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PRINCIPIOS DO TRATAMENTO BIOLOGICO DE AGUAS RESIDUARIAS Lagoas de e stabilizacdo MARCOS VON Departamento de Engenharia Sanitaria e Ambiental - DESA SPERLING Universidade Federal de Minas Gerais Os dois volumes iniciais da série centraram-se nos aspectos introdutsrios e fun- fentais do tratamento de esgotos. A partir deste terceiro volume, passam a ser abordados sistemas de tratamento especificos. Os volumes subsequentes enfocarao, cada um, os seguintes sistemas de tratamento: lodos ativados, reatores anaerébios tratamento e disposi¢ao final de lodo de esgotos. O presente volume enfoca o sistema de tratamento de esgotos por lagoas de estabilizacao. Sao descritos os principios basicos ¢ os critérios de dimensionamento dos principais sistemas para remogio da matéria carbonécea (lagoas facultativas; sistema de lagoas anaerébias — lagoas facultativas; lagoas acradas facultativas; sis- tema de lagoas aeradas de mistura completa — lagoas de decantagao) e para remo- ‘cdo dos organismos patogénicos (lagoas de maturagio). Apés tal, so descritos os principais aspectos construtivos, e dadas as diretrizes para a manutencfio e operagaio dos sistemas. Em consonaneia com a prépria simplicidade conceitual do proceso de tratamento por lagoas, o volume adota uma abordagem de apresentagio de informagées de uma forma direta e simplificada, para cada um dos sistemas descritos. Para cada sistema, apresenta-se um exemplo completo de dimensionamento, objetivando se obter as gran- des dimensdes das unidades para alocagio no terreno, bem como uma estimativa das caracteristicas do efluente a ser langado no corpo receptor. Como em todos os volumes desta série, nao ha grande preocupagio com o detalhamento dos projetos, para o qual ha outras referéncias disponiveis, além de catélogos de fabricantes. Por se tratar de uma série, este yolume pressupde uma continuidade temdtica com os dois volumes que 0 precederam. No entanto, procurou-se dar uma certa auto-suficiéncia, de forma a reduzir o mimero de consultas cruzadas aos demais volumes. Retomando um comentario do prefacio do primeiro volume, deve-se encarar a presente série apenas como uma contribuicao, dentro de um esforco mais amplo, que deve ser abragado por todos nés, de implantar no pafs uma infra-estrutura sani- taria que permita a melhoria das condigées ambientais e da qualidade de vida nossa populagao. O autor considera como totalmente bem-vindos quaisquer coment tes para a melhoria deste volume, ou de qualquer dos outros vol 4 Finalmente, gostaria de agradecer a todos aqueles que con! seguem contribuindo para a realizagao desta série. Em tel i decimento a todos que se motivaram, juntamente 0 f aos livros. Em termos institucionais, as entidades : bilizagao do empreendimento: Departamento. selho Nacional de Desenvolyims SUMARIO CAPITULO 1 Introdugio CAPITULO 2 Lagoas facultativas . INTRODUCAO . DESCRICAO DO PROCESSO . AINFLUENCIA DAS ALGAS . AINFLUENCIA DAS CONDICOES AMBIENTAIS .. . CRITERIOS DE PROJETO..... ESTIMATIVA DA CONCENTRACAO EFLUENTE DE DBO. 2.6.1. A influéncia do regime hidraulico 2.6.2. DBO efluente soltivel e particulada 2.6.3. A remogio de DBO segundo o modelo de mistura completa 2.6.4. A remogiio de DBO segundo o regime hidréulico de fluxo dis ARRANIOS DE LAGOAS.... . ACUMULO DE LODO .. . CARACTERISTICAS DE OPERACAO. . POLIMENTO DE EFLUENTES DE LAGOAS . EXEMPLO DE DIMENSIONAMENTO Capitulo 3 Sistema de lagoas anaerdbias seguidas por lagoas facultativas 3.1. INTRODUCAO.. 3.2. DESCRICAO DO PROCESSO 3.3. CRITERIOS DE PROJETO PARA AS LAGOAS ANAEROBIAS ...01.0 3.4. ESTIMATIVA DA CONCENTRAGAO EFLUENTE DE DBO DALAGOA. ANAEROBIA ... 66 3.5. DIMENSIONAMENTO DAS LAGOAS FACULTATIVAS APOS LAGOAS ANAEROBIAS .... 68 — a 41. 4.2. 43. 44, 45. 4.6. 47. 48. 4.9. 5.1. 5.2. Bis 5.4. aa. 5.6. 5.7, 5.8. 6.1 6.2. 6.3. . ACUMULO DE LODO NAS LAGOAS ANAEROBIAS.. . EXEMPLO DE DIMENSIONAMENTO ... CAPITULO 4 Lagoas acradas facultativas INTRODUCAO... DESCRIGAO DO PROCESSO CRITERIOS DE PROJETO .... ESTIMATIVA DA CONCENTRACAO EFLUENTE DE DBO REQUISITOS DE OXIGENIO SISTEMA DE AERACAO...... REQUISITOS ENERGETICOS ACUMULO DE LODO .. EXEMPLO DE DIMENSIONAMENTO ..... CAPITULO 5 Sistema de lagoas aeradas de mistura completa seguidas de lagoas de decantagio INTRODUCAO... DESCRIGAO DO PROCESSO .. CRITERIOS DE PROJETO DAS LAGOAS AERADAS .. ESTIMATIVA DA CONCENTRACAO DE DBO EFLUENTE DA LAGOA AERADA.. REQUISITOS DE OXIGENIO NA LAGOA AERADA REQUISITOS ENERGETICOS NA LAGOA AERADA..... DIMENSIONAMENTO DA LAGOA DE DECANTAGAO EXEMPLO DE DIMENSIONAMENTO ... CAPITULO 6 & Remogiio de organismos patogénicos INTRODUGAO..... DESCRIGAO DO PROCESSO ... ESTIMATIVA DA CONCENTRACAO EFLUENTE DE COLIFORMES 6.3.1. A influéncia do regime hidrdulico ...... zi Os regimes hidréulicos idealizados 6.3.3. O regime hidrdulico de fluxo disperso ... 6.3.4. O coeficiente de decaimento de coliformes Ky, segundo o regime de fluxo disperso 12 6.3.5. O coeficiente de decaimento bacteriano Ky, segundo o regime de mistura completa 1 6.3.6. Resumo dos coeficientes de decaimento bacteriano Ky, 118 6.4. REQUISITOS DE QUALIDADE PARA O EFLUENTE .. 118 6.5. CRITERIOS DE PROJETO PARA A REMOCAO DE COLIFORMES ... 122 6.6. EXEMPLO DE DIMENSIONAMENTO 6.7, REMOCAO DE OVOS DE HELMINTO! 135 CAPITULO 7 Remogio de nutrientes 7.1. REMOGAO DE NITROGENIO. 7.2. REMOCAO DE FOSFORO.. CAPITULO 8 Lagoas de estabilizacao como pés-tratamento de efluentes de reatores anaer6bios LAGOAS DE ESTABILIZAGAO COMO POS-TRATAMENTO DE EFLUENTES DE REATORES ANAEROBIOS.. CAPITULO 9 Acraciio do efluente em escadas ou quedas d“4gua AERACAO DO EFLUENTE EM ESCADAS OU QUEDAS D’AGUA...... CAPITULO 10 Aspectos construtivos 10.1, INTRODUGAO.. 10.2. LOCACAO DAS LAGOAS. 10.3. DESMATAMENTO, LIMPEZA E ESCAVACAO DO TERRENO 10.4. TALUDES ........0.0 10.5. FUNDO DAS LAGOAS 10.6. DISPOSITIVOS DE ENTRADA 10.7. DISPOSITIVOS DE SAIDA..... CAPITULO 11 Manutenciio e operagao 11.1. INTRODUGAO.. 11.2. EQUIPE DE TRABALHO...... 11.3. INSPECAO, COLETAS E MEDICOES 11.4. INICIO DE OPERAGAO...... 11.4.1, Carregamento das lagoas Inicio de operagao de lagoas anaerdbias . Inicio de operaciio de lagoas facultativas _ Inicio de operagao de lagoas em sistemas em série 11.5. PROBLEMAS OPERACIONAIS ...... CAPITULO 12 Gerenciamento do lodo de lagoas de estabilizagio 12.1, PRELIMINARES 12.2. CARACTERISTICAS E DISTRIBLIGAO DO LODO NAS LAGOAS DE ESTABILIZAGAO... fe REMOGAO DO LODO DAS LAGOAS DE ESTABILIZACAO Ra Informagdes sobre o volume de lodo a ser removido Técnicas aplicdveis na remogio do odo. Remogao de lodos com desativagiio temporaria da lagoa Remocio de lodos com manutengéo da lagoa em funcionamento. Vantagens e desvantagens das técnicas apresentadas ... REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS .... CAPITULO 1 Introducao sistemas de lagoas de estabilizacao constituem-se na forma mais simples tratamento dos esgotos. Hé diversas variantes dos sistemas de lagoas de {io, com diferentes niveis de simplicidade operacional requisitos de Area. guintes os sistemas de lagoas abordados no presente texto: facultativas ia de lagoas anaerébias seguidas por lagoas facultativas aeradas facultativas 1a de lagoas aeradas de mistura completa seguidas por lagoas de decantagéio N destas lagoas, cujo principal objetivo é a remogdio da matéria carbondcea, m-se também as lagoas de maturagao, direcionadas & remocio de organis- da outras variantes do sistema de lagoas, tal como listado no Volume 1 da Série. No entanto, no presente texto, so analisadas em maior detalhe ape- goas citadas acima. ira geral, as lagoas de estabilizagiio s’o bastante indicadas para regides quente e paises em desenvolvimento, devido aos seguintes aspectos: nte disponibilidade de area em um grande numero de localidades avordvel (temperatura e insolagio elevadas) 0 simples ‘idade de poucos ou nenhum equipamento jjadro 1.1 apresenta uma descrigdo sucinta dos principais sistemas de lagoas . Os respectivos fluxogramas