frio de cerâmica da minha casa de madeira. Quando chega o inverno deliro de felicidade durante toda a temporada. Amo o frio. Amo as blusas de lã quentes e macias. Ficar acariciando por horas os pêlos do meu São Bernardo, enquando aprecio filmes musicais no monitor de plasma pendurado na parede da sala. Chocolate quente e bolos e tortas completam o que considero um dia perfeito. Não tenho problemas com a balança. Ao receber o telegrama de um cliente naquela tarde fria - século vinte e um e o sujeito ainda não sabe as vantagens que um computador e uma linha telefônica podem proporcionar -, senti calafrios ao saber que eu deveria fotografar uma série de veículos off road para a revista 4CE no litoral sul de Downie. Downie. A cidade que está ligada a Lovland por uma ponte metálica. Downie é maravilhosa e ao mesmo tempo caótica como aquelas imagens de cidades européias que vemos em catálogos de operadoras de turismo. Mas o calor é insuportável do lado de lá, mesmo agora em julho. A temperatura anda realmente maluca ultimamente. Liguei para o terminal rodoviário para confirmar os novos horários do ônibus que liga minha ilha querida ao continente. Adoro o interior de um ônibus. Um micro mundo a ser explorado. Dezenas de pessoas interessantes, cada uma com sua história em particular. Toda a vida é fascinante. Gosto das surpresas de um encontro forçado, já que temos que conviver - ainda mais quando a viagens é longa - com o parceiro ao lado, por horas e horas e horas. Deixei minha querida Lovland no final da tarde de terça-feira. Cheguei em Downie pouco mais de uma hora depois. De lá parti para o lado sul da cidade, meu destino final. A viagem - que deveria durar mais uma hora - transcorria muito serenamente. Por obra do destino permaneci novamente sozinho na poltrona 47. Não conversei com ninguém. Apenas cumprimentos vazios trocados no corredor ao embarcar. Ao chegarmos na metade do caminho, durante uma rápida parada para o embarque de novos passageiros, desci para tomar uma coca-cola. Quando voltei ao meu assento, havia um senhor de baixa estatura, concentrado na leitura de um pequeno livro de folhas amareladas e capa escura. Ele parecia em estado de meditação. Eu estava em pé ao seu lado, esperando que sua atenção fosse dirigida até mim. O santo parecia ignorar a minha presença.

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Pigarreei sonoramente. Com tamanha serenidade, o homem levantou o rosto, sorrindo em seguida. Encolheu as diminutas pernas para que eu pudesse preencher o meu lugar de direito. “Adoro o cheiro da alfazema”, ele disse, assim que eu me sentei. “Sou irmão Boreen, como vai você?”, esticou-me a pequena mão para um forte cumprimento. “Meu nome é Fons Friedbürc e estou muito bem”, cumprimentei o santo, espantado pela força de sua mão entre a minha. “Agora melhor ainda, depois de um merecido refresco”. “Estamos indo para o mesmo destino?”, ele me perguntou com um sorriso curioso. “Vou visitar um parente adoentado”. “Eu sinto muito, irmão Boreen. Espero que não seja nada grave”, disse-lhe com sinceridade, pois não suporto doenças. Não suporto a dor nas pessoas, seja de qualquer natureza. “Sim, estamos caminhando para o mesmo lugar. A propósito, sou fotógrafo”. O comentário sobre minha profissão fez com que uma luz em forma de sorriso iluminasse o rosto redondo daquele homem santo. “Eu aprecio muito a arte de fotografar, Fons. Muito mesmo”. Passamos o tempo conversando sobre fotos e filmes e máquinas. Tive uma aula prática de técnicas de iluminação natural. Em troca dei-lhe alguns conselhos sobre fotografia digital, uma tendência irreversível. Irmão Boreen era um homem bonito. Os pequenos olhos castanhos estavam em perfeita harmonia com o rosto delicado, redondo, mas de traços fortes. O queixo delineado, a pele branca e os cabelos grisalhos, que um dia foram negros lhe davam um falso ar austero. O corpo, apesar da pequena estatura, era propocional. Não havia sinais de barriga proeminente. Imaginei coxas grossas e firmes. O peito me chamava a atenção. Senti desejo por aquele homem. Senti desejo em transgredir as regras. O pecado mora realmente ao nosso lado. A noite chegou rapidamente. Abafada e escura. As estrelas haviam tirado férias, pois o céu estava apagado. Eu não via a lua. Irmão Boreen levantou-se para guardar seu livro, o qual ele chamava de Regras. Em pé, ao meu lado, minha curiosidade em saber o que havia debaixo daquele saiotão marrom era irresistível. Uma cordinha branca pendia ao lado da cintura, amarrando-o. Notei pequenos nós no pedaço de corda que caía-lhe do lado esquerdo do corpo. “O senhor deve usar sempre esse saiotão?”, perguntei-lhe assim que ele voltou a sentar-se ao meu lado.