encontram-se nas Figuras 1.1 ¢ jadro 1.2 apresenta uma comparacao entre as principais caracteristicas dos de lagoas analisados. Com relagio & remogao de organismos patogénicos hente ditos, uma série de lagoas, incluindo lagoas de maturagdo, é capaz de eguintes eficiéncias de remogao (Mara et al, 1992): até 6 unidades logaritmicas (99,9999%) 4 unidades logaritmicas (99,99%) © Quadro 1.3 apresenta um balango de vantagens € desvantagens de cada siste- ma de lagoas. © Quadro 1.4 lista os principais parametros utilizados nos projetos de lagoas, os quais encontram-se detalhados no restante do texto. Quadro 1.1. Descrigdo sucinta dos principais sistemas de lagoas de estabilizacio tema Descrigao Lagoa A DBO soltivel ¢ finamente particulada é estabiizada aerobiamente por bactérias facuitativa cispersas no meio liquido, ao passo que a DBO suspensa tende a sedimentar, sendo cconvertida anaerobiemente por bactérias no fundo da lagoa. O oxigénio requerido pelas bactérias aerobias ¢ fornecid pelas algas, através da olossintese. Lagoa ADBO é em torno de 60 a 70% removida na lagoa anaerdbia (mais profunda e com anaerébia- menor volume), enquanto a DBO remanescente é removida na lagoa facultativa. O Jaga _ sistema ocupa uma Area inferior ao de uma lagoa facuttativa Unica. facultative Lagoa aerada Os mecanismos de remogao da DBO sao similares aos de uma lagoa facultativa. No facultativa —entanto, 0 oxigénio é fornecido por aeradores mecanicos, ao invés de através da fotossintese, Como a lagoa é também facultativa, uma grande parte dos sélidos do asgote ¢ da biomassa sedimenta, sendo decomposta anaerobiamente no fundo. Lagoa aerada A energia introduzida por unidade de volume da lagoa é elevada, 0 que faz com que os ‘de mistura_sélidos (principalmente a biomassa) permanegam dispersos no meio liquido, ou em completa mistura completa. A decorrente maior concentragao de bactérias no meio liquido fagoa de aumenta a eficiéncia do sistema na remogao da DBO, o que permite que a lagoa tenha decantagao um volume inferior ao de uma lagoa aerada facultativa, No entanto, o efluente contém elevados teores de séiidos (bactérias), que necessitam ser removidos antes do langamento no corpe receptor. Alagoa de decantacgo a jusante proporciona concigses para esta remogao. 0 lado da lagoa de decantagao deve ser removido em periodos de poucos anos. Lagoa de 0 objetivo principal da lagoa de maturacdo 6 a remogéo de organismos patogénicos. Nas, maturagéo \agoas de maturagdo predorinam condigées ambientais adversas para bactérias patogénicas, como raciagao ultravioieta, elevado pH, elevado OD, temperatura mais baixa que a do corpo humano, falta de nutriantes @ predagao por outros organismos. Ovos de helmintos e cistos de protozoairios tendem a sedimentar. As lagoas de maturagao constituem um pés-tratamento de processos que objetivem a remogao da DBO, sendo usualmente projetadas como uma série de lagoas, ou como uma lagoa nica com divisées por chicanas. A eficiéncia na remogao de coliformes é elevadissima. 12 Lagoas de estabilizacao SISTEMAS DE LAGOAS DE ESTABILIZAGAO LAGOA FACULTATIVA RECEPTOR GRADE peARelA DEVAZAD SS y & fe ah LAGOA ANAEROBIA - LAGOA FACULTATIVA cor, eso ae ORME DEAR, BEVEAD LAGOAANAEROBIA —_LAGOAFACULTATIVA’ LAGOA AERADA FACULTATIVA _— cu, wR (aan IER GRADE paren DE VA yo a bia LAGOA AERADA DE MISTURA COMPLETA - LAGOA DE DECANTAGAO LAGDRAERADADE — Lagoape —-RECEFTOR noche MSTURACOMPLET — nREREAERO Sa ona GRADE pe AREA of = Fig. L1. Fluxogramas dos principais sistemas de lagoas de estabilizagtio para a remogao da DBO Introdugéio 1B Quadro 1.3. Balango de vantagens e desvantagens dos sistemas de lagoas de estabilizagdo LAGOA ANAEROBIA - LAGOA FAGULTATIVA - LAGOAS DE MATURAGAO Vantagens Desvantagens * Satisfat6ria eficiéncia na remogao de DBO # Razodvel eficiéncia na remogao de atégenos * Construcdo, operactio e manutengéio simples ‘+ Reduzidos custos de implantagao operacao * Aus@ncia de equipamentos mecanicos + Requisitos energéticos praticamente nulos « Satisfatéria resisténcia a variagdes de carga ‘* Remogao de lodo necasséria apenas apés periodos superiores a 20 anos © Elevados requisites de area * Dificuldade em setisfazer padres de langamento resiritivos ‘* Asimplicidads operacional pode trazer © descaso na manutengéo (crescimento de vegetacéo) Possivel necessidade de remocao de algas do efluente para o cumprimento de padroes rigorosos '* Performance variavel com as condigdes climaticas (temperatura e insolagao) + Possibilidade do crescimento de insetos * Idem tagoas facultativas ‘¢ Requisitos de area inferiores aos das lagoas facultativas Gnicas ‘Idem lagoas facultativas ** Possibilidade de maus odores na lagoa anaerdbia ‘= Necessidade de um afastamento razodvel &s residéncias circunvizinhas * Necessidade de remogao continua ou periédica (intervalo de alguns anos) do odo da lagoa anaerébia * Construgao, operagao e manuteng&o relativamente simples + Requisilos de area inferiores aos sistemas de lagoas facultativas e anaerébio- facultativas * Maior independéncia das condigdes climaticas que os sistemas de lagoas facuitativas e anaerdbio-acultativas « Salisfat6ria resisténcia a variacoes de carga + Recuzidas possiblidades de maus odores « Introdugao de equipamentos * Ligeiro aumento no nivel de sofisticagéo ‘ Requisitos de drea ainda elevados * Requisitos de energia relativamente elevados * Baixa eficiéncia na remogéo de coliformes: # Necessidade de remocéo continua ou periddica (intervalo de alguns anos) do Todo ** Idem lagoas aeradas facultativas ‘* Menores requisitos de Area de todos os sistemas de lagoas ‘Idem lagoas aeradas facultativas {excecdo: requisitos de area) * Preenchimento répido da lagoa de decantagao com 0 lado (2 a 5 anos) ‘* Necessidade de remogao continua ou petiédica (2 a 5 anos) do lodo ‘+ Idem sistema de lagoas precedente * Elovada eficiéncia na remagao de atogenos| * Razodvel eficiéncia na remogao de nulrientes: * Idem sistema de lagoas precedente © Requisitos de area bastante elevados , convo Sitema i. th RECEPTOR i Lacon, LAGOA, i Nae ure aNAERCBn nbn“ Lcons oc pOLMENTO HATURACAO) SERIE ee a 0 EE aa { ie, iss ig. 1.2. Floxograma de um sistema de lagous (anaerdbia-facultativa) seguida por lagoas de maturagdo P i ‘Sistema Quadro 1.2. Caracterfsticas dos principais sistemas de lagoas para a remogao da DBO ais anaerébia ‘tem geral item especitica Sistema de lagoas: ee Facultativa Anaerébia- ‘Aerada ‘Aerada de facuttativa fecultativa facultativa mist. completa - decantagao Eficiéncia DBO (%) 75-85 75-85 75-85 75-85 ; DQO (%) 65 - 80 66 - 80 65-80 65 - 80 ec 88 (%) 70-80 70-80 70-80 80-87 aiaiva Aménia (%) <50 <50 <30 <30 Nitrogénio (%) <60 <60 <30 <30 Fésforo (%) <35 <35 <35 <36 Coliformes (%) 90-99 90-99 90-99 90-99 Requisitos ‘rea (rmt/hab) 20-40 75-30 025-05 02-04 Poténcia (W/hab) 20 = 1,2-2,0 18-25 aon Custos Implantagao (R$/hab) 40-60 30-75 50 - 90 50-90 ooo Operagao (RS/hab.ano) 2,0—4,0 2,0-4,0 5,0-9,0 5,0-9,0 peracade. ‘Obs: outros dados comparativos estao apresentados no Volume 1 ra i: Data: 1° semestre 2002 (US$ 1,00 = RS 2,5) fapeeee decaniacao Lagoa — lagoa de maturagao Introducao 14 Lagoas de estabilizagdo 15 Deve-se destacar ainda que as lagoas podem funcionar como pés-tratamento de efluentes de reatores anaerdbios, tipo UASB (reatores anaerdbios de manta de lodo e de fluxo ascendente). Quando se objetiva uma certa melhoria na qualidade do efluente e mais a remogao de organismos patogénicos (lagoas de polimento — ver s sfio bem similares aos listados no Quadro 1.4 para as lagoas de maturagéio. Caso se adotem lagoas aeradas como pés-tratamento, 0 tempo Figura 1.3), os paramet em funco do aporte de uma menor carga organica REATOR UASB - LAGOAS DE POLIMENTO LAGOAS DE POLIMENTO (MATURAGAO) EM SERIE g 5 3 2 g 586 zs 3 = 2a = 2 ge Il ‘S G2 A og gg a8 a eo Sa EE > es Us £3 DISPOSIGAO FINAL ge BS 33 38 es Fig. 1.3. Reatores UASB seguidos por lagoas de polimento. (e1ajdwioo vimspu ep oundes ojed sepruasaidar wag ovs ove sepeammarys svo8e]) au9s ura seofey ered 9 opmmasarde 1opeA coRdeINIEUL ap svode] wyed (wyaldwoo wanystWs) yf aUEIO1}e05 (P) €-] :Seo8e] ¢ ap stew ap an9s eUN ap voRE] EpED UIE GFT O a1 {QT < torn pjnjgo ro sepeateatys ogSemIeUI ap SvOTE] wa qT OLSELax (2) epuianbas eioupioya ep 2 ode] vp orewIOy Op oBSUTY 9 oESRIMEW ap LOSE] MUN Wo OESUDIAP ap odwiar CO (@) ‘ovSeueaap ap svo8e wo opoy ap ojnt oF Op wanBUTsa TR 1x9} OW FINUALIOT 3A (P) (a) eaniney = gy “(cn) oyuotntadutos = J onxa} a4 ssonauresed sop omammeneiaq, Casip oxny) 9 eameradunay 805 201 z - LOY £o-¥0 = e0-70 = (..2) (2602) (-d81p oxny) Sy 1109 ‘weDEp J209 wr - 104 : jajGiwoo ySIw) 9 eIMBIedWIY J909 (o)z'-9'0 5 = o's-v'0 z (9,02) Cdiwoo s1w) 81 ‘Woo “weDep 809 = (2) = 20'0 - £0°0 900-00 yO'O- FOO (ouerqeu/, W) po] @p onuINoe Sp exeL : * vez o> - - (,Wuim) eougiod op epepisuaq - - vEewb zb-s0 - - (/42:59106%08%) 70 9p solpau soysinboy 7 é s'o-e'0 yo-eo ro-e'0 s (ss6wAoga5w) auanye epemoied Osa €'0- £00 - - 7 0-200 (62877) p oesiedsip ep ovewON s0-¥0 - - - (2 Z=9/7) p oesiadsip ap oxownny Lib-e'0 = * = =87) p ogsiedaip ap o1oWiNN * {osuedsip oxny) 6 BinjexedWIe} "}80, a : 5 1.02) (osvedsip oxny) OBC "We! 1 4209 : seo ‘SET ‘880° - SO'L . div0 SIL) 9 BiNyeXedL JOD = * gb-Ob 0-90 ov'o-sz'0 = (2,02) (ey@tduioo sity) OWT "WEI JOD. @ = ze vez vez eer qensn (esnBrejojuewludwios) @7 OBbEIay zi-8'0 ov-o'e ov-sz ov-sz ozs os-o8 ) H SPepIpUTYoug - 7 = 2 - Se'0-01'0 —(P',w#OBAH>) 47 eoMeuuNjon ogdeoIde ep exe] = 3 = - ose - 004 7 (P'eyFoadSy) °7 lejyiedns opSeoyde ep exe), @ a y-% OL-S Sp-Sb 9-6 J oeduajep ap oduiay_ ‘omeinjell ——ogeEp — BjaduIoo Ems Lop __Semeynoe] __—_Senpeynowy__SelaguewuIe apseoiey _spseoGey _—sepeiee stor} —_sepeieseofe] —_—_seote1 seo8e] ojeloid ep oneurereg opse: .quase ap svode] sep orafod ap sonourgzed smedioug “pT oapend, 17 Introdugao Lagoas de estabilizacao & CAPITULO 2 2. Lagoas facultativas 2.1, INTRODUGAO As lagoas facultativas sfio a variante mais simples dos sistemas de lagoas de estabilizagio. Basicamente, 0 processo consiste na retengiio dos esgotos por um perfodo de tempo longo o suficiente para que os processos naturais de estabilizagio da matéria organica se desenvolvam. As principais vantagens e desvantagens das lagoas facultativas esto associadas, portanto, A predominncia dos fendmenos na- turais. As vantagens relacionam-se & grande simplicidade ¢ a confiabilidade da opera- io. Os processos naturais sao confidveis: nao ha equipamentos que possam estra- gar ou esquemas especiais requeridos. No entanto, a natureza é lenta, necessitando de longos tempos de detengao para que as reages se completem, o que implica em grandes requisitos de érea. A atividade biolégica é grandemente afetada pela tempe- ratura, principalmente nas condigdes naturais das lagoas. Desta forma, as lagoas de estabilizago sio mais apropriadas onde a terra é barata, 0 clima favordvel, e se deseja ter um método de tratamento que nao requeira equipamentos ou uma capaci- tagdio especial dos operadores (Arceivala, 1981). Os custos das lagoas de estabilizagiio sio bastante competitivos, desde que os custos do terreno ou a necessidade de movimentos de terra no sejam excessivos. A construgdo é simples, envolvendo principalmente movimento de terra, € os custos operacionais siio bem baixos, em comparacao com outros métodos de tratamento. A eficiéncia do sistema é usualmente satisfatéria, podendo chegar a niveis comparé- veis 4 da maior parte dos tratamentos secundarios. LAGOA FACULTATIVA RESTOR yeDigno Lacoa rnovuranva 2 Fig. 2.1. Lagoa facultativa Lagoas facultativas 19 terminologia freqiientemente adotada para lagoas relaciona-se 4 sua posi- ‘série de unidades de tratamento: primeira lagoa da série — lagoa facultativa que recebe esgoto segunda lagoa da série ~ recebe efluente de uma outra lagoa a ntante, usualmente uma lagoa anaerdbia | Lagoas tercidrias, quaterndrias etc: ocupam a terceira, quarta etc posigdes na série — stio usualmente lagoas de maturagéo 2.2, DESCRICAO DO PROCESSO O esgoto afluente entra em uma extremidade da lagoa e sai na extremidade opos- ta. Ao longo desse percurso, que demora varios dias, uma série de mecanismos con- tribui para a purificacdo dos esgotos. Estes mecanismos ocorrem nas trés zonas das lagoas, denominadas: zona anaerébia, zona aerdbia e zona facultativa. ‘A matéria organica em suspensiio (DBO particulada) tende a sedimentar, vindo a constituir o lodo de fundo (zona anaerdbia). Este lodo sofre o processo de decom- posicdo por microrganismos anaerdbios, sendo convertido lentamente em gas car- bonico, égua, metano e outros. Apés um certo periodo de tempo, apenas a frago inerte (nao biodegradavel) permanece na camada de fundo. O gis sulfidrico gerado ndo causa problemas de mau cheiro, pelo fato de ser oxidado, por processos quimi- cos e bioquimicos, na camada aerébia superior. A matéria organica dissolvida (DBO soliivel), conjuntamente com a matéria or gfnica em suspenso de pequenas dimensdes (DBO finamente particulada) no se- dimenta, permanecendo dispersa na massa liquida. Na camada mais superficial, tem- se a zona aerObia. Nesta zona, a matéria organica 6 oxidada por meio da respiragao aerdbia, Hi a necessidade da presenca de oxigénio, o qual & suprido ao meio pela fotossintese realizada pelas algas. Tem-se, assim, um perfeito equilibrio entre 0 con- sumo e a produgao de oxigénio e gas carbénico: bactérias —> respiragao: * consumo de oxigénio * producio de g4s carbénico algas —> fotossintese: + produgao de oxigénio * consumo de gas carbénico Deve-se destacar que as reagGes de fotossintese (produgao de matéria orgénica) e respiracdo (oxidagio da matéria organica) sio similares, apenas com diregdes opostas: 20 Lagoas de estabilizagao * Fotosstntese: CO, + HO + Energia > Matéria organica + O2 * Respiracao: Matéria organica + O) > CO, + H;0 + Bnergia LAGOA FACULTATIVA Fig. 2.2, Esquema simplificado do funcionamento de uma lagoa facultativa Para a ocorréncia da fotossintese é necessiria uma fonte de energia luminosa, neste caso representada pelo sol. Por esta razdo, locais com elevada radiagao solar & baixa nebulosidade sio bastante propicios & implantaco de lagoas facultativas. A fotossfntese, por depender da energia solar, é mais elevada proximo a supertt- cie da lagoa. A medida em que se aprofunda na lagoa, a penetracio da luz. € menor, © que ocasiona a predomindncia do consumo de oxigénio (respiragdo) sobre a sua produgio (fotossintese), com a eventual auséncia de oxigénio dissolvido a partir de uma certa profundidade. Ademais, a fotossintese s6 ocorre durante o dia, fazendo com que durante a noite possa prevalecer a auséncia de oxigénio. Devido a estes fatos, é essencial que haja diversos grupos de bactérias, responsiiveis pela estabil- zagio da matéria organica, que possam sobreviver e proliferar, tanto na presenca, Lagoas facultativas a quanto na auséncia de oxigénio. Na auséncia de oxigénio livre, sao utilizados ou- tros receptores de elétrons, como nitratos (condigdes andxicas) e sulfatos e CO> (condigdes anaerébias). Esta zona, onde pode ocorrer a presenga ou a auséncia de oxigénio, € denominada zona facultativa. Esta condigao também da 0 nome as lago- as (lagoas facultativas). Como comentado, 0 processo de lagoas facultativas é essencialmente natural, nao necessitando de nenhum equipamento. Por esta raziio, a estabilizagiio da maté- ria orginica se processa em taxas mais lentas, implicando na necessidade de um elevado perfodo de detengao na lagoa (usualmente superior a 20 dias). A fotossinte- se, para que seja efetiva, necessita de uma elevada drea de exposigdo para o melhor aproveitamento da energia solar pelas algas, desta forma implicando na necessidade de grandes unidades. Em decorréncia, a érea total requerida pelas lagoas facultati- vas é a maior dentre todos os processos de tratamento dos esgotos (excluindo-se os processos de disposicaio sobre o solo). Por outro lado, o fato de ser um processo totalmente natural est4 