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“Esse ‘saiotão’ chama-se hábito!”, disse entre risos o pequeno homem. “E o que vocês usam por baixo desse pano medonho?”, após dizer a última palavra, sem pensar, senti meu rosto corar de vergonha, pela falta de respeito àquele homem santo. “Veja por você mesmo”, ele disse, pegando minha mão e conduzindo-a para debaixo do tecido espesso. A santidade caiu por terra. O santo nada usava por debaixo de seu vestido sagrado. Nada de roupa íntima, tapa-sexo ou coisa parecida. Somente pernas peludas e coxas divinamente macias. Toquei em seu sexo. Ele estava acordado. “Não precisa se sentir envergonhado, meu caro rapaz”, ele tirou delicadamente a minha mão debaixo do tecido e beijou-me as pontas dos dedos. “Monges também fazem amor!” “Mas vocês não têm que se manter castos ou coisa parecida?”, minha dúvida era sincera, porém coberta de tabus idiotas. “Eu repito, querido Fons, muitos monges também fazem amor e não sexo!” Irmão Boreen percebeu a confusão mental que pairava sobre minha cabeça. Ainda segurando minha mão, o santo que não era santo observou o mundo à nossa volta. Estávamos sozinhos na última fileira de bancos. Adiante, algumas pessoas conversavam em voz baixa. Outras assistiam o final de um filme com Michael voltando para o futuro, em uma tela minúscula de uma tevê decadente. “Não devemos misturar a nossa vocação religiosa com o que escolhemos ser na intimidade”, disse o monge, com a boca colada ao meu ouvido. Sua voz pausada, sedutora, e seu hálito de menta excitavam-me sobremaneira. Meu sexo explodia dentro do agasalho esportivo. “Independente do que é pregado em nosso meio, nada pode superar o que escolhemos ser dentro da sexualidade. Mas existem vários níveis de sexualidade. Desde o mais baixo e grotesco ao mais puro e divino. Amamos Jesus Cristo e Deus sobre todas as coisas. Dedicamos nossas vidas à contemplação divina e ao trabalho para o nosso sustento. Abrimos mão de todas as coisas terrenas e fúteis. Ajudamos e amamos todos sem distinção. Apoiamos os pobres tanto de espírito quanto de recursos materiais. Pregamos a paz, a benevolência, a humildade e o amor ao próximo”. O santo mudou sua posição na poltrona, ficando com o seu corpo grudado ao meu, após virar-me sem que eu manifestasse resistência nenhuma. Ele agarrou-me por trás. Estávamos unidos. Suas mãos a envolver-me o corpo e sua boca entre minha nuca e meu ouvido direito.

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“Muitos monges entram para a vida religiosa para fugirem do mundo exterior, tentando esconder de si próprios, da família e da sociedade a sua condição sexual. Usam a vocação, muitas vezes pouco desenvolvida, para fugirem de si mesmos. Preferem uma vida de clausura e penitência moral para apagar a sua essência, algo impossível de se fazer em uma única existência”. Irmão Boreen apertava com mais força o meu corpo junto ao seu, enquanto continuava sua explanação para o íntimo de minha razão: “Um monge pode ser homossexual. A opção do celibato? Talvez, já que existem inúmeras maneiras de se fazer o amor. Acredito que devemos sublimar o amor carnal, pura e simplesmente, e transformar essa energia sexual em amor fraternal. Não há necessidade de penetrações, orgias, luxúrias e decadência. Simplesmente amar por amar, como Ele nos ensinou. “Não somos perfeitos e muito menos santos. Só buscamos o equilíbrio máximo de purificação em nossas vidas. Infelizmente, como em todo lugar e em toda a sociendade civilizada, também cometemos pecados. Há tiranos no poder desde a Idade Média. Há santos que não são santos que usam de sua autoridade para submeter alguns membros de pouca experiência de vida e de verdades aos seus caprichos, à sua hipocrisia. “Não é somente na Sagrada Igreja que padres e pastores cometem deslizes com crianças e adolescentes. Há monges que também fazem o mesmo dentro de colégios caros que são sustentados pela elite conservadora. Mas na maioria das vezes não há a busca do sexo pelo sexo e sim do amor do toque, do carinho, do cheiro e da união de corpos, mas sem o ato sexual em si”. Eu ouvia atentamente as palavras daquele homem. E o prazer que eu sentia agora tomava outro rumo, saindo do carnal e entrando no desconhecido. “Fons”, ele disse em sussurro dentro de mim. “Não nego a atração física que senti ao lhe ver aqui do meu lado. Não nego que o meu sexo está em chamas ao sentir o seu corpo”, ele tocou em meu sexo. “Vejo que você também sente o desejo. Mas existem muitas formas de amar um homem fisicamente. Vire-se, vou lhe ensinar”. Obedeci. E na escuridão da noite abafada pude sentir o brilho no olhar do santo que não era santo. Ficamos rosto a rosto. O hálito de menta acariciando minhas narinas. O suor gerado pelo nervosismo e excitação escorria pelo meu rosto. Senti o beijo divino. Demorado, longo, macio, delicado, quente, profundo. Um beijo que jamais troquei com outra pessoa nessa vida. Lábios que não pareciam humanos. Língua que penetrava meu perispírito. Calor que aquecia todos os meus sentidos, relaxando-me como a melhor das massagens terapêuticas.