associado a uma maior simplicidade operacional, fator de fundamental importincia em nosso meio. Oefluente de uma lagoa facultativa possi (CETESB, 1989): * cor verde devida as algas * elevado teor de oxigénio dissolvido « s6lidos em suspensao, embora praticamente estes nao sejam sedimentaveis (as algas praticamente niio sedimentam no teste do cone Imhoff) 's seguintes caracteristicas principais 2.3. A INFLUENCIA DAS ALGAS Numa lagoa de estabilizacdio facultativa, as algas desempenham um papel fun- damental. A sua concentragdo € mais elevada do que a de bactérias, fazendo com que © liquido na superficie da lagoa seja predominantemente verde. Em termos de sOlidos em suspensiio secos, a concentragdo é usualmente inferior a 200 mg/l, embo- ra em termos de ntimeros elas possam atingir contagens na faixa de 10* a 106 orga- nismos por ml (Arceivala, 1981). A presenga de algas é usualmente medida na forma de clorofila a, pigmento apresentado por todos os vegetais, e principal parametro para a quantificacaio da biomassa algal (Kénig, 2000). As concentragées de clorofila a.em lagoas facultativas dependem da carga aplicada ¢ da temperatura, mas usual- mente se situam na faixa de 500 a 2000 mg/l (Mara et al, 1992). Grupos de algas de importancia encontrados nas lagoas de estabilizacdo so (Mara et al, 1992; Silva Jr. e Sasson, 1993; Jordao e Pessoa, 1995): * Algas verdes (cloroficeas). Tais algas conferem a lagoa a cor esverdeada predo- minante. Os principais géneros so as Chlamydomonas, Euglenas ¢ Chlorellas. Os dois primeiros géneros so normalmente os primeiros a aparecer na lagoa, tendendo a ser dominantes nos perfodos frios, e possuindo flagelos, 0 que Ihes confere a capacidade de locomogao (otimizagao da posigiio com relag&o a inci- déncia da luz e temperatura). 22 Lagoas de estabilizagéo * Cianobactérias (anteriormente denominadas de algas cianoficeas, ou algas ver- de-azuladas). Em realidade, estes organismos apresentam caracteristicas de bacté- rias e de algas, estando atualmente classificados como bactérias. As cianobactéri- as no apresentam organelas de locomogio como cilios, flagelos ou pseudépodes, mas podem se deslocar por deslizamento. Os requisitos de nutrientes sao bastante reduzidos: as cianobactérias podem proliferar em qualquer ambiente onde haja apenas CO», No, agua, alguns minerais e luz, Estes organismos sio tipicos de situagdes com baixos valores de pH e pouco nutriente nos esgotos. Nestas condi- Ges, as algas verdes nao encontram ambiente favordvel, ou servem de alimento a outros organismos, como protozodrios, conduzindo ao desenvolvimento das cia- nobactérias, Entre os principais géneros, pode-se citar: Oscillatoria, Phormidium, Anacystis e Anabaena. Outros tipos que podem ser encontrados siio as algas dos filos Euglenophyta, Bacyllariophyta e Chrysophyta (Kénig, 2000; Mara et al, 1992). As espécies predo- minantes variam de local para local, ¢, ainda, com a posigdo na série de lagoas (lagoas facultativas e lagoas de maturagao). As algas fazem a fotossintese durante as horas do dia sujeitas & radiagaio lumino- sa. Neste periodo, elas produzem a matéria organica necesséria para sua sobrevivén- cia, convertendo a energia luminosa em energia quimica condensada na forma de alimento, Durante as 24 horas do dia elas respiram, oxidando a matéria organica produzida, e liberando a energia para crescimento, reprodugio, locomogio e outros. O balango entre produgao (fotossfntese) e consumo (respiragiio) de oxigénio favore- ce amplamente o primeiro. De fato, as algas podem produzir cerca de 15 vezes mais oxigénio do que consomem (Abdel-Razik, 1991), conduzindo a um saldo positivo no sistema. Devido a necessidade de energia luminosa, a maior quantidade de algas situa-se proximo a superficie da lagoa, local de alta produgdio de oxigénio. A medida em que se aprofunda na lagoa, a energia luminosa diminui, reduzindo, em decorréncia, a concentraciio de algas. Na camada superficial, a menos de 50 cm, situa-se a faixa de maior intensidade luminosa, com o restante da lagoa praticamente escura. Ha um ponto ao longo da profundidade da lagoa em que a produgao de oxigénio pelas algas se iguala ao consumo de oxigénio pelas préprias algas e pelos microrga- nismos decompositores. Este ponto é denominado de oxipausa (ver Figura 2.3 Lagoas facultativas 23 ALGAS, ENERGIA LUMINOSA E OXIGENIO EM FUNGAO DA PROFUNDIDADE, PROFUN- IADE Fig. 2.3. Algas, energia luminosa e oxigénio em uma lagoa facultativa (secao transversal) Acima da oxipausa predominam condigdes aerébias, enquanto abaixo desta, pre- valecem as condigdes andxicas ou anaerdbias. O nivel da oxipausa varia durante as 24 horas do dia, em funco da variabilidade da fotossintese durante este perfodo. A noite, a oxipausa se eleva na lagoa, ao passo que durante o dia ela se aprofunda, A profundidade da zona aer6bia, além de variar ao longo do dia, varia também com as condigdes de carga da lagoa, Lagoas com uma maior carga de DBO tendem a possuir uma maior camada anaerébia, que pode ser praticamente total durante a noite. A Figura 2.4 ilustra esquematicamente a influéncia das condigées de carga na espessura da camada aerébia. PROFUNDIDADE DA ZONA AEROBIA EM FUNGAO DA CARGA DE DBO dia noite Superficie dia noite da lagoa arobi aerdbia zona anaersbia Fundo da lagoa Baixacarga —_Elevada carga de DBO de DBO Fig. 24. Influéncia da carga aplicada & lagoa e da hora do dia na espessura das camadas aerobias ¢ anaerdbias (adaptado de Arceivala, 1981) 24 Lagoas de estabilizagdo O pH na lagoa também varia ao longo da profundidade e ao longo do dia, O pH depende da fotossintese e da respiragao, através da seguinte relagio: * Fotossintese: - Consumo de CO> - O fon bicarbonato (HCO;) do esgoto tende a se converter a OH - O pH se eleva * Respiragao: ~ Produgao de CO2 - 0 fon bicarbonato (HCO;) do esgoto tende a se converter a H* - O pH se reduz, Durante o dia, nas horas de maxima atividade fotossintética, o pH pode atingir valores em torno de 10. Nestas condigées de elevado pH, podem ocorrer os seguin- tes fendmenos: * Conversio da aménia ionizada (NHy*) a aménia livre (NH), a qual é téxica, mas tende a se liberar para a atmosfera (remogio de nutrientes) * Precipitagao dos fosfatos (remogao de nutrientes) * Conversio do sulfeto (HS) causador de mau cheiro a bissulfeto (HS-) inodoro 2.4, A INFLUENCIA DAS CONDICOES AMBIENTAIS As principais condig6es ambientais em uma lagoa de estabilizagiio sio a radia- cdo solar, temperatura e 0 vento, as quais sio comentadas no Quadro 2.1 (Jordao e Pessoa, 1995). Quadro 2.1. Influéncia dos principais fatores ambientais externos Fator influénoia Radlacao solar + Velocidade de fotossintese Temperatura + Velocidade de fotossintese * Taxa de decomposicao bacteriana + Solubilidade e transferéncia de gases + Condigdes de mistura Vento + Condigdes de mistura + Reaeragaio atmostérica (*) (#) mecanismo de menor importéncia no balango de OD A influéncia da temperatura e da radiagao solar na velocidade de fotossintese pode ser vista esquematicamente na Figura 2.5. Lagoas facultativas 25 \VELOGIDADE DE FOTOSSINTESE EM FUNCAO DA TEMPERATURA E DA RADIAGAO SOI \Velocidade de fotossintese (gis) Intensidade da radiagao luminosa (calim2.d) Fig. 2.5. Influéncia da temperatura e da radiagao Iuminosa na velocidade de fotossintese (adaptado de Jordao e Pessoa, 1995) a) Mistura ¢ estratificacio térmica ‘A mistura em uma lagoa de estabilizagio ocorre principalmente através dos se- guintes mecanismos: vento e diferencial de temperatura. A mistura € importante no desempenho da lagoa devido aos seguintes aspectos benéficos (Silva e Mara, 1979): * Minimizagao da ocorréncia de curtos-circuitos hidraulicos * Minimizacdio da ocorréncia de zonas estagnadas + Homogeneizacio da distribuigio no sentido vertical da DBO, algas e oxigénio Transporte para a zona fotica superficial das algas no motoras que tendem a sedimentar ‘Transporte para as camadas mais profundas do oxigénio produzido pela fotossin- tese na zona fotica Para maximizar a influéncia do vento, a lagoa néio deverd ser cercada por obsté- culos naturais ou artificiais que obstruam o acesso do vento. Da mesma forma, a lagoa nao deveré ter um contorno muito irregular, que dificulte a homogeneizacao das dreas mais periféricas com o corpo principal da lagoa. A lagoa esta ainda sujeita A estratificagdo térmica, na qual a camada superior (quente) nao se mistura com a inferior (fria). A medida em que se aprofunda na lagoa, hd um ponto em que hé um grande decréscimo na temperatura, acompanhado por um elevado acréscimo de densidade ¢ viscosidade. Este ponto é denominado termoclina. Ocorrem, assim, duas camadas distintas: a superficial (densidade me- nor) ¢ a do fundo (densidade maior), as quais nao se misturam (ver Figura 2.6). O comportamento das algas € influenciado pela estratificacdo, da seguinte forma: * As algas ndo motoras sedimentam, atingindo a zona escura da lagoa, deixando de produzir oxigénio, e implicando, pelo contrério, no consumo deste. 