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Minutos que eram horas. O tempo paralizou o seu andamento. Bocas ativas e passivas. Relaxamento que diminuiu o tamanho de nossos sexos. Não precisávamos de nossos membros. Fazíamos amor com o encontro dos nossos lábios. Descobri uma nova maneira de prazer. Chorei. Voltamos às nossas posições iniciais. Estávamos chegando ao final da nossa jornada. O hálito de menta ainda permanecia em meus lábios. Um doce frescor acariciava os meus sentidos. Irmão Boreen estava impassível, o corpo relaxado ao meu lado. Suas mãos acariciavam com precisão e delicadeza um rosário bizantino. Os pequenos lábios macios pronunciavam algo que deveria ser uma oração. Minutos depois e o santo que não era santo abriu os olhos juntamente com o sorriso mais cintilante do que as luzes internas daquela noite perfeita. Não hove palavras. Somente o carinho do toque de nossas mãos. Seguimos viagem. Chegando ao ponto final de desembarque, ajudei irmão Boreen com as malas, já que eu carregava somente minha velha mochila de lona e nada mais. Um jovem nativo aguardava o monge. Era um parente que havia sido designado para buscá-lo. Notei o carinho do reencontro. Percebi que havia muitos anos que o santo que não era santo não voltava à sua terra natal. Aliás, eu não sabia de onde ele vinha. Eu me preparava para pegar um táxi até o meu hotel. Irmão Boreen veio para a despedida. Pousou uma folha de papel em minhas mãos e logo em seguida deu-me um caloroso abraço. “Cuide do seu corpo e da sua mente. A felicidade eterna é simples de ser alcançada. Basta somente praticar o bem!”, ele fechou as minhas mãos com o papelzinho em seu interior. “Voltaremos a nos encontrar em breve, caro Fons”, ele disse entusiasmado, apertando fortemente minhas mãos de encontro ao seu peito. “Quero trocar mais experiências fotográficas com você”. O homem santo que não era santo deu-me as costas e entrou no carro que lhe aguardava. Saíram em seguida, ele e o jovem parente. Perderam-se nas tumultuadas ruas daquela cidade turística e calorenta. “Eu te amo”, estava escrito no papel. “Mas nada absolutamente anteponha-se ao amor de Cristo. Que nos conduza juntos para a vida eterna!” Comprei balas de menta que um guri me ofertou. E segui o meu destino naquela noite abafada.

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poltrona 47 | o clube dos ursos
Sou muito cuidadoso com meu equipamento de trabalho. Naquela tarde amarela de uma terça-feira monótona, eu me perdia na melodia etérea de Elisabeth Fraser, que tocava no aparelho de som pela enésima vez enquanto eu lustrava com um pano seco o corpo de minha fiel Canon. O telefone tocou por volta das quatro. Sem pressa, após o quinto toque, debrucei-me no sofá para alcançar o aparelho. Meia hora depois eu já preparava minha mochila. Um novo trabalho estava à minha espera. Coisas de última hora, como sempre. Eu precisava partir naquela noite. Dezoito minutos antes do embarque, cheguei calmo e sereno ao terminal rodoviário da ilha de Lovland. Recebi minha passagem, conferi o troco, retribui um sorriso cansado para o rapaz do guichê número cinco, que me encarou com terceiras intenções, mais uma vez. Entrei no Pássaro de Prata e caminhei a passos lentos até a poltrona 47, meu lugar cativo. Depositei a velha mochila de lona no bagageiro superior, acomodando em seguida o meu corpo lesmódico no couro vermelho, macio. Joguei o tempo fora, apreciando o embarque dos demais passageiros. Assim que partimos, ganhando as ruas de asfalto perfeito da minha querida Lovland, comecei a elaborar a criação mental do que me aguardava ao sul de Stephground, a terra dos escritores. Eu iria documentar uma exposição de arte contemporânea e o lançamento de um livro de poesias, frutos da criatividade de Dimitri e Carlson, um casal gay muito conhecido, influente e respeitado naquela cidade. Estranhei o fato do evento ter sido marcado para as sete e meia da manhã do dia seguinte. Mas uma de minhas filosofias de trabalho é jamais questionar as excentricidades dos meus clientes. Chego no local, faço o que devo fazer com maestria e perfeição; entrego o material para o cliente dias depois e saio com meu polpudo cheque dentro da carteira. Simples assim. A noite seguia o seu curso natural. Estrelas piscavam aleatoriamente no manto negro. Não vi o pedaço da lua crescente, mas sentia a sua presença. Adormeci. Duas paradas estavam programadas para aquela ligeira viagem. Eu deveria chegar a Stephground em pouco mais de três horas. Deixamos a ilha pontualmente as oito da noite. Eu esperava que Henrich estivesse me aguardando ao chegar na cidade, conforme havíamos combinado pelo telefone.

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Acordei com um foco de luz amarela queimando os meus sentidos ao chegarmos na primeira parada. A cabeça latejava pelo mau jeito que meu corpo adormecera amarfanhado na poltrona. Abri os olhos lentamente. Ouvi algumas pessoas como que discutindo no interior do ônibus. Levantei-me com certa dificuldade e caminhei para o mundo exterior, ignorando os outros passageiros, um comportamento típico de minha parte. Notei algo estranho ao desembarcar. Eu já havia feito dezenas de vezes aquele mesmo itinerário e aquele não era o local costumeiro de nossa parada. No lugar do elegante e confortável Giant, aquilo mais parecia um posto de gasolina tamanho gigante, com bombas da Shell espalhadas em duas fileiras excessivamente iluminadas de luz fluorescente e uma casinha tosca pintada de algo que um dia fora branco, que imaginei ser a lanchonete do local. Vi caminhões de variados tipos e tamanhos estacionados diante da casa-lanchonete. Acredito que o mesmo pensamento de espanto passou pela cabeça dos outros passageiros, pois muitos estavam cercando o motorista, exigindo explicações. Ao chegar mais próximo do tumulto formado, ouvi as desculpas do coitado do homem: “Haverá uma troca de veículos”, disse com voz firme o bigode baixinho. “Por favor, queiram retirar suas bagagens e pertences do interior do ônibus. Dentro de vinte minutos chegará o outro carro”. Não gosto de tumultos. Notei que no meio daquele protesto improvisado havia o famoso encrenqueiro: um homem com pinta de pseudo-advogado, debaixo de um terno surrado, o tecido gasto nos cotovelos, que exigia explicações mais detalhadas do infortúnio causado por um problema mecânico com o nosso transporte. O motorista o deixou tagarelando enquanto falava via rádio com sua empresa. Entrei no Pássaro de Prata, pequei minha companheira de viagens, certificando-me que tudo estava em ordem e saí o mais rápido possível, afastando-me inclusive daquela confusão desnecessária. Como havia um tempo disponível e minha garganta começava a implorar por sua dose diária de coca-cola gelada, resolvi tomar coragem e entrar naquilo que deveria servir de refúgio para caminhoneiros mal encarados. Ao entrar no recinto pouco iluminado, recebi as boas vindas de uma nuvem de Marlboro que cobriu o meu corpo e enevoava os meus sentidos. Quase veio ao mundo o resto do lanche da tarde que ainda fermentava em meu estômago diante daquele cheiro horrível. Tapei a boca num movimento involuntário e segui até o balcão para tentar a compra do meu líquido precioso.

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Um ser carrancudo, vestindo uma camisa verde-amarela da seleção brasileira de futebol me encarou e percebi pelo seu olhar amarelo que era alguém de poucas palavras. Não consegui definir-lhe o sexo: peitos enormes, buço proeminente, braços que certamente esmagariam meu corpo num abraço nada cordial e sobrancelhas unidas que mais pareciam uma taturana entupida de anabolizantes, protegendo olhos assustadores. Pedi o meu refrigerante e fui prontamente atendido, mas com tremenda frieza. A coca lavava minha alma e após satisfazer meu vício comecei a apreciar com um pouco mais de ânimo as pessoas daquele lugar. No fundo do salão, alguns homens jogavam baralho numa mesa. Notei que eram caminhoneiros versus seus respectivos auxiliares. Divertiam-se num jogo barulhento, cheio de sinais e malícias que não consegui compreender. Outros dois sujeitos me encaravam com firmeza. Um deles era alto e muito forte, quase uma porta de músculos e gordura. Os pêlos loiros acinzentados do peito saltavam por entre a camisa desabotoada. O outro era um pouco mais baixo, pele queimada de sol, com uma barriga proeminente e uma barba desalinhada, que me causou certo desprezo. Notei sexo no olhar de ambos. Algo estava para acontecer. Um cochichou algo no cangote do outro. Um sorriso malicioso surgiu no rosto do Barriga. Ele veio em minha direção. “Perdido nesse fim de mundo, rapaz!”, disse Barriga e notei algo preso dançando na barba grisalha, enquanto ele fazia voltas com o dedo indicador nos pêlos do meu peito. “Houve um problema mecânico com meu ônibus, acho que vão trocar de veículo”, respondi secamente, e meu olhar não desgrudava da sujeira aparente naquela barba. “Eu fiz uma aposta com meu amigo ali”, disse Barriga, aproximando seu hálito absinto do meu rosto. “Ele acha que você não agüenta o instrumento dele inteiro na sua boca”, a mistura de excitação e medo ao ouvir tamanha audácia quase parou o meu coração. “Diga ao seu amigo que eu só transo com homens... de verdade”, fulminei meu pretendente do outro lado com um olhar nervoso. “E que não estou interessado em qualquer coisa que possa existir debaixo daquele jeans imundo”. “Então eu tenho chances de te possuir, certo?”, disse Barriga, visivelmente excitado, acariciando o membro que latejava embaixo do trapo de pano que lhe cobria as partes baixas do corpo. “Pois eu sou um homem de verdade e posso fazer você urrar de prazer quantas vezes eu quiser”. Voltei minha atenção ao resto de coca quente que ainda existia na garrafa, desprezando