26 Lagoas de estabilizagdo + As algas motoras tendem a fugir da camada mais superficial (30 a 50 cm) de elevada temperatura (eventualmente 35°C), formando uma densa camada de al- gas, a qual dificulta a penetraeao da energia solar. Devido a estes aspectos, em lagoas estratificadas hé uma baixa presenga de algas na zona fética, o que reduz a produgao de oxigénio do sistema e, em conseqiléncia, a sua capacidade de estabilizar a matéria orginica. Em locais com pouco ou nenhum vento na superficie da lagoa, esta permanece estratificada. A estratificago pode ser quebrada por meio de um mecanismo de mistura natu- ral, denominado inversao térmica (ver Figura 2.6). Em lagos tropicais estratifica- dos, a inversiio térmica pode ocorrer no periodo frio (inverno). Além disso, em lagos de pequena profundidade, como as lagoas de estabilizagao, a mistura pode ocorrer uma vez. por dia, de acordo com a seguinte seqiiéncia ( Silva e Mara, 1979): * Inicio da manhd, com vento, Mistura completa. A temperatura € uniforme ao lon- go da profundidade. * Meio da manhé, com sol, sem vento. Aumento da temperatura na camada superfi- cial (acima da termoclina). A temperatura no fundo (abaixo da termoclina) varia pouco, sendo influenciada pela temperatura do solo. Estratificagao. * Inicio da noite, sem vento. A camada acima da termoclina perde calor mais rapida- mente do que a camada de fundo. Caso as temperaturas das camadas se aproxi- mem, ocorre a mistura. * Noite, com vento, O vento auxilia na mistura das camada afunda, e a inferior se eleva. . A camada superior DINAMICA DE ESTRATIFICACAO E MISTURA DE LAGOAS LAGOA COM ESTRATIFICAGAO TERMICA, (periodos mais quentes) TEMPERATURA on at == Sy anf) ms sty / temocline Sai a, LAGOA COM MISTURA - INVERSAO TERMICA (entrada do period frio) TEMPERATURA op altura attura* |_| _ mana aoc o Fig. 2.6. Estratificagdo e mistura em uma lagoa Lagoas facultativas 27 A Figura 2.7 mostra resultados experimentais (valores médios) de temperatura em uma lagoa piloto rasa (1,0 m de profundidade, com chicanas, relagio compri- mento/largura = 32), situada no Sudeste do Brasil (Itabira - MG). As medigdes fo- ram feitas nas profundidades de 0,2 m, 0,6 me 1,0 m abaixo do NA, ¢ ao longo do percurso do Iiquido na lagoa. A figura retrata dados do verio, no horario das 10 h, mostrando claramente a estratificagdo (temperaturas mais elevadas nas menores pro- fundidades, ou seja, mais préximo ao NA). Jé as 23 h, também no verdo, a lagoa apresenta-se em total mistura, Os dados do inverno nao estio apresentados, mas indicaram mistura total, tanto na manha, quanto na noite. ‘Temperatura Diurna (10 h) no Verao - Médias por Ponto e Profundidade o °) Ponto da Lagoa Temperatura Noturna (23 h) no Verao - Médias por Ponto e Profundidade © ¢) Ponto da Lagoa Fig. 2.7. Perfil longitudinal de temperatura em uma lagoa piloto com chicanas, em horérios diumo ¢ notumo, Medigées nas profundidades de 0,20m, 0,60m ¢ 1,00 m abaixo do NA. Profundidade da lagoa: 1,00 m. 28 Lagoas de estabilizagao Kelner e Pires (1998,1999) apresentam um modelo matemitico para a estimati- va da estratificagdio térmica em lagoas de estabilizacdo, e ressaltam que esta conduz a uma perda do volume wtil da lagoa, e que o volume da camada superior pode ser insuficiente para a ocorréncia das reagdes bioquimicas desejadas. b) Relago entre temperatura do ar e do liquide Em varios dimensionamentos, normalmente se considera a temperatura média do liquido no més mais frio. Yanez (1993) e Brito et al (2000) apresentam dados de correlagées entre temperatura do ar e do liquido, em duas lagoas no Brasil, duas no Peru e uma na Jordania. As tegressGes sfio apresentadas na Figura 2.8. A figura apresenta também a reta dos valores médios, calculada pelo autor, cuja equacio é: Tagua = 12,7 + 0,54xT @Q. CORRELAGOES ENTRE TEMPERATURA DO ARE DA AGUA Tagua (oc) 25.0 Tar (oC) Fig. 2.8 Retas de melhor ajuste em regressdes entre temperatura da gua e do ar em cinco lagoas. Dados de Yanez (1993) e Brito et al (2000). Curva média calculada pelo autor, Aplicando-se a Equacéo 2.1 para distintos valores da temperatura do ar, tem-se os valores da temperatura da Agua apresentados no Quadro 2.2. Os valores obtidos na faixa de 20 a 30 °C estdo de acordo com o comentério de Mara et al (1997), de que a temperatura da lagoa € cerca de 2 a 3 °C mais quente do que a temperatura do ar no periodo frio, ocorrendo o inverso no perfodo quente. Uma interpretagao adici- onal dos dados de Yanez (1993) permite concluir que a temperatura na superficie da lagoa é de 1a 5 °C mais elevada do que a temperatura média, com as maiores dife- rengas ocorrendo no periodo quente. Lagoas facultativas 29 Quadro 2.2. Temperatura da dgua na lagoa, em fungdo da temperatura do ar fas Temperatura do ar “Temperatura do liquide média (°C) E eo) 15 20.8 20 23,5 25 26,2 30 28.9 35 31,6 Estimativa da temperatura do liquide usando a Equagio 2.1 2.5. CRITERIOS DE PROJETO Os principais parametros de projeto das lagoas facultativas sao: * Taxa de aplicagdo superficial * Profundidade * Tempo de detengao * Geometria (relacdo comprimento / largura) Taxa de aplicacao superficial. O critério da taxa de aplicacdo superficial (car- ga orgdnica por unidade de drea) é o principal item de projeto, ¢ baseia-se na neces- sidade de se ter uma determinada area de exposico & luz solar na lagoa, para que o processo de fotossintese ocorra. O objetivo de se garantir a fotossintese e, indireta- mente, 0 crescimento de algas, é o de se ter uma produgio de oxigénio suficiente para suprir a demanda de oxigénio. Assim, o critério da taxa de aplicagio superficial & baseado na necessidade de oxigénio para a estabilizagdio da matéria organica. A taxa de aplicagao superficial relaciona-se, portanto, 2 atividade das algas e ao balan- 0 entre produgiio ¢ consumo de oxigénio. Profundidade. A profundidade tem influéncia em aspectos fisicos, biolégicos e hidrodinamicos da lagoa. Apés a. obtengio do valor da rea superficial (através da adocdo de um valor para a taxa de aplicagio superficial) e da adogao da profundida- de, obtém-se 0 volume da lagoa. ‘Tempo de detencao. O tempo de detencdo nao é um pardmetro direto de projeto, mas um pardmetro de verificagao (resultante da determinagao do volume da lagoa). © ctitério do tempo de deteneao diz respeito ao tempo necessario para que os mi- crorganismos procedam a estabilizagéio da matéria organica no reator (lagoa). O tempo de detengao relaciona-se, portanto, & atividade das bactérias. Geometria da lagoa, A relagdo comprimento/largura (L/B) é um outro impor- tante critério, por influenciar o regime hidréulico da lagoa, o qual pode ser projetado para se aproximar a condigdes de fluxo em pistiio ou mistura completa. Os pardmetros de projeto so basicamente empiricos. Para a taxa de aplicagdo superficial, existem alguns modelos matemiaticos que permitem projetar as lagoas facultativas com base em métodos conceituais, como produgiio de algas em fungao 30 Lagoas de estabilizagéio da radiagao solar, produgao de oxigénio por unidade de massa de alga ¢ outros, No entanto, tais métodos fogem ao escopo do presente texto, de abordagem essencial- mente simplificada. Além disso, os métodos empiticos tém sido tradicionalmente utilizados, baseados na experiéncia adquirida em diversas regides do mundo, a) Taxa de aplicagao superficial A firea requerida para a lagoa é calculada em fungo da taxa de aplicagio super- ficial Ls. A taxa € expressa em termos da carga de DBO (L, expressa em kgDBOs/d) que pode ser tratada por unidade de drea da lagoa (A, expressa em ha) A=LA, (2.2) rea requerida para a lagoa (ha) carga de DBO total (solivel + particulada) afluente (kgDBOs/d) Ly = taxa de aplicago superficial (kgDBOs/ha.d) A taxa a ser adotada varia com a temperatura local, latitude, exposigdo solar, altitude © outros. Locais com clima e insolagdo extremamente favordveis, como 0 nordeste do Brasil, permitem a adogio de taxas bem elevadas, eventualmente supe- riores a 300 kgDBOs/ha.d, 0 que implica em menores éreas superficiais da lagoa. Por outro lado, locais de clima temperado requerem taxas de aplicagao inferiores a 100 kgDBOs/ha.d. Em nosso meio, tem-se adotado taxas variando de: * Regides com inverno quente e elevada insolagao: L, = 240 a 350 kgDBOs/ha.d * Regiées com invemo e insolagdo moderados: _L, = 120 a 240 kgDBOs/ha.d + Regides com inyerno frio e baixa insolagio: L, = 100.a 180 kgDBOs/ha.d Ha diversas equagdes empiricas disponiveis na literatura internacional, correla- cionando a taxa de aplicago superficial L, e a temperatura T. Apresenta-se a seguir uma equagio proposta por Mara (1997) que, segundo ele, possui aplicabilidade glo- bal. A equagao utiliza a temperatura média do ar no més mais frio. A justificativa de se utilizar a temperatura média do ar é que, no periodo frio, esté-se a favor da seguranga, ja que a temperatura da 4gua estard um pouco mais elevada. A selec’io do periodo frio & que este é 0 mais critico, no funcionamento da lagoa, em termos das velocidades das reagGes bioqufmicas. Nos dimensionamentos de lagoas facultativas constantes deste livro, adota-se a temperatura média do liquido no més mais frio (para efeito de célculo das taxas de remogdo de DBO), mas assume-se, para efeito da estimativa da taxa de aplicagdo superficial, este posicionamento a favor da seguran- ¢a proposto por Mara (considerar a temperatura do ar igual & temperatura do liqui- do). O Item 2.4.b discute a relagio entre a temperatura da Agua e do ar. Lagoas facultativas 31 25) 50 x (1,107 - 0,002xT) onde: = A aplicagiio da Equagio 2.3 conduz aos 2,9. Apesar da equacio condi temperaturas (acima de 25°C), recomenda-se ae, (2.3) temperatura média do ar no més mais frio (CC) valores de Ly apresentados na Figura uzir a valores bastante elevados quando se tém altas para efeito de projeto, a carga maxima admissivel seja de 350 kgDBO/ha.d. ‘Taxa de aplicagdo superficial em fungao da ‘temperatura Ls (kgDBO/ha.4) 4) 16 | 18 tes 152 19° 217 Fig, 2: (segundo Equacio 2.3, de Mara, 1997) Para a utilis média do ar em julho obtidos do site do equacao a estes dados resulta na dondados, e limitados ao yalor maximo de 3: mostrado que, no nordeste do podem ser um pouco superiores amaz6nica, devido a grande pluvios aplicagio deva ser um pouco menor Naturalmente que a ul sativa inicial da taxa de aplicagio superficial. Como ¢ @ncias locais, bem como outras evidéncias outros valores, deve-se sempre Valores da taxa de aplicago superficial em fune 20 22 24 | 26 950 | 250 263 291 981 350 | T (oC) Jo da temperatura média do ar no més mais fio io da Equagdo 2.3 no Brasil, pode-se usar 08 dados de temperatura INMET (www:inmet.gov-br). A aplicacao da Figura 2.10. Os valores de L, sao apresentados arre- 50 kgDBOs/ha.d. A experiéncia local tem. Brasil, em fungio da grande radiagdo solar, 0s valores aoe da figura. Também ¢ provavel que, ma regio jdlade e menor tempo de exposieo solar, a taxa de do que a estimada simplesmente pela temperatura. tilizagao de uma formula empfrica é apenas pafa uma esti- omentado, caso haja experi- climatoldgicas, que sugiram a adogdo de evar em consideragio estas especificidades a0 se cetecionar o valor de Ls. O referido site do INMET apresent dados e mapas de precipitagdio, evaporagdo, insolagdo e outros, OS quais podem ser titeis na avaliacio de fatores regionais, além da simples temperatura. 32 Lagoas de estabilizagao TEMPERATURAS MEDIAS NO ME: s ETAXAS DE APLIGAGAO SUPERFICIAL (eagundo equagie de Mara) A 2427 0¢ _ 380 a 380 kaDBO/ha.6 Ton oD... P m4) tBaztoc = er F220.0270 kgDbOmnad i |r j 24.24.00 270 330 kgDBOthad warroc — 20 8.270 kgDBOMed 18a 1800 Te troazzoxgosomaa {| 1241506 ZL AY mand tadtones ae 1201500 x 9.1200 120a170kgDBOmad — [90.4 120 kgDBOMha.d Fonte: INMET (médias de 1931 a 1990) Fig. 2.10, Taxas de aplicagai ra So da temperatura mé fs as de aplicagio superticiais no Bi pe dia do ar no més mais ir sil, em fungo da temperat ‘io, tendo por base a equago de Mara (Gquagao 3) 7 ‘ nemesis Nao hé um valor méximo absoluto de area, a parti si , rare : aut di i ae ese inviel No Brasil, hd um acd de ec eee iD ha Na Argentina © A in ha sistemas com mais de 300 ha. A desejabiidad d 7 an ee aento mais compactos, no caso de se necessitar de rate Teghis, dpente epsencsimants das condiges locais, da topografia, da songs Soe eee rte do Projeto de Norma para Lagoas (1991) teeta que @ rea de uma lagoe facultativa ndo seja superior a 15 ha, Nesta: sige, f em um maior numero de lagoas. ee b) Profundidade Como visto, a zona i sto, a zona aerdbia da lagoa facul jg como : agoa facultativa depende da di lapatiee a a atividade fotossintética. A intensidade da Th ines cate se 7 f le a se extinguir exponenci i sta penetns ao epectaea ead ponencialmente & medida que pengede a Cte on Tal fenémeno ocorre mesmo na Agua esata torn fm agile nantc reson a eon tucbidex da fia 8 pitptia condentracto de : as s . pit lamente a luz se extingue. Abaixo de uma cad vrohnilinte ae oe ° i iente é impréprio para o crescimento de algas. ae ‘om base nos critéri r , nos critérios de drea e volume discutidos acima, a profundidade H d , lade H da Lagoas facultativas 33 Jagoa é um compromisso entre o volume requerido V ¢ a drea requerida A, conside- rando-se que H=V/A. No entanto, outros aspectos influem na selecao da profundi- dade da lagoa (Arceivala, 1981), como listado no Quadro 2.3. Quadro 2.3. Aspectos relacionados & profundidade da lagoa Profundidatie Aspacto Rasa ‘As lagoas rasas, com protundidades inferiores a 1,0 m, podem se comportar como totalmente aerébias. © Aarea requerida é bem elevada, de forma a cumprir com o requisito do tempo de detencéo. * Apenetragsio da luz ao longo da profundidade 6 praticamente total (a energla luminosa tende a se extinguir com a profundidade, mesmo em aguas limpidas). * — Aprodugao de algas é maximizada e o pH é usualmente elevado (devido a fotossintese), acarretanco a precipitagao do fostatos © a dessorgao de aménia (romogao de nuttientes), '® Devido & baixa profundidade, pode haver o desenvolvimento de uma vegetacao emergente, potencial abrigo para larvas de mosquitos (lagoas com profundidade fem tomo de 0,60 m ou menos). © As lagoas rases S40 mais afeiadas pelas variagdes da temperatura ambiente a0 longo do dia, podendo atingir condigdes anaerdbias em periodos quentes (aumenio da taxa de decomposigéo da matéria organica ¢ maior influéncia da _ Tessolubilizagao de subprodutos da decomposigao anaerdbla no lodo de fundo). Profunda —* — Lagoas com profundidades mais elevadas possibilitam um maior tempo de detengdo para a estabilizacdo da matéria organica. © Aperformance da lagoa é mais estavel ¢ menos afetada petas condigdes ambien- {ais, produzindo um efluente com uma qualidade mais uniforme ao longo do ano. ‘© H&.um maior volume de armazenamento do lodo. * Acamada inferior permanece em condigdes anaerdbias, nas quais a taxa de remogao da DBO e de mortandade de patégenos é mais