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assim o sujeito que me causava nojo e excitação. Joguei uma nota de dois sobre o balcão, apanhei minha mochila e meu instinto sexual me levou ao banheiro. O local era sujo, cheirando a urina milenar. Desagüei o que devia no vaso sanitário imundo. Ouvi um barulho de porta sendo aberta. Eu não estava mais sozinho. Barriga e seu amigo entraram juntos. O Porta ficou na porta, visivelmente impedindo a minha retirada daquele cubículo. “Nós quer você!”, senti novamente o hálito agora azedo do meu admirador barrigudo. “A questão é que talvez eu não queira voc...”, sua boca invadiu a minha, impedindo-me de terminar a frase. Senti a língua quente me possuindo, enquanto mãos fortes e firmes seguravam com força minhas nádegas. Barriga virou-me violentamente e meu rosto encontrou a frieza dos azulejos azuis daquele banheiro fétido. O sexo volumoso brigava com a barriga enorme pelo direito de possuir meu corpo. Virei o rosto em direção à saída. Porta deliciava-se com a cena, massageando por sobre o jeans gasto o seu instrumento de prazer. Não sei por quanto tempo ficamos naquela esfregação. De repente, Barriga afastou-se do meu corpo, mas permaneceu segurando com firmeza um de meus braços. “Venha, rapaz”, ele disse, quase que num grito, transpirando em bicas. “Vamos mostrar a você o que é o prazer!”, notei o brilho do pecado em seu olhar, quando consegui virar meu corpo de frente àquele que desejava me possuir. Vi o sorriso malicioso do Porta, que ajeitava o seu membro por dentro da calça. Barriga e Porta trocaram um sinal incompreensível para mim. Porta abriu a porta, deixando a passagem livre para nós. Segurando em minha mão, sem nenhum constrangimento, Barriga e eu saímos para o salão. Nova troca de olhares, agora em direção aos homens que jogavam baralho. Todos se levantaram em perfeita sincronia, seguindo em fila indiana para uma outra porta nos fundos daquela espelunca. O ser que cuidava do balcão apenas sorria. Notei em seu rosto que a festa estava só começando, era o que certamente aquilo pensava. Entramos todos em uma ampla sala, iluminada somente com uma luz vermelho-alaranjada. Havia uma grande mesa baixa ao centro e um rapaz gordinho estava sentado num banco de madeira ao lado da mesa, o olhar baixo, evitando o meu olhar confuso. Notei à minha direita uma outra sala, essa bem iluminada, e ouvi som de água corrente. Nesse momento Porta havia retornado, estampando um sorriso de satisfação. Chegou o seu