reduzida, © Addecomposigao anaorébia obviamente néio consome o oxigénio dissolvido no ‘meio, Assim, no célculo do balango de OD, pode-se levar em consideragéo a fracdo da matéria organica sujeita & decomposigéo anaerébia, Usuaimente, por uma questo de seguranca, considera-se a DBO total afluente como vindo a exercer a demanda de oxigénio, ¢ para tanto a produgao fotossintética nas camadas superiores deve ser suficiente, © Os subprodutos da decomposigao anaerdbia sido liberados para as camadas superiores, exercendo ainda alguma domanda de oxigénio. Os riscos de mau cheiro so reduzidos, pelo fato da camada aerSbia oxidar quimica © bioquimicamente o gés sulfidrico gerado na decomposigao anaersbia. * Alagoas mais profundas pormitem a expansao futura para a incluso de aeradores, transformando-se em lagoas aeradas. Em conclusio, 0 conhecimento dispontvel € ainda limitado para se otimizar a profundidade da lagoa, de forma a obter o maior ntimero de beneficios. A faixa de profundidades a serem adotadas no projeto situa-se entre 1,5 a 3,0 m, embora a seguinte faixa seja mais usual: H=15ma20m uM Lagoas de estabilizagéo ¢) Tempo de detencaio O tempo de detencio da lagoa esta associado ao volume ¢ & vazio de projeto: t=V/Q (2.4) onde: t tempo de detengio (d) V_ = volume da lagoa (m*) Q = vazio média afluente (m°/d) A vazao média é a média entre a vazao afluente e a vaziio efluente. A vazio efluente corresponde & vazio afluente menos as perdas mais ganhos: Qunsia = (Qa ~ Qen)/2 (2.5) Qen = Quit + QAprecipitagdo ~ Qevaporagio ~ Qintttagio (2.6) Na maior parte das vezes os componentes adicionais na Equagio 2.6 podem ser desprezados. Por exemplo, em um local onde a precipitaciio anual média seja 1000 mm/ano € a evaporagao seja 2000 mm/ano, a vazio afluente seja 3.000 m3/d (1.095.000 mano) e a dea superficial da lagoa seja 48.000 m? (vaziio e area do Exemplo 2.3), tem-se (desprezando a infiltracio): Qen = 1.095.000 m%/ano + 1,0 m/ano x 48.000 m? — 2,0 m/ano x 48.000 m 1.095.000 + 48.000 — 96.000 = 1.047.000 m3/ano Neste caso, a perda anual € de apenas 4,4% da vazio afluente. No entanto, de- pendendo das circunstancias, em determinados meses secos poderd niio haver preci- pitacdo, a0 mesmo tempo em que se tem uma apreciavel evaporagao. Nestes casos, 0 balango hidrico poderd ser afetado, e a perda (ou eventual ganho, numa situacio oposta) pode ser mais significativa, tempo de detengao requerido para a oxidagao da matéria organica varia com as condig6es locais, notadamente a temperatura. Em lagoas facultativas primarias tratando esgotos domésticos tem-se, usualmente, tempos de detengdo variando t=15a45 dias Lagoas facultativas 35 Os menores tempos de detengiio ocorrem em regides em que a temperatura do liquido 6 mais elevada, alcancando-se com isso uma reduciio no volume requerido para a lagoa. Além disso, 0 tempo de detengiio requerido & fung&io da cinética da remogio da DBO e do regime hidraulico da lagoa (ver Item 2.6.1). Em locais com esgotos concentrados (baixa vaziio per capita de esgotos e alta concentragiio de DBO), ‘© tempo de detengao tende a ser elevado. No caso de Aguas residudrias altamente concentradas, 0 tempo de detengao é usualmente muito maior, uma vez que a area (e, indiretamente, o volume) foi calcu- Jada com base na carga organica, ¢ néio em vaziio (a qual é comparativamente baixa, para uma dada carga de DBO). O fator determinante, no caso de efluentes industri- ais, continua sendo a taxa de aplicacao organica. Os critérios de taxa de aplicagdo superficial e de tempo de detengdo so comple- mentares, ou seja, a Area e o volume obtidos devem ser coerentes. O tempo de deten- go pode ser utilizado de uma das seguintes duas formas: * Adotar t como um pardmetro explicito de projeto. Apés ter sido adotado t, calcu- la-se V (V =t.Q). Como a rea A jé foi determinada com base no critério da taxa de aplicagao, pode-se calcular H (H = V/A), e verificar se este encontra-se dentro da faixa apresentada no Item b. + Adotar um valor para a profundidade H, segundo os critérios do Item b. Tendo-se He A, calcula-se 0 volume V (V=A.H) e, em decorréncia, 0 tempo de detengao t (t= V/Q). Com o valor de t, estima-se a concentragio efluente de DBO (ver Item 2.6). Caso a concentragdio efluente nao satisfaca os requisitos, deve-se aumentar o volume, ou seja, 0 tempo de detengiio. O segundo critério € mais pratico, por adotar valores objetivos para a area super- ficial e a profundidade. O Exemplo 2.3 mostra a interpretagao conjunta destes dois critérios. d) Geometria da lagoa (relaciio.comprimento / largura) Como discutido no Item 2.6.1 a seguir, o regime hidrdulico de fluxo em pistao é © mais eficiente em termos de remogio de compostos que seguem a cinética de primeira ordem, como a matéria organica. No entanto, o regime de mistura completa é mais indicado quando se tem despejos sujeitos a uma grande variabilidade de cargas ¢ & presenga de compostos téxicos, pelo fato do reator de mistura completa prover uma imediata diluicdo do afluente no corpo d’Agua. Os sistemas de fluxo em pisto estao também sujeitos a uma elevada demanda de oxigénio préximo a entrada na lagoa, em virtude de se ter o esgoto bruto, sem diluigdo no corpo do reator, Neste local poderiio ocorrer condigSes anaerébias. Por esta tiltima razio, tem-se que: 36 Lagoas de estabilizagéo * lagoas facultativas primdrias: usualmente n&o sao projetadas aproximando-se de reatores de fluxo em pistio (elevada relago comprimento/largura) com a introdugiio de chicanas * lagoas de maturagao ou de polimento, apés reatores UASB: ap6s a remogao prévia de grande parte da matéria organica, h4 menos preocupagées com sobre- carga nos trechos iniciais, e as lagoas podem ser alongadas ou com chicanas. O projeto das lagoas poderd fazer um aproveitamento do terreno disponivel ¢ da sua topografia para se obter a relagio mais adequada do comprimento/largura (L/B). Sistemas com L/B elevado tendem ao fluxo em pistdo, enquanto lagoas com L/B proximo a 1,0 (lagoas quadradas) tendem ao regime de mistura completa. Mais fre- qiientemente, a relagdo L/B das lagoas facultativas se situa na seguinte faixa (EPA, 1983; Abdel-Razik, 1991): Relacaio comprimento / largura (L/B) = 2 a 4 2.6. ESTIMATIVA DA CONCENTRACAO EFLUENTE DE DBO. 2.6.1. A influéncia do regime hidraulico A remogio da DBO processa-se segundo uma reagéto de primeira ordem (na qual a taxa de reagao é diretamente proporcional & concentragiio do substrato). Nestas con- dig6es, o regime hidréulico do reator (lagoa) influencia a eficiéncia do Muito embora a cinética da remogao da DBO seja a mesma nos diferentes regi- mes hidréulicos, a concentragao efluente de DBO varia. Segundo a cinética de pri- meira ordem, a taxa de remocdo de DBO é tanto mais elevada quanto maior for a concentrag’io de DBO no meio. Este aspecto tem grande implicagio na performance do reator, como visto a segui + Reatores de fluxo em pistiio. Em reatores nos quais se tem uma maior concentra- ¢o de DBO (por exemplo, préximo & entrada), a taxa de remogio serd mais eleva- da neste ponto. Tal 0 caso, por exemplo, dos reatores de fluxo em pistdo, predo- minantemente longitudinais (a concentragdo proximo A entrada do reator é dife- rente da concentracao na safda). * Reatores de mistura completa. Reatores que, através de uma homogeneizagio em todo o tanque, possibilitam uma imediata dispersao do poluente, fazendo com que a sua concentragao seja logo igualada A baixa concentragao efluente, apresen- tam uma menor eficiéncia na remogao da DBO. Este é 0 caso dos reatores de mistura completa, predominantemente quadrados (a concentragao no reator, pré- ximo a entrada, é igual A concentracao na safda). Estes dois tipos de reatores idealizados caracterizam os limites, dentro dos quais, na pratica, todos os reatores se enquadram. No tratamento de esgotos por lagoas de estabilizacdo podem-se destacar os modelos hidréulicos descritos no Quadro 2.4, Lagoas facultativas 37 Quadro 2.4. Caracterfsticas dos modelos hidrdulicos mais freqiientemente utilizados no di mensionamento ¢ avaliagao de desempenho das lagoas de estabilizagio Modelo Esquema do Reator Caracteristicas Hidrautico ‘As particulas de fluido entram continuamente em uma extremidade do tanque, passam através do mesmo € sé0 descarregadas na outra extremidade, na mesma seguéncia em que entraram. O fluxo se processa como lum émbolo, sem misturas longitudinais. As particulas mantém a sua identidade © permanecem no tanque por tum period igual ao tempo de detengae hidréulico. Este tipo de fluxo 6 reproduzido em tanques longos, com uma elevada relagdo comprimento/largura, na qual a dispersao longitudinal é minima, Estes reatores sao ‘também denominados tubulares. Os reatores de fluxo em pistdo sao reatores idealizados, uma vez que 6 bastante dificil se obter na pratica a auséncia total de disperséo longitudinal ‘As particulas que entram no tanque sao imadiatamente ddispersas em todo 0 corpo do reator. O fluxo de entrada saida é continuo. As particulas deixam o tanque em roporgéo a sua distibuigo estatistica. A mistura completa pode ser obtida em tanques circulares ou ‘quadrados se 0 contatido do tanque for continua e tuniformemente distribuldo. Os reatores de mistura completa so reatores idealizados, jd que é difcil de se obter na prética uma dispersao total em todo o volume. do teator. (Os reatores de mistura completa em série sao usados Reatores ara modelar o regime hidréulico que existe entre os de Ey 5 Tegimes ideais de fluxo em pistao e mistura completa. Se istura TEE TERE Seto for composta de uma unidade apenas, osistoma completa reproduz um reator de mistura completa. Se 0 sistema em série apresentar um numero infinito de reatores em série, 0 ‘luxo em pistéo 6 reproduzido. O fluxo de entrada e saida 6 continuo, Unidades em série sdo também comumente encontradas em lagoas de estabilizacao & de maturagéo. O fuxo disperso ou arbitrario é obtido em um sistema qualquer com um grau de mistura intermediario entre os dois extremos de fluxo em pistéo © mistura completa, Na realidade, a maior parte dos reatores apresenta fluxo disperso. Devido & maior diculdade na sua modelagem, ‘80 frequentemente feitas aproximagdes para um dos ‘modelos hidréulicos ideals. O fluxo de entrada e saida é continuo. Fluxo em pistio Mistura completa Fluxo disperse A eficiéncia do sistema na remogio de poluentes modelados pela reaciio de pri- meira ordem (ex: DBO e coliformes) segue a ordem apresentada abaixo: = lagoa de fluxo em pistéo maior eficiéncia - série de lagoas de mistura completa g * lagoa tinice mi: » 1g ica de mistura completa meHORehGencia. 38 Lagoas de estabilizacao regime de fluxo disperso nio foi enquadrado no esquema acima, por poder representar bem reatores que se aproximam, tanto de fluxo em pistiio, quanto de mistura completa (ver Item 2.6.4). A Figura 2.1] ilustra 0 comportamento da concentragiio de DBO em lagoas se~ gundo os regimes de fluxo em pistio e mistura completa, assumindo-se uma reagio de remog%o de primeira ordem. Um maior detalhamento deste importante t6pico pode ser encontrado no Capitulo 2 do Volume 2 da presente série, REMOCAO DA DBO SEGUNDO UMA REAGAO DE PRIMEIRA ORDEM ESTADO ESTACIONARIO FLUXO EM PISTAO r Se Se i Se , Concentragao afluente Concentracao efluente Concentracao ao ao longo do tempo a0 longo do tempo longo do reator (em um dado tempo) x a so |_—___ so | se80.0°K : = , ‘empo ‘dtncia MISTURA COMPLETA ae $9, se se|—S29-» Concentragao afluente Concentragao efluente Concentragéo ao ao longo do tempo. ‘ao longo do tempo longo do reator (em um dado tempo) a rs Pe so 80 Se=Sol(14K1) Sol se — se __ > > Cc > ‘eno ‘ope dtstncta Fig. 2.11. Remogo da DBO segundo a cinética de primeira ordem em reatores de fluxo em pistio € mistura completa (Sy = concentrago de DBO total afluente; § = concentragdo de DBO sokivel em um determinado ponto ou tempo; S, = concentragio de DBO solivel efluente; t = tempo; d = horizontal de percurso ao longo do reator; v = velocidade horizontal) Lagoas facultativas 0 Quadro 2.5 apresenta as férmulas para a determinagiio da concentragiio eflu- ite de DBO soltivel nos diversos regimes hidrdulicos. Quadro 2.5. Formulas para o célculo da concentragdo efluente $ (DBO soliivel) Eqquana Formula da Concentragao de OBOs |) 4 ico Soliivel Efiuente (8) Fluxo em pistéo s=Sye™* So Mistura completa _ 2s, = (1 célula) a aad age Si Mistura compteta ‘_— (os lute . 14K4)0 (ces co” _ a a oR) tae!™4 Fluxo disperso aa tape’ — (ayer : 1+4 So concentragao de DBO total afluente (mg/l) S = concentrago de DBO soliivel efluente (mg/l) K_ = coeficiente de remogio de DBO (a7!) t tempo de detengfio total (d) n= niimero de lagoas em série (-) d= ntimero de dispersio (dimensional) 2.6.2. DBO efluente soliivel e particulada Deve-se notar que, no Quadro 2.5, § é a DBO efluente solivel. A DBO afluente S, € admitida como a DBO total (soltivel + particulada), devido ao fato dos sélidos em suspensio organicos, responsdveis pela DBO particulada, serem convertidos em sdlidos dissolvidos, através de enzimas langadas ao meio pelas proprias bactérias. As bactérias assimilam, portanto, a DBO soltivel original dos esgotos (assimilacaio répida) ¢ a DBO particulada (aps conversfio a DBO soltivel). Assim, em principio, toda a DBO (soltivel + particulada) estaria disponivel para as bactérias. No entanto, a DBO total do efluente é causada por duas fontes: (a) DBO remanescente do esgo- to bruto apés tratamento (DBO soltivel) e (b) DBO causada pelos s6lidos em sus- pensio no efluente (DBO particulada). Os s6lidos em suspensao no efluente das Iagoas facultativas so predominantemente algas, que poderio ou nao exercer algu- 40 Lagoas de estabilizagdo ma demanda de oxigénio no corpo receptor, dependendo das suas condigbes de so- brevivéncia no mesmo. Os seguintes comentérios podem ser feitos (Arceivala, 1981; Abdel-Razik, 1991; Mara et al, 1997): * Caso as algas morram, a estabilizagdo da fracio orgénica de sua massa celular consumiré oxigénio. Se as algas forem consumidas pelo zooplancton e entrarem na cadeia alimentar, pode ser vantajoso, no caso de se ter uma ambiente mais produtivo, por exemplo, para piscicultura. Se as algas continuarem a se multiplicar, elas poderio causar 0 efeito benéfico de produgio de oxigénio. As algas realizam tanto fotossintese quanto respirag%o, mas a quantidade de oxigénio produzido pela fotossintese durante as horas do dia com luz solar é da ordem de 15 vezes mais que a consumida pela respiragdo durante as 24 horas do dia. Caso 0 efluente seja usado para irrigagio, as algas podem ser também benéficas. As cianobactérias contribuem para a fixagdio do nitrogénio, ¢ outras algas, quando mortas, liberam lentamente nutrientes, posteriormente utilizados pelas plantas, além de aumentarem a matéria orginica no solo, aumentando sua capacidade de retengdio de agua. No entanto, concentragdes excessivas de algas podem afetar a porosidade do solo. Segundo Mara (1995), os sélidos em suspensdo de lagoas facultativas sio em torno de 60 a 90% algas. Cada 1 mg de algas gera uma DBOs em torno de 0,45 mg. Desta forma, 1 mg/l de sélidos em suspensao no efluente & capaz de gerar uma DBOs (no teste da DBO, e nfo necessariamente no corpo receptor) na faixa de 0,6x0,45 ~ 0,3 mg/l a 0,9x0.45 ~ 0,4 mg/l. 1 mg SS/l = 0,3 a 0,4 mgDBOs/I Dados de monitoramento em algumas lagoas na regidio Sudeste do Brasil condu- ziram aos seguintes valores, expressos em termos de DQO: 1 mg SS/ = 1,0 a 1,5 mgDQO/ Devido a incerteza quanto a estes aspectos relacionados a sobrevivéncia das algas, uma abordagem pritica pode ser a de se desconsiderar a DBO das algas, ou dos s6lidos em suspensio, no efluente das lagoas facultativas. Assim, a DBO efluente das lagoas facultativas pode ser considerada como sendo apenas a DBO soliivel. De fato, a Comunidade Européia estabeleceu, em 1991, os seguintes padroes para efluentes de lagoas de estabilizaciio (Council of the European Com- munities, 1991): Lagoas facultativas 41