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rosto próximo ao meu e o hálito de alcatrão disse em meu ouvido: “Agora poderemos ficar a noite toda no prazer, meu rapaz, pois o seu ônibus - ele ria - o último veículo que certamente passaria por aqui esta noite, já partiu”. Um misto de pânico e satisfação passou pela minha mente. Barriga abraçou-me e sussurrou lentamente, agora para dentro de minha alma: “Ele disse que você não estava passando bem e que ele iria levar você a um posto médico próximo daqui.” Os dois trocaram uma seqüência de sinais com o olhar. Aquilo deveria ser comum entre eles. Eu não quis questionar tudo aquilo. Travei a minha razão e deixei meu corpo e minhas sensações tomarem conta daquele momento confuso, porém mágico. Como num ritual, Barriga e Porta afastaram-se de mim e com sinais feitos com as mãos, prontamente dois homens ursos ficaram ao meu lado, agarrando meus braços e conduzindome para a sala da água corrente. Enfiaram-me debaixo de um chuveiro, onde jatos de água fria acima do limite tolerável despertaram o meu corpo tenso, preparando-me para o que estava por vir. Mãos pesadas e peludas ensaboavam-me com uma pedra de sabão azul. Em minutos eu estava debaixo de uma espessa camada de espuma. Quatro mãos ágeis acariciavam minhas coxas e subiam em direção ao meu peito peludo, passando rapidamente pelas minhas costas lisas e terminando os movimentos sensuais na minha cabeça, ensaboando meus cabelos. Um novo jato de água levou embora toda a espuma. Sentia-me como que purificado, pronto para o sacrifício, pronto para ser consumido por todos aqueles homens, naquela noite. Meu corpo não foi enxugado. Molhado, frio e quente, exalando sensualidade, fui conduzido para o salão do sacrifício. A visão que preencheu os meus olhos não poderia ser mais excitante. Todos os homens estavam nus. Uma montanha de pêlos e músculos e coxas e barrigas rígidas rodeavam a mesa de madeira escura. Os dois homens que me haviam banhado levantaram o meu corpo, colocando-me sobre a mesa. Uma nuvem espessa de nicotina e alcatrão dava um toque lúdico ao local. Nove homens estavam estrategicamente espalhados em volta da mesa de madeira maciça. Os dois que prepararam o meu corpo juntaram-se a nós. Todos trajavam somente meias brancas e botinas escuras, a maioria pretas. Barriga e Porta ficaram como que guardiões da entrada, assistindo de um ângulo privilegiado tudo o que viria a acontecer. Ao comando de um urso mais velho, que estava literalmente aos meus pés, mãos truculentas começaram a acariciar todo meu corpo, menos o meu sexo. Gemidos e palavras baixas e sem sentido algum eram ditas. A excitação misturava-se ao ar pesado e cinzento. O ursinho que eu havia visto tomando conta da mesa quando entrei, estava ao meu lado, acariciando meus

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cabelos e secando o suor do meu rosto com um tecido amarelo. Era um garoto pequeno e notei em seus lábios o desejo de se juntar aos meus. Dei-lhe o beijo. E sua boca delicada e quente preencheu o meu vazio. O chefe dos ursos, aquele que aparentava ser o mais velho, subiu na grande mesa baixa, engatinhando lentamente até chegar ao meu sexo. Segurou-o com muita delicadeza, beijando-lhe a base, o corpo, a cabeça. Os outros continuavam a acariciar meu corpo com uma das mãos, enquanto com a outra balançavam os seus sexos em movimentos lentos e sincronizados. O chefe dos ursos engoliu meu sexo, apertando com força as minhas bolas, endurecendo ainda mais o membro grosso que explodia em sua esplêndida rigidez. O ritual continuava. De repente várias bocas caíram sobre meu corpo. Línguas e dentes e saliva quente corriam por toda extensão do meu ser. O ursinho virava minha cabeça com força, buscando novamente a minha boca e sufocando-me com seus beijos. Presumi que aquela era sua especialidade, pois jamais eu havia experimentado um beijo tão perfeito. Sob um estalar de dedos, meu corpo foi virado por muitas mãos. O urso velho puxou-me pela cintura. Eu fiquei de quatro, aguardado um novo comando. Ele rapidamente entrou em mim com sua língua experiente. Mordia e chupava e lambia minha porta do prazer. Todos apreciavam a cena, socando com mais força os seus membros para cima e para baixo. Pude notar que Barriga e Porta também tocavam suas vigas expostas, encantados com o espetáculo. Enquanto o urso velho me possuía com a boca, ninguém ousou chegar perto de mim. Todos apreciavam o momento a uma respeitosa distância. Ursinho saiu do seu posto, abrindo uma embalagem de preservativo, colocando a borracha com maestria em seu mestre. Fui penetrado sem dó, em uma única estocada. A dor misturava-se ao prazer. O urso velho urrava e me possuía. E todos assistiam calados, gemidos ocultos, vidrados com a performance do homem mais experiente. Entrei no jogo. Comecei a urrar e a gemer com aquele velho dentro de mim. O suor dos nossos corpos selava a nossa união. Em pouco tempo senti o calor do seu jorro dentro do meu paraíso. Enquanto gozava, ele batia vigorosamente em minhas nádegas com mãos calejadas de um trabalhador braçal. E eu mordia seu sexo com meu ânus. Essa era a minha especialidade. O velho urso saiu do meu corpo. Saltou da mesa para o chão. Tirou o preservativo cheio da essência, jogando-o num canto escuro qualquer. Ele sentou-se no chão úmido, ao lado de Barriga e Porta. Um novo estalar de dedos e os outros homens começaram o serviço.

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Meu corpo foi empurrado com certa violência sobre a madeira escura. Varas batiam em meu rosto, procurando minha boca. Vigas batiam em minhas nádegas, procurando a porta de um prazer coletivo. Fui penetrado, chupado e acariciado centenas de vezes. Num rodízio infinito, cada um invadia o meu espaço à sua maneira. Estocadas leves e carinhosas eram trocadas a todo o momento por outras mais vigorosas. Sexos grossos e enormes davam lugar a outros sexos finos e compridos. Eu assumia posições inimagináveis diante daqueles homens. Dois ou três sexos ao mesmo tempo disputavam todos os orifícios do meu corpo. Enlouqueci. Saí de mim. Entrei no transe. Fui possuído de todas as maneiras fisicamente possíveis. Horas se passaram. Suores, pêlos e odores se misturavam na fumaça dos cigarros. Eu estava exausto. Mas eu queria mais. Eu podia mais. Eu resistiria muito mais. Um novo estalo de dedos. O chefe dos ursos levantou-se do chão e veio em nossa direção. Todos pararam de me tocar, inclusive o húngaro delicioso que me usava retirou com pressa o seu mastro de dentro de mim. O velho homem juntou-se a nós. Todos rodeavam a grande mesa baixa. Porta e Barriga permaneceram grudados na entrada do salão. O velho iniciou uma punheta e foi logo seguido por seus companheiros. Meu rosto foi virado à esquerda com certa agressividade. Ursinho se masturbava, puxando minha cabeça para os seus lábios. Dei o beijo mais longo da minha existência. Com diferença de segundos, todos os ursos jorraram o sêmen sobre mim. O prazer coletivo dava o seu grito. O prazer urrava na sala escura. Meu corpo foi lavado pela mais pura essência humana, deliciosamente quente e pegajosa. Ursinho parou de me beijar, levantando-se depressa e jorrando seu líquido quente em meu rosto. Eu não havia gozado. Todos se afastaram de mim, exceto um negro rígido, compenetrado, que com suas mãos incrivelmente belas e fortes acariciava o meu corpo em movimentos lentos e circulares, espalhando litros de sêmen sobre meu peito peludo e minha barriga sem barriga. Com a massagem erótica, exausto, quase adormeci. O corpo clamava por um banho quente. Meu desejo foi satisfeito. Porta aconchegou o meu corpo em seus braços, levando-me para o banheiro iluminado. Vi os ursos fumando, uns deitados e outros sentados, ainda em transe, nos cantos da sala. Ursinho deitou-se na mesa onde eu havia passado as últimas horas e manipulava os próprios mamilos, a boca a gemer frases difusas em alemão. Barriga entrou conosco no banheiro. Sentou na privada amarela sobre o tampo de cor rosa, enquanto Porta me dava um banho especial. Suas mãos ensaboavam o meu corpo cansado e sua boca fazia maravilhas em minhas orelhas. Procurou minha boca e prontamente retribui seus beijos. O bigode molhado fazia cócegas em meu rosto e na minha boca. Segurou com firmeza minha mão direita, fazendo-a agarrar o seu sexo. Era monstruoso de tão gran-

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de. Algo quase que descomunal. Fiquei com medo de ser penetrado por ele naquele momento. Mas Porta não dava sinais de querer me possuir ali. Continuamos os nossos beijos. Ele forçou a minha cabeça em direção ao seu sexo. Com dificuldade, abocanhei a tora menos que a metade, abrindo o máximo que meu maxilar agüentava. O gosto daquele membro era especial. A água agora quente amaciava a carne. Barriga socava lentamente sua punheta e sorria com malícia para mim. Porta puxou minha cabeça, fazendo com que eu subisse minha língua pelo caminho da felicidade até encontrar novamente sua boca e seu bigode. Virou o enorme corpo em direção da parede, abrindo com as mãos as nádegas rosadas. Lubrifiquei meu sexo com o sabão azul. E sem proteção alguma entrei em seu interior nórdico. Barriga se levantou e procurou o caminho certo para entrar em mim. O sanduíche humano estava formado. Três ursos unidos em sincronia dentro de um metro quadrado. Os pêlos loiros, castanhos e negros contrastavam com a cor de nossas peles quase brancas. Após alguns minutos, retiramos os nossos sexos de nossos corpos. Trocamos um beijo a três e ejaculamos juntos quase que ao mesmo tempo. Nossos filhos escorriam tristes pela parede branca.

Barriga e Porta me levaram em seu caminhão até Stephground. Adormeci no ombro de Barriga, mas sua barba estranha produzia cócegas em meu rosto, despertando-me em ligeiros sobressaltos durante o trajeto. Cheguei em Stephground pouco depois das cinco da manhã. Na porta do pequeno hotel, onde se podia observar que não havia ninguém na recepção, troquei um abraço-urso com meus novos amigos-amantes. Eles seguiriam viagem até Portija, a duzentos quilômetros de onde estávamos. Barriga me entregou um pequeno cartão, onde havia anotado os números de seu telefone em Portija. Porta esticou o braço para fora da cabine, entregando-me também um cartão junto com minha mochila. Nele havia uma espécie de código. “Os primeiros números indicam as datas em que nos encontramos no ‘clube’”, disse Porta. “E logo abaixo está o meu telefone, para confirmação da sua presença em nossas reuniões mensais”, um sorriso excitante invadiu o rosto marcado pelo tempo. Despedimo-nos com uma troca de olhares e sorrisos abertos. Entrei no hotel e vi um homem cochilando atrás do balcão. Um toque sonoro com a palma da minha mão sobre uma

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pilha de papéis o fez despertar de seus sonhos eróticos. Enquanto eu preenchia o cadastro de minha curta permanência no local, o homem alemão aguardava para me entregar as chaves do quarto. “Preciso tomar um banho e descansar um pouco. Foi uma longa viagem ”, eu disse ao recepcionista. “O senhor poderia me acordar por volta das sete?”, demonstrei o meu melhor sorriso ao sonolento amigo. Um sinal de positivo foi tudo o que recebi em troca, seguido de um sorriso jocoso. Ao entrar no quarto simples e aconchegante, depositei minha mochila na cama dura. Deixei cair meu corpo sobre o colchão de molas. Tirei do meu bolso os dois cartões que me foram entregues por aqueles homens de verdade. Notei um relevo discreto no cartão que Porta havia me dado. O relevo tinha a forma de uma pata de urso. Sorri em silêncio, relembrando os momentos vividos durante a exótica noite. Em outubro haverá nova reunião. E agora eu fazia parte do seleto clube. O Clube dos Ursos.

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O AUTOR :: MOA SIPRIANO

Nasci em Jundiaí, uma próspera cidade do interior de São Paulo. Minha mãe é uma guerreira. Tenho duas irmãs fantásticas, dois cunhados bacanas, duas sobrinhas fofas, algumas primas idolatradas e uma tia que é fora-de-série. Ah, também tenho um pai... ausente. Comecei a escrever roteiros, poesias, letras de músicas e outras bobiças aos 12 anos. Eu vivia anotando meus sonhos e minhas verdades em papéis soltos que foram se perdendo pelo caminho. Sempre escrevi histórias que de alguma maneira retratavam a homossexualidade masculina. Em 1988, após uma experiência pessoal "abalante", resolvi desabafar através de uma autoterapia forçada, escrevendo em uma noite Uma carta para Hans. Foi o primeiro conto. Em 2004, ao criar a primeira versão do meu site oficial, fiquei totalmente surpreso com a polêmica, os comentários inflamados e a repercussão positiva junto aos leitores ao publicar meus primeiros artigos na Internet: Deus x Gays, Afeminado? Tô fora e Você é Ativo ou Passivo; além da série Poltrona 47 (cinco contos que retratam as experiências sexuais de um rapaz dentro de um ônibus) e o conto Filipe ou Treze homens e um destino (história que retrata de uma maneira polêmica as atitudes de um rapaz que ao saber que pode estar contaminado com o vírus da AIDS, num momento de revolta e irresponsabilidade total resolve se vingar e transar com treze homens em um único dia). Foi este incentivo que me levou a apostar no meu tipo de literatura. Desde então, nunca mais parei de escrever, procurando aprender e evoluir a cada dia como um bom contador de histórias gays. Em 2005, por causa do sucesso do conto Filipe, busquei inspiração para desenvolver o projeto 30 dias. A história de Jägger foi realmente escrita em tempo real, conforme as datas descritas no diário do personagem. Foi um desafio enorme escrever trinta capítulos em exatos trinta dias e postar um capítulo diário, em formato de blog, em meu site. E mesmo não tendo divulgado devidamente este projeto, a repercussão foi muito promissora.

Em 2007, após editar e ampliar o conto, transformando-o em um e-book e carro-chefe na divulgação do meu trabalho, resolvi disponibilizá-lo gratuitamente em meu site. Percebendo a boa receptividade de "30 dias", acabei transformando praticamente toda minha produção literária nesse formato, tonando-me assim um pioneiro na divulgação e distribuição no Brasil de livros digitais gratuitos contendo literatura gay de qualidade. Em 2008, após mais de 20 mil downloads no Brasil de todos os meus títulos publicados e também por causa da grande quantidade de comentários incentivadores dos meus leitores é que continuo me esforçando na produção constante e divulgação permanente de uma literatura "gay" de excelente entretenimento. A homossexualidade, o amor verdadeiro, os conflitos internos, a amizade e a espiritualidade são temas recorrentes no meu trabalho literário. Espero que minhas histórias e verdades proporcionem a você momentos de agradável leitura e reflexão.

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